Práticas territoriais da classe média urbana: o Jardim Icaraí em Niterói/RJ Territorial practices of urban middle class: Jardim Icarai (Icaraí Garden) in Niterói/RJ Brasilmar Ferreira Nunes* Resumo Discutimos, no presente artigo, a partir do pen samento de Georg Simmel, algumas hipóteses sobre o sentido que o espaço residencial nas metrópoles contemporâneas representa para seus ocupantes, particularmente como mecanismo de classificação social. Privilegiamos autores da ciência social, procurando articular diferentes abordagens que, na nossa leitura, se complementam e ajudam na compreensão da lógica social urbana. Tomamos como referência para ilustrar nossas reflexões uma área de classe média na cidade de Niterói-RJ que pelas suas características nos oferece o pano de fundo para elaborarmos algumas considerações. Abstract In this paper we discuss, from the thought of Georg Simmel’s , some assumptions about the meaning of the residential space in the contemporary modern metropolis for its occupants, particularly as a mechanism of social classification. Favoring authors of social science, we have tried to articulate different approaches that, in our interpretation, are self-complementary and that would help us to understand urban social logic. In order to illustrate our reflections we took as a reference a middle class area in Niteroi, RJ whose characteristics provided us with the necessary background to elaborate some considerations. Palavras-chave: metrópole; classe média; habita ção; estética urbana; sociabilidades urbanas. Keywords: metropolis; middle class; housing; urban aesthetics; urban sociability. Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 Brasilmar Ferreira Nunes Situando a questão seja nas metrópoles, em Simmel se trata de um aglomerado de pessoas com interesses divergentes, divergências essas que oferecem Georg Simmel tem inúmeros textos, a maioria a sinergia para que cada um seja estimulado ensaios, que tratam de questões que podem ser a realizar as mais elevadas performances, ali úteis para uma análise sociológica da metrópo mentando a dinâmica da troca. le em sociedades de mercado. Entretanto, sem A diferença entre os dois modelos de ci dúvida, dois deles, com inúmeras edições, são dade em Simmel não é numérica: se sustenta referências obrigatórias: A metrópole e a vida em razão do potencial de centralidade que a mental e O Estrangeiro . São textos clássicos aglomeração apresenta. De maneira dialética, da sociologia urbana que alimentaram o pen Simmel vai insistir que a centralidade se mani samento social sobre a cidade, seja na Europa, festa na medida em que a cidade expande sua seja nas Américas, desde suas publicações em influência externa. Entre maior concorrência fins do século XIX. e mais complexa divisão do trabalho há um Há ali a síntese de um pensamento com contexto que leva ao enriquecimento geral. plexo e sofisticado, que ultrapassa leituras tra Estabelece-se assim um círculo que se autoali dicionais do social. São atuais mais de um sé menta, fazendo da metrópole um “centro” eco culo depois de escritos, apesar de todas as mu nômico com capacidade de expandir e ampliar danças que a vida social nas metrópoles vem sua área de influência. Assim, um aglomerado experimentando ininterruptamente. Antes de de população pode ser denso, heterogêneo, Freud, ele já apontava para os efeitos psíqui de grande dimensão e não possuir o potencial cos que a multidão produz nas mentalidades de centralidade evocado por Simmel. A metró individuais, e encontra Weber, por caminhos pole, por outro lado, adquire uma autonomia diferentes, quando argumenta que a grande que historicamente faz dela uma forma e um cidade, na medida em que instaura um padrão conteúdo, sede da economia monetária, mes de sociabilidade específico, é um operador que mo antes do aparecimento do capitalismo mo institui a racionalidade na vida cotidiana. De derno.1 E aí talvez fosse útil insistir que quando fato, Simmel dá lugar de destaque à cidade em Simmel, a todo o momento, afirma que a gran seus escritos, tanto quanto Karl Marx o fez com de cidade é sede da economia monetária, não o mundo do trabalho e Max Weber com o pro se refere a uma dimensão estatística, mas sim cesso de racionalização na era moderna. à função de centralidade. Enquanto Weber prioriza suas análises A pequena cidade aparece em suas aná sobre a cidade até o século XVIII, Simmel, pa lises como se fosse para compreendermos por ra quem Berlim era o protótipo da metrópole contraste a originalidade da metrópole. Há nas moderna, se debruça sobre a grande cidade da entrelinhas de seu pensamento a possibilidade modernidade. Suas reflexões sobre a cidade se de uma metropolização do conjunto da socie constroem a partir de uma oposição entre a pe dade, o que terminaria com a distinção entre quena cidade e a grande cidade, ou a metrópo os dois modelos de cidade. Isso poderia ser le na modernidade. Seja nas pequenas cidades, decorrência da generalização da moeda nas 420 Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 Práticas territoriais da classe média urbana interaçõesda vida cotidiana que daria primazia podemosconsiderar que ninguém escapa da ao intelecto sobre as demais dimensões da vida sociedade e terminamos por nos adequar às re subjetiva. É nessa dinâmica contraditória entre gras sociais definidas exteriormente a nós. o mundo exterior, materialista, monetarizado, São diferentes as esferas nas quais os racional e o mundo interior, onde predominaria sistemas classificatórios se constroem e po a subjetividade, que Simmel vai elaborar o seu demos considerar a proposta weberiana das argumento sobre a “tragédia da cultura”, fe esferas econômica, social e política, cada qual nômeno típico da modernidade urbana, metro com suasregras e seus conceitos peculiares. A 2 politana. De certa maneira, aqui também ele esfera econômica tem no conceito de “classe” se antecede ao “O mal-estar na civilização” de a sua unidade de análise principal. Estamos, Freud, para quem a vida em sociedade pressu portanto, considerando, como o autor, que clas põe uma dose de sofrimento à qual estaríamos ses seriam aqui tratadas como uma dimensão todos submetidos. O individuo blasé, a atitude da esfera econômica e vão estar condicionadas de reserva, são duas categorias de análise que às leis do mercado, da oferta e demanda por nos ajudam a compreender a predominância trabalho e seus níveis de remuneração monetá do intelecto, ou da racionalização, nos vínculos rios. Como é incisivo em Weber, “classe é uma sociais. Para Simmel, a reação do psiquismo situação de mercado” (1981, p. 65). nas interações que se passam nas metrópoles No entanto, não é possível permanecer seria uma apropriação ativa do contexto com apenas nesse nível analítico para explicar os vistas a exercer uma individuação e a liberdade fenômenos sociais, pois é um enorme redu garantidas pelo anonimato (Remy, 1997, p. 64). cionismo restringir, por exemplo, a sociedade Pois bem, essas reflexões gerais nos aos muros de uma fábrica ou às relações de servem de referência para tratarmos de nos trabalho. Nesse sentido, a esfera social surge so interesse neste artigo. Consideramos que a em Weber como um elemento adicional na relação indivíduo e sociedade é complexa, no compreensão do espaço social. Sabemos, por sentido em que dimensões particulares se en exemplo, que indivíduos na mesma faixa de trecruzam com dimensões maiores, num ema renda têm muitas vezes padrões de consumo ranhado de significados que, em última instân ou estilos de vida completamente diferentes. cia, estão na base dos sistemas classificatórios Assim, se na esfera econômica os sistemas em sociedade. De fato, a vida em sociedade é classificatórios são basicamente quantitativos construída por trajetórias individuais que se – quanto? – eles esbarram na esfera social, definem dentro de parâmetros grupais, de tal onde as dimensões qualitativas da vida se ma maneira que as exceções são consideradas ex nifestam – como?. centricidades, e todos terminam por se adaptar Na ordem social, a unidade de análise é a estilos mais ou menos aceitos pelo grupo ao o status que é percebido por outros critérios qual pertencem. Temos sim um grau de auto diferentes dos quantitativos. Weber insiste que nomia relativo que é estreito, porém raramen ao fim e ao termo o econômico e o social ter te estamos dispostos a romper radicalmente minam por se autocondicionar. Entretanto, pa com os padrões vigentes. Em outros termos, ra efeito de análise, é importante analisá-los Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 421 Brasilmar Ferreira Nunes separadamente,tendo em vista que guardam maior autonomia de escolha da moradia, ou uma autonomia relativa em face dos demais e tras dimensões entram em cena para fazer só iremos compreender as lógicas implícitas se valer seus critérios classificatórios. Isso nos conseguirmos focar no específico de cada um leva a considerar que o espaço construído da deles. Em outros termos, os sistemas classifica cidade se guia, na sua produção, por valores de tórios em sociedade são tanto de natureza eco classe e de status. Vejamos mais de perto esse 3 nômica como social. argumento. Essa lógica é comum às metrópoles con temporâneas, cada qual fazendo valer seus A lógica social e estética do espaço construído critérios de renda, além, é claro, de valores culturais. Entretanto, essa separação das mora dias por renda no território não reduz o espaço social da cidade a lógicas homogêneas. Conti Para entendermos a lógica social do espaço nuam valendo regras de classificação, porém construído, teremos que utilizar ambas as es imóveis nos melhores endereços não somente feras que se guiam por princípios passíveis de são os mais caros, mas geralmente também decodificação. Sabemos que, por exemplo, o são os maiores e de melhor qualidade. Imóveis mercado imobiliário organiza o território da ci mais usados, que não atendem ao padrão mé dade por faixas de renda, e um olhar apressado dio do comprador (por qualidade ou área, por vai apontar algo que aparentemente obedece exemplo) são adquiridos por grupos e famílias às regras do bom senso: altas rendas preferem de menor renda, garantindo o caráter social residir próximas aos seus semelhantes, da mes mente misto do bairro urbano. Queremos insis ma forma que baixas rendas também têm essa tir que esses critérios de escolha do imóvel não preferência. No entanto, essa “coincidência” de se aplicam apenas às metrópoles europeias ou gostos de lugar de moradia ou de lugar para norte-americanas; na América Latina e no Bra habitar por faixas de renda tem componentes sil, com a rápida industrialização e a formação que escapam ao observador desavisado. Há de uma classe média urbana com recursos ali uma conjunção de aspectos que levam a que menta essa regra, que pode ser aplicada, como determinados grupos procurem certas áreas e veremos adiante. Assim, o contexto ambiental, não outras. Sem dúvida, a valorização mone seja do imóvel, seja da área em que ele se situa tária do imóvel é importante, pois através dos contribui para a determinação dos moradores preços a seleção é feita com base nas rendas que optam, como vemos, por ambientes onde das famílias, via mercado. Porém somam-se a práticas simbólicas do grupo possam ser exer esse dado, fortalecendo naquilo que lhe é pe cidas. Isso explica, por exemplo, por que se op culiar, outras unidades de medida, tais como ta por certo imóvel mesmo não tendo o padrão acessibilidade, oferta de serviços e equipamen de renda médio da área, ou seja, se endividan tos urbanos, padrões urbanos das construções, do para garantir um estilo de morar e de viver, etc., que pesam na decisão da escolha. Em uma estratégia peculiar a grupos que valorizam outras palavras, por mais que a renda garanta o status. 422 Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 Práticas territoriais da classe média urbana Não se pode negar que nossas grandes charmede um bairro privilegiado. Residir em cidades são unidades urbanas heterogêneas, tais endereços significa um privilégio que se com uma importante parcela de seu espaço procura e pelo qual quem pode pagar está dis construído escapando às características qua posto a desembolsar valores elevados.5 litativas dos imóveis. São áreas pauperizadas, Retomando Simmel e considerando os pobres, muitas vezes clandestinas, que surgem elementos acima, não é fora de propósito con como espaços construídos sem critério ne cordar com o autor, para quem se a cidade gera nhum, apenas a necessidade. Poderia, portanto, formas de sociabilidade, ela pode também ser ser colocada a questão sobre a manifestação lida como o lugar de emergência de formas es da ordem social também nessas áreas. De fa téticas. Os dois aspectos devem ser colocados to, basta se embrenhar ali, dialogar com seus em relação, aliás, como Simmel os enxerga. É morador(a)es para se perceber que há uma esse mecanismo que faz das metrópoles con valorização do imóvel e do lugar que não é temporâneas, especialmente nas economias de monetária. industrialização tardia, e com elevados níveis São essas condições de sentido que o de desigualdade econômica, um mundo de di espaço adquire para seus usuários que faz da fícil domínio. Sobretudo porque a cidade como cidade, mesmo nos tempos atuais, capaz de paisagem pressupõe uma troca que significa agir à maneira de uma grande personagem na ver e sentir, que não se deixa apreender num acumulação de experiências novas, ao mesmo primeiro olhar: a descoberta é progressiva, ja tempo em que as integra ao passado. O abrigo mais imediata. Temos o sentimento de que as contra as intempéries da natureza, a proteção coisas são ligadas somente depois de as ter que um imóvel oferece tem significados para percebido isoladamente: primeiro, é “preci cada um de seus moradores independentemen so separá-las para depois reuni-las” (Simmel, 4 te do nível de renda. Por outro lado, tampouco 2007, p. 46) tal como nos aparecerem nos am as áreas de altas rendas têm padrões estéticos bientes com elevada dose de heterogeneidade homogêneos, numa clara evidência de que ou física e social. tros aspectos entram em questão no momen O que muitas vezes gera dificuldades de to da escolha da moradia. Mais ainda, há, nas percepção é que essa segregação urbana rara diferentes áreas, sistemas classificatórios dos mente é absoluta. Faz parte da característica imóveis que fazem com que o mosaico urba das cidades a mistura, porém sabemos per no tenha lógicas próprias de valoração e de feitamente quando estamos circulando numa sentido que se traduz muitas vezes num ape área “nobre” comparada a uma “popular” ou go afetivo ao imóvel e ao lugar. Se assim o é, de classe média. Além do mais, dependendo habitar num determinado endereço no bairro é da natureza do espaço físico da cidade, podem um indicador de um status social: pode estar ocorrer extremas variações e dispersões dos indicando grandes apartamentos, preços eleva preços dos imóveis no interior de uma mesma dos, qualidade da construção superior, aliado área da cidade, tanto quanto entre as diferen a um valor-de-uso do imóvel, na medida em tes áreas. O fato é que a segregação social que aponta para uma certa “arte de viver” no de uma dada sociedade pode ser percebida Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 423 Brasilmar Ferreira Nunes atravésda análise da organização de seu ter as altas rendas em relação às médias e peque ritório, especialmente o residencial: diferentes nas é enorme, porém não há déficits estrutu bairros, muitas vezes opostos em qualidade de rais de serviços.6 Em contextos similares, as vida urbana, até mesmo a atmosfera que se valorações sociais são menos evidentes: forte sente nas ruas quando nelas se circula, padrão hegemonia da esfera econômica e a esfera de lojas e magazines, tudo aponta para uma di simbólica, via consumo, tem forte presença na versidade social. montagem de sistemas classificatórios. Assim, frequentar certos ambientes culturais, cursar determinadas escolas, exercer certas profissões, Retomando a discussão sobre as práticas de classe no espaço urbano morar em determinadas áreas da cidade são maneiras de se diferenciar dentro do grupo. Em contextos similares e tendo já equacionada a questão econômica, a esfera social assume po sição de destaque nos sistemas classificatórios Temos então elementos analíticos que nos aju (se diferenciar, diferentemente!). dam a compreender parte do sentido que o es Em sociedades emergentes, de urbaniza paço construído apresenta aos seus ocupantes: ção e industrialização relativamente recentes não se podem abstrair as classes sociais nem temos contextos distintos. Primeiro o gap entre tampouco o estilo de vida dos grupos. Ambas as classes de renda chega a ser assustador. Há as dimensões se completam na explicação e níveis generalizados de pobreza urbana, convi aparecem como elementos de classificação. vendo com grupos de renda média e alta numa Assim, não seria apressada a incorporação do situação tensa e problemática. Isso porque a conceito de habitus para auxiliar nessa explica dificuldade de acesso à renda, à educação de ção, pois temos que considerar tanto os valores qualidade para o mercado de trabalho, o siste de classe como os de status a fim de darmos ma de saúde precário, e principalmente um se conta da análise material e estética do espaço tor habitacional popular que beira ao absurdo, construído. O conceito de habitus, pois, pode ferindo o bom senso: precariedade das constru ser entendido como um sistema de disposições ções, completa inobservância de regras simples duráveis interiorizadas pelos indivíduos a par de construção, ausência de serviços coletivos tir de suas condições objetivas de existência urbanos, etc., fazem de nossas metrópoles am (situação de classe) e que funciona como es bientes que se pode afirmar se guiam à “dupla quemas conscientes de ação, de percepção e de velocidade”. Áreas com padrões urbanísticos reflexão (posição social) (Bourdieu, 1980). corretos e adequados, ao lado de uma cidade Os elementos de classificação social em sociedades historicamente consolidadas se fa clandestina que sobrevive às bordas da área integrada. zem por critérios rígidos, porém dissimulados. Se retomarmos nosso argumento sobre No geral se tem acesso à renda monetária, à os sistemas classificatórios em sociedade, po educação, saúde, e a habitação é regra geral, deríamos argumentar que para enormes parce motivo de políticas universalistas. O gap entre las dos moradores urbanos o que os guia nas 424 Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 Práticas territoriais da classe média urbana decisões são as necessidades imediatas, não humanização da arte, isto é, o aparecimento havendo muito lugar para a manifestação da do conceito de estética, que pode ser enten esfera simbólica em boa parte de nossas áreas dido como uma teoria dos efeitos produzidos metropolitanas. Isso é um equívoco que preci por certas realidades sobre nossa sensibilidade. sa ser enfrentado academicamente. Para tanto, Em se tratando de um efeito geral que alcan optamos por discutir a noção do “belo” que se ça a todos, independentemente da posição na manifestaria em diferentes dimensões da vida estrutura social, podemos supor que todos te social e individual. Seja na forma de vestir, de mos nossos critérios estéticos que refletem a morar ou a partir de outros aspectos, temos dimensão econômica (mercado), mas, sobretu sempre critérios para optarmos. Ou seja, se a do, valores subjetivos de indivíduos e grupos, dimensão econômica é ditada pelo mercado, a afirmando a natureza política da estética, ou dimensão social, mais simbólica, se utiliza de da arte (ou do belo). 7 valores abstratos tais como a estética. Pois bem, essa individuação da forma A noção de “belo” guarda relação com estética é vista por Simmel em conivência com dimensões variadas da vida individual e social uma individuação das formas de sociabilidade, e muitas vezes surpreende. Trata-se de uma a qual tem na metrópole o lugar de convergên noção subjetiva e tem relação no essencial cia e amplificação de diversos processos de àquilo que agrada ao nosso gosto, à nossa transformação nos tempos atuais. Se somar sensibilidade. Podemos considerar de início mos os diferentes sistemas classificatórios, ve o caráter histórico dessa noção. Ferry (2005) remos que estamos todos inseridos em proces argumenta sobre a emergência de um univer sos que nos posicionam dentro do social, numa so laico no qual os seres humanos vão se pre incessante passagem da dimensão social para tender, enfim se pensar como os autores, os a individual e vice-versa. Ocupar um lugar no criadores de sua história, mas também de sua social será, portanto, o resultado de nossas cultura. Argumenta o autor que na Antiguida ações, que já seriam também produto de po de a verdade na arte era, primeiro, expressar sições já existentes (agimos de acordo com o a harmonia do cosmos; nas religiões mono que nos foi ensinado seja pela família, círculo teístas é a grandeza e o sublime do divino; de relações, sistema educacional, etc.). Signi nas democracias humanistas atuais, a arte é fica assim que a adoção de um determinado a expressão da profundidade e da riqueza do valor ou estilo de vida indica a adequação aos gênio humano (ibid., p. 16). Em síntese, o que valores de certo círculo social, compartilhando se pode argumentar é que em lugar de refletir de suas convenções. Sem dúvida, na cidade, uma ordem exterior aos homens (cósmica ou a moradia é um dos elementos principais na religiosa), a obra de arte vai se transformar, explicitação de um sistema de valores estéti nas sociedades modernas, na expressão da cos individuais e de classe. E onde ela é uma personalidade de um indivíduo. 8 Vivemos, portanto, um fenômeno peculiar e original na modernidade, que é justamentea Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 evidência maior é nas preferências estéticas da classe média urbana, argumento que iremos tentar demonstrar aqui. 425 Brasilmar Ferreira Nunes A individualidade expressa na moradia estruturafísica possa ser efeito de uma lógica de exploração. Portanto, há situações em que a dominação não é necessariamente exerci da tendo em vista a exploração. Isso poderia Refletir sobre a realidade social a partir do ser o caso de sistemas socioculturais em que conceito de classes, desde que adequada a dominação, por exemplo, propicia aos seus mente entendido, constitui efetivamente um beneficiários vantagens outras que não a ex construto teórico de valor incomparável. Po ploração de mais-valia (por exemplo, no pa rém, evitaremos aqui o debate sobre a “luta triarcalismo). Poderia também ser o caso de de classes”, no qual invariavelmente se cai práticas da vida cotidiana quando certos valo quando o recorte analítico considera a estrutu res sociais válidos para determinados grupos ra social como uma estrutura de classes e que são impostos como legítimos para o conjun a mudança se dá como resultado de uma luta to dos grupos da sociedade. Aqui, na esfera entre as classes. Nessa concepção, poderíamos simbólica é que se daria a verdadeira luta por explicar os processos de mudança, porém tería hegemonia: quando valores de uma classe são mos dificuldades para justificar a estabilidade transpostos como senso comum para todas as ou o equilíbrio social, mesmo quando se tem classes. Ao mesmo tempo, lembrando as refle grandes desníveis econômicos. Tentaremos sim xões simmelianas, o espaço da cidade, extra decodificar na existência cotidiana – fora dos fábrica, é o lugar da “produção de relações” “muros da fábrica” –, estratégias que refletem mais do que das “relações de produção”, on essencialmente uma disfarçada luta de classes, de, de forma original, de fato, há a interação mas que se mostram como ações individuais. interclasses.9 Seria aqui então que se criariam, Parte de uma engrenagem complexa, de forma permanente, novos modos de sub as ações individuais devem ser lidas como jetivação, dando à vida social na metrópole o estando firmemente assentadas na realidade verdadeiro sentido de “sociedade” nos moldes histórica e são o elemento que expressa a re goffmanianos, para quem também “sociedade lação entre indivíduo e sociedade. Em outras é interação” (Goffman, 1989). palavras, o indivíduo, em suas ações, detém Os elementos da discussão acima nos um grau de autonomia que é determinada auxiliam para retomarmos a temática sobre pelo contexto social, cultural e histórico que o “valores estéticos”, já esboçada nos parágra limita em suas decisões e sua autonomia será fos anteriores e introduzirmos um exemplo sempre relativa. O sentido de seus atos é da concreto de subjetivação nos processos de so do então pelo contexto no qual eles se mani ciabilidade. O significado que Simmel nos dá festam e jamais é ditado exclusivamente pelo de sociabilidade como “uma forma lúdica de próprio sujeito da ação. Nesse movimento, sociação, e algo cuja concretude determinada uma sutil dialética entre exploração e domina se comporta da mesma maneira como a obra ção deve ser a base da reflexão. de arte se relaciona com a realidade” (Simmel, No território da cidade, o que está 2006, p. 65) nos é útil. Para Simmel, o impul em questão é a dominação, mesmo que a so artístico retira as formas da totalidade de 426 Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 Práticas territoriais da classe média urbana coisas que lhe aparecem, configurando-as em identitária,uma linguagemque aproxima indi uma imagem específica e correspondente a víduos com padrões estéticos comuns. esse impulso, “o impulso de sociabilidade em sua efetividade se desvencilha das realidades da vida social e do mero processo de sociação como valor e constitui assim o que chamamos de sociabilidade”. Vimos que há valores de classe e certa Um agrupamento urbano de classe média: Jardim Icaraí/Niterói dose de autonomia individual na opção por um estilo de vida que se combina para a definição Tomando como referência um bairro de classe de gostos e de percepção de mundo. Essa au média na cidade de Niterói, na Região Metro tonomia permite aos indivíduos expressarem politana do Rio de Janeiro, fizemos algumas in suas subjetividades sempre tendo limites de ferências a fim de testarmos elementos teóricos liberdade nessa empreitada, ditados pelo con presentes nas páginas acima. Trata-se do Jar texto social. Essa possibilidade potencial de ex dim Icaraí, região de expansão de um mercado pressar a subjetividade faz da vida em socieda imobiliário para um público de rendas médias de um cenário múltiplo e diverso que retrata a elevadas, e que vem atravessando um forte diversidade presente, seja dentro de um grupo, processo de expansão de sua área construída seja entre diferentes grupos sociais. A expres ou mesmo a reconstrução de novos imóveis em são de valores estéticos em toda e qualquer áreas já ocupadas anteriormente em função da dimensão da vida passa assim a ser dimensão valorização que a área apresenta. constitutiva da sociedade, mesmo que haja Perguntávamo-nos, inicialmente, quais certos padrões que possam ser considerados seriam as razões da recente definição da área em algum momento e por determinados gru como um “bairro”, bem como quais os limites pos como legítimos. Talvez seja ali, nesse tea físicos que o delimitavam na geografia da cida tro social, que as identidades se apresentam de. Supomos que a dimensão econômica estaria e se firmam. A esfera do consumo é onde se aqui equacionada e haveria outras motivações têm margens de manobra para a inventividade, que favoreceram a escolha da área como mora portanto, para expressar valores estéticos e por dia pelos grupos ali residentes. Em outras pala consequência, subjetividades. E o cenário da vras, dado o nível de renda das famílias, haveria metrópole é sem dúvida o que oferece maior um leque amplo de possibilidades de escolha potencial de diversificação e de expressão de do local de moradia. Nesse sentido, orienta 10 individualidades. Seja no vestuário, no consu mos nosso levantamento qualitativo nos per mo cultural ou de bens materiais e imateriais guntando “por que as pessoas almejam morar e até mesmo na moradia existem diversas no bairro?” e “por que essas mesmas pessoas possibilidades de escolha, o que faz dessa es preferem em um tipo específico de prédio, com fera uma das mais importantes na definição características arquitetônicas peculiares?” Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 427 Brasilmar Ferreira Nunes A vida social do bairro e seus moradores de um bairro cuja mudança nos padrões habi tacionais se fez com base numa publicidade de empresas imobiliárias, e tem sua abrangência delimitada no território segundo uma repre Nosso intuito foi, portanto, o de analisar a in sentação peculiar. Vendem-se os imóveis a par fluência dos valores de status (ordem social), tir de uma aproximação do seu padrão com o que seria a dimensão classificatória utilizada bairro vizinho de Icaraí, que goza de uma tradi pelo grupo ali residente. Por detrás desse en cional valorização junto à classe média alta. As foque, estaria uma hipótese subjacente, qual dificuldades classificatórias surgiam o tempo seja, a de que a localização de um grupo em todo quando se tratava da indefinição de suas determinada porção do território da cidade se regiões fronteiriças. Observamos que todas as relaciona com o desenvolvimento de um estilo ruas que delimitam o território do bairro são de vida específico por parte daqueles que dese alvos de constantes questionamentos quanto jam pertencer ao círculo social e compartilhar ao seu pertencimento: sendo contígua a outro de suas convenções, assim, o lugar de moradia bairro (Santa Rosa) há ambiguidades quanto seria um forte indicador do lugar social. Portan às ruas que pertencem ao “Recanto Icaraí” ou to, nos orienta o pressuposto de que a estratifi ao “Recanto Santa Rosa”, numa alusão a no cação por status caminha de mãos dadas com vas formas classificatórias que se originam na uma monopolização de bens ou oportunidades região e que marcam a mesma oposição Icaraí materiais e ideais (Weber, 1981, p. 76). versus Santa Rosa. Assim, a proximidade com o Uma primeira constatação surgia logo bairro de Icaraí é tida como positiva, enquan de início: o bairro passava por um processo to que com Santa Rosa acontece o contrário. O de modificação dos padrões habitacionais que próprio nome “Jardim Icaraí” já permite tornar preexistiam à atual expansão imobiliária. Com esse aspecto mais evidente: Icaraí sempre é ci grande rapidez, antigas casas, geralmente tér tado como bairro mais nobre, mais bem servido reas e pequenos prédios de até cinco andares, por serviços e equipamentos urbanos e como cediam lugar a prédios com mais de dez anda símbolo de prosperidade. Em oposição, quando res, inclusive com coberturas, abrigando cada se referem ao Santa Rosa, nomeações como um em torno de cem famílias. Esses lançamen “favela”, além da escassez de serviços são res tos imobiliários se espalham por todas as ruas saltados. O Jardim Icaraí toma a posição, por do bairro, dando sinais de um mercado em forte tanto, de um bairro intermediário entre esses expansão. A substituição de antigas residências dois universos, sendo renegados aspectos que por essas novas, com características peculiares, o aproximam de Santa Rosa, ao mesmo tempo significa muito mais do que substituir os abri em que são ressaltados aqueles que definem gos preexistentes: é de fato derrubar um modo Icaraí como nobre, além das características que de vida, pois a chegada de um grande número Icaraí já teria deixado de possuir por conta da de famílias altera o cotidiano do bairro. expansão anterior.11 Nessa trama de consoli A delimitação física do bairro Jardim Ica dação de uma representação do bairro não se raí é outra dimensão que vale destaque. Trata-se pode considerar que se trata de uma cópia de 428 Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 Práticas territoriais da classe média urbana Icaraí, nem tampouco se distancia simplesmen que o bairro apresenta.Como expressa um de te de Santa Rosa. De fato, a área vai se forman nossos entrevistados “aqui as pessoas não be do a partir de uma lógica que lhe é própria e bem em bar, bebem em restaurante”. Os que seria reducionismo tratá-lo como cópia de um mudaram para lá oriundos de Icaraí lamentam ou de outro. a mudança, apesar de se sentirem bem no lo Essas dificuldades classificatórias são cal: “sinto falta da confusão de Icaraí, pois já corroboradas pela inexistência de uma norma estava acostumado com isso”. A oposição en administrativa, visto que a própria Secretaria tre essas duas falas, quando vista pelos que as de Urbanismo do município não confere legiti expressam, mostra com justeza a dinâmica de midade ao bairro. Tudo indica que há uma de consolidação da identidade do lugar, muitas fasagem entre o que é vivido pelos moradores vezes contraditória, pois composta por eleva e aquilo que está estabelecido pelos órgãos da dose de heterogeneidade social. que regem o espaço urbano. Por exemplo, ruas O fato é que pudemos perceber a di são como definidores dos limites de um deter versidade e a vitalidade que caracterizam o minado território; são também unidades de bairro. Isso se constata inclusive nos padrões alto significado para saber reconhecê-las. Elas habitacionais bastante variáveis: casas cons estruturam um continente, mapeiam e organi truídas em diferentes períodos vão perdendo zam o seu conteúdo, sustentam uma tradição espaço para novos edifícios, muitos abrigan ao evocarem um modo de vida para o qual do comércio variado no nível das ruas. Esta funcionam como emblema e rótulo (Santos e belecimentos escolares públicos e privados, Voguel, 1981). Os habitantes da área confe lojas de vestuár io, salões de beleza, farmá rem às ruas um papel de referência de bons cias inclusive de manipulação, cursos de lín ou maus lugares ou de serem emblemas de um guas estrangeiras, clínicas, apontando uma 12 modo de vida. certa sofisticação. Um desenho urbanístico Os mais recentes moradores do bairro que organiza pequenos quarteirões permite falam de algo como uma “mudança de ares” a circulaç ão a pé e a possibilidade de se for ou da “qualidade de vida”. Entretanto, não se mar um circuito de vizinhança que pode aos pode considerar que a área seja socialmente poucos consolidar uma zona moral, típica de homogênea, sobretudo vista através da ori área de classe média. Além do mais, estão gem de seus moradores recentes e suas dife presentes aí os quatro fatores ressaltados por rentes configurações socioculturais. São indi Jane Jacobs como sendo indispensáveis para a víduos e famílias de diferentes origens dentro geração da diversidade urbana, quais sejam: da própria cidade, muitos com recente inser a multiplicidade de usos primários garantindo ção na classe média, guardando, portanto, va que diferentes pessoas sejam capazes de utili lores variados no que se refere à estética do zar boa parte da infraestrutura em diferentes lugar. Justamente aqueles oriundos de áreas horários; a necessidade de quadras pequenas; de menor prestígio são os que insistem nessa a mistura de edifícios de idades e estados de mudança no estilo de vida, seja pela proximi conservação variados e certa densidade resi dade da praia, seja pelas vantagens comerciais dencial (Jacobs, 2003). Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 429 Brasilmar Ferreira Nunes Entretanto, mesmo com tais condições de do anonimato, mas aquele onde dispomos vida urbana, não se pode desconsiderar o fato facilmente do direito de ser anônimo, de não de que a rápida e excessiva valorização do so atrair as atenções ou os olhares. Temos aqui, lo no bairro pode vir a se configurar como um portanto, a possibilidade de “redefinir a situa fator de risco para tal diversidade. As leis de ção”, ou seja, de negociar permanentemente mercado têm potencial de redefinir o perfil mé seus territórios. Haveria assim uma lógica entre dio dos moradores, bem como alterar o próprio a segregação do espaço e a segregação das si comércio local. Porém, essa dinâmica é sempre tuações, que segundo Joseph (2007) nos leva acompanhada pela diversificação, sobretudo à microssociologia interacionista, ou a uma das atividades de comércio e serviços. Esse mo dramaturgia do social baseada nas técnicas de vimento é de médio prazo e está relacionado representação do eu (arte das fachadas e pala com outras variáveis, das quais a estabilidade vras das circunstâncias). econômica geral é importante. A classe média Nesse jogo de representações, há dimen se expande através da expansão das atividades sões que marcam territórios identitários. Pode do terciário e tudo indica que o caminho será mos avançar afirmando que a moradia termina esse, caso os ganhos salariais de seus assala desempenhando esse papel de defitichazador, riados estejam num círculo ascendente. pois o lugar de moradia na cidade termina sen do um indicador do lugar social do indivíduo: define um padrão e um modo de vida ou pelo As características dos imóveis residenciais menos o representa. Assim, circulando em dife rentes zonas da cidade, a opção pelo anonima to é um dado de realidade, porém o endereço restringe essa possibilidade. Já assinalamos, Sociologicamente, o que é questão nas análi anteriormente, que os grupos, pela moradia, ses da vida urbana é a natureza dos espaços tendem a se aproximar, agindo via mecanismos públicos e a sua relação com o mundo privado, de atração (de iguais) e repulsa (do diferente) ou seja, o lugar da moradia. Se a cidade é hoje através inclusive da mediação de mercado. um laboratório social atravessado pela questão Essa dinâmica produz áreas homogêneas do território, por suas fronteiras, as divisões dentro da heterogeneidade das construções que caracterizam as sociedades urbanas não urbanas. Entretanto, é nas particularidades dos podem ser compreendidas apenas com a utili projetos que a homogeneidade se apresen zação de abordagens clássicas do espaço. É a ta. Para o Jardim Icaraí que estamos tomando natureza do vínculo social que se apresenta co como ilustração, e tomando os lançamentos mo problemática nos discursos atuais, sobretu imobiliários recentes na área, são recorrentes do quando se reflete sobre se o espaço público certas características, que se repetem: salão da metrópole de hoje tem um ambiente onde é de festas, piscina, sauna, salão de jogos, lan possível tolerar o intruso, um indivíduo a mais. house, spa/hidromassagem, churrasqueira, es Mas é importante deixar claro que esse espa paço fitness.Os apartamentos oferecidos por ço público não é, necessariamente, o espaço esses novos empreendimentos, assim como 430 Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 Práticas territoriais da classe média urbana as áreas de lazer comum, partilham de carac tchan! Eles usam aqueles vidros verdes”. Ou terísticas que se mostram constantes: todos tra interlocutora fala ainda com orgulho da sua possuem varanda, pelo menos uma suíte e “portaria climatizada e da mesa redonda com pelo menos uma vaga na garagem. Vendidos um lustre acima igualzinho ao projeto...”. na planta, a maioria permite que o proprietá As áreas comuns de lazer são muito mar rio proponha alguma mudança do espaço no cadas pela presença de diversos objetos de período da compra, agindo enquanto elemento corativos como vasos, quadros, flores, etc. Da de diferenciação e de expressão de subjetivida mesma forma, é repleta de móveis e aparelhos de. Além do mais, como são entregues limpos, como cadeiras tipo espreguiçadeiras, pufes, até mesmo sem lâmpadas, há maior liberdade televisões, videogames e brinquedos para os para deixá-lo do jeito que preferir. pequenos. Parece haver uma expectativa de A planta do apartamento é constante transformá-las em uma extensão da casa, num mente citada como elemento influenciador na ambiente acolhedor e propício às interações escolha do prédio: “o que mais me chamou sociais, pois “não há necessidade de sair daqui atenção aqui foi a planta do apartamento, gos para nada, você recebe seus amigos aqui mes to do tamanho da minha cozinha, é o mesmo mo...”. Porém, Simmel (1979, p. 12) nos fala da de um apartamento antigo, dá até para colocar impessoalidade das metrópoles, da raridade de uma mesa”. Ou ainda é a área de lazer comum contatos íntimos entre moradores em compa dos prédios que divide com a planta a prefe ração com os contatos externos. Muitos dos rência dos compradores. Jovens e crianças são moradores mais antigos dos prédios conheciam sempre mencionados como os que mais se be seus vizinhos “apenas de vista” ou então afir neficiam desses espaços, mesmo por aqueles mam que “aqui as pessoas são mais distantes, que ainda não têm filhos: “área de lazer era al mais frias”. Assim, se essas áreas de lazer se go que eu prezava até mesmo porque pretendo propõem de fato a atuar como extensões da ter filhos e não queria morar num prédio que própria casa são, da mesma forma, utilizadas não tivesse isso”. A questão do status apare muito mais para consolidar círculos de amiza ce mais uma vez na fala de uma moradora que des preexistentes do que com vizinhos. diz: “aqui atendeu ao que eu queria em termos O que é digno de ressaltar é que tais de investimento e também tem coisas que as características funcionam como um mecanis pessoas valorizam”. mo de atração e de seleção dos compradores, Finalmente, o estilo arquitetônico e os gerando um espaço social com características componentes dos ambientes externos dos pré comuns. A atração de novos moradores, sele dios (materiais utilizados na construção, obje cionados por um padrão econômico e estético tos presentes na decoração da portaria, etc.), peculiar que oferece um estilo de vida adequa remetendo a um estilo moderno, também são do, age como um filtro que seleciona os “se valorizados pelos moradores. Demonstram or melhantes”, funcionando como mecanismo gulho ao se referirem à fachada ou ao “visual” classificatório. do prédio: “olha que bonito, não é para ficar de A aquisição de um apartamento em um peito estufado?”, ou ainda: “o visual tem um imóvel com características que correspondem a Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 431 Brasilmar Ferreira Nunes um padrão específico de vida só se torna pos sível uma vez que os indivíduos que almejam comprá-lo se ponham em disputa no mercado Esboço para uma conclusão geral e disponham de recursos econômicos para ob ter o bem desejado.13 É comum o argumento Os aspectos diversos que contêm a decisão de justificando a compra do apartamento como morar em determinada área da cidade e não uma valorização do patrimônio ou como um em outra guardam uma lógica peculiar que investimento seguro. Falam ainda na aquisição procuramos decodificar. Estamos longe da afir de “um bem que ninguém vai te tirar!”. Po mativa weberiana, para quem o que caracteri rém, estamos nos perguntando se seria cabível za sociologicamente a cidade são as relações a definição desses indivíduos como sendo um de vizinhança (Weber, 1979). Se essa assertiva grupo de status. De fato, muitos dos atributos pode se aplicar para as cidades da pré-moder definidores dessa categoria conceitual, confor nidade, Simmel vai insistir que agora há outro me tratados por Weber em texto anteriormente fator importante na cidade, que é justamente a citado, podem ser encontrados no caso que es possibilidade do anonimato. Estamos em dife tamos tomando como exemplo; até mesmo nos rentes níveis de análise: a divisão do trabalho anúncios publicitários dos lançamentos podem social leva à especialização de ofícios e ativida ser observadas essas proximidades. des que, por sua vez, se baseia nas trocas mo 14 Entretanto, a advertência feita por Becker netárias para se manter e reproduzir. Assim, é a quanto à escolha que o pesquisador deve fazer aglomeração no território que sustenta e ofere entre deixar a categoria conceitual definir o caso ce as condições gerais para a divisão do traba e deixar o caso definir a categoria (Becker, 2008) lho; sem dúvida, temos aí uma das explicações não deve ser esquecida. Ao se optar pela primei para a atração que a cidade oferece. Sendo lu ra alternativa, perdemos parcela significativa da gar de mercado, produz fatos sociológicos pe complexidade própria da realidade e deixamos culiares que, segundo Weber (ibid.), seriam as de investigar aspectos do nosso caso apenas relações de vizinhança. por não fazerem parte da descrição da categoria Entretanto, na medida em que estamos com a qual trabalhamos. Faz sentido, portanto, considerando as trocas monetárias via merca incluir todos os aspectos do caso em nossa aná do, temos que levar em conta que a concorrên lise, mesmo que a categoria conceitual não dê cia é parte constitutiva da relação. Isso produz espaço para eles. Assim, tomando nosso caso co mecanismos de diferenciação de produtos e mo referência, a honra de status está diretamen preços caracterizando uma oferta geral de te ligada a uma situação de classe envolvendo bens e serviços profundamente diversificada, proprietários em competição no mercado por variada. O jogo de mercado é então um pro bens altamente valorizados. De maneira alguma cesso contínuo de inovações, onde o que se o “ter” se opõe ao “ser”. As distinções pessoais oferece varia quantitativamente e, sobretudo, não entram em contradição com as pretensões qualitativamente. Na medida em que a própria de aquisição puramente econômicas, que segun mercadoria trabalho entra nessa lógica, há nas do Weber é próprio das “classes”. esferas individuais a permanente expectativa 432 Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 Práticas territoriais da classe média urbana de diferenciação para obter melhores resulta considerar, portanto, que a necessidade de dos na concorrência. Submetido a estímulos reconhecimento é o que move as tentativas permanentes, o indivíduo tem seu psiquismo de interação entre as pessoas e garante certa envolto numa série ininterrupta de sensações identidade social mantendo-as partes de um cotidianas. O fenômeno é tanto na esfera da grupo. É na metrópole onde essas possibilida qualificação profissional, na procura de méritos des são mais disponíveis, pois o ambiente so de distinção, até na dimensão física, corporal cial é de profunda heterogeneidade, permitindo e no estilo de vida que se pode praticar. O ar escolhas eletivas. gumento de Simmel é que se desenvolvem aí Seria, assim, através de processos de in estratégias de “sobrevivência” psíquica com teração social que se produz a sociedade, seja o aparecimento do instinto de reserva ou até mercantil ou não. Marcel Mauss, estudando o mesmo da atitude blasé (Simmel, 2007). Assim, regime das trocas em sociedades arcaicas, nos aquilo que para Weber caracterizava sociologi lembra que a interação ali presente não se re camente a cidade pré-moderna, e poderia ser sumia a uma simples troca de bens, de riquezas lido como algo positivo, em Simmel passa a ser ou de produtos num mercado estabelecido en visto como fonte de perturbação: a inexorabili tre os indivíduos. Insiste o autor: dade do fenômeno é que daria o substrato para seus argumentos sobre a “tragédia da cultura”. Fizemos referência, ao longo do texto, ao fato de que no capitalismo não há relações de classe e sim relações de dominação e um grupo se sobressai ante os demais. Ao mesmo tempo, lembramos que há sim produção de relações e que essas se dão nas esferas da circulação e do consumo e onde o espaço urbano é privile giado para suas manifestações. Simmel insiste sobre a placidez da vida em pequenas cidades ou no campo, comparada ao que se passa na metrópole, onde a racionalidade da vida é leva da ao extremo. Entretanto, o ser humano é um ser social e tem mecanismos de sociação que [...] em primeiro lugar não são indiví duos, são coletividades que se obrigam mutuam ente, trocam e contratam as pessoas presentes ao contrato são pes soas morais: clãs, tribos famílias (grifo nosso) que se enfrentam e se opõem seja em grupos frente a frente num terreno,.... Ademais o que eles trocam não são ex clusivamente bens e riquezas, bens mó veis e imóveis, coisas úteis economica mente. São, antes de tudo, habilidades, banquetes, riquezas, serviços... dos quais o mercado é apenas um dos momentos, e nos quais a circulação de riquezas não é senão um dos termos de um contrato bem mais geral e bem mais permanente. (Mauss, 2007, p. 190) garantem um mínimo de interação, ao risco de acabar com o que se entende por sociedade. Percebemos assim que a troca é um fenôme Discutindo o caráter abstrato da sociologia, no pré-mercado capitalista, o substrato mesmo Simmel procura entender o que acontece com da sociedade. Lévi-Strauss, em sua célebre in os seres humanos e segundo que regras eles trodução à obra de Marcel Mauss, adverte ser se movimentam quando, em virtude de seus da natureza da sociedade que ela se exprima efeitos mútuos, formam grupos e são determi simbolicamente em seus costumes e em suas nados por essa existência em grupo. Podemos instituições: Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 433 Brasilmar Ferreira Nunes [...] ao contrário, as condutas individuais normais jamais são simbólicas por elas mesmas (grifo no original), elas são os elementos a partir dos quais um sistema simbólico, que só pode ser coletivo, se constrói. (Lévy-Strauss, 2007, p. 17) A teoria social ainda não consegue de finir claramente o estatuto desse grupo, dada a indefinição, seja na natureza do mercado de trabalho, seja nos próprios valores morais. Seria suficiente talvez reafirmar a definição de “clas ses médias” corrente no debate sobre as socie São essas reflexões que nos ajudam a concor dades pós-industriais da segunda metade do dar com a assertiva maussiana segundo a qual século XX. É possível situá-las a partir de três “sociedade é símbolo”, nos valermos do pen grandes referências complementares, próximas samento de Simmel para quem de uma descrição do que propriamente de uma [...] a sociologia extrai dos fenômenos uma série ou uma parte da totalidade e a subsume a um conceito específico através de processos de abstração e estudar, por exemplo... os resultados da luta de classe sem entrar nos detalhes do curso de uma greve ou das negociações em torno de uma taxa salarial. (2006) definição: 1) as classes médias seriam aque las cujo nível de remuneração se aproxima da média; 2) seriam definidas pela posição inter mediária de seus membros nas hierarquias so ciais e profissionais, assim como na escala das qualificações, marcados por uma competência e um poder de organização; e 3) se definiriam em função de um sentimento de pertencimen Aquilo que Mauss observa para as socie to, menos estático que dinâmico, notadamen dades que ele estuda é significativo para nos te pelo fato de identificar seu destino – ou o sas reflexões. As trocas mercantis, hoje ainda, de seus filhos àquele do grupo intermediário guardam a sua essência de “atos coletivos” (Tourraine,2007, p. 17). abstratos, mesmo quando aparecem como sen O fato é que seu universo privilegiado do resultado de decisões individuais. A aquisi são as metrópoles, onde gozam das possi ção de um imóvel para moradia tem elementos bilidades de um anonimato onde podem se que contribuem para a formação de sistemas apresentar segundo critérios racionais, meri simbólicos que só podem ser coletivos, como tocráticos, escapando dos códigos tradicionais afirma Lévi-Strauss. Talvez tivéssemos que in de aquisição de prestígio, dos quais a origem corporar na análise a natureza das sociedades familiar é uma das principais características. modernas com seus sistemas de classes e seus Entretanto, suas estratégias de reprodução regimes de criação de esferas de prestígio so e de manutenção de prestígio vão sendo aos cial. No caso que exemplificamos no presente poucos consolidadas à medida que se firmam artigo, trata-se de um grupo de classe média no cenário do mercado de trabalho (terciário) urbana, com história relativamente recente na e se beneficiam das vantagens que o sistema sociedade brasileira, mas que pelas facilidades garante a segmentos sociais específicos. Não de consumo que detém consegue gerar um sis há dúvidas de que a moradia é um dos ele tema de valores peculiar, envolvendo um estilo mentos mais visíveis de uma posição social, de vida próprio. cuidadosamente cultivada por esse segmento. 15 434 Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 Práticas territoriais da classe média urbana Giddens é enfático quando afirma que “o mais a particularidade nos ajuda a entender a tota importante dos fatores que promovem uma lidade. Isso justifica a nossa ênfase na noção diferenciação geral entre trabalhadores white de “belo”, em que a estética passa a ser um -collar e blue-collar são os agrupamentos dis instrumento de diferenciação que identifica tributivos formados pela “aglomeração” de um grupo social através de padrões estéticos vizinhança e por certos tipos de formação de comuns ou similares. Esse recorte nos é útil grupos de status. inclusive para analisar as formas estéticas em 16 Nossa opção em exemplificar a análise a áreas populares, guiadas por princípios idênti partir de um caso foi no sentido de obedecer cos, porém com parâmetros próprios. Mas isso a uma orientação simmeliana, segundo a qual é assunto para outro artigo. Brasilmar Ferreira Nunes Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense. Pesquisador do CNPq e da Faperj. Rio de Janeiro, Brasil. [email protected] Notas (*) O autor agradece o trabalho de Natalia Carneiro Campagnani, estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense e bolsista PIBIC, na pesquisa empírica e nas discussões que deram origem ao texto. (1) Simmel se interrogando sobre a maneira como quantidade induz à qualidade (da pequena cidade à metrópole), argumenta que a partir de certo ponto as conexões se multiplicam ao mesmo tempo em que o individuo ganha em liberdade de movimento e a grande cidade ganha autonomia de personalidades únicas. Por exemplo, o estatuto de metrópole de Weimar se ligava a figuras eminentes e desaparece com elas, enquanto a grande cidade [é] precisamente caracterizada pela sua independência fundamental em relação a personalidades ilustres (Simmel apud Rémy, 1997, p. 66). (2) Ver a respeito: Simmel, G. (1998). (3) A terceira esfera tratada por Weber é a “política”, cuja análise é feita a partir da noção de poder. Não iremos tratar dessa esfera nos quadros deste artigo. Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 435 Brasilmar Ferreira Nunes (4) Uma ilustração desse fato é, por exemplo, durante catástrofes naturais, quando áreas precárias das cidades são atingidas e destruídas. Nesse momento, a comoção da perda do abrigo é reveladora do apego que o imóvel tem para seus moradores, independentemente de suas qualidades materiais. (5) A análise sobre o mercado imobiliário de alta renda na Região Parisiense é exemplar a este respeito. Ver Pinçon e Pinçon-Charlot (1989). (6) Claro que estamos considerando estabilidade de emprego e renda. Em momentos de crise, essa situação pode se alterar, porém raramente chega ao nível das sociedades emergentes. (7) A sociologia discute com parcimônia a dimensão estética, que de maneira diferenciada tem, de fato, sentido profundo a todos os indivíduos e grupos. Na medida em que ela é confundida com a dimensão econômica (“o belo é de alto custo”), se perde de vista que todos se submetem a padrões estéticos nessa aventura que é a vida em sociedade.”Eis o que foi sem dúvida, depois de sempre, a vocação essencial da arte: evidenciar... em um material sensível (cor, som, material...) uma verdade considerada como superior” (Ferry, 1990, p. 16). (8) “Secularização e humanização são duas palavras-chave destas variações às quais conviria prestar um instante de atenção para se inserir com mais segurança nas discussões atuais” (Ferry, 2005, p. 16). (9) Na esfera das “relações de produção”, não se pode dizer que haja relações de classe. O que há é a exploração de uma classe sobre outra e a imposição de seus interesses como legítimos. (10) Vamos deixar claro que a esfera do consumo é acessível a todos, desde que detenham recursos materiais/monetários. Assim, da mais baixa à mais elevada renda, todos participam segundo suas possibilidades do consumo, sobretudo na vida urbana e metropolitana, onde a moeda é o instrumento privilegiado de interação social. (11) Por exemplo, ruas mais tranquilas, trânsito menos intenso. (12) As alusões à rua da praia de Icaraí e à Cel. Moreira César, ambas em Icaraí, são constantes e servem de referencial para a reprodução de um estilo de vida no bairro vizinho. Comparam o comércio de seu bairro com o do vizinho: “aqui é bem servido das necessidades básicas como padaria, farmácia, mas ainda não tem tantas lojas de roupas e presentes como a Moreira César que é um shopping a céu aberto”. (13) No momento de realização da pesquisa, no segundo semestre de 2010, os preços dos apartamentos de dois quartos oscilavam em torno de R$250.000,00, enquanto os de três quartos custavam em média R$350.000,00. Porém, é importante ressaltar que o aumento nos preços desses imóveis se dá de forma extremamente rápida, vide a valorização da área em questão e em poucos meses, até mesmo durante o período das obras, os preços podiam chegar a R$400.000,00 e R$600.000,00, respectivamente. (14) Os preços dos apartamentos variam segundo o prestígio da rua onde se localizam. Apartamentos adquiridos na planta têm um imediato aumento de seu valor logo na entrega das chaves ou mesmo no período das obras, caracterizando um investimento financeiro praticamente sem riscos. (15) O estatuto teórico da “classe média” não é contemplado pela teoria marxista, sendo estudada principalmente pela sociologia anglo-saxônica (Stuart Mills, Giddens, etc.). A denominação de “White collars” é a que mais se popularizou para caracterizá-la (Giddens, 1975). 436 Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011 Práticas territoriais da classe média urbana (16) Mais ainda: “a força da tendência à separação de vizinhança é inegável em especial nas sociedades capitalistas... a maior segurança de emprego, característica do trabalho white-collar, geralmente leva a uma disponibilidade maior de empréstimos para habitação e hipotecas”(Giddens, 1975, p. 225). Referências BECKER, H. (2008). Segredos e truques da pesquisa. Rio de Janeiro, Zahar. BOURDIEU, P. (1980). Le sens pratique. Paris, Minuit. FERRY, L. (2005). Le sens du beau: aux origines de la culture contemporaine. Paris, Librairie Générale Française. GIDDENS, A. (1975). A estrutura de classes das sociedades avançadas. Rio de Janeiro, Zahar. GOFFMAN, E. (1989). A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis, Vozes. JACOBS, J. (2003). Morte e vida de grandes cidades. São Paulo, Martins Fontes. JOSEPH, I. (2007). L´athlète moral et l´enqueteur modeste. Paris, Econômica. 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Texto recebido em 15/jan/2011 Texto aprovado em 9/maio/2011 438 Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011