A PROBLEMATIZAÇÃO COMO RECURSO METODOLÓGICO PARA
A MUDANÇA DA REALIDADE DE PROFESSORES E ALUNOS
FREITAS, Carine de – UNICENTRO
[email protected]
WACHHOLZ, Cleide Silvane – UNICENTRO
[email protected]
PIETROBON, Sandra Regina Gardacho - DEPED/UNICENTRO
[email protected]
Eixo Temático: Didática: Teorias, Metodologias e Práticas
Agência Financiadora: Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia-SETI
Resumo
Esta análise tem como objetivo verificar a importância e o valor educativo do filme “A
corrente do bem”, lançado no ano de 2000/EUA com a direção de Mimi Leder. Para tanto,
procurou-se evidenciar as atitudes dos personagens alcoolistas, do adolescente e a intenção do
professor em encontrar alternativas para solucionar os problemas vivenciados pelos alunos,
enfatizando a metodologia da problematização, embasada em Freire, como uma proposta a ser
considerada para se trabalhar no cotidiano escolar. Tal metodologia visa aprimorar a
criticidade dos educandos, auxiliando-os a tornarem-se cidadãos independentes e não
conformistas com a realidade na qual estão inseridos. Este artigo trata-se de um recorte de
uma pesquisa sobre prevenção ao uso de drogas na escola, realizada pelo projeto “Pesquisa
estimativa, desenvolvimento e execução de tecnologias e programas preventivos ao uso de
drogas na população estudantil de Instituições Públicas de Ensino do município de Irati e
região”, o qual faz parte do programa de extensão “Universidade Sem Fronteiras”, subprograma Incubadora dos Direitos Sociais na Universidade Estadual do Centro Oeste, campus
de Irati-PR. Esta pesquisa objetivou realizar um levantamento e análise das informações,
acesso e uso de drogas lícitas e ilícitas com alunos do Ensino Fundamental, Médio e Superior.
A análise deste filme foi realizada como recurso didático para a prevenção e conscientização
destes alunos, buscando aprimorar e trazer novas informações referentes à temática drogas,
auxiliando, também, os professores e a escola como um todo a lidar com esta problemática
que está cada dia mais evidente no contexto escolar, a qual traz prejuízos nos âmbitos familiar
e social, como foi evidenciado no filme e que retrataremos no artigo.
Palavras-chave: Prática pedagógica. Metodologia da Problematização. Alcoolismo.
Introdução
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O filme “A corrente do bem”, que estaremos analisando, retrata a realidade de uma
família, na qual o pai (ausente), a avó (moradora de rua) e a mãe de um adolescente de 12
anos são alcoolistas, como também retrata a história de um professor que, por meio de uma
metodologia problematizadora, busca incentivar seus alunos a serem críticos e não
conformistas.
Esta análise tem como objetivo verificar a importância e o valor educativo do filme,
buscando evidenciar tópicos e atitudes dos personagens alcoolistas, do adolescente e a
intenção do professor em buscar alternativas para solucionar os problemas vivenciados pelos
alunos, em especial o adolescente representado pelo personagem Trevor.
Percebeu-se, inicialmente, que o adolescente em fase de desenvolvimento e
aprimoramento não possui uma estrutura familiar “ideal” para, posteriormente, poder
demonstrar tanto empenho e interesse em modificar a realidade de sua família e de outras
situações observadas por ele. Este passa grande parte do dia sozinho, enquanto sua mãe
trabalha, o mesmo busca encontrar e descartar garrafas de bebidas alcoólicas escondidas por
sua mãe que, ao chegar do trabalho, ingere até se embriagar. Nesse caso, há uma certa
inversão de papéis, onde ao invés da mãe cuidar do filho, é este que se preocupa e critica
atitudes de sua mãe.
A trama do filme inicia-se no primeiro dia de aula de uma turma de sétima série do
Ensino Fundamental. O professor Simonet ressaltava em suas aulas que, a disciplina de
Estudos Sociais engloba os alunos com o mundo. Simonet ao questionar os mesmos sobre o
que pensavam que o mundo esperava destes, buscava fomentar certo interesse por parte dos
mesmos para que não se acomodem com a realidade, sendo críticos e que tentassem modificála.
Uma proposta de trabalho que o professor solicita aos alunos é de que busquem
efetivar algo de concreto: “ter uma idéia para mudar o mundo” em prol de alguma situação
que não lhes agrada, o que fez despertar em alguns alunos certo interesse e, em outros, uma
indignação por pensarem que é impossível.
Esta solicitação fez com que Trevor analisasse a realidade à sua volta e,
principalmente, procurasse encontrar uma forma de afastar definitivamente sua mãe do álcool.
Este que se consumido em excesso e por tempo prolongado, pode ser caracterizado como
alcoolismo, uma doença que interfere negativamente na vida pessoal, profissional, familiar e
social do alcoolista. Evidencia-se, então, que se trata de um problema importante de saúde
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pública que, na maioria das vezes, gera e/ou tem vínculos com outros problemas sociais,
exigindo uma atenção e demanda muito grande.
Esta problemática vivenciada por Trevor, despertou a intenção de “criar” uma
corrente, a “corrente do bem”, na qual ele iniciaria ajudando três pessoas: sua mãe, um
mendigo usuário de drogas e seu colega da escola. Dessa maneira, estes três que fossem
ajudados a superar um determinado obstáculo nas suas vidas se comprometeriam em ajudar
outras três pessoas e, assim sucessivamente, transformando o mundo em um lugar melhor, no
entanto, uma idéia um pouco utópica que teve em seu percurso conquistas e derrotas, mas,
mesmo perdendo sua vida, Trevor conseguiu que a sua idéia da “corrente do bem” se
difundisse.
Metodologia adotada e a intenção do professor em busca de alternativas
Num primeiro momento, evidencia-se que a metodologia adotada, tanto pelo professor
quanto pelo adolescente Trevor, ao iniciar o trabalho, equipara-se com a metodologia da
problematização, a qual, segundo Berbel (1999), parte da realidade vivenciada, ou seja,
observam-se os “problemas” para, então, poder definir estratégias para intervir e solucionálos.
Berbel (1999) expõe que, através da metodologia da problematização, a qual tem
como objetivo emancipar e libertar os homens, o professor tenha a oportunidade de fazer com
que seus alunos pensem a realidade criticamente, chegando a uma ação prática
transformadora, na qual os próprios alunos elaboram as hipóteses de solução, o aluno se
envolve com a situação e aprende a questionar os porquês. Trevor, ao vivenciar o problema
do alcoolismo em casa e, ao tentar auxiliar o mendigo e seu colega, age desta maneira, este
envolvimento faz com que se chegue à conclusão de quais seriam as ações correspondentes a
tais demandas.
Freire, citado por Berbel (1999), expõe que o educador deve ser vigilante, buscando
ser coerente em seu discurso e ação, na teoria e na prática, isso pode ser evidenciado no filme
quando o professor solicita que os alunos tenham uma idéia para mudar o mundo. O professor
é questionado pelo adolescente Trevor: “e o senhor, o que faz para mudar o mundo?”.
Ficando evidente a importância de o professor agir democraticamente, contribuir praticando e
não somente impondo.
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A prática educativa em que inexiste a relação coerente entre o que a educadora diz e
o que ela faz é, enquanto prática educativa um desastre. (…) E entre o testemunho
de dizer e o de fazer, o mais forte é o modo de fazer porque este tem ou pode ter
efeitos imediatos (FREIRE,1998, p. 75).
De acordo com Gadotti (2000), a filosofia de Freire tem dois elementos principais: a
conscientização e o diálogo. A conscientização não é apenas conscientização da realidade,
mas a tomada de consciência significa a passagem da imersão na realidade para um
distanciamento desta. O diálogo consiste numa relação horizontal entre professor e alunos,
pois para Freire ninguém educa ninguém, os homens se educam na transformação do mundo,
então o saber de todos é valorizado. Mas o autor alerta que, o professor não fica somente no
saber dos alunos, ele deve ultrapassá-lo, já que ele tem essa função. O professor permanece ao
lado do aluno como aprendiz, caminhando junto, e não a metros de distância. A
conscientização quer educar sem violentar e sem humilhar.
Freire acreditava na capacidade criadora de todos os homens, e afirma que se alguns
não o fazem é por falta de oportunidades e condições. Então, surge outro questionamento: por
que não o fazem? E se tira a conclusão de que é necessário intervir na realidade social,
propiciando condições e despertando interesses nestas pessoas que, por um motivo ou outro
não agem. Esta afirmação de Freire vai de encontro com a metodologia adotada pelo
professor Simonet, quando ele busca intervir, incentivar e questionar os alunos em vários
aspectos.
Conforme Freire (1980, p. 25), “a educação como prática de liberdade é um ato de
conhecimento, uma aproximação crítica da realidade.” Simonet não delimita os campos de
atuação para seus alunos, dando liberdade para que eles próprios evidenciem e reconheçam
pontos falhos da realidade na qual estão inseridos, podendo, posteriormente, agir
conscientemente.
Freire (1980, p. 40) ainda complementa que:
o homem não pode participar ativamente da história, na sociedade, na transformação
da realidade, se ele não é auxiliado a tomar consciência da realidade e de sua própria
capacidade de transformá-la.
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Simonet, o professor, agiu de maneira a auxiliar seus alunos a tomarem consciência da
realidade, para então poderem agir de maneira a transformá-la. Ele próprio através de
indagações de alguns de seus alunos teve a oportunidade de repensar suas ações e
conscientizar-se de que sempre se pode fazer algo a mais em prol de alguém ou alguma
situação.
Freire (1992) destaca que a leitura de mundo possibilita a conscientização das pessoas,
a decifração do que chama “situações-limite”. O autor deixa clara sua posição dialética e
democrática diante dos fatos da realidade, da vida como um todo, por isso enfatiza que o
educador democrático necessita compreender, conhecer como vivem e atuam os grupos
sociais com os quais atuam. Para ele o educador crítico é exigente, coerente no exercício de
reflexão sobre a prática educativa, compreendendo a mesma na sua totalidade. Dessa forma, a
educação necessita ter conteúdos, mas esses conteúdos não devem ser apenas transmitidos,
mas discutidos, refletidos, e isso só ocorrerá se o educador caminhar junto com o educando,
dando o exemplo de como realizar uma leitura interpretativa, que lhes traga compreensão da
sua própria realidade.
O ato de ensinar e de aprender, dimensões do processo maior – o de conhecer –
fazem parte da natureza da prática educativa. Não há educação sem ensino,
sistemático ou não, de certo conteúdo. E ensinar é um verbo transitivo-relativo.
Quem ensina ensina alguma coisa – conteúdo – a alguém – aluno. (FREIRE, 1992,
p.110).
O crucial para Freire era considerar os saberes dos educandos, saberes estes da
experiência, os quais poderiam ser transformados em saberes mais críticos. No entanto, o
educador progressista ao realizar a sua “leitura de mundo” deverá deixar claro aos educandos
que há outras leituras possíveis e, talvez até contrárias àquela realizada por ele. Mas o que não
devemos fazer é cair em uma prática espontaneísta, a qual não leva o educando a uma
conscientização da realidade, é um faz-de-conta pedagógico, conforme Freire (1992).
Trevor e Simonet agiram, de forma aproximada, do sentido como Freire (1992) definiu
a prática educativa, a qual implica na existência de sujeitos, aqueles que ensinam e aqueles
que aprendem, na qual os que estão em situação de aprendizes, ensinam também. Trevor
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demonstrou interesse e persistência nas tarefas que se propôs a fazer, como complementa
Freire (1992, p. 109), “a prática educativa implica ainda processos, técnicas, fins,
expectativas, desejos, frustrações, a tensão permanente entre prática e teoria, entre liberdade e
autoridade (...)”. Esta interação professor/aluno, conforme explica Cavalcante (2002), exige
ação mútua entre duas ou mais pessoas, as quais são influenciadas pelo ambiente físico e
social, permitindo a partir desta, o desenvolvimento e aprimoramento do ser humano.
Este aprimoramento fica evidente no filme quando Trevor interage com o professor,
fazendo com que despertasse em Simonet o interesse em auxilar Trevor a solucionar seus
problemas pessoais. Nesta situação, tanto Trevor quanto Simonet desenvolvem-se e pensam
mais criticamente, sendo o diálogo meio de interação.
Freire ressalta a importância do diálogo na relação professor-aluno, já que o diálogo
segundo o autor marca a posição democrática entre estes. Mas destaca que professor e aluno
não são iguais, pois:
Se fossem iguais, um se converteria no outro. O diálogo tem significação
precisamente porque os sujeitos dialógicos não apenas conservam sua identidade,
mas a defendem e assim crescem um com o outro. O diálogo, por isso mesmo, não
nivela, não reduz um ao outro. (...) Implica, ao contrário, um respeito fundamental
dos sujeitos nele engajados, que o autoritarismo rompe ou não permite que se
constitua. (FREIRE, 1992, p.118).
A
postura do professor e do aluno no filme possibilitou que ambos pudessem rever
suas maneiras de agir, e pensar a realidade a sua volta, tendo a oportunidade de mudar de
opinião e reconhecer as possíveis falhas cometidas.
O consumo do álcool e suas implicações
Beber certamente é um dos costumes mais antigos, que persiste a milhares de anos, e
está inserido em diversas culturas. Não se sabe ao certo como ocorreu a descoberta do álcool,
mas as primeiras informações sobre seu uso datam de 6000 a.C. Mas o que torna o uso dessa
substância tão presente em diversas partes do mundo, em tão prolongado tempo?
Uma das causas que levam ao consumo dessa droga psicotrópica é, sem dúvida,
segundo estudos, o tipo de efeitos farmacológicos produzidos por ela, ao lado de uma
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evidente depressão, uma não menos óbvia ação euforizante caracterizada por desinibição
comportamental, hilaridade, diminuição da autocrítica e aumento das expressões afetivas.
Conforme Gigliotti (2008), o álcool é a droga que mais precocemente é experimentada
e, cerca de 84% da população brasileira faz uso ocasional de bebidas alcoólicas. Seu efeito
euforizante tem grande influência nesse uso e eventual abuso da substância.
Um dos problemas associados ao uso do álcool e que discutiremos, devido ao fato de
ser uma das temáticas do filme em análise, é o alcoolismo, que está relacionado com o
consumo crônico dessa substância, entre outros fatores.
Segundo estudos da OMS (Organização Mundial de Saúde) apud Zanoti-Jeronymo
(2005), nos últimos 30 anos o alcoolismo sofreu um aumento significativo, 3 a 15% da
população Brasileira sofre de dependência química. O que parece estar associado a fatores
externos como o desemprego, o stress decorrente da competição, tanto profissional quanto
pessoal, e a problemas sentimentais, conseqüentemente, busca-se uma forma de “fugir” desta
realidade, onde, muitos encontram esta fuga através do uso e abuso de bebidas alcoolicas,
entre outros fatores que aumentam proporcionalmente o uso.
Desta forma, observa-se que o alcoolismo é um problema muito sério, com
repercussões sociais importantes, encontrando-se em todas as camadas sociais e interferindo
na saúde física e mental, e nas relações que o individuo estabelece, no trabalho e
principalmente em casa (Gigliotti, 2008).
O álcool no ambiente familiar: a problemática vivenciada pelo personagem Trevor
Um dos ambientes mais atingidos pelo alcoolismo e que trataremos nesta análise, é o
ambiente familiar, fazendo uma analogia à história vivenciada pelo personagem Trevor e sua
mãe no filme “A corrente do bem”. O filme retrata a história de um menino de 12 anos que
cresceu inserido em um ambiente em que o abuso de álcool fazia parte do cotidiano. Trevor
tinha à sua volta todas as condições necessárias para se tornar um “menino problema”, com
mãe, pai e avó alcoolistas, possuía grande influência para se tornar um dependente. No
entanto, ele que vivia apenas com a mãe e possuía aversão ao pai devido à violência
doméstica sofrida pela mãe, encara a vida de outra forma, tentando ajudá-la a livrar-se do
vício.
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Durante o filme, pode-se observar o desespero do adolescente e sua tomada de
decisões diante do problema enfrentado por sua mãe, fato muito comum, pois segundo
Gigliotti (2008), é gerada a expectativa de que a mudança depende dele e não do alcoolista, o
que o faz controlar tudo o que se refere à vida do outro. Evidenciam-se ações em que Trevor
joga fora as bebidas de sua mãe, tenta arrumar um namorado para ela na esperança de que a
mesma viesse a deixar a bebida e evitar a volta do pai para casa.
Estas ações, na maioria das vezes, não solucionavam o problema e geravam, assim,
frustrações que iam acumulando-se em Trevor, como o fato de pensar em sair de casa. No
filme, pode-se observar uma atitude muito comum em casos de abuso de álcool em ambientes
familiares que é retratada por Gigliotti (2008), a ameaça de se abandonar o lar como
“pressão”, para que o parente alcoolista perceba a gravidade da situação e se resolva por uma
mudança. Estas frustrações vão acontecendo até o familiar perceber que não se pode mudar
ninguém a não ser a nós mesmos e, como conseqüência, ocorrer a mudança natural do outro.
A família é o sistema que mais exerce influência sobre seus membros. A questão é
aprender a discernir o que pode ou não ser feito para mudar, e qual a amplitude de nossa
influência sobre o outro.
Na análise de Zanoti-Jeronymo (2005), pode-se constatar que para crianças e
adolescentes menores de dezoito anos, uma em cada quatro está exposta ao abuso do álcool
no ambiente familiar, o uso que os pais fazem do álcool em casa, deixa a criança e o
adolescente familiarizado com o mesmo, propiciando maiores chances de um envolvimento e
uma possível dependência.
O alcoolismo resulta da influência de diversos fatores, o biológico, psicológico e o
social, como a freqüência e a intensidade de beber, mas as influências parentais são relevantes
para o abuso e dependência de álcool em seus descendentes.
A organização estrutural da família também é muito importante, pois, pode-se
configurar como um fator de prevenção/proteção ou de risco ao uso do álcool. Os estudos de
Zanoti-Jeronymo (2005) revelam que crianças que vivem em um ambiente desestruturado
com conflitos familiares, falta de coesão familiar têm mais chances de se envolverem com uso
de drogas do que crianças que não são filhos de alcoolistas, mas que possuem alguma
estrutura que lhes dê uma base, um apoio emocional.
A personagem “mãe de Trevor” é um bom exemplo da conseqüência da fusão desses
dois fatores: álcool e falta de estrutura familiar. Possuía uma mãe alcoolista que tinha uma
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vida desestruturada, a qual além de fazer uso abusivo de álcool, também não mantinha uma
organização que desse idéia de base familiar para sua filha. Zanoti-Jeronymo (2005), constata
também que é muito importante quando há alguém não-alcoolizado que consegue manter a
rotina familiar e, que a criança tenha um bom relacionamento com esse membro ou com os
irmãos, diminuindo, assim, o impacto que o alcoolismo causa no lar, de modo que, a doença
não repercute apenas no comprometimento físico e mental do indivíduo, mas também nos
familiares que convivem diretamente com a pessoa alcoolista.
No entanto, Zanoti-Jeronymo (2005) afirma que o alcoolismo parental não é um fator
pré-determinado. Existem fatores considerados “fatores de proteção” que se constituem em
características da personalidade da criança e do adolescente, como tendência à inibição e
baixo nível de buscas de emoções fortes, assim como altos níveis de organização familiar que
podem evitar ou diminuir o envolvimento com drogas.
Além de ter maior tendência a serem dependentes, conforme afirma Zanoti-Jeronymo
(2005), os filhos de alcoolistas também encaram a probabilidade de adquirir outros
transtornos como psicopatias, depressão, problemas de comportamento, desordens afetivas e
baixo rendimento escolar.
O consumo de álcool e drogas por familiares influencia em diversos fatores na vida de
seus descendentes e traz conseqüências que podem ser irreversíveis. Segundo estudos de
Zanoti-Jeronymo (2005), na escola pode-se observar em filhos de alcoolistas baixa autoestima, problemas de interação e notas mais baixas.
Geralmente, filhos de alcoolistas possuem mais problemas de comportamento se
comparados a filhos de não-alcoolistas, pois são mais agressivos, às vezes com
comportamento inibido e desmotivado, sendo mais ansiosos e desorganizados, costumando
demorar mais para iniciar uma atividade, no entanto, isto não se constitui uma regra, como foi
evidenciado no filme por meio do comportamento de Trevor.
Estes fatores como: baixa auto-estima, falta de motivação são transtornos do estado
emocional da criança gerado pelo que é vivenciado em casa, pela desordem familiar e
agressões que, como conseqüência, acarreta um baixo rendimento escolar, por isso, ressalta-se
a importância da escola estar interagindo com a vida familiar da criança e do adolescente,
buscando promover programas de prevenção ao uso de drogas que possam evitar a
continuidade de um alcoolismo multi-geracional.
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Pulcherio (2002) comenta sobre essa necessidade de promover o desenvolvimento de
projetos e programas educativos e preventivos ao uso de drogas psicotrópicas e da escola ser
o local adequado para isso, fazendo o professor o papel principal nessa interação entre a
realidade e a sala de aula, que se constitui no lugar ideal para a difusão de conhecimento entre
pessoas, para o confronto professor/aluno na busca da apropriação de conteúdos e valores.
No filme pode-se observar essa realidade de um filho de alcoolista na escola, embora
um pouco distorcida, já que Trevor apesar de ter o conflito do alcoolismo instalado em sua
convivência familiar e não possuir uma relação de confiança e diálogo com sua mãe, é um
aluno dedicado, atencioso e crítico, constituindo um bom relacionamento com seu professor,
este que assumindo seu papel de educador vai ajudar a desenvolver essa difícil relação
mãe/filho.
Simonet também pode ser considerado uma exceção da realidade, filho de alcoolista,
fugiu de casa quando adolescente devido ao consumo abusivo de álcool por seu pai e
constantes agressões deste. No entanto, Simonet traz consigo muitas marcas de sua infância
traumática, apesar de não ter desenvolvido o alcoolismo parental.
Ele vai interferir na realidade de seu aluno pelo fato de ter vivenciado uma história
semelhante, justamente para evitar que esta também tenha fim trágico, e pelo fato de adotar
uma metodologia que visa à transformação e problematização. Pode ser associada à idéia de
que, por terem passado por uma infância difícil, tanto o professor quanto o aluno, pensavam
em um futuro melhor, não se acomodando com a situação vivida, passando, assim, uma
importante mensagem da necessidade do aluno receber apoio da escola e, principalmente, que
esta cumpra o papel de aconselhamento, discutindo em sala de aula a realidade do mundo.
Considerações finais
Percebeu-se por meio desta análise que a interação professor/aluno foi de suma
importância para o desenvolvimento e aprimoramento do personagem Trevor, o qual
auxiliado pelo professor pode agir criticamente intervindo na realidade onde estava inserido,
tendo amparo para poder levantar hipóteses de soluções para seus problemas, principalmente,
o alcoolismo de sua mãe.
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Evidencia-se, então, a importância da constituição de vínculos da criança ou
adolescente com alguém que lhes dê suporte e incentivo a buscar soluções para as demandas
existentes, sejam estas relacionadas a problemas familiares, sociais, pessoais ou psicológicos.
Fica claro que o professor é uma das pessoas mais apropriadas para auxiliar às
crianças e adolescentes a tomarem posição perante determinadas situações, exigindo, assim,
por parte do professor, formação e atualização constante, conforme salienta Behrens (1996, p.
65) que, “o docente deverá levar os alunos a ultrapassarem os muros da escola (...)”, sendo
necessário para isto, não apenas a boa vontade do professor, mas o aprimoramento de sua
formação a partir de um trabalho contínuo e participativo.
O fundamental é termos uma posição crítica, indagadora, para tanto necessitamos
sempre estar nos questionando sobre a real função da educação: a quem ela serve? quem
organiza o currículo? o que é aprender? o que é ensinar a partir da realidade? como é feito o
saber oriundo da experiência? é importante considerá-lo? é possível ser um educador
democrático ou autoritário? que relações poderemos construir na escola a partir da obra de
Freire no que se refere aos problemas sociais? estas e muitas indagações devem fazer parte de
nosso cotidiano na escola e, também fora dela, questionando, principalmente, que tipo de
homem e de sociedade queremos construir.
Estes questionamentos vão de encontro ao que Freire define como problematização,
que é realizar uma análise crítica sobre a realidade, possibilitando aos educandos perceber
situações-problema e, posteriormente, reconhecer a necessidade de mudanças. Para realizar
esta análise, conforme o que já foi exposto, Freire afirma que é indispensável o diálogo entre
os educandos e educadores possibilitando a problematização de situações vivenciadas por
ambos, por meio da relação entre os saberes do aluno e do professor, o que exige reflexão por
ambos.
A problemática do alcoolismo retratada no filme nos deixa de forma clara suas
conseqüências negativas, tanto no ambiente familiar, pessoal e social, deixando marcas físicas
e psicológicas, muitas vezes irreversíveis, como as do professor Simonet, influenciando
negativamente no desenvolvimento e tomada de atitudes perante diversas situações.
Pode-se verificar que há a necessidade de serem criadas políticas públicas, as quais
atendam estas demandas geradas pelo alcoolismo, não somente no ambiente escolar, mas num
todo, buscando amenizar os transtornos e traumas causados por esta doença que, muitas
vezes, não é compreendida pela sociedade, gerando posteriormente outros problemas.
1766
Para a discussão da temática no âmbito escolar, o filme torna-se uma ferramenta de
valor educativo, a qual transmite aos alunos uma mensagem aliada à imagem. Desta forma,
este trabalho, buscou salientar a relevância de se criar um espaço de discussão sobre as drogas
no espaço da sala de aula, com o intuito de trazer informações coerentes que dêem base à
reflexão dos sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.
REFERÊNCIAS
A CORRENTE do bem. Direção: Mimi Leder. Local: EUA. Produção: Tapestry Films. Ano
2000. DVD (123 Min), sonoro, dublado, colorido.
BEHRENS, Marilda Aparecida. Formação continuada dos professores e a prática
pedagógica. Curitiba: Champagnat, 1996.
BERBEL, Nelsi (org.) Metodologia da Problematização: Fundamentos e aplicações.
Londrina: Ed. UEL, 1999.
CAVALCANTE, Maria da Conceição. Interação professor – aluno: favorecendo o
desenvolvimento socioemocional e cognitivo da criança. Porto Alegre: Revista do
Professor: 71. ed. julho/setembro, 2002.
FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não. São Paulo: Olho d'Água, 1998.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação: Uma introdução ao
pensamento de Paulo Freire. 3. ed. São Paulo: Moraes, 1980.
GADOTTI, Moacir. Perspectivas atuais da educação. Porto Alegre: Artes médicas, 2000.
Gigliotti, Analice. Drogas.sem. Aprenda a ajudar pessoas a se livrar de dificuldades com
álcool e drogas. Rio de Janeiro: BestSeller, 2008.
Pulcherio, Gilda. Álcool, outras drogas, informação. O que cada profissional precisa
saber. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.
Zanoti-Jeronymo, Daniela Viganó.; Carvalho, Ana Maria Pimenta. Alcoolismo parental e
suas repercussões sobre crianças e adolescentes: uma revisão bibliográfica. Disponível
em:<http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S180669762005000200007&lng=pt&nrm=iso> Acesso: 14 de janeiro de 2009.
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