CURSO DE PARTICIPAÇÃO DE GRUPOS DE INTERESSE CASO DE ESTUDO E: UMA PLATAFORMA DE COORDENAÇÃO PARA A GESTÃO DE FLORESTAS NO NEPAL Conflitos de interesse e a necessidade de comunicação aberta TÓPICOS PRINCIPAIS A floresta de Terai poderia garantir a subsistência da população local, mas a sua gestão mostrava-se insustentável. Com um grande número de grupos de interesses e uma diversidade de interesses “em jogo”, as várias tentativas para criar um modelo de gestão e reduzir a desflorestação falharam. Após um longo período encorajando a conversão de terra florestal em terra de cultivo, foi publicado um plano director de 20 anos para o sector florestal concentrado na descentralização e participação da população local na tomada de decisões. Nas discussões, foram reconhecidas as oportunidades para sinergia entre as agendas ecológica e socio-económica, como também a necessidade do apoio dos grupos de interesse principais. Um debate aberto e democrático para o planeamento e monitorização credível do sector florestal através de uma plataforma de comunicação mostrou-se essencial para criar o apoio e a confiança necessária para o desenvolvimento do sector. A reivindicação dos recursos florestais por vastos números de pessoas demonstrou que o planeamento florestal deve envolver representantes da população e não os agregados familiares individuais. CONTEXTO A gestão florestal em Terai poderia sustentar dezenas de milhares de habitantes de Terai e garantir um rendimento substancial para o Nepal. A colheita e processamento de produtos florestais para além da madeira, a prevenção de perdas através da mitigação de desastres naturais, a biodiversidade e o eco-turismo representam inúmeras oportunidades potenciais de subsistência e geração de rendimento no sector florestal de Terai. No entanto, estas oportunidades estão a ser utilizadas de forma oportunista e descoordenada. Antes de 1950, as florestas eram vistas como uma fonte ilimitada de rendimento para o governo, e as regras encorajavam os agricultores a converter terra florestal em terra de DLIST: Curso sobre Participação de Grupos de Interesse Caso de Estudo E 1 cultivo para aumentar a base fiscal. A prática de converter terra florestal em terra de cultivo continuou mesmo após o estabelecimento da democracia em 1951, tendo grandes áreas de floresta sido distribuídas a famílias para a agricultura e uma área semelhante de terras florestais sido ocupada. A migração activa vinda dos montes de Terai contribuiu para o crescimento da população de Terai. O plano director de 20 anos para o sector florestal publicado em 1989 concentrou-se na descentralização, na participação da população local na tomada de decisões, em soluções para as necessidades básicas, na utilização sustentável e na paz social e equitativa. O processo democrático foi iniciado e os direitos humanos foram reconhecidos. Isto resultou na criação de vários grupos de interesse em torno das florestas de Terai. FUNDAMENTO PARA A PARTICIPAÇÃO Até então, todas as propostas sofreram de falta de apoio de um ou outro grupo de interesse essencial. As soluções levaram em conta a realidade técnica e algumas propostas incluiram considerações sociais, mas nenhuma conseguiu o apoio satisfatório do espectro sociopolítico que se começou a desenvolver nos anos 90. Um recurso tal como as florestas de Terai é naturalmente uma atracção para diversos grupos de interesse. Em Terai, de modo geral, as florestas estendem-se no Norte do Terai até às montanhas de Churia. Cerca de meio milhão de pessoas vive no Sul junto à fronteira indiana. Tradicionalmente uma grande parte da população dos distritos tem direitos de uso florestal, mas não necessariamente sobre o resto da floresta. No modelo de floresta comunitária, as casas individuais são associadas a parcelas específicas de floresta. Em Terai, estas associações são impossíveis (ou pelos menos impraticáveis) de definir, não só pelo elevado número de agregados familiares envolvidos mas também porque existem percepções conflituosas sobre direitos de acesso. Isto sugere que em Terai é preciso um modelo organizacional diferente para a participação de utilizadores na gestão florestal. Considerando as várias agendas, é essencial saber quem são os grupos de interesses primários no sector florestal. É essencial também perceber que existem várias outras ligações possíveis que podem ser beneficiais para todas as partes envolvidas, para além daquelas que se encontram actualmente em operação. Por exemplo, a produtividade agrícola a jusante seria salvaguardada com a protecção das florestas de Terai; assim, se a Gestão Florestal puder salvaguardar a floresta, será mais provável que as pessoas a jusante apoiem a entrega das florestas a Grupos de Utilizadores Florestais dos habitantes nortenhos. Como exemplo, uma gestão planeada e produtiva é melhor em termos ecológicos e económicos do que a gestão actual baseada em recursos livres. E se as actividades de gestão florestal providenciarem emprego para as pessoas que alternativamente seriam obrigadas a cortar e ocupar florestas ilegalmente, haverá uma redução da pressão sobre a floresta. O Responsável Distrital das Florestas (DFO) teria a tarefa de proteger as florestas facilitada se fosse do interesse das DLIST: Curso sobre Participação de Grupos de Interesse Caso de Estudo E 2 pessoas (e do governo local) que a cobertura da floresta seja mantida. A cooperação entre os vários grupos de interesse teria um potencial enorme para melhorar a integridade ecológica, ao mesmo tempo que aumentando a produtividade e criando oportunidades de sustentabilidade para grandes grupos de pessoas. PROCESSO DE PARTICIPAÇÃO DOS GRUPOS DE INTERESSE Primeiro, o doador foi abordado para apoiar as florestas de Terai e a formação de uma equipa para a formulação do programa. A equipa, por sua vez, abordou os DFOs de Terai, que sugeriram que eram necessárias entidades locais para garantir o sucesso deste programa. Segundo, foi realizado um encontro regional onde os directores dos Comités de Desenvolvimento Distrital (DDCs) e os DFOs decidiram organizar discussões distritais entre vários grupos de interesse. Os grupos de interesse expressaram as suas preocupações sobre a incessante degradação das florestas e a reduzida disponibilidade de produtos florestais para a população local. Eles pediram também para formar um comité local para desenvolver o programa e para formar um Comité para a Coordenação Florestal Distrital (DFCC) com poder de decisão formal sobre o dinheiro doado ao sector florestal distrital. As consultas distritais com os grupos de interesses deixaram algumas noções gerais. A primeira e mais importante foi que todos os grupos de interesse estavam preocupados com o estado actual das florestas locais. Até os grupos de interesses que tinhas ligações com actividades ilegais apoiaram o desenvolvimento de um sistema de gestão mais transparente e estável e criticaram o sistema actual pela sua inadequalibildade para partilhar os benefícios de uma maneira equitativa e reduzir a desflorestação. Segundo, os grupos de interesse distritais queriam combinar os trabalhos de protecção e gestão com uma reconsideração séria da distribuição de produtos florestais. E terceiro, na maioria dos distritos, o workshop propôs criar uma plataforma composta por vários grupos de interesse para formular e guiar o programa. Após uma consulta exaustiva com grupos de interesse nos 8 distritos centrais de Terai, foi formulado o Programa do Sector de Biodiversidade para Siwaliks e Terai e, simultaneamente, foi iniciado o componente de Terai para o Programa de Sustentabilidade e Florestas em três distritos da região Oeste de Terai. LIÇÕES Haverá várias ocasiões em que os grupos de interesse estarão defrontados com um recurso de interesse nacional onde o Estado será uma parte interessada principal. Este é o caso das florestas de Terai e, para prevenir uma decisão única pelo governo onde os interesses dos DLIST: Curso sobre Participação de Grupos de Interesse Caso de Estudo E 3 grupos de interesse “minoritários” sejam ignorados, é necessário haver um modelo de gestão que seja cuidadosamente planeado e apoiado, em que todos os grupos de interesse sejam incluídos. A reivindicação de recursos florestas por um vasto número de pessoas demonstra que o planeamento florestal deve envolver representantes e não indvíduos. Ao lidar com diferentes grupos de pessoas na mesma região, irão certamente ocorrer conflitos ocasionais, pelo que se torna necessária uma plataforma para a comunicação e negociação e o planeamento eventual de programas com base nos termos acordados. A oportunidade para desenvolvimentos em que todos os grupos de interesses sejam beneficiados mostra a necessidade de haver comunicação sistemática e acordos conjuntos entre os grupos de interesse no sector florestal. Eventualmente, a implementação de actividades para o desenvolvimento florestal pelo DFCC irá aumentar a produtividade geral do sector e fazer com que haja um sector florestal autosustentável em funcionamento em cada distrito, em que o governo central não terá mais que investir mas, pelo contrário, ficará a ganhar mais. Por outras palavras, o governo, os grupos de interesse e a floresta irão todos beneficiar de um modelo de gestão que foi criado por eles próprios. Fonte: F. van Schoubroeck and A.L. Karna, 2003. “Initiating co-ordination platforms for Forest Management in the Terai.” Banko Jankari, Vol. 13 No. 1. Available online (April 2008) athttp://portals.wi.wur.nl/files/docs/msp/MultistakeholderplatoformsinNepalTeraiforestry 030630.doc. DLIST: Curso sobre Participação de Grupos de Interesse Caso de Estudo E 4