Os modos de configuração do cartaz The poster configuration modes Zamaro, Lígia H. F; Iniciação Científica-CNPq; Universidade de São Paulo; [email protected]. Tavares, Monica; Doutora; Universidade de São Paulo; mbstavares@uol. com.br. Resumo Este artigo visa analisar as normas estéticas que condicionam o modo de configuração do cartaz, identificando as funções prioritárias para ele pressupostas. Para cada um dos momentos históricos – artes e ofícios, art nouveau, estética da máquina, arte decorativa, aerodinamismo, movimento pop, era do consumo midiático –, estabelece uma dada prevalência de princípios, que indica determinada orientação estética e que representa uma dada hierarquia de funções, a ser contemplada no projeto do cartaz. Admite que, para cada período, objetos com funções prioritárias distintas da tendência dominante podem coexistir, caracterizando exceções. Conclui que diferentes procedimentos sintáticos alicerçam os modos de configuração do cartaz que, visto como meio para comunicar, induz apelativamente o receptor à captura das mensagens. Palavras Chave: forma – função – uso Abstract This article intends to analyze the aesthetical rules that condition the poster configuration modes, identifying the prime functions presupposed to it. For each historical moment - arts and crafts, art nouveau, machine aesthetics, decorative art, aerodinamism, pop movement, midiatic consume age - it establishes a given prevalence of principles, which indicates a determinate aesthetic orientation and represents a given hierarchy of functions, to be contemplated in the poster project. It assumes that for each period objects with different prime functions distinct from the dominant tendency can coexist, characterizing exceptions. It assumes that different syntactic proceedings base the poster configuration modes that, seen as a communication means, induce appealingly the receptor to capture messages. Key words: form – function – use 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design 1. Introdução Este artigo é resultado de um trabalho de iniciação científica, denominado “Os modos de configuração do cartaz” e realizado no Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP, sob orientação da Profa. Dra. Monica Tavares e com financiamento do CNPq. O trabalho desenvolvido se inseriu no contexto da pesquisa intitulada “A leitura do objeto do design”, de autoria da referida Professora, que tem como meta analisar o objeto do design com base na dialética entre sua produção e sua recepção – ou seja, a partir da relação entre as suas funções e os seus usos possíveis –, de modo a apreender o que está implicado no processo de leitura, que direciona o usuário/intérprete à determinada ação e, conseqüentemente, ao atendimento de suas necessidades. A citada pesquisa propõe como campos de investigação empírica: o design de produto, o design gráfico e o webdesign, representados, respectivamente, pelos seguintes objetos: a cadeira, o cartaz e os sites de arte. Em contexto mais restrito, este trabalho de iniciação científica pretendeu analisar, em um dado momento histórico, as normas estéticas 1 que condicionam o modo de configuração do objeto de design – o cartaz –, identificando a função prioritária para ele pressuposta. 2. Metodologia e estratégias de ação Por meio de pesquisa bibliográfica e com base nas historiografias da arte e do design, foram analisadas as normas estéticas que instituem e determinam os critérios e leis de configuração do objeto pesquisado. Os livros “Idéias e formas na história do design: uma investigação estética”, de Bomfim (1995), e “Diseño: história en imágenes”, de Sparke et al. (1987), contribuíram de forma decisiva para o alcance desta estratégia de ação. O recorte temporal de investigação foi delimitado entre o ano de 1850 e os dias atuais. Com base em Sparke et al. (1987), este recorte foi subdividido em sete períodos: o movimento de artes e ofícios, a art nouveau, a estética da máquina, a arte decorativa, o aerodinamismo, a época pop e a era do consumo midiático. Na interpenetração do método indutivo (do fenômeno para a teoria) com o método dedutivo (da teoria para o fenômeno), uma fase de seleção e análise da amostra de cartazes foi também desenvolvida. Assim, o método utilizado foi o heurístico-semiótico. Heurístico, por assegurar a identificação das possibilidades dos esquemas criativos em face de um determinado problema; semiótico, por ser proposto como meio de análise, interpretação, classificação e síntese. Esta estratégia de ação foi por demais importante, pois possibilitou reconhecer (e confirmar) a função prioritária a que o objeto se propõe. A função predominante foi determinada entre as funções práticas, estéticas e simbólicas inerentes ao objeto de design (LÖBACH, 2001) 2. De posse dos objetos escolhidos, foi possível analisá-los no intuito de se identificar a(s) função(ões) prioritária(s) para eles pressupostas. Para uma análise mais aprofundada, foram selecionados um ou dois exemplos de cada um dos sete períodos. Possíveis exceções às tendências dominantes de cada momento histórico foram também consideradas como forma de perceber sincronicamente as correlações entre eles. Seminários coletivos de discussão foram realizados para a difusão das atividades individuais desenvolvidas pelos bolsistas. A relevância deste trabalho surge na medida em que se investiga como a aparência do objeto de estudo – o cartaz – decorre das funções para ele pre(ssu)postas. Procurou-se, por sua vez, apreender (por meio das análises) o caminho trilhado por um receptor informado, identificando como a forma do cartaz – que é decorrente das normas estéticas vigentes a 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design cada momento histórico – induz, sugere, incita etc. as suas possibilidades de comunicação. Assim, ao trazer o pólo das reflexões para a dialética entre criação e recepção, o estudo das relações entre forma/função/uso(s) possíveis introduz um novo tipo de abordagem no contexto da problemática investigada. A estrutura do trabalho compreende a análise das leis estéticas de cada período investigado, reconhecendo as prerrogativas que influenciam a configuração do nosso objeto de estudo. Dado o limite estabelecido do número de páginas, será apresentado o estudo de caso de apenas um cartaz, escolhido por representar o momento atual 3. Neste exame, foi possível perceber, de forma clara, as ligações estabelecidas entre a produção e o consumo, ficando evidente que é por meio do projeto que se fundam as possibilidades de significação. 3. As normas estéticas e suas prerrogativas A necessidade de estabelecer comunicação sempre permeou as relações humanas. A organização e o alcance da comunicação gradativamente passaram a ser enfatizados e preconizados, crescendo substancialmente a tendência a meios de comunicação mais generalizados e que se dispusessem a atingir públicos cada vez maiores. Dentre as alternativas de uma comunicação mais efetiva e eficaz, o cartaz é uma ferramenta por demais importante. Com base na análise das leis estéticas de cada momento histórico, identificaremos, a seguir, as prerrogativas que influenciam a configuração do cartaz. Admite-se que tais prerrogativas são influenciadas por normas vigentes (econômicas, sociais, ambientais, culturais, etc.), que constituem e delimitam o objeto a ser consumido, e que, em linhas gerais, determinam a dominância nos modos de produção e nos materiais empregados na feitura do objeto. Figura 1: Capa do livro “Iglesias de la ciudad de Wren” (1883), A. H. Mackmurdo. Fonte: Sparke et al., 1987, p.27 3. 1. O movimento de artes e ofícios (1850-1900) Este movimento nasce galgado na adoção do mundo medieval como modelo estético e comportamental. Concentrou-se na Grã-Bretanha e foi posteriormente difundido nos Estados Unidos e na Europa. Dentre os pilares estilísticos que sustentaram o movimento Artes e Ofícios, figura a gramática visual gótica, voltada à austeridade, cujas formas foram atenuadas e adaptadas para a realidade doméstica. Como acrescentam SPARKE et al. (1987, p.14), foram ainda fontes de inspiração: a arquitetura, a literatura, a caligrafia e a heráldica, advindas também do gótico. Dá-se preferência ao uso de materiais locais (1987, p.21) – reforçando o caráter vernacular do estilo –, à rusticidade, como ao uso de motivos florais e naturais (representações de animais comuns ou exóticos). A maioria das manifestações “gráficas” deste movimento concentravase em estampas e padrões que tinham como principal utilidade a aplicação em mobiliário, paredes, revestimentos etc. Há alguns exemplos de trabalhos gráficos aplicados a intenções não apenas decorativas. É o caso das capas de livro (“Las obras de Geoffrey Chaucer”, da Kelmscott Press de William Morris, de 1896, e “Iglesias de la ciudad de Wren”, de A. H. Mackmurdo4 (ver Figura 1), de 1883) (SPARKE et al., 1987, p.26-27). A revista The Craftsman, dos Estados Unidos, bastante influenciada pelo movimento Artes e Ofícios, exalta as tendências gráficas do mesmo em suas publicações de 1901 a 1916 (1987, p.34). Embora no movimento de Artes e Ofícios tenham se iniciado as pesquisas que culminariam no surgimento do cartaz na Art Nouveau, neste primeiro período o nosso objeto de estudo encontra-se pouco explorado, não sendo encontrados exemplos significativos para análise. 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design 3. 2. A arte nouveau (1890-1905) O surgimento do cartaz moderno deveu-se principalmente à atuação de Jules Chéret 5. Outros artistas franceses, dentre eles Guillaume Chevalier e Eugène Grasset, foram também importantes. Eles projetavam diretamente seus desenhos na pedra litográfica, garantindo resultados expressivos. Também Henri de Toulouse-Lautrec inicia pesquisas, muito influenciado pela gravura oriental, apresentando uma linguagem distinta da de Chéret (BARNICOAT, 2000, p.24). Essas experimentações plásticas desembocam no Art Nouveau, estética adotada logo no início do século XX. A participação de artistas nesta fase de estabelecimento do cartaz como meio de comunicação foi crucial. As influências principais na criação do estilo art nouveau remetem a uma evolução dos ornamentos orgânicos introduzidos ainda no movimento Artes e Ofícios, adicionadas à gravura japonesa, aos arabescos de inspiração grega e celta e à representação de motivos vegetais e animais. A tipografia corrente reproduzia a leveza, a espontaneidade e a assimetria das pinceladas orientais (SPARKE et al., 1987, p.40-41). Alguns países como a Escócia e a Áustria trabalharam o estilo de forma mais austera, restringindo a pesquisa das formas a uma economia de curvas. No campo do design gráfico, o grupo austríaco conhecido como Secessão de Viena (BARNICOAT, 2000, p.31) gerou a revista Ver Sacrum, que contou com ilustrações de Koloman Moser (SPARKE et al., 1987, p.62), principal artista gráfico do movimento. Gustav Klimt explorou outros recursos, introduzindo composições de padrões multicoloridos e formalmente intensos. Na França, o estilo firma-se de forma única, com nítida ênfase ornamental e orgânica. Na Bélgica, surgem Victor Horta, Paul Hankar, Henry van de Velde e Philippe Wolfers, seguindo a linha francesa. O cartaz mostrado na Figura 3 apresenta uma composição dominada pelo uso estético de linhas curvas, dinâmicas e repetitivas, criando, conforme Sparke et al. (1987, p.54), um clima de fluidez e tensão. Na Alemanha o estilo ganha força com a revista Jugend, de onde derivou o termo Jugendstil. Outros nomes a serem citados são Will Bradley, dos EUA, e Alphonse Mucha, da Tchecoslováquia. O movimento Art Nouveau apresenta como função prioritária a estética, especialmente nos objetos gráficos. Os cartazes assumiram através dos inúmeros recursos estéticos as suas incumbências práticas. Celebram-se também nos objetos o simbolismo da vida burguesa, bem como o status que esta ocupava e almejava na sociedade. As análises dos cartazes reiteram a função estética como prioritária. 3.3. A estética da máquina (1900-1930) O interesse por um enfoque mais funcional dos objetos tendia, de certa forma, a se generalizar. Naquele momento, o Cubismo, o Futurismo, o Neoplasticismo, o Suprematismo e o Construtivismo, embora de maneiras diferentes, direcionavam o indivíduo a uma percepção renovada sobre si e sobre o mundo de que fazia parte. A publicidade, de um lado mercadológica – no caso do Capitalismo – e do outro política – como é o caso da Rússia revolucionária, cresceu fortemente e foi crucial como meio de comunicação direcionado às massas. Merecem destaque os chamados sachplakat ou plakatstil – cartazes com pouco texto e imagens incisivas e em tamanho exagerado –, usados nas propagandas de guerra e na publicidade. Nesse tipo de objeto, como diz Kopp (2002, p. 55), a economia era relevante. Neste período, a tipografia sans-serif legitimava a leitura cada vez mais direta; as formas dominantes nas composições gráficas eram a roda dentada, o círculo, o cubo, seus desdobramentos e justaposições, simbolizando o trabalho, o progresso e a geometria como diretrizes das atividades humanas (SPARKE et al., 1987, p.75). Surge na Alemanha a Bauhaus, fundada em Weimar, em 1919, criada 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design Figura 2: Elysee Montmartre Bal Masque (Masked Ball) (1886), Jules Chéret. Fonte: http://www.benitabrewer. com/class/history/his04_5.htm Figura 3: Tropon ( 1899), Henri van de Velde. Fonte: Sparke et at, 1987, p.54 para facilitar o diálogo entre arte, técnica e indústria. Princípios como a estandardização na produção em série e a exploração de novos materiais foram privilegiados. Sua influência permaneceu na produção gráfica ainda por muitos anos principalmente quanto à tipografia (destacam-se o design suíço, em meados da década de 70, e o Estilo Internacional, surgido das experimentações na escola alemã). A Grã-Bretanha, ligada ao modelo do movimento Artes e Ofícios, demonstrou-se ainda resistente à nova estética. Um dos poucos exemplares influenciados pela máquina foram os cartazes para o Metrô de Londres, trazendo tipografia sans-serif, mas ainda bastante simétricos, pictóricos e presos a composições tradicionais (SPARKE et al., 1987, p.87). Os holandeses trabalharam o design racionalista de forma singular. Palco das experimentações neoplasticistas e minimalistas de Piet Mondrian e da revista De Stijl, a Holanda viu aparecer diversos intercâmbios entre a arte e o design (SPARKE et al., 1987, p.88). A França, embora bastante atrelada aos modelos do Art Nouveau em várias áreas e já pesquisando o que viria a ser o Art Déco, também se voltou à conciliação com a indústria, principalmente através de Le Corbusier, na arquitetura (SPARKE et al., 1987, p.92). Exemplo característico de cartaz da estética da máquina é a Figura 4. Como observa Meggs (2000, p.371), vê-se claramente uma hierarquia na construção da informação. A tipografia está organizada em uma progressão funcional de tamanhos, variando em função da importância de conteúdo. Neste contexto, é patente a máxima de Mies van der Rohe “menos é mais”. A função prioritária presente na concepção dos objetos da Estética da Máquina é a prática. Trata-se de uma coerente adequação aos meios de produção, notadamente pensados em prol de uma linearidade e uma racionalidade muito condizentes a um momento histórico em que as pesquisas privilegiavam a máquina, a indústria e suas características técnicas. Apesar de a vocação na concepção dos objetos tender à função prática, a função estética se mantém também como esteio para a produção. No caso do construtivismo, a linguagem estética é utilizada como expressão para o alcance da democratização da sociedade (BOMFIM, 1995, p.88). No caso da Nova Objetividade, para a formação da cultura alemã e do gosto germânico numa tendência à padronização (BOMFIM, 1995, p.101). E no caso das tendências funcionalistas, em que prevalece a idéia de a forma adaptar-se à função, prioritariamente representativa de uma linguagem racionalista, a linguagem estética é usada de maneira implícita (BOMFIM, 1995, p.111). Figura 4: Cartaz para uma exposição de Kandinsky (1926), Herbert Bayer. Fonte: Weill, 2004, p. 46 3.4. A art deco (1925-1939) Seguindo o caminho que vai de um estilo decorativo ao funcional, o movimento conhecido como Arte Decorativa aparece ao privilegiar e enfatizar as influências exóticas e orientais e o uso de materiais ricos e luxuosos. As inspirações desse movimento são, entre outras, os desenhos de moda, de Paul Poiret, os “Ballets Russos”, de Diaghilev, a assimetria cubista, os motivos egípcios e a estatuária africana primitiva. A sociedade caminhava para o futuro e os temas tratados referiam às preocupações urbanas como velocidade, viagens, prazer e luxo. Continua-se o uso de geometria simples, anteriormente empregada no advento da estética da máquina, utilizando em profusão os intercâmbios entre traços grossos e finos. É na França que o Art Deco será mais explorado em diversos meios da arte aplicada, na propaganda e na criação de cartazes (SPARKE et al., 1987, p.102-104). Destacaram-se, no campo gráfico, Tamara de Lempicka, relacionando simultaneamente a sensualidade à geometrização das formas, e Cassandre, autor de uma série de cartazes publicitários. Criam-se inúmeros cartazes, incorporando ao produto anunciado e ao seu rótulo, uma implacável estilização da composição (SPARKE et al., 1987, p.104-105). Nos Estados Unidos, o Art Deco tornou-se o estilo-símbolo da Broadway e de Hollywood, principalmente, caracterizando a identidade 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design norte-americana no período 6. Neste momento, a produção gráfica estava emparelhada com a publicidade e com o mundo glamoroso da moda e das revistas que divulgavam as grandes coleções. A profusão de campanhas representando o ideal de uma vida luxuosa agradava à sociedade traumatizada pela Crise de 29 e mergulhada na tensão entre guerras. O cartaz apresentado na Figura 5 mostra cores contrastando com formas angulares planas (SPARKE et al., 1987, p.114). Aqui, forma e conteúdo se fundem para representar a celebração da velocidade e do luxo. Adepto à admiração e ao uso considerável dos meios técnicos industriais, este movimento inicia uma tendência a assumir a função simbólica como diretriz da produção, já numa perspectiva de incorporar o status-quo como regulador das relações sociais. 3.5. O aerodinamismo (1935-1955) A produção cresce e se diversifica. O mundo consome além de suas necessidades e baseia suas compras no seu desejo de status e ascensão social. O estilo aerodinâmico acontece marcado pela procura de novos materiais e meios tecnológicos. No aerodinamismo, os desenhos eram inspirados no modelo atômico, nas estruturas cristalinas e moleculares que possibilitaram padrões aleatórios, como também no expressionismo abstrato (SPARKE et al., 1987, p.138). A fim de satisfazer a máxima do lucro e do consumismo, surge o fenômeno conhecido como Styling, modalidade de design que produz modelos superficialmente atrativos, privilegiando a constante renovação de formas. Os Estados Unidos, difusores do consumismo e da estandardização como reguladores da economia, utilizaram o aerodinamismo largamente (SPARKE et al., 1987, p.140-143). Na Itália, houve uma grande evolução na indústria; a tecnologia e a estética progrediram juntas; o resultado foram inumeráveis produções inovadoras e expressivas, que refletiam claramente a tendência pós-racionalista na cultura italiana (SPARKE et al., 1987, p.148151). Já o design alemão continuou após a guerra fortemente ligado ao funcionalismo, principalmente através da Hochschule für Gestaltung de Ulm (criada em 1951), que se propunha a seguir suas pesquisas influenciando-se pela Bauhaus. Conforme Sparke et al. (1987, p.152), os produtos decorrentes deste novo funcionalismo eram unidades muito formalizadas, geométricas e estandartizadas. Privilegiava-se uma estética estritamente racional, baseandose no que se convencionou chamar de “síndrome da caixa preta”. Porém, o design alemão do pós-guerra foi deliberadamente mais estilístico que o primeiro tipo de funcionalismo. No que concerne ao campo do design gráfico, a publicidade ditou insistentemente a produção. A intensificação do consumo e o aumento da produção industrial geraram um mercado extremamente propício para a propaganda e as alusões a uma vida tecnologicamente guiada eram freqüentes. As referências aos meios de transporte eram maciças, assim como eram marcantes os recursos gráficos que proporcionavam a noção de movimento. Como comenta Barnicoat (2000, p.127-130), torna-se válida uma vocação a um novo maneirismo. Aplicado a arte do século XVI, o termo sugeria um “aparente funcionalismo que en realidad era decoración sin sentido, escalas desmesuradas, tensiones de melodrama”. Paradoxalmente, era um estilo clássico e anticlássico, ao mesmo tempo. No novo formato, era patente um mundo de drama e de movimento, em que as técnicas cinematográficas influíram no desenho de cartazes. No exemplo da Figura 6, fica também evidente a relação com o surrealismo, tendência importante para o desenvolvimento do estilo aerodinâmico, como lembram Sparke et al. (1987, p.154). Outras determinantes do período são a colagem, os efeitos de textura dos cubistas, assim como a representação frontal do rosto em figuras de perfil 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design Figura 5: Poster para o Etoile du nord (1927), Cassandre. Fonte: Weill, 2004, p. 65 Figura 6: Cartaz para o Ministério da Informação (1942), Abram Games Fonte: Sparke et al.., 1987, p.154 (BARNICOAT, 2000, p.131) Na perspectiva de uma dissimulação da função prática, firma-se assim o aerodinamismo. O aparecimento de uma cultura de massas, que implica o atendimento dos gostos populares, indicia a dominância de uma função simbólica. Não esqueçamos a vocação pela constante renovação da aparência dos objetos, valorizando a prerrogativa de sua função adaptar-se a uma forma sempre mutável. Torna-se válida a vocação de o objeto comunicar os valores e estilos de vida, em prol de uma suposta satisfação dos desejos e necessidades do usuário. Figura 7: Bob Dylan (1966), Milton Glaser – do Push Pin Studio Fonte: Weill, 2004, p.105 3.6. O movimento pop (1955-1975) A busca de uma nova sociedade de consumo ligada a uma cultura de massas, a idéia de saquear o passado em busca de inspiração, a tendência para o ressurgimento do artesanato, a vocação por utilizar a segmentação de mercado e o uso do próprio design como forma de reconstrução econômica dão a base para a manutenção do movimento pop (Sparke et al., 1987, p.163189). Marcado pelo consumismo proveniente do estilo de vida norteamericano, esse movimento também se desenvolve de forma expressiva na Inglaterra, aonde surge um importante mercado de consumo voltado aos jovens. Estes aparecem como novo e promissor alvo do mercado, impulsionados pela cultura do rock´n roll, pelo desejo de escapismo da realidade e pela situação de revolta frente a conflitos como a Guerra do Vietnã. Deve-se enfatizar a profusão de peças baseadas na cultura do rock, nos comics e no escapismo hippie. Inumeráveis revistas de moda, capas de discos, cartazes e montagens gráficas foram produzidos na época. Eram bastante carregados de elementos psicodélicos e retro (ver exemplo característico na Figura 7). Referendavam a tipografia inspirada na sinuosidade do Art Nouveau, os padrões baseados na Optical Art, como também os fragmentos da cultura de massa (embalagens, personagens e rótulos difundidos pela mídia) (SPARKE et al., 1987, p.166). Destacando as idéias anti-modernistas, a Inglaterra passa a estar na avant-garde do design das décadas de 60/70, nitidamente nas áreas de moda (Mary Quant) e gráfica (capas de discos, murais e trabalhos de Martin Sharp). Essa inversão de postura por parte dos ingleses deve-se, segundo Sparke et al. (1987, p.168), a “... la aceptación de la cultura de masas americana em Inglaterra”, que incutiu neste país a necessidade de rever alguns conceitos sobre modernidade. O chamado Estilo Internacional permaneceu como exceção à produção fundamentalmente simbólica-estética que caracterizou o movimento pop, visto ter adotado soluções visuais mais legíveis e convencionais 7. As relações entre a arte e a indústria gráfica estavam intimamente conectadas e uma permeava a outra em seus respectivos processos. Artistas como Jasper Johns, Roy Lichtenstein, Andy Warhol, Victor Vasarely e Bridget Riley influenciaram muito a produção gráfica de seu tempo, os três primeiros, apropriando-se de fragmentos da cultura pop, e os outros dois, explorando a arte óptica. Enfim, dão-se os passos decisivos para firmar a nova sociedade de consumo e o descrédito na filosofia funcionalista. Fortemente arraigado às noções de identificação ideológica e comportamental, o movimento pop apresenta-se partidário de uma função prioritariamente simbólica, embora tenha se utilizado enormemente dos recursos estéticos para se estabelecer. 3.7. A era do consumo midiático (1975 até os dias atuais) O ecletismo virou a chave para as soluções estéticas dos objetos, que poderiam facilmente conter elementos provenientes de escolas formais distintas, como as linhas racionais do Neo-Bauhaus e, simultaneamente, as cores inusitadas do Art Deco e resquícios de técnicas artesanais antigas 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design (trompe l’huile, assemblages etc) 8. Inúmeras áreas foram afetadas pelas prerrogativas do chamado movimento pós-moderno: a arquitetura, o design têxtil, o de móveis e os produtos de consumo. Os artefatos funcionais apresentam-se “curiosos”, senão “absurdos”, enfatizando o uso de cores, numa espécie de humanização da Bauhaus (SPARKE et al., 1987, p.193-194). A maioria das criações vinha reforçada pela liberdade de seus autores para recorrer a temas, recursos, fórmulas e soluções previamente utilizadas em outras épocas. A prática de apropriar-se de idéias e conceitos, portanto, passou a ser um dos apoios deste período, em que as experimentações tornaram-se ilimitadas, como nunca se vira. As criações gráficas, acompanhando o caráter experimental do período, realizam uma verdadeira colagem de fragmentos contemporâneos e de outros períodos. A geometria é utilizada de forma descontraída. Conforme Kopp (2002, p.73), prevalece: uso de espaçamentos tipográficos aleatórios; mistura de pesos e estilos de tipo; opção por colagens, paródias e citações; inclusão do ruído como elemento visual. A tipografia seguiu o ecletismo, dando margem às experimentações inspiradas pela era digital. A maioria dos países capitalistas voltou-se a essa tendência de design gráfico, com exceção da Holanda, ligada aos ideais racionalistas apregoados pelo Estilo Internacional, utilizando informações diretas, sem poluição visual ou eventuais ruídos (SPARKE et al., 1987, p.205). Na Inglaterra, no fim da década de 70, surge o movimento punk, negando as convenções também de caráter estético. As capas de discos e cartazes vinculados ao punk apresentavam uma composição “anti-design”, sem rótulos estilísticos e sem planejamentos formais. Os avanços advindos do surgimento do computador pessoal ampliaram o número de indivíduos “capazes” de criar e divulgar o que fazem, com mais velocidade e atingindo um público cada vez maior. Há de se destacar o impulso provocado pelo surgimento da internet, que gradativamente ocupa o lugar dos tradicionais meios de comunicação, tornando a informação mais acessível e difundindo a troca em rede. O período do consumo midiático sedimenta o deslocamento das tendências funcionalistas, já antes começado, e preconiza a exploração de distintas alternativas para a concepção de novos produtos. O consumo do artefato firma-se na garantia de espelhar os desejos, as aspirações, a posição social do receptor. Se no funcionalismo, o efeito estético é dependente da função prática, neste período, o objeto reafirma a tendência de incorporar em sua forma mensagens simbólicas propostas no intuito de esteticamente persuadir o uso. 4. Estudo de caso: Poster criado para o South California Institute of Architecture, April Greiman O cartaz em questão (ver Figura 8), da designer americana April Greiman, exemplifica muito bem o espírito do período atual. Visualmente, o trabalho apresenta uma série de informações gráficas encadeadas e ordenadas de maneira audaz. A sobreposição dos elementos assemelha-se a um palimpsesto, em que interferências gráficas em camadas diversas culminam numa mesma composição final. Várias referências são aproveitadas no cartaz, dentre elas a fotografia, os grafismos, a tipografia como elemento gráfico e não apenas textual. Mesmo bastante ousado em suas opções estéticas, o cartaz apresenta uma estrutura interna simétrica alicerçada pela imagem central que sugere e indica relações semânticas ao tema tratado. Todavia e paradoxalmente, essa referência vai sendo desconstruída aos poucos, sobressaindo uma colagem de intertextos, os mais diversos, remetendo o receptor a uma multiplicidade de significados. Os padrões e as tipografias utilizados sinalizam o ecletismo. Há no cartaz diferentes tipos, dos mais modernos aos mais tradicionais (como no 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design Figura 8: Poster do South California Institute of Architecture (1991), April Greiman Fonte: http://www. benitabrewer.com/class/ history/his12_3.htm caso das letras muito sutis que aparecem sobre a foto da mão). Por outro lado, notam-se claras citações ao meio digital, como é o caso da imagem situada na parte central superior. As cores escolhidas são o amarelo e o lilás. Além do branco, do preto e suas variações de cinza. O uso dos espaços cheios e vazios aliado à utilização dos contrastes, das transparências e da distribuição dos elementos no espaço indicam uma configuração fragmentada e, sobretudo, descontínua, que procura, de modo sutil e irreverente, apontar os possíveis elos de leitura. Busca-se o estranhamento como forma de captura da recepção. A aparente falta de nexo ou de lógica é proposital. Os indícios conduzem às possíveis ligações entre forma e conteúdo. O cartaz contraria os princípios básicos do design funcionalista. Os seus elementos plurais e diversos reforçam uma tendência iconoclasta, requerendo do receptor uma conduta de leitura não linear, nem hierarquizada. Mesmo criado para promover uma instituição, este trabalho se afasta da intenção de se firmar explicitamente pela sua função referencial. Ao contrário, ao privilegiar as questões poéticas, ele estimula o leitor ao estabelecimento de sempre novas representações. É um trabalho que dialoga intrinsecamente com o universo do estético. Trata-se de um cartaz do design �pós-moderno�, pois nos remete à metáfora do palimpsesto como meio para o alcance da significação. O receptor é assim o construtor de imaginários e usos possíveis. 5. Conclusões A análise das leis estéticas de cada período permitiu-nos reconhecer as prerrogativas que influenciam a configuração do cartaz. Com base nesses princípios e na amostra do objeto, identificaram-se as especificidades que condicionam sua aparência. Notamos que as manifestações de dado período histórico conduzem a uma primazia de princípios que indicam uma vocação estética dominante. Uma primazia de função não exclui outras funções que o objeto desempenha. Em cada momento, podem coexistir objetos com funções prioritárias distintas da tendência dominante. De acordo com as modificações dos estilos e valores de vida, configurase, para cada período, uma distinta hierarquia de funções: 1. Artes e ofícios: sem exemplos significativos do objeto de estudo; 2. Art Nouveau: estética/ prática/simbólica; 3. Estética da máquina: prática/ estética/ simbólica; 4. Art deco: simbólica/ prática/ estética; 5. Aerodinamismo: simbólica/ estética/ prática; 6. Movimento pop: simbólica/ estética/ prática; 7. Consumo midiático: simbólica/ estética/ prática. Como se pode perceber, ocorre uma tendência à dominância da função simbólica como forma de colocar o usuário como alvo do processo de comunicação. Portanto, diferentes procedimentos sintáticos alicerçam o modo de configuração do cartaz que, visto como meio para comunicar, induz criativa e apelativamente o receptor à captura das mensagens. Referências Bibliográficas BARNICOAT, John. Los carteles: su historia y su lenguaje. 5ed. Justo G. Beramendi (trad.). Barcelona: Gustavo Gili, 2000. BOMFIM, G. Amarante. Idéias e formas na história do Design: uma investigação estética. Campina Grande: UFPb/CCT, 1995. KOPP, Rudinei. Design gráfico cambiante. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2002. LOBACH, Bernard. Design industrial: bases para a configuração dos produtos industriais. São Paulo: Edgard Blucher, 2001. MEGGS, Philip B. Historia del diseño gráfico. 2.reimp. Martha Izaguirre I ; Carlos Iriondo S ; Evia Vera S. (trad.). México: Editorial Trillas, 2000. SITE de Benita Brewer. Disponível em: http://www.benitabrewer. com/. Acesso em fev. 2003. SPARKE, Penny et al. Diseño: história en imágenes. Juan Manuel Ibeas. (trad.). Madrid: Hermann Blume, 1987. 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design WEILL, Alan. Graphics: A century of poster and advertising design. Londres: Thames & Hudson, 2004. (Footnotes) 1 Para Löbach (2001, p.183), estas normas dizem respeito a valores estéticos aceitos por uma maioria preponderante de uma sociedade. 2 Conforme Löbach (2001, p.68), a todo produto industrial é inerente uma aparência sensorialmente perceptível que define uma dada função estética. A esta se juntam a função prática, a função simbólica, ou ambas. Necessariamente, uma das funções terá prevalência sobre as outras. A função estética diz respeito à configuração dos produtos de acordo com as condições perceptivas do homem. A função prática está relacionada aos aspectos fisiológicos de uso. E a função simbólica é determinada pelos aspectos espirituais, psíquicos e sociais do uso. Entendemos, assim, que a hierarquia das funções a serem desempenhadas pelo objeto pode, portanto, condicionar a sua configuração e seu conseqüente uso. 3 Para cada período, será mostrado um exemplo significativo do objeto como forma de referendar as dominâncias das funções. 4 Segundo Sparke et al. (1987, p.28), esta capa se coloca frente ao seu tempo. Antecipa a Art Nouveau, como também, pelo uso das fortes linhas da xilogravura, a técnica do expressionismo alemão. 5 É importante destacar, com base em Barnicoat (2000, p.20), o caráter fluido, efervescente e translúcido dos cartazes de Chéret. A Figura 2 exemplifica esta afirmação. 6 Sparke et al. (1987, p.116) destacam que, neste período, os padrões escalonados, as formas geométricas e as brilhantes superfícies caracterizam-se como metáfora do delirante ritmo da vida urbana. Surgido na Suíça, durante os anos cinqüenta, este estilo influenciou fortemente o design gráfico por mais de 20 anos. Conforme Meggs (2000, p.415), propunha: unidade visual do desenho, conseguida por meio da organização assimétrica dos elementos sobre uma rede desenhada matematicamente; uso do tipo sans-serif; séries de tipografia em configuração de margens niveladas, na esquerda, e irregulares, na direita; fotografia e original objetivos, apresentando informações visuais e verbais claramente definidas. 7 8 Sparke et al. (1987, p.193) destacam, aqui, a coexistência pacífica entre o tipo de ornamentação decorativa, que ora surge, e o artesanato e a pintura decorativa, com toques cosmopolitas, não rurais. 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design 7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design