Centro de Investigação e de Análise de Políticas para o Desenvolvimento Avaliação da Sustentabilidade das Finanças Santomense Parte I Evolução e Tendências das Principais Variáveis Orçamentais/Macroeconómicas e Desafios que Colocam às Autoridades Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Sumário Executivo Executive Summary O presente estudo tem por objectivo analisar as finanças públicas de São Tomé e Príncipe nas suas diversas componentes e a sua inter-relação com o crescente endividamento externo e o crescimento do PIB. Trata-se do primeiro de dois estudos complementares sobre o mesmo tema. Este primeiro estudo apresenta a análise preliminar dos pressupostos que servirão de base para a análise do impacto que será realizado no segundo estudo. The perspective of the present study has the main goal is to analyze public finances of Democratic Republic of Sao Tome and Principe in its distinct components, associated to its interrelation with external indebting growth, as well as with the raising of PIB. This economic interpretation deals with two complementary studies on the same subject. The present one as the first, presents the analysis of the impact over the second whose study will be done for instance. Para o efeito, este estudo debruça-se sobre a análise das principais componentes do Orçamento Geral do Estado (perspectiva de execução) e procura identificar os principais constrangimentos da sustentabilidade das finanças públicas. As matter of fact, this first study focuses its approach over the analysis of the main components of Government General Budget (in its executive perspective), where we look for indentifying the main constrains of the sustainability of public finances. A despesa pública também é uma variável chave no que diz respeito à sustentabilidade das finanças públicas. Nesse sentido, um controlo rigoroso e eventuais reduções das despesas públicas, quando possível, são importantes para estabelecer o equilíbrio adequado entre um menor endividamento público, menos impostos e o financiamento público em áreas chaves da economia. Dessa forma, e em termos genéricos, seria pertinente redireccionar as despesas públicas no sentido de permitir a acumulação do capital físico e humano. Te public expenditure is considered also a key variable in the extent of sustainability of public finances. Thus, a strict control and eventual reductions to public expenditures, when it is possible, are important just to establish an adequate equilibrium between lower public indebting, less tax and less public financing in key areas of economy. In this sense, and in general terms, it would be pertinent to reorient public expenditures towards an accumulation of physical and human capital. As despesas totais do sector público administrativo, em rácio do PIB nos últimos 20 anos, não demonstraram uma evolução regular de aumento. No entanto, a sua composição demonstra uma tendência para o aumento das despesas correntes e diminuição das The total expenditure of public administrative sector, in ratio of GDP in last 20 years, does not demonstrate a regular evolution of this increase. However, its components demonstrate a tendency of the increase of current expenditures, as well as the decrease of capital expenditures, but this last despesas de capital, sendo esta última Página 1 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I considerada como uma das que mais pode fomentar o crescimento económico. perspective is considered as one of the hypothesis much more capable to foment the economic growth. De entre outros factores, o crescimento acelerado das despesas com o pessoal explica, em larga medida, o crescimento do défice fiscal e o desajustamento atrás referido. Among other factors, the accelerate external growth with human resources, is up to certain extent an instrument able to explain fiscal deficit growth together with the certain disequilibrium referred previously. A análise dos saldos orçamentais demonstra-nos que o saldo primário não é estabilizador da dívida, visto que não mantém estável o rácio da dívida/PIB. No entanto, esta análise será avaliada de forma mais aprofundada na segunda parte do estudo. A política orçamental deve ser reorientada no sentido de promover a redução do nível dos gastos públicos com o funcionamento corrente ao mínimo razoável, garantindo a qualidade dos serviços prestados, possibilitando, com esta opção, a libertação de meios para a realização de despesas públicas de investimento, portanto, reprodutivas e que sirvam de alavanca para a criação de riqueza e de emprego. The analyses of budget balances demonstrate that the primary balance is not the stabilizer of the debt, due to the fact that the ratio of GDP/debt itself does not maintain stable. However, this analysis will much more evaluated in the second part of this study. The budget police must be reoriented in the sense to promote the reduction of the level of public expenditures with reasonable performance as possible, granting the quality of services done, making possible this option, the liberation of means to realize public expenditures of investments, hence, reproductive ones standing as the lever for creation of wealth and employment. Apesar dos avanços registados, existe ainda um longo caminho a percorrer em matéria de boa governação. Tornase necessário, por isso, estabelecer metas a cumprir, considerando que, de entre outras condições necessárias, à boa governação pública fundamental para a sustentabilidade das Finanças Públicas. Even though there has been progress registered, there still a long way to go in the matter of good governance. It will be necessary, then, to establish the goal target to fulfill, considering that among other necessary conditions, fundamental good governance for a sustainable Public Finances is one of them. Palavras-chave: Finanças Públicas, Sustentabilidade, Défice, Dívida Externa. Key words: Public Finances, Sustainability, Deficit, External Debt. Página 2 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Índice SUMÁRIO EXECUTIVO 1 ÍNDICE 3 ÍNDICE DE GRÁFICOS 4 ÍNDICE DE TABELAS 4 LISTA DE ABREVIATURAS E ACRÓNIMOS 5 INTRODUÇÃO 6 CAPÍTULO 1. CONDIÇÕES MACROECONÓMICAS COM IMPACTO NAS FINANÇAS PÚBLICAS 8 1.1. Evolução económica e social nos últimos anos 1.1.1. Produção Nacional 1.1.2 PIB per capita 1.1.3 Inflação 1.1.4 Contexto politico 1.1.5 Sector externo CAPÍTULO 2. 2.1 2.2 2.3 2.4 8 8 10 11 12 13 RECEITAS PÚBLICAS E SISTEMA FISCAL 15 Evolução recente do SPA: alguns indicadores quantitativos Receitas Totais A desagregação das receitas totais Sistema fiscal 15 17 18 19 CAPÍTULO 3. DESPESAS PÚBLICAS: EVOLUÇÃO E TENDÊNCIAS 27 CAPÍTULO 4. SALDO ORÇAMENTAL: EVOLUÇÃO E TENDÊNCIAS 32 CAPÍTULO 5. A BOA GOVERNAÇÃO E A OBRIGAÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS (ACCOUNTABILITY) 35 CONCLUSÃO 37 RECOMENDAÇÃO 39 BIBLIOGRAFIA 42 Página 3 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Índice de Gráficos GRÁFICO 1- TAXA DE CRESCIMENTO DO PIB EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE ____________________________________ 9 GRÁFICO 2- COMPARAÇÃO TAXAS DE CRESCIMENTO DO PRODUTO _______________________________________ 9 GRÁFICO 3 – PIB PER CAPITA (SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE) ______________________________________________ 10 GRÁFICO 4 - COMPARAÇÃO PIB PER CAPITA _____________________________________________________ 11 GRÁFICO 5 – EVOLUÇÃO DA TAXA DE INFLAÇÃO EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE (1980-2009) ______________________ 11 GRÁFICO 6 - TAXA DE INFLAÇÃO – ANÁLISE COMPARATIVA ___________________________________________ 12 GRÁFICO 7 - INDICADOR DE ESTABILIDADE POLÍTICA EM PERCENTIL______________________________________ 13 GRÁFICO 8 - BALANÇA CORRENTE EM PERCENTAGEM DO PIB _________________________________________ 14 GRÁFICO 9 - EVOLUÇÃO DO SERVIÇO DA DIVIDA EM % DE EXPORTAÇÃO___________________________________ 15 GRÁFICO 10 - RECEITAS FISCAIS EM PERCENTAGEM DO PIB___________________________________________ 16 GRÁFICO 11 - ESTRUTURA FISCAL (VALORES EM PERCENTAGEM DE RECEITAS FISCAIS) _________________________ 17 GRÁFICO 12 - RECEITAS TOTAIS (INCLUINDO DONATIVO) EM PERCENTAGEM DO PIB _________________________ 17 GRÁFICO 13 - RECEITAS NÃO FISCAIS __________________________________________________________ 18 GRÁFICO 14 - IMPOSTO SOBRE IMPORTAÇÕES EM (%) DO PIB ________________________________________ 19 GRÁFICO 15 - DONATIVOS EM PERCENTAGEM DAS RECEITAS TOTAIS ____________________________________ 19 GRÁFICO 16 - DESPESAS TOTAIS EM PERCENTAGEM DO PIB __________________________________________ 27 GRÁFICO 17 - DESPESA CORRENTE EM PERCENTAGEM DO PIB _________________________________________ 27 GRÁFICO 18 - DESPESA COM PESSOAL EM PERCENTAGEM DA DESPESA CORRENTE ___________________________ 28 GRÁFICO 19 - DESPESA COM PESSOAL (MILHÕES DE USD) ___________________________________________ 28 GRÁFICO 20 - DESPESA COM PESSOAL EM PERCENTAGEM DO PIB ______________________________________ 29 GRÁFICO 21 - JUROS DA DÍVIDA EM PERCENTAGEM DO PIB __________________________________________ 29 GRÁFICO 22 - PROGRAMA DE INVESTIMENTO PÚBLICO EM PERCENTAGEM DO PIB ___________________________ 30 GRÁFICO 23 - SALDO ORÇAMENTAL CORRENTE (%PIB) _____________________________________________ 32 GRÁFICO 24 - SALDO PRIMÁRIO EM PERCENTAGEM DO PIB __________________________________________ 33 GRÁFICO 25 - SALDO PRIMÁRIO EM PERCENTAGEM DO PIB E TAXA DE CRESCIMENTO DO PIB ___________________ 33 GRÁFICO 26 - SALDO GLOBAL EM % DO PIB _____________________________________________________ 34 GRÁFICO 27 - INDICADOR DE BOA GOVERNAÇÃO __________________________________________________ 35 GRÁFICO 28 - CONTROLO DE CORRUPÇÃO ______________________________________________________ 36 GRÁFICO 29 - PRESTAÇÃO DE CONTAS _________________________________________________________ 36 Índice de Tabelas TABELA 1 - EVOLUÇÃO DOS VALORES MÉDIOS DA TAXA DE CRESCIMENTO DO PIB ....................................................... 10 TABELA 2 - EVOLUÇÃO DOS VALORES MÉDIOS DO PIB PER CAPITA (CONPARAÇÃO) ....................................................... 10 TABELA 3 - COMPARAÇÃO DA MÉDIA DA TAXA DE INFLAÇÃO .................................................................................... 12 TABELA 4 - COMPARAÇÃO DOS VALORES MÉDIOS DO SALDO CORRENTE EM % DO PIB .................................................. 14 TABELA 5 - COMPARAÇÃO DOS NÍVEIS DE FISCALIDADE........................................................................................... 16 TABELA 6 - TAXAS DO IRS POR ESCALÕES ............................................................................................................. 21 TABELA 7 - PESSOAS CONTACTADAS.................................................................................................................... 43 TABELA 8 – ESTRUTURA FISCAL EM DETALHE ........................................................................................................ 44 TABELA 9 – EVOLUÇÃO DA COBRANÇA DE TAXAS................................................................................................... 45 Página 4 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Lista de Abreviaturas e Acrónimos ACC – Acordo de Cooperação Cambial AID – Associação Internacional de Desenvolvimento BAD – Banco Africano de Desenvolvimento BCSTP – Banco Central de São Tomé e Príncipe BM – Banco Mundial CEA – Comunidade Económica Africana EU – União Europeia EUR – Euro FAD – Fundo Africano de Desenvolvimento FMI – Fundo Monetário Internacional HIPC – Iniciativa para a Redução da Dívida dos Países Pobres Muito Endividados IDE – Investimento Directo Estrangeiro IHD – Índice de Desenvolvimento Humano INE – Instituto Nacional de Estatística IRC – Imposto sobre Rendimento de Pessoas Colectivas IRS – Imposto sobre Rendimento de Pessoas Singulares IVA – Imposto sobre Valor Acrescentado MDRI–Iniciativa de Alívio da Dívida Multilateral ODM –Objectivos de Desenvolvimento do Milénio PAE – Programa de Ajustamento Estrutural PIB – Produto Interno Bruto PNB – Produto Nacional Bruto RCA – República Centro Africana APS – Sector Público Administrativo SIDS – Small Islands Developing States USD – Dólar Americano Página 5 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I INTRODUÇÃO De acordo com a classificação de Richard Musgrave (1989)1, a intervenção do Estado na economia fundamenta-se em três objectivos específicos: a) correcção da afectação dos recursos2; b) redistribuição da riqueza e rendimento3 e c) estabilização macroeconómica4. Para a realização desses objectivos, o Estado usa vários instrumentos, entre os quais sobressai a política orçamental. No quadro actual, depara-se com as Finanças Públicas no centro das preocupações, nomeadamente, as sociais, as do desenvolvimento e do cumprimento das condições necessárias à convivência no seio da globalização em que o país está cada vez mais envolvido. A política Orçamental do Estado Santomense, patente na evolução das finanças públicas e do seu quadro de fiscalização, tem-se mostrado pouco favorável aos objectivos de intervenção do Estado na economia e consecução de um modelo de desenvolvimento sustentável. Tem-se verificado défices orçamentais sistemáticos e aumentando de ano para ano, excedendo em alguns casos o limiar aceitável. Face às considerações precedentes, infere-se que são múltiplos e complexos os desafios e as dificuldades no domínio das finanças públicas, e que a problemática das finanças públicas tem estado directa ou indirectamente ligada aos principais debates do país na actualidade. Os excessivos défices orçamentais, a dívida pública, a fraca capacidade de arrecadação de receitas, o aumento das despesas públicas, são aspectos que merecem um estudo aprofundado que determinem a formulação de recomendações práticas e objectivas para a reforma do sector. Tendo em atenção as considerações expostas, o presente trabalho constitui o primeiro de dois estudos que pretende analisar as Finanças Públicas Santomense nas suas diversas dimensões. Com este intuito, os objectivos específicos da investigação são os seguintes: Analisar as principais variáveis económicas, macroeconómicas e de natureza contextual que têm impacto nas finanças públicas; Analisar a evolução e a composição das despesas e receitas públicas; Analisar os principais impostos e indicadores fiscais; Analisar, em termos históricos, os saldos orçamentais, o seu crescimento e a correlação com o PIB; Identificar os constrangimentos a uma maior eficiência das finanças públicas. 1 Citado em (Barbosa, 1997) Com esse objectivo o Estado procura corrigir as situações de ineficiente afectação de recursos que resultam do funcionamento puro do mecanismo de mercado (eficiência). 3 Este objectivo visa a correcção da distribuição de riqueza e rendimento que decorre da lógica de mercado (equidade). 4 Com a estabilização económica o Estado procura assegurar o pleno emprego dos recursos, a estabilidade na evolução dos preços e o crescimento económico segundo um caminho óptimo (eficiência). 2 Página 6 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Com vista a atingir os objectivos propostos, esta parte do trabalho compreende 5 capítulos, para além desta Introdução e da Conclusão e Observações finais. No Capítulo 1 são analisadas as principais variáveis macroeconómicas das últimas décadas. No Capítulo 2 é analisado o comportamento das receitas públicas e dos indicadores fiscais. No Capítulo 3 é analisado o comportamento das despesas públicas, a sua evolução e tendências. No Capítulo 4 analisa-se os saldos orçamentais. No capítulo 5 é analisada a problemática de boa governação como um dos constrangimentos à sustentabilidade das finanças públicas. Metodologia Esta investigação segue, em primeiro lugar, uma orientação qualitativa, pois entendese que esta perspectiva é a que melhor permite alcançar os objectivos propostos nesta primeira abordagem da problemática em questão. Por outro lado, optou-se pelo estudo de caso descritivo como método utilizado para o desenho da investigação, dado que se pretende caracterizar as finanças públicas enquadradas no contexto específico de São Tomé e Príncipe. Ao longo do estudo recorre-se também ao método comparativo de caso, na medida em que algumas análises foram feitas com recurso a comparações com três outros pequenos países com características similares, nomeadamente Maurícias, Seychelles e Cabo Verde. Para além disso, esta primeira parte do estudo constitui uma investigação preliminar nesta área, um primeiro passo nesta linha de investigação, sendo que as questões são exploradas de forma aprofundada na segunda parte. Assim, salienta-se o seu carácter exploratório, na medida em que se procura conhecer as razões para determinados comportamentos no contexto concreto da realidade Santomense, como ponto de partida para o estudo subsequente. Sendo um estudo de natureza qualitativa, utiliza dados qualitativos combinados com dados quantitativos. No primeiro caso, foram utilizadas múltiplas fontes e métodos de recolha de dados nesta investigação, como sejam a análise documental e o recurso a entrevistas semi-estruturadas5, realizadas junto dos órgãos de gestão e com técnicos superiores responsáveis pela preparação e divulgação das Contas Nacionais em São Tomé e Príncipe: Direcção do Orçamento, Direcção do Planeamento, Gabinete da Dívida Pública, Direcção dos Impostos, Direcção das Alfandegas, Consultor do Debt Relief International etc. Por sua vez, os dados quantitativos são suportados por documentos oficiais publicados pelo Ministério do Plano e das Finanças, Instituto Nacional de Estatística, Banco Central de São Tomé e Príncipe, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, etc. 5 (Barañano, 2004, pp. 92-93) Técnica de Inquérito por entrevista em que o entrevistador apresenta o tema e as diferentes áreas que o entrevistado deve abordar e este tem a liberdade quanto à ordem e à forma como irá introduzir as diferentes áreas do tema. Página 7 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I CAPíTULO 1. Condições macroeconómicas com impacto nas finanças públicas 1.1. Evolução económica e social nos últimos anos O objectivo deste ponto é apresentar alguns dos principais aspectos de ordem económica e contextual com implicação directa ou indirecta na evolução das finanças públicas. Com esse objectivo, apresenta-se algumas das principais variáveis macroeconómicas, que permitem, por um lado, ter uma percepção da economia nas últimas duas décadas e, por outro lado, ter uma base de referência para a análise da política orçamental e fiscal no mesmo período. Deste modo, a análise será feita com recurso a comparações com três outros pequenos países com características similares, nomeadamente Maurícias, Seychelles e Cabo Verde. Características chave de São Tomé e Príncipe Situado ao largo do Golfo de Guiné a 240 quilómetros da costa africana e atravessado pela linha do equador, São Tomé e Príncipe, com uma superfície de 1 001 km2, é um pequeno Estado insular, constituído por duas ilhas. A sua situação geoestratégica lhe confere pouco a pouco grande importância, tendo em conta os novos desafios que se colocam à sub-região na qual São Tomé e Príncipe está integrada. A sua zona exclusiva cobre 170.000 Km². É um dos mais pequenos estados do mundo e segundo em África, depois de Seychelles. De origem vulcânica, o arquipélago caracteriza-se por um relevo muito acidentado, pluviosidade elevada e solos de fertilidade média. A população é de aproximadamente 152 000 habitantes em 20066, o que corresponde a uma densidade populacional de 151,8 habitantes por km2. 1.1.1. Produção Nacional Da análise da taxa do crescimento do PIB (Gráfico 1), denota-se três períodos distintos no ciclo analítico de São Tomé e Príncipe nos últimos 30 anos. O primeiro período correspondente à década de oitenta. Constata-se nesse período uma grande variabilidade na taxa de crescimento da produção nacional, tendo-se verificado vários anos com taxas de crescimento negativas. Em termos médios a taxa de crescimento de 1980-1989 é de -1,25%. O segundo período do ciclo económico Santomense corresponde à década de 90. Nesse período, verifica-se um crescimento lento mas regular e sempre positivo. Em termos médios a taxa de crescimento rondava cerca de 1,18%. O terceiro período do ciclo analítico da economia corresponde ao período compreendido entre 2001 e 2009. Trata-se do período de maior desempenho da economia, tendo apresentado uma taxa média de crescimento do produto interno bruto na ordem dos 5,5%. 6 (INE -STP, 2007) Página 8 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 1- Taxa de Crescimento do PIB em São Tomé e Príncipe 15 10 5 0 -5 -10 -15 Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009 Em termos comparativos (Gráfico 2 e Tabela 1), excluindo o efeito cíclico, a economia Santomense apresentou nas décadas de 80 e 90 taxas de crescimento muito inferiores as de Cabo Verde, Maurícias e Seychelles. Essa tendência apenas melhorou a partir de 2001, altura em que são Tomé e Príncipe começou a apresentar taxas de crescimento ao mesmo nível dos países em comparação. Em termos globais, no período 1980-2009, São Tomé e Príncipe é o que apresenta a taxa média de crescimento mais baixa (1,84%) do conjunto dos países em análise (Cabo Verde 6%, Maurícias 5,18% e Seychelles 2,8%). Gráfico 2- Comparação Taxas de Crescimento do Produto 15 10 5 0 -5 -10 -15 Cape Verde Mauritius São Tomé and Príncipe Seychelles Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009 Página 9 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Tabela 1 - Evolução dos Valores médios da Taxa de Crescimento do PIB Período Cabo Verde Maurícias São Tomé e Príncipe Seychelles 5,28 5,51 1980-1990 6,81 6,08 1991-2000 6,10 3,81 2001-2009 Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009 Taxa de crescimento do PIB - 1,34 1,51 5,50 3,14 4,61 0,30 1.1.2 PIB per capita Relativamente ao PIB per capita, pode-se constatar na tabela 2 e no gráfico 4 abaixo que São Tomé e Príncipe foi “ultrapassado” por Cabo Verde. Na década de 80 São Tomé e Príncipe, apresentava em termos médios uma produção per capita de 918,56 USD, enquanto que Cabo Verde apresentava no mesmo período uma produção per capita de 627,00 USD. A partir da década de 90 a situação inverteu-se. De 2001 a 2009 a média do PIB per capita Santomense passou a ser de 808,00 USD, enquanto Cabo Verde passou a ter um PIB per capita de 2.319,49 USD. Tabela 2 - Evolução dos valores médios do PIB per capita (Conparação) Indicadores Período Cabo Verde Maurícias São Tomé e Príncipe Seychelles 627,00 1.449,92 918,56 3.805,40 1980-1990 1.158,23 3.350,34 798,68 8.189,45 PIB per Capita 1991-2000 2.319,49 5.148,20 808,92 9.989,10 2001-2009 Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009 e Cálculos do Autor Entretanto, de uma maneira geral, verifica-se uma tendência para a melhoria dos indicadores (PIB per capita) no período 2001-2009 (Gráfico 3). Gráfico 3 – PIB per Capita (São Tomé e Príncipe) 1200 1000 800 600 400 200 0 1980 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009 Página 10 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 4 - Comparação PIB Per Capita 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 14000 12000 10000 8000 6000 4000 2000 0 Cape Verde Mauritius São Tomé and Príncipe Seychelles Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009 1.1.3 Inflação Da análise da evolução da taxa de inflação ao longo das últimas duas décadas (Gráfico 5), facilmente se depreende as dificuldades que as autoridades têm tido no controlo desta variável. Na segunda metade da década de 80 e durante toda a década de 90 verificou-se um aumento bastante significativo dos níveis de preço, tendo mesmo atingido, em 1997, cifras que rondaram os 80%. Gráfico 5 – Evolução da Taxa de Inflação em São Tomé e Príncipe (1980-2009) 100,00 80,00 60,00 40,00 20,00 0,00 Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009 Em termos comparativos, (Gráfico 6) pode-se constatar que São Tomé e Príncipe sempre manteve taxas de inflação superiores às dos outros pequenos Estados Insulares Africanos no período (1984-2009), excepto Seychelles que, em 2008, apresentou uma taxa superior. Atendendo a importância da inflação como variável instrumental, o seu comportamento explica em larga medida o fraco desempenho da economia Santomense face às outras economias no período em análise. Página 11 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 6 - Taxa de Inflação – Análise comparativa 100 80 60 40 20 -20 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 0 Cape Verde Mauritius São Tomé and Príncipe Seychelles Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009 Tabela 3 - Comparação da média da Taxa de Inflação Período Cabo Verde Maurícias São Tomé e Príncipe Seychelles 7,11 7,31 1984-1990 6,01 7,32 Inflação 1991-2000 2,62 5,87 2001-2009 Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009 24,09 39,73 16,89 2,02 2,15 10,55 1.1.4 Contexto politico A análise das questões ligadas à economia Santomense (mesmo que seja especificamente em matéria de finanças públicas), não pode ser feita isoladamente ou sem alusão ao contexto político. Trata-se de um facto que é conhecido por todos, mas cujos efeitos são muitas vezes negligenciados nas análises das causas dos principais problemas do País. A instabilidade política está patente na frequência com que são alterados os órgãos de gestão do topo da Administração Pública. Num período de 18 anos, ou seja entre 1991 e 2009, o país experimentou treze governos constitucionais, tendo cada um deles uma duração média de 1,38 anos (menos de 17 meses)7. É preciso sublinhar que as mudanças frequentes de governo significou a reprodução de situações de constante recomeçar que travaram o normal funcionamento das instituições, os progressos em matéria de Boa Governação, assim como a implementação dos programas de desenvolvimento, em particular8. 7 Espaço de tempo não é suficiente para elaborar um plano de desenvolvimento, quanto mais para o executar. 8 Como consequência de crises sucessivas e da falta de capacidade de decisão, regista-se, por um lado, a falta da autoridade do Estado, e, por outro, uma deficiente manutenção da ordem pública. Página 12 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I O gráfico 7 compara a estabilidade política de São Tomé e Príncipe com a dos outros Estados Insulares Africanos, de acordo com a informação disponibilizada pelo Banco Mundial. É de salientar que, em matéria de estabilidade política, São Tomé e Príncipe regista um desempenho bastante inferior ao dos outros Estados Insulares Africanos9. Gráfico 7 - Indicador de Estabilidade Política em Percentil Fonte : http://info.worldbank.org/governance/wgi/mc_countries.asp 1.1.5 Sector externo A balança de pagamentos, entendida como um documento estatístico onde são registadas todas as transacções de uma economia com o resto do mundo, num determinado período de tempo10, é um elemento fundamental para a análise da posição externa de um país, servindo de indicador para a identificação de desequilíbrios externos, mais ou menos graves. A conta corrente11 da balança de pagamentos, que reflecte parcialmente a posição competitiva da economia, assume especial importância para a análise da posição externa de qualquer economia, estando na origem dos seus desequilíbrios ligados, de modo geral, a desajustes estruturais da economia. O facto de são Tomé e Príncipe possuir um sector produtivo débil e, consequentemente, por ser extremamente dependente das importações, faz com que a sua balança corrente seja estruturalmente deficitária. Esta situação revela o desalinhamento entre o rendimento e a absorção do país, e os sistemáticos défices nesta rubrica da balança de pagamento resultam em acumulação líquida da dívida do país face ao exterior. 9 Dai se pode concluir que o relativo atraso do país comparativamente a esses países está estritamente ligado a questões da estabilidade política. 10 (Samuelson & Nordhaus, 2005) Balança de Pagamento é uma demonstração Sistemática de todas transacções económicas do país com o resto do mundo. As suas principais componentes são as transacções correntes e as transacções de capitais. 11 A balança corrente pode ser definida como o valor monetário dos fluxos internacionais correspondentes às transacções de mercadorias, serviços, rendimentos e transferências correntes unilaterais, entre residentes e não residentes de uma economia, num determinado período de tempo. Página 13 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Como se pode constatar no gráfico 8, São Tomé e Príncipe tem apresentado deficits da balança corrente na ordem do 20% do PIB em termos médios. Em termos quantitativos, valores de défices na balança conta corrente, persistentes, acima dos 5% do PIB são considerados na literatura económica como insustentáveis. Gráfico 8 - Balança Corrente em Percentagem do PIB 20 0 -20 -40 -60 Cape Verde Mauritius São Tomé and Príncipe Seychelles Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009 Tabela 4 - Comparação dos valores médios do Saldo Corrente em % do PIB Período Saldo da Balança Corrente em % do PIB 1980-1990 1991-2000 2001-2009 Cabo Verde Maurícias - 9,55 - 8,99 - 10,62 - 3,83 - 1,70 - 2,52 São Tomé e Príncipe Seychelles - 21,22 - 21,13 - 22,23 - 10,15 - 7,35 - 18,92 Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, October 2009; calculus do autor. A dependência da economia em relação ao exterior, particularmente no que diz respeito à balança comercial, é visível se compararmos a capacidade exportadora do país com o serviço da dívida. Os serviços da dívida absorvem cerca de 35% (em média) das nossas exportações. Comparando com outras economias, nomeadamente de Cabo Verde e Seychelles, esse indicador, como era de esperar, mostra-nos que STP apresenta-se com valores muito superiores (Gráfico 9). Página 14 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 9 - Evolução do serviço da Divida em % de exportação 70 60 50 40 30 20 10 0 Cabo verde STP Seysheles Fonte: Banco Mundial CAPíTULO 2. Receitas públicas e sistema fiscal 2.1 Evolução recente do SPA: alguns indicadores quantitativos Na análise quantitativa de um sistema fiscal12 torna-se necessário o cálculo de alguns indicadores que possam dar informação, não só da dimensão com que os governos utilizam esta via de obtenção de recursos, mas também do comportamento e composição da fiscalidade ao longo do tempo. De entre os indicadores possíveis, o nível de fiscalidade13 e a estrutura fiscal14 são dos mais pertinentes. Em termos de nível de fiscalidade, verifica-se que em São Tomé e Príncipe esse indicador tem aumentado de forma acentuada ao longo das últimas décadas, acompanhando o crescimento económico do país, bem como a modernização operada no sistema de regras fiscais, inclusive da própria administração fiscal aduaneira. Cifrado em 11% do PIB em 1989, o nível de fiscalidade evoluiu positivamente, tendo atingido em 2004 os 30% do PIB. No entanto, após 2004, tem-se verificado uma diminuição deste indicador que em 2008 já apresenta uma cifra de 17% (gráfico 10). Uma possível explicação para essa diminuição está relacionada com a aceleração do crescimento do PIB nos últimos anos. 12 Entendido de forma simples como o conjunto de impostos vigentes num determinado país ou espaço geográfico. 13 (Pereira, Afonso, Arcanjo, & Santos, 2007) Nível de Fiscalidade é definido e calculado, como a relação percentual entre o total dos impostos cobrados a todos os níveis de Governo e uma grandeza que dê a medida de capacidade económica ou riqueza criada num país (nomeadamente o PNB ou PIB). 14 (Pereira, Afonso, Arcanjo, & Santos, 2007) Por estrutura fiscal entende-se a importância que os principais tipos de impostos assumem no total das receitas fiscais. Revela, pois, a contribuição da cada fonte de receita fiscal e, de algum modo, evidencia as distintas preferências fiscais das sociedades e países, tornando-se particularmente útil nos estudos sobre a evolução dos sistemas fiscais ao longo do tempo. Página 15 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 10 - Receitas Fiscais em Percentagem do PIB 35 30 25 20 15 10 5 0 30 24 11 10 11 13 13 10 10 9 11 13 19 16 16 15 17 27 16 17 Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor No entanto, apesar de alguma variabilidade, é notório o crescimento ao longo do tempo, mas verifica-se que esse indicador situou-se muito abaixo da média de outros países - Portugal, Cabo Verde (Tabela 5). Tabela 5 - Comparação dos Níveis de Fiscalidade Impostos 1990 2003 %PIB %PIB São Tomé e Príncipe 10 19 Portugal 29,2 37,1 União Europeia 39,3 43,5 Fonte: Adaptado (Pereira, Afonso, Arcanjo, & Santos, 2007) 2008 %PIB 17 Nd Nd Em termos de estrutura fiscal, isto é, da importância relativa que os principais impostos15 assumem em São Tomé e Príncipe, verifica-se que os impostos indirectos16 têm tido um maior peso na estrutura fiscal do País. No entanto, tem-se verificado que ao logo das duas últimas décadas esta categoria de imposto tem perdido importância relativa na estrutura fiscal. Em 1989 o peso dos impostos indirectos na estrutura fiscal era de 81,7%, passando em 2008 para 63,72%, enquanto que os impostos directos que em 1989 apenas representava 18,63% da arrecadação fiscal do Estado, passou para 27,5% em 2008 (gráfico 11). 15 (Saldanha Sanches, 2007) O imposto é uma prestação pecuniária, singular ou reiterada, que não apresenta conexão com qualquer contraprestação retributiva específica, exigida por uma entidade pública a uma outra entidade (sujeito passivo), utilizada exclusiva ou principalmente para cobertura de despesas públicas. 16 (Saldanha Sanches, 2007) Nos impostos directos existe, no regime de imposto, uma coincidência entre o devedor do imposto e aquele que vai suportar em termos económicos … enquanto, nos impostos indirectos, o devedor do imposto procede à sua repercussão junto daquele que deve suportar. Página 16 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 11 - Estrutura fiscal (Valores em Percentagem de receitas Fiscais) 100,00 80,00 60,00 40,00 20,00 0,00 Impostos directos Impostos indirectos Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor Uma análise desagregada detalhada pode se conseguida com recurso à tabela de estrutura fiscal em anexo. 2.2 Receitas Totais Em termos de análise da evolução das receitas totais reportadas ao PIB nos últimos 20 anos, verifica-se uma tímida tendência para o crescimento desse indicador como mostra o gráfico de evolução e tendência linear das receitas totais (incluído donativo) em percentagem do PIB no período de 1989 a 2009. Gráfico 12 - Receitas Totais (Incluindo Donativo) em Percentagem do PIB 80 70 60 50 40 30 20 10 0 68 53 39 31 31 29 35 31 39 22 Receitas Totais (Incl.Don.) 29 33 30 32 26 33 31 34 29 31 Linear (Receitas Totais (Incl.Don.)) Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor Página 17 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I 2.3 A desagregação das receitas totais Um facto importante é a tendência para a diminuição da componente não fiscal das finanças públicas (gráfico 13). Em 1989, as receitas não fiscais representavam cerca de 9% do PIB. Em 2008, essa componente das receitas do Estado representa apenas 1% do PIB, sendo que nesse período houve uma redução em termos nominais de 8 pontos percentuais. Gráfico 13 - Receitas Não Fiscais 10 8 6 4 9 7 6 7 7 6 4 6 5 6 5 3 2 3 2 3 4 3 2 3 0 Receitas Não Fiscais Linear (Receitas Não Fiscais) Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor Já no que refere às receitas sobre importação em percentagem do PIB, como era de esperar, tem-se assistido nos últimos anos a uma tendência para o aumento do valor dessa componente das receitas do Estado. Como se pode constatar, em 1989 o imposto sobre importação em percentagem do PIB representava apenas 1% do PIB e em 2008 já representa 6% do PIB. Trata-se também de um indicador que nos revela a dependência do país em relação ao exterior17 e de desequilíbrios das contas externas, particularmente a balança comercial18 (gráfico 14). 17 Os aumentos nesta rubrica revelam elevado grau de dependência do financiamento do OGE face as receitas de importação. 18 A explicação do aumento dessa categoria de receita do Estado está estritamente ligada aos aumentos das importações em termos nominais. E, por outro lado, revela que o crescimento das importações é mais do que proporcional à taxa de crescimento do PIB. Página 18 de 45 1 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 14 - Imposto Sobre Importações em (%) do PIB 7 6 6 5 5 4 3 3 2 1 0 Importações Linear (Importações) Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor Relativamente aos donativos, a sua evolução tem sido irregular ao longo do período, entretanto, pode-se constatar que estes ocupam uma percentagem significativa das receitas totais (cerca de 46 % em média no período compreendido entre 1989 – 2008). Gráfico 15 - Donativos em Percentagem das Receitas Totais 100,00 80,00 60,00 49,11 40,00 45,16 20,00 2008 2007 2006 2005 2004 2003 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 1995 1994 1993 1992 1991 1990 1989 0,00 Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor 2.4 Sistema fiscal Após a abordagem feita sobre os principais impostos que constituem o nosso sistema fiscal, importa proceder a uma análise genérica que nos permita não só assentar numa ideia clara quanto à representatividade dos vários impostos, como ainda levar a cabo uma apreciação crítica do próprio sistema. Página 19 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I 2.4.1 Breve reflexão sobre a reforma do sistema fiscal No campo da tributação do rendimento foram, por seu turno, instituídos pela reforma fiscal em 2009 dois novos impostos: o imposto sobre o rendimento de pessoas singulares (IRS) e o imposto sobre o rendimento das pessoas colectivas (IRC), os quais entraram em vigor a partir de 2 de Janeiro de 2009, com consequente abolição das leis até então vigentes. Esta reforma teve assumidamente como principais objectivos, a eficiência económica, a realização da justiça social e a simplificação no cumprimento dos deveres tributários, na linha das orientações e tendências das reformas fiscais operadas nas principais economias nas décadas de 80 e 90. Dada a complexidade da questão foram introduzidas algumas modificações significativas nos impostos entrados em vigor nesse mesmo ano. Imposto sobre Rendimento de Pessoas Singulares – breve caracterização O IRS é um imposto de características fundamentalmente unitárias, que procura de uma forma global e progressiva tributar os rendimentos das pessoas singulares residentes no território (incluindo os obtidos no estrangeiro) e dos não residentes que obtenham rendimentos sujeitos à tributação no território. Estão sujeitos a este imposto os rendimentos brutos das categorias identificadas de A a D19, em função da respectiva fonte ou natureza, a cada uma delas correspondendo métodos próprios de determinação do rendimento a tributar. O rendimento líquido global dos contribuintes é calculado após a aplicação de deduções específicas às diferentes fontes, procurando reflectir de forma directa ou indirectamente, quer os custos de obtenção do respectivo rendimento quer a protecção fiscal de determinadas categorias de contribuintes. As taxas de imposto são progressivas por escalões, variando as taxas marginais entre 0% e 25%, aplicando-se à cada taxa a parcela de rendimento em cada escalão. 19 (Assembleia Nacional de São Tomé e Principe, 2009)Lei nº 17/2009- 2 do artigo 2º do CIRS – “Os rendimentos provêm das categorias seguintes: a) Categoria A: rendimentos do trabalho dependente e de pensões; b) Categoria B: rendimentos empresariais e profissionais; c) Categoria C: rendimentos de capitais; d) Categoria D: incrementos patrimoniais”. Página 20 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Tabela 6 - Taxas do IRS por escalões Rendimentos Colectáveis Anuais Em Taxas Parcela a abater Até Dbs. 11.700.000,00 0 De Dbs. 11.700.001,00 até Dbs. 50.000.000,00 10% Dbs. 881.250,00 De Dbs. 50.000.001,00 até Dbs. 100.000.000,00 13% Dbs. 1.380.000,00 De Dbs. 100.000.001,00 até Dbs. 150.000.000,00 15% Dbs. 1.875.000,00 De Dbs. 150.000.001,00 até Dbs. 240.000.000,00 20% Dbs. 5.625.000,00 Superior a Dbs. 240.000.000,00 25% Dbs. 9.000.000,00 Fonte: (Assembleia Nacional de São Tomé e Principe, 2009) O imposto tem um carácter anual determinado com base em declaração de rendimentos apresentada pelo contribuinte no ano seguinte ao da sua obtenção. No entanto, ao longo do próprio ano da produção dos rendimentos sujeitos a imposto, estes vão sendo alvo de tributação na fonte, à taxa de retenção variável em função do seu tipo e montante. Os titulares de rendimento de trabalho independente de actividades de natureza empresarial são, igualmente, obrigados a efectuarem pagamentos por conta do futuro imposto. Imposto sobre Pessoas Singulares - Fraquezas O ponto fraco do actual IRS decorre do conceito de despesa fiscal 20 como consequência da isenção. Na reforma em curso, o conceito de despesa fiscal tem um papel importante na política orçamental, ou seja, perante uma situação em que, havendo razões fiscais para tributar um certo tipo de rendimento ou um outro facto fiscalmente relevante e não se tributa, a redução da receita fiscal potencial decorrente dessa não tributação pode ser constitui um custos de oportunidade. A isenção tem, para o orçamento do Estado, o mesmo custo que teria a concessão de um subsídio ou subvenção directa, envolve todavia menos transparência. Entretanto, ao contrário do subsídio, que, para se manter em vigor, deve ser objecto de aprovação expressa, orçamento após orçamento, as isenções por um efeito de ocultação financeira tendem a perpetuar-se. A abordagem desse conceito é uma forma de criticar a concessão indiscriminada de isenções fiscais, das quais resulta uma forte erosão da base tributária e uma sobrecarga para os contribuintes não isentos. Partiu-se de uma taxa proporcional para uma taxa progressiva. No entanto, a amplitude, ou seja, a diferença entre a menor e a maior taxa é de 25%, o que significa um agravamento de taxa para alguns contribuintes na ordem dos 12% (quase o dobro daquilo que pagava com a lei anterior. Por outro lado, uma boa parte dos contribuintes (os que têm rendimento anual inferior a 11.700.000) viram as suas taxas reduzidas em 20 Abordagem financeira do conceito de isenção. Página 21 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I 13 pontos percentuais, isto é, passando de 13% para 0%, o que na prática constitui despesa fiscal para o Estado. Assim sendo, o objectivo que norteou a reforma (alargamento da base tributaria), parece não coincidir o enunciado da Lei. Porque na prática houve uma diminuição da base tributária por exclusão da esfera de tributação de uma boa parte de contribuintes. Imposto sobre Rendimento de Pessoas Colectivas - Caracterização O código do IRC (CIRC) determina que sociedades anónimas, sociedades por quotas e outras sociedades com fins lucrativos são consideradas entidades tributáveis. As sociedades residentes são obrigadas a pagar o IRC sobre a totalidade dos seus rendimentos donde quer que provenham. Uma sociedade é considerada residente, se a sua sede ou local efectivo de gestão se situar em território nacional, se qualquer um dos seus agentes exercer actividades de negócio no país por 120 dias ou mais em cada ano, ou se houver uma representação permanente a partir da qual se pratica uma actividade comercial, agrícola ou industrial. A base fiscal do IRC consiste nos resultados líquidos obtidos num ano, acrescidos de certas alterações patrimoniais e deduzidos os prejuízos de anos anteriores permitidos pela lei e de incentivos fiscais. Os lucros são definidos em termos da demonstração de resultados e representam o ganho patrimonial ao longo do período contabilístico, ajustado de acordo com as regras do CIRC. Na definição de lucros tributáveis, todos os custos associados com a actividade normal de uma sociedade são dedutíveis à base fiscal do IRC, até certos limites. Os principais custos permitidos são as amortizações para efeitos fiscais e os custos totais com o factor trabalho, os salários brutos mais as contribuições patronais para a segurança social. Outras deduções incluem despesas de representação, despesas de deslocação em trabalho, certos donativos, despesas de investigação e desenvolvimento, e provisões para dívidas incobráveis. Imposto sobre Rendimento de Pessoas Colectivas – Fraquezas Neste imposto, houve uma redução em 20 pontos percentuais da contribuição das empresas, com o intuito do fortalecimento do tecido empresarial que conduzirá no futuro ao alargamento da base tributária. Por outro lado, a reforma fiscal no âmbito da tributação de pessoal colectiva ”choque fiscal”, em curso, só poderá ter alguma viabilidade se a redução da taxa de IRC for acompanhada de medidas eficazes de combate à fraude e evasão fiscal que, como se sabe, conduzem à violação do princípio da igualdade tributária, da universalidade e da legalidade do imposto. Apesar do IRC prever categorias de empresas sem contabilidade organizada, o elevado grau de informalidade da economia e das empresas fará com que a base fiscal Página 22 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I continue a ser estreita. Haverá sempre dificuldade de transferir para a esfera de tributação as empresas do sector informal21. Portanto, a diminuição do imposto sobre pessoas jurídicas deveria ser gradual e em função de melhorias no sistema de cobrança e diminuição das perdas derivadas da componente informal da economia. Por outro lado, o ajustamento fiscal é aceitável pelos empresários quando se trata de diminuição, no entanto, se for necessário um aumento será muito difícil e passível de contestação. 2.4.2 Lacunas do Sistema Fiscal Taxas22 Na análise das receitas importa fazer uma reflexão sobre as “Taxas”23, dada a importância que estas deveriam ter no nosso sistema fiscal. Seria de todo conveniente uma revisão das legislações em matéria de cobrança de taxas, como reacção à perda sucessiva de receita fiscal proveniente dessa categoria de imposto. Quer de forma consciente quer mesmo de forma inconsciente, a verdade é que o Estado tem deparado com a diminuição sucessiva das receitas provenientes de taxas24, e vem, como contrapartida, sobrecarregando as que resultam da aplicação de impostos. As taxas são formas mais justas de tributação. Se o sujeito pretende uma prestação pública então terá que sustentar um encargo financeiro; não existe deslocalização possível, mas, por outro lado, existe uma aparente justiça, já que quem beneficia de uma prestação sustenta o seu encargo. É esse o fundamento do postulado do utilizador/pagador. As taxas permitem um alargamento da base tributária numa medida superior à que poderia resultar de uma alteração do sistema de impostos, havendo, ainda hoje, um largo espectro de realidades não tributadas, insuficientemente tributadas, ou ineficientemente tributadas. Uma boa parte da legislação sobre as taxas está desactualizada e desfasada da realidade actual, o que induz à fixação arbitrária de taxas por parte de alguns sectores. Existe uma total anarquia no nosso ordenamento jurídico e que tem necessariamente que ser resolvida, não só por via legislativa, mas também através de mecanismos mais pragmáticos de actualização das taxas. 21 Significa que um grande número de contribuintes se situa a margem do quadro jurídico-institucional. A mesma análise se aplica a licenças, preços multas e penalidades. 23 A taxa é uma prestação tributária que pressupõe, ou dá origem, a uma contraprestação específica, constituída por uma relação concreta. 24 Em 1993, as taxas representavam 10,67 das receitas correntes e em 2007 estas já representavam apenas 5,5% das receitas correntes – Ver Tabela 9 em Anexo) 22 Página 23 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Imposto Sobre Valor Acrescentado IVA – a inexistência do IVA no sistema fiscal, faz com que a dependência do imposto sobre as importações seja cada vez mais acentuada. De acordo com este tipo de imposto, todos os bens e serviços colocados no mercado e vendidos, quer produzidos internamente quer importados, estariam sujeitos ao IVA, desde que adquiridos para utilização em determinado território. Por conseguinte, as exportações ficariam, de facto, isentas de IVA. Sendo um imposto sobre o valor acrescentado, significa que apenas é tributado o valor que é acrescentado aos factores de produção adquiridos através de uma actividade empresarial25. Através de um sistema em cadeia, os comerciantes cobram o IVA no valor do bem ou do serviço vendido, deduzindo o IVA já pago na aquisição dos factores produtivos, e entregam a diferença à Administração Fiscal. No entanto, enquanto que para a Administração Fiscal o comerciante é o responsável pela entrega do imposto, a incidência económica recai, geralmente, sobre os agentes económicos que adquirem os bens finais. Isto acontece porque, não sendo estes bens e serviços revendidos nem incorporados num novo bem ou serviço que seja colocado no mercado, não permitem aos agentes económicos que os adquirem reaver o IVA pago. Na prática, o IVA é um imposto ad valorem26 e representa a última sobretaxa, a sua base fiscal é o montante (incluindo outros impostos) que seria cobrado a um comprador, se não existisse o IVA. A substituição do imposto sobre o consumo pelo IVA traria dupla vantagem para o sistema fiscal. Primeiro, porque eliminaria as distorções derivadas das características do imposto sobre o consumo para a economia e, segundo, porque, no quadro das políticas de adesão à OMC e consequente harmonização das pautas aduaneiras, o IVA compensaria a diminuição dos impostos aduaneiros. Imposto de Selo e outros pequenos impostos De acordo com o princípio de um bom sistema fiscal, os custos associados à administração e cumprimento do sistema de impostos e regras fiscais devem ser tão baixos quanto o permitam os restantes objectivos de política fiscal. A administração do imposto de selo leva à necessidade de manutenção e funcionamento de uma estrutura organizativa específica (incluindo funcionários responsáveis para a venda), bem como ao cumprimento por parte do contribuinte (indivíduos e empresas) de procedimentos burocráticos constantes. Ambas as realidades envolvem a utilização de recursos (dinheiro, tempo, deslocações) cujo montante não é compensado numa perspectiva de custo eficácia. 25 26 Em termos gerais, o IVA é um imposto que recai sobre a aquisição de bens finais. Imposto em que o referido montante é função de uma dada percentagem sobre o preço. Página 24 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Nesse sentido, é recomendável eliminar gradualmente a venda de selos, na medida em que custos envolvendo a sua produção e venda, associados a outros custos inerentes à sua compra, não garantem o princípio de eficiência. Do mesmo modo, torna-se recomendável eliminar os pequenos impostos (Tabela Anexo), na medida em que os custos com a sua administração não encontram compensação nas receitas deles provenientes e, por outro lado, causam inconveniências ao contribuinte. A eliminação desses impostos pode ajudar a simplificar o sistema fiscal, libertar recursos humanos e administrativos no sentido de maior produtividade e reduzir a evasão fiscal. Outras lacunas do Sistema Fiscal Ainda no âmbito das receitas, merece especial destaque a questão de cobrança de receitas por parte das instituições com autonomia administrativa e financeira. Algumas instituições, cujo orçamento é financiado pelo orçamento geral do Estado, cobram valores avultados de receitas que não são enviadas para o cofre do Estado, ou se enviarem os valores correspondem a uma percentagem muito baixa. A maior fatia dessas receitas é distribuída sob forma de emolumentos para funcionários dessas instituições. Em algumas dessas instituições não são feitas auditorias periódicas, não publicam as contas. A questão que se coloca é a de legitimidade, na medida em que se em algumas instituições as receitas cobradas revertem a favor do Estado, seria também legitimo que em outras revertessem de igual modo a favor do Estado. Essa dualidade de critério não favorece o respeito pelo princípio de universalidade e de igualdade e está estritamente ligada à questão de motivação dos funcionários públicos. O Estado deve atender a princípios no tocante à gestão da actividade orçamental e essas regras devem tender para uma aproximação quanto possível da uniformização. Demasiada indisciplina nos vencimentos, nos emolumentos e nas regalias atribuídos geram, naturalmente, problemas delicados. A forma como se tem estabelecido emolumentos e regalias para alguns sectores contraria frontalmente o principio de igualdade constitucionalmente estabelecido e provoca insatisfação nos demais, que também podem estar a desempenhar as suas funções em termos adequados. Página 25 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Síntese da análise do Sistema Fiscal Em síntese, da breve análise do sistema fiscal depreende-se a necessidade de continuar a promover a melhoria gradual do sistema fiscal, que tendo em conta o objectivo geral de tratamento mais neutral (igualitário) e, simultaneamente, mais equitativo das actividades e tipos de rendimento e riqueza, passará por: Alargamento da base tributária e redução/ajustamento das taxas de tributação; Introdução de maior eficácia e selectividade de medidas de incentivo e protecção fiscal; Efectivação do combate a evasão fiscal e a fraude27 Actualização da Lei sobre a venda de selo; Eliminação de pequenos impostos; Substituição do imposto de consumo pelo IVA. 27 (Pinto, 2007) As expressões evasão fiscal e fraude fiscal são muitas vezes, na linguagem corrente tratadas como sinónimos, caracterizando uma actuação dos contribuintes no sentido de um menor pagamento de impostos que aquele que em condições normais seria devido. Página 26 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I CAPíTULO 3. Despesas públicas: evolução e tendências No que se refere às despesas totais reportado ao PIB, a sua evolução ao longo dos últimos 20 anos revela-nos vários intervalos de crescimento e diminuição. Em termos médios, no período em análise o país tem apresentado valores de despesas totais na ordem dos 58% do PIB, sendo 2002 e 2003 os anos em que o país apresentou valores de despesas totais em percentagens do PIB mais baixos (Gráfico 16) Gráfico 16 - Despesas Totais em Percentagem do PIB 100 80 79 72 60 64 63 65 68 69 65 69 77 54 67 64 40 46 44 49 41 39 40 28 20 Despesas Totais 2008 2007 2006 2005 2004 2003 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 1995 1994 1993 1992 1991 1990 1989 0 Linear (Despesas Totais) Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor No que toca às despesas correntes excluindo juros em percentagens do PIB, após períodos de uma ligeira diminuição (1989-1993), o seu comportamento manteve-se estável durante a década de 90. A partir de 2002, verificou-se dois períodos de aumentos e diminuições. O comportamento das despesas correntes demonstra uma correlação positiva com as despesas correntes excluído juros, excepto no período compreendido entre 1997 e 2000 (Gráfico 17). Gráfico 17 - Despesa Corrente em Percentagem do PIB 40 30 20 10 Despesas Correntes 2008 2007 2006 2005 2004 2003 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 1995 1994 1993 1992 1991 1990 1989 0 Despesas Correntes (excl. juros) Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor Um aspecto a realçar na evolução das despesas correntes ao longo dos últimos anos diz respeito ao crescimento das despesas com pessoal, tanto em valores absolutos Página 27 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I como em termos do seu peso relativo nas despesas públicas28 (Gráfico 19). Analisando a composição destas despesas, na perspectiva da classificação económica, constata-se que as rubricas que mais contribuíram para a aceleração observada foram despesas com pessoal, deslocações e juros da dívida externa. No que se refere à primeira variável, o peso das despesas com pessoal no PIB rondava em 2008 os 8% do PIB e 40% das despesas correntes (Gráfico 18 e 20) Gráfico 18 - Despesa Com Pessoal em Percentagem da Despesa Corrente 0,50 0,40 0,40 0,30 0,20 0,10 Despesas cIo pessoal 2008 2007 2006 2005 2004 2003 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 1995 1994 1993 1992 1991 1990 1989 0,00 Linear (Despesas cIo pessoal) Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor Gráfico 19 - Despesa Com pessoal (Milhões de USD) 16,0 14,0 12,0 10,0 8,0 6,0 4,0 2,0 0,0 9,8 14,6 12,6 10,7 7,6 2008 2007 2006 2005 2004 2003 4,6 4,7 2002 2001 3,5 3,6 2000 1999 1998 1997 2,6 2,8 1,5 2,0 1996 1995 1994 3,3 2,5 2,7 1993 1992 1991 1990 1989 5,2 4,8 4,1 5,9 Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor 28 De salientar que este peso relativo registaria ainda um maior aumento, caso alguns benefícios salariais, contabilizados na rubrica outras despesas, fossem incluídos nas despesas com pessoal. Neste contexto, a sua contenção constitui um factor importante para a sustentabilidade das finanças públicas. Página 28 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 20 - Despesa Com Pessoal em Percentagem do PIB 12 10 11 9 8 8 6 7 5 6 5 4 7 8 8 8 3 6 6 4 7 8 8 9 8 2 0 Despesas com Pessoal Polinomial (Despesas com Pessoal) Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor Ainda em termos de despesas correntes, pode-se referir que o peso no PIB das despesas com os juros aumentou até 1998, tendo atingido os 12% do PIB 29, para diminuir depois, no final da década de 90, com o acesso do país ao programa HIPC, que culminou com a anulação de uma boa parte da dívida externa em 2007. Deste modo, em 2007 e 2008 os valores dos juros em percentagem do PIB reduziram para 2 e 1% respectivamente (Gráfico 21). Gráfico 21 - Juros da Dívida em Percentagem do PIB 14 12 10 8 6 4 2 0 12 11 6 2 2 1 2 2 3 4 4 3 2 1 2 2 3 2 Juros da dívida Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor Nas despesas de capital, a parte respeitante aos investimentos em capital fixo, no período em análise, manteve quase sempre uma tendência descendente quando reportado ao PIB, sendo que em 1989 as despesas com o programa de investimento público rondava os 48% do PIB e, em 2008, ronda apenas 14% do PIB (gráfico 22). 29 Este crescimento acentuado durante a década de 90 é explicado simultaneamente pelo contínuo aumento do montante total da dívida pública e pela evolução das taxas de juro provocada pelo elevado nível de inflação. Página 29 de 45 1 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 22 - Programa de Investimento Público em Percentagem do PIB 60 50 40 48 45 42 40 51 36 41 44 44 43 33 30 41 38 24 22 20 11 10 16 19 14 0 Programa de Investimento Público Linear (Programa de Investimento Público) Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor É importante salientar que as despesas do PIP representam uma menor parte do total das despesas públicas total, pese embora o facto desta rubrica ser, normalmente, considerada como sendo uma das que mais pode fomentar o crescimento económico30. As despesas totais do sector público administrativo, em rácio do PIB, não demonstraram uma evolução regular de aumento, no entanto, a sua composição demonstra uma tendência para o aumento das despesas correntes e diminuição das despesas capital. Esta tendência, por um lado, é explicada pela diminuição dos desembolsos da APD e, por outro, revela-nos que o investimento do Estado em infraestruturas não tem acompanhado o crescimento económico nos últimos anos. A despesa pública é considerada em termos genéricos como um factor importante para a promoção do crescimento económico e do bem-estar social. Por outro lado, um nível reduzido de despesa pública significa que menos receitas públicas serão necessárias para se obter o equilíbrio das contas públicas, o que significa também menos impostos e uma maior contribuição para estimular o emprego. A despesa pública também é uma variável chave no que diz respeito à sustentabilidade das finanças públicas. Nesse sentido, um controlo rigoroso e eventuais reduções das despesas públicas, quando possível, são importantes para estabelecer o equilíbrio adequado entre um menor endividamento público, menos impostos e financiamento público em áreas chaves da economia. Dessa forma, e em termos genéricos, seria pertinente redireccionar as despesas públicas no sentido de aumentar a acumulação do capital físico e humano. De acordo com a teoria económica31, o crescimento e o desenvolvimento económico são fundamentalmente dependentes da acumulação do stock de capital, tanto na sua 30 Esta evolução revela que o crescimento do PIP tem sido menos do que proporcional ao crescimento da economia. Dai se pode inferir que a dimensão do Estado no fomento da actividade económica tem estado a diminuir. 31 Ver por exemplo, (Pereira, Afonso, Arcanjo, & Santos, 2007) (Samuelson & Nordhaus, 2005) (Barbosa, 1997) Página 30 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I componente física como na sua componente humana, sendo, por isso, necessário um nível apropriado de poupança nacional. Sendo evidente que o país apresenta níveis reduzidos de poupança privada, a política orçamental assume um papel importantíssimo na mobilização de recursos através da elevação dos níveis de arrecadação de receitas e cortes nos gastos públicos menos produtivos. O desafio é, para além da arrecadação, conseguir que os recursos mobilizados sejam de facto empregues e para fins produtivos32. Um dos principais meios pelos quais a consolidação das despesas no país pode estimular o crescimento é a elevação da produtividade dos factores, na medida em que liberta recursos do sector público para o sector privado, que é mais eficiente. Em conclusão, a política orçamental deve ser reorientada no sentido de promover a redução do nível dos gastos públicos com o funcionamento corrente ao mínimo razoável, garantindo a qualidade dos serviços prestados, possibilitando, com esta opção, a libertação dos meios para a realização de despesas públicas de investimento, portanto, reprodutivas e que sirvam de alavanca para a criação de riqueza e de emprego. Neste domínio, cabe salientar a relevância do quadro de despesas plurianuais. Além de outros efeitos, a orçamentação por programas plurianuais tem fortes implicações na organização da Administração Pública, em termos de definição de estruturas, competências e responsabilidades, imprimindo um carácter dinâmico e funcional. O quadro de despesas de médio prazo – como instrumento de estruturação da despesa pública tem vantagens, nomeadamente: Promove cadeias de responsabilidade a todos os níveis do serviço público, aprofundando a noção de accountability e de procedimentos de gestão claros e transparentes; Permite controlo interno operacional assegurando: (1) o acompanhamento contínuo de fluxos financeiros e resultados das actividades e programas; (2) o processo de tomada de decisão atempado, obedecendo a princípios de legalidade, regularidade e de economia, eficiência e eficácia; Permite detectar desvios face aos objectivos, identificar riscos potenciais numa fase inicial e, se necessário, tomar medidas correctivas adequadas; 32 São inúmeros exemplos de investimentos públicos que ao longo dos últimos 20 anos, contribuíram pouco ou quase nada para a criação de riqueza. Página 31 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I CAPíTULO 4. Saldo Orçamental: Evolução e Tendências A análise do saldo orçamental é feita com recurso à análise da evolução nos últimos 20 anos dos seguintes indicadores: evolução do saldo corrente em percentagem do PIB, saldo primário em percentagem do PIB e saldo global em percentagem do PIB. No que se refere ao saldo corrente em percentagem do PIB, este indicador evoluiu no período em análise de forma irregular, apresentando um comportamento que não permite concluir de forma objectiva sobre a sua tendência. Entretanto, o valor médio é de -5%. Da análise do gráfico 23 verifica-se sucessões de valores negativos para este indicador, excepto, nos anos 1992, 1993, 1995, 2000 e 2002. Gráfico 23 - Saldo Orçamental Corrente (%PIB) 5 0 -5 -10 -15 Saldo Corrente Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor O saldo primário, isto é, receitas (excluindo donativo) menos as despesas com o pagamento de juros é um indicador do esforço fiscal visto que os pagamentos de juros são pré-determinados pela magnitude dos défices anteriores; assim sendo, o saldo primário é uma variável fundamental na análise da sustentabilidade da dívida pública33. A análise da evolução deste indicador nos últimos 20 anos pode ser feita, enquadrando a sua evolução em três períodos em que o mesmo indicador apresenta comportamentos distintos. No primeiro período (1989 à 1993), verifica-se uma recuperação, passando de -14% do PIB em 1989 para 2% em 1993. No segundo período (1993 à 2003), o saldo orçamental em percentagem do PIB evoluiu de forma relativamente estável, apresentando valores entre –7 e 2% do PIB. No terceiro (2003 a 2008) verificou-se o agravamento deste indicador entre 2003 a 2005 e uma recuperação entre 2005 a 2008 (gráfico 24). O crescimento das despesas com pessoal explica em larga medida o crescimento do défice fiscal e o crescimento das despesas com bens e serviços também contribuíram para o aumento desse défice34. 33 O saldo primário estabilizador da dívida é o saldo primário necessário para manter estável o rácio da dívida/PIB. Na Parte II deste estudo será desenvolvido de forma aprofundada a relação saldo primário e a dívida. 34 (Nisreen, 2009) O crescimento das despesas correntes tem persistentemente excedido as receitas internas deixando o país em “outlier”. Comparando com outros países da África Subsariana e pequenos Página 32 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 24 - Saldo Primário em Percentagem do PIB 5 2 2 0 -3 -5 1 2 0 -2 -3 -4 -5 -6 -7 -3 -2 -5 -7 -7 -9 -8 -10 -5 -7 -5 -8 -11 -12 -14 -15 Saldo Primário (excl. HIPC) Saldo Primário (incl. HIPC) Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor No gráfico 25 está representada a taxa de crescimento real do Produto e o défice orçamental em percentagem do produto. Como se pode constatar, o período que corresponde à deterioração do saldo primário (2000-2009), corresponde também à melhor evolução da taxa de crescimento do produto. Deste modo, pode-se depreender que o saldo primário tem sido utilizado como impulsionador do crescimento económico. Na segunda parte deste estudo, será desenvolvida um estudo econométrico, visando aferir a contribuição das despesas para o crescimento económico (Ver Capítulo V- Parte II). Gráfico 25 - Saldo Primário em Percentagem do PIB e Taxa de crescimento do PIB 10 5 2009 2008 2007 2006 2005 2004 2003 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 1995 1994 1993 1992 1991 1990 -5 1989 0 -10 -15 Saldo Primário (incl. HIPC) Taxa de crescimento do PIB Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor O Gráfico 26 compara a evolução do saldo global antes e após donativo. Como se pode constatar, esse saldo, mesmo incluindo os donativos, evoluiu ao logo dos últimos 20 anos quase sempre negativamente, excepto em 1997. estados insulares Africanos, o total de despesas em percentagem do PIB é o segundo mais alto e as receitas internas são baixíssimas. Página 33 de 45 -4 -6 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I No que se refere ao saldo global em percentagem do PIB, excluindo o donativo, esse indicador evoluiu sempre negativamente e com valores que atingiram os 59% do PIB. Em termos médios, o saldo global, excluindo os donativos, atingiu os 44% do PIB, enquanto que o saldo médio, incluindo o donativo, atingiu 23% do PIB. Gráfico 26 - Saldo Global em % do PIB 20 0 -20 -40 -60 -80 Saldo Gobal (antes de donativos) Saldo Global (após donativos) Fonte: TOFE – Direcção do Orçamento e cálculos do autor Página 34 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I CAPíTULO 5. A boa governação e a obrigação de prestação de contas (accountability) Um factor incontornável na discussão sobre as finanças públicas Santomenses é a questão que se prende com a boa governação35. As experiencias demonstram que bons indicadores de boa governação estão associados também a bons indicadores das finanças publicas e com vantagem nítida pelo menos a médio e longo prazos. As taxas de crescimento são em média mais elevadas nos países que conjugam democracia e boa governação e são, por vezes, mais duráveis. A gestão dos bens públicos constitui um dos domínios cujas consequências podem determinar a orientação das intervenções a favor dos grupos sociais mais pobres ou vulneráveis. Mas a ineficiente gestão dos bens públicos, associada ao funcionamento deficiente dos Tribunais, costuma ser apontada entre os problemas com que se confronta o país. O gráfico abaixo compara a boa governação em são Tomé e Príncipe com os outros estados Insulares Africanos. Como se pode constatar, São Tomé e Príncipe apresenta uma cifra muito baixa relativamente a esse indicador. Gráfico 27 - Indicador de Boa Governação Fonte : http://info.worldbank.org/governance/wgi/mc_countries.asp De igual modo, o desempenho do sector público depende fortemente do controlo da corrupção36. O gráfico seguinte mostra o posicionamento do país em relação a esse indicador. 35 A boa Governação coloca no centro da análise a qualidade e o rigor da gestão pública, os bens públicos e as opções de políticas de desenvolvimento, bem como o jogo complexo das interacções entre o Estado, a Sociedade Civil e as estruturas intermédias e o sector privado. 36 (Tanzi & Davoodi) il existe une association négative entre les indices de perception de la corruption et le niveau de développement mesuré par le PIB réel par habitant. Página 35 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Gráfico 28 - Controlo de Corrupção 37 Fonte : http://info.worldbank.org/governance/wgi/mc_countries.asp Por outro lado, a boa governação integra um conjunto abrangente de conceitos, incluindo a prática duma sólida gestão financeira, a transparência e a prestação de contas no uso de dinheiros públicos. Ainda em matéria de boa governação, a prestação de contas é um dos factores fundamentais para o bom desempenho da administração pública. Trata-se do único indicador em matéria de boa governação em que o país encontra-se melhor posicionado em relação a Seychelles, muito embora permaneça ainda muito a quem do ideal (gráfico 29). A importância da prestação de contas advém, dentre outros, do poder que tem de responsabilizar os gestores públicos pelas demonstrações financeiras apresentadas, através de um adequado sistema de controlo que previna e detecte, nomeadamente, possíveis situações de fraude, corrupção, manipulação de contas, contratação irregular. Desta forma, a prestação de contas contribui para o reforço da confiança dos cidadãos na eficiência e eficácia da gestão das finanças públicas. Gráfico 29 - Prestação de Contas Fonte : http://info.worldbank.org/governance/wgi/mc_countries.asp 37 O controlo de Corrupção inclui aspectos tais como: a. O poder público não é utilizado para fins pessoais; b. As pequenas e a grande corrupção são reprimidas c. O Estado não é refém de interesses privados. Página 36 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Conclusão A disciplina fiscal é fundamental para colocar as contas públicas num percurso sustentável ao longo prazo, sendo, portanto, imperativo que o Governo tome medidas correctivas por excelência, dotadas de uma grande dose de rigor, responsabilidade e determinação que, por um lado, coloquem as contas públicas ao nível da maioria dos países mais avançados, e, por outro, permitem reconquistar a confiança de todos os contribuintes e dos parceiros. No entanto, o estudo apresenta em termos específicos as seguintes conclusões: A economia de São Tomé e Príncipe é bastante aberta ao exterior e altamente dependente das importações, o que a torna altamente dependente das receitas dos impostos indirectos. Ao mesmo tempo, a base de produção e exportação é bastante estreita, deixando as autoridades com uma base fiscal pequena. A análise mostra que São Tomé e Príncipe apresenta uma situação claramente mais desfavorável quando comparado com os outros pequenos Estados Insulares da África, do ponto de vista das variáveis apresentadas. Entretanto, de uma maneira geral, verifica-se uma tendência para a melhoria dos indicadores (Taxa de crescimento do Produto, Inflação e PIB per Capita) no período 2001-2009. As despesas totais do sector público administrativo, em rácio do PIB nos últimos 20 anos, não demonstraram uma evolução regular de aumento. No entanto, a sua composição demonstra uma tendência para o aumento das despesas correntes e diminuição das despesas de capital, sendo esta última considerada como uma das que mais pode fomentar o crescimento económico. De entre outros factores, o crescimento acelerado das despesas correntes, particularmente as despesas com pessoal, explica em larga medida o crescimento do défice fiscal e o desajustamento atrás referido. A análise dos saldos orçamentais demonstra-nos que o saldo primário não é estabilizador da dívida, visto que não mantém estável o rácio da dívida/PIB. No entanto, esta análise será avaliada de forma mais aprofundada na segunda parte do estudo. O sistema Fiscal apresenta alguns pontos fracos que merece atenção: i. Da concessão excessiva de isenções fiscais, introduzida pelo IRS, resulta uma forte erosão da base tributária e uma sobrecarga para os contribuintes não isentos. Assim sendo, o objectivo que norteou a reforma (alargamento da base tributaria) dificilmente será cumprido na medida em que na prática haverá uma diminuição da base tributária por exclusão da esfera de tributação de uma boa parte de contribuintes; ii. Algumas instituições, cujos orçamentos são financiados pelo orçamento geral do Estado, cobram valores avultados de receitas que não são enviadas para o cofre do Estado, ou quando enviados correspondem a uma percentagem muito baixa. A maior fatia dessas receitas é Página 37 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I distribuída sob forma de emolumentos aos funcionários dessas instituições. Por outro lado, essas mesmas instituições não publicam contas e nem são auditadas; iii. O Estado tem-se deparado com diminuição sucessiva das receitas provenientes de taxas, e, em contrapartida, vem sobrecarregando as que resultam da aplicação de impostos; iv. A reforma fiscal no âmbito da tributação de pessoas colectivas em curso só poderá ter alguma viabilidade se a redução da taxa de IRC for acompanhada de medidas eficazes de combate à fraude e à evasão fiscal que, como se sabe, conduzem à violação do princípio da igualdade tributária, da universalidade e da legalidade do imposto; v. Apesar do IRC prever categorias de empresas sem contabilidade organizada, o elevado grau de informalidade da economia e das empresas fará com que a base fiscal continue a ser estreita. Haverá sempre dificuldades em transferir para a esfera de tributação as empresas do sector informal; vi. Os custos com a administração de alguns pequenos impostos (Tabela Anexo) não são compensados pelas receitas deles provenientes e, por outro lado, causam inconveniências para o contribuinte; a eliminação desses impostos, pode ajudar a simplificar o sistema fiscal, libertar recursos humanos e administrativos no sentido de maior produtividade e reduzir a evasão fiscal. Página 38 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Recomendação Tendo em conta o exposto ao longo do estudo, deverão ser merecedoras de especial atenção, no sentido da melhor organização e gestão das finanças públicas e promoção da sustentabilidade, as seguintes áreas: I) Relativo às receitas Optimizar o nível das receitas públicas e colocar o sistema fiscal, enquanto mecanismo de redistribuição, ao serviço da competitividade da economia e dos cidadãos. Nesse âmbito, prosseguir com a reforma no sentido de continuar a promover a melhoria gradual do sistema fiscal, passará por: Alargamento da base tributária e ajustamento do IRS e do IRC em função de um estudo aprofundado sobre o impacto da implementação desses impostos; Com o objectivo de maior simplificação, eliminar as parcelas a abater e calcular as taxas equivalentes às taxas do IRS; Actualização da Lei sobre o imposto de selo, devendo essa actualização conduzir à eliminação de venda de selos; Minimizar os custos de eficiência e administração do sistema fiscal através da eliminação de “pequenos impostos” (Tabela Anexo), na medida em que os custos relativos à administração desses impostos não são compensados pelas receitas deles provenientes e, por outro lado, causam inconveniências para o contribuinte; Substituição do imposto de consumo pelo IVA - estabelecimento de um plano de médio prazo para a implementação do IVA, dada a importância deste imposto para o desenvolvimento da economia em geral e para a competitividade. Prosseguir a implementação das políticas fiscais tendo em vista a melhoria de arrecadação de receitas fiscais e os objectivos de Justiça e Equidade Fiscal, nomeadamente: a) Reforçar a acção pedagógica junto dos contribuintes, de forma a facilitar, numa lógica preventiva, a utilização dos instrumentos disponíveis e promover o exercício eficaz dos direitos e deveres dos contribuintes; b) Promover a proximidade da Administração Fiscal ao cidadão, através da disponibilização de meios de acesso e de comunicação ao contribuinte e de serviços da Administração Fiscal, mediante, designadamente, a criação de um site informativo e de divulgação de informações legislativas, tributárias e fiscais e do estreitamento do relacionamento formal e informal do contribuinte com a Administração Fiscal através da criação do correio electrónico do contribuinte; c) Reforçar as medidas de combate à fraude e evasão fiscal: (i) Elaboração e aprovação de um Código de Ética e clarificação e controlo da aplicação do regime de incompatibilidades dos funcionários da Administração Tributária; Página 39 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I II) (ii) Criação do “gestor de clientes” (grandes contribuintes), com atribuições de acompanhamento de modo sistemático e mais rigoroso de sujeitos passivos pertencentes a segmentos específicos, de forma a garantir o cumprimento voluntário das respectivas obrigações tributárias; (iii) Legislar no sentido de que a declaração do cumprimento das obrigações fiscais seja obrigatória para o acesso aos serviços públicos e privados. Relativo às despesas A adopção de medidas que garantam o rigor da despesa pública, promovendo a contenção dos gastos de funcionamento – sem condicionar o normal funcionamento dos serviços, mantendo a sua funcionalidade e incrementando a sua qualidade –, potenciando a realização de investimentos reprodutivos que tenham um elevado impacto ao nível da criação de emprego e do incremento de actividades geradoras de riqueza. A implementação de medidas que visem a centralização de informações sobre os investimentos públicos, nesse âmbito a aceleração da implantação de metodologias de orçamentação (QDMP), permitindo o acompanhamento da sua execução e avaliação em termos dos resultados pretendidos; A criação de um gabinete especializado para a avaliação de projectos, de forma a garantir um quadro permanente do desenvolvimento de análises custobenefício das acções, actividades, projectos e programas. III) Boa Governação Apesar dos progressos registados, os resultados em matéria de boa governação ainda ficam muito aquem do desejável, pelo que torna-se imprescindível redobrar os esforços e fixar metas a cumprir. Especificamente, a acção tendente à melhoria dos indicadores de boa governação pública deve passar por: O desenvolvimento e aproveitamento das tecnologias de informação e comunicação, para a promoção de eficiência e publicação periódica da informação financeira do estado; A prestação regular de contas – estabelecimento de uma meta no que concerne à organização para a apresentação da conta geral do estado e publicação trimestral no Diário da República de informação de execução Orçamental (definição de um quadro de indicadores que permita a avaliação da execução orçamental); Elaboração de um inventário do património do Estado correctamente avaliado e actualizado; Reforço dos mecanismos de controlo interno, permitindo detectar os riscos potenciais e accionar mecanismos de correcção; Página 40 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Obrigatoriedade de publicação de contas devidamente auditadas por parte de instituições com Autonomia Financeira, particularmente os Tribunais; Maior efectivação de auditorias externas e consequente responsabilização dos que, embora tendo a seu cargo a gestão dos recursos públicos, fique provado que não agiram em salvaguarda do interesse público, não documentaram e / ou justificaram as despesas, receitas, etc. Página 41 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Bibliografia Assembleia Nacional de São Tomé e Principe. (2009). Codigo de imposto Sobre o Rendimento de Pessoas Singulares. São Tomé. Barañano, A. M. (2004). Métodos e Técnicas de Investigação em Gestão - Manual de apoio à realização de trabalhos de investigação. Lisboa: Edições Sílabo, Lda. Barbosa, A. S. (1997). Economia Pública. Amadora: McGraw-Hill de Portugal, Lda. Daniel, J., Davis, J., Fouad, M., & Rijckeghem, C. (2006). Ajustamento Fiscal, Espirito Santo, A. (2008). Economia de São Tomé e Príncipe - entre o regime do partido único e multipartidarismo. Lisboa: Edições Colibri. FMI - Departamento de Elaboração e Exame de Políticas. (2002). Avaliação de Suatentabilidade. Wasshington: FMI. Kappagoda, N., & Alexander, N. C. (2004). DEBT SUSTAINABILITY FRAMEWORK FOR LOW INCOME COUNTRIES: POLICY AND RESOURCE IMPLICATIONS. Paper submitted for the G-24 Technical Group Meeting . Nisreen, F. (2009). São Tomé and Príncipe: Domestic Tax System and Tax Revenue Potencial. IMF -Working Paper . Pereira, P. T., Afonso, A., Arcanjo, M., & Santos, J. 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Washington, D.C.: World Bank. Página 42 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Anexo – 1 Tabela 7 - Pessoas Contactadas 1. Adelino Castelo David 2. Filipe Moniz 3. Américo Ramos 4. Diallo Santos 5. Carlos Kabé 6. Carlos Benguela 7. Juan Carlos Vila Nova Ex. Ministro das Finanças e Conselheiro da Ministra do Plano e Das Finanças Director do Planeamento do Ministério do Plano e Finanças Director do Orçamento do Ministério do Plano e das Finanças Director dos Impostos Técnico do Gabinete da Dívida – Direcção do Tesouro Director das Alfandegas Consultor do Debt Relief International Página 43 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Anexo – 2 Tabela 8 – Estrutura Fiscal em Detalhe Real Real Real Real Real Real Real Real PREVISÃO 1993 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2006 2007 CAPITULO 1: IMPOSTOS DIRECTOS 13,50 25,52 44,93 31,45 30,49 29,72 32,79 29,03 27,72 SOBRE O RENDIMENTO: 10,50 24,40 44,02 30,28 29,73 28,68 31,60 28,20 26,98 Contribuição Predial Urbana. 0,32 0,27 0,07 0,16 0,10 0,25 0,28 0,28 0,36 Imposto de Rendimento… 4,89 14,06 23,76 17,03 13,01 13,40 13,63 10,91 8,85 Imposto sobre salário. 5,28 10,07 20,20 13,09 16,62 15,03 17,68 17,01 17,76 OUTROS 3,00 1,12 0,91 1,17 0,76 1,04 1,19 0,83 0,74 Contribuição industrial fixa.. 2,31 0,56 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 Imposto de compensação. 0,01 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 Imp. sobre as sucessões e doações 0,07 0,03 0,00 0,09 0,01 0,08 0,03 0,07 0,09 Imp. de sisa sobre a transmissão imobiliá- 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 rios por titulo oneroso.. 0,27 0,25 0,37 0,74 0,45 0,45 0,84 0,43 0,27 Imposto especial…. 0,19 0,20 0,53 0,17 0,13 0,35 0,22 0,22 0,25 Imposto sobre Juros..... 0,04 0,03 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,01 0,01 Imp. sobre veículos automóveis… 0,11 0,05 0,01 0,16 0,17 0,16 0,09 0,09 0,12 CAPITULO 2: IMPOSTOS INDIRECTOS 86,50 74,48 55,07 68,55 69,51 70,28 67,21 70,97 72,28 ADUANEIROS: 36,71 36,65 27,87 33,95 24,82 27,88 23,09 22,60 21,45 Direitos de exportação. 2,62 10,45 9,21 3,38 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 Imposto sobrevalorizações. 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 Imp. 6% sobre valores fiscais dos produtos 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 agrícolas e florestais exportados.... 0,02 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 Contribuição predial rústica..... 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 24,12 15,36 10,74 21,43 24,80 27,87 23,08 22,35 21,12 Contribuição industrial variável..... 9,95 10,84 7,91 9,13 0,03 0,00 0,00 0,24 0,33 Imposto de tonelagem….. 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,01 0,00 0,00 49,80 37,83 27,20 34,61 44,69 42,41 44,12 48,37 50,83 Imposto de selo................ 5,48 6,14 5,79 5,05 4,93 5,51 4,76 4,24 4,10 Selo de Assistência............... 0,60 0,52 0,71 0,89 1,16 1,33 1,45 1,91 1,73 Imposto de consumo: 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 a) Sobre a importação............ 29,45 26,58 20,55 28,65 36,21 28,69 32,37 30,42 31,95 b) Sobre a produção local........ 14,23 4,57 0,13 0,00 2,32 6,82 5,49 11,76 13,01 Imposto de Justiça................. 0,00 0,00 0,00 0,00 0,07 0,06 0,06 0,05 0,04 Imposto de farolagem..................... 0,03 0,01 0,01 0,01 0,02 0,01 0,00 0,01 0,01 Outros............................................... 0,02 0,01 0,01 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 DESIGNACAO DAS RECEITAS Direitos de importação......... OUTROS Página 44 de 45 Sustentabilidade das Finanças públicas - Parte I Anexo – 3 Tabela 9 – Evolução da Cobrança de Taxas DESIGNAÇÃO DAS RECEITAS Real Real Real Real Real Real PREVISÃO 1993 1996 1998 2001 2004 2006 2007 CAPITULO 3 - TAXAS, MULTAS E OUTRAS PENALIDADES 10,67 17,20 12,43 3,23 5,77 5,58 5,59 TAXAS: 10,47 16,72 12,04 2,89 5,60 5,36 5,38 Armazenagem e outras receitas. 0,01 0,00 0,00 - - - - Rec. cobradas ao abrigo código Estrada. 0,03 0,01 0,01 - - - - - - - - - - - 0,04 0,02 0,00 0,11 0,27 0,20 0,20 - - - - - - - 1,08 0,92 1,79 - - - - - - - - - - - Receitas do serviço de saúde. Rec. cobradas pela Direc. Transp. e Portos.. Rec. do ensino extraordinário (propinas). Receitas da Direcção de Aviação Civil. Taxa sobre o consumo da gasolina. Taxa aferição de pesos, medidas e balanças... 0,01 0,00 0,00 - - - - Taxa destinadas a renovação e apetracha- - - - - - - - mento de infraestruturas aeronáuticas. - - - 0,00 - - - Taxa de tráfego. 0,01 0,00 0,01 0,00 - 0,00 0,00 Licenças diversas. 0,05 0,10 0,07 0,25 0,27 0,17 0,19 Taxa militar 0,01 0,00 0,00 0,00 0,01 0,00 0,00 Taxa sobre direitos de pesca. 9,18 15,54 10,13 2,46 3,70 3,15 3,06 Rec. Cobradas nos termos do regulamento de - - - - - - - armas, munições e substancias explosivas - 0,02 0,00 - - - - 0,05 0,11 0,03 0,07 0,01 0,08 0,08 - 0,00 - - 1,35 1,76 1,85 0,20 0,49 0,38 0,34 0,17 0,22 0,21 - 0,10 0,16 0,21 0,06 0,03 0,03 Juros mora por dívidas a Fazenda Nacional. 0,05 0,06 0,14 0,05 0,02 0,07 0,08 3 por cento de dividas ao Estado 0,01 0,02 0,00 0,00 0,01 0,03 0,03 Multas diversas 0,14 0,31 0,08 0,07 0,07 0,09 0,06 Taxas diversas Taxa sobre exploração MULTAS E OUTRAS PENALIDADES: Juros de Compensatórios Página 45 de 45