distribuiçãogratuita|vendaproibida
ano3|número2|set-out-nov2013
RodolfoAthayde,Barcelona,1984
RODOLFOATHAYDE
Oartistaplástico,fotógrafo,videomakeremédico,Rodolfo
Athayde,responsávelpelafotografiaqueilustraacapa(e
outraspáginasnestaedição)daSegundaPessoa,nasceu
emJoãoPessoa-PB(1952),e,enquantocursavaseu
doutoradoemAngiologia,emBarcelona,noiníciodosanos
1980,passouaseinteressarporartesplásticas,momento
quecomeçouafrequentaraulascomosartistasPèreCarae
CésarLopezOzornio.
AovoltaraoBrasil,em1984,rendeu-sedefinitivamenteà
atividadeartísticadividindoseutempoentreoateliê,o
consultórioeasaulasnaUniversidadeFederaldaParaíba
(nocursodeMedicina).Umdosprincipaisrepresentantes
nordestinosdaGeração80,participoudosprincipaissalões
deartedopaís,entreosanos1980-90,quandoabocanhou
maisdedezprêmios(nacategoriaPintura),apassouter
obrasemacervosdemuseuscomooMuseudeArtedeBelo
Horizonte,MuseudeArteContemporâneadoParaná,
MuseuNacionaldeBelasArtes(RiodeJaneiro),eMuseude
ArteModernadaBahia.Também,foiconvidadopara
workshops(Berlin-in-SãoPaulo,MAC/SPeFunesc/João
Pessoa)erealizouexposiçõesnoexterior(Staatliche
KunsthalleBerlin,Alemanha,1988;TourduRoiRené,
Marselha,França,1992;Cumplicidades,Tondela,Portugal,
1994;ArteContemporâneadoNordeste,LibertyStreet
Gallery,NovaYork,EUA,1996).
Alémdisso,nospoucosintervalosdesuaatividademédica,
produziuimensosmuraisemcerâmica,porcelanatoe
pinturaparaoHospitalUnimedJoãoPessoa,eparaassedes
daUnimedParaíbaedoConselhoRegionaldeMedicina.
Semdúvida,estassãoobrasdereferêncianoaindahoje
acanhadoacervodeartepúblicadeJoãoPessoa.
Em2001,compatrocíniodaEnergisaParaíba,viaMinistério
daCultura(LeiRouanet),lançouolivro30x40-Artistas
mascaradoscomfotografiasde34artistasplásticos
paraibanosque,inusitado,todosaparecemsobmáscaras.
Em2010,lançouoprojetoArtistasXifóides,umconjunto
devídeosdocumentáriossobreartistasparaibanos,como
patrocíniodoProgramaBancodoNordestedeCultura.
Recentemente,em2012,realizouamostradefotografia,Se
oriente,naEstaçãodasArtes,JoãoPessoa,com25imagens
(174x115cm),capturadasemsuasviagenspelaTurquiae
EmiradosÁrabes.“Eugostodooutro.Dapossibilidadede
olharooutro,tãodistanteetãodiferentedenós,e
encontrarsemelhanças.Éumdiscursoaberto,ondehá
váriasinterpretaçõesdamesmaimagem”,contouRodolfo.
www.rodolfoathayde.com
editorial
Hánaturalmenteumardesurpresaemmuitasdaspessoasque
folheiamarevistaSegundaPessoapelaprimeiravez.“Que
projetográficointeressante.Tãosimples!“,dizemuns.“Que
bomqueagoratemosumveículoparaconhecermelhor
nossosartistas,nossaarte.“,dizemoutros.Mas,aafirmação
maiscomumé:“Quelegal.Esperoquetenhavidalonga...“.
Defato.Talvezsejaisso‒afaltadecontinuidade‒omaior
gargaloquehánapublicaçãodeperiódicos(emtodasasáreas)
nopaís,principalmentesenãoforumarevistaacadêmica,
produzidapelas/nasuniversidades.Maisumavez,graçasao
EditalProculturadeEstímuloàsArtesVisuais2010,daFunarte/
MinistériodaCultura‒quecontemplouaSegundaPessoa
pelospróximosdoisanos‒,poderemoscontinuaracausar
surpresaàstantaspessoas,artistas,professoreseestudantes.
Aideiaéatingiromaiornúmerodeleitores,atrairnovos
colaboradores,discutir/difundirsuaspesquisas,falarda
produçãodenossaartecontemporânea,doNordesteede
todasasregiões.Etambémabrirmosolequeaoutros
segmentosartísticosproporcionandoque,alémdasartes
visuais,possamoscontemplaramoda,odesign,aarquitetura,
oartesanato...
Índice
Nestaedição,falamosde“passado”aoresgatarumaobra,o
painelTropicália,doartistaChicoPereira,realizadoem1969
comoumlampejodepioneirismodoGrafiteedoPop.Edo
“presente“hádoisartigosquecomentamarecenteprodução
deartecontemporâneanordestina:aMostraNordestede
ArtesVisuaiseaArteVisualPeriféricanaParaíba,porRaul
CórdulaeValquíriaFarias.
MostraNordestedeArtesVisuais
porRaulCórdula 4
AfotografiaautoralnaParaíbacontemporânea
porPauloRossi 10
Fotografiademodaecidadecomoexpressõesde
cultura,porAgdaAquino 14
ArtecontemporâneanaParaíba:visualidades
periféricas,porValquíriaFarias
19
OpainelPopTropicalistadeChicoPereira
porDyógenesChaves21
Alinguagemeatransgressãodaveste
porAlmandrade28
Doisoutrostextos‒deAgdaAquinoeAlmandrade‒abordam
ohibridismoentrefotografia-modaeartesvisuais-moda,com
direitotambémarefletirsobreafotografiaautoralnaParaíba
(casosemelhanteaoutrosEstadosdopaís?),emumtextodo
paulistaibano,ofotógrafoeprofessorPauloRossi.
Boaleituraevisitenossosite:www.segundapessoa.com.br.
Este projeto foi contemplado com o Prêmio Procultura de Estímulo àsArtes Visuais 2010
3
MostraNordestede
ArtesVisuais
RaulCórdula
[email protected]
tecnologiaseencontravammaisoumenosnaatualidade,
masaarteestavanaIdadeMédia.Paraoseminárioforam
convidadosAntonioDiasePauloSérgioDuarte,vindosda
Europa,eaequipelocalformadaporFranciscoPereirada
SilvaJúnior,SilvinoEspínola,BrenoMattos,epormim.O
resultadodosemináriofoiacriaçãodoNACquecoordenei
até1984,enesteperíodoproduzimosemJoãoPessoa
exposiçõesdeartistascomoTunga,PauloRobertoLeal,
CildoMeireles,AnnaMariaMaiolino,MiguelRioBranco,
GustavoMoura,RubensGerchman,VeraChavesBarcellos,
entreoutros.
Tocadopelaexcelênciadaproduçãodeartesvisuaisna
Paraíba,queespelhaaartecontemporâneadoNordeste,o
compositorecantorChicoCésar,atualmenteSecretáriode
CulturadoEstadodaParaíba,propôsàRepresentaçãodo
MinCedaFunarteparaoNordeste,arealizaçãodeum
PanoramadasArtesVisuaisdoNordeste.NaldinhoFreire
atualrepresentantedaFunarteNEaceitoudecaraodesafio,
eparafazeracuradoriafoiconvidadooimportanteartista
paraibanoJoséRufino.Opanoramaserealizouemformade
exposiçãoquepretendeserumasíntesedaarteedo
pensamentodacontemporaneidadeartísticatantono
sentidocoetâneo,istoé,daproduçãodeartistasque
trabalhamnomesmotempo,quantonosentidode
atualidadequeasvanguardaseasnovasexperiênciascom
alinguagemabrangendooespaçoeamaterialidadeda
arte,assumiramnasúltimascincodécadas.
ÉimportanteinformarquedesdeoImpérioaParaíbaéterra
deartistas,PedroAméricoeseuirmãoAuréliode
Figueiredoafirmamisto,masnamodernidadetambém
reconhecemosobrilhodaobradopintor,ilustradore
cenógrafoTomásSantaRosa‒orevolucionáriocenógrafo
daprimeiraversãodeVestidodeNoiva,deNélson
Rodrigues.
Estaexposiçãoitinerante,queestreounoMuseuMuriloLa
Greca,emRecife,entre11dejunhoe04deagostode2013,
pretendepercorrertodasascapitaisnordestinas.
NoRecife,foicriadoem1997oInstitutodeArte
ContemporâneadaUniversidadeFederaldePernambuco‒
IAC.Anteciparam-seàUFPEoMuseudeArteAloísio
Magalhães‒MAMAMquandodaatuaçãodeseudiretor,o
curadorcariocaMarcosLontra,edoscoletivosdeartistas
quenasceramnadécadade1980,comoaQuartaZonade
Arte,oCarasparanabucoeoGrupoCamelo,paracitar
apenasospioneiros.
#
Costuma-se“datar”aartecontemporâneaapartirdaPop
Art,quandooscânonesestéticosdosistemadaarte
inauguradonoRenascimentoexauriram-se,apartaram-se
desuascapacidadesinventivas.Aartecontemporânea,
portanto,segundoosteóricosmaispuros,seriaaatividade
artísticacarregadadotesourolinguísticoadquiridonos
cincoséculosposterioresaoRenascimento,períodoque
entrouemsuaretafinalcomarevoluçãoindustrial,e
culminounapós-modernidadecomaPopArt.Coma
globalizaçãoaartecontemporâneaviveemplenitude‒
hojesedizqueagrandeartepéaarteinternacional‒
quandoadquiresuporteteórico,críticoesociológicopara
atingiragrandemassa.
ONordestebrasileironãofoiexceção,aarte
contemporâneaadaptou-seaoambienteartísticoregional
atravésdaatuaçãodeartistaseinstituiçõescomoemtodos
oslugares.Aprimeiraorganizaçãoacaucionaroadventoda
artecontemporâneanoNordestefoioNúcleodeArte
ContemporâneadaUniversidadeFederaldaParaíba‒NAC,
fundadoem1978apartirdoresultadodeumseminário
organizadopelaUFPBemCampinaGrandeapedidodo
ReitorLynaldoCavalcantiqueexpressouaideiadeque,a
Universidadeparaibana,oensinoeapesquisadeciênciae
Nosanosde1990aFundaçãoJoaquimNabuco,pormeio
desuaSuperintendênciadeCulturaadministradapor
SilvanaMeirelles,dirigiuaatividadedasartesdesenvolvidas
nasvisuaisparaaartecontemporânea,eestaatitudefoi
responsávelpelosurgimentodecuradorescomoMoacir
dosAnjoseCristianaTejo,relacionadoscomaFundajeo
MAMAM,erealizandoumasériedesemináriossobreo
temaquecontoucomaassistênciadosartistas
contemporâneosconsagradoshojenoRecife.
4
Voltandoàdécadade1980,otrabalhodesenvolvidono
NAC/UFPBteveecoemNatalRN,comarealizaçãodo
seminário“SemióticaeArte”realizadanaUFRNondea
equipedoNAC/UFPBparticipouativamenteaoladode
convidadoscomoDécioPignatari,MirianSchneiderman,
MariaLúciaSantaellaBraga,oarquitetopaulistaAriRochae
osartistasdeNatalligadosaoPoemaProcesso,Jota
Medeiros,FalvesSilva,AnchietaFernandeseMoacirCirne.
ObradeUlissesLociks,2008
SuperintendênciadeCulturadaFundaçãoJoaquim
Nabuco,chegandoacoordenarosetordasartesvisuais.É
importantelembrarqueMaceióéumacidadeque,a
exemplodeJoãoPessoa,tornou-seumpolodearte
contemporânea.DesdeamodernidadequePierreChalita
fomentouapartirdosanosde1960,quehojesuaviúva,a
pintoraecríticadearteSolangeChalitamantemcomo
acervoememorial,passandoosurgimentodeumageração
pós-modernadaqualquerocitarMariaAméliaVieira,
DaltonCostaeRogérioGomes,enaatualidadeartistas
comoDelsonUchôaeUlissesLociks,queparticipada
Mostra.
Alémdisso,noNordeste,oNACrealizouexposiçõesdas
coleçõesdeartepostaldeDanielSantiagoePauloBruscky.
Évisívelodesempenhodosartistasdosestadosonde
existiuaaçãopúblicanosetordasartesvisuais,mas
observamosqueessasinstituições‒NAC,MAMAM,MAMBahia,DragãodoMaretc.‒nasceram,edealgumaforma
sãocontinuidadedeatuaçõesdegruposdeartistasque
independentementeprovocaramaatençãodospoderes
públicose,sendoatendidos,protagonizaramaevolução
quesepercebehoje.
Comestasíntesepode-seterumaideiadapequenahistória
daartecontemporâneanoNordestebrasileiroatravésdos
artistasselecionadospelocuradorJoséRufino,elemesmo
testemunhodoqueaconteceunaParaíbadadécadade80.
QuandoJeanineatuounaFundaçãoJoaquimNabucoela
assistiuàimplantaçãodeumsetorcuratorialdeexcelência,
comaparticipaçãodoscuradoresMoacirdosAnjose
CristianaTejo.MasaposiçãodoRecifecomopolodeartes
visuaisvemdemuitoantes,vemdeCíceroDias,Vicentedo
RêgoMonteiro,LulaCardosoAyres,FranciscoBrennande
JoãoCâmara.VicenteparticipoudaSemanadeArte
Modernade1922;Cíceroéautordeumaobraseminalda
modernidadebrasileira,odesenho“EuVioMundo,Ele
começavanoRecife”;Lulapronunciouumaartedebase
regionalista,quandoderestoVicente,CíceroeBrennando
fizerameventualmente,masemLulaistoextrapolaamera
funçãoelevaaexcelênciaatendênciapernambucanaàarte
domural;Brennand,pintor,escultoremuralistadegrande
portenãosónadimensãodaobramasprincipalmentena
suauniversalidade,marcaumaposiçãosingularíssimana
artebrasileira;JoãoCâmara,porsuavez,nasdécadasde
1970/80colocaemdiscussãonossarealidadepolítica
atravésdeobrascomo“CenasdaVidaBrasileira”;
finalmentetemosaobradeTerezaCostaRêgoquenas
últimastrêsdécadastornou-setambémmuralista,
passandoacomentardeformapoéticanossahistória
política.
DevidoàescassezdotempoeàlimitaçãodoespaçoRufino
precisousereconômico,quaseespartano,tendode
selecionarapenasdoisartistasdecadaEstado.Emsituação
idealumatarefacomoestaseriamaisabrangenteemsua
constituição,poisoacontecimentodaartecontemporânea
noNordesteéfatoconsumado.
Adotandoumpartidocuratorialdecoerênciaesincronia
entreastendênciasregionais‒nãoregionalistas‒Rufino
traçouestapequena,porémimportante,MostraNordeste
deArtesVisuais.
#
TomemoscomopontodepartidaainstalaçãodeJeanine
Toledo,umasequênciadefotografiasdediversasimagense
tambémdeumamãoquegesticula‒umafoto,umgesto‒
deondesaiumfiodesedavermelhaqueinterliga
continuamenteasmãosàsimagens,levandooleitora
pensaromovimentofragmentadopercorrendoocaminho
queofiotraça.Temosaíumanarrativaatravésdeimagens
quenoslevaameditarsobreacomunicaçãonoseuregistro
primário,otoquefísicodamão,masnoslevatambémao
labirintoeofiodeAriadnequealémdesalvaroheróio
reintegraaoconvíviohumano.
Jeanineestánaexposiçãocomoartistaalagoanaqueé,mas
suacarreiraseconsolidounasuaconvivênciacomos
artistasdoRecifenoperíodoemqueelatrabalhouna
5
Estabagagemnãopodeserignorada.Porexemplo,umdos
pontosmáximosdestamostraéainstalação“Diáriode
Bandeja1/4”dapernambucanaJulianaNotariquetema
dimensãoespacialmuralistaeadimensãoestética
grandiosa.Ainstalaçãoconstitui-sedeumaglomeradode
bandejasdediversasdimensões,pintadasdenegrocom
textosescritoscomlápisbranco,colocadasnaparedeao
gostodasporcelanasusadasnoslarestradicionais.A
narrativaimagísticaalia-seaotexto,eocontextomuda.É
umaobraquejáfoiapresentadaanteriormentenoRecife
naGaleriaAmparo60,eemSãoPaulonoSESCPompeia.O
amplotrabalhodestanotávelartistafoirecentemente
editadonolivro“DezDedos‒JulianaNotari”,organizado
porelaepelacuradorapernambucanaClarissaDiniz
(atualmenteDiretoradeConteúdodoMuseudeArtedoRio
deJaneiro‒MAR).Olivroéoregistrodeumadécadade
trabalhoondeClarissaenfocaoconteúdointimistade
quemseentreganaobraàautoanálise.EscreveClarissa:“Ao
ofertarsuasintimidadesembandejasdeluto,Juliananos
impulsionaadelaservirmo-nose,então,
antropofagicamente,passamosapossuirsuasmazelas.
Dessaforma,suasérieDiáriodeBandejaapresenta-se‒
apesardefacilmenteadaptávelaosenquadramentos
autobiográficoserelacionaisdaproduçãodearte
contemporânea‒comomaisumatosutilmenteperverso
desuaobra.“
ObradeIrisHelena,2011
Seguindoomotedaacumulaçãoedanarrativa,vemosa
surpreendenteobradeIrisHelena,jovemartistadeJoão
Pessoa.Trata-sedeumafotografiadeumacenaderuade
suacidadefragmentadaem588quadrados,eremontados
comonumquebra-cabeças.Umtrabalhoquedemonstrao
bomusodosmeioseletrônicos,masmesmoassimdedifícil
elaboração,missãoqueelaenfrentaexemplarmente.O
resultadoéumasurpreendenteimagem,umafotografia
ampliadaacimadosseuslimitesondearetícularesultante
dissopareceseradeformaçãodospixels,mas
imediatamentesepercebeariquezaimagéticaqueos
detalhesnosapresentam.Dominandoalinguagemvirtual
elaafirmaoinstrumentodigitalcomraracompetência.
Aindasobreacúmulostemosainstalaçãodaartistabaiana
IedaOliveira.Ointeressedestaobraestánoajuntamentode
ummesmoobjetodeusocomum,cintosfemininos,
montadosumaoladodooutrocomoquenumamobíliade
lojatomandotodooespaçodaparede.Fez-mepensarna
obradeJoséPatrícioqueacumula,porémemcomposições
harmônicas,milharesdeobjetoscomopedradedominós,
dadosoubotõesemquadroseinstalaçõesdegrande
interesse,masvem-meácabeça,maispelacumulaçãoe
menospelosignificado,aobradeJacLeirner.
ObradeMarceloGhandi,2011
IedatambémrefleteahistóriarecentedeSalvadorquetem
comoreferênciamodernaaobradeMárioCravoFilhoe
Neto,deRubemValentimedeSanteScaldaferri,por
exemplo.MasosartistasdeSalvadormergulharamna
contemporaneidadenosanosde1990,comacriaçãodo
SalãoMAM-BahiadeArtesPlásticasedaBienaldo
Recôncavoquesetornaraminstrumentosdeatualização
estéticaparaosartistaslocais.ConsequênciadistopassouseasevernasobrasdeMarepe,CaetanoDias,Paulo
Pereira,VauluizoBezerra,entretantos.
ObradeBrunoVilela,2013
NamesmavertenteestáaobradeUlissesLociks,também
deAlagoas:umamalhadetraçospretosdegrande
dimensãotraçadaabicodepincelemsuportecoladona
parede.Alémdoemaranhadográficodostraços,que
seguemdireçõesdiferentes,oconjuntodasfolhascoladas
formatambémumdesenhoexternoqueseconfigura
independentementedoconteúdográfico.AobradeUlisses
nosencaminhaparaoutrocaminhoseguidoaqui:a
presença,eporquenãodizerapermanência,dodesenho.
6
FotografiadeSofiaBauchwitz,2013
Esmeraldoeodesenhistaquemudouodesenhobrasileiro,
AldemirMartins.HojeaobradeJoséLeonilsoneEduardo
Frotaémostradanacionalmenteemgrandeseventosda
artecontemporânea.
Écurioso,poisodesenho,assimcomoapintura,sãoasmais
básicas,paranãodizertradicionais,daspráticasartísticas
visuais,porémpermanecemnaobradeartistasda
atualidade,oquenosfazpensarqueaarte,comoévista
pelosteóricosquepropõemorompimentodaarte
contemporâneacomaartetradicionalmenterealizada,
especialmentenoqueserefereaoconceitode
desmaterialização,decertaformapermanece.
OimportanteartistamaranhenseThiagoMartinsdeMelo,
quefezpartedaexposiçãoZonaTórridaapresentadano
SantanderCulturaldoRecifecomcuradoriadePaulo
HerkenhoffeClarissaDiniz.Otextocuratorialocolocaao
ladodegrandespintoresdageraçãode1960.Apinturade
MartinsdeMelo,comoaobradeAntonioDiaseTunga,é
campodafantasmática.Incorporaacarnalidadecomoo
corposexualizadodopintortransferidoàpintura.Comesta
colocaçãodedoisimportantescuradoreschega-seapensar
comoemSãoLuiz,cidadetradicionalforadoscircuitosda
artebrasileira,compoucacitaçãonanossapequenahistória
daarte,comosurgeumpintordestaqualidade!
AlémdagrafitagemdeUlisses,quatrooutrosartistas
mostramdesenhos,oudesenhosrelacionadosàpintura:
YuriFirmezaeWalériaAmérico,doCeará,MarceloGandhi,
doRioGrandedoNorteeBrunoVilela,doRecife.Diferente
deUlissesedeBrunoVilela,artistamuitoatuantenoRecife
queapresentadoisgrandesretratospintadossobrepapel,
umcomtintaverdeeoutromagenta,osoutrosapresentam
pequenosdesenhos,mesmoque,comoéocasodeGandhi,
algunsdesenhosestejamaglomeradosemtelasdegrande
formato.AobradeYuriFirmezaéumasequênciamontada
emmoldurasdiferentesondesevêumacasinhaquese
derretededesenhoemdesenhoformandoumanarrativa,
denovo,quenoslevaaoscomicsqueparecemserumadas
fontesdodesenhistaatual,aoladodografitederua.
Doisartistasapresentamobrasdefotografia:SofiaPorto
Bauchwitz,deNatal,eChristusNóbrega,deJoãoPessoa.
Sofiafotografourelaçõeseróticasatravésdedetalhesque
somentesugeremoato.JáChristustemalgomaisformal
quebuscaainvenção,emboracomalgumatraso:retratos
montadosemcartãoeemolduradoscomvidro,ondeas
fotografiassãovazadasporrecortesdecírculoseoutras
formasgeométricas,esesuperpõemaoutrasque
aparecematravésdovazado.Umtruqueestéticoque
trabalhaanoçãodeespaço,profundidadeebordejao
objeto.
EmNatal,emboraomeioartísticosejamenordoque,por
exemplo,JoãoPessoa,destaca-seumgrupoquenosanos
de1980fizeramumapartedavanguardapossível,osjá
citadosJotaMedeiros,DailorVarela,FalvesSilva,Anchieta
FernandeseMoacirCirne.MarceloGandhiaglomerounuma
grandetelaváriosdesenhosqueseassemelhamaos
pequenosdesenhosfeitosatraçossoltosdenanquimque
dãosequêncianaparede.Natelatambémseencontram
fragmentosdegrafites,desuaautoriaounão,espalhados
aleatoriamente,semnenhumapreocupaçãocomposicional.
OscearensesYuriFirmezaeWalériaAméricotrazemmini
desenhos.Yuricontaahistóriadeumacasinhavermelha
quesederretedequadroemquadroaojeitodasnarrativas
dasHQ.Walériamostraumvídeoedesenhospequeninos.
NaMostra,estedesvioparaopequeno,omínimo‒não
minimalart‒nãoselimitaaodesenho,obaianoGaio
Matostrazumconjuntodetrêsfotografiasdemaquetesdas
mínimascasinhasdosconjuntosresidenciaisdapopulação
pobrepousadasnapalmadeumamão.Fortalezaéuma
cidadepioneiradamodernidadenaartenordestina,nos
anosde1950láestavamopintorabstracionistainformal
AntonioBandeira,oabstracionistageométricoSérvulo
TemosdoistrabalhosdoPiauí:umainstalaçãodeautoriade
umgrupoteatralcompostoporJacobAlves,BebelFrotae
CésarCosta,easimpressõesdeEdilsonPacheco.Ogrupo
deteatroutilizaasartesvisuaisnasperformancesemcena.
Éútilrecordarqueosartistasnordestinosintrojetaram
tardiamenteainstalaçãocomocategoriadearte,ea
performance,hojerelacionadacomohappeningdosanos
60,muitasvezeséconfundidacomaartecênica.A
instalaçãoapresentadaécompostaporummanequim
vestidocomtrajesdodia-a-dia,comacabeçacobertae
umacâmeraquefilmaquemoobservaacena.
7
JáobradeEdilsonPachecoéumconjuntodefotografiasde
fezeshumanastrabalhadasemumprogramatipo
photoshopeimpressasempapéisdiferentes.Nãohácomo
nãomereferiraotrabalhodePieroManzonirealizadohá
meioséculo(1961)intituladoMerdedʼartista(Merdade
Pelaintegraçãodoartistanordestino¹
DepoimentodeRaulCórdulaaSérgiodeCastroPinto
JornalAUnião,domingo,06desetembrode1981,JoãoPessoa-PB
Maisde200artistasplásticosnordestinos‒daParaíba,
Pernambuco,Ceará,AlagoaseBahia‒estiveramreunidos
emSalvador,no1ºEncontroNordestinodeArtistas
Plásticos,promovidopelaFundaçãoCulturaldoEstadoda
BahiaatravésdoMuseudeArteModernadaBahia(Museu
doUnhão).Oencontrotevetambémoapoiodas
DelegaciasRegionaisdoMECedaFunarte.Aideiado
EncontrofoidoartistaChicoLiberato,DiretordoMuseudo
Unhão,quandodesuavisitaàFunarteparaarticulara
recepçãodasobrasdosartistasnordestinosque
participarãodoIVSalãoNacionaldeArtesPlásticas.Esteano
aseleçãodesteSalãoestásendofeita,alémdenoRiode
Janeiro,emSalvador,Brasília,SãoLuíseFlorianópolis.Os
artistas,reunidos,elegeramoartistaplásticobaiano,
residenteemBrasília,RubemValentim,presidentedehonra
doencontro;RaulCórdula,artistaparaibanoCoordenador
doNAC,vice-presidente;FernandoGuerra,daAssociação
deArtistasPlásticosdePernambuco,secretário,eRomélio
Aquino,professordearteepresidentedaADUF/BA,relator.
Osgruposdetrabalhosforamformadossobretrêstemas:A
questãodacirculaçãodasartesplásticas,daorganizaçãodo
artistaplásticoedoensinodeartenoNordeste.Estestemas
foramdiscutidosdurantedoisdiasdetrabalhoe,naúltima
reuniãoplenária,foramlidososdocumentosfinaisdecada
grupoe,apósasemendaseaaprovação,seguiram-seas
moçõeseoencerramentocomumdiscursodeRubem
Valentim.
artista),ondeeleembalouseusprópriosexcrementosem
90latasnumeradaseetiquetadas.Todasériefoiadquirida
porcolecionadoresdaépoca,poissetratavade
manifestaçãodavanguardaitaliana.
DeAracajutemosapenasaparticipaçãodeEliasSantoscom
umapequenainstalaçãocompostadeobjetoscomocaixas
compostasnochãoondeseencontramcruzes
judiciosamentecompostas.Aracajuéumacidadeonde
váriosartistassereúnemsobaliderançadeAntonioCruze
aégidedaONGSociedadeSemear,mesmoquevigorea
tradiçãodapinturadeJennerAugustoqueestevealinhado
aosartistasqueorbitavamJorgeAmado.
Ébomlembrar,emboraistonãorepresenteumnúcleode
influênciaparaosnovosartistas,queArturBispodoRosário
ésergipano.Asexperiênciasrecentesdaarte
contemporâneasergipananosleva,alémdeEliasSantos,a
jovenseatuantesartistascomoAlanAdi,AnaCarolina,
BenéSantana,FábioSampaio,JamsonMadureira,João
ValdênioeMarcosVieira,todoselesalinhadoscoma
linguagemdeagora.
QualaimportânciadestePrimeiroEncontrodeArtistas
PlásticosNordestinosparaoNordesteeaParaíba?
Antesquerodizerqueestepareceserrealmenteoprimeiro
encontrodeartistasplásticosdoNordeste.Aocasiãoda
montagemdaexposiçãodosartistasconcorrentesaoIV
SalãoNacionaldeArtesPlásticasnãopoderiasermelhor
porqueistopropiciouumamostrasignificativadanossa
produçãorecentemontadanoMuseudeArteModernada
Bahia,localdoEncontroparaojúrideseleçãododeste
Salão.NumgestointeligentedeFranciscoLiberato,atual
DiretordoMAM-Bahia,amostrafoientregueaopúblicono
diadaaberturadoEncontro.Estaatitudefezcomqueo
públicobaianotivessecontatocomaproduçãonordestina
atravésdeumamostradealtonível,eosartistaspresentes
pudessemterumavisãopanorâmicadenossaexpressão
atualqueserviucomosubsídioparaosdebates
desenvolvidoslá.Outrofatoimportantefoiapresençade
maisdeduzentosartistasdeváriosEstadosedetendências
diversas.AausênciadeMaranhãoedoPiauíjustifica-sepelo
fatodehaveroutramovimentaçãoemSãoLuiz,outro
núcleoderecepçãodasobrasparaseleçãodesteSalão
Nacional(aseleçãoocorreesteanonoRio,emBrasília,
Salvador,FlorianópoliseSãoLuiz).Importantíssimafoia
presençadoartistaplásticobaianoRubemValentim,que
resideatualmenteemBrasília,equeéumadasvozesmais
atuantesnaformaçãodeumaartebrasileiracoerentecom
nossasraízesculturais.
Eisoelencodeartistasvisuaisdestepanorama.Alémdos
excelentesdestaquesaquicomentados,elefornecea
possibilidadedeintercâmbioentreosartistaseseus
públicosemtodasascapitaisdoNordeste.Trata-sedeum
trabalhoquepodecrescermuitocomopassardotempo,
anseiodeartistaseativistasdacausadasartesvisuaiscomo
fatordeintegraçãodacultura“contemporânea”no
Nordeste.
RaulCórdulaéartistavisualecríticodearte(ABCA/AICA).VicepresidenteparaoNordestedaAssociaçãoBrasileiradeCríticosde
Arte-ABCA.Criadoredirigentedeinstituiçõesculturais:NAC/UFPB
(JoãoPessoa);MuseudeArteAssisChateaubriand-MAAC(Campina
Grande-PB);CasadaCultura(Recife);FundaçãoEspaçoCulturalda
Paraíba-Funesc(JoãoPessoa);OficinaGuaianasesdeGravura
(Olinda).FoirepresentantedoBrasilnaConferênciaMundialde
Artesanato,México.RepresentanoBrasilaAssociationCulturelleLe
Hors-Là,deMarselha(França).PublicouoslivrosAnos60(Funarte,
UFPB),MemóriasdoOlhar(ediçõesLinhaDʼÁgua),Fragmentos
(ediçõesFunesc)eUtopiadoOlhar(Funcultura,Fundarpe,
GovernodePernambuco).
8
éprópriadosartistas,entãoimaginemosoNordestecomo
suasprofundasdiferençassocio-econômicaseetnográficas,
suaproduçãoartísticadiversificada,tudoissoparase
manifestareinformardentrodestecircuitodesejadopelos
artistas.
Eoresultadodetudoisso?
Primeiramenteostemasdiscutidosnosgruposdetrabalhos
‒acirculaçãodasartesvisuaisnoNordeste,aorganização
dosartistasplásticoseoensinodeartenaregião‒foram
esclarecedoraspoisestestemasnoslevaramadiscutiro
relacionamentoentreaproduçãoartísticaeasinstituições
culturais.Ora,oSalãoNacionaléumainstituiçãocultural
quemerecetodorespeito,masesterespeitoestánarelação
diretaaorespeitoqueainstituiçãotempeloartista,
obviamente.Convivemoscomaincômodarealidadeda
hegemoniadainformaçãogeradanoeixoRio-SãoPaulo.
Masoquenãopodedeixardeserlevadoemcontaéa
importânciadoNordestecomoregiãogeradora,em
quantidadeequalidade,devaloresfundamentaisparaa
formaçãodenossacultura.Alémdomaisjáépatentea
capacidadequetemosdeadministrarnossosbensculturais
compolíticasprópriasquenãosomentetendema
preservaroolhartradicionalmastambémapropornovas
visualidades.
Éimportantenotarque,apesardeadministrações
exógenas,nossaculturaresiste.Entãoeucreioqueamelhor
propostageradanesteencontrofoiacriaçãodeumCircuito
NordestinodeArtesPlásticasquejáestásendoprojetadoe
pretendeatingiroartista,asinstituiçõespúblicaseprivadas
etambémosespaçosalternativoscomoasruas,osmuros,
oslocaisnãotradicionalmenteocupadospelaarte.Fiquei
muitohonrado,mastambémmuitopreocupado,quando
fuieleitopeloplenárionaúltimaassembleiageraldo
encontro,paracoordenarestecircuito.Tenhodisposição
paraisso,masnadapodereifazersemoapoiodosartistase
dasinstituições.ComeçoaprojetaroCircuitotomando
comobaseasnovasvanguardascomoaartecorreioea
grafitagemdosmuros,porexemplo.Éprecisomostrara
nossaarteemnossaterra,istonãoéfácilporquea
produçãodequalquerexposiçãoécara.Alémdisso,não
temoscuradoresdearteemonitoresdeexposições
suficientesparaempreenderestatarefa.ONAC,por
exemplo,fazumtrabalhodemonitoriacompetente,massó
atingepequenaparceladoalunadode1ºe2ºgrausdeJoão
Pessoa,imagine-seoNordestecomoumtodo,serápreciso
muito,muitomais.Acreditoquesomentecomumtrabalho
deaproximaçãodajuventude,doestudante,comaarte,se
poderáterumaverdadeiramediaçãodaproduçãoculturale
aformaçãodopúblico,coisaque,commuitoesforçoe
competência,levarápelomenosumageração.Masautopia
OquemaisdeimportanteaconteceunoEncontro?
Antesdetudoaconstataçãodequetemoscapacidadede
nosorientar.Asdiscussõesdosnossosproblemas
mostraramqueelessãocomuns,partemdesituações
impostas,equeestamosacostumadosaconvivercomelas,
masjáéhoradenoslibertar.Serviupararefletirsobrea
situaçãodecolonizadospelosuldoPaís,sobreasituação
domercadonemsempresadio,sobreaconvivênciacomas
instituiçõesculturaisquetêmopapeldemediarnossa
produçãocomopovo,masque,emalgunscasos,são
dirigidaspelaideologiadomercadopromovendoprodução
doqueparececomaarteemdetrimentodoqueé
verdadeiramentearte.
Notadoeditor
1Oautorsugeriuincluirestedepoimento,publicadoemjornalda
Paraíba(1981),emseguidaaoseuartigo“parasemostrarque
lutamosporistohámaisdetrintaanos,estaMostraNordestede
ArtesVisuaispodeserumaretomadadestaluta,mesmoque
vivamosnotempodaʻestéticadaindiferençaʼ“,afirmaRaul
Córdula.
9
Afotografiaautoralna
Paraíba
contemporânea
PauloRossi
[email protected]
Opresenteartigopropõeumabrevereflexãosobreoatual
momentovividopelafotografiaautoralnaParaíba.Hádois
movimentospossíveisdenotar,umnoâmbitoda
mobilizaçãoedasaçõesdealgunsdeseusagentes,eoutro
noplanodaproduçãodasobrasnoqualseverificamnovas
posturasdosautoresdiantedaspossibilidadesde
experimentaçãodediversasformasestéticas.Arespeitodo
primeiroponto,orecortetemporalédoanode2010em
diante,períodoemqueocorreuumasériedeatividadesem
proldafotografiaautoralnoEstado.Hápoucomaterial
publicadodisponívelparasefazerumaanáliseaprofundada
doperíodoproposto,oquesetemdemaisconsistenteéo
textodeBertrandLira“Fiandootempocomaluz”,
publicadorecentementenoFotografiaParaibanaRevista
(2013).Sobreosegundotipodemovimento,proponho
umareflexãoapartirdaexperiênciadoprojetoNovíssimos:
talentosdafotografiaautoralnaParaíba,coordenadopor
mim.
financiadopeloPrêmioMarcFerrezdeFotografia,da
Funarte;eoprojetoNovíssimos:talentosdafotografia
autoralnaParaíba(2013),deminharesponsabilidade,
patrocinadopeloFIC-FundodeIncentivoàCultura
“AugustodosAnjos”,daSecretariadeCulturadoEstadoda
Paraíba.
Olhandoporesteviés,afotografiaautoralnaParaíba
contemporâneaestá,sim,emmovimento.Ummovimento²
demobilizaçãodosagentesdafotografiaquevem
buscandoseuespaçonasArtesVisuaiscomoobjetivode
fomentarapráticaeopensamentoarespeitodafotografia
comoformadeexpressãopessoal.Poroutrolado,apesar
dosrecentesesforços,asaçõesempreendidascontinuam
concentradasnacapital,etêmreduzidoalcancedepúblico
geralemesmoespecializado.Hápoucoespaçoepouco
estímuloparaosurgimentodenovosfotógrafosque
pensamafotografiacomoexpressãoartística.Opúblico
queapreciaafotografiacomoarteémuitoreduzido.
Noentanto,amovimentaçãoemproldafotografianãoé
umanovidadenaParaíba,umbomexemplodissofoia
experiênciadosTraficantesdeImagem,que,em1994
organizouaISemanaParaibanadeFotografia.Segundo
BertrandLira,esteevento
Fotografiaparaibana:atuante,masdispersa
Àexceçãodealgunscentrosnacionais(exemplodas
cidadesdeSãoPaulo,RiodeJaneiro,Belém,PortoAlegre,
Fortaleza,BrasíliaemaisrecentementeRecife),nasdemais
regiõesdoBrasilafotografiadeautoraindaépouco
apreciadapelopúblicoemgeralepelasinstituiçõeslocais
responsáveispelaproduçãocultural.
Porémestasituaçãovemsendoalteradapaulatinamente
comaspolíticasdefomentoàculturaecomaçõeslocaisde
iniciativadeindivíduos,grupos,instituiçõespúblicase
tambémprivadas.NaParaíba,apartirde2010,afotografia
autoralvemcavandointernamenteseuespaçonasartes
visuaiscomimportantesatividadesdefomentoàpráticae
aopensamentoarespeitodafotografiadeautorproduzida
noestadoparaibano:oprojetoLambe-lambedaAgência
Ensaio;osencontrosPapodeFotógrafoorganizadospela
parceriaAgênciaEnsaioeAssociaçãoParaibanadeArtee
Cultura-APACem2010[criadaeextintanomesmoano];as
duasediçõesdoSetembroFotográfico(2011e2012)
promovidaspelaFundaçãoCulturaldeJoãoPessoaFunjope;osurgimentodaCasadasArtesVisuais-CAV
(2011),umagaleriaeescolavoltadaparaafotografiaque
emumprazodedoisanosorganizouimportantes
exposiçõesfotográficas,etambémpromoveumesasredondas¹arespeitodafotografia;orelevanteprojeto
FotografiaParaibanaRevista(2013),deGustavoMoura,
foiummarconatomadadeconsciênciaenocontatodo
públicolocalcomomundodafotografiabrasileiraedo
próprioestado.Umasementeplantadaequesóviriaa
brotarquaseduasdécadasdepoisnoSetembro
Fotográficode2011e2012(LIRA,apudMOURA,2013,
p.74).
10
Parece,assim,terhavidoumhiatodequaseduasdécadas
entreofrutíferomovimentodosanos90eamovimentação
quesenotaapartirdosquatroúltimosanos.Épossívelque
estevácuoexplique,aomenosemparte,areduzidíssima
expansãodafotografiaautoralproduzidanaParaíbanos
quase20anosquesepassaram,eseuisolamentodentroe
foradoEstado:poucosfotógrafosradicadosnaParaíba
estãoinseridosnocenáriodaartefotográficalocal,regional
enacional.Estesdoisproblemas,porém,tendemaserem
partesuperadossemantidaafrequenciacomqueos
eventosemproldafotografiaautoralvemacontecendo,
especialmenteaquelesquepropiciamespaçosparaa
reflexão(mesa-redonda,palestras,oficinas)edifusãode
obrasfotográficaspormeiodeexposiçõesepublicaçõesde
catálogos.Opontapéinicialparasesuperaroquadrode
Objetogeladeira,daobraAlucinose,emprocessoderessignificação,deLucianaUrtiga.(Fotos:LucaFiorin,2013)
isolamentointernoeexternodafotografiaautoral
paraibanafoidadopelasduasediçõesdoSetembro
Fotográfico:noâmbitolocal,suasatividadespropiciaramo
contatoentreosfotógrafoseosdemaisinteressadosnaarte
fotográfica.Noplanonacional,osdoiseventos
promoveramimportantesmomentosdetrocacom
fotógrafosecuradoresdeoutrasregiõesdopaís.Noplano
regional,atrocacomalgunsfotógrafosdoRioGrandedo
Nortepresentesnoevento,emparticularPabloPinheiro³,
engendrounãoapenasumcontatomaisestreitoentre
fotógrafosparaibanosepotiguares,comotambémfezver
quearealidadedafotografiaautoralemambososEstados
ébastantesimilar.AssimcomonaParaíba,agentesda
fotografiapotiguartambémestãoprocurandodarcontade
suaprópriaprodução4.
formaçãoacadêmicaemcursosnasáreasdecomunicação
social,artesvisuaisearquitetura,etrêssãoformadosem
cursoslivresdefotografia8.Dosseisselecionados,umé
formadoemcursoslivres,eosoutroscincotêmformação
acadêmica.AlessandraSoares,porexemplo,autorado
ensaioDesmedidas,émestrandanoProgramadePósgraduaçãodeArquiteturaeUrbanismodaUFPB,erealiza
dentrodouniversoacadêmicopesquisaseprojetos
fotográficosqueabordamtemasrelativosàscidadese
culturascontemporâneascujofocoéexplorar
imageticamenteaspráticascotidianas.
Éinegávelqueofomentoàpesquisa,ocontatocoma
históriadaarte,osestudosdaimagem,oaprendizado
técnicoeosespaçosdeinterlocuçãoquetaiscursos
promovem,provocameestimulamasnovageraçõesa
produzire,sobretudo,aexperimentardiversas
possibilidadestécnicaseestéticas,aexploraruma
tendênciaespiritual9típicadenossaépoca:nosdiasde
hoje,naeradafotografiadigital,dasnovasmídiasedas
ferramentasdeediçãoetratamentodeimagem,não
apenasampliou-sesignificativamenteoacessoaoaparato
técnicoeàquantidadedeimagensproduzidas,como
tambémampliaram-seaspossibilidadesdeprodução,de
criação,deexibiçãoedeinteraçãoentreartistaeobra,obra
epúblico.Umquadroqueseaproximadomodocomo
RonaldoEntler(2011)defineafotografiacontemporânea:
Experimentandoaliberdadedeexperimentar
Simultaneamenteatodaestamovimentação,outrotipode
movimentovemacontecendonaParaíba:váriasformas
estilísticastemsemanifestado,aindaquetimidamente,no
quadrodafotografiaautoral.Aexperiênciadoprojeto
Novíssimos5meproporcionouumavisãomaisamplada
produçãodafotografiadeautornoestadoparaibano.Dos
123inscritos6noprocessoseletivo,vinteforampréselecionadosparaentrevistaspresenciaisemostrarseusde
portfólios.Destes,apenasseis7foramselecionadospara
participardaexposiçãoNovíssimos:talentosdafotografia
autoralnaParaíbaetersuasobraspublicadasnum
catálogoimpresso.Cabedizerqueonúmerode
selecionadospoderiatersidomaior,noentanto,oslimites
financeirosdoprojetosópermitiamseisfotógrafos.
Tudopodeserfeitoemtermosdetécnicas,de
procedimentos,delinguagem.Apenasumdadoé
irrevogável:aconsciênciadessetempopresente,ede
algumasdesuasconquistas.Nãoémaiscabível
mistificaromeio,desconhecerseusentidocultural,seu
mododefuncionamento.Umafotografiapodevoltara
serdocumental,podeabordararealidadeeamemória,
masdeveestarcientedaintervençãogeradapelo
dispositivo.Entenda-secomodispositivonãoapenaso
aparelho,masoscomportamentoseosrituaisqueele
gera,asdinâmicasdeseumercado,asformasde
diálogocomoutraslinguagens,seusmeiosdedifusão,
suasformasderecepção.Portanto,afotografia
contemporâneanãoéumtipodeimagem,masuma
posturaquesepodeterdiantedequalquerimagem.
[grifomeu]
Emboraconhecedordesuadiversidade,aproduçãolocal
mostrou-semaisdiversadoqueeupoderiaimaginar:uma
produçãosurpreendentequevaidodocumentaleda
clássicafotografiaderua,asériesderetratosensaísticoseà
diversidadedafotografiaexperimental;dofotógrafoquese
expressasobreomundoexterior,aoqueabarcaouniverso
interior;doqueprocurarepresentarooutro,aoqueprocura
representaroeu.
Hádoisaspectosameuverrelevantesqueajudama
compreenderestadiversidade.Oprimeirodizrespeitoao
pesodaformaçãodenovosfotógrafospromovidapor
cursoslivresdefotografiaeespecialmentepeloscursos
universitários.Dosvintepré-selecionados,onzetêm
11
Osegundoaspectoquenosajudaacompreendera
diversidadedafotografiaautoralproduzidanaParaíba,que
extraiodaexperiênciadoprojetoNovíssimos,sebaseia
OsselecionadosparaoNovíssimos‒AdrianoFranco,
AlessandraSoares,DayseEuzébio,EvertonDavid,Igor
SuassunaeLucianaUrtiga‒sãoumapequena,mas
representativamostradapotentediversidadedafotografia
autoralproduzidanaParaíba,queaospoucosabandonao
estadolatentenoqualseencontraparaconfigurarumnovo
panoramanoquadrodasartesvisuaisparaibanae,porque
não,nacional.
nestaconsciênciadotempopresenteenestanovapostura
diantedafotografia.Durantetodootempodepreparação
daexposição‒poucomaisdeummês‒curadore
fotógrafosselecionadosvivenciaramumprocessocriativo
colaborativonoqualseexperimentoua“liberdadede
experimentar”(ENTLER,2011).Aimagememsinãopoderia
representarolimitedaobra,dialogandocomopassadoou
comaeradasnovastecnologias,eraprecisofocarum
conjuntodeelementostécnicos,estéticos,
epistemológicos,conceituaisquederivadeumpotencial
criativoequeportantotranscendeaimagemdandoa
devidaliberdadeparaodesenvolvimentoprocessocriativo.
Aseguirrelatodoiscasosqueexemplificambemesta
experiência.
Porfavor,batanaporta!,deDayseEuzébio,éumbelíssimo
ensaiodecunhodocumentalcujasimagensforamtomadas
em2011nointeriordeocupaçãodeumprédio
abandonadonacidadedeJoãoPessoa.Aautorajápossuía
oensaiopronto,masduranteoprocessopostoemmarcha,
trabalhamossobreumanovaconcepçãodotema,tratando
detranscenderoconjuntodeimagens.Apropostafoipartir
deumadasfotos‒precisamenteaqueapresentaum
retratodoocupantedacasaedadisposiçãodeseusobjetos
‒edelaextrairaconcepçãodosentidodo“porfavor,bata
naporta!”.Ouseja,tratando-seounãodeumaocupação,o
quesevêéumlarprovidodesuaorganizaçãointerna,
comotodoequalquerlar.Estaconcepção,somadaaos
diferentestamanhosdasfotos,dasuadisposiçãonas
paredesdagaleria,daescolhadasmolduras,conformaa
essênciadoensaiodeDayseEuzébio,muitomaisdoque
umconjuntodeimagenssobreumtemaqualquer.
Outrocasobastanteelucidativofoiatransformaçãodo
ensaioAlucinose,deLucianaUrtiga:umconjuntode
fotomontagens‒quearticulamautorretratoseoutros
objetoscomoalua,araizdeumaárvoreetc.‒transformouseemumainstalaçãonaqualfoiincorporadaumageladeira
velha,agoraressignificada.Aolongodoprocessooobjeto
geladeirafoiexperimentadodeváriasformas,suafunçãoe
seusignificadodentrodaobraforampensadose
repensadosmuitasvezes,comocuidadoparaqueoensaio
fotográficonãoficasseemsegundoplano:fotografiase
objetoressignificadotornam-seumnovoobjeto
fotográficocapazdeprovocarumtipodeinteraçãocomo
espectadordiferentedoqueseasfotografiasestivessem
expostasnaparede.
12
PauloRossiéfotógrafohámaisde20anos.Formadoem
SociologiaePolíticapelaEscoladeSociologiaePolíticadeSP,eem
EstudosSociaisnaUniversitéCatholiquedeLyon.Émestreem
SociologiapelaUSPcujadissertaçãodiscutiuavidaeaobrado
fotógrafoAugustSander.FoiprofessornocursodeBacharelado
emFotografiadoSENAC-SPondeministroudisciplinastécnicase
teóricasdentreasquaisSociologia,HistóriadaFotografiana
AméricaLatinaeMovimentosEstéticosdaFotografia.
Notas
1Alémdeatividadesorganizadasporsuaprópriainiciativa,aCAV
realizouatividadesemparceriacomopoderpúblicoecomdois
outrosprojetosfinanciadostambémpelopoderpúblico.Em2012
recebeuemsuasedealgumasatividadesdoSetembroFotográfico
(organizadopelaFunjope):umamesa-redondacomofotógrafo
mineiroPedroDavid,umworkshopdecarátertécnicoministrado
pormim,umapalestracomocoletivopaulistanoCiadeFoto,ea
exposiçãododiretordefotografiaparaibanoJoãoBeltrão.Em
2013,nasuagaleria,foirealizadoolançamentodoFotografia
ParaibanaRevistae,pelomesmoprojeto,aexposição“Alémda
bicicleta”,deAlbertoFerreira.Tambémem2013foipalcoda
exposiçãoNovíssimos:talentosdafotografiaautoralnaParaíba,
edamesa-redonda“AfotografiaautoralnaParaíba
contemporânea”.
2MereceserpontuadooassentodafotografianoConselho
MunicipaldePolíticaCultural(CMPC)deJoãoPessoa,uma
conquistaqueremontaàcriaçãoFórumdaFotografiaParaibana
em2009(http://forumdafotografiaparaibana.blogspot.com.br).
Nestemesmoano,oFórumconseguiuterumaatuaçãoefetivana
mobilizaçãodeseusagentes,culminandocomaparticipaçãode
algunsdelesnaIIConferênciaMunicipaldeCulturadeJoãoPessoa.
De2010emdianteFórumsedesmobilizou,masconseguiuem
2012elegerumconselheiroeumsuplenteparaavaganoCMPC.
Noiníciode2013houveumaretomadadesuasatividades,ainda
quemuitotímidaecomreduzidaparticipação,emconjuntocomo
FórumdeArtesVisuais.
3PabloPinheiroéfotógrafo,membrodoColetivoPotiguaredo
FotoRN-FórumPermanentedeFotografiadoRioGrandedo
Norte.ÉrepresentantedoNordestedoFórumNacionalSetorialde
ArtesVisuais,ediretorregionaldaRededeProdutoresCulturaisda
FotografianoBrasil‒RPCFB.
4Em2009oColetivoPotiguarrealizaaexposiçãoColetivo
Potiguar:fotografiacontemporânea‒ImagensdaEsquinado
Brasil,comcuradoriadofotógrafoRicardoJunqueira,epublicaum
catálogocomaproximadamente70páginas.Foiumprojetode
pesquisaeanálisecríticasobreaproduçãofotográficanoEstadoa
partirdoano2000.Em2012surgeoFOTORN(FórumPermanente
deFotografiadoRioGrandedoNorte),quenoanoseguinte,
patrocinadopeloSebrae-RN,realizounoimportanteFotoRio,na
cidadedoRiodeJaneiro,aexposiçãoAtransição:dotradicional
aocontemporâneo‒produçãofotográficadoRioGrandedo
Norte.Esteprojeto,coordenadopelosfotógrafosPabloPinheiroe
SôniaFigueiredo,ecomcuradoriadeErikvanderWeijde,
apresentouumpanoramadaproduçãofotográficaautoral
potiguaregerouumcatálogoimpresso.
5Novíssimosfoiumprojetodecunhoartísticoeculturalqueteve
porobjetivoselecionareapresentarseisnovostalentosda
fotografiaautoralnaParaíba,epromoverumamesa-redonda,
DasériePorfavor,batanaporta!,deDayseEuzébio,2011
DasérieMemóriasdaloucura:umsonhoquasesurreal,deEvertonDavid,2013
DasérieDesmedidas,deAlessandraSoares,2013
DasérieChuvadourada,deIgorSuassuna,2012-2013
DasérieAlmadarua,deAdrianoFranco,s.d.
13
Fotografiademodae
cidadecomo
expressõesdecultura
AgdaAquino
[email protected]
abertaaopúblico,paradiscutiraproduçãodafotografiaautoralna
Paraíbacontemporânea‒paraestaúltimaatividadeforam
convidadosofotógrafodocumentalGustavoMouraeoartista
multimídiaChicoDantas,queatuanocampodafotografia
experimental.
6Dentreos123inscritos,23eramdointeriordoEstado,cincodos
quaisforampré-selecionadosparaasentrevistaspresenciais,um
deles,EvertonDavid,naturaldacidadedeAraralocalizadano
agresteparaibano,residenteemCampinaGrande,compôso
quadrodosselecionadosfinais.
7Selecionados:AdrianoFranco(ensaioAlmadarua);Alessandra
Soares(ensaioDesmedidas);DayseEuzébio(ensaioPorfavor,bata
naporta!);EvertonDavid(ensaioMemóriasdaloucura:umsonho
quasesurreal);IgorSuassuna(ensaioChuvadourada);Luciana
Urtiga(ensaioAlucinose).
8Desde2009aofertasdecursoslivresdefotografiaemJoão
Pessoatêmsidomaisfrequentes(Setorprivado).Issoindicaquea
demandaporcursosdessanatureza,aindaquelentamente,está
aumentando.Ouseja,pareceestarcrescendoonúmerode
pessoasinteressadasemestudarafotografianateoriaenaprática.
Instituiçõespúblicasqueoferecemalgumtipodeformaçãolivre
emfotografia:CentroCulturalBancodoNordeste‒Sousa(cursos
temporários);CentroEstadualdeArte-Cenated.Instituições
privadasqueoferecemalgumtipodeformaçãolivreemfotografia:
CasadasArtesVisuais(oferececursosdeformaçãocontinuadaem
fotografia);ZarinhaCentrodeCultura;CursodeFotografiaCácio
Murilo;CursodeFotografiaRizemberg;RicardoPeixoto/Agência
EnsaioBrasil.
9FranzRoh(1890-1965),artistaehistoriadordaartealemão,
propôsque“Trêsfatoresdevemconvergirlogoqueumdispositivo
técnicopermiteampliarnestepontoahistóriadoshomens:o
acessoaestedispositivodeveserrelativamentebarato,seuuso
devesertecnicamentefácil,eatendênciaespiritualdaépocadeve
estarorientadanadireçãodosmesmosprazeres[visuais].”(apud
HAUS;FRIZOT,1995,p.459;traduçãolivre).
Oquehojesãoconsideradasasprimeirasfotografiasde
modadahistórianãoeramchamadasassimnaépocaem
queforamproduzidas.EmmeadosdoséculoXIX,coma
popularizaçãodafotografia,estaaospoucossubstituiua
pinturanoatoderegistrarimagensdedamasdasociedade,
atrizesedebutantesque,decorpointeiro,exibiame
registravamseusmelhorestrajes.NoiníciodoséculoXXas
imagensfotográficasdemodacomeçamasubstituiras
ilustraçõesnaspublicaçõesdaáreaempaísescomoFrança
eEstadosUnidos.“Nasfotoseditoriaisedepropaganda,a
fotografiademodaseinspirounaculturadaépocaefoi
moldadaporela,deixandoumregistrocativantedas
mudançasdrásticasnopapeldamulherentre1900e1945.”
(HACKING,2012,p.260).
Nosanos1930,impulsionadospeloavançotecnológicodos
equipamentosfotográficos,asimagensdemoda
começaramaganharmaisnaturalidadeesaíramdos
estúdios.Foiquandoascidadeseaspaisagensurbanas
passaramacomporafotografiademodaeoidealde
beleza,inserindo-aemcenasmaisreaisecotidianas.
“CâmerasportáteiscomoaLeicapossibilitaramaos
fotógrafostrabalharemcomrealismofotojornalísticofora
doslimitesdoestúdio.”(HACKING,2012,p.263).Durantea
SegundaGuerraMundial,oregistrodaimagemdemoda
passouasermaisdocumentaledireto,seguindooclimade
recessãodoperíodo.PassadaaSegundaGrandeGuerra,a
alta-costuraentrouemdecadênciaeoeixocentraldo
mundodamodamudouparaLondres,quesetornouo
centrocriativodejovensestilistasefotógrafosque
fundaramummovimentobatizadode“youthquake”em
1963,porVreeland,entãoeditora-chefedaVogue(HACKING,
2012).Asdécadasseguintessãomarcadaspormais
liberdadenostemasdasfotografiasdemoda,marcadas
muitasvezespeloerotismoepelacríticaaoconsumo.“A
fotografiademodadofimdadécadade1970einíciodade
1980muitasvezesapresentavafantasiasdeluxúriae
consumo,easmaiscontroversasdessasimagenseram
publicadasemrevistaseuropeias.”(HACKING,2012,p.488).
Referências
ENTLER,Ronaldo.Sentimentosemtornodafotografia
contemporânea.Icônica.SãoPaulo:28dejunhode2011.
Disponívelemhttp://iconica.com.br/blog/?p=2088.Acessoem
21/10/2013.
HAUS,Andreas;FRIZOT,Michel.Figuresdestyle:NouvelleVision,
NouvellePhotographie.InFRIZOT,Michel(org.).Nouvellehistoire
delaPhotographie.Paris:Bordas/AdamBiro,1995.
LIRA,Bertrand.Fiandootempocomaluz.InMOURA,Gustavo
(coord.).FotografiaParaibanaRevista.JoãoPessoa,PB:FUNARTE,
2013.
Sitesparaconsulta:
FórumdaFotografiaParaibana:
http://forumdafotografiaparaibana.blogspot.com.br
ProjetoNovíssimos:http://projetonovissimos.wordpress.com
14
Nosanos1990ogênerofoimarcadopeloneorrealismo,
tambémchamadodeantimoda.Fotografiascomforte
interessepelocotidianoeporpessoasesituaçõescomuns
passamaaparecerdeformamaisconstantenasdiversas
revistasdemoda:seaproximamdasexpressõesdecultura
dasruas.Algumasmaisconceituais,comoaDazed&
Confused,aparecemesedestacamcomfotosdeconotação
ParaEasterby(2010)otrabalhodosfotógrafosdemodaé
importantenãoapenascomoregistroimagéticodevenda
deprodutos,elessãoregistroshistóricoseculturaisdeum
povoedeumtempo.Oautorafirmaqueénecessárioter
sintoniacomaidentidadeculturaldapopulaçãoaquemse
destinaafotografiademodaparaqueoresultadoobtenha
oalcancedesejado.“Asimagenscriadaspelosfotógrafosde
modatêmumaconexãotãofortecomopúblicoque
contribuemparamudarastendênciasquesustentama
sociedade.”(Idem,p.30).
sexual.Oquetambémsefezpresentefoioestilo
documentalderuacaracterísticodarevistai-D,osstraight
up,quedefendiamumafotografiamaispura.“Punks,jovens
adeptosdoestiloNewWaveeoutrospassantesvestidosde
formaestilosaeramparadosnaruaeclicadosemfrentea
ummuro,decorpointeiro,comasprópriasroupas.”
(HACKING,2012,p.489).
Desdeofimdosanos1990amanipulação(oupósproduçãoapartirdesoftwares)tornou-separte
fundamentaldotrabalhodosfotógrafoseainternetum
espaçodegrandeexpansão,referênciaedivulgaçãoparaos
produtoresdeimagensdemoda.Alémdisso,essasimagens
ganhamcadavezmaiscaracterísticasartísticaselibertárias,
alémdepermitiremaosfotógrafoscriaremseuspróprios
estilos,independentedapublicaçãoaqualasfotosse
destinam.
QuemtambémsustentaessepensamentoéMarra(2008),
paraquemamodaéalgomaisarticuladodoque
simplesmentearoupa:setratadeumfenômenomaior,que
relacionaoindivíduocomoseupapelnomundo;ea
fotografiademodaosímbolomáximodessamensagem.“[a
moda]éumfenômenocomplexoqueconcerneerelaciona
entresicomportamentos,modosdeser,formasde
linguagemequalqueroutraescolhagraçasàqual
estruturamosonossosernomundo.Amodaéentão
tambémfotografia,aliás,ofotografar,oatoeapráticade
fotografar,entendidoscomodesejonãosódecriar,masde
desdobraranossavidaemimagem.”(MARRA,2008,p.15).
Ajornalistaecríticadefotografia,SimonettaPersichetti,
defendeaideiaqueafotografiademodahojeéa
expressãomaislivredentrodahistóriadafotografia,jáque
nelatudoépermitidoequesuafunçãoénostrazerum
sonho,umaideia,umconceito.ParaMarra(2008,p.15-16),
afotografiademodaobviamenteserveparafazercomse
vejaaroupa,porémnãoapenasisso:éumsimulacroda
realidade,embebidaemumaáureamágicaprópriados
movimentosartísticos.Elediztambémque“Éigualmente
verdadeiroquediantedeumaboaimagemdemodanós
entramosemcontatocomalgomais,algomaissugestivo
queapurainformaçãosobreoproduto.Dianteda
fotografiademodanóssubstancialmenteexperimentamos
umapossibilidadedecomportamento,oupelomenosa
imaginamos,adesejamos,porqueaimagempropõe-nos
umaespéciedeprotótipodevida,umaexperiênciade
estilosedemodosdeser.”
Oautorrefletesobreograudeabstraçãoqueosindivíduos
vivenciamquandoemcontatocomasfotografiasdemoda.
Paraalémdeveraroupa,eleafirmaquediantedeumaboa
imagemdemodaaspessoasentramemcontatocomum
universomaissugestivodoqueapurainformaçãosobreo
produto.“Diantedafotografiademodanós
substancialmenteexperimentamosumapossibilidadede
comportamento,oupelomenosaimaginamos,a
desejamos,porqueaimagempropõe-nosumaespéciede
protótipodevida,umaexperiênciadeestilosedemodos
deser.”(MARRA,2008,p.16).
Existemhojebasicamentedoistiposdeeditorialdemoda
pararevistas:ospublieditoriaiseoseditoriaisdecunho
informacional.Oprimeirotemvinculaçõeseconômicasque
pautamcomoaimagemdeveserproduzidaeoquedeve
conternela,jáosegundoélivredeintervençõescomerciais
epodesermaisconceitualnacriaçãodasimagensde
moda,podebeberemtodasasfontesdavidacultural.“Um
editorialéumareportagemfotográficasobremodaou
belezaplanejadaerealizadademodoaexpressaraopinião
easatitudesdoeditordemodadarevista.”(SIEGEL,2012,p.
16).
15
Aidentificaçãodoobservadordaimagemcomaquiloque
estárepresentadonelasetorna,então,algocrucialna
conjunturaquecompõeessafotografia,compostanão
apenaspelasvestimentasnelautilizadas,comotambém
porcores,luzes,maquiagens,cabelosecenários,formando
acomplexidadedaimagemdemoda.“[...]aquestãoque
maiscaracterizatodaafotografiademodaéograude
credibilidadeedeidentificaçãoquenosépropostopela
imagem.Ditodeformabanal,amodanospropõeum
signo,umimaginárionoqualacreditarecomoqualse
identificar,é,portanto,evidentequeomecanismode
verdadeintroduzidopelafotografiadesenvolveumpapel
deprimeiríssimoplanonadefiniçãoteóricadofenômeno.”
(MARRA,2008,p.39).
Acidadenafotografiademoda
Aidentidade(ouasdiversasidentidades)deumpovoe/ou
gruposocialsedádeformacomplexa,easreferênciasde
cidadeoudeurbanidadepresentesemseuscotidianos
fazempartedoconjuntodeinformaçõesqueajudama
moldá-la.Hall(2001)explicaqueumanaçãopodeser
entendidacomoumsistemaerepresentaçãoculturalque
extrapolaanoçãodelegitimidadedosersocial,poisas
pessoasnãosãoapenascidadãs,jáquepartilhamumasérie
designificados(narrativas,estratégiasdiscursivas,mitos).
Destemodo,osdiferentesmembrosdasdiversasculturas
(nacionais,regionaisoulocais),independentedesuaetnia,
classeegênero,seriamunificadosnumaúnicaidentidade
cultural.
produtos,masvenderumconceito.[...]DaModa,uma
publicaçãoconceitual,inspiradanaliberdadedeexpressão
esedentapelonovo.”
Apublicaçãocomeçouaserproduzidaemsetembrode
2012eédisponibilizadagratuitamenteaopúblicoatravés
dositeIssu.com¹,voltadoparapublicaçõesdigitais.Alguns
dosconteúdosmaisimportantesproduzidospelarevista
sãooseditoriaisdemoda,queestãopresentesemtodasas
edições,muitasvezesmaisdeumporedição.Numa
primeiraobservaçãoéimportanteressaltarque,pornãoter
vinculaçãocomercialnemobrigaçãodepublicaranúncios
publicitáriosoupeçasdeanunciantes,osprodutorese
fotógrafosdaequipedispõemdecertaliberdadenahorade
escolherostemasdoseditoriais,aspeçasutilizadaseas
locaçõesparaasfotos.Poroutrolado,dadaasua
vinculaçãoàPrefeituradacidade,parecesefazernecessário
mostrarosespaçosurbanos,reconhecidoscomoturísticos
ounão,sempredeformabela,excluindopossíveis
situaçõesdeabandono,sujeira,pobreza,depreciaçãoetc.
Umacidadeidealizada.
Oautorexplicatambémqueumadasconsequênciassobre
asatuaisidentidadesculturaiséahomogeneizaçãocultural
pós-moderna,quetendeaocidentalizarasrepresentações
decultura,tendonosmeiosdecomunicaçãodemassasuas
principaisferramentasparaisso.Mashátambémas
manifestaçõesderesistênciaàglobalizaçãoporidentidades
nacionaiselocais.“Emvezdepensaroglobalcomo
substitutodolocal,melhorpensarnumanovaarticulação
entreoglobaleolocal.”(HALL,2001,p.77).
ArevistaDaModanosajudaaexemplificarecompreender,
atécertoponto,aresistênciaaessahomogeinizaçãoda
globalizaçãoapartirdomomentoemquereforçaas
característicaslocaisnaimagemdemoda,searticulando
comreferênciasglobais,representadasprincipalmentepor
elementosurbanosdacapitalparaibana.Paraentender
melhoressacaracterizaçãodaidentidadelocalénecessário
compreenderaculturacomoumprocessocomplexoe
permanentedetrocassimbólicas,eofortalecimentodessa
culturalocalpodesercompreendidocomoumareaçãoa
essainteração.
Atítulodeilustraçãotrazemosaqui,demaneiraresumida,o
exemplodoeditorialpublicadonaprimeiraediçãoda
revistasobreoMercadoCentraldeJoãoPessoa,comfotos
deJoséNeto2.Acarteladecoresévasta,tantonapaisagem
(jáquesetratadeumafeiraondeháapresençadeuma
grandevariedadedeprodutosalimentíciosoupeças
utilitárias)quantonosfigurinos.Aspeçasutilizadasno
editorialforamfrutodaoficina“CéluladeCriação”eteve
comoreferênciaomesmolocaldasfotos.Explicaotexto
queacompanhaoeditorial:“InspiradonoMercadoCentral
deJoãoPessoa,ogrupoconseguesairdoóbvioemostra
umacoleçãocheiademovimento,detalhes,riquezae
aspectosculturaisdolocal.”
Essaresistência,oudiálogo,comoafirmaHall(2001),pode
serexercidadediversasformas.Narevistaeletrônica
DaModa,publicaçãoconceitualsemcarátercomercial
financiadapelaPrefeituraMunicipaldeJoãoPessoa,elaestá
presenteemtodooconteúdoproduzidoesecaracteriza
visualmenteprincipalmentepeloseditoriais:tantona
escolhadaspeçasquantodalocaçãoparaasfotos.As
imagensveiculadaspelapublicaçãooptam,nasuamaioria,
porexporacapitalparaibanaembebidanumaáurea
mágica,aquelaqueécaracterísticadoseditoriaisdemoda,
quenosremeteaumaesferadesonhos,desejoseideais.
ArevistaDaModafazpartedesseprojetodepromovera
culturademodaemJoãoPessoa,eparaissoseutilizade
íconesesímbolosdacapitaldaParaíbanointuitode
resgataraidentidadedopessoensenaimagemdemodae,
assim,reforçá-la.ComandadapelajornalistaLarissaClaro,
editora-chefedapublicação,epeloestilista,produtore
diretordaEstaçãodaModa,RomeroSousa,temnasualinha
editorialaseguinteproposta:“Aideianãoévender
16
OMercadoCentraldeJoãoPessoa,construçãodosanos
1950recuperadaentre2010e2011,fazpartedapaisagem
urbanadacidadedeformamarcante.Aocontráriode
outrosespalhadospelacapitalparaibana,esteficaemuma
áreademuitofluxodapopulaçãodacidade,poronde
passamváriaslinhasdeônibusepróximoagrandes
empresasdecomunicação.Acoleçãotentourefletiroefeito
desordenadoemulticoloridodaestruturaurbanadafeira
naspeças,recorrendoamodelagensinusitadas,comono
primeirofigurinoondeastirasdetecidosãoinspiradasna
visãoqueofeirantetemdaruaestandodentrodabarraca.
CapasdarevistaonlineDaModa,2012e2013
“Vestir,nahistóriadaindumentária,podeterosentidode
instalarnocorpohumanoumcenário,noqualomesmo
temopapeldeagireinteragircomosefosseumpalcode
representaçãodetemasapocalípticos.”(DUARTE;BARROS,
nordestino,algomuitopresentenocidadãopessoense.
SegundoFlusser(2005,p.9),“asimagenssãomediações
entreohomemeomundo”.Apresentam-seassimcomo
“superfíciesquepretendemrepresentaralgo.Namaioria
doscasos,algoqueestáláforanoespaçoenotempo”.
Portanto,podemosconsiderarqueoobservadorda
imagemacessareferenciaisnostálgicosaoobservaresse
tipodefotografia.
2006,p.212).
Jáachitafoiquemganhouespaçodedestaquenasegunda
ediçãodarevista3emcoleçãocriadapeloestilistaparaibano
RomeroSousa,comfotosdeDayzeEuzébio.Cheiadecores
eestampasfloraisbemcaracterísticas,otecidoque
tradicionalmentedecoravaascasaspobresdointeriordo
Estadoviroumatériaprimaparapeçasatuaisefoipararnas
areiasdaspraiasdeJoãoPessoa.
Trazemosaindaalgumasconsideraçõessobreoeditorial
publicadonaquartaediçãodarevistaonline4,comfotosde
DayseEuzébioeumalocaçãoincomumparaatradiçãoda
fotografiademodalocal:oRioSanhauá.AcidadedeJoão
Pessoa,diferentedeoutrascapitaisdolitoralbrasileiro,
nasceunomangue,norioquebanhaacidadee
desembocanoRioParaíba.Sóapartirdosanos1950ela
cresceparaapraiaedáascostasparaorioqueaviunascer.
Hojesempraticamentenenhumareferênciahistóricado
antigoPortodoCapim,oleitodorioétomadopor
habitaçõesirregularesocupadasprincipalmentepor
pescadoresquetiramdorioseusustento.Aregiãoé
poluídaeaságuassãoimprópriasparabanho.
Apraiaéelementopulsantenavidadopessoense.
Caracterizadaporumatopografiaquepermitequecasase
restaurantessejamlivrementeacessadospelapraia,o
cidadãodacapitalparaibanatemohábitodefrequentar
diariamenteaorladacidade,sejaparaapráticade
atividadesfísicas,passeiosemfamíliaoumesmopara
aproveitaraareiaouomarduranteodiaounoite.Éaárea
maisnobredacidade,comosmetrosquadradosmaiscaros,
compostosporcincobairros,masquerecebediariamente
moradoresdeváriasregiõesdacidade.Achita,porsuavez,
vemaospoucosocupandoespaçonobreemcoleçõesde
estilistasbrasileiros.Otecido,quejávestiuescravos,
camponeses,tropicalistas,personagensdeliteratura,teatro,
novelaecinema,nãoperdeuoseuardeinocênciae
rusticidadeaolongodotempo,continuaremetendoao
universoingênuo.(MELLAO,2005).
Aspeçastrazemumcontrasteentreapobrezadolugarea
riquezaesmeradadaprincipalemaiscararendaproduzida
naParaíba:aRenascença.ArendaRenascençasurgena
EuropanoséculoXVeganhaespaçoempaísescomoa
FrançaeaItália.ElachegaàParaíbanofinaldoséculoXVII
trazidaporfreirascarmelitasquevêmparaaregiãoe
acabamensinandooofícioaalgumasmoradorascomo
formadegeraçãoderenda(NÓBREGA,2005).Hojea
produçãoderendaépassadadegeraçãoemgeraçãoeé
cadavezmenoronúmerodepessoasquedominama
técnica,encarecendogradativamenteoproduto,quehoje
ésinônimoderiquezaesofisticação,vendidaaaltospreços
nasfeirasemercadosdaregião.
OrigináriadaÍndiaecompassagempordiversospaíses
europeus,achitachegaaPortugalnoséculoXVevemao
BrasilnofinaldoséculoXVIII.Poraqui,ascoresdiscretas
lusitanasganhamestampasgraúdasdetonsvibrantes,
tingidascomoscorantesvegetaisdisponíveisnaflorada
região(GARCIA,2007).NoNordesteelasetornaproduto
baratoporsuagrandeproduçãoeporserumproduto
originalmentedebaixaqualidadeeacabasepopularizando
entreasfamíliaspobresdaregião.Namoda,elahojeé
retomadacomosímbolodeumresgateculturalbrasileiro,
vividointensamentenosúltimosanos.
Noeditorial,ocontrasteentreobegedaareiaeaexplosão
decoresdasroupasfazaspeçassedestacaremaindamais.
Achitacumpreaítambémumafunçãosaudosista,apartir
domomentoemqueserefereaosantepassadosdopovo
Noeditorial,ascoresfortesdosbarcos,dasconstruçõesà
beiradorioedanaturezasecontrastamcomostonssuaves
darenda.Arevistaexplicaemumadasfotos“Adelicadeza
darendaRenascença,artesanatotípicodoCaririparaibano,
entrelaçaaculturadanossaregiãocomapelosofisticado
emquerompefronteiras”,destacandoquehojeessaéuma
rendadealtocustoedesejadaemváriasregiõesdopaíse
domundo.
17
Éimportanteressaltarqueessalocalidade,bemcomoado
MercadoCentralcitadaanteriormente,nãosão
consideradospontosturísticosdacidadeesimreferenciais
imagéticosbemparticularesdaquelesquemoramna
região,trazendoassimessereferencialdeidentidadenão
necessariamentevinculadoaumvisitanteouturista,esim
pertencenteaocidadãopessoense.
Observaresseseditoriaiscolaboracomoentendimentode
queafotografiademodapodeserusadaparafortalecerou
perpetuaridentidadesculturais,bemcomoaprópriamoda
emsi,funcionandonessecontextocomoumaespéciede
metalinguagem.Aidentidadelocal,numdiálogocomas
identidadesglobalizadas,sefazempresentesnaproposta
darevistaeletrônicaDaModa.Elessãoumaformade
representaromundoeaspessoasdacidade.“Instrumento
decomunicação,divindade,aimagemassemelha-seou
confunde-secomaquiloqueelarepresenta.”(JOLY,1996,
p.19).
Emcomumatodososensaiosanalisados,percebemoso
temadacidadedeformaconstante,demaneiramaisou
menosóbviaesempreenvoltanumaáureadeluxoede
idealdebelezacaracterísticosdoseditoriaisdemodaem
todoomundo(SIEGEL,2012).Épossívelidentificarainda,
numavisãomaistécnicadafotografia,quetodososensaios
privilegiamafigurahumana,numareferênciaclássicaao
gênero“retrato”nafotografia,algotambéminerenteaos
ensaiosfotográficosdasrevistasdemoda(EASTERBY,2010).
Porém,nosexemplosmostradosaqui,tambémépossível
perceberdeformamaismarcanteapresençadocenário
comoelementocrucialparareforçaramensagemda
revista:acidadecomoreferênciademoda.“Acategoriada
imagemreúneentãoosíconesquemantêmumarelaçãode
analogiaqualitativaentreosignificanteeoreferente.”(JOLY,
1996,p.40).
Arevistamostraacidadenãoapenascomoumcenário
qualquerousimples,mascomoalgopensado,planejado,
comobjetivosclaros,entreeles:mostraraurbanidadede
formabelaelúdica;reforçarqueépossívelseinspirarnos
elementoslocaisparaproduzirmoda,tantonaspeças
quantonasimagensdemoda;colaborarcomacriaçãoeo
fortalecimentodeumaidentidadelocalquesereconhece
nesseselementosurbanoseosvaloriza.Assim,apublicação
fazumrecortedacidade,mostrandoumaurbanidade
idealizada,umsigno,umimagináriocapazdetransmitiro
luxoquealgunssetoresdamodaalmejam.
18
Amodavemdesempenhandoaolongodetodaasua
existênciaostatusdeseususuáriossendo,ainda,
consideradafatordeconstruçãodaidentidadedossujeitos,
muitasvezesdemonstrandosuafiliaçãoavalores
específicosdeumdeterminadogrupoousociedadeea
determinadasexpressõesculturais.Eaimagemdemoda
propagadapelosmeiosdecomunicaçãocumpreumpapel
fundamentalnesseprocessodeidentificação.
AgdaAquinoéjornalista,professoradaUniversidadeEstadualda
Paraíba,pesquisadorademoda,fotografiaecomunicação.
Notas
1Disponívelem:http://www.issuu.com/damoda.Acessoemmaio
de2013.
2Disponívelem:http://www.issuu.com/damoda/docs/1edicao.
Acessoemmaiode2013.
3Disponívelem:http://www.issuu.com/damoda/docs/da_moda
_02.Acessoemmaiode2013.
4Disponívelem:http://issuu.com/damoda/docs/4edicao.Acesso
emmaiode2013.
Referências
DUARTE,Jorge;BARROS,Antônio(Orgs.).Métodosetécnicasde
pesquisaemcomunicação.SãoPaulo:Atlas,2006.
EASTERBY,John.150liçõesparaaprenderafotografar:técnicas
básicas,exercícioseliçõesparafotógrafosiniciantes.SãoPaulo:
EditoraEuropa,2010.
FLUSSER,Villem.Filosofiadacaixapreta:ensaiosparaumafutura
filosofiadafotografia.RiodeJaneiro:RelumeDumará,2005.
GARCIA,Carol.Chita,chitinha,chitão:notassobreimagense
andanças.In:3ºColóquiodeModa,2007.BeloHorizonte,MG.
Anais.Disponívelem:http://www.coloquiomoda.com.br/anais/
anais/3-Coloquio-de-Moda_2007/3_07.pdf
HACKING,Juliet.Tudosobrefotografia.RiodeJaneiro:Sextante,
2012.
HALL,Stuart.Aidentidadeculturalnapós-modernidade.Riode
Janeiro:DP&A,2001.
JOLY,Martine.Introduçãoàanálisedaimagem.Campinas,SP:
Papirus,1996.
MARRA,Claudio.Nassombrasdeumsonho:históriaelinguagens
dafotografiademoda.SãoPaulo:EditoraSenacSãoPaulo,2008.
MELLAO,Renata(Org.).Quechitabacana.SãoPaulo:Acasa,2005
NÓBREGA,Christus.RendaRenascença:umamemóriadeofício
paraibana.JoãoPessoa:SEBRAE/PB,2005.
SIEGEL,Eliot.Cursodefotografiademoda.Barcelona/ES:Editorial
GustavoGili,2012.
ArtecontemporâneanaParaíba:
visualidadesperiféricas
ValquíriaFarias
[email protected]
Brasil/Brasis,artigodeautoriadocríticodearteecurador
brasileiroPauloHerkenhoff,talvezsejaamaisesclarecedora
análisecríticasobrearealidadedaartebrasileiranoséculo
20.Suadiversidade;seusartistas;amultiplicidadede
caminhos;linguagensemateriais;comoeraproduzidae
sobquaiscondições/dificuldadespolíticas,econômicase
sociaissãoaspectosabordadosporHerkenhoffempoucas
linhas,quasecomoumaliteratura;naverdade,éuma
iniciativainteligenteefelizparaexplicaraoleitorqueos
nossosartistasvivem/sobrevivemmúltiplosterritórios,
“brasis”,efazemartecomum“docesuoramargo”.
artebrasileiroemrelaçãoaoincipientemercadodearte
locale,assim,buscaralternativasdeacessoecirculação.
ParaPauloHerkenhoff,osistemadeartenoBrasilé
equidistanteporqueseguealógicacolonialistadasrelações
internacionaisdepoder.Eledizque“Amesmadistância
políticaqueseparaosgrandescentrosbrasileirosdearte
doscentroshegemônicoseuropeusenorte-americanos
parecesepararoscentrosregionaiseperiféricosbrasileiros
doscentroshegemônicosdopaís[...]”,exemplificandoque
“Umaconcentraçãodeartistasedeinstituiçõesdearte
correspondeaumaconcentraçãoderendainternanum
quadrodegravesdesequilíbriosregionaisestruturais”.
Oartigofoiescritonofinaldadécadade1990.É
atualíssimo.Jáquequasenadaparecetermudadono
cenárioartísticobrasileironestenovoséculo.Daíarazãode
mencioná-lologonoiníciodopresentetexto,quetratada
exposiçãoArteVisualPeriféricanaParaíba,coletiva
compostade24obrasproduzidaspor12artistasvisuais,
jovensemsuamaioria,residenteseatuantesnesteestado.
Nestecontexto,compreende-sequeacondiçãodeserum
artistaperifériconaParaíbaguardadiversasrazões
relacionadasàrealidadedolocalqueescolheramparaviver
comocidadãoseartistasàrealidadebrasileira,ourealidades
brasileiras.Razõesestastransformadasnalgumaspectoem
seustrabalhos,poissãoresultantesdevivênciaspráticase
reflexivasapartirdeseusentornos.
EstaexposiçãonoMuseuAssisChateaubriand,da
UniversidadeEstadualdaParaíba,emCampinaGrande,
maisdoqueapresentarumconjuntosignificativodeobras
querefletebemaproduçãodeartecontemporâneana
Paraíba,propõeumdesafioousadoemuitoimportante:
lançarnovosquestionamentoseacenderodebateacerca
darealidadeaindafrágileprecáriadocircuitodeartes
visuaisparaibano.Istoemrelaçãoaoutroscircuitosdearte
noPaís,maisorganizadosemtermosdepolíticasculturais,
distribuiçãoderecursospúblicoseprivados.
Oquequeremos“artistasperiféricos”nãoénadadenovo,
maséalgofundamentalequenuncahaviasidocolocado
comopautadedebatesporgeraçõesanterioresdeartistas
paraibanos.Nãodestaformacompromissadaeorganizada.
Discutiromeioculturallocaltambémfazpartedavidado
artista.Bastaapenascomeçarecompreenderaimportância
políticadeserumartista-cidadão.Comodiznovamente
Herkenhoffemseuartigo:“Naexperiênciabrasileira,o
artistanãoapenasfezarte,mastambémtevedeconstruir,
muitasvezes,oespaçosocialearmarapossibilidade
políticadeseudiscurso”.
Oentendimentodoquevemaser“artevisualperiférica”
porpartedosprópriosartistas‒quesãoaomesmotempo
autoresecuradoresdestaexposição,éimportantefrisar‒
expressanãosomenteaconstataçãodessadifícilrealidade
localemquevivemeproduzemarte.Exprimetambéma
vontadedetodosdediscuti-lacoletivamente,comoutros
agentesculturais,instituições,galeriasecomasociedade,a
fimdetentarsuperá-la.
Nestaexposição,nãoéintençãodosartistaso
estabelecimentodeaproximaçõesestéticaseconceituais
dequalquerordem(linguagens,materiais,suportes,
técnicasetc.)entreosseustrabalhos.Todossãorealizações
individuais,nãopautadosporumaabordagemcuratorial
maiscomplexa.Emborahajamesmoanecessidadede
mostrarqueexisteumaproduçãoemergentenoEstadoe
queessaproduçãonãoéassimiladapelopúblicoporque,
muitasvezes,asinstituiçõesculturaisnãolhedãoa
visibilidadedevida,associadaaumprocessoformativo,de
conhecimento.
Ouseja,existeumaaçãoestratégicadosartistasperiféricos,
comoelesmesmossedefinemenquantocoletivo,de,com
estamostra,mobilizar,chamaraodiálogoaclasseartística
localereivindicardosrepresentantespúblicosmelhorias
paraasinstituições,osmuseuseosacervos.Alémdisso,
junta-setambémanecessidadedediscutiromercadode
19
ObradeAntônioFilho(Fotografia:WênioPinheiro)
Porém,umaaproximaçãodassuasideiasarespeitodoque
vemasera“arteperiférica”queproduzempodeser
possívelnestetexto.
Aquestãodasconvenções,dostratadosedasregrasde
condutacriadaspelohomem,navidaenaarte,édiscutida,
deformasdistintas,nosdesenhosemnanquimdeAmérico
Gomes,nosretratosempasteldeCarlosNunes,nas
performancesdeSandovalFagundesenosgrafitesde
CybeleDantas.EmAmérico,háacertezadelidar
diariamentecomosesquemasdecontrole,forjando-os.Em
CarlosNunes,odesejodevestir-setambémdo“outroeu”,
numareaçãoafetiva,explosivaetemporal.EmSandoval
Fagundes,nogestoperformático/irônicodeescaparde
amarrasdetodasorte,definiçõesemarte,dolugar-comum.
“Desenharcomoquemfazpipoca”seriaomesmoque
desenharcomoumacriançaqueriscaumaparede?Nunca
sesaberáaocerto.AsfotografiasrecortadasdeCybele
Dantassãoexemplaresperfeitosdamisturadelinguagens:
afotografiaeografite,emumsuporteconvencional,atela.
Suapropostaéexperimentarpossibilidadesderealizar
Grafittie,aomesmotempo,desfazerpreconceitosem
relaçãoàpinturatradicionalinvadindoseusespaçosde
circulação.
ObradePotiraMaia(Fotografia:WênioPinheiro)
Asgeografiasdosespaçosurbano/ruraledanaturezaestão
narradasnaspoéticasdesenvolvidasporAntônioFilho,
SergeHuoteLuizBarroso.ParaAntônioFilho,oespaço
urbanoéaqueleporondeseucorpotransita
cotidianamente.Eleconstrói,porexemplo,mapaspessoais
delugaresdacidadeinterligadosporartériasdeum
coração,representadocomosefosseumamemorialística
docorpotrafegado,subjetividadesexperimentadas
partindodeelementosconcretosarquiteturais.SergeHuot
éartistafrancêscujacondiçãodeestaratuandoemum
territórioperiféricobrasileiro,vivendoemconstante
contatocomanaturezalocal,ocolocanumaposição
historicamenteprivilegiadaemrelaçãoaosdemaisartistas
dogrupo.Huotcriaesculturascommateriaisjogadosna
praia,restosdepoliestireno,comosedesejasseconstruir
umaarquiteturadapaisagem“outroranatural”,aquelaque
somenteoolharestrangeiropodeenxergar.Nãodeixade
serumaformadedenúnciadaaçãodohomemsobreo
meioambiente.JáLuizBarrosopercorreoscaminhosdos
signosrupestresincrustadosnapaisagemruralparaibana,
símbolosdenossaformaçãomaisrudimentar,para
ObradeAntônioLima(Fotografia:WênioPinheiro)
20
ObradeWênioPinheiro(Foto:WênioPinheiro)
Opainel
PopTropicalistade
ChicoPereira
DyógenesChaves
[email protected]
construircompapelmachéumametalinguagem
compromissadacomaculturadohomemnoNordestedo
Brasil.
NumarecentevisitaàCampinaGrande‒segundacidade
daParaíbaeoutroramaiorentrepostodepeles,algodãoe
gênerosalimentíciosdaregiãoque,porsuaprivilegiada
localização,interligavatodooEstadonosentidolesteoeste,sul-norte‒,fomosaoencontrodopainelTropicália,
deChicoPereira,pintadosobreparedecomtintaacrílica,
esmalteespray,medindo220x600cm,de1969,queadorna
oantigorestauranteuniversitáriodaUniversidadeRegional
doNordeste(URNe),hojeUEPB.Aobra,recentemente
restaurada(finaisde2013),permaneceatualeéimportante
referênciadaarteparaibana.Parasuaexecuçãooartistase
utilizoudeelementosvisuais,materiaisetécnicosdo
movimentoPopArt,oquesugeretambémincluiraobrana
searadoGrafite(comousodesprayeestêncil,jánaquela
época)edoMuralismonaregião.
AntônioLima,PotiraMaiaeTonyNetoconduzemsuas
poéticasnumarelaçãodealteridadecomolugardosujeito
eseusobjetoscotidianos.AntônioLimaproduzobjetose
instalaçõesressignificadosdesuaiconografiaepaisagem,
utilizando-sedeconceitosantropológicos,filosóficose
científicospararefletirsobreatransitoriedadedavida
humana.PotiraMaiaregistraemfotografiasosprocessosde
destruiçãodamemóriadepersonagensdesconhecidosda
cidade,transeuntes,nosinúmerossapatosachados
“perdidos”ou“abandonados”nasruasdeJoãoPessoa.Tony
Neto“serefaz”emcenasprecisasdemelancólicosrituaisde
morte,projetando-senumaimagempotencialdosuicida
anônimo.Seusvídeosaludemàsestranhasmortespor
suicídiodemoradoresdaregiãodoValedoPiancó,interior
paraibano.
Éimportantesituarousopioneirodestesrecursosdo
GrafiteporChicoPereira,jáque,somenteapartirde1978é
quesetemnotíciasemelhanteprotagonizadapeloartista
etíope-brasileiro,AlexVallauri¹.
RaquelStanickeWênioPinheirorecorremàliteraturapara
produzirsuasobrasapartirdaapropriaçãodetemascomo
feminino,intimidade,fantasia,amor,sexo,corpoe
erotismo.RaquelStanickseutilizaaindadasnovasmídias
paracolocaremjogotextopoéticoversusimagemreale,
assim,discutiraformaçãodosclichêsnasrelações
interpessoais.ParaWênioPinheiro,interessaodesenhode
traçoagressivoenervosodocorpohumano,despudorado
nassuasmaisvariadasposiçõesesituaçõesíntimas,à
maneiradeEgonSchiele,comodepositáriodamensagem
quedesejaexprimiraoleitor.
Mesmotratando-sedeobralocalizadaemambienteinterno
‒orestaurantedaURNe‒,oquecontribuiuparamantê-la
quaseintacta,aobradeChicoPereirarecebeatéhoje
imensofluxodeestudantes,professoresefuncionáriosao
longodestesmaisde43anos.
Comaintençãodeanalisarmelhoraobraedar-lhe
visibilidadeereconhecimento,optamosporfazeruma
viagemnotemporevendoosprincipaismomentosvividos
peloartista,aforaoutrosacontecimentossócio-culturaisna
cidadequejustificamopioneirismodestemural.
Afinal,paraqueserveaarte?Acredita-sequeumadas
prerrogativasmaiscontundentesdaarte,noplanopolítico
ecrítico,sejaadecriarviasdeacessotantoasiprópria
comoaoseuentorno.Assim,éprovávelque,seoidealpor
mudançasnocenáriodaarteparaibanaformesmolevadoa
caboemoutrasaçõesfuturasdoColetivoPeriféricos,com
resultadossendoalcançados,nãopoderemosnegara
importânciaqueteráestaexposiçãodaquiparafrente.
Estamosnoanode1967.AnacletoElói,estudantedeBelas
ArtesemRecife,mastambématuanteemCampinaGrande,
suaterranataleondefazpartedoprimeirocoletivode
artistasdacidade‒oEquipe3‒,aoladodeChicoPereirae
EládioBarbosa,éumdospoucosartistasparaibanosa
participardaIBienalNacionaldeArtesPlásticasdaBahia,
emSalvador.NumamatériapublicadanojornalDiárioda
Borborema(CampinaGrande,29dejunho),seu
depoimentoaojornalista(ecineasta)MachadoBitencourt
apontaparaalgumasdaspreocupaçõesdaartelocalna
época.Adúvidaquepermaneceése,hoje,suaanálise
continuaatualouapenasfoipuroarrouboidealistadetodo
jovemartista.Vejamos:
ValquíriaFariasécríticadearteecuradora,vinculadaatualmente
àFundaçãoCulturaldeJoãoPessoa-Funjope.
21
OpintorMiguelGuilherme(Foto:MachadoBitencourt)
CapadolivroOsAnos60,1979
“JoséAnacletotemideiasprópriassobreascausas
origináriasdoatrasoculturaldeCampinaGrandeno
queserefereàsartesplásticas.Segundoostermosde
suaanálise,osmotivosfundamentaisdesseatrasosão
asausênciasdasinfluênciashistóricas.Campina
Grandefoiumacidadequedurantemuitosanos
interpretouaartecomooagradávelouobonitinho,e
queaplaudiuespetáculosmedíocres,contribuindo
dessamaneiraparamanterumestágiodegritante
alienação.ʻAgora,quandoCampinaGrandejátoma
consciênciacultural,implantandoemantendouma
universidade,oproblematendeadesaparecer(nãoa
curtoprazo!)inicialmentecomopreenchimentodas
lacunasexistentes.ʼ,afirmaoartista.”
ComodepõeChicoPereira:“Esseacontecimentofoi
marcantenavinculaçãodosartistasdeCampinaGrande,
notadamentedoEquipe3,aoutroscentrosartísticos,mais
efetivamenteàCapitalJoãoPessoa.Passamosentãoa
frequentarnosfinaisdesemanaosambientesartísticose
intelectuaisdaCapital,ampliandoasinformaçõeseabrindo
ointercâmbio.OMuseu,decertaformacontribuíapara
animaropanoramaque,ajudadopelaefervescênciade
criaçãonoutrasáreas,formavaaoseuladooconjuntode
atividadesquemarcaramprofundamenteacultura
paraibanadaípordiante.EmJoãoPessoa,sobaliderança
deRaulCórdula,quemaisumavezdeixaraCampina
Grande,BrenoMattos,GuyJoseph,MardemRolim,Cleófas
Leonan,UnhandeijaraLisboa,PontesdaSilva,Régis
Cavalcanti,JoséLucena,FlávioTavares(jovemartistaquese
revelava)eMigueldosSantos,formavamogrupodos
principaisartistasjovens.Juntavam-seaosmesmosos
poetasecompositoresdoGrupoSanhauá:MarcusVinícius,
AncoMárcio,SeverinoMarcos,SérgiodeCastroPinto,
CarlosAranhaeMarcosdosAnjos.Asvisitasaexposiçõese
ateliêsterminavamsempreemnoitadaspoéticasetinham
comopontodepartidaobrigatórioaChurrascariaBambu,
naLagoa,ondegeralmente,àmesadoescritorVirgíniusda
GamaeMelo,sereuniaestageraçãodejovenseoutros
intelectuaisdaterraparadiscussõesintermináveisde
estéticaepolítica.Àsvezes,oEquipe3,porintermédiode
Anacleto,queestudavaemRecife,sedeslocavapara
encontrosdestanaturezaemPernambuco,quasesempre
comJomardMunizdeBrittoeoutrosintelectuaiseartistas
queatuavamentreRecife-Olinda.”
Algunsmesesdepois,em20deoutubrode1967,era
inauguradoemCampinaGrandeoMuseudeArteAssis
Chateaubriand,numagrandefestapúblicacomapresença
depersonalidadesdomundopolítico,empresariale
culturaldetodasasregiõesdopaís.“Entreosconvidados,
estavamoscríticosMárioPedrosaeMárioBarataeos
artistasRubensGerchman,AlexandreFilho,AnnaMaria
Maolino,ogregoGaitis,EmericMerciereAntonioDias,que
retornavaàsuaterranataldepoisdequase10anos.O
Museu,porforçadoacordoestabelecidoentreaCampanha
dosMuseusRegionais(leia-seAssisChateaubriand)ea
PrefeituradeCampinaGrande,seriageridopelaFundação
UniversidadeRegionaldoNordeste(FURNe)coma
condiçãodepreservá-loedinamizá-locomoinstituição
universitária,etambémficouacertadoanexaraomesmo
umagaleriadearteparaexposiçõesperiódicas,voltada
principalmenteparaaartelocal.”,afirmaoartistaeexdiretordoMuseu,ChicoPereira.
Sevoltarmosaoanode1957,vamosencontraroainda
meninoChicoPereiracomoalunodepinturaedesenhoda
EscoladeArtedeCampinaGrande,dosprofessoresJorge
Nessemesmolocal,simultaneamenteàrecepçãopública
Miranda,PedroCorrêaeNourivalGonzaga.Eraalgoraro‒o
doAcervo,foiinauguradaumaexposiçãocoletivacomos
ensinodearte‒numacidadequenãotinhaqualquer
artistasmaisrepresentativosdaartecampinense:Raul
referênciaoutradiçãonasartesplásticas‒comoabordara
Córdula,EládioBarbosa,AnacletoElóieChicoPereira.
AnacletoElóiemseudesabafopublicadonoDiárioda
Borborema‒excetoapinturadoforrodaCatedraldeNossa
AinauguraçãodoMuseu,alémdeserumagrande
SenhoradaConceição,executadaporMiguelGuilherme,
conquistaparaacidade,ofereciaapossibilidadedese
pintornascidoemSumé,noCaririparaibano.Essaobra,que
enxergaralémdoshorizonteslocais.Foi,defato,oprimeiro
viriaaserdemolidaem1963porrazõesinexplicáveis,era
contatocomaartebrasileiradosúltimoscemanoseo
paraChicoPereiramotivodedeleitequandofrequentava
comseupaiasmissasdedomingo.AobradeMiguel
despertar‒peloacervoestrangeiro‒dasquestõesestéticas
Guilhermeeraumbeloconjuntodepaineisdistribuídosna
contemporâneas,permitindoapartirdaí,umareflexãomais
navedaigrejaenassuaslateraise,curiosamente,emmeio
aprofundadadoprocessocriativoeapontavasobreoque
àscenasbíblicasestavamváriasfigurasdasociedadelocal
fazerparaumaatualizaçãoadaptadaàscondiçõesculturais
daregião.
22 retratadaspeloautornumestiloquaseingênuo.
Aolongodosprimeirosanosdadécadade60,éimportante
pontuaralgunspoucoseventosdeartesplásticasem
Campina.Apesardepoucos,elesforammarcantesparaa
juventudequealmejavaalgumaatuaçãonaáreaartística,
incluindoaíosjovensartistasdoEquipe3.Vejamos:logo
em1960,novembro,aconteceaexposiçãocomartistasde
JoãoPessoa‒ArchidyPicado,RaulCórdula,PontesdaSilva,
LeonardoLealeIvanFreitas‒maisocampinense,Flávio
BezerradeCarvalho,naFundaçãoparaoDesenvolvimento
daArte,CiênciaedaTécnica(Fundact).Amostratinhapor
objetivodifundirumaartemais“contemporânea”e
aproximarosartistasdasduasmaiorescidadesdoEstado,
notadamentetrazerobrasmaisinstigantesvistoque
vingavaemCampinaGrandeumaproduçãoainda
acadêmica.E,noanoseguinte,ocorreumaexposição
promovidapeloDiretórioAcadêmico,daEscolade
Economia,duranteaISemanadeCulturaUniversitáriade
CampinaGrande,comaparticipaçãodeartistaslocais,de
todasaslinguagensetécnicas.Eládio,FlávioBezerrae
ChicoPereirareceberampremiaçãonesteevento.
ValeaquilembrardacriaçãodaAssociaçãoCampinense
Pró-Arte,entidadequedurantequasequatroanos
movimentouopanoramaculturaldacidade,mais
efetivamentenaáreadamúsicaerudita.APró-Arte
promoveudiversosconcertoserecitaisetambémoensino
damúsica.Foidefatoaprimeiraentidadevoltada
especificamenteparaaculturacomtodososaspectos
legaisparafuncionar,inclusivecomregistronoMec.APróArteampliousuasatividadescomcursosdedança,por
exemplo,emesmoassim,comtodooesforçodosseus
dirigentes,nãoconseguiusobreviverpelomesmomotivo
daEscoladeArte:faltadeapoiooficial.Oanode1964
trouxediversosacontecimentosquemodificaram
profundamenteavidadacidade.Asmudançaspolíticas
ocorridasapartirdo“31deMarço”abalaramasrelaçõesde
suaeconomiaquepraticamentesesustentavanocomércio.
Arestriçãodecrédito,aseveravigilânciadosistemade
descontobancárioeaausênciademoedacorrente,
somando-seàcassaçãodosdireitospolíticosdealguns
“líderescomunistas”provocougranderebuliço,exatamente
noanodoprimeirocentenáriodacidade.
“Foinomeiodessaconturbaçãoedafaltadehorizontes
maislargosparaacuIturaquesecriou,tendoemvistaos
festejosdos100anos,aComissãoCulturaldoCentenário,
constituídaporintelectuaisepessoasdenotoriedade,com
afinalidadedecoordenarasatividadesartístico-culturais,
objetivamenteaediçãodedocumentoselivros,exposições
dearte,atividadesmusicais,asartescênicase,
principalmente,adescobertadevaloreslocais.Essa
ComissãofoimaistardetransformadaemComissãoCultural
doMunicípioeseresponsabilizoupordiversasedições
históricaseliterárias,entreelasoJornaldeArte,coletânea
decrônicasecríticasdeartedeRubemNavarra²,
pseudônimodeRubemAgraSaldanha,numahomenagem
aessecampinensequejuntoaMárioPedrosaeAntonio
Bento,tambémparaibanos(sic),formamogrande
pensamentodacríticadasartesplásticasbrasileiras.”,
escreveChicoPereiraemartigopublicadonolivroOsanos
60‒RevisãodasartesplásticasnaParaíba(Mec/Funarte,
UFPB,1979).
23
Desde1963,estavaemfasefinaldeconstruçãooTeatro
Municipal.Antesmesmodasuaconclusão,foioficialmente
inaugurado,considerandoqueistocoincidiacomaposse
donovoprefeito.Oteatro,apartirdaí,mesmo
precariamente,transformou-senoprincipallocalparaas
manifestaçõesculturaisdacidade.Emoutubro,mêsde
aniversáriodeCampinaGrande,realizou-sedurantea
programaçãooficial,aExposiçãodeArtedoCentenário,
reunindoobrasdealunoseprofessoresdaEscoladeArtee
artistasdeJoãoPessoa;entreestesajovemCeleneSitônio,
nasededaFundact.Nesteperíodotrêsacontecimentosirão
marcardefinitivamenteavidaculturaldacidade:oCinema
deArtedoCineCapitólio,criaçãodosjovensLuisCarlos
VirgolinoeHamiltonFreire,que,comaexibiçãodeclássicos
“dahora”‒comoasobrasdeGlauber,Pasolini,Bergman,
JohnFord,Fellini,Lattuadaentreoutros‒propõeum
programadeinteressecríticoqueuniuintelectuaise
aficionadospelasétimaarte,nosmoldesdeumcineclube,
chegandoaprovocardeliciososdebatessobreestéticae
vanguarda.OutroeventofoioISalãodeFotografia,nohall
dorecéminauguradoTeatroMunicipal,sobacoordenação
deMachadoBitencourteJoséClementino.Eestafoia
primeiraveznacidadequesemostroufotografiaquenão
fosseapenas“retratoepôrdosol”.Tambémfoicriadoo
TeatroUniversitárioCampinense,sobaorientaçãode
WilsonMaux,motivadopelaexistênciadonovoTeatro.
Foinesseano‒1965‒enovamentenohalldoTeatroque
ChicoPereirainaugurousuaprimeiramostraindividual,
Artedascoisas,comgrandesucessodepúblicoedevenda.
Umasemanadepois,ojovemcríticopernambucano,
JomardMunizdeBritto,apresentavaoespetáculoFestival
BossaI,sobacoordenaçãodeAnacletoElói,jáestudante
deBelasArtesemRecife.Oeventoserviudeligação
definitivaentreosartistasdeCampinaeRecife-Olinda,
culminandocomapresençadosparaibanosnolançamento
doManifestoTropicalistade1967,queteveapresençade
GilbertoGileCaetanoVelosoemRecife.
Em1966,foicriadaaUniversidadeRegionaldoNordeste,
maisumespaçoparaadiscussãoculturalnacidadee,ao
mesmotempo,somando-seàUFPB,tornavaCampina
GrandeumpólodeeducaçãosuperiornoNordeste.Neste
mesmoano,aconteceuasegundaediçãodoSalãode
Fotografia,destaveznohalldoEdifícioJabre,queprestava
homenagemaoscriadoresdoCinemadeArte,Virgolinoe
Hamilton.Nascomemorações,numafazendapróximaà
ObraTriálogo,doEquipe3,1967(Foto:MachadoBitencourt)
cidade,faleceu,porafogamento,ojovemhomenageado,
LuisCarlosVirgolino.Atragédiaabalouosjovensartistase
intelectuaiselevou-osacriar,diasapóseemsua
homenagem,umafundaçãocultural(comseunome)que
passouapromoverváriasatividadesnasáreasdoteatro,
cinema,artesplásticas,música,literaturaetc.
Calmon.O[jornal]CorreiodaParaíbaemreportagemsobre
oacontecimentobatizou-ade“exposiçãoCHEouNãoCHE”
emalusãoàpresençadaimagemdoguerrilheiroGuevara
entretubosdekatchupderramado,numdostrabalhos.O
principalobjetodaexposiçãoeraumgrandetríptico
representandoumanaveespacial,amaisnovapesquisado
Equipe3,experiênciarealizadaapartirdeumaplantaem
escalareduzidaque,divididaemtrês,umaparteparacada
artista,foiampliadacadapedaçonospainéis,tendocada
artistarealizadoindividualmenteumaparte,
simultaneamentepassandodemãoemmão.Eraum
trabalhoinéditopelomenosnãoencontradoemnenhum
dossalõesougaleriasquevisitamos.
TranscrevoaquiodepoimentodeChicoPereirasobreas
“aventuras”doEquipe3,publicadonolivroOsanos60.
“Oanode1967foigratificanteparanósdoEquipe3.Já
vínhamosacumulandoindividualmenteexperiênciasem
participardeexposiçõesoficiaisemváriaspartesdoBrasil,
comprovandoanósmesmosapossibilidadede
extrapolarmosacondiçãodeartistaprovinciano.Nossa
preocupaçãoserevestianodesejointimoemfazerexplodir
todaaenergiaacumuladapelasexperiênciaspráticase
informaçõesobtidasnoscatálogos,revistasespecializadase
nasleiturasquenosaprofundavanasquestõesda
linguagemcontemporâneaquechegavamnointercâmbio
queseabrianoMuseuenoscontatoscomoutroscentros
decriação.
Nesseperíodojuntou-seanósumjovemartistaque
trabalhavacomobjetosmontadoscompeçasde
automóveiseformavacomesseselementosrepresentações
deórgãosdocorpohumano.EraAmaroMunizque,por
nossointermédio,passouafazerpartedomovimentoda
jovemarteparaibana.Paradefinirnossaposiçãodiantedo
público,lançamosnaexposiçãoummanifestoque
representavasinteticamentenossasideias.Machado
Bitencourt,quenaquelaépocaatuavanaimprensa,
escreveuumartigoqueexplicavanossotrabalhoeque
transcrevemosaquicomoilustração.
Talentusiasmonoslevounofinaldesseanoaempreender
umaviagemdecaráterartístico-culturalquepossibilitaria
umamelhorcompreensãodaartebrasileiraeinternacional.
Fixamosumroteiroestratégicoquenosligasseaoque
pretendíamossaber.VisitamosaBienalNacional[deArtes
Plásticas]emSalvador,oSalãodeBelasArtesdaPrefeitura
deBeloHorizonte,ascidadescoloniaisdeOuroPreto,
CongonhaseSabará;emBrasília,oSalãoNacionaldeArte
Moderna;noRiodeJaneiro,oSalãodeArteModernado
Mecequasetodasasgaleriasdearte;emSãoPaulo,
finalmente,visitamosoprincipalobjetivo:aIXBienal
Internacional,ondeEládioforaclassificadonaáreade
Desenho.NascidadeshistóricasdeMinasvimos
detalhadamenteacriatividadedoBarrocoedocolonial
brasileiroe,emBrasília,comsuaengenhariaurbanaeasua
arquiteturacontemporânea,relacionamosoBrasildo
passadoedopresente;emSãoPaulo,ocontatocomaarte
internacionalcompletounossavisãoparaoentendimento
daquiloquevivíamosenecessitávamoscompreender.
Devoltadaviagemjáera1968.Emmarço,maisumavez,o
Equipe3montouumaexposiçãoconjuntadetrabalhos
individuaisedogrupo,nagaleriadoMuseu,denominada
ExpressãoColetiva.Foiabertanodia4peloSenadorJoão
Emmanifestodeabrilde1967,estegrupodeartistas
plásticosassimfaziaaapresentaçãodeseuprimeiro
Triálogo:
Desdeentãooutrasobrasforamrealizadas,masaquelas
ideiaspermaneceramcomoelementocomumatodoo
processocriativosubsequente.Seusautoressentem,a
cadadiaquepassa,oquantooseutrabalhoéparaeles
viáveleoportuno,queestasimagenscriadasaseis
mãoscorrespondemaumarealnecessidadede
pesquisadecadaum,aumacuriosidadeesobretudo,a
umavontadedefazerjogolivremaisdoque
propriamentefazerArte.
Ocuriosoéqueasrealizaçõesdestestrêsartistasem
nadaseassemelham.Nasocasiõesemqueexpõemseus
trabalhosindividuais(IBienalNacionaldeSalvador,III
SalãoNacionaldeArteModernadoDistritoFederal,IX
BienaldeSãoPaulo,SalãoEssodeArtistasJovens,
MuseudeArtedeCampinaGrande)ficapatenteas
divergênciasnasconcepçõesenosresultadosobtidos.
24
Atualmente,maisdoquenunca,essasdiferençasse
fazemsentir:Anacletocompõequebra-cabeçasejogos
depeçasparamontar;osdesenhosdeChicosãoum
amontoadoaparentementecaóticodefiguraseobjetos,
gravatas,batmans,peçasíntimasdovestuário,chapéus,
guevaras,bengalas,bandeiraserótulos.Easpalavras
queEládiousaparadefiniroqueelefazservetalvez
comoumaapresentaçãodaobradostrêsnopoucoque
elatememcomum:ʻSeeufaçoessesdesenhosépor
quequerocriarimagens.FazerArte‒pelomenosno
sentidoqueapalavrateveatéagora‒nãoéminha
principalpreocupação.Usoumdeseusprocessos,o
desenho,deumamaneiramaisoumenosortodoxa
simplesmentepelofatodequetalprocessotornou-se
maisfamiliardoquequalqueroutro,apresentando
portantomaioresfacilidadesnafabricaçãodeminhas
imagensʼ”.
VoltandoaoMuseudeArteAssisChateaubriandque,soba
coordenaçãointerinadeMiriamAsfora,promoveuaIFeira
deArtePopulardoNordestecomoobjetivoderompero
aspectoelitistaquevinhatomandoaquelainstituição
artística.Durantemaisdeumasemana,artesãos,artistas
populares,poetaserepentistas,semisturaramcomasobras
dosfamososartistasclássicosecontemporâneoseàs
conferênciasepalestrassobrefolclorequealiserealizaram.
OMuseurompiaassimatradicionalilusãode“templode
arte”eseintegroudefinitivamentenacomunidade.Outras
manifestaçõessesucederamdurantetodoanoentreelas
umaexposiçãodeArteSacra.AEscoladeArtequevivia
seusúltimosdiassobadireçãodoProf.Miranda,inaugurou
nagaleriadoMuseuumaexposiçãocomseuspoucos
alunos.LogodepoisaUniversidadeRegionaladquiriuo
patrimôniomóveldaquelaEscola‒cavaletes,mesasde
desenho,modelosdegessoesuabiblioteca.Foiumfim
melancólicoparaumadasinstituiçõespioneirasdoensino
artísticonaParaíba.Naverdade,erapretensãoda
Universidadeutilizaresseacervoparafazerfuncionarno
Museuumsetordeensinodearteeporissofoiincluídona
“negociação”aincorporaçãodopróprioprofessorMiranda
aoquadrodepessoaldoMuseunafunçãodeconservador.
Outroevento,queantecedeuhápoucosdiasda
inauguraçãodoMuseuequemereceregistroespecial,foia
aberturaoficial(16/09/1967)dagaleriaFaxeiroObjetosde
Arte,deFranciscoDuarte,comobrasdoEquipe3eas
presençasdeAntonioDias,RubensGerchman,Solange
EscosteguyeMárioPedrosa.Apesardeconsideradaatitude
dodeslumbramentoqueviviaaartelocal,issobem
demonstraasuacapacidadedecompreensãodoquese
passavanaartebrasileira.
Nestaépoca,anos60-70,aartecontemporâneanopaíspõe
contraaparedeasideiasestatusquodoModernismo,
abrindo-seaexperiênciasculturaisasmaisdiferentes.Daí,
instalações,happeningseperformancessãoamplamente
realizados,apontandoparanovasorientaçõesdaartecomo
“linkar”acriaçãoartísticaàscoisasdomundo,ànaturezaeà
realidadeurbana.Aíasobrassearticulameseinterligam
emtodasasmodalidades:dança,música,pintura,teatro,
escultura,literaturaetc.,pondoemchequeasclassificações
habituaiseaprópriadefiniçãodearte.Arteevidacotidiana,
assimcomoorompimentodasbarreirasentrearteenãoartesãoasprincipaispreocupaçõesdomomento,
atentandoparaaçõesecategoriascomoaperformance,
happening,arteambiente,artepública,arteprocessual,
arteconceitual,landartetc.,queremontamàsexperiências
realizadaspelossurrealistasesobretudopelosdadaístas.
Muitosoutrosacontecimentos‒exposições,happenings
etc.‒seseguiramapartirdaatuaçãodosartistasdoEquipe
3emCampinaGrande,semprecarregadasdenovidades
estéticasepolíticas.E,finalmente,em1969,équeentraa
encomendadoreitordaURNe,EdvaldodoÓ,paraChico
PereirarealizaropainelTropicália,objetodesteartigo.
Mesmocomoafastamentodoreitornoandamentoda
execuçãodopainel,houvecontinuidadedaobrae,ao
mesmotempoemqueoartistaeraelevadoàfunçãode
novodiretordoMuseudeArteAssisChateaubriand.Oque
aquitorna-serelevantedestacaréocaráterconceitualda
obra,sugeridoporEdvaldodoÓaoencomendá-laaChico
Pereiraonde,elepróprio,afirma,em1979,nolivroOsanos
60:“Opaineldeveriaserumaobradereferênciadaartedos
anos60,umdocumentovisualqueregistrasseparaa
posteridadeasnovaslinguagensestéticasquesurgiamea
décadaqueiacomeçar.Porinfluênciadomovimento
Tropicalista,aobrarecebeuumafortedosagempictóricade
colorismointensoedosquadrinhos,naépocadespontando
sobacríticadeumarevisão,participaçãodeseusheróis
maculadospelassituaçõescriadasnacomposição”.
Realmente,vemosnaobra,inauguradaem1969,as
alegorias,símbolosesignosdaPopArt‒comoosheróis
dasHQʼs:Super-Homem,Fantasma,BatmaneMandrake‒
25 alémdasimagensdeumastronautanoespaço(ligadoaum
cilindrodearcomprimidoseguradopeloSuper-Homem),
outroastronautacomgarfoefacaemsuasmãos,um
videocassete,váriossinaisdetrânsitoesímbolosgregos,
fotogramasdeumaescovadedenteseumavistadaTerraa
partirdaLua.Também,umaestradaasfaltadanoaltoda
obra,umamulher“tropicalista”,floresefrutasestilizados
(comousodoestêncil),acabeçadeumaáguia(osEstados
Unidos?)eumautorretratoemnegativo(essafoia
“assinatura”doartistanaobra).Nocantoesquerdouma
placacomosdizeres“Quemandacomatenção,evita
acidentes”...TudosobumcéuazultípicodeCampina
Grande.
Peloquefuiinformado,ocineastaRômuloAzevedoestá
produzindoumvídeo-documentáriosobreaobraque
continuaabertaàvisitaçãodopúbliconestemesmoprédio
‒construídonogovernodePlínioLemos,em1957‒,onde
tambémfuncionavaajácitadaEscoladeArtedeCampina
Grande(doProf.Miranda),abrigououtroscursos
universitáriosehojeofuncionaoCentroArtísticoCultural
daUEPB,queofereceàcomunidadecursosdedançade
salão,teatro,música,sanfona,pintura,desenho,balletetc.,
naruaGetúlioVargas,portrásdosCorreios,centrode
CampinaGrande.
ManifestodoEquipe3
PartimosdoprincípiodequeaArteéumaexpressãoem
totalidade,particularmenteemnossoséculo,dasdiversas
tendênciasemanifestaçõesdecaráterestéticodeuma
comunidade.Situamo-nosnumaregiãoondeoscontatos
comosmaiorescentrosdopaíssãodeacessodifícil,
quandonãoalgumasvezesimpossível,eestenosso
trabalhoécaracterizadoporumarespostaaonossomeio
ambientenoqueelenosagrideemsuaestruturacarcomida
pelosubdesenvolvimento.Anossaexperiência,
individualmente,assemelha-seefoimotivadoraparaeste
trabalhoqueresumeasnossasaspirações,comootema,e
asnossastécnicas,comodiversidade.Cada“unidade”do
trípticofoitrabalhadapelostrêsartistasdeumamaneira
quasesimultânea.Sendoporsuapróprianaturezaum
trabalhoquenãodeixamargemavirtuosismos,foi
permitidaacadaartistaumatotalliberdadenaescolhadas
técnicasaseremempregadas.Ficou,apenas,comoponto
dereferência,ointuitodeseobterumaformadeexpressão
coletiva,aexemplodoquejáhaviasidotentadonosjogos
automáticosdepalavrasdosdadaístaseprimeiros
surrealistas.Comopesquisa,estetrabalhoseriavaziosenão
mostrasseumcaminhoasertrilhado:oda
expressão/comunidade,arte/multidão.Énosso
pensamentoque,semferirseusfundamentaisobjetivose
princípios,ocampodasartesplásticasseriaenriquecido
pelotrabalhoemconjuntodeartistasdeumacoletividade.
Iniciamoscomtrês,masesperamosresultadosidênticos
comquatro,cinco,dezoumuitomaisindivíduos
trabalhandoafimdeobteremnovasperspectivasnestes
domíniosdaexpressãoartística.
Enquantoovídeonãoficapronto,valeumavisitaaesta
obraquedeveriaserimediatamentetombadapeloInstituto
doPatrimônioHistóricoeArtísticodoEstadodaParaíba
(IPHAEP).Ficaoregistro!
DyógenesChaveséartistavisual,designertêxtilemembroda
ABCA/AICAedoColegiadoSetorialdeModa/SEC/Ministérioda
Cultura.ÉprofessordocursosuperiordeModa/Unipê.Autordo
livro2005-2010:ensaiossobreartesvisuaisnaParaíba(Programa
BancodoNordestedeCultura,2ou4Editora,2013)edoDicionário
dasArtesVisuaisnaParaíba(FMC,EdiçõesLinhaDʼÁgua,2010).
OrganizouolivroNúcleodeArteContemporâneadaParaíba-NAC
(ColeçãoFaladeArtista/EdiçõesFunarte,RiodeJaneiro,2004).
EditorgeraldaSegundaPessoa.
Notas
1ApósviveremNovaYork,ondecursaartesgráficasnoPratt
Institute,entre1982e1983,AlexVallauri(1949-1987),considerado
artistapioneirodoGrafitenoBrasil,em1985,apresentaasérieA
RainhadofrangoassadonaBienalInternacionaldeSãoPaulo.
2AobradeRubemNavarrasobreoBarrocomineiroeo
Modernismo(alémdecrônicas,algumasaindainéditas),compõe
umapanhadodamaiorimportânciaparaoestudoea
compreensãodaartebrasileira.Infelizmente,épouquíssimo
conhecidoatéemsuaterranatal,CampinaGrande.
CampinaGrande,18deabrilde1967.
EládiodeAlmeidaBarbosa
FranciscoPereiradaSilvaJr.
JoséAnacletoElóideAlmeida
Fontesprimárias
EntrevistacomFrancisco(Chico)PereiradaSilvaJúnior,João
Pessoa,emoutubrode2013.
Referências
CÓRDULA,Raul.SILVAJÚNIOR,FranciscoPereirada.OsAnos60:
revisãodasartesplásticasdaParaíba.JoãoPessoa:Funarte/UFPB,
1979.
SILVAJÚNIOR,FranciscoPereirada.Memóriaseanotações.João
Pessoa:Grafset,2012.
SILVAJÚNIOR,FranciscoPereirada.Paraíba-MemóriaCultural.
JoãoPessoa:Grafset,2011.
26
PainelTropicália(restaurado),RestaurantedaFURNe(hojeUEPB),CampinaGrande,1969
(Foto:ChicoPereira,2013)
AlípioeAntonioDias,FranciscoDuarte,MárioPedrosaeGerchman,inauguraçãodagaleria
Faxeiro,1967(Foto:MachadoBitencourt)
PainelTropicália,detalhesdaobraedarestauração,2013(Fotos:RafaelSoareseChicoPereira)
ChicoPereira,ParquedoIbirapuera,SãoPaulo,1967(Foto:EládioBarbosa)
27
Alinguagemea
transgressãodaveste
Almandrade
[email protected]
“Otrajevesteahistória”
LuizXIV
oestilodouniformeassociadosàsprofissões,crenças,
identificaçãodeclasse,estaçõesdoano.Podeminformaro
destinodousuário,acadalugarumcódigoouumestilo.
Aroupadesdesuaorigemfoideterminadapela
necessidadedeabrigoeaparênciaparaocorpocomoa
arquitetura,desdeostemposdacavernaqueohomem
criouhábitosdepintarocorpooufazerusode
indumentáriasconfeccionadascompelesdeanimaispara
expressarseudesejodepodereexibição.Avesteeseus
acessóriossãomeiosdecomunicaçãoqueespelhamo
modelosocial.Amodaéumalinguagemsimbólicaque
ultrapassaasuafunçãodeproteçãoparasignificaro
indivíduonasociedade,éumaespéciedeidentidadeque
faladesuacondiçãoe/ouopçõessocial,profissionale
sexual.Emtodasasépocasaroupa,alémdesuafunção,
explicitousignificados,comoumaembalagemqueprotege,
embeleza,decoraeidentificaoproduto.Comsuascorese
estilos,avestimentaéumsignoeumdispositivoda
condiçãosocialeculturalatravésdoqualohomematende
suasnecessidadesdecomunicaçãoeexpressão.
Aroupaalémdeser“umaextensãodapele”(McLuhan)é
tambémumanecessidadedeconsumocriadapela
publicidadedaetiqueta.WaldemirDias-Pino,umdos
criadoresdapoesiaconcreta,fazrelaçõesentreosmodelos
daroupaeasformasdaarquitetura:ohomemmodernode
calçaepaletócomoarranha-céu,atangadoíndioeapalha
quecobreataba,oárabesevestecomaformadeuma
tenda,ajaponesacarreganasmangasdovestidoasformas
dosbeiraisdeseustelhados.
Amodadovestuárioaproximou-sedavanguarda,no
processodasrevoluçõesnaslinguagensartísticas,cada
épocatemassuasvesteseelasintegramoindivíduoao
meioambientesocial,cultural,tecnológicoeaogrupo
social.Amodapodeacentuartambémadivisãodeclasses,
ouaocontrario,participardascontestaçõessociais.Comos
Beatles,oTropicalismoeoshippiescomumestilo
naturalistadescontraído,nosfinaisdadécadade1960,a
roupatinhaumsentidocrítico,emaparentecontradição
comamodacorrente,impostapelaindústriadamoda,
produtodarevoluçãoindustrial.
Asobrasdeartedopassadosãooprincipalmeiode
informaçãodocorpoesuasindumentárias.Grandes
retratistas,comoVelásquez,naEspanhadeFelipeIV,
registraramnassuaspinturasamodadeseutempo,
quandoretrataramosnobresesuacorte.EmVelásquez
podemospercebercomoopretoeraacorpredominante
paraambosossexos,veludoscomornamentosdepratae
ouro.Overmelhotambémumacorfavoritaeobrancoera
usadoemrarasocasiões.Noocidente,surgeduranteo
Renascimentooconceitodemoda,quandoointeressepelo
trajedeixadeserumanecessidadepuramentefuncional
paraafirmarposiçõeshierárquicasdepoder.
Apartirdamodernidadedesignerseartistasinteressam-se
emdesenharroupaseobjetosutilitáriosqueatendamà
funcionalidadedomundomoderno.Artistastransformama
roupaouoatodevestiremobjetodesuaexperiência
artística.Osconstrutivistasrussoscriaramaroupado
trabalhador,cujaprincipalpreocupação,eraa
funcionalidade.OprofessordaBauhaus,JohannesIttens,
desenhouumaroupaparaserusadapelosseguidoresde
umadoutrinadevida,criadaporele,quetinhacomo
objetivoaperfeição.Osfuturistasitalianospregavama
necessidadedeumaroupaconfortável,prática,agressiva,
ágilealegre,decoradaeventualmenteporlâmpadas
elétricas.
RolandBarthesesuasemiologiadamoda,faladaexistência
deumalínguadovestuário,postuladaemescritorescomo
Balzac,ProustouMichelet.ParaBarthes:“Amodaéuma
combinatóriaquetemumareservainfinitadeelementose
deregrasdetransformação.”Umalínguafaladaportodose
aomesmotempodesconhecidadetodos.Aroupanãosó
protege(função),informa,embeleza,contesta(significa),na
condiçãodeumfenômenosemióticofaladeseuusuário.
Aleituradavestimentamostraamultiplicidade,diferenças
econtradiçõesdasociedade.Valoresculturaisecondições
econômicasdeterminamasopçõesdofigurino.Existem
sistemasdecodificação,taiscomo:acor,otipodetecidoou
28
Ossurrealistasedadaístasposicionaramironicamente,
apropriaram-sedaroupacomouminstrumentode
transformaçãodalinguagemdaarte.MarcelDuchampque
jáhaviaposadocomoRroseSélavyem1921numaprática
de“ready-made”.Em1938,numaexposiçãoemParisvestiu
ummanequimfemininocomchapéu,paletó,colete,
gravataesapatosmasculino.
NoBrasil,algumasexperiênciassãopioneiras,
principalmentenaobradedoisartistas:FláviodeCarvalhoe
HélioOiticica.EmumamovimentadaruadocentrodeSão
Paulo,em1956,oarquitetoeartistaplásticoFláviode
Carvalho,autordacolunadoDiáriodeSãoPaulo“AModae
oNovoHomem”,desfiloucomsua“indumentáriado
futuro”,poreledenominada“NewLook”.Vestindocom
meiasrendadasdebailarina,saiote,blusadenyloncom
aberturaslaterais,oartistalançouonovotrajeparaoverão
dostrópicos,provocoupânicoeescândalonapopulação.
Artista,arquiteto,engenheiroeescritor,Flávio,um
personagemexcêntriconahistóriadaartebrasileira,
apelidadode“divinolouco”,nãoteveaindao
reconhecimentoàalturadoseutalentopornossomeio
cultural.
DesenhodeFláviodeCarvalhoparaoseutrajedeverão,NewLook,1956
Nadécadade1960,asexperiênciasdeHélioOiticicaeseu
envolvimentocomosambaresultaramemcapas
denominadas“Parangolés”.Propostasparao
espectador/participanteemlugardesimplesmente
contemplaracor,vestir-senela.Umaestéticadaexistência
enãodoobjeto/arte,ocorponãoéosuportedaobra.“O
objetivoédaraopúblicoachancededeixardeserpúblico
espectador,defora,paraparticipantenaatividade
criadora“.(Oiticica)
LygiaClarkesuas“máscarassensoriais”,queintegramafase
sensorialdeseutrabalho,aexemplodaobraqueconsiste
nummacacãoparaservestidoporumhomem,contendo
umzíperqueaoseraberto,eleretirauma“barrigagrávida“,
feitadeborrachacor-de-rosaededentrodessabarriga,
retiraumaespumadeborracha.Aopraticaressaoperação
“cesariana“,aspessoasexperimentamreaçõesmais
inesperadas.
Atéosheróisdashistóriasemquadrinhostêmsuas
identidadesgarantidaspelaveste.Essaembalagemque
envolveocorpoocupaumlugarnosistemadalinguageme
sualeituraéumanecessidadedomundocontemporâneo.
Comoformadecomunicaçãoéabordadaporváriasteorias
como:aantropologia,asemiologia,asociologiaeateoria
dainformação.
Experiêncianº3,deFláviodeCarvalho.FotopublicadaemOCruzeiro,1956
Almandradeéarquitetoeartistavisual.
29
rodolfo athayde
Lisboa,2012(Fotodacapa)
Barcelona,décadade1980
30
InstitutodosArquitetos,ladeiradoHotelGlobo,JoãoPessoa,1997(antesdarestauração)
expediente
SegundaPessoa
RevistadeArtesVisuais
Ano3,Número2‒Set-Out-Novde2013
Editor-geral|DyógenesChavesGomes(ABCA/AICA)
Jornalistaresponsável|WilliamPereiradaCostaDRT-PB792
Conselhoeditorial|DyógenesChavesGomes|Francisco
PereiradaSilvaJúnior|GabrielaMarojaJalesdeSales|
MadalenaZaccara|MariaCristinadeFreitasGomes|Paulo
Rossi|PauloSérgioDuarte|RodolfoAugustodeAthaydeNeto
|ValquíriaFarias|WilliamPereiradaCosta
Projetográfico|DyógenesChaves|2ou4
Fotografia|ArquivoChicoPereira|ArquivorevistaOCruzeiro|
ChicoPereira|MachadoBitencourt|RafaelSoaresPereira|
RodolfoAthayde|WênioPinheiro
Colaboradores|AgdaAquino|Almandrade|PauloRossi|Raul
Córdula|ValquíriaFarias
Impressão|UniGráfica
Contatosparaenviodeartigosecolaborações:
e-mail:[email protected]
2ou4Editora/RevistaSegundaPessoa
RuaProtásioPontesVisgueiro,111,Jardim13deMaio
JoãoPessoa-PB‒58025-680
Telefones:(83)3042.7979/8808.7877
www.segundapessoa.com.br
Osartigospublicadossãodetotalresponsabilidadedeseus
autores.OsinteressadosempublicarnaSegundaPessoa:
devemobservarasnormasdepublicaçãonositedarevista.
EstaediçãodeSegundaPessoa(ISSN2237.8081)foiimpressa
emdezembrode2013,naUniGráfica,utilizandoostiposda
famíliaKozukaGothiceCaslon,empapelpólen(90g/cm²),com
umatiragemde10.000exemplares,sobaresponsabilidadeda
2ou4Editora.
Este projeto foi contemplado com o Prêmio Procultura de Estímulo àsArtes Visuais 2010
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Ano 3, Número 2