375 IDENTIFICAÇÃO EM MALHA FECHADA DE PARÂMETROS DE MODELOS DE ATRITO EM UM PÊNDULO INVERTIDO Hugo Tanzarella Teixeira1 , Victor Semedo de Mattos Siqueira2 , Celso José Munaro3 1 2 Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil, [email protected] Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil, [email protected] 3 Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil, [email protected] Resumo: Neste artigo, os atritos presentes em um carrinho que atua sobre um pêndulo invertido são estimados através de duas abordagens, usando dados obtidos em malha fechada. O primeiro método utiliza os ciclos limite originados pelo atrito para obter os parâmetros do modelo de Coulomb mais atrito estático, através do ajuste de elipses aos dados medidos. O segundo método estima os parâmetros do modelo de atrito de Karnopp via mínimos quadrados, usando para isto dados medidos e parâmetros do pêndulo. Os dois métodos são comparados através de sua aplicação para um modelo de simulação e para dados medidos no pêndulo real. Palavras-chave: Aplicações de sistemas dinâmicos, pêndulo invertido, estimação de atrito. 1. INTRODUÇÃO Todo sistema mecânico está sujeito ao atrito e sua presença produz ciclos limite que podem impedir sua estabilização caso compensações adequadas não sejam utilizadas [1]. Por se tratar de um sistema mecânico subatuado, inerentemente instável em malha aberta e de dinâmica não linear, o pêndulo invertido é um problema clássico e já bastante estudado para aplicações de técnicas de controle e por isso foi escolhido neste trabalho como plataforma de testes para o presente estudo. Modelos de atrito têm sido utilizados para gerar estimativas do atrito a ser compensado. Em [2] o modelo de Karnopp foi utilizado para compensar o atrito em um servomecanismo. A compensação de atrito também pode ser realizada através da adição de um sinal pulsado ao sinal de controle usando o modelo de Coulomb. Em [3] esta abordagem foi utilizada para compensar o atrito em uma válvula de controle. Em ambos os casos é necessário obter os parâmetros do modelo de atrito para serem usados pelo compensador. A proposta deste trabalho é apresentar métodos para identificação em malha fechada dos parâmetros dos modelos de atrito. Assim é possível quantificar e compensar o atrito em processos de maneira automática, evitando que o processo seja parado para que métodos invasivos sejam realizados para identificação dos parâmetros dos modelos de atrito. Como o atrito surge com o uso, esta abordagem também permite detectar o momento em que o atrito se torna significativo e precisa ser compensado. 2. AMBIENTE DE TESTES O sistema experimental utilizado, produzido pela QuanserTM , consiste em um carrinho com uma haste móvel acoplada através de uma articulação. O carrinho move-se horizontalmente em um trilho e a haste móvel por sua vez pode realizar movimento rotacional de 360◦ no plano vertical. O carrinho consiste de uma base de alumínio impulsionada por um motor CC de 400 W, trifásico sem escova. O sistema físico está interligado a um ambiente de controle em tempo real (QuaRC) integrado ao MatlabTM /SimulinkTM que permite seu controle e monitoramento. Uma biblioteca de funções permite a interface entre as variáveis do ambiente Simulink e o sistema real. 2.1. Modelo do pêndulo invertido Pelo método de Newton-Euler obtemos as equações que descrevem a dinâmica do sistema do pêndulo invertido (M + m)ẍ = Fe − mL sen(θ)θ2 + mL cos(θ)θ̈ − Fat (J + mL2 )θ̈ = mLg sen(θ) + mL cos(θ)ẍ − fat (1) onde M é a massa do carrinho, m a massa da haste, L a distância do pivô da haste até seu centro de gravidade, J o momento de inércia da haste, Fe a força aplicada ao carrinho, Fat a força de atrito no carrinho, fat o atrito resistente ao momento de rotação da haste, x é a posição do carrinho e θ a posição angular da haste. Em nosso sistema a força aplicada ao carrinho é dada por Fe = βi (2) 376 onde β é a constante de conversão entre a corrente aplicada (i) e a força que atua no motor CC utilizado. Neste trabalho o atrito (fat ) na haste será desconsiderado. Os valores, fornecidos pelo fabricante, dos parâmetros destas equações estão listados na Tabela 1(a). 3. MODELOS DE ATRITO 3.1. Modelo de Coulomb mais atrito estático Uma maneira simples de modelar o atrito é através do modelo de Coulomb mais atrito estático Fc sgn(ẋ) se ẋ 6= 0 Fe se ẋ = 0 |Fe | < Fs Fat = (3) Fs sgn(Fe ) caso contrário onde Fc é o coeficiente de atrito de Coulomb e Fs o coeficiente de atrito estático. Embora seja um modelo muito simples, captura o comportamento essencial do atrito e é útil em muitas aplicações. 3.2. Modelo de Karnopp O modelo de Karnopp [4] é adequado para a detecção da velocidade nula em simuladores. A criação de uma faixa de valores, dentro da qual a velocidade do movimento é considerada nula, define a velocidade zero no intervalo |ẋ| < DV . Devido à assimetria na força de atrito o modelo de Karnopp será descrito através das equações Fat − Fatrito (ẋ) − Fs sgn(Fe ) Fe = Fs+ sgn(Fe ) + Fatrito (ẋ) 4. MÉTODOS DE IDENTIFICAÇÃO DE PARÂMETROS DOS MODELOS DE ATRITO 4.1. Parâmetros do modelo de atrito de Coulomb A presença de atrito em processos sob certas condições produz ciclos limite [1] que tem sido explorados na literatura para realizar uma estimativa dos atritos em válvulas de controle [5]. Estes métodos são agora aplicados ao pêndulo, tendo em vista o comportamento oscilatório em malha fechada (Figura 1). De modo particular, o gráfico i versus x obtido, é típico de sistemas sob influência de atrito estático e que apresentam oscilações e evidencia o comportamento da posição do carrinho de acordo com a corrente aplicada. As regiões em aproximadamente -50 mm e 15 mm representam o carrinho parado e estão diretamente relacionadas com o atrito do sistema. Algoritmo proposto para estimar o atrito, baseado em [5]. 1. Aplicar ao conjunto de dados (i, x) a um filtro passa baixa a fim de eliminar componentes de alta frequência e gerar os sinais filtrados (if , xf ) 2. Escolher um segmento de dados (if , xf ) com base na regularidade de oscilações desses sinais. Tal regularidade é verificada a partir do critério apresentado em [6]. 3. Ajustar uma elipse ao gráfico if versus xf . 4. Traçar um segmento de reta paralelo ao eixo i passando pelo centro da elipse. ẋ ≤ −DV 5. Calcular a distância entre os interceptos do segmento de |ẋ| < DV e |Fe | ≤ Fs− − + reta traçado com a reta i = 0 e com a elipse. |ẋ| < DV e Fs < Fe < Fs + |ẋ| < DV e |Fe | ≥ Fs Este algoritmo pode ser executado periodicamente, de ẋ ≥ DV forma automática, usando dados coletados que indicaram a (4) presença de oscilações [6] − Fatrito (ẋ) = Fc− sgn(ẋ) + Fv− ẋ (5) se se se se se + Fatrito (ẋ) = Fc+ sgn(ẋ) + Fv+ ẋ (6) onde Fv é o coeficiente de atrito viscoso e os coeficientes positivo e negativo denotam a direção do movimento. Para realização dos testes em simulação, serão usados o modelo do pêndulo invertido mais os modelos de atrito, com parâmetros listados na Tabela 1(b). 4.1.1 Identificação dos parâmetros Para a simulação utilizou-se o modelo de atrito de Coulomb mais atrito estático com coeficientes de atrito listados na Tabela 1(b), o resultado obtido pode ser observado na Figura 2(a). É importante evidenciar que o uso do algoritmo que Tabela 1 – Parâmetros (b) Modelos de atrito (a) Pêndulo Parâmetro Valor Parâmetro Valor M 3,220 kg Fs+ 6,0 N m 0,230 kg Fs− 10,0 N L 0,641 m Fc+ 5,0 N J 0,008 kg.m2 Fc− 9,0 N g 2 Fv+ 30,0 N.s/m 32,396 N/A Fv− 25,0 N.s/m DV 0,002 m/s β 9,810 m/s Figura 1 – Comportamento oscilatório no pêndulo invertido 377 descrito a seguir é aplicado apenas quando o carrinho está em movimento. Portanto, o coeficiente de atrito estático Fs não é estimado, ao final desta seção discutiremos alternativas para sua estimação. O primeiro passo é definir o vetor de parâmetros a serem estimados λ = Fc Fv (7) Quando a velocidade do carrinho tem módulo maior que DV , a força de atrito é dada por Fatrito , substituindo θ̈ em ẍ no sistema (1), obtemos a seguinte equação m2 L2 ˙ cos(θ) − (M + m) ẍ − mL sen(θ)(θ) Fe + J + mL2 m2 L2 + g sen(θ) cos(θ) = Fc sgn(ẋ) + Fv ẋ (8) J + mL2 (a) Simulação Note que, sendo os estados medidos no processo e os parâmetros do pêndulo invertido previamente conhecidos, (8) é linear em relação ao vetor de parâmetros λ. Em seguida define-se o vetor de regressores como ϕ = sgn(ẋ(t)) ẋ(t) (9) Chamando Figura 2 – Elipse ajustada ao gráfico i - x ajusta a elipse por mínimos quadrados aos dados do gráfico i - x claramente estima o atrito de Coulumb. Para estimar o atrito estático, a elipse deve envolver todos os dados. A estratégia aqui proposta e expandir os raios da elipse através de uma busca unidimensional até que todos os pontos pertençam ao interior da mesma. No caso mostrado na Figura 2(a) os raios da elipse externa foram aumentados 33% em relação à elipse interna. Na Tabela 2(a) temos a comparação entre os coeficientes de atrito estimados e os utilizados para simulação. Na Tabela 2(b) temos a média e o desvio padrão (σ) dos coeficientes de atrito de Coulomb estimados com dados do pêndulo real. O desvio padrão foi foi calculado após a realização de sete testes consecutivos, e seu valor pequeno indica que a estimativa é consistente. Neste caso os rais da elipse foram aumentados 46% para estimar Fs+ e Fc− . Tabela 2 – Coeficiente de atrito de Coulomb estimado (b) Testes na planta (a) Simulado Fs− F̂s− Fc− F̂c− Média σ Fs− 14,12 0,68 F̂c+ Fs+ 10,28 0,46 5,00 5,01 Fc− 10,86 0,30 Fc+ 7,14 0,62 10,00 11,44 9,00 9,02 Fs− 6,00 F̂s− 7,47 Fc+ m2 L2 cos(θ(t)) − (M + m) ẍ(t) ∆(t) = Fe + J + mL2 m2 L2 ˙ − mL sen(θ(t))(θ)(t) + g sen(θ(t)) cos(θ(t)) J + mL2 (10) (b) Planta o vetor de parâmetros pode ser obtido minimizando o erro quadrático X 2 λ̂ = argλ min ∆(t) − ϕ(t)λT (11) t Entretanto, os períodos em que (8) é válida são desconhecidos, pois a velocidade limite DV é uma incógnita do modelo. Para lidar com este problema, define-se a variável δv(s) [4], tal que s (12) δv(s) = max (|ẋ(t)|) Z sendo Z >> 1 e S < Z, para s = 1, 2, ..., S, ou seja, δv(s) assume S valores distintos, obrigatoriamente menores do que a maior velocidade verificada nos dados experimentais. Para cada valor de δv(s) o vetor de regressores ϕ(t) e ∆(t) são escolhidos dos dados experimentais segundo a condição |ẋ| > δv(s) e em seguida o vetor de parâmetros é estimado resolvendo (11). Como Fs é necessário para o modelo, as alternativas para estimá-lo são: a) usar estimativas obtidas offline, b) adotar Fs = αFc , com α > 1, c) usar o procedimento discutido na seção 4.1.1. 4.2.1 4.2. Parâmetros do modelo de Karnopp O método descrito a seguir foi inicialmente proposto para aplicação em válvulas de controle em [4], sendo aqui adaptado para o pêndulo invertido. Entretanto o método que será Identificação dos parâmetros A fim de validar o método descrito na seção anterior, o mesmo foi aplicado a dados simulados e dados reais do pêndulo invertido. Para isso utilizou-se o modelo de atrito de Karnopp com coeficientes de atrito listados na Tabela 1(b). 378 O comportamento da estimação do vetor de parâmetros para diferentes valores de δv(s), usando o modelo é mostrado na Figura 3(a). Nota-se que para δv(s) << DV o valor dos parâmetros estimados varia significantemente para diferentes valores de δv(s), pois os dados correspondem a instantes em que (8) não se aplica. Por outro lado, à medida que s aumenta e δv(s) ≈ DV , as estimativas aproximam-se dos valores reais dos parâmetros e se mantém quase constantes, mesmo quando δv(s) ultrapassa o valor ideal de DV . Para os dados reais, devido aos ruídos de medição, os estados devem ser filtrados antes de serem submetidos ao método de identificação. Para isso utilizou-se um filtro FIR, de ordem 1200 e frequência de corte 1 Hz e tempo de amostragem 0,5 ms, por apresentar um atraso linear para todos os sinais. Na Figura 3(b) podemos ver o comportamento da estimação do vetor de parâmetro para testes realizados na planta real. Nota-se que para δv(s) > 0, 02 m/s não há variação significativa no valor dos parâmetros estimados. Na Tabela 3 temos o valor médio dos parâmetros estimados e seu desvio padrão (σ) para os sete testes realizados, onde observa-se a similaridade (para Fc ) com os resultados da Tabela 2(b). (a) Simulação Tabela 3 – Parâmetros do modelo de Karnopp estimados (b) Testes na planta (a) Simulado Média σ 9,0 Fc− 9,49 0,30 25,0 Fv− 6,841 1,54 5,0 Fc+ 5,91 0,33 30,0 Fv+ 10,40 2,68 Modelo Estimado Fc− 9,0 Fv− 25,0 Fc+ Fv+ 5,0 30,0 (b) Planta Figura 3 – Comportamento do vetor de parâmetros estimado 5. CONCLUSÃO Dois métodos para estimação de parâmetros de modelos de atrito foram apresentados e analisados via simulação e com dados reais. O método que estima os parâmetros do modelo de Coulomb e atrito estático faz uso das oscilações geradas pelo atrito para através delas estimar elipses a gráficos de corrente versus posição. O método se destaca pela simplicidade e por necessitar apenas de dados de operação. A obtenção dos parâmetros do modelo de Karnopp requer os parâmetros do modelo do pêndulo, além de não fornecer uma estimativa para o atrito estático. Sua utilização torna-se vantajosa caso o atrito não produza ciclos limite, além de conter também um parâmetro relacionados à velocidade. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem ao CNPq e a FAPES pelo apoio aos programas de pós-graduação e iniciação cientifica. REFERÊNCIAS friction compensation based on karnopp model,” Proceedings of the European Control conference, pp. 2558 – 2563, 2001. [3]DOI L. Z. X. Ivan and S. Lakshminarayanan, “A new unified approach to valve stiction quantification and compensation,” Industrial & Engineering Chemistry Research, vol. 48, pp. 3474 – 3483, 2009. [4]PUB R. A. Romano and C. Garcia, “Karnopp friction model identification for a real control valve,” Proceedings of the 17th World Congress the International Federation of Automatic Control, 2008. [5]DOI M. A. A. S. Choudhury, S. L. Shah, N. F. Thornhill, and D. 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