Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
Contribuições da Interdisciplinaridade para a Alfabetização Científica no Ensino
Médio
Claudimara da Silva Pfiffer
Universidade Regional de Blumenau-FURB - [email protected]
Fabiana Fachini
Universidade Regional de Blumenau-FURB - Bolsista da FAPESC/SC – Brasil [email protected]
Kátia Girardi Dallabona
Universidade Regional de Blumenau-FURB - [email protected]
Vera Lúcia de Souza e Silva
Universidade Regional de Blumenau-FURB - [email protected]
Eixo temático: Teoria e Prática da Interdisciplinaridade
1. Introdução
A realidade educacional que se apresenta atualmente é desafiadora para a maioria dos professores
acostumados a trabalhar de forma fragmentada, linear e descontextualizada dos processos de vida dos
estudantes. Vivemos num mundo globalizado, complexo e plural (MORAES, 2008). Isso se revela na sala
de aula, nos processos de ensinar e de aprender que requer atualização permanente do professor e uma
profunda transformação na educação (D’AMBROSIO, 1997; MARIOTTI, 2000; MORAES; TORRE, 2004;
MORAES, 2008; SILVA, 2004; TORRE, 2008, 2009, 2011; TORRE, PUJÓL; SILVA, 2013).
Entre os professores é comum o desejo de práticas pedagógicas que possam oferecer inovações no
processo de ensino e aprendizagem. Segundo Japiassu (1992), para que os estudantes desenvolvam
habilidades e aprendam a pensar é importante a integração entre as várias áreas do conhecimento. Para o
autor, podemos dizer que estamos diante de um empreendimento interdisciplinar todas as vezes que este
conseguir incorporar os resultados de várias especialidades (JAPIASSU, 1976).
A formação do estudante está centrada na aquisição de conhecimentos básicos, a preparação para a
vida em sociedade como também a capacidade de utilizar as informações para o seu desenvolvimento no
mundo do trabalho e na vida social.
Quando tratamos de Ensino Médio, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB coloca
o Ensino Médio como a “etapa final da educação básica” (Art.35), o que compreende para a construção de
sua identidade. Ou seja, o Ensino Médio tem como finalidades consolidar e aprofundar os conhecimentos
adquiridos no ensino fundamental, de modo que possibilite o prosseguimento de estudos; preparar para o
trabalho e a cidadania; aprimorar como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da
1
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
autonomia intelectual e do pensamento crítico; compreender os fundamentos científico-tecnológicos dos
processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina (Art.35, incisos I a
IV, 1996).
Repensar as diretrizes e os Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio – PCN (BRASIL,
1999) que regem o Ensino Médio está sendo uma das propostas do Ministério da Educação – MEC. O MEC
vem ampliando suas ações para reestruturar a qualidade da educação dos jovens estudantes do Ensino
Médio. Para isto, procura destacar uma reorganização do processo de ensino nas diferentes áreas de
conhecimento, de modo que isso objetive facilitar o desenvolvimento dos conteúdos numa perspectiva
interdisciplinar e contextualizada.
Nesse contexto, entra como estratégia o Programa Ensino Médio Inovador (ProEMI), instituído pela
Portaria n° 971, de 09/10/2009, que tem como objetivo, de acordo com o Documento Orientador do
ProEMI, além da busca pela qualidade no ensino, “induzir o redesenho dos currículos do Ensino Médio,
compreendendo que as ações propostas inicialmente vão sendo incorporadas ao currículo, ampliando o
tempo na escola e a diversidade de práticas pedagógicas, atendendo às necessidades e expectativas dos
estudantes do ensino médio” (Programa Ensino Médio Inovador – Documento Orientador, 2013, p. 10).
Assim, esse documento, de acordo com o ProEMI (2013) visa orientar os sistemas de ensino e as
escolas envolvidas no programa, para que busque realmente transformar o Ensino Médio numa etapa de
caráter que situe o estudante como sujeito produtor de conhecimento e que seja participante ativo no
trabalho e na sociedade em geral como cidadão crítico e autônomo.
Entre os referenciais do ProEMI estabelecidos em seu Documento Orientador (2013) dois deles
fundamentam na contribuição da interdisciplinaridade para a alfabetização científica, sendo o foco na leitura
como elemento de interpretação e de ampliação da visão de mundo em todas as áreas do conhecimento e, o
envolvimento em atividades teórico-práticas que fundamentem os processos de iniciação científica e de
pesquisa, utilizando laboratórios de ciências, matemática e outros espaços que potencializem aprendizagens
nas diferentes áreas do conhecimento.
Apresentamos assim, no contexto da interdisciplinaridade, um trabalho desenvolvido em uma Escola
da Rede Pública Estadual de Santa Catarina, que trata sobre as concepções de uma prática pedagógica
baseada na abordagem interdisciplinar e na contextualização para a alfabetização científica, visando a
interação direta com os estudantes contemplando os aspectos da ciência e da pesquisa como princípio
educativo e pedagógico. Pois, para Chassot (2003, p. 29)
A alfabetização científica pode ser considerada como uma das dimensões para potencializar
alternativas que privilegiam uma educação mais comprometida. É recomendável enfatizar que esta
deva ser uma preocupação muito significativa no ensino fundamental, mesmo que se advogue a
2
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
necessidade de atenções quase idênticas também para o ensino médio. [...]. Assim, ser alfabetizado
cientificamente é saber fazer ler a linguagem em que está escrita a natureza. É um analfabeto
científico aquele incapaz de uma leitura do universo.
A alfabetização científica desenvolve no estudante a capacidade de organizar seu pensamento de
maneira lógica, além de auxiliar na construção de uma consciência mais crítica em relação ao mundo que a
cerca, e, além disso, permite o estabelecimento de conexões entre o mundo em que estudante/cidadão vive e
as conexões que dele retira os significados e as construções do saber para a sua vida social e pessoal.
Desta forma, pode-se compreender que os conhecimentos estão vinculados à vida cotidiana do
estudante, em toda a sua diversidade contextual do dia a dia, e assim, articulando-se entre as diferentes áreas
do conhecimento. O que se propõe, é que a estrutura do Ensino Médio se organize num processo
educacional que integre o conjunto dos conhecimentos, seja quando se tratar das disciplinas escolares ou por
meio da organização do trabalho pedagógico. Pensar na função do Ensino Médio é compreender sobre a
importância do ensino nas exigências da sociedade do mundo do trabalho e para o mundo das relações
sociais.
2. Procedimentos Metodológicos
No contexto do ensino de Ciências é fundamental a formação de um indivíduo participativo, crítico,
para a compreensão do mundo e suas transformações.
Aprender a identificar, classificar, questionar e levantar hipóteses é fundamental para o
desenvolvimento das habilidades de planejar, prever e interpretar dados de fenômenos do mundo natural
para se apropriar do conhecimento científico a partir do conhecimento cotidiano dos estudantes.
Os autores Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2011) descrevem a importância do professor propiciar
um bom ensino de Ciências aos estudantes, pois eles estão inseridos no processo de ensino e de
aprendizagem não como sujeito neutro, mas que interage apropriando-se das linguagens de toda uma
dimensão sociocultural. Essas considerações requerem que o professor compreenda que o estudante traz para
a escola suas experiências do cotidiano, vivências com a sua família, colegas e que esses conceitos são
indispensáveis na discussão de um novo tema em sala de aula. Levar o estudante a perceber a importância de
outros saberes requer que o planejamento das aulas do professor proponha problematizações diversificadas,
baseadas em leitura de artigos, livros, exercícios, aulas experimentais, relatórios, entre outras.
Problematizar o processo de ensino e de aprendizagem levando o estudante a pensar, questionar,
elaborar suas ideias e opiniões, pensar e ir além do que ele sabe é função do ensino de ciências. De acordo
com os Parâmetros Curriculares Nacionais: Ciências Naturais – PCN (BRASIL, 1997, p. 25) é importante
3
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
considerar a integração dos diferentes conhecimentos para dar condições necessárias para uma
aprendizagem significativa, onde, podemos constatar que
O ensino de Ciências Naturais também é espaço privilegiado em que as diferentes explicações sobre o
mundo, os fenômenos da natureza e as transformações produzidas pelo homem podem ser expostos e
comparados. É espaço de expressão das explicações espontâneas dos alunos e daquelas oriundas de
vários sistemas explicativos. [...]. Possibilita a percepção dos limites de cada modelo explicativo,
inclusive dos modelos científicos, colaborando para a construção da autonomia de pensamento e ação.
Asseveremos que vincular a realidade do estudante entre o mundo da escola e o mundo da vida
também é produzir conhecimento.
Essa complexa relação, segundo Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2011) um planejamento didático
compreende três momentos pedagógicos : problematização inicial, organização do conhecimento e aplicação
do conhecimento. Para realizar a problematização inicial é necessário fazer com que o estudante “sinta a
necessidade da aquisição de outros conhecimentos que ainda não detém, ou seja, procura-se configurar a
situação em discussão como um problema que precisa ser enfrentado” (DELIZOICOV; ANGOTTI;
PERNAMBUCO, 2011, p.201, grifo dos autores).
O segundo momento pedagógico caracteriza-se pela organização do conhecimento pelo estudante.
Para que isso ocorra, os conceitos científicos, ou seja, saberes escolares passam a ser estudados sob a
mediação do professor, que irá orientá-lo nas atividades para que o estudante consiga entender os conceitos,
indo além do que foi proposto em sala de aula. (VIECHENESKI; LORENZETTI; CARLETTO, 2012).
O terceiro momento corresponde à aplicação do conhecimento, que se relaciona com o conhecimento
compreendido e incorporado pelo estudante “para analisar e interpretar tanto as situações iniciais que
determinam seu estudo como outras situações que, embora não estejam diretamente ligadas ao motivo
inicial,
podem
ser
compreendidas
pelo
mesmo
conhecimento”
(DELIZOICOV;
ANGOTTI;
PERNAMBUCO, 2011, p. 202).
Os educadores Freire e Snyders, citados por Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2011, p. 189 – grifo
dos autores) “propõem um ensino baseado em temas, ou seja, em uma abordagem temática que possibilite a
ocorrência de rupturas durante a formação dos alunos”. Para os autores, essa abordagem temática se
encontra numa perspectiva de ensino que se estrutura com base em temas, em que acontece a seleção de
conteúdos escolares das disciplinas que serão abordados.
De acordo com Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2011) a proposta de ensino significativo
corresponde à estruturação das atividades que serão desenvolvidas na sala de aula, na qual a abordagem
temática inclui a seleção de conteúdos. Isso faz com que se rompa um paradigma tradicional, da pura
4
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
conceituação científica, para uma abordagem que busque conteúdos relevantes e significativos, podendo ser
selecionados juntamente com os estudantes, tornando a proposta mais dinâmica e participativa.
Nesse sentido, o ponto de partida para o planejamento do professor é a experiência do estudante no contexto
em que está inserido. Carvalho (2010), explica que a visão de proposta dessa prática é pensar na superação
do nível de acumulação de conceitos e conteúdos que os estudantes aprendem de forma pronta e acabada.
Levá-los a outros conhecimentos científicos numa abordagem que relacione a construção significativa do
conhecimento é de responsabilidade do professor, e, com isso representar um importante papel no
desenvolvimento da consciência crítica do estudante. Para D’Ambrosio (1997, p.89) “O conhecimento hoje
tem seu foco ampliado para resolver a questões complexas, abordar temas amplos, resolver problemas novos
e enfrentar situações sem precedentes”, que devem ser discutidos em relação aos conteúdos ensinados de
ciências e matemática.
Nessa perspectiva, por meio do diálogo com os estudantes, pela interação interdisciplinar com os
professores e pela proposta inovadora de ensino do ProEMI ficou estabelecido investigar a partir do tema
escolhido pelo grupo, problematizando e elaborando um conteúdo programático contendo os conceitos das
disciplinas de Biologia, Química e Matemática. A partir da abordagem interdisciplinar contextualizada com
vistas à alfabetização científica que aconteceu o planejamento das atividades integradas.
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, com caráter participante, realizada no ensino de
Ciências no Ensino Médio, cujo objetivo geral foi investigar as contribuições da proposta metodológica
baseada na interdisciplinaridade e na contextualização dos conteúdos no processo de alfabetização científica
de estudantes de ensino médio. O estudo apresentou como questão de pesquisa:
“Quais as contribuições de uma prática pedagógica baseada na abordagem interdisciplinar e na
contextualização para a alfabetização científica de estudantes do ensino médio?”.
O trabalho foi desenvolvido em uma Escola da Rede Pública Estadual de Santa Catarina na cidade de
Timbó/SC, envolvendo 20 estudantes do segundo ano do ensino médio e três professores, das disciplinas de
Biologia, Química e Matemática. Os encontros dos professores para planejamento aconteceram
semanalmente, durante o momento denominado Dia de Planejamento, ou seja, todas às segundas-feiras das
13h15min às 16h30min, os professores de todas as áreas utilizam esse momento para planejar a semana, de
acordo com a grade curricular, projeto e eventos da escola. No caso de nossa pesquisa, a mesma foi
desenvolvida no período de meados de maio a julho/2013, momento destinado a organização, reflexão e
planejamento das atividades a serem desenvolvidas na semana.
Como uma das propostas do ProEMI é acompanhar as ações que a escola desenvolve, avaliando os
resultados de todos os trabalhos realizados, uma das estratégias descritas no projeto do Documento
5
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
Orientador é coordenar a relação pedagógica entre professores, direção e estudantes. Consequentemente, o
planejamento ocorre de forma coletiva, participativa e articulada. Nesse momento, efetua-se dentro de um
contexto educativo, toda uma preparação dos conteúdos a serem trabalhados durante a respectiva semana
letiva. Avalia-se de forma estratégica, pela grade curricular, plano de aula, tema abordado pelos estudantes e
o Projeto Político Pedagógico da escola. Na fala de Nóvoa (2009) sobre a necessidade do trabalho em
equipe, os novos modos de profissionalização docente implicam um reforço das dimensões coletivas e
colaborativas, do trabalho em equipe, da intervenção conjunta nos projetos educativos da escola.
As atividades a serem desenvolvidas neste sentido, são articuladas a outras áreas de conhecimento de
acordo com as possibilidades e ações interdisciplinares da escola, conteúdos e séries do Ensino Médio. É
preciso salientar que a interdisciplinaridade se situa dentro de um contexto em que sua contribuição perpassa
todas as áreas do conhecimento. De acordo com a Proposta Curricular de Santa Catarina – PCSC (1998, p.
102) a perspectiva é desafiante, e “interdisciplinaridade significa mais que a integração de disciplinas,
significa a exigência interna das ciências que buscam o restabelecimento da unidade do saber.”.
A partir desse processo, as atividades acabam buscando espaços de atuação e interação, que ampliam
a compreensão do ensino de maneira que envolvam atividades de pesquisa, informática e outras tecnologias,
jornal escolar, grêmio estudantil, teatro, dança, música, aulas experimentais, viagens de estudos, dentre
outras.
Para o alcance dos objetivos propostos, fez-se necessário o acompanhamento, a observação e as
reflexões do estudo em questão. A coleta de dados foi feita por meio de registro das produções dos
estudantes, concretizadas na forma de textos, cartazes, portfólios, modelos, depoimentos durante o processo
pedagógico e entrevista semiestruturada com os estudantes ao final do trabalho desenvolvido.
Após ser definido o tema a ser trabalhado durante um período de aproximadamente 15 aulas para
cada disciplina, os professores de Biologia, Química e Matemática desenvolveram o planejamento da
pesquisa. O tema central leite partiu do questionamento realizado em um dos recreios dos estudantes. Surgiu
pelo fato de naquele dia os estudantes terem como lanche, um achocolatado, onde, em sala, questionaram:
“Professora, será que o leite do nosso achocolatado está dentro da validade?” O motivo seria a
preocupação deles estarem ingerindo algo que talvez fizesse mal. E ainda: “Será que as merendeiras olham
a validade do leite quando ele chega na escola?”. Após todas essas dúvidas, a aula de Química prosseguiu
detalhando a questão do leite, cuidados no manuseio, conservantes presentes no leite, a possibilidade de o
leite após aberta a caixinha não guardarem na geladeira devidamente, dentre outras perguntas, sugestões e
críticas que foram sendo relatadas. Assim, no Dia de Planejamento, foi colocada essa situação em pauta, e
6
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
os professores de Biologia e Matemática resolveram “comprar” a ideia, ou seja, começamos a discutir sobre
o que poderíamos trabalhar com as três disciplinas.
Na sala de aula, realizamos primeiramente um levantamento dos conhecimentos cotidianos dos
estudantes e obtivemos os seguintes depoimentos: Os mamíferos produzem leite. O leite faz bem para a
saúde. É importante amamentar os bebês. Leite é rico em proteína. Existem pessoas que não podem
consumir leite, já que elas possuem um tipo de doença. Do leite é possível fazer vários alimentos gostosos.
O leite é pasteurizado. A composição química do leite é variada. A validade do leite comprado é muito
diferente de um leite in natura.
Após esse levantamento, solicitamos aos estudantes o que eles gostariam de saber ou perguntar sobre
o leite, registramos os seguintes questionamentos: Quais são os componentes químicos do leite? Leite
engorda? Ele possui nutrientes importantes para a saúde? O que é pasteurização? Qual o significado de
leite fermentado? Qual o significado dos números na embalagem do leite? Como é feito o leite em pó? Os
PCN (BRASIL, 1997, p. 63) descrevem a importância de o professor incentivar os estudantes na
investigação científicas, formulando perguntas: “esse procedimento permite conhecer as representações e
conceitos intuitivos dos alunos, orientando o processo de construção de conhecimentos”.
De posse destes questionamos, foram realizados encontros de discussão entre os professores de
Biologia, Química e Matemática, para planejamento integrado e reflexão sobre as sequências de atividades a
ser construídas com os estudantes.
Com o levantamento das perguntas que os estudantes colocaram em pauta, que, a princípio seriam
suas curiosidades e dúvidas, no segundo encontro do Dia de Planejamento, os professores das três
disciplinas, buscaram materiais que pudessem ampliar o trabalho a ser desenvolvido. Como a escola possui a
assinatura de diversas revistas científicas, como Mundo Estranho, Superinteressante, Ciência Hoje, Ciência
Hoje das Crianças e Galileu, partimos à procura de reportagens que pudéssemos utilizar com os estudantes
em sala de aula. Após a coleta do que foi encontrado de material, partimos para a leitura de artigos e livros
que a biblioteca da escola oferece e o que cada professor possui em particular. Bem como a busca de
reportagens em endereços eletrônicos e sites de busca em geral. Assim, partiu-se para as aulas
experimentais, a viagem de estudos para uma fábrica de laticínios da região e como seria o processo de
finalização e avaliação do trabalho.
Com todos os materiais coletados, informações relatadas e o planejamento encaminhado, deu-se o
processo de relacionar os conteúdos que cada professor conseguiria abranger em sua devida aula. Assim, à
medida que prosseguia-se o trabalho, realizamos um mapa conceitual dos conteúdos que fossem abordados
em cada disciplina, de acordo com a grade curricular do Ensino Médio e do Documento Preliminar que rege
7
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
os Conceitos e Conteúdos para a Educação Básica do Ensino Inovador. Para o Documento Preliminar –
Conceitos e conteúdos para a Educação Básica (2011, p. 40) escolas e professores transformam o que pode
ser ensinado, transformando o estudante para ser um cidadão consciente e crítico a partir dos conhecimentos
adquiridos no ambiente escolar.
A organização por áreas de conhecimento não dilui nem exclui componentes curriculares com
especificidades e saberes próprios construídos e sistematizados, mas implica fortalecimento das
relações entre eles e a sua contextualização para apreensão e intervenção na realidade, requerendo
planejamento e execução conjugados e cooperativos dos seus professores.
A seguir podemos observar um mapa conceitual que relaciona os conteúdos abordados dentro do
tema Leite: um estudo integrado, envolvendo de forma integrada as disciplinas de Biologia, Química e
Matemática (Figura 1):
Figura 1: Mapa conceitual envolvendo as disciplinas de Biologia, Química e Matemática
Fonte: Organizado pelas autoras
8
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
2.1. Prática pedagógica aplicada em sala de aula
As aulas de Biologia iniciaram sobre conceitos relacionados ao sistema digestório humano. Foram
realizados experimentos para identificar a presença de carboidratos, proteínas e lipídeos em diferentes
alimentos, incluindo o leite, bebida consumida por todos os adolescentes no café da manhã. Realizamos
também buscas na internet sobre os principais nutrientes presentes no leite e investigamos a importância da
amamentação. Discutimos sobre as pessoas que não são capazes de digerir o leite devido à ausência da
enzima lactase, ou seja, pessoas com intolerância à lactose. Esses conceitos foram abordados no conteúdo
sobre sistema digestório.
O próximo item explorado foi o sistema muscular, aproveitamos para relacionar com as atividades
físicas, dores do corpo, cãimbra entre outras. Para isso, utilizamos conceitos já estudados, como lactobacilos
(bactérias) que são os responsáveis pela fermentação lática, produzindo o ácido lático que provoca a
coagulação das proteínas do leite formando o coalho, empregado na fabricação de queijo e iogurte, por
exemplo. Nos músculos também é comum a produção de ácido lático, quando acontece um grande esforço
físico. Esse ácido pode ficar acumulado no interior de fibras musculares produzindo dores pelo corpo além
de cãibras, fato que esclareceu aos estudantes as dores musculares sentidas por eles. Foi investigado
também, que a proteína presente no leite (albumina) é a mesma encontrada na clara de ovo, já que muitos
estudantes frequentam academias de musculação e tomam cuidados com a dieta das proteínas.
No momento de planejamento e reflexão entre as professoras de biologia e química, organizamos a
próxima etapa a fim de trabalhar os processos de fermentação do leite, permitindo a integração entre as
áreas. Aproveitamos a curiosidade dos estudantes para visitar um agricultor e observar a forma de manejo do
gado e o processo de ordenhar a vaca. Alguns estudantes ficaram surpresos, pois era a primeira vez que viam
de perto uma vaca, e sentiam o cheiro do leite natural. Uma das estudantes pediu para ordenhar a vaca e
experimentar o leite, comentando: Nossa... nunca pensei que um dia iria fazer isso. O leite é quente e muito
bom (Figura 2):
Figura 2: Conhecendo o manejo e tirando o leite da vaca
9
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
Fonte: As autoras
Segundo Morais e Andrade (2009, p. 51) a forma de interação do professor com os estudantes, e de
como eles interagem entre si, permite ao professor “buscar fazer uso da fala e da escuta de modo a contribuir
para a criação de significados úteis para a aprendizagem de Ciências”.
Os autores Morais e Andrade (2009, p. 53) ainda acrescentam, que as atividades realizadas no
ensino de Ciências possibilitam a realização de pelo menos cinco objetivos práticos, como:
a.
b.
c.
d.
e.
Aprender a respeitar a natureza da ciência e da tecnologia.
Adquirir habilidades ou instrumentos cognitivos relacionados aos processos.
Aprender habilidades manipulativas.
Aprender os principais conceitos e princípios científicos.
Desenvolver interesses, atitudes e valores.
Nas aulas de Química, os estudantes puderam realizar experimentos para comprovar a fermentação
lática dos alimentos. Aprenderam sobre o significado dos números existentes em baixo da caixa de leite, e
nessa etapa puderam compreender também o processo da pasteurização. Conheceram as formas de medir o
potencial de hidrogênio (pH) identificando se os alimentos eram adequados ao consumo. Como também
verificaram através de uma titulação o valor de acidez de diferentes marcas de leite industrializado, nos
formatos de caixa, pacote ou em pó. Pela determinação do índice de pH relacionaram aos problemas
acarretados pela azia, gastrite e até mitos populares como: Minha mãe diz que não se pode comer melancia e
depois tomar leite. Ou ainda: É verdade que devem os tomar leite para combater a azia? Conforme
comentários de alguns dos alunos. Outro aspecto trabalhado aconteceu em relação aos derivados do leite de
acordo com a composição, alterações de pH, concentração e características físico-químicas do produto.
Observaram também que quando o leite estava azedo o pH alterava, ou seja, o indicador azul de bromotimol
alterava a cor do líquido (Figura 3).
10
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
Figura 3: Observando o pH do leite
Fonte: As autoras
Partindo dessas falas, pode-se perceber que a relação conhecimento do cotidiano e conhecimento
científico fazem a diferença quando o estudante começa a relacionar o seu dia a dia com o que ele aprende
em sala de aula. Assim, a alfabetização científica proporciona possibilidades para que o estudante se
transforme em um cidadão que disponha de conhecimentos científicos necessários para se desenvolver em
sua vida cotidiana, para ajudar a resolver os problemas e as necessidades que a sociedade nos coloca
diariamente. A responsabilidade que temos enquanto professores no ato de ensinar Ciências é procurar que
nossos estudantes se transformem através do ensino em cidadãos mais críticos, que se tornem agentes
transformadores. Nesta pesquisa, almejamos uma concepção de ensino de Ciências que pode ser vista como
um processo de alfabetização científica de modo que promova condições para que os estudantes fossem
inseridos na sociedade através da prática consciente propiciada por sua interação com os saberes de noções e
conhecimentos científicos, bem como das habilidades associadas ao fazer científico. Para Chassot (2011)
alfabetizar cientificamente é uma responsabilidade que está além dos pressupostos pela busca de uma
cidadania de um fazer profissional.
Uma das estudantes fez o seguinte comentário logo após a sequência de atividades desenvolvidas até
o momento, que intensifica mais um dos objetivos citados por Morais e Andrade (2009) que diz a respeito
da aquisição de habilidades ou instrumentos cognitivos relacionados aos processos.
A estudante comenta: “com esse trabalho aprendemos na prática como o pH funciona e qual a
diferença que existe entre ácidos e bases. Trabalhamos com indicadores de pH, fizemos testes. Vimos como
acontece a fermentação lática e pesquisamos muito sobre a fabricação das embalagens e todos o processo
que o leite passa até chegar na mesa do consumidor”.
11
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
Sendo assim, interligar as diferentes áreas do saber proporciona habilidades que relacionam o que
os estudantes muitas vezes sabem, e que desenvolver esse tipo de trabalho vem a acrescentar em muito no
aprendizado individual e coletivo. Outro estudante ainda destacou: “devemos prestar atenção na qualidade
do produto, pois esta diferença aparece na qualidade da nossa saúde”.
Morais e Andrade (2009) destacam em seus objetivos que fica evidente na fala do estudante, onde,
aprender a respeitar a natureza da ciência e da tecnologia é relevante a partir do momento em que ele
percebe que o conhecimento científico faz parte do seu dia a dia. E, relacionar o aprendizado da sala de aula
com o que encontramos no ambiente em que vivemos se torna prazeroso quando for eficaz para a qualidade
de vida, tanto física como social e mental.
De acordo com o planejamento, em uma das aulas seguintes, realizamos a visitação a uma fábrica
de laticínios da região para investigar sobre o processo de industrialização e pasteurização do leite. A visita
foi planejada com os alunos a partir de um roteiro prévio que serviu de guia para a investigação. Na
visitação, os estudantes foram acompanhados pelos respectivos professores das disciplinas envolvidas, para
assim também interagirem no processo de ensino e de aprendizagem. Na fábrica, os estudantes
aprofundaram seus conhecimentos com dois profissionais das áreas de biologia e química, para os quais
puderam fazer questionamentos. Algo que chamou a atenção dos estudantes foi toda a estrutura e cuidado
que uma fábrica deve ter para trabalhar com um produto alimentício, desde o recebimento do leite até o
tratamento de resíduos da própria fábrica. Além do roteiro previamente elaborado, com perguntas iniciais
desde a coleta do leite, origem, cidades que beneficiam o leite, local de depósito, estocagem, processos de
conservação, manuseio, verificação do pH, bactérias, análise de medicamentos aos animais, influência
destes para com o produto, e, até a curiosidade sobre o processo de fabricação do achocolatado. Assim
foram demonstradas as variadas reações físico-químicas e biológicas que transformam o leite comum em um
achocolatado. Características típicas e em particular do processo de fabricação, como o aquecimento,
pasteurização, controle de pH, tipo de embalagem, embalagem reaproveitável, rotulagem, custo versus
benefício, limpeza das máquinas, caminhões, higiene pessoal e da fábrica em geral, entre outros detalhes e
perguntas variadas surgiram conforme a visita foi se estendendo no decorrer da conversa com os
profissionais que nos atenderam (Figura 4).
Figura 4: Conhecendo uma fábrica de laticínios
12
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
Fonte: As autoras
Quando retornamos a escola, surgiu o seguinte questionamento por uma estudante: Professora, é
possível colocar alguma substância química nas embalagens, para que quando os alimentos estivessem
estragados ou azedos alterassem a cor? A professora de química aproveitou o momento e questionou: Será
que é possível colocar algum componente químico nas embalagens dos produtos de laticínios para alertar a
cor? Vamos testar?
Para os PCN (BRASIL, 1999) encontrar pontos de contato entre os saberes dos estudantes e
participar do desenvolvimento científico e tecnológico é um dos papeis fundamentais da Química. Esse
aprendizado pode possibilitar ao estudante a compreensão tanto dos processos químicos como da construção
de um conhecimento científico, envolvendo aplicações nas áreas sociais, ambientais, políticas, tecnológicas
e econômicas.
Assim, o conhecimento químico pode contribuir para uma constante transformação na sociedade,
tendo uma visão menos fragmentada, ou seja, “os conteúdos nessa fase devem ser abordados a partir de
temas que permitam a contextualização do conhecimento” (PCN, 1999, p. 244). Nesse sentido, D’Ambrosio
(1997, p.80) explica “o conhecimento fragmentado dificilmente poderá dar a seus detentores a capacidade de
reconhecer e enfrentar tanto problemas quanto situações novas que emergem em um mundo complexo”.
Ensinar ciências, portanto, tem como critérios propor atividades abertas no cotidiano escolar, ou
seja, atividades que possibilitem variadas resoluções, onde é possível diversificar o contexto em que se
propõe a aplicação de uma estratégia, fazendo com que o estudante trabalhe com diferentes conceitos nas
situações das diferentes áreas do conhecimento. Nessa perspectiva, para Delizoicov, Angotti e Pernambuco
13
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
(2011, p. 153) “a sala de aula passa a ser espaço de troca reais entre alunos e entre eles e o professor, diálogo
que é construído entre conhecimentos sobre o mundo onde se vive e que, ao ser um projeto coletivo,
estabelece a mediação entre as demandas afetivas e cognitivas de cada um dos participantes.”
Os autores a seguir apresentam uma discussão sobre a atividade de investigação científica,
afirmando que os estudantes não devem ficar apenas observando um dado experimento, mas sim, discutir
com os colegas, refletir, partilhar e socializar as ideias construídas. Eles ainda complementam:
[...] é importante que uma atividade de investigação faça sentido para o aluno, de modo que ele saiba
o porquê de estar investigando o fenômeno que ele é apresentado. Para isso, é fundamental nesse tipo
de atividade que o professor apresente um problema sobre o que está sendo estudado. A colocação de
uma questão ou problema aberto como ponto de partida é ainda um aspecto fundamental para a
criação de um novo conhecimento (CARVALHO, et al.2004, p. 21).
Durante o planejamento das aulas, refletimos nos questionamentos realizados pelos estudantes e
pensamos sobre uma estratégia para conduzir a aula baseada na curiosidade e investigação científica. A
professora de Química ficou responsável por construir com os estudantes modelos de embalagens de leite,
relacionando os constituintes químicos dos materiais que pudessem identificar o leite estragado. Nas aulas
de Biologia relacionamos a importância da utilização desse tipo de embalagem com a qualidade de vida,
focando principalmente na saúde. Os PCN (BRASIL, 1999) abordam, dentre os conteúdos e tópicos
fundamentais da Biologia, que é importante destacar e focar as relações entre o corpo humano, meio
ambiente e o que se caracteriza o estado de saúde. Entender como o bem-estar físico, social e psicológico
atuam é um fenômeno que interage como resultado do processo evolutivo com o meio que nos cerca.
Implementar a saúde individual, coletiva e do ambiente é desenvolver atitudes de respeito ao corpo. Além
disso, foi necessário refletir sobre a sustentabilidade e as possibilidades de reciclagem e decomposição, para
que os mesmos não agredissem o meio ambiente afetando a fauna e flora em que vivemos.
Para Carvalho et al. (2004, p. 9) o professor precisa mediar as atividades possibilitando a
construção do conhecimento. Nesse sentido, os autores comentam:
É preciso também, que os professores saibam construir atividades inovadoras que levem os alunos a
evoluírem, em seu conceitos, habilidades e atitudes, mas é preciso também que eles saibam dirigir os
trabalhos dos alunos para que estes realmente alcancem os objetivos propostos (CARVALHO, et al.
2004, p. 21– grifo dos autores).
Dentre os objetivos que se buscam alcançar no Ensino Médio, e, em cada área do conhecimento,
entende-se que a Matemática também pode assumir o fato de buscar a interpretação dos fenômenos do
mundo e consequentemente contribuir para transformar a realidade.
14
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
De forma integrada e contextualizada, envolver a Matemática em uma prática pedagógica
significativa é desenvolver os conhecimentos práticos que respondam às necessidades do dia a dia do
estudante, de modo que os conteúdos dessa disciplina colaborem para visão de mundo ampliada. Com isso,
de acordo com a PCSC (1998, p. 100) “iniciar o ensino de um conceito matemático a partir de sua
elaboração mais atual, isto é, pelas definições formais, sem levar em consideração o processo de formação
do pensamento matemático, significa dificultar para o aluno o acesso a esse saber”.
O aprendizado de conteúdos da Matemática presentes no currículo escolar, envolvendo funções,
números racionais e irracionais, análise combinatória, álgebra, matrizes, trigonometria e todos os demais
conteúdos que são ensinados aos estudantes do Ensino Médio, não será significativo se não houver uma
relação entre a teoria e a prática. É fundamental que se conheça o significado de toda simbologia
matemática. Esse conhecimento permitirá ao professor uma ação pedagógica que leve ao estudante o que é
realmente essencial para ele.
Diante disso, a professora de Matemática relacionou o processo do leite industrializado e a
fabricação das embalagens desde a sua origem até a mesa do consumidor, revisando conteúdos abordados na
visita à fábrica de laticínios. Para isso, adotou a estratégia da problematização dos conteúdos, construindo
juntamente com os estudantes uma tabela, que abordava a relação custo benefício na produção de
embalagens, para assim identificar se o produto está adequado ao consumo. Investigando, além disso, a
preocupação com a qualidade do produto e a saúde do consumidor. Encontra-se a seguir a tabela construída
com os estudantes (Tabela 1):
Tabela 1: Relação custo benefício na produção de embalagens
CUSTO
Aumento do custo da embalagem.
Treinamento de pessoas especializadas.
Novas técnicas com pessoas gabaritadas.
Fornecedores qualificados
Marketing – vender a ideia do produto
(criatividade).
BENEFICIO
Satisfação do consumidor.
Melhora na qualidade do leite e
consequentemente da saúde.
Evita o desperdício.
Aumento do consumo do leite – estratégia.
Ideia inovadora, ou seja, embalagens
“inteligentes”.
Fonte: Organizado pelas autoras
Nesse sentido, foi possível refletir com os estudantes que o custo para gerar um novo produto é alto,
principalmente pelo fato da carência de mão de obra especializada e de fornecedores qualificados para a
produção . Ao mesmo tempo, ficou claro que os benefícios das embalagens criativas são viáveis, pois pode
15
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
gerar qualidade de vida, permitindo o consumo de leite adequado pela população, facilitando o cotidiano das
pessoas, no que se refere à identificação rápida da validade e do gosto do produto. Logo, a mudança de cor
de uma etiqueta colocada na embalagem (nas áreas interna e externa) poderia ser uma avanço tecnológico no
sentido de indicar com eficiência se o leite é adequando para o consumo com mais segurança.
Ainda citando a PCSC (1998) fica evidente que uma das funções do professor de Matemática,
enquanto mediador no processo de ensino, é construir situações em sala de aula que permitam estabelecer
uma reflexão crítica perante o conhecimento da disciplina. E assim, que o estudante esteja preparado para
enfrentar problemas reais. Podemos verificar isso na declaração de mais uma estudante: “engraçado que
antes de fazer o trabalho, não me interessava pelas coisas, como a validade, como é feito, entre outras
coisas. Como foi possível enxergar o quanto estava errada”.
Verificamos em nossa prática pedagógica descrita no artigo, os três momentos pedagógicos citados
por Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2011). Na figura 5, podemos verificar algumas situações
vivenciadas em cada momento da prática pedagógica:
Figura 5: Os três momentos pedagógicos
TRÊS MOMENTOS PEDAGÓGICOS
PROBLEMATIZAÇÃO
INICIAL
ORGANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO
APLICAÇÃO DO
CONHECIMENTO
Corresponde a aquisição de
conhecimentos que ainda não
foram apresentados aos
estudantes. (conhecimentos
científicos). Essa etapa pode
ser observada no levantamento
dos conhecimentos cotidianos
dos estudantes, realizadas a
todo o momento nas aulas de
Biologia, Química e
Matemática.
Os saberes escolares passam a
ser estudados por meio da
orientação do professor, para
que os estudantes consigam
estabelecer relações entre os
conceitos. Essa etapa ocorreu
quando realizamos atividades de
busca na internet, elaboração de
relatórios, visitas técnicas,
modelização, portfólios,
experiências entre outros.
Corresponde à aplicação do
conhecimento e a forma como
este vem sendo incorporado
pelos estudantes. Quando
propomos, por exemplo, que os
estudantes resolvam
determinadas questões a partir
dos conceitos científicos, como
na socialização das atividades,
observação e registro dos
experimentos, depoimentos
entre outros.
Fonte: Organizado pelas autoras
Diante dos depoimentos dos estudantes, a pesquisa revela o alcance dos objetivos do ensino de
ciências, citados por Morais e Andrade (2009, p. 53) de “aprender os principais conceitos e princípios
16
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
científicos”, bem como “desenvolver interesses, atitudes e valores”, que expressam possibilidades de
transformação da sociedade e do meio ambiente, de transformação para a vida.
3. Justificativa do eixo escolhido
Como Fazenda (1999), propõe, a postura interdisciplinar nada mais é do que uma atitude de busca,
de inclusão, de acordo e de sintonia diante do conhecimento, no qual se estabelece a pesquisa como
condição para a ocorrência da interdisciplinaridade, afirmando que ela caracteriza-se pela intensidade das
trocas entre os especialistas, e pelo grau de integração real das disciplinas no interior de um mesmo projeto
de pesquisa. De acordo com Hartmann e Zimmermann (2007), a cooperação integrada entre os professores é
um ponto chave para a interdisciplinaridade escolar ser possível. Por conta destes pressupostos, o eixo
escolhido deste trabalho “Teoria e Prática da Interdisciplinaridade” justifica-se pela proposta de
alfabetização científica realizada nas aulas de ciências com o trabalho integrado das disciplinas de Biologia,
Química e Matemática no projeto desenvolvido com estudantes do ensino médio.
A alfabetização científica no contexto do ensino de Ciências é compreendida como o processo pelo
qual a linguagem adquire significados, constituindo-se em um meio para o indivíduo, enquanto estudante e
enquanto cidadão, ampliar o seu universo de conhecimento a sua cultura enquanto inserido na sociedade. A
concepção de alfabetização científica no ensino de Ciências tem sido salientar, pois como definem
Lorenzetti e Delizoicov (2001) um cidadão alfabetizado cientificamente é capaz de ler, compreender e
expressar suas opiniões sobre os mais diversos assuntos, fazendo-o interagir com os demais cidadãos.
4. Considerações Finais
Este trabalho partiu da seguinte questão de pesquisa : “Quais as contribuições de uma prática
pedagógica baseada na abordagem interdisciplinar e na contextualização para a alfabetização científica de
estudantes do ensino médio?”.
Os resultados apontam que as principais contribuições desta prática pedagógica para o processo de
alfabetização científica dos estudantes do ensino médio foram a contextualização, a problematização e o uso
da linguagem científica relacionando várias áreas do conhecimento para uma leitura mais ampla do mundo.
Sabemos que indicar a alfabetização científica como uma das metas de ensino de Ciências, requer
ações educativas que articulem possibilidades de intervenção que favoreçam a formação do estudante na
direção de ser cidadão crítico e responsável por escolhas mais saudáveis no mundo atual. Nesse sentido,
registrou-se a importância de uma ação interdisciplinar entre as áreas (Biologia, Química e Matemática) para
17
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
que a ação pudesse ser reflexiva, contribuindo assim para a formação crítica e consciente dos estudantes, no
sentido da construção da cidadania.
Buscou-se também a prática pedagógica baseada nos três momentos pedagógicos, sendo eles a
problematização inicial, organização e aplicação do conhecimento. Caminhar nesta direção foi desafiador
aos professores. Pois, saber estruturar e organizar o planejamento de cada aula, dentro desta dinâmica é
complexo e requer dedicação e criatividade dos docentes. Mas, na medida em que as aulas acontecem,
revelam um potencial de desenvolvimento de habilidades de investigação e de contribuição na alfabetização
científica dos estudantes que vale o esforço.
Chassot (2003, p. 29) posiciona o conceito de alfabetização científica na relação do ser estudante
versus cidadão na busca de um ensino mais próximo à facilitação da leitura do mundo, ou seja “a
alfabetização científica pode ser considerada como uma das dimensões para potencializar alternativas que
privilegiam uma educação mais comprometida”.
Na proposta do ProEMI, realizar a interdisciplinaridade é um comprometimento que, por meio da
prática escolar, se estabelece relações com várias áreas do conhecimento. A integração pode promover uma
aprendizagem significativa, e isso estamos percebendo na medida em que nós, professores, vamos
construindo junto ao sistema inovador. Professores e estudantes percebem que o conhecimento da sala de
aula está cada vez mais relacionado aos problemas e situações que dizem respeito à vida em comunidade.
Acreditamos que, pelo fato de termos tempos reservados ao planejamento coletivo na escola, esse estudo
possibilita promover com mais intensidade, um caminhar que aproxima estudantes, professores, objeto do
conhecimento e toda a comunidade escolar, um passo que permite a construção da educação científica de
forma dinâmica, integrada e contextualizada.
Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2011, p. 127) fazem uma reflexão sobre o andamento dos
conteúdos de Ciências Naturais em boa parte das escolas, salientando que a “maioria dos professores da área
de Ciências Naturais ainda permanece seguindo livros didáticos, insistindo na memorização de informações
isoladas, acreditando na importância dos conteúdos tradicionalmente explorados e na exposição como forma
principal de ensino”.
Nesse sentido, percebe-se que mudanças são necessárias no ensino de Ciências, e isso necessita de
renovação, revisão dos conteúdos, dos métodos e práticas de ensino, de planejamento organizado e de
participação dos estudantes na ação pedagógica. Cabe ao professor refletir como os conteúdos vêm sendo
trabalhados na sala de aula. Planejar as aulas baseadas na investigação científica, desafiando a si e aos
estudantes, proporcionando a construção do conhecimento científico pode colaborar para práticas
pedagógicas inovadoras.
18
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
Entendemos que este estudo tenha contribuído para amenizar as dificuldades existentes nas práticas
pedagógicas dos professores de Ciências formados em uma concepção fortemente disciplinar, com poucas
conexões com outras áreas do conhecimento.
Referências:
BRASIL. Minstério da Educação. Secretaria de Educaçaõ Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares
Nacionais: ensino médio. Brasília: MEC, 1999.
_______. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros
Curriculares Nacionais: ciências naturais. Brasília, 1997.
_______. Ministério da Educação e Cultura. LDB – Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece
as diretrizes e bases da Educação Nacional. Brasília: MEC, 1996.
CARVALHO, A. M. P. de. Ensino de ciências: unindo a pesquisa e a prática. Sao Paulo: Cengage
Learning, 2010.
CHASSOT, Attico. Alfabetização científica: questões e desafios para a educação. 5. ed. Ijuí: Unijuí,
2011.
_______. Educação consciência. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2003.
D’AMBROSIO, U.Transdisciplinaridade. São Paulo: Palas Athena, 1997.
DELIZOICOV, D.; ANGOTTI, J. A.; PERNAMBUCO, M. M.. Ensino de ciências: fundamentos e
métodos. São Paulo: Cortez, 2011.
FAZENDA. I. C. A. Práticas interdisciplinares na escola. São Paulo: Cortez, 1999.
HARTMANN, A. M.; ZIMERMANN, E. O trabalho interdisciplinar no Ensino Médio: a reaproximação das
“Duas Culturas”. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, ano 4, v.7, n.2. 2007.
Disponível em: <www.fae.ufmg.br/abrapec/revista/index.html>. Acesso em 24/06/2013.
JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e Patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
_______. Introdução ao pensamento epistemológico. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
MARIOTTI, Humberto. As paixões do ego: Complexidade, política e solidariedade. São Paulo: Palas
Athena, 2000.
MORAES, M. C.; TORRE, S. de La. Sentipensar: fundamentos e estratégias para reencantar a educação.
Petrópolis: Vozes, 2004.
MORAES, M. C. Ecologia dos saberes: complexidade, transdisciplinaridade e educação. São Paulo:
Antakarana/WHH, 2008.
19
Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
MORAIS, M. B.; ANDRADE, M. H. de P. Ciências: ensinar e aprender. Belo Horizonte: Dimensão, 2009.
NÓVOA, A. Professores: imagens do futuro presente. Lisboa: EDUCA. 2009.
PROGRAMA ENSINO MÉDIO INOVADOR – Documento Orientador. Secretaria de Educação Básica.
Diretoria de Currículos e Educação Integral. Coordenação Geral do Ensino Médio. Ministério da Educação:
2013.
SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Educação. Diretoria de Educação Básica e Profissional.
Orientação Curricular com foco no que ensinar: conceitos e conteúdos para a Educação Básica
(Documento preliminar). Florianópolis: 2011.
_______. Secretaria de Estado da Educação e do Desporto. Proposta Curricular de Santa Catarina:
Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio: Disciplinas curriculares. Florianópolis: COGEN, 1998.
_______. Secretaria de Estado da Educação e do Desporto. Proposta Curricular de Santa Catarina:
Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio: Temas Multidisciplinares. Florianópolis: COGEN, 1998.
SILVA, Vera Lúcia de Souza e. Educar para a conexão: uma visão transdisciplinar de educação para
a saúde integral: Blumenau: Nova Letra, 2004.
TORRE, Saturnino de la. Transdisciplinaridade e ecoformação: um novo olhar sobre a educação. São
Paulo: TRIOM, 2008.
______. Uma escola para o século XXI: escolas criativas e resiliência na educação. Florianópolis:
Insular, 2009.
______. Formação docente e pesquisa interdisciplinar – criar e inovar com outra consciência.
Blumenau: Nova Letra, 2011.
TORRE, PUJÓL e SILVA, 2013. Inovando na sala de aula: instituições transformadoras. Blumenau:
Nova Letra, 2013.
VIECHENESKI, J.P.; LORENZETTI, L.; CARLETO, M.R. Desafios e práticas para o ensino de ciências e
alfabetização científica nos anos iniciais do ensino fundamental. Atos de Pesquisa em Educação. v.3, p.
853-876.2012. Disponível em:<http://proxy.furb.br/ojs/index.php/atosdepesquisa/article/view/3470>.Acesso
em: 10 de abr. 2013.
20
Download

Contribuições da Interdisciplinaridade para a Alfabetização