Espaço de Práticas em Sustentabilidade Casos Práticos / Via Pax Bio Um negócio maduro Ivo e Nilsa Gramkow, na propriedade da Via Pax Bio: promessa de bons negócios os levou a apostar nos orgânicos Em 2003, o catarinense Ivo Gramkow resolveu encerrar uma carreira de 27 anos como executivo de grandes empresas. Criado na roça, filho de um humilde tecelão, Gramkow havia batalhado para se formar economista e, por mérito próprio, estudou posteriormente em escolas de gestão de prestígio global (Insead, na França, e Kellog, nos Estados Unidos). Tanto ele havia conquistado e, no entanto, a vida corporativa não lhe agradava mais. Também formado técnico agrícola, Gramkow pensou em voltar às origens. Escoteiro, ambientalista e incentivador do associativismo, assim como a sua mulher, Nilsa, Gramkow resolveu, em 2006, investir no ramo de orgânicos. “Depois de muito pesquisar, chegamos à conclusão de que faria todo o sentido, pois, além da aderência a nossas crenças pessoais, também poderia ser um bom negócio.” Apesar de o mercado de alimentos orgânicos ainda ser modesto no Brasil (movimentou US$ 250 milhões em 2007, contra US$ 30 bilhões no mundo todo), a tendência é de forte crescimento. Segundo estimativas da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o país deverá movimentar US$ 3 bilhões em alimentos orgânicos até 2010 . Não à toa, Ivo e Nilsa Gramkow quintuplicaram suas vendas em 2008. Eles preveem crescer muito nos próximos anos, inclusive no mercado externo, graças à perspectiva de disseminação do consumo de orgânicos. Montar o próprio negócio exigiu dois anos de imersão na área de sustentabilidade. Depois de um período sabático no sítio da família, próximo a Joinville – hoje sede da sua empresa, a Via Pax Bio – Gramkow passou a frequentar feiras, exposições e eventos sobre alimentos orgânicos. Certa ocasião, ele ficou impressionado com uma palestra sobre o tema, proferida pelo empreendedor Marcelo de Cunto. Perguntou se Cunto poderia ajudá-lo a encontrar uma oportunidade de negócio. Cunto respondeu que ele próprio estaria disposto a vender a sua empresa. Com tamanho restrito, não estava obtendo lucro. 1 de 4 santander.com.br/sustentabilidade Espaço de Práticas em Sustentabilidade Casos Práticos / Via Pax Bio Gramkow comprou de Cunto apenas a marca Via Pax Bio. A fábrica, em Florianópolis, foi desativada. Uma nova unidade de processamento de alimentos foi instalada no sítio dos Gramkow, perto de Joinville. A região, diz o empresário, foi degradada durante várias gerações. Há 20 anos, quando ele e Nilsa compraram o sítio Rio do Braço, de 15 hectares, resolveram abolir todo tipo de produto químico. Reflorestaram o terreno com espécies nativas e recuperaram o solo, que voltou a ser fértil. “Fazia sentido construir a fábrica ali sem afetar o meio ambiente recuperado”, diz Gramkow. Para a montagem da processadora de alimentos, não houve necessidade de desmonte de morros nem de impermeabilização do solo. Não foi necessário aterro, pois a fábrica foi edificada em cima de pilotis, que são colunas que sustentam a construção a 2 metros da superfície do solo. Energia elétrica, água, esgoto e canalização de gás foram instalados debaixo do piso, permitindo fácil acesso para manutenção e flexibilidade para mudança de layout. O ar que circula por baixo do piso melhora as condições de conforto térmico do interior da fábrica. Os Gramkow procuraram utilizar na obra materiais de menor impacto ambiental, como tijolos fabricados por mão de obra familiar sem queima, tinta atóxica à base de água, telhas de fibrocimento e materiais reciclados nas divisórias dos banheiros, pisos e corrimões. Para a limpeza, são empregados detergentes orgânicos certificados. A fábrica foi projetada para racionalizar o uso de energia elétrica e para aproveitar a água da chuva – o que, fora o menor impacto ambiental, gera economia. As telhas são transparentes e há amplas portas e janelas. A ventilação é natural por aberturas no Produtos da ViaPaxBio: mercado de orgânicos teto e o pé-direito é bastante alto, o que deve movimentar US$ 3 bilhões até 201 torna a troca de calor mais eficiente e proporciona um ambiente agradável. Além de luminárias e equipamentos de alta eficiência e de sensores de presença, a empresa faz uso de energia solar, gás (GLP) e lenha a partir de parte das podas de manejo e galhos secos que caem dos milhares de árvores nativas do Sistema Agroflorestal (SAF) que circunda a fábrica – materiais oriundos das áreas de preservação permanente e reservas legais não são utilizados. Foi construído um sistema de captação de águas da chuva para uso nas descargas e as torneiras utilizadas são de classificação econômica. Certificação Atualmente, a Via Pax Bio trabalha com 50 itens, entre açúcares, farinhas, geleias, doces, achocolatados, grãos, polpas, óleos e néctares. Tem mais de 200 pontos de venda no Brasil, de pequenos varejistas a grandes redes de supermercados. Desde o plantio até o produto acabado, os processos produtivos seguem princípios sustentáveis. As áreas de preservação e reservas legais devem ser respeitadas; é preciso isolamento em relação a cultivos convencionais, de forma a evitar contaminação; os defensivos utilizados são biológicos e os fertilizantes são compostos orgânicos; os produtos devem ser naturalmente amadurecidos, sem uso de radiações ionizantes e conservantes artificiais ou outro aditivos; os produtos finais são embalados a vácuo, para evitar contaminação, proporcionar proteção natural e maior durabilidade sem perder a qualidade nutritiva. Entre 70 e 100 agricultores orgânicos fornecem matéria-prima para a empresa – dos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia e São Paulo. Antes mais modesta, a companhia trabalhava 2 de 4 santander.com.br/sustentabilidade Espaço de Práticas em Sustentabilidade Casos Práticos / Via Pax Bio apenas com agricultores do Planalto Catarinense (perto de Lages). “Um dos nossos objetivos é promover a inclusão social com a geração de renda e preservação da saúde da população rural”, diz Gramkow. Para as médias e grandes cidades, a produção orgânica é um mecanismo de preservação dos cinturões verdes, favorecendo a qualidade de vida da população urbana, principalmente quanto à garantia de preservação das fontes de água de qualidade. Mas como garantir que, de fato, os agricultores sigam todos os preceitos da agricultura orgânica? A Via Pax Bio foi uma das primeiras empresas orgânicas brasileiras certificadas de acordo com normas internacionais. O Instituto Biodinâmico (IBD), uma entidade sem fins lucrativos com origem na Alemanha, certifica não só a fábrica, mas todos os fornecedores da companhia. Depois de um levantamento de campo, é feito um planejamento para a transição do convencional para o orgânico (processo que pode durar mais de dois anos), e, posteriormente, inspeções verificam o cumprimento do programa. Todos os processos são mapeados e rastreados. “A certificação é importante para dar uma garantia ao consumidor final”, analisa Gramkow. O empresário avalia o aspecto socioambiental na escolha de todos os parceiros – até mesmo do seu agente financeiro. Antes de comprar a Via Pax Bio, Gramkow já era cliente do Banco Real (incorporado ao Santander em 2010) – e procurou estreitar o relacionamento após montar o negócio. “A principal razão da escolha que fizemos pelo Real é seu compromisso com a sustentabilidade”, afirma. “Ao estabelecer a sustentabilidade como base estratégica da Via Pax Bio, entendemos que todos os elos da cadeia deveriam estar caminhando na mesma direção, inclusive o prestador de serviços financeiros.” Gramkow é ainda conselheiro do Espaço Real de Práticas de Sustentabilidade, um programa que o banco criou em 2007 para trocar experiências e dar treinamento sobre sustentabilidade a clientes e não clientes. Gramkow, ao lado de Nilsa, chamou a atenção do banco por exercer um papel ativo de cliente ambientalista. “Levamos aprendizagem para a nossa vida prática e também ajudamos o banco a incrementar a sua visão de sustentabilidade.” Retorno financeiro e socioambiental A transição de uma agricultura tradicional para a orgânica demanda um período de investimentos superior a dois anos, pois exige ações para restabelecer o equilíbrio ambiental da propriedade. “Esperamos atingir o ponto de equilíbrio do fluxo de caixa em três anos e, a partir de então, obter um retorno sobre investimentos de 15% ao ano”, explica Gramkow. Apesar de não gastar com agrotóxicos e outros ingredientes, ainda falta escala para competir com a agricultura tradicional. O processamento na Via Pax Bio, por exemplo, é todo manual. Como resultado, os alimentos orgânicos custam, em média, 30% a mais do que os convencionais. “Se aumentarmos o volume, podemos automatizar a fábrica e ganhar em eficiência. À medida que houver aumento da demanda, os custos tendem a baixar e, com isso, os preços para o consumidor também caem”, avalia o empresário. As vantagens socioambientais da agricultura orgânica, no entanto, já são claras. “A produção orgânica ajuda a combater o aquecimento global, preservar a biodiversidade e a qualidade das águas. Meio ambiente preservado também é sinônimo de melhor saúde pública”, explica o empreendedor. O solo é protegido contra a erosão e aumenta a sua fertilidade no longo prazo. Há preservação da biodiversidade, de nascentes e matas ciliares. A empresa absorve mais gás carbônico do que o produz – ou seja, contribui para reduzir os fatores indutores do aquecimento global. E também oferece emprego e oportunidade a pequenos produtores. “Nossa expectativa de retorno sempre leva em conta dois indicadores: a sustentabilidade econômica financeira e a sustentabilidade socioambiental”, conclui Gramkow. 3 de 4 santander.com.br/sustentabilidade Espaço de Práticas em Sustentabilidade Casos Práticos / Via Pax Bio Ficha da Prática Empresa: Via Pax Bio O que faz: Processamento de alimentos orgânicos Prática: Tem uma produção certificada de alimentos orgânicos * Este case foi produzido no ano de 2009 e conta a história de uma iniciativa realizada antes da integração dos bancos Real e Santander. Para preservação do histórico, seu conteúdo não foi alterado. 4 de 4 santander.com.br/sustentabilidade