ISSN 1982-1557 nº 7 - julho 2010 - ano 5 revista de pesquisa, ensino e extensão do CAp-UFRJ 1ª Jornada Acadêmica do CAp (parte 1) Entrevista Séries Iniciais Licenciatura, Pesquisa e Extensão Cerâmica leitura e escrita Futebol Biologia História Física Biblioteca Música Universidade Federal do Rio de Janeiro R eitor Aloísio Teixeira Vice-reitora Sylvia da Silveira de Mello Vargas P ró -reitor de Graduação Belkis Valdman P ró -reitoria de Pós-Graduação e P esquisa Angela Uller P ró -reitor de P lanejamento e Desenvolvimento Carlos Antonio Levi da Conceição P ró -reitor de P essoal Luiz Afonso Henriques Mariz P ró -reitoria de Extensão Laura Tavares Ribeiro Soares Centro de Filosofia e Ciências Humanas Decano Marcelo Macedo Corrêa e Castro Colégio de Aplicação Diretora Geral Celina Maria de Souza Costa Vice-Diretora Miriam Abduche Kaiuca Diretores A djuntos de Ensino Célia Brito Teixeira Gama Cristiane Madenelo de Oliveira Maria de Fátima dos Santos Galvão Marcos Vinícius Pimentel de Andrade Diretores A djuntos de L icenciatura, P esquisa e Extensão Leticia Rangel Maria Luiza Rocha Perspectiva capiana: Revista de pesquisa, ensino e extensão do CAp-UFRJ / Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. – ano 5, n.7 (julho 2010) – Rio de Janeiro: Cap-UFRJ, 2010 Semestral ISSN 1982-1557 1.Ensino Fundamental – Periódicos. 2. Ensino Médio – Periódicos. I. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Colégio de Aplicação. distribuição gratuita - venda proibida Editora Teresa Cristina Coutinho Andrade A ssessora de Edição Ana Crélia Dias P rodução Gráfica Juliana Montenegro Fotografia Silmar Marques R evisão Teresa Cristina Coutinho Andrade A poio Letícia Rangel Maria Luiza Rocha Fotolitos e I mpressão Stamppa Gráfica e Editora Tiragem 1.000 exemplares I lustração 3 Entrevista Letícia Rangel e Maria Luisa Rocha Diretoras Adjuntas de Licenciatura, Pesquisa e Extensão 8 Física Fizeau, Michelson e o tamanho dos objetos celestes Beto Pimentel 12 Música Canto Logo Existo Maria Alice Ramos Sena 16 Artes Visuais O projeto de ensino de cerâmica no CAp Luzia de Mendonça, Mariana S. Guimarães e Sandra Martins de Souza Juliana Montenegro Bolsista De I niciação A rtística e Cultural Juliana Montenegro Consultores T écnicos Ana Teresa C. C. de Oliveira | Instituto de Matemática UFRJ Cinthia Araujo | Faculdade de Educação UFRJ Deise Vianna | Instituto de Física UFRJ Isabel Cunha | CAp-UFRJ Kátia Araujo | CAp-UFRJ Marcos Vinicius Andrade | CAp-UFRJ Margarida Gomes | Faculdade de Educação UFRJ Mario Orlando Favorito | CAp-UFRJ Marlene Medrado | CAp-UFRJ Regina Meirelles | Escola de Música UFRJ 20 Educação Física Mercado de futebol, juventude e escola Antonio Jorge Gonçalves Soares, Hugo Paula Almeida da Rocha, Leonardo Bernardes Silva de Melo e Tiago Lisboa Bartholo 24 Biblioteca A ciranda da Biblioteca Ana Lucia Ferreira Gonçalves, Lucia Helena Arraes Martins, Leni Rodriguez Perez Fulco e Monica Atalla Pietroluongo 29 Séries Iniciais Leitura e escrita em tempos de Tecnologia da Informação e da Comunicação Lúcia Helena Gazólis de Oliveira e Sandra Amaral Barros Ferreira 33 História A perspectiva e ensino de História no CAp Alessandra Carvalho e Mônica Lima 36 Biologia Excursões de campo Fernando Guarino e Filipe Porto Versão online www.cap.ufrj.br/perspectiva 39 Aconteceu Editorial O presente número da PERSPECTIVA CAPIANA dedica-se à publicação de trabalhos apresentados na Primeira Jornada Acadêmica do CAp ( JACAP), realizada em maio deste ano, por ocasião do 62º aniversário do colégio. Na verdade, haverá dois números dedicados a esta Jornada: este e o próximo a sair em novembro deste ano. Nestas edições não teremos as tradicionais seções de memória, sem fronteiras e construindo pontes. Contaremos somente com as seções relativas aos setores curriculares, pois a voz dos professores do CAp, tanto tempo desejosa de um evento dessa natureza, acabou se espraiando por mais de uma edição. A JACAP ocorreu de 17 de maio a 21 de maio, quando então se apresentaram 25 trabalhos de professores, técnicos-educacionais, contando, inclusive, com a participação de alguns professores da Faculdade de Educação da UFRJ, parceiros do CAp, que trabalham com a Prática de Ensino em nosso colégio. O público, de natureza variada, entre alunos, professores e funcionários, acompanhou com avidez e curiosidade o evento. Aqui entrevistamos as professoras Maria Luiza Rocha e Letícia Rangel, diretoras adjuntas da DALPE (Diretoria Adjunta de Licenciatura, Pesquisa e Extensão), mentoras e organizadoras de JACAP. Elas não só nos apresentam as finalidades da jornada, como também fazem um histórico da diretoria da qual estão à frente, explicando suas diversas atribuições. A seguir, temos oito artigos de temática variada, que revelam as preocupações pedagógicas dos professores e técnicos do CAp e que, por sua natureza educativa, se consubstanciaram em projetos de ensino, pesquisa ou extensão, cobrindo um perfil múltiplo de investigações nas áreas da física, do canto, da cerâmica, do futebol, da leitura, da história, da biologia. Tamanha diversidade reflete significativamente o trabalho acadêmico de nossos professores e técnicos voltados para a melhoria permanente das questões que envolvem o trabalho educacional. Agora, aguardemos o próximo número, já no prelo. Nele haverá mais oito artigos apresentados em nossa primeira jornada acadêmica. Até lá! Teresa Cristina Coutinho Andrade editora [email protected] DALPE A Revista Perspectiva Capiana, nesse número em que se dedicou à publicação das pesquisas desenvolvidas pelos docentes do Colégio de Aplicação, convidou as Professoras Maria Luiza Rocha e Letícia Rangel – diretoras adjuntas de Licenciatura, Pesquisa e Extensão – para uma breve conversa sobre a DALPE e sobre a JACAp. entrevista Entrevista Perspectiva: O que é a DALPE? DALPE: A Direção Adjunta de Licenciatura, Pesquisa e Extensão é função exercida exclusivamente por docente efetivo, integrante da carreira de magistério de ensino básico, lotado no Colégio de Aplicação da UFRJ. Como o próprio nome indica, suas atribuições são relativas à organização, às ações e às disposições internas e externas que determinam a realização das Licenciaturas que têm seu estágio efetivado no CAp e o desenvolvimento de projetos de pesquisas ou de extensão que envolvam o Colégio ou sua comunidade acadêmica. Permeando essas atribuições, é objetivo da DALPE promover oportunidades de articulação das atividades de ensino, pesquisa e extensão dos professores do CAp, com outras unidades acadêmicas da UFRJ ou demais instituições de ensino. Atua também oferecendo suporte à Direção Adjunta de Ensino (Básico = fundamental e médio) e à Direção Geral na supervisão e administração escolar das atividades docentes e discentes relacionadas à Licenciatura (graduação, e mais recentemente também pós-graduação), criando oportunidades para divulgação dos trabalhos realizados, seja por meio de jornadas ou publicações. Perspectiva: Qual sua origem? DALPE: A Direção Adjunta de Licenciatura, Pesquisa e Extensão (DALPE) é a 3ª geração de uma função-atividade que vem recebendo modificações ao longo de 20 anos, desde que foi criada em 1990, resultante de discussões político-administrativas internas na unidade acerca da necessidade de aprovação, nas instâncias superiores da UFRJ, de um regimento interno definitivo para o Colégio de Aplicação. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 3 Silmar Marques entrevista Auditório durante apresentação do 1º dia de JACAP À época de sua criação, todas as funções-atividades de articulação do trabalho docente eram denominadas no CAp – coordenação. Assim, em conjunto com as 2 Coordenações Pedagógicas (COP – de EF e de EM) e a Coordenação de Atividades Escolares (CAE) que passaram a existir, foi criada a Coordenação de Licenciatura e Estágios (COLE), exercida pela Profª Mônica Lima e Souza, durante os 4 anos da gestão Manuela-Moacyr (1990-1993); tendo sido, logo em seguida, exercida, pela Profª Edilza Campos, na gestão João Freire-Ionilde (1994-1997). Acompanhando as frequentes discussões políticoadministrativas na unidade, que culminaram com a eleição da gestão Moacyr-Ana Lucia (1998-2001), todas as coordenações passaram a assumir atribuições de Diretorias Adjuntas, tendo sido criadas 3 delas, a saber, a Direção Adjunta de Ensino (DAE), a Direção Adjunta de Projetos e Extensão (DAPE) e a Direção Adjunta de Licenciatura e Estágios (DALE), função que passou a ser 4 exercida novamente pela Profª Monica Lima e Souza, e, logo em seguida, pela Profª Rosângela Souza, na gestão Militza-Izabel (2002-2005). Em 2005, novas discussões político-administrativas culminaram na eleição da gestão Celina-Miriam (2006-2009) e acabaram por criar um novo formato de Diretoria Adjunta que propunha a fusão das Diretorias de Licenciatura e a de Projetos e Extensão. Assim foi criada a DALPE que até hoje (2010) oferece apoio para o trabalho de licenciatura, em que estão envolvidos alunos da graduação e professores da UFRJ, sejam do CAp ou das demais unidades da UFRJ. Perspectiva: Quais são as funções da DALPE e como ela se organiza? DALPE: A DALPE exerce múltiplas funções de apoio e supervisão relacionadas a 4 áreas específicas do trabalho docente realizado no CAp. Para isso, ela (a) NALE – Núcleo de Apoio a Licenciatura e Estágio Este núcleo é responsável pelo cadastramento e acompanhamento das necessidades dos licenciandos, facilitando a aproximação das partes envolvidas para o melhor desenvolvimento do trabalho do estágio supervisionado, apoiando a interlocução entre os professores do CAp e os professores de Prática de Ensino da Faculdade de Educação ou de demais unidades da UFRJ que trazem estagiários para o CAp. Responsabilizam-se pelo trânsito dos registros semestrais sobre as atividades de licenciatura no CAp. Esses informam sobre a distribuição de licenciandos por turma, a orientação dos professores do CAp aos alunos de graduação que os acompanham e a consequente avaliação final do estágio supervisionado no CAp, desenvolvido pelos setores. (b) NAPE – Núclo de Apoio a Pesquisa e Extensão Este núcleo é responsável pelo apoio ao registro e acompanhamento dos projetos internos dos professores do CAp, oferecendo suporte aos bolsistas – PIBIAC, PIBEX, PIBIC - vinculados a esses projetos e a seus professores/coordenadores. Além disso, gerencia a chegada de projetos de pesquisa externos, que buscam o CAp como campo de estudo/observação/ pesquisa; agilizando a ligação entre os setores do CAp e os pesquisadores externos. Ultimamente, outra atribuição foi agregada a este núcleo – e que pode ser compartilhada com o núcleo de publicações – a de organização de evento acadêmico de divulgação do trabalho pedagógico do CAp, a saber a JORNADA ACADÊMICA DO CAp – JACAp, cuja primeira edição aconteceu em 2010. (c) NICjr – Núcleo de Iniciação Científica Júnior Este núcleo é responsável pela organização da seleção dos alunos de Ensino Médio que integrarão o corpo de pesquisadores juniores, junto ao Programa de Iniciação Científica Junior da UFRJ. A este núcleo cabe articular as vagas oferecidas pelos pesquisadores – inclusive de instituições de ensino superior ou de pesquisa externos junto aos alunos do Ensino Médio do CAp, interessados em participar do programa institucional. Organizam também a participação desses alunos em Congressos e Jornadas Científicas, onde os pesquisadores inscrevem seus trabalhos. Internamente, organizam a JORNADINHA NICjr que acontece todo início de ano letivo, final de março, como forma de incentivo ao desenvolvimento do programa e de estímulo aos candidatos em potencial, alunos que acabaram de ingressar no 1º ano do Ensino Médio do CAp. entrevista é assessorada por 4 Núcleos de Apoio, a saber: NALE, NAPE, NICjr e Publicações. Em cada um deles, há um funcionário responsável pelo desenvolvimento e acompanhamento do trabalho. São eles: (d) Núcleo de Publicações Este núcleo é responsável pela organização e distribuição das publicações acadêmicas do CAp. Por enquanto, como só temos apenas uma publicação coletiva – a Revista Perspectiva, a demanda de trabalho tem sido assumida pelo NAPE. Perspectiva: Poderiam nos contar um pouco sobre o desenvolvimento da Licenciatura no CAp-UFRJ? DALPE: O estágio supervisionado para os alunos dos Cursos de Licenciatura foi a razão primeira de criação do Colégio de Aplicação. Em 1948, quando foi fundado como órgão suplementar da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), para funcionar como laboratório de experimentação pedagógica, os professores do Departamento de Educação exerciam supervisão pedagógica sobre o trabalho desenvolvido pelos professores no CAp e seus alunos acompanhavam o curso a partir do estágio de Prática de Ensino e Didática Especial. Nesses últimos 62 anos, houve mudanças significativas no cenário político brasileiro que interferiram radicalmente no perfil das universidades brasileiras, espraiando-se para as relações institucionais internas. Muito simplisticamente (para caber nessa entrevista) a Universidade do Brasil passou a ser UFRJ; a FNFi foi dissolvida e várias unidades acadêmicas forma criadas, uma delas sendo a Faculdade de Educação; e, com a criação dos centros acadêmicos, em 1970, o CAp passou a ser órgão suplementar do CFCH. Essas mudanças políticas certamente forjaram um perfil de universidade que se objetivava em uma gestão descentralizada (com relação à reitoria), com autonomia parcial na implementação das metas acadêmicas. Essa necessidade de expansão e autonomia também atingiu o Colégio de Aplicação, e não é difícil entender que, de 1 turma em 1948, o CAp tenha crescido para 27 turmas, em 2010. Ainda não é o suficiente para atender a todos os cursos de licenciatura da UFRJ... mas essa é outra entrevista... julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 5 entrevista Assim também os Cursos de Licenciaturas e o perfil acadêmico do trabalho desenvolvido pelos sujeitos envolvidos no processo de formação inicial de professores de educação básica (FE + CAP + Institutos de origem) mudou na UFRJ, na FE e no CAp. Até a década de 80, os professores da FE exerciam a supervisão do trabalho pedagógico no CAp, funcionando mais ou menos parecido com o que hoje conhecemos como “coordenadores de equipe/setor”. A bem da verdade, o coordenador de setor nunca exerceu uma função de supervisão do trabalho interno, mas de facilitador/promotor das discussões e de catalizador das deliberações, uma vez que, em reuniões semanais/ quinzenais com seus pares, os professores do CAp avaliam o trabalho pedagógico a ser desenvolvido com os alunos do EB (EF+EM) e a ser acompanhado pelos licenciandos. Os currículos dos cursos de Licenciatura implantados na UFRJ, que seguiam o modelo 3+1, conforme legislação federal, vêm sofrendo reformas demandadas pela resolução do CNE de 2002. Parte do que certamente vai nos afetar é que a Prática de Ensino, expandida para 400 horas em 2002, será obrigatoriamente distribuída em 3 períodos, divididos em 100h, no 1º e 150h nos outros 2. Para o CAp, a entrada sistemática desse contingente de alunos para a permanência por mais de um ano, exigirá modificações. Nós sempre recebemos alunos que não tendo concluído retornavam, mas estes eram a exceção. Tornando-se a regra, o colégio teria de fazer ajustes no tipo de trabalho que desenvolve, estimulando o licenciando a cumprir 400h/ano em 2 semestres, o que significaria umas 13h/semana de atividade. Claro, tudo isso em acordo com a Prática de Ensino. Perspectiva: Quais são os planos e projetos da DALPE na atual gestão? DALPE: Iniciamos a gestão com a realização da JACAp. Acreditamos que a realização desse evento marca bem um dos nossos objetivos mais significantes, incentivar e apoiar o desenvolvimento de projetos de ensino, pesquisa e extensão e sua divulgação acadêmica, dando visibilidade ao trabalho desenvolvido pela comunidade acadêmica do CAp. Esse objetivo não é uma novidade, ele reflete o reconhecimento e a continuidade de ações que se inauguraram na gestão anterior. Acreditamos que o perfil docente e a vocação do CAp exigem da Direção um olhar muito atento para a produção acadêmica e suas necessidades. Hoje o CAp conta com um quadro docente de 78 professores efetivos (dos quais 18 doutores, 43 mestres e 14 com especialização) e 61 6 Iniciamos a gestão com a realização da JACAp. Acreditamos que a realização desse evento marca bem um dos nossos objetivos mais significantes, incentivar e apoiar o desenvolvimento de projetos de ensino, pesquisa e extensão e sua divulgação acadêmica... professores substitutos. Em breve, receberemos mais 20 docentes que, esperamos, ingressarão no CAp com ambições acadêmicas que se traduzirão em pesquisa e ações de extensão. É fundamental que o Colégio esteja preparado para acolher as demandas acadêmicas do seu corpo docente. Assim, é natural que um dos nossos planos seja consolidar a JACAp como um evento acadêmico e científico de qualidade. Em consonância com esse objetivo, a DALPE destaca seu compromisso com o incentivo, a promoção e o reconhecimento da atuação dos docentes do CAp na pós-graduação. Nesse sentido, a DALPE está presente à frente do Curso de Especialização Saberes e Práticas na Educação Básica (CESPEB), que conta com a participação dos docentes do CAp desde sua concepção e se desenvolve no espaço físico do Colégio. Esse trabalho, que teve início no ano de 2007, conta com a participação de 5 setores curriculares, que, além de atuarem em atividades didáticas, compartilham com a Faculdade de Educação a coordenação geral e a coordenaÇÇão de curso. É importante destacar que essa inserção na pós-graduação também atende ao compromisso do CAp com a formação continuada de professores. Atenta à importância dessas atuações, a DALPE planeja fazer o levantamento e o registro da O sucesso do evento se sustenta na qualidade da produção apresentada, registrada nesta edição da PERSPECTIVA CAPIANA, e no envolvimento de toda a comunidade capiana, com destaque para a participação importante dos licenciandos. entrevista participação dos docentes do CAp em cursos de pósgraduação diversos e em ações que visam à formação continuada de professores. Reconhecendo a importância e o valor da comunicação na ampliação de nossas perspectivas, planejamos estabelecer formas específicas para divulgar essas informações e experiências para toda a comunidade capiana. Perspectiva: Quais os desdobramentos da I JACAp ? Relativamente à licenciatura, destacamos o projeto de atualização dos procedimentos de registro da prática de orientação aos licenciandos. Acreditamos que, diante das demandas atuais da licenciatura, é urgente que estabeleçamos registros mais alinhados com os procedimentos do nível superior e que elaboremos uma planilha horária específica da licenciatura. Perspectiva: O que é a JACAp? Como nasceu a idéia? DALPE: A JACAp, antes de qualquer valor protocolar, é o NOSSO evento de troca e diálogo interno. É o momento que podemos focar nossa atenção na produção de pesquisa e extensão da nossa escola e olhar mais atentamente para o trabalho dos nossos colegas. Formalmente, é um evento acadêmico de divulgação do trabalho pedagógico e científico do CAp. A JORNADA ACADÊMICA DO CAp – JACAp, cuja primeira edição ocorreu durante a semana de aniversário do CAp deste ano, reflete um anseio desta Direção e de professores que perceberam de diversas formas a necessidade de um espaço específico para olhar a produção científica da nossa escola. É interessante observar que muitos professores tomaram conhecimento do trabalho desenvolvido por seus colegas de rotina escolar em eventos fora da escola, como a Jornada de Iniciação Científica, Artística e Cultural da UFRJ e o Congresso de Extensão da UFRJ e até mesmo fora do estado, no V SICEA realizado em Outubro 2009 em Belém do Pará. Acreditamos que a ideia da JACAp foi tomando forma a partir da escuta atenta às demandas da escola. Não dá para creditar a idealização do evento a uma só pessoa ou mesmo à DALPE. A ideia da JACAp é fruto da voz e da ação do corpo docente da escola. Sua realização, no entanto, foi organizada e gerenciada pela DALPE. Nessa tarefa foi fundamental o apoio das funcionárias Sandra Bragatto, no trabalho específico de organização do evento, Beatriz Costa e Andrea Farias, pelo apoio e pela parceria no serviço interno e o apoio técnico do funcionário Silmar Marques do setor de multimeios. DALPE: Acreditamos que a I JACAp inaugura uma série que tem tudo para ser marcada pela qualidade da produção apresentada e pela caracterização científica da escola. Ancorada em autonomia, autoria e autoridade, a Jornada Acadêmica do CAp reflete a especificidade e a importância do trabalho pedagógico e científico que é realizado pelo corpo docente e técnico dessa escola. É fundamental que esse evento seja aprimorado, reconhecido e ampliado. Neste momento, estamos trabalhando na avaliação da I JACAp e planejando a edição de 2011. Ainda não dá para dizer quais serão as propostas de mudanças para a próxima edição. No entanto, temos clareza de alguns dos problemas enfrentados na I JACAp, como o pouco tempo para as apresentações e a falta de um momento para reflexão coletiva e debate. Além disso, temos que lidar com outras questões que emergiram durante a realização do evento ou já haviam sido guardadas para serem pensadas para as futuras edições. É o caso, por exemplo, de demandas de infraestrutura e da participação dos estudantes do ensino básico. Acreditamos que o sucesso, a consolidação e o reconhecimento do evento dependem do envolvimento de todos os contemplados, assim estamos colhendo a avaliação da I JACAp de e as sugestões para as próximas edições para que possamos delinear a continuidade e os desdobramentos da JACAp respeitando os anseios da comunidade capiana. É importante registrar que, respeitando o caráter acadêmico e científico da JACAp, mas reconhecendo sua qualidade de adaptação às necessidades da escola, acreditamos que o evento veio para ficar e tem amplas possibilidades de desdobramentos... depende de TODOS nós! julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 7 física Fizeau, Michelson e o tamanho dos objetos celestes Primeiras Aplicações da Interferometria à Astronomia Beto Pimentel Uma das técnicas experimentais mais fecundas utilizadas pelos físicos é a interferometria óptica: em certas condições, duas frentes de ondas luminosas interferem uma com a outra em uma região do espaço onde formam então um padrão de raias claras e escuras – as franjas de interferência. As características deste padrão, ou seu comportamento quando características de um sistema físico ao qual está relacionado são alteradas, têm permitido aos cientistas medir com grande exatidão diversas grandezas físicas, desde meados do século XIX, quando a técnica foi inicialmente desenvolvida. Uma das aplicações mais impressionantes da interferometria foi a sua utilização para a primeira medição do tamanho de uma estrela, por Michelson e Pease em 1920, concluindo um processo que evoluiu desde 1868. 8 A Primeira Menção O físico francês Hippolyte Fizeau (1819-1896) teve um papel de destaque na Óptica do século XIX, sendo responsável por diversos experimentos importantes, como a primeira medição terrestre da velocidade da luz (1849), e por importantes desenvolvimentos nas técnicas interferométricas. Em 1868 Fizeau já era uma figura de grande prestígio na renomada Académie des Sciences. Era comum que a academia instaurasse competições para estimular a pesquisa de temas relevantes da ciência da época, e em 1867 o “prêmio Bordin” tinha Fizeau como relator. No texto do relatório, apresentado em 1868, Fizeau fez um comentário, en passant, de que “para a maior parte dos fenômenos de interferência (...) há uma relação notável e necessária” entre a visibilidade das franjas de interferência e as dimensões da fonte luminosa que as produz, e que, portanto, “é talvez permitido esperar que, apoiando-se sobre este princípio e formando-se, por exemplo por meio de duas fendas largas bem distanciadas, franjas de interferência no foco de grandes instrumentos destinados a observar as estrelas, será possível obter alguns dados novos sobre os diâmetros angulares destes astros 1”. Esta é a primeira menção a um método para a medição do tamanho de uma estrela. Antes de ver as conseqüências que teve esse comentário inusitado, vale a pena compreender o que Fizeau quis dizer e como seria um tal método na prática. O Método Em primeiro lugar vejamos o que é o fenômeno da interferência da luz. A mãe de todos os experimentos interferométricos é a experiência da fenda dupla de Young. Foi com ela que o polímata inglês Thomas Young (1773-1829) estabeleceu definitivamente o fenômeno da interferência da luz, em 1801. Uma fenda simples é utilizada para colimar a luz incidente, que a seguir incide sobre duas fendas idênticas muito estreitas e colocadas próximas uma à outra. Se colocarmos um anteparo à frente das fendas, poderemos observar um padrão alternado de franjas claras e escuras paralelas às fendas, correspondendo às posições onde a luz oriunda de uma e outra fenda interferem construtivamente, somandose (franjas claras), ou destrutivamente, subtraindose (franjas escuras), de forma análoga à qual as ondas formadas por duas pedras lançadas simultaneamente sobre a superfície de um lago tranqüilo interferem umas com as outras (Fig. 1). física Se, no entanto, o sistema da fenda dupla for iluminado também por uma segunda fonte de luz, de forma que a luz desta segunda fonte incida sobre as fendas formando um ângulo com a luz oriunda da fonte original, teremos um segundo padrão de franjas de interferência sobreposto ao primeiro, porém ligeiramente deslocado em relação a ele (Fig. 3). Fig. 3 – Dois padrões de interferência ligeiramente deslocados, correspondendo às fontes (1) e (2), sobrepostos um ao outro. Repare que, embora a soma (curva tracejada) não forneça mais valores nulos (franjas completamente escuras), as diferenças entre as intensidades máximas e mínimas ainda fornecem contrastes acentuados o suficiente para que as franjas sejam facilmente discerníveis. O deslocamento do padrão de interferência gerado pela segunda fonte decorre do atraso relativo com que sua luz chega a cada uma das fendas (Fig. 4). Fig. 1 – A experiência da fenda dupla de Young2 . Como cada onda tem um comportamento periódico cossenoidal, a intensidade luminosa combinada (I) em cada ponto y ao longo de uma linha vertical no anteparo pode ser dada pela seguinte função (Fig. 2). Fig. 4 – Atraso relativo na formação do padrão de interferência gerado pela segunda fonte, cuja luz chega à fenda dupla inclinada de um ângulo θ em relação à direção da luz da fonte original 4. Fig. 2 – Intensidade luminosa na experiência da fenda dupla, em função da intensidade I0 da onda oriunda de cada fenda, do comprimento de onda λ da luz, da distância s ao anteparo e da separação a entre as fendas3. Repare que este atraso está relacionado com o fato de que a luz da segunda fonte que alcança a fenda superior precisa percorrer uma distância um pouco julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 9 física maior que a que alcança a fenda inferior. Esta distância, para pequenos ângulos, é o produto do ângulo pela separação entre as fendas. Nas aplicações astronômicas, em geral não temos controle sobre o ângulo com que a luz chega até nós, mas certamente podemos variar a separação entre as fendas. Ao fazer isso, eventualmente pode-se fazer com que os máximos do padrão de interferência projetado pela segunda fonte coincidam com os mínimos do padrão de interferência projetado pela fonte original. O atraso Δt é dado por: onde c é a velocidade da luz. Caso as fontes tenham a mesma intensidade e o mesmo comprimento de onda, um atraso equivalente a meio período de oscilação T faz com que a superposição dos padrões de interferência gerem uma intensidade luminosa igual em todos os pontos, isto é, torna as franjas indiscerníveis (Fig. 5). A Evolução das Medições Em 1873 o astrônomo francês Édouard Stéphan (18371923) tentou aplicar o método sugerido por Fizeau no observatório de Marselha. Usando uma luneta comum guarnecida de duas fendas distantes 15 cm uma da outra, ele não foi capaz de obter qualquer resultado. No ano seguinte Stéphan mandou construir uma máscara com duas grandes fendas em suas laterais, distantes entre si 65 cm, para vestir no grande telescópio de 80 cm (Fig. 6). Mesmo assim Stéphan não conseguiu fazer com que as franjas desaparecessem para nenhuma das “belles étoiles”. Concluiu portanto que os diâmetros angulares aparentes das estrelas deveria ser no máximo de 0,158 segundos de arco. Fig. 6 – Extrato do artigo de Stéphan em que descreve a máscara utilizada no telescópio de 80 cm6. Fig. 5 – Perda de visibilidade das franjas. Isto ocorre para: Portanto, medindo a para quando as franjas praticamente não são discerníveis, obtemos a separação angular θ entre as fontes. No caso de uma estrela temos não duas fontes puntiformes, mas toda uma região circular emitindo luz em direção às fendas. A simetria no entanto permite aplicar um fator de correção5: Aparentemente o físico estadunidense Albert Michelson (1852-1931) reinventou o método, e em 1891 realizou testes de laboratório num sistema semelhante, dispondo de um telescópio de 12 polegadas (30,48 cm) e uma engrenagem com escala para que o observador pudesse alterar convenientemente a distância entre as fendas até que as franjas de interferência desaparecessem. Depois de alguns resultados positivos, Michelson utilizou-o para a medição dos diâmetros dos quatro maiores satélites de Júpiter, encontrando valores compatíveis com as médias de medições telescópicas7. O projeto entretanto não teve continuidade, em parte, especula-se, pela crença de que condições atmosféricas ruins poderiam afetar a visibilidade das franjas de forma a inviabilizar a medição de diâmetros estelares. Mas em torno de 1910 os trabalhos do químico e astrônomo dinamarquês Ejnar Hertzsprung (18731967) e do astrônomo estadunidense Henry Russel (1877-1957) levaram a uma relação entre a luminosidade de uma estrela e seu tipo espectral, o que permitiu uma estimativa dos diâmetros estelares. Isto reacendeu o interesse no projeto do interferômetro estelar de Michelson. Mas foi só em 1919 que Michelson, retomando seus testes com o interferômetro, estabeleceu que era possível obter franjas com boa visibilidade mesmo 10 Em dezembro de 1920, Michelson, trabalhando com Francis Pease (1881-1938), conseguiu finalmente medir o diâmetro de uma estrela. O alvo foi Betelgeuse, a gigante vermelha no ombro do Órion, para a qual o interferômetro de 100 polegadas, ajustado para distanciamento máximo entre as fendas, já havia detectado um enfraquecimento da visibilidade das franjas que não se alterava com a rotação da máscara – indicando portanto que não se tratava de uma binária. Michelson suspeitava que uma separação das fendas um pouco maior já seria suficiente para fazer desaparecer as franjas, mas não havia um telescópio maior. A solução foi utilizar um sistema de espelhos móveis sobre uma haste de 20 pés (aproximadamente 6,1 m) para trazer a luz de distâncias maiores que o diâmetro do telescópio e formar o sistema de interferência (Fig. 7). Os espelhos foram então afastados até que as franjas desaparecessem, o que ocorreu quando estes estavam a 121 polegadas (cerca de 3 m) de distância um do outro. Isto correspondia a um diâmetro angular aparente de 0,047 segundos de arco para Betelgeuse. Levada em conta a paralaxe (0,018 segundos de arco), o diâmetro da estrela alcançava o impressionante valor de 386 milhões de quilômetros – maior que o diâmetro da órbita da Terra. física quando as condições atmosféricas eram proibitivas para observações telescópicas tradicionais8. Outros astrônomos se juntaram a ele no projeto: John Anderson (1876-1959) utilizou o interferômetro junto ao telescópio de 100 polegadas (254 cm) de Mount Wilson para medir a separação angular entre binárias. Capela foi escolhida como alvo devido à separação estimada entre suas componentes com base na análise espectroscópica de sua órbita e paralaxe. Entre 1919 e 1920, Anderson conseguiu não apenas medir a separação de Capela, mas também desenvolver uma máscara que permitia girar as fendas. A partir do efeito da rotação na visibilidade das franjas, a posição correta era então encontrada. Isso passou a ser utilizado para identificar se uma determinada estrela era ou não binária, ou, equivalentemente, se variações na visibilidade das franjas de interferência de uma estrela permaneciam quando da rotação da máscara. Beto Pimetel é professor de física do CAp-UFRJ e mestre em Física pela UFF Fig. 7 – Interferômetro estelar de Michelson montado sobre o telescópio de 100 polegadas. Repare a haste horizontal que hospeda os espelhos móveis na parte superior do aparelho. Notas Stéphan, E. Sur l’extrème petitesse du diamètre apparent des étoiles fixes. Comptes Rendus de l’Académie des Sciences vol. 78, pp. 1008-1012, 1874. 1 Fizeau, H. Prix Bordin: rapport sur le concours de l’année 1867. Comptes Rendus de l’Académie des Sciences vol. 66, pp. 932-934, 1868. 6 Retirada de Hecht, E. Optics, 2ª ed. Reading, Massachussets: Addison-Wesley, p. 340, 1990 7 2 3 Idem, p. 342. 4 Idem, p. 530. Michelson, A. A. Measurement of Jupiter’s satellites by interference. Publications of the Astronomical Society of the Pacific vol. 3, nº 17, pp. 274-278, 1891. 8 Michelson, A. A. On the application of interference methods to astronomical measurements. The Astrophysical Journal vol. 51, nº5, pp. 257-262, 1920. 5 Para um argumento simples para explicar o fator sem utilizar funções de Bessel, ver, por exemplo, Wilson, H. C. Measuring the stars with the interferometer. Popular Astronomy vol. 29, pp. 189197, 1921. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 11 música Canto, Logo Existo Maria Alice Ramos Sena O projeto “Canto, Logo Existo” vem sendo desenvolvido há três anos, na cidade do Rio de Janeiro e inclui, atualmente, o trabalho em nove corais em diversos locais de atuação, faixas etárias e contextos sociais, atendendo direta e indiretamente a mais de 200 pessoas e quatro licenciandos-bolsistas da Escola de Música da UFRJ. A ideia nasceu da constatação da pouca atividade de canto coral nas escolas na cidade do Rio de Janeiro, principalmente na esfera pública de ensino. Ao mesmo tempo, a formação do professor em Música, que ainda contempla em seu currículo regência e metodologia de Canto Coral, é voltada para pessoas que têm vivência e formação musical, abrangendo um repertório com grandes dificuldades técnicas para iniciantes, seja em termos de conteúdo estrutural dos fenômenos musicais ou estéticos. A partir daí, criou-se a necessidade de formular novas metodologias em que o trabalho do coro se torne mais amplo e se insira num processo de educação musical. Um coro não é mais apenas um lugar onde se produz uma bela música vocal, mas também onde se inicia o processo de educação musical. Em nosso projeto vivenciamos diferentes processos de musicalização através do Canto Coral em grupos de diversas idades, ambientes e procedências. Procuramos pesquisar os contextos sociais específicos de cada grupo e suas diversas influências, e os problemas técnicos dos coralistas que possam interferir em seu desenvolvimento musical, buscando novas alternativas metodológicas que auxiliem em seu desenvolvimento. 12 Um coro não é apenas um lugar onde se produz uma bela música vocal, mas também onde se inicia o processo de educação musical. Os diversos coros atendidos pelo projeto possuem diferentes características e necessidades particulares: assim experimentamos diferentes modos de atuação da nossa metodologia. Dentre eles, destacamos o CORAL OÁSIS, formado por funcionários públicos estaduais da terceira idade, isto é, coralistas com idade acima de 65 anos; o CORAL TIJUCANTO, formado por coralistas de idades e profissões variadas, relacionados ao Clube Tijuca Tênis Clube, o CORAL VOZES DO CAp, formado por alunos do Colégio de Aplicação da UFRJ, o CORAL DA PEDIATRIA BRASILEIRA, formado por crianças de 7 a 14 anos de origens variadas, que habitam ao redor do Memorial da Pediatria Brasileira, no Cosme Velho. Cada pessoa tem a sua representação social do que seja cantar em um coro. Uma criança que vive num meio letrado conhece um repertório diferente de uma criança que habita um lugar com poucos recursos simbólicos. Por isso, elas têm expectativas diferentes do que seja cantar e, principalmente, cantar num coral. Ao mesmo tempo, um adulto, que já viveu muito tempo com canções ao seu redor, deseja cantar músicas que lhe “toquem o coração”. E, dependendo da vida de cada um, essas músicas são bastante diferenciadas. Quem vai querer cantar num coral que não expresse a sua alma ou que não lhe emocione? Saber ouvir o coralista é fundamental. Precisamos pesquisar as canções que agradem ao coro. Não acreditamos em um repertório fechado, devendo sempre haver um diálogo entre as diferentes expectativas. Por isso, é estritamente necessário saber fazer arranjos, isto é, adaptar a música para as vozes que encontramos nos grupos trabalhados, com as limitações e especificidades que nos trazem. Só desenvolvendo essa habilidade podemos nos tornar autônomos para trabalhar com os diferentes contextos sociais que encontramos e encontraremos em nossa vida profissional. Os arranjos também devem contemplar os conteúdos intrínsecos às necessidades da formação musical dos coralistas. Por exemplo, se a maior parte dos sopranos tem uma emissão deficiente na região aguda da voz, procuramos fazer um arranjo com bastantes notas agudas, para que eles exercitem essa dificuldade. Essa interligação dos conteúdos estéticos e estruturais é uma preocupação constante em nosso trabalho, já que acreditamos que o coral é um lugar onde está se construindo um processo de educação em música. Aprender cantando e curtindo, esse é o nosso objetivo. É importante ressaltar que utilizamos sempre a escrita pentagramática, de forma a introduzir aos nesta representação e enfatizando, em paralelo, o entendimento prático dos fenômenos musicais. música Devido às diferentes especificidades dos coros - de pessoas adultas, de terceira idade, infantis, juvenis, etc. – e a não-inserção em nenhum processo de educação em Música (exceção ao Coral Vozes do CAp, onde os alunos têm aulas de música no currículo regular), o trabalho com os coros se torna mais especializado: precisamos encontrar meios dos coralistas cantarem de maneira satisfatória sem a devida formação musical. Para isso, adequamos nosso repertório ao desejo dos participantes, criando novos arranjos de músicas que estejam nos contextos sociais dos grupos trabalhados e que contenha elementos formais que propiciem o desenvolvimento da percepção auditiva, melódica e harmônica dos coralistas. A produção desses arranjos se torna elemento motivador e ferramenta no processo de construção da identidade musical, tanto do indivíduo quanto do grupo. Também pesquisamos e criamos exercícios de aquecimento vocal que sejam dinâmicos, abrangendo a educação rítmica e melódica, além da emissão vocal e inserindo os coralistas em uma vivência musical agradável que facilite a integração do grupo. Esse trabalho é feito com a nossa supervisão e a participação dos licenciandos da Escola de Música da UFRJ. Em qualquer idade ou contexto, vocalizes fazem parte do trabalho coral. Como lidamos com pessoas que não têm formação em canto e não estão acostumadas com esse processo, procuramos torná-lo, dentro do possível, leve e agradável. Entendemos o momento do vocalize não só como um exercício para melhorar a emissão vocal, mas também uma outra oportunidade de trabalhar conteúdos estruturais da Música. A primeira habilidade trabalhada é a afinação. Nem todo coralista chega ao coro afinado. Portanto, antes de se preocupar com o modo de emitir, ele precisa saber colocar essa voz nas alturas socialmente definidas como padrões. Por isso em nossos vocalizes procuramos utilizar diferentes tipos de intervalos, para educar a correta emissão das notas nas suas diversas regiões. As questões rítmicas – desde a percepção do pulso às diferentes figuras – são trabalhadas desde o início, utilizando-se, dentre outros recursos, o movimento e a expressão corporal, que trazem para esse momento uma alegria e descontração muito oportuna e desejável. Em nossos movimentos procuramos sempre um contato entre coralistas, através de palmas e gestos, proporcionando uma maior integração pessoal e um contato mais afetivo com o grupo, tornando o coro um lugar de “amigos”. procuramos sempre um contato entre coralistas ... tornando o coro um lugar de “amigos”. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 13 música A proposta do Projeto “Canto, Logo Existo” é que cada licenciando acompanhe um grupo em todo o seu processo, num período mínimo de um ano, e faça um rodízio entre os outros grupos no decorrer desse ano. Além disso, devem acompanhar a implementação dos coros no Colégio de Aplicação que, por ser um coral de escola possui a especificidade da renovação de seus integrantes em função do ano letivo. Os licenciandos participam de forma ativa, criando novos arranjos, conduzindo os ensaios, participando da confecção de novos vocalizes, auxiliando nos exercícios de técnica vocal e acompanhando o coro ao piano. Observamos que a participação dos licenciandos neste projeto resulta em um enriquecimento de sua vida profissional na prática do canto coral e os leva, através dessas experiências, a ampliar seus conhecimentos, mergulhando numa vivência mais condizente com a realidade atual; a confecção de materiais e metodologias próprias, inovadoras e específicas para cada grupo resulta em uma aprendizagem mais rápida, agradável e eficaz. A observação destes coros permite identificar nos coralistas um crescimento notável na compreensão das questões musicais, na aprendizagem de novos arranjos, na emissão vocal e no crescimento do coro como grupo em termos de identidade musical, fruto do trabalho pedagógico cuidadosamente planejado. O Canto Coral, justamente por ser uma experiência coletiva, torna-se prática motivadora de novas descobertas, tanto no campo da linguagem musical propriamente dita, quanto no campo da inserção social. Cria condições favoráveis ao desenvolvimento de cada ser humano em, bem como de seu engajamento em questões coletivas que envolvam a sua responsabilidade pela busca de resultados através do consenso geral. Ou seja, o canto em grupo faz uso de recursos da prática musical como uma das mais poderosas estratégias do processo coletivo de construção, que possibilita ao indivíduo experiências fundamentais para o desenvolvimento psicológico de atuação em sociedade, como o respeito às diferenças e às exigências da conduta democrática, como o aprendizado da “escuta” disciplinada (agregando aqui o sentido psicológico do termo à experiência da escuta musical propriamente dita) e o traquejo com o trabalho em equipe. Apesar de o presente projeto tratar de questões de grande abrangência, que põe em foco a fragilidade de projetos educacionais na área do Canto Coral nas escolas públicas do Rio de Janeiro, não se pretende atender esta carência geral, nem responder de forma 14 satisfatória a esta importante questão, mas, apontar uma possibilidade viável de atividade didática em música nas escolas e outros espaços públicos, o que representa hoje uma importante contribuição para a interação social, o desenvolvimento artístico e intelectual, proporcionando o bem estar e a qualidade de vida para os grupos sociais atendidos. Pensamos ser esta também uma iniciativa de fundamental importância como contribuição ao currículo de formação dos novos professores de música, oferecendo a estes uma nova opção de repertório e metodologia para trabalho coral, mais adequados à realidade brasileira, proporcionando, desta forma, a capacitação e inserção destes novos profissionais no mercado de trabalho. Maria Alice Ramos Sena é professora de música do CAp-UFRJ e mestre em música música Silmar Marques Coro em apresentação na 1º Jornada Acadêmica do CAp Referência ASSMANN, Hugo. Reencantar a educação – Rumo à sociedade aprendente. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1999. 251p. DOLL William E. Jr. Currículo, uma perspectiva pós-moderna. Tradução por Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. 224p. OLIVEIRA, Marta Kohl. Vygotsky – Aprendizado e desenvolvimento: um processo sócio-histórico. 4. Ed. São Paulo: Editora Scipione, 2001. 111p. SLOBODA, John. A. Music as a language. In WILSON Frank, ROERMANN Franz L.(eds), Music and child development. St Louis: MO.MMB Music Inc, 1997 ________________ . The musical mind. The cognitive psycolog y of music. Oxford: Clarendon Press, 1985. VYGOTSKY, Lev Semyonovitch . A formação social da mente. 6. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 191p. _______________. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 135p WALKER, Robert. Auditory-visual perception and musical behavior. In: COLWELL, R. Handbook of Research on Music Teaching and Learning. New York: Schirmer Books, 1992. Cap. 22. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 15 artes visuais O projeto de ensino de cerâmica no CAp Luzia de Mendonça Mariana S. Guimarães Sandra Martins de Souza “Com a terra, a matéria nos trás experiências positivas, a forma é tão evidente, tão real, que não se cogita sonhar. Essas imagens da matéria terrestre nos são oferecidas em abundância em um mundo de metal, de pedra, de madeira e de borracha. Elas são estáveis, tranquilas, nós as temos sob os nossos olhos, e as sentimos nas nossas mãos, elas despertam em nós, no momento em que gostamos de trabalhar com elas, uma alegria muscular.” (Bachelar) Cerâmica: Patrimonio Material e Imaterial da Humanidade A Cerâmica é uma das primeiras tecnologias desenvolvidas pelo homem, uma das primeiras manifestações da transformação criativa da natureza pelas mãos humanas. Arqueólogos e historiadores tem dificuldade de precisar quando e onde surgiram as primeiras peças de cerâmica. Acreditam que desde o momento seguinte à descoberta do fogo, o homem pré-histórico percebeu que era capaz de transformar a argila em cerâmica. As primeiras peças que se tem notícia datam de 5000 anos a.C. No período paleolítico superior eram produzidas esculturas de barro, as famosas estátuas de mulheres, chamadas posteriormente de “Vênus”, representativas de deusas da fertilidade, ligadas ao culto da Deusa-Mãe. Foi no período neolítico, quando o homem deixou de 16 ser nômade e passou a cultivar alimentos, que surgiram as primeiras cerâmicas utilitárias que tinham a função de armazenar e cozinhar esses alimentos. (PENIDO e COSTA: 1999) A Arqueologia tem ajudado a decifrar como diferentes povos, em diferentes regiões do mundo, produziam e utilizavam a cerâmica e como essa arte foi se transformando e evoluindo com o passar do tempo e com as descobertas de novas técnicas e materiais. Esses estudos revelam a riqueza, diversidade e também a enorme criatividade do ser humano no uso de materiais cerâmicos. O barro é encontrado em quase todas as regiões do planeta. Em cada região, as matérias primas tem composição mineral diferentes resultando em maior ou menor plasticidade. Também diferentes técnicas podem ser utilizadas – os modos de preparar o barro, o modo de trabalhar, as técnicas de modelagem e decorativas, a queima – resultando assim em peças com múltiplas características. Hoje em dia, a cerâmica é usada na manufatura e fabricação de muitos tipos de peças e materiais : desde peças simples, utilitárias e artísticas, passando pela indústria de construção, até a obtenção de materiais cerâmicos de tecnologia de ponta, sendo utilizados na fabricação de computadores, foguetes, na indústria de condutores elétricos, na medicina e etc. Sandra Martins de Souza Cerâmica no CAp - atividade no torno elétrico - 2008 Artes Visuais e Cerâmica no CAp A Proposta de Pesquisa da Metodologia para o Ensino da Cerâmica surge no Colégio de Aplicação pela necessidade encontrada pelos professores do setor em obter um respaldo teórico que atendesse à prática pedagógica em sala de aula. Tem por objetivo, desde sua implantação, estudar os procedimentos técnicos e pedagógicos através da pesquisa experimental e exploratória sobre o desenvolvimento da cerâmica na educação com o intuito de auxiliar professores, licenciandos e estudantes na busca de conhecimentos teóricos e práticos. No ano de 1994 a equipe de Artes Plásticas1 do Colégio de Aplicação recebeu uma verba do Projeto de Apoio a Projetos de Integração 1º, 2º e 3º graus – essa verba permitiu à equipe adquirir um forno de cerâmica da marca BRASKILNS, BK 100. Porém, por motivos técnicos de instalação, e adequação da voltagem, o ensino da cerâmica no CAp só teve início no ano de 1996. A Professora Maria de Lourdes Barbosa Xavier, na justificativa da solicitação de bolsistas para o Projeto de Cerâmica aponta para a deficiência de uma bibliografia específica, atendendo de forma superficial os temas abordados, reduzindo importantes conteúdos a simples atividades práticas de natureza quase que exclusivamente manual, dirigindo o trabalho do aluno a resultados previstos, propagando a passividade tanto do educador quanto do educando. E não respondendo a uma prática inovadora, vinculada às questões da contemporaneidade. Os alunos do CAp tem ao longo do Ensino Fundamental a disciplina de Artes Visuais inserida na grade curricular, em todas as séries. Já no Ensino Médio, os estudantes tem a possibilidade de optar por uma das três linguagens artísticas – Artes Visuais, Música ou Teatro – que será desenvolvida num projeto ao longo dos dois primeiros anos do Ensino Médio. No primeiro ano, os professores apresentam os projetos que serão oferecidos em cada linguagem artística ; a partir daí é feita a escolha pelo aluno. artes visuais O universo simbólico, construído a partir das substâncias da terra, revela as riquezas culturais e rituais as quais diversos povos chegaram na relação com o barro. De modo que o projeto de pesquisa, desde sua idealização, é direcionado para a experimentação e investigação nas turmas de ensino médio devido ao maior entendimento, maturidade e interesse dos adolescentes com a técnica. Porém, os alunos e alunas do ensino fundamental também experimentam e participam do ensino da Cerâmica no CAp, partindo de um outro enfoque, dando-se ênfase ao lúdico, à plasticidade do material, às possibilidades sensoriais e construtivas da argila ao trabalharem a modelagem e a eventual queima. Numa abordagem geral o projeto de Pesquisa de Metodologia do Ensino da Cerâmica tem como objetivos: • Propiciar a expressão do potencial criativo dos alunos do ensino fundamental e médio estimulando-os ao contato com diversos materiais e experimentação em atividades práticas de cerâmica; • Aprofundar o conhecimento da cerâmica como artefato produzido pelo homem em diferentes paisagens culturais; • Oferecer aos licenciandos de Educação Artística a oportunidade de incluir experiências de ensino e pesquisa em cerâmica na sua capacitação profissional. Este último objetivo gerou a necessidade de se implantar uma oficina de Cerâmica especialmente oferecida aos licenciandos do curso de Educação Artística, a partir do ano de 2004. Tal procedimento se deveu ao fato de esta disciplina não ser oferecida aos estudantes deste curso em sua unidade de Origem. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 17 artes visuais O Projeto: Percursos e Produções nos anos de 1997 a 2010 Entre os anos de 1997 até 2004, quando se inicia a bolsa de Iniciação Artística e Cultural, o Projeto desenvolveu ações internas no âmbito do próprio CAp. Participamos com oficinas e exposições nas SACCs; desenvolvemos cursos para as turmas de Ensino Médio e propusemos inserções pontuais de regências com a técnica em turmas do Ensino Fundamental, inclusive com a Classe de Alfabetização. Deste modo, segue abaixo um breve histórico do percursso da Pesquisa : 1997 - Orientação de quatro bolsistas através de projeto da Reitoria. Produção de apostila sobre a Técnica da Cerâmica e seu uso em sala de aula, com estudantes do E. Fundamental e E. Médio. 2004 - Início do PIBIAC. Seleção de dois bolsistas. Aquisição junto à biblioteca do CAp de importante acervo bibliográfico sobre Cerâmica. Início das oficinas de cerâmica para os licenciandos da EBA e alunos do 3º ano do E.M. 2005 - Participação desde então nas JIAC. Produção de Monografia contendo catalogação e registro fotográfico das regências dos licenciandos no ano de 2004 na turma de 1º ano do E.M, e pesquisa sobre toxidade no atelier de cerâmica. Podemos perceber que ao longo destes anos de entrelaçamento do ensino, da pesquisa e até mesmo da extensão (apesar de não estar inscrita como tal na Universidade, a oficina de cerâmica para os licenciandos cumpre este papel) a proposta que se iniciou na Equipe de Artes Visuais com o projeto das professoras Isabela Frade e Maria de Lourdes Xavier, tem gerado bons e promissores frutos . Posteriormente houve a inclusão das professoras Suzana Ortiz e Sandra Martins de Souza ao Projeto. Deste modo a Pesquisa incluindo professores, licenciandos e bolsistas, vem formando um núcleo de profissionais capazes de dar continuidade a este projeto em suas próximas etapas. Neste sentido, gostaríamos de fazer menção especial à professora Elcenir Alves dos Santos que ainda como licencianda e bolsista do projeto deu grande impulso à instalação do mural de Cerâmica com temática africana nas dependências do Colégio de Aplicação. Nossos agradecimentos especiais também a todos os licenciandos e bolsistas da pesquisa, aos estudantes do CAp que dela tomaram parte, aos funcionários e colegas professores que, passando pela administração da Unidade, tornaram esse projeto possível. 2006 - Produção de painel com temática afro-brasileira com ênfase na obra de Rubem Valentin. Participaram alunos das turmas do E. M do CAp e Licenciandos da Educação Artística da EBA. 2007 - Continuação de Painel Cerâmico com temática africana – máscaras e alto-relevos. Início das investigações sobre técnicas alternativas de queimas com confecção de fornos primitivos. 2008 - A Cerâmica na tradição dos povos précolombianos. Confecção de peças cerâmicas baseadas na arte Pré-Colombiana. Pesquisa de pigmentos minerais na produção de engobes e esmaltes. 2009 - Pesquisa e investigação de esmaltes cerâmicos para a produção de painel com temática de arte brasileira com ênfase na obra de Tarsila do Amaral. Introdução do uso do torno elétrico 2010 - Integração do projeto de Metodologia do Ensino da Cerâmica com o projeto de Metodologia do Ensino da Animação da Equipe de Artes Visuais 18 Máscaras de cerâmica produzidas por alunos do Ensino Médio - CAp 2007 artes visuais Luzia de Mendonça é professora substituta do CAp-UFRJ, graduada com livenciatura em Educação Artística- ARtes Plásticas pela UFRJ e Pesquisadora-bolsita da Fundação casa de Rui Barbosa Mariana S. Guimarães é professora substituta do CAp-UFRJ, mestre em Artes e Design pela PUC-Rio Sandra Martins de Souza é professora aposentada do CAp-UFRJ, mestre em Artes Visuais pela UFRJ Forno artesanal - CAp 2007 Notas A disciplina Artes Plásticas mudou sua nomenclatura para eArtes Visuais no ano de 2000 abrangendo novas tecnologias especificidades da contemporaneidade 1 Referências ABREU, Alzira Alves de. Intelectuais e guerreiros : o Colégio de Aplicação de 1948 a 1968. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1992 BACHELARD, Gaston. A Terra e os Devaneios da Vontade: Ensaio sobre a imaginação das forças. (tradução Maria Ermantina Galvão) – 2ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2001. CHEVARRIA, Joaquim. A Cerâmica. Editorial Estampa, Lisboa, 1997. (Coleção Artes e Ofícios). GABBAI, Miriam B. Birmann (org.). Cerâmica: Arte da Terra. São Paulo: Callis, 1987. GOMES, Denise Maria Cavalcante. Cerâmica Arqueológica da Amazônia: Vazilhas da Coleção Tapajônica MAE-USP. Editora da Universidade de São Paulo: Fapesp: Imprensa Oficial do Estado, 2002. MASCELANI, Angela. O Mundo da Arte popular Brasileira. Editora Mauad, 202, Rio de Janeiro. PENIDO, Eliana; COSTA Silvia de Souza. Oficina: Cerâmica. Rio de Janeiro: Ed. SENAC Nacional, 1999. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 19 educação física Mercado do futebol, juventude e escola Antonio Jorge Gonçalves Soares Hugo Paula Almeida da Rocha Leonardo Bernardes Silva de Melo Tiago Lisboa Bartholo O futebol é um fenômeno midiático que fomenta o imaginário dos jovens brasileiros que sonham se tornar jogadores profissionais. Embora o mercado não comporte o volume de candidatos ao palco principal do espetáculo, há uma crescente demanda de aspirantes ao ilusório oásis futeboleiro. O início da carreira no futebol não é fácil. O “vestibular da bola” tem uma relação candidato/vaga inimaginável para o sistema escolar. Toledo (2002) ao analisar o processo das “peneiras”, um dos meios mais popularizados de acesso ao início da carreira, indica que estatisticamente a taxa de aproveitamento é próxima a 1%. Diante disso, como explicamos a crescente procura pela profissionalização em um mercado tão restrito? Como esses jovens conciliam essa formação profissional com a escola básica? 20 Marcelo, 16 anos, acorda diariamente antes das seis horas da manhã, organiza seu material de treino e seus livros e cadernos escolares. Come algo de forma rápida e pega um ônibus do município de Nova Iguaçu e se desloca até Associação Atlética Portuguesa, um clube de futebol da segunda divisão, localizado na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Chega ao destino por volta de 8 horas da manhã, encontra com seus companheiros e treina das nove horas ao meio dia. Volta para sua escola em Nova Iguaçu e chega, geralmente, 40 minutos atrasado. Todavia, explica que possui liberação dos professores por ter apresentado uma declaração do clube. Às terças e quintas, sai da escola antes do término, também com a anuência dos professores, para treinar futsal na Gávea (Clube de Regatas Flamengo). Marcelo nos dias de treino de futsal chega em sua casa entre dez e meia noite. Essa vida corrida entre ônibus, treinos e escola demonstra o investimento de tempo e recursos que o jovem e a sua família fazem em função do sonho de se tornar jogador de futebol. As reflexões e questões que nos guiam para pensar a relação entre a formação profissional no futebol e a escolarização básica no Brasil são as seguintes: Como explicamos que um contingente significativo de jovens brasileiros do sexo masculino invista tempo, recursos e esforços na profissionalização em um esporte que oportuniza poucas vagas e poucas chances de sucesso nesse restrito mercado? Como os jovens que estão oficialmente inscritos nos clubes de futebol conciliam a formação esportiva com a escola básica? Olhando com atenção a pirâmide salarial desse esporte no Brasil, veremos que estamos distante do sonho de riqueza e mobilidade social. Os dados disponibilizados indicam que 84% dos jogadores, de todas as divisões do futebol profissional no Brasil, recebem salários de até 1 mil reais, 13% recebem entre 1 mil e 9 mil reais e apenas 3% recebem acima de 9 mil reais por mês1. Mesmo que parcialmente os jornais e a televisão divulguem as dificuldades e percalços dessa profissão, isso parece não desestimular a demanda de jovens que batem às portas dos clubes. Tornar-se um jogador de prestígio, que venha a ser negociado para um clube europeu, é o que alimenta o sonho desses jovens. Esse tipo de formação tem hoje o mercado internacional como alvo. Todavia, o destino dessa massa de jogadores formados no país, quando aproveitados no futebol profissional, será possivelmente o ingresso nas 2a., 3a e 4a divisões do futebol no Brasil. Apesar disso, o grande contingente vinculado às categorias de base representa a aposta na profissão. O início da carreira no futebol não é fácil. O “vestibular da bola” tem uma relação candidato/ vaga inimaginável para o sistema escolar. Toledo (2002) ao analisar o processo das “peneiras”, um dos meios mais popularizados de acesso ao início da carreira, indica que estatisticamente a taxa de aproveitamento é próxima a 1%. Em 1995, por exemplo, dos 3.500 jovens que se aventuraram nas “peneiras” do São Paulo F. C. apenas cinco foram aproveitados; em 1996, no mesmo clube, apenas dois dos 4.000 foram aproveitados. Em 2008, o Flamengo teve mais de 1000 candidatos de todo Brasil tentando uma vaga nas categorias de base no Ninho do Urubu 2 e apenas dois foram selecionados3. O que explica tanto investimento com tão poucas possibilidades de sucesso? Para além das respostas culturais, aquelas que explicam o papel socializatório do futebol em nossa sociedade, as hipóteses que podemos levantar para explicar esse alto investimento de tempo, trabalho corporal e desejos desses jovens e suas famílias são as seguintes: a) o processo de formação no futebol pode render prestígio social e alguma remuneração ou ajuda de custo ainda na formação; b) a sociedade brasileira oferece poucas oportunidades de ascensão social, que, somadas à precariedade da escola pública brasileira e do mercado de trabalho para as novas gerações, transformam o futebol profissional em projeto familiar para as camadas médias e populares (RIAL, 2006). O menino que passa nesse “vestibular” e ingressa nas categorias de base do futebol terá que realizar um investimento estimado de 5000 horas de exercícios corporais, treinos de técnicas esportivas e psicológicas ao longo de sua formação (DAMO, 2005). Apenas para termos uma ideia do que significa o dado anterior, se consideramos que o aluno da escola pública brasileira permanece em média 4 horas/dia e em tese cada ano deve ter 200 dias letivos, a formação no ensino fundamental terá uma carga de 7.200 horas ao longo de nove anos, no ensino médio a carga será de 2.400 horas. Para exemplificar, o atleta que começa na categoria infantil aos 12 anos, idade equivalente ao sexto ano escolar, se completasse o ensino médio aos 17 anos, quando estaria no último ano de juvenil, teria tido uma carga horária de 4800 educação física O mercado para atletas de futebol no Brasil gira em torno de 10 a 15 mil postos de trabalho. Parte desses postos é formada por empregos sazonais e bastante precários. O mercado nacional é formado pelos 500 clubes de futebol credenciados às subsidiárias da FIFA (DAMO, 2005). Embora este número seja aparentemente expressivo, a cifra de postos de trabalho valorizados economicamente é restrita. Dos 500 clubes vinculados à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) apenas 20 deles possuem 90% da preferência dos torcedores (idem). Tal primazia indica que poucos clubes possuem potencial de exploração e geração de receitas economicamente significativas junto ao público consumidor. educação física horas na escola. Isso demonstra o significado do tempo de 5000 horas para a formação no futebol ao longo de 10 anos. Em estudo que levantamos uma série de dados dos atletas de 12 aos 20 anos, inscritos oficialmente na Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, a média de treino semanal de todas as categorias é 14 horas e 20 minutos, sem contarmos o tempo destinado aos jogos. Se considerarmos que, em geral, esses atletas de futebol possuem mais ou menos um mês de férias, dependendo da categoria, em um ano que eles tenham em média 49 semanas de atividades nos clubes, a carga horária anual será de 702 horas e 20 minutos destinada aos treinos. Projetando isso pelos nove anos de formação, considerando apenas as categorias estudadas, o atleta terá uma carga de treino em torno de 6.321 horas. Observemos que nossas estimativas consideram apenas o tempo de treino no Rio de Janeiro e são superiores as encontradas por Damo (2005) em seu estudo. Esses dados demonstram que desde cedo esses jovens entram num rígido regime disciplinar que regula horários e comportamentos dentro e fora do clube no sentido de formar o ethos do jogador de futebol. Vale lembrar que esse regime tende a ser mais controlado para os atletas que vivem albergados e longe de suas famílias nos clubes. Esses jovens desde os 12 anos podem receber alguma ajuda de custo para passagens, gvvastos básicos ou incentivos financeiros – a remuneração depende da estrutura financeira do clube e do potencial do atleta. No Clube de Regatas Flamengo, por exemplo, todos os atletas das categorias da base do futebol recebem ajuda de custo para passagens e gastos básicos. A partir dos 16 anos de idade, quando podem oficialmente assinar contratos de trabalho, alguns recebem incentivos financeiros que variam de R$ 1.200,00 a R$ 2.000,00; esses valores podem ser superiores de acordo com o potencial do atleta. Essa não é a realidade da maioria dos clubes, mas o regime de trabalho corporal e dedicação para a formação profissional no futebol é semelhante com ou sem remuneração. Diante disso, argumentamos que esses atletas podem ser considerados como jovens aprendizes de uma profissão, mesmo que essa atividade/instituição formadora não esteja contemplada pelo Decreto 5.5985 que regula a formação profissional do jovem aprendiz. Por outro lado, os controles que o referido decreto prevê sobre direitos do jovem aprendiz e deveres das instituições formadoras, entre eles a adequação do horário das atividades de formação profissionalizante à escola, pode não ser observado pela maioria dos clubes. No caso do futebol, a rotina de treinos semanais acaba 22 por condicionar o horário de freqüência à escola. Por exemplo, os dados coletados com 186 atletas-estudantes, de 15 a 17 anos, nos clubes do Rio de Janeiro, evidenciam que 41,9% destes estudavam à noite. Se os treinamentos são prioridade para os jovens e suas famílias e ocorrem invariavelmente na parte da manhã e/ou à tarde, resta o período noturno para os estudos regulares. Como contraponto à realidade brasileira, Souza et al. (2008) ao narrarem a trajetória de Leandro – adolescente de 12 anos que foi contratado para jogar no Clube Feyenoord na Holanda – indicam que ele foi, na época, matriculado em uma escola regular, cujas aulas ocorriam de segunda a sexta-feira das 9 às 16 horas e os treinos ocorriam no final da tarde e durante parte da noite. Isso indica que, na Holanda, a escola determina o horário dos treinos e mesmo os jovens imigrantes devem estar matriculados na escola regular. Esse é um bom exemplo para pensarmos a relação escola/futebol em nosso país e os investimentos que nossos clubes realizam na formação escolar de nossos atletas. Apesar dos dados sugerirem que a carreira no futebol pode ser uma aposta com poucas chances de realização, devemos questionar se o destino dos jovens mal sucedidos nessa carreira seria diferente caso tivessem investido pesadamente na escola básica. Os argumentos que temos no sentido de tatear respostas para a questão colocada são os seguintes: a) sabemos que a escola brasileira tem baixa qualidade e é desinteressante – os dados sobre evasão escolar indicam que o principal motivo de abandono escolar até o ano de 2006, dentre outros apresentados, é a falta de interesse intrínseco na escola (NERI, 2009)6 ; b) a taxa de desemprego entre os jovens é mais alta significativamente quando comparada a população economicamente ativa e essa tende a aumentar entre aqueles que possuem baixa escolaridade (SCHWARTZMAN; COSSÍO, 2007); c) a sociologia da educação aponta que origem social e a escolarização dos pais, em termos de probabilidade, determinam a localização dos filhos na estratificação social (BOURDIEU, 1998; SCHWARTZMAN, 2004; 2006); d) o problema que constatamos, durante as conversas que travamos diretamente com esses jovens atletas, é que o futebol se torna o foco de suas vidas e, com isso, a escola, as tarefas escolares e outras possibilidades de formação cultural não são valorizadas por eles. Por fim, diante desse cenário podemos pensar que a aposta para os virtuosos no futebol é bastante razoável, pois, a escola não é desinteressante e pouco produtiva só para os atletas. Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 2009 e amplamente divulgados pela mídia. 1 Centro de treinamento do Flamengo em Vargem Grande na Zona Oeste do Rio de Janeiro. 2 Antonio Jorge Gonçalves Soares é professor da Faculdade de Educação Física da UFRJ, Doutor em Educação Física educação física Notas Sportv Repórter. Programa intitulado “Olheiros Virtuais”. Canal Sportv exibição 23 set 2009. 3 Hugo Paula Almeida da Rocha é licenciando em Educação Física no CAp-UFRJ Leonardo Bernardes Silva de Melo é Mestre em Educação Física e professor do município do Rio de Janeiro Tiago Lisboa Bartholo é Mestre Educação Física e professor do CAp-UFRJ Dados sobre a precariedade do ensino público no Brasil podem ser esclarecedores do quadro que estamos descrevendo: a repetência de alunos é de 20,6%, a maior da América Latina. A formação dos professores no ensino básico é insuficiente. Dos professores de 1ª a 4ª série apenas 47% têm diploma universitário; desses, apenas 43% têm diploma em licenciatura. De cada 100 crianças matriculadas na primeira série do ensino fundamental 88,6% chegam à 4ª série, 57,1% à 8ª série e 36,6% ao 3° ano do ensino médio. No gasto médio por aluno no Brasil – país com a economia mais diversificada e potente do continente –, fica atrás de seus vizinhos Argentina, Uruguai, Chile e Colômbia. Ver “Escola Brasil” (O Globo, Rio de Janeiro, 22 jul. 2006). 4 Dentre as instituições formadoras do Sistema S (SENAI, SENAC, SESI...) é óbvio que os clubes esportivos não figuram no decreto. 5 6 Análise a partir da base de dados do PNAD 2004 e 2006 Referências BOURDIEU, P. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e a cultura. In: NOGUEIRA, M. A.; CATANI, A. (Orgs.). Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 39-65. DAMO, A. Do dom a profissão: uma etnografia do futebol de espetáculo a partir da formação de jogadores no Brasil e na França. Porto Alegre, 434p. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005. NERI, M. C. O paradoxo da evasão escolar e as motivações do sem escola. In: VELOSO, F.; PESSÔA, S.; HENRIQUES, R.; GIAMBIAGI, F. (Orgs.). Educação Básica no Brasil: Construindo o País do Futuro. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, pp. 25 – 50. RIAL, C. Jogadores brasileiros na Espanha: imigrantes porém... Revista de Dialectologia y Tradiciones Populares. VLXI, n.2, p.163-190, 2006. SCHWARTZMAN, S. As causas da pobreza. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. __________. Programas sociais voltados à educação no Brasil. Sinais Sociais, v. 1, p. 114-145, 2006. SCHWARTZMAN, S, COSSIO. Juventude, Educação e emprego no Brasil. Cadernos ADENAUER , v. 7 p. 51-65, 2007. SOUZA, C. A. M. et al. Difícil reconversão: futebol, projeto e destino em meninos brasileiros. Horizontes antropológicos [online]. 2008, vol.14, n.30, pp. 85-111. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010471832008000200004&lng=en&nrm=iso> Acesso em: 22 out. 2009. TOLEDO, L.H. Lógicas do futebol. São Paulo: Hucitec/FAPESP, 2002 julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 23 biblioteca A Ciranda da Biblioteca Ana Lucia Ferreira Gonçalves Lucia Helena Arraes Martins Leni Rodriguez Perez Fulco Monica Atalla Pietroluongo Antes de iniciar nossa apresentação, sugerimos ao leitor uma pausa para resgatar na memória a melodia de alguma ciranda que tenha dançado na infância. Tente lembrar a roda girando, as mãos dadas, o movimento do círculo humano, para dentro e para fora, ou em caracol no sentido do centro. Se ficar mais fácil, acesse algum site de busca e escute a Ciranda do Janga ou a Ciranda da Lia. Aliás, deixe a música tocando enquanto lê esse texto, deixe a música e as memórias ocuparem o espaço à sua volta. Embalado por estas memórias, por estas canções, é possível compreender a força da cultura popular. E entender como esta força pode inspirar e orientar o trabalho pedagógico de uma biblioteca escolar. Em primeiro lugar, caberia explicar como concebemos o papel de uma biblioteca escolar. Como o próprio nome diz, trata-se de uma biblioteca inserida num contexto de escola. Assim, intrinsecamente, seu trabalho estará ligado aos objetivos fundamentais de transmissão e promoção de conhecimento e, também, à formação dos estudantes a que se destina. E isso contempla não só exclusivamente o aspecto intelectual da sua personalidade, como também os aspectos afetivos e sociais. É a partir desta perspectiva que estruturamos a proposta de atuação da Biblioteca do Colégio de Aplicação da UFRJ (CAp-UFRJ), há dezessete anos. O projeto da Biblioteca engloba, então, duas frentes básicas de ação. A primeira, que denominamos básica e diz respeito a toda organização e procedimento técnico, é orientada e supervisionada pelo Sistema de Bibliotecas e Informação da universidade (SIBI/ UFRJ) e se inspira, na área das literaturas infantil e juvenil, nas sugestões da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). E a segunda, que denominamos dinâmica, busca dar conta das relações que a Biblioteca estabelece com a comunidade escolar e extra-escolar, cumprindo a função pedagógica de promoção 24 A Ciranda se propõe a ser um evento anual, com a duração de uma semana, onde são construídas inúmeras atividades relacionadas com um tema específico, escolhido a cada ano em função das demandas da comunidade escolar e extra-escolar. Essas atividades contam com a participação de alunos, professores, funcionários e familiares do Colégio de Aplicação, estudantes e profissionais da UFRJ e das escolas adjacentes da rede municipal e estadual de ensino, assim como outros promotores culturais. Embora realizada no período restrito de uma semana, a Ciranda da Biblioteca provoca repercussões, gera resultados, que se estendem para além deste tempo, originando novos projetos, assim como se organiza a partir de iniciativas já em andamento. Em agosto de 2008, produzimos a primeira edição da Ciranda da Biblioteca, denominada inicialmente de Ciranda Literária. E, escolhemos como tema a própria Biblioteca, celebrando seus quinze anos de funcionamento. O evento se estendeu por uma semana em que diversas atividades foram desenvolvidas com o objetivo de contar a história do setor. biblioteca do conhecimento. Esta iniciativa se concretiza através do Projeto de Dinamização da Biblioteca do CAp-UFRJ, que contempla uma série de projetos onde a parceria é o denominador comum. É neste projeto que se inscreve a Ciranda da Biblioteca. Em novembro de 2009, a Ciranda contemplou as culturas africanas e afro-brasileiras como tema. E, durante uma semana, reuniu, alternadamente, 743 alunos de escolas das redes federal, estadual e municipal, que participaram de atividades desenhadas com o propósito de se olhar e vivenciar essas culturas a partir de diferentes prismas, como o cinema, a história, as artes plásticas, a literatura, a música, entre outros. Como resultado, demos partida ao Centro de Referência para o Ensino da História das Culturas Africanas e Afro-Brasileiras, na Biblioteca do CAp, em parceria com a equipe de História do colégio. E, além disso, originou o Ventos Africanos, que realizaremos em novembro próximo. Este ano, o tema da Ciranda é “Cinema, Memória e Infância”, que é fruto da parceria da Biblioteca com projeto da Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UFRJ, Cinema para Aprender e Desaprender (CINEAD). E objetiva criar no colégio, em articulação com as escolas parceiras e as associações culturais do bairro do Jardim Botânico um Cineclube Infantil. Talvez, após toda esta explanação, a música da ciranda que propusemos inicialmente ainda esteja tocando perto de você. Se não, clique o “play”, pois agora vamos voltar à manifestação popular que inspira o trabalho na Biblioteca. Para explicar o projeto, em essência, nada melhor do que relacioná-lo com as características da ciranda em si. É o que faremos a seguir. E, para isso, usamos como fonte o trabalho de Lucia Gaspar, bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife¹. Ciranda é um nome originário de um instrumento de trabalho, a peneira de farinha, a zaranda, um vocábulo de origem espanhola e que teria evoluído do árabe, çarand. Para a Biblioteca ela se torna uma proposta de trabalho, uma proposta de atuação. Ciranda feita durante a apresentação do projeto Ciranda na Biblioteca na 1º JACAP Ela é uma dança comunitária, sem preconceito de sexo, cor, idade, condição social ou econômica, assim como não limita o número de participantes. É inclusiva. E, é assim que tentamos sedimentar o projeto da Biblioteca: buscando sempre novos parceiros e abrindo o espaço para incluir diferentes iniciativas. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 25 Ela inicia com um número pequeno de participantes e vai aumentando à medida que as pessoas vão chegando para dançar, abrindo a roda e segurando as mãos dos que já se encontram no círculo. O trabalho da Biblioteca também acontece de forma gradativa e ascendente em número de participantes, valorizando o movimento espontâneo de aproximação da proposta, que é a de uma ação construída por e para o coletivo. Além disso, é promotor do encontro humano, do entendimento de se estar junto em torno do conhecimento, considerando que, no ato de aprender, o sujeito está por inteiro, utilizando sua capacidade intelectual e social, assim como sua estrutura afetiva. Quando a roda atinge uma proporção que dificulta o movimento dos participantes, uma outra se forma, menor e concêntrica em relação à primeira. Nosso projeto também se desdobra em novos projetos, como a segunda edição da Ciranda da Biblioteca, que gerou os Ventos Africanos e o Centro de Referência. E, imaginamos que a terceira dará origem ao Cineclube Infantil do CAp. Os músicos ficam no centro da roda com o mestre. A música é uma combinação de sons e silêncio, é a linguagem mais universal. Ela nos remete à fala e à escuta, à busca da comunicação e do diálogo, que transpõe abismos culturais. É pensando nas oportunidades de diálogo que todas as atividades são desenhadas. As músicas cantadas podem ser as de domínio público, as canções famosas adaptadas ao ritmo da ciranda ou as improvisadas. Isso indica uma valorização das diferentes identidades, das diferentes falas. E esse é um caminho para significar realidades diversas. A Ciranda da Biblioteca incorpora e abre-se a pontos de vista novos e diversos, além de criar oportunidade para a apresentação de discursos diferenciados. O compasso da música marca quatro tempos. O número quatro, em termos simbólicos, representa a totalidade, a abrangência, universalidade, expressando 26 Silmar Marques biblioteca A ciranda não determina figurino próprio. Isso pressupõe uma aceitação da diversidade, a não-exigência de um estereótipo ou da criação de personas (máscaras). Na Ciranda da Biblioteca, embora seja explícito o respeito pelo saber construído ao longo do tempo, não há hierarquização com relação à titularidade dos participantes. Toda produção responsável, não-sectária e comprometida com o tema eleito é valorizada. NOME durante a apresentação do projeto na 1ª JACAP simultaneamente o concreto, o visível, aparente. Para Platão o ternário é o mundo das ideias e o quaternário o da realização das ideias. Essa perspectiva de concretude, de dar tridimensionalidade ao conhecimento, facilitando a relação com as ideias, permeia a construção de todo o nosso trabalho. Em geral as cirandas giram no sentido anti-horário. Simbolicamente, resgata o tempo de Kairós, que é o filho de Cronos – representante do tempo linear, que mede a duração de um movimento. O tempo de Kairós coloca o conhecimento na perspectiva do tempo existencial, que traz a experiência do momento oportuno, do aquie-agora, tempo potencial e eterno. Com isso, as ações do projeto, em detrimento do conhecimento exclusivamente racional, buscam integrar à racionalidade o irracional, ao conhecido o desconhecido, através de vivências que englobam o trabalho corporal e a expressão criativa. Para fazerem a roda girar, os participantes iniciam com o pé esquerdo. O pé esquerdo de uma edificação é a soma de todos os seus “pés direitos”. A partir dessa imagem, estabelecemos uma associação com nosso objetivo de explorar o tema selecionado por múltiplos ângulos, tentando ampliar seu entendimento. O pé esquerdo nos remete ainda à sua diagonalidade com o hemisfério direito do cérebro. Este envolve os aspectos: não-verbal, analítico, atemporal, nãoracional, espacial, intuitivo e holístico da aprendizagem. É comprovado em pesquisa o sucesso da aprendizagem quando há utilização simultânea dos dois hemisférios cerebrais. Esse dado reforça nossa proposta de atuação. O movimento dos corpos na ciranda é orientado pelos ombros, que trazem em si a representação de empenho, Os braços podem elevar-se e baixar num movimento ondular. As ondas nos remetem ao ritmo intermitente e ao mar, que representa o inconsciente coletivo. E é como pensamos que deve ser a incorporação do acervo da humanidade: em pequenas doses, digestivas. É possível criar outros passos e movimentos no âmbito da ciranda, mas desde que sigam a marcação do bombo. O bombo é um instrumento percussivo e suas batidas são associadas às do coração. Este é o órgão vital, responsável pelo bombeamento do sangue no organismo, ou seja, seu ritmo implica na alimentação de todo o corpo. É assim que imaginamos a Ciranda da Biblioteca: um projeto pulsante que alimenta o desejo, também vital, de conhecer, de aprender no coletivo. As cirandas resgatam o espaço lúdico e criativo. Essa é uma predisposição do nosso projeto: estar aberto às mudanças, estimular a curiosidade, o enfrentamento e o prazer da aprendizagem. A ciranda é dançada o ano todo. E, a da Biblioteca é projetada para um evento com uma semana de duração, mas que se propaga no tempo e no espaço através de produtos que são desenvolvidos ali e de outras iniciativas que têm origem também ali. biblioteca de força e valor. Acreditamos que a proposição das atividades, com os princípios e objetivos descritos acima, predispõe à participação e ao comprometimento de todos com a proposta. Para concluir, temos a imagem da forma circular da ciranda. O círculo é o símbolo do poder criativo do universo. Ele não tem início, não tem fim e nem elo fraco. O círculo, normalmente, não aparece sozinho, mas formando um outro símbolo ao qual dá um significado maior. Esperamos, então, que a música que propusemos no início desta apresentação ainda esteja tocando nos seus ouvidos. Pois a força da imagem do círculo, envolvida por todas as memórias que as canções das cirandas nos provocam, é capaz de trazer a compreensão necessária da proposta de trabalho da Biblioteca do CAp. As autoras formam a equipe da Biblioteca do Colégio de Aplicação da UFRJ Ana Lucia Ferreira Gonçalves é bibliotecária na UFRJ, mestre em Ciência da Informação pela UFF Lucia Helena Arraes Martins é bibliotecária na UFRJ, chefe da Biblioteca do CAp-UFRJ Leni Rodriguez Perez Fulco é bibliotecária na UFRJ Monica Atalla Pietroluongo é pedagoga na UFRJ, com especialização em Psicopedagogia pelo CEPERJ e Arteterapia pela AARJ, coordena o Projeto de Dinamização da Biblioteca do CAp-UFRJ. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 27 biblioteca Notas ¹ GASPAR, Lúcia. Ciranda. Pesquisa Escolar On-Line. Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: http://www.fundaj.gov.br. Acesso em: 3 fev. 2010. Sugestão de Leitura BYINGTON, Carlos Amadeu. A construção amorosa do saber: o fundamento e a finalidade da Pedagogia Simbólica Junguiana. São Paulo: Religare, 2003. Referências BARATIN, Marc; JACOB, Christian (Dir.). O poder das bibliotecas: a memória dos livros no Ocidente. Tradução de Marcela Mortara. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2000. FERNÁNDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada. Tradução de Iara Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. JUNG, Carl Gustav. Cartas de C.G.Jung. editado por Aniela Jaffé em colaboração com Gerhard Adler. Petrópolis: Vozes, 2003, v.1. _________. Cartas de C.G.Jung. Editado por Aniela Jaffé em colaboração com Gerhard Adler. Petrópolis: Vozes, 2003, v.3 MANNONI, Maud. La educación imposible. In: FERNÁNDEZ, Alicia. A inteligencia aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. PIR LIM PIM PIM. Rio de Janeiro: Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil, out./dez. 1988. SANDRONI, Laura; MACHADO, Luiz Raul (Orgs.). A criança e o livro: guia prático de estímulo à leitura. São Paulo: Ática, 1985. SILVEIRA, Nise. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. VISCA, J. Clínica Psicopedagógica; epistemologia convergente. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987. WINNICOTT, D. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre, Artes Médicas, 1990. ______________. Playing and reality. Londres: Tavistock, 1971. YUNES, E. (coord.). A leitura e a formação do leitor; questões culturais e pedagógicas. Rio de Janeiro: Antares, 1984. 28 séries iniciais Leitura e escrita em tempos de Tecnologia da Informação e da Comunicação Lúcia Helena Gazólis de Oliveira Sandra Amaral Barros Ferreira Este artigo tem como objetivo apresentar as etapas da pesquisa desenvolvida no âmbito do projeto “Contexto-Ação: um estudo sobre a prática da produção de texto” e divulgar as reflexões e ações resultantes de tal processo. O projeto teve início no ano de 2000 e é desenvolvido com alunos das séries iniciais do Colégio de Aplicação. A partir de 2005, passou a atuar na formação dos alunos de graduação da UFRJ, contando com duas bolsas de Iniciação Científica a cada ano1. O projeto foi idealizado com a finalidade de oferecer situações reais de leitura e de escrita, oportunizando o acesso aos variados tipos de textos que circulam socialmente e de, simultaneamente, compreender como a criança constrói sua textualidade: quais mecanismos utiliza diante dos problemas que encontra e que hipóteses coloca em prática para solucioná-los. No momento inicial, o projeto esteve voltado para a Classe de Alfabetização, que ingressava pela primeira vez no CAp por meio de sorteio. As atividades desenvolvidas contribuíram para o levantamento das hipóteses de leitura e de escrita das crianças e, neste sentido, o projeto se constituiu num importante coadjuvante do processo de ampliação da aquisição da língua, dada a possibilidade de produção de textos a partir de propostas adequadas aos diferentes níveis de compreensão destes códigos por parte das crianças, investigados durante a pesquisa. Com a ampliação dos usos tecnológicos, tanto os novos desafios que envolvem o ato de ler e escrever, quanto a necessidade de expandir as oportunidades de inclusão digital, fizeram com que o projeto redimensionasse julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 29 séries iniciais seus objetivos para a elaboração de um site destinado prioritariamente ao público infantil. A investigação incide prioritariamente nas seguintes questões: Esse processo de reflexão instaurou um segundo momento de atuação do projeto, que passou a investir em uma metodologia de participação ativa dos alunos na criação do site. A participação das crianças se efetivou desde o levantamento da sua familiaridade com o uso do computador e das suas preferências quanto a cores e técnicas de desenho, obtidas por meio de questionários e entrevistas, até a criação, caracterização, animação e apresentação dos personagens que dão origem aos links. A partir daí, o site foi hospedado na página da UFRJ, com endereço provisório, e a equipe passou a se dedicar à elaboração de atividades para a sua constituição, sempre com a preocupação de utilizar materiais originais das crianças e de discutir a concepção de educação subjacente às propostas. Como forma de pré-testagem, as crianças interagiram com uma primeira versão das atividades para a avaliação da sua qualidade técnica e pedagógica. A observação da interação das crianças com as propostas, seu interesse, suas dúvidas, suas dificuldades, o tempo de utilização, entre outras particularidades, tornaram-se alvo de análise. Esse momento fértil da pesquisa nos levou a diversos questionamentos: Que modificações o ambiente digital traz para as práticas de leitura e escrita? Até que ponto poderá revolucionar as práticas escolares? Como evitar propostas que representem apenas uma transposição do papel para a tela, tendo em vista a interação sujeitomáquina e os outros modos de pensar, sentir e agir? . Como contemplar as diferenças de saberes das crianças em relação ao processo de aquisição da leitura e da escrita em textos eletrônicos? Que tipos de propostas de produção de textos os sites infantis apresentam? . Quais questões tensionam a discussão em torno da imagem, tendo em vista as novas possibilidades de produção de sentido que oferecem? . Quais as relações existentes entre diversidade cultural e tecnologia da informação e da comunicação? Como a diversidade cultural se apresenta nos sites pesquisados?2 Essas inquietações provocaram uma mudança de eixo na pesquisa: transitamos da preocupação inicial, utilizar o computador como mais uma ferramenta para a leitura e a escrita, para a busca de aprofundamento em relação aos elementos que atravessam a linguagem em sua constituição. Etapa Atual da Pesquisa Foi nesse contexto que o projeto iniciou uma fase dedicada ao aprofundamento teórico e à investigação de sites direcionados para crianças. A metodologia utilizada consiste, por um lado, no levantamento e na sistematização da literatura, nas áreas de Educação, TCI e Psicologia, nos últimos 8 anos, em periódicos nacionais, sobre os temas em aprofundamento e, por outro lado, no mapeamento de sites destinados ao público infantil (incluindo os mais visitados por alunos das séries iniciais do CAp) e posteriores reflexões sobre como tais questões são abordadas nesses sites. 30 Indicações da Pesquisa e Suas Implicações Apresentaremos de forma breve e preliminar os debates centrais encontrados na literatura pesquisada. Quanto à leitura e à escrita, a literatura aponta para o fato de que ser alfabetizado e letrado não significa ser letrado digitalmente. Sendo assim, discute sobre mudanças efetivadas no ambiente digital em termos de estratégias de aprendizagem e de processos cognitivos, tais como o desenvolvimento da autonomia para a pesquisa, o exercício da adoção de critérios de seleção, a evocação da curiosidade e do senso crítico. Os autores ressaltam o favorecimento da interação, que é intensa, diversificada e dinâmica no ambiente digital, e considerada elemento fundamental no processo de aprendizagem (Benckel, Ramos; 2007). As questões de motivação, ludicidade e de possibilidade de uso de recursos inatingíveis sem a web também são mencionadas por incidirem positivamente na aprendizagem. Parte da literatura trata das implicações quanto ao suporte textual. Há destaque para o fato de que na leitura do hipertexto o leitor não está mais submetido à linearidade. Essa nova disposição, multi-sequencial, gera associações com outras leituras, numa relação de intertextualidade constante que tem implicações quanto à autoria do próprio processo de aprender, transformando o leitor, frequentemente, em co-autor (Soares; 2002; Silva; 2005). As alterações nas relações de tempo e espaço também são bastante abordadas, indicando a superação da visão pautada no tempo cronológico, já que a comunicação pode ocorrer em tempo real, com vários locais e pessoas, simultaneamente, fazendo “coexistirem durações diversas3”. A pesquisa relativa aos sites evidenciou que, cada vez mais, a criança é chamada a fazer escolhas e a se posicionar criticamente em relação aos conteúdos disponíveis na web. A análise dos sites nos permitiu observar que as habilidades de “navegação” e “exploração” favorecem o desenvolvimento de novas competências cognitivas, proporcionando ao leitor em formação a ampliação do seu letramento e de sua capacidade de ação. Nossa apreciação específica em relação às situações de leitura e de escrita oferecidas pelos sites nos levou a seguinte constatação: Se, por um lado, fica evidente a diversidade de gêneros, de recursos e de estruturas disponíveis para leitura, por outro lado, quanto à produção textual, as propostas tendem a uma simples transposição do papel para a tela. Em relação à pesquisa efetuada sobre o papel da imagem, a literatura investigada apresentou duas tendências principais, apesar de não excludentes: uma das abordagens prioriza a análise de aspectos de homogeneização, de dominação cultural e de apelo ao consumo. Os autores com esse tipo de enfoque reforçam desvantagens no processo de interação com as mídias, considerando que as imagens que circulam nos sítios contribuem unilateralmente para a difusão dos elementos da cultura hegemônica, enquanto os elementos das demais culturas não encontram espaço sequer para manter suas características. Conforme Gomes (2001) “a influência do imaginário estereotipado constrói uma subjetividade homogeneizada, reforçando os discursos hegemônicos que estabelecem desigualdades”. A outra abordagem prioriza a análise da possível socialização do saber e dos aspectos do desenvolvimento de habilidades cognitivas, oportunizados pelo contato com as mídias. Nessa vertente, o acesso às tecnologias - tendo a imagem como instrumento privilegiado - se constitui em importante espaço para a construção de elementos séries iniciais Essa nova disposição, multi-sequencial, gera associações com outras leituras, numa relação de intertextualidade constante da subjetividade no qual o leitor cria novos códigos ou se apropria dos existentes para se comunicar com outros leitores. Segundo Romão e Lima (2007) “Os artefatos tecnológicos não só mudam a nossa forma de sentir, ver e conceber o mundo como modificam a linguagem, a sensibilidade e as escritas (...) abrindo portas para a ampliação das possibilidades de movimento dos afetos e das subjetividades no processo de produção do conhecimento”. Destacamos, ainda, o debate que apresenta uma visão crítica em relação às percepções clássicas do ato de ver, ora situando-o nas coisas, ora na ação soberana do sujeito que, ao olhar, “iluminaria o objeto” (Fischer; 2008). Essa concepção, também mencionada por Miranda (2007) e Macedo (2007), estaria relacionada a um “ideal de objetividade”, à imagem como registro científico, neutro de afeto, naturalizando o paradigma de ciência moderna; a dicotomia e hierarquização das linguagens e a concorrência entre imagem e palavra. Como contraponto, os autores indicam caminhos que, no nosso entendimento, remetem ao importante papel que a educação pode desempenhar frente à sujeição do olhar. Destacamos a oportunização de situações que “façam romper com a verdade ou com a previsibilidade da tradução que fazemos das imagens dos sujeitos e das coisas” (Marcello; 2008) e a relevância de se “problematizar imagens e narrativas midiáticas, de modo que se possa pensá-las como objeto de estudo no meio escolar” (Fischer; 2007). A investigação dos sites quanto a esse tema, salvo algumas tímidas iniciativas de contraposição a estereótipos e de inclusão das crianças na co-produção de imagens, corroborou os principais aspectos mencionados pela literatura quanto à padronização de comportamentos e ao reforço de estereótipos, tais como: (i) apelo recorrente ao consumismo e valorização da pessoa pelo que ela possui; (ii) gêneros marcados por forte estereotipia (Mulher/menina: loira, magra, frágil, quer casar a qualquer custo, cuida do marido e dos filhos, deve ser boazinha, amiga e comportada – Homem/ menino: corajoso, foge do casamento, ligado ao trabalho profissional, usuário de tecnologias, rebelde (no sentido de “esperto”); (iii) culturas desprivilegiadas, como a do interior, por exemplo, tratadas de forma anedótica, marcadamente desmerecida pelo uso da linguagem nãoculta e pela não compreensão em relação aos fatos; (iv) família ainda fortemente representada pelo padrão pai, mãe, um filho e uma filha). Essa etapa da pesquisa trouxe importantes reflexões, sensibilizando a equipe para o questionamento sobre julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 31 séries iniciais qual ‘sujeito infantil’ nos serve de ponto de partida para a criação do site, sobre que ‘criança’ é apreendida pelo nosso olhar e sobre as traduções que fazemos quando editamos o conteúdo oferecido para ela. Além disso, as leituras nos levaram a compreender que não existe ‘a imagem ideal’, pois cada um a apreende segundo seu olhar, sendo assim, também não é possível um site que contemple todas as crianças em suas particularidades. Como implicação para o projeto, o estudo nos levou a crer em que, mais do que tomar decisões sobre quais imagens usar no site devemos propor abordagens que problematizem suas diferentes facetas. Uma possibilidade estaria em trazer as imagens, provocar experiências com elas e fomentar a exteriorização do que elas provocam. Notas Profissionais do CAp parceiros em algumas etapas: Carmen L. C. de Oliveira, Regina C. S. Pugliese, Simone A. Rodrigues, Fátima C.V.S. Brito e Mônica A. Pietroluongo. 1 2 Questão de pesquisa em andamento em 2010. 3 Nos termos de Deleuze, G. e Guattari, F. (1997). Em linhas gerais, nossos estudos têm nos levado ao reconhecimento de que é urgente ampliar o debate sobre os saberes tecnológicos nas diferentes áreas, aprofundar conhecimentos acerca da cognição, e do entendimento das condições de cognição, e investir nas possibilidades de uso das tecnologias com vistas a re-invenção das práticas de ensino-aprendizagem. Acreditamos que iniciativas nesse sentido possam contribuir para a superação de resistências próprias dos não nativos no ambiente digital. Além disso, ressaltamos a importância do olhar crítico sobre a relação entre tecnologia e mercado e a necessidade de se problematizar usos que potencializam os modelos hegemônicos, o adestramento e o saber único. Lúcia Helena Gazólis de Oliveira é do setor Multidisciplinar do CAp-UFRJ e Mestre em Educação Sandra Amaral Barros Ferreira é orientadora no SOE (Serviço de Orientação Escolar) do CAp-UFRJ e doutora em Educação pela UFF Referências Bencker, D.B; Ramos, F. B. Leitura de poemas infantis: analisando as estratégias leitoras a partir do suporte. Deleuze, G.; Guattari, F. Devir intenso, devir animal, devir imperceptível. In: G. Deleuze; F. Guattari (Orgs.), Mil platôs, Vol. 4, pp.11-113, Rio de Janeiro: Ed. 34 Letras, 1997. In: Kastru, Virgínia. O Devir-Criança e a Cognição Contemporânea. Psicologia e Reflexão Crítica, vol.13, n.3, Porto Alegre, 2000. Fischer, R. M. B. Mídia, máquinas de imagens e práticas pedagógicas. Revista Brasileira de Educação, vol.12, no.35. Rio de Janeiro, Mai/Agos, 2007. Fischer, R. M. B. Mídia, juventude e memória cultural. Educucação e Sociedade, v.29, n.104, Campinas, out. 2008. Gomes, P. B. M. B. Mídia, imaginário de consumo e educação. Educação e Sociedade, 2001, vol.22, n.74, pp. 191-207. Macedo, R. C. M. de. Imagens e narrativas nos/dos murais: dialogando com os sujeitos da escola. Educação e Sociedade, vol.28 no.98, Campinas, Jan./Abr, 2007. Marcello, Fabiana de Amorim. Cinema e educação: da criança que nos convoca à imagem que nos afronta. Revista Brasileira de Educação, 2008, vol. 13, nº 38, p. 343-356. Miranda, L. L. A cultura da imagem e uma nova produção subjetiva. Psicologia Clínica, vol.19 no.1. Rio de Janeiro, 2007. Romão E. S; Lima, M. F. M. A educação no universo das imagens: tecnologia, cultura, linguagem. Silva, O. S. F. Hipertexto: Espaço interativo de leitura e escrita. In: I Encontro Nacional sobre Hipertexto: desafios lingüísticos literários e pedagógicos, 2005. Soares, M. Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura. Educação e Sociedade, Campinas, 2002, vol. 23, no. 81. 32 história A Perspectiva e Ensino de História no CAp: Combatendo o perigo de uma história única Alessandra Carvalho Mônica Lima “Histórias são importantes. Muitas histórias são importantes. Histórias têm sido usadas para expropriar e tornar maligno. Mas histórias também podem ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas podem também reparar esta dignidade destruída.” Chimamanda Ngozi Adichie 1 Em princípios do ano letivo de 2010, nos chegou por email a indicação de um vídeo da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie intitulado ‘O Perigo da História Única’. Nele, Chimamanda recupera de forma elegante e comovente sua trajetória pessoal com os livros e a literatura, desde sua infância de leitora precoce em um ambiente universitário na Nigéria até sua estréia como escritora de ficção nos Estados Unidos; neste percurso, expõe a necessidade de que qualquer conhecimento e imagem sobre um povo, uma sociedade, seja o resultado de muitas histórias diferentes. De imediato, as ideias da escritora nigeriana originaram várias atividades nas aulas de História. Com as turmas de 1ª série do Ensino Médio, o vídeo ensejou a elaboração de um trabalho em sala de aula a partir do texto da fala de Chimamanda Adichie, relacionando-o aos estudos sobre a construção do conhecimento histórico2 . Paralelamente, também em sala, foi realizado um debate sobre a importância de se conhecer e estudar a história de diferentes povos para se entender melhor o mundo e desenvolver o respeito a culturas diferentes. Na aula de Prática de Ensino, as discussões se dirigiram para o planejamento de atividades didáticas pelos licenciandos, tendo como pressuposto o rompimento com o discurso da “história única” a partir da explicitação da possibilidade de diferentes perspectivas de análise e narrativa históricas3. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 33 história As diversas utilizações do vídeo foram possíveis, principalmente, porque suas proposições vão ao encontro da perspectiva didática e pedagógica que tem norteado o ensino de História no CAp, tanto na Educação Básica quanto no trabalho na licenciatura. Embora sem uma formalização curricular, mas reunindo inovações do campo da historiografia e da educação, as discussões propostas a alunos e licenciandos, assim como as atividades realizadas, têm buscado problematizar aspectos como a perspectiva eurocêntrica, ligada à emergência do capitalismo, ainda tão presente em muitos materiais didáticos e na própria forma de entender, classificar e hierarquizar as sociedades humanas. Aliado a isso, vimos buscando introduzir novos atores e diferentes visões sobre os processos históricos, objetivando construir com os alunos cenários históricos mais diversificados e complexos, nos quais distintas lógicas sociais, culturais e temporais estejam presentes. Como afirma Chimamanda Adichie, quando conhecemos somente uma história sobre um lugar ou um povo, terminamos por nos fechar em estereótipos que são, acima de tudo, incompletos e impedem uma compreensão mais profunda das ações humanas4. Assim, contra o perigo de uma história única, ela propõe muitas histórias, que demonstrem a diversidade humana presente em todas as sociedades e a impossibilidade de resumi-las a uma só imagem. Contra o perigo de uma história única, nós propomos uma história plural, que tenha como objetivo primordial colocar em diálogo experiências históricas e lógicas culturais diversas, dentre as quais a europeia/capitalista, que não pode ser vista como o ponto de partida. Ou de chegada... quando conhecemos somente uma história sobre um lugar ou um povo, terminamos por nos fechar em estereótipos incompletos... 34 Esta perspectiva não implica a negação das relações de dominação que caracterizam a história construída entre europeus e africanos, europeus e asiáticos, europeus e americanos, americanos e africanos, americanos e indígenas. Tampouco o desprezo pela força que o sistema capitalista adquiriu a partir de meados do século XIX como princípio de organização das interações entre distintos povos e regiões do planeta. Todavia, a proposta de uma história plural significa abordar os processos históricos considerando os aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais das sociedades europeias e fazendo o esforço de manter o mesmo enfoque para as sociedades não-europeias. “Comece a história com as flechas dos nativos americanos e não com a chegada dos britânicos e você terá uma história inteiramente diferente. Comece a história com a falência do Estado africano e não com a criação colonial do Estado africano, e você terá uma história inteiramente diferente”, avisa Chimamanda Adichie5. Dois pontos de partida diferentes, que nos contarão histórias diferentes. A nossa aposta é que, quando colocadas em diálogo e em interação, elas são capazes de fazer com que os alunos percebam como se construíram no tempo intercâmbios econômicos, culturais, demográficos entre agentes históricos igualmente complexos e ‘ricos’ em história. Um efeito esperado deste caminho didático é a ampliação do olhar do aluno, no sentido de que ele conheça e se aproxime de sociedades distantes do seu tempo, do seu espaço e dos seus valores e princípios sociais e culturais. Ampliar o olhar significa, também, enfatizar a complexidade de ordens humanas adjetivadas de ‘pobres’, ‘simples’, ‘atrasadas’, sobretudo pelo senso comum. Pegando emprestadas as palavras de outro escritor, o mexicano Octavio Paz, este processo busca construir com os alunos a ideia de que “cada sociedade marginal, por mais pobre que seja, representa uma versão única e preciosa da humanidade” – é uma resposta histórica singular aos mais variados problemas humanos, desde a necessidade de garantir sua sobrevivência física e material até organizar suas relações afetivas, produzir arte e entender a finitude da vida. Com certeza, há um elemento subjacente a essas opções didático-metodológicas que se refere à importância da escola e, no interior desta, da disciplina História, como lócus fundamental para o fortalecimento de valores como tolerância, valorização da diversidade e respeito cultural. Neste sentido, é possível sublinhar uma revisão dos objetivos colocados para o ensino de História na educação básica, em que as questões culturais e a presença de grupos antes excluídos adquirem uma Isto nos leva ao último aspecto da abordagem que procuramos construir em sala de aula e no trabalho semanal com os licenciandos: as relações que se estabelecem entre os conceitos e habilidades trabalhados no ensino de História e a inserção dos sujeitos no mundo em que vivem. Se esperamos que os alunos, a partir de determinadas opções didático-metodológicas, sejam capazes de entender e respeitar o outro, a ideia de uma história plural tem também como um de seus objetivos a reflexão sobre o contexto histórico no qual estamos imersos, marcado por relações de dominação econômica, política e cultural historicamente construídas. Em outras palavras, uma relação de respeito cultural pelo outro passa, obrigatoriamente, por compreender e problematizar os sistemas de entendimento de mundo e classificação e hierarquização de sociedades humanas vigentes atualmente. Há uma percepção geral entre os professores de que os alunos apresentam grandes dificuldades para conceber uma lógica diferente da sociedade capitalista na qual vivem – marcada pela ênfase no individualismo, o fetiche da tecnologia, a descrença em projeto ou ideias Notas 1 Chimamanda Adichie, “The danger of a single story”, 14.10.2009. L ink:htt p://w w w.ted.com/ta lks/ch imamanda _ ad ich ie _t he _ danger_of_a_single_story.html. Acesso em 14.06.2010. O módulo inicial do programa curricular para a 1ª série do Ensino Médio, intitulado “Introdução ao Estudo da História”, discute o conceito de História e os elementos característicos da construção do conhecimento histórico e das narrativas históricas. 2 de caráter transformador e o elogio dos ‘vencedores’. Podemos indicar vários processos históricos que explicariam este ambiente como o fim dos regimes comunistas e dos grandes embates ideológicos do século XX, as inovações tecnológicas aceleradas que alteram as percepções subjetivas da temporalidade, o empobrecimento da esfera democrática como dimensão transformadora. Qualquer que seja o peso destes fatores ou sua dinâmica particular, o resultado é que os alunos tendem a naturalizar o mundo em que estão inseridos, assim como suas hierarquias sociais e culturais, afastando a possibilidade de qualquer problematização e/ou contestação. história grande centralidade. Se esta revisão não cancela as relações entre ensino de História e construção de identidade nacional, certamente há uma adição ao que se espera que os professores discutam em sala de aula. No caso da História do Brasil, por exemplo, trata-se de incorporar de forma qualitativa e quantitativa povos indígenas, afrodescendentes e imigrantes europeus e asiáticos, alterando as formas de interpretação histórica sobre a emergência da ‘sociedade brasileira’ e problematizando arraigadas visões de mundo no qual a ação de europeus/brancos ganha um destaque absoluto. Ora, a ideia de uma história plural, combatendo a força de uma história única, é a busca por desnaturalizar este olhar através dos conceitos manejados pelas ciências sociais. Em uma primeira direção, é a tentativa de recuperar a noção de processo histórico que erigiu o mundo tal como o conhecemos hoje, como o resultado das opções e ações de distintos grupos humanos em contínua interação; neste trajeto, determinadas visões e ideologias acabam por se estabelecer com mais força inferiorizando sociedades e culturas. Mas este é, sobretudo, um processo ininterrupto de construção humana no tempo e no espaço, cujos mecanismos devem ser identificados e compreendidos por professores e alunos. Numa segunda direção, a história plural é a tentativa de enfatizar as diferentes possibilidades de humanidade, estimulando uma discussão acerca da capacidade de ação e reinvenção humanas. Em um e outro caso, acreditamos que estaria aberto o espaço para a emergência de um espírito crítico dos alunos e de uma relação mais profunda entre o sujeito e seu tempo histórico. Alessandra Carvalho é professora de História do CAP-UFRJ e Doutora em Sociologia. Mônica Lima é professora de História do CAP-UFRJ e Doutora em História 3 Agradecemos à Professora Cinthia Monteiro as informações sobre a atividade realizada. 4 Idem. 5 Idem. Sugestão de Leitura BYINGTON, Carlos Amadeu. A construção amorosa do saber: o fundamento e a finalidade da Pedagogia Simbólica Junguiana. São Paulo: Religare, 2003. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 35 biologia Excursões de campo: integrando diferentes conteúdos da Biologia Fernando Guarino Filipe Porto Excursões de campo podem ser vistas como aulas práticas a céu aberto, cujo objetivo principal é o de verificar concretamente (na prática) conteúdos trabalhados no plano teórico em sala de aula. Esta é uma visão restrita dos objetivos pedagógicos que podem motivar uma excursão de campo. A riqueza (de espécies, sensações e interações) que os ambientes menos empobrecidos pelo homem nos oferece permite que diferentes objetivos pedagógicos e diversos conteúdos escolares possam ser trabalhados simultaneamente e integrados. Neste trabalho apresentaremos um relato de experiências acumuladas durante dez anos de excursões de campo realizadas com turmas da 2ª série do Ensino Médio do Colégio de Aplicação da UFRJ, em que diferentes objetivos pedagógicos foram traçados e parcialmente alcançados. 36 Motivações para realizar uma excursão de campo (ou que objetivos pedagógicos uma excursão de campo pode atender) Estudar Biologia viva A Biologia é uma ciência que estuda a vida. No entanto, quando a estudamos em ambientes escolares, os exemplares estudados estão normalmente mortos ou são apenas modelos que não interagem com o ambiente a sua volta. Isto pode ser visto como um paradoxo, mas é a realidade das escolas em sua maioria. Uma possível parte da solução para este problema são excursões de campo, que permitem que os alunos vejam alguns exemplos de seres vivos interagindo com outros seres vivos e com o ambiente. Educar urbanoides Com o avanço rápido da tecnologia e da urbanização, as pessoas tendem a se distanciar cada vez mais de ambientes pouco manipulados pelo homem.. Os adolescentes de hoje não têm o hábito de visitar locais abertos e só mantêm contato com objetos tecnológicos modernos típicos de um ambiente urbano. Esta cultura urbana favorece a formação do que os biólogos costumar chamar de “urbanoides”: indivíduos ignorantes da fauna e flora locais bem como da diversidade de ambientes que o planeta abriga. O resultado é que a maioria dos alunos Integrar uma Biologia fragmentada Ecologia e Evolução são um dos temas integradores da Biologia. Ou seja, para compreender essas ciências é preciso lançar mão de outros conteúdos da Biologia tais como anatomia, fisiologia, genética, etc. Além disso, a Ecologia e principalmente a Evolução dão sentido aos demais saberes de outras áreas da Biologia, porque explicam historicamente como as diferentes características e processos biológicos surgiram e se fixaram nas diversas espécies de seres vivos. Entretanto, Ecologia e Evolução são normalmente vistas como unidades independentes na 3ª série do ensino médio o que dificulta a exploração de seu caráter integrador da Biologia. As excursões de campo na 2ª série do Ensino Médio buscam superar esse problema. Os alunos têm a oportunidade de identificar as pressões seletivas (desafios impostos pelo ambiente aos seres vivos) que favoreceram a disseminação de determinados padrões (regularidades) de características presentes nos seres vivos nos diferentes ambientes onde eles vivem. Formação dos licenciandos Mais um ponto positivo das excursões de campo é o enriquecimento da formação dos licenciandos, que participam ativamente tanto do planejamento como de sua execução. Isso inclui, entre outras coisas, a preparação de roteiros e a seleção das atividades práticas realizadas (ver adiante). As excursões de campo ainda promovem uma maior interação alunos/ licenciandos/professores, reduzindo as distâncias na comunicação destas partes. Para onde ir? biologia chega ao ensino médio sabendo diferenciar uma célula procarionte de uma eucarionte e que esta última pode se dividir por meiose e mitose, mas não sabem o que é um líquen e acham que baleia é um peixe. As excursões são boas oportunidades para que eles tenham um primeiro contato com estes ambientes biologicamente mais ricos e com os animais que ali vivem. Além disso, é uma boa maneira de despertar uma consciência ecológica, já que conhecendo algumas particularidades do ambiente fica mais fácil de compreender como e por que preservá-lo. A escolha dos locais onde são realizadas as excursões também é relevante. Ela é feita baseada em alguns fatores importantes relacionados à realidade que temos em nossa escola. O local tem que ser de fácil acesso, porque o número de participantes geralmente é bastante elevado, o que complicaria a logística do processo caso o acesso fosse difícil. Também é importante que o local seja minimamente agradável de fazer a atividade, senão o rendimento dos alunos durante as atividades pode ser afetado. O local também precisa apresentar uma diversidade significativa de seres vivos, ou então a excursão perde um dos seus objetivos. Um último fator que deve ser levado em conta é a possibilidade de se manipular o ambiente para mostrar determinados aspectos importantes do ambiente para os alunos. Ao longo dos 10 anos os locais escolhidos para serem visitados variaram na tentativa de adequar cada vez mais a excursão aos critérios mencionados acima e também à criatividade dos licenciandos na busca dos melhore lugares. Dois locais têm sido visitados regularmente desde o início do projeto em 2000. Um deles é uma trilha pelas florestas do Horto, localizada no Parque Nacional da Tijuca bem próximo ao Colégio de Aplicação da UFRJ (CAp-UFRJ). Nesta floresta os alunos entram em contato com Mata Atlântica de encosta e podem observar tanto espécies nativas quanto exóticas da fauna e da flora. A trilha visitada termina na cachoeira dos primatas onde os alunos podem tomar banho após o término das atividades. A outra excursão que sempre acontece é ao Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba em Macaé – RJ. Neste local os alunos podem observar uma das mais preservadas restingas do mundo, com uma vegetação específica desta área com adaptações para viver em um ambiente de alta salinidade e solo bastante arenoso (devido a sua proximidade com o oceano). As excursões ao ambiente marinho foram realizadas em diferentes locais: praias Vermelha e Urca no Rio de Janeiro – RJ (2001 e 2002), praia de Itaipu – RJ (2003) e praias Peró e Conchas em Cabo Frio – RJ (desde 2009). Nestes locais é possível observar uma fauna muito diversa que habita ambientes distintos como a areia da praia, os costões rochosos e o próprio mar, exibindo em cada um deles adaptações específicas, como por exemplo, carapaças que permitem sobreviver às variações de maré e ao impacto das ondas. Além disso, a Praia da Conchas, por ser calma e limpa permite os alunos mergulhar e observar a vida submarina próxima a costa. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 37 biologia Atividades desenvolvidas Resultados e Desafios As atividades desenvolvidas têm por objetivo aperfeiçoar a observação da fauna e da flora, identificar as pressões seletivas que o ambiente exerce sobre esses organismos e refletir sobre as adaptações que os seres vivos apresentam de forma a sobreviver e reproduzir em cada um desses ambientes. Há diversas estratégias didáticas para se atingir esses objetivos e os licenciandos são incentivados a usar sua criatividade para desenvolvê-las. Os relatos dos alunos após cada excursão de campo, nos Conselhos de Classe ao longo do ano e mesmo no ano subsequente sugerem que os objetivos de integração social e de ampliação dos horizontes geográficos e biológicos são plenamente atendidos. Entretanto, não é possível analisar claramente se a excursão facilita a integração dos conhecimentos. Mas, alguns relatos de outros professores sugerem que essas saídas facilitam o trabalho de Ecologia na 3ª série do Ensino Médio do CAp, já que os alunos puderam observar in vivo diversas das interações tratadas na série em questão apenas de maneira teórica. Além disso, professores da própria 2ª série percebem um aumento de participação nas aulas e na qualidade dos trabalhos realizados no âmbito da disciplina em alunos que antes da saída de campo tinham pouco interesse no conteúdo biológico. Dentre elas podemos citar a coleta e observação da fauna e da flora locais. Muitas das vezes essa coleta se dá por uso de instrumentos simples que são capazes de capturar (sem danificar) muitos organismos que a princípio não estão disponíveis ao olhar do leigo, como por exemplo, redes, peneiras e microscópios. Associado a isso tentamos sempre que possível medir alguns parâmetros físicos do ambiente de forma a relacionar as características dos seres vivos coletados/ observados com as pressões seletivas do ambiente onde eles se encontram. Outra estratégia menos ortodoxa é a que se convencionou chamar de “Encontre e Mostre”. Vale lembrar que os licenciandos aprenderam a usar essa atividade na disciplina de Ecologia Básica ministrada nos primeiros períodos do curso de graduação da UFRJ. Nesta atividade os alunos precisam inicialmente reconhecer um padrão na mata (um evento que se repita; uma regularidade). Em seguida, devem propor hipóteses que expliquem como ou por que o padrão ocorre e pensar em experimentos que possam testar as hipóteses propostas. Esta atividade estimula a construção de um olhar diferenciado para os fenômenos ambientais que leva ao reconhecimento de diferentes padrões. Ela também estimula a criatividade na proposta de soluções e de testes para as hipóteses propostas. Um dos grandes desafios ainda a serem superados está na participação ativa dos alunos durantes as atividades. Os alunos geralmente escutam muitas explicações e executam poucas atividades. Acreditamos que quando o aluno participa ativamente é mais fácil e menos chato o aprendizado durante as excursões. Fernando Guarino é professor substituto de biologia do CAp UFRJ e pós-graduado em Docência no Ensino Superior Filipe Porto é professor de biologia do CAp UFRJ e Doutor em Ensino de Biociências e Saúde Sugestão de Leitura MARANDINO, Martha, ESCOVEDO SELLES, Sandra e SERRA FERREIRA, Marcia. Ensino de Biologia Histórias e Práticas em diferentes espaços educativos. Cortez Editora. 1ª edição, 2009. 38 aconteceu Aconteceu no 2º semestre de 2009 Cultura Popular Brasileira Eleição Aconteceu no segundo semestre de 2009 uma Exposição e Apresentação do trabalho de Cultura Popular Brasileira no quarto ano. Os alunos do quarto ano explicaram aos familiares e amigos o trabalho que produziram sobre cultura popular brasileira durante o segundo semestre através de uma exposição dos trabalhos. Tiveram também brincadeiras como quem acertasse a bola na boca do saci ganhava uma paçoca. teve um jogral no qual cada aluno falava um pouco sobre o que a´rendeu sobre cu o tema e tb uma apresentação de peças com os mitos do folclore brasileiro e ao final uma grande ciranda composta de alunos e seus familiares. Vários familiares compareceram. Em outubro houve eleição para a direção do CAp. Foram reeleitas as professoras Celina Costa e Miriam Kaiuca, respectivamente como diretora e vice-diretora. Fazendo parte da mesma chapa vencedora, temos as professoras Maria Luiza Rocha e Leticia Rangel como diretoras adjuntas da DALPE (Direção Adjunta de Licenciatura, Pesquisa e Extensão) e os professores Célia Brito Teixeira Gama, Cristiane Madenelo de Oliveira, Maria de Fátima dos Santos Galvão e Marcos Vinícius Pimentel de Andrade como diretores adjuntos da DAE (Direção Acadêmica de Ensino). Silmar Marques VI SICEA Realizou-se entre 29 de outubro e 1º de novembro, na Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará em Belém, o VI SICEA - VI Seminário de Institutos, Colégios e Escolas de Aplicação das Universidades Brasileiras. Vários docentes do CAp-UFRJ participaram do encontro, apresentaram seus trabalhos. Minicurso de Grafos Realizou-se no CAP-UFRJ entre os dias 17 e 19 de agosto o Minicurso de Grafos: Conceitos e contextos para o Ensino Médio, ministrado pelo Professor MSc Ivail Muniz (FAETEC - CPII - Zaccaria) julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 39 Evandro Domingues Os alunos Carolinne Lamas, Igor Rocha, Fernanda Mayor e Cora Ottoni, do Segundo Ano do Ensino Médio, fritaram e serviram tomates verdes em uma atividade que discutiu com a comunidade Capiana alguns pontos do filme Fried Green Tomatoes. Luísa Saraiva Inglês e Varal de Poesias No dia 17 de novembro o cineasta Bruno Vianna exibiu no CAp seu filme RESSACA. O filme, com trilha sonora de Rodrigo Marçal e Lucas Marcier, é o primeiro longa-metragem brasileiro editado e sonorizado ao vivo em uma interface desenvolvida especialmente para o projeto. A exibição, seguida de debate, fez parte do I ArteDebate: Cinema ao vivo – experiências no campo das artes e do audiovisual, organizado pelo Projeto Meios de Comunicação Audiovisuais, Novas tecnologias e Educação do Setor Curricular de Artes Visuais, com o objetivo de aproximar os profissionais da educação, estudantes e licenciandos do CAp-UFRJ da produção cinematográfica contemporânea brasileira e da reflexão acerca de novas linguagens e formas de interação com a produção de narrativas por meio de imagens mediadas por novas tecnologias. Para saber mais sobre o filme: http://www.ressaca.net/ Alunos do Segundo Ano do Ensino Médio, da oficina de Inglês Video & Literature, travaram contato com poesia em língua inglesa através de um Varal de Poesias. Silmar Marques 40 Filme Ressaca Evandro Domingues aconteceu Oficina de Inglês, vídeo e literatura Recital de poesia do 1º ano Fundamental A professoras Gloria Maria de Oliveira, Simone de Alencastro Rodrigues e Soymara Vieira Emiliào, do setor curricular Multidisciplilnar, organizaram um recital de poesias com os alunos do primeiro ano fundamental. Os jovens declamadores, recém alfabetizados, recitaram poemas de Cecília Meireles, José Paulo Paes, Lalao e Vinicius de Moraes a uma plateia emociada, formada por familiares, colegas e professores. Um sucesso! “Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam...” aconteceu Apesar da epidemia do virus H1N1, a temida Gripe Suína. estar em plena ação pelo país, o Colégio de Aplicação da UFRJ marcou presença na XXIV Reunião Anual da FeSBE. O evento ocorreu em Águas de Lindóia, SP entre os dias 19 e 22 de agosto de 2009. Participaram 16 alunos que apresentaram 15 trabalhos produzidos por 25 nos estagios de ICJr de 2008. Eles foram acompanhados por: Fábio Garcez de Carvalho (DALPE), Marcelo da Silva Bueno (DAE), Vicente de Paulo Batista (Coordenador NIC Jr.), Ana Paula Penna da Silva (NIC Jr.), Flavia Peixoto Serra Siquara (NIC Jr.) foto de arquivo de Vicente Batista XXIV Reunião Anual da FeSBE Como podem ver, não foi necessário a utilização de máscaras Iniciação Científica O aluno Pedro da Poian Chaloub apresentou trabalho em sessão oral no X Seminário de Vocação Científica do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). O evento ocorreu no CBPF no dia 16 de outubro de 2009 Os alunos Lucas Caulit Santos e Isabel Lacerda de Medeiros apresentaram trabalhos no X Encontro de Ciência Empírica em Letras (ECEL) Os alunos também participaram da XXXI Jornada Giulio Massarani de Iniciação Científica, Artística e Cultural da UFRJ. M. Quintana Poemas contados e olhos brilhantes querendo ouvir sempre mais! A partir do encantamento, a proposta: Recital de poesia para os adultos. Seleção de poemas, poeminhas, poemões. Quem daria conta de tantas articulações? Autores mil, livros, letras, muitas opiniões. Declamações, impostações, corações aflitos esperando o grande dia. CINEAD No dia 29 de agosto, realizou-se a edição do Cineclube CAp-UFRJ, com a apresentação do documentário “Janela da Alma”. Foram convidados para o debate o professor Maurício Lissovsky (ECO/UFRJ), o diretor Walter Carvalho (diretor do documentário) e a professora de Português e Literatura, Márcia Xavier (CAp/UFRJ). Antes do filme principal exibiu-se um pequeno curta para as crianças: “As férias do Lord Lucas”. julho de 2010 Perspectiva CApiana nº7 41 aconteceu OULIPO No dia 28 de outubro de 2009, o "OuLiPo" visitou o CAp UFRJ. Marcel Bénabou, poeta, escritor, historiador e professor emérito da Universidade Paris VII, Jacques Jouet, poeta, romancista e dramaturgo e Hervé le Tellier, poeta, romancista, dramaturgo, artista plástico e professor da Sorbonne, desenvolveram junto às turmas de francês de 3º ano do Ensino Médio, sob a coordenação da Profª Stefanella Boatto, do Instituto de Matemática da UFRJ, e com a participação dos professores de francês Luciana d'Araujo e João de Mello e da Profª Teresa Andrade (Setor de Língua Portuguesa), uma oficina de escrita em francês, que pretendeu explorar e "explodir" as margens entre escrita, criação, recriação e leitura. A proposta do "OuLiPo" (Oficinas de Literatura Potencial), projeto que teve início na França e na Itália, foi apresentada no Rio de Janeiro em algumas escolas e universidades, como parte das comemorações do Ano da França no Brasil. Os alunos de francês do 3º ano tiveram a oportunidade de criar seus próprios poemas, em francês, de acordo com o que foi proposto pelos professores, resultando em textos originais e criativos. Olimpída Nacional em História do Brasil A 1ª Olimpíada Nacional em História do Brasil, uma iniciativa inédita do Museu Exploratório de Ciências, Unicamp, concebida e elaborada por historiadores e professores de história, voltada para o público das últimas séries de ensino Fundamental e do Ensino Médio, ocorreu em 2009. Contou com cerca de 16 mil inscritos e foi um grande sucesso entre alunos e professores de todo o país! Equipe do CAp que ganhou medalha de bronze: Eduarda Lazari Maia, Caio Henriques Lo Bianco e Débora Pereira Faria SACC Nos dias 24, 26 e 27 de outubro, teve lugar a XV Semana de Arte, Ciência e Cultura (SACC) do CAp-UFRJ, com atividades relacionadas com os objetivos didáticos e pedagógicos do colégio, o trabalho com a licenciatura e a formação de professores. Parabéns aos organizadores do evento e a todos que dele participaram! 42 Como P ublicar em P erspectiva Capiana Perspectiva capiana é uma revista de divulgação que publica prioritariamente resultados de projetos de ensino, de pesquisa e de extensão feitos no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAp-UFRJ), em todas as disciplinas, para um público amplo e heterogêneo. Os leitores da revista são, em geral, professores de ensino fundamental e médio da instituição; professores de outras escolas; licenciandos e alunos de graduação; professores universitários; pessoas que se interessam por educação e pelas disciplinas escolares, mas não dominam necessariamente conceitos básicos de todas as áreas. Os textos da revista exigem, portanto, clareza e simplicidade. Os textos submetidos à publicação como artigos devem ser inéditos – não podem ter sido publicados anteriormente em outro veículo de divulgação para o público em geral (mas podem ter sido veiculados em revistas especializadas, por exemplo). Sempre que possível, os resultados de pesquisa ou do projeto do(s) autor(es) devem ser expostos no texto. Avaliação Consultores técnicos indicados pelos setores curriculares são consultados quando da submissão de um texto e orientam a equipe editorial da revista quanto ao que sugerir aos autores para corrigir ou adequar o texto do ponto de vista técnico, quanto à qualidade do trabalho, à linguagem adotada e à conveniência de sua publicação. Os textos aprovados são selecionados para publicação de acordo com a avaliação dos editores, levando em conta a programação editorial e as especificidades de cada edição da revista. Os textos enviados pelos autores são ainda concomitantemente editados pela redação para adequá-los à linha editorial da revista e devolvidos aos autores para aprovação. Em caso de não-aprovação, os editores buscarão atender às solicitações dos autores, dentro do razoável do ponto de vista editorial. A revista não publicará nenhum texto não aprovado por seus autores em sua forma final. Títulos, subtítulos e chamadas de capa ficam a critério dos editores, embora as sugestões do(s) autor(es) sejam levadas em consideração. Seções da R evista Os textos em perspectiva capiana estão divididos em seções. Para favorecer a edição, pede-se que os autores avaliem previamente e indiquem a qual seção o seu texto melhor se adequa: Entrevista: (a cargo da redação) relato de perguntas e respostas em bate-papo com figuras de destaque sobre temas relevantes para a escola, para o ensino de disciplinas ou para a educação em geral. Artigos por setor curricular: Devem apresentar trabalhos dentro do quadro da disciplina do(s) autor(es), e devem conter título, nome(s) do(s) autor(es) e pequena apresentação pessoal, abertura (resumo), setor curricular (Geografia, Música, SOE, etc.), sugestões para leitura e ilustrações/fotos devidamente legendadas e com créditos. Não devem exceder 15.000 caracteres com espaço (aproximadamente 2.400 palavras). Construindo Pontes: artigos publicados por dois ou mais autores de diferentes setores curriculares, com temática interdisciplinar. Seguem a formatação dos artigos. Na Prática: textos destacando os trabalhos realizados no quadro das Práticas de Ensino. Devem conter abertura (resumo), título, ilustrações e pequena apresentação do(s) autor(es). Tamanho máximo de 11.000 caracteres com espaço (~1.800 palavras). Opinião: considerações pessoais sobre temas relacionados à educação ou com o ensino na escola. É importante que os fatos e argumentos sejam descritos com objetividade, permitindo ao leitor contrastar e evoluir sua própria opinião sobre o assunto. Os textos devem conter abertura (resumo), título, nome e breve apresentação do(s) autor(es). Tamanho máximo de 11.000 caracteres com espaço (~1.800 palavras). Sem Fronteiras: textos encomendados pelos editores a autores de fora do CAp-UFRJ para enriquecer as reflexões em curso na escola. Devem conter título, abertura (resumo) e nome, foto e pequena apresentação do(s) autor(es). Tamanho máximo de 11.000 caracteres com espaço (~1.800 palavras). Memória: textos sobre aspectos pouco difundidos da história do CAp-UFRJ ou da educação. Devem ser pouco técnicos, destacando o contexto da época e as personagens envolvidas. Devem conter abertura (resumo), nome e breve apresentação do(s) autor(es), título e ilustrações. Tamanho ideal: 7.500 caracteres com espaço (~1.200 palavras). Resenhas: apresentação crítica de um livro ou outro produto cultural de interesse. Não deve descrever a obra em detalhes, mas apontar sua relevância no contexto do ensino. Os textos devem conter os dados da obra analisada (título, autor, custo, etc.), bem como o nome e ocupação do(s) autor(es). Tamanho ideal: 3.800 caracteres com espaço (~600 palavras). Notas: eventos de interesse ocorridos ao longo dos seis meses prévios à edição da revista. Devem ser sintéticas e informativas (~90 palavras). Outras I nformações As opções de formatação adotadas pela revista para a edição dos textos e outros detalhes (p. ex., envio de imagens), podem ser obtidas pelo e-mail: [email protected]. Os autores cedem automaticamente os direitos autorais de seus textos para sua publicação na edição correspondente da revista e em eventuais coletâneas posteriores. Após a publicação, sugerese que quando veiculados em outros meios o(s) autor(es) cite(m) a publicação em perspectiva capiana como fonte primária: ‘Este artigo foi publicado originalmente em perspectiva capiana (v. n, n° n, p. n)’. Todos os autores de artigos e da seção Construindo Pontes recebem 8 edições da revista em que foram publicados seus artigos para distribuição própria. Autores de outras seções recebem 5 edições. Envio De Textos Todos os textos e anexos devem ser enviados por e-mail para a redação ([email protected]) dentro dos prazos de fechamento das edições (até 30/04 para as edições ímpares; até 30/09 para as edições pares). Textos recebidos após a data de fechamento ou fora do formato requerido para publicação possivelmente só serão considerados para publicação na edição seguinte. Colégio de Aplicação CAp-UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ 9 971982 1557102