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GRUPO DE TRABALHO 5
TRABALHO: TRANSFORMAÇÕES, DESAFIOS E
POSSIBILIDADES
RECRUTAMENTO E PERFIL DOS
TRABALHADORES NA TELEFONIA FIXA PÓSPRIVATIZAÇÃO
Affonso Cardoso Aquiles
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RECRUTAMENTO E PERFIL DOS TRABALHADORES NA TELEFONIA FIXA PÓSPRIVATIZAÇÃO
Affonso Cardoso Aquiles1
Resumo
Este artigo refere-se a um dos eixos de pesquisa desenvolvida a partir de 2006, na Universidade
Federal do Paraná, com continuidade no mestrado em Ciências Sociais, da Universidade Federal de
Pelotas. Prioriza-se, neste caso, discutir alguns aspectos das inovações tecnológicas e
organizacionais pelas quais passaram as telecomunicações no Brasil, sobretudo após a privatização
do setor, em 1998. Buscou-se apreender de que maneira a utilização das terceirizações reestruturou
as relações interfirmas, notadamente na criação de diferentes mecanismos de recrutamento
operacionalizados pelas empresas da rede na seleção de trabalhadores. A análise se concentra nas
telecomunicações do estado do Paraná, sobretudo no setor de telefonia fixa. Por meio da revisão e
sistematização de bibliografia, pesquisa empírica junto a grupo de trabalhadores da empresa matriz,
terceirizada e quarteirizada, além de análise no banco de dados da Rais/Caged, é possível verificar
alguns elementos importantes: a) coexistência de diferenciados modelos de recrutamento de mãode-obra, de acordo com o nível da empresa na rede, passando de mecanismos formais de seleção na
empresa matriz, para modelos informais de recrutamento na empresa quarteirizada. A empresa
terceirizada utiliza-se tanto de modelos de seleção formalizada, como informal; b) a diversidade de
mecanismos para a seleção da mão-de-obra tem reflexo direto sobre os perfis dos trabalhadores,
variando de acordo com a posição da empresa na rede.
Introdução
As três últimas décadas foram marcadas por importantes transformações na economia
capitalista mundial. A redução da competitividade das grandes corporações norte-americanas, a
recuperação econômica de países europeus e do Japão, devastados pela segunda guerra mundial,
introduzindo no cenário global novas corporações com grande potencial competitivo, associadas à
escassez do petróleo na Europa e nos Estados Unidos, em conseqüência da guerra entre Israel e
países árabes em 19732, configurou um cenário em que novos paradigmas dos processos de
produção representaram uma maneira de responder a um contexto de crise mundial do capitalismo,
conforme afirmou Harvey (1984).
No Brasil, novos padrões de gestão de aparatos produtivos constituíram-se, especialmente a
partir do final dos anos 1980. A rápida abertura comercial, desregulamentação econômica e atração
de capitais externos foi a tônica das opções de sucessivos governos no âmbito federal, a partir de
Fernando Collor de Mello (1990-1992), pela política de orientação neoliberal. Essas medidas
influenciaram decisivamente a reorganização da economia nacional, em diferentes áreas. O Brasil
1
Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Mestrando em Ciências
Sociais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Bolsista da CAPES.
2
Os países localizados na península arábica detêm aproximadamente 70% das reservas mundiais de petróleo.
3
assumiu a agenda, hegemônica em escala global, de liberalização de mercados e desregulamentação
da economia a partir da década de 1980. No país, o desenvolvimento desta agenda não tem sido
linear, desde então. Os reflexos dessas medidas foram diferenciados, conforme a realidade sóciopolítica e econômica de cada região.
O novo ambiente ao qual as empresas foram submetidas levou-as a uma reestruturação
produtiva visando a retomada da capacidade de competição, e redução permanente de custos
(KREIN; GONÇALVES, 2005; LARANGEIRA, 1998). Neste contexto, variadas inovações foram
lançadas com o objetivo de readequar as empresas nacionais a uma nova realidade. Esse fenômeno
histórico de reestruturação produtiva constitui um ajuste característico de uma nova fase do
capitalismo (RUDUIT, 2001).
O padrão taylorista-fordista, marcado pela rigidez na produção, padronização dos produtos,
hierarquização no interior das empresas, controle do tempo e rígida divisão do trabalho, tornou-se
incapaz de atender plenamente aos diferentes mercados da sociedade global. A produção tornou-se
cada vez mais fragmentada, diversificada, personalizada, flexibilizada, e por isso, menos
massificada, o que reflete sobre a forma de organização das empresas (ANTUNES, 2003;
HARVEY, 1984). As mudanças ocorridas nas empresas, nas últimas décadas, inserem-se no
contexto, não de um novo processo produtivo que surge, mas sim no de uma crise do modelo antigo
que faz surgir diversos sistemas organizacionais onde, alguns prosperam e outros fracassam,
dependendo de sua adaptabilidade, das realidades institucionais diferenciadas e das estruturas
competitivas. Não ocorre um desaparecimento total do antigo modelo, mas sim uma diversidade de
possibilidades (CASTELLS, 2000). Houve necessidade emergente de mesclar aos antigos processos
produtivos, novas formas de produção, mais flexíveis, sustentadas na qualidade dos produtos e
serviços, articuladas pela re-qualificação da mão-de-obra e pela flexibilização organizacional das
empresas, capaz de transformá-las em uma rede de relações de prestação de serviços. Esta
readequação frente à nova realidade, associada à implementação de inovações tecnológicas, acarreta
uma mudança estrutural tanto nas relações institucionais de produção, quanto no processo de
trabalho propriamente dito (ANTUNES, 2003).
A globalização da economia e a reestruturação das relações e da organização, das empresas
e do trabalho, marcam a passagem a um novo momento da acumulação capitalista. A característica
distintiva deste novo momento da economia é que ela opera em escala planetária, como uma
unidade em tempo real, induzindo a transformação das formas de trabalho. A intensidade das
interações existentes na economia global tem como base material a tecnologia da informação. A
revolução tecnológica da década de 1970 caracterizou-se por produzir tecnologia voltada às novas
demandas de agilidade e flexibilidade da produção. O processamento da informação mediante
novas tecnologias potencializou e acelerou, de forma particular, o desenvolvimento dos processos
4
produtivos globais (CASTELLS, 2000). A informação – precisa e atualizada – serviu de matéria
prima para o novo paradigma tecnológico que reorganizou os processos produtivos em escala
mundial, tornando-se mercadoria valorizada. O acesso e o controle da informação, aliados a uma
análise instantânea de dados, são fundamentais para a coordenação centralizada dos interesses das
grandes corporações (CASTELLS, 2000; HARVEY, 1984). O novo paradigma tecnológico
configura-se a partir de determinadas características, conforme Castells (2000: 78): A primeira
refere-se à “penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias”, ou seja, como a informação faz
parte da totalidade das atividades humanas, as novas tecnologias influenciam decisivamente o
cotidiano dos indivíduos. A segunda característica está ligada à lógica das redes, já que as novas
tecnologias da informação contribuem para a formação desta tipologia de relações. A terceira,
referente ao sistema de redes, diz respeito à flexibilidade. O paradigma da tecnologia da informação
organiza-se através da lógica das redes, mas não como algo estático. Esses processos são
reversíveis, pois “o que distingue a configuração do novo paradigma tecnológico é a sua
capacidade de reconfiguração, um aspecto decisivo em uma sociedade caracterizada por constante
mudança e fluidez organizacional”. A quinta, e mais importante característica está relacionada à
crescente convergência de diferentes tecnologias para um sistema integrado – a microeletrônica, as
telecomunicações e a informática integram-se em sistemas de informação.
As novas tecnologias implementadas no universo produtivo agilizaram o intercâmbio de
informações entre setores de uma mesma empresa, e da economia, de forma geral. Uma das mais
importantes inovações é o desenvolvimento da microeletrônica, que processa informações de forma
ágil, conferindo eficiência ao processo de produção. A tendência à informatização de todos os
setores da economia gera rapidez e segurança na troca de informações. Uma economia altamente
integrada desenvolve-se mediante uso de novas tecnologias, num contexto de mudanças na
organização da economia brasileira. A formação de redes de empresas3 revelou um enorme ganho
de produtividade, mediante troca de informações em tempo real. Configura-se a integração dos
diferentes setores internos às empresas em busca de uma padronização das relações, como destaca
Coutinho et al. (1995):
A „computadorização‟ das atividades de design, pesquisa e desenvolvimento,
produção, marketing e administração tem levado a um novo tipo de organização e
a um novo estilo de administração empresarial. Como conseqüência, observa-se
não apenas a integração dessas várias funções, mas também novas relações entre
empresas (COUTINHO et al., 1995: 17-18).
Segundo RUDUIT (2002: 400), a rede de empresas “é a unidade de produção formada a partir da constelação de
relações de complementaridade e de poder interfirmas, em face da transferência de segmentos do processo produtivo de
uma empresa a fornecedores (grandes, médios e pequenos) de produtos, serviços ou mão de obras”.
3
5
No centro de todas as mudanças enumeradas estão as telecomunicações. Nas últimas
décadas elas deixaram, gradativamente, de ser apenas um elo entre as pessoas para revelar-se meio
fundamental de ligação entre os vários setores da produção. Esta ampliação do papel das
telecomunicações deu-se, simultaneamente, em duas direções: das empresas demandando um
sistema mais ágil e abrangente; e da evolução tecnológica do sistema, ofertando às empresas novas
possibilidades de serviços e produtos.
O intercâmbio eletrônico de dados, por exemplo, revoluciona a natureza do
sistema financeiro, tornando-o efetivamente globalizado, ao permitir o acesso à
informação „on line‟, em escala mundial, acerca da situação de mercados
locais/nacionais e de transações financeiras de modo geral. Possibilita a
integração entre empresas em novas bases, assim como a análise de tendências de
mercados, a aplicação de métodos modernos de gerência de empresas (como o just
in time) e também viabiliza o crescimento de indústrias como a do turismo, ao
criar possibilidades de reservas de vôos e hotéis em escala internacional. Somemse a isso os avanços no campo do conhecimento, como educação à distância. Com
base nas telecomunicações, idéias e valores monetários circulam pelo planeta, em
velocidade jamais vista. (LARANGEIRA, 1998:160)
A associação entre telecomunicações e microeletrônica na década de 1990 transformou
radicalmente a organização do setor. As tecnologias digitais gradativamente substituíram as centrais
de comutação eletromecânicas, de menor capacidade de armazenamento de informações,
potencializando a eficiência na transmissão de dados. A nova posição das telecomunicações na
organização da economia capitalista transformou também, o caráter dos serviços prestados pelo
setor. Antes compreendido como de utilidade pública para, atualmente, exercer função estritamente
comercial, integrada à lógica de reprodução do capitalismo. (COUTINHO et al., 1995;
LARANGEIRA, 1998). Dessa maneira, a reestruturação do setor é fundamental para a aceleração
dos negócios em grande escala.
Este artigo buscará estabelecer algumas relações entre as reestruturações organizativas e
tecnológicas pelas quais o setor de telecomunicações passou, notadamente a telefonia fixa do
Paraná, a partir de sua privatização em 1998. Além disso, procura-se apontar implicações desse
complexo processo sobre as modalidades de recrutamento dos trabalhadores na rede de empresas,
dando ênfase para as alterações no perfil dos trabalhadores nas telecomunicações. O artigo procura
dar conta de elementos de pesquisa iniciada em 2006/2007, resultado de investigação empírica e
análise de dados secundários. Vale ressaltar, por fim, que não é objetivo do trabalho concluir a
discussão, mas apontar alguns dados e informações relevantes obtidos na etapa de pesquisa
exploratória.
6
Recrutamento de Trabalhadores em Rede de Empresas
A reestruturação do setor de telecomunicações implicou em significativas mudanças no
perfil dos trabalhadores. As novas “características” desejadas para que um funcionário fosse
contratado ou permanecesse numa empresa não eram uniformes. Houve, na realidade, uma variação
do perfil, de acordo com a posição do estabelecimento na rede de empresas. Dessa maneira, tanto as
concessionárias como as demais empresas da rede passaram a adotar um perfil de mão-de-obra
readequado às suas novas funções no sistema de telefonia.
Os diferentes perfis de trabalhadores desejados pelas empresas, conforme o tipo de trabalho
que desenvolvem e posição na rede de empresas, demandaram técnicas de recrutamento de mão-deobra de acordo com as necessidades dos empregadores. As empresas que executam trabalhos
complexos ou de gestão da rede tenderiam a recrutar mão-de-obra com mais instrução (RUDUIT,
2001).
Como forma de padronizar as comparações dos dados da pesquisa empírica, foram
analisadas as informações referentes aos trabalhadores do setor de redes, pois nessa área é possível
encontrar mão-de-obra empregada tanto na concessionária, como na terceirizada e quarteirizada.
A Brasil Telecom/Oi adota medidas formalizadas de recrutamento, por meio de cadastro de
currículos em banco de dados da própria empresa. Os trabalhadores são contratados seguindo a
lógica de testes seletivos para definir quais pretendentes se adequam ao perfil desejado pela
empresa. Os critérios utilizados para o recrutamento passam pela instrução mínima de ensino
técnico ao Ensino Médio completo – sendo a formação universitária desejada -, domínio básico de
língua estrangeira e informática. A experiência na área de redes não é determinante para a
contratação, embora seja um elemento a mais na definição dos contratados.
A empresa terceirizada X utiliza-se tanto de modelos de seleção formalizada de pessoal,
como indicações de amigos e parentes de trabalhadores já vinculados à empresa. As seleções
formais são realizadas por agências de emprego prestadoras de serviço para a empresa X. Os
critérios mínimos requeridos para contratações por meio formal ou informal passam pela instrução
de ensino fundamental completo, com prioridade aos pretendentes com ensino médio, mesmo que
incompleto, além de um ano de experiência na área.
A empresa quarteirizada Y adota, em geral, modelos informais de recrutamento. Os
pretendentes são contratados a partir de indicação de amigos e parentes de trabalhadores já
empregados na empresa. Além disso, existem dois critérios para a contratação: possuir experiência
de no mínimo um ano na função e ter capacidade física para realização das tarefas, julgada pela
7
possibilidade de cumprimento das tarefas, pelo pretendente à vaga, dentro do prazo estipulado pela
empresa. Não há exigência de escolarização formal.
A diversidade de modelos e critérios usados para a seleção da mão-de-obra tem reflexo
direto sobre os perfis dos trabalhadores encontrados nas empresas4. Na empresa central, a Brasil
Telecom/Oi, os trabalhadores do setor de redes situam-se na faixa dos 37 aos 48 anos de idade, com
média de 42 anos. Do total de funcionários nesse setor, 16% tinham mais de 10 anos de tempo de
serviço na empresa, ou seja, eram remanescentes do período anterior à privatização. O tempo médio
de vínculo na empresa aproxima-se dos 8 anos. A maioria dos trabalhadores, 87,6%, possuía ensino
médio completo, com formação técnica na área de redes. O restante contava formação universitária
finalizada5. Todos os trabalhadores atuam na área de fiscalização dos serviços prestados pelas
terceirizadas.
Na empresa X, os trabalhadores da área de rede encontram-se na faixa dos 18 aos 39 anos de
idade. Dos 21 trabalhadores que responderam ao questionário da pesquisa nesse setor da empresa,
14 estão no emprego há no máximo 2 anos. Da totalidade de entrevistados, 6 cursaram o ensino
fundamental e 15 o ensino médio. O tempo de vínculo dos entrevistados na empresa, em média, não
passa dos 3 anos.
A empresa Y conta com trabalhadores na faixa dos 32 aos 53 anos de idade. Dos 15
trabalhadores que responderam aos questionários, 13 possuíam formação escolar fundamental e
apenas 2 com ensino médio. Os trabalhadores entrevistados possuem, em média, 2 anos e 4 meses
de vínculo com a empresa em questão.
O perfil dos trabalhadores empregados nas três empresas analisadas apresenta variação
significativa. É possível notar tanto uma média de idade mais elevada, como um tempo maior de
vínculo ativo entre os trabalhadores do setor de redes da Brasil Telecom/Oi. As novas funções
atribuídas à concessionária, ou seja, a gestão do sistema de telefonia, implicaram manutenção de um
número de trabalhadores com mais experiência na empresa, especialmente no setor em que se
realiza a fiscalização do trabalho das empresas contratadas. Dessa maneira, é possível entender a
existência de trabalhadores com idade mais elevada, mais tempo de serviço e nível de instrução, na
Brasil Telecom/Oi, quando comparados aos empregados nas terceirizadas.
As empresas contratadas apresentam distintas caracterizações de sua mão-de-obra. Na
empresa X, os trabalhadores entrevistados possuem predominância de nível escolar médio, embora
existam trabalhadores com ensino fundamental. Além disso, a mão-de-obra possui média de idade
próxima aos 30 anos.
4
Os dados obtidos pela pesquisa empírica não apontam para a existência de trabalhadoras no setor de redes das
empresas analisadas.
5
Dados fornecidos pelo Sinttel – PR e Relatórios Anuais da Brasil Telecom.
8
Os trabalhadores entrevistados da empresa Y possuem, predominantemente, formação
escolar fundamental, com apenas 2 dos 15 entrevistados contando com ensino médio. Além disso, a
empresa Y possui mão-de-obra com média de idade bastante superior quando comparada à empresa
X, 39 anos em média.
As clivagens no perfil dos trabalhadores nas duas empresas, terceirizada e quarteirizada em
questão, apontam para uma complexificação da mão-de-obra do setor, de acordo com o porte e o
tipo de serviço executado em cada uma. A empresa terceirizada X caracteriza-se por possuir um
contrato mais rentável com a Brasil Telecom/Oi, pois atua em áreas diversificadas na prestação de
serviço para a concessionária, incluindo trabalhos relacionados à redes de internet, atendimento a
grandes clientes e ao usuário doméstico. Dessa maneira, o número de trabalhadores com ensino
médio completo supera os que possuem o ensino fundamental. A empresa quarteirizada Y, por sua
vez, possui um “contrato de risco”6 com a empresa X, pois caracteriza-se por ser uma organização
de pequeno porte e não ter vinculo direto com a companhia central da rede. Além disso, executa
somente trabalhos de instalação e manutenção de sistemas de rede mais recentes, considerados um
serviço em que os valores pagos pela concessionária são bastante reduzidos. Além disso, a empresa
não atua diretamente com o cliente final da Brasil Telecom/Oi. Dessa maneira, a composição da
mão-de-obra da empresa, quando analisada pelo critério da escolaridade, situa-se na faixa do ensino
fundamental.
O setor de telefonia fixa passou a se caracterizar pela alta rotatividade dos trabalhadores. Em
conseqüência disto, a mão-de-obra é marcada por um reduzido tempo de vínculo empregatício na
mesma empresa. Confirmando esta caracterização do setor de telefonia fixa no Paraná, há um
elemento comum que perpassa as duas empresas contratadas, o baixo tempo de vínculo ativo dos
trabalhadores entrevistados. Tanto a empresa X, como a empresa Y, contam com trabalhadores com
2 anos e 8 meses, em média, de tempo de emprego, ou seja, muito abaixo da média de tempo de
serviço na Brasil Telecom/Oi.
Perfil dos Trabalhadores nas Telecomunicações, 1997-2008
As mudanças pelas quais as telecomunicações passaram na década de 1990 tiveram
importante impacto sobre a organização do setor, as relações entre empresas e o número de postos
de trabalho. O novo cenário da telefonia passou a reorganizar o quadro funcional, alterando
fundamentalmente o perfil dos trabalhadores empregados.
A proporção entre homens e mulheres empregados no setor de telecomunicações
permaneceu estável após 1998, com forte predominância masculina, sempre acima de 60% dos
6
Referência utilizada em CARDOSO AQUILES, A. Entrevista nº. 1, com dirigente sindical, 27 de março de 2007.
9
postos de trabalho. No entanto, nos anos de 2004 e 2005 a proporção dos gêneros passou por
significativa mudança. O número de mulheres empregadas cresceu de 35% em média, no período de
1997 a 2003, para mais de 45% do número de funcionários, nos anos de 2004 e 2005. Os dois anos
seguintes mostraram uma redução na participação feminina que, no entanto, voltou a crescer em
2007 e 2008.
Estas alterações no quadro de emprego a partir dos gêneros, apontam para o aumento
expressivo da participação das mulheres no setor de telecomunicações, após um longo período de
predominância masculina (gráfico 1).
Gráfico 1 - Trabalhadores em Telecomunicações no Paraná,
segundo o gênero, em porcentagem
80
60
40
20
0
1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Homens
Mulheres
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria.
As empresas de telecomunicações passaram a substituir seus trabalhadores com mais idade,
em busca de um “rejuvenescimento” do quadro funcional. Os trabalhadores mais jovens seriam
mais adaptáveis aos modernos recursos tecnológicos do setor pós-privatização que os empregados
antigos. Além disso, poderiam ser dispostos com menor resistência a uma realidade salarial
precária, com novas funções a serem executadas em uma dinâmica inovadora de organização da
empresa no pós-privatização (LARANGEIRA, 1998).
É possível notar no gráfico 2, que a porcentagem de trabalhadores entre 30 e 49 anos teve
redução significativa a partir de 1998, bem como dos funcionários entre 50 e 64 anos. Entre os
trabalhadores mais jovens, notou-se crescimento importante. Somente entre os empregados na faixa
dos 18 aos 24 anos de idade, por exemplo, o montante passou de 5,92% em 1997, para 34% em
2005 entre o total de trabalhadores do setor de telecomunicações. Esta faixa etária sofreu redução
importante entre 2005 e 2006. Porém, a partir do ano seguinte voltou a se estabilizar na média
histórica pós-privatização.
10
Vale ressaltar que as mudanças mais significativas são notadas entre 1998 e 1999, ou seja,
exatamente no primeiro ano das mudanças organizacionais pós-privatização. Os postos de trabalho
situados na faixa dos 18 aos 24 anos tiveram crescimento de 172% já no primeiro ano da
privatização, ao mesmo tempo em que a redução entre os trabalhadores localizados na faixa etária
de 40 a 49 anos chegou a 44% e entre 50 a 64 passou dos 54%. A estabilidade funcional dos
trabalhadores das antigas empresas estatais até a primeira metade de 1999 implicou em
desligamentos voluntários através de Planos de Demissão Voluntária e Incentivada. Estas medidas
utilizadas pelas novas concessionárias eram direcionadas especialmente aos trabalhadores com mais
tempo de serviço, mais idade, e em proximidade da aposentadoria. Dessa maneira é possível
compreender as alterações no perfil dos trabalhadores, especialmente entre 1998 e 1999.
Gráfico 2 - Trabalhadores em Telecomunicações no Paraná,
segundo a faixa etária*, em porcentagem
2007
2005
2003
2001
1999
1997
27,69
25,78
20,92
34,00
29,55
22,08
22,47
22,29
23,64
21,12
7,75 12,61
5,92 12,36
18 a 24 anos
23,52
23,21
22,97
22,76
22,96
22,26
22,68
19,46
19,36
20,55
38,49
39,08
25 a 29 anos
27,2
27,69
29,57
25,46
27,99
32,09
33,48
34,88
34,76
36,20
31,85
33,23
30 a 39 anos
40 a 49 anos
15,82
17,39
19,66
13,62
15,11
18,76
17,31
19,61
18,75
17,54
5,19
5,29
5,94
3,53
3,76
4,12
3,39
3,46
3,19
3,84
8,36
8,67
50 a 64 anos
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria.
* A somatória dos valores não atingem 100%, pois não foram consideradas duas faixas etárias, menores de 17 anos e
acima dos 64. Somadas, não atingiam 1% em nenhum dos anos do período, portanto, não interferiam na caracterização
do setor por faixa etária.
O nível de instrução dos trabalhadores empregados no setor de telecomunicações no Paraná
também passou por mudanças, no entanto, menos significativas, quando comparadas às
relacionadas com a faixa etária. Ao observar o gráfico 3 é possível notar uma relativa estabilidade
na escolaridade dos trabalhadores, especialmente os que possuem nível superior. Vale ressaltar a
tendência de crescimento, a partir de 2003, dos empregados com formação média, além da
11
tendência de redução do número de trabalhadores com nível fundamental na série histórica, caindo
mais de 10% entre 1997 e 2008.
A complexificação do setor de telecomunicações, mediante a redefinição dos papéis dos
atores envolvidos, como a concessionária e as empresas terceirizadas, demandou uma reorganização
do quadro funcional. A formação escolar do pessoal empregado teve destaque nesse processo. As
novas funções assumidas pelas concessionárias redefiniram o perfil de pessoal necessário para
realizar as tarefas, ou seja, trabalho com vendas, marketing e gestão de pessoal (RUDUIT, 2001).
Gráfico 3 - Trabalhadores em Telecomunicações no Paraná,
segundo o grau de instrução*, em porcentagem
55,82
48,58
46,26
48,28
43,65
41,37
38,42
36,26
38,72
50,34
41,62
52,66
41,99
50,1
45,35
33,6
19,9
14,98
12,91
10,28
10,58
7,97
1997
1999
2001
2003
Fundamental
2005
Médio
2006
5,29
2007
4,53
2008
Superior
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria.
* Os três níveis do grau de instrução consideram tanto os trabalhadores que concluíram, como os que cursaram
algumas séries.
Da mesma forma, as empresas terceirizadas, que assumiram gradativamente as antigas
tarefas realizadas pelas empresas privatizadas em 1998, como implantação de rede, manutenção,
instalação de terminais, lançamento de cabos. Dessa maneira, nota-se, por um lado, um índice
elevado de trabalhadores com formação universitária na Brasil Telecom, e, por outro, a existência
de mais de 45% dos trabalhadores das terceirizadas, em média, situados entre os que possuem
formação fundamental ou média (gráfico 4).
12
Gráfico 4 - Trabalhadores da Brasil Telecom e Empresas
Terceirizada X e Quarteirizada Y, no Paraná, segundo o grau de
instrução,* em porcentagem
83,5
59,42
56,53
20,3
28,00
0,7
Brasil Telecom
32,35
15,47
Empresa X
Fundamental
Médio
8,23
Empresa Y
Superior
Fonte: Brasil Telecom, 2005 e pesquisa empírica, 2007.
* Os três níveis do grau de instrução consideram tanto os trabalhadores que concluíram, como
os que cursaram algumas séries.
Os postos de trabalho que necessitam de empregados apenas com formação fundamental são
extremamente reduzidos na Brasil Telecom/Oi (0,7%) em comparação com os 43,71% que
compõem o quadro funcional com formação primária nas terceirizadas, em média. Da mesma
forma, quando comparamos os 83,50% de trabalhadores da concessionária que possuem formação
universitária, com os 11,85%, em média, da terceirizada e quarteirizada com o mesmo grau de
escolaridade, pode-se perceber a precariedade dos postos de trabalho das demais empresas
componentes da rede.
A elevação no grau de instrução dos trabalhadores passou a ser considerada estratégica para
a Brasil Telecom/Oi, pois a necessidade de atendimento a grandes corporações, bem como a gestão
de todo o sistema de telecomunicações demandava trabalhadores com alto grau de formação escolar
(BRASIL TELECOM, 2004). Por outro lado, nas terceirizadas e quarteirizadas, a contratação de
trabalhadores para as áreas de rede e obras não exigia, em muitos casos, qualquer escolaridade
acima do ensino fundamental incompleto.
O pessoal para entrar na empresa, na área de rede, obras, manutenção, por
exemplo, não precisa ter qualificação escolar (...) ele tem que conhecer o trabalho,
o que ele precisa saber é como executar as tarefas que serão passadas para ele
dentro do prazo estabelecido pela empresa, nada mais que isso (CARDOSO
AQUILES, A. Entrevista nº. 4, com gerente da empresa Y, 07 de maio de 2007).
Nota-se, a partir dos dados empíricos, que existem diferentes percepções das empresas
envolvidas, sobre a necessidade de elevação no grau de escolaridade de seus trabalhadores. Se por
um lado a Brasil Telecom/Oi define a qualificação escolar dos trabalhadores como uma de suas
13
estratégias para aumento de competitividade, as empresas X e Y seguem o caminho inverso,
mantendo trabalhadores com baixo grau de escolaridade em seus quadros.
A relação entre níveis de escolaridade e gênero influenciou significativamente a composição
dos valores salariais dos trabalhadores em telecomunicações. As mulheres historicamente
receberam menor remuneração do que os homens, em variados setores da economia. Da mesma
forma os trabalhadores com menor escolaridade quando comparados com os que possuem níveis de
instrução mais elevados, recebem menores vencimentos (quadro 1). A articulação dessas três
variáveis – gênero, escolaridade e salário – aponta para um cenário perverso para a categoria.
Os dados do quadro 1 indicam que os homens, em todo o período, receberam salários
maiores que as mulheres, independente do nível de instrução. As mudanças pelas quais o setor de
telefonia passou não reduziram as enormes disparidades salariais entre homens e mulheres. A
análise da variação das médias salariais no período 1997-2007 mostra que, entre os trabalhadores
com nível médio e superior o salário das mulheres obteve variação média superior ao dos homens.
No entanto, localizam-se entre os trabalhadores com nível básico de escolaridade os recebem os
menores salários se comparados aos outros níveis de formação escolar. O conjunto dos
trabalhadores com formação média, registrou queda em sua remuneração, no caso dos
trabalhadores. Neste nível de escolaridade, o salário dos homens teve redução de 2,98%, enquanto
as mulheres passaram a contar com vencimentos 0,38% maiores, em média, no período 1997-2007.
Quadro 1 - Relação entre Grau de Instrução, Gênero e Renda Média nas Telecomunicações no Paraná
Escolaridade Gênero
1997
1999
2001
2003
2005
2007
Variação no Período
Básica
Masculino 837,38 339,48 568,39 627,32 649,78 767,82
8,01%
Feminino 551,28 416,24 410,21 424,37 579,17 587,41
3,07%
Média
Masculino 1.353,00 970,79 913,92 925,19 894,41 1.084,29
-2,98%
Feminino
788,4
663,44 694,55 633,58 533,11 695,75
0,38%
Superior
Masculino 2.515,20 2.714,59 2.974,29 2.467,44 3.095,22 3.336,71
6,73%
Feminino 1.303,80 1.489,30 1.576,99 1.371,44 1.626,20 1.875,08
8,18%
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria.
É possível concluir, por meio dos dados disponíveis que, a disparidade de renda entre
gêneros, nas telecomunicações, foi mantida no período pós-privatização. Além disso, houve queda
de rendimentos para os trabalhadores, especificamente onde se concentra o maior número de
trabalhadores do setor: os que possuem formação escolar média. Tendo em vista a evolução do
número de mulheres empregadas no setor de telecomunicações e os menores salários recebidos em
comparação aos homens, pode-se afirmar que, em geral, a maior parte da categoria dos
trabalhadores em telecomunicações, após a privatização, passou a ter sua remuneração reduzida
gradativamente.
14
Os desligamentos no setor de telecomunicações no Paraná incidiram fortemente sobre os
trabalhadores com maior tempo de serviço, nos anos de 1999 e 2000. Neste período, o número de
empregados situados entre os que possuíam vínculo ativo por 120 meses ou mais que passaram por
desligamento da empresa, foi maior que as demissões em todas as outras faixas de tempo de serviço
somadas no mesmo período (quadro 2).
Quadro 2 - Número de Desligamentos Sem Justa Causa por Faixas de Meses com Vínculo Ativo no Setor de Telecomunicações do Paraná
Faixa de Meses
1997
1998
1999
2000
2001
2002
1 a 2,9
32
26
152
323
487
392
3 a 5,9
54
37
91
256
1.084
689
6 a 11,9
104
71
121
370
1.116
457
12 a 23,9
116
95
119
278
988
688
24 a 35,9
58
37
75
72
319
308
36 a 59,9
40
31
65
122
77
142
60 a 119,9
62
36
255
291
134
46
120 ou mais
82
41
1.074
1.123
278
125
Total
548
374
1.952
2.835
4.483
2.847
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Caged, 2009. Elaboração própria.
2003
151
125
293
451
230
160
41
125
1.576
2004
180
171
306
386
285
237
61
45
1.671
2005
247
295
475
656
314
515
141
49
2.692
2006
358
392
945
1.269
443
631
292
202
4.532
2007
455
955
1.666
2.164
890
538
409
46
7.123
Total
2.803
4.149
5.924
7.210
3.031
2.558
2.469
3.190
30.663
Torna-se contundente a idéia de que as demissões sem justa causa foram direcionadas, num
primeiro momento, aos trabalhadores com maior tempo de serviço e, portanto, com maiores
rendimentos salariais, visto que as posições mais elevadas na carreira dos telefônicos - alcançadas a
partir do tempo de serviço na empresa e concursos internos - garantiam maiores vencimentos no
período anterior à privatização (quadro 3). Além disso, os trabalhadores com mais tempo de serviço
apresentavam maiores dificuldades em se relacionar com as novas tecnologias implantadas na
telefonia a partir do final da década de 1980 (LARANGEIRA, 1998; TORRENS et al., 1999). Em
2001 e 2002, a relação inverteu-se, com os desligamentos concentrados entre os empregados com
tempo de serviço entre 3 meses e dois anos de vínculo, ou seja, trabalhadores que foram contratados
após a privatização do setor de telecomunicações, em 1998. Este dado deixa evidente a alta
rotatividade e a instabilidade do vínculo dos trabalhadores, pós-privatização, características dos
sistemas flexíveis. De 2003 a 2007, as demissões concentraram-se entre os trabalhadores com 6
meses a 2 anos de vínculo, com forte crescimento nos dois últimos anos da série histórica.
Em 1999, quando teve início a reestruturação das empresas de telecomunicações após o
período contratual que proibia as demissões, os postos de trabalho situados nas faixas salariais mais
elevadas – acima dos 7 salários mínimos – foram reduzidos em 53,45%, ou seja, dos 1.981
trabalhadores demitidos naquele ano, 1.059 recebiam acima de 7 salários. No ano seguinte, as
demissões foram equilibradas. Nota-se, no quadro 3, que os desligamentos foram significativos,
tanto entre os trabalhadores com menores vencimentos (até 3 salários mínimos) 36,60%, como entre
os que percebem os maiores salários, aproximadamente 36,63%. A partir de 2001, as demissões
passaram a se concentrar especialmente entre os trabalhadores com menores salários, entre 1 e 4
15
salários mínimos. Em 2005, tendo continuidade nos dois anos seguintes, houve um crescimento
exponencial das demissões entre os trabalhadores com menores salários, até dois salários mínimos.
Quadro 3 - Número de Desligamentos Sem Justa Causa por Faixas de Salários Mínimos no Setor de Telecomunicações no Paraná
Faixas de Salários
1997
1998
1999
2000
2001
2002
Mínimos
Até 0,5
1
2
0
1
1
11
0,51 a 1,00
51
58
37
56
32
23
1,01 a 1,50
52
33
115
148
730
273
1,51 a 2,00
62
59
73
170
731
810
2,01 a 3,00
95
82
201
677
1.790
870
3,01a 4,00
43
30
70
175
344
215
4,01 a 5,00
49
17
114
152
192
115
5,01 a 7,00
64
34
312
443
219
180
7,01 a 10,00
60
24
414
463
183
120
10,01 a 15,00
41
20
309
307
178
103
15,01 a 20,00
9
11
111
123
68
63
Mais de 20,00
26
16
225
160
126
106
Total
553
386
1981
2875
4594
2889
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Caged, 2009. Elaboração própria.
2003
0
33
144
343
533
89
68
87
81
73
47
91
1589
2004
1
33
257
542
410
126
84
66
68
57
25
40
1709
2005
2
74
1.154
480
521
131
70
81
71
48
31
40
2703
2006
2
148
2.237
1.004
505
167
90
131
114
91
39
35
4563
2007
2
133
4.983
1.061
519
138
58
88
75
40
19
26
7142
Total
24
678
10.126
5.335
6.203
1.528
1009
1.705
1.673
1.267
546
891
30.984
Verifica-se, dessa forma, que a rotatividade da mão-de-obra nas telecomunicações
concentrou-se entre os que recebem os menores salários no setor, confirmando uma nova tendência
no ramo da telefonia.
É possível concluir a partir dos dados dos quadros 2 e 3 que os desligamentos do setor de
telecomunicações, no período posterior à privatização, relacionaram os elementos tempo de serviço
e salário na definição dos postos de trabalho que seriam extintos. A racionalização do setor primou
pela renovação da mão-de-obra, por meio do desligamento de um número significativo de
trabalhadores com mais de 10 anos de serviço e que percebiam as maiores vantagens salariais das
empresas. Dessa forma, o quadro de trabalhadores das telecomunicações foi reorganizado, também,
a partir da faixa de renda e tempo de serviço médio nas empresas.
Os empregados das empresas de telecomunicações passaram a se concentrar nos postos de
trabalho com menores remunerações, ou seja, até 3 salários mínimos, a partir do primeiro ano pósprivatização (quadro 4). Em 1997, os trabalhadores situados entre os que percebiam as menores
remunerações eram 8,07% do total de funcionários do setor, contra 73,39% dos que recebiam acima
de 7 salários. Em 2003 a relação inverteu-se. Da totalidade de empregados, 46,11% situava-se entre
os piores remunerados, contra os 32,42% com melhores vencimentos. Já em 20075, mais da metade
dos trabalhadores em telecomunicações no Paraná, 57%, recebiam até 3 salários mínimos. Nota-se
que os postos de trabalho, a partir da privatização, passaram a se concentrar nas faixas salariais mais
baixas, ou seja, entre meio e 3 salários mínimos. Dessa maneira é possível concluir que após a
privatização das telecomunicações, em 1998, houve uma concentração dos postos de trabalho entre
as faixas salariais mais baixas, ou seja, a reestruturação das empresas do setor primou pelo
16
desligamento dos trabalhadores com melhores salários e pela manutenção/ampliação dos empregos,
primordialmente, com vencimentos de até 3 salários mínimos.
Quadro 4 - Perfil dos Trabalhadores em Telecomunicações no Paraná, segundo a remuneração média, em faixas salariais
1997
1999
2001
2003
2005
2007
Faixas Salariais em
Empregos
%
Empregos % Empregos % Empregos % Empregos % Empregos %
Salários Mínimos
Até 0,5
1
0,01
0 0,00
6 0,07
2 0,03
8 0,06
7 0,07
0,51 a 1,00
44
0,59
47 1,22
27 0,31
49 0,79
149 1,09
99 0,95
1,01 a 1,50
146
1,96
190 4,94
341 3,89
337 5,44
3.178 23,20
2.326 22,36
1,51 a 2,00
133
1,79
185 4,81
336 3,83
833 13,45
2.765 20,18
1.982 19,05
2,01 a 3,00
277
3,72
387 10,07
2.137 24,37
1.635 26,40
2.710 19,78
1.614 15,51
3,01 a 4,00
198
2,66
349 9,08
1.218 13,89
505 8,15
867 6,33
707
6,8
4,01 a 5,00
238
3,20
298 7,75
539 6,15
361 5,83
438 3,20
453 4,35
5,01 a 7,00
945 12,69
335 8,71
654 7,16
463 7,48
666 4,86
862 8,29
7,01 a 10,00
1.412 18,96
494 12,85
996 11,36
658 10,62
893 6,52
900 8,65
10,01 a 15,00
1.908 25,62
642 16,70
1.038 11,84
664 10,72
1.007 7,35
826 7,94
15,01 a 20,00
945 12,81
334 8,69
596 6,80
306 4,94
471 3,44
337 3,24
Mais de 20,00
1.192 16,00
583 15,17
881 10,05
380 6,14
549 4,01
290 2,79
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria.
As empresas da área de telecomunicações sempre foram referências na garantia de
estabilidade de emprego em relação aos demais setores da economia. Até a metade da década de
1990, 83% da mão de obra da telefonia no Paraná tinha mais de 7 anos de vínculo ativo com uma
única empresa7. As garantias de empregabilidade por longo período renderam aos trabalhadores
tranqüilidade para o desenvolvimento das funções estabelecidas pelas empresas.
(...) antes de mudar [por meio da privatização em 1998] todo mundo tinha
segurança no trabalho, garantia mesmo que não ia pra rua por algum motivo
qualquer (...) e aí o pessoal acabava rendendo mais no trabalho mesmo, a
qualidade dos serviços era melhor (...) a Telepar ficou muitos anos como a melhor
empresa de telecomunicações do Brasil, e isso não é a toa né (...) (CARDOSO
AQUILES, A. Entrevista nº. 1, com dirigente sindical, 27 de março de 2007).
A política de estabilidade funcional nas empresas de telecomunicações passou por uma
inflexão significativa com o surgimento de uma nova lógica de organização do setor, com a
privatização no final da década de 1990. As telecomunicações passaram, a partir de 1998, a se
caracterizar pelas altas taxas de rotatividade de seu quadro de trabalhadores. Estas mudanças
tiveram impacto no perfil dos empregados, sob o prisma do tempo de vínculo ativo nas empresas
(quadro 5).
7
Dados fornecidos pelo Sinttel – PR.
17
Quadro 5 - Perfil dos Trabalhadores em Telecomunicações no Paraná, segundo o tempo de serviço em faixas mensais
1997
1999
2001
2003
2005
2007
Tempo de Serviço
Empregos % Empregos % Empregos % Empregos % Empregos % Empregos
em faixas mensais
Até 2,9
162 2,17
451 11,7
822 9,37
539
8,7
1.749 12,77
1.112
3,0 a 5,9
181 2,43
820 21,28
760 8,66
473 7,64
1.624 11,85
1.027
6,0 a 11,9
286 3,83
638 16,55
2.572 29,3
830 13,4
2.775 20,25
1.577
12,0 a 23,9
507
6,8
281 7,29
1.876 21,37
1.693 27,34
2.441 17,82
2.517
24,0 a 35,9
120 1,61
188 4,88
582 6,63
773 12,48
1.164
8,5
1.014
36,0 a 59,9
288 3,86
238 6,18
225 2,56
954 15,4
1.857 13,55
784
60,0 a 119,9
1.419 19,02
343
8,9
496 5,65
165 2,66
759 5,54
1.276
120 ou mais
4.498 60,29
895 23,22
1.444 16,45
766 12,37
1.332 9,72
1.171
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria.
%
10,61
9,8
15,05
24,02
9,68
7,48
12,18
11,18
Nota-se que a concentração dos trabalhadores por faixas mensais de tempo de serviço
passou dos postos de emprego com longos períodos de vínculo em 1997, para os com menos de 2
anos de serviço em 2007. A partir do primeiro ano pós-privatização, 1999, mais da metade dos
trabalhadores, 56,85%, possuíam não mais que 2 anos de vínculo, chegando em 2005 a atingir
62,15% do total de trabalhadores das telecomunicações. Por outro lado, os empregados com mais de
5 anos de emprego numa mesma empresa, que predominavam em 1997, com mais quase 80% do
total de trabalhadores, em 2007 não chegam a 8%. Destaca-se, contudo, o crescimento dos
trabalhadores concentrados na faixa compreendida entre 60 e 119,9 meses, entre 2005 e 2007.
Ainda que tenha percebido elevação importante, mantém-se abaixo dos valores encontrados no
período anterior à privatização.
A predominância dos trabalhadores com pouco tempo de serviço em seus empregos a partir
da privatização, indica que a alternativa das demissões passou a ser utilizada em larga escala pelas
empresas, buscando a renovação de seu quadro funcional, periodicamente. A dinâmica cada vez
mais fluida do mercado das telecomunicações, com reflexos sobre o fechamento de empresas e para
a política de baixos salários dos trabalhadores, faz com que a permanência de empregados, num
mesmo posto de trabalho, torne-se reduzida.
(...) hoje em dia ninguém fica muito empregado, uma porque as empresas passam
por crises permanentes e tem que reduzir custos e quem sofre é o trabalhador,
outra que com esse salário baixo desse jeito ninguém quer ficar (...) fica enquanto
não aparece nada um „pouquinho‟ melhor, se aparecer cai fora na hora.
(CARDOSO AQUILES, A. Entrevista nº. 1, com Dirigente Sindical, 27 de março de
2007).
Nas empresas terceirizadas e quarteirizadas, os trabalhadores com mais idade e mais tempo
de atuação no setor de telefonia possuem os salários mais baixos, bem como as mulheres que, atuam
principalmente em áreas administrativas.
18
(...) o pessoal que tem mais idade acaba trabalhando na parte da construção da
rede, até por ter mais experiência nessa área (...) e você sabe, em qualquer
empresa que você vá quem trabalha nessa parte mais braçal acaba tendo salário
mais baixo mesmo (...) as mulheres trabalham aqui nos recursos humanos, parte
financeira, essas coisas, mas como hoje em dia folha de pagamento, controle de
horário de funcionário é tudo feito por computador, o trabalho é tranqüilo (...)
tirando as mulheres que são chefes, nenhuma funcionária recebe mais que um
salário e meio em média. (CARDOSO AQUILES, A. Entrevista nº. 4, com gerente
da empresa Y, 07 de maio de 2007).
Quando observada a evolução do número de postos de trabalho nas empresas terceirizadas, superando, apenas
no território de atuação da Brasil Telecom, a casa dos 37 mil empregados em 2005, ao passo que a concessionária não
possui mais de 6.800, é possível apontar para um aumento da precariedade do trabalho no setor. Na cadeia de empresas
em que mais se emprega atualmente, o vencimento básico, bem como os benefícios decorrentes da atividade
profissional, são muito inferiores ao que os trabalhadores das concessionárias recebem.
É possível notar que as transformações que alteraram profundamente a lógica organizativa das
telecomunicações nas duas últimas décadas, reconfiguraram não apenas o seu papel na economia globalizada, os
padrões tecnológicos do setor ou ainda as formas de interação entre as empresas, mas redefiniram substancialmente o
“tipo” de trabalhador que se considerou necessário para atuar nesse ramo da economia. Os mais velhos, com mais
tempo de serviço, melhores salários e com baixa escolaridade passaram a fazer parte do perfil de trabalhador
indesejado. Os que se encaixavam nessa “descrição” foram desligados, gradativamente, a partir da privatização das
telecomunicações, em 1998.
É importante ressaltar que a caracterização do perfil dos trabalhadores, nas empresas
terceirizada e quarteirizada, realizada através das pesquisas empíricas, aponta para a confirmação de
alguns dados revelados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O tempo de emprego dos
trabalhadores das empresas X e Y, é de 32 meses, em média. Esta realidade é encontrada no
contexto geral dos trabalhadores das telecomunicações no Paraná, em que aproximadamente
71,19% dos empregados possuem até 36 meses de vínculo ativo em uma empresa do ramo, no
estado. Esta constatação confirma a idéia de que a o setor de telecomunicações passou a se
caracterizar pela rotatividade de sua mão-de-obra, implicando o reduzido tempo de serviço dos
trabalhadores. Da mesma maneira, quando analisada a remuneração dos trabalhadores das duas
empresas da rede investigadas pela pesquisa, em que todos os trabalhadores que responderam aos
questionários, afirmaram receber entre 1 e 3 salários mínimos. Nessa faixa salarial, segundo os
dados do Ministério do Trabalho e Emprego sobre todos os empregados em telecomunicações no
Paraná, encontram-se 63,16% do total de trabalhadores com vínculo ativo no ramo. De maneira
geral, pode-se concluir que os resultados da pesquisa nas duas empresas, terceirizada X e
quarteirizada Y, apontam para uma caracterização semelhante da mão-de-obra, quando relacionada
aos dados referentes a todos os trabalhadores do setor de telecomunicações do estado do Paraná.
19
Considerações Finais
Pode-se concluir, portanto, que a reorganização do setor de telecomunicações implicou: 1)
redução drástica dos postos de trabalho nas empresas concessionárias e crescimento do emprego nas
empresas terceirizadas, que passaram a contar com um aumento progressivo no número de
trabalhadores do setor; 2) postos de trabalho precarizados, nas terceirizadas: jornada maior de
trabalho, menores salários e redução de benefícios de emprego. Além disto, entre os reflexos da
diversificação das condições enfrentadas pelos empregados no setor está a crescente dificuldade de
ação sindical frente a um cenário em que as reivindicações são diferenciadas por empresa,
resultando na redução da capacidade de se constituir uma identidade coletiva entre os trabalhadores
(RUDUIT, 2001).
É possível afirmar que a introdução das novas tecnologias no setor de telecomunicações, nas
últimas duas décadas, teve reflexos significativos sobre a realidade do trabalho e dos trabalhadores.
A modernização das empresas foi acompanhada pela redução do quadro funcional da Brasil
Telecom/Oi, passando de 5.000 trabalhadores no período estatal (antiga Telepar), para menos de
650 trabalhadores atualmente, ou como afirmou Lojkine (1999):
(...) aqui a lógica tradicional indica que, se se começa com 100 homens e se se
introduz uma nova tecnologia, haverá que diminuí-los para 75. A tecnologia é
utilizada como um meio de reduzir o pessoal (LOJKINE, 1999: 245).
A análise dos efeitos da intensificação dos processos de terceirização em larga escala, aponta
para o crescimento das condições precárias de trabalho. Precarização provocada pela redistribuição
dos postos de trabalho no interior das empresas do ramo das telecomunicações, em que a maior
parcela de trabalhadores passou a se concentrar em estabelecimentos prestadores de serviços para
empresas centrais. A qualidade dos postos de trabalho está diretamente relacionada ao tipo de
empresa em questão. Os melhores tendem a se concentrar nas grandes empresas, ou remanescentes
de empresas estatais privatizadas onde historicamente se concentrou o emprego “fordista” no Brasil.
A vantagem da terceirização (e quarteirização) encontra-se na possibilidade de eliminar os postos
com, historicamente, melhores condições, repassando a maioria deles, das grandes empresas para
empresas menores, prestadoras de serviços. Nesta situação, os retornos para os trabalhadores, em
termos de salário, benefícios e carreira, são menores. Ainda assim, os empregos remanescentes nas
grandes empresas, encontram-se em situação em que as condições de trabalho, benefícios, renda,
pioraram significativamente após o período de privatizações e abertura comercial no país
(BORGES; DRUCK, 2002).
20
Referências Bibliográficas
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Outras Fontes Consultadas
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Relatórios Anuais da Brasil Telecom/Oi
Banco de Dados do Ministério do Trabalho e Emprego – RAIS/CAGED
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