A POBREZA SEGUNDO O GOVERNO BRASILEIRO: A ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA NO DESENVOLVIMENTO DA HABILIDADE DA LEITURA Rodrigo Slama Ribas (CELE/UFRN) [email protected] Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias. (MARIO VARGAS LLOROSA) INTRODUÇÃO A contemporaneidade trouxe benefícios para a humanidade. O homem desenvolveu tecnologias, descobriu curas, viajou pelo espaço sideral, mas ainda não conseguiu abolir um dos maiores males do mundo: a fome. A pobreza extrema e a miséria são cúmplices deste mal que assola milhares de seres humanos nos quatro cantos do mundo, e no Brasil, país em desenvolvimento, não seria diferente. Com uma política voltada para o social, os últimos governantes da nação conseguiram trazer à tona a questão da fome e da pobreza extrema. Programas como Fome Zero, Bolsa Família e Brasil Sem Miséria surgiram como estratégias do governo para eliminar/amenizar o maior dos problemas sociais do país. E sobre um desses programas, o Brasil Sem Miséria, o mais recente lançado pelo governo federal, é que este trabalho se debruçará. Analiso, sob as perspectivas da Análise de Discurso Crítica, doravante ADC, o web site1 do governo brasileiro destinado às questões concernentes à erradicação da miséria, ligado ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS, que se enquadra nas agências governamentais, que, na perspectiva de Fairclough (2006) seriam as instituições, tais qual ministérios, comitês, etc, que fazem parte do governo. Utilizo o web site, pois, como mídia virtual, tem “o design e organização dos web sites [que] envolve gêneros de comunicação que são internacionalmente usados e reconhecidos” (FAIRCLOUGH, 2006, p. 03)2. Além disso, é uma mídia governamental, um instrumento que leva a voz do governo diretamente ao interlocutor, sem outra mediação. Através da análise do corpus, a primeira parte do texto de apresentação do programa Brasil Sem Miséria, disponível em http://www.brasilsemmiseria.gov.br/ (BRASIL, 2011), será possível atentar para a forma como é constituído o discurso sobre a pobreza pela voz do governo, tais como as suas construções, seus propósitos, suas relações. Este discurso, que será discutido adiante, tenta criar uma ‘nova’ identidade sobre a pobreza, e, para tanto, a identidade do pobre será trabalhada. A proposta deste trabalho é fazer com que a análise, uma leitura crítica, possa ser levada à sala de aula, uma vez que fomentará o raciocínio e auxiliará, obviamente, o 1 Nomenclatura estrangeira, porém comumente usada, assim como sua abreviatura, site. Pelo costume de brasileiro de absolver o estrangeirismo, mantenho a preferência pelo termo em contrapartida ao sítio, pouco utilizado como referente de web site. 2 The design and organization of web sites involve genres of communication which are internationally used and recognized (trad. nossa). aluno a adquirir uma postura crítica perante o mundo. O desenvolvimento da leitura crítica é importante, pois os textos estabelecem posições para os sujeitos intérpretes que são ‘capazes’ de compreendê-los e ‘capazes’ de fazer as conexões e as inferências, de acordo com os princípios interpretativos relevantes, necessários para gerar leituras coententes (FAIRCLOUG, 2008, p. 113). E sem a postura crítica na leitura, o receptor pode ficar mais vulnerável às influências das ideologias contidas no texto. A análise apresentada aqui serve como exemplo para que o professor trabalhe ancorado na ADC e auxilie o aluno a chegar ao conhecimento. Para desenvolver este trabalho, parto da observação, inicialmente, da recorrência da apresentação do discurso sobre a pobreza no Brasil. A perspectiva que permeia esta pesquisa é a de que o governo, por ser, em tese, a instituição mais poderosa de uma nação, oferece um amplo campo de estudos das mudanças sociais e discursivas, uma vez que postula significações que serão consumidas pela população, passando pela mídia, etc. E, pelo fato do discurso sobre a pobreza está em evidência, nada melhor do que levá-lo, através de textos reais, à sala de aula. Norman Fairclough (idem, p.22), um dos maiores estudiosos e fundador da ADC, afirma que os discursos não apenas refletem ou representam entidades e relações sociais, eles as ‘constituem’; diferentes discursos constituem entidades-chaves (sejam eles a ‘doença mental’, a ‘cidadania’ ou o ‘letramento’) de diferentes modos e posicionam as pessoas de diversas maneiras como sujeitos sociais. Nessa perspectiva, entendo que o governo tem a capacidade de posicionar ou, pelo menos, influenciar uma determinada leitura sobre a pobreza, seja por parte da população (que tem acesso ao discurso original, no caso, o proferido pelo web site, sem intermédio da mídia não-governamental), da mídia de massa ou de qualquer outra instituição. A voz, portanto, do governo seria o documento que rege os demais textos que serão reproduzidos a partir dele, e, se seriam coerentes ou não, não está no cerne deste trabalho. Ainda nesse contexto, é importante conceber que “a política e a mídia, sem dúvida, se influenciam mutuamente e controlam uma à outra, ambas sendo por sua vez controladas por interesses comerciais fundamentais, o mercado e o que e financeiramente ‘variável’”. (VAN DIJK, 2008, p. 24). Van Dijk (idem) afirma que o discurso oficial será adotado pela mídia, que o dará cobertura e espalhará entre a população de modo geral. No entanto, tomarei, apenas, o discurso original, presente nos textos disponibilizados nos ambientes virtuais do governo, no desenvolvimento deste trabalho. As questões, aqui, apresentadas se assentam também na proposta de Moita Lopes (2009, p.19), que concebe a Linguística Aplicada, área de investigação pela qual a ADC é subjacente, como “um modo de criar inteligibilidade sobre os problemas sociais em que a linguagem tem um papel central”, e a linguagem, mais especificamente a verbal, é o veículo principal de materialização do discurso sobre a pobreza pelo governo do Brasil. 1. A análise de discurso crítica e o desenvolvimento da leitura Auxiliar o aluno no desenvolvimento da leitura crítica é uma das maiores preocupações dos professores de Língua Portuguesa. Baccega (2006) afirma que a formação do cidadão passa pela escola, e esta, por sua vez, tem como um dos seus objetivos fazer com que o aluno tenha a habilidade da leitura crítica, sendo capaz de diferenciar os valores dos produtos que consome, para, assim, reconhecer “os posicionamentos ideológicos de manutenção do status quo ou de construção de uma variável histórica mais justa e igualitária” (idem, p. 81). Para que o aluno desenvolva um posicionamento crítico em relação ao mundo, a escola precisa, ainda segundo Baccega (idem), democratizar o acesso permanente aos textos que se presentificam em sua realidade. Neste contexto de apresentação e leitura de textos do cotidiano que a ADC aparece, uma vez que oferece mecanismo para se averiguar as ideologias subjacentes a ele. O discurso do Brasil Sem Miséria, que será analisado brevemente mais adiante, serve como objeto a ser trabalhado em sala de aula, uma vez que mostra mudanças na apresentação da pobreza e dos pobres, e “mudanças na organização e na cultura são, de modo significativo, mudanças nas práticas discursivas” (FAIRCLOUGH, 2008, p. 26). A percepção dessas mudanças, através de uma leitura crítica, fará com que o aluno desenvolva a habilidade de leitura pregada por Caldas (2006, p. 125), se tornando, desta maneira, sujeito ativo na construção das significações do texto “contribuindo assim para sua expressão social e, consequentemente, na melhoria da leitura do mundo e na articulação dos conteúdos programáticos da escola”. Mas como desenvolver a leitura crítica? Basta o professor analisar criticamente um texto? Absolutamente. A leitura crítica só se desenvolverá, obviamente, se os alunos forem induzidos, inicialmente, a ler. A depender do nível de leitura, o professor pode explorar em graus diferentes o texto. Baccega (op. cit, p. 32) afirma que “o conhecimento continua a ser condição indispensável para a crítica”, e que o conhecimento, hoje, é uma mercadoria3, e esta mercadoria custa caro, e dá status àqueles que a possuem. Vejamos, agora, uma breve análise da primeira parte do texto de apresentação do programa Brasil Sem Miséria, do governo federal. Ser apresentado às leituras críticas é condição sine qua non para que o aluno desenvolva sua capacidade de se posicionar criticamente. Quanto mais leituras, de diferentes gêneros do discurso, mais conhecimento ele adquire. 2. O discurso do programa Brasil sem miséria A primeira parte do texto de apresentação do site do programa Brasil Sem Miséria, brasilsemmiseria.gov.br (BRASIL, 2011), plano do governo para erradicação da pobreza extrema vinculado ao MSD, tem por título É o Estado chegando aonde a pobreza está, o que sugere, em primeira leitura, que o governo anterior não chegava onde estava a pobreza, ou seja, além de exaltar o governo atual, o título faz uma crítica negativa ao governo anterior, que, no entanto, não é representado pelo ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, legítimo antecessor da presidenta4 Dilma Rousseff, mas pelo governo neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o FHC. O parágrafo 3 Este aspecto não será abordado especificamente neste trabalho. No entanto, em estudos futuros será de grande importância, por isso a citação se faz necessária. 4 A escolha deste termo se dá pelo fato da própria Dilma Rousseff valorizá-lo. O objetivo deste trabalho não é entrar nesta questão. que segue deixa bem claro a ideia de que a presidenta atual está dando continuidade ao governo anterior, do Lula, até porque este foi seu principal argumento de campanha. Antes de partir diretamente ao texto escrito, é importante dizer que há a foto de uma família morena. O pai, a mãe e a filha têm os cabelos encaracolados, reafirmando sua origem afro, além deles, há um menino também, constituindo, assim, o padrão de família vigente na nossa sociedade – homem, mulher e filhos. Eles estão sorrindo e não estão vestidos como alguém pobre, além disso, posam em frente do que parece ser uma casa. Para Chouliaraki & Fairclough (1999, p. 12)5, “textos social e politicamente engajados (...) são especificamente submetidos a estética desenhada para fazê-los vender” o que mostra que eles foram construídos para serem consumidos e, assim, promover uma leitura pré-determinada das ações dos governos. Eis a fotografia. É essa ideia que o governo brasileiro tenta transmitir ao longo do texto, que a pobreza está cada vez mais distante, e que o Brasil, agora, está caminhando ao final de uma estrada que levará os brasileiros a uma classe social acima. Está marcado, também, que tudo isso é, como é marcado no primeiro parágrafo do texto, mais especificamente nas primeiras palavras “nos últimos anos”, graças aos governos do Partido dos Trabalhadores – PT, que teve Lula como presidente de 2003 a 2011 (por conta da reeleição) e, novamente, com Dilma Rousseff, de 1º de janeiro de 2011 até o presente momento, que, pela leitura, são apenas um. Fairclough (2008, p. 91) afirma que “o discurso contribui, em primeiro lugar, para a construção do que variavelmente é referido como ‘identidades sociais’ e ‘posições de sujeito’ para os ‘sujeitos’ sociais e tipos de ‘eu’”, e, assim, o texto de apresentação, como cartão postal do Brasil Sem Miséria, tenta postular as identidades que devem ser atribuídas aos pobres e à pobreza no decorrer dos outros textos do site. Nos últimos anos, o governo do Brasil se aproximou, como nunca, dos mais pobres. Assim, 28 milhões de brasileiros saíram da pobreza absoluta e 36 milhões entraram na classe média. Como dito, nesta introdução, há a exaltação do governo do ex-presidente Lula, e, consequentemente do PT, partido da atual chefe da nação. O trecho afirma que “o governo do Brasil se aproximou, como nunca, dos mais pobres”. O verbo aproximar, além de indicar vizinhança, indica semelhança. Isso retoma toda ideologia trazida pelo Lula, homem do povo, brasileiro de origem humilde, etc. e que, depois dele – e do PT –, o governo tornou-se semelhante ao pobre, fato que, automaticamente, torna o pobre 5 Socially and politically engaged texts like this one are now specifically subject to aesthetic design to make them sell (trad. nossa). mais bem visto, uma vez que pôs na mesma categoria de importância a elite que governa um Estado e o pobre. A pobreza, então, começa a ser tratada sem as conotações racistas que, por ventura, podem aparecer na voz da elite, pois “ainda que discurso possa parecer apenas ‘palavras’ (...) a escrita e a fala desempenham papel vital na reprodução do racismo contemporâneo” (VAN DIJK, 2008, p.133). A classe mais necessitada, desta maneira, recebe um novo foco, e, portanto, sofre mudança que “envolve formas de transgressão, [e] o cruzamento de fronteiras, tais como a reunião de convenções existentes em novas combinações” (FAIRCLOUGH, 2008, p.127). Dada a importância e o foco da pobreza, e depois de não tê-la tratado com discriminação, haja vista ser um discurso acessível a qualquer um dos eleitores e cidadãos, além ter dito boas coisas do governo anterior, o qual a Dilma teve participação como ministra, a primeira das quatro partes do texto de apresentação do programa Brasil Sem Miséria afirma que ainda não foi feito todo o necessário, que ainda faltam muitas pessoas saírem da linha da pobreza. Mesmo com este esforço, 16 milhões de pessoas ainda permanecem na pobreza extrema. Entre outros motivos, porque há uma pobreza tão pobre que dificilmente é alcançada pela ação do Estado. Ela como quê se esconde, perdida em grotões longínquos do nosso imenso território ou em zonas segregadas das grandes cidades. Neste segundo parágrafo, é ressaltada a dificuldade do Estado em alcançar os mais pobres. Ao afirmar que a pobreza “se esconde, perdida em grotões longínquos” traz à tona as significações típicas da pobreza que sofreram tentativa de destruição no primeiro parágrafo. Esta construção, com o substantivo grotões – lugar muito longe dos centros urbanos –, modificado pelo adjetivo longínquos, que reforça seu significado através do pleonasmo enriquecido pelo substantivo e adjetivo “zonas segregadas”, com, basicamente, o mesmo sentido de “grotões”, além de estieticizar o texto, afinca mais profundamente a imagem do papel difícil que é acabar com a miséria. As construções, aqui, robustecem a imagem do governo. Assim, a apresentação do programa vende uma imagem, uma ideologia que será consumida pelos leitores e emergirá nas campanhas eleitorais: um claro exemplo da comodificação da imagem pelo discurso – que também, obviamente, está comodificado. É importante afirmar que a intenção deste trabalho não é discutir as formas pelas quais o governo constrói sua imagem, mas é imprescindível trazer aos olhos de quem recebe esta pesquisa os caminhos percorridos pelos enunciadores. Isso mostra que o Brasil Sem Miséria está sendo comodificado, e “a comodificação da linguagem é também a primeira instância da racionalidade ‘instrumental’ que é predominante nos sistemas (a economia, o estado) que dominam a sociedade moderna” (HABERMAS apud CHOULIARAKI & FAIRCLOUGH, 1999, p. 12)6. Em seguida, as palavras são arrumadas para atingir o leitor – e vender o discurso –, e, aqui, a identidade da pobreza e dos pobres é, novamente, posta em questão. “Desamparadas” qualifica as pessoas, os pobres, que, sozinhos, sem a ajuda do governo, não podem ter uma vida digna – isso traz significações paternalistas: o governo sendo responsável pelo pobre. O primeiro período desfaz, completamente, a ideia que se tentou fazer dos pobres no primeiro parágrafo: como iguais ao governo. Isso se dá pela necessidade de exaltação das ações dos que comandam o Estado. Uma vez que os 6 The commodification of language is also a primary instance of the 'in mumental' rationaliry which is predominant in the systems (the economy, the state) which dominate modern scurry (trad. nossa). pobres não estão, ou ainda não completamente, pareados com os demais representantes das camadas mais abastadas da sociedade. São pessoas tão desamparadas que não conseguiram se inscrever, até mesmo, em programas sociais bastante conhecidos, como o Bolsa Família. Muito menos ter acesso a serviços essenciais como água, luz, educação, saúde e moradia. Aqui, os pobres são tratados como pessoas que não têm acesso à informação. E, continuando a venda da imagem do governo, o programa Bolsa Família, tido com um dos grandes responsável pela ascensão da nova classe média, aparece para reforçar o discurso de um Estado prestativo que foi criado pelo governo do PT. O Bolsa Família aparece em primeiro lugar na lista de prioridades para se ter uma vida sem pobreza, aparece antes da água, da luz, da educação, da saúde e da moradia. O governo, portanto, controla o que seria a prioridade na vida dos brasileiros. Antes mesmo da água, o enfoque no Bolsa Família traz, não só a este programa, mas aos demais programas do governo, como, é claro, o Brasil Sem Miséria, um valor de prioridade. É possível entender, nesta perspectiva, a utilidade do controle do discurso, uma vez que o “controle do discurso público é controle da mente do público e, portanto, indiretamente, controle do que o público quer e faz” (VAN DIJK, op. cit., p. 23). Ora, percebe-se, no texto, que os elementos foram articulados para facilitar a venda de uma ideia, e impingir a importância dos programas sociais do governo federal. Adiante, o plano se presta a se explicar. Os trechos que seguem são metalinguísticos e não trabalham a imagem do pobre e da pobreza como nos anteriores. O texto é bem explicativo e, por isso, bem repetitivo. Vejamos os próximos parágrafos. O Plano Brasil Sem Miséria foi criado exatamente para ir aonde elas estão. Para romper barreiras sociais, políticas, econômicas e culturais que segregam pessoas e regiões. Entre outras coisas, vai identificar e inscrever pessoas que precisam e ainda não recebem o Bolsa Família. E ajudar, quem já recebe, a buscar outras formas de renda e melhorar suas condições de vida. Indo diretamente ao quinto parágrafo, uma vez que o quarto é a repetição concentrada do que foi dito nos anteriores, percebemos que ele sucinta todo o Brasil Sem Miséria, e, mais uma vez, o Bolsa Família é posto em questão. É de conhecimento comum que o governo do PT sofreu várias críticas pela distribuição de renda, sendo chamado, inclusive, de assistencialista através de um tom nada agradável pela oposição e pela imprensa. Trechos como este, cujos pobres já foram descritos com palavras e construções que forçam uma leitura piedosa, uma vez que são “pessoas desamparadas” que vivem em “grotões longínquos”, justificam a distribuição de renda do governo, e faz com que o leitor jamais se posicione contra os pobres desamparados, que nem acesso à informação possuem. O governo se defende, também, da acusação de formar “vagabundos”. O argumento de que algumas pessoas que recebem o Bolsa Família já terem condições de sobreviver sem o auxílio do governo – que foi acusado, além de formar preguiçosos, de inibir a criação de empregos pela imprensa – foi refutado. Como exemplo de acusação, temos o de Reinaldo Azevedo (2009 [2011]), jornalista da Revista Veja, um dos maiores veículos de informação e opinião do Brasil, que afirmou sobre o Bolsa Família: O programa mantém as crianças na escola, mas a maioria das famílias está acomodada com o benefício, que varia de R$ 22 a R$ 200. Elas têm medo de perdê-lo ao adicionar outra fonte ao rendimento familiar. Assim, não demonstram interesse em cursos de qualificação profissional. Na perspectiva do governo, no texto de apresentação do Brasil Sem Miséria, a falta de oportunidade é derivada da pobreza, e, então, se cria um antídoto, um escudo para o argumento da oposição e da imprensa, e os torna vis, pois, se “um texto só faz sentido para alguém que nele vê sentido, alguém que é capaz de inferir essas relações de sentido na ausência de marcadores explícitos” (FAIRCLOUGH, 2008, 113), a apresentação do Programa atinge aqueles que criticam negativamente os programas sociais, ou, pelos menos, tentam tirar a dúvida do leitor que ainda não se posicionou sobre o tema, o que, depois de oito anos do Governo Lula, soa estranho, mas é uma hipótese. Voltando à pobreza, ela deve ser combatida, segundo a proposta do governo, para o melhor desenvolvimento do país, uma vez que, nos parágrafos seguintes, é afirmado que o programa faz parte de um plano maior, um Mapa Nacional de Oportunidades, além de que todo o país sai lucrando com o extermínio da miséria. Vejamos. Para isso, desenvolveu uma nova estratégia, chamada "Busca Ativa", e está montando o mais completo Mapa da Pobreza no país. Um mapa onde a pobreza não é apenas um número: ela tem nome, endereço e sobrenome. O Brasil Sem Miséria também está desenhando um Mapa Nacional de Oportunidades, identificando os meios mais eficientes para estas pessoas melhorarem de vida. Só assim os nossos olhos, e o braço do Estado, vão alcançar aquela pobreza tão pobre que a miséria quase a faz invisível. Nestes últimos parágrafos, a pobreza tem, mais uma vez, a carga semântica negativa subtraída no momento em que é feita a seguinte afirmação: “pobreza não é apenas um número: ela tem nome, endereço e sobrenome”. Além de desmistificar a pobreza, o governo, nesse trecho, afirma, mais uma vez, sua competência, seu controle da situação. Agora, o Estado está próximo das classes sociais menos abastadas, como sugere o próprio título da apresentação. Cabe, reafirmar, portanto, que “as práticas discursivas são investidas ideologicamente à medida que incorporam significações que contribuem para manter ou reestruturar as relações de poder” (FAIRCLOUGH, 2008, p. 121), assim, pobres e pobreza são passíveis de receberem um novo olhar, que lhes impõe um status quo renovado. Percebe-se que para se obter a mudança na situação da pobreza é necessário, para o governo, mudar o tratamento que dispõe a essa classe, o que vem sendo postulado desde o título da apresentação do Programa, desde a imagem da feliz família da nova classe média, formada pelos ex-pobres: aqueles que abandonaram a vida sem emprego e adquiriram a casa própria para que os que viviam na miséria (pobreza extrema) pudessem ocupar o antigo posto: a pobreza, apenas. No entanto, a pobreza, mesmo sendo acessível ao governo, não é tão fácil assim de ser alcançada: ela está “quase invisível”. Este tratamento – que vem sendo apresentado, propositalmente, através de adjetivos e construções que atingem o emocional do leitor – reforça o empenho do governo de que, mesmo com a dificuldade, vai acabar com a pobreza, vai transformá-la em classe média. E, falando em classe, vemos a presença do discurso capitalista do atual governo, do governo do Partido dos Trabalhadores, que tem suas premissas pautadas no marxismo. Aqui, o pobre se transforma em consumidor. Fairclough (2006) aborda algumas questões relacionadas à Economia Político-Cultural, e afirma que os ‘objetos’ econômicos e políticos são construídos socialmente. A partir disso, podemos entender que o governo brasileiro, através de textos como esta apresentação do Brasil Sem Miséria cria (ou vem criando) novas formas de conceber os pobres, que já não são, graças a ele, a maior parte dos brasileiros. No nono e último parágrafo, esta questão é posta em foco. Assim, todo o país vai sair lucrando, pois cada pessoa que sai da miséria é um novo produtor, um novo consumidor e, antes de tudo, um novo brasileiro disposto a construir um novo Brasil, mais justo e mais humano. Em suma, o governo, além de construir, é claro, uma boa imagem de si, o que o leva a construir uma nova identidade para a pobreza, afirma que formar um brasileiro (consumidor) é importante para que todos saiam lucrando. A organização do parágrafo põe em evidência o consumo, mas pela construção “antes de tudo” é evidenciado o sujeito que construirá um país mais justo e mais humano, ou seja, um país onde a pobreza extrema não estará presente. A ideia de lucro, postulada neste último parágrafo, reforça o discurso capitalista. Ora, a grande maioria da população que vive subjacente a este modelo econômico, pelas suas experiências e pelos textos aos quais foi exposta, tem em si o desejo de auferir riquezas, dinheiro, lucro. Neste trecho da primeira parte do texto de apresentação, o discurso foi preparado, como pudemos perceber, para atingir a todos os brasileiros, sobretudo os de classes mais abastadas, uma vez que têm mais posses, mais produtos, mais bens materiais e, pelas significações que circulam na sociedade, os que mais desejam o enriquecimento (lê-se que os pobres desejam sair da pobreza, e não desejam, mas precisam dos lucros). Tomando como perspectiva a ordem do discurso – discursos, gêneros e estilo –, uma vez que este trabalho, ancorado nos preceitos da ADC, se presta a afirmar que Os textos baseiam-se em ordens do discurso, assim, em geral, podemos reconhecer estilos, gêneros e discursos habituais ou institucionalizados, mas [eles] podem se dar de maneiras complexas e não-convencionais – por exemplo, misturando discursos, gêneros ou estilos diferentes e convencionalmente incompatíveis com a mesma ordem do discurso (FAIRCLOUGH, 2006, p. 27)7. Como aconteceu, de fato, no texto em análise: houve a voz do pobre comparada ao do governo, houve a voz do consumidor equiparada ao pobre, ou seja, existiu um ‘hibridismo interdiscursivo’ entre a voz da elite e a voz do dominado: o pobre, aqui, foi apresentado com status de elite. 7 texts draw upon orders of discourse, so we can generally recognize habitual or institutionalized discourses, genres and styles, but they may do so in complex and unconventional ways—for instance by mixing discourses, genres or styles from different orders of discourse, or mixing different and conventionally incompatible discourses, genres or styles from the same order of discourse (trad nossa). CONCLUSÃO Esta brevíssima demonstração trouxe à luz questões importantes que precisam ser constatadas e exploradas de forma mais completa, ou, pelo menos, maior. Ela tornou perceptível que há a intenção do governo brasileiro de criar outra identidade para a pobreza e para os pobres. Através do discurso que apresenta o programa Brasil Sem Miséria, o governo, além de modelar um novo pobre, um pobre que foi esquecido pelos governos antes do PT, aproveita para fortalecer sua imagem. O tipo de leitura que foi feita do programa em questão precisa ser realizada sempre na escola. Os alunos devem desenvolver uma postura crítica na hora de lerem não só os textos levados pelo professor, mas para entender e interpretar o mundo ao seu redor, mundo este constituído de linguagem. É preciso fazer com que a decodificação se transforme em interpretação. A respeito do discurso sobre a pobreza do governo federal, no programa Brasil Sem Miséria, obviamente, há muito ainda o que se analisar. Este trabalho é um recorte de um projeto maior que visa analisar as vozes sobre a pobreza: a voz do governo, a voz da mídia e voz do pobre. Esta breve análise serve como modelo de uma leitura mais peculiar e exploratória para o professor, que, por sua vez, assistido pela ADC, poderá auxiliar seu aluno a adquirir uma postura crítica e perceber as relações culturais, ideológicas, discursivas, etc., não só no seu contexto, mas em contextos distintos que estão, a todo o momento, se cruzando, formando, assim, as significações no mundo globalizado, cada vez mais homogêneo. REFERÊNCIAS AZEVEDO, Reinaldo. Bolsa Família inibe expansão do emprego no interior do país. Revista Veja, Editora Abril, 2009. Disponível em <http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/bolsa-familia-inibe-expansao-do-empregono-interior-do-pais/> Acesso em 28 de julho de 2011. BACCEGA, M. A. Televisão e escola: uma mediação possível? São Paulo: SENAC, 2003. BRASIL. Plano Brasil Sem Miséria. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS. Disponível em: <http://www.brasilsemmiseria.gov.br> Acesso: 27 de Julho de 2011. CALDAS, Graça. 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