UM ESTUDO SOBRE A INCIDÊNCIA DE BULLYING NA CIDADE DE
CURITIBA
NUNES, Mayara F. – PUCPR¹
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CONSULIN, Eliane G. – PUCPR²
[email protected]
AMORIM, Cloves – PUCPR, FEPAR³
[email protected]
INTRODUÇÃO
É comum no ambiente escolar ocorrer brincadeiras provocativas, pejorativas e
humilhantes entre os alunos. Tais comportamentos como, apelidos desagradáveis,
fofocas, empurrões, furtos, agressões físicas e morais, são considerados por muitos
como inocentes.
Segundo a ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à
Infância e à Adolescência), bullying pode ser definido como: atitudes agressivas,
intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais
estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação
desigual de poder. Portanto, os atos repetidos entre pares (estudantes com estudantes) e
o desequilíbrio de poder são as características essenciais, que tornam possível a
intimidação da vítima (ABRAPIA, 2008).
Bullying é uma palavra inglesa que significa usar o poder ou força para
intimidar, excluir, implicar, humilhar, não dar atenção, fazer pouco caso, e perseguir os
outros. Fica o nome em inglês porque não se encontrou palavra em nossa língua que
seja capaz de dizer o que bullying diz (Alves, 2005, 22). Bully é o valentão: aquele que,
por sua força e sua alma sádica, tem prazer em agredir e intimidar os mais fracos, seja
física ou emocionalmente.
O bullying é um problema de dimensões intercontinentais, na Noruega os
estudos realizados por Dan Olweus, demonstraram que um em cada sete estudantes
* Os autores agradecem à Talita B. Hermann pela colaboração na pesquisa.
¹ Acadêmica do décimo período de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Bolsista
do PIBIC pela Fundação Araucária.
² Acadêmica do décimo período de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
³ Psicólogo, professor de psicologia da PUCPR e da FEPAR. Mestrando pela PUCPR.
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estava envolvido em caso de bullying, ou seja, 15% do total de alunos matriculados na
educação básica. A Unicef pesquisou em 21 países da Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) e encontrou que a maior incidência está em
Portugal, Suíça e Áustria (Fante & Pedra, 2008, 49).
Em novembro de 2006, O Instituto SM para a Educação (ISME) apresentou
dados de pesquisas realizadas em cinco países: Argentina, México, Brasil, Espanha e
Chile. O resultado apontou o Brasil como campeão em bullying (Fante & Pedra, 2008).
Todos os dias, segundo Fante & Pedra (2008), 160 mil alunos americanos faltam
às aulas por medo de sofrer bullying. Ao analisar a realidade americana, Middelton-Moz
& Zawadski (2007) apresentam estatísticas no mínimo estarrecedoras: uma em cada
quatro crianças sofre bullying por outra na escola no período de um mês; 81% dos
alunos pesquisados admitiram exercer bullying sobre seus colegas; dois terços dos
atacantes em 37 episódios de tiroteios em escolas cometeram seus crimes como
vingança em razão das constantes perseguições que sofriam por parte de seus colegas. E
ainda, as provocações e rejeições estão no topo das listas dos fatores que desencadeiam
intenções de suicídio (Middelton-Moz & Zawadski, 2007, 10).
A literatura sobre bullying, de modo geral é extensa: Ramírez (2001); Smith,
Cowil, Olafsson e Liefooghe (2002); Zafra e Martos (2005); Hoyos, Aparício y
Córdoba (2005); Matamala y Huerta (2005); Beane (2006); Middelton-Moz e Zawadski
(2007); Romero (2007); Aalsma e Brown (2008). No Brasil também encontramos nos
últimos anos uma significativa produção: Romanelli e Amorim (2005); Pupo (2007);
Nunes, Hermann e Amorim (2008); Lopes Neto (2008); Antunes e Zuin (2008); Fante
(2008); Cunha, Weber e Steiner Neto (2009).
Nogueira (2007) define três envolvidos no bullying: a vítima, a testemunha e o
autor. A primeira é definida como o jovem ou criança frágil que é frequentemente
ameaçado, intimidado, e não procura ajuda por sentir-se indefeso, a testemunha é aquele
que assiste diariamente as situações de bullying, tornando-se inseguro e temeroso, e o
autor (ou bullie) é aquele que apresenta um comportamento de intimidação e
provocador permanente, demonstrando dificuldade de colocar-se no lugar do outro.
Os autores do bullying, segundo Nunes et al. (2008), escolhem seus alvos de
acordo com a vulnerabilidade que estas aparentam, sendo aquelas que possuem pouca
sociabilidade e que possivelmente não revidará e não denunciará.
Para Lopes Neto (2008) os motivos que levam a esse tipo de violência são
extremamente variados e estão relacionados com as experiências que cada aluno tem em
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sua família e/ou comunidade. Carpenter & Fergunson (2011) complementam que
qualquer um pode ser atacado por bullies, porém há algumas características que são
mais comuns para que isso ocorra, como: ser novo na escola, ser mais jovem ou menor
da classe, ser muito sensível, tímido ou ter ansiedade em agradar a todos, ser
fisicamente diferente (ou ter algum tipo de deficiência física ou de aprendizado), ser de
nível social diferente (mais rico ou mais pobre que a maioria), ser de raça ou origem
diferente, ou mesmo estar no lugar e na hora errados.
Estudos recentes revelam que esse comportamento, que até há pouco tempo era
considerado inofensivo, pode acarretar sérias consequências ao desenvolvimento
psíquico dos alunos, gerando desde queda na autoestima até, em casos mais extremos, o
suicídio e outras tragédias (Dreyer, 2008).
A criança que não consegue fazer parte de um grupo pode passar por sérios
problemas emocionais (Colavitti, 2001). Para Fante & Pedra (2008) as vítimas de
bullying demonstram insegurança, coordenação motora pouco desenvolvida, extrema
sensibilidade, passividade, submissão, baixa autoestima, dificuldade de autoafirmação e
de autoexpressão, ansiedade, irritação, e aspectos depressivos.
Lopes Neto (2008) atesta que pessoas que passaram pelo bullying quando
crianças são mais propensas a sofrerem depressão e baixa autoestima quando adultos. O
simples testemunho de atos de bullying já é suficiente para causar descontentamento
com a escola e comprometimento do desenvolvimento acadêmico e social.
Foi aprovada, em novembro de 2010, na cidade Curitiba-PR uma lei
“antibullying” (Lei Nº 13.632/2010) que prevê que todas as instituições de ensino
públicas ou privadas, com ou sem fins lucrativos, neste município estão condicionadas à
política "antibullying”. Além das descrições de comportamentos de bullying, tal lei
também detalha o que é esperado do ambiente escolar para que se estabeleça esta
cultura antibullying, entre eles: conscientizar pais e responsáveis sobre o tema; capacitar
os docentes e as equipes pedagógicas para o diagnóstico do "bullying" e para o
desenvolvimento de abordagens específicas de caráter preventivo; orientar as vítimas
de "bullying" e seus familiares, oferecendo-lhes os necessários apoios técnico e
psicológico; orientar os agressores e seus familiares, de modo a conscientizá-los a
respeito das consequências de seus atos e a garantir o compromisso dos agressores com
um convívio respeitoso e solidário com seus pares.
Com isso, é possível notar que o bullying está cada dia mais em evidência, e
medidas importantes estão sendo tomadas para a erradicação e prevenção deste
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problema. Cabe ressaltar que a mídia em geral está dedicando grande tempo de sua
programação para abordar a temática. Porém, ainda é possível notar que muitos pais e
escolas não estão atentos a importância do tema e de seus papéis nesta problemática.
Por outro lado, toda essa dimensão que o bullying tem conquistado torna-se prejudicial
e banalizado, a partir do momento em que generaliza-se as diversas situações do
cotidiano escolar, ou seja, qualquer agressão ou desentendimento entre os alunos passa
a ser discriminado como bullying, o que não satisfaz os critérios essenciais que o
caracteriza.
Diante destes fatos, torna-se plausível a necessidade e importância de projetos
que se preocupem com a investigação e redução do bullying no ambiente escolar,
permitindo assim um trabalho adequado e efetivo.
MÉTODO
Participantes
Participaram desta pesquisa 266 alunos matriculados em escolas públicas e
particulares, sendo que 144 eram do sexo feminino e 122 do sexo masculino, estudantes
de quinta e sexta série do Ensino Fundamental de quatro escolas da cidade de CuritibaPR. A idade média dos alunos foi de onze anos e três meses.
Instrumento
Tendo como base o instrumento desenvolvido por Freire, Simão e Ferreira
(2006) da Universidade de Lisboa – Portugal, procedeu-se a adaptação e elaboração de
uma versão brasileira. Trata-se de um autoinforme, com perguntas referentes à opinião
sobre o ambiente escolar, identificação de situações de vitimização, de observação e de
agressão. Essas informações permitiram saber quais condutas foram praticadas, como:
empurrar, ameaçar, humilhar, bater, utilizar nomes ofensivos, caluniar, excluir, tirar
coisas, magoar, estragar objetos, apalpar. Possibilitaram também reconhecer quais as
reações diante das agressões, o local em que mais ocorre, e a atuação dos agressor,
sendo praticada sozinho ou em grupo.
Procedimentos
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Inicialmente as escolas foram contatadas e com a aprovação da direção, foi
agendado um dia para a aplicação do instrumento. A aplicação foi coletiva, na sala de
aula, na presença das pesquisadoras. Após a aplicação coletaram-se todos os dados,
armazenado-os no programa Microsoft Excel, neste mesmo recurso constatou-se os
resultados, comparando-os entre si.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Participaram desta pesquisa, 266 alunos matriculados em escolas públicas e
particulares da cidade de Curitiba-PR. Quanto a ser vítima, autor ou testemunha
encontrou-se que 66% já estiveram envolvidos de alguma forma em situações de
bullying. Deste número, 25% dos alunos questionados afirmaram serem vítimas, 56%
testemunhas e 14% autores, considerando que houve aqueles que combinaram as três
opções, definindo-se como testemunha e vítima, testemunha e autor, autor e vítima e até
mesmo como os três envolvidos: testemunha, vítima e autor. Os eventos ocorreram em
maior parte no recreio e durante as aulas; sendo realizadas com mais frequência em
grupo e a principal atitude das testemunhas foi “pedir para parar”.
Abaixo, um gráfico representativo sobre a participação dos alunos pesquisados.
Quanto aos agressores, pode-se observar no gráfico acima que 14% dos alunos
entrevistados confirmaram ser, ou já terem sido autores (bullies), sendo que 56% destes
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são do sexo masculino e 44% do sexo feminino. Quando questionados sobre a
autocaracterística que os definem, a principal resposta foi “bonito” com 73%, notando
assim uma autoestima elevada e segurança por parte dos bullies. A agressão mais
utilizada é “uso nomes ofensivos”, segundo as testemunhas. As razões alegadas pelos
autores foram “vingança” (39%) e “reação à provocação” (33%), e os sentimentos
predominantes foram raiva (47%) e desprezo (25%). Foi destacado também pelos
autores como um dos momentos agradáveis na escola o “recreio” (80%) e dentre os
momentos desagradáveis a “aula” (55%).
Estes dados confirmam o esperado, o bullying ocorre com maior frequência no
momento em que a supervisão do adulto diminui, ou seja, na hora do recreio, motivo
este que justifica também a aula como sendo o momento mais desagradável, segundo
Lopes Neto (2008).
O bullying é um fenômeno complexo, de difícil solução que exige envolvimento
e compromisso de todos os componentes da comunidade escolar. Os dados encontrados
nesta pesquisa corroboram os apresentados por Lopes Neto (2008) ao informar que
40,5% dos alunos por ele pesquisado, admitiram estarem diretamente envolvidos em
atos de bullying, 16,9% vítimas ou alvos, 12, 7% como autores (bullies). Por outro lado,
nesta pesquisa o local de ocorrência dessas agressões que se destacou foi o recreio
(pátio) e no estudo de Lopes Neto foi a sala de aula, ou melhor, dentro das salas.
Os dados encontrados quanto ao tipo e forma de violência entre pares foram
semelhantes aos descritos por Nogueira (2007): “verificamos a presença de três formas
de violência na escola pesquisada: física, verbal e a psicológica”. Conclui a autora,
“tivemos dificuldade de observar o bullying, pois ele aparece sutil, mascarado,
dissimulado, enquanto outras formas de violência aparecem explícitas.”
CONCLUSÃO
O problema da agressividade das crianças nem sempre está ligado à televisão,
aos videogames ou a letras de músicas violentas, mas ao modelo de agressividade que
elas têm dentro de suas casas. Em lugar de aprenderem valores que sustentem a solução
de conflitos, muitas crianças aprendem valores que dão sustentação à agressividade e ao
desrespeito (Middleton-Moz & Zawadski, 2007).
O comportamento agressivo atualmente parece ter mais recompensas do que
conseqüências, pois pessoas que após cometerem crimes, cenas de barbárie, ou
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agressividade, estão estampadas em capas de revistas, dando entrevistas em telejornais,
e outros, com uma tremenda repercussão. Com essa idéia, podemos dizer que há
possibilidades de um fortalecimento do pensamento distorcido dos bullies, de que o
abuso é aceitável.
Diferentemente do que muitos acreditam, o bullying não está presente apenas no
ambiente escolar, mas também em locais de trabalho, podendo ser uma situação isolada
ou com durações de semanas, meses e até anos. Embora, não seja muito comentado, é
um fenômeno frequente nos dias atuais. Os comportamentos que definem bullying
podem ser desde acusação, crítica, fofoca, assédio, insultos, intimidações, empurrões,
homofobia, racismo até mesmo o assédio sexual.
Uma intervenção deve ser organizada e realizada por pessoas que conheçam o
comportamento bully e o efeito que esse comportamento tem em outros. É necessário
também que o autor seja responsabilizado pelo que faz e diz e enfrente os efeitos que
seu comportamento tem sobre os outros, para que esteja disposto à possíveis mudanças.
Alguns princípios importantes para que essa mudança ocorra seria: tolerância
zero com o bullying; ajuda ativa, compaixão e apoio às vitimas; para os bullies,
responsabilização, preocupação e habilidades para fazer escolhas; e inclusão, cuidado e
apoio para todos os membros da comunidade.
Concorda-se com Terreros (2009) ao enfatizar que “os valores devem ser
cultivados desde as primeiras etapas da vida” sendo a principal base preventiva.
Tognetta & Vinha (2009), discutem os valores em crise, ressaltando: “Crise de Valores
ou Valores em Crise?” e afirmam ainda que o ambiente que a maioria das escolas
atualmente, exigem comportamentos nada característicos de crianças, ou seja, idealizam
crianças submissas, tranquilas, passivas e obedientes, tais exigências poderá modificar
ações (externamente), mas dificilmente contribuirá para situar os valores em um lugar
central no sistema das representações de si da criança e do jovem.
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