A POBREZA SEGUNDO O GOVERNO BRASILEIRO:
A ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA NO DESENVOLVIMENTO DA
HABILIDADE DA LEITURA
Rodrigo Slama Ribas (CELE/UFRN)
[email protected]
Um público comprometido com a leitura é crítico,
rebelde, inquieto, pouco manipulável
e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias.
(MARIO VARGAS LLOROSA)
INTRODUÇÃO
A contemporaneidade trouxe benefícios para a humanidade. O homem
desenvolveu tecnologias, descobriu curas, viajou pelo espaço sideral, mas ainda não
conseguiu abolir um dos maiores males do mundo: a fome. A pobreza extrema e a
miséria são cúmplices deste mal que assola milhares de seres humanos nos quatro
cantos do mundo, e no Brasil, país em desenvolvimento, não seria diferente.
Com uma política voltada para o social, os últimos governantes da nação
conseguiram trazer à tona a questão da fome e da pobreza extrema. Programas como
Fome Zero, Bolsa Família e Brasil Sem Miséria surgiram como estratégias do governo
para eliminar/amenizar o maior dos problemas sociais do país.
E sobre um desses programas, o Brasil Sem Miséria, o mais recente lançado pelo
governo federal, é que este trabalho se debruçará. Analiso, sob as perspectivas da
Análise de Discurso Crítica, doravante ADC, o web site1 do governo brasileiro
destinado às questões concernentes à erradicação da miséria, ligado ao Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS, que se enquadra nas agências
governamentais, que, na perspectiva de Fairclough (2006) seriam as instituições, tais
qual ministérios, comitês, etc, que fazem parte do governo. Utilizo o web site, pois,
como mídia virtual, tem “o design e organização dos web sites [que] envolve gêneros de
comunicação que são internacionalmente usados e reconhecidos” (FAIRCLOUGH,
2006, p. 03)2. Além disso, é uma mídia governamental, um instrumento que leva a voz
do governo diretamente ao interlocutor, sem outra mediação.
Através da análise do corpus, a primeira parte do texto de apresentação do
programa Brasil Sem Miséria, disponível em http://www.brasilsemmiseria.gov.br/
(BRASIL, 2011), será possível atentar para a forma como é constituído o discurso sobre
a pobreza pela voz do governo, tais como as suas construções, seus propósitos, suas
relações. Este discurso, que será discutido adiante, tenta criar uma ‘nova’ identidade
sobre a pobreza, e, para tanto, a identidade do pobre será trabalhada.
A proposta deste trabalho é fazer com que a análise, uma leitura crítica, possa
ser levada à sala de aula, uma vez que fomentará o raciocínio e auxiliará, obviamente, o
1
Nomenclatura estrangeira, porém comumente usada, assim como sua abreviatura, site. Pelo costume de
brasileiro de absolver o estrangeirismo, mantenho a preferência pelo termo em contrapartida ao sítio,
pouco utilizado como referente de web site.
2
The design and organization of web sites involve genres of communication which are internationally
used and recognized (trad. nossa).
aluno a adquirir uma postura crítica perante o mundo. O desenvolvimento da leitura
crítica é importante, pois
os textos estabelecem posições para os sujeitos intérpretes que são
‘capazes’ de compreendê-los e ‘capazes’ de fazer as conexões e as
inferências, de acordo com os princípios interpretativos relevantes,
necessários para gerar leituras coententes (FAIRCLOUG, 2008, p.
113).
E sem a postura crítica na leitura, o receptor pode ficar mais vulnerável às
influências das ideologias contidas no texto. A análise apresentada aqui serve como
exemplo para que o professor trabalhe ancorado na ADC e auxilie o aluno a chegar ao
conhecimento.
Para desenvolver este trabalho, parto da observação, inicialmente, da recorrência
da apresentação do discurso sobre a pobreza no Brasil. A perspectiva que permeia esta
pesquisa é a de que o governo, por ser, em tese, a instituição mais poderosa de uma
nação, oferece um amplo campo de estudos das mudanças sociais e discursivas, uma
vez que postula significações que serão consumidas pela população, passando pela
mídia, etc. E, pelo fato do discurso sobre a pobreza está em evidência, nada melhor do
que levá-lo, através de textos reais, à sala de aula.
Norman Fairclough (idem, p.22), um dos maiores estudiosos e fundador da
ADC, afirma que
os discursos não apenas refletem ou representam entidades e relações
sociais, eles as ‘constituem’; diferentes discursos constituem
entidades-chaves (sejam eles a ‘doença mental’, a ‘cidadania’ ou o
‘letramento’) de diferentes modos e posicionam as pessoas de diversas
maneiras como sujeitos sociais.
Nessa perspectiva, entendo que o governo tem a capacidade de posicionar ou,
pelo menos, influenciar uma determinada leitura sobre a pobreza, seja por parte da
população (que tem acesso ao discurso original, no caso, o proferido pelo web site, sem
intermédio da mídia não-governamental), da mídia de massa ou de qualquer outra
instituição. A voz, portanto, do governo seria o documento que rege os demais textos
que serão reproduzidos a partir dele, e, se seriam coerentes ou não, não está no cerne
deste trabalho.
Ainda nesse contexto, é importante conceber que “a política e a mídia, sem
dúvida, se influenciam mutuamente e controlam uma à outra, ambas sendo por sua vez
controladas por interesses comerciais fundamentais, o mercado e o que e
financeiramente ‘variável’”. (VAN DIJK, 2008, p. 24). Van Dijk (idem) afirma que o
discurso oficial será adotado pela mídia, que o dará cobertura e espalhará entre a
população de modo geral. No entanto, tomarei, apenas, o discurso original, presente nos
textos disponibilizados nos ambientes virtuais do governo, no desenvolvimento deste
trabalho.
As questões, aqui, apresentadas se assentam também na proposta de Moita
Lopes (2009, p.19), que concebe a Linguística Aplicada, área de investigação pela qual
a ADC é subjacente, como “um modo de criar inteligibilidade sobre os problemas
sociais em que a linguagem tem um papel central”, e a linguagem, mais especificamente
a verbal, é o veículo principal de materialização do discurso sobre a pobreza pelo
governo do Brasil.
1. A análise de discurso crítica e o desenvolvimento da leitura
Auxiliar o aluno no desenvolvimento da leitura crítica é uma das maiores
preocupações dos professores de Língua Portuguesa. Baccega (2006) afirma que a
formação do cidadão passa pela escola, e esta, por sua vez, tem como um dos seus
objetivos fazer com que o aluno tenha a habilidade da leitura crítica, sendo capaz de
diferenciar os valores dos produtos que consome, para, assim, reconhecer “os
posicionamentos ideológicos de manutenção do status quo ou de construção de uma
variável histórica mais justa e igualitária” (idem, p. 81).
Para que o aluno desenvolva um posicionamento crítico em relação ao mundo, a
escola precisa, ainda segundo Baccega (idem), democratizar o acesso permanente aos
textos que se presentificam em sua realidade. Neste contexto de apresentação e leitura
de textos do cotidiano que a ADC aparece, uma vez que oferece mecanismo para se
averiguar as ideologias subjacentes a ele.
O discurso do Brasil Sem Miséria, que será analisado brevemente mais adiante,
serve como objeto a ser trabalhado em sala de aula, uma vez que mostra mudanças na
apresentação da pobreza e dos pobres, e “mudanças na organização e na cultura são, de
modo significativo, mudanças nas práticas discursivas” (FAIRCLOUGH, 2008, p. 26).
A percepção dessas mudanças, através de uma leitura crítica, fará com que o aluno
desenvolva a habilidade de leitura pregada por Caldas (2006, p. 125), se tornando, desta
maneira, sujeito ativo na construção das significações do texto “contribuindo assim para
sua expressão social e, consequentemente, na melhoria da leitura do mundo e na
articulação dos conteúdos programáticos da escola”.
Mas como desenvolver a leitura crítica? Basta o professor analisar criticamente
um texto? Absolutamente. A leitura crítica só se desenvolverá, obviamente, se os alunos
forem induzidos, inicialmente, a ler. A depender do nível de leitura, o professor pode
explorar em graus diferentes o texto. Baccega (op. cit, p. 32) afirma que “o
conhecimento continua a ser condição indispensável para a crítica”, e que o
conhecimento, hoje, é uma mercadoria3, e esta mercadoria custa caro, e dá status
àqueles que a possuem.
Vejamos, agora, uma breve análise da primeira parte do texto de apresentação do
programa Brasil Sem Miséria, do governo federal. Ser apresentado às leituras críticas é
condição sine qua non para que o aluno desenvolva sua capacidade de se posicionar
criticamente. Quanto mais leituras, de diferentes gêneros do discurso, mais
conhecimento ele adquire.
2. O discurso do programa Brasil sem miséria
A primeira parte do texto de apresentação do site do programa Brasil Sem
Miséria, brasilsemmiseria.gov.br (BRASIL, 2011), plano do governo para erradicação
da pobreza extrema vinculado ao MSD, tem por título É o Estado chegando aonde a
pobreza está, o que sugere, em primeira leitura, que o governo anterior não chegava
onde estava a pobreza, ou seja, além de exaltar o governo atual, o título faz uma crítica
negativa ao governo anterior, que, no entanto, não é representado pelo ex-presidente
Luis Inácio Lula da Silva, legítimo antecessor da presidenta4 Dilma Rousseff, mas pelo
governo neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o FHC. O parágrafo
3
Este aspecto não será abordado especificamente neste trabalho. No entanto, em estudos futuros será de
grande importância, por isso a citação se faz necessária.
4
A escolha deste termo se dá pelo fato da própria Dilma Rousseff valorizá-lo. O objetivo deste trabalho
não é entrar nesta questão.
que segue deixa bem claro a ideia de que a presidenta atual está dando continuidade ao
governo anterior, do Lula, até porque este foi seu principal argumento de campanha.
Antes de partir diretamente ao texto escrito, é importante dizer que há a foto de
uma família morena. O pai, a mãe e a filha têm os cabelos encaracolados, reafirmando
sua origem afro, além deles, há um menino também, constituindo, assim, o padrão de
família vigente na nossa sociedade – homem, mulher e filhos. Eles estão sorrindo e não
estão vestidos como alguém pobre, além disso, posam em frente do que parece ser uma
casa. Para Chouliaraki & Fairclough (1999, p. 12)5, “textos social e politicamente
engajados (...) são especificamente submetidos a estética desenhada para fazê-los
vender” o que mostra que eles foram construídos para serem consumidos e, assim,
promover uma leitura pré-determinada das ações dos governos. Eis a fotografia.
É essa ideia que o governo brasileiro tenta transmitir ao longo do texto, que a
pobreza está cada vez mais distante, e que o Brasil, agora, está caminhando ao final de
uma estrada que levará os brasileiros a uma classe social acima. Está marcado, também,
que tudo isso é, como é marcado no primeiro parágrafo do texto, mais especificamente
nas primeiras palavras “nos últimos anos”, graças aos governos do Partido dos
Trabalhadores – PT, que teve Lula como presidente de 2003 a 2011 (por conta da
reeleição) e, novamente, com Dilma Rousseff, de 1º de janeiro de 2011 até o presente
momento, que, pela leitura, são apenas um.
Fairclough (2008, p. 91) afirma que “o discurso contribui, em primeiro lugar,
para a construção do que variavelmente é referido como ‘identidades sociais’ e
‘posições de sujeito’ para os ‘sujeitos’ sociais e tipos de ‘eu’”, e, assim, o texto de
apresentação, como cartão postal do Brasil Sem Miséria, tenta postular as identidades
que devem ser atribuídas aos pobres e à pobreza no decorrer dos outros textos do site.
Nos últimos anos, o governo do Brasil se aproximou, como nunca, dos
mais pobres. Assim, 28 milhões de brasileiros saíram da pobreza
absoluta e 36 milhões entraram na classe média.
Como dito, nesta introdução, há a exaltação do governo do ex-presidente Lula, e,
consequentemente do PT, partido da atual chefe da nação. O trecho afirma que “o
governo do Brasil se aproximou, como nunca, dos mais pobres”. O verbo aproximar,
além de indicar vizinhança, indica semelhança. Isso retoma toda ideologia trazida pelo
Lula, homem do povo, brasileiro de origem humilde, etc. e que, depois dele – e do PT –,
o governo tornou-se semelhante ao pobre, fato que, automaticamente, torna o pobre
5
Socially and politically engaged texts like this one are now specifically subject to aesthetic design to
make them sell (trad. nossa).
mais bem visto, uma vez que pôs na mesma categoria de importância a elite que
governa um Estado e o pobre.
A pobreza, então, começa a ser tratada sem as conotações racistas que, por
ventura, podem aparecer na voz da elite, pois “ainda que discurso possa parecer apenas
‘palavras’ (...) a escrita e a fala desempenham papel vital na reprodução do racismo
contemporâneo” (VAN DIJK, 2008, p.133). A classe mais necessitada, desta maneira,
recebe um novo foco, e, portanto, sofre mudança que “envolve formas de transgressão,
[e] o cruzamento de fronteiras, tais como a reunião de convenções existentes em novas
combinações” (FAIRCLOUGH, 2008, p.127).
Dada a importância e o foco da pobreza, e depois de não tê-la tratado com
discriminação, haja vista ser um discurso acessível a qualquer um dos eleitores e
cidadãos, além ter dito boas coisas do governo anterior, o qual a Dilma teve participação
como ministra, a primeira das quatro partes do texto de apresentação do programa
Brasil Sem Miséria afirma que ainda não foi feito todo o necessário, que ainda faltam
muitas pessoas saírem da linha da pobreza.
Mesmo com este esforço, 16 milhões de pessoas ainda permanecem
na pobreza extrema. Entre outros motivos, porque há uma pobreza tão
pobre que dificilmente é alcançada pela ação do Estado. Ela como quê
se esconde, perdida em grotões longínquos do nosso imenso território
ou em zonas segregadas das grandes cidades.
Neste segundo parágrafo, é ressaltada a dificuldade do Estado em alcançar os
mais pobres. Ao afirmar que a pobreza “se esconde, perdida em grotões longínquos”
traz à tona as significações típicas da pobreza que sofreram tentativa de destruição no
primeiro parágrafo. Esta construção, com o substantivo grotões – lugar muito longe dos
centros urbanos –, modificado pelo adjetivo longínquos, que reforça seu significado
através do pleonasmo enriquecido pelo substantivo e adjetivo “zonas segregadas”, com,
basicamente, o mesmo sentido de “grotões”, além de estieticizar o texto, afinca mais
profundamente a imagem do papel difícil que é acabar com a miséria. As construções,
aqui, robustecem a imagem do governo. Assim, a apresentação do programa vende uma
imagem, uma ideologia que será consumida pelos leitores e emergirá nas campanhas
eleitorais: um claro exemplo da comodificação da imagem pelo discurso – que também,
obviamente, está comodificado.
É importante afirmar que a intenção deste trabalho não é discutir as formas pelas
quais o governo constrói sua imagem, mas é imprescindível trazer aos olhos de quem
recebe esta pesquisa os caminhos percorridos pelos enunciadores. Isso mostra que o
Brasil Sem Miséria está sendo comodificado, e “a comodificação da linguagem é
também a primeira instância da racionalidade ‘instrumental’ que é predominante nos
sistemas (a economia, o estado) que dominam a sociedade moderna” (HABERMAS
apud CHOULIARAKI & FAIRCLOUGH, 1999, p. 12)6.
Em seguida, as palavras são arrumadas para atingir o leitor – e vender o discurso
–, e, aqui, a identidade da pobreza e dos pobres é, novamente, posta em questão.
“Desamparadas” qualifica as pessoas, os pobres, que, sozinhos, sem a ajuda do governo,
não podem ter uma vida digna – isso traz significações paternalistas: o governo sendo
responsável pelo pobre. O primeiro período desfaz, completamente, a ideia que se
tentou fazer dos pobres no primeiro parágrafo: como iguais ao governo. Isso se dá pela
necessidade de exaltação das ações dos que comandam o Estado. Uma vez que os
6
The commodification of language is also a primary instance of the 'in mumental' rationaliry which is
predominant in the systems (the economy, the state) which dominate modern scurry (trad. nossa).
pobres não estão, ou ainda não completamente, pareados com os demais representantes
das camadas mais abastadas da sociedade.
São pessoas tão desamparadas que não conseguiram se inscrever, até
mesmo, em programas sociais bastante conhecidos, como o Bolsa
Família. Muito menos ter acesso a serviços essenciais como água, luz,
educação, saúde e moradia.
Aqui, os pobres são tratados como pessoas que não têm acesso à informação. E,
continuando a venda da imagem do governo, o programa Bolsa Família, tido com um
dos grandes responsável pela ascensão da nova classe média, aparece para reforçar o
discurso de um Estado prestativo que foi criado pelo governo do PT. O Bolsa Família
aparece em primeiro lugar na lista de prioridades para se ter uma vida sem pobreza,
aparece antes da água, da luz, da educação, da saúde e da moradia. O governo, portanto,
controla o que seria a prioridade na vida dos brasileiros. Antes mesmo da água, o
enfoque no Bolsa Família traz, não só a este programa, mas aos demais programas do
governo, como, é claro, o Brasil Sem Miséria, um valor de prioridade.
É possível entender, nesta perspectiva, a utilidade do controle do discurso, uma
vez que o “controle do discurso público é controle da mente do público e, portanto,
indiretamente, controle do que o público quer e faz” (VAN DIJK, op. cit., p. 23). Ora,
percebe-se, no texto, que os elementos foram articulados para facilitar a venda de uma
ideia, e impingir a importância dos programas sociais do governo federal.
Adiante, o plano se presta a se explicar. Os trechos que seguem são
metalinguísticos e não trabalham a imagem do pobre e da pobreza como nos anteriores.
O texto é bem explicativo e, por isso, bem repetitivo. Vejamos os próximos parágrafos.
O Plano Brasil Sem Miséria foi criado exatamente para ir aonde elas
estão. Para romper barreiras sociais, políticas, econômicas e culturais
que segregam pessoas e regiões.
Entre outras coisas, vai identificar e inscrever pessoas que precisam e
ainda não recebem o Bolsa Família. E ajudar, quem já recebe, a buscar
outras formas de renda e melhorar suas condições de vida.
Indo diretamente ao quinto parágrafo, uma vez que o quarto é a repetição
concentrada do que foi dito nos anteriores, percebemos que ele sucinta todo o Brasil
Sem Miséria, e, mais uma vez, o Bolsa Família é posto em questão. É de conhecimento
comum que o governo do PT sofreu várias críticas pela distribuição de renda, sendo
chamado, inclusive, de assistencialista através de um tom nada agradável pela oposição
e pela imprensa. Trechos como este, cujos pobres já foram descritos com palavras e
construções que forçam uma leitura piedosa, uma vez que são “pessoas desamparadas”
que vivem em “grotões longínquos”, justificam a distribuição de renda do governo, e
faz com que o leitor jamais se posicione contra os pobres desamparados, que nem
acesso à informação possuem.
O governo se defende, também, da acusação de formar “vagabundos”. O
argumento de que algumas pessoas que recebem o Bolsa Família já terem condições de
sobreviver sem o auxílio do governo – que foi acusado, além de formar preguiçosos, de
inibir a criação de empregos pela imprensa – foi refutado. Como exemplo de acusação,
temos o de Reinaldo Azevedo (2009 [2011]), jornalista da Revista Veja, um dos
maiores veículos de informação e opinião do Brasil, que afirmou sobre o Bolsa Família:
O programa mantém as crianças na escola, mas a maioria das famílias
está acomodada com o benefício, que varia de R$ 22 a R$ 200. Elas
têm medo de perdê-lo ao adicionar outra fonte ao rendimento familiar.
Assim, não demonstram interesse em cursos de qualificação
profissional.
Na perspectiva do governo, no texto de apresentação do Brasil Sem Miséria, a
falta de oportunidade é derivada da pobreza, e, então, se cria um antídoto, um escudo
para o argumento da oposição e da imprensa, e os torna vis, pois, se “um texto só faz
sentido para alguém que nele vê sentido, alguém que é capaz de inferir essas relações de
sentido na ausência de marcadores explícitos” (FAIRCLOUGH, 2008, 113), a
apresentação do Programa atinge aqueles que criticam negativamente os programas
sociais, ou, pelos menos, tentam tirar a dúvida do leitor que ainda não se posicionou
sobre o tema, o que, depois de oito anos do Governo Lula, soa estranho, mas é uma
hipótese.
Voltando à pobreza, ela deve ser combatida, segundo a proposta do governo,
para o melhor desenvolvimento do país, uma vez que, nos parágrafos seguintes, é
afirmado que o programa faz parte de um plano maior, um Mapa Nacional de
Oportunidades, além de que todo o país sai lucrando com o extermínio da miséria.
Vejamos.
Para isso, desenvolveu uma nova estratégia, chamada "Busca Ativa", e
está montando o mais completo Mapa da Pobreza no país. Um mapa
onde a pobreza não é apenas um número: ela tem nome, endereço e
sobrenome.
O Brasil Sem Miséria também está desenhando um Mapa Nacional de
Oportunidades, identificando os meios mais eficientes para estas
pessoas melhorarem de vida.
Só assim os nossos olhos, e o braço do Estado, vão alcançar aquela
pobreza tão pobre que a miséria quase a faz invisível.
Nestes últimos parágrafos, a pobreza tem, mais uma vez, a carga semântica
negativa subtraída no momento em que é feita a seguinte afirmação: “pobreza não é
apenas um número: ela tem nome, endereço e sobrenome”. Além de desmistificar a
pobreza, o governo, nesse trecho, afirma, mais uma vez, sua competência, seu controle
da situação. Agora, o Estado está próximo das classes sociais menos abastadas, como
sugere o próprio título da apresentação. Cabe, reafirmar, portanto, que “as práticas
discursivas são investidas ideologicamente à medida que incorporam significações que
contribuem para manter ou reestruturar as relações de poder” (FAIRCLOUGH, 2008, p.
121), assim, pobres e pobreza são passíveis de receberem um novo olhar, que lhes
impõe um status quo renovado.
Percebe-se que para se obter a mudança na situação da pobreza é necessário,
para o governo, mudar o tratamento que dispõe a essa classe, o que vem sendo
postulado desde o título da apresentação do Programa, desde a imagem da feliz família
da nova classe média, formada pelos ex-pobres: aqueles que abandonaram a vida sem
emprego e adquiriram a casa própria para que os que viviam na miséria (pobreza
extrema) pudessem ocupar o antigo posto: a pobreza, apenas.
No entanto, a pobreza, mesmo sendo acessível ao governo, não é tão fácil assim
de ser alcançada: ela está “quase invisível”. Este tratamento – que vem sendo
apresentado, propositalmente, através de adjetivos e construções que atingem o
emocional do leitor – reforça o empenho do governo de que, mesmo com a dificuldade,
vai acabar com a pobreza, vai transformá-la em classe média.
E, falando em classe, vemos a presença do discurso capitalista do atual governo,
do governo do Partido dos Trabalhadores, que tem suas premissas pautadas no
marxismo. Aqui, o pobre se transforma em consumidor. Fairclough (2006) aborda
algumas questões relacionadas à Economia Político-Cultural, e afirma que os ‘objetos’
econômicos e políticos são construídos socialmente. A partir disso, podemos entender
que o governo brasileiro, através de textos como esta apresentação do Brasil Sem
Miséria cria (ou vem criando) novas formas de conceber os pobres, que já não são,
graças a ele, a maior parte dos brasileiros.
No nono e último parágrafo, esta questão é posta em foco.
Assim, todo o país vai sair lucrando, pois cada pessoa que sai da
miséria é um novo produtor, um novo consumidor e, antes de tudo,
um novo brasileiro disposto a construir um novo Brasil, mais justo e
mais humano.
Em suma, o governo, além de construir, é claro, uma boa imagem de si, o que o
leva a construir uma nova identidade para a pobreza, afirma que formar um brasileiro
(consumidor) é importante para que todos saiam lucrando. A organização do parágrafo
põe em evidência o consumo, mas pela construção “antes de tudo” é evidenciado o
sujeito que construirá um país mais justo e mais humano, ou seja, um país onde a
pobreza extrema não estará presente.
A ideia de lucro, postulada neste último parágrafo, reforça o discurso capitalista.
Ora, a grande maioria da população que vive subjacente a este modelo econômico, pelas
suas experiências e pelos textos aos quais foi exposta, tem em si o desejo de auferir
riquezas, dinheiro, lucro.
Neste trecho da primeira parte do texto de apresentação, o discurso foi
preparado, como pudemos perceber, para atingir a todos os brasileiros, sobretudo os de
classes mais abastadas, uma vez que têm mais posses, mais produtos, mais bens
materiais e, pelas significações que circulam na sociedade, os que mais desejam o
enriquecimento (lê-se que os pobres desejam sair da pobreza, e não desejam, mas
precisam dos lucros).
Tomando como perspectiva a ordem do discurso – discursos, gêneros e estilo –,
uma vez que este trabalho, ancorado nos preceitos da ADC, se presta a afirmar que
Os textos baseiam-se em ordens do discurso, assim, em geral,
podemos reconhecer estilos, gêneros e discursos habituais ou
institucionalizados, mas [eles] podem se dar de maneiras complexas e
não-convencionais – por exemplo, misturando discursos, gêneros ou
estilos diferentes e convencionalmente incompatíveis com a mesma
ordem do discurso (FAIRCLOUGH, 2006, p. 27)7.
Como aconteceu, de fato, no texto em análise: houve a voz do pobre comparada
ao do governo, houve a voz do consumidor equiparada ao pobre, ou seja, existiu um
‘hibridismo interdiscursivo’ entre a voz da elite e a voz do dominado: o pobre, aqui, foi
apresentado com status de elite.
7
texts draw upon orders of discourse, so we can generally recognize habitual or institutionalized
discourses, genres and styles, but they may do so in complex and unconventional ways—for instance by
mixing discourses, genres or styles from different orders of discourse, or mixing different and
conventionally incompatible discourses, genres or styles from the same order of discourse (trad nossa).
CONCLUSÃO
Esta brevíssima demonstração trouxe à luz questões importantes que precisam
ser constatadas e exploradas de forma mais completa, ou, pelo menos, maior. Ela tornou
perceptível que há a intenção do governo brasileiro de criar outra identidade para a
pobreza e para os pobres. Através do discurso que apresenta o programa Brasil Sem
Miséria, o governo, além de modelar um novo pobre, um pobre que foi esquecido pelos
governos antes do PT, aproveita para fortalecer sua imagem.
O tipo de leitura que foi feita do programa em questão precisa ser realizada
sempre na escola. Os alunos devem desenvolver uma postura crítica na hora de lerem
não só os textos levados pelo professor, mas para entender e interpretar o mundo ao seu
redor, mundo este constituído de linguagem. É preciso fazer com que a decodificação se
transforme em interpretação.
A respeito do discurso sobre a pobreza do governo federal, no programa Brasil
Sem Miséria, obviamente, há muito ainda o que se analisar. Este trabalho é um recorte
de um projeto maior que visa analisar as vozes sobre a pobreza: a voz do governo, a voz
da mídia e voz do pobre. Esta breve análise serve como modelo de uma leitura mais
peculiar e exploratória para o professor, que, por sua vez, assistido pela ADC, poderá
auxiliar seu aluno a adquirir uma postura crítica e perceber as relações culturais,
ideológicas, discursivas, etc., não só no seu contexto, mas em contextos distintos que
estão, a todo o momento, se cruzando, formando, assim, as significações no mundo
globalizado, cada vez mais homogêneo.
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Reinaldo. Bolsa Família inibe expansão do emprego no interior do país.
Revista Veja, Editora Abril, 2009. Disponível em
<http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/bolsa-familia-inibe-expansao-do-empregono-interior-do-pais/> Acesso em 28 de julho de 2011.
BACCEGA, M. A. Televisão e escola: uma mediação possível? São Paulo: SENAC,
2003.
BRASIL. Plano Brasil Sem Miséria. Ministério do Desenvolvimento Social e
Combate à Fome – MDS. Disponível em: <http://www.brasilsemmiseria.gov.br>
Acesso: 27 de Julho de 2011.
CALDAS, Graça. Mídia, escola e leitura crítica do mundo. Educ. Soc., Campinas,
vol. 27, n. 94, p. 117-130, jan./abr. 2006
CHOULIARAKI, Lilie & FAIRCLOUGH, Norman. Discourse in late modernity:
rethinking critical discourse analysis. Edinburgh: Edinburgh University Press, 1999.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Traduzido por Izabel
Magalhães, coordenadora de tradução, revisão técnica e prefácio. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 2001, 2008 (reimpressão).
______. Language and Globalization. New York: Routledge, 2006.
MOITA LOPES, L. P. Da aplicação da linguística à linguística aplicada indisciplinar.
In: PEREIRA, R. C.; ROCA, P. (Orgs.). Linguística aplicada: um caminho com
diferentes acessos. São Paulo: Contexto, 2009.
VAN DIJK, Teun A. Discurso e poder. São Paulo: Editora Contexto, 2008.
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