PIONEIRO
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| 14 e 15 |
TERÇA-FEIRA, 27 DE JANEIRO DE 2009
TERÇA-FEIRA, 27 DE JANEIRO DE 2009
ESPECIAL
BOLSA-FAMÍLIA
OBESAS CHEGAM A 61,2%
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sempre afirmou que a fome, não a obesidade, é o maior problema
social do país, o que o levou a criar, em 2003, o Bolsa-Família, um braço do programa Fome Zero. Entretanto,
o problema de excesso de peso é maior do que o de desnutridos entre as famílias de baixa renda. Em Caxias,
61,2% das mulheres e 8,1% das crianças beneficiadas pelo Bolsa-Família estão acima do peso ideal. Uma
recente pesquisa no país descobriu que os pobres estão comendo mais doces e massas engordativas.
NÁDIA DE TONI
Uma das teorias para entender a
obesidade entre os pobres é a preCaxias do Sul – O número de ferência quase unânime, segundo
gordos é bem maior do que o de pesquisas, por doces e pratos pesadesnutridos entre os caxienses be- dos. Alimentos altamente calóricos
neficiados pelo Bolsa-Família, pro- em geral são mais baratos, saborograma de repasse de recursos criado sos e oferecem maior saciedade. Um
pelo governo federal para assegurar exemplo é o célebre pastel e refrigecomida no prato dos pobres. Parece rante, refeição rápida e barata que
uma incoerência, mas 61,2% das gera satisfação imediata, mas é uma
mulheres no município sofrem com nutrição de má qualidade, rica em
excesso de peso, enquanto 2,75% gorduras e açúcares.
– Frutas e vegetais por vezes são
delas estão magras demais. Na idade
adulta, elas são as maiores vítimas mais caros e pouco acessíveis. Entreda gordura, problema que começa tanto, em Caxias há boas ofertas. A
na infância: 8,1% dos meninos e me- opção por alimentos mais calóricos
se explica mais pelo sabor e por desninas têm tendência à obesidade.
A explicação para essa realidade, conhecimento ou falta de interesse
que se repete em muitas outras ci- para adotar uma dieta balanceada
dades brasileiras, é simples: o Bolsa- – acredita a nutricionista Clarice
Família dá dinheiro, mas não ensina Reinhardt Martins, responsável téca comer. Um recente levantamento nica pelo Bolsa-Família em Caxias.
Segundo especialistas, a obesidarealizado em todo o país revelou que
os beneficiados gastam 87% do que de é resultado de três fatores: alimentação de má
recebem com aliqualidade, sedenmentação. Graças
Problema com
tarismo e herança
à verba, quantidaexcesso de peso
genética. A falta de
des crescentes de
açúcares (sorvetes,
inicia na infância, dinheiro para frequentar academias
chocolates e refriquando 8,1%
e a deficiência de
gerantes), massas,
têm tendência a
espaços públicos
biscoitos e óleos
engordar
para prática de atiestão sendo incorvidades físicas em
poradas à dieta. O
comunidades poconsumo de frutas
e vegetais é o que menos cresceu. bres são elencadas por Leonor, que
Nos últimos anos, 63% das famí- é pesquisadora da Universidade de
lias apoiadas pelo programa estão Brasília (UnB), como fatores que cocomprando mais alimentos “que as laboram para uma vida sedentária.
– A prevenção da obesidade se
crianças gostam” (como doces e refrigerantes) e 74% estão comendo obtém pela reeducação alimentar
mais, segundo uma pesquisa do Ins- acompanhada de mudanças no
tituto Brasileiro de Análises Sociais estilo de vida. Não é uma questão
e Econômicas (Ibase). Hoje, 41% da simples. É necessário que os órgãos
população brasileira está acima do públicos invistam na prevenção de
peso ideal. Os pobres são o grupo novos casos – conclui Leonor.
Quanto ao aspecto da susceptibiliem que se verifica maior incidência
dade genética, sabe-se que os filhos
de obesidade.
– Convivemos com dois mundos: têm 85% de chances de serem gorresquícios de população desnutrida dos se os pais o forem. Mas as chanque morre de diarreia e a maioria, ces diminuem se adotados hábitos
que morre de doenças cardiovas- saudáveis. Na relação entre pobreculares, decorrentes do excesso de za e obesidade, especialistas ainda
peso – analisa Leonor Maria Pache- discutem hipóteses como a de que
co Santos, coordenadora-geral de desnutrição na infância geraria uma
Avaliação e Monitoramento do Mi- disfunção que facilitaria o ganho exnistério do Desenvolvimento Social cessivo de peso no futuro, no caso de
e Combate à Fome, órgão responsá- melhora nas condições de vida.
vel pelo Bolsa-Família.
[email protected]
DANIELA XU
PARADOXO
BENEFICIÁRIOS
■ 5.833 famílias caxienses são beneficiadas
pelo programa Bolsa-Família, sendo que
o repasse médio é de R$ 60 a R$ 85 por
mês, dependendo da renda e do número de
filhos.
■ 10,6 milhões de famílias em todo o país,
com renda de até R$ 120 mensais por
pessoa, recebem o benefício.
EXCESSO DE PESO EM CAXIAS
■ 61,2% das mulheres adultas (com idades
entre 20 a 59 anos) inclusas no programa
apresentam excesso de peso, sendo que
33,9% são obesas. Apenas 2,75% das
mulheres estão abaixo do peso ideal.
■ 22,3% das mulheres adolescentes
(com idades entre 10 e 19 anos) estão
acima do peso ideal, enquanto só 3% das
adolescentes estão abaixo do peso.
■ 8,1% dos meninos e meninas (com
idades entre zero e nove anos) apresentam
risco de obesidade e somente 1,43%
crianças possuem problema de baixo peso.
Obs: apenas crianças e mulheres em
idade fértil têm sua condição nutricional
monitorada nas Unidades Básicas de
Saúde (UBS’S)
ALIMENTAÇÃO
■ As famílias brasileiras beneficiadas com
o Bolsa-Família gastam, em média, R$ 200
mensais com alimentação, o que representa
56% da renda familiar total.
Obesidade atinge mãe e filha
Um olhar mais atento à periferia
de Caxias do Sul comprova o que
revelam os números do cadastro
do Bolsa-Família: as mulheres são
as mais atingidas pela obesidade.
A adoção de dietas pesadas, ricas em carboidratos e doces, e o sedentarismo, estão entre os motivos
para essa epidemia preocupante
em todo o país.
Moradoras de uma área irregular
no bairro Salgado Filho, a dona de
casa Cláudia Damaris de Azevedo
Inácio (à direita, na foto), 39 anos,
e a filha Pamela Rochele Inácio, 17,
exemplificam bem esse problema
de saúde. Cláudia mede 1,52 metro
e pesa 136 quilos. Pamela tem 1,55
metro de altura e 99 quilos. Ambas
possuem o Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 40, o que indica
obesidade grave.
– Não tomo café-da-manhã. Almoço todo dia arroz, feijão, massa
e salada. Dois pratos está bom. À
noite, repito o cardápio. Não consigo seguir outra dieta – conta Cláudia.
A filha está seguindo o caminho
da obesidade de Cláudia.
– Tenho muita fome. Adoro doces e refrigerante. Sempre que
podem, meus pais compram – comenta Pamela.
Mãe e filha, beneficiárias do Bolsa-Família há três anos, se dizem
preocupadas com o peso, mas argumentam que não têm condições
financeiras de diversificar o cardápio nem de frequentar academia.
No caso de Cláudia, que se locomove com muita dificuldade devido ao excesso de peso, o caminho
para uma vida saudável está na
cirurgia de redução de estômago.
Afastada do trabalho há mais de
um ano, ela está na fila do Sistema
Único de Saúde (SUS), mas a espera deve ser longa.
– Me sinto muito mal porque
quase não consigo sair de casa, não
encontro roupas para vestir. Nem
na catraca no ônibus passo. Mas
não consigo ficar sem comer – diz,
enxugando uma lágrima.
A família sobrevive com os R$
62 do Bolsa-Família, dos biscates
do marido de Cláudia e de doações
de alimentos de entidades assistenciais de Caxias.
CALCULE SEU IMC
■ 41% da população brasileira, e 48%
dos gaúchos, estão acima do peso ideal.
■ 3% dos brasileiros, cerca de 3,7
milhões de pessoas, sofrem de
obesidade mórbida, ou seja, estão com
45 quilos ou mais de excesso de peso.
■ A obesidade mórbida aumentou 255%
nos últimos 30 anos no país.
■ O consumo de refrigerantes no país
cresceu 400% em 30 anos.
Para saber se você está acima do peso ideal
basta calcular seu Índice de Massa Corporal
(IMC). Divida o seu peso (em quilos ) pela
altura ao quadrado (em metro):
■ 18.5: abaixo do peso
■ 30 a 34.9: obeso leve
■ 18.6 a 24.9: normal
■ 40: obeso grave
■ 25 a 29.9: pré-obeso
■ 35 a 39.9: obeso moderado
fonte: Organização Mundial da Saúde
MAIS
■ O Bolsa-Família foi criado em 2003 e
integra o Fome Zero, estratégia do governo
federal que visa assegurar o direito a todos
uma alimentação adequada.
!
NÚMEROS
■ Graças ao programa federal, os pobres
aumentaram o consumo de: açúcares, como
chocolates e sorvetes, em 78%; arroz e
cereais, 76%; leite, 68%; biscoitos, 63%;
carnes, 61%; feijões, 59%; óleos, 55%;
frutas, 55%; ovos, 46% e vegetais, 40%.
■ A dieta os beneficiários do Bolsa Família
tem mais alimentos de alta densidade
calórica e menor valor nutritivo. Esse
comportamento contribui para o aumento
da prevalência de excesso de peso, como
também de doenças associadas, o caso do
diabetes.
■ Na região Sul, o consumo de verduras
e legumes foi o que menos se modificou
quando comparado aos demais grupos de
alimentos.
fonte: IBGE, pesquisa Repercussões do Programa BolsaFamília na Segurança Alimentar e Nutricional, do Instituto
Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), dissertação de mestrado de Isabella Vasconcellos de Oliveira,
na Universidade de Brasília (UnB).
RONI RIGON
MAIS
Gordura
UBS
Uma pessoa
nunca perde
as células de
gordura que
ganhou ao
engordar. Quando
emagrece,
essas células
murcham, mas
permanecem no
organismo. Se,
após conquistar
o peso ideal, a
pessoa não der
continuidade
a uma dieta
saudável, essas
células vão
novamente inchar
e se multiplicar.
Por isso é tão
difícil emagrecer
e manter o peso.
Em Caxias,
crianças e
mulheres em
idade fértil
beneficiadas pelo
Bolsa-Família têm
sua condição
nutricional
avaliada
periódicamente
nas Unidades
Básicas de Saúde
(UBS). O mesmo
tratamento é
dispensado a
diabéticos e
hipertensos. Os
homens adultos
não têm igual
acompanhamento.
12 quilos a mais
em quatro meses
Desde que se afastou no trabalho em uma reciclagem, devido a
uma fratura no braço, a caxiense
Adriana de Lima Prado, 30 anos,
passa o dia beliscando alimentos.
Resultado: engordou 12 quilos nos
últimos quatro meses.
– Toda vez que preparo um lanche para meus filhos, faço um para
mim também. Sinto muita fome
– afirma a mãe de três meninos de
14, 12 e 2 anos.
Beneficiária do Bolsa-Família há
quatro anos, Adriana sofre com sobrepeso desde que se tornou mãe.
Ela sabe que suas preferências ali-
mentares são um perigo. Mas ainda
não mudou hábitos, perfil comum
à uma parcela dos beneficiados
pelo programa que estão acima do
peso ideal.
– Sou louca por massa e gordura. No café-da-manhã adoro comer
pão com banha. Doce eu como menos, mais é refrigerante – conta a
moradora do Fátima Alto.
Adriana está pesando em torno
de 78 quilos e mede 1,65 metro. O
dinheiro ganho do governo federal,
R$ 60, é destinado à alimentação.
Ela dá prioridade para comprar
leite, arroz, feijão e massas.
COMA BEM SEM GASTAR MUITO
A nutricionista Luciana Piccolo, especializada em clínica funcional, dá
dicas para obter uma alimentação saudável sem estourar o orçamento:
■ Aposte em substituições. Exemplo:
refrigerantes, que são muito calóricos
e têm poucos nutrientes, podem ser
substituídos por sucos naturais de
frutas. Um limão faz um litro de suco e
é rico em vitamina C e antioxidantes.
Cascas de abacaxi e lima podem ser
aproveitadas para sucos.
■ Em vez de consumir carboidratos
simples, prefira os integrais, boas
fontes de fibras, que aumentam a
sensação de saciedade.
■ Reduza a quantidade de gordura na
alimentação. Em uma casa de quatro
pessoas, uma lata de azeite deve
durar um mês.
■ Evite desperdícios. Refogue os talos
de vegetais, em vez de colocá-los no
lixo.
■ Beba bastante água.
■ Pratique exercícios físicos, como
caminhadas.
PIONEIRO
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Blog
Mais informações
sobre obesidade
e emagrecimento
podem ser
acessadas no
blog Missão de
Peso. Desde 15
de dezembro
de 2008, o blog
acompanha
trajetória de
Marcus Vinícius
Lafourcade
Rodrigues,
submetido a
uma cirurgia
de redução de
estômago.
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