Práticas territoriais da classe média urbana:
o Jardim Icaraí em Niterói/RJ
Territorial practices of urban middle class:
Jardim Icarai (Icaraí Garden) in Niterói/RJ
Brasilmar Ferreira Nunes*
Resumo
Discutimos, no presente artigo, a partir do pen­
samento de Georg Simmel, algumas hipóteses sobre
o sentido que o espaço residencial nas metrópoles
contemporâneas representa para seus ocupantes,
particularmente como mecanismo de classificação
social. Privilegiamos autores da ciência social,
procurando articular diferentes abordagens que,
na nossa leitura, se complementam e ajudam na
compreensão da lógica social urbana. Tomamos
como referência para ilustrar nossas reflexões uma
área de classe média na cidade de Niterói-RJ que
pelas suas características nos oferece o pano de
fundo para elaborarmos algumas considerações.
Abstract
In this paper we discuss, from the thought of Georg
Simmel’s , some assumptions about the meaning
of the residential space in the contemporary
modern metropolis for its occupants, particularly
as a mechanism of social classification. Favoring
authors of social science, we have tried to articulate
different approaches that, in our interpretation,
are self-complementary and that would help us to
understand urban social logic. In order to illustrate
our reflections we took as a reference a middle
class area in Niteroi, RJ whose characteristics
provided us with the necessary background to
elaborate some considerations.
Palavras-chave: metrópole; classe média; habita­
ção; estética urbana; sociabilidades urbanas.
Keywords: metropolis; middle class; housing;
urban aesthetics; urban sociability.
Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011
Brasilmar Ferreira Nunes
Situando a questão
seja nas metrópoles, em Simmel se trata de
um aglomerado de pessoas com interesses
divergentes, divergências essas que oferecem
Georg Simmel tem inúmeros textos, a maioria
a sinergia para que cada um seja estimulado
ensaios, que tratam de questões que podem ser
a realizar as mais elevadas performances, ali­
úteis para uma análise sociológica da metrópo­
mentando a dinâmica da troca.
le em sociedades de mercado. Entretanto, sem
A diferença entre os dois modelos de ci­
dúvida, dois deles, com inúmeras edições, são
dade em Simmel não é numérica: se sustenta
referências obrigatórias: A metrópole e a vida
em razão do potencial de centralidade que a
mental e O Estrangeiro . São textos clássicos
aglomeração apresenta. De maneira dialética,
da sociologia urbana que alimentaram o pen­
Simmel vai insistir que a centralidade se mani­
samento social sobre a cidade, seja na Europa,
festa na medida em que a cidade expande sua
seja nas Américas, desde suas publicações em
influência externa. Entre maior concorrência
fins do século XIX.
e mais complexa divisão do trabalho há um
Há ali a síntese de um pensamento com­
contexto que leva ao enriquecimento geral.
plexo e sofisticado, que ultrapassa leituras tra­
Estabelece-se assim um círculo que se autoali­
dicionais do social. São atuais mais de um sé­
menta, fazendo da metrópole um “centro” eco­
culo depois de escritos, apesar de todas as mu­
nômico com capacidade de expandir e ampliar
danças que a vida social nas metrópoles vem
sua área de influência. Assim, um aglomerado
experimentando ininterruptamente. Antes de
de população pode ser denso, heterogêneo,
Freud, ele já apontava para os efeitos psíqui­
de grande dimensão e não possuir o potencial
cos que a multidão produz nas mentalidades
de centralidade evocado por Simmel. A metró­
individuais, e encontra Weber, por caminhos
pole, por outro lado, adquire uma autonomia
diferentes, quando argumenta que a grande
que historicamente faz dela uma forma e um
cidade, na medida em que instaura um padrão
conteú­do, sede da economia monetária, mes­
de sociabilidade específico, é um operador que
mo antes do aparecimento do capitalismo mo­
institui a racionalidade na vida cotidiana. De
derno.1 E aí talvez fosse útil insistir que quando
fato, Simmel dá lugar de destaque à cidade em
Simmel, a todo o momento, afirma que a gran­
seus escritos, tanto quanto Karl Marx o fez com
de cidade é sede da economia monetária, não
o mundo do trabalho e Max Weber com o pro­
se refere a uma dimensão estatística, mas sim
cesso de racionalização na era moderna.
à função de centralidade.
Enquanto Weber prioriza suas análises
A pequena cidade aparece em suas aná­
sobre a cidade até o século XVIII, Simmel, pa­
lises como se fosse para compreendermos por
ra quem Berlim era o protótipo da metrópole
contraste a originalidade da metrópole. Há nas
moderna, se debruça sobre a grande cidade da
entrelinhas de seu pensamento a possibilidade
modernidade. Suas reflexões sobre a cidade se
de uma metropolização do conjunto da socie­
constroem a partir de uma oposição entre a pe­
dade, o que terminaria com a distinção entre
quena cidade e a grande cidade, ou a metrópo­
os dois modelos de cidade. Isso poderia ser
le na modernidade. Seja nas pequenas cidades,­
decorrência da generalização da moeda nas
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Práticas territoriais da classe média urbana
interações­da vida cotidiana que daria primazia
podemos­considerar que ninguém escapa da
ao intelecto sobre as demais dimensões da vida
sociedade e terminamos por nos adequar às re­
subjetiva. É nessa dinâmica contraditória entre
gras sociais definidas exteriormente a nós.
o mundo exterior, materialista, monetarizado,
São diferentes as esferas nas quais os
racional e o mundo interior, onde predominaria
sistemas classificatórios se constroem e po­
a subjetividade, que Simmel vai elaborar o seu
demos considerar a proposta weberiana das
argumento sobre a “tragédia da cultura”, fe­
esferas econômica, social e política, cada qual
nômeno típico da modernidade urbana, metro­
com suas­regras e seus conceitos peculiares. A
2
politana. De certa maneira, aqui também ele
esfera econômica tem no conceito de “classe”
se antecede ao “O mal-estar na civilização” de
a sua unidade de análise principal. Estamos,
Freud, para quem a vida em sociedade pressu­
portanto, considerando, como o autor, que clas­
põe uma dose de sofrimento à qual estaríamos
ses seriam aqui tratadas como uma dimensão
todos submetidos. O individuo blasé, a atitude
da esfera econômica e vão estar condicionadas
de reserva, são duas categorias de análise que
às leis do mercado, da oferta e demanda por
nos ajudam a compreender a predominância
trabalho e seus níveis de remuneração monetá­
do intelecto, ou da racionalização, nos vínculos
rios. Como é incisivo em Weber, “classe é uma
sociais. Para Simmel, a reação do psiquismo
situação de mercado” (1981, p. 65).
nas interações que se passam nas metrópoles
No entanto, não é possível permanecer
seria uma apropriação ativa do contexto com
apenas nesse nível analítico para explicar os
vistas a exercer uma individuação e a liberdade
fenômenos sociais, pois é um enorme redu­
garantidas pelo anonimato (Remy, 1997, p. 64).
cionismo restringir, por exemplo, a sociedade
Pois bem, essas reflexões gerais nos
aos muros de uma fábrica ou às relações de
servem de referência para tratarmos de nos­
trabalho. Nesse sentido, a esfera social surge
so interesse neste artigo. Consideramos que a
em Weber­ como um elemento adicional na
relação indivíduo e sociedade é complexa, no
compreensão do espaço social. Sabemos, por
sentido em que dimensões particulares se en­
exemplo, que indivíduos na mesma faixa de
trecruzam com dimensões maiores, num ema­
renda têm muitas vezes padrões de consumo
ranhado de significados que, em última instân­
ou estilos de vida completamente diferentes.
cia, estão na base dos sistemas classificatórios
Assim, se na esfera econômica os sistemas
em sociedade. De fato, a vida em sociedade é
classificatórios são basicamente quantitativos
construída por trajetórias individuais que se
– quanto? – eles esbarram na esfera social,
definem dentro de parâmetros grupais, de tal
onde as dimensões qualitativas da vida se ma­
maneira que as exceções são consideradas ex­
nifestam – como?.
centricidades, e todos terminam por se adaptar
Na ordem social, a unidade de análise é
a estilos mais ou menos aceitos pelo grupo ao
o status que é percebido por outros critérios
qual pertencem. Temos sim um grau de auto­
diferentes dos quantitativos. Weber insiste que
nomia relativo que é estreito, porém raramen­
ao fim e ao termo o econômico e o social ter­
te estamos dispostos a romper radicalmente
minam por se autocondicionar. Entretanto, pa­
com os padrões vigentes. Em outros termos,
ra efeito de análise, é importante analisá-los
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separadamente,­tendo em vista que guardam
maior autonomia de escolha da moradia, ou­
uma autonomia relativa em face dos demais e
tras dimensões entram em cena para fazer
só iremos compreender as lógicas implícitas se
valer seus critérios classificatórios. Isso nos
conseguirmos focar no específico de cada um
leva a considerar que o espaço construído da
deles. Em outros termos, os sistemas classifica­
cidade se guia, na sua produção, por valores de
tórios em sociedade são tanto de natureza eco­
classe e de status. Vejamos mais de perto esse
3
nômica como social.
argumento.­
Essa lógica é comum às metrópoles con­
temporâneas, cada qual fazendo valer seus
A lógica social e estética
do espaço construído
critérios de renda, além, é claro, de valores
culturais. Entretanto, essa separação das mora­
dias por renda no território não reduz o espaço
social da cidade a lógicas homogêneas. Conti­
Para entendermos a lógica social do espaço
nuam valendo regras de classificação, porém
construído, teremos que utilizar ambas as es­
imóveis nos melhores endereços não somente
feras que se guiam por princípios passíveis de
são os mais caros, mas geralmente também
decodificação. Sabemos que, por exemplo, o
são os maiores e de melhor qualidade. Imóveis
mercado imobiliário organiza o território da ci­
mais usados, que não atendem ao padrão mé­
dade por faixas de renda, e um olhar apressado
dio do comprador (por qualidade ou área, por
vai apontar algo que aparentemente obedece
exemplo) são adquiridos por grupos e famílias
às regras do bom senso: altas rendas preferem
de menor renda, garantindo o caráter social­
residir próximas aos seus semelhantes, da mes­
mente misto do bairro urbano. Queremos insis­
ma forma que baixas rendas também têm essa
tir que esses critérios de escolha do imóvel não
preferência. No entanto, essa “coincidência” de
se aplicam apenas às metrópoles europeias ou
gostos de lugar de moradia ou de lugar para
norte-americanas; na América Latina e no Bra­
habitar por faixas de renda tem componentes
sil, com a rápida industrialização e a formação
que escapam ao observador desavisado. Há
de uma classe média urbana com recursos ali­
uma conjunção de aspectos que levam a que
menta essa regra, que pode ser aplicada, como
determinados grupos procurem certas áreas e
veremos adiante. Assim, o contexto ambiental,
não outras. Sem dúvida, a valorização mone­
seja do imóvel, seja da área em que ele se situa
tária do imóvel é importante, pois através dos
contribui para a determinação dos moradores
preços a seleção é feita com base nas rendas
que optam, como vemos, por ambientes onde
das famílias, via mercado. Porém somam-se a
práticas simbólicas do grupo possam ser exer­
esse dado, fortalecendo naquilo que lhe é pe­
cidas. Isso explica, por exemplo, por que se op­
culiar, outras unidades de medida, tais como
ta por certo imóvel mesmo não tendo o padrão
acessibilidade, oferta de serviços e equipamen­
de renda médio da área, ou seja, se endividan­
tos urbanos, padrões urbanos das construções,
do para garantir um estilo de morar e de viver,
etc., que pesam na decisão da escolha. Em
uma estratégia peculiar a grupos que valorizam
outras palavras, por mais que a renda garanta­
o status.
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Não se pode negar que nossas grandes
charme­de um bairro privilegiado. Residir em
cidades são unidades urbanas heterogêneas,
tais endereços significa um privilégio que se
com uma importante parcela de seu espaço
procura e pelo qual quem pode pagar está dis­
construído escapando às características qua­
posto a desembolsar valores elevados.5
litativas dos imóveis. São áreas pauperizadas,
Retomando Simmel e considerando os
pobres, muitas vezes clandestinas, que surgem
elementos acima, não é fora de propósito con­
como espaços construídos sem critério ne­
cordar com o autor, para quem se a cidade gera
nhum, apenas a necessidade. Poderia, portanto,
formas de sociabilidade, ela pode também ser
ser colocada a questão sobre a manifestação
lida como o lugar de emergência de formas es­
da ordem social também nessas áreas. De fa­
téticas. Os dois aspectos devem ser colocados
to, basta se embrenhar ali, dialogar com seus
em relação, aliás, como Simmel os enxerga. É
morador(a)es para se perceber que há uma
esse mecanismo que faz das metrópoles con­
valorização do imóvel e do lugar que não é
temporâneas, especialmente nas economias de
monetária.­
industrialização tardia, e com elevados níveis
São essas condições de sentido que o
de desigualdade econômica, um mundo de di­
espaço adquire para seus usuários que faz da
fícil domínio. Sobretudo porque a cidade como
cidade, mesmo nos tempos atuais, capaz de
paisagem pressupõe uma troca que significa
agir à maneira de uma grande personagem na
ver e sentir, que não se deixa apreender num
acumulação de experiências novas, ao mesmo
primeiro olhar: a descoberta é progressiva, ja­
tempo em que as integra ao passado. O abrigo
mais imediata. Temos o sentimento de que as
contra as intempéries da natureza, a proteção
coisas são ligadas somente depois de as ter
que um imóvel oferece tem significados para
percebido isoladamente: primeiro, é “preci­
cada um de seus moradores independentemen­
so separá-las para depois reuni-las” (Simmel,
4
te do nível de renda. Por outro lado, tampouco
2007, p. 46) tal como nos aparecerem nos am­
as áreas de altas rendas têm padrões estéticos
bientes com elevada dose de heterogeneidade
homogêneos, numa clara evidência de que ou­
física e social.
tros aspectos entram em questão no momen­
O que muitas vezes gera dificuldades de
to da escolha da moradia. Mais ainda, há, nas
percepção é que essa segregação urbana rara­
diferentes áreas, sistemas classificatórios dos
mente é absoluta. Faz parte da característica
imóveis que fazem com que o mosaico urba­
das cidades a mistura, porém sabemos per­
no tenha lógicas próprias de valoração e de
feitamente quando estamos circulando numa
sentido que se traduz muitas vezes num ape­
área “nobre” comparada a uma “popular” ou
go afetivo ao imóvel e ao lugar. Se assim o é,
de classe média. Além do mais, dependendo
habitar num determinado endereço no bairro é
da natureza do espaço físico da cidade, podem
um indicador de um status social: pode estar
ocorrer extremas variações e dispersões dos
indicando grandes apartamentos, preços eleva­
preços dos imóveis no interior de uma mesma
dos, qualidade da construção superior, aliado
área da cidade, tanto quanto entre as diferen­
a um valor-de-uso do imóvel, na medida em
tes áreas. O fato é que a segregação social
que aponta para uma certa “arte de viver” no
de uma dada sociedade pode ser percebida
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através­da análise da organização de seu ter­
as altas rendas em relação às médias e peque­
ritório, especialmente o residencial: diferentes
nas é enorme, porém não há déficits estrutu­
bairros, muitas vezes opostos em qualidade de
rais de serviços.6 Em contextos similares, as
vida urbana, até mesmo a atmosfera que se
valorações sociais são menos evidentes: forte
sente nas ruas quando nelas se circula, padrão
hegemonia da esfera econômica e a esfera
de lojas e magazines, tudo aponta para uma di­
simbólica, via consumo, tem forte presença na
versidade social.
montagem de sistemas classificatórios. Assim,
frequentar certos ambientes culturais, cursar
determinadas escolas, exercer certas profissões,
Retomando a discussão
sobre as práticas de classe
no espaço urbano
morar em determinadas áreas da cidade são
maneiras de se diferenciar dentro do grupo. Em
contextos similares e tendo já equacionada a
questão econômica, a esfera social assume po­
sição de destaque nos sistemas classificatórios
Temos então elementos analíticos que nos aju­
(se diferenciar, diferentemente!).
dam a compreender parte do sentido que o es­
Em sociedades emergentes, de urbaniza­
paço construído apresenta aos seus ocupantes:
ção e industrialização relativamente recentes
não se podem abstrair as classes sociais nem
temos contextos distintos. Primeiro o gap entre
tampouco o estilo de vida dos grupos. Ambas
as classes de renda chega a ser assustador. Há
as dimensões se completam na explicação e
níveis generalizados de pobreza urbana, convi­
aparecem como elementos de classificação.
vendo com grupos de renda média e alta numa
Assim, não seria apressada a incorporação do
situação tensa e problemática. Isso porque a
conceito de habitus para auxiliar nessa explica­
dificuldade de acesso à renda, à educação de
ção, pois temos que considerar tanto os valores
qualidade para o mercado de trabalho, o siste­
de classe como os de status a fim de darmos
ma de saúde precário, e principalmente um se­
conta da análise material e estética do espaço
tor habitacional popular que beira ao absurdo,
construído. O conceito de habitus, pois, pode
ferindo o bom senso: precariedade das constru­
ser entendido como um sistema de disposições
ções, completa inobservância de regras simples
duráveis interiorizadas pelos indivíduos a par­
de construção, ausência de serviços coletivos
tir de suas condições objetivas de existência
urbanos, etc., fazem de nossas metrópoles am­
(situa­ção de classe) e que funciona como es­
bientes que se pode afirmar se guiam à “dupla
quemas conscientes de ação, de percepção e de
velocidade”. Áreas com padrões urbanísticos
reflexão (posição social) (Bourdieu, 1980).
corretos e adequados, ao lado de uma cidade
Os elementos de classificação social em
sociedades historicamente consolidadas se fa­
clandestina que sobrevive às bordas da área
integrada.
zem por critérios rígidos, porém dissimulados.
Se retomarmos nosso argumento sobre
No geral se tem acesso à renda monetária, à
os sistemas classificatórios em sociedade, po­
educação, saúde, e a habitação é regra geral,
deríamos argumentar que para enormes parce­
motivo de políticas universalistas. O gap entre
las dos moradores urbanos o que os guia nas
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Práticas territoriais da classe média urbana
decisões são as necessidades imediatas, não
humanização da arte, isto é, o aparecimento
havendo muito lugar para a manifestação da
do conceito de estética, que pode ser enten­
esfera simbólica em boa parte de nossas áreas
dido como uma teoria dos efeitos produzidos
metropolitanas. Isso é um equívoco que preci­
por certas realidades sobre nossa sensibilidade.
sa ser enfrentado academicamente. Para tanto,
Em se tratando de um efeito geral que alcan­
optamos por discutir a noção do “belo” que se
ça a todos, independentemente da posição na
manifestaria em diferentes dimensões da vida
estrutura social, podemos supor que todos te­
social e individual. Seja na forma de vestir, de
mos nossos critérios estéticos que refletem a
morar ou a partir de outros aspectos, temos
dimensão econômica (mercado), mas, sobretu­
sempre critérios para optarmos. Ou seja, se a
do, valores subjetivos de indivíduos e grupos,
dimensão econômica é ditada pelo mercado, a
afirmando a natureza política da estética, ou
dimensão social, mais simbólica, se utiliza de
da arte (ou do belo).
7
valores abstratos tais como a estética.
Pois bem, essa individuação da forma
A noção de “belo” guarda relação com
estética é vista por Simmel em conivência com
dimensões variadas da vida individual e social
uma individuação das formas de sociabilidade,
e muitas vezes surpreende. Trata-se de uma
a qual tem na metrópole o lugar de convergên­
noção subjetiva e tem relação no essencial
cia e amplificação de diversos processos de
àquilo que agrada ao nosso gosto, à nossa
transformação nos tempos atuais. Se somar­
sensibilidade. Podemos considerar de início
mos os diferentes sistemas classificatórios, ve­
o caráter histórico dessa noção. Ferry (2005)
remos que estamos todos inseridos em proces­
argumenta sobre a emergência de um univer­
sos que nos posicionam dentro do social, numa
so laico no qual os seres humanos vão se pre­
incessante passagem da dimensão social para
tender, enfim se pensar como os autores, os
a individual e vice-versa. Ocupar um lugar no
criadores de sua história, mas também de sua
social será, portanto, o resultado de nossas
cultura. Argumenta o autor que na Antiguida­
ações, que já seriam também produto de po­
de a verdade na arte era, primeiro, expressar
sições já existentes (agimos de acordo com o
a harmonia do cosmos; nas religiões mono­
que nos foi ensinado seja pela família, círculo
teístas é a grandeza e o sublime do divino;
de relações, sistema educacional, etc.). Signi­
nas democracias humanistas atuais, a arte é
fica assim que a adoção de um determinado
a expressão da profundidade e da riqueza do
valor ou estilo de vida indica a adequação aos
gênio humano (ibid., p. 16). Em síntese, o que
valores de certo círculo social, compartilhando
se pode argumentar é que em lugar de refletir
de suas convenções. Sem dúvida, na cidade,
uma ordem exterior aos homens (cósmica ou
a moradia é um dos elementos principais na
religiosa), a obra de arte vai se transformar,
explicitação de um sistema de valores estéti­
nas sociedades modernas, na expressão da
cos individuais e de classe. E onde ela é uma
personalidade de um indivíduo.
8
Vivemos, portanto, um fenômeno peculiar
e original na modernidade, que é justamente­a
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evidência maior é nas preferências estéticas da
classe média urbana, argumento que iremos
tentar demonstrar aqui.
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A individualidade expressa
na moradia
estrutura­física possa ser efeito de uma lógica
de exploração. Portanto, há situações em que
a dominação não é necessariamente exerci­
da tendo em vista a exploração. Isso poderia
Refletir sobre a realidade social a partir do
ser o caso de sistemas socioculturais em que
conceito de classes, desde que adequada­
a dominação, por exemplo, propicia aos seus
mente entendido, constitui efetivamente um
beneficiários vantagens outras que não a ex­
construto teórico de valor incomparável. Po­
ploração de mais-valia (por exemplo, no pa­
rém, evitaremos aqui o debate sobre a “luta
triarcalismo). Poderia também ser o caso de
de classes”, no qual invariavelmente se cai
práticas da vida cotidiana quando certos valo­
quando o recorte analítico considera a estrutu­
res sociais válidos para determinados grupos
ra social como uma estrutura de classes e que
são impostos como legítimos para o conjun­
a mudança se dá como resultado de uma luta
to dos grupos da sociedade. Aqui, na esfera
entre as classes. Nessa concepção, poderíamos
simbólica é que se daria a verdadeira luta por
explicar os processos de mudança, porém tería­
hegemonia: quando valores de uma classe são
mos dificulda­des para justificar a estabilidade
transpostos como senso comum para todas as
ou o equilíbrio social, mesmo quando se tem
classes. Ao mesmo tempo, lembrando as refle­
grandes desníveis econômicos. Tentaremos sim
xões simmelianas, o espaço da cidade, extra­
decodificar na existên­cia cotidiana – fora dos
fábrica, é o lugar da “produção de relações”
“muros da fábrica” –, estratégias que refletem
mais do que das “relações de produção”, on­
essencialmente uma disfarçada luta de classes,
de, de forma original, de fato, há a interação
mas que se mostram como ações individuais.
interclasses.9 Seria aqui então que se criariam,
Parte de uma engrenagem complexa,
de forma permanente, novos modos de sub­
as ações individuais devem ser lidas como
jetivação, dando à vida social na metrópole o
estando firmemente assentadas na realidade
verdadeiro sentido de “sociedade” nos moldes
histórica e são o elemento que expressa a re­
goffmanianos, para quem também “sociedade
lação entre indivíduo e sociedade. Em outras
é interação” (Goffman, 1989).
palavras, o indivíduo, em suas ações, detém
Os elementos da discussão acima nos
um grau de autonomia que é determinada
auxiliam para retomarmos a temática sobre
pelo contexto social, cultural e histórico que o
“valores estéticos”, já esboçada nos parágra­
limita em suas decisões e sua autonomia será
fos anteriores e introduzirmos um exemplo
sempre relativa. O sentido de seus atos é da­
concreto de subjetivação nos processos de so­
do então pelo contexto no qual eles se mani­
ciabilidade. O significado que Simmel nos dá
festam e jamais é ditado exclusivamente pelo
de sociabilidade como “uma forma lúdica de
próprio sujeito da ação. Nesse movimento,
sociação, e algo cuja concretude determinada
uma sutil dialética entre exploração e domina­
se comporta da mesma maneira como a obra
ção deve ser a base da reflexão.
de arte se relaciona com a realidade” (Simmel,
No território da cidade, o que está
2006, p. 65) nos é útil. Para Simmel, o impul­
em questão é a dominação, mesmo que a
so artístico retira as formas da totalidade de
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Práticas territoriais da classe média urbana
coisas que lhe aparecem, configurando-as em
identitária,­uma linguagem­que aproxima indi­
uma imagem específica e correspondente a
víduos com padrões estéticos comuns.
esse impulso, “o impulso de sociabilidade em
sua efetividade se desvencilha das realidades
da vida social e do mero processo de sociação
como valor e constitui assim o que chamamos
de sociabilidade”.
Vimos que há valores de classe e certa
Um agrupamento
urbano de classe média:
Jardim Icaraí/Niterói
dose de autonomia individual na opção por um
estilo de vida que se combina para a definição
Tomando como referência um bairro de classe
de gostos e de percepção de mundo. Essa au­
média na cidade de Niterói, na Região Metro­
tonomia permite aos indivíduos expressarem
politana do Rio de Janeiro, fizemos algumas in­
suas subjetividades sempre tendo limites de
ferências a fim de testarmos elementos teóricos
liberdade nessa empreitada, ditados pelo con­
presentes nas páginas acima. Trata-se do Jar­
texto social. Essa possibilidade potencial de ex­
dim Icaraí, região de expansão de um mercado
pressar a subjetividade faz da vida em socieda­
imobiliário para um público de rendas médias
de um cenário múltiplo e diverso que retrata a
elevadas, e que vem atravessando um forte
diversidade presente, seja dentro de um grupo,
processo de expansão de sua área construída
seja entre diferentes grupos sociais. A expres­
ou mesmo a reconstrução de novos imóveis em
são de valores estéticos em toda e qualquer
áreas já ocupadas anteriormente em função da
dimensão da vida passa assim a ser dimensão
valorização que a área apresenta.
constitutiva da sociedade, mesmo que haja
Perguntávamo-nos, inicialmente, quais
certos padrões que possam ser considerados
seriam as razões da recente definição da área
em algum momento e por determinados gru­
como um “bairro”, bem como quais os limites
pos como legítimos. Talvez seja ali, nesse tea­
físicos que o delimitavam na geografia da cida­
tro social, que as identidades se apresentam
de. Supomos que a dimensão econômica estaria
e se firmam. A esfera do consumo é onde se
aqui equacionada e haveria outras motivações
têm margens de manobra para a inventividade,
que favoreceram a escolha da área como mora­
portanto, para expressar valores estéticos e por
dia pelos grupos ali residentes. Em outras pala­
consequência, subjetividades. E o cenário da
vras, dado o nível de renda das famílias, haveria
metrópole é sem dúvida o que oferece maior
um leque amplo de possibilidades de escolha
potencial de diversificação e de expressão de
do local de moradia. Nesse sentido, orienta­
10
individualidades. Seja no vestuário, no consu­
mos nosso levantamento qualitativo nos per­
mo cultural ou de bens materiais e imateriais
guntando “por que as pessoas almejam morar
e até mesmo na moradia existem diversas
no bairro?” e “por que essas mesmas pessoas
possibilidades de escolha, o que faz dessa es­
preferem em um tipo específico de prédio, com
fera uma das mais importantes na definição
características arquitetônicas peculiares?”­
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A vida social do bairro
e seus moradores
de um bairro cuja mudança nos padrões habi­
tacionais se fez com base numa publicidade de
empresas imobiliárias, e tem sua abrangência
delimitada no território segundo uma repre­
Nosso intuito foi, portanto, o de analisar a in­
sentação peculiar. Vendem-se os imóveis a par­
fluência dos valores de status (ordem social),
tir de uma aproximação do seu padrão com o
que seria a dimensão classificatória utilizada
bairro vizinho de Icaraí, que goza de uma tradi­
pelo grupo ali residente. Por detrás desse en­
cional valorização junto à classe média alta. As
foque, estaria uma hipótese subjacente, qual
dificuldades classificatórias surgiam o tempo
seja, a de que a localização de um grupo em
todo quando se tratava da indefinição de suas
determinada porção do território da cidade se
regiões fronteiriças. Observamos que todas as
relaciona com o desenvolvimento de um estilo
ruas que delimitam o território do bairro são
de vida específico por parte daqueles que dese­
alvos de constantes questionamentos quanto
jam pertencer ao círculo social e compartilhar
ao seu pertencimento: sendo contígua a outro
de suas convenções, assim, o lugar de moradia
bairro (Santa Rosa) há ambiguidades quanto
seria um forte indicador do lugar social. Portan­
às ruas que pertencem ao “Recanto Icaraí” ou
to, nos orienta o pressuposto de que a estratifi­
ao “Recanto Santa Rosa”, numa alusão a no­
cação por status caminha de mãos dadas com
vas formas classificatórias que se originam na
uma monopolização de bens ou oportunidades
região e que marcam a mesma oposição Icaraí
materiais e ideais (Weber, 1981, p. 76).
versus Santa Rosa. Assim, a proximidade com o
Uma primeira constatação surgia logo
bairro de Icaraí é tida como positiva, enquan­
de início: o bairro passava por um processo
to que com Santa Rosa acontece o contrário. O
de modificação dos padrões habitacionais que
próprio nome “Jardim Icaraí” já permite tornar
preexistiam à atual expansão imobiliária. Com
esse aspecto mais evidente: Icaraí sempre é ci­
grande rapidez, antigas casas, geralmente tér­
tado como bairro mais nobre, mais bem servido
reas e pequenos prédios de até cinco andares,
por serviços e equipamentos urbanos e como
cediam lugar a prédios com mais de dez anda­
símbolo de prosperidade. Em oposição, quando
res, inclusive com coberturas, abrigando cada
se referem ao Santa Rosa, nomeações como
um em torno de cem famílias. Esses lançamen­
“favela”, além da escassez de serviços são res­
tos imobiliários se espalham por todas as ruas
saltados. O Jardim Icaraí toma a posição, por­
do bairro, dando sinais de um mercado em forte
tanto, de um bairro intermediário entre esses
expansão. A substituição de antigas residências
dois universos, sendo renegados aspectos que
por essas novas, com características peculia­res,
o aproximam de Santa Rosa, ao mesmo tempo
significa muito mais do que substituir os abri­
em que são ressaltados aqueles que definem
gos preexistentes: é de fato derrubar um modo
Icaraí como nobre, além das características que
de vida, pois a chegada de um grande número
Icaraí já teria deixado de possuir por conta da
de famílias altera o cotidiano do bairro.
expansão anterior.11 Nessa trama de consoli­
A delimitação física do bairro Jardim Ica­
dação de uma representação do bairro não se
raí é outra dimensão que vale destaque. Trata-se­
pode considerar que se trata de uma cópia de
428
Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011
Práticas territoriais da classe média urbana
Icaraí, nem tampouco se distancia simplesmen­
que o bairro apresenta.­Como expressa um de
te de Santa Rosa. De fato, a área vai se forman­
nossos entrevistados “aqui as pessoas não be­
do a partir de uma lógica que lhe é própria e
bem em bar, bebem em restaurante”. Os que
seria reducionismo tratá-lo como cópia de um
mudaram para lá oriundos de Icaraí lamentam
ou de outro.
a mudança, apesar de se sentirem bem no lo­
Essas dificuldades classificatórias são
cal: “sinto falta da confusão de Icaraí, pois já
corroboradas pela inexistência de uma norma
estava acostumado com isso”. A oposição en­
administrativa, visto que a própria Secretaria
tre essas duas falas, quando vista pelos que as
de Urbanismo do município não confere legiti­
expressam, mostra com justeza a dinâmica de
midade ao bairro. Tudo indica que há uma de­
consolidação da identidade do lugar, muitas
fasagem entre o que é vivido pelos moradores
vezes contraditória, pois composta por eleva­
e aquilo que está estabelecido pelos órgãos
da dose de heterogeneidade social.
que regem o espaço urbano. Por exemplo, ruas
O fato é que pudemos perceber a di­
são como definidores dos limites de um deter­
versidade e a vitalidade que caracterizam o
minado território; são também unidades de
bairro. Isso se constata inclusive nos padrões
alto significado para saber reconhecê-las. Elas
habitacionais bastante variáveis: casas cons­
estruturam um continente, mapeiam e organi­
truídas em diferentes períodos vão perdendo
zam o seu conteúdo, sustentam uma tradição
espaço para novos edifícios, muitos abrigan­
ao evocarem um modo de vida para o qual
do comércio variado no nível das ruas. Esta­
funcionam como emblema e rótulo (Santos e
belecimentos escolares públicos e privados,
Voguel, 1981). Os habitantes da área confe­
lojas de vestuá­r io, salões de beleza, farmá­
rem às ruas um papel de referência de bons
cias inclusive de manipulação, cursos de lín­
ou maus lugares ou de serem emblemas de um
guas estrangeiras, clínicas, apontando uma
12
modo de vida.
certa sofisticação. Um desenho urbanístico
Os mais recentes moradores do bairro
que organiza pequenos quarteirões permite
falam de algo como uma “mudança de ares”
a circula­ç ão a pé e a possibilidade de se for­
ou da “qualidade de vida”. Entretanto, não se
mar um circuito de vizinhança que pode aos
pode considerar que a área seja socialmente
poucos consolidar uma zona moral, típica de
homogênea, sobretudo vista através da ori­
área de classe média. Além do mais, estão
gem de seus moradores recentes e suas dife­
presentes aí os quatro fatores ressaltados por
rentes configurações socioculturais. São indi­
Jane Jacobs como sendo indispensáveis para a
víduos e famílias de diferentes origens dentro
geração da diversidade urbana, quais sejam:
da própria cidade, muitos com recente inser­
a multiplicidade de usos primários garantindo
ção na classe média, guardando, portanto, va­
que diferentes pessoas sejam capazes de utili­
lores variados no que se refere à estética do
zar boa parte da infraestrutura em diferentes
lugar. Justamente aqueles oriundos de áreas
horários; a necessidade de quadras pequenas;
de menor prestígio são os que insistem nessa
a mistura de edifícios de idades e estados de
mudança no estilo de vida, seja pela proximi­
conservação variados e certa densidade resi­
dade da praia, seja pelas vantagens comerciais
dencial (Jacobs, 2003).
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429
Brasilmar Ferreira Nunes
Entretanto, mesmo com tais condições de
do anonimato, mas aquele onde dispomos
vida urbana, não se pode desconsiderar o fato
facilmente do direito de ser anônimo, de não
de que a rápida e excessiva valorização do so­
atrair as atenções ou os olhares. Temos aqui,
lo no bairro pode vir a se configurar como um
portanto, a possibilidade de “redefinir a situa­
fator de risco para tal diversidade. As leis de
ção”, ou seja, de negociar permanentemente
mercado têm potencial de redefinir o perfil mé­
seus territórios. Haveria assim uma lógica entre
dio dos moradores, bem como alterar o próprio
a segregação do espaço e a segregação das si­
comércio local. Porém, essa dinâmica é sempre
tuações, que segundo Joseph (2007) nos leva
acompanhada pela diversificação, sobretudo
à microssociologia interacionista, ou a uma
das atividades de comércio e serviços. Esse mo­
dramaturgia do social baseada nas técnicas de
vimento é de médio prazo e está relacionado
representação do eu (arte das fachadas e pala­
com outras variáveis, das quais a estabilidade
vras das circunstâncias).
econômica geral é importante. A classe média
Nesse jogo de representações, há dimen­
se expande através da expansão das atividades
sões que marcam territórios identitários. Pode­
do terciário e tudo indica que o caminho será
mos avançar afirmando que a moradia termina
esse, caso os ganhos salariais de seus assala­
desempenhando esse papel de defitichazador,
riados estejam num círculo ascendente.
pois o lugar de moradia na cidade termina sen­
do um indicador do lugar social do indivíduo:
define um padrão e um modo de vida ou pelo
As características
dos imóveis residenciais
menos o representa. Assim, circulando em dife­
rentes zonas da cidade, a opção pelo anonima­
to é um dado de realidade, porém o endereço
restringe essa possibilidade. Já assinalamos,
Sociologicamente, o que é questão nas análi­
anteriormente, que os grupos, pela moradia,
ses da vida urbana é a natureza dos espaços
tendem a se aproximar, agindo via mecanismos
públicos e a sua relação com o mundo privado,
de atração (de iguais) e repulsa (do diferente)
ou seja, o lugar da moradia. Se a cidade é hoje
através inclusive da mediação de mercado.
um laboratório social atravessado pela questão
Essa dinâmica produz áreas homogêneas­
do território, por suas fronteiras, as divisões
dentro da heterogeneidade das construções
que caracterizam as sociedades urbanas não
urbanas. Entretanto, é nas particularidades dos
podem ser compreendidas apenas com a utili­
projetos que a homogeneidade se apresen­
zação de abordagens clássicas do espaço. É a
ta. Para o Jardim Icaraí que estamos tomando
natureza do vínculo social que se apresenta co­
como ilustração, e tomando os lançamentos
mo problemática nos discursos atuais, sobretu­
imobiliários recentes na área, são recorrentes
do quando se reflete sobre se o espaço público
certas características, que se repetem: salão
da metrópole de hoje tem um ambiente onde é
de festas, piscina, sauna, salão de jogos, lan
possível tolerar o intruso, um indivíduo a mais.
house,­ spa/hidromassagem, churrasqueira, es­
Mas é importante deixar claro que esse espa­
paço fitness.­Os apartamentos oferecidos por
ço público não é, necessariamente, o espaço­
esses novos empreendimentos, assim como
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Práticas territoriais da classe média urbana
as áreas de lazer comum, partilham de carac­
tchan! Eles usam aqueles vidros verdes”. Ou­
terísticas que se mostram constantes: todos
tra interlocutora fala ainda com orgulho da sua
possuem varanda, pelo menos uma suíte e
“portaria climatizada e da mesa redonda com
pelo menos uma vaga na garagem. Vendidos
um lustre acima igualzinho ao projeto...”.
na planta, a maioria permite que o proprietá­
As áreas comuns de lazer são muito mar­
rio proponha alguma mudança do espaço no
cadas pela presença de diversos objetos de­
perío­do da compra, agindo enquanto elemento
corativos como vasos, quadros, flores, etc. Da
de diferenciação e de expressão de subjetivida­
mesma forma, é repleta de móveis e aparelhos
de. Além do mais, como são entregues limpos,
como cadeiras tipo espreguiçadeiras, pufes,
até mesmo sem lâmpadas, há maior liberdade
televisões, videogames e brinquedos para os
para deixá-lo do jeito que preferir.
pequenos. Parece haver uma expectativa de
A planta do apartamento é constante­
transformá-las em uma extensão da casa, num
mente citada como elemento influenciador na
ambiente acolhedor e propício às interações
escolha do prédio: “o que mais me chamou
sociais, pois “não há necessidade de sair daqui
atenção aqui foi a planta do apartamento, gos­
para nada, você recebe seus amigos aqui mes­
to do tamanho da minha cozinha, é o mesmo
mo...”. Porém, Simmel (1979, p. 12) nos fala da
de um apartamento antigo, dá até para colocar
impessoalidade das metrópoles, da raridade de
uma mesa”. Ou ainda é a área de lazer comum
contatos íntimos entre moradores em compa­
dos prédios que divide com a planta a prefe­
ração com os contatos externos. Muitos dos
rência dos compradores. Jovens e crianças são
moradores mais antigos dos prédios conheciam
sempre mencionados como os que mais se be­
seus vizinhos “apenas de vista” ou então afir­
neficiam desses espaços, mesmo por aqueles
mam que “aqui as pessoas são mais distantes,
que ainda não têm filhos: “área de lazer era al­
mais frias”. Assim, se essas áreas de lazer se
go que eu prezava até mesmo porque pretendo
propõem de fato a atuar como extensões da
ter filhos e não queria morar num prédio que
própria casa são, da mesma forma, utilizadas
não tivesse isso”. A questão do status apare­
muito mais para consolidar círculos de amiza­
ce mais uma vez na fala de uma moradora que
des preexistentes do que com vizinhos.
diz: “aqui atendeu ao que eu queria em termos
O que é digno de ressaltar é que tais
de investimento e também tem coisas que as
características funcionam como um mecanis­
pessoas valorizam”.
mo de atração e de seleção dos compradores,
Finalmente, o estilo arquitetônico e os
gerando um espaço social com características
componentes dos ambientes externos dos pré­
comuns. A atração de novos moradores, sele­
dios (materiais utilizados na construção, obje­
cionados por um padrão econômico e estético
tos presentes na decoração da portaria, etc.),
peculiar que oferece um estilo de vida adequa­
remetendo a um estilo moderno, também são
do, age como um filtro que seleciona os “se­
valorizados pelos moradores. Demonstram or­
melhantes”, funcionando como mecanismo
gulho ao se referirem à fachada ou ao “visual”
classificatório.
do prédio: “olha que bonito, não é para ficar de
A aquisição de um apartamento em um
peito estufado?”, ou ainda: “o visual tem um
imóvel com características que correspondem a
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Brasilmar Ferreira Nunes
um padrão específico de vida só se torna pos­
sível uma vez que os indivíduos que almejam
comprá-lo se ponham em disputa no mercado
Esboço para uma conclusão
geral
e disponham de recursos econômicos para ob­
ter o bem desejado.13 É comum o argumento
Os aspectos diversos que contêm a decisão de
justificando a compra do apartamento como
morar em determinada área da cidade e não
uma valorização do patrimônio ou como um
em outra guardam uma lógica peculiar que
investimento seguro. Falam ainda na aquisição
procuramos decodificar. Estamos longe da afir­
de “um bem que ninguém vai te tirar!”. Po­
mativa weberiana, para quem o que caracteri­
rém, estamos nos perguntando se seria cabível
za sociologicamente a cidade são as relações
a definição desses indivíduos como sendo um
de vizinhança (Weber, 1979). Se essa assertiva
grupo de status. De fato, muitos dos atributos
pode se aplicar para as cidades da pré-moder­
definidores dessa categoria conceitual, confor­
nidade, Simmel vai insistir que agora há outro
me tratados por Weber em texto anteriormente
fator importante na cidade, que é justamente a
citado, podem ser encontrados no caso que es­
possibilidade do anonimato. Estamos em dife­
tamos tomando como exemplo; até mesmo nos
rentes níveis de análise: a divisão do trabalho
anúncios publicitários dos lançamentos podem
social leva à especialização de ofícios e ativida­
ser observadas essas proximidades.
des que, por sua vez, se baseia nas trocas mo­
14
Entretanto, a advertência feita por Becker
netárias para se manter e reproduzir. Assim, é a
quanto à escolha que o pesquisador deve fazer
aglomeração no território que sustenta e ofere­
entre deixar a categoria conceitual definir o caso
ce as condições gerais para a divisão do traba­
e deixar o caso definir a categoria (Becker, 2008)
lho; sem dúvida, temos aí uma das explicações
não deve ser esquecida. Ao se optar pela primei­
para a atração que a cidade oferece. Sendo lu­
ra alternativa, perdemos parcela significativa da
gar de mercado, produz fatos sociológicos pe­
complexidade própria da realidade e deixamos
culiares que, segundo Weber (ibid.), seriam as
de investigar aspectos do nosso caso apenas
relações de vizinhança.
por não fazerem parte da descrição da categoria
Entretanto, na medida em que estamos
com a qual trabalhamos. Faz sentido, portanto,
considerando as trocas monetárias via merca­
incluir todos os aspectos do caso em nossa aná­
do, temos que levar em conta que a concorrên­
lise, mesmo que a categoria conceitual não dê
cia é parte constitutiva da relação. Isso produz
espaço para eles. Assim, tomando nosso caso co­
mecanismos de diferenciação de produtos e
mo referência, a honra de status está diretamen­
preços caracterizando uma oferta geral de
te ligada a uma situação de classe envolvendo
bens e serviços profundamente diversificada,
proprietários em competição no mercado por
variada. O jogo de mercado é então um pro­
bens altamente valorizados. De maneira alguma
cesso contínuo de inovações, onde o que se
o “ter” se opõe ao “ser”. As distinções pessoais
oferece varia quantitativamente e, sobretudo,
não entram em contradição com as pretensões
qualitativamente. Na medida em que a própria
de aquisição puramente econômicas, que segun­
mercadoria trabalho entra nessa lógica, há nas
do Weber é próprio das “classes”.
esferas individuais a permanente expectativa
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Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 26, pp. 419-438, jul/dez 2011
Práticas territoriais da classe média urbana
de diferenciação para obter melhores resulta­
considerar, portanto, que a necessidade de
dos na concorrência. Submetido a estímulos
reconhecimento é o que move as tentativas
permanentes, o indivíduo tem seu psiquismo
de interação entre as pessoas e garante certa
envolto numa série ininterrupta de sensações
identidade social mantendo-as partes de um
cotidianas. O fenômeno é tanto na esfera da
grupo. É na metrópole onde essas possibilida­
qualificação profissional, na procura de méritos
des são mais disponíveis, pois o ambiente so­
de distinção, até na dimensão física, corporal
cial é de profunda heterogeneidade, permitindo
e no estilo de vida que se pode praticar. O ar­
escolhas eletivas.
gumento de Simmel é que se desenvolvem aí
Seria, assim, através de processos de in­
estratégias de “sobrevivência” psíquica com
teração social que se produz a sociedade, seja
o aparecimento do instinto de reserva ou até
mercantil ou não. Marcel Mauss, estudando o
mesmo da atitude blasé (Simmel, 2007). Assim,
regime das trocas em sociedades arcaicas, nos
aquilo que para Weber caracterizava sociologi­
lembra que a interação ali presente não se re­
camente a cidade pré-moderna, e poderia ser
sumia a uma simples troca de bens, de riquezas
lido como algo positivo, em Simmel passa a ser
ou de produtos num mercado estabelecido en­
visto como fonte de perturbação: a inexorabili­
tre os indivíduos. Insiste o autor:
dade do fenômeno é que daria o substrato para
seus argumentos sobre a “tragédia da cultura”.
Fizemos referência, ao longo do texto, ao
fato de que no capitalismo não há relações de
classe e sim relações de dominação e um grupo
se sobressai ante os demais. Ao mesmo tempo,
lembramos que há sim produção de relações e
que essas se dão nas esferas da circulação e
do consumo e onde o espaço urbano é privile­
giado para suas manifestações. Simmel insiste
sobre a placidez da vida em pequenas cidades
ou no campo, comparada ao que se passa na
metrópole, onde a racionalidade da vida é leva­
da ao extremo. Entretanto, o ser humano é um
ser social e tem mecanismos de sociação que
[...] em primeiro lugar não são indiví­
duos, são coletividades que se obrigam
mutua­m ente, trocam e contratam as
pessoas­ presentes ao contrato são pes­
soas morais: clãs, tribos famílias (grifo
nosso) que se enfrentam e se opõem seja
em grupos frente a frente num terreno,....
Ademais o que eles trocam não são ex­
clusivamente bens e riquezas, bens mó­
veis e imóveis, coisas úteis economica­
mente. São, antes de tudo, habilidades,
banquetes, riquezas, serviços... dos quais
o mercado é apenas um dos momentos,
e nos quais a circulação de riquezas não
é senão um dos termos de um contrato
bem mais geral e bem mais permanente.
(Mauss, 2007, p. 190)
garantem um mínimo de interação, ao risco de
acabar com o que se entende por sociedade.
Percebemos assim que a troca é um fenôme­
Discutindo o caráter abstrato da sociologia,
no pré-mercado capitalista, o substrato mesmo
Simmel procura entender o que acontece com
da sociedade. Lévi-Strauss, em sua célebre in­
os seres humanos e segundo que regras eles
trodução à obra de Marcel Mauss, adverte ser
se movimentam quando, em virtude de seus
da natureza da sociedade que ela se exprima
efeitos mútuos, formam grupos e são determi­
simbolicamente em seus costumes e em suas
nados por essa existência em grupo. Podemos­
instituições:
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Brasilmar Ferreira Nunes
[...] ao contrário, as condutas individuais
normais jamais são simbólicas por elas
mesmas (grifo no original), elas são os
elementos a partir dos quais um sistema
simbólico, que só pode ser coletivo, se
constrói. (Lévy-Strauss, 2007, p. 17)
A teoria social ainda não consegue de­
finir claramente o estatuto desse grupo, dada
a indefinição, seja na natureza do mercado de
trabalho, seja nos próprios valores morais. Seria
suficiente talvez reafirmar a definição de “clas­
ses médias” corrente no debate sobre as socie­
São essas reflexões que nos ajudam a concor­
dades pós-industriais da segunda metade do
dar com a assertiva maussiana segundo a qual
século XX. É possível situá-las a partir de três
“sociedade é símbolo”, nos valermos do pen­
grandes referências complementares, próximas
samento de Simmel para quem
de uma descrição do que propriamente de uma
[...] a sociologia extrai dos fenômenos
uma série ou uma parte da totalidade e a
subsume a um conceito específico através
de processos de abstração e estudar, por
exemplo... os resultados da luta de classe
sem entrar nos detalhes do curso de uma
greve ou das negociações em torno de
uma taxa salarial. (2006)
definição: 1) as classes médias seriam aque­
las cujo nível de remuneração se aproxima da
média; 2) seriam definidas pela posição inter­
mediária de seus membros nas hierarquias so­
ciais e profissionais, assim como na escala das
qualificações, marcados por uma competência
e um poder de organização; e 3) se definiriam
em função de um sentimento de pertencimen­
Aquilo que Mauss observa para as socie­
to, menos estático que dinâmico, notadamen­
dades que ele estuda é significativo para nos­
te pelo fato de identificar seu destino – ou o
sas reflexões. As trocas mercantis, hoje ainda,
de seus filhos àquele do grupo intermediário
guardam a sua essência de “atos coletivos”
(Tourraine,­2007, p. 17).
abstratos, mesmo quando aparecem como sen­
O fato é que seu universo privilegiado
do resultado de decisões individuais. A aquisi­
são as metrópoles, onde gozam das possi­
ção de um imóvel para moradia tem elementos
bilidades de um anonimato onde podem se
que contribuem para a formação de sistemas
apresentar segundo critérios racionais, meri­
simbólicos que só podem ser coletivos, como
tocráticos, escapando dos códigos tradicionais
afirma Lévi-Strauss. Talvez tivéssemos que in­
de aquisição de prestígio, dos quais a origem
corporar na análise a natureza das sociedades
familiar é uma das principais características.
modernas com seus sistemas de classes e seus
Entretanto, suas estratégias de reprodução
regimes de criação de esferas de prestígio so­
e de manutenção de prestígio vão sendo aos
cial. No caso que exemplificamos no presente
poucos consolidadas à medida que se firmam
artigo, trata-se de um grupo de classe média
no cenário do mercado de trabalho (terciário)
urbana, com história relativamente recente na
e se beneficiam das vantagens que o sistema
sociedade brasileira, mas que pelas facilidades
garante a segmentos sociais específicos. Não
de consumo que detém consegue gerar um sis­
há dúvidas de que a moradia é um dos ele­
tema de valores peculiar, envolvendo um estilo
mentos mais visíveis de uma posição social,
de vida próprio.
cuidadosamente cultivada por esse segmento.
15
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Práticas territoriais da classe média urbana
Giddens é enfático quando afirma que “o mais
a particularidade nos ajuda a entender a tota­
importante dos fatores que promovem uma
lidade. Isso justifica a nossa ênfase na noção
diferenciação geral entre trabalhadores white­
de “belo”, em que a estética passa a ser um
-collar e blue-collar são os agrupamentos dis­
instrumento de diferenciação que identifica
tributivos formados pela “aglomeração” de
um grupo social através de padrões estéticos
vizinhança e por certos tipos de formação de
comuns ou similares. Esse recorte nos é útil
grupos de status.
inclusive para analisar as formas estéticas em
16
Nossa opção em exemplificar a análise a
áreas populares, guiadas por princípios idênti­
partir de um caso foi no sentido de obedecer
cos, porém com parâmetros próprios. Mas isso
a uma orientação simmeliana, segundo a qual
é assunto para outro artigo.
Brasilmar Ferreira Nunes
Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense.
Pesquisador do CNPq e da Faperj. Rio de Janeiro, Brasil.
[email protected]
Notas
(*) O autor agradece o trabalho de Natalia Carneiro Campagnani, estudante de Ciências Sociais da
Universidade Federal Fluminense e bolsista PIBIC, na pesquisa empírica e nas discussões que
deram origem ao texto.
(1) Simmel se interrogando sobre a maneira como quantidade induz à qualidade (da pequena
cidade à metrópole), argumenta que a partir de certo ponto as conexões se multiplicam ao
mesmo tempo em que o individuo ganha em liberdade de movimento e a grande cidade ganha
autonomia de personalidades únicas. Por exemplo, o estatuto de metrópole de Weimar se
ligava a figuras eminentes e desaparece com elas, enquanto a grande cidade [é] precisamente
caracterizada pela sua independência fundamental em relação a personalidades ilustres (Simmel
apud Rémy, 1997, p. 66).
(2) Ver a respeito: Simmel, G. (1998).
(3) A terceira esfera tratada por Weber é a “política”, cuja análise é feita a partir da noção de poder.
Não iremos tratar dessa esfera nos quadros deste artigo.
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Brasilmar Ferreira Nunes
(4) Uma ilustração desse fato é, por exemplo, durante catástrofes naturais, quando áreas precárias
das cidades são atingidas e destruídas. Nesse momento, a comoção da perda do abrigo é
reveladora do apego que o imóvel tem para seus moradores, independentemente de suas
qualidades materiais.
(5) A análise sobre o mercado imobiliário de alta renda na Região Parisiense é exemplar a este
respeito. Ver Pinçon e Pinçon-Charlot (1989).
(6) Claro que estamos considerando estabilidade de emprego e renda. Em momentos de crise, essa
situação pode se alterar, porém raramente chega ao nível das sociedades emergentes.
(7) A sociologia discute com parcimônia a dimensão estética, que de maneira diferenciada tem, de
fato, sentido profundo a todos os indivíduos e grupos. Na medida em que ela é confundida com
a dimensão econômica (“o belo é de alto custo”), se perde de vista que todos se submetem a
padrões estéticos nessa aventura que é a vida em sociedade.”Eis o que foi sem dúvida, depois de
sempre, a vocação essencial da arte: evidenciar... em um material sensível (cor, som, material...)
uma verdade considerada como superior” (Ferry, 1990, p. 16).
(8) “Secularização e humanização são duas palavras-chave destas variações às quais conviria prestar
um instante de atenção para se inserir com mais segurança nas discussões atuais” (Ferry, 2005,
p. 16).
(9) Na esfera das “relações de produção”, não se pode dizer que haja relações de classe. O que há é a
exploração de uma classe sobre outra e a imposição de seus interesses como legítimos.
(10) Vamos deixar claro que a esfera do consumo é acessível a todos, desde que detenham recursos
materiais/monetários. Assim, da mais baixa à mais elevada renda, todos participam segundo
suas possibilidades do consumo, sobretudo na vida urbana e metropolitana, onde a moeda é o
instrumento privilegiado de interação social.
(11) Por exemplo, ruas mais tranquilas, trânsito menos intenso.
(12) As alusões à rua da praia de Icaraí e à Cel. Moreira César, ambas em Icaraí, são constantes e
servem de referencial para a reprodução de um estilo de vida no bairro vizinho. Comparam o
comércio de seu bairro com o do vizinho: “aqui é bem servido das necessidades básicas como
padaria, farmácia, mas ainda não tem tantas lojas de roupas e presentes como a Moreira César
que é um shopping a céu aberto”.
(13) No momento de realização da pesquisa, no segundo semestre de 2010, os preços dos
apartamentos de dois quartos oscilavam em torno de R$250.000,00, enquanto os de três
quartos custavam em média R$350.000,00. Porém, é importante ressaltar que o aumento nos
preços desses imóveis se dá de forma extremamente rápida, vide a valorização da área em
questão e em poucos meses, até mesmo durante o período das obras, os preços podiam chegar
a R$400.000,00 e R$600.000,00, respectivamente.
(14) Os preços dos apartamentos variam segundo o prestígio da rua onde se localizam. Apartamentos
adquiridos na planta têm um imediato aumento de seu valor logo na entrega das chaves ou
mesmo no período das obras, caracterizando um investimento financeiro praticamente sem
riscos.
(15) O estatuto teórico da “classe média” não é contemplado pela teoria marxista, sendo estudada
principalmente pela sociologia anglo-saxônica (Stuart Mills, Giddens, etc.). A denominação de
“White collars” é a que mais se popularizou para caracterizá-la (Giddens, 1975).
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Práticas territoriais da classe média urbana
(16) Mais ainda: “a força da tendência à separação de vizinhança é inegável em especial nas sociedades
capitalistas... a maior segurança de emprego, característica do trabalho white-collar, geralmente
leva a uma disponibilidade maior de empréstimos para habitação e hipotecas”(Giddens, 1975,
p. 225).
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Texto recebido em 15/jan/2011
Texto aprovado em 9/maio/2011
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