Uma viagem no tempo: Reflexões sobre leituras no tempo e possibilidades de leitura Gabriela Soares de Azevedo Mestranda - Universidade Estadual do Rio de Janeiro O viajante percorre um caminho longo ou curto. A história do viajante é menos a viagem e mais o que ele relata da sua viagem, o viajante requer um conto, uma narrativa, um manuscrito, uma crônica, uma memória ou um tratado. Ele pode ser um flâneur nas ruas do Rio de Janeiro, ele pode ser um metropolitano na colônia brasileira, ele pode ser um grego se perdendo nos mares, ele pode ser um cavalheiro em busca de honra e aventuras em florestas inóspitas ou pode ir passear sozinho na Antártida. Mas ele nada será se não houver quem saiba por onde andou e o que viu. Assim, ele pode ser João do Rio, Odisseu, Gabriel Soares de Sousa, Ivain, o cavalheiro do leão ou Amir Klink, desde que ele se lembre de relatar o que viu, o que pensou que viu ou o que quer que pensem que viu. A partir da compreensão da essência, sem perder a contextualização das distâncias, estabeleceremos aqui uma pequena reflexão sobre diferentes relatos. O olhar do viajante – cronista é o que vê as miudezas, relata as impressões e as contradições. Não é à toa que João do Rio é o cronista do Rio de Janeiro, não é à toa que os colonos portugueses quinhentistas são denominados cronistas. Gabriel Soares de Sousa é três vezes viajante. Numa biografia sucinta nasceu, em cerca de 1540, em Portugal e embarcou, em 1569, numa nau com destino a Monomotapa, no atual Moçambique. Saíram de Portugal três naus com tal destino, mas somente uma chegou. Esta expedição, segundo um contemporâneo, Diogo de Couto, arregimentou uma grande quantidade de fidalgos e nobres com interesses nas riquezas possíveis. As três naus que partiram de Lisboa logo se separaram. Uma retornou ao reino, outra cumpriu seu trajeto e a última se perdeu e foi dar na Bahia. Refeita do erro de Diogo de Couto trata-se do famoso autor de O soldado prático. Sousa, Gabriel Soares de Notícia do Brasil. Comentários e notas de Varnhagen, Pirajá da Silva e Edelweiss. Ed. patrocibada pelo M.E.C. São Paulo, 1974, p.276. 936 - Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano cálculo, ela retornou em direção a África. Não sabemos se por ter gostado do que viu ou desconfiado dos caminhos marítimos, Gabriel Soares preferiu ficar aonde chegou. E fez uma carreira próspera: tornou-se senhor, de pelo menos, dois engenhos na região do Recôncavo baiano. Em 1582, assinou, já como vereador, o Auto de Aclamação e Juramento de Fidelidade prestado pelo Senado da Câmara da Bahia a Felipe II da Espanha. Em 10 de agosto de 1584 redigiu o seu testamento, e no final do mesmo mês, partiu para a Europa com a finalidade de obter concessões para uma empresa em busca de riquezas pelo rio São Francisco, após, portanto, cerca de quinze anos como morador da colônia. Um novo percalço no mar, a embarcação sofreu problemas e foi obrigado a parar em Pernambuco. Assim demorou mais um pouco e não se sabe ao certo a data em que partiu para o reino e nem quando exatamente lá chegou. Sabe-se que em 1587, ofereceu a D. Cristóvão de Moura, influente membro da Corte, a carta dedicatória de seus escritos, o seu Tratado Descritivo ou Notícia do Brasil e um texto denunciador das ações da Companhia de Jesus no Brasil. Em dezembro de 1590, foram despachados os requerimentos de Gabriel Soares com uma série de concessões que por si só nos garantem o êxito das negociações e articulações na Corte. Retornou à colônia em 1591. Mas os contratempos o acompanhavam, e a nau, que vinha cheia de provimentos e homens, naufragou em Sergipe e de lá seguiu a pé para a Bahia, com o que sobrou. Refez sua expedição e partiu, finalmente, atrás do que nos parece ser seu grande objetivo: a descoberta de minas e pedras preciosas, que naquele momento, tudo indicava que ficavam lá pelas bandas do rio São Francisco. Desta vez o destino foi fatal: não se sabe se por doença ou por vingança numa das versões os índios aprisionados se rebelaram e ele foi ferido - faleceu antes de ter visto a famosa Lagoa Dourada ou Eldorado, no mesmo lugar onde seu irmão, explorador, havia morrido tempos antes. O Tratado ficou “perdido” durante mais de duzentos anos e é obra das mais importantes da historiografia colonial brasileira. Contém toda referência sobre o que possuía a terra, suas qualidades, as dificuldades para a ocupação, as características da fauna e da flora, dos grupos indígenas, as fortificações já feitas e a se fazer. Sua autoria foi identificada por Francisco Adolpho de Varnhagen, em 1838. Seu outro texto hoje conhecido teve ainda mais motivos de permanecer oculto, pois contém informações dadas em segredo e sem nenhum fito de divulgação sobre a atuação da Companhia de Jesus. Reunidas com o título de Capítulos de Gabriel Soares de Sousa contra os Padres Assinados pelo rei Filipe II, os despachos de Gabriel Soares continham, para ele, o título de Governador da conquista e descobrimento do S. Francisco, com direito de nomear, por seu falecimento, um sucessor, que gozaria dos mesmos títulos e poder; permissão de prover todos os ofícios da justiça e da fazenda, no seu distrito. Concedido ainda para quatro cunhados e dois primos que o acompanhavam, o hábito de Cristo, com 50$000 de tença e, no final da jornada, o foro de fidalgo e moradia para eles. Entre outras concessões, Gabriel Soares poderia distribuir o foro de cavalheiros fidalgos a cem pessoas que o acompanhassem e, além de outras várias prerrogativas, caso fosse bem sucedido, teria o título de Marquês. Notícia do Brasil. Op cit., p.287. Gabriela Soares de Azevedo - 937 da Companhia de Jesus que residem no Brasil, este texto denuncia os passos “mal dados” da Companhia de Jesus desde a sua chegada ao Brasil. Deste seu manuscrito temos notícias ainda nos tempos coloniais, teria sido revelado, em 1592, logo após a morte de Gabriel Soares, para um seleto grupo de clérigos, que foram incumbidos de responder, pormenorizadamente, cada uma das acusações feitas. Mas o original, seguido das respostas dos padres, teve sua circulação restrita à Companhia e só foi divulgado pela primeira vez, em partes, já no século XX. Na Bahia, ainda hoje, é possível visitar o túmulo de Gabriel Soares de Sousa no mosteiro de São Bento, em Salvador, onde se lê a curiosa inscrição que pediu em testamento que fosse gravada em sua lápide: Aqui jaz um pecador. A biografia de Gabriel Soares dá conta de uma vida, além de cheia de tropeços, à beira sempre de um naufrágio ou da morte iminente. Mas, na fragilidade dos conhecimentos, há o espírito desbravador, o mundo se tornando pequeno, o conhecido frente ao desconhecido. Dá conta também da amplidão do Império ultramarino, do projeto mercantil abarcando três continentes em comunicação, e, portanto, em informação. Fala do projeto de fé a ser secularizado e apresenta também a força do temor a Deus. Fala do homem prático, que não só conhece, mas escreve sobre o que conhece e que sabe valorizar o escrito, a palavra escrita como autoridade. Viajante dos mares dos descobrimentos, o relato de Gabriel Soares apresenta um momento específico da história do homem ocidental. Insere-se no quadro das obras da literatura portuguesa de viagens e percebe-se que a experiência pessoal se revela cada vez com maior persistência ainda que haja aqui o entrelaçamento de dois mundos: o mundo medieval e o mundo moderno. Uma nova literatura cujo teor se desvincula do discurso oficial das correntes culturais dominantes, a escolástica depurada e o humanismo. Este mundo novo precisa ser testemunhado e esse testemunho traduz o outro e a si mesmo, o homem renascentista se revela em Gabriel Soares, num registro que muitas vezes foi lido como reflexo do real. Entretanto, ainda que enxergue já com os olhos da bússola, do astrolábio, o colono também vê o paraíso, num mundo ainda povoado do desconhecido. A História, que tem como musa Clio, não tem muita habilidade com o texto ficcional. Aliás, andou durante muito tempo desconfiando dos estudos culturais como forma de conhecimento. Segundo Carl E. Schorske,“o universalismo grecoromano produziu uma espécie de etnocentrismo da alta cultura que condenou a abordagem cultural multifacetada da história à incompreensão por mais de 2 mil anos”. Assim desvalorizada como tema menor frente ao discurso objetivo, concreto e útil (apreensível, explicável, mensurável e científico -como a política, as batalhas, os grandes homens...) a cultura volta, entretanto, a ocupar um papel de destaque para a musa há não muito tempo. Não que ela não estivesse lá, o problema era como ela era vista. Mas nesta relação a forma como ela se dá nem sempre satisfez aos amantes: a obra cultural serviu como recorte para uma análise histórica – assim confirmadora Shorske, C. E. Pensando com a história.Indagações na passagem para o modernismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.244. 938 - Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano ou negadora de fatos e dados concretos, ou por outro lado, serviu como referência para uma análise antropológica ou estrutural, símbolo de um eterno continuum a ser decifrado. As novidades, contudo, surgiram e vieram na forma da crítica literária, na valorização do texto, da narrativa e da nova hermenêutica. Neste caminho nem tão novo agora, o texto revela múltiplas interpretações, não se fecha, não concretiza nem solidifica o mundo: ele reforma-se, ele não sobrevive, mas vive em múltiplas temporalidades. O texto é a trama: o tapete de vários fios que constroem uma imagem, mas as imagens não são vistas da mesma forma pelos espectadores, o olhar é quem faz os sentidos e reconstrói os fios que não falam senão de um outro, do mesmo, de formas de ver o mundo, o corpo, o tempo, da identidade e da estranheza, de sentidos, sentimentos, mas também de tradição, de referências, de regras, de costumes e modelos. É através deste olhar, que se faz presente, individual, único e múltiplo, que nós podemos nos aproximar, por exemplo, do texto de Homero que vive não no mundo grego, mas no mundo pós-moderno. Próprios da modernidade são a consciência do tempo, passado e futuro, a mobilidade, o transitório, a descontinuidade, o cientificismo e o esteticismo. “Um livro é modificado pelo fato de que ele não se modifica nem mesmo quando o mundo se modifica”, diz Pierre Bourdieu. Contradição, paradoxo do texto? Sim, mas nem por isso hermético ou evidente. Assim, o mundo de Ulisses não é a verdade do século VIII a.C. por simplesmente não existir a verdade, mas ele é, se percebemos através do que ele diz, do que o texto fala, a tangência de um outro tempo, através da irrealização do real e da realização do imaginário. No mundo longínquo de uma geografia do maravilhoso, o que o texto explica não é causa e efeito. A palavra dita pelo poeta requer que se coloque no lugar, o como se, somente neste lugar os ouvidos podem ouvir, não esquecendo a estranheza, mas traduzindo em novos nós as teias do passado. Diferente em tudo para nós, pois, como diz Guy Debord; “Essa sociedade que suprime a distância geográfica recolhe interiormente a distância, como separação espetacular”, essa sociedade que é a nossa, diferente da Grécia, do medievo, dos descobrimentos, ela não vê o outro, porque o outro em nada difere, nem longe, nem perto demais, nem estranho demais. Tudo vira então o espetáculo, o passageiro e efêmero durar de um espetáculo e nada que não seja espetáculo pode entreter. Ponto de partida para a compreensão histórica é a cisão entre o mito e a razão. Assim, na compreensão da voz e do sentido de um testemunho do passado, o analista explica o que não consegue explicar pela historicidade: o que não tem sentido hoje pertence a alguma tradição perdida e inatingível a não ser por aproximação. Contextualizado, o texto ganha sentido distanciado e possível já que racionalizado, o que o coloca em algum patamar do desenvolvimento do espírito humano, mas não esgota sua literalidade. Entretanto é impossível aproximar-se do texto sem pré-conceitos, as opiniões prévias, sem antecipar um sentido que é a própria essência da Chartier, Roger. “Texto, impressão e leituras”, apud Lynn Hunt, A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p.226. O como se é uma das categorias utilizadas por Wofgang Iser. Debord, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, p.19. Gabriela Soares de Azevedo - 939 compreensão. Só posso compreender o sentido quando ele se faz e se refaz constantemente, minha leitura antecipa-se ao que será dito, imagina o que virá, constrói o filme em múltiplos fotogramas que acabam por fixá-lo. Mas estes conceitos prévios devem ser refeitos e para a consciência do texto é necessária a receptividade à alteridade. Não há, portanto, exigência de uma neutralidade, lugar que inclusive não existe; há a consciência das próprias opiniões prévias. No caso dos romances da Távola Redonda, tema mais do que conhecido, as imagens pra lá de recontadas chegam mesmo a influenciar o texto de forma a cada página nos confrontarmos com versões que já sabíamos e aí nos perguntarmos: ora, mas o Rei Artur não era assim ou assado? Quando surgirá o mago Merlim? Não era pra acontecer tal coisa agora? Conhecimento prévio que antes de embutir abre as portas para o surpreendimento. O mundo narrado, no caso dos textos fixados na escrita no século XII por Chrétien de Troyes, é o do encantamento. A História faz parte do mundo desencantado. Aproximar-se do texto é perceber nele tradição e verdade, não a verdade histórica, mas a verdade na coisa dita. A verdade no texto se apresenta como tese a ser defendida que se confronta com o próprio relato. Há nele a tradição remota de tempos passados: genealogias, seres maravilhosos, poções mágicas, floresta escuras, castelos, damizetes e vavassalos e há a verdade a ser dita: a honra, a fidelidade, o amor cortês, a barbárie vencida pela civilidade, os dogmas cristãos sendo defendidos, os limites à ação humana, o exemplo a ser seguido, a morte sendo confrontada pelo nome, a coragem do combate pelo cavalheiro: “sou de opinião que o homem cortês morto vale mais que o vilão vivo”. A narrativa de Chrétien de Troyes surpreende pela consciência de ser narrativa, o tempo todo a escolha é revelada, recorta a contação, o narrador se apresenta, abre espaço para outras histórias, relata o tempo que é linear. Passado, presente e futuro vão criando o vão que torna a trama uma espiral, algo que acontece agora se fechará mais adiante, os atos têm causa e conseqüência. O narrador sabe do seu ouvinte e lhe amarra pela palavra, o comentário é explícito: o que merece ser contado é contado, deixando aberto no discurso e na imaginação aquilo que não o foi. Seduz pela imagem rica e pelas brechas do discurso que te prende pelo que virá ainda de mais surpreendente. A pergunta que o ouvinte-leitor faz é: e o que vai acontecer depois disso? “Os preconceitos de um indivíduo são muito mais que seus juízos, a realidade histórica de seu ser”. Na perspectiva da hermenêutica filosófica em Gadamer, há a reabilitação do compreender como método. Este compreender considera o tempo, a partir de Heidegger, e o intérprete no tempo. A interpretação se insere num contexto ( valorização da historicidade) e este contexto faz da compreensão um ato de autocompreensão de quem interpreta e do sentido um processo infinito e nem por isso relativo ou ineficaz já que sempre colocado dentro da consciência histórica. Gadamer, Hans-Georg. Verdade e Método. Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 1998, p.416. Troyes, Chrètien de. Romances da Távola Redonda. 2ª ed. - São Paulo: Martins Fontes, 1998, p.204. 940 - Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano O que é verdade e o que é mentira neste relato do século XII? A verdade não é mais o atributo sincero de um mundo relatado, é a verdade do que eu digo e creia quem quiser no que eu digo - ela não é absoluta, não é palavra mágico-religiosa que tem suas raízes firmes como o carvalho. Ela é aberta pela compreensão e pela livre escolha – a verdade não está no mundo por si mesma, ela tem que ser provada, domada, civilizada, daí a defesa de uma tese. O texto tem um objetivo, uma defesa, um argumento a ser defendido, pois a verdade não está dada. Já no Tratado Descritivo de Gabriel Soares, a verdade pode ser comprovada, é um saber adquirido pelo método da observação e da medida do mundo; o homem, poderoso em sua razão, pode controlar as forças da natureza: ver, ouvir, ouvir dizer, tudo isto garante a autoridade do discurso. Os mesmos sentidos desde Homero, mas como mudam! Agora há um outro estatuto, não mais os sentidos enganados e confundidos por deuses ou por poções. Os sentidos servindo ao método. A concepção de verdade mudou, não a do poeta e das musas, não a revelada, não a teológica. Agora a verdade se pauta na experiência, no observado. Aliado a isto, estará o homem de estudo que obtém conhecimento, informações, leitura. Enxergando o texto pelo que diz, o mesmo Gabriel Soares vai dar conta de um mundo onde duas tradições se confundem: uma tradição mítica medieval e o mundo novo da experiência. Não é à toa que em pleno tempo da Escola de Sagres, um alvará Del-Rei legisla sobre o caso do que ser feito se algum súdito encontrasse uma sereia. Seria necessário pagar um tributo já que pertencia a uma classe de pescado ou fruto do mar e tudo deveria, portanto, pertencer ao rei. Nada estranho. Afinal ultimamente foram avistados muitos tritões nas praias do reino. Historiador por prática, letrado que participava do estreito círculo daqueles que integravam as cadeiras do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, participando efetivamente da elaboração histórica deste desde sua fundação em 1838 (mesmo que quase sempre ausente por sua ocupação diplomática), Francisco Adolfo de Varnhagen10 elegerá a obra de Gabriel Soares de Sousa para integrar os quadros dos Hue, Sônia. A escrita da história como vida da memória. Damião de Góis e Pero de Magalhães de Gândavo: influências e afinidades. Congresso Internacional: Damião de Góis na Europa do Renascimento. Publicações da Faculdade de Filosofia. Universidade Católica Portuguesa. Braga- 2003. A autora cita o interessante alvará do século XV, em Portugal. 10 Francisco Adolpho Varnhagen participou de um período áulico da história do Império no Brasil. Foi um dos membros mais significativos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e participou de um período da história das letras no Brasil em que o político e o literário passam a se conciliar. Segundo Silvio Romero é um período da imprensa do romantismo. Esta não é uma definição absoluta e linear, a nosso ver, mas importante como compreensão de um período. Citado por Nelson Werneck Sodré In: História da Imprensa no Brasil. Civilização Brasileira. Col. Retratos do Brasil, vol. 51. P.211. A concepção romântica permitia diferentes aferições como, por exemplo, em relação aos índios e seu papel na formação da nacionalidade. Varnhagen os percebera de uma forma negativa (ainda que levantasse muitas informações etnográficas importantes) enquanto uma outra linha dentro do próprio Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro enaltecera e idealizara suas qualidades. Varnhagen e sua obra são analisados no capítulo “Francisco Adolfo de Varnhagen – História geral do Brasil” da Profª Drª Gabriela Soares de Azevedo - 941 nobres colonizadores que se incumbiram da difícil tarefa de civilizar as indolentes terras tropicais. A leitura que realiza de Gabriel Soares cria, ao recuperar a imagem ideal do colonizador, não um mero agente histórico, mas um letrado, ocupado com as características do Brasil, inclusive tendo como principais motivos, defender a “nação” que já vislumbraria. Esta imagem de Gabriel Soares vai se multiplicar em inúmeros autores do século XIX ao século XX. Autores como o estudioso médico parasitólogo Manuel Augusto Pirajá da Silva que foi um importante comentador da obra de Gabriel Soares e outros, como Oliveira Lima e Afonso Costa, realizaram enfáticos elogios à obra e a ação do colonizador. Um dos mais entusiasmados, Domingos Jaguaribe, autor da obra Brasil Antigo, Atlântide e Antiguidade Americanas, chegou ao exagero ao referir-se a Gabriel Soares como o “pai da História Brasileira”.11 Esta obra de Gabriel Soares foi recuperada através de comparações das cópias localizadas. Tratava-se de compilações, portanto, da obra original ou de outras cópias. Os manuscritos originais nunca foram encontrados. Houve até hoje oito publicações, sendo a mais completa aquela feita pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro nas quais as demais se basearam para reprodução. Das publicações e edições que temos, podemos fazer algumas aferições. Primeiramente, todas as edições brasileiras são anotadas ou passaram pela leitura de Varnhagen. Além disso, todas estão relacionadas a publicações e eventos promovidos por instituições públicas e de memória nacional. Também todas são acompanhadas de notas explicativas e o título da obra varia sendo, por conseguinte, inserção posterior. Sobre a questão do título dado à obra, convém ressaltar que qualquer um daqueles adotados nas publicações posteriores não consta no texto de Gabriel Soares. O autor se refere aos seus escritos ora como “memorial”, “lembranças”, “história”, “capítulos” ou “anotações”, e uma só vez, se refere a eles como “tratado”. O texto publicado é, na verdade, constituído de duas escritas distintas: um Roteiro Geral com largas informações de toda a Costa do Brasil e o Memorial e Declaração das Grandezas da Bahia de Todos os Santos, de sua fertilidade e das notáveis partes que tem. A falta de um título geral indica a inexistência de uma preocupação com o manuscrito como um todo com objetivos de divulgação. Outro dado importante trata-se de uma aparente inversão, ao ser revelado e em suas primeiras edições, o texto não merece nenhum destaque tipográfico ou sofisticação na editoração que aludisse ao seu prestígio historiográfico enquanto documento singular e inédito. Antes disso, com o tempo, o texto que passa a ser mais uma das fontes para a historiografia colonial, ganha cada vez mais um tratamento monumentalizante. O Tratado Descritivo tem sido utilizado como uma das maiores fontes na historiografia brasileira sobre nosso passado colonial. Mas que passado? Recuperada a autoria e publicado, o autor e sua obra serviram para uma perspectiva de construção de origem e fundação da nação. Assim, tanto no seu Tratado quanto em sua biografia foi valorizado o colono português desbravador e antecipador do futuro século XIX com sua Lucia Maria Paschoal Guimarães in: Mota, Lourenço Dantas ( org.) Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico. 2ª ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2000, p. 76-96. 11 Idem. Notícia do Brasil. “Introdução, notas e comentários do Prof. Pirajá da Silva”, p.259. 942 - Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano concepção de civilização. Soares, no momento mesmo de seu surgimento como fonte histórica, torna-se imediatamente ícone de um passado branco, civilizador, português, para uma historiografia que buscava a genealogia e a continuidade na formação da nação, e simultaneamente, tornava-se um clássico. Esta imagem idealizada não morreu ou se findou no século XIX. Um selo lançado em 1987 pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, elaborado por Jô Oliveira em comemoração pelos quatrocentos anos do Tratado Descritivo do Brasil, retratou Gabriel Soares de Sousa com barba e cabelos tosados à moda jesuítica, túnica branca, uma pena e um livro semelhante à Bíblia nas mãos. Ao fundo, vê se do lado esquerdo o mar com uma caravela, um peixe voador, um boto, outros peixes e um coqueiro. Á direita vê-se um casal de índios, um macaco, uma bromélia, uma onça em destaque, uma anta, um pelicano, uma orquídea e folhagens exuberantes. A imagem não nos deixa dúvida, trata-se de um dos grandes colonizadores e escritores da colônia e sem dúvida, um homem bom que pode ser facilmente confundido com um religioso. Entretanto, não foi descoberto até hoje nenhum registro que nos possa indicar como seria a figura do colono! Desde o reconhecimento e publicação da obra de Gabriel Soares, a historiografia colonial brasileira passou por uma série de enfoques teóricos e metodológicos distintos, mudando a abordagem desta obra que certamente é fundamental. Assim, nosso autor passou a ser, em determinadas obras, o colonizador do paraíso – a visão edênica - o bandeirante - como aparece, por exemplo, em Sérgio Buarque de Holanda e em Capistrano de Abreu. Mas surge também como o etnologista na obra de antropólogos ou historiadores ocupados com a história dos vencidos. Emerge inúmeras vezes apenas para um recorte de um tema, como referência do que se encontrou no Brasil da descoberta (entretanto sua obra já fala de um tempo de setenta anos de convívio entre portugueses e índios). E, em oposição à imagem anterior, surge como o terrível colonizador motivado pela cobiça e apresador de índios. Gabriel Soares é citado em inúmeros trabalhos que se referem ao passado colonial e em diversas áreas, desde tratados de botânica e fitologia até a história da cachaça. E ainda existem umas séries de temáticas inseridas em suas obras que merecem aprofundamento. Há um dado significativo, aquela necessidade de averiguação de vários manuscritos para estabelecer o verdadeiro Gabriel Soares nunca mais foi feita. Aquela necessidade de procurar a originalidade do documento jamais, depois de Varnhagen, foi realizada. Os trabalhos historiográficos atuais procuram, decerto, outras informações no mesmo texto de Gabriel Soares, sem questionar a necessidade de se percorrer o caminho que o fez vir à luz. A originalidade hoje se concentra na releitura e reinterpretação. O que se destaca é a transformação histórica que se operou do século XIX ao atual. O momento do século XIX, no Brasil, fala de uma sociedade do Império, de uma nação que procura refletir um padrão europeu de civilização. Mas que padrão europeu? Uma modernidade sui generis, específica sim, e basicamente, não européia. Gabriela Soares de Azevedo - 943 A compreensão da modernidade em seus paradoxos e a tentativa de compreendê-la em suas contradições, como coloca Antoine Compagnon,12 nos aponta para a complexidade deste momento histórico que muitas vezes vem sendo tratado de forma linear quando da análise do século XIX no Brasil. Especificamente em relação ao desenvolvimento das ciências do espírito e da historiografia é comum utilizar-se o historicismo e o romantismo como categorias explicativas que dariam conta de uma concepção historiográfica e espiritual. Entretanto, nem a modernidade no Brasil se fez espelhada em todas as características que são aferidas à modernidade européia, nem a modernidade européia assume uma face unívoca. Os processos do que vem a ser moderno no século XIX, pois o termo remete à Renascença, a compreensão do estar no mundo face a uma nova experiência do tempo, as transformações da cidade, a forma de transitar, ver e ser visto, a perspectiva do que é origem e do que é civilizado foram distintas em cidades como Paris, Londres ou Viena. Estas transformações da perspectiva da modernidade, e especialmente, na pósmodernidade, nos aproximam das possibilidades de diferentes leituras de um mesmo autor como é o caso da obra de Gabriel Soares de Sousa. Leituras que não se excluem nem necessitam ser vistas como contraditórias. O Gabriel Soares do século XIX (o que não se inicia em 1800 e nem se acaba em 1900) participa de uma certa perspectiva de História e de Civilização. No século XX, a concepção de identidade se afina com a concepção de progresso e se opõe ao escravismo, ao passado colonial atrasado, evidenciando os contrastes como cidade e campo, antigo e moderno, atrasado e avançado, dentro do que é o campo da técnica e da ciência, mas também enquanto valores humanistas como a democracia e a liberdade. O Gabriel Soares passa a ser exemplo do ultrapassado, do que se nega ou da denúncia de um passado a ser superado em prol da valorização de outros elementos como a cultura, o privado, a identidade negra e indígena. Desde os anos 80, convivem nas análises historiográficas perspectivas que relativizam e matizam as cores, nem o colonizador inescrupuloso nem o exemplar. Todavia, nos trabalhos no campo da historiografia colonial brasileira as análises mais críticas dos textos, da linguagem, dos conceitos e da leitura ainda são insipientes e acreditamos que possam contribuir muito e não exclusivamente para a compreensão ou qualquer reconstituição fidedigna do passado, mas para a compreensão, sobretudo, do ser e da própria História. Mas Gabriel Soares também foi, além de autor do Tratado, o único português na colônia que conhecemos que ousou escrever contra a poderosa Companhia de Jesus no Brasil correndo “em grande perigo de descrédito com os nossos Padres da Baía, se souberem que lhes dei estes apontamentos”. Mais do que isto, este seu outro texto que ficou “perdido” por mais de trezentos anos é um verdadeiro relato de intriga e diz-que-me-diz-que histórico, apontando traições, mentiras e interesses Compagnon, Antoine. Os cinco paradoxos da modernidade. Editora UFMG, Belo Horizonte, 2003, p.15. 12 944 - Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano pessoais dentro da sociedade colonial na segunda metade do primeiro século de dominação portuguesa. Os Capítulos de Gabriel Soares de Sousa contra os padres da Companhia de Jesus que residem no Brasil13 constituem praticamente um documento inexplorado. Revelado em 1940, até hoje é citado como um detalhe a mais na biografia do seu autor. Na verdade, Gabriel Soares estava no epicentro de um debate fundamental: a legitimidade ou não do uso da mão de obra indígena, a catequese e a empresa mercantil colonial em confronto. Se em nossas fontes históricas esta discussão não foi evidente, o tema é para lá de conhecido dos nossos vizinhos americanos. Lá as crônicas se posicionaram e revelam testemunhos de diversos atores na conquista - os escreventes puxavam a pena para seu lado, basta ver as denúncias do frei dominicano e Bispo de Chiapas, Bartolomeu de Las Casas (1484-1566) em oposição ao conquistador Hernan Cortés (1485-1547). Dado que é tido em pouca consideração ainda é que Gabriel Soares escreveu para o monarca Felipe II (1556-1598) da Espanha, no período classicamente denominado de União Ibérica, que controlava seus súditos em suas vastas e longínquas colônias estimulando justamente a multiplicidade dos relatos. Singular o texto e também a história de sua revelação. Alguns trechos dos Capítulos surgiram dos limbos dos arquivos e foram citados na obra do padre jesuíta Serafim Leite sobre a História da Companhia de Jesus no Brasil.14 Na época, o historiador Sérgio Buarque de Holanda assinava uma coluna dominical no jornal Diário de Notícias, na sessão Vida Literária - poesia e crítica.15 A vida continuava: estreava E o Vento levou, com exclusividade no cinema Metro, na rua do passeio. A Cêra Dr. Lustrosa para dor de dente era anunciada junto com o VentreLivre, para tratamentos de desarranjos no ventre e os tecidos da Fábrica Bangu, grande sucesso em Buenos Aires, ao lado das tropas que avançavam e milhares morriam. No artigo de 8 de dezembro, intitulado Novas cartas avulsas, tratando dos dois tomos já publicados da História da Companhia de Jesus no Brasil, Sérgio Buarque solicitou a divulgação dos Capítulos de Gabriel Soares de Sousa que haviam sido apenas citados na obra. Requereu ao ilustre jesuíta a publicação na íntegra em tons que tornariam a negação de certa forma suspeita de ocultação interessada: “(Aos inimigos da Companhia de Jesus)... responderá o Dr. Serafim Leite, melhor do que ninguém, com a divulgação, já prometida, se não me engano, dos textos que serviram de subsídio à sua História. Inclusive daqueles que pareçam expressamente hostis à memória dos jesuítas, como os Capítulos inéditos de Gabriel Soares, já célebres antes de se publicarem e que 13 Sousa, Gabriel Soares de. Capítulos de Gabriel Soares de Sousa contra os padres da Companhia de Jesus que residem no Brasil. Introdução de P. Serafim Leite. Anais da Biblioteca Nacional, 1942, Vol. 62, p.340-381. 14 Leite, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Lisboa: Portugalia; Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro: Civilização Brasileira, 1938 -1950. 10v.:il. 15 Diário de Notícias - sessão Vida literária. - O matutino de maior tiragem do Distrito Federal-Biblioteca Nacional. Serão citados os dias 15 de setembro de 1940, 8 e 15 de dezembro de 1940. Gabriela Soares de Azevedo - 945 são aproveitados na obra. Com a divulgação de tais documentos, a Companhia ficará, sem dúvida, melhor servida do que com a alegação de que seu historiador autorizado se teria preocupado em esconder cautelosamente o avesso da costura”.16 O pedido foi então atendido e, em 1942 os Capítulos foram publicados pelos Anais da Biblioteca Nacional. Entretanto, uma introdução nada desinteressada tratava de encaminhar a impressão do leitor sobre o texto e o autor. Serafim Leite classificou o texto como “o documento mais anti-jesuítico do Brasil no século XVI” e as palavras que escreveu sobre o autor não foram nada elogiáveis, “baixou a mexericos de soalheiro; denegriu, interpretando-as mal, as inevitáveis discordâncias da vida...”, “como demonstração de caráter, sintomático...”. Se, por um lado, até hoje não conhecemos o original, por outro, a alcunha de “mais anti-jesuítico” acompanha desde então o escrito, ocultando ou embaçando aspectos que relata. As informações elaboradas por Gabriel Soares assim como as respostas, assinadas pelos padres, vão de pormenores sobre a quantidade de galinhas, porcos, bois de carro, imagens, relíquias, mas também falam dos famosos Colégios da Companhia. Gabriel Soares chega a acusar os padres de queimarem candeias às avessas ao pé do pelourinho, colocarem um crucifixo de cabeça para baixo e pegarem em armas, com detalhes de serem espingardas, bestas e alabardas. A resposta pode parecer um tanto superficial, mas é extremamente reveladora para o historiador: “Não se pode crer senão que o sonhou e o inseriu nessa sua história, porque vinha bem ao seu propósito em persuadir que estes seus apontamentos, que ele dava em Madri, era impossível virem ao Brasil à notícia dos Padres”. Os Capítulos, tanto quanto o Tratado, nos fornecem valiosas informações sobre fins do século XVI. Após viver por dezessete anos na colônia ele ofereceu ambos os textos em Madri e, após uma longa espera obteve as concessões almejadas. Em dezembro de 1590, foram despachados os requerimentos, assinados pelo rei Felipe II. Todavia, em seu testamento, concluído em 10 de agosto de 1584, pede que “se Deus for servido que eu faleça nesta cidade e Capitania, meu corpo será enterrado em São Bento da dita cidade na Capela mor onde se porá uma campa com um letreiro que diga: Aqui jaz um pecador.” Por dezessete vezes, ele refere a si mesmo como um pecador. Seria uma confissão de arrependimento? Ou apenas uma confirmação das acusações proferidas pelos padres? Gabriel Soares, de fato, exagerara nas suas denúncias? Estes motivos, a nosso ver, não desqualificam o testemunho. Importa mais captar as informações que oferece a respeito da sociedade colonial e buscar descobrir porque um texto tão singular permanece tão pouco estudado. E, sobretudo, nos interessa percorrer o caminho inverso, percebendo como estes textos de um mesmo autor foram sendo construídos dentro da historiografia brasileira. Se era medieval, renascentista ou barroco, se era aprisionador de índios ou não, a nosso ver, importa menos do que perceber como outro homem, em outro tempo, construiu sua vida e percepção de mundo. 16 Op. cit.