Copyright© 2012. Todos os direitos reservados à Editora Marca de Fantasia. Editora Marca de Fantasia Av. Maria Elizabeth, 87/407 João Pessoa – PB – Brasil 58.045-180 / Tel.: (83) 8885-1211 www.marcadafantasia.com E-mail: [email protected] Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo – Labedisco/UESB Estrada do Bem Querer, km 03 Bairro Universitário Vitória da Conquista – BA – Brasil 45.083-900 Tel.: (77) 3425-9392 www.uesb.br/labedisco E-mail: [email protected] Capa “Sem título”, aquarela sobre papel 29x28cm, 2003, Graça Gama. C385c CEDISCO – Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo / Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. V.1, n.1, ago./dez. 2012. – João Pessoa: Editora Marca de Fantasia, 2012. Periodicidade: Semestral Número temático: Brasilidade, subjetividades e corpo: em torno da literatura de Túlio Henrique Pereira. ISSN 2316-4697 1. Letras e linguística – Periódicos. II. Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. CDD:410 Elinei Carvalho Santana – CRB 5/1026 Editores Henrique Magalhães Nilton Milanez Secretário Alex Pereira de Araújo Comissão Executiva Ciro Renan Oliveira Prates Janaína de Jesus Silva João Marcos Mateus Kogawa Victor Pereira Sousa Conselho Editorial Internacional Barbara Lemaître (Sorbonne Nouvelle – Paris 3) Beatriz de Las Heras (Universidad Carlos III de Madrid) David Roas (Universidad Autónoma de Barcelona) Jean-Jacques Courtine (University of Auckland) Philippe Dubois (Sorbonne Nouvelle – Paris 3) Rémy Porquier (Nanterre – Paris X) Sophie Benoist (Sorbonne/ Paris VIII) Sophie Moirand (Sorbonne Nouvelle – Paris 3) Conselho Editorial Nacional Alexandre Filordi de Carvalho (Universidade Federal de São Paulo) Antônio Fernandes Júnior (Universidade Federal de Goiás) Carlos Felix Piovezani Filho (Universidade Federal de São Carlos) Cláudia Rejanne Pinheiro Grangeiro (Universidade Regional do Cariri) Cleudemar Alves Fernandes (Universidade Federal de Uberlândia) Conceição de Maria Belfort Carvalho (Universidade Federal do Maranhão) Denise Gabriel Witzel (Universidade Estadual do Centro-Oeste) Edson Carlos Romualdo (Universidade Estadual de Maringá) Edvania Gomes Silva (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) Elmo Jose dos Santos (Universidade Federal da Bahia) Fábio César Montanheiro (Universidade Federal de Ouro Preto) Flávia Zanutto (Universidade Estadual de Maringá) Flavio Garcia de Almeida (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Franscisco Paulo da Silva (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte) Freda Indursky (Universidade Federal do Rio Grande do Sul.) Helcira Maria Rodrigues de Lima (Universidade Federal de Minas Gerais) Henrique Silvestre Soares (Universidade Federal do Acre) Ilza do Socorro Galvão Cutrim (Universidade Federal do Maranhão) Ismara Eliane Vidal de Souza Tasso (Universidade Estadual de Maringá) Ivone Tavares de Lucena (Universidade Federal da Paraíba) João Bôsco Cabral dos Santos (Universidade Federal de Uberlândia) Jorge Augusto Alves da Silva (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) Jorge Viana Santos (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) Kátia Menezes de Souza (Universidade Federal de Goiás) Lúcia Ricotta Vilela Pinto (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) Lucília Maria Sousa Romão (Universidade de São Paulo) Luzmara Curcino Ferreira (Universidade Federal de São Carlos) Maíra Fernandes Martins Nunes (Universidade Federal de Campina Grande) Mara Rúbia S. R. Morais (Inst. F. de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás) Marcello Moreira (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) Marcos Lúcio de Sousa Góis (Universidade Federal da Grande Dourados) Maria Cristina Leandro (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Maria das Graças F. Andrade (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) Maria de Fátima Cruvinel (Universidade Federal de Goiás) Maria de Lourdes Faria dos Santos Paniago (Universidade Federal de Goiás) Maria do Rosario V. Gregolin (Univ. Est. Paulista Júlio de Mesquita Filho) Maria Regina Baracuhy Leite (Universidade Federal da Paraíba) Marisa Martins Gama-Khalil (Universidade Federal de Uberlândia) Marluce Pereira da Silva (Universidade Federal da Paraíba) Maysa Cristina da Silva Dourado (Universidade Federal do Acre) Monica da Silva Cruz (Universidade Federal do Maranhão) Nádea Regina Gaspar (Universidade Federal de São Carlos) Pedro Luis Navarro Barbosa (Universidade Estadual de Maringá) Pedro Ramos Dolabela Chagas (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) Roberto Alexandre do Carmo Said (Universidade Federal de Minas Gerais) Roberto C. S. Borges (Centro Fed. de Educ. Tecnológica Celso S. da Fonseca) Roberto Leiser Baronas (Universidade Federal de São Carlos) Roselene de Fátima Coito (Universidade Estadual de Maringá) Santuza Amorim da Silva (Universidade do Estado de Minas Gerais) Sidney Barbosa (Universidade de Brasília) Simone Tiemi Hashiguti (Universidade Federal de Uberlândia) Soraya Silveira Simões (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Sulemi Fabiano Campos (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) Suzy Lagazzi (Universidade Estadual de Campinas) Vanice Maria Oliveira Sargentini (Universidade Federal de São Carlos) Equipe de Revisão Técnica Vol. 1 / Nº. 1 Cynthia Agra de Brito Neves (Coordenadora) Ciro Renan Oliveira Prates Márcia Andréa Almeida de Oliveira Thaís Ribeiro Bueno Victor Pereira Sousa Normalização João Kogawa Revisão de Língua Espanhola Iris Nunes de Souza Revisão de Língua Inglesa Michael Douglas Silva Revisão de Língua Francesa Ana Paula de Oliveira Tomaz Diagramação Victor Pereira Sousa Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo - Labedisco Reitor Paulo Roberto Pinto Santos Coordenador do Laboratório Nilton Milanez Este número do Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo foi impresso em outubro/2012 pela DIGRAF/UESB. CADERNO DE ESTUDOS DO DISCURSO E DO CORPO O CEDISCO – Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo – surge dos trabalhos desenvolvidos no LABEDISCO/ UESB – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo, vinculado ao DELL - Departamento de Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia em consonância com o GRUDIOCORPO/CNPq – Grupo de Estudos sobre o Discurso e o Corpo – e as relações travadas com Grupos de Pesquisa afins de universidades brasileiras. Essa emergência de um pólo dentro da UESB na cidade de Vitória da Conquista reflete nosso desejo e empenho na circulação das problematizações e discussões que envolvem o corpo enquanto objeto discursivo, levando em conta as estreitas fronteiras que o discurso compartilha com área das Ciências Humanas. O CEDISCO é um periódico semestral de Letras e Linguística com ênfase nos estudos em Análise do Discurso. As questões científicas acolhidas aqui podem versar nas línguas portuguesa, inglesa, francesa e espanhola. A Editora Marca de Fantasia, que atribui o selo a este periódico, está vinculada ao NAMID Núcleo de Artes Midiáticas - do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB – Universidade Federal da Paraíba. Os trabalhos monográficos são submetidos tanto ao Conselho Editorial da CEDISCO quanto a consultores ad hoc. Os trabalhos podem ser submetidos por professores, pesquisadores de pós-graduação stricto sensu e doutores, desde que, em todos os casos, estejam vinculados a Grupos de Pesquisa. O objetivo do CEDISCO é popularizar a produção científica por meio de números monográficos que fomentem ao mesmo tempo os estudos discursivos no campo da pesquisa, da extensão e do ensino, colocando em evidência os lugares que o corpo e seus atravessamentos ocupam na constituição do sujeito dos dias de hoje, assim como destacar a materialidade dos suportes que os acolhem. Essa configuração tríptica entre discurso, corpo e seu suporte material, de um lado, delimita os contornos da produção científica e, de outro, alarga seus limites. Propomos, portanto, a investigação e apresentação de resultados em torno do discurso e suas materialidades verbais e não-verbais, da língua como materialidade à língua como imagem sonora, da imagem fixa à imagem em movimento, no qual o corpo, simbólico e fictício, se entrelaça a modos de ver e de sentir, produzindo formas de saber que (re)modelam nossas caminhadas nos vários campos da vida. SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ......................................................................................... 13-19 NOS MOVIMENTOS DA POESIA OS PERCURSOS DO SUJEITO E DA HISTÓRIA NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: EM TORNO DA POÉTICA DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA Antônio Fernandes Júnior..................................................................... 23-48 O CORPO QUE RESTA NA POESIA DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA Cynthia Agra de Brito Neves................................................................ 49-61 O POEMA ESPAÇO E SUA POTENCIALIDADE HETEROTÓPICA E INSÓLITA Marisa Martins Gama-Khalil ............................................................... 63-71 NAS TRAMAS DO CONTO SUI GENERIS Túlio Henrique Pereira ......................................................................... 75-78 A CONDIÇÃO DO CORPO NA ESCRITA DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA: SOBRE O CONTO SUI GENERIS Nilton Milanez ..................................................................................... 79-116 O OUTRO LADO DA VIA Túlio Henrique Pereira.......................................................................... 117-123 TÚLIO HENRIQUE PEREIRA, UN CREADOR DE IMÁGENES CON PALABRAS: LO VISUAL Y LO ESCRITURAL EN O OUTRO LADO DA VIA Beatriz de las Heras ............................................................................. 125-149 LUGAR INCOMUM Túlio Henrique Pereira.......................................................................... 151-155 O QUE QUER, O QUE PODE ESTE NARRADOR? Cleudemar Alves Fernandes ................................................................ 157-166 À FLOR DA PELE Túlio Henrique Pereira.......................................................................... 167-170 O SER LITERÁRIO NA ESCRITA DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA: UM PASSEIO POR SEUS CONTOS ERÓTICOS GAYS Jaciane Martins Ferreira........................................................................ 171-187 HÉRCULE Túlio Henrique Pereira.......................................................................... 189-211 NAS LUZES DO TEATRO UM OLHAR PSICANALÍTICO SOBRE A PEÇA ATOS DE PAIXÃO, DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA Renata Mello ........................................................................................ 215-227 NOS LINKS DO BLOG POÉTICAS DO CORPO, UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE PAUSE CAFÉ Graziela Andrade ................................................................................. 231-249 NA ORDEM CIENTÍFICO-EDUCACIONAL UM DIÁLOGO COM O CAMPO EDUCACIONAL A PARTIR DAS PROVOCAÇÕES DA OBRA DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA Santuza Amorim da Silva...................................................................... 253-261 NA TRANSMUTAÇÃO DA LETRA PARA O CORPO POESIA E DANÇA: O MOVIMENTO DAS PALAVRAS E A POESIA DO CORPO EM DUELO E O INVERSO DE UM Antônio Fernandes Júnior .................................................................... 265-272 APRESENTAÇÃO Este primeiro número do CEDISCO – Caderno de Estudos sobre o Discurso e o Corpo – discute o tema “Brasilidade, subjetividades e corpo: em torno da literatura de Túlio Henrique Pereira”. Poderemos acompanhar neste número as discussões que resultaram da “Jornada Internacional de Estudos”, em torno da literatura deste jovem escritor, ainda não conhecido pelo grande público, Túlio Henrique Pereira. A Jornada organizada compõe o quadro de atividades do Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e do Grupo de Pesquisa sobre o Discurso e o Corpo/CNPq, desenvolvido junto à Sorbonne Nouvelle – Paris 3, em cooperação com a Maison du Brésil, na Cité Universitaire Internationale de Paris. O evento foi realizado no dia 17 de junho de 2011 e contou com a participação de doze pesquisadores vinculados a centros de excelência em pesquisa no Brasil, na França e na Espanha, e ainda com a presença do escritor homenageado. Como divulgado naquela ocasião, o objetivo da Jornada foi discutir a literatura de Túlio Henrique Pereira, escritor brasileiro que se situa no universo das grandes obras literárias que são (ou estão) outsider do circuito das grandes editoras e do público leitor em geral. As linhas que guiaram esse encontro se basearam em três eixos: em quais condições se poderia falar de brasilidade na obra de Túlio Henrique Pereira? Quais são as subjetividades que emergem de sua literatura? Que função desempenha o corpo nessa produção literária? O objetivo principal foi o de se problematizar, analisar, 14 Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo interpretar e colocar em circulação a literatura de um escritor ordinário, questionando acerca de qual história sua obra nos conta. E é sob esse viés que vamos nos defrontar com a leitura deste Caderno de Estudos. A Jornada contou com apresentações e discussões que não fazem parte deste caderno como, por exemplo, a videoconferência realizada com a Professora Lúcia Ricotta Vilela Pinto, que analisou o poema intitulado “Duelo” e o conto “Cinco Minutos”, ambos de autoria de Túlio Henrique Pereira, ainda inéditos. Já as videoconferências das Professoras Beatriz de Las Heras e Marisa Martins Gama-Khalil deram forma ao artigo que as pesquisadoras apresentam aqui. Os poemas “Castelo de brisa” e “Independência ou morte” puderam ser ouvidos na voz de Cleiton Branco, e os respectivos áudios podem ser acessados no site Recanto das Letras, espaço literário de publicação virtual, que acolhe escritos de Túlio Henrique Pereira. A visualização dos conferencistas e o resumo da Jornada também podem ser acessados no youtube sob o título “Brasilidade Subjetividades Corpo – Túlio Henrique Pereira”. Contamos ainda, neste Caderno, com a publicação de três contos inéditos do autor. É o caso de “Sui Generis”, “Lugar Incomum” e “Hércule”. Os contos “O outro lado da via” e “À flor da pele” foram publicados, respectivamente, na Antologia Poética Amante das Leituras, pela Editora ADL do Paço de Sousa (Penafiel), em 2009, e na Antologia Amantes da Leitura, pela Editora Temas Originais, em Coimbra, 2010, ambas edições portuguesas. Vale ressaltar ainda que esses dois contos foram revistos e republicados nesta edição. Todos os poemas discutidos e analisados pelos estudiosos Apresentação 15 que participaram dessa Jornada podem ser lidos na íntegra ou parcialmente dentro dos artigos dispostos neste Caderno. A peça de teatro “Atos de Paixão”, também integrante deste Caderno, foi publicada posteriormente pela Editora Giostri, em São Paulo, este ano (2012). A seguir, uma apresentação do quadro de conferencistas e a programação da Jornada Internacional de Estudos “Brasilidade, subjetividades e corpo: em torno da literatura de Túlio Henrique Pereira”, a qual deu origem aos artigos que podem ser lidos a partir de agora no CEDISCO. Conferencistas Antônio FERNANDES JÚNIOR, teórico literário, Universidade Federal de Goiás, membro do Núcleo de Pesquisa em Cultura, Linguagens e Subjetividade/CNPq. Beatriz de las HERAS HERRERO, historiadora, Universidad Carlos III de Madrid, coordena as Jornadas de História e Cinema na Carlos III. Professora convidada da Universidade Federal da Bahia. Carolina NATAL, bailarina e pesquisadora de vídeodança, Paris 8/ Universidade Estadual de Campinas, membro do Grupo de Pesquisa sobre o Discurso e o Corpo/CNPq. Cleudemar ALVES FERNANDES, linguista, Universidade Federal de Uberlândia, líder do Laboratório de Estudos Discursivos Foucaultianos/CNPq. 16 Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo Cynthia Agra de BRITO NEVES, linguista, Université Stendhal 3 Grenoble/Universidade Estadual de Campinas, membro do grupo de pesquisa Estudos entre Psicanálise e Arte/CNPq. Graziela ANDRADE, bailarina e cientista da informação, ParisEst/Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Núcleo de Estudos das Mediações e Usos Sociais dos Saberes e Informações em Ambientes Digitais/CNPq. Jaciane MARTINS FERREIRA, linguista, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Goiatuba, membro do Laboratório de Estudos Discursivos Foucaultianos/CNPq. Lúcia Ricotta VILELA PINTO, historiadora e teórica literária, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/Universidade Estadual de Campinas, membro do grupo de pesquisa Teoria e História Social/ CNPq. Marisa Martins GAMA-KHALIL, teórica literária, Universidade Federal de Uberlândia, líder do grupo de pesquisa em Espacialidades Artísticas/CNPq. Nilton MILANEZ, linguista, Sorbonne Nouvelle – Paris 3/ Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, líder do Grupo de Pesquisa sobre o Discurso e o Corpo/CNPq, coordenador do Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo/UESB. Apresentação 17 Renata MELLO, psicanalista, Université Paris 7 Denis Diderot/ Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade/CNPq. Santuza Amorim DA SILVA, cientista da informação, Paris 8/ Universidade do Estado de Minas Gerais, membro do Núcleo de Estudos sobre a Formação e a Condição Docente/CNPq. Túlio Henrique PEREIRA, historiador e escritor, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, membro do grupo de pesquisa Escravidão e mestiçagens/UESB e do Grupo de Estudos sobre o Discurso e o Corpo/CNPq. Programação 8h - Acolhimento dos palestrantes e café da manhã na Maison d’Espagne (Cité Internationale Universitaire de Paris). 9h - Abertura de Nilton Milanez. 9h15 - Apresentação da produção audiovisual Os outros, por Nilton Milanez. 9h20 - Conferência “Percursos do sujeito e da história na poesia brasileira contemporânea: em torno da poética de Túlio Henrique Pereira”, por Antônio Fernandes Júnior. 10h - O autor por ele mesmo: Leitura do conto Lugar Incomum, por Túlio Henrique Pereira. 10h10 - Conferências “O que quer, o que pode esse narrador?”, por Cleudemar Alves Fernandes e “Entre a submissão e a autonomia: subjetividade, embaraço e desamparo” por Renata Mello. 18 Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo 11h-10 - Pause-Café. 11h30 - Áudio do poema “Castelo de Brisas”, por Cleiton Branco. 11h35 - Vídeoconferência “O poema Espaço e sua potencialidade heterotópica e insólita”, por Marisa Martins Gama-Khalil. 11h45 - Debatedoras: Jaciane Martins Ferreira e Cynthia Agra de Brito Neves. 12h - Áudio do poema “Independência ou morte”, por Cleiton Branco. 12h - Almoço na Maison d’Espagne (Cité Internationale Universitaire de Paris). 14h - Videoconferência “Túlio, un creador de imágenes con palabras”, por Beatriz de las Heras Herrero. 14h15 - Debatedor: Cleudemar Alves Fernandes. 14h30 - Conferências “Um diálogo com o campo educacional a partir das provocações da obra de Túlio Henrique Pereira”, por Santuza da Silva Amorim e “Poéticas do corpo: uma breve reflexão sobre o blog Pause-café de Túlio Henrique Pereira”, por Graziela Andrade. 15h30 - Debatedores: Antônio Fernandes Júnior e Renata Mello. 15h45 - Videoconferência “O Duelo com as palavras”, por Lúcia Ricotta Vilela Pinto. 16h - Debatedoras: Carolina Natal e Graziela Andrade. 16h10 - Pause-Café. 16h30 - Apresentação do videopoema “As palavras e as imagens”, de Fernando Faria. 16h35 - Conferências “O corpo que resta na poesia de Túlio Henrique Pereira”, por Cynthia Agra de Brito Neves e “O ser literário na escrita de Túlio Henrique Pereira: um passeio por seus contos eróticos gays”, por Jaciane Martins Ferreira. Apresentação 19 17h35 - Diálogo com o escritor “A escrita do (des)encontro: entre mim e o outro”, por Túlio Henrique Pereira e participantes. 18h10 - Pause-Café. 18h30 - Espetáculo de dança: “O inverso de um, duelo”, por Carolina Natal e Graziela Andrade. 19h - Encerramento. 20h - Jantar de confraternização em Saint-Michel. Nilton Milanez Vitória da Conquista, Bahia, setembro de 2012. NOS MOVIMENTOS DA POESIA OS PERCURSOS DO SUJEITO E DA HISTÓRIA NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: EM TORNO DA POÉTICA DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA Antônio Fernandes Júnior (Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão) (Núcleo de Pesquisa em Cultura, Linguagens e Subjetividade - CNPq) Preâmbulo introdutório: poesia e indústria cultural Atualmente, muito se tem discutido sobre mercado de consumo e sua influência no cotidiano de homens e mulheres na sociedade “pós-moderna”. Em função dos avanços tecnológicos e da (re)produção em grandes quantidades, o mercado, a todo momento, impõe-nos um número cada vez maior de produtos descartáveis, cujo traço predominante orienta-se para o consumo rápido, vinculados aos modismos de todas as espécies e formas. Somos, a cada minuto, incitados à compra e ao consumo. Rádio, televisão, internet, cartazes nas ruas etc. nos convidam, nos provocam e nos seduzem ao mundo “maravilhoso” do consumo. Por serem descartáveis, os modismos e, praticamente, toda a parafernália da vida moderna vivem sob o signo do efêmero. O que está no auge em uma semana pode não ter o mesmo efeito semanas seguintes. O cotidiano de homens e objetos está sendo guiado pelas forças de interesse e produtividade, com especial importância aos que ocupam um lugar privilegiado na hierarquia social, ou que se vangloriam de um bom status social, conforme Bosi (2000, p. 164). Eis o campo em que a poesia busca, ou tenta ocupar espaço, público e, acima de tudo, manter-se viva. 24 Antônio Fernandes Júnior O autor estabelece o seguinte paralelo entre a poesia e a indústria cultural: Quanto à poesia parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender. A propaganda só “libera” o que dá lucro: imagem do sexo, por exemplo. Cativante: cativeiro (BOSI, 2000, p. 165). A situação não é animadora, pois com a ausência dos movimentos de vanguarda poética1 nas duas últimas décadas, assistese a uma carência de projetos que envolvam ou determinem grupos e tendências, como gostariam alguns críticos que serão acionados neste estudo. Esse fato não se liga somente à poesia, mas ao contexto sociocultural oriundos da década de 80, a “década perdida”. Essa década pode ser caracterizada pela heterogeneidade de projetos e pela dispersão do texto e do sujeito, questões peculiares ao contexto pós-moderno. A relação entre o homem e a literatura é indispensável, de forma que o primeiro não consegue, no fluir cotidiano, ficar sem contato com alguma forma de fabulação. Entenda-se literatura aqui no sentido amplo, como sendo “todas as formas de toque poético ou dramático em todos os níveis de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações”, conforme assegura Candido (1995, p. 242). Nesse sentido, não há como 1 Referimo-nos aos três movimentos poéticos mais significativos do século XX: o Modernismo dos anos 20, o Concretismo nos anos 50 e a Poesia Marginal dos anos 70. Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 25 imaginar a ausência de modalidades literárias ou formas poéticas em qualquer sociedade, tribo ou civilização. São manifestações que nos acompanham durante o sonho ou por meio das anedotas, causos, revistas em quadrinho, canções populares, moda de viola, dentre outros. Elementos constantes no cotidiano de cada ser humano, com poderes variados dentre os quais se destaca a força encantadora de guiar o homem para outros mares e lugares, longe dos sofrimentos do dia-a-dia. Dessa maneira, se o homem está sempre em contato com alguma forma de fabulação, resta saber, no caso específico da poesia, como essa tem-se mantido no contexto atual e em que condições. Para tanto, retomaremos, ainda que de passagem, alguns momentos significativos da poética do século XX, buscando delinear um perfil do desenvolvimento da poesia brasileira. Em seguida, procederemos à discussão da obra O observador do mundo finito, de Túlio Henrique Pereira. Marcos da produção poética brasileira no século XX e a produção contemporânea O grande marco da modernidade da poesia brasileira acontece com a Semana de Arte Moderna, em 1922. É a partir desta data que a linguagem poética conseguiu romper com as amarras academicistas provenientes do Movimento Parnasiano. Do “Beletrismo” parnasiano passa-se ao uso da linguagem em que se tem uma aproximação maior entre a forma escrita da língua e a fala coloquial. As formas poéticas conquistam um quadro amplo em consonância com os movimentos de vanguarda europeia, traduzidos 26 Antônio Fernandes Júnior em linguagens poéticas sintonizadas com os costumes, tradições e práticas populares. Nesse sentido, surgem o poema-piada, os jogos humorísticos, a incorporação do folclore, a poesia concisa do cotidiano, o coloquialismo, as variedades rítmicas, as imagenschoque etc. Grande parte das conquistas poéticas dos modernistas aconteceram graças ao “padrão de atualidade” conquistado pelos poetas da primeira geração (década de 20), cujo traço característico foi a conciliação entre as novidades preconizadas pelas correntes de vanguarda europeias associadas ao contexto brasileiro, possibilitando assim “formas modernas de pesquisa e conhecimento da realidade do país” (p. 28), conforme assegura Simon (1999). A partir do impacto inicial das mudanças modernistas, consolida-se nos idos de 1930 a chamada tradição moderna de nossa poesia com a consagração de poéticas e poetas, tais como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cassiano Ricardo, Jorge de Lima e Murilo Mendes. Tal colocação aproxima-se do que Mário de Andrade (1972) designou como “atualização da inteligência artística brasileira”, tendo como princípio norteador a possibilidade de a cultura brasileira conseguir desenvolver-se sintonizada com os acontecimentos da modernidade internacional, sem perder de vista o nacionalismo e a realidade sócio-cultural do país. Juntamente com a atualização artística, segundo Mário de Andrade (1972), tem-se o direito à pesquisa estética, caracterizado pela conquista de novas linguagens e de maior liberdade ao poeta. Nos anos 50, com a vanguarda concretista, “o princípio de atualização estética” procurou a conciliação entre modernidade poética e modernidade tecnológica. A poesia, nesse contexto, Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 27 entra em contato com outros meios de comunicação e informação, oriundos da publicidade, das invenções científicas e tecnológicas. Segundo Simon (1999, p. 31), o movimento concretista “criou uma ideia de vanguarda diretamente ligada à mitologia da nova era industrial e tecnológica do pós-guerra”. Incorporando recursos das vanguardas europeias, os poetas passaram a seguir orientações das vertentes futuristas e dadaístas abandonando-se quaisquer resquícios expressionistas ou sentimentais. Houve também um recuo à poética de 22, no que essa apresentou de mais radical e “experimental”. O grupo liderado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari promoveu uma revolução total na linguagem poética com a criação de um novo espaço para a poesia. Um espaço com características gráficas, visuais e, acima de tudo, racionalmente planejado. Um espaço demarcado pelo uso de ideogramas, por rupturas sintáticas, por simpatia pelos termos nominais, desmembramentos vocabulares, por uma leitura não linear, uso dos espaços em branco etc. Portanto, o concretismo alterou consideravelmente o espaço de atuação da poesia, com o desaparecimento do sujeito poético em benefício da superfície gráfica e visual. Na verdade, trata-se do surgimento de um “novo” sujeito que se marca pelo efeito de ausência frente à técnica, atuando nas escolhas de linguagem. Um sujeito que se revela na construção do texto, no texto. Se a vanguarda concretista e a poesia de João Cabral2 buscaram 2 É digna de nota a influência da poesia de João Cabral nos rumos da poesia após os anos 50. Embora não esteja de todo envolvido com o movimento concretista, mas considerado pelos líderes desse movimento como precursor da Poesia Concreta, João Cabral desenvolveu uma poética muita próxima da Poesia Concreta em determinados aspectos, tais como o racionalismo, a contenção do impulso lírico, o uso de recursos lógico-discursivos, o rigor semântico, o tecnicismo do verso, etc. 28 Antônio Fernandes Júnior um postura poética antiexpressionista, configurando uma atitude formalista por excelência, o mesmo não se pode dizer em relação ao movimento da década de 70, a Poesia Marginal. Trata-se de uma produção poética em que há uma ressubjetivação da linguagem, caracterizada pelo estreitamento da distância entre o sujeito poético e o sujeito empírico. Tem-se, nessa vertente poética, espaço para “o registro confessional e biográfico, a anotação irreverente do cotidiano, a nota bruta do sentimento, da sensação, do fortuito etc.”, conforme Simon & Dantas (1984, p. 54). Tais traços, segundo os estudiosos, são de fácil identificação: a coloquialidade, a despretensão temática, o diálogo com o leitor, os jogos humorísticos, a simplicidade linguística no plano vocabular e sintático, a colagem, a brevidade, o uso de palavras de baixo calão etc. O objetivo maior do movimento constituiu-se em incorporar toda a tradição poética moderna, adotando uma nova forma de percepção da realidade, caracterizada pela retomada do lirismo abandonado pela vanguarda concretista e pela poética objetiva de João Cabral. Não se trata exatamente de incorporação, embora aconteça, mas de uma nova maneira de se relacionar com a literatura canonizada enquanto discurso legitimador. Nesse sentido, a Poesia Marginal configurouse como uma poesia jovem, não somente feita por jovens, mas com espírito de juventude, constituindo uma produção em que se procurou a realização plena do sujeito em termos vitais, emocionais e existenciais. Outra proposta irreverente do movimento da Poesia Marginal aconteceu em relação às formas de produção, consumo e circulação Tendência da poesia moderna, cujas origens estão em alguns textos de Drummond (Claro Enigma, Rosa do Povo), a quem o poeta dedica seus primeiros livros. Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 29 de poesia. Os poetas editaram suas próprias obras, mimeografadas ou não, vendendo-as em bares, teatros, cinemas etc. Organizadas em exposições, recitais, enfim, em formas anticonvencionais de consumo de poesia no Brasil, essas produções fugiram aos esquemas tradicionais do livro. Nesse sentido, a Poesia Marginal, ao buscar outras formas de divulgação da poesia, conseguiu atrair para si um novo público leitor de poesia que, “nos bailes da vida”, realizaram a triangulação autor, texto e leitor. Depois do período da censura, na década de 80, grande parte dessa produção foi recuperada em livro, por meio de edições bem cuidadas, que procuraram registrar a produção desses poetas em antologias e/ou livros do mesmo teor. Amplos são os debates sobre o valor literário dessa poesia que transferiu o significado poético tanto para as atitudes quanto para o texto em si. De qualquer forma, não resta dúvida acerca da importância do movimento, caracterizando-se como o registro poético (ou antipoético?)3 de uma geração subjugada pelo regime militar. A Poesia Marginal está intimamente ligada ao seu contexto de época, pois, ao conceber, conforme já dissemos, outras alternativas para circulação e consumo de poesia no país, os poetas driblavam a censura editorial, lutando por liberdade de expressão frente ao vazio cultural dos anos 70. Foi um movimento emblemático no contexto político dos anos 70, período marcado pela repressão política (ditadura), pela censura e pela violência policial, forças anticulturais por natureza e contra as quais essa vertente poética, a 3 Simon & Dantas (1985, p. 59), no texto “poesia ruim, sociedade pior”, apresentam um balanço crítico dessa poesia e do seu contexto de manifestação, discutindo origens, estilo, valores e problematizando uma série de questões referentes ao fenômeno, para o qual lançam a seguinte questão: “os poemas são mais banais que o mundo que os criou?” 30 Antônio Fernandes Júnior seu modo, reagiu. “Mas é importante reconhecer que essa literatura, na tentativa de criar uma outra linguagem, promove, ainda que de forma intuitiva e pouco organizada, uma reflexão sobre as linguagens já legitimadas” (HOLLANDA, 1981, p. 117). Com a abertura política no final dos anos 70, alguns autores dessa geração estabelecem diálogos com outros meios de comunicação de massa. Muitos poetas transitam da poesia para a canção popular (Wally Salomão, Paulo Leminski, por exemplo) obtendo outros meios de divulgação e penetração no mercado, tais como, o rádio, o disco, a TV 4, dentre outros, como já acontecera com Vinicius de Moraes e poetas letristas nos anos 60. No contexto dos anos 80, com o fim das vanguardas poéticas, o cenário da década “perdida” (regressão econômica e social) assiste ao fim de todos os radicalismos poéticos em suas diferentes versões, fato que gera, segundo Simon (1999, p. 34), desconfiança “na potência dos sujeitos como agentes transformadores da linguagem e da própria sociedade”. Para a autora, a década de 80 está caracterizada, poeticamente, por uma retradicionalização da poesia, ou seja, pela convivência pacífica de todas as formas poéticas conquistadas pela tradição literária que, agora, compõem o painel da década em questão. A década de 80, para Benedito Nunes (1991), tornou-se pouco ruidosa e sem grandes polêmicas e discussões teóricas no 4 Antonio Candido (1965, p. 165) ao discutir sobre a relação entre a literatura e os meios de comunicação de massa (o cinema, o rádio e a TV) afirma que esses veículos conseguiram “graças à palavra oral, à imagem e ao som (que superam aquilo que no texto são limitações para quem não se enquadrou numa certa tradição), que um número sempre maior de pessoas participassem de maneira mais fácil dessa quota de sonho e de emoção que garantia o prestígio tradicional do livro”. Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 31 tocante à poesia5. Para esse autor, a produção dos anos 80 não convive com a pressão pela busca do novo. Trata-se da poesia pós-utópica, conforme Haroldo de Campos (1997) a definiu, cujas feições são a “agoridade” (admissão realista do presente) e a pluralização das poéticas possíveis, pois o “novo” na poesia atual caracteriza-se pela intertextualidade, ou seja, a capacidade de o poeta saber revisitar a tradição e, dela e com ela, dialogar, parodiar, reescrever etc. O momento atual, envolvendo as décadas finais do século XX e início do XXI, caracteriza-se pela pluralidade de dicções e poéticas. Convivem nesse cenário formas poéticas que vão desde o soneto clássico aos versos de forte acento frasal e prosaico. Os diálogos dos poetas com a tradição são intensos e frequentes, revelando uma peculiaridade que se acentuou no início dos anos 80 e se estendeu até o momento atual. Adotando uma postura menos “conservadora”, diferente das posições de Benedito Nunes e Yumna Simon, citados acima, Heloísa Buarque de Hollanda (1998), no prefácio de sua antologia, que procura reunir um grupo de poetas, cujas publicações datam da década de 90, faz um balanço diferente da produção poética do final do século. Para a pesquisadora, o que marca a produção contemporânea é uma confluência de linguagens e temáticas, identificada por uma “surpreendente pluralidade de vozes, o primeiro diferencial significativo dessa poesia” [...] Assim, “em caráter irrevogável, a distinção entre poesia escrita, a cantada e a visual não se sustenta mais como defensável (HOLLANDA, 1998, p. 11-15). Existem, atualmente, diferentes concepções sobre o estudo 5 É necessário ressaltar que o vazio cultural não se restringe à poesia, mas também às demais correntes artísticas. 32 Antônio Fernandes Júnior da poesia recente, tais como os assinalados acima, que ora enaltecem o teor pluralista das produções e dos poetas, ora acusam-na de falta de um projeto poético coletivo que potencialize a linguagem e o sujeito no devir histórico. Sem dúvida nenhuma, a Semana de 22, a Poesia Concreta e a Poesia Marginal, juntamente com as vanguardas instauradas no século XX, redimensionaram as condições de produção e circulação da poesia no cenário nacional e internacional, sobretudo, o trabalho dos Concretistas, cujo alcance ultrapassou as fronteiras brasileiras e teve repercussão fora do país. As discussões sobre a visualidade, a sonoridade, as releituras da tradição, dentre outras, sinalizam um campo instigante e desafiador para o leitor e para o estudioso. Instigante pela riqueza expressiva e artística que a envolve e desafiador pela diversidade de estilos, ritmos e influências presentes nas suas produções. Conduzir o estudo da poesia contemporânea, estabelecendo como parâmetro a ausência de projetos coletivos ou o constante diálogo com a tradição modernista, não traz grandes contribuições, apenas diz o que ela não é. Foi-se o tempo de combates entre correntes e poéticas, quando ainda era possível identificar diferenças e rupturas entre vertentes literárias e torná-las motivos de invenção poética. Nesse contexto, o estudo da poesia contemporânea implica, para alguns, conforme citamos anteriormente, um certo grau de dificuldade, pois não se tem mais uma perspectiva de grupo, ou de um projeto coletivo, tal como existiu até meados dos século XX. Essa dificuldade é, segundo Capela (2006), também, desencadeada por uma dificuldade de se desprender do cânone e da estética modernista como elemento distintivo ou mediador na comparação. Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 33 Pensar agora a poesia brasileira de agora, uma necessidade urgente, demanda uma alteração de posturas e pressupostos que, infelizmente, teimam em dominar esse campo de reflexão, em particular no senso comum, mas também entre parte dos críticos e dos estudiosos. Antes de mais nada, talvez seja fundamental esquecer ou rasurar a imagem da poesia como Grande Arte, objeto transcendente; abandonar a mania insistente de procurar emanações místicas e míticas que teimariam em acercar-se dela, passando a considerá-la a partir do seu estatuto de coisa simples, corriqueira, de mera prática, de gesto e risco, expressão – lição, aliás, que tem modernistas canônicos entre seus principais divulgadores (CAPELA, 2006, p. 197). Deixar de lado a concepção de poesia como Grande Arte, junto às noções de Escola Literária, por exemplo, ratifica os questionamentos apontados por Foucault (1995), quando o autor discute conceitos que adquirem valores essencialistas ou de fundamento original ligados à obra, ao gênero etc. Tais categorias devem ser substituídas por outras que apreendam a poesia e a literatura a partir do “inacabado, do parcial, das dobras e retículas” (CAPELA 2006, p. 197).. Adotar esse tipo de postura, para a compreensão da poesia recente, corresponde à aceitação de que a literatura “não tem destino final, nem horário de chegada, muito menos condutor, e é puro devir, cujo caráter incontrolável e incortornável solicita ser experimentado como motivo de prazer, de angústia, por certo, mas não de raiva e impotência (CAPELA 2006, p. 197). A diversidade da produção poética contemporânea provoca, também, outros deslocamentos em relação à produção e circulação 34 Antônio Fernandes Júnior do texto poético na atualidade, possibilitando, conforme Antunes (1997), que a novidade surja de qualquer lugar do país, fugindo ao modelo centralizador de outrora, concentrado nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Contribui para esse movimento/ deslocamento, o uso de ferramentas como a internet, por exemplo, possibilitando um contato mais direto entre o público e o texto literário. Assim, por meio de sites interativos ou blogs na internet, poetas e leitores conquistam novos espaços e novas perspectivas de construir sentidos sobre a palavra poética e sobre a história desse país. É assim que jovens poetas, tais como Tulio Henrique Pereira, vem publicando seus textos e colocando-os em circulação na rede virtual. E é nesse panorama multifacetado que se enquadra, por exemplo, o livro de poemas O observador do mundo finito, obra sobre o qual discutiremos a seguir. O observador do mundo finito: apontamentos sobre a poética de Túlio Henrique Pereira O livro citado é composto por 59 poemas, cuja escrita oscila entre poemas longos e breves quanto ao desenho das estrofes. Os temas são variados e podem, a nosso ver, formar grupos “distintos”, envolvendo textos de temática amorosa, existencial ou de crítica social. A cada tema corresponderia um grupo de poemas. Essa subdivisão tem uma finalidade apenas didática, uma vez que muitos textos oscilam de um tema a outro, fugindo à classificação proposta. O livro não segue uma regularidade em todos os poemas quanto ao aspecto estrutural (métrica, rimas etc.), apresentando Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 35 textos com diversas formatações e dicções. Os poemas, em geral, são escritos em uma linguagem simples e não oferecem obstáculos ao leitor no contato inicial com o livro. Isso não significa falta de rebuscamento literário ou qualidade técnica, pois estamos diante de textos com forte densidade poética, reveladores do labor do poeta na escrita dos mesmos. São textos que inquietam e provocam, colocando o leitor diante de questões de seu tempo, tais como o medo, a solidão, o estar no mundo, a miséria humana, dentre outros. Conforme argumenta Branco (2008), no prefácio do livro, os poemas realçam o bom manuseio da língua portuguesa e incorporam os valores da cultura moderna, tais como o pluralismo e o ecletismo. Reitero as colocações do autor do prefácio e acrescento que não só os valores modernos, mas também, questões vinculadas à cultura contemporânea, na qual o livro se situa e sobre a qual fala. Ainda dialogando com o prefaciador, podemos dizer que, “vestido de sol”, o poeta contempla o mundo “finito”. Isso significa um outro modo de olhar o mundo, afastando-se de concepções idealizantes ou transcendentais tão comuns quando se discute poesia. Por esse motivo, o título do livro nos parece bem sugestivo, seja em relação aos temas, já mencionados, ou na maneira como são tratados poeticamente, seja no dizer. Reportando-nos ao tema proposto para a jornada, cuja proposta versa sobre subjetividade, brasilidade e corpo na obra de Túlio Henrique Pereira, acreditamos que a obra do autor problematiza questões vinculadas ao Brasil ou à brasilidade, para citar uma palavra do título do evento, mas o faz de forma diferente, quer dizer, não estamos diante de uma poética preocupada com a descrição pura das cores da terra brasileira (natureza, paisagem, homem etc.) 36 Antônio Fernandes Júnior ou mesmo da exaltação ufanista do país, como outrora se fez na literatura brasileira ou na história desse país, atendendo a interesses diversos. Não estamos diante de idealizações, mas sim, de um olhar atento aos conflitos, e contradições que assolam diferentes grupos de sujeitos, em diferentes situações. Os poemas do livro nos fornecem elementos para um outro gesto de leitura do contemporâneo, uma leitura do presente, e com ele, os seus desdobramentos (expectativas, medos, desejos, solidão), como em Castelo de brisa e Descarte. Nesses dias em que tudo se vende e compra: Sexo, amor, beleza, fraternidade Dias frenéticos, amigos “céticos” Um céu estrelado e o sol sem calor Não quero comprar o seu jeito novo Nem mesmo você (PEREIRA, 2010, p. 36) Ou: Nada me falta Porque nada tenho Não tenho a mim Nem a você e nem a ninguém [...] Desapareço quando penso Quando não penso inexisto (PEREIRA, 2010, p.27) Por outro lado, quando os poemas, ou parte deles, tocam em questões específicas sobre o Brasil, o fazem de forma irônica, crítica. Podemos observar esse aspecto no poema “Pigmeu”, quando encontramos a seguinte observação: Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 37 E sigamos assim todos desolados Assolados por um grito coletivo de gol Ou sob o choro de um pandeiro em plena avenida... (PEREIRA, 2010, p. 49) Ou, quando encontramos referências à prostituição infantil (“Aos treze”), à cor negra (“Atalho”), cujo realce e enaltecimento da cor ganha ênfase e ironia: Tenho pele de índio? Sangue de negro! Miscigenado até a raiz do cabelo A água Passeia pelos meus cabelos Crespos Curtos [...] Belos. (PEREIRA, 2010, p. 59) A voz do sujeito desse poema possibilita-nos apreender o lugar social ocupado pelo mesmo na sociedade, e essa voz não fala de qualquer lugar, mas de um lugar que desvela sua inserção em um grupo social com o qual se identifica e reafirma sua condição identitária. Ao exaltar a cor negra e valorizá-la, a voz que fala no poema delimita sua inscrição social e política, reafirmando a beleza e a estética do negro e, com isso, contrapondo-se a um discurso preconceituoso construído na e pela história do Brasil. Por isso, reafirmamos o tom de ironia e de crítica que os poemas desse livro apontam sobre o país, sem idealizações. 38 Antônio Fernandes Júnior Tais questões, destacadas de forma genérica, remetem-nos a um texto de Machado Assis que, nos idos do século XIX, chamava a atenção dos escritores sobre o tema do nacionalismo e sua articulação com a literatura, problematizando essa articulação a partir de um olhar desvinculado dos idealismos românticos. Para esse autor, a nacionalidade não pode se prender somente na exaltação ufanista da cor, da paisagem e do indígena, para citar esses exemplos, como modelo a ser seguido. Compreendo que não está na vida indígena todo o patrimônio da literatura brasileira, mas apenas um legado, tão brasileiro como universal. Não se limitem nossos escritores a essa só fonte de informação de inspiração. Os costumes civilizados, ou já do tempo colonial, ou já do tempo de hoje, igualmente oferecem a imaginação boa e larga matéria de estudo. [...] O espírito nacional não pode estar vinculado somente em obras que tratem de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito cabedais de nossa literatura. [...] Uma literatura nascente deve, ‘obviamente’, alimentar-se dos assuntos de sua região, mas não só! O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem de seu tempo e de seu paiz [sic], ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço (ASSIS, 1959, p. 04-05). Ainda que pese o distanciamento temporal entre o período histórico do texto de Machado de Assis e o momento contemporâneo, no qual se encaixa a obra poética em discussão, acreditamos que é possível trazer essa reflexão para a atualidade, sobretudo, quando Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 39 pensamos em outros olhares sobre o nacionalismo na literatura. Tal observação ganha mais ênfase quando Machado de Assis defende sua posição sobre o nacionalismo e afirma que o escritor dever ter “certo sentimento íntimo, que o torne homem de seu tempo”. Essa postura machadiana transcende o seu tempo e pode, a meu ver, ser aplicada a outros autores e épocas. É assim que vejo a poética de Túlio Henrique Pereira, uma obra marcada por uma reflexão sobre o presente, atenta às questões contemporâneas, seus significados e efeitos sobre o homem na atualidade. Feito esse parêntese em diálogo com Machado de Assis, outro traço comum à poética de Túlio Henrique Pereira vincula-se às reflexões sobre a subjetividade contemporânea, atravessada por questões diretamente ligadas à vida do homem no presente, no tempo presente. Isso nos leva às seguintes indagações: que subjetividades emergem nessa literatura? Quais articulações entre subjetividade e história? Como os poemas conseguem ler e dizer sobre esse sujeito e essa história? Uma primeira resposta pode ser formulada a partir do seguinte argumento: não há na obra “O observador do mundo finito” tentativa de descrição do sujeito e da subjetividade em termos absolutistas, essencialistas ou transcendentais. Trata-se de trabalho poético e discursivo, cuja ênfase recai na construção de percursos de sujeitos plurais, que vivenciam diferentes experiências, finitas, para dialogarmos com o título da obra, seja com o corpo, com o sexo e consigo mesmos. São posições-sujeito, como diria Foucault (1995, p. 61), uma vez que “o discurso é um campo de regularidade para diversas posições subjetivas”. Na poética de Túlio Henrique Pereira emergem diversos 40 Antônio Fernandes Júnior posicionamentos de sujeitos em distintas direções, seja no campo do desejo, dos medos ou das expectativas, filtradas por nosso “observador do mundo finito”. Há um distanciamento de termos transcendentais, como já argumentado, a fim de capturar/flagrar esses sujeitos no “ordinário do cotidiano”, em momentos fugazes de gozo e cansaço dos corpos extasiados ou à procura de um encontro. Tendo em vista as questões supracitadas, levanto uma breve discussão, sugerindo um rápido olhar sobre o ordinário do cotidiano presente nos poemas “Tia Maria” e “Tioripe” a seguir: Tia Maria Todo mundo diz que a tia Maria é doente mas Ela fala que o povo é que é demente e que ninguém sente o que o seu coração exala Tia Maria é bonita tem graça incalculada e uma calma ilimitada pra aconchegar no seu regaço o que lhe torna tenra e cheia de cuidado Ela não viveu no luxo Mas o lixo que ela traga torna o seu olhar amarelado profundo ...um luxo inalcançável por qualquer alguém qualquer que tente alcançá-lo O seu segundo filho, novo, padeceu e o seu prazer se escondeu num lugar que nem sei se ela o acha O seu primeiro filho, então crescido Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 41 trouxe ao seu aconchego dois frutos só pra contentar o descontentamento da tia Maria que é capaz de se sentar na varanda e olhar durante horas o resto todo do mundo ignorado pelo povo do mundo observados por ela que tampouco fala Ah... tia Maria tem graça consegue existir cautelosamente ao que os outros acham sem ser só a maria doente naquela tapera donde sua vida inteira cresceu florada e que agora se esconde de tantos que nunca souberam admirá-la. (PEREIRA, 2010, p. 23-24) Tioripe Eurípides era o nome dele Naquele retângulo de papel plastificado Pescava as letrinhas todo momento Dividindo a leitura do signo Com a recente lembrança do passado (...) Faz não Oripe! Faz não! Num sei o que os dois se achavam Mas se gostavam mez Assim mez com esse ze Dum modo diferente que só es sabiam E aquilo era vida pra mais de séculos Inté parecia que ocê tava infeitiçado véi! Ele num gostava nada nada Mas deixava outrora escapar um riso No canto daquela boca nervosa e ensimesmada 42 Antônio Fernandes Júnior Sua vez chega Perde as estribeiras, mas se lembra O cartão tá na mão Tioripe! Entrega logo ele pra moça bonita do guichê Recebe o benefício e vorta logo! Que não é pra amargar humor de Irda, visse! (PEREIRA, 2010, p. 25) Os poemas retratam dois sujeitos “ignorados pelo povo do mundo”, ou melhor, ignorados a partir de uma perspectiva de uma subjetividade capitalística, conforme Deleuze e Guattari, que desvaloriza o “ordinário” ou aqueles sujeitos considerados improdutivos dentro dessa lógica, desconhecendo os sujeitos que ficam à margem de uma “certa normalidade” construída e valorizada como tal. Todavia, aos olhos do poeta, são dois sujeitos na mesma condição dos outros (não se trata de desconhecimento de uma sociedade excludente) e que ocupam os seus espaços com um “jeito simples”, falando pouco (“Tia Maria”) ou usando o dialeto caipira típico de regiões interioranas do Brasil. Esses sujeitos vivem suas vidas, doando amor aos que os ignoram e recebendo seus benefícios de uma “parca” aposentadoria (“Tioripe”). Dois sujeitos velhos, aposentados pela idade e “pelo mundo”. Duas histórias comuns dentro de um país marcado pela pluralidade, rico e repleto de contradições. Dois corpos próximos ao fim da vida, cansados da luta (e de serem ignorados). Ambos, com seu jeito simples, de “observados” passam a observadores do mundo finito, com a sensação de missão cumprida. Flagrados pelo olhar do poeta, esses sujeitos, construídos na e pela história, ganham vida na Literatura de Túlio Henrique Pereira e Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 43 falam, a nós leitores, da simplicidade da vida. Sujeitos e histórias inventados na poesia, fabricados pelo discurso. Desloco-me um pouco dessa temática para discutir agora, dois poemas que versam sobre a temática amor/erotismo e sobre corpo/ subjetividade. “Fagulhas” e “Espaço”, respetivamente, exploram a relação amorosa sob pontos de vista e construção diferenciados, oferecendo-nos um outro enfoque temático em relação ao livro em estudo. Fagulhas A água de uma poça evapora lentamente Esvai-se a cada marcha abrupta que faz centelhas Nenhuma outra pessoa as vê como vejo Inspirando a mente num galgar de idéias Fazendo-me esquecer de lembrar você Os gravetos na fogueira lentamente se queimam Esvai-se a cada assopro de vento que faz centelhas Nenhuma outra pessoa as vê como vejo Inspirado – pequenas almas flutuando pelo ar Fagulhas... Como sonhos leves que galgam galgam até se apagarem Lentamente... Seu corpo cansado ao repouso na cama Simplesmente Enquanto ao observá-lo busco parâmetros Um paradoxo para justificar minha alegria em te ver Porque nenhuma outra pessoa o vê como vejo Conspirando ao inspirar-me, pressupondo-se [do seu 44 Antônio Fernandes Júnior riso Falso riso... Das poucas vezes em que me abraçou e se oferta Embora previsível, de tudo que oferece, vem isto: Fagulhas que galgam... Momentos... (PEREIRA, 2010, p. 43) ESPAÇO Fomos a Paris mas o gel que usamos no sexo era brasileiro Não que isso fizesse a diferença Só não mudou em nada. (PEREIRA, 2010, p. 73) Em “Fagulhas” pode-se destacar que o fogo, associado ao desejo, é comparado ao processo de evaporação da “água de uma poça (que) evapora lentamente”, e às fagulhas que queimam os gravetos, movidas pelo vento. Ambos os processos são lentos, focalizados em seu movimento lento de depuração. Nesse poema, o vapor, o fogo e os corpos “galgam”, pois são consumidos pelo desejo, constituindo momentos finitos de conjunção amorosa. Após queimarem, deixam marcas no corpo enamorado que, em uma tentativa de esquecimento, presentifica a paixão. O tom do poema evoca uma certa melancolia, marcada por uma memória inscrita no Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 45 corpo do sujeito e constitutiva desse corpo. Já o poema “Espaço”, curto e direto, como outros do mesmo livro, concede um olhar social/subjetivo/irônico dado ao espaço, ao sexo e aos sujeitos. O sexo, no poema, articula a inscrição social/espacial/ideológica dos sujeitos no mundo. Por isso, o tratamento social dado ao sexo atinge contornos que extrapolam as fronteiras geográficas e, literalmente, coloca-se em evidência, um distanciamento geográfico e ideológico entre Brasil e França. Qual a diferença? O que faz o sexo, por exemplo, diferente em um país ou em outro? Em uma perspectiva discursiva, o espaço, agenciado pelo sujeito, escapa ao dado empírico para ser visto como espaço discursivizado, construído no e pelo discurso. Nesse caso, temos um sujeito que, ao enunciar, posiciona-se como um sujeito inscrito em diferentes espaços sociais, compondo a cena enunciativa do poema. No verso “Fomos a Paris”, encontramos a afirmação da viagem e a afirmação do lugar. A cidade de Paris aparece no poema como aquela considerada como símbolo cultural e carregada de glamour: espaço da paixão? A euforia do sujeito, presente no início do poema, quebra-se logo a seguir, com o impacto expresso pela conjunção adversativa “mas”, no início do segundo verso (“mas o gel que usamos / no sexo / era brasileiro”). A expectativa eufórica, vista como algo que une os dois sujeitos, assim como o gel no sexo, desloca-se para o campo político (de Paris a Brasil, de Brasil a Paris). Estaríamos diante de um retorno à condição de brasileiro em terra estrangeira? O gel “era brasileiro” e os sujeitos também. O gel, posicionado entre o primeiro e o terceiro versos, funciona como elemento de união entre 46 Antônio Fernandes Júnior os corpos no sexo e também de ligação entre os versos no poema. Ao mesmo tempo, é o objeto que faz a passagem dos sujeitos eufóricos na capital francesa e no primeiro mundo retornarem à condição de brasileiros. Assim, temos, além da quebra do glamour com a cidade e o sexo, a perda do status de um namoro idealizado na “capital da paixão”. Para concluir essa leitura, temos a construção de uma posição sujeito que, ao se reconhecer como brasileiro e inferior, inferioriza-se. Ao mesmo tempo, o poema dessacraliza uma dada condição de subserviência do brasileiro em relação ao europeu, e também desconstrói um certo idealismo romântico atribuído à capital francesa, o namoro/sexo na cidade. Considerações finais Conforme o que foi explicitado no início desse estudo em relação ao mercado de consumo, pode-se dizer que a poesia e a arte em geral funcionam como forma de resistência à lógica consumista que invade nossos corpos, nossa casa e a vida em geral. A poesia nos oferece outros modos de dizer e ler o mundo, restituindo-nos a possibilidade de sonhar e de viver outros espaços e relações de alteridade. Felizmente, a poesia ainda consegue se salvar dos critérios de descartabilidade e de modismos próprios da indústria cultural, cuja feição se caracteriza pela efemeridade e repetição. O livro O observador do mundo finito enquadra-se dentro de um perfil de produção poética que consegue fugir à lógica capitalista e aos ditames da indústria cultural, provocando reflexões sobre o homem, a linguagem e a história. Esse livro, sob a óptica Os Percursos do Sujeito e da História na Literatura Brasileira Contemporânea 47 apresentada, coloca-nos diante de situações e de conflitos de nosso tempo, focalizados pelas lentes de um poeta atento aos movimentos dos corpos e dos sujeitos na atualidade. Referências ANDRADE, M. O movimento modernista. In: Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Martins Fontes, 1972. ANTUNES, A. O poeta e compositor Arnaldo Antunes fala de seu novo livro de poemas. In: CULT – Revista Brasileira de Literatura. São Paulo: Ed. Lemos, n. 4, novembro de 1997. ASSIS, M. de. 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O CORPO QUE RESTA NA POESIA DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA Cynthia Agra de Brito Neves (Universidade Estadual de Campinas / Estudos entre Psicanálise e Arte – Outrarte) (Université Stendhal Grenoble 3 / Centre de Recherche en Didactique de la Littérature – CEDILIT.) “ (...) Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. (...) Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era. Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. (...)” Carlos Drummond de Andrade 50 Cynthia Agra de Brito Neves A obra poética de Túlio Henrique Pereira foi-me apresentada há poucos meses, em razão desta Journée Internationale d’Études Bresilienneté, Subjectivités et Corps, organizada pelo Prof. Dr. Milton Milanez, responsável pelo Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo (UESB) e do Grupo de Pesquisa sobre o Discurso e o Corpo (CNPq), a quem agradeço pelo convite e pela oportunidade de participar deste evento, desenvolvido junto à Sorbonne Nouvelle – Paris 3, na Maison du Brésil. Conheci então as poesias de Túlio Henrique Pereira há pouco tempo e confesso que, para minha surpresa, deparei-me com uma obra moderna, em sintonia com muitos dos nossos poetas brasileiros. Poemas que dialogam com o lirismo de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade, poemas que herdam a irreverência de Oswald de Andrade e o experimentalismo formal dos concretistas – até mesmo de Ferreira Gullar, autor homenageado pelo poeta em sua obra. Entretanto, escolhi, em especial, um poema para este evento, ou mesmo o que poderia chamar de um evento-poema. Seguindo as palavras do mestre Antonio Candido (2006), “comenta-se qualquer poema; (mas) só se interpretam os poemas que nos dizem algo” (p. 29). Ou, na dicção do filósofo Jean-Luc Nancy (2006), tomar essa escrita poética como uma escrita que “touche au corps, par essence (...) L’écriture touche aux corps (...)” (p. 13). E o poema que me disse algo, ou melhor, o poema que me tocou, tocando assim também o meu corpo, foi “Imagem semelhança? (pais e filhos)” (PEREIRA, 2010, p.85-86), o qual transcrevo a seguir: O Corpo que Resta na Poesia de Túlio Henrique Pereira 51 Quando criança Na ciranda de roda Mamãe ralhava comigo - Boneca não é brinquedo de homem! Papai em seus ombros largos Braços longos Dedos fortes Coxas grossas Ventre cedido Barriga disposta Cabeça ereta e altivo Nada se parecia comigo Sequer aquela mulher furtiva - Menino olhe para frente Joãzinho não mostre o umbigo Porte-se direito Não curve as costas Não mostre o dedo Saliente o peito Diminua o riso Não perca a hora Desfaça o joelho Engrosse a fala Ande com calma Modos de mocinho Automatizo meus atos Inclinado a não querer Decidindo o já disposto Proeminente a contendas Disritmizo o meu gozo Automatismo dos hábitos: - Não soo avant-garde por querer! Uma leitura imediata da primeira estrofe remete a certa 52 Cynthia Agra de Brito Neves nostalgia infantil do eu-lírico, e pode-se dizer que o poema dialoga intertextualmente com Drummond, tanto no aspecto formal, quanto no pessimismo anunciado pelo poeta mineiro em seu “Poema de Sete Faces”(ANDRADE, 1997, p. 13): “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse-me: - Vai Carlos! ser gauche na vida”. A lembrança da infância pelo eu-lírico em “Imagem semelhança? (pais e filhos)” é também dolorosa: “Quando criança,/ na ciranda de roda/ Mamãe ralhava comigo”, uma vez que anuncia a primeira repreensão severa da mãe: “- Boneca não é brinquedo de homem!”. Observa-se aqui o trabalho estilístico do poeta na construção de aliterações: /r/, /m/, /b/ (roda/ralhava; mamãe/comigo; boneca/ brinquedo) e de assonância em /a/ (criança na ciranda), bem como um jogo paranomástico: criança/ciranda; roda/ralhava; mamãe/ comigo; boneca/brinquedo; enfim, criança/mamãe/brinquedo, o qual realça a linguagem infantil assumida pelo eu-lírico e desponta para a pergunta “imagem semelhança?”, à qual a relação entre pais e filhos, posta entre parênteses, responde e não responde. No verso final dessa primeira estrofe, o “ralhar” da mãe (“Boneca não é brinquedo de homem!”) situa-nos o lugar privilegiado e dominador que a figura materna ocupa nessa instituição familiar. Sua voz ressoa uma interpelação violenta, disciplinadora, limitadora, um discurso que opta pelo viés do “não”, age pela coerção, pela interdição, pela proibição da “brincadeira de boneca”, reatualizando assim a regra (FOUCAULT, 2006, p. 36) e reforçando o ritual simbólico segundo o qual “a boneca” não é brincadeira “adequada” aos meninos. Mauss (1934) classifica as técnicas do corpo reconhecendo O Corpo que Resta na Poesia de Túlio Henrique Pereira 53 que elas, de fato, dividem-se e variam de acordo com o sexo, “car il y a une société des hommes et une société des femmes” (p. 13). Assim como a “boneca não é brinquedo de homem”, a “ciranda de roda” também não é adequada aos meninos, pois como nos adverte o autor: “Il y a à distinguer la danse des hommes et celle des femmes, souvent opposées” (p. 19). A ciranda é uma brincadeira “dançada”, assim como o “balé”, logo não serve para os meninos, é típica dança de meninas. O mesmo para o “brincar de boneca”: brincadeira de menina, não serve para o sexo masculino. Para este, espera-se sempre o “jogar futebol”. Desse modo, a “bola” é brinquedo de menino, enquanto a “boneca” é brinquedo de menina: símbolos morais impostos pela sociedade. Trata-se de brincadeiras infantis ensinadas a cada sexo, de acordo com Mauss (1934), uma questão de “habitudes” que “varient non pas simplement avec les individus et leurs imitations, elles varient surtout avec les sociétés, les éducations, les convenances et les modes, les prestiges” (p. 8). São técnicas do corpo para as quais a criança é devidamente educada sob a tríplice consideração física, psicológica e sociológica. Uma educação que precisa ser, segundo o autor, tradicional e eficaz: “Il n’y a pas de technique et pas de transmission, s’il n’y a pas de tradition. C’est en quoi l’homme se distingue avant tout des animaux: par la transmission de ses techniques et très probablement par leur transmission orale” (p. 10). É essencial, portanto, que haja a transmissão das técnicas do corpo, que se ensinem as brincadeiras de criança que a mãe – e, por extensão, a sociedade – julga “adequadas” a cada sexo. Na segunda estrofe-espelho, a imagem devolvida não se oferece a uma identificação. A imagem do pai não antecipa o corpo 54 Cynthia Agra de Brito Neves em que a criança pode se reconhecer. Não se apresenta íntegra, mas disjunta, de forma metonímica: ombros largos, braços longos, dedos fortes, coxas grossas, ventre cedido, barriga disposta, cabeça ereta, altivo. Imagem estática, o pai é só corpo, ele não tem “voz” no poema, não “fala” como a mãe; é uma estátua de pai sugerida pela própria escolha morfológica que compõe a estrofe: substantivos (as partes do corpo) + adjetivos (as qualidades, as características que descrevem esse corpo) – e sem verbos de ligação. Seu corpo conota virilidade, exerce o duplo papel de pai: “representa a autoridade” e o “centro da revelação sexual” (LACAN, 2008, p. 86) – mas essa imagem em “Nada se parecia comigo”. Ou seja, o eu-lírico não se reconhece na imagem do pai; filho que não é à “imagem e semelhança” – como é ditada no livro do Gênesis1 – do seu progenitor, que, por sua vez, não serve de espelho a seu filho, sendo a criança a cria, a criação. Nancy (2006) joga um pouco com esse “mistério divino da criação”. Segundo ele: “En vérité, le corps de Dieu était le corps de l’homme même: la chair de l’homme était le corps que Dieu s’était donné” (p. 54). Desse modo, “la création”, continua, “la matière (...) essentiellemet se modifie: elle n’est pas une substance, elle est l’extension et l’expansion des ‘modes’ (...) elle est l’exposition de ce qu’il y a. Les corps sont l’exposition de Dieu, (...) pour autant que Dieu s’expose” (p. 55). Mais adiante, o autor brinca: “C’est bien pourquoi le corps de Dieu fait lui-même symbole pour toute notre tradition – c’est-à-dire, le corps de l’Homme, temple vivant de la divinité” (p. 65) e conclui: “Si l’homme est fait à l’image de Dieu, 1 “Façamos homem à nossa imagem segundo a nossa semelhança; (...) E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea criouos” (Gn. 1:26-27). O Corpo que Resta na Poesia de Túlio Henrique Pereira 55 alors Dieu a un corps” (p. 150). O eu-lírico, que é filho, e portanto criação, expõe em seus versos o corpo (em carne, em retalhos) do pai, buscando “a divina imagem semelhança” com ele, o que está em xeque desde o enunciado do título marcado por uma interrogação, reflexo da dúvida do eu-lírico, que procura sua identidade. Imagem e semelhança estão justapostas, uma em frente à outra, em espelho. A identificação à imagem permitiria reconhecer seu corpo moldado pelo corpo do pai, e então se frustra: o pai é “todo” esse corpo (em “partes” exposto), e, no entanto, não é “nada”, pois em “Nada se parecia comigo” – confessa. Não há identificação possível entre “pai” e “filho”. Tampouco a mãe lhe serve de imagem especular: “Sequer aquela mulher furtiva”, finaliza a segunda estrofe, e ela também se furta a dar a ele o assentimento a esse outro que ele é e não é no espelho. O eu-lírico continua à procura de sua identidade no “mundo narcísico” (LACAN, 2008, p. 35), mas não a encontra. A mãe é “aquela mulher furtiva”. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2009), “furtivo” é aquilo que se faz a furto, furtado, roubado; que procura passar despercebido; às escondidas, dissimulado, oculto, não detectado, fugidio; obtido por surpresa; algo secreto, clandestino, fora da legalidade, criminoso, culposo. É essa mãe, de certa forma misteriosa, dissimulada e furtiva, que retoma o “ralhar” na terceira estrofe do poema: “– Menino olhe para frente/ Joãzinho não mostre o umbigo/ Porte-se direito/ Não curve as costas/ Não mostre o dedo/ Saliente o peito/ Diminua o riso/ Não perca a hora/ Desfaça o joelho/ Engrosse a fala/ Ande com calma/ Modos de mocinho”. A estrofe é toda composta por verbos de ação ditados pela mãe ao filho. Ao contrário da estrofe anterior, 56 Cynthia Agra de Brito Neves em que o pai é imagem muda, aqui a mãe tem voz soberana sobre o filho. A sequência dos verbos no imperativo (“olhe”, “mostre”, “porte-se”, “não curve”, “não mostre”, “saliente”, “diminua”, “desfaça”, “engrosse” e “ande”) realça a “tirania doméstica” exercida pela figura materna, marcada por certo automatismo, “os traços de virilidade de seu próprio caráter”, sua “confiscação da autoridade familiar”, a lei paterna marcada pela fala da mãe. (LACAN, 2008, p. 92). Trata-se de uma “mãe de uma secura paradoxal e de severidade muda, por uma crueldade inconsciente na qual se traduz uma fixação bem mais profunda da libido” (LACAN, 2008, p. 90). Uma mãe autoritária que “educa” o corpo do filho, ensinando‑lhe as técnicas de postura, de andar, de olhar, de ouvir, de falar, ajustando seu ritmo, sua forma e seu movimento. Contudo, essa mãe – que havia interditado esse filho inicialmente, “na ciranda de roda”, no “brincar de boneca” – age agora de uma forma ambígua, pois dá ordens ao filho para que tenha postura. Entretanto, os modos que exige: “olhe pra frente”, “não mostre o umbigo”, “porte-se direito”, “não curve as costas”, “não mostre o dedo”, “saliente o peito”, “diminua o riso” e “ande com calma” sugerem que ela age como se estivesse educando uma “filha bailarina”, uma mocinha educada, o que ela deixa escapar em “Modos de mocinho”, no último verso da estrofe, quando o emprego do diminutivo devolve-lhe, sutilmente, a ternura materna, embora não desfaça a sua intervenção feminizante. De acordo com Mauss (1934), “L’enfant, l’adulte, imite des actes qui ont réussi et qu’il a vu réussir par des personnes en qui il a confiance et qui ont autorité sur lui. L’acte s’impose du dehors, d’en haut (…)” (p. 8). No poema, a pessoa de prestígio, que ordena, O Corpo que Resta na Poesia de Túlio Henrique Pereira 57 que autoriza, que aprova ou reprova as técnicas do corpo é a mãe do eu-lírico, ela é a autoridade social a que Mauss (1934) se refere e para a qual o corpo deve se adaptar: (...) Je crois que l’éducation fondamentale de toutes ces techniques consiste à faire adapter le corps à son usage (...) Je crois que toute cette notion de l’éducation des races (…): éducation de la vue, éducation de la marche - monter, descendre, courir. - C’est en particulier dans l’éducation du sang-froid qu’elle consiste. Et celui-ci est avant tout un mécanisme de retardement, d’inhibition de mouvements désordonnés (...) Cette résistance à l’émoi envahissant est quelque chose de fondamental dans la vie sociale et mentale (...) (MAUSS, 1934, p. 24). O corpo do eu-lírico, no entanto, não se reconhece na alteridade do pai nem na alteridade da mãe. Nas palavras de Nancy (2006), “Les ‘pères’ et les ‘mères’ sont d’autres corps, ils ne sont le lieu d’un Autre” (p. 104). É um menino qualquer, chamado de “Joãzinho” pela mãe (“Joãzinho não mostre o umbigo”) – aquele célebre “Joãzinho” das piadas, que extrai o riso dos outros, porque ele mesmo não pode rir: “Diminua o riso”, a mãe o reprime. “Joãzinho” é como o “José” drummondiano, aquele José do “E agora, José?”, aquele que é privado de seu próprio nome, da festa, do discurso, do carinho, do riso, do prazer, da utopia etc.: José, e agora? Joãzinho, e agora? Resta a ele oscilar entre o espelho e a memória. Quase sem saída, apagado, sufocado, humilhado e oprimido, o eu-lírico reage. É um corpo que reage ao se expor, que se põe 58 Cynthia Agra de Brito Neves em evidência; é um sujeito de um corpo que não se cala, que não se esconde. Ao contrário, ilumina-se, encontra seu lugar, abre-se ao mundo, explode (“s’éclarte”), ex-creve-se (“s’ex-crit”) na sua escritura; na sua poesia – e através dela – ele se liberta, ele existe, ele é. “Le corps serait alors une exposition du ‘soi’, au sens d’une traduction, d’une interprétation, d’une mise em scène. (...) Ici, l’exposition est l’être même (cela se dit: l’exister) (...) Le corps est l’être-exposé de l’être” (NANCY, 2006, p. 32) Essa revelação de “soi-même” eclode na quarta e última estrofe, quando o eu-lírico abandona o tom narrativo e testemunhal do poema para aderir a um lirismo confessional e um tanto contestador: “Automatizo meus atos/ Inclinado a não querer/ Decidindo o já disposto/ Proeminente a contendas/ Disritmizo o meu gozo/ Automatismo dos hábitos:/ - Não soo avant-garde por querer!” O eu-lírico automatiza seus atos para, em seguida, automatizar seus hábitos. Toma‑se aqui o automatismo psíquico, talvez uma alusão àquele automatismo pregado pelos surrealistas, cuja proposta era exprimir por escrito (escrita automática) ou por outras formas artísticas (através da pintura, por exemplo) aquilo que não obedece à ordem da razão, mas sim ao inconsciente, ao ilógico. O eu-lírico, “não por querer”, ou “inclinado a não querer”, quase “decidindo o já disposto”, deixa-se extravasar, faz “soar” seu grito de liberdade vanguardista, permite-se seguir, inconscientemente, o seu gozo, disritmizando-o. Afinal, reconhece-se como “avant-garde” – eis o seu alumbramento. Avant-garde no sentido de quem não aceita a norma, de quem rejeita o status quo, revolta-se contra a ditadura do corpo imposta pela mãe. Lança-se para diante, “proeminente a contendas”, ou seja, O Corpo que Resta na Poesia de Túlio Henrique Pereira 59 sobressaindo-se às disputas familiares, sendo desse modo que seu corpo resiste. Um filho que resiste para existir, ele-mesmo, a seu modo. Nesse sentido, é um corpo que “resta”. E agora me parece mais claro: resta como poema, tal como revelado nos versos de “Procura da Poesia”, na epígrafe drummondiana. Lá, o poeta mineiro ensina: “Não faças poesia com o corpo”, e entendo que o corpo é poesia, sendo esse o corpo que resta ao poeta, bem como em Túlio Henrique Pereira. Nos versos seguintes, Drummond continua: “Não recomponhas/ tua sepultada e merencória infância/ Não osciles entre o espelho e a/ memória em dissipação./ Que se dissipou, não era poesia./ Que se partiu, cristal não era”. O eu-lírico de “Imagem semelhança? (pais e filhos)” não recompõe a sua infância, ele a encena, justamente para que não se dissipe. “Restar”, em francês “rester” – permitam-me mais uma vez o uso do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa para explorar a polissemia do verbo – significa, entre outras acepções, “ficar, existir depois da destruição, da repressão; sobreviver”. E, ainda, “subsistir como resto ou remanescente”; etimologicamente, “restar” vem do latim (resto, as, ávi, atum, are) e significa, também neste caso, “ficar constantemente, persistir; resistir; sobreviver, restar”. No poema, o eu-lírico resiste à imposição dos movimentos, da postura, da fala e do andar ditada pela mãe; não aceita a repressão materna às suas brincadeiras infantis nem a castração de seu gozo (“diminua o riso”); no entanto, não se constrói como um herói, nesse sentido – e ironicamente – o poema, tomado como memória reconstruída do que foi, não tem um desfecho feliz. Despedaçado em fragmentos que restam pós-destruição, o filho subsiste, persiste em viver; é um corpo que sobrevive, é um 60 Cynthia Agra de Brito Neves corpo que resta, e resta feito poema, mais além da práxis mimética da IMAGEM SEMELHANÇA, a poiésis criação. Ali, em versos, o eu-lírico reage, rejeita, revolta-se, reconhece-se, resiste e resta. É no texto poético e somente nele que o eu-lírico pode ser sublimado, “heroicizado”. Seu corpo-poeta resta apenas na poesia, resta-poesia, res-poesia (coisa poética). E é na poesia que agora seu corpo se molda, se ex-creve, na ex-timidade do poema. Referências ANDRADE, C. D. Antologia Poética. 37. ed. Rio de Janeiro: Record, 1997. CANDIDO, A. O Estudo Analítico do Poema. 6. ed. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006. FOUCAULT, M. A ordem do discurso. Tradução Laura Fraga de Almeida Sampaio. 14. ed. São Paulo: Loyola, 2006. HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. LACAN, J. Os Complexos Familiares na formação do indivíduo: ensaio de análise de uma função em psicologia. Tradução Marco Antonio Coutinho Jorge e Potiguara Mendes da Silveira Júnior. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. MAUSS, M. Les Techniques du corps. In: Sociologie et anthropologie. 11. ed., Paris: Quadrige, 2006. (Article originalement publié dans le Journal de Psychologie, XXXII, ne, 3-4, 15 mars - 15 avril 1936. Communication présentée à la Société de Psychologie le 17 mai 1934). (Édition électronique réalisée avec le traitement de textes Microsoft Word 2001 pour Macintosh). NANCY, J. L. Corpus. Paris: Éditions Métailié, 2006.D O Corpo que Resta na Poesia de Túlio Henrique Pereira 61 PEREIRA, T. H. Imagem semelhança (pais e filhos). In: Antologia Amante das Leituras. Coimbra, Portugal: Temas originais, 2010, p. 85-86.ha infância querida O POEMA ESPAÇO E SUA POTENCIALIDADE HETEROTÓPICA E INSÓLITA Marisa Martins Gama-Khalil (Universidade Federal de Uberlândia) (Grupo de Pesquisa em Espacialidades Artísticas - CNPq) No entanto, sem ti sequer nos saberíamos o outro de um outro outro por sua vez de algum outro, em infinito corredor de espelhos. José Paulo Paes ESPAÇO Fomos a Paris mas o gel que usamos no sexo era brasileiro Não que isso fizesse a diferença Só não mudou em nada (PEREIRA, 2010, p. 73) Introdução No poema de Túlio Henrique Pereira selecionado para esta análise, desde o seu título “Espaço”, o leitor percebe que o foco 64 Marisa Martins Gama-Khalil lírico será a questão da espacialidade. O título, com a palavra espaço no singular, gera a expectativa de uma explanação lírica sobre um espaço em particular, todavia, logo nos primeiros versos, o poeta surpreende o leitor com a exposição de dois espaços geográficos: Paris e Brasil. Mais ainda do que simplesmente poetizar sobre esses dois espaços, o eu poético ressalta a simbiose entre eles. O elemento que propicia a simbiose é o gel, em função de sua viscosidade. O eu poético demonstra que esses espaços – Paris e Brasil –, apesar de distantes física e geograficamente, têm seus pontos de aderência espacial e criam fronteiras e intersecções imaginárias. Esses pontos de aderência, fundadores de fronteiras e intersecções, são criados pelo sujeito que neles se insere; eles são deflagrados pela posição que ocupam o sujeito e seu corpo nesses espaços geográficos. Assim, o eu poético, expondo sua subjetividade, por intermédio em especial da sexualidade, possibilita a simbiose entre Paris e Brasil. Como já foi pontuado, a viscosidade do gel é que desencadeia a aderência dessas pretensas espacialidades longínquas: “Fomos a Paris / mas o gel que usamos / no sexo / era brasileiro”. Em uma primeira leitura, a conjunção adversativa (“mas o gel que usamos” – grifo nosso) pode sugerir uma relação de apartamento, de distanciamento entre os dois espaços; porém, paradoxalmente, é a ideia de adversidade, conjugada ao efeito do gel, que despertará no eu poético a plausibilidade da simbiose espacial, pois ele constata que a identidade entre tais espacialidades é composta, não apenas de semelhanças e contiguidades, mas também de diferenças e aparentes contraditoriedades. Aliás, em teoria da poesia, aprendemos que todo paradoxo tem sua lógica, sua coerência. O paradoxo é uma “figura de linguagem que consiste em exprimir a opinião contrária ao senso O Poema Espaço e sua Potencialidade Heterotópica e Insólita 65 comum, tendo por aparência o erro, mas podendo conter a verdade ou parte dela” (CHERUBIM, 1989, p 50). E é nesse sentido que os próximos versos do poema implicam a exposição do paradoxo por intermédio da noção de diferença, que traz, em sua constituição interna, a ideia de identidade: “Não que isso fizesse / a diferença / Só não mudou / em nada” Assim, a constatação dos paradoxos aponta para a sugestão de que a alteridade constrói identidades, como no poema de José Paulo Paes usado como epígrafe desta análise – o outro só se constitui pelo outro. Tal alteridade é estabelecida não somente entre as espacialidades geográficas que insolitamente se cruzam em uma só localidade, mas também entre o corpo do sujeito que se desvela na voz poética e a do corpo do outro sujeito com quem ele compartilha o sexo. Aliás, o ato sexual é o gerador dos principais efeitos de simbiose no poema. A junção dos dois corpos, untados pelo gel, deflagra a junção de outros corpos, outras espacialidades, outros universos. Vemos que as palavras de Roman Jakobson sobre a relação entre o eu poético e o mundo são bastante reveladoras para entendermos a poesia em análise: “o ‘eu’ do poeta não se esgota nem se deixa abarcar pela realidade empírica” (JAKOBSON, 2006, p. 14). O eu poético de “Espaço” não é abraçado pelo mundo; pelo contrário, é ele quem açambarca o mundo e o transforma. O eu poético realiza, de forma exemplar, a singularização da noção de espaço. Pelo cartesianismo, esses espaços encontram-se em dois continentes diferentes, mas esses espaços geográficos não têm sentido sem a intervenção criadora dos sujeitos. Para entendermos um pouco mais a referida singularização operada por Túlio Henrique Pereira, vale trazermos para nossa discussão o conceito de Viktor Chklovski. Para 66 Marisa Martins Gama-Khalil esse teórico russo, o procedimento da singularização consiste no trabalho que busca causar o estranhamento no receptor: E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte é um meio de experimentar o devir do objeto, o que é já “passado” não importa para a arte (CHKLOVSKI, 1978, p. 45, grifos do autor). Em Espaço, o eu poético opera o jogo entre as palavras e as coisas por elas representadas de forma a criar o efeito de singularização. O sujeito poético relê os mapeamentos geográficos e desvela que o posicionamento dos corpos nos espaços não se dá de forma unidimensional. Com isso, ocorre o obscurecimento da noção tradicional de espaços e a revelação desses espaços como instâncias de devir. Por que esses espaços são considerados, em nossa leitura, como zonas de devir? A razão é o caráter de imprecisão e de imprevisibilidade que eles abarcam. Para Gilles Deleuze, o devir constitui-se não pela assunção de uma forma, como em uma simples imitação ou mimese; ele se constitui por intermédio da criação de uma zona de vizinhança entre os seres, e essa zona caracteriza-se pela indiscernibilidade ou indiferenciação, “tal que não seja possível O Poema Espaço e sua Potencialidade Heterotópica e Insólita 67 distinguir-se de uma mulher, de um animal ou de uma molécula” (DELEUZE, 1997, p. 11, grifo do autor); os seres, coisas ou espaços em devir são imprevistos porque não preexistem, eles “acontecem”. A construção dos espaços no poema segue a lógica do devir, já que a cidade de Paris espacializa-se através da criação de uma aderência com outro devir geográfico representado pelo Brasil, ou, mais especificamente, pelo gel brasileiro. Nesse sentido, o sujeito poético incita os leitores a perceberem os espaços (tanto os geográficos – Paris e Brasil – como os corporais) como tessituras múltiplas, fragmentárias, rizomáticas. Lembremo-nos de que o rizoma tem como princípios fundamentais de constituição a conexão e a heterogeneidade, uma vez que, ainda que seja constituído por elementos heterogêneos, “qualquer ponto do rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 13). Em virtude da movência das conexões, da possibilidade de acoplamentos e vinculações, o rizoma caracteriza-se pelo constante estado de devir, e é essa movência que incitará a desordem do já estabelecido e a criação de novas ordens – geográficas e de poder. As possibilidades de conexões várias inscrevem-se pela multiplicidade. Aliás, a multiplicidade é o outro princípio de constituição dos rizomas. As multiplicidades rizomáticas “se definem pelo fora: pela linha abstrata, linha de fuga, de desterritorialização segundo a qual elas mudam de natureza ao se conectarem às outras” (Ibid., 1995, p. 17). Portanto, a Paris que presencia o sexo que é realizado com o auxílio do gel brasileiro, já não é a Paris homogênea, um espaço singular, pois nela se entranha o gel e, com ele, todo o Brasil; da mesma forma, o gel brasileiro, ao ser usado em 68 Marisa Martins Gama-Khalil terras francesas, deixa que em sua viscosidade penetre percepções e sensações francesas; e é por isso que o eu poético constata: “Só não mudou/ em nada”. Não mudou porque os espaços já haviam se entranhado um no outro, e os dois corpos, no contato sexual, não sentiram a diferença entre a Paris entranhada pelo gel brasileiro e o gel brasileiro, já entranhado pelo ar, cheiro e formas parisienses. O poema em análise instiga-nos a pensar, dessa forma, que entre os espaços há muitas conexões, e essas somente serão sentidas, experimentadas, pela localização e percepção dos sujeitos, com seus corpos, suas sexualidades, suas dobras que são construídas pelas práticas de subjetivação. Os sujeitos são construídos em seus contatos com os espaços geográficos e sociais, bem como em seus contatos com outros corpos, com outros sujeitos. Para entender o sujeito, devemos compreender a sua relação com as espacialidades. Por isso, parece ser contraditório pensar, por exemplo, a história a partir das relações espaciais, porque o modelo mais usado até então é o que toma o tempo como dispositivo para fazer a história; contudo, como defende Foucault, o homem e o seu discurso devem ser pensados, antes, em sua relação com os espaços: Metaforizar as transformações do discurso através de um vocabulário temporal conduz necessariamente à utilização do modelo da consciência individual, com sua temporalidade própria. Tentar ao contrário decifrá−lo através de metáforas espaciais, estratégicas, permite perceber exatamente os pontos pelos quais os discursos se transformam em, através de e a partir das relações de poder (FOUCAULT, 1999, p. 90). O Poema Espaço e sua Potencialidade Heterotópica e Insólita 69 No poema, são os espaços que deflagram a constituição dos sujeitos, bem como o desenho de suas historicidades. A história do sujeito é inscrita pelo embate de seu corpo com os espaços; o sujeito, “com suas características, sua identidade, fixado a si mesmo, é o produto de uma relação de poder que se exerce sobre corpos, multiplicidade, movimentos, desejos, forças” (Ibid., p. 92). E o sexo, no caso do poema em análise, é o eixo, o movimento central que desencadeia a junção (insólita?) desses dois espaços – Paris e Brasil –; espaços esses que já trazem, em suas representações, imagens relacionadas a uma sensualização, a uma sedução. Por esse motivo, o autor destaca a palavra sexo, colocando-a em um verso destacado, eixo de todo o poema. Para finalizar, ressalto que toda essa construção espacial é de ordem heterotópica e lisa. Michel Foucault define o espaço heterotópico como aquele que incomoda, inquieta, já que ele é peregrino, pluriforme, justaposto. Os espaços heterotópicos “são espécies de lugares que estão fora de todos os lugares, embora eles sejam efetivamente localizáveis” (FOUCAULT, 2001, p. 415). O sujeito poético insere-se em um lugar fisicamente, contudo, pelo seu posicionamento sensual e transgressor, ele percebe que essa inserção é caracterizada por uma movência contínua. O espaço liso é definido por Deleuze e Guattari (1997) como sendo organizado como uma superfície que tende a se dissipar em contingentes direções. A construção do espaço liso possui uma propagação descentrada, composta por intermédio de transformações, metamorfoses contínuas. O acontecimento é que define a ordem do espaço liso. O sexo, no eixo, no centro, é o 70 Marisa Martins Gama-Khalil acontecimento deflagrador de uma perspectiva que passa a perceber as espacialidades fora dos estriamentos sociais. Em função do eixo sexual ressaltado no poema, não temos no poema apenas um corpo visto, mas um corpo sentido e é, em decorrência desse sentido, que o corpo relaciona-se com o meio, deixando-se modificar por ele e, ao mesmo tempo, modificando-o. Como esclarece Matesco (2009): A noção de imagem corporal não é um modelo fisiológico, mas supõe uma estrutura libidinal dinâmica que não para de mudar em função de nossas relações com o meio: é um processo contínuo de diferenciação e integração de todas as experiências incorporadas no curso de nossas vidas, sejam elas perceptivas, motoras, afetivas, sexuais. (MATESCO, 2009, p. 37) O processo contínuo de diferenciação e integração do corpo em relação ao espaço maior, o geográfico, propicia o processo de alisamento do que é estriado. Esse embate constrói a história do sujeito, sua dobra, fazendo com que ele, o corpo, desenhe-se como espaço primordial de uma prática de subjetivação. O sujeito poético, então, alisa os limites geográficos estriados pelos mapas e pela História. Ele interroga os limites estabelecidos entre as espacialidades de seu corpo e de outros corpos e cria uma fronteira caracterizada pela movência e pela aderência, além de nos mostra, por meio de metáforas espaciais, que os lugares, delineados como uma rede, são espaços de diálogo e embate, universos de contato, abertura. O Poema Espaço e sua Potencialidade Heterotópica e Insólita 71 Referências CHERUBIM, S. Dicionário de figuras de linguagem. São Paulo: Pioneira, 1989. CHKLOVSKY, Viktor. A arte como procedimento. In: EIKHENBAUM, B. et al. Teoria da Literatura: formalistas russos. Tradução Ana Mariza Filipouski et al. Porto Alegre: Globo, 1978. DELEUZE, G. Crítica e clínica. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. vol. 1. São Paulo: Ed. 34, 1995. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução Peter Pál Pelbart; Janice Caiafa. vol. 5. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1997. FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Tradução Roberto Machado. 14ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999. FOUCAULT, M. Outros espaços. In: Ditos & Escritos III: Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Tradução Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. JAKOBSON, R. A geração que esbanjou seus poetas. Tradução Sonia. R. M. Gonçalves. São Paulo: Cosac Naify, 2006. MATESCO, V. Corpo, imagem, representação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. PAES, J. P. Ao espelho. In: PAES, J. P. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. PEREIRA, T. H. Espaço. In: O observador do mundo finito. São Paulo: Scortecci, 2008, p. 73. NAS TRAMAS DO CONTO SUI GENERIS Túlio Henrique Pereira Recosta-se exausto na cadeira de madeira com assento acolchoado. Respira fundo ao ponto de extrair uma lágrima dos olhos, mas não permite que caiam. Na tela do computador o alerta do programa de conversação instantâneo lhe chama atenção. Pousa a caneca vermelha sobre o descanso na escrivaninha, cruza as pernas repousando um pé sobre o outro e ri, ainda com melancolia no rosto pálido e lânguido. Há dúvida para iniciar a conversa. Antes que o impulso leve as mãos a alcançar o mouse, para e olha para o lado esquerdo, olhos pequenos, testa franzida, grenha alvoroçada. Fricciona a parte superior do lábio com a arcada inferior de dentes inexplicavelmente corrigidos, brancos, belos. Coça com a mão os cabelos crespos com alguns pontos de lã. Acabara de levantar da cama deixando-a desarrumada. Ergue a cabeça e avista o teto, inspira fundo de forma lenta e racional. Os olhos procuram no azul da parede algo além da luz cintilando a íris. Estala os dedos das duas mãos, expira intenso e revolve a tela. As piscadelas do programa cessaram, embora permaneça em destaque. Lembra-se do leite com canela na caneca vermelha. Sorve um gole, dois... Quatro e já está frio há horas, ainda que note o dissabor apenas no quarto gole. Toca o mouse, mas não consegue abrir a janela de conversação. Agora um suspiro. Por quê? Uma forte corrente de ar penetra a vidraça entreaberta revoando as treliças. 76 Túlio Henrique Pereira Oh!? Nada além do vento sorrateiro despenteando a pequena sala azul com armários brancos modulados. O leite. Ali, dentro da caneca vermelha, choco. A tela acesa na área de trabalho cujo plano de fundo remete ao Saara. E seus olhos. Negros como a aspereza do luto. Perfídia de quem apenas deseja o encontro. O intento lhe toma. Faz-se o feito e ri, mesmo inerte ri, conservando-se pequeno o riso, ri de dentro para fora e se deixa levar: - Oh moleque como cê tá? – Lê a pergunta com a expressão da dúvida. Perdendo-se atrás de uma resposta. - Oi, tô bem e você? Nada nos próximos vinte segundos. Pensa com o indicador na iminência de fechar o programa, até se surpreender com uma nova mensagem: - Por que faz que não me vê? - Não faço que não te vejo. Só não quero ser inconveniente. Súbito. Teme perder o diálogo. - Pois fez, fiquei te esperando. Novamente coça a cabeça. Sorri e responde: - Então, tô aqui. - Tá muito triste nessa foto. Assusta-se observando a foto apresentada na janela do programa. Fecha-o e abre novamente para certificar-se de que se trata da mesma foto que vê. - Qual delas? - Nessa mesma. - Da boca? Como dá pra saber, só tem minha boca? - Mas uma simples boca fechada. Sui Generis 77 - É, acho que eu sou assim mesmo: uma simples boca fechada. - Abra, eu tô triste. Não sabe o que escrever em resposta ao que recebe. Pensa, franze a testa forçando os olhos para enxergar melhor o que lê. Não pode ser! Mas está escrito. Pretende seguir sem prerrogativas: - Por que você está triste? Quando falo eu falo demais, muitas palavras e gosto... isso incomoda você. Não precisa de minhas bobagens. - Cê não fala bobagens. - Mas também não falo, ninguém nunca ouve. Ninguém. - Ouve quando cê fala? Paralisa. Como assim “Ouve quando cê fala?”. Espanto de quem duvidasse ser o mesmo com quem mantinha diálogo. Suspira e replica: - Às vezes sim, mas não preciso me levar a sério, Rafael. - Me chama de novo de Rafael? Adoro ouvir cê me chamar. Sorri com amplidão, descendo a ponta do nariz em direção à boca, enrugando as bochechas. A diversão inesperada lhe atrai, mantendo-a no diálogo vazio e desencontrado sem idéia do que acontecerá. Eriça para digitar nervosamente as palavras: - Rafael, como é se sentir imortalizado? - Sempre quero ouvir você me chamar! - Me diga, como se sente sendo imortalizado? - Eu sou para os que gostam de mim. - Talvez você nunca tenha oportunidade de ler o que escrevi sobre você. - Pô! Me sinto muito bem! - Queria saber como você se sente... você está imortalizado 78 Túlio Henrique Pereira em palavras, num ideal de amor impossível, desencontrado... incompreendido. - Isso é utopia? Minha vida falha e ouve sempre um grito... Não acredita no que lê, desfaz o sorriso construindo uma preocupação singela e consternada. Tem dúvida se insiste na pergunta, por isso se resguarda no pensamento e tentativa de análise da última frase. Os dedos nervosos impulsionados tentam algumas palavras, mas as deletam. Não pretende ser inconveniente. Não o quer, precisa que ele esteja entregue e necessitado de sua resposta, contudo, ele não responde. Novamente uma segunda tentativa de forçar a questão, por fim se resguarda e suspira fundo. Levanta-se e vai até a cozinha num balouçar descompassado de pernas lisas e cumpridas. Os pés descalços deixam o assoalho manchado de suor à medida que segue o próximo passo, no tornozelo uma tornozeleira prata com pingente de crucifixo caindo sobre os pés longos e formes. Retorna com um copo d’água pela metade. Ao se sentar na cadeira a camisa do pijama se levanta na altura do cóccix, em que se vêem algarismos romanos tatuados na pele alva seguidos de palavras em vermelho. Um erre delineado se esconde atrás do tecido que oculta o latim de um verso iniciado em ‘D’ no caminho dos pêlos penetrando as nádegas manchadas com leves estrias. Substitui o descanso e digita anedotas na caixa de diálogo encerrada sem que ele entenda ao menos o porquê. A CONDIÇÃO DO CORPO NA ESCRITA DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA: SOBRE O CONTO SUI GENERIS Nilton Milanez (Sorbonne Nouvelle – Paris 3/Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) (Líder do Grupo de Pesquisa sobre o Discurso e o Corpo – CNPq / Coordenador do Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo – Labedisco/UESB) A condição de quem escreve Por que o escritor escreve? Por que a personagem escreve? Quem fala quando se escreve? Essas são três perguntas que surgiram como questionamento quando li o conto Sui generis, de Túlio Henrique Pereira. A escritura como inscrição no mundo é a voz sufocada com formato de letra que alça aquele que escreve à vida, seja esta do nosso mundo próprio com tudo aquilo que temos do outro, ou que ainda seja a vida do mundo do outro com tudo que temos de nós mesmos, mas que não sabemos bem definir o que é. Assim, a singularidade mais íntima da personagem sem nome de Sui generis se fixa paradoxalmente no mundo, existindo por meio do outro com o qual fala em um bate-papo on-line. Paradoxal, uma vez que a perspectiva que nos dá nossa identidade no mundo são as marcas de nosso próprio nome, entretanto, esse tipo de personalização, a personagem que vive o momento de acordar e falar na web não tem. Ele é Sui generis talvez pelo fato de se inscrever em um regime de existência na qual o outro é o espelho do que ele é, o 80 Nilton Milanez outro é aquele que constitui quem ele é. Mais especial que ter um nome, o que estabelece sua existência no mundo foge à norma social identitária da nomeação de si por um código social para ser apresentada por meio de um ato: escrever. Ao longo da leitura do conto, vimos, então, a personagem se construir por meio de uma experiência de si mesma na narrativa, clivada pela presença virtual de Rafael, do outro lado da tela. Verificamos, assim, que a existência da personagem em relação a Rafael é que nos revela uma produção do ser e delineia a construção do que Foucault (REVEL, 2006) compreende como subjetividade, ou seja, a consideração dos modos pelos quais o sujeito se escreve e se inscreve na história dos seus dias. É a escrita de Túlio Henrique Pereira que nos revelará os seus modos de inscrição e de sua/nossa personagem na história. Como são mostrados esses modos de inscrição, as subjetividades daqueles que escrevem – autor e personagem? Por meio da seguinte enunciação: “É, acho que eu sou assim mesmo: uma simples boca fechada” (PEREIRA, 2012, p. 77), extraída do insólito diálogo entre as personagens no conto. Descreve-se aí a forte presença de uma certa maneira do sujeito se relacionar com o mundo, não apenas relação entre interlocutores, mas a escrita de sujeitos que dizem o que suas bocas não podem falar. Falam porque escrevem. “Escrever para não morrer, como dizia Blanchot” (FOUCAULT, 2006a, p. 47). Escrevem para falar o que a voz não diz. O mais difícil desse jogo, porém, é saber quem está presente e ausente nessa escrita, quais são os feixes de poderes ali presentes, quais as intimidades opacizadas, quais instituições e grupos sociais ali se materializam, quais indivíduos se multiplicam no entremeio da A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 81 conversa escrita de dois personagens, nas entrelinhas que libertam autor e leitor diante ou atrás de uma tela de computador. Mais especificamente, quero frisar que falo, aqui, ao mesmo tempo das condições de produção da narrativa, de nossa posição enquanto leitor e de nossa condição diante de nossas próprias vidas. Esse tripé, tão intimamente tecido, produz uma trama que narra uma história única, aquela das nossas maneiras de ser e de se comportar face ao material e ao virtual. Falo, então, das fronteiras que constroem os nossos limites enquanto pessoa, “sobretudo, sobre a própria capacidade de sentir” (HAROCHE, 2008, p. 123), que revela nossos traços enquanto sujeitos antropológica e historicamente orientados, assim como dos feixes de poderes que constituem o sujeito e o colocam no centro das discussões (Foucault, 1995). Perseguirei, portanto, aqui essa questão, ao mesmo tempo teórica e metodológica, para investigar qual configuração e marcas da escritura de Túlio Henrique Pereira (doravante T. H. P.), a começar pela narratividade emudecida em Sui generis (2012). Sui generis: a repetição da linguagem A narratividade de Sui generis gravita essencialmente sobre três eixos: primeiro, um tipo de repetição que nos remete à memória de outros textos, tanto da literatura clássica nacional, como também da produção literária de T.H.P; segundo, a repetição do espaço virtual que abre e fecha a narrativa; terceiro, a eroticidade do corpo que domina o espaço virtual e material. Difícil dividir o que ficticiamente já é constitutivo. Não tenho essa intenção. Busco, sim, mostrar o encadeamento dos vértices desse triângulo para compreendermos de 82 Nilton Milanez que maneira se molda e sob que moldes se organiza o sujeito na narrativa. O primeiro mergulho no conto é pelas suas linhas iniciais, que vou dividir em três momentos. Vejamos como o narrador nos apresenta as personagens e a forma da linguagem escolhida para materializar essa introdução: (1) Recosta-se exausto na cadeira de madeira com assento acolchoado. Respira fundo ao ponto de extrair uma lágrima dos olhos, mas não permite que caia. (2) Na tela do computador o alerta do programa de conversação instantâneo lhe chama atenção. (3) Pousa a caneca vermelha sobre o descanso na escrivaninha, cruza as pernas repousando um pé sobre o outro e ri, ainda com melancolia no rosto pálido e lânguido [destaques meus]. (PEREIRA, 2012, p. 75) Na primeira parte dessa sequência narrativa, há um aspecto que me chama muito a atenção e que pode ser verificada ao longo da obra de T.H.P. Estou me referindo a uma linguagem que, observada do ponto-de-vista de hoje em dia, destoa e entra em desarmonia com a maneira do indivíduo hipermoderno que somos pensar e se expressar. Há marcações linguísticas no extrato (1) que me fazem rememorar narrativas clássicas e românticas. Tomo como exemplo o romance Senhora, de José de Alencar, publicado em 1875, na época do Segundo Império. Nele, podemos encontrar várias referências semelhantes concernentes ao tipo de expressão linguageira e também à escolha na construção do ambiente de abertura do conto. Obviamente, a percepção é um fator de lembrança que coloca em evidência uma memória coletiva em relação à literatura régia A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 83 nacional. Essa percepção produz um efeito de repetibilidade, como forma de repique, eco, da linguagem acessada. Observemos a “presença da palavra repetida na escrita” (FOUCAULT, 2006a, p. 47), que eleva a memória à condição de repetição na literatura, aqui, em Senhora: A moça trajava um vestido de gorgorão azul entretecido de fios de prata, que dava à sua tez pura tons suaves e diáfanos. O movimento com que, apoiando sutilmente a ponta da botina no estribo, ergueu-se do chão para reclinar-se no acolchoado amarelo da carruagem, lembrava o surto da borboleta, que agita as grandes asas e se aninha no cálix de uma flor (ALENCAR, 1875, s/p.). Nessa passagem, a imagem do acolchoado está em similitude com “na cadeira de madeira com assento acolchoado”, como também o tipo de organização enclítica em, “ergueu-se e reclinarse”, análogos estruturalmente a “recostar-se”, cuja forma remonta a um uso linguístico bastante antigo e da norma culta padrão de hoje, fazendo a linguagem do conto de T.H.P. frigir um estranhamento do embate entre um tipo de linguagem mais informal com a norma culta. Certamente, não podemos focalizar o objeto em si, mas o tipo de produção linguageira discursiva característica de um tipo de literatura em época específica de nosso passado produz, em um texto com tons informais, a produção de um discurso à moda antiga. Da mesma forma, proponho que olhemos para nossa heroína em Senhora: “Apoiando a fronte à ombreira da janela deixou cair as lágrimas que lhe assoberbavam o seio”, que, diferentemente de 84 Nilton Milanez nosso personagem do conto, busca “extrair” uma lágrima, que não tem permissão para cair. A utilização de uma forma verbal como “extrair” (extrair o néctar, retirar com dor?) leva a narrativa às beiras do kitsch, às vezes ao reproduzir ambiências e expressões esdrúxulas na produção e leitura de sujeitos de nossa atualidade. Em ambos os casos citados, as formações românticas são congruentes entre os tipos de discursos melancólicos e assoberbados que fazem as obras se cruzarem. Tenho certeza de que muitos podem colocar em cheque esse tipo de relação, mas esse tipo de (re)construção do texto de T.H.P. se justifica por meio de um campo associado de imagens possíveis para um leitor letrado mediano com educação convencional de ensino médio. Essas imagens, não necessariamente as construídas em Senhora, fazem parte do discurso de nosso universo da literatura brasileira do século XIX. De qualquer forma, Senhora funciona, aqui, como uma metonímia para um conjunto de imagens produzidas pelo cânone literário, e reforça formas de existências simultâneas no funcionamento para interpretação e análises de discursos, para o qual não há uma fonte original dos discursos, mas uma gravitação de posições e posicionamentos dos sujeitos ao longo do tempo e na história. Nesse sentido, temos mescladas memórias individuais a memórias coletivas, como já bem descreveu Halbwachs (2006), que fazem parte da disciplina pedagógica de nosso grupo social. Estabelece-se, assim, que a repetição da linguagem, aparecendo como forma de paráfrase ou recitações de discursos alhures (COURTINE, 2006), é um traço essencial para a produção dos discursos, caracterizados pela sua heterogeneidade ao fazer A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 85 irromper imagens concentradas em um período histórico literário, assim como pela descontinuidade dessas irrupções, enlaçando a literatura de hoje aos fios da literatura de ontem. O que vemos como efeito de produção discursiva nessa relação de largo escopo com a literatura romântica e a narrativa de T.H.P. é um eco da linguagem. Foucault (2006a, p. 55) tratará disso em termos de “reduplicação da linguagem”, apontando-a como constitutiva à obra, além de evidenciar que os signos que podem aparecer nessa obra devem ser lidos como indicações ontológicas. Pensar sob essa perspectiva significa dar à linguagem o seu valor de infinito, repetindo sempre o que já havia sido em algum lugar dito e abrindo portas para um novo dizer. Essas breves razões alicerçam esse tipo de método para a leitura encetada, que se baseia no ser da linguagem enquanto ser, com existência histórica, enredada pelos ramos de uma genealogia literária descontínua, da qual tratarei um pouco mais, logo adiante, ao discutir sobre as formas de repetibilidade. Isso posto, pergunto-me quais efeitos de sentidos são produzidos a partir desse tipo de encadeamento exterior ao conto e também no interior dele, nas sequências (1) e (2)? Ora, em oposição ao período (1) de abertura do conto e às imagens memoriais que ela evoca, temos uma mudança drástica de ambiente (2) anteriormente criado sobre o antigo e o nostálgico. Reconhecemos, então, que estamos diante de uma tela de computador! Essa importante ruptura de um espaço a outro nos lança a um desequilíbrio geográfico-social, desestabilizando a condição de sujeito e apontando o dedo para o fato de que fazemos, enquanto leitores, parte de um jogo. No que se refere à construção da personagem, vemos que essa desestabilização é intrínseca à 86 Nilton Milanez formação conflituosa que descreve o sujeito da narrativa, como também seu próprio desconforto na relação entre escrever, falar e sentir. De outro lado, isso também faz com que verifiquemos que, nós, sujeitos leitores, somos determinados pelas condições de produção pedagógicas de nossa época e que nossa interpretação está presa a essa rede. Estamos, tanto quanto a personagem do conto, enlaçados a um passado que, remodelado, faz reviver um presente. Mundo virtual e espaço heterotópico Acordados como de um sonho, nós, sujeitos leitores, damonos conta de que a situação da narrativa é um fato do cotidiano de nossas vidas: (2) “Na tela do computador o alerta do programa de conversação instantâneo lhe chama a atenção” (PEREIRA, 2012, p. 75). Nessa passagem, o narrador nos convida a conhecer em quais condições um diálogo se travará entre as personagens e qual a relação da personagem principal consigo própria. Esse tipo de reconhecimento de si acontecerá sob duas possibilidades: a discursivização do espaço e do corpo. Vejamos por enquanto, a problematização discursiva do espaço. Nossas formas de sentir e de nos conduzir são gerenciadas por um espaço que é a todo o tempo esquadrinhado, recortado, calculado para um certo tipo de investimento sobre o sujeito. Certamente, os lugares nos quais nos movimentamos se formam de diversas maneiras e são construídos, na maioria das vezes, diferentes uns dos outros. Entretanto, há espaços que são “absolutamente diferentes: lugares que se opõem a todos os outros, que estão destinados de alguma maneira a apagá-los” (FOUCAULT, 2009, p. 24). A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 87 Parece-me que esse é o caso da tela do computador como lugar que ventila via uma vertente de conversação on-line. A tela do computador, nesse caso, lança-nos a um mundo utópico, apagando a superfície de um mundo táctil/material, porém com uma utopia muito bem localizada do outro lado da linha que anima aquela tela. Ao considerar a concepção foucaultiana, esse lugar, o da virtualidade, pode, a meu ver, ser compreendido como descreveu Foucault (2009, p. 24) no quadro dos “contra-espaços”. Como o próprio autor explica, esse espaço é muito bem compreendido no universo infantil, podendo ser o mar que rodeia a cama dos pais, transformado em barco à vela com um lençol. É, em nosso caso, o mar virtual que liga as personagens de nosso conto e o monitor do computador é o espaço da heterotopia, ou seja, “verdadeiramente lugar nenhum” (FOUCAULT, 2009, p. 26), pois nas heterotopias os espaços se apresentam forçosamente como espaços alhures. O fio virtual que liga a produção de um discurso amoroso entre as personagens se conecta a uma rede impalpável, utópica, porém sensível no que se refere à condição de existência dos sujeitos e de suas sensibilidades. A tela do computador se constitui como heterotopia pelo fato de se justapor a um lugar real - aquele do qual falam seus interlocutores -, um lugar que normalmente seria incompatível com essa realidade, com a fluidez dos sentimentos em toques requintados e digitais de um novo código morse das relações humanas. A heterotopia caracterizante dessa virtualidade eleva o sujeito a uma condição aparentemente livre em relação aos lugares e espaços que estamos acostumados a percorrer na vida. Somos instados a andar por determinadas ruas, respeitando a leis das mãos 88 Nilton Milanez no trânsito, a nos movimentar dentro dos muros, cercas e portas que cerceiam e dirigem nossos movimentos. Face ao mundo virtual, parecemos libertos de nossas amarras e, de súbito, temos a produção de um efeito de liberdade nunca antes sentido mediante o espaço real dos paralelepípedos e os espaços permitidos e interditos em um recinto. O curso virtual nos parece livre para dizer e fazer o que quisermos, imprime-nos fluidez, torna-nos líquidos, para usar uma expressão de Bauman (2001), informes e aptos para nos adequarmos a qualquer tipo de situação. Esse é o discurso que a narrativa de Sui generis faz circular, sugerindo um tipo de condição inconstante e flexível para o sujeito. De um lado, sim, mas, de outro, não. Atentemos que essa dominação da era de aquário em que a água ocupa e abunda todos os espaços é interrompida. A personagem sem nome de Sui generis interrompe o livre curso desse rio para dizer que, apesar de toda essa fluidez, estamos estáticos. A água do batismo dessa ilusória intercambialidade nos espaços tem um corpo (3): os pés não andam, apoiam-se um sobre o outro, a boca tem um riso sem graça, visto que ele brota de um rosto melancólico, pálido e lânguido. Do tom nostálgico das primeiras linhas da narrativa, passando pelo susto de nossa hipermodernidade, chegamos à eclosão de um corpo inerte: (3) “Pousa a caneca vermelha sobre o descanso na escrivaninha, cruza as pernas repousando um pé sobre o outro e ri, ainda com melancolia no rosto pálido e lânguido” (PEREIRA, 2012, p. 75). A ilusória fuga de um controle do espaço revela uma fisionomia deprimida e cansada pelo tempo. O discurso da fluidez aqui está em similitude com o discurso do descontentamento, que beira à perda de si na imaterialidade de um mundo que exige que A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 89 sejamos materiais. Paradoxo da humanidade, constituiu-se, assim, o sujeito entre seu desejo de tudo poder ser e da impossibilidade de ser tudo que se deseja. Discurso líquido, discurso da frustração. É nesse caminho que nos aproximamos de um dos questionamentos com os quais abri minha discussão: “quem fala?” (FOUCAULT, 2008, p. 57) no conto Sui generis? Quero dizer, com Foucault, quem são as instituições e os posicionamentos que marcam um discurso, o discurso que se produz e que Sui generis faz circular? Aceitando a marca da dispersão do sujeito no universo virtual, acrescento a triste imagem do homem desolado e sozinho consigo próprio. Ao mesmo tempo em que está conectado ao mundo, está preso a sua sólida cadeira acolchoada que lhe permite as longas horas de solidão acompanhada. Modos de enunciação do corpo Caminhando na incursão desse conto de T.H.P., começamos a observar que o corpo, no sentido de partes anatômicas, vai tomando força e se fazendo sentir de maneira intensa. Gostaria, portanto, de evidenciar três modos de enunciação que cruzam o corpo e sua biologia heterotópica. Continuemos, para isso, lendo Sui generis: Há dúvida para iniciar a conversa. Antes que o impulso leve as mãos a alcançar o mouse, pára e olha para o lado esquerdo, olhos pequenos, testa franzida, grenha alvoroçada. Fricciona a parte superior do lábio com a arcada inferior de dentes, inexplicavelmente corrigidos, brancos, belos. Coça com a mão os cabelos crespos com alguns pontos de lã. Acabara de levantar da 90 Nilton Milanez cama deixando-a desarrumada. Ergue a cabeça e avista o teto, inspira fundo de forma lenta e racional. Os olhos procuram no azul da parede algo além da luz cintilando a íris. Estala os dedos das duas mãos, expira intenso e revolve a tela [grifos meus]. (PEREIRA, 2012, p. 75) 1. O corpo fragmentado. Observamos nessa sequência narrativa que o corpo é sempre anunciado por meio de suas partes: mãos, olhos, testa, cabeleira, lábio, cabeça, dedos. Constatamos, inicialmente, uma anatomia corporal que divide o corpo, recortando-o, esquadrinhando-o da mesma maneira que sabemos que acontece com os espaços. O corpo em si é também um espaço obviamente corporal que está submetido a regras fisignomônicas sócio-históricas. O gesto corporal é controlado e guiado pela nossa cultura e cada suspiro remonta à história das vidas que nos precederam. Por isso, quando a personagem sem nome exercita seu espaço corporal, inerte diante da tela do computador, há um discurso dos corpos que a antecede e por meio do qual aprendemos a expressar nossas inquietudes à maneira da personagem. O que me espanta é que o corpo em seu espaço único, anatomicamente determinado, mesmo se movimentando em suas extremidades e inerte diante da expectativa de seu status ainda intocado na conversação, está ali presente, no entanto, ao mesmo tempo, está ali ausente, para marcar sua presença em um lugar exterior àquele. A personagem apresenta seus contornos e exaltações porque ao seu entorno estão dispostas as coisas que a cercam: sua caneca vermelha, a escrivaninha, a cadeira de madeira que o perpetua em seu lugar. É em relação a seu corpo que aquele mundo tocável/ A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 91 intocável existe. Nossos corpos estão sempre aqui onde estamos, mas com a possibilidade de abertura para tantos espaços outros, faz com que possamos estar lá onde queremos estar. Dessa maneira, o corpo se torna o veículo simbólico e não mais anatômico, que vai nos ensinar que a experiência de viver um sentimento extrapola as fronteiras do espaço corporal e do próprio espaço em si. Toda parte do corpo da personagem se lança a uma exterioridade: a mão busca alcançar o mouse, com isso vêm os movimentos dos olhos, o franzir da testa, que faz com que olhemos os cabelos alvoroçados; a inquietude interior se atreve nos lábios e deixa à mostra a disciplina do discurso da saúde e dos dentes, que são “inexplicavelmente corrigidos, brancos, belos” (PEREIRA, 2012, p. 75); a cabeça visa ao teto, os olhos procuram algo, estala os dedos como sinalizando ‘a volta ao trabalho’, os pulmões impulsionam o homem a continuar; “Expira intenso”, ele, e nós aguardamos o inevitável, um diálogo. 2. Heterotopia biológica. Entre o real e o virtual, o corpo fragmentado existe sempre parcialmente, mas com um objetivo integral, algo que está lá, em outro lugar, no espaço heterotópico. O corpo precisa atingir sua própria carne para que mantenha sua existência, para que faça sobreviver seus fantasmas. Em sua fragmentação, dividido em suas partes, o corpo passa a ser um outro espaço. Na verdade, constrói não somente o espaço do seu corpo, mas vários espaços, outros espaços a cada vez que o movimento de uma parte se lança da força de dentro do corpo para fora do corpo, visando a algo alhures. Dessa maneira, caracterizam-se as “heterotopias biológicas” (FOUCAULT, 2009, p. 26) que toma o corpo, seus membros, fios e 92 Nilton Milanez membranas como parte vivente, biológica, material e palpável, porém a possibilidade de resistir ao espaço de seu próprio corpo se alonga a utopias tantas, que chegará até a se dispersar na virtualidade da conversação com Rafael. É essa heterotopia biológica que desbanca o corpo de sua frágil carcaça anatômica, pois produz conhecimento, fazendo ventilar um discurso da finitude e da infinitude. O discurso do (in)finito é possível à medida em que o corpo, enquanto materialidade fugaz, eternaliza-se no momento da transmutação do espaço de seu corpo para o espaço que o cerca, do espaço do seu corpo para a eternidade da luz em suas piscadelas que chamam para a conversação virtual. O corpo está, ao mesmo tempo, no coração do mundo e em lugar nenhum. Esse modo do corpo se enunciar a si me parece possível quando o compreendemos enquanto objeto do discurso. 3. Corpo, atualidade, finitude. O corpo tomado como objeto do discurso – ou seja, um corpo simbólico e fictício, que determina a sua própria existência tanto quanto a existência e experiência de nossos próprios corpos – desmembra-se a ponto de compor não mais um corpo, mas um corpo-cadáver, um corpo em partes, que, por isso, utópico, pode alçar-se aos voos do agenciamento de seus desejos extra-corporalidade anatômica. Apenas o corpo como cadáver pode viver a discursividade de estar naquele lugar nenhum para o qual queremos fugir no nosso momento Pasárgada. Apenas o corpo, já anunciado utópico, pode, ao mesmo tempo, deixar de ser uma simples utopia. As personagens têm suas materialidades de uma existência histórica pontual: - Por que faz que não me vê? A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 93 - Não faço que não te vejo. Só não quero ser inconveniente. Súbito. Teme perder o diálogo. - Pois fez, fiquei te esperando. Novamente coça a cabeça. Sorri e responde: - Então, tô aqui. (PEREIRA, 2012, p. 76) Mas aqui é onde? Quem somos nós nesse lugar? Aqui me parece ser a “linha de separação entre o imaginário e o real que parece, hoje, se atenuar, e os projetos mais loucos entram no campo dos possíveis” (ZARKA, 2005, p. 4). Essa produção discursiva de lugar nos apresenta um sujeito que se ampara em instâncias reais e simbólicas para a representação de uma imagem de si, “como a peça fundamental de uma identidade pessoal que se escolhe, se troca, se constrói” (MARZANO, 2005, p. 9). É no enviesado do aqui e do lá, do real, do simbólico e do imaginário, que o sujeito estabelece sua maneira de estar no mundo do espaço corporal. A enunciação “tô aqui” (PEREIRA, 2012, p. 76) aponta para a materialidade com existência real do corpo que fala, na tentativa de suplantar sua materialidade utópica. Localizar-se a si mesmo seria uma fonte estável para a validação do discurso de um regime de existência que oscila entre o material e o imaterial, que é o espaço mundial do corpo na web. Mas aqui é quando? “Quem somos nós nesse momento?”, perguntaria Foucault (2001a, p. 783). Aqui trata-se do agora. O sujeito do conto, em sua enunciação, ainda articula, depois de seu lugar no espaço, sua presença em um lugar específico do tempo, que coloca em evidência seu efeito sobre o presente. O aqui e agora produzem o efeito de atualidade para 94 Nilton Milanez os interlocutores, permitindo que continuem sua conversação, pois, desse modo, produzem um pertencimento de um ao outro e um pertencimento no mundo. Mas, aqui também se trata do hoje. Para Judith Revel (2005, p.5-6), a ideia kantiana de uma ontologia crítica do presente não diz respeito somente à maneira de compreender o que funda o espaço do nosso discurso, mas, sobretudo, compreender o que desenha seus limites. E quais seriam os limites que, nesse mundo virtual, sem fronteiras, enfrentam as nossos personagens? O efeito de atualidade e de presença centrado no agora e no hoje coloca em evidência o discurso contemporâneo do par finito/ infinito, da relação da personagem com sua dispersão e sua unidade no mundo virtual. De um lado, a dispersão estaria na multiplicação do sujeito, de seu caráter tão infinito quanto a linguagem, de seus sentidos microfacetados no tempo e na história, cuja narratividade está à beira da dissolução desse sujeito. De outro, há a sobressaliência de uma analítica da finitude, da maneira como concebeu Foucault: A finitude do homem se anuncia – e de uma maneira imperiosa – na positividade do saber; sabe-se que o homem acabou, da mesma maneira que se conhece a anatomia do cérebro, o mecanismo dos custos de produção, ou o sistema de conjugação indo-europeu; ou ainda, em filigrana de todas essas figuras sólidas, positivas e cheia, percebe-se a finitude e os limites que se impõem, adivinha-se tudo o que elas tornam impossível” (FOUCAULT, 1966, p.324-325). É nesse anúncio imperioso da positividade de um saber sobre a vida – da qual o homem partiu, fazendo discorrer um tempo, A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 95 tomando o corpo como terminal, encerrando um saber no tempo e no espaço – que se fundam os limites da finitude. A produção de um discurso da finitude traz a ideia, ao mesmo tempo, da realização de todas as impossibilidades como também de um corte abrupto da vida. Isso faz com que a positividade releve, desesperadamente, um corpo que grita o temor de perder a vida, semelhante à “figura de um homem prometeano que sequer tem essa consciência, preso entre uma liberdade que ele acredita sem limite” (ZARKA, 2005, p. 6). É o lugar que o corpo do sujeito em Sui generis ocupa que dita sua finitude como marca central da liberdade humana. A repetibilidade e suas formas de coexistência Como já apontei no início desse texto, a repetibilidade e a presença de outros textos na escrita de T.H.P., assim como de todo sujeito do discurso, é clivado pela existência de uma memória do discurso que toca tanto as questões referentes à língua quanto as várias possibilidades do espaço corporal. Esse movimento nos remete a questões muito familiares daquilo que nos lembramos, à maneira como nos lembramos das coisas, considerando-se o que se convém dizer ou não, a partir de uma posição determinada no ato de uma escritura ou de uma tomada de posição. Isso faz com que estabeleçamos o modo material para que uma memória discursiva exista. Sabemos, é claro, por Courtine (2006, p.107-8), que esse tipo de memória pode se mostrar no interior de práticas verbais, como vimos, mas também por meio da sugestão de práticas não verbais, como veremos a seguir, permitindo assim, a circulação e tornando possível a articulação, tanto entre um 96 Nilton Milanez já-dito e um dizer, quanto entre um enunciado e sua formulação. Por isso, gostaria de evidenciar a concomitância e a retomada de outros discursos em Sui generis como efeitos de memória. Para tanto, desejo atentar para a repetição do corpo dentro desse conto, sua retomada em outro texto de T.H.P. para, finalmente, alçá-los para um discurso exterior à literatura brasileira. 1. Dentro do conto de T.H.P.. Comecemos com a figura da repetição no interior mesmo de Sui generis. O corpo como modo de enunciação, como apontado anteriormente na abertura do conto, se repetirá também em seu encerramento: Levanta-se e vai até a cozinha num balouçar descompassado de pernas lisas e compridas. Os pés descalços deixam o assoalho manchado de suor à medida que segue o próximo passo, no tornozelo uma tornozeleira prata com pingente de crucifixo caindo sobre os pés longos e formes. Retorna com um copo d’água pela metade. Ao se sentar na cadeira a camisa do pijama se levanta na altura do cóccix, em que se veem algarismos romanos tatuados na pele alva seguidos de palavras em vermelho. Um erre delineado se esconde atrás do tecido que oculta o latim de um verso iniciado em ‘D’ no caminho dos pelos penetrando as nádegas manchadas com leves estrias. Substitui o descanso e digita anedotas na caixa de diálogo encerrada sem que ele entenda ao menos o porquê. (PEREIRA, 2012, p. 78) O corpo, da mesma maneira que nas linhas de abertura do conto, reafirma o corpo fragmentado sob uma forma, diríamos, bastante pedagógica de saber, esquadrinhando os movimentos do A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 97 corpo por meio da língua e de seu funcionamento no tempo e no espaço. Em movimento crescente, no final da narrativa faz explodir uma erótica do corpo, que foi se pulverizando ao longo dele. Essa erótica corporal destaca o corpo em seu movimento, “num balouçar descompassado” (PEREIRA, 2012, p. 78), em sua higienização e altura, “pernas lisas e compridas” (PEREIRA, 2012, p. 78), no contato do corpo e seus fluídos com o espaço tópico, “pés descalços deixam o assoalho manchado de suor” (PEREIRA, 2012, p. 78), e assim por diante. Vemos, nesses exemplos, de um lado, uma regularidade que arquiteta o espaço corporal da personagem, o domínio e o controle do espaço material que a circundam para, de outro lado, compreendermos o corpo e suas inscrições, “na altura do cóccix, em que se veem algarismos romanos tatuados na pele alva seguidos de palavras em vermelho” (PEREIRA, 2012, p. 78), ou melhor, o corpo marcado pela presença da língua como “ferro em brasa”, segundo Certeau (2000). A língua aí produz um efeito constitutivo, fazendo do corpo um espaço de linguagem, tornando corpo e língua indissociáveis. Ao mesmo tempo, a eroticidade está expressa na forma linguageira da construção do conto como também se repete na relação íntima entre corpo e língua no que se refere ao saber que isso produz: a erótica do corpo é tão mais fortemente marcada quando acompanhada da presença da força do outro, da força da materialidade linguística sobre a pele, do movimento de dois tipos de corpos, o corpo da letra e a pele do corpo. Esse movimento, porém, aponta para um autoerotismo que apaga a presença de Rafael, e desse modo, nega o que inicialmente nos faria pensar em uma relação homoerótica. Acredito, portanto, 98 Nilton Milanez que os reflexos de homoerotismo que têm nesse conto não vinga, pois as figuras de repetição que encontramos nele estão substancialmente baseadas na relação do corpo da personagem sem nome com a apropriação e transformação de seu espaço em outros espaços. A reprodução e afirmação de outros espaços de seu corpo, “no tornozelo uma tornozeleira prata com pingente de crucifixo caindo sobre os pés longos e formes” (PEREIRA, 2012, p. 78), revifica e dá contorno ao próprio corpo da personagem que, na verdade, não chega a Rafael, mas vive em si para si, na total solidão e mudez falante de seu corpo. Nesse sentido, o autoerotismo produzido pelo e no corpo da personagem clama para ser compreendido como forma de vida e regime de existência do sujeito. 2. Dentro da obra de T.H.P. À organização da leitura de uma narrativa não cabe se dobrar apenas em si mesma. Ao nos enveredarmos por seus traços, vale seguir as pistas dos vários tipos de disposições que a sucedem e a antecedem, colocando-a em consonância com uma grade de séries de enunciação que a ela se encadeiam. A descrição de uma narrativa, portanto, para sua análise, conta com um “jogo de subordinações” (FOUCAULT, 2008, p. 63), que trabalha com a articulação de pontos distintivos, estabelecendo a dependência de um sistema para a construção da formação de uma série de enunciados. No estabelecimento dessa ordem, a organização da narrativa se amplia e se desdobra na produção de novos acontecimentos. O percurso que sigo agora como leitor é o da relação da noção de imagem corporal em Sui generis com a poesia de T.H.P.. Retomemos a partir do conto e leiamos a continuidade da conversa entre os cyberinterlocutores: A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 99 Novamente coça a cabeça. Sorri e responde: - Então, tô aqui. - Tá muito triste nessa foto. Assusta-se observando a foto apresentada na janela do programa. Fecha-o e abre novamente para certificar-se de que se trata da mesma foto que vê. - Qual delas? - Nessa mesma. - Da boca? Como dá pra saber, só tem minha boca? - Mas uma simples boca fechada. - Abra, eu tô triste. (PEREIRA, 2012, p. 76-7) As personagens falam sobre uma imagem que comumente aparece em um janela à esquerda da tela do computador em páginas de conversações em redes sociais na internet. Temos a experiência de que podemos usar a imagem desejada para nos representar nesse tipo de dispositivo. A imagem usada pelo personagem sem nome é a de sua própria boca. Há aí duas instâncias nesse diálogo que fremem a uma interpretação. A primeira instância é a imagem de uma boca como representação do internauta, o que reforça a ideia de uma metonímia para o corpo. Evidentemente, apenas podemos dar continuidade a essa discussão se pensarmos no encadeamento do discurso que liga a tristeza à boca. Fato insólito, pois estamos acostumados a estabelecer uma expressão ao rosto e menos usualmente à boca. Portanto, enunciar que uma boca é triste produz um tipo de deslizamento da ordem cultural do rosto para a boca. Nessa linha, atrelamos outros espaços corporais à boca, fazendo dela o lugar e a presença de outros 100 Nilton Milanez espaços do próprio corpo que ela representa. A aparente metonímia vai se transformando em um jogo de incompletude para o qual vamos aliando outros sentidos. Ainda no nível do insólito, temos uma dissonância no que se refere ao fato de Rafael pedir para que seu interlocutor abra a boca. Ora, a lógica desse diálogo nos levaria a interpretar essa fala como uma solicitação de sorriso. Se você está com a boca triste, mostre uma boca alegre e isso culturalmente nos é determinado pelo sorriso. Entretanto, o desejo de Rafael é que a boca se abra. O funcionamento do jogo aqui produzido foi o de tratar a boca não como uma boca, mas como a sugestão de um rosto, para depois tratá-la anatomicamente como uma simples boca. Os sentidos que aceitamos socialmente para o abrir e o fechar da boca nos remontam a memórias da alimentação, se tomarmos, por exemplo, a fase de amamentação de um bebê, enunciação que vai se arrastando pelo tempo, impingindo-nos seu teor dietético. Essa movimentação léxica e semântica cria a possibilidade de um diálogo insólito, que se acentua do meio para o final da conversa, deixando a nós, leitores, sem saber quem é que fala, parecendo que as trocas linguageiras se mesclam e pertencem não somente a uma, mas às duas personagens. O lugar do insólito reconduz à ideia de dispersão do sujeito no ambiente virtual, confundindo-nos não apenas quanto à maneira de se referenciar à boca, mas aos modos de enunciação que fazem digladiar interlocutores que intercambiam seus papéis, tomandoos um pelo outro. O que acho muito interessante é o fato dessa dispersão se iniciar pelo e no corpo, pois habitualmente o corpo é tomado como uma unidade discursiva. Eu mesmo, em discussões anteriores (MILANEZ, 2009), já levantei essas questões e hoje A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 101 tenho a oportunidade de mostrar, mais uma vez, que todo lugar no qual há uma unidade, como no caso da espacialidade corporal, não deixará de estar acompanhada pelo seu desregulamento, por algum tipo de dispersão. A segunda instância que me salta à percepção é a de que não temos a imagem da boca. O que percebemos da boca na janela da página virtual do conto não passa da materialidade da língua que a (in)cita. Quem cria a visualização, que tomamos como certa da língua transmutada em imagem (MILANEZ, 2011), é a força memorial do próprio corpo na produção da imagem. Nosso corpo tem a habilidade de armazenar e recriar imagens a partir da língua. Dessa feita, a língua desloca sua materialidade física para uma materialidade virtual, que faz parte do conjunto de imagens que armazenamos ao longo da vida. Somos, então, produtores de imagens, como no caso de T.H.P., no momento em que se transcodifica o linguístico em imagético, assim como receptores de um arquivo sócio-histórico de imagens que dependem do corpo para existir, tornando-se, por si só, um aparelho midiático móvel, constante e em funcionamento 24 horas por dia. A produção das imagens, nesse caso, dá-se por meio de uma retroalimentação sustentada por duas condições: de um lado, refere-se ao fato de sermos capazes de animar imagens inanimadas, colocando-as em rede no discurso; de outro, revela a possibilidade das imagens tomarem corpo no suporte que as recebe, estando elas, simultaneamente, na prática verbal de um texto e na constituição corporal do sujeito. Em suma, corpo, letra e imagem fazem parte de um dispositivo discursivo que não pode separá-los, anunciando uma tríade na qual a relação monogâmica perde seu espaço e seu sentido. 102 Nilton Milanez Precisei situar esses elementos para que pudesse relacionar o conto Sui generis com a poesia de T.H.P., mais especificamente, com o poema Gôndola, no qual prefigura a presença da boca, incentivando os prolongamentos dos tipos de relação entre esses dois domínios. Leiamos: saliva na boca me toma por inteiro uma vontade crescente extasia, repudia, emerge... um monstro cresce do ímpeto... a Quer estraçalhar as vísceras e escapar de dentro onde às vezes silencia-se num sono profundo e dorme... e dorme Noutro momento me corrompe tornando-me agente de atos não lícitos provocando a cólera que emana dos nervos fundindo meu peito ao degelo da realidade A boca seca pede água para tomar tenho sede; sou vivo, tenho segredos... caminho sozinho por uma rua qualquer vazia, escura... que entorpece (PEREIRA, 2008, p. 29) Quais sentidos a boca materializa no conto e nesse poema? De que maneira esses textos exercem a função de repetir, incansavelmente, o que já havia sido dito em outro lugar (FOUCAULT, 2001b)? Em ambos, a boca recusa-se a falar. Em Sui generis, a personagem sem nome foge à incitação do engajamento de Rafael, justificando-se que não fala porque só fala bobeiras. Já no poema, o sujeito-lírico cria a ambiência de um desejo imenso de enunciar, mas a força da coerção A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 103 em não se pronunciar é mostrada no recalque da “boca seca”. Qual o mistério da boca nessas duas enunciações do sujeito? Por que as bocas se exaurem por não falar? Percebemos que há a necessidade de dizer, mas que esse refreamento é acompanhado da habilidade em evitar a confissão. A boca não quer se confessar, não quer dizer-se e dar-se ao outro, não quer se entregar. Sabemos, compartilhando Foucault (1993), que a confissão é um ato de subjugação ao outro, na qual tudo o que dizemos se torna parte de uma rede de controle que ocupa a outra ponta da audição. Sob essa perspectiva, omitir-se de falar, mudar de assunto, ter e guardar segredos são formas de resistência do sujeito diante de um mundo de procedimentos de controle. No conto Sui generis, o primeiro canteiro de controle é a própria web, com seu armazenamento imensurável de nossas informações, ela é capaz de conduzir nossas leituras e expor nossas verdades por meio de diversos suportes: disposição gráfica, programas, organização de páginas de leitura na internet etc. No poema Gôndola, isso fica menos evidente e muito mais disperso. Não há ali uma instância dominadora que afugente o sujeito a não ser o outro e o próprio sujeito que se anuncia/enuncia. Na recusa de falar de si para o outro, resta ao sujeito, tanto na narrativa quanto na poesia, falar a si próprio. No conto, a personagem sem nome tenta conduzir a conversa e, à medida que isso lhe escapa, lança-se a si mesmo, abandonando Rafael. No poema, o sujeito poético afirma: “caminho sozinho por uma rua qualquer / vazia, escura... que entorpece” (PEREIRA, 2008, p. 29). Em ambos os casos, o sentimento final é de abandono, mas um abandonar-se a si mesmo. O que pode parecer uma desatenção se transforma em 104 Nilton Milanez atenção, porém atenção consigo mesmo. As atitudes corporais no conto e os movimentos corporais de reflexão no poema – “Noutro momento me corrompe / tornando-me agente de atos não lícitos / provocando a cólera que emana dos nervos / fundindo meu peito ao degelo da realidade” – levam a crer que o tipo de processo pelo qual os sujeitos enunciadores se fazem ouvir nessa literatura é o de um exame de sua consciência, tão substancialmente discutido por Foucault (2006b) em sua Hermenêutica do Sujeito. O exame de consciência, a grosso modo, caracteriza-se como uma forma de recolhimento a si por meio de práticas que visam a modificá-lo, a purificá-lo, a transformá-lo e a transfigurá-lo. Esse momento ímpar da relação consigo próprio não é demonstrado nos posicionamentos que tomamos aqui como exemplo, o que, até o momento, indica que essa atitude para consigo está em andamento, o que produz o efeito de sentido de um posicionamento sempre em aberto, constante e que não se encerra em si nem no momento de sua enunciação. Isso produz em cascata outro efeito que é aquele de participarmos como espectadores dessa revisão de si que o sujeito elabora sobre si mesmo, não sem antes nos afetar e nos incitar também a tal condição. Nossas sensibilidades se aguçam ainda mais, uma vez que temos a necessidade de se posicionar dessa maneira, camuflando-se para o outro e mostrando-se para si, o que faz parte do universo da revisão de si e nos ajuda a descarregar o peso que a própria vida nos proporciona. Assim, efetiva-se o exame de consciência no conto e no poema, como forma de verificação do sujeito pelo sujeito na busca e no domínio de seus desejos e de seus prazeres. A boca cala, confessa a si o ser da linguagem que se quer segredado, por meio da recitação de seu discurso, de um gênero a A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 105 outro dentro da obra do próprio autor. 3. Dentro do universo literário mundial. De si para si, a obra de T.H.P. vai se alçar discursivamente para fora do cenário brasileiro. Para tal deslocamento, aproprio-me, em meu auxílio, de Foucault (2008) e de seu projeto arqueológico. Refiro-me à relação entre a obra de T.H.P. e o poema Burnt Norton, de T.S.Eliot, o qual faz parte dos The Four Quartets, escrito pelo poeta americano em 1936. Seguindo a análise discursiva que enceto aqui, a relação entre os poemas de T.H.P e T. S. Eliot se constrói a partir da perspectiva foucaultiana de que todos os enunciados uma vez já formulados em alguma parte são passíveis de serem retomados em discursos pressupostamente necessários, instaurando relações de repetição, de comentário ou de busca de significações ocultas, o que é chamado por Foucault (2008, p. 63) de “formas de coexistência”. Ao mesmo tempo, o poema pode fazer emergir enunciados que se referem a domínios de objetos inteiramente diferentes e que pertença a tipos de discursos totalmente diversos, porém atuando entre os enunciados, ora porque ratificam uma confirmação analógica, ora porque são aceitos como princípio e premissa para um raciocínio. Esse tipo de reflexão faz com que evidenciemos a relação entre memória e discurso, nesse sentido, a literatura é a todo tempo atravessada pelos discursos que constroem os processos históricos e os enunciados que neles circulam. Dessa maneira, estou considerando para minha análise domínios de objetos com datas e pertencimentos diferentes da obra de T.H.P., seja para ratificar, seja para aceitar um princípio do fio discursivo que guia as ideias que fazem com que as obras se cruzem. Diante desse quadro de tantos souvenirs dispersos e da busca de suas regularidades, não posso deixar de fazer meu o 106 Nilton Milanez questionamento de Courtine (2006, p. 36): “O que é fidelidade a si mesmo senão uma repetição?”. Repito, portanto, para nós, os versos de abertura do poema de Eliot1: Time present and time past Are both perhaps present in time future And time future contained in time past. If all time is eternally present All time is unredeemable (T. S. ELIOT, 1963, p. 189) Quais são as formas de coexistência do discurso desse poema com o discurso do conto Sui generis? Como se configuram as formas que coexistem nesses dois canteiros da literatura? Que sentidos e efeitos eles evocam? A questão do tempo é o tipo de sentimento que guia o sujeito poético em seus versos. A condição das sensibilidades nessas linhas inaugurais se volta à ruptura com a lógica do sistema temporal, fazendo entrar em colapso as maneiras de se viver e de se sentir o peso do tempo. Antes de pensarmos que ali prefigura uma divisão do tempo, vale ressaltar que, ao contrário, no poema de Eliot, os tempos são simultâneos. Não há lugar para dicotomias. A heterogeneidade temporal é constitutiva à condição do sujeito e aceita a insólita contradição entre o presente e o eterno. Chegamos, então, à determinação do destino temporal, o tempo é irredimível. Temos nesses versos a produção de discursos que já se anunciaram anteriormente nas discussões aqui apresentadas. O tempo passa a ser compreendido em sua virtualidade com a suspensão do controle cronológico e sua consequente continuidade. 1 O tempo presente e o tempo passado / estão ambos talvez presentes no tempo futuro / E o tempo futuro contido no tempo passado. / Se todo tempo é eternamente presente / Todo o tempo é irredimível. A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 107 À medida que o imbricamento entre passado, presente e futuro coexistem, aquilo que vivemos como o agora torna-se eterno. O instante da midiatização de uma conversa on-line, como ocorre no conto, tem um tempo marcado e por isso efêmero, levando em consideração a amplitude de sua dispersão. A palavra em si que determina a linguagem na conversa em Sui generis transcende a sua forma no tempo e no espaço para tomar os contornos da eternidade. Aqui novamente nos defrontamos com o avesso do discurso da finitude, o seu infinito, que imortaliza a letra na tela do computador, imortalizando, desse modo, o sujeito que a escreve. O instantâneo é a condição da sensibilidade do sujeito no poema e no conto. Passado e futuro têm uma determinação lexical que não os separa do presente, mas o integra num tempo chamado eternidade. A personagem sem nome de Sui generis está atenta a essa dissolução temporal e trata a sua conversação tomando-a como imortal: - Rafael, como é se sentir imortalizado? - Sempre quero ouvir você me chamar! - Me diga, como se sente sendo imortalizado? - Eu sou para os que gostam de mim. - Talvez você nunca tenha oportunidade de ler o que escrevi sobre você. - Pô! Me sinto muito bem! - Queria saber como você se sente... você está imortalizado em palavras, num ideal de amor impossível, desencontrado... incompreendido. - Isso é utopia? Minha vida falha e ouve sempre um grito... (PEREIRA, 2012, p. 77-8) Na utopia da realidade da vida é possível experimentar 108 Nilton Milanez o colapso do tempo, suspender seu poder fatal. O diálogo, nessa altura do conto, vai reafirmando seu caráter insólito, uma vez que faz emergir a descaracterização do tempo da maneira como o compreendemos. Essa percepção do mundo desconfigura, de um lado, os limites da lógica que temos traçado para o que entendemos por tempo, de outro, produz um alicerce do tempo sobre a repetição. Isso quer dizer que o tempo, na sua heterogeneidade constitutiva, coloca em prática o presente como repetição em várias instâncias temporais, sejam elas do passado, do devir ou do eterno, que é a fusão do tempo em sua unidade regular. É sob essa ótica que compreendo Ewald (1997, p.2034) ao destacar que “O presente é marcado pela repetição de um acontecimento anterior, e a atualidade, nossa atualidade, é marcada pela recorrência desse acontecimento que às vezes é passado e que, embora passado, mantêm-se presente, em todo caso nos guia sempre”. Posto dessa forma, Burnt Norton nos dá a possibilidade de compreender Sui generis como a inauguração de um presente constituído por uma eternidade, delineado pela presença do agora, como já discuti anteriormente, fazendo passado, presente e o vir a ser uma forma de diagnosticar a espacialidade temporal e o tempo da linguagem dos sujeitos. Reafirma-se, assim, a contradição da utopia do momento e a presença real do sentimento de fracasso na vida, o lugar do próprio equívoco no qual podemos ouvir “sempre um grito” (PEREIRA, 2012, p. 78). Ou seriam os ecos das vozes entrecruzadas pelo presente, passado e futuro em nossas cabeças infinitas, eternas e perdidas no espaço do tempo já sem nome? É nesse escopo que, apenas nesse momento, podemos visualizar o fato do protagonista A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 109 do conto não ter um nome. A (não-)nomeação e a condição do corpo em Sui generis A personagem que fala e sobre a qual se fala em Sui generis não tem rosto e não tem nome. O nosso modo de viver e a maneira de ser em nossa sociedade exigem uma identificação. Primeiro, com relação ao rosto que, quando escondido, passa a figurar a ilegalidade, uma vez que o domínio sócio-jurídico nos exige um registro geral nacional no qual nosso rosto faz parte e serve como um dos maiores meios de identificação em nosso país. Em Sui generis, a personagem que escreve percorre o espaço virtual e tem como características para seu rosto a palidez e a languidez. Essa forma de sensibilidade poderia ser tomada como identificação? O lugar reservado para a identificação do sujeito nos programas de conversação on-line e suas redes sociais substituiu, há muito tempo, a velha foto 3x4 por outras partes do corpo, por outras imagens que o sujeito considera adequadas à representação de si. Nossa personagem tem nesse lugar de identificação uma foto de sua boca. Vemos, assim, que o virtual, tanto no conto quanto na vida, está produzindo um largo deslocamento do que é identificação, aumentando seu escopo de possibilidades. Para que possibilidades nosso conto aponta? Como demonstrei, a construção da personagem está fortemente calcada na formatação de seu corpo, na descrição de seus gestos, no espaço que acomoda a sua partitura corporal. Tais fatos atribuem à identidade da personagem um lugar bastante singular: sua identificação se dá pela espacialidade de seu corpo e pela linguagem corporal percorridos ao longo da leitura do conto. Esse deslocamento 110 Nilton Milanez identitário marca a “existência de um desengajamento”, para usar as palavras de Haroche (2008, p. 122), no que diz respeito ao modus vivendi das sociedades contemporâneas. A autora afirma que a fluidez no que concerne aos limites do eu resulta em um descompromisso com a maneira de se sentir o eu. O modo de revelação do sujeito-personagem no conto mostra que as maneiras de se relacionar com o outro e consigo próprio seguem regras cuja flexibilidade reformula as maneiras não apenas de sentir, mas de perceber as fronteiras entre o real e o virtual, esmaecidas pelo seu próprio processo. A personagem de nosso conto é, então, identificada pelo seu corpo, tão mais material em suas partes fragmentadas que na unidade de um simples rosto. O rosto, aqui, parece-me perdido na virtualidade das sensações para dar lugar ao corpo como um todo visto em suas partes, espectro cadavérico dos atravessamentos das forças vi(r)t(u)ais. O corpo assim compreendido é o lugar e o regime de existência da personagem, a quem é negada sua representação por meio de um nome. O ato de nomear autua o sujeito em denominações e designações que farão com que ocupe posições no interior de determinada situação ou estrutura (GUÉRIN et al., 2007). Mas como denominar ou designar nosso personagem para além de seu corpo? Essa recusa da enunciação de um nome acarreta que efeitos discursivos? O lugar primeiro de identificação em nossa sociedade, depois do rosto, é a nomeação. Com a enunciação do nome próprio estabelecemos nosso lugar social, religioso, a que tipos de direitos, mentalidades e estruturas sociais nos firmamos (MAUSS, 2003). Junto com os nomes vêm os títulos, as posições sociais, os papéis que o sujeito desempenha em uma sociedade. O nome encerra o A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 111 sujeito em um “sistema de ordenamento” (MAUSS, 2003, p. 374). Ao renunciar à nomeação, a personagem sem nome resiste a qualquer tipo de hierarquia ou estratificação, agindo nas brechas do discurso para evitar qualquer tipo de classificação a partir de seu nome. Efetivamente, essa ausência constitui a construção de uma posição única do sujeito no conto, que dribla as formas de poder e coerção sobre os sujeitos. Aparentemente, produz uma dicotomia inicial entre corpo e nome, mas ao final do conto nos damos conta de que a letra é uma forma de inscrição sobre seu corpo: Ao se sentar na cadeira a camisa do pijama se levanta na altura do cóccix, em que se veem algarismos romanos tatuados na pele alva seguidos de palavras em vermelho. Um erre delineado se esconde atrás do tecido que oculta o latim de um verso iniciado em ‘D’ no caminho dos pelos penetrando as nádegas manchadas com leves estrias (PEREIRA, 2012, p. 78). Temos aí uma maneira de nomear que, apesar da resistência do sujeito em preservar as marcas de suas individualidades escondidas, deixa transparecer uma representação de si por meio de uma forma antiga de caracterização. A letra “D” é impressa em seu corpo, categorizando-o dentro de um espaço de inscrição corporal. De um lado, vemos o esforço que o sujeito fez para se safar de um grande mecanismo de controle, que é a identificação do nome para, de outro, entregar-se a um modo de apropriação social. Levando em conta o movimento da personagem “D”, acredito que, o fato de ocultar desde o início seu nome, revelando uma letra que o designe somente ao final, produz-se o efeito de sentido que o 112 Nilton Milanez narrador buscou, de antemão, que era controlar a nós, leitores, usando o mesmo jogo e mecanismo de um dos maiores procedimentos de coerção de todos os tempos: o nome. Recusa-se a se nomear, no entanto, na impossibilidade de fazê-lo, pois é um sujeito coagido pelo seu tempo, joga o jogo do controle sob as mesmas regras do jugo social que nos determina. Não pode, portanto, deixar de sofrer essa inibição, mas faz questão de mostrar que tem consciência dela e que é capaz de ironizá-la, como em um jogo de esconde-esconde, que só tem graça para quem se esconde. O ato de nomear é, a priori, a constituição de uma memória que nos convoca a conhecer a transversalidade dos discursos, nem únicos, nem originais, ali pronunciados. Com efeito, não podemos saber o que “D” significa, entretanto, podemos colocá-lo dentro de domínio da formação de nosso objeto, o literário, delimitando-o novamente dentro de nosso terreno nacional. Há uma memória discursiva que acredito não passar em branco no campo da literatura. Mesmo para quem não tenha lido, sabe que o livro, A obscena Senhora “D” (1982), de Hilda Hilst, já foi alvo de grande circulação. Nas linhas de abertura deste podemos ler: Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem por isso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu à procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas. Derrelição Ehud me dizia, Derrelição - pela última vez Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo A Senhora D. D de Derrelição, A Condição do Corpo na Escrita de Túlio Henrique Pereira 113 ouviu? Desamparo, Abandono [...] (HILST, 1982, s/p.). Nosso personagem se torna, agora, categorizável com o batismo de uma anunciação. D de Desamparo? Designação bastante a calhar para uma personagem tão solitária, alfinetada pelas ausências, pela languidez e pela falta de razão nas últimas linhas da narrativa: “digita anedotas na caixa de diálogo encerrada sem que ele entenda ao menos o porquê” (PEREIRA, 2012, p. 78). A certeza convicta do nome não temos, porém, há uma materialidade que vai nos parecer maior que qualquer outra, nem letra nem corpo, mas a repetição como modalidade da constituição do sujeito literário. O conto acaba com mais uma repetição, com mais um dito que gera mais um por dizer e, assim, infinitamente, um fim de conto que não acaba nunca e em que sua extensão não tem mais do que duas páginas. Espaço do corpo do conto, espaço corporal da personagem, localização do corpo do discurso no espaço e no tempo de hoje, mas que poderia estar agora em qualquer lugar Sui generis. Referências ALENCAR, J. de. Senhora, 1985 disponível em www.biblio.com. br/conteudo/Josedealencar/senhora.htm. Acesso em 02/05/2012. BAUMAN, Z. 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O OUTRO LADO DA VIA Túlio Henrique Pereira “Não há piedade nos signos e nem no amor: o ser é excessivamente lúcido e a palavra é densa e nos fere” (Orides Fontela) Há cansaço no seu rosto pequeno meio arredondado. Suor desce em correnteza, irritando os olhos coçados com os dedos, ele tem pressa de se esconder do sol, mas caminha sob ele para não perder mais tempo descansando sob árvores. Na mente a voz da mãe gritando a vontade à sua semelhança, realizar os sonhos que ela tinha para ele sem nenhum resquício de dúvida: “meu filho vai crescer sadio e forte, vai se casar com uma moça da cidade e cuidará de nossa família até a morte. Caso a sorte em Deus não falhe, terá uma farmácia e o conforto chegará, do suor, da dignidade do homem que trabalha”. Mas as palavras lhe empacavam os passos, então canções serviam para acelerá-lo em alcanço da cidade, seu destino nesta hora, onde o menino dos cabelos cacheados habita ocultado de seus olhos resignados da sensação de tê-lo. Já é tarde e o crepúsculo do verão faz o dia fenecer num espetáculo sem espectadores, com escassez de aplausos e, sobretudo, acuidade. As tardes nunca pareciam iguais ao seu olhar, porque ele a sentia dentro do peito como se sentisse uma saudade abrindo sem dó uma cratera negra sem fim. O que fazer agora era o que ele pensava 118 Túlio Henrique Pereira sozinho, enrolando os dedos nos montinhos crespos do cabelo curto. Puxou o pai na fisionomia do rosto, um negro belo como diziam pela cidade, que deixava as moças todas penduradas pelas janelas, hipnotizadas pelos braços torneados do crioulo de lábio rosado e carnudo, olhos delineados e maçãs da face fortes como o peitoral. Porém só havia visto o pai algumas vezes, poucas vezes, contudo suficientes para comprovar os falatórios, portanto não sentia amor por ele, nem a ausência, apesar da crença de que a ausência seja sentida apenas depois da experimentação do convívio. Entretanto não sabia ao certo o que pensar a respeito do afeto, não do modo de ser pai e filho, bem como homem e homem, mas sentia medo de pensar se o pai presente lhe despertaria sentimentos corrosivos no peito, como o garotinho dos cachos negros e olhos vivos que lhe sorri, ao vê-lo entrando na cidade em suas havaianas verde e jeans rasgado. O menino sabia encantar com seu sorriso torto, seus olhos curvilíneos, escondendo a íris carregada de brilho e redenção. O coração acelerado como uma bomba prestes a explodir e perfurar o peito frágil, expondo os ossinhos da costela. Nunca quando não estava em apresentação na escola a boca secava tanto, melhor seria fazer três provas orais de inglês e conjugar o verbo to be cara a cara com a jovem professora americanizada. Todos os pensamentos sempre foram inevitáveis no momento desse encontro, nunca descobrira saída que amenizasse o estado embriagado que se faz estafa: - Que foi? - Os cachinhos negros balançam, só isso importa, mais nada. Alguns fios irregulares tapam os olhinhos do rapazote sorridente e conversador, empurrando a bicicleta pelo guidom com O Outro Lado da Via 119 as duas mãos, enquanto os olhinhos puxados sedentos do observar se contemplam no silêncio interpessoal – Que foi, Diogo? Tá parecendo bobo. - Não é nada não! - Sua mãe te bateu? - Não. - Então por que tá assim? - Por quê? ...sei lá. Um caminho longo por uma via dupla larga e conflituosa. Carroceiros com chapéus de palha, crianças correndo em meio aos calhambeques e zero quilômetros na direção do poente, enquanto dois garotos dividem espaço entre a tradição do corpo e a modernidade do concreto pela alameda e toda a sua extensão, reluzindo em asfalto preto. A fumaça dos ônibus velhos em circulação escondem o verde das folhas de uma videira estendida em praça pública, na calçada larga um bulevar falseado de pequenas flores amarelas, construídas pela prefeitura em um concurso de artes para o bem do meio ambiente, estimulado nas escolas. Cada qual em seu lugar esperando o momento certo de ser, onde querem que o seja, apesar da caminhada deslocá-los para outros espaços físicos e o pensamento de Diogo introvertido no seu estômago. Tropeça em latas, papéis e pedras jogados pela rua, porque viaja em si enquanto os olhos se encantam à mensagem construída: - Que foi? - Nada. - Pode ser nada, mas que tá esquisito hoje, cê tá! O mundo é construído de palavras que não são faladas, gestos não interpretados e sentimentos gerados no ventre da 120 Túlio Henrique Pereira humanidade, enquanto o sol se põe em seu espetáculo diário despido de qualquer glamour pirotécnico. Apenas crepúsculo constituído pelo firmamento, o ar e o espaço, pois mal sabem eles que o ocaso do momento tem durabilidade inferior a uma hora e vinte e cinco minutos em um dia de domingo quente perdido no mês de dezembro, quando suas auroras se perdem lentas por cada marcha correspondida a períodos variáveis da luminosidade decrescente de suas virtudes, agora responsabilidades, forçando traço no horizonte, dia após dia; sempre ao ocaso do sol quando já não mais percebe-se os efeitos dos raios nem os contratempos da atmosfera. Ambos se partem, seguem em busca de si, embora perdidos nestes intervalos do tempo seriado, influídos em difusão e luz, camada por camada até o instante do desaparecimento dos seus astros amamentados pela fortificação e direcionados ao saber, crescentes. Potentados em sua mocidade ambos esbravejam, assoviam e chutam um ao outro em consideração à amizade fluente que os mantêm pela alameda interminável, sem a direção do tempo, que na cidade, está parado desde os dias em que o leite era comercializado em potes de vidro. Agora, talvez uma nova era se faça com permanências e a novidade na face da salgadeira Doricélia, gritando alto a promoção das esfihas recheadas com creme de queijo e milho. Os meninos se perdem apenas na vontade e continuam a caminhada. *** Entre tantas auroras e depois de tantas se constrói homens, derruba-se casas enquanto outras se erguem, mas o vento continua em uivos e sopros anunciando a face de cada dia que não se perde O Outro Lado da Via 121 e nada se encontra. Depois de anos o silêncio ainda os contempla, embora diferenças maiores se alojem nas distâncias que os ordenam: - Cê tem medo da morte, Diogo? - Da morte não, da vida. - Não entendo. - Nem é pra entender. - Sei. Agora cê é filósofo. - E quem não é? - Quem!? Uma pedra sobre as águas da bacia do rio dos bois no meio das folhas e do cheiro de estrume. Agora contemplam identidades singulares dos diferentes dias que lhes trouxeram descontração e emoções afáveis. Não se olham, mas observam a imensidão do rio, escoando lentamente aos seus olhos que não vêem a velocidade que o seu fluxo esconde submersa a lâmina difusa pelo ar, ao separá-los. Diogo tem certeza do que quer falar, entretanto a boca não exprime seus sentidos, muito menos o corpo deitado sobre a pedra com os olhos mirados para o céu debaixo das árvores, vendo os poucos raios solares, penetrando entre os galhos. Já não existem cachos negros nem mesmo os cabelos crespos do Diogo em moinhos, as lâminas controlam com praticidade seu encorajamento a sociedade dos sonhos, onde suas palavras ganham vida e sua voz é ouvida por mais de uma centena de pessoas, sem que diga sequer uma palavra: - Lá é bom? - Hã? - Faculdade. Gente, cidade grande. É igual na televisão? Diogo percorre o caminho do vento, passeia a visão nas 122 Túlio Henrique Pereira unhas encravadas dos pés do moçoilo e vê que os pêlos nas pernas são quase crinas. Os cachos dele já não existem mais, mas os pêlos escorrem negros sobre a sua perna torneada e morena. Seriam claras se morasse na cidade, sem tomar sol, sem ordenhar. A ausência dos cachos o incomoda, embora reconstrua na mente os momentos perdidos nos passeios de bicicleta e beliscões. Não resiste. Belisca. - Por que fez isso? - Não sei, impulso. Agora ele não tinha palavras. Diogo era um amigo estranho e um beliscão depois de anos ausentes não era concebível. Talvez por serem homens, agora ou simplesmente, por não haver motivo. Não reconhecia Diogo, mas o conhecia o suficiente para reparar em sua pele negra com brilho, olhos repuxados e uma imensa boca, ostentando o mais belo sorriso de descontentamento. Não entendia as mudanças, ou apenas a falta de atenção despendida ao amigo noutros tempos, agora não era o pequenino Diogo, era um Diogo cheio de palavras bonitas, apesar do mesmo paraíso de silêncio. O moçoilo arrebatou a integridade emocional do amigo com seu olhar fixado, atravessando o corpinho esguio adequado com exatidão na malha branca e o jeans escuro. Em lugar das havaianas um Adidas leve como pluma. - Que foi? Diogo não pensa. Não pode! Sequer uma palavra sai de si, mas sente vontade de demonstrar toda a riqueza que o seu peito guardara durante a evaporação dos dias. Então lhe foi à boca, premissa mais conivente estendida pelo amigo, selando o que o homem não nega no princípio de sua vida, mesmo subjugado pelos parâmetros. Depois O Outro Lado da Via 123 de retraída a face com o disfarce de um cochicho desnecessário no ambiente, devagarzinho se afasta, cabisbaixo. Olhar perdido no horizonte de água e céu. Retira do bolso um envelope, estendendo-o ao amigo. Aterrissa de sua nuance. - Que é? - Você não muda. Leia! Hesitante ele toma para si o que lhe é dado. - Sabia que o crepúsculo vespertino corresponde ao período de variação de luminosidade decrescente no horizonte do ocaso, logo após o ocaso do Sol, até o instante em que não são mais percebidos os efeitos dos raios solares na atmosfera? – Olha do lado e não mais vê o amigo. Assusta-se ao se levantar erguendo o pescoço para tentar avistá-lo indo embora, mas o encontra distante se despindo sobre o píer. Sente-se aliviado e avista do outro lado as páginas sendo levadas pela correnteza do rio. Talvez ao encontro do passado e do futuro que lhes reservam águas tão brutas e contempláveis. TÚLIO HENRIQUE PEREIRA, UN CREADOR DE IMÁGENES CON PALABRAS: LO VISUAL Y LO ESCRITURAL EN O OUTRO LADO DA VIA Beatriz de las Heras (Universidad Carlos III de Madrid) (Professora convidada da Universidade Federal da Bahia) Introducción El cuento es un recurso literario flexible que permite relatar una ficción empleando como base una realidad vivida o imaginada por el autor que, tras la aparente sencillez de la fórmula y tras una lectura atenta del lector, esconde un mensaje a modo de aprendizaje vital. Bajo esta máxima Túlio Henrique Pereira escribe en O outro lado da via, texto recogido en una antología publicada en el año 2009 por Amante das Leituras Edições, y que nos acerca a un tema tan universal como el paso del tiempo y las vicisitudes que experimentamos los sujetos en el complejo camino de la vida. Narrador que se sumerge en las coordenadas espaciotemporales de los personajes hasta tal punto que parece el intermediario entre éstos y el lector de una forma teatral (muy cercana, por tanto, a la puesta en escena), Túlio emplea un lenguaje que amaga, tras su denota simplicidad, pliegos poéticos que desencadenan una cascada de imágenes formadas a través de la concatenación de palabras, como fotogramas de una película, que desatan el imaginario del lector en relación con su despertar sensorial. 126 Beatriz de las Heras Acompañaremos algunas reflexiones acerca de la relación entre las imágenes y las palabras como prólogo al análisis del texto propuesto. Después, entraremos en la capacidad de Túlio para crear imágenes con palabras. Todo ello acompañado de los extractos de una entrevista realizada al autor en septiembre de 2011. La imagen y la palabra Recuperando una reflexión realizada por el actor, director y escritor ruso Andrei Tarkovski (2005, p. 10) Cuando un artista crea una imagen, siempre está superando su pensamiento, que no es nada en comparación con la imagen del mundo captada emocionalmente, imagen que para él es una revelación. Pues el pensamiento es efímero; la imagen, absoluta. Y aunque el lenguaje verbal es el artificio semiótico más potente que el hombre conoce, existen, como dijo Eco (1994), otros artificios capaces de abarcar posiciones del espacio semántico que la lengua no siempre consiguen tocar. De hecho, “palabra” (que es el pensamiento que se materializa en la bidimensionalidad del papel) e “imagen” se convierten en elementos inseparables en el proceso productivo de algunos creadores, hasta tal punto que, tal y como afirmó el director de cine Jean-Luc Godard (Télérama, 1998): “La palabra y la imagen funcionan de la misma manera que la mesa y la silla: para sentarse a la mesa, hacen falta las dos”. Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 127 A pesar de que la imagen llegó antes que la palabra hay una idea extendida de que nuestro bagaje cultural se basa en la escritura como elemento de transmisión del saber, olvidando que el propio origen de la palabra escrita está en lo visual. La relación entre “imagen” y “palabra” resulta compleja ya que en algunas ocasiones la palabra se presenta como “parasitaria” de la imagen, como ocurre en los pies de foto de las imágenes publicadas en prensa, ya que esas letras no explican la instantánea sino que, de alguna manera, la corrobora. Otras veces como “ilustración” de la imagen: hubo una época en la que los narradores que trabajaban en las novelas por entregas que se publicaban en los periódicos, se ponían al servicio de dibujantes. Por ejemplo, el periódico Evening Chronicle en 1836 encargó a Charles Dickens que escribiera una serie de textos para las ilustraciones del conocido dibujante Robert Seymour. También la palabra surge como “sustituta” de la imagen: en el Islam la prohibición de representar a Dios hace que lo icónico sea sustituido por lo escritural, motivo por el cual las mezquitas se decoran con palabras extraídas del Corán, como “Dios es Grande”: “”ربكا هللاو. Sin embargo, y a pesar de estos ejemplos en los que las palabras “parásito”, “ilustración” y “sustituto” se hacen protagonistas, no debemos olvidar que cuando pensamos antes de comunicar, pensamos en imágenes. De este modo, las palabras (a modo de recuerdos o pensamientos) son convertidas en imágenes antes de que el cerebro las procese y, más tarde, esas imágenes convertidas se transmiten o comunican a través de la palabra oral o escrita. Por eso, ¿por qué abrir un debate entre la imagen y la 128 Beatriz de las Heras palabra? ¿Por qué construir un enfrentamiento entre iconoclastas y biblioclastas (HERAS, 2000, p. 19-20)? Todo lo contrario. Nosotros abogamos por una interconexión entre la imagen y la palabra. Rescatando una idea del pensador Giovanni Sartori: … palabra e imagen no se contraponen. Contrariamente a cuanto vengo afirmando, entender mediante conceptos y entender a través de la vista se combinan en una «suma positiva», reforzándose o al menos integrándose el uno en el otro. Así pues, la tesis es que el hombre que lee y el hombre que ve, la cultura escrita y la cultura audio-visual, dan lugar a una síntesis armoniosa (SARTORI, 1998, p. 50). De hecho, en la actualidad, la creación literaria no sólo se estudia a través de lo estrictamente filológico-lingüístico, sino que, trascendiendo esta primera fase de análisis, la obra se relaciona con los valores artístico-plásticos. Y esa unión de la que venimos hablando entre la imagen y la palabra, elementos que son compatibles y, por tanto, pueden trabajar juntos, se observa claramente en el trabajo de Túlio Henrique Pereira. Escritor que consigue trascender la descripción del lenguaje para conseguir la inmersión del lector en un contexto que sólo puede ser sugerido empleando la imagen que, en su caso, se presenta a modo de palabras que encadenan sensaciones experimentadas. O outro lado da via La obra de Túlio Henrique Pereira que vamos a trabajar, O Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 129 outro lado da via, se trata de un cuento. Entrevistando al autor nos comentó la razón por la que había elegido esta forma de expresión literaria para narrar la historia, forma con la que se siente cómodo por las múltiples posibilidades que le permite: O conto tem uma estrutura mais objetiva no modo de escrita. Sou muito influenciado pela leitura que fiz das obras de Nelson Rodrigues, e me lembro de que, a cada conto ou crônica eu sofria de um êxtase, ele contava uma vida toda em poucas palavras, isso me fascina. O fato de no conto você não explicar tudo é outra técnica ou estilo que favorece a leitura dessas histórias, pois o leitor pode completar as lacunas com o seu imaginário. Acredito que o conto permite ao leitor uma interação que o romance muitas vezes não permite e que a poesia às vezes impossibilita, porque requer um entendimento mais elaborado. A estrutura do conto permite que uma história comece sem o seu início e termine sem que haja um fim. É como pensar no sujeito que sai de manhã de sua casa para ir ao trabalho e ao longo do seu dia acontece algo inesperado. Esta minha escrita tem a intuição sensível de ser rodrigueana, embora me permita inserir elementos textuais que fogem da objetividade da escrita de Nelson Rodrigues. Tenho a intenção de povoar os acontecimentos com as palavras que não são faladas, mas que têm a sua graça e o seu espaço nesse mundo do cotidiano moderno. (PEREIRA, 2011, s/p) De la necesidad de comunicar experiencias vividas o fruto de la imaginación nacen los cuentos, historias que, con un trasfondo didáctico, portan un mensaje que pretende trascender el tiempo 130 Beatriz de las Heras presente, primero a través de la oralidad y más tarde a través de la palabra escrita con la llegada de la escritura. Es la tradición oriental la que explota este tipo de relatos que tienen su origen en el apólogo, breve composición narrativa que esconde una enseñanza práctica o moral y que se diferencia de la fábula por no estar protagonizada por animales y de la alegoría por no basarse en ideas abstractas. Los primeros cuentos parece que tienen su origen en Egipto, en las fábulas de Esopo (siglo VI a.C.) en Grecia y las versiones de los romanos Ovidio y Lucio Apuelvo. Conocemos que cuentos árabes se conservan en rollos de papiro y tienen una antigüedad de 4.000 años, al igual que el Panchatantra, relatos indios del 200 a.C. No llegan a Europa hasta el siglo X, directamente de la tradición árabe y persa, a través de los piratas, mercaderes y esclavos, y su recopilación se expande durante el siglo XIV: en España en El Conde Lucanor por Don Juan Manuel, en Italia en El Decamerón por Boccaccio y en Inglaterra en Los cuentos de Canterbury por Chaucer. Los cuentos se exportan a América en el siglo XV durante el descubrimiento (y se unen a los relatos orales nativos) y la tradición de la recopilación de esas breves narraciones se mantiene desde el siglo XVII cuando Charles Perrault recoge antiguos relatos populares y los adapta a los refinados gustos de la corte del Luis XIV. Como muestra, recogemos un famoso grabado de Gustave Doré que ilustró el famoso cuento “Pulgarcito” de Perrault, en el que se muestra la crueldad de una historia que justifica el asesinato de hijos por la necesidad familiar: Fue - el ogro - en seguida a la cama de las niñas donde, tocando los gorros de los muchachos: ¡Ah! - exclamó - ¡aquí están nuestros mozuelos! Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 131 trabajemos con coraje. Diciendo estas palabras, degolló sin trepidar a sus siete hijas. Muy satisfecho después de esta expedición, volvió a acostarse junto a su mujer… (PERRAULT, 1999, p. 116) Ilustración de Gustave Doré para Pulgarcito de Charles Perrault, Siglo XVII. No debe sorprendernos la dureza de los relatos puesto que hasta el siglo XIX no se concibe al niño como destinatario de los cuentos, momento en el que destaca el trabajo realizado por los Hermanos Grimm. Este interés se ha mantenido a lo largo de los años hasta tal punto que los cuentos, su relato, los orígenes y las características se convierten en objeto de estudio: el ruso Vladimir Propp (1987) se dedicó al análisis de los cuentos tradicionales en Morfología del cuento. Han pasado años de su origen pero en la actualidad siguen manteniendo la misma fuerza e intensidad que hace 4.000 años, como lo demuestra el trabajo de los grandes escritores americanos 132 Beatriz de las Heras del siglo XX como Julio Cortázar, Juan Rulfo o Jorge Luis Borges, creadores de un tipo de historia que vuelve a poner en los adultos su objetivo como lector prioritario. En el caso de Brasil, destacan los cuentos de Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Murilo Rubião, Fernando Sabino, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Nélida Piñón, Marina Colasanti, Ivan Angelo, Roberto Drummond, Sergio Sant’Anna, Domingos Pellegrini, Luis Vilela y João Antônio, que han sido recopilados en la antología de cuentos de autores brasileños realizada por el poeta Affonso Romano de Sant’Anna para la Editorial Andrés Bello. La utilización del cuento está más de actualidad que nunca, sobre todo por la flexibilidad que permite este recurso literario que relata una ficción tomando como base la realidad, vivida o no por el autor, en la que los protagonistas se convierten en portadores de pensamientos y sentimientos universales, como ocurre en O outro lado da via. Es uno de los cincuenta cuentos que Túlio Herique Pereira ha escrito y que se incorporó en el año 2009 a una antología recogida por Ana María Gomes y Julio Fernández para Amante das Leituras (2009, p. 162-167). Cubierta de GOMES, A. M. ; FERNANDES, J. (Orgs.) Antologia poética Amante das Leituras 2009. Paço de Sousa (Penafiel): Amante das Leituras Edições, 2009. Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 133 Se trata de un breve relato precedido por una cita que pone de manifiesto la dificultad de trabajar con las palabras: Não há piedade nos signos e nem no amor: o ser é excessivamente lúcido e a palavra é densa e nos fere (FONTELA apud PEREIRA, 2009, p. 162) La cita es de la escritora Orides Fontela y está recogida de su libro Transposição, un trabajo lanzado en 1969. La obra de esta reconocida poetisa brasileña está marcada por la densidad y la economía de los recursos empleados. Como afirma Donizete Galvão de su trabajo: “é uma poesia descarnada, sem enfeites, de uma dureza óssea e de cunho filosófico. Difere muito da poesia minimalista, coloquial e de descrição de paisagens miniaturizadas”1. Y es precisamente la intensidad y la emoción contenida la que impregna cada palabra del relato de Túlio Herique Pereira, quien afirma sobre las influencias que Fontela y otros autores han tenido sobre su trabajo: Não creio que tenha uma influência direta, mas creio que todos os textos que li ao longo da minha vida influenciaram na escrita dos meus contos, poesias, romances e teatro. A escrita de Orides Fontela me fascina, é uma poetisa filósofa. Ela rompe com a ideia da arte pela arte, da poesia por ela mesma. Ela propõe o debate a partir da poesia, conta uma história em sua poesia. O Brasil ainda não descobriu as construções de Orides Fontela, o que é lamentável, mas creio 1 Cf. http://poemargens.blogspot.com.br/2010/10/orides-fontela.html 134 Beatriz de las Heras que ela é a avant-garde de nossa geração. Seus poemas, que considero estudos do interior humano, são praticamente inéditos aos leitores. Em O outro lado da via, especialmente... Eu já havia escrito o conto e esse conto fala de afetuosidades, idealizações, vislumbre... E quando eu trabalhava na edição, antes de enviálo à editora, relendo-o me lembrei de que a Orides Fontela tinha uma opinião singular sobre essas temáticas, ela fala de lucidez ao se referir ao amor, então eu pensei, “é isso!” O amor é lúcido, somos conscientes de nossos vislumbres, do que idealizamos ou do que escolhemos para seguir, embora isso nos fira. Mas, será que não queremos sentir essa dor? Vi que havia ligação entre a concepção dela com o que eu havia exprimido por meio des personagens desse conto, então decidi homenageá-la com uma epígrafe. De modo que, se alguém quiser entender melhor o sentimento do conto pode ter a possibilidade de esclarecê-lo na obra de Fontela, pois ler essa autora é também uma maneira de efetivar uma continuidade da leitura do meu conto. (PEREIRA, 2011, s/p) En algo más de 1.500 palabras, Túlio narra una historia en la que, de manera indirecta, se genera más información de la que el lector puede descubrir tras una lectura precipitada, por lo que para extraer el mayor contenido posible y traducir las insinuaciones del autor es necesario leer y volver a leer, como ocurre cuando observamos una fotografía histórica: una mirada apresurada hará que el contenido latente se desdibuje entre lo aparente. O outro lado da via requiere de una lectura atenta para poder extraer todo el juego literario que establece el autor (a modo de guiño al lector) en un Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 135 relato que está marcado por la conversación de dos niños que, con el paso de las palabras, dejan de serlo. Y todo ello bajo la atenta mirada de un autor que se hace creador, personaje y lector al mismo tiempo: O autor de O outro lado da via é também uma personagem. Posso dizer que ele existe em meio à multidão e também posso dizer que ele não existe em lugar nenhum porque ele observa. Quem observa, de certo modo, deixa de existir, é mais ou menos como fala o poema “Descarte” no meu livro O observador do mundo finito, “desapareço quando penso/quando não penso inexisto” (PEREIRA, 2008, p. 27). O autor nesse caso é aquele que deixa de viver para viver a vida alheia, aquele que goza com a folha amarelada caindo da copa da árvore. Observar detalhes demanda tempo, absorvê-los e depois exprimi-los leva quase que uma eternidade. É por isso que escrevo pouco e publico menos ainda. Quero ser fiel ao que existe, mesmo que só exista no campo das ideias. (PEREIRA, 2011, s/p) Otra de las características que podemos observar es que en el cuento se generan más protagonistas de los que el lector puede descubrir tras esa lectura rápida. De este modo, al margen de los dos jóvenes protagonista, de una madre que intenta proyectar sus deseos frustrados en su hijo y de un padre ausente, el cuento presenta tres personajes más que rodean la trama: 1. El ambiente, marcado por el calor que genera en el lector una sensación de asfixia sobre los personajes, al igual que genera el espacio por el que discurre la trama. Ese calor que envuelve el cuento nos recuerda al protagonismo que también tiene, como un personaje 136 Beatriz de las Heras más, en obras tan emblemáticas como El extranjero de Albert Camus, calor que marca la actuación de Meursalt, personaje principal. También el cine ha empleado los fenómenos metereológicos como protagonistas de la acción, como en el caso de Blade Runner (Ridley Scott, 1982), film en el que la lluvia es un signo capaz de crear un infierno cotidiano y desesperanzador. Del mismo modo, en O outro lado da via el calor no es únicamente paisaje sino personaje. 2. El tiempo, que transcurre en la historia como el causante de cambio o mutación de la perspectiva de vida del personaje principal. Aquí el tiempo está marcado por una separación, incluso en la propia página, como marca que el autor introduce en el texto para mostrar ese paso del tiempo, ese transcurrir de la vida en el que el protagonista ha cambiado. 3. El camino, definido por el autor como “Um caminho longo por uma via dupla larga e conflituosa”, metáfora de la propia existencia y que será el tema principal de la obra, hasta tal punto que el autor recurre a esa imagen en el título del cuento. Y ese camino que es un recorrido vital por la vida es un tema fundamental en la obra de Túlio: A vida é uma construção. O escritor Túlio Henrique Pereira tem várias concepções para definir a vida. Ela pode ser uma maluquice do humano, pode ser a perdição deste também. Mas não a perdição no sentido de suas práticas, mas sim da ideia de vida que elegemos; sua sistematização, seus códigos, leis, símbolos... É tudo tão sistematizado e tão fechado em si, que não sobra muito espaço para a vida de fato. Porque depois que o corpo desfalece, para nós, ocidentais, a vida deixa de existir, mas para o Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 137 escritor que aqui reflete, a vida continua. E continua a partir da virtualidade que ela já existia. (PEREIRA, 2011, s/p) Escrito con un lenguaje que esconde, tras la aparente simplicidad, pliegos poéticos, este recurso permite que el lector encadene preguntas sobre la existencia del personaje principal y que, de manera inconsciente, las traslade a su propia existencia. Túlio como creador de imágenes con palabras, sensaciones literarias, sensaciones visuales en O outro lado da via El mismo autor dice en su cuento: O mundo é construído de palavras que não são faladas, gestos não interpretados e sentimentos gerados no ventre da humanidade, enquanto o sol se põe em seu espetáculo diário despido de qualquer glamour pirotécnico. (PEREIRA, 2009, p. 164) Túlio se presenta al lector a través de su trabajo literario como dominador de las sensaciones a través de la creación de imágenes plásticas mentales en el lector que hacen que éste se sumerja en su mundo literario. Y esas imágenes no ilustran el texto, sino que añaden significado. De este modo, se crea una unidad literaria a través de su interacción: la imagen y la palabra como un todo. Tras sus palabras se evocan imágenes, sensaciones y experiencias que se presentan como pliegues de la memoria del lector. Él, con sus palabras, hace que se despliegue ese recuerdo, y 138 Beatriz de las Heras que se traduzca en experiencia gracias a las constantes apelaciones a lo sensitivo. Si tuviéramos que construir una metáfora visual que retratase la idea sería la del marco de una puerta que esconde, como ese pliegue del que hablamos, una historia inesperada, tanto como el paso desde la puerta a un paseo por la playa. Jordi Quimera (http://jordiquimera.blogspot.html), 18 de mayo de 2011. Y todo esto gracias a palabras mágicas que nos llevan al mundo de lo sensitivo en estado puro. “Cansancio”, “sudor”, “brillo”, “secaba”, “caliente” son palabras que revelan al espectador todo un mundo escondido y que sólo alcanzará a conocer si su saber lateral se lo permite. Pero, ¿que es el “saber lateral”? Podríamos decir que es el conjunto de informaciones que no se encuentran en el texto que nos presenta el autor y que son incorporadas por él en Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 139 el proceso de lectura. El concepto, que creemos muy oportuno como expresión significativa en la obra de Túlio, fue creado por JeanMarie Schaeffer en los años 80 aplicado a la lectura de imágenes. El filósofo especialista en recepción estética hablaba de que: (…) la recepción de las imágenes dependen esencialmente de nuestro saber sobre el mundo, siempre individual, diferente de una persona a otra, y carente de cualquiera de los rasgos de una codificación. (SCHAEFFER, 1990, p. 81) De tal manera que, y aplicando el concepto a la literatura que nos ocupa, dependiendo del saber lateral de cada lector, se aproximará al texto creado por Túlio de una determinada manera. Es decir, y poniendo un ejemplo fotográfico: dependiendo de las experiencias que tenga una determinada persona, será capaz de entender o no el significado de esta imagen del fotógrafo español Chema Madoz en la que se retrata una maleta cargada de piedras. Fotografía de Chema Madoz, Madrid, 1997, Tirada 5. 140 Beatriz de las Heras Alguien que haya sufrido la dureza de la vida entenderá a la perfección lo que supone esta imagen, una magnífica metáfora del difícil viaje de la vida, marcado siempre por las piedras que nos encontramos en el camino. Sin embargo, en la literatura de Túlio, éste apela, podríamos decir, al saber lateral universal. Ya el propio título del cuento O outro lado da via nos hace vincular las palabras con imágenes icónicas y representativas cargadas de un significado visual muy fuerte. Sin hacer ningún esfuerzo se nos viene a la mente imágenes de las que se despliegan historias relacionadas con el cambio o el paso de un lugar a otro. Un tema que ha preocupado al hombre desde tiempo inmemorial. Por ejemplo, ya en la Eneida del poeta romano Virgilio o en el Inferno del poeta italiano Dante, se abordaba el paso de la laguna Estigia, que retrató magistralmente Patinir en 1520, pintura en la que se inmortaliza a Caronte (el barquero), responsable de pasar en su barca un alma humana a través de las puertas del Hades. Alma de humano que debe decidir entre el Cielo o el Infierno, representado a la derecha o izquierda del lienzo. Joachim Patinir, El paso de la laguna Estigia, 1520, Museo del Prado, Madrid. Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 141 Directamente, y sin pasar del título del cuento, su autor nos presenta a modo de metáfora visual una historia de la que el lector, a priori, no conoce ningún dato pero que, sin duda, relacionará de inmediato con el cambio, la transición y el paso en el tiempo y en el espacio. Ese es el poder del lenguaje de Túlio: sobre dos palabras (“outro” y “via”) se despliega un significado connotado que culmina en una de las frases (ya recuperadas anteriormente) que se pueden leer en el cuento: “Um caminho longo por uma via dupla larga e conflituosa”. Una referencia que se muestra como una gran metáfora del crecimiento, de la madurez, del recorrido vital del individuo. Una vida llena de pasos a dar y caminos por recorrer (con la sensación de abismo que produce la toma de decisiones vitales) en el que acecha siempre la palabra “duda”, tan asociada a términos como los que sobre-impresionamos en un metafórico dibujo de Josep Bartolí de 1944 que realizó como imagen representativa del dolor del exilio español tras la Guerra Civil Española (1936-1939): Ilustración de Josep Bartolí, 1944: 155, Proyecto P1A99-24 UJI-Fundación Caja Castellón Bancaja. Universitat Jaume I, Castellón, España. 142 Beatriz de las Heras Y este poder registrado en la obra de Túlio puede deberse a dos razones diferentes. En primer lugar, por la herencia de trabajar piezas teatrales, ya que la obra del autor que nos ocupa es muy cercana a la puesta en escena. Tanto que, en muchas ocasiones, el lector parece visualizar una concatenación de fotogramas de un film. Cuando se pregunta al autor por esta cuestión contesta: Engraçada essa pergunta, porque antes de escrever qualquer coisa pensando na materialidade do livro, eu escrevia textos para interpretá-los. Sou fascinado por cinema e música. Mas antes de visualizar a atuação do ator em cena e o resultado da direção, ou a interpretação de quem canta, eu visualizo o texto. É o texto que estabelece o elo entre o desempenho, seja da música, da dramaticidade das personagens com as sensibilidades do expectador, ouvinte, leitor. Sou atraído pela possibilidade sensível que a palavra me possibilita. No texto, quero imprimir essas sensações, por isso a escolha de algumas palavras que estão em desuso, quando escrevo deixo fluir o fluxo, deixo que as palavras se aproximem e quero que elas se encaixem harmoniosamente na leitura de quem as lê, mas quero que elas dramatizem e tenham significado no contexto. O texto para mim é dramaticidade, é filosofia, é racionalidade, é prazer. (PEREIRA, 2011, s/p) En segundo lugar, por la mirada que lanza sobre lo que rodea una persona tímida que observa, y no mira, su realidad. Eu sou muito tímido. Muito mesmo, aprendi Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 143 a lidar com minha timidez ao longo da minha inserção nos espaços que não me pertenciam. O meu universo eram os livros, o cinema, a música e tudo isso dentro de um quartinho pequeno, mas que, paralelamente, se constituía no maior universo já pensado por mim. No conto, quero uma verossimilhança, quero aquilo que foi visto ou pensando, com a mesma lógica do tempo que foi visto ou que foi pensado. A ação no conto é lenta, até parece inexistir, mas existe porque representa exatamente aquilo, o cotidiano, que de tão óbvio, muita gente não valoriza mais. (PEREIRA, 2011, s/p) Por tanto, Túlio profundiza en lo que le rodea esquivando “el ver” y propugnando “la indagación” sobre lo que le es cercano. Es una especie de narrador de historias que se infiltra en la vida de sus personajes, un recurso que sólo puede emplear un observador concienzudo de su realidad, siempre escondido tras una persona tímida: Eu gostaria muito de sentar em um banco de uma praça pública e ficar olhando o comportamento das pessoas, mas ficar olhando fixamente, absorvendo aquilo e ir mais além, tentar entender o que elas pensam e o porquê de agirem daquele modo. Fascina-me o comportamento alheio. Não me conformo com as terminologias que se encerram em si, tais como o ladrão, a prostituta, o mendigo, o gordo, o michê etc. Eu quero saber o que faz um sujeito roubar, prostituir-se, mendigar, engordar... Quero saber o que atravessa suas práticas, seus caminhos e como esses sujeitos se veem e 144 Beatriz de las Heras enxergam seus antagonistas. Com que paixões e afetos eles lidam e se deixam construir. Nada é óbvio demais para mim, eu quero possuir essas complexidades em sua essência. Ou ao menos tentar me aproximar delas. Gosto de olhar o comportamento dos rapazes jovens no meu país. Está acontecendo um fenômeno, que não sei se é apenas no Brasil, mas é uma loucura, os rapazes entre 14 e 16 anos, que na minha geração eram crianças, hoje se parecem com a representação de Hércules feita pelos gregos. Estão com os corpos muito docilizados, estão tomando anabolizantes ou “se acabando” na academia para alcançarem uma normatividade, que nem sei se eles entendem do que se trata. Então, para mim, eles deixam de existir em função da existência de um personagem, e meus personagens vão a fundo nessa ideia da existência e da normatização. É essa psicologia da vida que me fascina. Mas, encerrando, infelizmente, não posso observar os sujeitos de modo tão fixadamente, por isso construo práticas de observação, nas quais acredito que não percebam que os observo, mas os observo no momento em que me contemplam. (PEREIRA, 2011, s/p) Y esta obsesión por acercarse al detalle y lanzar una mirada con un ritmo teatral o cinematográfico sobre el relato hace que el autor investigue la realidad explotando al máximo los sentidos, algo que confirma el propio Túlio: Antes de escrever eu sou leitor. E sou leitor do que escrevo, principalmente. O ato da observação me transporta para o observado, ou seja, me coloco no ar daquilo que observo. Sinto aquilo Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 145 que observo e quero que as palavras remetam à ideia do que quero mostrar. O conto tem que ser catártico e quem vai promover essa catarse é a palavra e sua estrutura na frase. Quando as palavras não são escolhidas adequadamente, o sentido se perde e o texto vira superficialidade. As palavras existem em multiplicidade exatamente porque conduzem a sentidos múltiplos, se nos resumirmos a repeti-las de modo referencial, como se faz no texto informativo, deixa de ser arte, deixa de fazer sentir e passa a apenas noticiar. O livro é mais que um produto de informação, ele é um produto artístico nutrido de sensações, energias, vidas e as palavras são a síntese de tudo isso. Desse modo elas precisam ser funcionais no sentido de manter a magia da literatura, precisam cumprir sua função de abstração, de misticismo, de generosidade para com aqueles que lhes decodifica no ato da leitura. Trabalhei por dez anos da minha vida na redação de jornais relevantes no meu estado e sei bem o que configura um texto referencial, não quero que esse estilo de texto prevaleça na minha literatura, mesmo que isso me custe o anonimato. (PEREIRA, 2011, s/p) 1. Vista. Cuando nos habla de luminosidad, ocaso, sol y rayos, nos conduce directamente a la maravillosa visión de una puesta de sol. Sabia que o crepúsculo vespertino corresponde ao período de variação de luminosidade decrescente no horizonte do ocaso, logo após o ocaso do Sol, até o instante em que não são mais percebidos os efeitos dos raios solares na atmosfera? (PEREIRA, 2009, p. 167) 146 Beatriz de las Heras 2. Oído. Nos acerca al sonido del latir de un corazón cuando leemos: “O coração acelerado como uma bomba prestes a explodir e perfurar o peito frágil, expondo os ossinhos da costela”. 3. Tacto. Al describir como el personaje se enrollaba el cabello entre los dedos y cuando definía la fisonomía del padre (el rostro, el cabello, los brazos, los labios, los ojos o los pectorales) es como si Túlio nos cogiera la mano para recorrer el cuerpo del hombre. O que fazer agora era o que ele pensava sozinho, enrolando os dedos nos montinhos crespos do cabelo curto. Puxou o pai na fisionomia do rosto, um negro belo, como diziam pela cidade, que deixava as moças todas penduradas pelas janelas, hipnotizadas pelos braços torneados do crioulo de lábio rosado e carnudo, olhos delineados e maçãs da face fortes como o peitoral. (PEREIRA, 2009, p.162) 4. Gusto. El autor nos hace que la comida surja en nuestro paladar que comienza a saborear el queso y el maíz, cuando leemos: “Agora, talvez uma nova era se faça com permanências e a novidade na face da salgadeira Doricélia, gritando alto a promoção das esfihas recheadas com creme de queijo e milho” 5. Olfato. Que se desata cuando nos describe los contraste de un pueblo en el que el humo del tráfico convive con el olor de las flores: A fumaça dos ônibus velhos em circulação escondem o verde das folhas de uma videira estendida em praça pública, na calçada larga um bulevar falseado de pequenas flores amarelas, Túlio Henrique Pereira, un Creador de Imágenes con Palabras 147 construídas pela prefeitura em um concurso de artes para o bem do meio ambiente, estimulado nas escolas. (PEREIRA, 2009, p.164) En definitiva, el cuento O outro lado da via es una experiencia de sensaciones que atrapa al lector en el mundo de Túlio y que lo hace gracias a las continuas imágenes cargadas de simbolismo que construye: Há o experienciado. Sentires e saberes que me atravessaram ao longo da vida até aqui. Vislumbres. Por exemplo, quando remeto o leitor até os sentidos olfativos da esfiha recheada com creme de leite e milho. Essa passagem no conto foi inspirada em uma cena da minha vida, quando era uma criança muito pobre que andava de pés descalços com outras crianças pela rua, e me lembro que havia uma quitandeira no meu bairro que morava perto de uma praça. Sou fascinado pelos espaços das praças públicas. A quitandeira morava na esquina, de frente para a praça, e quando brincávamos na praça sentíamos o cheiro de seus quitutes, e corríamos todos para a casa dela e ficávamos admirando a beleza dos salgadinhos, mas apenas olhávamos com os olhos e lambíamos com a testa, pois éramos todos muito pobres e não tínhamos moedas para comprá-los. O sabor das esfihas eu nunca experimentei, mas consegui imaginar como seria se os tivesse colocado na boca, ou sentido a textura daquela massa macia na pontinha dos dedos. Muitos dos contos e, especialmente neste, aparecem de mim as idealizações daquilo que não vivi, mas que imaginei. Ou daquilo que presenciei na rua, no passeio pela 148 Beatriz de las Heras praça, nas férias na fazenda observando os lagos, os riachos... No mais, o Rio dos Bois existe e está localizado em Goiás, próximo à Itumbiara, a cidade onde nasci. É um rio muito lindo e caudaloso... Quando o observava, ainda na infância, desejava muito que as vidas dos outros pudessem se encontrar às suas margens. (PEREIRA, 2011, s/p) Las palabras del autor, Túlio Henrique Pereira, sobre la vida… Perfecto final. Referências ECO, U. La estructura ausente. Introducción a la semiótica, Barcelona: Lumen, 1994. FOUCAULT, M. De lenguaje y literatura, Barcelona: Paidós, 1996. GODARD, Jean-Luc. Ainsi parlait Jean-Luc, Fragments du discours d´un amoureux des mots. Télérama, n. 2278, 8 de septiembre, 1993. GOMES, A. M. FERNANDES, J. A. B. (orgs.). Antologia Poética Amante das Leituras. Amante das Leituras Edições. Paço de Sousa, Portugal 2009. HEISIG, J. W. El cuento detrás del cuento, Buenos Aires: Ed. 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Esculpir en el tiempo. Trad. Enrique Banús Irusta. Madrid: Ediciones Rialf, 2005. LUGAR INCOMUM Túlio Henrique Pereira A elevadíssima razão havia saído do escopo da sua lânguida afirmação interior de que todos os homens eram iguais. Roberto não era um homem. Ao menos não um qualquer, comum aos demais que Virgínia insistentemente questionava ao lhes oferecer o lugar de Adãos. Mente guiada pela teoria criacionista, ela fora casada por oito meses com Diogo, a quem flagrou aos beijos com a irmã durante um jantar domingueiro na casa de seus familiares. E aquilo que para ela, inicialmente, parecia ser nada mais que um flerte incandescido, tornou-se casamento frutificado e sólido. Agora Virgínia era cunhada de seu ex-marido Diogo, com quem, incrivelmente, estabeleceu forte amizade recíproca. Ela conheceu Roberto durante os dias de Carnaval dedicados ao descanso na pacata Pirenópolis de Goiás. Durante os anos anteriores havia estado em festas no mesmo período, mesmo quando casada com Diogo - o homem tinha um fogo inapagável, lugar comum de todos os outros dos quais a psicóloga social, especializada em comportamento masculino, analisava. Meigo. Portanto não foi esse o atrativo que despertou seus olhos para ele. Sua atenção se deu ao dorso másculo, os ralos pelos debruçados sobre o peitoral e abdômen, e quando o observou descamisado não conseguia esquivar-se do caminho trilhado pelos pelinhos pubianos indicando o local do paraíso a se esconder por dentro das bermudas de linho. Ela não teve dúvidas de que aquele 152 Túlio Henrique Pereira era o homem. O cumprimentou durante o almoço na pousada. Afinal de contas, tudo favorecia aproximações, e ela, mulher crescida e não doutrinada ao papel de dona de casa se propunha ao lugar da caçadora: “com todo o direito”, falava pra si mesma a cada par de minutos que estremecia na base ao se perceber inadequada. - Boa tarde! - Boa. O homem tinha a macheza até no falar objetivo e sintético. Ela sorriu, e levou com a mão direita os cabelos para detrás da orelha. Após servir-se de salada e juntos darem alguns passos insistiu: - Também está fugindo da loucura do Carnaval? - Sim. Sorriram e decidiram almoçar juntos. Tudo bem que ele tenha se mostrado resistente como ela pensou no primeiro instante. Mas logo em seguida se sentaram acompanhando-se, e decidiram sorrir soltos conversando sobre o mito de que na cidade de Pirenópolis havia a incidência de óvnis e extraterrestres. O lugar mítico os consumia de tal modo que a conversa se estendera a uma sessão noturna, durante a qual, muitos pesquisadores e amantes dos ETs se reuniam para discutir os assuntos relacionados às invasões, abduções, energizações e espiritualidade. 42 anos e nenhum filho, graduada, pós-graduada, divorciada. Tudo o que Virgínia fizera, até então, fora questionar os lugares e à ordem determinada às pessoas que compunham tais espaços no planeta. Fugiu do fogão ainda quando menina, e nunca, mesmo que se esforçasse não se lembrava do dia em que perdeu o tempo lavando ou secando louças. Mais que feminista Virgínia era a síntese da vontade do não ser. Para alguns ela tinha fortes tendências Lugar Incomum 153 homossexuais, para outros tudo não passava de misoginia invertida. E havia aqueles que acreditavam piamente que o que lhe faltara era um bom chá de macho para lhe acalmar os nervos. Ela se interava de todas as impressões que tinham ao seu respeito, não que fosse onipresente, mas sim, por ter uma mãe ativa e integrada, não apenas a extensa família, mas a toda a vizinhança do bairro onde morava desde a época de seus avôs. Um homem saberia caminhar com os pés no chão, enquanto uma mulher podia transcender espaços e observá-lo ao longe, apenas com a certeza dos olhos: “Roberto.”, “Virgínia!?” - Assim, ao longo daquele dia e de outros, acabaram se conhecendo socialmente. Ela logo se lembrou de Gerard Lebrun “paixão é sinônimo de tendência” e incorreu a sua obviedade analítica erigindo-lhe à distância. Pensou capciosamente ser algo próprio de seu ego encerrar-se em si mesma, podendo por si escolher entre a possibilidade de se manter diante do porvir que se instaurava e a moção elevada de sua tese. - Tá tudo bem contigo? Ele a notara ambivalente. Flutuando na aura daquela amplitude e restrição à força estonteante daquele macho. Mas ela era fêmea, porém não o queria submissa, não como os acordos comuns determinavam, não o santificando em certa superioridade digna de sua genética. - Por que tudo há que ser assim? - Assim como? - Previsível. - Mas previsível como? Ele insistiu como quem entendesse o que ela pensava com os olhos perdidos no horizonte de verdes e montes rochosos. Era uma assertiva imaginar que ela pensava 154 Túlio Henrique Pereira sobre os gêneros e suas posições flutuantes. No entanto, ela nunca verbalizaria “não se estivesse interessada”, pensou. - Homem e mulher... Bom e mau... Feio e bonito... gordo e magro. Havia de ser como ela queria. E ele, atento à ela, permitiu concluir sem que pudesse ouvir-lhe à réplica. Podia ser que houvesse uma beleza ali ou tudo fosse nada além de criatividade com direito a bons aromas e raios de sol repousando leves sobre suas peles enrubescidas. Tudo contra ela, levando-a insistentemente à condição uníssona e essencialmente suscetível à receptividade da forma. Recordou de Platão e se lembrou que dos homens, nenhum deles, por maior quantidade possível escolheria as paixões para a legitimidade de sua existência. Desperta e o olha nos olhos com o saber de quem ficara por detrás de espelhos observando-se ao se esconder do outro. Ela sabia na carne que ele não seria, então, responsável por sua paixão, mas somente por como a fizera se submeter à sua ação. Na manhã seguinte Roberto despertou cansado, embora com certa sensação de relaxamento físico. As cortinas flutuavam com os ares invadindo seus aposentos. Dia claro. Pássaros cantando e o tilintar das louças ressoando da cozinha. Levantou-se esfregando os olhos e sem nenhuma peça de roupa a tampar-lhe a pele caminhou em direção ao barulho. Virgínia em pé de frente para a pia virou-se sorridente para vê-lo a sua espreita. Com a louça e a esponja nas mãos, vestida com avental e a camisa de seda do amante, decidiu ali mesmo que a alma era nada além que a ideia do corpo, e, portanto, decidida a compreender os afetos pôs-se a alcançar sua origem em liberdade de tudo que lhe aprisionava. Sentiu-se na luz, distante da Lugar Incomum 155 cegueira de sua própria caverna cavada por seu ethos. Roberto por sua vez não compreendia o que via. Abarcou a profusão ríspida de terem se amado na noite passada, nada, além disso. Não versejava a razão tangível de vê-la sorrindo ao lhe servir. Estático. Era como se o riso o contemplasse internamente e a súbita grosseria de seu pathos o mantivesse alheio a qualquer sensação de deleite para com ela. Sem dúvida ela não era quem ele pensou que fosse, e mais uma vez se enganou na eterna busca pela diferença. Virgínia conheceu Roberto durante os dias de Carnaval dedicados ao descanso na pacata Pirinópolis de Goiás. Meigo. Portanto não era esse o atrativo que despertou seus olhos para ele. Sua atenção se deu ao dorso másculo, os ralos pelos debruçados sobre o peitoral e abdômen, e quando o observou descamisado não conseguia esquivar-se do caminho trilhado pelos pelinhos pubianos indicando o local do paraíso a se esconder por dentro das bermudas de linho. Ela não teve dúvidas de que aquele era o homem. Virgínia conheceu Roberto durante os dias de Carna... Virgínia conheceu Roberto durante... Viríginia conheceu Roberto... de fronte para ela. Ele se mantinha o homem em carne, osso e pose a rejeitar sua investida durante o almoço na pousada. Senão em sua totalidade se mostrava como alguns homens extraordinariamente bonitos que valem o equivalente à sua beleza em insipidez. Ela se mostrou mulher com corpo e alma de mulher. Mais agora do que antes, pois havia catarticamente se libertado depois de se mostrar fora do mito das exceções, ela resvala para si mesma em descontentamento e perda: “a alma foi feita para sentir”. O QUE QUER, O QUE PODE ESTE NARRADOR? Cleudemar Alves Fernandes (Universidade Federal de Uberlândia) (Laboratório de Estudos Discursivos Foucaultianos) Introdução Às vezes, em dia de luz, nada vejo. É preciso esperar o romper do sol para, no silêncio da noite, despertar o olhar. Do interior de um sujeito aflora então, muito do que esteve lá fora; esteve fora e o habitou; muito do que lho deu verbo e o fez e o faz sentir... Este Lugar Incomum (PEREIRA, 2012), com sabor de raridade, transformado em conto, constrói um autor. “Mas não cabe ao autor prescrever a maneira pela qual deve ser lido” (ERIBON, 1996, p. 16). O autor tão somente o sentiu e o fez conto; e isso é tudo para que uma escrita ateste a existência de um autor, lance-o a linhas tortuosas que bordejam o infinito e o coloquem à deriva de um caminho que promove encontros. Encontros do olhar-linguagem, sentimentos, e, acima de tudo, sentidos de indefiníveis contornos. Discorrer sobre o autor, a persona..., “a literatura e o ato de escrever têm a ver com a vida, mas a vida é algo mais que pessoal [...] mesmo porque [mesmo lembrando e precisando lembrar para escrever] não se escreve com as próprias lembranças, escreve-se com o devir” (DELEUZE, 1997, p.14). 158 Cleudemar Alves Fernandes O Autor Ao apresentar os procedimentos de controle do discurso, Foucault (1996) efetua referência ao princípio de autoria, segundo o qual, o autor pode ser compreendido como aquele que reúne um conjunto de vozes históricas, sociais e ideológicas na produção de um texto. Acerca do autor, em conferência realizada sobre essa temática, em 1969, e intitulada O Que é um autor?, Foucault (1992) reitera que o sujeito da escrita, pela abertura de um espaço produzido pela obra, está sempre a desaparecer e que não se fixa um sujeito numa linguagem ou o exalta pelo gesto de escrever. Há, inclusive, um parentesco da escrita com a morte pelo apagamento da própria existência do escritor, uma vez que a escrita desencadeia a abertura de um espaço a partir do qual o sujeito da escrita está sempre a desaparecer. Sabendo-se que o autor é anterior e exterior ao texto, esse apontamento é sustentado pela formulação “que importa quem fala?”, buscada por Foucault (1992, p. 35) em Beckett. A indiferença vislumbrada por essa afirmação é norteada por um princípio ético, por preceito valorativo do que se pode falar e/ou escrever em uma dada época, em um dado momento na história. Não obstante, se “o nome do autor não transita, como o nome próprio, do interior de um discurso para o indivíduo real e exterior que o produziu, [...] manifesta a instauração de certo conjunto de discursos [...] no interior de uma sociedade e de uma cultura” (FOUCAULT, 1992, p. 45-46). Essa afirmação é reiterada por Foucault (1996, p. 26), quando (re) apresenta o autor dissociado do indivíduo que escreveu o texto, como um “princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de suas significações”. Em se tratando da escrita, “o autor é O que Quer, o que Pode Este Narrador? 159 aquele que dá à inquietante linguagem da ficção suas unidades, seus nós de coerência, sua inserção no real” (FOUCAULT, 1996, p. 28). A referência à morte do autor é feita no sentido de que, quando um sujeito escreve, seu nome civil pode bordejar o texto, pode acompanhá-lo por meio da assinatura, mas esse sujeito começa também a existir como um escritor. Estabelecem-se, então, “continuidades e um nível de coerência que não são exatamente aqueles da sua vida real [...]. Tudo isto acaba por uma espécie de neoidentidade, que não é idêntica à sua identidade civil, nem mesmo à sua identidade social” (FOUCAULT, 2006, p. 79). Se a escrita promove a morte do autor, ela é também responsável pelo seu nascimento: fora, posterior e além do texto, mas a partir dele. “O nome de autor é um nome próprio” (FOUCAULT, 1992, p. 42), envolto, em seu funcionamento, por uma significação complexa, que se situa entre os polos da descrição e da designação. Constróise, nesse ínterim, a ligação do nome de autor com o que ele nomeia. Com isso, o nome de autor exerce certo papel nos discursos materializados pela escrita e suscitados por ela. Em torno desse nome, tem-se uma função classificatória e um agrupamento de textos. Como assevera Foucault (1992, p. 45), o nome de autor caracteriza certo modo de ser do discurso, dissociando-o do cotidiano: “tratase de um discurso que deve ser recebido de certa maneira e que deve, numa determinada cultura, receber certo estatuto”. E, ainda na mesma página, “o nome de autor [...] bordeja os textos, recortandoos, delimitando-os, tornando-lhes manifesto o seu modo de ser”. A função atribuída ao nome de autor marca, em nossa sociedade, o tipo de funcionamento e a circulação de discursos a ele correlacionados. Logo, esse nome caracteriza um discurso que 160 Cleudemar Alves Fernandes o porta; e há, nesse discurso, uma pluralidade de eus e diferentes posições-sujeito. Reitero que o nome de autor é construído posterior e exterior à escrita. Com isso, à função autor, podem-se acrescentar as construções imaginárias e as produções identitárias, não fixas, que bordejam seu nome próprio. Acerca da inserção do sujeito no discurso, Foucault (1992, p. 69-70) interroga: “segundo que condições e sob que formas algo como um sujeito pode aparecer na ordem dos discursos? Que lugar pode o sujeito ocupar em cada tipo de discurso, que funções pode exercer e obedecendo a que regras?”. Michel Foucault apresenta o autor como uma das especificações possíveis da função-sujeito. O nome de autor, como um nome próprio, é uma produção discursiva, exterior ao texto, mas lhe assegura certo estatuto, possibilita-lhe sentidos e se integra ao funcionamento de discursos produzidos pela e a partir da escrita. Daí a possibilidade de referir a representações imaginárias e construções identitárias do autor pelos discursos que remetem a ele e pelo estatuto que assegura o funcionamento desses discursos. Esse estatuto sofre alterações, deslocamentos na história, fazendo com que a identidade de um nome de autor, compreendido como uma função-sujeito, não seja fixa, esteja em constante produção e se transforme em conformidade com o modo de funcionamento dos discursos que remetem a um nome de autor. O autor refere-se a um nome próprio que bordeja os discursos, no sentido de lhes atribuir certo estatuto, qualificá-los e corroborar a produção de sentidos. O que Quer, o que Pode Este Narrador? 161 O Narrador Colocando-me em diálogo com o conto Lugar Incomum, de Túlio Henrique Pereira (2012), seu narrador é um autor-textual, uma personagem produzida pela escrita e, no texto, um sujeito discursivamente construído, uma pluralidade de “eus”. Autor e narrador existem em planos diferentes (deixarei aquele antes e fora do texto), sem, contudo, reconhecer que o autor porta “imperativos técnicos e estéticos de que dependerá a transcrição da sua visão de si mesmo e dos outros” (REIS; LOPES, 1988, p. 62). A propósito dos imperativos técnicos e estéticos que caracterizam o nome próprio do autor Túlio Henrique Pereira, observo que predominam as seguintes características: a) são narrados em terceira pessoa; b) oferecem o transcorrer do dia, cuja descrição caracteriza a atmosfera que envolve as personagens; c) trazem um erotismo, um despertar sexual que impulsiona os sujeitos personagens ao enlace, mas lhes acarreta frustração, pois o alvo da paixão escapa-lhes; d) os sujeitos construídos nesses contos, em especial os protagonistas, encontram-se diante do inalcançável; são marcados por uma instabilidade e por uma fragilidade decorrente de dada impotência para alcançar a felicidade, portam certo pessimismo, uma vitalidade morta; são inconformados com o não saber sobre si e são entregues à incerteza, à instabilidade que assola a vida. Enfim, todos buscam o indefinido, guardam segredos da alma, pelos quais são movidos, mas se voltam para algo de contornos imprecisos, para o não encontrável, o que acentua um decaimento final. Em concordância com Mallarmé, que acreditava que fazer poesia é sugerir um sentimento sem dizer o que ele é, asseguro que todos 162 Cleudemar Alves Fernandes esses contos atingem um estado poético. Concordando que o autor enquanto função-sujeito constrói sujeitos, priorizarei o narrador, considerando-o como uma personagem, um sujeito discursivo fictício que habita a escrita. Mais ainda, uma subjetividade da qual emergem efeitos sujeito. Diferentemente do autor, cuja existência empírica apaga-se no texto, mas cujo nome bordeja o texto, o narrador tem uma existência textual e possibilita encontros entre subjetividades indefinidas, concernentes à natureza enviesada, própria à exterioridade que habita os sujeitos. A voz do narrador emerge de instâncias de enunciação determinadas, mas como sujeito, cuja possibilidade de existência decorre dos discursos que lhes são exteriores e anteriores, porquanto há um duplo funcionamento inconsciente: o do sujeito que tem voz, em relação a si mesmo, e o das coisas ditas, por serem desencadeadas por uma memória em funcionamento, cujos dizeres residem fora dos espaços da lembrança. Discorrerei assim sobre encontros de subjetividades imergidas em/e emergidas de espaços de enunciação. Imbricamento de sujeitos. Afloramento de subjetividades Concernente à subjetividade, considero-a de natureza exterior ao sujeito, produzida por discursos, como assevera Foucault (2004, p. 394): “é para que ele [o discurso] possa vir a integrar-se ao indivíduo e comandar sua ação, fazer parte de certo modo de seus músculos e de seus nervos”. No conto em epígrafe, lugares incomuns se encontram e não se sabem... Movido pela indagação “o que quer, o que pode O que Quer, o que Pode Este Narrador? 163 este narrador?”, avento que, além do querer e do poder, a literatura promove acontecimentos, encontros do olhar-linguagem... Mais que impressões literárias indefinidas, suscita paixões vindas de um exterior longínquo da subjetividade. A escrita, em sua função enunciativa, promove enlaces, faz nascer seres de linguagem... No conto, o narrador oferece-nos Virgínia e Roberto, envoltos por uma cenografia então construída. Em Virgínia, manifesta-se o primeiro sintoma de um olhar-linguagem que, como exterioridade que a cerca, volverá seus sentidos: “o dorso másculo, os ralos pelos debruçados sobre o peitoral e abdômen” (PEREIRA, 2012, p. 151). Anuncia-se, assim, um processo de subjetivação decorrente do que os olhos viram e registraram. Constitui-se, portanto, um caminho a ser trilhado, determinado por outro caminho visivelmente traçado no corpo de Roberto: “caminho trilhado pelos pelinhos pubianos indicando o local do paraíso a se esconder” (PEREIRA, 2012, p. 151). Na literatura, especialmente nessa literatura, a paixão decorre de determinada exterioridade que ganha lugar e, até mesmo, constrói a subjetividade. Para Virgínia, Roberto ainda não existia: veio de um exterior longínquo de sua subjetividade, exterior distante; um fora até então inexistente, foi se constituindo sujeito, e, existindo fora, tornou-se para ela corpo, voz e sentidos. Ela se tornara então Eva, uma sedutora astuta diante de sua presa: o olhar nos olhos com o saber de quem ficara por detrás de espelhos observando-se ao esconder do outro. “Síntese da vontade de não ser” (PEREIRA, 2012, p.152), como atesta o conto, diante de Roberto, Virgínia era mulher que “podia transcender espaços e observá-lo ao longe, apenas com a 164 Cleudemar Alves Fernandes certeza dos olhos” (PEREIRA, 2012, p. 153). Olhar, linguagem, palavras (poucas), cheiro e sabor integravam o caminho seguramente traçado pela astuta caçadora. Ele, Roberto, macho até na voz, de “falar objetivo e sintético” (PEREIRA, 2012, p. 152) fez-se presa... Em Lugar Incomum, o defloramento foi revelado quando o amanhecer descortinou-se em uma atmosfera cheia de alegria. Na luz do dia que se iniciava, a leveza da alma embalou Roberto. E “a alma [‘feita para sentir’] era nada além que a ideia do corpo” (PEREIRA, 2012, p. 154). Com o canto dos pássaros sintetizando a cenografia anunciada nas primeiras linhas do conto, tudo pode ser sentido por Roberto, quando, em um exercício de liberdade, pode se cobrir somente com a própria pele após ter sido deflorado por Virgínia. Sim, ela o enlaçou em um canto nupcial e o tornou leve; puro, talvez. Porém, ele que fora a pomba – ave de Afrodite que representou a encarnação amorosa que a amante tomou como objeto de seu desejo – se esvai, recusa-a, deixando-lhe os sentidos na alma, que foi “feita para sentir” (PEREIRA, 2012, p. 155). À Virgínia, fora devolvida a ambivalência flutuante de uma amplitude característica de sua obscura instabilidade e se resvalou “em descontentamento e perda”. À maneira do conto Lugar Incomum, que se finaliza rompendo a sintaxe, dando lugar a reticências, como uma abertura de espaço para uma mulher que, com corpo e alma – sujeito de ação –, deflorou um homem que portava no corpo o desenho de um mapa pudico apontando o paraíso, a subjetividade permanece como uma construção inconclusa. E os sujeitos são apenas efeitos dessa subjetividade. O que Quer, o que Pode Este Narrador? 165 Palavras Finais Nessa trama, o Narrador tomado como autor textual que, à frente do autor empírico, agrupa discursos e por eles apresenta sujeitos, mostra-se como um afloramento de subjetividade de contornos imprecisos. Esse narrador é também uma personagem constituída por uma pluralidade de “eus”, uma pluralidade de sujeitos. Do que ele enuncia, exterioridade à linguagem, emanam seres de linguagem que fazem do texto literatura e, em sua função enunciativa, promove enlaces com outras subjetividades, as dos leitores possíveis, a partir do que o conto oferece dele em cada leitor. De meu lugar de leitor, da subjetividade que nessa interlocução se aflora, é como se perguntasse: O que o conto oferece dele em mim? O que do conto se abre e me enlaça? Nesse Lugar Incomum, já sou mais eu... Após percorrer todas as linhas do conto, encontro-me diante de um espelho que reflete o convite para o próximo passo, que seria ainda o primeiro olhar para um lugar incomum. Ao me olhar, então, porta estrada aberta, um convite apenas: “a elevadíssima razão havia [mesmo] saído do escopo de sua lânguida afirmação interior...” (PEREIRA, 2012, p. 151) E as reticências quebram a sintaxe e permanecem como uma indicação de um espaço aberto, indefinido e reduplicado por linhas tortuosas estendidas ao infinito... Referências DELEUZE, G. Crítica e Clínica. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997. 166 Cleudemar Alves Fernandes ERIBON, D. Michel Foucault e seus contemporâneos. Tradução Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996. FOUCAULT, M. O Que É um Autor? Tradução José A. Bragança de Miranda; António Fernando Cascais. Lisboa: Passagem, 1992. FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. Tradução Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Loyola, 1996. FOUCAULT, M. A Hermenêutica do Sujeito. Tradução Márcio Alves Fonseca; Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2004. FOUCAULT, M. “Eu Sou um Pirotécnico” Sobre o método e a trajetória de Michel Foucault. In: PAUL-DROIT, R. Michel Foucault: entrevistas. Tradução Vera Portocarrero; Gilda Gomes Carneiro. Rio de Janeiro: Graal, 2006, p. 67-100. PEREIRA, Túlio Henrique. Lugar Incomum. In: MILANEZ, Nilton (org.) Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo. V. 1, N. 1, Ago-Dez, 2012. Brasilidade, subjetividades, corpo. Em torno da literatura de Túlio Henrique Pereira. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2012, p. 151-155. REIS, C.; LOPES, A. C. Dicionário de Teoria Literária. São Paulo: Ática, 1988. À FLOR DA PELE Túlio Henrique Pereira Depois de seis semanas impetuosas em busca de mais uma razão do meu viver, eu finalmente estava ali, admirando uma reprodução pobre e desbotada de Little spooners sunset, de Norman Rockwell, em uma parede cor abóbora. Sem dúvida um crime de péssimo gosto. Estava no meu terceiro cafezinho, já tinha emaranhado e desemaranhado as felpas da grenha, andado de um lado para o outro, observado os rastros marcando o assoalho de lajota encerado e até sorrido com Hilst. A Hilda. Não me continha em minha ansiedade. Se não fosse pelo estímulo de Érica, uma gordinha ruiva, balzaquiana incrível sob sua pele feminina e única melhor amiga, jamais teria preenchido o meu cadastro naquela agência fechativa: preço baixo, sigilo, ambiente requintado e segurança. Sem dúvida reconfortaria o meu desespero de solidão com mais um gatuno ou a tentativa frustrada de outra viagem ao Havaí. Eu sabia do que queria, como e porque me mantinha naquele lugar. Tudo era muito claro, bem como quando conquistei a estabilidade profissional almejada, o respeito e a educação planejados e o consentimento familiar postergado por tantos desencontros. Estava pronto, lúcido e receptível a toda e qualquer possibilidade de colisão. Cansado de ser o só. Pelas tantas, durante a espera, uma fresta de luz invadiu o espaço da sala, roubando atenção e sensivelmente aguçando a curiosidade. Atravessava o vidro e as persianas horizontais, tocando 168 Túlio Henrique Pereira a folhagem de um arbusto suntuoso esgueirado no canto direito do cômodo, entre o sofá e a janela. A moça da recepção era hábil. Novidade. Ao mesmo tempo em que conversava no programa de mensagens instantâneas, atendia ao telefone e os clientes, acomodados por ela em outras salas, e prestava bastante atenção na minha perna inquieta ou em minhas mãos agitadas. Estava ávido por aquele porvir, muito mais do que quando aguardava o resultado da solicitação de financiamento do meu primeiro veículo, há doze anos. Não havia parâmetros para o instante. Nenhuma referência de anos de leitura da Marie Claire, sequer um conselho bonachão da Érica, esperançosa para que eu encontrasse aquilo que denominava felicidade. Nem mamãe se fazia presente com suas advertências e crendices comuns. Eu estava só, mais uma vez, porém, à espera do fim, contemplando a iminência de uma solidão obsoleta e tardia. Não podia me portar habilidoso, nunca o fizera antes. Não conheci ninguém que tivesse passado pela mesma situação. Foram anos dedicados aos estudos, outros tantos à carreira e muito mais constituindo aquilo que todos disseram se tratar de equilíbrio. Nenhum deles experienciado por um toque ou beijo, singelo que fosse. Como mamãe costumava dizer, para ela, eu era donzelo e não gay. Não deveria aceitar o que tantos diziam ao ouvido para que eu seguisse. Zelosa mamãe, mal sabia o deleite arraigado de sítios virtuais em noites brandas trancado em meu quarto. Enfim, já havia se passado muitos minutos, além do combinado. Não me aguentava em ansiedade. Sentia-me a princesa a ser arrebatada por seu príncipe em um cavalo branco rasgando À Flor da Pele 169 a mata ao meu encontro. Vicissitude sublime saltitando o coração ao mesmo passo, dada a calmaria. Não sabia o que sentir, nem ao menos o que pensar. Embora ele pudesse estranhar o meu sorriso solto e a minha temporária timidez, não haveria motivos para não se encantar por mim. Poderíamos passear pela estrada do lago, depois ir ao teatro e quem sabe conhecer a área norte da cidade, onde se concentram lazeres populares. Mas e ele, o que pensar de alguém que adora Ella Fitzgerald? Sem dúvida um gentleman da melhor estirpe. Tanto futuro a se desenrolar, tanta coisa a dizer, limitados por um momento tão objetivo. O que esperar do agora? O que fazer? Como não naufragar? O corpo habitava em revés e culpa, desejo e culpa, solidão e culpa, ereção e culpa... Alívio: a secretária me convida a entrar. Nunca pensei que em um mesmo espaço habitariam gostos tão distintos. Paredes em tons de cinza decoradas com uma boa réplica de As três Marias, de Portinari, mobiliário sóbrio, sofás convidativos e carpete felpudo. A moça se retira. O senhor engravatado me convida para sentar e, sem jeito com as palavras, explica que o meu príncipe não havia esclarecido um detalhe, um fato nada importante, mas que causara um desencontro de informações relevantes em nosso juízo. Ele não se interessava por negros, não que tivesse alguma coisa contra, mas não se interessava. A partir daquele instante o agenciador se desculpou comigo e disse que iria repensar a política para a formalização dos encontros, uma maneira mais simples para que os clientes tivessem contato com fotografias uns dos outros e a disponibilidade do cadastro para os interessados não incorrerem no mesmo equívoco. 170 Túlio Henrique Pereira Levantei-me emudecido, sem palavras, distintamente incompreendido. Interditado de expressar o que o meu coração trazia pelo simples fato de eu, humano, me resumir à cor da pele. O SER LITERÁRIO NA ESCRITA DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA: UM PASSEIO POR SEUS CONTOS ERÓTICOS GAYS Jaciane Martins Ferreira (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Goiatuba) (Laboratório de Estudos Discursivos Foucaultianos – CNPq) “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. Perto do coração selvagem (LISPECTOR, 1980, p. 50) Palavras iniciais Ouvir as palavras de Lispector, citadas como epígrafe deste texto, leva-me a pensar nesse sempre mais que buscamos incondicionalmente. Algo que seria maior do que chamamos ou queremos conhecer como liberdade. Particularmente, a minha leitura sobre o que seria mais do que uma tão sonhada liberdade, só poderia ser encontrado na e através da literatura. Não é minha intenção, aqui, expor sobre várias formas de entender a literatura, mas pensar a literatura na mesma linha em que Foucault (2001) a pensou: como uma obra de linguagem, pois a partir do momento que se torna literatura, ela se desdobrará ao infinito, situando-se em um espaço exterior. Será esse espaço exterior encontrado em obras literárias algo além da liberdade? Minha resposta seria sim! Em uma manhã de quarta feira, em meio a muitas tarefas, resolvi que leria parte dos contos eróticos gays selecionados para começar a pensar no que escreveria sobre a literatura de Túlio Henrique Pereira. Eram cinquenta e oito páginas de contos. Antes 172 Jaciane Martins Ferreira que a manhã terminasse, já havia lido todos os textos, dado o encanto pela escrita desse autor. A leveza e clareza de sua escrita me conduziram para dentro de cada um daqueles contos, fazendo com que eu terminasse um já com vontade de ler o outro. Creio que nesse momento em que nos encontramos sozinhos e, ao mesmo tempo, acompanhados de personagens que queremos conhecer e descobrir seus segredos, seria o momento de apreender o espaço além-liberdade supracitado. Neste trabalho, pretendo analisar quatro contos gays de Túlio Henrique Pereira, a saber: Sui generis, O outro lado da via, À flor da pele e Hércule1. O primeiro deles apresenta uma conversa realizada através do msn entre dois garotos, dos quais o principal não é nomeado e o ápice do conto é o fato de um ter imortalizado o outro com uma tatuagem. A partir desse conto, pretendo discutir sobre a escrita literária e sua imortalização. O segundo e terceiro contos ganharam destaque por marcarem acentuadamente a falta de nomeação das personagens. O quarto conto foi escolhido por tratar de algo que me toca bastante, o fato de o escritor fazer uma literatura de alta vendagem, mas ter de se render ao pedido do editor e escrever algo que contasse um pouco de si de forma poética. Em minhas análises, pensarei sobre o fazer literário, memória e escrita de si, buscando entender a construção do(s) sujeito(s) que perpassa(m) os 1 Os contos O outro lado da via e À flor da pele foram publicados pela primeira vez em edição portuguesa sob as seguintes referências: 1) PEREIRA, Túlio Henrique. O outro lado da via. In: GOMES, Ana Maria; FERNANDES, Júlio (orgs.). Antologia poética Amante das Leituras 2009. Paço de Sousa (Penafiel): ADL Edições, 2009. p. 162-167. 2)PEREIRA, Túlio Henrique. À flor da pele. In: GOMES, Ana Maria; FERNANDES, Júlio (orgs.). Antologia poética Amante das Leituras 2010. Coimbra: Temas Originais, 2010. p. 83-85. Como indicações à remissão das citações dos contos neste artigo, tomaremos as referências da publicação na presente edição. O Ser Literário na Escrita de Túlio Henrique Pereira 173 contos em destaque. Sui generis: a escrita eternizada Recosta-se exausto na cadeira de madeira com assento acolchoado. Respira fundo ao ponto de extrair uma lágrima dos olhos, mas não permite que caiam. Na tela do computador, o alerta do programa de conversação instantâneo lhe chama atenção. Pousa a caneca vermelha sobre o descanso na escrivaninha, cruza as pernas repousando um pé sobre o outro e ri, ainda com melancolia no rosto pálido e lânguido (PEREIRA, 2012, p. 75). Essas palavras nos levam a uma situação típica de nosso cotidiano: uma conversa pelo msn. O conto Sui generis apresentanos uma conversa realizada por meio do msn, em que se mostra, com detalhes, a insegurança de uma personagem, a qual não é nomeada, em relação a outro rapaz chamado Rafael. A personagem sem nome mostra sua insegurança ao falar com Rafael, pois ele teme falar demais, ao mesmo tempo em que expõe seus sentimentos e fica sempre esperando por uma resposta para prosseguir com o diálogo. Em dado momento, ele dirige a seguinte pergunta a Rafael: “- Queria saber como você se sente... você está imortalizado em palavras, num ideal de amor impossível, desencontrado... incompreendido” (PEREIRA, 2012, p. 77-8). De modo velado, percebo que se trata de um amor que não tem muitas chances de acontecer, pois a personagem sem nome diz que, provavelmente, Rafael não terá oportunidade de ler as palavras escritas por ele. Isso posto, retomo a materialidade em destaque para falar 174 Jaciane Martins Ferreira um pouco sobre o fato de haver uma imortalização via escrita. A personagem sem nome se refere a uma tatuagem feita em suas costas, onde está grafado o nome de Rafael. Noto que ali a escrita se configura como a escrita literária, de acordo com Foucault (2001), uma vez que a linguagem é transgredida em literatura, ela estabelece um entrelugar, um espaço que é só dela e que será repetido, um lugar imortalizado em palavras. De acordo com Blanchot (1997, p. 253) a linguagem é sempre possibilidade de tornar-se algo novo. Percebo, então, que a personagem reconhece que a escrita é uma maneira de levar a linguagem ao infinito, eternizando sentimentos que, às vezes, não podem ser vividos ou mesmo experimentados. Fernandes (2009, p. 383), em sua leitura dos textos foucaultianos sobre literatura, afirma que essa noção de exterioridade implica algo externo e posterior ao texto, de contornos indefinidos, mas que lhe possibilita existência. É uma exterioridade marcada por um devir discursivo, que irá construir inclusive sujeito(s) a partir da escrita e de sua articulação no social e na historicidade, construindo igualmente instâncias sociais e discursivas; remete ao funcionamento e à produção de discursos, e ainda à produção de saber. A linguagem transgride em literatura por haver a necessidade de se romper com o mundo, com intuito de apreender o que há na vida, mas que não é possível apreender se não for por uma via artística. Isso ocorre por haver a necessidade de apreender o inapreensível, tal apreensão só acontece via linguagem. Seria, pois, o lugar da exterioridade. De acordo com Blanchot (1997, p. 253), a literatura está sempre em busca de uma linguagem que está centrada em sua origem, linguagem essa “que é toda impossibilidade e toda realidade”, e, pelo fato de substituir todas as coisas, ela é totalidade. O Ser Literário na Escrita de Túlio Henrique Pereira 175 O autor defende que a linguagem se configura como um tipo de morte a qual nenhuma outra morte pode alcançar. Ou seja, a linguagem é sempre possibilidade de tornar-se algo novo. Assim, no plano da palavra que se transgride em literatura repousa a imortalidade, pois uma vez nesse plano permanecerá na eternidade, ao infinito, citando novamente Foucault (2001). Ao voltar minha atenção para o conto em foco, quase no final do conto, a personagem hesita em falar com seu amor, apagando palavras escritas na tela do bate papo e, após buscar uma água, volta para seu computador como se Rafael, do outro lado, não fosse mais trazido para aquela cena. Do personagem sem nome, ficamos apenas com os traços de um amor impossível e o levantar de sua camisa mostrando a tatuagem feita para seu amor Sui generis. Vejamos o excerto: Levanta-se e vai até a cozinha num balouçar descompassado de pernas lisas e cumpridas. Os pés descalços deixam o assoalho manchado de suor à medida que segue o próximo passo, no tornozelo uma tornozeleira prata com pingente de crucifixo caindo sobre os pés longos e formes. Retorna com um copo d’água pela metade. Ao se sentar na cadeira a camisa do pijama se levanta na altura do cóccix, em que se veem algarismos romanos tatuados na pele alva seguidos de palavras em vermelho. Um erre delineado se esconde atrás do tecido que oculta o latim de um verso iniciado em ‘D’ no caminho dos pelos penetrando as nádegas manchadas com leves estrias. Substitui o descanso e digita anedotas na caixa de diálogo encerrada sem que ele entenda ao menos o porquê (PEREIRA, 2012, p. 78, grifos meus). 176 Jaciane Martins Ferreira A eternização da linguagem em literatura, como me referi anteriormente, acontece ao escrever a palavra no livro branco. Aqui, o personagem sem nome eterniza seu amado tatuando sua pele. Nesse contexto, o corpo seria o livro branco, onde passarão anos e a palavra não será retirada, marcando aquele momento. Seguindo os contornos do conto, posto que a linguagem literária crie uma dada exterioridade, segundo Fernandes (2009), afirmo que o sujeito construído a partir dessa exterioridade é um sujeito marcado por características religiosas, como podemos comprovar nas seguintes palavras do contista: “Os pés descalços deixam o assoalho manchado de suor à medida que segue o próximo passo, no tornozelo uma tornozeleira prata com pingente de crucifixo caindo sobre os pés longos e formes”. (PEREIRA, 2012, p. 78) De acordo com Foucault (2007, p. 10), a experiência da sexualidade se distingue da experiência cristã, mas elas são similares por serem dominadas pelo homem desejo. Temos, nesse conto, um sujeito que mostra ter tido uma formação religiosa. Ao mesmo tempo, é um apaixonado por seu amor Sui generis, no entanto, não faz muito para que esse amor aconteça, ou até mesmo porque não pode fazê-lo. Fica a dúvida para o leitor, a tristeza dessa personagem seria pelo motivo dessa paixão vista como impossível? Não é possível obter essa resposta. Acredito que o sujeito desse conto é um sujeito criado em um espaço exterior, cuja existência pode ser olhada somente sob o viés desse espaço. Um espaço que, despreendendo-se de seu autor, criou sujeitos, instâncias discursivas e uma historicidade própria. Por isso, no espaço literário, há a emergência de sujeitos. No próximo tópico, analisarei os contos O outro lado da via e À flor da pele. O Ser Literário na Escrita de Túlio Henrique Pereira 177 O outro lado da via e À flor da pele: amores perdidos Retomando o tópico anterior e levando em consideração que a exterioridade cria seu espaço próprio e daí emergem sujeitos, destaco uma parte do conto O outro lado da via, no qual é narrada a história de um menino cujas palavras da mãe ressoavam em sua cabeça, ao dizer-lhe que se casaria e que teria filhos. A criança não contava com a presença do pai, fato que parecia incomodá-lo, não pela a ausência em si, mas pelo medo de tê-lo perto e sentir desejo pelo próprio pai. O conto apresenta poucos diálogos, sendo marcado pela presença do narrador. Segue o excerto: O mundo é construído de palavras que não são faladas, gestos não interpretados e sentimentos gerados no ventre da humanidade, enquanto o sol se põe em seu espetáculo diário despido de qualquer glamour pirotécnico. Apenas crepúsculo constituído pelo firmamento, o ar e o espaço. Ambos se partem. Seguem em busca de si, embora perdidos nestes intervalos do tempo seriado, influídos em difusão e luz, camada por camada até o instante do desaparecimento dos seus astros amamentados pela fortificação e direcionados ao saber, crescentes (PEREIRA, 2012, p. 119-20). Nesse momento, não sei se ouço o narrador falando do menino de cachos negros ou se ele está contando algo de nós mesmos, fazendo-nos reviver uma memória que não nos pertence. Por isso que, ao dizer que o espaço literário cria sujeitos a partir de 178 Jaciane Martins Ferreira sua articulação com o social, o outro que constitui esse sujeito é um espaço vazio que pode ser ocupado por qualquer um de nós, sujeitos leitores, que nos sentimos livres para fazer dessa narrativa também uma narrativa de nós mesmos. Considerando o excerto destacado como um enunciado, posso considerar que esse espaço vazio existe. Na segunda característica que Foucault (2008) aponta para a função enunciativa, o autor considera que um enunciado só existe por haver uma relação entre ele e o sujeito que o enuncia, esse sujeito não precisa ser o indivíduo que escreveu, mas uma função sujeito que pode ser ocupada por indivíduos díspares em momentos históricos distintos. Não estou aqui, no entanto, para associar os escritos ao autor Túlio Henrique Pereira, mas investigar a posição que indivíduos díspares podem tomar ao tornarem-se sujeito de um dado enunciado. Na materialidade em foco, vejo traços de um sujeito pós-moderno, o qual conta algo de nós mesmos. Isso significa que palavras comuns foram eternizadas ao transformarem-se em literatura, repetindo Blanchot (1997) quando foram escritas no livro branco e poderão sempre dizer algo de nosso tempo. Ainda sobre o mesmo conto, Diogo, uma das personagens da narrativa, cultiva um amor de infância, o que é comentado pelo narrador da seguinte forma: Potentados em sua mocidade, ambos esbravejam, assoviam e chutam um ao outro em consideração à amizade fluente que os mantêm pela alameda interminável, sem a direção do tempo, que, na cidade, está parado desde os dias em que o leite era comercializado em potes de vidro. Agora, talvez uma nova era se faça com permanências e a novidade na face da salgadeira Doricélia, O Ser Literário na Escrita de Túlio Henrique Pereira 179 gritando alto a promoção das esfihas recheadas com creme de queijo e milho. Os meninos se perdem apenas na vontade e continuam a caminhada (PEREIRA, 2012, p. 120). No começo do conto, o narrador fala sobre esse amor e conta que o personagem sem nome fora criado somente pela mãe. Do pai, só tinha a lembrança das histórias que lhe foram contadas. Temia sentir pelo pai o mesmo sentimento corrosivo que sentia pelo garotinho de jeans rasgado e havaianas verdes. Há, nesse conto, assim como no anterior, uma personagem sem nome e um final que fica por conta da imaginação dos leitores, pois a personagem sem nome olha e não mais vê o amigo, tenta avistá-lo indo embora, mas o encontra distante se despedindo sobre o píer, sente-se aliviado e avista do outro lado as páginas sendo levadas pela correnteza do rio. Talvez ao encontro do passado e do futuro que lhes reservam águas tão brutas e contempláveis. Assim o conto termina, sem deixar pistas do que poderia ter acontecido. Seguindo essa mesma linha, o conto À flor da pele, narrado em primeira pessoa, marca a diferença em relação aos outros contos, mas se assemelha pelo fato de o narrador, também personagem principal, não ter nome, somente características que lhe marcam como um sujeito atravessado por outros, como sua mãe que o conservava como um donzelo, sua amiga Érica, única que tem nome e, principalmente, por sua cor negra que o impede de encontrar um príncipe em uma agência de namoro. Depois de feita sua inscrição por insistência de Érica, o narrador-personagem busca nessa agência de relacionamentos uma razão para viver, algo como se “a chamada felicidade” estivesse perto de chegar. Vejamos: 180 Jaciane Martins Ferreira Enfim, já havia se passado muitos minutos, além do combinado. Não me aguentava em ansiedade. Sentia-me a princesa a ser arrebatada por seu príncipe em um cavalo branco rasgando a mata ao meu encontro. Vicissitude sublime saltitando o coração ao mesmo passo, dada a calmaria. Não sabia o que sentir, nem ao menos o que pensar. Embora ele pudesse estranhar o meu sorriso solto e a minha temporária timidez, não haveria motivos para não se encantar por mim (PEREIRA, 2012, p. 168-9, grifos meus). O excerto em destaque nos faz relembrar nossa infância: aquelas fábulas que narram a história de um príncipe que chegará montado em um cavalo branco e, junto com ele, haverá o tão sonhado “felizes para sempre”. Assim como a Cinderela, a Branca de Neve e outras mais que povoam as histórias infantis, o narrador-personagem sem nome de À flor da pele não encontrava motivos para que suas expectativas fossem frustradas. Só que, diferentemente das princesas sempre com a pele branca, o narrador-personagem dessa história tinha a pele negra. Fato esse que levou o seu príncipe para longe. Seguem as suas palavras: “Levantei-me emudecido, sem palavras, distintamente incompreendido. Interditado de expressar o que o meu coração trazia pelo simples fato de eu, humano, me resumir à cor da pele.” (PEREIRA, 2012, p. 170, grifos meus) Atento-me agora para esse enunciado em destaque, levando em consideração que para ser um enunciado necessita trazer à sua margem outros enunciados. Aqui, é possível reconhecer marcas do preconceito que os negros sempre sofreram, em toda nossa história, apenas pelo fato de serem negros. De acordo com Milanez (2008, O Ser Literário na Escrita de Túlio Henrique Pereira 181 p. 293), “o sujeito desvenda a sua maneira de se olhar, ocupandose consigo próprio, compreendendo a cultura na qual se insere e olhando para a história não como uma elaboração dos outros, mas dele próprio”. Assim o fez esse narrador-personagem sem nome, cuja cor de sua pele atrapalhou a busca de seu príncipe. Nesse momento tudo se desfez e ele não pôde extravasar o que trazia em seu coração. Hércule: a busca da literatura e a descoberta de si O último conto do qual falarei é intitulado Hércule, o qual, dentre os outros que abordei aqui, este é o mais extenso e toca em uma questão relevante para minha discussão, a saber: o fazer literário e sua comercialização. Trata-se da história de um escritor renomado chamado Hércule, que, para atender a um pedido do editor, começa a contar seu cotidiano sob um viés poético. Isso faz com que ele mude toda sua rotina. Nesse sentido, pretendo pensar nas formas que levariam o indivíduo (Hércule) a se tornar sujeito de uma relação de si para si e sua relação com a literatura. Ou seja, pensar nos jogos de verdades envolvidos nessa relação para obter a genealogia do homem do desejo. Pensar sobre esse assunto, fez com que Foucault (2007) buscasse, no período compreendido entre a Antiguidade Clássica e o início do Cristianismo, respostas para tais indagações. Desde a Antiguidade Clássica, o comportamento sexual tem sido alvo de discussões e, nesse momento, surgiu como objeto para a construção de uma dada moral. Segundo Foucault (2006a, p. 26), moral seria um conjunto de “valores e regras de ação propostas aos indivíduos e grupos por intermédio de aparelhos prescritivos 182 Jaciane Martins Ferreira diversos, como podem ser a família, as instituições educativas, as Igrejas etc.”. Acredito, seguindo a linha foucaultiana, que moral também possa ser entendida como a maneira pela qual o homem guia sua própria vida em relação ao que está colocado, respeitando ou negligenciando o que se tem como regras em sua cultura, considerando, também, uma relação consigo mesmo. Nesse ponto, volto meu olhar para o conto em destaque, Hércule precisava escrever o que o editor lhe pedira. Ou seja, fazer um drama, baseado em sua rotina, o qual deveria ter um caráter poético. Até então, o narrador não se importava com o caráter poético de sua literatura, somente queria escrever livros que fossem comercializados e trouxessem muito dinheiro para ele. Quando se deparou com tal proposta, não sabia por onde começar sua narrativa. Hércule, entretanto, mantinha uma relação amorosa um tanto secreta com uma jovem chamada Valentina. Em uma noite, passou pedalando e viu sua amada sentada em frente a sua casa. Parou e os dois começaram a conversar. Valentina levou Hércule para dentro de casa e os dois transaram enlouquecidamente - para usar a expressão do próprio Túlio Henrique Pereira. Depois, começaram a conversar sobre a nova proposta feita pelo editor a ele. Valentina sugeriu a Hércule que ele falasse sobre sua rotina, sobre as coisas que ouvia para, então, construir o tal drama poético exigido pelo editor. Hércule acatou a ideia dizendo: “Os meus experimentos, se lembra? Minhas descobertas; coisas reais que posso fazer! Personagens que existam de verdade. Você é incrível!”. (PEREIRA, 2012, p. 197). A partir desse momento, Hércule começa a mudar sua vida. Compra uma passagem para Flórida e, no avião, mantém relação sexual com uma aeromoça. Ao chegar ao seu destino, O Ser Literário na Escrita de Túlio Henrique Pereira 183 descobre que não era aquilo que precisava viver, pois seu livro não caminhava. Resolve, então, voltar para o Brasil e segue para o Rio de Janeiro. O que o narrador faz configura-se como um retorno sobre si, de maneira a “tentar transformar a si mesmo em sujeito moral de sua própria conduta” (FOUCAULT, 2006a, p. 28), pois uma ação moral, segundo o autor, não se refere apenas ao cumprimento de determinadas regras, mas à maneira com que o sujeito lida com essas regras, fazendo-se sujeito dessa moral. Se ser sujeito de sua própria moral não é seguir as regras já estabelecidas pela sociedade, Hércule passa a se constituir via uma prática de si e é a partir daí que percebo a constituição desse sujeito. Ele não se reconhece nas coisas que está acostumado a fazer, como se sua rotina tivesse perdido o sentido, fazendo-o buscar experiências novas a cada dia. Ou seja, Hércule está em busca de sua constituição através de uma leitura de si. No Rio de Janeiro, conhece um moço. O garoto era um leitor de Hércule e, em sua fala, mostra-se muito interessado por sua escrita, fato que intriga o protagonista, pois pensava não ser lido nem conhecido pelos jovens. Entre os dois começa um jogo de sedução, mas Valentina chega e atrapalha o que estaria quase para acontecer. Em uma noite chuvosa e sem luz, depois de ter feito sexo com Valentina, Hércule sai de seu quarto e encontra Elídio com uma vela protegendo o andar, pois, segundo o garoto, em dias como aquele, os saqueadores entravam e roubavam tudo se não houvesse alguém protegendo o ambiente com uma luz. De súbito, Elídio entregou seu olhar ao de Hércule “cego e sedento de desejo engoliu a saliva num suspirar silencioso e lento”. (PEREIRA, 2012, p. 209) Tiveram, então, uma noite de sexo com muita paixão. Vejamos o 184 Jaciane Martins Ferreira seguinte excerto: Toda aquela ansiedade infinita nos invadia, como se soubéssemos do final da existência no próximo segundo, ou mesmo a invalidez da velhice tão próxima de nossas vidas. Ele sabia o que estava fazendo, seu corpo mostrava sua necessidade e novamente eu fazia uma coisa nova. Chocante, a inspirar os capítulos finais do drama que encontrou seu caminho e até mesmo a poesia de encerramento (PEREIRA, 2012, p. 210-1). Desejar aquele garoto enlouquecidamente fez com que Hércule conseguisse terminar seu drama, de acordo com as palavras do personagem, com bastante poesia em seu encerramento. Ao final do conto, o narrador nos diz: “Hoje, depois de tanto, em minha mente aquela chama não se finda, aquela lembrança, mesmo ora sendo constrangedora me rouba alguns minutos prazerosos de silêncio e contemplação”. (PEREIRA, 2012, p. 211). Na escrita de Hércule noto algo que se assemelha a uma característica importante dos hupomnêmata, pois capta o já dito, ou nesse caso, o já vivido, mas em um movimento de retorno a si, trazendo uma filiação com seus pensamentos. Foucault (2006b), em seu texto A escrita de si, referese aos hupomnêmata para exemplificar as diversas formas do uso da escrita. Em um sentido técnico, os hupomnêmata eram usados como livros de contabilidade ou registros públicos, passando a ser usado como livro de vida. Também eram usados para anotações de vários tipos: fragmentos de livros ou mesmo ideias que passavam pelo pensamento. O Ser Literário na Escrita de Túlio Henrique Pereira 185 Foucault (2006b) discute o fato de a escrita ter relação com o que está contido na alma do homem, mas de uma forma natural. Dessa forma, “através do jogo das leituras escolhidas e da escrita assimiladora, deve-se poder formar uma identidade através da qual se lê toda uma genealogia espiritual”. (FOUCAULT, 2006b, p. 153) O autor postula, também, que nos hupomnêmata é possível verificar a construção de si a partir dos discursos dos outros, já que o indivíduo os copia em parte. Percebo, então, a construção de Hércule graças a sua vivência e o que ele pôde apreender das pessoas ou mesmo copiar, no caso, as ideias de Valentina. Valendome ainda de Foucault (2006b), sua escrita foi retirada de sua alma. Em busca de algo que contaria um pouco de si, Hércule se entregou aos mais distintos prazeres e aventuras, deixando de lado antigos preconceitos. Ele não conseguiria mais ser o mesmo depois de ter sido impresso em palavras. Palavras essas que ficarão para sempre, pois se tornaram literatura, o que chamei outrora de uma obra de linguagem. Palavras finais Na introdução desse texto tentei expor as razões que me levaram a escolher os quatro contos: Sui generis, O outro lado da via, À flor da pele e Hércule. Creio que na pesquisa científica sempre haverá tentativas que procuram explicar as razões para se ter escolhido um determinado corpus de trabalho, mas sempre há algo nessa escolha que é do próprio pesquisador. Nesses quatros contos, reconheço que há um mesmo sujeito discursivo perpassando por todos os contos. Claro que, dentro desse espaço, poderia falar 186 Jaciane Martins Ferreira que a historicidade de cada personagem é diferente. Contudo, há momentos e enunciados que nos levam para um mesmo sujeito. Busquei analisar, nesse trabalho, quatro contos, nos quais não há nenhuma personagem que tenha tido um final feliz, cuja relação amorosa tenha sido Sui generis. As razões para que isso tenha acontecido foram diversas, seja um amor virtual, seja um desencontro, seja pelo preconceito racial e, no caso do último, seja por ter sido uma grande aventura no calor de uma noite de sexo e paixão ou, talvez, por outras razões que escaparam ao meu olhar. Referências BLANCHOT, M. A parte do fogo. 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A possessão da subjetividade: sujeito, corpo e imagem. In: SANTOS, J. B. C. Sujeito e Subjetividade: discursividades contemporâneas. Uberlândia: EDUFU, 2009, p. 281-300. PEREIRA, Túlio Henrique. Sui Generis. In: MILANEZ, Nilton (org.) Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo. V. 1, N. 1, Ago-Dez, 2012. Brasilidade, subjetividades, corpo. Em torno da literatura de Túlio Henrique Pereira. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2012, p. 75-78. PEREIRA, Túlio Henrique. O Outro Lado da Via. In: MILANEZ, Nilton (org.) Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo. V. 1, N. 1, Ago-Dez, 2012. Brasilidade, subjetividades, corpo. Em torno da literatura de Túlio Henrique Pereira. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2012, p. 117-123. PEREIRA, Túlio Henrique. À Flor da Pele. In: MILANEZ, Nilton (org.) Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo. V. 1, N. 1, Ago-Dez, 2012. Brasilidade, subjetividades, corpo. Em torno da literatura de Túlio Henrique Pereira. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2012, p. 167-170. PEREIRA, Túlio Henrique. Hércule. In: MILANEZ, Nilton (org.) Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo. V. 1, N. 1, Ago-Dez, 2012. Brasilidade, subjetividades, corpo. Em torno da literatura de Túlio Henrique Pereira. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2012, p. 189-211. HÉRCULE Túlio Henrique Pereira Após onze livros publicados com bom êxito em vendas e trinta e nove anos de idade cronológica, meu editor resolveu me fazer um desafio, escrever uma narrativa baseada no meu cotidiano com um viés poético. O que ele quer é algo praticamente impossível, eu sou um romancista e não Shakespeare. Sou um compositor e não um repentista. Não trabalho minha arte de um modo que não seja puramente comercial. Sim, talvez seja um bom desafio e eu, como um renomado escritor possa muito bem ganhá-lo sem que sejam necessários grandes sacrifícios. Só que preciso muito de muitos lugares incomuns, diferentes e até exóticos se for o caso. Bem diferente da vida pacata que levo, até porque tenho um cotidiano programado, como por exemplo, à noite, andar de bicicleta na rua, onde posso conversar com pessoas estranhas e paquerar a Valentina o quanto quiser. Tudo bastante prosaico e óbvio, afinal de contas, trata-se de um cotidiano, o mesmo que favoreceu meu primeiro contato com Valentina em um passeio comum durante a noite, quando ela descansava no banco da praça em frente à sua casa. - Eu adoraria saber o que o traz à minha casa hoje, Hércule. – questionou Valentina no portão. - É simples Valentina. Tive saudades suas e decidi corresponder aos seus encantos. - Minha família não anda gostando nem um pouco de sua notável presença, sabia? – Ela conseguia cinicamente provocar a minha 190 Túlio Henrique Pereira ânsia em tê-la sempre mais. - Digamos que eles não me conheceram interiormente ainda. Deixa só até eu ser apresentado a eles. E tem mais, nós somos pessoas independentes, geminianos e... - Eu não sou geminiana. Sou de leão e muito atípica por meu lado espiritualista. - Isso não importa, o que importa de verdade é que tanto eu quanto você sentimos muito quando estamos distantes um do outro. E afinal, a família está em casa? Gostaria muito de dizer algumas coisinhas para os meus futuros... - Hércule, até parece que você desejaria a presença de meus pais aqui em casa. - Quem disse isso? Você está dizendo isso! - Entra logo, vai. Do jeito que as coisas andam, não custa nada encontrarmos uma bala perdida. Sempre admirei as atitudes dos adolescentes, Valentina só tem dezessete anos e sabe muito bem o que quer e é isso que me torna um homem feito, determinado e inspirado pelas maravilhas da sua língua. - Pra onde você está me levando? – Perguntei um tanto assustado com a bicicleta bem no meio da sala de estar dos pais dela. - Pro meu quarto é claro. - E a bicicleta? - Você pode colocá-la lá também. - E onde os seus pais foram? Vão demorar? - Hércule! – parada olhando-me – O que há com você essa noite? Até parece que você se preocupa com alguma coisa, além de... – cessa. - Além de?... - Insisti demonstrando hostilidade às suas ações. Hércule 191 - Esquece! – Replicou desacreditando a imposição. Valentina abriu a porta de seu quarto, fechou a janela, descendo as cortinas e ascendendo o abajur. Seu quarto, uma raridade; papel de parede rosa com detalhes brancos, seu lençol rosa choque fazia um contraste delicado com a decoração variando entre o vinho e um sutil púrpura. Espantoso para uma mulher de dezessete anos. Fiquei louco, me senti um pedófilo, mas a sensação logo passou, quando parado na porta ainda segurando a bicicleta ela me tocou sem retaguarda. - O que foi?... – observando-me – Vai ficar aí feito um bobão? Ela decidiu abocanhar a minha boca com a sua e enfiar suas mãos na parte traseira do meu jeans. Senti uma súbita reação. O efeito do meu corpo ao toque do dela acelerou minha transpiração, e podia sentir arrepios iniciados da virilha até a ponta das duas orelhas queimando feito brasa. Sua língua acrobata ramificava dentro da minha sem nenhuma sutileza; voluntariamente sentia espasmos na região de seu púbis e barriga. Valentina me atirou na cama, enfiou suas mãos na parte frontal da minha calça segurando forte o membro, aquilo me atirava ao céu. Mal arranquei as calças e lá estava dentro dela, que cavalgava sobre o meu corpo feito uma selvagem enlouquecida. Valentina queria sempre mais e começou a morder meus mamilos, eu sentia mais arrepio que excitação, mas estava ótimo de todo jeito. Ela lambia o peito descendo até o umbigo, encerrandose nas bolas. Parecia insaciável e ansiosa a espera por mais, não precisava fazer nada, tudo era por conta dela, tudo. Determinada a prosseguir em algo novo, depois de meses de encontro, ela o fez, meus olhos se fecharam com força e tratei de morder meu lábio 192 Túlio Henrique Pereira inferior. Meu pênis deslizava em sua boca, assim como molho de quiabo na língua em contato com os dentes. Seus olhos se reencontraram com os meus em busca de recíproca: beijamo-nos e decidi retribuir o presente, embora suas mãos empurrassem minha cabeça para entre suas pernas, onde agradeci com prazer o prazer que ela havia proporcionado. Após tanto, Valentina acendeu um de meus charutos e relaxou satisfeita ao meu lado. - Você me parece um pouco preocupado. – comentou ela. - Eu tenho um trabalho novo a ser entregue ao meu editor nos próximos meses. - E daí? – Questionou no intervalo de cada tragada. - E daí que eu nem sei como começar. Não que seja necessário um dramalhão longo, desde que seja realista, poético e verossímil. Pode tudo isso ao mesmo tempo? - Desde que não seja necessariamente moralista, você poderá descrever seus experimentos. - Como assim? – Me interessei. - Assim como pude notar que fez sexo oral pela primeira vez em quarenta anos. - Confesso não ter um argumento maduro para o seu comentário. – Desviei tentando sobressair à fisgada. - Mesmo não se tratando de um simples comentário? – Insistiu com sarcasmo. - É um comentário. - Você quer dizer que já havia feito desse jeito antes? – suspirou impotente olhando-me nos olhos. - Eu já havia feito, só que... – engoli a saliva – não desse jeito, assim. Hércule 193 - Assim? Assim como? – persistiu agressiva, dissimulando. - Intenso! – Respondi apreensivo. - Dá pra especificar? - o papo já estava incomodando, levantei e comecei a me vestir – Aonde você vai? – colocando um disco para tocar – Não vai ficar mais um pouco porque está correndo de um fato? - Seus pais já devem estar quase chegando. - Eles não voltarão tão cedo. Foram ao velório da prima-irmã da empregada. Uma tal de Tita. Fixei meus olhos no olhar vazio de Valentina. Chocado suspirei fundo. - O que deu em você? Eles foram a um velório enquanto nós... - Transávamos loucamente no meu quarto? – Continuava dissimulando. Ambos ouvimos o portão ser mexido por alguém. Tratava-se dos pais de Valentina que voltavam do tal velório. - Você ouviu? – Perguntei espantado, aliás, o que os pais dela não iriam pensar. Um homem de quase quarenta anos dormindo com a filhinha caçula deles em sua casa. - É claro que ouvi, deve ser meus pais. Eles voltaram bem antes do previsto. - E...? - E o quê? Eu acho é bom. Assim vamos poder dormir juntinhos a noite inteira. - Você está louca? Eu não posso dormir aqui, eu tenho uma casa. - Só falta você dizer que tem esposa e filhos. - Você está careca de saber que estou separado. – pausadamente Agora, como saio daqui? 194 Túlio Henrique Pereira Passos se aproximavam do quarto. Três toques leves na porta foram o suficiente para descontrolar mais ainda o meu estado de desespero. “Filha, querida – disse a mãe de Valentina – você está ai?”. - Estou sim mamãe! – Respondeu sarcástica prendendo o riso. - Eu e seu pai já voltamos! – Replicou. - Tudo bem mamãe, estou bem. - Aposto que não comeu nada ainda. – insistiu sua mãe, prostrada à porta. - Eu estou bem, mãe. Boa noite! A mãe de Valentina se distanciou do quarto, enquanto eu suava desordenadamente por todos os poros do corpo. - E agora, o que vamos fazer? – cochichei. - Ficar juntinhos durante a noite toda, oras! - Como eu não desconfiei que isso seria mais uma de suas armadilhas? – Jogando-me sobre a cama. - Não foi uma armadilha. Eles realmente foram ao velório da Tita. Acho que ela brigou com o homem que morava com ela e como ele estava sob efeito de álcool resolveu disparar as balas do revolver no corpo da pobre. – formalmente e concisa - Se não me engano ela deixou três filhos, e um deles está desaparecido desde sua morte. Minha mãe está preocupada com a Thereza, ela tem medo de que ela nos deixe para cuidar dos sobrinhos. - Complicado! – Exclamei alçando voos em minha ilimitada imaginação. - O quê? - As pessoas não pensam positivo sobre suas vidas. - E o que isso tem haver com o assassinato? O louco estava bêbado. Hércule 195 Não estamos tratando de psicologia social, mas sim de uma maldita droga. Valentina conseguia ser tudo. Podia filosofar e ter a credibilidade de sua família vivendo sob os braços deles como uma virgem. Ela sabia fazer sexo melhor que uma mulher experiente e, portanto, continuava sendo uma criaturinha angelical, embora muitas vezes audaciosa. Sequer sabia ela que a sua história sobre a vida da empregada, verídica ou não, conseguira fazer com que os meus pensamentos se organizassem para a montagem inicial a introduzir o livro. Assim que o relógio da cabeceira marcou cinco horas da manhã, Valentina me acordou e conseguiu, passo a passo, levar-me, juntamente com a bicicleta, até a porta de saída. - Até que enfim vou poder voltar para casa. – disse. - Você está insinuando que estar lá é melhor do que estar entre os meus braços e pernas? – Questionou sarcástica fitando meus olhos com desejo, porém estarrecida. - Quero que entenda como quiser, só não quero que me torre com isso. - Não vai me dar um beijo de despedida? - Você deve estar maluca, nós mal acordamos e você... eu não entendo você. Valentina suspirou fundo, observou tudo ao seu redor e cruzou os braços bastante insatisfeita com minhas atitudes. - Sabia que quando se gosta não se importa com nada. É como se perdêssemos a consciência moral. Às vezes desconfio de suas verdadeiras intenções. Será que gosta mesmo de mim? - Ainda não pude descobrir. Até logo! – sobressaí dando-lhe as 196 Túlio Henrique Pereira costas sem chance para qualquer súplica de amor e pedido de perdão referente a seu ataque. Valentina se azedou e bateu a porta ao entrar, esquecendo-se da hora arriscada e da presença de seus pais. Havia prazer em teclar as letras do meu novo livro. No relógio sobre a mesa marcavam seis e quinze, só que ainda, nada de inspiração para a poesia inicial. Imprimi alguns capítulos e os reli várias vezes, fazendo inúmeras alterações. A caneca de café me perseguia para onde fosse, até adormecer às sete da manhã na cadeira de sol, sob sua luz ao meu despertar vazio, tomando toda a sacada. Ao acordar esfreguei os olhos percorrendo-os ao meu redor até encontrar e recolher os capítulos espalhados pelo chão. Caminhei até o telefone e após discar o número desejado, a campainha tocou três vezes consecutivas, fazendo com que abandonasse o aparelho e fosse atender a porta, surpreendendo-me com a imagem de Valentina. - O que é? – Perguntei fatídico. - Bom dia, Hércule! – dissimulou entrando apressada. - Eu poderia saber do que se trata? - Por enquanto não! – Preparando uma bebida. - Valentina, eu sinto muito se serei grosseiro com você, mas eu estou trabalhando. Você me interrompeu bem no meio de uma ligação importante. - Quer dizer que uma ligação é mais importante que eu? - Não se trata apenas de uma ligação, trata-se do meu editor, que por ironia do destino é um dos responsáveis pelo nível e estabilidade da minha conta bancária. – Eu me alterava gradualmente. - Tudo bem, você é o único que trabalha e infelizmente isso interfere nesse nosso relacionamento. – pega a bolsa e se dirige apressada até Hércule 197 a porta. – Qualquer coisa, eu estarei no colégio! - Valentina!? - O que é? – Dando meia volta. - Acho que estou indo para outro lugar. Ela caminhou dirigindo-se cautelosa até ficar frente a frente comigo, me olhando dentro dos olhos com desconfiança. E então, questionou: - Como assim vai para outro lugar? Até ontem acreditava que você não tinha nada que o prendesse em sua cidade, onde por acaso vive a sua ex-mulher. - Não se trata da cidade de minha família. Isso é relacionado ao meu drama, e você poderia ficar feliz por mim, até porque decidi aceitar uma ideia sua, que por incrível que pareça é genial! - Como assim uma ideia minha? – Titubeou quase aos prantos. - Os meus experimentos, se lembra? Minhas descobertas; coisas reais que posso fazer! Personagens que existam de verdade. Você é incrível! - Não acredito que você vai fazer isso. Vai sair por aí pegando qualquer vagabunda na rua, vai se arriscar só por uma merda de livro? – Valentina perdeu o controle, seus gestos nervosos e sentimentais a colocava como dependente de mim. Enlouqueci, assim como estive diante da minha primeira ex-mulher, de quem havia me separado no aniversário do segundo ano de casamento. - Eu sou um escritor! - Não! Como você sempre diz você é um repórter e não um escritor. Está fazendo isso porque sabe a fórmula de agradar a ignorância alheia. Você nunca escreveu um livro digno. Você mesmo disse isso para mim, se lembra? 198 Túlio Henrique Pereira - Eu sou um escritor e como desafio preciso escrever um bom livro. O que valerá minha carreira e quem sabe a imortalidade que tanto prezo! - E os seus best-sellers, – inconsolável – dos quais se orgulha tanto, já não são o suficiente? - Não! - Então, Hércule, eu sinto muito! – Enxugando as lágrimas ao se levantar e sair pela porta. - Aonde vai? – Perguntei deixando nas poucas palavras o lugar de ressentido. - Te importa? – Tênue. - Deveria? - Não! Claro que não! *** Meu voo estava lotado, decidi ir à Flórida passar o fim de semana. Já tinha toda uma programação até o fim do mês: final de semana na Flórida, três dias em Salvador, outro final de semana em Mato Grosso e enfim de volta a Pirenópolis. Queria ter experimentos místicos, ou sei lá, inventar situações curiosas para que vendesse muitos livros e causasse uma ótima repercussão na mídia, queria encontrar o novo mesmo dentro do velho hábito de se reinventar estórias. Não bastava apenas um best-seller, uma fórmula de sucesso, uma narrativa redonda a essa altura poderia causar o vazio. A dialética e a espiral estavam pesando na bagagem. O destino era o prelo, e nele as incursões mais divagantes a constituir a literatura contemporânea. Sem querer ser grosseiro e convencido pude notar que a madura aeromoça estava totalmente a fim de mim, não tirava os Hércule 199 olhos – o que poderia fazer para corresponder sem que parecesse um lascivo? O banheiro foi o suficiente para atrair a atenção da balzaquiana ruiva que me surpreendeu. Confesso que foi uma das melhores performances da minha vida, o que me inspirou dois capítulos quentíssimos. O contrário do que estava procurando, mas muito melhor. - De onde você é? – Perguntei ao me vestir. - A partir de agora serei só mais uma desempregada brasileira. - E para que o pessimismo? – Insisti. - O avião tem sistema interno de tevê. - No banheiro? – Arregalei os olhos, mostrando-me surpreendido. - Tenho minhas dúvidas! - Então, não tem com o que se preocupar! - Só se você cair fora agora, e mesmo porque tem gente lá fora que se não nos viu, nos verá. - Seja otimista e tudo vai dar certo. O dilema que assumi na Flórida foi: sol, calor, praia, corpos bem esculpidos e nem uma azaração, o que mais me chamou a atenção foi a harmonia das pessoas, as palmeiras nas ruas e a semelhança com o Brasil. Fora a minha visita vespertina à praia, passei o resto do tempo trancado no quarto de hotel apertado, escrevendo meu livro. Meus planos se frustraram e acabei de volta ao meu país. E contrariando a minha programação de viagem pousei insalubre no Rio de Janeiro para um acerto de contas com o meu editor, bravo e ressabiado com o percurso da minha produção. Nessa altura já nem me importava com o que escrevia. Talvez faltasse coerência entre os capítulos. Mote, desejo. Inquietação. Ele, o editor, estava intolerante, raivoso e decidido a cortar cabeças antes que a sua fosse cortada. Eu 200 Túlio Henrique Pereira não sabia como salvar a minha pele, e ao menos podia salvá-la. Falar com ele seria como ouvir as discussões adolescentes de Valentina, sem o poder de argumentação. Ficar em silêncio e deixar que a lei do mais forte prevalecesse, ainda que à custa de uma demissão. No caminho entre o aeroporto e a editora pude transcrever uma relação de um ano com minha ex-namorada, outra relação com uma aeromoça e... o mar excepcional do Brasil. Até então nada fazia ligação com nada, o título não correspondia com os capítulos, ainda menos com o mote, possivelmente sem sentido – O que seria de mim? – pensava - Apenas havia iniciado as lamentações referentes às perdas que tive – mesmo sem querer assumir-me um perdedor, eu havia perdido muitas coisas como a minha agridoce Valentina, pela qual sem saber estava apaixonado e mesmo não sendo tão esperta poderia ter qualquer ideia que eu acharia genial – Do que precisava naquele momento? Fiz-me essa pergunta religiosamente em cada hora daqueles meus quase quinze dias de aventura real, que mais pareciam pesadelo. Sem falar de uma maldita coceira no saco: aeromoças! Decidi pensar, e optar pela não obviedade. Desisti de chegar ao encontro de quem eu temia e resolvi repensar estratégias em um hotel qualquer. - O que o senhor deseja? – Perguntou a recepcionista do hotel. - Um quarto simples... Pequeno, com banheiro, telefone, frigobar, ducha quente e sem carpete. Você tem? - Sim, senhor. Sai mais em conta se for a semana toda. Estamos com preços promocionais que cobrem todos os gastos do apartamento, inclusive café e almoço. O senhor se interessa? - Não, obrigado. Prefiro acertar as diárias. Hércule 201 Um minuto esperando o elevador em vão. Até parecia que o mundo exterior estava correspondendo aos meus pensamentos. - Desculpe senhor, mas o elevador está quebrado. O senhor vai ter que subir as escadas. - E qual é o andar? – Questionei já em estado de estafa. - É o quarto andar, a primeira porta após o corredor. Quarto 402 à direita. - Obrigado, outra vez. Não queria assumir que o mundo estava desmoronando sobre minha cabeça, eu já estava deixando o espaço da inspiração ser invadido por preocupações, dúvidas, medo do fracasso e finalmente a falência – sem referir ao rompimento do contrato com a editora. - Quer ajuda? – Perguntou-me um jovem rapaz com cerca de uns vinte anos, barba cerrada, óculos retangular de grau aparentemente intelectualizado. O olhei da cabeça aos pés, franzi a testa e não hesitei ignorá-lo. - Não, eu me viro! - Acho que vai precisar sim! O rapaz pegou uma de minhas malas e foi acompanhandome até o quarto. - Como se chama? – Perguntou o jovem. - Hércule, e antes que me pergunte o que faço, sou repórter. - Não me lembro de ter lido nenhuma grande matéria assinada com esse nome. É repórter de tevê? - Não! – Já estava me cansando para além da conta. Persisti calado durante boa parte do caminho. Enquanto isso o jovem atirava olhares que me levavam a crer que mais perguntas viriam. 202 Túlio Henrique Pereira - É de São Paulo? - Não. - Humm. Você está muito entediado. Aposto que a viagem não foi das melhores! - Com certeza. - Especificando. – Insistia. - Como? - Política, cultura, esporte, educação, o que escreve? - Ambos. Agora se não se importa não faça mais perguntas. É que realmente estou entediado. E pode deixar que eu mesmo carrego a minha bagagem! - Acho que já li um de seus livros. Se não me engano é você o autor de Sangue azul! Assustei. Respirei fundo e o olhei nos olhos sem saber o que dizer, afinal de contas, ele tinha lido um de meus livros, não poderia continuar sendo grosso. - Nossa! Até que enfim alguma coisa boa, vinda de você. Já estava prestes a desistir da carreira. – mantive-me com a pose de arrogante desinteressado. O jovem fixou o olhar em mim. Tomou a mala que eu havia pegado de suas mãos, e continuou seguindo o destino, mostrando-se apaixonado por meu trabalho. Descreveu detalhes sobre personagens que nem eu me lembrava, e para finalizar, declamou um poema nunca editado: - “O Céu é o mar onde os deuses moram/ É o aflorar da maldade em plena juventude/ É a desgraça da rebeldia rebelada./ O céu é o reflexo nas águas salgadas/ A sutileza d’almas mortas/ Fracassadas por seus atos durante a vida/ O mar azul te refletia./ Enquanto Hércule 203 aliviava tua dolorida beleza/ Embora ninguém por ti cumpria/ Tantas tarefas específicas nas águas do mar./ Só se lembrava o céu de te amar todos os dias/ E se esquecera de que estou sempre nesta vila/ Enquanto diuturnamente o imenso mar te refletia/ O Mar Azul te refletia”. - Como conseguiu decorar este? Nem eu me lembrava! – rendi-me. - Você é bom! - Obrigado! – com o olhar estatelado sobre o rapaz. - Acho que esse é o seu quarto 402, certo? Nos vemos por aí! - Ei? – O chamei de volta espantado pelo prospecto intelectualizado do rapaz. - O que foi? – Questionou. - Como se chama? - Não vai querer saber! - E por que não? – Insisti. - Eu sou gay, e pelo que li de você em uma entrevista, você é avesso a esse “comportamento extraviado”. O garoto desceu pelas escadas enquanto eu estava parado à porta, boquiaberto. Enquanto isso ao telefone: ...Como eu saberia que garotos brasileiros de vinte anos poderiam se interessar por literatura? O cara pode ser o que for, mas... – não é culpa minha! Eu só havia respondido aos jornalistas o que haviam me perguntado, e sem dúvida alguma aquela era a minha opinião... – Esse mundo anda moderno demais... – Minha poesia!? O que a minha poesia tem haver com essas transformações hormonais da juventude?... – Quer saber de uma coisa, eu não tenho como escrever esse maldito drama, e sinto muito! Eu não tenho com o que temer. Vocês dependem de mim para manter isso aí funcionando, caso contrário sem nós, vocês 204 Túlio Henrique Pereira não são nada! Mesmo sem querer admitir, na verdade a minha consciência estava pesada pelo jovem; não pelo jovem, era por mim. Eu havia pisado na bola, eu sou o culpado. Certamente muitos iguais a ele devem ter o mesmo conceito em relação a mim – e ele comprou um de meus livros. Como pude? Decidi espairecer pela cidade e durante a noite, entre um cigarro e outro, uma água de coco natural, uma cervejinha no bar da esquina decidi voltar caminhando para o hotel. Quando de repente, em meu retorno uma surpresa: deparei-me com ele, o jovem com quem conversei pela tarde. Ele estava na companhia de alguns poucos amigos na porta de um clube. - Você! – chamei-lhe a atenção – Eu quero falar com você! - Pois não? – Esnobe. - Qual é a sua? Por que fingiu não conhecer meu trabalho e depois recita um de meus poemas? - Não sei do que você esttá falando! – Ignorando. - É, nem eu! Na verdade eu só queria me desculpar com você. Imagino como você deve estar se sentindo. - Não! – Apesar da negativa o rapaz se apresentou mais atencioso fitando seus olhos nos meus cheios de culpa. - O quê? - Você não imagina! – Dando-me as costas novamente. - Aonde vai? - Qual é a sua hein? – Ao voltar. - Acho que estamos quites agora, ambos fizemos a mesma pergunta. - Ok! Você quer se juntar a nós? - Não...! Eu estou de volta para casa. Tenho alguns dias para entregar Hércule 205 um projeto e... - É o tal drama não é? – Atencioso. - Isso! Deixa para outra hora. - Tudo bem! – Voltando aos amigos. Finalmente senti a consciência parcialmente limpa. Acho que devemos pensar no que vamos dizer publicamente. Por incrível que pareça, o jovem não saiu da minha cabeça, fato que travou os próximos capítulos do livro. Só faltava atirar o computador pela janela, ou sair novamente para rua em busca de aventura. Mas, ao flutuar em meus pensamentos maculados pelas memórias do encontro desastroso com um leitor, fui capturado pelos toques de alguém que bateu duas vezes com leveza na porta. Tropecei em todos os móveis até finalmente atendê-la. Afinal de contas, prefiro trabalhar no escuro. - O que é agora? – Questionei arrogante ao perceber que se tratava novamente do rapaz. - Achei que queria saber o meu nome! – Respondeu o rapaz mudando o semblante em resposta à ofensa. - Vocês são todos assim? – ríspido. - Como assim “vocês”? - Deixa para lá. – abrandando – Eu... Como se chama? - Elídio. - Elídio? - Isso mesmo! Me chamo Elídio e sou seu vizinho do andar debaixo. Qualquer coisa de que precisar e se estiver ao meu alcance... - Tudo bem Elídio, só tem uma coisa, se você não se importa eu estou trabalhando, e como você pode ver, não tenho luzes aqui. - Posso entender. Até logo! 206 Túlio Henrique Pereira Elídio se foi. Agora o moçoilo tinha nome, mas ainda era uma pessoa ressentida para mim. Ainda se pautava por uma relação ensimesmada, um equívoco ressabiado. Uma dúvida latente disfarçada de arrogância. Fechei a porta e ao me lembrar de que estava sem inspiração decidi chamá-lo de volta. - Ei!!!!!!! – Ao sair com a cabeça para fora. - O que é? - Não tem nada para se fazer nessa cidade? Por incrível que se pareça, acho que estou sem inspiração. Elídio sorriu, foi até sua casa e com a minha ajuda removeu sua televisão e seu videogame para o meu quarto. Nós nos divertimos durante toda a noite e ambos adormecemos no chão, ao sermos acordados com o celular tocando. - Alô!... Valentina!? Onde você está? ...No Rio, como?!... – enquanto me irritava ao falar ao telefone a porta do quarto se abriu e por ela entrou Valentina me causando o maior frisson. - Se você pensou que estaria livre de mim, se enganou. – Disse ela fervorosa - Quem é você? – Perguntando a Elídio que não conseguia se adequar em canto algum. - O que está fazendo aqui? – Interagi. - O quê? Até parece que você não sabe! - E os seus pais, quem te deu meu endereço? - Bom, minha mãe acredita que eu estou fazendo uma excursão com o colégio. E o endereço, foi um cara de confiança. - Não foi o editor, foi? - Agradeça a ele por isso. E você, quem é? – Insistia ela olhando Elídio de maneira repulsiva. - Ele é o vizinho do andar debaixo que já está de saída. Hércule 207 - Até logo! – disse Elídio ao sair – Depois pego minhas coisas. - Que coisas? – questionou Valentina – Você não está usando drogas, está? - Você tem ideia do que está fazendo aqui? - Acho que não! Que coisas são essas que ele vai pegar depois? - A tevê e o game dele. Interessa a você? - Alterando-me. - Por que está tão grosseiro assim comigo? – vitimizada. - Eu não estou grosseiro, é você quem esgota a minha paciência. - Você deveria estar alegre por eu estar aqui, nem sempre é fácil tapear a família e deixar a rotina para estar com alguém. - Eu deixei você lá, porque não te quero aqui, entende? - Isso quer dizer que rompemos? - Não preciso que comece a fazer drama aqui. - Sabe do que você precisa... – retirando com pressa a roupa e se jogando sobre mim – você precisa tocar em mim. Valentina beijou-me, envolvendo-me outra vez em seu enlace. Rendi-me ao seu forte poder feminino, permitindo ser conduzido por toda a fúria e avareza de seu amor sobressalente. Minha insana teoria de desamor já se encontrava persuadida pelos encantos de Valentina. Sua boca abusada e vermelha de tanto sangue quente, sua beleza era algo inexplicável. A brancura de seus dentes perfeitos, sua calmaria sutil após o amor, seus olhos levemente fechados me fascinava a cada instante em que os olhava. Sua respiração leve era esplendorosa. Só conseguia ficar deitado ao seu lado admirando-a e me fantasiando um completo felizardo por tê-la, respirando todo o ar que a rodeia. Entretanto, havia um problema. Um problema justo em Valentina; ela conseguia me quebrar fisicamente, embora, ao mesmo tempo em que sua 208 Túlio Henrique Pereira sensualidade bloqueava minha capacidade intelectual. Talvez não fosse um problema se eu não a olhasse apenas com os meus olhos, só que jamais conseguiria olhá-la de outra maneira. Eu e Valentina estávamos na cama enquanto um temporal caía em toda a cidade. Uma trovoada forte conseguiu despertar-me o sono, causando a queda da eletricidade. Levantei-me cauteloso e destemido abri a porta saindo para o lado de fora do quarto. Ao enxergar um reflexo de luz, fechei a porta e o persegui até dar de cara com Elídio segurando uma vela próximo ao corredor. - O que está fazendo aí? – Perguntei assustando o jovem que quase apagou a chama. - É o que faço sempre quando a luz se apaga. - E o que é? - Insisti mantendo distância. - Estou esperando a luz voltar. É a única maneira de proteger os apartamentos desse andar, caso contrário, se pensam que não tem ninguém vigiando eles invadem, roubam, vandalizam e até matam. - Isso já aconteceu alguma vez? – Insisti, mostrando o roupão aberto, ainda a manter a distância. - Claro que já! Acontece sempre que a luz acaba e eu ou estou na rua ou dormindo. - E por que não contratam um segurança, vocês reivindicaram isso ao proprietário? - Qual é hein? Você vai ficar aí se exibindo e falando ladainha em meu ouvido? - Desculpe, eu não sabia que o meu corpo te perturbava. - Dandolhe as costas. - Ei!!! - O quê? – Voltando. Hércule 209 - Quem disso que isso me perturba? Amarrei o roupão e me aproximei brusco até Elídio, sentandome lado a lado. - Sabe de uma coisa, você não sabe jogar, está fora de linha. Você é um jovem repreensivo metido a intelectual. Na verdade você está atraído por mim desde a primeira vez que me viu, arrumou pretexto para que eu me sentisse culpado por você e te desse mais atenção. Até que conseguiu, no início. E tem mais, você está louquinho apra que eu faça algo com você, só não sabe ao certo o que poderá fazer para que isso acontecesse. - E você estaria interessado? - Elídio se arriscou comprometendo-se à instabilidade do meu comportamento. Ele tremia engolindo forte a saliva salientando seu protuberante pomo-de-adão.. Muito tímido, não suportou o modo com que mantinha meus olhos nos seus e desviou-se. Mesmo assim o tentei, tentei pelo poder que senti sobre toda sua comoção diante de mim. - Não sei. Por que não tenta? Vai que seja o seu dia de sorte, ainda posso não ter jogado nesse time e talvez queira experimentar. Tudo é questão de ocasião, circunstâncias que dependem apenas de iniciativa. Subitamente, ele entregou seus olhos aos meus, cego e sedento de desejo engoliu a saliva num suspiro aclamado e lento. Eu podia ouvir pulsar o coração acelerado e ao mesmo tempo intimidálo mais com meu olhar decidido e sedutor. Deixando aflorar o desejo entre nós a cada segundo, cada vez mais intenso. - Os sentimentos não são brincadeira! – Exclamou engolindo seco. - Quem falou em sentimento? Se quiser podemos deixar que nossos corpos falem por nós. Garanto que eles se comunicam sem palavras. 210 Túlio Henrique Pereira – instiguei. - Por que está brincando comigo? – sussurrou. - Não são vocês que costumam brincar? Então, virei o jogo e me parece que não consegue dar o passo seguinte! – aproximando-me cauteloso. - Você beija? – Elídio suava mais que o convencional, estava muito nervoso e perdido entre as palavras; porém envolvido em minha simulação, em cada um de meus gestos e fala. - Por que não prova? Entreguei-me ao instinto mais uma vez e abocanhei a boca do jovem, enfiando toda a minha língua dentro. O pobrezinho cheio de vitalidade estava com seu brinquedinho apontado e sua calça se encontrava molhada em grande parte ao redor de seu genital. Deixamos a vela cair no chão e seguimos grudado um no outro sem medo, até entrarmos em seu quarto. Talvez naquele momento nem me desse conta do que estava fazendo, até a luz voltar e flagrar-nos desejosos sobre a cama dele. Assim que observei aquele corpo, tratei imediatamente de senti-lo vivo em minhas mãos e sem medo o beijei da cabeça aos pés. Ele retribuía tudo com graça e vontade, nossos membros friccionados, nossas bocas pouco desencontradas. Seu desejo e desjejum eram imensos catalisadores de nós, e pareciam jamais sentir saciedade. Seus espasmos simultâneos o lubrificava a todo o instante e seus músculos se contraiam a cada toque que eu dava. Os gemidos eram sussurros, porém intensos e todo o seu corpo suava e aquelas mãos quentes queimavam fervorosas em meu pênis. Era como se houvesse acendido lavaredas dentro de nós. Toda aquela ansiedade infinita nos invadia, como se soubéssemos do final da Hércule 211 existência no próximo segundo, ou mesmo a invalidez da velhice tão próxima de nossas vidas. Ele sabia o que estava fazendo, seu corpo mostrava sua necessidade, e novamente eu fazia uma coisa nova. Chocante, a inspirar os capítulos finais do drama que encontrou seu caminho, e até mesmo a poesia de encerramento. *** Hoje, depois de tanto, em minha mente aquela chama não se finda, aquela lembrança, mesmo ora sendo constrangedora me rouba alguns minutos prazerosos de silêncio e contemplação. NAS LUZES DO TEATRO UM OLHAR PSICANALÍTICO SOBRE A PEÇA ATOS DE PAIXÃO, DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA Renata Mello (Université Paris 7 Denis Diderot /Universidade Federal do Rio de Janeiro) (Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade - CNPq) Entre a submissão e a autonomia: subjetividade, embaraço e desamparo Ao ler a peça de teatro do autor Túlio Henrique Pereira, intitulada Atos de paixão, interroguei-me a respeito da maneira como utilizaria a psicanálise para empreender a discussão. A psicanálise é um procedimento de investigação do psiquismo, fundamentalmente atrelado à prática clínica, mas, certamente, extensível para outros domínios. Não por acaso, o próprio Freud realizou passeios pela literatura, como podemos acompanhar, por exemplo, em “Delírios e sonhos na ‘Gradiva’ de Jensen (1907[1906]) e “Dostoievski e o parricídio” (1928), sem contar as inúmeras referências que faz a Shakespeare e Goethe ao longo de sua obra. Porém, mesmo que o escritor e o analista habitem o mesmo homem, não têm a mesma vivência. Enquanto o primeiro tece a trama das relações humanas, o segundo tenta apreender o material de que são feitas. Freud tomava a arte literária como uma presentificação do inconsciente, chave de acesso a determinados processos psíquicos. Vale acentuar que o termo inconsciente é empregado aqui em um sentido descritivo para exprimir um modo de funcionamento que 216 Renata Mello ignora a passagem do tempo, a contradição e substitui a força da realidade externa pela realidade interna (FREUD, 1915). Por esse viés, os escritores tornam-se capazes de facilitar aos seus leitores o caminho em direção ao inconsciente. Nesse sentido, considera-se que a literatura se apresenta como um convite à escuta de si, via de singularização, tal como a psicanálise propõe. Nesse sentido, pode-se então pensar que os temas de uma obra literária estão à disposição do psicanalista, assim como os temas de uma sessão de análise. Certamente, contudo, a apreensão do discurso de uma obra não se dá da mesma maneira do discurso de um paciente. Em função da ausência de intenção terapêutica e, sobretudo, porque a experiência de análise clínica se desdobra na presença do outro, ou melhor, na relação com o outro. Sendo assim, para além dos enunciados do discurso, entra em linha de consideração, o gesto, o ritmo, a entonação da voz, o olhar. Entretanto, uma relação também se estabelece entre o psicanalista e o texto. A leitura produz efeitos sob o inconsciente do analista. Esses efeitos correspondem à reposta do analista mobilizado em um ponto sensível ou mesmo cego, o que em termos psicanalíticos, traduz-se como a contratransferência do analista, decorrente da forma como o texto, no caso, transferese para ele. Sendo assim, a obra do autor é analisada no mesmo movimento em que o psicanalista se analisa. Dito de outro modo, o trabalho interpretativo se efetua, então, a partir do texto e das suas ressonâncias subjetivas. Vale dizer que tal via de interpretação não negligencia as motivações inconscientes do autor presentes no ato de escritura da obra, mas estas não serão objeto de investigação. Desse modo, não Um Olhar Psicanalítico Sobre a Peça Atos de Paixão, de Túlio Henrique Pereira 217 se pretende aqui pretensamente revelar as mensagens inconscientes do escritor, tampouco patologizar ou indicar as raízes psíquicas do texto. Para além de uma aplicação do instrumental da psicanálise à literatura, por vezes, estéril, e prescindindo da busca pelo cruzamento entre a obra e a biografia ou entre a ficção e a realidade, livrou-se o autor de ser revestido de interpretações. As minhas considerações no presente ensaio, portanto, partiram dos movimentos afetivos e do reconhecimento desses movimentos em meu próprio inconsciente. Movimentos ativados pela leitura da peça de Túlio Henrique Pereira, Atos de paixão (2012). Trata-se de uma olhar determinado, ou melhor, sobredeterminado, a partir de inúmeras ligações de pensamentos, que não necessariamente se complementam ou formam um todo articulado, mas que interagem entre si. É importante indicar que sobredeterminação é uma noção bastante cara à Freud ao se referir à pluralidade de fatores determinantes das formações do inconsciente, a saber, sintomas, atos falhos e sonhos. Isso implica pensar na ação de elementos inconscientes múltiplos, organizados no aparelho psíquico de acordo com uma significação e coerência que lhes são próprias, o que autoriza, por sua vez, vários sentidos na interpretação (LAPLANCHE & PONTALIS, 2001). Com isso, não existe uma interpretação absoluta, tampouco se pode concebê-la como sinal unívoco de um conteúdo. Mas, voltemos então ao ponto em que essa multiplicidade se reúne. A ideia, portanto, não é negar a determinação existente na minha análise, o enviesamento da minha leitura, mas buscar indicá-la brevemente de saída, na medida em que o meu olhar sobre a peça tem como ponto de partida algo que me mobilizou, algo que 218 Renata Mello é meu nas cenas. Sendo assim, em maior ou menor grau, inscreverse-ão na minha interpretação da peça, o meu atravessamento pela clínica, a trama dos conceitos psicanalíticos, minhas vivências, um certo gosto pelo enigma, assim como o compromisso em formalizar minhas impressões a partir da leitura, a convite do Nilton Milanez, organizador desse projeto, entre outras sobreposições que me escapam. Meus apontamentos acerca da peça Atos de paixão seguirão, portanto, um curso associativo, modo como costumo proceder no dispositivo clínico. O pensamento associativo incita o levantamento das censuras racionais, de tal forma que não se tome uma lei regular fixa para os encadeamentos associativos. Nesse sentido, o desenrolar das associações não é orientado ou controlado por uma triagem prévia dos pensamentos e, assim, nenhum elemento encontra-se privilegiado ou excluído a priori. Trata-se de uma exploração fluida, evanescente e singular da obra, o que faz com que algumas personagens destaquem-se de outras, algumas cenas sejam iluminadas enquanto outras se apagam, ou ainda, que uma interrogação roube a cena. É essa aparente desordem ou perda de fio que possibilita a construção de uma trama inconsciente e a atribuição de um sentido para a análise. Passemos então ao mapeamento dessa organização associativa, examinando como Atos de paixão se encaminhou em mim. Aborda-se a peça pelo engrandecimento analítico da pergunta da personagem central, Gercindo de Medeiros: “Mas, por que a angústia”? (PEREIRA, 2012, p. 90) Subvertendo o contexto do início do século XX, no município de Rio Pardo, estado do Rio Grande do Sul, de relações condicionadas pelos ranços herdados do Um Olhar Psicanalítico Sobre a Peça Atos de Paixão, de Túlio Henrique Pereira 219 colonialismo e da fé cristã, Gercindo, um filósofo, carioca, burguês, com comportamentos e vestimentas refinadas, viajado pelo mundo e oriundo de uma família conceituada no país, apaixona-se por Lúcio Dniester, agropecuarista mineiro de descendência portuguesa, prestes a se casar. Volta-se para a cena na qual Gercindo encontra-se entre a liberdade pretendida do seu desejo homoafetivo por Lúcio e a consumação aprisionante do casamento com Maria, casamento idealizado por sua mãe. Nas palavras do próprio Gercindo, entre “ter vontade de fazer o que o corpo sequer sente, e sentir aquilo que a mente não sabe consentir...”. (PEREIRA, 2012, p. 98) Em linhas gerais, cabe retomar o cenário para fins ilustrativos. Imaginemos o casamento de Lúcio com Marlúcia concomitante ao casamento de Gercindo com Maria, irmã de Marlúcia. Os dois casais de noivos reúnem-se no altar da igreja para a troca de alianças e celebração do matrimônio na mesma cerimônia. Configura-se, claramente, na trama, uma armação de Marlúcia para casar-se com Gercindo, mas, com efeito, não se nota uma oposição definitiva da parte dele, de forma que estamos na cena às voltas do casamento. Ora, o que está em pauta nessa cena é justamente o embaraço de Gercindo entre o seu desejo e a censura moral, ou seja, o conflito entre a exigência da pulsão e a exigência da civilização. Com o intuito de refletir sobre as estratégias subjetivas da personagem para manejar o mal-estar produzido por esse conflito – casar ou não casar – retomarei dois textos freudianos que discutem os impasses da subjetividade no campo da cultura: “Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna” (1908) e “Mal-estar na civilização” (1930[1929]). Ambos trabalham a temática do conflito entre sujeito e civilização, mas se trata de dois discursos contrapostos na obra de Freud. Tal 220 Renata Mello como propõe Birman (2000), em seu estudo sobre o mal-estar na atualidade, sustentamos que o discurso freudiano inicial pressupõe uma harmonia possível entre o registro do sujeito e o registro do social, em contraposição ao discurso posterior que assume um estilo trágico justamente pelo postulado de uma desarmonia constituinte das relações sociais. Pretende-se trabalhar aqui a hipótese de que o deslocamento teórico operado por Freud entre essas duas versões corresponde ao deslocamento subjetivo da própria personagem frente ao conflito vivido. Com efeito, a relação entre o sujeito e a civilização sempre foi pensada por Freud como sendo da ordem de um conflito. Entretanto, a primeira leitura freudiana do conflito entre o eu e o outro se apoiava sobre a renúncia de parte da satisfação sexual em prol da sociedade (FREUD, 1908). A atividade sexual era apenas aceita com a finalidade de reprodução no seio de uma relação monogâmica. A energia disponibilizada, assim, deveria ser utilizada para fins culturais. Porém, o incremento das restrições impostas ao desejo vinha acompanhado de adoecimento neurótico, modo de satisfação substitutiva através dos sintomas. A moral sexual civilizada engendrava então sofrimento psíquico, o que, por sua vez, terminava por prejudicar a contribuição do sujeito na sociedade. Nesse momento, Freud acreditava no poder da psicanálise para mediar o conflito entre as polaridades. De fato, os ensinamentos psicanalíticos sobre a natureza e os destinos da pulsão sexual na subjetividade poderiam indicar uma relação mais equilibrada, ou ainda, uma regulação entre o desejo inquietante e as forças sociais coercitivas. Sob essa perspectiva, as possibilidades de felicidades estariam restringidas pela civilização sob o império da censura. Um Olhar Psicanalítico Sobre a Peça Atos de Paixão, de Túlio Henrique Pereira 221 Nessa primeira versão, portanto, seja pelo esvaziamento dos imperativos morais, seja pela transformação dos objetivos sexuais em não sexuais, pela via sublimatória, depreende-se uma resolução do conflito pelo logos. Voltemos à personagem de Gercindo, de maneira tal que se possa aproximar essa primeira leitura freudiana da forma como inicialmente enfrenta suas conjunturas existenciais. Sublinha-se aqui a mesma crença no conhecimento científico ou na inteligência divina capaz de pautar os padrões de conduta e as formas de satisfação da personagem. Trata-se de um primeiro momento em que Gercindo parece acreditar na existência de uma harmonia com o mundo, tal como Freud no texto de 1908. Cita-se a personagem: Não tenho sabido direcionar minha vida [...] (PEREIRA, 2012, p. 82) Como me embaracei nessa rede? [...] (PEREIRA, 2012, p. 84) Pratico sodomia. Não quero me casar com Maria [...] Eu não quero me perder, nem mesmo de Deus [...] (PEREIRA, 2012, p. 86) Só estou cercado de preceitos que impedem esse amor de ser legítimo [...] (PEREIRA, 2012, p. 92) É contra minha vontade e, isso sim, é pecado [...] (PEREIRA, 2012, p.92) Só quero saber o que devo fazer! (PEREIRA, 2012, p. 93) Ao se notar embaraçado entre o sim e o não ao casamento 222 Renata Mello com Maria – entre a submissão e a autonomia – Gercindo considera que a resposta encontra-se alhures. Cogita solicitar as indicações de sua mãe, declaradamente a favor da sua união com uma mulher, mas termina por recorrer mesmo ao poder religioso. Sendo assim, na iminência da cerimônia, agarra-se ao padre Gusmão, figura da divindade, equivalente da materialização da sua necessidade de salvação. Mais do que uma resposta, ele parece em busca de uma autorização para manter-se desejante. Obtém a atenção cristã, mas a vontade divina se inscreve absolutamente na contramão do seu desejo. Como resposta que obtém do padre destaca-se: “Pode ser castigado e excluído por praticar esses insanos atos”. Ora, o céu não protege Gercindo. Aflito, volta-se para os ensinamentos como se fossem pontos de ancoragem, colocando em evidência a sua ânsia por direção. Cita-se a personagem: Aristóteles já dizia, o acasalamento não é o mesmo em todos e não é feito da mesma maneira [...] Platão! O que ele dizia? Como era mesmo o que ele dizia sobre a liberdade...? A liberdade. A transcendência do corpo à contemplação do inteligível [...] (PEREIRA, 2012, p.87- 91). Pode-se entrever uma tentativa de solucionar o impasse pela racionalização, medida de preenchimento defensivo do intervalo entre o ‘eu desejo’ e o ‘eu devo’. Porém, o saber parece não dar conta e, por fim, Gercindo encara que não cabe a Platão ou a Aristóteles, nem mesmo aos estudos em Oxford, patrocinar o seu desejo. Acontece que, se por um lado ele não segue os princípios da razão, Um Olhar Psicanalítico Sobre a Peça Atos de Paixão, de Túlio Henrique Pereira 223 por outro, também, não se conforma à disciplina dos mandamentos religiosos. Com isso, não renuncia ao desejo, tampouco o afirma. Gercindo é um homem arrebatado pelos sentidos. Nas suas palavras: “Nunca me senti tão real e presente no meu próprio (...) corpo”. Entre seus impulsos sexuais e a proibição social, entre a autonomia e a submissão, Gercindo encontra-se à deriva, na solidão da escolha. Eis que adentramos no que se configura como um segundo momento do discurso de Gercindo, no decorrer da cerimônia, onde a fé na possibilidade de resolução para seu embaraço em Rio Pardo, um possível final feliz, começa a ruir, espatifando-se como desorientação, fragilidade e angústia. Enquanto no começo a personagem mostrava-se confiante num entendimento nas relações sociais, um equilíbrio possível entre os polos do conflito entre o eu e o outro, agora experimenta a radicalidade da experiência do desamparo. Cita-se a personagem: Às vezes não sei se me perdi na zona eleitoral, depois da minha sessão, ou se está tudo distante o sol quente demais para caminhar um longo percurso a pé. Estou cansado e não enxergo nada que esteja a um palmo dos meus olhos, não vejo o óbvio, o sólido, a lucidez! [...] (PEREIRA, 2012, p. 97) É um absurdo acreditar na vida quando vida nos falta [...]. (PEREIRA, 2012, p. 98) Que raio de mundo pode ser esse, que mata, tortura e desmantela um ser vivente [...] ?! (PEREIRA, 2012, p. 100) Às vezes, eu me equivoco com coisas muito 224 Renata Mello simples, pela simplicidade de minha limitação ideal, pela demasiada vontade de ser ideal [...] Eu não sei nada, eu não sei de nada, eu não sei! (PEREIRA, 2012, p. 103-104) Sim, impossível saber. Mais do que isso, trata-se de reconhecer o não saber. Atos de paixão são precisamente repletos de riscos e carentes de garantias. Não há regras, manual de instrução, bússola ou qualquer balizador externo. Essa é justamente a virada freudiana constituinte de “Mal-estar na civilização” (1930[1929]), segunda leitura de Freud para o conflito entre sujeito e cultura, tal como nos conduz Birman (2000). Tal virada, assim como em Gercindo, fazse pelo enunciado da condição de desamparo da subjetividade no campo do social. O ponto de descontinuidade entre um discurso e outro consiste na experiência visceral do desamparo, do não saber e da ausência de fiadores. Se na primeira versão freudiana, bem como no manejo inicial de Gercindo, com efeito, se poderia pensar em ultrapassar o conflito pela dominação das pulsões sexuais ou pela diminuição das exigências culturais; na segunda versão, contudo, o discurso de Freud e Gercindo não sustentava mais as certezas iniciais. Dessa perspectiva, não haveria uma conciliação possível do conflito entre sujeito e cultura e, nessa medida, uma autorregulação definitiva dos laços sociais. Reencontramos um estilo trágico de pensamento no discurso freudiano, assim como no discurso de Gercindo. Na abordagem primeira, a felicidade mostrava-se proibida pela sociedade que impedia o livre curso da satisfação pulsional, em contraposição, vê-se aqui que a felicidade torna-se da ordem do impossível e da parcialidade. Levando isso em consideração, a pulsionalidade Um Olhar Psicanalítico Sobre a Peça Atos de Paixão, de Túlio Henrique Pereira 225 apresenta-se como uma exigência de trabalho constante, impondo uma “espécie de gestão interminável e infinita do conflito pelo sujeito” (BIRMAN, 2000, p. 129). Dito isso, pode-se extrair que a relação que se estabelece com o desamparo torna-se o fundamento das diferenças entre as duas versões aqui discutidas1. Ora, afirmar que a subjetividade se inscreve no âmbito de uma condição fundamental de desamparo não significa, portanto, que o indivíduo esteja condenado a experimentar a sua vulnerabilidade a todo instante, o que equivaleria a um saber triste, melancólico e desintegrador, podendo, inclusive, recair na perda de brilho dos encontros amorosos. Mas, ao contrário, é na medida mesmo em que o conflito não é ultrapassável, isto é, na medida mesmo em que o desamparo é em certo sentido uma vocação, que não há necessidade de suprimi-lo. Desse modo, não há como escamotear o desamparo pela tentativa de ligação ao outro enquanto preenchimento e solda. É isso justamente que confere ao desamparo sua potência de inventividade intersubjetiva. Mas, ao final da peça, Gercindo consente o casamento, deixando uma questão entreaberta no que concerne ao encaminhamento do seu desejo. Gercindo teria conseguido fazer da paixão um ato? Isto é, ao se casar Gercindo estaria afirmando ou não o seu desejo? Casou-se com Marlúcia para manter a sua relação homoafetiva com Lúcio ou pela sua conformação aos preceitos morais? Autônomo ou submisso? Enfim, não se sabe. Contudo, Freud adverte: 1 Vale indicar que a mudança de perspectivas se processa, sobretudo, a partir de 1920, quando Freud concebe a segunda teoria pulsional e a segunda tópica do aparelho psíquico. A esse respeito, ver: “Além do princípio do prazer” (FREUD, 1920) e “O ego e o id” (FREUD, 1923). 226 Renata Mello Nenhum desses caminhos nos leva a tudo o que desejamos. A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo. Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha (FREUD, 1930[1929], p. 91). À luz dessas considerações, é possível pensar nos enlaces amorosos para além da dicotomia autonomia versus submissão e sustentar o intervalo do entre. Restaria para Gercindo, então, construir continuamente destinos possíveis para lidar com o malestar produzido pelo conflito vivido. Seja como for, a erradicação do conflito não se apresenta mais como um projeto viável, situando, assim, o desejo ao lado da aposta. Assim sendo, se existe alguma “felicidade passível de ser atingida pelos homens” (FREUD, 1930[1929]), ela se encontra na invenção infindável de um destino condizente para o desamparo. Referências BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. FREUD, S. (1907[1906]) Delírios e sonhos na ‘Gradiva’ de Jensen. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. IX, p.15-88. FREUD, S. (1908) Moral sexual civilizada e doença nervosa Um Olhar Psicanalítico Sobre a Peça Atos de Paixão, de Túlio Henrique Pereira 227 moderna. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. IX, p.167186. FREUD, S. (1915) O inconsciente. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XIV, p.165-222. FREUD, S. (1920). Além do princípio do prazer. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XXIII, p.153-221. FREUD, S. (1923). O ego e o id. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XIX, p.15- 80. FREUD, S. (1928) Dostoievski e o parricídio. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XXI, p.181-200. FREUD, S. (1930[1929]) Mal-estar na civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XXI, p.67-148. LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J-P. Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001. PEREIRA, T. H. Atos de paixão. São Paulo: Giostri, 2012. NOS LINKS DO BLOG POÉTICAS DO CORPO, UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE PAUSE CAFÉ Graziela Andrade (Universidade Federal de Minas Gerais/Paris-Est, L’École de Science du Langage) (Núcleo de Estudos das Mediações e Usos Sociais dos Saberes e Informações em Ambientes Digitais – NEMUSAD) Introdução Revelar corpos presentes no blog Pause Café foi um desafio enfrentado por mim na Journée Internationale d’Études Brésilienneté, subjectivités et corps: autour de la littérature de Túlio Henrique Pereira. Digo desafio, pois a literatura e, mais especificamente, a poesia são áreas que escapam a minha atuação como pesquisadora, uma vez que estou, sim, envolvida com os questionamentos sobre o corpo, mas em relação à dança, aos gestos, à tecnologia e às informações, partindo, especificamente, das Ciências da Informação e da Linguagem. Ainda que o olhar sobre o tema venha de uma esfera acadêmica distinta, logo que o exercício de aproximação foi iniciado por meio de uma atenta leitura do blog, os pontos de tangência entre corpos surgiram de maneira quase espontânea. Diante das linhas em Pause Café, emana uma poética que remete àquela da dança contemporânea, da maneira como ela é discutida por Laurence Louppe e que será retomada mais adiante. Apreendendo-se tal ponto, trilhou-se aqui um caminho afinado entre a poética e a poesia, no qual o corpo é lugar de encontro e o blog é a 232 Graziela Andrade ferramenta mediadora entre autores e pensamentos. O presente texto trata, portanto, de um diálogo experimentado entre áreas afins, que se desenvolve seguindo três objetivos delineados. Em um primeiro momento, tratamos de sugerir e evidenciar, dentro de um contexto comunicacional definido, a maneira como o autor apropria-se do blog enquanto ferramenta narrativa. Depois, buscamos promover uma breve reflexão sobre o conceito de poética na dança contemporânea que verte entre as tramas do pensamento e do movimento; território esse que será também sugerido para a literatura em sua dança de palavras. Por fim, analisamos e discutimos alguns posts, a partir do recorte elaborado, na intenção de se demonstrar corpos apreendidos por meio do movimento de ideias expressas, seja um corpo-autor, seja outros por ele aclamados. Blog, narrativa de si Para fins de contextualização e posicionamento do objeto, partimos da literatura especializada, no que tange ao entendimento de blogs como ferramentas de comunicação a partir do livro Blogs. com – estudos sobre blogs e comunicação, publicado em 2009 e organizado por Adriana Amaral, Raquel Recuero e Sandra Montardo. A partir de uma inquietação teórica comum, e entendendo os blogs como relevante objeto emergente da cibercultura, as autoras reuniram 13 artigos de pesquisadores brasileiros, a fim de colaborarem com a crescente demanda de investigações sobre blogs, no Brasil e no exterior. Diante da intenção de percorrer, dentro das possibilidades editoriais, a riqueza epistemológica inerente ao tema, as organizadoras Poéticas do Corpo, uma Breve Reflexão sobre Pause Café 233 dividiram o livro em duas seções temáticas. A primeira denominada Blogs: Definições, Tipologias e Metodologias e a segunda, Usos e Apropriações de Blogs. Curiosamente, a discussão continua sendo atualizada por meio do blog do próprio livro que pode ser acessado através do endereço seguinte: http://www.sobreblogs.com.br. Já no prefácio do livro, o pesquisador André Lemos revela que o primeiro blog (termo que vem de weblog, contração de web e log) foi criado por John Barger em 17 de dezembro de 1997. Embora a forma desses websites tenha mudado durante o decorrer dos anos, os atributos utilizados, pioneiramente, por Barger permanecem como característicos dos blogs, tais como: links, comentários e categorias. Contrariando aqueles que sugeriam que os blogs seriam uma “moda passageira”, o fenômeno propagou-se mundo afora a ponto de se tornar algo de difícil mesura quantitativa. Ainda, segundo Lemos (2009), os blogs são sintoma da cultura “pós-massiva”, que tem como uma das características a liberação do polo de emissão da informação, dando a palavra ao outro. Blogs, de certa maneira, expressam o permanente desejo de conexão e comunicação de todos aqueles que, com recursos mínimos, tornam-se produtores e fazem circular a informação livre. Também na ciência, o autor entende que os blogs tornam-se um objeto fundamental de pesquisa e poderoso instrumento pedagógico, ao que podemos incluir ainda a relevância enquanto ferramenta metodológica. Isso dito, Lemos (2009) defende a importância do estabelecimento de uma agenda de pesquisa que se volte para a ferramenta em questão: O jogo está aberto. O desafio é achar uma saída criativa que evite o pensamento binário e simplório que, por um lado, insiste entre a 234 Graziela Andrade “mediação” clássica (dos pares, dos editores, dos sábios) e, por outro, no populismo pobre que dá voz a todos sem hierarquias de valores. A riqueza da cibercultura está na criação de ferramentas que potencializam a pluralidade e a democratização da emissão. Mas tudo é virtual e só o debate político poderá atualizar essa dádiva. O atual estado de tensão e complementaridade entre os sistemas massivos e pós-massivos deve amadurecer (Ibid., 2009, p.17). É esse o caminho tomado pelas organizadoras do livro supracitado e que são também autoras do capítulo introdutório, voltado para o mapeamento do objeto que se discute. Interessa-nos, nessa reflexão, o vasto levantamento, por elas realizado, a respeito dos conceitos de blog e que culminam em três opções conceituais: a estrutural, a funcional e a de artefato cultural (SHAH, 2005 apud AMARAL et al., 2009). Sendo as duas primeiras definições mais voltadas para as questões ferramentais que caracterizam o blog enquanto tal, nos deteremos na terceira que parece mais adequada à reflexão a que nos propomos. O que prende a atenção em relação à concepção de blogs como artefatos culturais, segundo as autoras, é a visão dinâmica desse objeto que, uma vez apropriado pelos usuários, torna-se um repositório de marcações e motivações culturais de comunidades ou grupos virtuais, possibilitando também a recuperação de traçados culturais. A trama narrativa dos blogs seria ainda alimentada e legitimada por práticas vividas pelos seus autores e constituiria um espaço virtual de sociabilidade e formação de redes sociais. Nesse sentido, os blogs podem ser entendidos como espaços de Poéticas do Corpo, uma Breve Reflexão sobre Pause Café 235 publicação destinados a comunidades afins, mas utilizados como ferramentas de expressão individual, ou seja, um ambiente coletivo com forte caráter de individualização. Sabe-se ainda que, apesar desse caráter de personalização, trata-se de um “espaço público”, uma vez que blogs podem ser acessados de maneira generalizada e, com isso, há uma consciência dos autores em torno de sua própria audiência de maneira que, em certo sentido, os blogs espelham o que desejam seus blogueiros. Trata-se, nesse caso, de uma construção de impressões, uma escrita íntima, uma narrativa de si (LEMOS, 2002; CARVALHO, 2002; SIBILIA, 2003e 2004; HERRING et al. 2004 apud AMARAL et al., 2009). É evidente que a explanação sobre blogs não se encerra nessa definição, mas se fez aqui um exercício de afunilamento de definições, a fim de se estabelecer um recorte em torno do objeto em discussão. De tal maneira, se pudermos pensar em estilos ou categorias de blogs, considerar-se-ia Pause Café como um espaço de narrativa de si; definição essa que se diferencia ou, talvez, complexifique a velha concepção de blogs como diários virtuais, principalmente, pela inclusão do olhar do outro nessas novas páginas. Os espelhamentos evidenciados na análise do blog Pause Café revelaram, sob nossa interpretação, um espírito inquieto e inconformado que movimenta as palavras, para dizer do mundo em prosa e poesia. O corpo, por sua vez, revela-se por meio da expressão textual de ideias e, anunciando seus territórios de implicações, o autor aponta para outros corpos para os quais roga, manifesta, protesta e requer outros olhares e reflexões. Antes de passarmos às ponderações em torno desse universo íntimo e público de Túlio Henrique Pereira, evidenciaremos alguns 236 Graziela Andrade dados da análise prática do blog, que podem auxiliar o leitor a compor e dimensionar sua própria imagem a respeito deste. Em tal apreciação, foi feita a leitura de todos os posts do blog em ordem decrescente de publicação e se avaliou o volume de textos publicados por período, a variabilidade de estilos (prosa, poesia, notícia etc.) e a classificação de temas feita pelo próprio autor através das tags. Abaixo, seguem os dados mencionados: Capa: Posts (até a data do evento): 1º post: Fevereiro de 2008 2008: 36 posts 2009: 15 posts 2010: 03 posts 2011: 06 posts Poéticas do Corpo, uma Breve Reflexão sobre Pause Café 237 Último post: Junho de 2011 Nuvem de Tags: Agenda (13) Cinema (5) Contos (6) Copa do Mundo (1) Crítica (10) Em Foco (10) Lançamentos (15) Livros (14) Música (7) Notícias (12) Poesias (24) Prosa (20) Resenha (3) Textos Eróticos (1) Tudo (59) Túlio Henrique (53) Após essa etapa, foram selecionados alguns posts com a intenção de se promover a discussão sobre a poética do corpo, assunto sobre o qual discorremos a seguir. Entre poéticas Na perspectiva de Louppe (2004), a concepção de poética está atrelada à busca de identificação daquilo que, em uma obra de arte, pode alcançar nossa sensibilidade, tocar-nos, ressonar em nosso imaginário. Mais além, a poética teria a missão de nos dizer sobre o caminho do artista, o percurso percorrido até o limiar onde o ato artístico oferece-se a nossa percepção e onde nossa consciência com ele se encontra e vibra. A poética diz das ressonâncias da obra que não se completa, uma vez que a percepção está em processo e integra o próprio processo da poética. A partir dessa reflexão, a autora define a poética como o estudo dos recursos que favorecem uma reação emotiva a um sistema de significação ou de expressão. Analisando as proposições da poética no domínio linguístico ─ a partir de Roman Jakobson, que procurou revelar os fatores 238 Graziela Andrade constituintes da função emotiva da linguagem ─, Laurence Louppe salienta que toda obra de arte é um diálogo, visto que a função poética encadeia, de maneira imanente, o sujeito do ato criador e o interlocutor que se pretende tocar, sensibilizar, por meio de reações estéticas. Tais reações são nomeadas como esthésies, que seriam fatores de sensibilização anteriores a uma conceituação construtiva. De tal maneira, a função poética estaria centrada no destinatário de quem almejaria uma expressão direta de atitude. Na língua, tal expressão não passa, necessariamente, pela presença de um sujeito gramatical no enunciado, mas sim por um viés emotivo que envolve uma dinâmica de “atitudes do sujeito”, tendo como referência um campo comum de experiência com o outro. Seria essa a aparente proposição de uma obra de arte, a incidência sobre o outro em uma questão implícita da qual se apreende um sentido fugidio, sem que se possa, no entanto, delimitar, necessariamente, o ponto onde se cruzam ou se implicam as atitudes dos sujeitos do diálogo. Desse modo, toda poética do verbo abriria na linguagem o ar de uma presença, e não justamente um sujeito. Na dança, seguindo com a autora, essa relação seria ainda mais exasperada, uma vez que lá, sim, o sujeito está diretamente implicado no seu próprio movimento, na sua arte. Ao contrário da língua, por exemplo, o sujeito que dança não dispõe de um instrumento de substituição de sua presença; sua atitude expressiva coincide com ele mesmo e se dá inteiramente no gesto, o que dá a todo movimento um grau de expressividade, mesmo que não intencional. A dança, como a poesia na língua, tende a evidenciar fatores portadores da emotividade nos gestos, estando atrelada ─ ainda mais que a poética verbal ─, às profundas raízes dos indivíduos que podem colorir um Poéticas do Corpo, uma Breve Reflexão sobre Pause Café 239 enunciado gestual. É, através dessa comparação entre poéticas, que Louppe (2004) irá considerar a dança como a poesia do corpo. Têmse inseridas, nesse caso, duas ideias de movimentos do corpo e das palavras; ambas com um desígnio comum de expressão artística. Ao se focar na dança contemporânea como objeto de análise, a autora desenvolve sua argumentação em torno do que seria uma poética do corpo, entendida como exercício complexo de encontros entre o lírico e o orgânico, o qual pode ser experimentado, ainda que não exclusivamente, por bailarinos. Na dança, haveria uma exigência infinita de conscientização de si, pois para um bailarino, o corpo é, ao mesmo tempo, um instrumento de saber, de pensamento e de expressão. O maior empenho de um artista na dança estaria em, incessantemente, optar e alcançar um estado consciente e autônomo do seu corpo, descobrir sua corporeidade diante de todos os modelos técnicos e instrumentalizações disponíveis. É a partir desse entendimento que a autora sugere a possibilidade que tem um bailarino de criar sua própria poética. Isso dar-se-ia, frequentemente, a partir de intenções e articulações nas quais o corpo e seus movimentos fornecem uma espécie de textura, que só pode ser percebida de maneira subjacente. Esse texto corporal a se revelar pertence a um território de implicações pessoais do qual surgem sentidos no ato coreográfico. Explicitadas, ainda que com brevidade, as duas apropriadas e tangentes definições de poética, detêm-se por hora na seguinte proposição: A poesia está para a língua como a dança está para o corpo. Embora, como visto, a poesia faça uso da língua enquanto instrumento e, na dança, o corpo seja ao mesmo tempo objeto e obra, podemos sugerir dinâmicas afins entre as duas esferas poéticas, que, 240 Graziela Andrade em semelhança, remetam a uma questão fundamental: o movimento. O movimento do pensamento revelando corpos, seja em palavras, seja em gestos. A hipótese que apenas se tateia, neste ensaio comparativo entre poéticas, é aquilo que Louppe (2004) nomeia como textura subjacente ao corpo ─ que a autora afirma que poderia ganhar sentido através da percepção no ato coreográfico, em medida distinta ─, também pode ser desvendado diante do corpo ausente, ou melhor, do ar da presença de um autor, que a língua é capaz de abrir. Não pretendemos, com isso, negar as particularidades entre as poéticas em questão; evidentemente, cada forma artística tem em si propriedades peculiares a sua linguagem, sob as quais não iremos nos debruçar neste momento. Importa aqui refletir sobre o corpo em cena ainda que em sua ausência. Voltemos à sugestão da autora sobre o texto corporal que um bailarino, a partir de seus territórios de implicações, seria capaz de revelar. Entendemos, nesse sentido, o texto enquanto percepções, traduções e registros pertencentes a um corpo no mundo. Sob um viés semiótico, tal texto diria de uma escrita constante, em processo inestancável, relacionado às nossas experiências com e no mundo e que coincidiriam com nossa própria existência. Seriam essas experiências responsáveis pela determinação do que se chamaram territórios de implicações e que, por sua vez, consideramos como tramas ou potencialidades virtuais de um corpo, prestes a se atualizarem, a se revelarem, momentaneamente, por uma espécie de movimento criativo. O texto corporal seria uma implicação ou estado aparente que Helena Katz cunhou de “corpomídia de si mesmo” e que diz de nosso movimento de vida: Poéticas do Corpo, uma Breve Reflexão sobre Pause Café 241 Corpo é mídia, nada além de um resultado provisório de acordos cuja história remonta a alguns milhões de anos. Há um fluxo contínuo de informações sendo processadas pelo ambiente e pelos corpos que nele estão (KATZ, 2003, p.263). Bem como um bailarino faz uso de seu texto corporal para escrever em gestos e revelar uma poética da dança, outros movimentos artísticos, como o da poesia, podem tornar aparente uma poética do corpo (mesmo em sua ausência física), ressaltando ainda que o corpo que se mostra pode não dizer diretamente sobre um corpo-autor, e sim sobre um texto corporal de autor, que diz dos registros do sujeito no mundo; e, nesse ponto, voltamos ao nosso objeto para maiores explicações. A poética do corpo, que vislumbramos para prosas e poesias do blog Pause Café, ratifica territórios autorais de experiência e, com isso, promove ainda corpos outros que não o de autor. Recordando que toda arte é um diálogo, temos uma presença pálida do corpo-autor para o qual só podemos fazer inferências através de outros corpos, que surgem poeticamente do também iminente texto corporal. Ao refletir sobre tal conjectura do texto corporal, que necessariamente remete aos registros, atitudes e implicações do autor, partiremos agora para as observações a respeito dos posts selecionados. Corpo no Texto Em princípio, é preciso salientar que o blog Pause Café não apresenta restrições em torno de temas ou formatos. Lá, encontramos 242 Graziela Andrade poesias, prosas, contos, relatos, textos de divulgação e notícias, os quais abordam assuntos de diversos aspectos, desde os mais cotidianos àqueles de cunho político e existencialista. Muita obra literária encontrada no blog faz parte de publicações impressas do autor que são divulgadas em alguns posts. Também não foi possível determinar uma regularidade em termos de período ou volume das publicações, que, como exibido nos quadros anteriores, aconteciam de maneira indeterminada. O conteúdo disponível reforça a condição do blog em questão como um espaço de narrativa do autor, direcionado e observado por uma comunidade virtual, parcialmente conhecida, embora não tenhamos encontrado registros de comentários de leitores. A afirmação baseia-se, no entanto, na apreciação geral dos posts que, por hora, intencionavam uma fala direta e objetiva com o leitor e, por outras, implicavam questionamentos mais aprofundados; movimento esse próprio a uma vida cotidiana que passa por rotinas, obviedades, mas, também, por contestações, posicionamentos e interpelações próprias ao pensamento humano. A primeira análise apresentada trata de uma poesia, publicada no dia 21 de março de 2009, com o título “Dedico”1, replicada abaixo: Dedico Aos androides negruscos, vadios pelas ruas mendigos e cadáveres não identificados sonhos herdados e contradições Aos obesos 1 Cf. Essa poesia pode ser acessada a partir do Blog Pause Café no link http:// tulioh.blogspot.com.br/2009_03_01_archive.html. Poéticas do Corpo, uma Breve Reflexão sobre Pause Café e às fétidas criancinhas pobres feios e torpes senhores pagãos corações solitários sofrendo insônia e à dona Francisca, por toda descrença e desgosto Às Marias, Terezas, Josés e Eurípes... todos que desconheço... submersos no limbo frívolo do sorgo Às feias, magérrimas, corcundas aos caquéticos insolúveis e feios garotos e garotas de programa da TV e do corpo analfabetos, belos índios, japoneses, negros e louros cancerosos, diabéticos, aidéticos... condenados e loucos, gays e sádicos À dor e ao sexo, milagre e tédio dos vivos e mortos 243 244 Graziela Andrade À toda escória sempre lembrada aos potentados e seus ministérios à toda razão... à Glória! Vários são os corpos diretamente aclamados nesse texto imagético que se compõe uma verdadeira ode aos corpos, em sua grande maioria, marginais. Há uma referência muito explícita a essas imagens corporais que representam sujeitos distintos e que colocam, à mostra, a recorrente temática social presente na obra de Túlio Henrique. Podemos sugerir, diante do que foi posto anteriormente, que o discurso que concerne a críticas de origem socioeconômicas seria um aparente território de implicações do próprio autor. Essa afirmação não pretende, no entanto, determinar nenhum tipo de condição do sujeito-autor, e sim apontar para o conteúdo do que chamamos texto corporal (sem nenhum propósito de classificação direta) e de aludir a um conteúdo relevante e significativo ao corpoautor por razões que não podem ser mensuradas pelas linhas de um blog. Ao corpo outro, são dadas a voz e a vez em uma poética explicitamente corporificada, ou seja, registrada na evocação de imagens do corpo praticadas pelo autor e que podem ser reveladoras no que tange a sua dinâmica de atitudes ou ao texto corporal que o compõe enquanto sujeito. Em outro formato, a próxima publicação que veremos, intitulada “Sarara Crioulo”2, foi exibida em outubro de 2008. 2 Cf. Este texto pode ser visualizado no Blog Pause Café de Túlio Henrique Pereira no link http://tulioh.blogspot.com.br/2008_10_01_archive.html. Poéticas do Corpo, uma Breve Reflexão sobre Pause Café 245 Sarara Crioulo Já me decidi. No final desta semana raspo meu cabelo pixaim. Isso porque cresci omisso à realidade deste sistema. Ultimamente ando esquisito demais, pensando no passado e no presente e morrendo de medo do futuro, a vida é tão maluca e eu ainda paro para pensar nela. Por que vou raspar o cabelo? Porque eu não posso me matar, não tenho coragem. Também é impossível renascer e não tenho religião, por isso rasparei os cabelos, uma simbologia de renascimento... Lembro-me de um tempo há pouco mais de três anos quando, por incidente, uma cabeleireira raspou meus cabelos... eu estava mudando, tomando nova forma, crescendo biologicamente e me inserindo no mundo como sujeito. Hoje eu estou assujeitado no mundo procurando a saída ou o fio da ninhada perdido entre os dias que se foram. Ansioso demais, contudo nunca atrás do começo, espero o fim. Exatamente isto: o fim dos dias para que eu possa digeri-los com sobriedade. Agora descobri que ninguém me ama, nem eu mesmo. E descobri mais: acho que ninguém ama alguma coisa ou pessoa. Estamos aqui vestindo máscaras para desfilar nossos ócios e fadigas, maquiar a cara, botar roupa bonita e transar. Quando eu nasci eu cheguei a pensar que a vida fosse muito mais que isso, mas me fizeram acreditar no contrário e acreditei, mas logo depois percebi que eu estava mentindo e ajudando outras pessoas a mentirem – chega! Daqui a pouco tenho outro surto suicida! –, desejando aquilo que não podem porque são de carne. Na verdade eu queria ser de queijo, porque ser de aquário é insólito demais! 246 Graziela Andrade Nessa espécie de crônica em primeira pessoa, o autor parece se colocar ao falar de suas angústias mundanas e, ao contrário do texto anterior, no qual vários corpos são evocados, nesse, ele apresenta claramente um sujeito de ação que se revela na relação com seus próprios cabelos ─ fios condutores da narrativa. O tom extremamente realista do discurso que, aliás, de forma geral, é característico de textos vistos em blogs, sugere um ato corriqueiro e aponta para uma situação que parece ter acontecido vividamente. Um recente registro do sujeito, no qual um movimento do corpo dispara intenções e articulações de um autor, promove um movimento do pensamento. Corpo-sujeito e corpo-autor entrecruzam-se até o ponto de parecerem indistinguíveis. Replicamos, em seguida, o trecho de um post denominado “Quem é mais inteligente, o livro ou a sabedoria?”3 de agosto de 2008, no qual o autor descreve-se em uma situação indubitavelmente real e experimentada por ele mesmo. Quem é mais inteligente, o livro ou a sabedoria? (...) Os dias em São Paulo voam porque os caminhos custam dinheiro e atenção, embora existam sem consciência. Por muitas vezes me senti uma areia literalmente perdida no meio de um deserto, os carros e os corpos apressados transitando por entre neblina e faróis me lembraram o playmobil da infância. Senti-me vivo, embora mais morto do que nunca. 3 Cf. Este texto pode ser visualizado no Blog Pause Café de Túlio Henrique Pereira no link http://tulioh.blogspot.com.br/2008/08/tudo-aconteceu-como-umflash.html. Poéticas do Corpo, uma Breve Reflexão sobre Pause Café 247 Minha estreia na 20ª Bienal do Livro de São Paulo foi tímida, calada e com atraso. Nada ofuscou o brilho da minha alma embora esta padecesse em obscuridades incutidas sob a pele e os olhos ensimesmados. Todos sorriam, posavam para os flashs, discorriam sobre suas obras, sempre as melhores, as mais bem idealizadas, fundamentais, importantíssimas... e o mais importante: comerciais. “O observador do mundo finito” estava sobre a pequena mesa de vidro redonda, foi retirado de seu suporte umas duas ou três vezes e por ora ameaçaram comprá-lo, mas ao folheá-lo, uma surpresa: “do que falam esses textos?” – Acho que respondi umas duas vezes, mas ninguém entendeu, embora fizessem face. “... desapareço quando penso, quando não penso inexisto...”, muitos têm sido os conflitos meus e a poesia que encontram em meus escritos não são receitas de bolo, é a vida dos corpos vazios que carrego e acredito. Estas não são simples ou exageradamente comuns. São alfabetizadas na melhor escola do universo: o tempo cuspido e escarrado, fedido e sujo, inanimado e animado e tão lembrado que se faz esquecido sobre inúmeros aparadores e livros e corpos vazios caminhando sobre os caminhos caros e fundamentais. No texto acima, Túlio Henrique Pereira descreve seus sentimentos e aflições durante o lançamento de seu livro em um relevante evento: a 20ª Bienal do Livro de São Paulo. A princípio, é o próprio sujeito que aparece em destaque, sugerindo um corpo deslocado do espaço incômodo que precisa preencher fisicamente e no qual parece supor uma solidão, uma ausência de pares com 248 Graziela Andrade os quais ele possa dividir os pensamentos que chegam ao texto. Em um segundo momento, o autor irá trazer à tona outros corpos para os quais ele atribui o vazio que está nele mesmo, uma crença oca e replicável entre corpos. E é, nessa ausência, que seu próprio corpo dialoga com o outro, é nessa linha que se cruzam dinâmicas de atitude. Mais uma vez, a escrita de corpos é revelada no movimento das palavras. Em termos finais O caminho que apenas se começa a traçar aqui diz sobre o movimento de gestos, palavras e pensamentos que, a partir de uma perspectiva poética, podem revelar potências e territórios de percurso de um corpo em distintos meios artísticos. Um blog, enquanto espaço de narrativa pessoal, pode se revelar como uma interessante ferramenta da análise de trajetórias criativas de seu autor, uma vez que pode assumir parcialmente a função de repositório público de memórias de um sujeito. Nesse sentido, foi possível em Pause Café sugerir e apontar, experimentalmente, algumas articulações de um corpo que se movimenta entre a poesia e a poética. Referências AMARAL, A. et al. (Orgs.). Blogs.Com: estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento Editorial, 2009. KATZ, H. Todo corpo é corpomídia. Com Ciência: Revista eletrônica de jornalismo científico. Semiótica e semiologia, Local, n. 74, 10 mar., 2006. Disponível em: www.comciencia.br/comciencia/?se ction=8&edicao=11&id=87. Acesso em Fevereiro de 2008. Poéticas do Corpo, uma Breve Reflexão sobre Pause Café 249 LEMOS, A. Prefácio. In: AMARAL, Adriana; RECUERO, Raquel, MONTARDO, Sandra (orgs.). Blogs.Com: estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento Editorial, 2009. LOUPPE, L. Poétique de la danse contemporaine. 3. ed. Paris : Contredanse, 2004. NA ORDEM CIENTÍFICO-EDUCACIONAL UM DIÁLOGO COM O CAMPO EDUCACIONAL A PARTIR DAS PROVOCAÇÕES DA OBRA DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA Santuza Amorim da Silva (Paris 8/Universidade do Estado de Minas Gerais. Núcleo de Estudos sobre a Formação e a Condição Docente (Prodoc-CNPq) e do Núcleo de Estudos de Educação Étnico-Racial (NERA)) A sensibilização para com a temática das diferenças culturais é uma conquista recente no ambiente educacional, despontando nesse cenário a partir de 1998, com o lançamento dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) (BRASIL, 1998), no qual a pluralidade cultural foi eleita como um dos temas transversais. No cerne desse movimento, iniciou-se um diálogo crescente em torno das políticas afirmativas das minorias étnicas em diferentes processos educativos. Com a finalidade de promover o reconhecimento e a valorização da história e da cultura dos afro-brasileiros, em janeiro de 2003, foi aprovada a lei 10.639/03. A partir desse momento, tornouse obrigatória a inclusão dessa temática em diferentes disciplinas, e algumas delas são Literatura e História. A partir desta lei, o Conselho Nacional de Educação aprovou a resolução de 1º de 17 de março de 2004, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações ÉtnicoRaciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. As diretrizes representam o detalhamento, a ampliação e a orientação das escolas da educação básica e dos cursos de formação de professores na perspectiva da lei e possibilitam o surgimento 254 Santuza Amorim da Silva de diretrizes curriculares estaduais e municipais que caminhem na mesma direção. De acordo com o documento, é fundamental a edição de livros e de materiais didáticos para diferentes níveis e modalidades de ensino que atendam ao disposto no artigo 26A da LDB, e, para tanto, abordem a pluralidade cultural e a diversidade étnico-racial da nação brasileira e corrijam distorções e equívocos em obras já publicadas sobre a história, a cultura e a identidade dos afrodescendentes, sob o incentivo e a supervisão dos programas de difusão de livros educacionais do MEC – Programa Nacional do Livro Didático e Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE). Além disso, cabe acentuar que, no âmbito dessa temática, outros elementos se destacam e sinalizam para a importância de se aprofundar sobre tais questões. Um deles é que por muito tempo acreditou-se que, por força do mito da democracia racial, a desigualdade social no Brasil era uma questão essencialmente ligada à pobreza e às péssimas condições de vida de uma grande parcela da população sem condições de acesso às benesses da modernidade. Todavia, pesquisas recentes do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – vieram mostrar aquilo que o Movimento Negro organizado há muito afirmava: não se pode dissociar a desigualdade social existente no Brasil da desigualdade racial. Esses dados vieram corroborar a discussão nacional em torno da temática e a compreensão de que não se pode refletir e propor estratégias de superação das desigualdades sociais sem estabelecer estratégias de combate ao preconceito e à discriminação racial no Brasil. É nessa direção que a escola desponta como um dos ambientes privilegiados de formação humana e pode ser considerada um dos Um Diálogo com o Campo Educacional a Partir das Provocações da Obra de THP 255 espaços que interferem na construção da identidade. Assim, o olhar lançado sobre o negro e sua cultura, na escola, tanto pode valorizar identidades e diferenças, quanto pode estigmatizá-las, discriminálas, segregá-las e até mesmo negá-las. Nesse contexto, pode-se dizer que as produções de Túlio Henrique Pereira – tanto a literária como a acadêmico-científica – podem se constituir em possível fonte para dialogar com tais propostas, tendo em vista que a sua obra traz elementos marcantes das questões afetas a etnia, identidade e marcas da corporeidade negra, aspectos que começam a ser explorados em materiais didáticos e literários após a aprovação da referida Lei. Tanto em sua literatura como em seu trabalho de dissertação de mestrado, Túlio Henrique Pereira faz menção à cor da pele, suas memórias e suas sensibilidades, que oscilam entre o que a história mostrou e tentou legitimar ao longo dos séculos e o que ele – o pesquisador e o escritor – apropriou. Túlio reconhece que, como a maioria dos brasileiros, esteve exposto às ideologias que os livros didáticos de história impuseram e ainda tentam impor. Na parte introdutória de seu trabalho acadêmico, Túlio (2011, p. 13-14) diz: os negros eram ilustrados nos livros como seres presos com correntes no pescoço, braços e pernas, os escravos que vieram da África para o trabalho nos engenhos. [...] A partir dessas imagens e leituras, comecei a perceber que ser negro era pertencer a uma estética e a uma ideia comportamental com um passado humilhante, fraco e culturalmente irrelevante. 256 Santuza Amorim da Silva As pesquisas já realizadas sobre os materiais didáticos que circulam nas escolas do país revelaram uma característica marcante desse material, ou seja, sua omissão em revelar e representar a diversidade étnico-racial, tal qual acontece no contexto da sociedade brasileira. Estudos como o de Rosemberg (1985) e de Gouvêa (2005), ao analisar diferentes períodos da história brasileira, detectaram, nessas obras, a presença de posições ambíguas e paternalistas, e em outras, atitudes claramente racistas, o que acentua a discriminação e o preconceito racial no ambiente escolar e na sociedade, conforme conclui Gouvêa: o leitor que os textos produziam era marcado pela identificação com a cultura e estética brancas, ao mesmo tempo que desqualificador da cultura e estética negra. Negro ou branco, os textos acabavam por embranquecer o leitor, ao reiteradamente representar a raça branca como superior (GOUVÊA, 2005, p. 90). O que as pesquisas já mostraram e reiteradamente vêm detectando é que os nossos alunos se defrontam cotidianamente com materiais impregnados de elementos, não só em relação ao conteúdo, mas, sobretudo, em relação às imagens presentes nesses materiais, que tendem a reforçar e acirrar comportamentos próximos à discriminação e ao preconceito racial. Tanto a ausência dessa discussão como a presença estigmatizada do negro sob uma perspectiva estereotipada e depreciativa de sua história no contexto da história do Brasil podem ser nefastas, pois, pelo ponto de vista do aluno afrodescente, esses elementos consolidariam uma identidade frágil manifestada na baixa Um Diálogo com o Campo Educacional a Partir das Provocações da Obra de THP 257 autoestima e na negação dos valores e da cultura de seu povo e, por outros pontos de vista, certo estranhamento em relação às situações e atitudes discriminatórias. Tais preocupações estão presentes na obra de Túlio desde a elaboração de sua monografia de final de curso de graduação, quando ele revela que “na maioria das vezes, era possível perceber esse sujeito sendo tratado de forma genérica e requisitado por sua estética entendida como feia, suja, amoral e subserviente” (2011, p. 15). Sabe-se que, historicamente, as relações raciais no Brasil sempre foram perpassadas pela ideologia do branqueamento, o que fez com que os grupos afrodescentes fossem impedidos de se reconhecer como negros, apropriando‑se de seus traços físicos e culturais. A cor da pele, os cabelos crespos e o nariz grande ou achatado ainda são incômodos para muitos negros no Brasil que têm como referência a estética branca – da Xuxa loira, como bem destaca Túlio em sua dissertação. A construção da identidade negra perpassa as relações históricas e sociais engendradas durante o processo de formação da identidade nacional a partir de uma visão hegemônica do branco. Assim, a imagem do corpo negro é associada à imagem de um corpo estranho à sociedade, como aponta Nelson Inocêncio: Na cultura visual brasileira, o corpo negro aparece como a antítese do que se imagina como normal. É um corpo cuja representação está associada ao que há de mais caricato, como se ele existisse justamente para demonstrar o contrário do humano. O corpo negro amedronta, porque a ele foi atribuída uma noção de força 258 Santuza Amorim da Silva que se sobrepõe ao intelecto. Esse mesmo corpo provoca risos porque sua leitura está vinculada a comparações que o animalizam (INOCÊNCIO, 2006, p.185). Contudo, Túlio Henrique Pereira mostra em sua poesia o rompimento com essa construção identitária nefasta para quem se inscreve nesse segmento étnico‑racial no Brasil, como se vê nas palavras do próprio autor: e, embora eu tivesse tudo para endossar o imaginário popular a que a maioria dos livros didáticos, programas de televisão e músicas tinha sobre as pessoas com a cor da minha pele, preferi contrariá-las naturalmente, e buscar, mesmo em um terreno incipiente, referências que foram opacizadas (2011, p. 17). E é dessa maneira que a obra do autor se aproxima do que a lei 10.693 busca implementar. Em um dos trechos de sua poesia, isso se revela de forma clara, ao falar de um dos principais ícones identitários, que é o cabelo – apontado nas pesquisas como um atributo que evidencia a concepção de inferioridade do negro, caracterizado para além da cor. A cor deixa de ser, num primeiro plano, a marca da diferença, dando lugar ao atributo cabelo. De acordo com a pesquisadora Nilma Gomes (2002), o cabelo e o corpo são pensados pela cultura. Nesse sentido, o cabelo crespo e o corpo negro podem ser considerados expressões e suportes simbólicos da identidade negra no Brasil. Juntos, eles possibilitam a construção social, cultural, política e ideológica de uma expressão criada no Um Diálogo com o Campo Educacional a Partir das Provocações da Obra de THP 259 seio da comunidade negra: a beleza negra. Nessa mesma direção, os estudos realizados por Silva (2008) revelam que no Brasil a discriminação racial contra os negros é praticada, em geral, contra aqueles que possuem traços físicos marcadamente característicos da descendência africana, como cor da pele, cabelos crespos, lábios grossos e nariz chato. Tais atributos se fazem presentes na poesia de Túlio, na qual ele mostra o cabelo como belo e compara a pele ao sol: astro-rei, brilho e poder. Tenho pele de índio? Sangue de negro Miscigenado até a raiz do cabelo O vento Não esvoaça meus cabelos Porque são crespos São curtos A água Passeia pelos meus cabelos Crespos Curtos ...belo (PEREIRA, 2010, p. 59). Vestido de sol Um moço despido dos sonhos Encontrou no cosmos A proteção que o corpo necessitara A epiderme Fixada entre o nervo e a derme Formando a pele Vestida de raios Solares 260 Santuza Amorim da Silva (PEREIRA, 2010, p. 13). O ambiente escolar é um local de interações entre os sujeitos, no qual conceitos e ideologias são formados e, muitas vezes, perpetuados por meio dos diferentes discursos que aí circulam e são veiculados. Se tomarmos esses discursos sob o ponto de vista evidenciado por Foucault (1985, 1989) em sua obra, ou seja, compreendidos como mecanismos sociais de poder, podemos nos atentar para a sua capacidade de consolidar no plano simbólico a exclusão. Ou seja, nesse contexto, o discurso atua no plano imaginário, consolida imagens e alimenta preconceitos e estereótipos. Assim, destacar esses atributos fortes da identidade negra de forma positiva é importante no contexto da educação étnico-racial, tendo em vista que ainda presenciamos no ambiente escolar algumas situações discriminatórias que aparecem em expressões corriqueiras, como “cabelo duro” e “de pichaim”, quando os alunos querem agredir ou xingar um colega de classe. Nesse sentido, em sua obra, Túlio Henrique Pereira tenta desvendar esses discursos, e tudo indica que a exposição a esses mesmos discursos ao longo de sua vida o conduziu a tecer uma obra na qual ele procura “compor o invólucro dos belos tons da minha cor substantivada pelas subjetividades em que incorro, ainda que se trate de uma vontade e, mesmo que seja de poder” (2011, p. 17). Referências BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais - Português. Um Diálogo com o Campo Educacional a Partir das Provocações da Obra de THP 261 Brasília, DF, 1998. FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 5. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985. FOUCAULT, M. Vigiar e punir: a história da violência nas prisões. 7. ed. Petrópolis (RJ): Vozes, 1989. GOMES, N. L. Corpo e cabelo como ícones de construção da beleza e da identidadenegra nos salões étnicos de Belo Horizonte. 2002. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 2002. GOUVÊA, M. C. Imagens do negro na literatura infantil brasileira: análise historiográfica. Educação e Pesquisa, vol. 31, n.1, p.77-89, jan/abr. 2005. INOCÊNCIO, N.O. Corpo negro na cultura visual brasileira. In: UNB. Centro de Educação à Distância. Educação Africanidades Brasil. Brasília: UnB/CEAD, 2006. p.185-192 ROSEMBERG, F. Literatura e ideologia. São Paulo: Global, 1985. SILVA, L. C. A personagem do conto infanto-juvenil brasileiro contemporâneo: uma análise a partir das obras do PNBE/2005. 2008. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária) – Universidade de Brasília (UnB), Brasília – DF, 2002. PEREIRA, Túlio Henrique. O observador do mundo finito. São Paulo: Editora Scortecci, 2010. PEREIRA, Túlio Henrique Pereira. Pele e sensibilidade: Práticas de Memória e Identidades do Negro na Literatura (1909-1940). Dissertação de Mestrado. Orientadora Maria Helena Ochi Flexor; coorientadora Ana Palmira Bittencourt Santos Casimiro. Programa de Pós-Graduação em Memória, Linguagem e Sociedade. Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Vitória da Conquista, 2011. NA TRANSMUTAÇÃO DA LETRA PARA O CORPO POESIA E DANÇA: O MOVIMENTO DAS PALAVRAS E A POESIA DO CORPO EM DUELO E O INVERSO DE UM Antônio Fernandes Júnior (Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão) (Núcleo de Pesquisa em Cultura, Linguagens e Subjetividade - CNPq) Se retomarmos os apontamentos de Octavio Paz (1972) e Paul Valéry (1991) sobre poesia e prosa, encontraremos afirmações que indicam a cada modalidade um movimento diferente. A poesia aproxima-se de uma imagem circular construindo um constante voltar-se sobre si, reiterando ideias, sons e imagens no corpo do poema; a segunda, a prosa, estaria mais direcionada ao movimento de uma flecha, seguindo um andamento linear, sempre em frente1. A partir dessa imagem inicial, podemos afirmar, ainda em termos de associação, que o andar/caminhar está para prosa, assim como a dança está para a poesia. A aproximação entre poesia e dança configura-se como um dos debates sobre o assunto, mostrando a proficuidade desse diálogo. E é sobre esse diálogo que trata o presente texto, cuja tônica recai sobre o espetáculo2 de dança “O inverso de um”, concebido e executado pelas dançarinas Carolina Natal e Graziela Andrade, a partir do poema “Duelo”, de Túlio Henrique Pereira. O espetáculo “O inverso de um” apropria-se de algumas 1 Obviamente, não podemos estabelecer critérios tão rigorosos, uma vez que os gêneros se contaminam, hibridizam-se. De todo modo, essa imagem inicial cumpre uma função apenas introdutória ao tema que iremos propor, qual seja, a aproximação entre o poema e a dança. 2 Cf. A performance da apresentação, no dia 17 de junho de 2011, no teatro da Maison du Brésil, na Cité Universitaire de Paris, pode ser assistida pelo link http://www.youtube.com/watch?v=uLip7mM9LJY. 266 Antônio Fernandes Júnior imagens e/ou conflitos presentes nos poemas “Duelo” e “Duelo” (segunda parte), incorporando o tema da dualidade e inconstância do sujeito, presentes nos versos de Túlio Henrique Pereira, acompanhados da belíssima canção de Rachmaninnoff, em seu primeiro movimento de Piano “Concerto nº 02 in C minor Op. 18”. Estamos diante da junção entre poesia e dança, dança e poesia. São segmentos artísticos que se tocam e que se movimentam, aproximando e distanciando o eu do outro, o eu de si mesmo. O poema “Duelo” é composto de duas partes, intituladas, respectivamente, “Duelo”, a primeira, e “Duelo (segunda parte). São dois poemas curtos, formados por 5 estrofes (a primeira parte) e por 3 estrofes (a segunda parte) de tamanhos diferentes, não obedecendo a um padrão estrófico ou versificatório tradicional. Mas, para além dessas questões, interessa-nos entender outras. De qual(is) duelo(s) os poemas tratam? O que está em jogo? Basta uma primeira leitura para identificarmos que não se trata de luta entre duas ou mais pessoas, ou entre grupos ou rivais. O duelo em questão volta-se para forças que se movimentam, que se opõem ou que se agitam dentro de um único sujeito, de um único corpo. Este, no texto, é representado pela figura de Alice, assim nomeada nos poemas, a quem uma voz poética (narrador? Um alterego?), como que olhando do alto, aponta a sina, indica a realidade bruta a que nossa personagem enfrentará. Essa voz coloca Alice diante do trágico da vida, em que não há final feliz como, de costume, “se encerram os contos de fadas”, conforme lemos no último verso da segunda parte de “Duelo”. Tal afirmação poderia soar como palavra de ordem e concluir que não há saída, não há fuga possível. No entanto, o poema propõe Poesia e Dança 267 uma abertura para acolher o trágico e, ao mesmo tempo, afirma a vida incondicionalmente, independente do que cada sujeito assume para si e para o mundo. Há um sentimento de realidade que irrompe dos versos e faz ver, sem ilusões, pois não há espaço para a utopia. Aliás, esta é questionada e subvertida pelo verso final do poema, quando o eu-lírico afirma não haver final feliz “como se encerram os contos de fadas”. Esse fato coloca o sujeito diante de seus conflitos como algo a ser enfrentado, como um corpo sujeito às forças do mundo, afetado por outros corpos. Estamos diante de um conflito marcado por forças que atingem Alice, arrastando-a para fora de si, entre o sim e o não, entre o ideal e o real, enfim, entre forças que a constituem nesse mundo, cuja vida se vê marcada por embates, dentro de uma sociedade em que o discurso é controlado, selecionado e atravessado por relações de poder que determinam o que pode e o que deve ser dito aqui ou alhures, como nos ensina Michel Foucault (1996). Seguindo essa linha, o poema fala de luta, de alteridade e de conflitos vivenciados por Alice e por cada um de nós, em algum momento e lugar. Vamos aos poemas3: Duelo É evidente que sim Na possibilidade do não À contrapartida esquiva Do pensar na distância Tão dissonante, Alice! 3 Os poemas “Duelo” e “Duelo (segunda parte)”, de Túlio Henrique Pereira, fazem parte de seus escritos pessoais e aparecem em versão impressa pela primeira vez neste artigo. 268 Antônio Fernandes Júnior Tão ébrio... Tão masoquista, Alice! Quantos sabores Na relatividade do ser Na inconstância Assim talvez paire Quanto lirismo Apesar da soberba Tanta alegria, Alice! É evidente que sim Felicidade demais incomoda Tira o sono Faz chorar. Duelo (Segunda Parte) Alice, Alguém vai devorar você e sua negritude A inteligência em seu âmago e a alegria E até beijá-la entre quatro paredes vazias Mas não irá convidá-la pro baile Nem te tirar para dançar E, a menos, que você pague Não se apaixonará por você Como se encerram os contos de fada. É nesse movimento que “a evidência do sim” se vê ameaçada pela “possibilidade do não”, deixando o sujeito do poema, nesse caso representado por Alice, entre forças que podem arrastá-la para fora de si, para outras margens: entre a dissonância e a embriaguez, Poesia e Dança 269 o lirismo e a soberba, ou, pelo excesso de alegria, que “tira o sono e faz chorar”. Assim termina a primeira parte de “Duelo”, anunciada por uma voz, um sujeito, que fala de um lugar de onde pudesse ler/ ver os movimentos de Alice e lhe dizer sobre os seus conflitos. E é essa a posição ocupada por essa voz que fala no poema, alguém com capacidade de percepção suficiente para dar a descrição do conflito vivido, o qual divide Alice. Alice não é só um sujeito individualizado, largado e descolado do mundo. Alice somos todos nós, sós... na multidão de estímulos e desejos conflituosos, capazes de nos lançar para “longe de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas”, como diria Álvaro de Campos/Fernando Pessoa (1997, p. 342). O “eu” não é apenas um “eu”, mas o “eu” e o(s) outro(s), a alteridade de mim, o sim e o não, a embriaguez e o sono... o choro. A segunda parte do poema é mais direta e brutal. Nesse momento, Alice figura isolada no primeiro verso (e no mundo?), parece estar não em conflito interior, como na primeira parte. Agora ela enfrentará o mundo, e nele, não há espaço para paixões, “como se encerram os contos de fadas”, a não ser que seja pago! Nesse momento do “duelo”, encontramos Alice sendo observada e discursivizada por um sujeito, um alguém que não aparece no texto, a não ser para confrontar Alice com o mundo onde vive e com o qual terá de lutar. Nessa nova etapa de/do duelo, o mundo se apresenta hostil, indefinido. Resta a Alice enfrentá-lo, ou melhor, comprá-lo e, por tabela, vender-se. Mas, existe alguém à espreita, querendo “devorar a negritude” e “até beijá-la” no vazio. Esse é o duelo que habita o corpo de Alice! Um duelo de forças que provocam inquietude, angústia e indefinições diante de 270 Antônio Fernandes Júnior si e do mundo. É esse o “duelo” no poema, e é esse o movimento explorado pelas bailarinas ao longo do espetáculo de dança, inspirado pelos versos de Túlio Henrique Pereira e embalados pela música de Rachmaninnoff. A canção de Rachmaninnoff apresenta estágios de calmaria e de tensões, ditando um ritmo que impõe ao corpo das bailarinas movimentos mais calmos ou mais frenéticos, em que o enfrentamento de forças das quais falávamos anteriormente, intensificam os movimentos da dança. Esse espaço de tensão reitera “o duelo” vivenciado por Alice consigo mesma no poema. Se antes tivemos oportunidade de citar o jogo de forças vivenciado por nossa personagem nos versos do poeta, agora podemos vislumbrá-lo no espetáculo, quando nos deparamos com duas bailarinas, representando duas Alices, duas forças diferentes, duas faces de uma mesma pessoa. Trata-se de Alice e seu duplo, seus conflitos e enfrentamentos que, ela talvez vislumbre, mas não tem clareza. Por esse motivo, a opção pelo móvel utilizado em meio ao palco durante todo o espetáculo. Esse móvel retangular, parecido com um armário, apoiado sob rodas, permite que seja empurrado e girado pelas bailarinas de um lado para outro, como forças que se enfrentam, se enroscam e se dissipam. Fosse um espelho, Alice poderia se ver, mas a madeira que o compõe não oferece essa opção. O sujeito não vê o outro de si, o seu duplo eu. As forças podem ser sentidas, vivenciadas, mas não estão visíveis ao sujeito. O móvel diante e entre as duas bailarias representa o ponto de conflito vivido por Alice, um lugar simbólico, escuro como o inconsciente, obscuro como o desejo. Entre a leveza e a brutalidade de movimentos, as bailarinas buscam compor esse cenário de Poesia e Dança 271 inquietude e obscuridade, ora empurrando o móvel para fora, longe, ou para perto de si, ou nele se apoiando como suporte para não cair no vazio. Para finalizar, transcrevo um trecho da sinopse do espetáculo, produzido pelas bailarinas, que sintetiza um pouco do foi exposto acima: A investigação prática concentrou-se em como encontrar a representação deste estado corporal fugidio, instável e conflituoso que pudesse refletir não um indivíduo outro, mas sim, uma outra Alice, uma outra representação do seu próprio estado corporal. As duas bailarinas representaram, portanto, o inverso de um, de Alice, que diante da própria desordem íntima não fora capaz de enxergar-se a si mesma, nem seus múltiplos. Para fortalecer esta ideia do desencontro de si, um novo espaço fora criado entre as duas bailarinas, um espaço móvel, retangular, que se deslocava à medida que o corpo se apoiava sobre este, forçando a mobilidade e provocando o movimento de seu inverso. Um espaço que não permitia transparência, portanto, só o público enxergava as duas Alices. Ela mesma só enxergava o que não era ela, o espaço móvel. Tal espaço intermediário fora transformado, diante da apropriação da dança em outro corpo, um espaço-corpo, que ao dançar com a Alice e seu inverso, facilitou a revelação e o encontro de seu próprio duelo. (NATAL, 2012) Ao longo do espetáculo, as bailarinas exploram o conflito e as angústias materializadas no poema. O duelo entre o eu e o outro, do eu consigo mesmo, no caso, de Alice e seus conflitos. O espetáculo, 272 Antônio Fernandes Júnior embalado pela canção de Rachmaninnoff, realiza-se em um gesto de leitura do poema por meio dos movimentos do corpo na dança. Assim, os sentidos se movem do texto ao palco e do palco ao texto, uma vez que o diálogo entre dança e poesia promove o encontro do leitor/espectador com o texto e do leitor/espectador com a dança, traçando um ponto de encontro do entre o que se vê no texto e o que vê no espetáculo. Referências FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. Aula inaugural no College de France, pronunciada em 2 de Dezembro de 1970. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 1996. NATAL, Carolina. Re: espetáculo. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por Antônio Fernandes Júnior em 14/05/2012. PAZ, Octavio. Signos em rotação. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1972. PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1997. VALÉRY, Paul. Poesia e pensamento abstrato. In: VALÉRY, Paul. Variedades. São Paulo: Iluminuras, 1991. CADERNO DE ESTUDOS DO DISCURSO E DO CORPO DIRETRIZES PARA AUTORES Normas para publicação Os textos encaminhados para serem publicados deverão ser submetidos à aprovação de membros do Conselho Editorial Interno e Externo da Revista. Os pareceres serão encaminhados ao(s) autor(res) para ciência sobre seu teor e reformulação, se for o caso. São as seguintes seções que compõem esse periódico: • Artigos: relatos de pesquisas concluídas, síntese de pesquisa original; • Debates: matéria de caráter opinativo, sobre temas polêmicos; • Ensaios: revisão teórica, revisão crítica de bibliografia temática ou obra específica; • Entrevistas: realizadas com pesquisadores, teóricos e personalidades que possam contribuir para discussões sobre temas educacionais relevantes; • Resenhas: de obras relacionadas à área educacional nacional ou estrangeira. Orientações para colaborações As matérias devem ser enviadas online conforme as instruções de envio, seguindo os cinco passos para Submissões. A extensão do texto deve ser de 10-20 páginas ou 48.000 caracteres com espaço, fonte Arial, corpo 12, espaço simples. O recuo para o início de cada parágrafo deverá ser de 2,5 cm da margem. 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Ao final dos resumos devem ser indicadas, no máximo, quatro palavraschave (descritores) do conteúdo do texto respectivamente na língua adotada para apresentação do artigo, em português, português, inglês, francês ou espanhol. O título do artigo deve estar traduzido em consonância com a língua estrangeira do resumo e deve figurar acima do resumo, sem espaço. Os títulos devem conter, no máximo, 15 palavras, incluindo artigos, preposições, conjunções etc., e subtítulos devem ser concisos, virem claramente indicados e devem ser apresentados respectivamente na língua adotada para apresentação do artigo, em português e em inglês. Citações Para as citações seguir as Normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT(NBR10520/2002). As citações literais curtas devem ser integradas ao texto, entre aspas, seguidas de parênteses com sobrenome do autor e ano da publicação. 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Referências Bibliográficas As referências bibliográficas devem se ater as obras e autores citados no texto e devem ser apresentadas em ordem alfabética, segundo as normas NBR 6023/2002 da ABNT, ao final do trabalho. É de responsabilidade do(s) autor(es) a correta e exata citação no texto e a correspondente informação na lista de referências ao final do mesmo. Seguir os exemplos abaixo. a) Livro de um só autor: SOBRENOME, Nome. Título em negrito. Edição. Local de edição: Editora, ano de edição, número de páginas. b) Livro de dois autores: SOBRENOME, Nome; SOBRENOME, Nome. Idem ao primeiro exemplo. c) Livro de três autores: SOBRENOME, Nome; SOBRENOME, Nome; SOBRENOME, Nome. Idem ao primeiro exemplo. d) Livro de mais de três autores: SOBRENOME, Nome et al. Idem ao primeiro exemplo. e) Capítulo/Artigo em livro: SOBRENOME, Nome. Título do artigo. In: SOBRENOME, Nome (Ed./Org.). Título do livro em negrito. Idem ao primeiro exemplo. f) Artigos em Revistas: SOBRENOME, Nome. Título do artigo sem aspas ou itálico. Nome da Revista em negrito, local, volume, número, página(s), data (mês e ano). g) Dissertações e Teses: SOBRENOME, Nome. Título da dissertação ou tese em negrito. Ano. Número de páginas. Dissertação/Tese (Mestrado/Doutorado em xxx [área]) – Nome da Instituição (Faculdade, Universidade), local. h) Artigos em jornais: SOBRENOME, Nome. Título do artigo sem aspas ou itálico. Nome do jornal em negrito. Local, data, Caderno/ Seção, página(s). i) Publicação em meio eletrônico: SOBRENOME, Nome. Título da matéria ou artigo. Título da publicação (site, revista), local, número, data (mês e ano). Disponível em: (endereço eletrônico). Acesso em: (data). Para outras referências consultar a Norma ABNT NBR 6023/2002. Itens de Verificação para Submissão Como parte do processo de submissão, os autores são obrigados a verificar a conformidade da submissão em relação a todos os itens listados a seguir. As submissões que não estiverem de acordo com as normas serão devolvidas aos autores. 1. A contribuição é original e inédita, e não está sendo avaliada para publicação por outra revista; caso contrário, deve-se justificar em “Comentários ao Editor”. 2. Os arquivos para submissão estão em formato Microsoft Word, OpenOffice ou RTF (desde que não ultrapassem 2MB) 3. URLs para as referências foram informadas quando necessário. 4. O texto está em espaço simples; usa a fonte Arial de 12-pontos; emprega itálico em vez de sublinhado (exceto em endereços URL); as figuras e tabelas estão inseridas no texto, não no final do documento, como anexos. 5. O texto segue os padrões de estilo e requisitos bibliográficos descritos em Diretrizes para autores, na seção Sobre a Revista. 6. A identificação de autoria do trabalho foi removida do arquivo e da opção Propriedades no Word, garantindo desta forma o critério de sigilo da revista, caso submetido para avaliação por pares (ex.: artigos).