Deixa lá
Más novas
A
Some Hope
Mother’s Milk
At Last
Edward
St Aubyn
Nada nos pode preparar para a comédia rica e
acerba do mundo de St Aubyn ou para a sua densidade filosófica.
Zadie Smith
Dirão que St Aubyn é um classicista mas a verdade é que é moderno. Escreve é muitíssimo bem.
É capaz da maior frieza e da maior empatia. Tem
um sentido de humor monumental, no verdadeiro
sentido da palavra. É um gozão e um gozador; um
tarado e um observador.
Miguel Esteves Cardoso, Público
Os romances sobre a família Melrose são uma obra-prima do século xxi, escrita por um dos nossos
maiores prosadores.
Alice Sebold
Más novas
Edward
St Aubyn
St Aubyn transmite o caos das emoções, a confusão de sensações demasiado vívidas e as flagrantes contradições do esforço intelectual, e fá-lo
com uma força e subtileza que surtem um efeito
libertador, quase terapêutico.
Francis Wyndham, New York Review of Books
Talvez o mais brilhante romancista inglês da sua
geração.
Alan Hollinghurst
VIVA EDWARD ST AUBYN!
MIGUEL ESTEVES CARDOSO
nasceu em Londres, em 1960, e estudou Literatura Inglesa em Oxford. Os cinco romances
sobre Patrick Melrose foram premiados, aclamados pela crítica e pelos pares, e culminaram
na consagração internacional do autor.
A FAMÍLIA MELROSE
T radu ç ã o de D a n iel J o n as
Uma verve fulgurante e cáustica. Talvez a própria
vivacidade da prosa – a sua concisão lapidar
e segurança moral – represente a cura que as
personagens procuram. Uma prosa tão bem
escrita é em si mesma uma forma de sanidade.
Edmund White, The Guardian
A prosa de St Aubyn tem um charme espontâneo
que mascara um intelecto feroz e inquiridor. Um
dos melhores escritores da sua geração.
The Times
Edward St Aubyn
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Más novas
St Aubyn observa uma família inteira ao microscópio e desvela todas as suas dolorosas e inevitáveis complexidades. A um tempo épicos e íntimos,
chocantes e cómicos, os romances são, todos eles,
obras-primas.
Maggie O’Farrel
Patrick, agora com vinte e dois anos, recebe más notícias:
o pai morreu, e ele terá de voar até Nova Iorque para recolher as suas cinzas. Aí chegado, gasta dinheiro a rodos num
festim de drogas e bebida, na tentativa de silenciar o
bizarro circo de feras em que se tornou a sua mente.
Deixa lá
Um dos mais proeminentes autores da sua geração.
Will Self
EDWARD St Aubyn
Deixa lá
Neste volume publicam-se os dois primeiros livros de um
quinteto, escrito entre 1996 e 2012, que segue a vida de
Patrick Melrose. Em Deixa lá, Patrick é o filho de cinco anos,
frágil e filosófico, de um pai brutal e uma mãe omissa. Reunida numa casa na Provença, a aristocrática família aguarda
a chegada de visitas.
© Timothy Allen
www.sextanteeditora.pt
07182.10
9 789720 071828
ISBN 978-972-0-07182-8
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A VERVE DE WILDE, A LEVEZA DE WODEHOUSE E A ACRIMÓNIA DE WAUGH.
BRILHANTE!
ZADIE SMITH
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DEIXA LÁ
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Para a Ana
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Às sete horas e meia da manhã, trazendo a roupa que havia
passado a ferro na noite anterior, Yvette estava de regresso a casa.
A sua sandália ia percutindo uma toada surda à medida que cerrava os dedos do pé para a segurar, e a correia rompida obrigava-a
a um andar escapadiço sobre o chão sulcado e pedregoso. Do outro
lado do muro, sob a linha de ciprestes pontuando ao longo da
estrada, viu o médico no jardim. No seu roupão azul, e já com óculos de sol, embora fosse ainda demasiado cedo para que o Sol de
setembro se viesse alcandorar sobre a montanha calcária, ele dirigia um decidido fluxo de água desde a mangueira que segurava na
mão esquerda até à coluna de formigas movendo-se apressadamente através do saibro sob os seus pés. A sua técnica era experimentada: deixaria as sobreviventes fazendo pela vida sobre a pedra
molhada, recuperando por um momento a sua dignidade, antes de
trazer novamente o dilúvio sobre elas. Com a mão livre tirou o charuto
da boca, deixando uma nuvem de fumo subir-lhe aos caracóis castanhos e cinzentos na sua fronte. A seguir asfixiou o jato de água com
o polegar de modo a metralhar mais energicamente uma formiga a
que determinara um fim certo e inapelável.
Yvette teria apenas de passar a figueira e esgueirar-se para
dentro da casa sem que o Dr. Melrose desse pela sua chegada.
O costume deste, no entanto, era chamá-la sem levantar o olhar do
chão assim que julgasse havê-la vislumbrado atrás da árvore.
No dia anterior falara-lhe um bom bocado, o suficiente para lhe
exaurir os braços, não o suficiente, contudo, para lhes fazer capitular a roupa. Ele media as coisas com muita precisão. Começara por
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lhe pedir opinião sobre o mistral, com exagerado respeito pelo seu
conhecimento nativo da Provença. No momento em que lhe mostrou
suficiente simpatia a ponto de lhe perguntar pelo emprego do filho
no estaleiro, a dor alastrara-se já aos ombros e começava a fazer incursões agudas ao pescoço. Estava determinada em fazer-lhe frente,
até mesmo quando ele a inquiria sobre as dores lombares do marido
e se era caso para o deixarem arredado do trator durante as colheitas.
Hoje não lhe atirara o «Bonjour, chère Yvette» que sempre inaugurava estas solícitas cavaqueiras matinais, e ela procurava curvar-se
sob os ramos baixos da figueira para chegar à casa.
O château, como Yvette chamava ao que os Melroses apelidavam de velha herdade, fora edificado numa inclinação de terreno,
pelo que a estrada de acesso estava nivelada com o primeiro andar da
casa. Um grande lanço de degraus conduzia um lado da casa a um
terraço em frente à sala de visitas.
Novo lanço contornava o outro lado da casa até uma pequena
capela devotada ao abrigo dos baldes do lixo. No inverno, a água
gorgolejava ladeira abaixo através de um conjunto de charcos, mas a
calha que corria atrás da figueira estava muda nesta altura do ano,
obstruída com figos esmagados e partidos que manchavam o lugar
onde caíam.
Yvette dirigiu-se à sala escura de cima e pousou a roupa da
lavandaria. Acendeu a luz e começou a separar as toalhas dos lençóis e os lençóis das toalhas de mesa. Havia dez armários apinhados até ao topo com roupa meticulosamente dobrada, apartada de
qualquer uso. Yvette abria por vezes estes armários para admirar a
coleção protegida. Algumas das toalhas de mesa tinham ramos de
loureiro e cachos de uvas bordados de modo a apenas se revelarem
quando olhados de certa perspetiva. Ela fazia percorrer o dedo
sobre os monogramas dos lençóis alvos e suaves, e sobre as coroas
em torno da letra V ao canto dos guardanapos. O seu preferido era
o unicórnio que pontificava sobre um cordão de termos estrangeiros em alguns dos lençóis de mais idade, mas nem mesmo estes
eram usados, e a Sr.a Melrose insistia em que Yvette reciclasse a
mesma pilha batida de panos singelos do armário mais pequeno
que ficava junto à porta.
•
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Deixa lá
Eleanor Melrose subiu com estrépito os degraus baixos desde
a cozinha até à estrada. Tivesse caminhado mais lentamente, e talvez até vacilasse, parasse, e em desespero fosse acabar por sentar-se no parapeito baixo que ladeava os degraus. Sentiu-se abertamente
indisposta, a ponto de não admitir a afronta de qualquer comida
após ter permitido o agravo do cigarro. Tinha escovado os dentes
depois de vomitar mas não conseguira livrar-se do sabor bilioso na
boca. Tinha também escovado os dentes antes de vomitar, incapaz
de dominar cabalmente a veia otimista da sua natureza. As manhãs
tinham arrefecido desde o começo de setembro e o ar já trazia o
aroma do outono, mas isto pouco importava a Eleanor, que exsudava através das densas camadas de pó de arroz na testa. A cada
passo empurrava as mãos contra os joelhos para arrimar o seu progresso, observando através dos grandes óculos escuros a lona branca
dos sapatos que lhe cingiam os pés lívidos e as calças em seda crua,
de um rosa-escuro, como malaguetas, coladas às pernas.
Pensou em vodca derramado sobre gelo e no degelo de cubos
aclarando-se e colapsando e estalando no copo, como a espinha nas
mãos de um osteopata experimentado. Todos os cubos embaraçados e viscosos boiando juntos, tinindo, os cristais atirados às bordas do copo, e o vodca frio e untuoso na sua boca.
A estrada subia agudamente à esquerda da escadaria até um
círculo de chão plano onde o seu Buick castanho-avermelhado se
encontrava estacionado debaixo de um pinheiro-manso. Parecia
despropositado, alongado sobre os seus pneus de faixa branca contra as vinhas em socalcos e os pomares de oliveiras, mas para Eleanor o seu carro era como um consulado numa cidade estranha, pelo
que se dirigiu para ele com a urgência de um turista roubado.
Sobre a capota do Buick tinham-se acumulado glóbulos de
resina translúcida. Um salpico de resina com uma agulha de pinheiro
estava colado à base do para-brisas. Ela tentou removê-lo, mas apenas conseguia esborratar mais o vidro e enlear as pontas dos dedos.
Apesar de ansiar muito entrar no carro, deteve-se a arranhar compulsivamente a resina, sujando as unhas. A razão pela qual Eleanor
estimava tanto o seu Buick era porque David nunca o conduzira,
nem mesmo nele se sentara. Ela era a proprietária da casa e da terra,
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era ela quem pagava aos criados e quem pagava pelas bebidas, mas
a verdade é que só este carro lhe pertencia realmente e por inteiro.
Quando conhecera David doze anos antes, foi a sua aparência
que a fascinou. A expressão facial que os homens se sentem no
direito de ostentar no momento em que dominam com um só olhar
toda a propriedade a partir de uma sala britanicamente fria tinha
sido apurada por cinco séculos de teimosia e havia-se notoriamente
aperfeiçoado no semblante de David. A presunção inglesa de achar
distinto não fazer nada durante muito tempo no mesmo lugar
nunca fora inteiramente evidente para Eleanor, mas David não
deixava dúvidas sobre essa evidência. A sua linhagem remontava a
Carlos II através de uma prostituta. «No teu lugar, calava-me bem
caladinho», gracejara ela ao saber da história. Em vez de sorrir, ele
mostrou-lhe o perfil de um modo que ela aprendeu a abominar, eriçando o lábio inferior e olhando-a como se estivesse a exercitar uma
espécie de tolerância magna ao resistir a responder-lhe com algo
de devastador.
Houve um tempo em que ela admirava o trajeto de David até
se licenciar em medicina. Quando este contou a sua intenção ao pai,
viu o General Melrose cortar-lhe imediatamente a anuidade, preferindo fazer reverter o dinheiro para a criação de faisões. Disparar
sobre homens e animais eram as ocupações de cavalheiros, sendo
o tratar das feridas da competência de curandeiros da classe média.
Era essa a opinião do General, que tirava mais prazer dos disparos
em resultado de a manter. Não achava o trato frio para com o seu
filho uma experiência especialmente difícil. A primeira vez que
mostrou algum interesse nele foi quando David deixou Eton, e lhe
perguntou o que queria ser. David tartamudeou: «Receio ainda
não saber muito bem, Pai», não ousando admitir que gostaria de
ser compositor. Não escapavam à atenção do General as estroinices do filho à volta do piano, e com justeza entendia que uma carreira
militar haveria de moderar este impulso efeminado. «É melhor o
exército», disse-lhe, oferecendo ao filho um charuto num gesto de
camaradagem inusitada.
E contudo, para Eleanor, David parecia radicalmente distante
daquela tribo de pequenos snobes ingleses e primos afastados demasiado próximos, sempre prontos para uma emergência, ou para um
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fim de semana, repletos de memórias das vidas dos avós, as quais
não eram de todo fiéis às vidas dos avós. Quando conheceu David,
tinha-o como a primeira pessoa a compreendê-la verdadeiramente.
Agora era a última pessoa a quem pediria compreensão. Era uma
mudança difícil de explicar, e procurava resistir à tentação de pensar que ele apenas esperava o dinheiro da mulher para poder patrocinar as suas fantasias pessoais sobre o modo como entendia merecer
viver. Talvez, pelo contrário, tivesse sido o dinheiro dela que o empobrecera. Acabara com a prática clínica logo após o casamento.
No início, houve conversas sobre a aplicação de parte do dinheiro
na abertura de uma residência para alcoólicos. Em certo sentido,
foram bem-sucedidos.
A ideia de se cruzar com David alarmou outra vez Eleanor.
Livrou-se da resina no para-brisas, marinhou para dentro do carro
e conduziu o pesado Buick pela estrada poeirenta, parando apenas
quando se encontrava a meio da colina. Ia a caminho da casa de Victor Eisen a fim de se dirigir cedo ao aeroporto com Anne, mas antes
tinha de se recompor. Enrolada numa almofada debaixo do banco
do condutor estava meia garrafa de brandy Bisquit. Na carteira tinha os comprimidos amarelos para a manterem alerta e os brancos
para fazerem adormecer o sentimento de pânico e o terror que o estado de alerta despertava. Com o longo caminho à sua frente tomou quatro em vez de dois dos amarelos e depois, com a preocupação
de que a toma dupla pudesse agitá-la, tomou dois dos brancos, e
bebeu metade da garrafa para os empurrar. A princípio estremeceu violentamente, e então, antes mesmo que chegasse à corrente
sanguínea, sentiu o ataque agudo do álcool, enchendo-a de gratidão e calor.
Deixou-se cair no lugar no qual apenas se empoleirara, reconhecendo-se ao espelho pela primeira vez naquele dia. Ambientou-se ao seu corpo, como um sonâmbulo que procura de novo a cama
após uma arriscada expedição. Silenciadas, atrás dos vidros fechados, viu pegas alvinegras disparando das vinhas, e as agulhas dos
pinheiros pronunciadas contra o céu pálido, varrido por dois dias
de ventos fortes. Ligou novamente a ignição e partiu, guiando ao
longo das alamedas estreitas e alcantiladas.
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David Melrose, cansado de afogar formigas, abandonou a rega
no jardim. Assim que o entretenimento perdera o seu interesse
particular, encheu-se de desespero. Havia sempre outro formigueiro,
outro terrapleno cheio de formigas. O seu modo de pronunciar formigas trazia-lhe sempre uma especial ressonância familiar, e acrescentava um sabor especial às suas investidas assassinas se lhes
associasse a ideia das sete arrogantes irmãs de sua mãe, mulheres
orgulhosas e egoístas a quem mostrara os seus dotes no piano em
criança.1
David abandonou a mangueira no caminho de saibro, pensando quão inútil Eleanor se tinha tornado. Há demasiado tempo
que ela se mostrava paralisada de medo. Era como tentar palpar
um fígado inchado de um paciente quando já se sabia que doía. Ela
apenas conseguia relaxar de vez em quando.
Recordava uma noite passada há doze anos quando a convidara para jantar no seu apartamento. Que confiante nessa altura
ela era! Já tinham dormido juntos, mas Eleanor tratava-o ainda
com uma certa timidez. Usava um vestido branco sem formas com
grandes pintas pretas. Tinha vinte e oito anos mas o corte simples
do seu cabelo louro corredio fazia-a mais nova. Ele achava-a bonita
naquela sua maneira desorientada e deslavada, mas era a sua inquietação que o estimulava, a quieta exasperação de mulher que anseia
lançar-se a alguma coisa significativa, mas que não consegue ainda
identificar.
Serviu um prato marroquino de pombo recheado com amêndoas. Preparou-o numa cama de arroz de açafrão e, após servi-lo,
retirou-lhe em seguida o prato.
– Fazes-me um favor? – perguntou.
– Claro – respondeu ela. – O quê?
Colocou o prato no chão atrás da cadeira dela e disse-lhe:
– Não te importas de comer sem faca e garfo, nem mãos sequer,
apenas comer do prato?
– Como um cão, queres tu dizer? – perguntou ela.
– Como uma rapariga a imitar um cão.
– Mas porquê?
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Ants (formigas) e aunts (tias) é o par fonético que está no centro desta pronúncia familiar.
(N. do T.)
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– Porque me apetece.
Tirava prazer do risco que corria. Ela poderia dizer que não e
sair. Se ficasse e fizesse o que ele lhe pedia, já não lhe escaparia.
O estranho foi que nem um nem outro pensou em rir.
Uma submissão, ainda que absurda, era uma verdadeira tentação para Eleanor. Estaria a sacrificar certas coisas em que não
queria acreditar – maneiras à mesa, dignidade, orgulho – diante de
outra coisa em que queria acreditar: o espírito de sacrifício. O vazio
do gesto, o facto de ser completamente inútil, fazia-o parecer puro
na altura. Ajoelhou-se de quatro no tapete persa cediço, com as
mãos espalmadas dos dois lados do prato. Os seus cotovelos projetaram-se quando se abaixou para apanhar uma porção de pombo
entre os dentes. Sentiu a tensão na base da espinha.
Endireitou-se, com as mãos nos joelhos, e mastigou calmamente. O pombo tinha um sabor estranho. Levantou um pouco o olhar
e viu os sapatos de David, um apontando para ela no chão, o outro
balouçando perto dela no ar. Não levantou o olhar acima dos seus
joelhos cruzados, antes voltou a dobrar-se, comendo mais avidamente desta vez, fossando no montículo de arroz para apanhar
uma amêndoa com os lábios e sacudindo gentilmente a cabeça a fim
de soltar um pouco de carne do osso. Quando acabou por erguer o
olhar, uma das faces reluzia com molho e alguns bagos de arroz
amarelo estavam agarrados à boca e nariz. A desorientação tinha
abandonado o seu rosto.
Por breves momentos David experimentou uma adoração por
ela, por aceitar fazer o que lhe tinha pedido. Esticou o pé e acariciou-lhe a face com a ponta do sapato. A confiança que ela mostrara
cativara-o totalmente, mas não sabia o que fazer com isso, uma vez
que já tinha alcançado o seu propósito, que era demonstrar ser
capaz de conquistar a sua submissão.
No dia seguinte contou o sucedido a Nicholas Pratt. Nesse dia,
como era, aliás, prática frequente, dera instruções à secretária para
dizer que estava ocupado e passou-o a beber no clube, imune às crianças febris e às mulheres que fingiam que as suas ressacas eram
enxaquecas. Gostava de beber debaixo do teto azul e dourado da
sala de estar, onde havia sempre uma ondulação deixada pela passagem de homens importantes. Os membros aborrecidos, dissolutos
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e obscuros sentiam-se a flutuar nesta atmosfera de poder, como pequenas baleeiras que, subindo e descendo, aparecem e desaparecem
subitamente nas suas ancoragens quando um grande iate se despede
do porto comum.
– Porque a levaste a fazer isso? – perguntou Nicholas, pairando entre velhacaria e aversão.
– A conversa dela é tão limitada, não achas? – disse David.
Nicholas não respondeu. Sentia que estava a ser forçado a
conspirar, tal como Eleanor a comer.
– Conversava melhor do chão? – perguntou.
– Não sou mágico – disse David. – Não consigo fazer dela uma
diversão, mas ao menos mantive-a calada. Comecei a sofrer horrores de antecipação ante a iminência de outra conversa sobre as
agruras de ser rico. Sei tão pouco disso como ela do que quer que seja.
Nicholas riu entredentes e David mostrou-os. Qualquer que
fosse a posição sobre o desperdício de talento de David, pensou
Nicholas, ele nunca fora grande coisa em sorrisos.
David subiu pela direita a dupla escadaria que levava do jardim
ao terraço. Apesar de ter agora sessenta anos, o seu cabelo continuava
espesso e selvagem. O rosto era surpreendentemente gracioso. A sua
correção a sua única pecha; era como o esquema de um rosto e transmitia um certo sentimento a inabitado, como se nenhum vestígio
do modo de vida do seu utente pudesse modificar a perfeição das
linhas. Os conhecidos de David procuravam sinais de decadência,
mas a sua máscara tornava-se a cada ano mais nobre. Atrás dos óculos
escuros, por mais rígido que tivesse o pescoço, os seus olhos bruxuleavam inconspícuos, avaliando as fraquezas dos outros. O diagnóstico fora a sua especialidade mais inebriante enquanto médico,
e depois de a brandir com destreza perdia normalmente o interesse
nos pacientes, a não ser que algo no seu sofrimento o intrigasse.
Sem os óculos escuros, mostrava uma expressão distraída, até o momento em que se apercebesse da vulnerabilidade de alguém. Nesse
caso a expressão dos seus olhos enrijecia como um músculo fletido.
Parou no cimo das escadas. O charuto apagara-se, e ele atirou-o sobre o muro para as vinhas em baixo. À sua frente, a hera
que cobria o lado sul da casa estava já raiada de vermelho. David
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admirava aquela cor. Via-a como um gesto de desafio contra a
decadência, como um homem que cospe na cara do seu torturador.
Assistira à pressa de Eleanor em sair no seu carro ridículo. Reparara até mesmo em Yvette tentando entrar discretamente em casa.
Quem as poderia censurar?
Não ignorava que a sua falta de gentileza para com Eleanor só
poderia surtir efeito se a alternasse com mostras de preocupação e
justificações elaboradas para a sua própria natureza destrutiva,
mas acabou por abandonar estas variações quando concluiu que o
seu desapontamento em relação a ela tinha transposto todos os
limites. Sabia que ela não poderia ajudá-lo a desenredar o nó inarticulável que transportava dentro de si. Em vez disso, sentia-o a apertar, como uma promessa de asfixia que ensombrava cada golfada
de ar que colhia.
Era absurdo; mas durante todo o verão obcecara-o a memória
de um estropiado mudo que vira no aeroporto de Atenas. Este
homem, tentando impingir pequenos sacos de pistacho, atirando
pequenos anúncios impressos para o regaço dos passageiros em
espera, inclinava-se para a frente com esforço, britando o chão
com pés incontroláveis, a cabeça pendendo e os olhos rebolando
para cima. Cada vez que David mirava aquela boca retorcendo-se
em silêncio, como um peixe arfando na margem de um rio, experimentava uma espécie de vertigem.
Prestou atenção ao silvo dos seus chinelos amarelos ao subir o
último lanço de degraus até à porta que levava do terraço à sala de
visitas. Yvette ainda não tinha afastado as cortinas, o que lhe poupou
o trabalho de as voltar a fechar. Apreciava aquele aspeto sombrio e
valioso da sala de visitas. Uma cadeira vermelho-escuro e pesadamente dourada, que a avó americana arrebatara a uma família
veneziana num dos seus périplos mercantes pela Europa, reluzia na
parede oposta da sala. Tinha prazer no escândalo implicado nessa
aquisição e, sabendo que aquilo deveria pertencer aos cuidados de
um museu, fazia questão em sentar-se nela tão frequentemente
quanto possível. Às vezes, quando estava sozinho, sentava-se na
cadeira do Doge, como sempre lhe chamavam, inclinando-se para
a frente no assento, com a mão firmada num dos braços intrincadamente entalhados, arriscando uma pose que recordava da História
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ilustrada de Inglaterra, que lhe tinha sido oferecida na escola preparatória. A imagem era a de Henrique V, mostrando uma soberba
cólera quando presenteado com bolas de ténis pelo insolente Rei
de França.
David estava rodeado pelos despojos da família matriarcal americana de Eleanor. Gravuras de Guardi e Tiepolo, Piazetta e Novelli
pendiam densamente das paredes. Um biombo francês setecentista,
habitado por uma multidão de macacos castanho-acinzentados e
rosas, dividia em metade a grande sala. Parcialmente escondido
atrás dele, do ângulo de visão de David, estava um móvel chinês preto,
o topo ostentando uma bem proporcionada fileira de garrafas, e as
prateleiras interiores carregadas com as suas recargas. Ao servir-se
de uma bebida, David pensou no seu sogro defunto, Dudley Craig,
um escocês agradável e bêbedo dispensado dos serviços de Mary, mãe
de Eleanor, quando sustentá-lo se tornara demasiado dispendioso.
A seguir a Dudley Craig, Mary casara com Jean de Valençay,
com o firme sentimento de que, se era para manter um homem,
então que fosse um duque. Eleanor fora educada numa fiada de
casas onde cada objeto parecia ter pertencido a um rei ou a um imperador. As casas eram maravilhosas, mas os convidados deixavam-nas com alívio, conscientes de que não eram bons o suficiente, aos
olhos da duquesa, para as cadeiras em que se sentavam.
David caminhou para a janela alta ao fundo da sala, a única
com a cortina afastada, dando sobre a montanha em frente. Contemplava amiúde os afloramentos despidos do calcário lacerado.
Pareciam-lhe modelos de cérebros humanos deixados naquele lado
verde-escuro da montanha, ou, por vezes, um único cérebro, irrompendo de uma série de incisões. Sentou-se no sofá junto à janela e
olhou para fora, procurando cinzelar um sentimento de reverência
primordial.
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