1 GRUPO DE TRABALHO 5 TRABALHO: TRANSFORMAÇÕES, DESAFIOS E POSSIBILIDADES RECRUTAMENTO E PERFIL DOS TRABALHADORES NA TELEFONIA FIXA PÓSPRIVATIZAÇÃO Affonso Cardoso Aquiles 2 RECRUTAMENTO E PERFIL DOS TRABALHADORES NA TELEFONIA FIXA PÓSPRIVATIZAÇÃO Affonso Cardoso Aquiles1 Resumo Este artigo refere-se a um dos eixos de pesquisa desenvolvida a partir de 2006, na Universidade Federal do Paraná, com continuidade no mestrado em Ciências Sociais, da Universidade Federal de Pelotas. Prioriza-se, neste caso, discutir alguns aspectos das inovações tecnológicas e organizacionais pelas quais passaram as telecomunicações no Brasil, sobretudo após a privatização do setor, em 1998. Buscou-se apreender de que maneira a utilização das terceirizações reestruturou as relações interfirmas, notadamente na criação de diferentes mecanismos de recrutamento operacionalizados pelas empresas da rede na seleção de trabalhadores. A análise se concentra nas telecomunicações do estado do Paraná, sobretudo no setor de telefonia fixa. Por meio da revisão e sistematização de bibliografia, pesquisa empírica junto a grupo de trabalhadores da empresa matriz, terceirizada e quarteirizada, além de análise no banco de dados da Rais/Caged, é possível verificar alguns elementos importantes: a) coexistência de diferenciados modelos de recrutamento de mãode-obra, de acordo com o nível da empresa na rede, passando de mecanismos formais de seleção na empresa matriz, para modelos informais de recrutamento na empresa quarteirizada. A empresa terceirizada utiliza-se tanto de modelos de seleção formalizada, como informal; b) a diversidade de mecanismos para a seleção da mão-de-obra tem reflexo direto sobre os perfis dos trabalhadores, variando de acordo com a posição da empresa na rede. Introdução As três últimas décadas foram marcadas por importantes transformações na economia capitalista mundial. A redução da competitividade das grandes corporações norte-americanas, a recuperação econômica de países europeus e do Japão, devastados pela segunda guerra mundial, introduzindo no cenário global novas corporações com grande potencial competitivo, associadas à escassez do petróleo na Europa e nos Estados Unidos, em conseqüência da guerra entre Israel e países árabes em 19732, configurou um cenário em que novos paradigmas dos processos de produção representaram uma maneira de responder a um contexto de crise mundial do capitalismo, conforme afirmou Harvey (1984). No Brasil, novos padrões de gestão de aparatos produtivos constituíram-se, especialmente a partir do final dos anos 1980. A rápida abertura comercial, desregulamentação econômica e atração de capitais externos foi a tônica das opções de sucessivos governos no âmbito federal, a partir de Fernando Collor de Mello (1990-1992), pela política de orientação neoliberal. Essas medidas influenciaram decisivamente a reorganização da economia nacional, em diferentes áreas. O Brasil 1 Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Mestrando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Bolsista da CAPES. 2 Os países localizados na península arábica detêm aproximadamente 70% das reservas mundiais de petróleo. 3 assumiu a agenda, hegemônica em escala global, de liberalização de mercados e desregulamentação da economia a partir da década de 1980. No país, o desenvolvimento desta agenda não tem sido linear, desde então. Os reflexos dessas medidas foram diferenciados, conforme a realidade sóciopolítica e econômica de cada região. O novo ambiente ao qual as empresas foram submetidas levou-as a uma reestruturação produtiva visando a retomada da capacidade de competição, e redução permanente de custos (KREIN; GONÇALVES, 2005; LARANGEIRA, 1998). Neste contexto, variadas inovações foram lançadas com o objetivo de readequar as empresas nacionais a uma nova realidade. Esse fenômeno histórico de reestruturação produtiva constitui um ajuste característico de uma nova fase do capitalismo (RUDUIT, 2001). O padrão taylorista-fordista, marcado pela rigidez na produção, padronização dos produtos, hierarquização no interior das empresas, controle do tempo e rígida divisão do trabalho, tornou-se incapaz de atender plenamente aos diferentes mercados da sociedade global. A produção tornou-se cada vez mais fragmentada, diversificada, personalizada, flexibilizada, e por isso, menos massificada, o que reflete sobre a forma de organização das empresas (ANTUNES, 2003; HARVEY, 1984). As mudanças ocorridas nas empresas, nas últimas décadas, inserem-se no contexto, não de um novo processo produtivo que surge, mas sim no de uma crise do modelo antigo que faz surgir diversos sistemas organizacionais onde, alguns prosperam e outros fracassam, dependendo de sua adaptabilidade, das realidades institucionais diferenciadas e das estruturas competitivas. Não ocorre um desaparecimento total do antigo modelo, mas sim uma diversidade de possibilidades (CASTELLS, 2000). Houve necessidade emergente de mesclar aos antigos processos produtivos, novas formas de produção, mais flexíveis, sustentadas na qualidade dos produtos e serviços, articuladas pela re-qualificação da mão-de-obra e pela flexibilização organizacional das empresas, capaz de transformá-las em uma rede de relações de prestação de serviços. Esta readequação frente à nova realidade, associada à implementação de inovações tecnológicas, acarreta uma mudança estrutural tanto nas relações institucionais de produção, quanto no processo de trabalho propriamente dito (ANTUNES, 2003). A globalização da economia e a reestruturação das relações e da organização, das empresas e do trabalho, marcam a passagem a um novo momento da acumulação capitalista. A característica distintiva deste novo momento da economia é que ela opera em escala planetária, como uma unidade em tempo real, induzindo a transformação das formas de trabalho. A intensidade das interações existentes na economia global tem como base material a tecnologia da informação. A revolução tecnológica da década de 1970 caracterizou-se por produzir tecnologia voltada às novas demandas de agilidade e flexibilidade da produção. O processamento da informação mediante novas tecnologias potencializou e acelerou, de forma particular, o desenvolvimento dos processos 4 produtivos globais (CASTELLS, 2000). A informação – precisa e atualizada – serviu de matéria prima para o novo paradigma tecnológico que reorganizou os processos produtivos em escala mundial, tornando-se mercadoria valorizada. O acesso e o controle da informação, aliados a uma análise instantânea de dados, são fundamentais para a coordenação centralizada dos interesses das grandes corporações (CASTELLS, 2000; HARVEY, 1984). O novo paradigma tecnológico configura-se a partir de determinadas características, conforme Castells (2000: 78): A primeira refere-se à “penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias”, ou seja, como a informação faz parte da totalidade das atividades humanas, as novas tecnologias influenciam decisivamente o cotidiano dos indivíduos. A segunda característica está ligada à lógica das redes, já que as novas tecnologias da informação contribuem para a formação desta tipologia de relações. A terceira, referente ao sistema de redes, diz respeito à flexibilidade. O paradigma da tecnologia da informação organiza-se através da lógica das redes, mas não como algo estático. Esses processos são reversíveis, pois “o que distingue a configuração do novo paradigma tecnológico é a sua capacidade de reconfiguração, um aspecto decisivo em uma sociedade caracterizada por constante mudança e fluidez organizacional”. A quinta, e mais importante característica está relacionada à crescente convergência de diferentes tecnologias para um sistema integrado – a microeletrônica, as telecomunicações e a informática integram-se em sistemas de informação. As novas tecnologias implementadas no universo produtivo agilizaram o intercâmbio de informações entre setores de uma mesma empresa, e da economia, de forma geral. Uma das mais importantes inovações é o desenvolvimento da microeletrônica, que processa informações de forma ágil, conferindo eficiência ao processo de produção. A tendência à informatização de todos os setores da economia gera rapidez e segurança na troca de informações. Uma economia altamente integrada desenvolve-se mediante uso de novas tecnologias, num contexto de mudanças na organização da economia brasileira. A formação de redes de empresas3 revelou um enorme ganho de produtividade, mediante troca de informações em tempo real. Configura-se a integração dos diferentes setores internos às empresas em busca de uma padronização das relações, como destaca Coutinho et al. (1995): A „computadorização‟ das atividades de design, pesquisa e desenvolvimento, produção, marketing e administração tem levado a um novo tipo de organização e a um novo estilo de administração empresarial. Como conseqüência, observa-se não apenas a integração dessas várias funções, mas também novas relações entre empresas (COUTINHO et al., 1995: 17-18). Segundo RUDUIT (2002: 400), a rede de empresas “é a unidade de produção formada a partir da constelação de relações de complementaridade e de poder interfirmas, em face da transferência de segmentos do processo produtivo de uma empresa a fornecedores (grandes, médios e pequenos) de produtos, serviços ou mão de obras”. 3 5 No centro de todas as mudanças enumeradas estão as telecomunicações. Nas últimas décadas elas deixaram, gradativamente, de ser apenas um elo entre as pessoas para revelar-se meio fundamental de ligação entre os vários setores da produção. Esta ampliação do papel das telecomunicações deu-se, simultaneamente, em duas direções: das empresas demandando um sistema mais ágil e abrangente; e da evolução tecnológica do sistema, ofertando às empresas novas possibilidades de serviços e produtos. O intercâmbio eletrônico de dados, por exemplo, revoluciona a natureza do sistema financeiro, tornando-o efetivamente globalizado, ao permitir o acesso à informação „on line‟, em escala mundial, acerca da situação de mercados locais/nacionais e de transações financeiras de modo geral. Possibilita a integração entre empresas em novas bases, assim como a análise de tendências de mercados, a aplicação de métodos modernos de gerência de empresas (como o just in time) e também viabiliza o crescimento de indústrias como a do turismo, ao criar possibilidades de reservas de vôos e hotéis em escala internacional. Somemse a isso os avanços no campo do conhecimento, como educação à distância. Com base nas telecomunicações, idéias e valores monetários circulam pelo planeta, em velocidade jamais vista. (LARANGEIRA, 1998:160) A associação entre telecomunicações e microeletrônica na década de 1990 transformou radicalmente a organização do setor. As tecnologias digitais gradativamente substituíram as centrais de comutação eletromecânicas, de menor capacidade de armazenamento de informações, potencializando a eficiência na transmissão de dados. A nova posição das telecomunicações na organização da economia capitalista transformou também, o caráter dos serviços prestados pelo setor. Antes compreendido como de utilidade pública para, atualmente, exercer função estritamente comercial, integrada à lógica de reprodução do capitalismo. (COUTINHO et al., 1995; LARANGEIRA, 1998). Dessa maneira, a reestruturação do setor é fundamental para a aceleração dos negócios em grande escala. Este artigo buscará estabelecer algumas relações entre as reestruturações organizativas e tecnológicas pelas quais o setor de telecomunicações passou, notadamente a telefonia fixa do Paraná, a partir de sua privatização em 1998. Além disso, procura-se apontar implicações desse complexo processo sobre as modalidades de recrutamento dos trabalhadores na rede de empresas, dando ênfase para as alterações no perfil dos trabalhadores nas telecomunicações. O artigo procura dar conta de elementos de pesquisa iniciada em 2006/2007, resultado de investigação empírica e análise de dados secundários. Vale ressaltar, por fim, que não é objetivo do trabalho concluir a discussão, mas apontar alguns dados e informações relevantes obtidos na etapa de pesquisa exploratória. 6 Recrutamento de Trabalhadores em Rede de Empresas A reestruturação do setor de telecomunicações implicou em significativas mudanças no perfil dos trabalhadores. As novas “características” desejadas para que um funcionário fosse contratado ou permanecesse numa empresa não eram uniformes. Houve, na realidade, uma variação do perfil, de acordo com a posição do estabelecimento na rede de empresas. Dessa maneira, tanto as concessionárias como as demais empresas da rede passaram a adotar um perfil de mão-de-obra readequado às suas novas funções no sistema de telefonia. Os diferentes perfis de trabalhadores desejados pelas empresas, conforme o tipo de trabalho que desenvolvem e posição na rede de empresas, demandaram técnicas de recrutamento de mão-deobra de acordo com as necessidades dos empregadores. As empresas que executam trabalhos complexos ou de gestão da rede tenderiam a recrutar mão-de-obra com mais instrução (RUDUIT, 2001). Como forma de padronizar as comparações dos dados da pesquisa empírica, foram analisadas as informações referentes aos trabalhadores do setor de redes, pois nessa área é possível encontrar mão-de-obra empregada tanto na concessionária, como na terceirizada e quarteirizada. A Brasil Telecom/Oi adota medidas formalizadas de recrutamento, por meio de cadastro de currículos em banco de dados da própria empresa. Os trabalhadores são contratados seguindo a lógica de testes seletivos para definir quais pretendentes se adequam ao perfil desejado pela empresa. Os critérios utilizados para o recrutamento passam pela instrução mínima de ensino técnico ao Ensino Médio completo – sendo a formação universitária desejada -, domínio básico de língua estrangeira e informática. A experiência na área de redes não é determinante para a contratação, embora seja um elemento a mais na definição dos contratados. A empresa terceirizada X utiliza-se tanto de modelos de seleção formalizada de pessoal, como indicações de amigos e parentes de trabalhadores já vinculados à empresa. As seleções formais são realizadas por agências de emprego prestadoras de serviço para a empresa X. Os critérios mínimos requeridos para contratações por meio formal ou informal passam pela instrução de ensino fundamental completo, com prioridade aos pretendentes com ensino médio, mesmo que incompleto, além de um ano de experiência na área. A empresa quarteirizada Y adota, em geral, modelos informais de recrutamento. Os pretendentes são contratados a partir de indicação de amigos e parentes de trabalhadores já empregados na empresa. Além disso, existem dois critérios para a contratação: possuir experiência de no mínimo um ano na função e ter capacidade física para realização das tarefas, julgada pela 7 possibilidade de cumprimento das tarefas, pelo pretendente à vaga, dentro do prazo estipulado pela empresa. Não há exigência de escolarização formal. A diversidade de modelos e critérios usados para a seleção da mão-de-obra tem reflexo direto sobre os perfis dos trabalhadores encontrados nas empresas4. Na empresa central, a Brasil Telecom/Oi, os trabalhadores do setor de redes situam-se na faixa dos 37 aos 48 anos de idade, com média de 42 anos. Do total de funcionários nesse setor, 16% tinham mais de 10 anos de tempo de serviço na empresa, ou seja, eram remanescentes do período anterior à privatização. O tempo médio de vínculo na empresa aproxima-se dos 8 anos. A maioria dos trabalhadores, 87,6%, possuía ensino médio completo, com formação técnica na área de redes. O restante contava formação universitária finalizada5. Todos os trabalhadores atuam na área de fiscalização dos serviços prestados pelas terceirizadas. Na empresa X, os trabalhadores da área de rede encontram-se na faixa dos 18 aos 39 anos de idade. Dos 21 trabalhadores que responderam ao questionário da pesquisa nesse setor da empresa, 14 estão no emprego há no máximo 2 anos. Da totalidade de entrevistados, 6 cursaram o ensino fundamental e 15 o ensino médio. O tempo de vínculo dos entrevistados na empresa, em média, não passa dos 3 anos. A empresa Y conta com trabalhadores na faixa dos 32 aos 53 anos de idade. Dos 15 trabalhadores que responderam aos questionários, 13 possuíam formação escolar fundamental e apenas 2 com ensino médio. Os trabalhadores entrevistados possuem, em média, 2 anos e 4 meses de vínculo com a empresa em questão. O perfil dos trabalhadores empregados nas três empresas analisadas apresenta variação significativa. É possível notar tanto uma média de idade mais elevada, como um tempo maior de vínculo ativo entre os trabalhadores do setor de redes da Brasil Telecom/Oi. As novas funções atribuídas à concessionária, ou seja, a gestão do sistema de telefonia, implicaram manutenção de um número de trabalhadores com mais experiência na empresa, especialmente no setor em que se realiza a fiscalização do trabalho das empresas contratadas. Dessa maneira, é possível entender a existência de trabalhadores com idade mais elevada, mais tempo de serviço e nível de instrução, na Brasil Telecom/Oi, quando comparados aos empregados nas terceirizadas. As empresas contratadas apresentam distintas caracterizações de sua mão-de-obra. Na empresa X, os trabalhadores entrevistados possuem predominância de nível escolar médio, embora existam trabalhadores com ensino fundamental. Além disso, a mão-de-obra possui média de idade próxima aos 30 anos. 4 Os dados obtidos pela pesquisa empírica não apontam para a existência de trabalhadoras no setor de redes das empresas analisadas. 5 Dados fornecidos pelo Sinttel – PR e Relatórios Anuais da Brasil Telecom. 8 Os trabalhadores entrevistados da empresa Y possuem, predominantemente, formação escolar fundamental, com apenas 2 dos 15 entrevistados contando com ensino médio. Além disso, a empresa Y possui mão-de-obra com média de idade bastante superior quando comparada à empresa X, 39 anos em média. As clivagens no perfil dos trabalhadores nas duas empresas, terceirizada e quarteirizada em questão, apontam para uma complexificação da mão-de-obra do setor, de acordo com o porte e o tipo de serviço executado em cada uma. A empresa terceirizada X caracteriza-se por possuir um contrato mais rentável com a Brasil Telecom/Oi, pois atua em áreas diversificadas na prestação de serviço para a concessionária, incluindo trabalhos relacionados à redes de internet, atendimento a grandes clientes e ao usuário doméstico. Dessa maneira, o número de trabalhadores com ensino médio completo supera os que possuem o ensino fundamental. A empresa quarteirizada Y, por sua vez, possui um “contrato de risco”6 com a empresa X, pois caracteriza-se por ser uma organização de pequeno porte e não ter vinculo direto com a companhia central da rede. Além disso, executa somente trabalhos de instalação e manutenção de sistemas de rede mais recentes, considerados um serviço em que os valores pagos pela concessionária são bastante reduzidos. Além disso, a empresa não atua diretamente com o cliente final da Brasil Telecom/Oi. Dessa maneira, a composição da mão-de-obra da empresa, quando analisada pelo critério da escolaridade, situa-se na faixa do ensino fundamental. O setor de telefonia fixa passou a se caracterizar pela alta rotatividade dos trabalhadores. Em conseqüência disto, a mão-de-obra é marcada por um reduzido tempo de vínculo empregatício na mesma empresa. Confirmando esta caracterização do setor de telefonia fixa no Paraná, há um elemento comum que perpassa as duas empresas contratadas, o baixo tempo de vínculo ativo dos trabalhadores entrevistados. Tanto a empresa X, como a empresa Y, contam com trabalhadores com 2 anos e 8 meses, em média, de tempo de emprego, ou seja, muito abaixo da média de tempo de serviço na Brasil Telecom/Oi. Perfil dos Trabalhadores nas Telecomunicações, 1997-2008 As mudanças pelas quais as telecomunicações passaram na década de 1990 tiveram importante impacto sobre a organização do setor, as relações entre empresas e o número de postos de trabalho. O novo cenário da telefonia passou a reorganizar o quadro funcional, alterando fundamentalmente o perfil dos trabalhadores empregados. A proporção entre homens e mulheres empregados no setor de telecomunicações permaneceu estável após 1998, com forte predominância masculina, sempre acima de 60% dos 6 Referência utilizada em CARDOSO AQUILES, A. Entrevista nº. 1, com dirigente sindical, 27 de março de 2007. 9 postos de trabalho. No entanto, nos anos de 2004 e 2005 a proporção dos gêneros passou por significativa mudança. O número de mulheres empregadas cresceu de 35% em média, no período de 1997 a 2003, para mais de 45% do número de funcionários, nos anos de 2004 e 2005. Os dois anos seguintes mostraram uma redução na participação feminina que, no entanto, voltou a crescer em 2007 e 2008. Estas alterações no quadro de emprego a partir dos gêneros, apontam para o aumento expressivo da participação das mulheres no setor de telecomunicações, após um longo período de predominância masculina (gráfico 1). Gráfico 1 - Trabalhadores em Telecomunicações no Paraná, segundo o gênero, em porcentagem 80 60 40 20 0 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Homens Mulheres Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria. As empresas de telecomunicações passaram a substituir seus trabalhadores com mais idade, em busca de um “rejuvenescimento” do quadro funcional. Os trabalhadores mais jovens seriam mais adaptáveis aos modernos recursos tecnológicos do setor pós-privatização que os empregados antigos. Além disso, poderiam ser dispostos com menor resistência a uma realidade salarial precária, com novas funções a serem executadas em uma dinâmica inovadora de organização da empresa no pós-privatização (LARANGEIRA, 1998). É possível notar no gráfico 2, que a porcentagem de trabalhadores entre 30 e 49 anos teve redução significativa a partir de 1998, bem como dos funcionários entre 50 e 64 anos. Entre os trabalhadores mais jovens, notou-se crescimento importante. Somente entre os empregados na faixa dos 18 aos 24 anos de idade, por exemplo, o montante passou de 5,92% em 1997, para 34% em 2005 entre o total de trabalhadores do setor de telecomunicações. Esta faixa etária sofreu redução importante entre 2005 e 2006. Porém, a partir do ano seguinte voltou a se estabilizar na média histórica pós-privatização. 10 Vale ressaltar que as mudanças mais significativas são notadas entre 1998 e 1999, ou seja, exatamente no primeiro ano das mudanças organizacionais pós-privatização. Os postos de trabalho situados na faixa dos 18 aos 24 anos tiveram crescimento de 172% já no primeiro ano da privatização, ao mesmo tempo em que a redução entre os trabalhadores localizados na faixa etária de 40 a 49 anos chegou a 44% e entre 50 a 64 passou dos 54%. A estabilidade funcional dos trabalhadores das antigas empresas estatais até a primeira metade de 1999 implicou em desligamentos voluntários através de Planos de Demissão Voluntária e Incentivada. Estas medidas utilizadas pelas novas concessionárias eram direcionadas especialmente aos trabalhadores com mais tempo de serviço, mais idade, e em proximidade da aposentadoria. Dessa maneira é possível compreender as alterações no perfil dos trabalhadores, especialmente entre 1998 e 1999. Gráfico 2 - Trabalhadores em Telecomunicações no Paraná, segundo a faixa etária*, em porcentagem 2007 2005 2003 2001 1999 1997 27,69 25,78 20,92 34,00 29,55 22,08 22,47 22,29 23,64 21,12 7,75 12,61 5,92 12,36 18 a 24 anos 23,52 23,21 22,97 22,76 22,96 22,26 22,68 19,46 19,36 20,55 38,49 39,08 25 a 29 anos 27,2 27,69 29,57 25,46 27,99 32,09 33,48 34,88 34,76 36,20 31,85 33,23 30 a 39 anos 40 a 49 anos 15,82 17,39 19,66 13,62 15,11 18,76 17,31 19,61 18,75 17,54 5,19 5,29 5,94 3,53 3,76 4,12 3,39 3,46 3,19 3,84 8,36 8,67 50 a 64 anos Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria. * A somatória dos valores não atingem 100%, pois não foram consideradas duas faixas etárias, menores de 17 anos e acima dos 64. Somadas, não atingiam 1% em nenhum dos anos do período, portanto, não interferiam na caracterização do setor por faixa etária. O nível de instrução dos trabalhadores empregados no setor de telecomunicações no Paraná também passou por mudanças, no entanto, menos significativas, quando comparadas às relacionadas com a faixa etária. Ao observar o gráfico 3 é possível notar uma relativa estabilidade na escolaridade dos trabalhadores, especialmente os que possuem nível superior. Vale ressaltar a tendência de crescimento, a partir de 2003, dos empregados com formação média, além da 11 tendência de redução do número de trabalhadores com nível fundamental na série histórica, caindo mais de 10% entre 1997 e 2008. A complexificação do setor de telecomunicações, mediante a redefinição dos papéis dos atores envolvidos, como a concessionária e as empresas terceirizadas, demandou uma reorganização do quadro funcional. A formação escolar do pessoal empregado teve destaque nesse processo. As novas funções assumidas pelas concessionárias redefiniram o perfil de pessoal necessário para realizar as tarefas, ou seja, trabalho com vendas, marketing e gestão de pessoal (RUDUIT, 2001). Gráfico 3 - Trabalhadores em Telecomunicações no Paraná, segundo o grau de instrução*, em porcentagem 55,82 48,58 46,26 48,28 43,65 41,37 38,42 36,26 38,72 50,34 41,62 52,66 41,99 50,1 45,35 33,6 19,9 14,98 12,91 10,28 10,58 7,97 1997 1999 2001 2003 Fundamental 2005 Médio 2006 5,29 2007 4,53 2008 Superior Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria. * Os três níveis do grau de instrução consideram tanto os trabalhadores que concluíram, como os que cursaram algumas séries. Da mesma forma, as empresas terceirizadas, que assumiram gradativamente as antigas tarefas realizadas pelas empresas privatizadas em 1998, como implantação de rede, manutenção, instalação de terminais, lançamento de cabos. Dessa maneira, nota-se, por um lado, um índice elevado de trabalhadores com formação universitária na Brasil Telecom, e, por outro, a existência de mais de 45% dos trabalhadores das terceirizadas, em média, situados entre os que possuem formação fundamental ou média (gráfico 4). 12 Gráfico 4 - Trabalhadores da Brasil Telecom e Empresas Terceirizada X e Quarteirizada Y, no Paraná, segundo o grau de instrução,* em porcentagem 83,5 59,42 56,53 20,3 28,00 0,7 Brasil Telecom 32,35 15,47 Empresa X Fundamental Médio 8,23 Empresa Y Superior Fonte: Brasil Telecom, 2005 e pesquisa empírica, 2007. * Os três níveis do grau de instrução consideram tanto os trabalhadores que concluíram, como os que cursaram algumas séries. Os postos de trabalho que necessitam de empregados apenas com formação fundamental são extremamente reduzidos na Brasil Telecom/Oi (0,7%) em comparação com os 43,71% que compõem o quadro funcional com formação primária nas terceirizadas, em média. Da mesma forma, quando comparamos os 83,50% de trabalhadores da concessionária que possuem formação universitária, com os 11,85%, em média, da terceirizada e quarteirizada com o mesmo grau de escolaridade, pode-se perceber a precariedade dos postos de trabalho das demais empresas componentes da rede. A elevação no grau de instrução dos trabalhadores passou a ser considerada estratégica para a Brasil Telecom/Oi, pois a necessidade de atendimento a grandes corporações, bem como a gestão de todo o sistema de telecomunicações demandava trabalhadores com alto grau de formação escolar (BRASIL TELECOM, 2004). Por outro lado, nas terceirizadas e quarteirizadas, a contratação de trabalhadores para as áreas de rede e obras não exigia, em muitos casos, qualquer escolaridade acima do ensino fundamental incompleto. O pessoal para entrar na empresa, na área de rede, obras, manutenção, por exemplo, não precisa ter qualificação escolar (...) ele tem que conhecer o trabalho, o que ele precisa saber é como executar as tarefas que serão passadas para ele dentro do prazo estabelecido pela empresa, nada mais que isso (CARDOSO AQUILES, A. Entrevista nº. 4, com gerente da empresa Y, 07 de maio de 2007). Nota-se, a partir dos dados empíricos, que existem diferentes percepções das empresas envolvidas, sobre a necessidade de elevação no grau de escolaridade de seus trabalhadores. Se por um lado a Brasil Telecom/Oi define a qualificação escolar dos trabalhadores como uma de suas 13 estratégias para aumento de competitividade, as empresas X e Y seguem o caminho inverso, mantendo trabalhadores com baixo grau de escolaridade em seus quadros. A relação entre níveis de escolaridade e gênero influenciou significativamente a composição dos valores salariais dos trabalhadores em telecomunicações. As mulheres historicamente receberam menor remuneração do que os homens, em variados setores da economia. Da mesma forma os trabalhadores com menor escolaridade quando comparados com os que possuem níveis de instrução mais elevados, recebem menores vencimentos (quadro 1). A articulação dessas três variáveis – gênero, escolaridade e salário – aponta para um cenário perverso para a categoria. Os dados do quadro 1 indicam que os homens, em todo o período, receberam salários maiores que as mulheres, independente do nível de instrução. As mudanças pelas quais o setor de telefonia passou não reduziram as enormes disparidades salariais entre homens e mulheres. A análise da variação das médias salariais no período 1997-2007 mostra que, entre os trabalhadores com nível médio e superior o salário das mulheres obteve variação média superior ao dos homens. No entanto, localizam-se entre os trabalhadores com nível básico de escolaridade os recebem os menores salários se comparados aos outros níveis de formação escolar. O conjunto dos trabalhadores com formação média, registrou queda em sua remuneração, no caso dos trabalhadores. Neste nível de escolaridade, o salário dos homens teve redução de 2,98%, enquanto as mulheres passaram a contar com vencimentos 0,38% maiores, em média, no período 1997-2007. Quadro 1 - Relação entre Grau de Instrução, Gênero e Renda Média nas Telecomunicações no Paraná Escolaridade Gênero 1997 1999 2001 2003 2005 2007 Variação no Período Básica Masculino 837,38 339,48 568,39 627,32 649,78 767,82 8,01% Feminino 551,28 416,24 410,21 424,37 579,17 587,41 3,07% Média Masculino 1.353,00 970,79 913,92 925,19 894,41 1.084,29 -2,98% Feminino 788,4 663,44 694,55 633,58 533,11 695,75 0,38% Superior Masculino 2.515,20 2.714,59 2.974,29 2.467,44 3.095,22 3.336,71 6,73% Feminino 1.303,80 1.489,30 1.576,99 1.371,44 1.626,20 1.875,08 8,18% Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria. É possível concluir, por meio dos dados disponíveis que, a disparidade de renda entre gêneros, nas telecomunicações, foi mantida no período pós-privatização. Além disso, houve queda de rendimentos para os trabalhadores, especificamente onde se concentra o maior número de trabalhadores do setor: os que possuem formação escolar média. Tendo em vista a evolução do número de mulheres empregadas no setor de telecomunicações e os menores salários recebidos em comparação aos homens, pode-se afirmar que, em geral, a maior parte da categoria dos trabalhadores em telecomunicações, após a privatização, passou a ter sua remuneração reduzida gradativamente. 14 Os desligamentos no setor de telecomunicações no Paraná incidiram fortemente sobre os trabalhadores com maior tempo de serviço, nos anos de 1999 e 2000. Neste período, o número de empregados situados entre os que possuíam vínculo ativo por 120 meses ou mais que passaram por desligamento da empresa, foi maior que as demissões em todas as outras faixas de tempo de serviço somadas no mesmo período (quadro 2). Quadro 2 - Número de Desligamentos Sem Justa Causa por Faixas de Meses com Vínculo Ativo no Setor de Telecomunicações do Paraná Faixa de Meses 1997 1998 1999 2000 2001 2002 1 a 2,9 32 26 152 323 487 392 3 a 5,9 54 37 91 256 1.084 689 6 a 11,9 104 71 121 370 1.116 457 12 a 23,9 116 95 119 278 988 688 24 a 35,9 58 37 75 72 319 308 36 a 59,9 40 31 65 122 77 142 60 a 119,9 62 36 255 291 134 46 120 ou mais 82 41 1.074 1.123 278 125 Total 548 374 1.952 2.835 4.483 2.847 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Caged, 2009. Elaboração própria. 2003 151 125 293 451 230 160 41 125 1.576 2004 180 171 306 386 285 237 61 45 1.671 2005 247 295 475 656 314 515 141 49 2.692 2006 358 392 945 1.269 443 631 292 202 4.532 2007 455 955 1.666 2.164 890 538 409 46 7.123 Total 2.803 4.149 5.924 7.210 3.031 2.558 2.469 3.190 30.663 Torna-se contundente a idéia de que as demissões sem justa causa foram direcionadas, num primeiro momento, aos trabalhadores com maior tempo de serviço e, portanto, com maiores rendimentos salariais, visto que as posições mais elevadas na carreira dos telefônicos - alcançadas a partir do tempo de serviço na empresa e concursos internos - garantiam maiores vencimentos no período anterior à privatização (quadro 3). Além disso, os trabalhadores com mais tempo de serviço apresentavam maiores dificuldades em se relacionar com as novas tecnologias implantadas na telefonia a partir do final da década de 1980 (LARANGEIRA, 1998; TORRENS et al., 1999). Em 2001 e 2002, a relação inverteu-se, com os desligamentos concentrados entre os empregados com tempo de serviço entre 3 meses e dois anos de vínculo, ou seja, trabalhadores que foram contratados após a privatização do setor de telecomunicações, em 1998. Este dado deixa evidente a alta rotatividade e a instabilidade do vínculo dos trabalhadores, pós-privatização, características dos sistemas flexíveis. De 2003 a 2007, as demissões concentraram-se entre os trabalhadores com 6 meses a 2 anos de vínculo, com forte crescimento nos dois últimos anos da série histórica. Em 1999, quando teve início a reestruturação das empresas de telecomunicações após o período contratual que proibia as demissões, os postos de trabalho situados nas faixas salariais mais elevadas – acima dos 7 salários mínimos – foram reduzidos em 53,45%, ou seja, dos 1.981 trabalhadores demitidos naquele ano, 1.059 recebiam acima de 7 salários. No ano seguinte, as demissões foram equilibradas. Nota-se, no quadro 3, que os desligamentos foram significativos, tanto entre os trabalhadores com menores vencimentos (até 3 salários mínimos) 36,60%, como entre os que percebem os maiores salários, aproximadamente 36,63%. A partir de 2001, as demissões passaram a se concentrar especialmente entre os trabalhadores com menores salários, entre 1 e 4 15 salários mínimos. Em 2005, tendo continuidade nos dois anos seguintes, houve um crescimento exponencial das demissões entre os trabalhadores com menores salários, até dois salários mínimos. Quadro 3 - Número de Desligamentos Sem Justa Causa por Faixas de Salários Mínimos no Setor de Telecomunicações no Paraná Faixas de Salários 1997 1998 1999 2000 2001 2002 Mínimos Até 0,5 1 2 0 1 1 11 0,51 a 1,00 51 58 37 56 32 23 1,01 a 1,50 52 33 115 148 730 273 1,51 a 2,00 62 59 73 170 731 810 2,01 a 3,00 95 82 201 677 1.790 870 3,01a 4,00 43 30 70 175 344 215 4,01 a 5,00 49 17 114 152 192 115 5,01 a 7,00 64 34 312 443 219 180 7,01 a 10,00 60 24 414 463 183 120 10,01 a 15,00 41 20 309 307 178 103 15,01 a 20,00 9 11 111 123 68 63 Mais de 20,00 26 16 225 160 126 106 Total 553 386 1981 2875 4594 2889 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Caged, 2009. Elaboração própria. 2003 0 33 144 343 533 89 68 87 81 73 47 91 1589 2004 1 33 257 542 410 126 84 66 68 57 25 40 1709 2005 2 74 1.154 480 521 131 70 81 71 48 31 40 2703 2006 2 148 2.237 1.004 505 167 90 131 114 91 39 35 4563 2007 2 133 4.983 1.061 519 138 58 88 75 40 19 26 7142 Total 24 678 10.126 5.335 6.203 1.528 1009 1.705 1.673 1.267 546 891 30.984 Verifica-se, dessa forma, que a rotatividade da mão-de-obra nas telecomunicações concentrou-se entre os que recebem os menores salários no setor, confirmando uma nova tendência no ramo da telefonia. É possível concluir a partir dos dados dos quadros 2 e 3 que os desligamentos do setor de telecomunicações, no período posterior à privatização, relacionaram os elementos tempo de serviço e salário na definição dos postos de trabalho que seriam extintos. A racionalização do setor primou pela renovação da mão-de-obra, por meio do desligamento de um número significativo de trabalhadores com mais de 10 anos de serviço e que percebiam as maiores vantagens salariais das empresas. Dessa forma, o quadro de trabalhadores das telecomunicações foi reorganizado, também, a partir da faixa de renda e tempo de serviço médio nas empresas. Os empregados das empresas de telecomunicações passaram a se concentrar nos postos de trabalho com menores remunerações, ou seja, até 3 salários mínimos, a partir do primeiro ano pósprivatização (quadro 4). Em 1997, os trabalhadores situados entre os que percebiam as menores remunerações eram 8,07% do total de funcionários do setor, contra 73,39% dos que recebiam acima de 7 salários. Em 2003 a relação inverteu-se. Da totalidade de empregados, 46,11% situava-se entre os piores remunerados, contra os 32,42% com melhores vencimentos. Já em 20075, mais da metade dos trabalhadores em telecomunicações no Paraná, 57%, recebiam até 3 salários mínimos. Nota-se que os postos de trabalho, a partir da privatização, passaram a se concentrar nas faixas salariais mais baixas, ou seja, entre meio e 3 salários mínimos. Dessa maneira é possível concluir que após a privatização das telecomunicações, em 1998, houve uma concentração dos postos de trabalho entre as faixas salariais mais baixas, ou seja, a reestruturação das empresas do setor primou pelo 16 desligamento dos trabalhadores com melhores salários e pela manutenção/ampliação dos empregos, primordialmente, com vencimentos de até 3 salários mínimos. Quadro 4 - Perfil dos Trabalhadores em Telecomunicações no Paraná, segundo a remuneração média, em faixas salariais 1997 1999 2001 2003 2005 2007 Faixas Salariais em Empregos % Empregos % Empregos % Empregos % Empregos % Empregos % Salários Mínimos Até 0,5 1 0,01 0 0,00 6 0,07 2 0,03 8 0,06 7 0,07 0,51 a 1,00 44 0,59 47 1,22 27 0,31 49 0,79 149 1,09 99 0,95 1,01 a 1,50 146 1,96 190 4,94 341 3,89 337 5,44 3.178 23,20 2.326 22,36 1,51 a 2,00 133 1,79 185 4,81 336 3,83 833 13,45 2.765 20,18 1.982 19,05 2,01 a 3,00 277 3,72 387 10,07 2.137 24,37 1.635 26,40 2.710 19,78 1.614 15,51 3,01 a 4,00 198 2,66 349 9,08 1.218 13,89 505 8,15 867 6,33 707 6,8 4,01 a 5,00 238 3,20 298 7,75 539 6,15 361 5,83 438 3,20 453 4,35 5,01 a 7,00 945 12,69 335 8,71 654 7,16 463 7,48 666 4,86 862 8,29 7,01 a 10,00 1.412 18,96 494 12,85 996 11,36 658 10,62 893 6,52 900 8,65 10,01 a 15,00 1.908 25,62 642 16,70 1.038 11,84 664 10,72 1.007 7,35 826 7,94 15,01 a 20,00 945 12,81 334 8,69 596 6,80 306 4,94 471 3,44 337 3,24 Mais de 20,00 1.192 16,00 583 15,17 881 10,05 380 6,14 549 4,01 290 2,79 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria. As empresas da área de telecomunicações sempre foram referências na garantia de estabilidade de emprego em relação aos demais setores da economia. Até a metade da década de 1990, 83% da mão de obra da telefonia no Paraná tinha mais de 7 anos de vínculo ativo com uma única empresa7. As garantias de empregabilidade por longo período renderam aos trabalhadores tranqüilidade para o desenvolvimento das funções estabelecidas pelas empresas. (...) antes de mudar [por meio da privatização em 1998] todo mundo tinha segurança no trabalho, garantia mesmo que não ia pra rua por algum motivo qualquer (...) e aí o pessoal acabava rendendo mais no trabalho mesmo, a qualidade dos serviços era melhor (...) a Telepar ficou muitos anos como a melhor empresa de telecomunicações do Brasil, e isso não é a toa né (...) (CARDOSO AQUILES, A. Entrevista nº. 1, com dirigente sindical, 27 de março de 2007). A política de estabilidade funcional nas empresas de telecomunicações passou por uma inflexão significativa com o surgimento de uma nova lógica de organização do setor, com a privatização no final da década de 1990. As telecomunicações passaram, a partir de 1998, a se caracterizar pelas altas taxas de rotatividade de seu quadro de trabalhadores. Estas mudanças tiveram impacto no perfil dos empregados, sob o prisma do tempo de vínculo ativo nas empresas (quadro 5). 7 Dados fornecidos pelo Sinttel – PR. 17 Quadro 5 - Perfil dos Trabalhadores em Telecomunicações no Paraná, segundo o tempo de serviço em faixas mensais 1997 1999 2001 2003 2005 2007 Tempo de Serviço Empregos % Empregos % Empregos % Empregos % Empregos % Empregos em faixas mensais Até 2,9 162 2,17 451 11,7 822 9,37 539 8,7 1.749 12,77 1.112 3,0 a 5,9 181 2,43 820 21,28 760 8,66 473 7,64 1.624 11,85 1.027 6,0 a 11,9 286 3,83 638 16,55 2.572 29,3 830 13,4 2.775 20,25 1.577 12,0 a 23,9 507 6,8 281 7,29 1.876 21,37 1.693 27,34 2.441 17,82 2.517 24,0 a 35,9 120 1,61 188 4,88 582 6,63 773 12,48 1.164 8,5 1.014 36,0 a 59,9 288 3,86 238 6,18 225 2,56 954 15,4 1.857 13,55 784 60,0 a 119,9 1.419 19,02 343 8,9 496 5,65 165 2,66 759 5,54 1.276 120 ou mais 4.498 60,29 895 23,22 1.444 16,45 766 12,37 1.332 9,72 1.171 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Rais, 2009. Elaboração própria. % 10,61 9,8 15,05 24,02 9,68 7,48 12,18 11,18 Nota-se que a concentração dos trabalhadores por faixas mensais de tempo de serviço passou dos postos de emprego com longos períodos de vínculo em 1997, para os com menos de 2 anos de serviço em 2007. A partir do primeiro ano pós-privatização, 1999, mais da metade dos trabalhadores, 56,85%, possuíam não mais que 2 anos de vínculo, chegando em 2005 a atingir 62,15% do total de trabalhadores das telecomunicações. Por outro lado, os empregados com mais de 5 anos de emprego numa mesma empresa, que predominavam em 1997, com mais quase 80% do total de trabalhadores, em 2007 não chegam a 8%. Destaca-se, contudo, o crescimento dos trabalhadores concentrados na faixa compreendida entre 60 e 119,9 meses, entre 2005 e 2007. Ainda que tenha percebido elevação importante, mantém-se abaixo dos valores encontrados no período anterior à privatização. A predominância dos trabalhadores com pouco tempo de serviço em seus empregos a partir da privatização, indica que a alternativa das demissões passou a ser utilizada em larga escala pelas empresas, buscando a renovação de seu quadro funcional, periodicamente. A dinâmica cada vez mais fluida do mercado das telecomunicações, com reflexos sobre o fechamento de empresas e para a política de baixos salários dos trabalhadores, faz com que a permanência de empregados, num mesmo posto de trabalho, torne-se reduzida. (...) hoje em dia ninguém fica muito empregado, uma porque as empresas passam por crises permanentes e tem que reduzir custos e quem sofre é o trabalhador, outra que com esse salário baixo desse jeito ninguém quer ficar (...) fica enquanto não aparece nada um „pouquinho‟ melhor, se aparecer cai fora na hora. (CARDOSO AQUILES, A. Entrevista nº. 1, com Dirigente Sindical, 27 de março de 2007). Nas empresas terceirizadas e quarteirizadas, os trabalhadores com mais idade e mais tempo de atuação no setor de telefonia possuem os salários mais baixos, bem como as mulheres que, atuam principalmente em áreas administrativas. 18 (...) o pessoal que tem mais idade acaba trabalhando na parte da construção da rede, até por ter mais experiência nessa área (...) e você sabe, em qualquer empresa que você vá quem trabalha nessa parte mais braçal acaba tendo salário mais baixo mesmo (...) as mulheres trabalham aqui nos recursos humanos, parte financeira, essas coisas, mas como hoje em dia folha de pagamento, controle de horário de funcionário é tudo feito por computador, o trabalho é tranqüilo (...) tirando as mulheres que são chefes, nenhuma funcionária recebe mais que um salário e meio em média. (CARDOSO AQUILES, A. Entrevista nº. 4, com gerente da empresa Y, 07 de maio de 2007). Quando observada a evolução do número de postos de trabalho nas empresas terceirizadas, superando, apenas no território de atuação da Brasil Telecom, a casa dos 37 mil empregados em 2005, ao passo que a concessionária não possui mais de 6.800, é possível apontar para um aumento da precariedade do trabalho no setor. Na cadeia de empresas em que mais se emprega atualmente, o vencimento básico, bem como os benefícios decorrentes da atividade profissional, são muito inferiores ao que os trabalhadores das concessionárias recebem. É possível notar que as transformações que alteraram profundamente a lógica organizativa das telecomunicações nas duas últimas décadas, reconfiguraram não apenas o seu papel na economia globalizada, os padrões tecnológicos do setor ou ainda as formas de interação entre as empresas, mas redefiniram substancialmente o “tipo” de trabalhador que se considerou necessário para atuar nesse ramo da economia. Os mais velhos, com mais tempo de serviço, melhores salários e com baixa escolaridade passaram a fazer parte do perfil de trabalhador indesejado. Os que se encaixavam nessa “descrição” foram desligados, gradativamente, a partir da privatização das telecomunicações, em 1998. É importante ressaltar que a caracterização do perfil dos trabalhadores, nas empresas terceirizada e quarteirizada, realizada através das pesquisas empíricas, aponta para a confirmação de alguns dados revelados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O tempo de emprego dos trabalhadores das empresas X e Y, é de 32 meses, em média. Esta realidade é encontrada no contexto geral dos trabalhadores das telecomunicações no Paraná, em que aproximadamente 71,19% dos empregados possuem até 36 meses de vínculo ativo em uma empresa do ramo, no estado. Esta constatação confirma a idéia de que a o setor de telecomunicações passou a se caracterizar pela rotatividade de sua mão-de-obra, implicando o reduzido tempo de serviço dos trabalhadores. Da mesma maneira, quando analisada a remuneração dos trabalhadores das duas empresas da rede investigadas pela pesquisa, em que todos os trabalhadores que responderam aos questionários, afirmaram receber entre 1 e 3 salários mínimos. Nessa faixa salarial, segundo os dados do Ministério do Trabalho e Emprego sobre todos os empregados em telecomunicações no Paraná, encontram-se 63,16% do total de trabalhadores com vínculo ativo no ramo. De maneira geral, pode-se concluir que os resultados da pesquisa nas duas empresas, terceirizada X e quarteirizada Y, apontam para uma caracterização semelhante da mão-de-obra, quando relacionada aos dados referentes a todos os trabalhadores do setor de telecomunicações do estado do Paraná. 19 Considerações Finais Pode-se concluir, portanto, que a reorganização do setor de telecomunicações implicou: 1) redução drástica dos postos de trabalho nas empresas concessionárias e crescimento do emprego nas empresas terceirizadas, que passaram a contar com um aumento progressivo no número de trabalhadores do setor; 2) postos de trabalho precarizados, nas terceirizadas: jornada maior de trabalho, menores salários e redução de benefícios de emprego. Além disto, entre os reflexos da diversificação das condições enfrentadas pelos empregados no setor está a crescente dificuldade de ação sindical frente a um cenário em que as reivindicações são diferenciadas por empresa, resultando na redução da capacidade de se constituir uma identidade coletiva entre os trabalhadores (RUDUIT, 2001). É possível afirmar que a introdução das novas tecnologias no setor de telecomunicações, nas últimas duas décadas, teve reflexos significativos sobre a realidade do trabalho e dos trabalhadores. A modernização das empresas foi acompanhada pela redução do quadro funcional da Brasil Telecom/Oi, passando de 5.000 trabalhadores no período estatal (antiga Telepar), para menos de 650 trabalhadores atualmente, ou como afirmou Lojkine (1999): (...) aqui a lógica tradicional indica que, se se começa com 100 homens e se se introduz uma nova tecnologia, haverá que diminuí-los para 75. A tecnologia é utilizada como um meio de reduzir o pessoal (LOJKINE, 1999: 245). A análise dos efeitos da intensificação dos processos de terceirização em larga escala, aponta para o crescimento das condições precárias de trabalho. Precarização provocada pela redistribuição dos postos de trabalho no interior das empresas do ramo das telecomunicações, em que a maior parcela de trabalhadores passou a se concentrar em estabelecimentos prestadores de serviços para empresas centrais. A qualidade dos postos de trabalho está diretamente relacionada ao tipo de empresa em questão. Os melhores tendem a se concentrar nas grandes empresas, ou remanescentes de empresas estatais privatizadas onde historicamente se concentrou o emprego “fordista” no Brasil. A vantagem da terceirização (e quarteirização) encontra-se na possibilidade de eliminar os postos com, historicamente, melhores condições, repassando a maioria deles, das grandes empresas para empresas menores, prestadoras de serviços. Nesta situação, os retornos para os trabalhadores, em termos de salário, benefícios e carreira, são menores. Ainda assim, os empregos remanescentes nas grandes empresas, encontram-se em situação em que as condições de trabalho, benefícios, renda, pioraram significativamente após o período de privatizações e abertura comercial no país (BORGES; DRUCK, 2002). 20 Referências Bibliográficas ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do Trabalho: Ensaio sobre a Afirmação e a Negação do Trabalho. São Paulo: Boitempo, 2003. BORGES, Ângela; DRUCK, Maria da Graça. Terceirização: Balanço de uma Década. Caderno CRH: Trabalho, Flexibilidade e Precarização, n.37, julho/dezembro, 2002. BRASIL TELECOM. Relatório Anual de 2004. Disponível http://www.brasiltelecom.com.br/ri/acessoRapido.do Acesso em: 13 de março de 2009. em: CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 200 COUTINHO, Luciano; CASSIOLATO, José Eduardo; SILVA, Ana Lucia G. da (Coord.). Telecomunicações, Globalização e Competitividade. Campinas: Papirus, 1995. HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1984. KREIN, José Dari; GONÇALVES, José Ricardo Barbosa. O impacto das mudanças tecnológicas do setor terciário sobre as relações de trabalho no Brasil, na década de 90. Anais do XXIX Encontro Nacional da ANPOCS: Caxambu, 2005. LARANGEIRA, Sônia M. G.. Reestruturação no setor de telecomunicações: aspectos da realidade internacional. Revista Latinoamericana de Estudios del Trabajo: Relações industriais, análises comparativas. Ano 4, no. 8, p. 159-178, 1998. LOJKINE, Jean. A Revolução Informacional. São Paulo: Cortez, 1999. RUDUIT, Sandro. Relações interfirmas e emprego: estudo de uma rede de empresas em telecomunicações. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: PPGS/IFCH/UFRGS, 2001. ______. Relações interfirmas e emprego na rede de empresas: a experiência de externalização de uma empresa no setor de telecomunicações. Sociologias. n. 8, julho/dezembro de 2002, Porto Alegre, p. 400-431. SINTTEL – PR. Acordos Coletivos de Trabalho, 2006...2009. TORRENS, Antonio Carlos; MOTIM, Benilde Lenzi; PICANÇO, Katya; ARAUJO, Silvia P. de.;WAWRZYNIAK, Sônia Izabel.; OBARA, Sônia. A Racionalidade das mudanças no setor de serviços: relações de trabalho e mercados de trabalho no ramo das telecomunicações no Brasil. Disponível em http://www.alast-uy.org/PDF/Galin/RRLL-Wawrzyniak.PDF. Acesso em: 03 de março de 2009. Outras Fontes Consultadas Relatórios Anuais da Agência Nacional de Telecomunicações Relatórios Anuais da Brasil Telecom/Oi Banco de Dados do Ministério do Trabalho e Emprego – RAIS/CAGED