MESTRADO EM ORGANIZAÇÕES E DESENVOLVIMENTO DANIELA RIBEIRO COUTINHO O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO ESTADO DO PARANÁ: ABRANGÊNCIA, EFEITOS E PROBLEMATIZAÇÕES DISSERTAÇÃO DE MESTRADO CURITIBA 2012 DANIELA RIBEIRO COUTINHO O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO ESTADO DO PARANÁ: ABRANGÊNCIA, EFEITOS E PROBLEMATIZAÇÕES Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre, do Programa de Mestrado Acadêmico em Organizações e Desenvolvimento, FAE Centro Universitário. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Liana Maria da Frota Carleial CURITIBA SETEMBRO 2012 TERMO DE APROVAÇÃO Agradecimentos Primeiramente a DEUS, pelas oportunidades e pelo privilégio a mim concedidos ao compartilhar tamanha experiência, frequentar este curso de mestrado, perceber e atentar para a relevância de temas que não faziam parte em profundidade de minha vida, e que hoje se tornaram tão relevantes na construção e desconstrução de conhecimentos. À minha Orientadora Dra. Liana Maria da Frota Carleial, pelos conhecimentos, incentivos, simpatia e paciência no auxílio às atividades e discussões sobre o desenvolvimento desta dissertação de conclusão de curso de mestrado. “Professora, sou privilegiada em tê-la como minha orientadora, isto é um presente de Deus. Sou eternamente grata por ter vivido momentos tão especiais dentro da academia”. Aos professores da banca, pelo profissionalismo, disposição e contribuições essenciais ao trabalho. Aos colegas de classe pela espontaneidade e alegria na troca de informações, numa rara demonstração de amizade e solidariedade durante o curso de mestrado. Aos meus amados pais, Luiz Ribeiro Coutinho e Maria do Carmo Gualberto Coutinho por toda dedicação e carinho... E, com muito carinho agradeço a uma pessoa fundamental no meu crescimento como ser humano e como acadêmica: João Heleno da Silva, foi contigo que aprendi que disciplina, companheirismo e determinação caminham na mesma direção. Você é minha referência de vida. À minha família húngara, especialmente Dra. Krisztina Frankó e Dr. Gergely Frankó, economistas sonhadores como eu, agradeço pelo companheirismo e amor a mim dedicados. Às queridas amigas, também profissionais brilhantes: Valdineia Ribeiro de Oliveira Matsuzawa, Darine Stela Garanhani e Camila Cardoso Morimoto. Não importa a distância geográfica, vocês estão presentes no meu coração, e amizade sincera como a nossa é para vida inteira! Às queridas Mônica Isabel Gonçalves e Mariana Fressato, pelo profissionalismo e pela gentileza em atender meus pedidos durante todo período do curso. E finalmente, dedico às minhas amigas que vivem na Suíça, Valérie, Sandra, Maddalena e Maralise: foi muito prazeroso estudar francês em Montreux. Esta viagem foi para mim um conto de fadas, em algum lugar bem próximo aos Alpes Suíços eu me encontrei! “Nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz, se a grande maioria de seus membros forem pobres e miseráveis”. (Adam Smith, A riqueza das nações, 1776). RESUMO COUTINHO, Daniela Ribeiro. O programa bolsa família no estado do Paraná: abrangência, efeitos e problematizações. 138p. Dissertação (Mestrado em Organizações e Desenvolvimento) - FAE Centro Universitário. Curitiba, 2012. O objetivo geral desta dissertação é analisar o Programa Bolsa Família destacando sua abrangência, distribuição territorial dos beneficiados e problematizar a sua relação com a pobreza e a desigualdade social no Estado do Paraná. O Estado possui excelentes indicadores socioeconômicos, entretanto, convive com altas taxas de pobreza, especialmente em determinadas mesorregiões geográficas. Para alcançar este objetivo, é realizada uma breve análise de Estado e políticas públicas. Destas, as transferências de renda condicionada parecem ser o principal mecanismo para enfrentamento do problema, tanto na América Latina quanto no Brasil, sendo que o Programa Bolsa Família é o principal programa de distribuição de renda condicionada no País. Pretende-se responder se o Programa Bolsa Família, que atende mais de 430.000 famílias no Estado do Paraná foi efetivo, desde a sua implantação, na redução da pobreza e na garantia de acesso a alguns direitos sociais, que fazem parte das condicionalidades do programa (saúde e educação), além de avaliar o padrão de emprego e renda no Estado. Finalmente, busca-se apontar as principais problematizações do Programa Bolsa Família no Estado, uma vez que a pobreza vem regredindo, mas ainda é persistente. Palavras-chave: Estado, Políticas sociais, Programas de Transferência de Renda Condicionada, Programa Bolsa Família, Estado do Paraná, pobreza, direitos sociais. ABSTRACT COUTINHO, Daniela Ribeiro. O programa bolsa família no estado do Paraná: abrangência, efeitos e problematizações. 138p. Dissertação (Mestrado em Organizações e Desenvolvimento) - FAE Centro Universitário. Curitiba, 2012. The goal of this dissertation is to analyze the Bolsa Família Program highlighting its scope, territorial distribution of winners and discuss its relationship with poverty and social inequality in the state of Parana. The state has great socio-economic indicators, however, coexists with high poverty rates, especially in certain geographic meso. To achieve this goal, we provide a brief analysis of state and public policy. Of these, the conditional cash transfers seem to be the main mechanism for tackling the problem, both in Latin America and Brazil, and the Family Grant Program is the flagship program of conditional cash distribution in the country is intended to respond to the Program Bolsa Familia, which serves more than 430,000 families in the State of Parana has been effective since its implementation, reducing poverty and ensuring access to some social rights, which are part of the conditionalities of the program (health and education), and evaluate the pattern of employment and income in the state. Finally, we seek to point out the main problematization of the Family Grant Program in the State, since poverty is regressing, but is still persistent. Keywords: State, social policies, programs Conditional Cash Transfers, Bolsa Família Program, State of Parana, poverty, social rights. LISTA DE QUADROS QUADRO 1 - ESTIMATIVA DE FAMÍLIAS ATENDIDAS PELO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA EM ABRIL/2012 ..................................................................................................................................... 58 QUADRO 2 - SÍNTESE DOS PROGRAMAS SOCIAIS NO ESTADO DO PARANÁ – MAIO DE 2012. ................ 92 LISTA DE TABELAS TABELA 1 - RESULTADO FISCAL DO GOVERNO FEDERAL – ACIMA DA LINHA (% DO PIB) .......................... 40 TABELA 2 - POSIÇÃO E FATURAMENTO DAS COOPERATIVAS PARANAENSES CITADAS ENTRE AS 400 MAIORES EMPRESAS DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO – 2008 - 2009. .......................... 69 TABELA 3 - PRINCIPAIS PRODUTOS AGRÍCOLAS NO PARANÁ – 2010............................................................ 70 TABELA 4 - PRODUTO INTERNO BRUTO DO PARANÁ NO PERÍODO DE 2002 A 2010 E ESTIMATIVA PARA 2011 ..................................................................................................................... 71 TABELA 5 - AS MAIORES ECONOMIAS NO PARANÁ EM 2009........................................................................... 71 TABELA 6 - NÚMERO E PERCENTUAL DE PESSOAS DA REGIÃO METROPOLITANA DE LONDRINA QUE RECEBE ATÉ 02 SALÁRIOS MÍNIMOS MENSAIS REFERENTES AO ANO 2000 ...................................................................................................................................................... 74 TABELA 7 - POPULAÇÃO TOTAL, URBANA E RURAL DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA – 2010 ............................................................................................ 79 TABELA 8 - SÍNTESE DOS PROGRAMAS SOCIAIS NO PARANÁ EM ABRIL DE 2012...................................... 84 TABELA 9 - NÚMERO E DISTRIBUIÇÃO DE FAMÍLIAS, DE FAMÍLIAS POBRES E TAXA DE POBREZA, SEGUNDO MESORREGIÃO – PARANÁ, 2000 ................................................................ 86 TABELA 10 - NÚMERO DE DISTRIBUIÇÃO DO TOTAL DE FAMÍLIAS, DE FAMÍLIAS POBRES E TAXA DE POBREZA, SEGUNDO AGLOMERAÇÕES URBANAS – PARANÁ – 2000. ..................... 87 TABELA 11 - NÚMERO DE FAMÍLIAS RURAIS POR FAIXA DE RENDIMENTOS – PARANÁ- 2001- 2009 .......... 94 TABELA 12 - MÉDIA MUNICIPAL DOS ÍNDICES DO IPDM - PARANÁ - 2002/2009 ............................................ 102 TABELA 13 - TAXAS DE ATENDIMENTO ESCOLAR, DE ESCOLARIZAÇÃO BRUTA E LÍQUIDA PARANÁ – 2001-2009...................................................................................................................... 104 TABELA 14 - ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO BÁSICA – 2005-2009 ..................................... 105 TABELA 15 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA EDUCAÇÃO DE ALGUNS MUNICÍPIOS PARANAENSES EM 2002, 2005, 2007, 2008 E 2009 ..................................................................... 108 TABELA 16 - COBERTURA DA REDE DE ATENÇÃO BÁSICA EM SAÚDE PROPOSTA PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE E EFETIVADA PELOS MUNICÍPIOS DO PARANÁ – AGOSTO DE 2007 ....................................................................................................... 109 TABELA 17 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA SAÚDE DE ALGUNS MUNICÍPIOS PARANAENSES EM 2002, 2005, 2007, 2008 E 2009. .................................................................... 112 TABELA 18 - SALDO DE EMPREGO FORMAL, SEGUNDO ATIVIDADES ECONÔMICAS – PARANÁ - JANEIRO A DEZEMBRO DE 2011 ................................................................................ 114 TABELA 19 - TAXA DE DESOCUPAÇÃO, SEGUNDO REGIÕES METROPOLITANAS – 2011 ........................... 115 TABELA 20 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA RENDA DE ALGUNS MUNICÍPIOS PARANAENSES EM 2002, 2005, 2007, 2008 E 2009. .................................................................... 117 TABELA 21 - DISTRIBUIÇÃO DO PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) E POSIÇÃO NO RANKING BRASILEIRO, SEGUNDO MUNICÍPIOS SELECIONADOS - PARANÁ – 2009 ............. 119 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 - OBJETIVOS, TIPO DE AÇÃO, CONTINGÊNCIAS, RISCOS E NECESSIDADES DA POLÍTICA SOCIAL NO BRASIL – 2010 ................................................................................................ 36 FIGURA 2 - OBJETIVOS E POLÍTICAS SETORIAIS E TRANSVERSAIS DA POLÍTICA SOCIAL BRASILEIRA – 2010 ............................................................................................................................. 37 FIGURA 3 - AUMENTO DO BENEFÍCIO MÉDIO DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO PERÍODO 2010-2012 ........................................................................................................................................... 122 LISTA DE MAPAS MAPA 1 - FAMÍLIAS BENEFICIADAS PELO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO BRASIL EM 2004 E EM 2011................................................................................................................................................... 58 MAPA 2 - LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA DO ESTADO DO PARANÁ.................................................................... 63 MAPA 3 - MESORREGIÕES GEOGRÁFICAS NO ESTADO DO PARANÁ - 2010 .................................................. 72 MAPA 4 - REGIÃO METROPOLITANA DE LONDRINA ........................................................................................... 73 MAPA 5 - REGIÃO METROPOLITANA DE MARINGÁ ............................................................................................ 75 MAPA 6 - REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA ............................................................................................ 79 MAPA 7 - LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA DE FOZ DO IGUAÇU ............................................................................ 82 MAPA 8 - FAMÍLIAS POBRES, SEGUNDO MESORREGIÕES NO PARANÁ – 2000. ............................................ 87 MAPA 9 - DISTRIBUIÇÃO DAS FAMÍLIAS POBRES NO PARANÁ – 2000 ............................................................. 88 MAPA 10 - ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO NO ESTADO DO PARANÁ - ANO 2000. ....................... 88 MAPA 11 - FAMÍLIAS BENEFICIADAS PELO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO ESTADO DO PARANÁ EM EM 2004 E EM 2011 ............................................................................................................................. 92 MAPA 12 - MESORREGIÃO CENTRO-SUL DO ESTADO DO PARANÁ ................................................................ 99 MAPA 13 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA DA EDUCAÇÃO, DOS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARANÁ EM 2002 .............................................................................................................................. 107 MAPA 14 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA DA EDUCAÇÃO, DOS MUNICÍPIOS ESTADO DO PARANÁ EM 2009 .............................................................................................................................. 107 MAPA 15 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA DA SAÚDE, DOS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARANÁ 2002 .................................................................................................................................... 111 MAPA 16 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA DA SAÚDE, DOS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARANÁ 2009 .................................................................................................................................... 111 MAPA 17 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA RENDA, DOS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARANÁ EM 2002 .............................................................................................................................................. 115 MAPA 18 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA RENDA, DOS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARANÁ EM 2009 .............................................................................................................................. 116 LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO 1 - DESPESAS PÚBLICAS (% DO PIB COM BASE EM 12 MESES) ..................................................... 39 GRÁFICO 2 - COEFICIENTE DE GINI NO BRASIL ENTRE 1960 E 2012............................................................... 41 GRÁFICO 3 - PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL DAS FAMÍLIAS “RURAIS” NO TOTAL DE FAMÍLIAS, SEGUNDO CLASSES DE RENDA FAMILIAR MENSAL PER CAPITA – PARANÁ - 2000 ............... 89 GRÁFICO 4 - ÍNDICE IPARDES DE DESEMPENHO MUNICIPAL – DIMENSÃO EDUCAÇÃO – 2008/2009 ..................................................................................................................................... 106 GRÁFICO 5 - ÍNDICE IPARDES DE DESEMPENHO MUNICIPAL – DIMENSÃO SAÚDE 2008/2009.................. 110 GRÁFICO 6 - DISTRIBUIÇÃO DOS OCUPADOS SEGUNDO CLASSES DE RENDIMENTO MENSAL NO TRABALHO PRINCIPAL – PARANÁ 2002/2008 ....................................................................... 114 GRÁFICO 7 - ÍNDICE IPARDES DE DESEMPENHO MUNICIPAL – DIMENSÃO RENDA – 2008/2009 .............. 117 GRÁFICO 8 - FAMÍLIAS EXTREMAMENTE POBRES INCLUÍDAS NO CADASTRO ÚNICO PELO PLANO BRASIL SEM MISÉRIA, NO PERÍODO DE JUNHO DE 2011 A MARÇO DE 2012 ......................... 121 GRÁFICO 9 - EXPANSÃO DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA, EM R$ BILHÕES E % DO PIB, DE 2003 A 2012 ................................................................................................................................................. 122 GRÁFICO 10 - PERCENTUAL DE REDUÇÃO DE EXTREMA POBREZA POR FAIXA ETÁRIA APÓS A AÇÃO BRASIL CARINHOSO ......................................................................................................... 123 GRÁFICO 11 - PERFIL DOS EMPREENDEDORES INDIVIDUAIS FORMALIZADOS E ASSISTIDOS NO PERÍODO DE DEZEMBRO/2010 A FEVEREIRO/2012.......................................................... 125 LISTA DE SIGLAS AIBF II Avaliação de Impacto do Programa Bolsa Família ATER Assistência Técnica e Extensão Rural Banco Internacional para Reconstrução e BIRD Desenvolvimento CEPAL Comissão Econômica para a América Latina e Caribe CF/88 Constituição Federal de 1988 FGV Fundação Getúlio Vargas FMI Fundo Monetário Internacional IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IAP Instituto Agronômico do Paraná IDH Índice de Desenvolvimento Humano IDH-M Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais INEP Anísio Teixeira IPARDES Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada Km Quilômetros Km2 Quilômetros quadrados MDS Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome MEC Ministério da Educação e Cultura MEI Microempreendedores individuais MERCOSUL Mercado Comum do Sul MESA Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar MS Ministério da Saúde MTE Ministério do Trabalho e Emprego PIB Produto Interno Bruto OSS Orçamento da Seguridade Social PAA Programa de Aquisição de Alimentos PBA Programa Bolsa Alimentação PBF Programa Bolsa Família PCA Programa Cartão Alimentação PETI Programa para a Erradicação do Trabalho Infantil PGRM Programa de Garantia de Renda Mínima PIA População em Idade Ativa PNBE Programa Nacional Bolsa Escola PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PPC Paridade do Poder de Compra PR Paraná PROGRESA Programa de Educação, Saúde e Alimentação (México) Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e PRONATEC Emprego RAIS Relação Anual de Informações Sociais RMC Região Metropolitana de Curitiba RML Região Metropolitana de Londrina RMM Região Metropolitana de Maringá SAIN Secretaria de Assuntos Internacionais SEAE Secretaria de Acompanhamento Econômico SESC Serviço Social do Comércio SM Salário Mínimo SPE Secretaria de Política Econômica STN Secretaria do Tesouro Nacional UFF Universidade Federal Fluminense URSS União das Repúblicas Socialistas Soviéticas SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................. 16 2 ESTADO E POLÍTICA SOCIAL ................................................................................................... 21 2.1 O ESTADO BRASILEIRO............................................................................................................. 21 2.2 POLÍTICA SOCIAL NO BRASIL ................................................................................................... 29 3 POLÍTICAS DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA .......................................................................... 43 3.1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................. 43 3.2 POLÍTICAS DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA NA AMÉRICA LATINA ..................................... 44 3.3 A IMPLANTAÇÃO DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO BRASIL ............................................ 52 3.3.1 Antecedentes................................................................................................................................ 54 3.3.2 O Programa Bolsa Família: condicionalidades e abrangência ..................................................... 57 4 CONTEXTUALIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA DO ESTADO DO PARANÁ NO CENÁRIO BRASILEIRO ............................................................................................................... 62 4.1 GEOGRAFIA, ECONOMIA E INFRAESTRUTURA ...................................................................... 62 4.2 FAMÍLIAS POBRES NO PARANÁ ............................................................................................... 84 5 O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA: ABRANGÊNCIA, EFEITOS E PROBLEMATIZAÇÕES .......... 91 5.1 ABRANGÊNCIA E EFEITOS DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO ESTADO DO PARANÁ .... 91 5.1.1 Abrangência do Programa Bolsa Família no Estado do Paraná................................................... 92 5.1.2 Redução da Pobreza no Paraná .................................................................................................. 93 5.2 MESORREGIÕES CRÍTICAS NO PARANÁ ................................................................................ 97 5.2.1 Mesorregião Centro-Sul................................................................................................................ 98 5.2.2 Mesorregião Oeste ..................................................................................................................... 100 5.3 O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA E SUA RELAÇÃO COM AS CONDICIONALIDADES NO ESTADO DO PARANÁ ........................................................................................................ 101 5.3.1 Educação.................................................................................................................................... 102 5.3.2 Saúde ......................................................................................................................................... 108 5.3.3 Emprego e Renda ...................................................................................................................... 112 5.4 PROBLEMATIZAÇÕES SOBRE O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA ........................................... 118 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................................... 126 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................................... 132 16 INTRODUÇÃO A pobreza e a desigualdade social acompanham o Brasil historicamente. O País compõe o rol de países com a distribuição de renda mais desigual do mundo, com grande contingente de famílias vivendo abaixo da linha de pobreza. A desigualdade no Brasil é uma das mais elevadas do mundo, pois um país com renda per capita relativamente elevada mantém nas duas últimas décadas aproximadamente 40% da população abaixo da linha de pobreza (BRASIL, 2011c). Em 2010 o Banco Mundial disponibilizou dados relativos ao índice de Gini de 169 países, e apenas catorze1 países possuíam índices de concentração de Gini superiores ao do Brasil (MOREIRA, 2011). Reduzir a desigualdade social e de distribuição de renda é uma das funções do Estado brasileiro. Um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil é construir uma sociedade livre, justa e solidária, garantindo o desenvolvimento nacional, erradicando a pobreza e a marginalização, com redução das desigualdades sociais e regionais. Para o cumprimento de tais objetivos o Estado lança mão de políticas sociais, que são modalidades de política pública que podem ser produzidas sob distintas estruturas legais e institucionais, em distintos contextos, sistemas e regimes políticos (VIANNA, 2002). No Brasil e na maioria dos países da América Latina, as políticas de transferência de renda condicionada representam a principal modalidade de política pública para o combate à pobreza, e foram apresentados como uma inovação, pelo fato de romperem com a tradição das cestas básicas e por realizarem transferências monetárias sem o requisito de contribuição prévia, como no modelo de seguro social (FONSECA; VIANA, 2007). No Brasil, o principal programa de transferência de renda condicionada é o Programa Bolsa Família, que transfere diretamente renda com condicionalidades, beneficiando famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza. Até março de 2012 eram atendidas 13.394.893 famílias em todo território nacional. Diversos estudos apontam para a contribuição do Programa na redução das desigualdades 1 Países com índice de Gini superiores ao do Brasil em 2010: Namíbia, Seicheles, Comores, Micronésia, Botsuana, Haiti, Belize, Angola, Colômbia, África do Sul, Bolívia, Honduras, Lesoto e Suazilândia. 17 sociais e da pobreza (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2011). O objetivo geral desta dissertação é analisar o Programa Bolsa Família, destacando sua abrangência, distribuição territorial dos beneficiados e problematizar a sua relação com a pobreza e desigualdade social no Estado do Paraná, que se situa numa das regiões mais desenvolvidas do país, possui ótimos indicadores socioeconômicos e ainda assim convive com altos níveis de pobreza. A justificativa e a relevância do tema do trabalho se devem ao fato de atualmente o Programa Bolsa Família atender mais de 400.000 famílias no Estado (BRASIL, 2011b). Os objetivos específicos do trabalho incluem: a) caracterizar a condição de pobreza no Estado do Paraná; b) verificar a localização territorial dessas famílias; c) identificar dentre as famílias do Paraná quais as condicionalidades mais frequentes; d) apresentar e discutir alguns efeitos do programa, como abrangência, efeitos sobre pobreza, emprego e saúde; e e) problematizar o Programa no contexto da pobreza no Paraná. Assim, a pergunta central da pesquisa é: o Programa Bolsa Família é efetivo na redução da pobreza e desigualdade de renda no estado do Paraná? Para alcançar os objetivos propostos, a metodologia utilizada foi a revisão da literatura pertinente aos temas, com a utilização de livros, artigos, publicações, teses de mestrado e doutorado. Foram realizadas consultas em sites governamentais ou pertinentes ao assunto para a coleta dos dados apresentados no trabalho. A coleta de dados demográficos, econômicos e sociais foi realizada qualitativamente a partir de dados secundários disponibilizados em publicações institucionais e ministeriais do Estado do Paraná e do Governo Federal. Posteriormente os dados estatísticos relevantes foram agrupados em tabelas e gráficos, sendo utilizado o Microsoft Excel® e anexados às discussões, sendo realizadas análises qualitativas e quantitativas. Neste aspecto, houve limitações metodológicas, em decorrência da ausência de dados referentes ao estado do Paraná. A apresentação do trabalho submetido à Banca de Dissertação será estruturada em quatro capítulos. O Capítulo 2 divide-se em duas seções, as quais abordam o Estado e Política Social no Brasil. Num primeiro momento, conceitua-se Estado e as bases democráticas de direito nas quais o País e sua Constituição se 18 baseiam, sendo apresentadas as funções do Estado, dentre as quais se destacam a redução da pobreza e a construção de uma sociedade mais justa, objetivos que podem ser alcançados através de políticas sociais, que serão abordadas na segunda seção do capítulo. Nesta seção serão abordadas as políticas sociais no Brasil, uma vez que são instrumentos essenciais na redução da pobreza e da desigualdade. O Capítulo 3 aborda especificamente às políticas de transferência de renda. Num primeiro momento, são abordadas as políticas de distribuição de renda na América Latina e no Brasil, de modo geral, correlacionando desenvolvimento e subdesenvolvimento. Na maioria dos países da América Latina, a estratégia característica para promover bem estar social é a da transferência de renda mediante contrapartidas dos beneficiários (DULCI, 2009). Os programas de transferência de renda foram apresentados como uma inovação, pelo fato de romperem com a tradição das cestas básicas e por realizarem transferências monetárias sem o requisito de contribuição prévia, como no modelo seguro social (FONSECA; VIANA, 2007). Num segundo momento, é abordada a implantação do Programa Bolsa Família, principal programa governamental brasileiro de distribuição de renda condicionada. Serão apresentados os programas de transferência de renda que antecederam o Programa Bolsa Família e posteriormente o integraram (Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio Gás e Cartão Alimentação). O foco do Programa Bolsa Família são os grupos mais vulneráveis da população, que encontravam grande dificuldade de acesso aos serviços e benefícios sociais de que necessitam. A principal finalidade do Programa seria desenvolver uma estratégia que facilitasse o acesso das famílias mais pobres aos serviços e benefícios oferecidos pelo Estado nas áreas da saúde, educação, habitação e distribuição de renda (BRASIL, 2011c). O Capítulo 4 analisa especificamente o Estado do Paraná e está dividido em duas seções. Na primeira seção é feita a contextualização socioeconômica do estado no cenário nacional, enfatizando sua localização geográfica, colonização, divisão política, economia, infraestrutura e índice de desenvolvimento humano. Apesar de possuir excelentes índices socioeconômicos, responder pelo 6º PIB do País, o estado apresenta grande contingente de famílias pobres, que será abordado na segunda seção do capítulo, onde é feita a coleta de dados referentes a famílias 19 pobres no estado, com quantificação e distribuição geográfica, apresentação das mesorregiões mais pobres, discussão sobre a concentração da pobreza ao redor das regiões metropolitanas, os bolsões de pobreza e a perpetuação da pobreza em determinadas mesorregiões. O Capítulo 5 está estruturado em 4 seções. Serão abordadas a abrangência do programa no estado e sua relação coma diminuição da pobreza. No período entre 2003 e 2008, o índice de pobreza teve queda de 8,25 pontos percentuais no Estado do Paraná, segundo dados compilados pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir do resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgados em setembro de 2009. Em 2003, 16% dos paranaenses (aproximadamente 1,6 milhão de pessoas) viviam na linha da pobreza. Cinco anos depois, com um aumento de um milhão de habitantes, o índice caiu para 7,75%, (813 mil pessoas). A maior redução do índice de pobreza ocorreu no interior do Estado, que passou de 16,8% para 8,46% em cinco anos, enquanto na Região Metropolitana/Capital, o índice recuou de 10,5% para 3,92% e na periferia da Região Metropolitana, de 18,7% para 9,09% (Fundação Getúlio Vargas, 2009). Nas áreas rurais, houve redução da pobreza. Em 2001, 34,9% das famílias eram pobres, e em 2009 não passavam de 24,1%. É possível observar também que o percentual das famílias com renda per capita acima de um salário mínimo passa de 37,4% em 2001 para 44,9% em 2009 (BAZOTTI; SUGAMOSTO, 2011). O peso das transferências de renda condicionada na composição dos rendimentos familiares no País, em 2008, atingiu 19,3% de participação, com aumento expressivo comparativamente a 1988, que era de 9,5% (IPARDES, 2010). A segunda sub seção abordará duas mesorregiões críticas em concentração de famílias pobres no estado. A terceira subseção explanará sobre as condicionalidades educação e saúde, bem como emprego e renda no estado. Será feita a análise da influência do programa na facilidade de acesso da população beneficiada a direitos sociais básicos, especificamente em relação à escolaridade, emprego e saúde, uma vez que são condicionalidades do programa. Os dados foram coletados a partir de indicadores de emprego, saúde e escolaridade, disponíveis em órgãos governamentais, como Ministérios do Trabalho e Emprego, Saúde e Educação e órgãos estaduais. 20 Comparou-se dados atuais com os dados anteriores ao período de implantação do Programa Bolsa Família, analisando e quantificando indicadores de redução da pobreza, indicadores de saúde e educação, além da avaliação do padrão de emprego e renda no Estado. Finalmente, a quarta sub seção abordará as problematizações do programa Bolsa Família, sua efetividade na redução da pobreza. Será enfatizada a necessidade de criação de políticas que fortaleçam a criação de emprego e renda, que valorizem o salário mínimo e que auxiliem os beneficiários a se inserirem no mercado de trabalho. Neste aspecto, é fundamental o empreendedorismo e o investimento em educação e qualificação profissional, uma vez que o programa se enquadra em política de governo, sujeito à descontinuidade se eventualmente for de interesse do poder político. Serão apontados os fatores que também interferem na redução da pobreza e desigualdade, uma vez que tal fato não deve ser atribuído apenas ao Programa Bolsa Família. Pretende-se avaliar se o programa realmente é efetivo para redução da pobreza ou se atua somente na consequência, e não na causa do problema. 21 1 ESTADO E POLÍTICA SOCIAL O Estado brasileiro é um Estado Democrático de Direito, que tem entre seus objetivos construir uma sociedade mais justa e erradicar a pobreza, e uma das maneiras de fazê-lo é através de políticas sociais, que são intervenções que possuem inúmeras funções, dentre as quais diminuir a desigualdade entre a população. O primeiro capítulo deste trabalho enfatizará o Estado brasileiro e as Políticas Sociais no Brasil. O capítulo é dividido em duas seções, sendo que a primeira seção tem por objetivo conceituar o Estado brasileiro, seus fundamentos e os direitos garantidos por sua Constituição, e as políticas sociais no País. A Constituição Federal brasileira de 1988 é considerada cidadã e inovadora, ao reconhecer a existência de pobreza, marginalidade e desigualdade social e colocar como princípios básicos a construção de uma sociedade mais justa, com o combate a tais mazelas e a defesa do cidadão hipossuficiente através de uma gama de direitos sociais. A segunda seção do capítulo 2 discorre sobre as políticas sociais no Brasil, passando pelas correntes que as influenciaram, as crises econômicas que as fizeram necessárias, a influência da Constituição Federal sobre as políticas sociais vigentes, as áreas de maior atuação e seu reflexo na redução da desigualdade. 2.1 O ESTADO BRASILEIRO O Brasil é um Estado Democrático de Direito, tendo como fundamentos a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político (Constituição da República Federativa do Brasil, artigo 1º). A Constituição Federal de 1988 trouxe um fato curioso, até então ausente nas constituições anteriores: a abordagem da pobreza, marginalidade e desigualdade social, ficando conhecida como Constituição Cidadã. O artigo 3º da Constituição Federal de 1988 enumera os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: construção de uma sociedade livre, justa e solidária; garantia de desenvolvimento nacional; erradicação da pobreza e marginalização, com redução das desigualdades sociais e regionais; e promoção do 22 bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação. Os direitos sociais representam uma dimensão dos direitos fundamentais do homem, sendo prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, sendo garantidos por normas constitucionais, com o intuito de proporcionar melhores condições de vida aos mais fracos, com tendência a realização de equidade de situações sociais desiguais, sendo, portanto, direitos que se enlaçam ao direito de igualdade (SILVA, 2006). Para entender o porquê da necessidade de um Estado soberano, podemos recorrer à teoria de Thomas Hobbes, que viveu na época da Revolução Gloriosa, onde o Estado era ausente/inexistente, e a sociedade era submetida à força bruta, vivendo o cidadão em constante instabilidade social. Para Hobbes, o Estado deveria ser a instituição fundamental para regular as relações humanas dadas a condição natural dos homens, que os impele a satisfazer seus desejos pessoais a qualquer custo, movidos por paixões e violência. Segundo Rousseau, o Estado surge a partir de um contrato social entre os homens, que necessitam de regras para o bom convívio. Segundo Secchim e Pettene (2003, p.2): O Estado exerce neste campo relevante papel, devendo servir de instrumentação, apoio, motivação, não sendo empecilho nos processos democráticos. [...] Sabe-se que para a manutenção da ordem vigente sempre coube ao Estado a função de regular e de definir o cidadão. Entretanto, sendo o Estado inevitável e imprescindível, torna-se necessário o seu controle democrático, o que se efetiva por meio da mobilização das forças coletivas, que é capaz de dizer que Estado lhe convém, em torno de um conjunto de valores que propiciem condições para o novo reordenamento. As sociedades capitalistas instituíram, a partir do século XIX, sistemas públicos de proteção social que implicaram na intervenção do Estado na economia para regulação e provimento de bens e serviços (MOREIRA, 2011). Há muita discussão acerca do relacionamento entre capitalismo, desenvolvimento e bem-estar social. Controversa também é a intervenção pública na atividade social, uma vez que segundo Moreira (2011, p.21): As modalidades e as razões para a intervenção pública na atividade social são debatidas desde os primórdios das Ciências Sociais, revelando a controvérsia referente ao papel do Estado na promoção do desenvolvimento. Muitos autores argumentam que sem o Estado não haveria desenvolvimento, uma vez que o regime capitalista exige freios aos seus mecanismos mercadorizantes, regulação e planejamento econômico. Outros defendem que, dentro da atividade econômica, a 23 intervenção estatal não deve existir ou deve ser mínima, pois os objetivos desejados seriam atingidos por meio da expansão e ajuste “natural” dos mercados. No Brasil, a ordem econômica adquire dimensão jurídica a partir da Constituição de 1934, que consignava princípios e normas sobre a ordem econômica, sob a influência da Constituição alemã de Weimar, o que não quer dizer necessariamente um sopro de socialização, pois tanto aqui como no mundo ocidental em geral, as Constituições consubstanciam a forma econômica capitalista, que se apoia inteiramente na apropriação privada dos meios de produção e na iniciativa privada, caracterizando o modo de produção capitalista (SILVA, 2006). Neste sentido, a atuação do Estado no setor econômico representa uma busca de ordenação da vida social e econômica, uma tentativa de arrumar a desordem proveniente do liberalismo2. Tal atuação gera efeitos especiais, uma vez que impõe condicionamentos à atividade econômica. Não é possível concluir que tais efeitos beneficiem as classes populares, mas é possível salientar que a função do Estado ao interferir no setor econômico é racionalizar a vida econômica e criar condições de expansão do capitalismo monopolista (SILVA, 2006). Fatores que colocam em risco a integração da sociedade, como pobreza, estratificação social, desemprego, concentração de poder e renda devem ser minimizados ou combatidos, para que haja equilíbrio social (CASTEL, 1998), o que pode ser alcançado através de criação e implantação de políticas públicas. Tais fatores podem ser denominados questões sociais, uma vez que questionam a capacidade de integração social de determinada sociedade num dado momento. É possível enumerar três fases da evolução da política social. A primeira fase ocorreu com a Chamada Lei dos Pobres3, muito disseminada nos países europeus, como necessidade de reduzir a pobreza e a desigualdade social gerada pela transição econômica para o capitalismo, onde ocorreu expansão do comércio e valorização das cidades, tornando a pobreza visível, incômoda, e reconhecida como um risco social (Vianna, 2002; Moreira, 2011). Sobre a primeira fase da evolução da política social: 2 O Estado desenvolvimentista deve cumprir quatro requisitos fundamentais: 1) ser capaz de promover uma mudança estrutural; 2) ser capaz de propor e expor uma visão coletiva de futuro para essa sociedade numa perspectiva econômica e social; 3) construir instituições que viabilizem essa proposta de desenvolvimento e, 4) ser capaz de administrar conflitos numa ambiência de segurança social (CHANG, 2001). 3 A Primeira Lei dos Pobres foi editada em 1601, no reinado de Elizabeth I, na Inglaterra (DORIGON, 2006). 24 A pobreza, nesta fase, é o risco social predominante. O Estado age para proteger a sociedade da ameaça representada pela pobreza (à qual se associam a indigência, a doença, o furto, a degradação dos costumes) e para proteger os pobres [...]. Quanto aos pobres, foram protegidos ora pela distribuição de alimentos, ora por meio de complementação salarial, ora através do recolhimento a asilos, ora mediante recrutamento para as manufaturas públicas (VIANNA, 2002, p.3). No final do século XIX, surge a segunda fase da política social, onde predomina a proteção social, com o surgimento de seguros sociais compulsórios, para proteção dos trabalhadores em relação a adversidades decorrentes do trabalho assalariado. No novo cenário, de capitalismo industrial consolidado, surgem novos atores, como sindicatos para a defesa de trabalhadores, partidos políticos e arranjos institucionais capazes de incluir, na agenda pública, demandas de setores emergentes no mundo do trabalho. Mais do que a pobreza, o que ameaça a sociedade nesta fase é a recusa ao assalariamento (VIANNA, 2002). A segunda fase de políticas sociais foi iniciada diante de evidências de que a pobreza, que afligia não só aos pobres desempregados, mas também aos trabalhadores, não constituía o único risco social, uma vez que o proletariado fabril e industrial estava vivendo em condições subumanas, exposto a graves problemas de saúde, alta mortalidade, falta de saneamento, fome, sem regulação da jornada de trabalho. Desta forma, a concepção do pobre como marginal, avesso ao trabalho ou incapacitado é desmistificada, pois os trabalhadores também vivem na pobreza e até mesmo na indigência, em decorrência das péssimas condições de trabalho e remuneração às quais era submetido. Assim, o primeiro seguro social, instituído na Alemanha por Bismark em 1880 foi amplamente difundido na Europa (Moreira, 2011). A terceira fase da política social no Ocidente ocorre a partir de vários fatos, dentre eles a crise dos anos 20, as transformações ocorridas no padrão de produção capitalista, a vitória do socialismo na URSS, a valorização do planejamento na própria teoria econômica, e em decorrência de duas guerras mundiais. Deste modo, a ideia de seguro é substituída pela ideia de seguridade social, com abrangência universal e tendo como alvo a cidadania. Logo, sistemas públicos, estatais ou regulados pelo Estado planejam e executam políticas destinadas a garantir amplos direitos sociais a todos os cidadãos, gerando Estados de bem-estar social. Praticamente todos os países desenvolvidos realizaram reformas em seus 25 sistemas de proteção social após a Segunda Guerra Mundial (VIANNA, 2002; MOREIRA, 2011). Este sistema de proteção social ficou conhecido como Welfare State4 (Estado de bem estar social), que pode ser conceituado como a sistematização de uma esfera pública, com regras universais e pactadas, onde o fundo público de um lado financia o acúmulo de capital e de outro financia a reprodução da força de trabalho. Desta forma, o fundo público atinge toda a população através de gastos sociais5, que englobam a medicina socializada, educação universal gratuita e obrigatória, previdência social, seguro-desemprego, subsídios para transporte, benefícios familiares e subsídios para o lazer, favorecendo desde as classes médias até o assalariado de nível mais baixo (OLIVEIRA, 1998). A partir da II Guerra Mundial, a indissociabilidade Estado-capital fica mais clara, devido à correlação de forças políticas, o temor do socialismo e a imposição de reconstrução do mundo, que fazem com que o capitalismo sofra uma forte descontinuidade. De forma contundente foi evidenciado que a reprodução capitalista exigia o Fundo Público, para alimentar tanto o investimento privado como a reprodução da força de trabalho (Carleial, 2011). A construção de uma esfera pública remete à ideia de economia de mercado socialmente regulada, sendo nos países capitalistas sinônimo de democracia, uma vez que o acesso e a utilização do fundo público entram em processo de interação com a consolidação de instituições políticas democráticas. Entretanto, o Estado de bem estar não deixou de ser um Estado de dominação de classe, apenas trocou o 4 A noção de Welfare, nos Estados Unidos da América, tem conotação pejorativa, uma vez que se associa a dependência da assistência pública, denotando, segundo as normas tradicionais da ética do trabalho, fracasso no mercado. O termo seguridade social também é bastante popularizado no país, não só para designar o seguro social obrigatório como englobando os benefícios seletivos para a população de baixa renda (food-stamps, abrigos para os homeless, auxílio para crianças pobres), mas o significado atribuído ao termo se afasta inteiramente da concepção forjada na Europa no pós-guerra (VIANNA, 2002) 5 Gasto social em definição mais ampla incluiria tanto as atividades do setor público quanto do setor privado da economia, compreendendo estas o emprego de recursos próprios das famílias, das empresas privadas e das organizações não governamentais. O conceito de Gasto Público Social (GPS) é utilizado para estudar especificamente a atuação do Estado, compreendendo os recursos financeiros brutos empregados pelo setor público no atendimento de demandas sociais e que corresponde ao custo de bens e serviços e transferências, sem deduzir o valor de recuperação, que consiste em depreciação e amortização dos investimentos em estoque, ou recuperação do principal de empréstimos anteriormente concedidos. O Gasto Social Federal (GSF) engloba dispêndios diretamente efetuados pelo governo federal, bem como a transferência negociada de recursos a outros níveis de governo (estadual e municipal) ou a instituições privadas, referentes a programas e ações desenvolvidos nas áreas de atuação sociais (CASTRO et al., 2008, p. 11). 26 status de “comitê executivo da burguesia” para “condensação das lutas de classe”. O Estado-providência é um espaço de luta de classes, que consiste em buscar alternativas que anulem a posição previamente hierarquizada e o poder de fogo das peças mais importantes (OLIVEIRA, 1998). Sobre a edificação dos sistemas de bem-estar, Vianna (2002, p.5-6) esclarece: O contexto econômico no qual se edificaram os sistemas de bem-estar foi, de certo, favorável à ampliação dos direitos substantivos, que exigem não só normatividade como recursos para o seu financiamento. O crescimento da população, a industrialização em larga escala, o consumo de massa, asseguravam o pleno emprego e contribuíam para uma maior homogeneidade social. Mas é sobretudo pela ótica da política que se explica o sucesso desta concepção de proteção social. As instituições de representação – os partidos políticos, os sistemas eleitorais, o Parlamento – se tornaram mais inclusivas; novos espaços de negociação surgiram (câmaras consultivas ou deliberativas formadas por representantes de trabalhadores, empresários, produtores agrícolas e técnicos governamentais para estabelecer diretrizes macroeconômicas); a democracia, enfim, expandiu-se. Por sua vez, a organização política dos atores sociais se fortaleceu. Identidades coletivas coesas, com alto poder de agregação e alta representatividade adotaram estratégias de concertação, ou seja, acordos, que permitiram aumentos substanciais na tributação (principalmente de capital) e provimento de benefícios generosos à maioria da população. Oliveira (1998, p.39) salienta a importância da esfera pública no combate à dominação da burguesia: A estruturação da esfera pública, mesmo nos limites do Estado classista, nega à burguesia a propriedade do Estado e sua dominação exclusiva. Ela permite, dentro dos limites das “incertezas previsíveis”, avanços sobre terrenos antes santuários sagrados de outras classes ou interesses, à condição de que isto se passe através de uma reestruturação da própria esfera pública, nunca de sua destruição. Representa, de um ponto de vista mais alto e mais abstrato, o fato de que agora “os homens fazem a história e sabem por que a fazem”. É uma negação dos automatismos do mercado e de sua perversa tendência à concentração e à exclusão. A transferência para o financiamento público de parcelas da reprodução da força de trabalho é uma tendência histórica de longo prazo no sistema capitalista. A alocação destes custos do “custo interno de produção” e sua transformação em socialização dos custos foi em algumas sociedades nacionais, parte do percurso necessário para a constituição do trabalho abstrato (OLIVEIRA, 1998). No Estado liberal ou residual, há a intervenção estatal somente quando o mercado impõe duras penas a determinados grupos sociais, quando a satisfação das necessidades através do esforço individual, da família, do mercado e das redes comunitárias não são realizadas ou são insuficientes. Assim, o mercado funciona como o espaço da distribuição, resultando na prevalência de esquemas privados e 27 ocupacionais de seguro social, não apenas sancionados como favorecidos pelos sindicatos, tendo certa semelhança com a primeira fase histórica da política social (VIANNA, 2002). Para Oliveira, 1998, os gastos sociais públicos6 são necessários para a manutenção do capitalismo contemporâneo. Há diversos tipos de Estado de bem-estar social, influenciados por condicionantes políticos e institucionais, que redundam em maior ou menor inclusividade dos sistemas de proteção social, sendo evidente uma crise do Estado de bem-estar (VIANNA, 2002), pois os países industrializados vêm sofrendo um continuado déficit público, gerado pelo padrão de financiamento público do Estadoprovidência, que está em crise. A média do déficit público como porcentagem do PIB foi aproximadamente igual em quase todas as partes do mundo, por grupos de países, o que sugere que as internacionalizações produtiva e financeira estão obrigando praticamente todos os países a adotarem o padrão de financiamento público do Estado-providência (OLIVEIRA, 1998). Sobre os limites do capitalismo e a função do fundo público, Oliveira (1998, p.34-35) elucida: [...] a história do desenvolvimento capitalista tem mostrado, com especial ênfase depois do Welfare State, que os limites do sistema capitalista só podem estar na negação de suas categorias reais, o capital e a força de trabalho. Neste sentido, a função do fundo público no travejamento estrutural do sistema tem muito mais a ver com os limites do capitalismo, como um desdobramento de suas próprias contradições internas. Dizendo em outras palavras, as transformações mais importantes do sistema capitalista se dão no coração, no núcleo duro das mais importantes economias capitalistas. O fundo público, em resumo, é o antivalor, menos no sentido de que o sistema não mais produz valor, e mais no sentido de que os pressupostos da reprodução do valor contêm, em si mesmos, os elementos mais fundamentais de sua negação. Afinal, o que se vislumbra com a emergência do antivalor é a capacidade de passar-se a outra fase em que a produção do valor, ou de seu substituto, a produção do excedente social, toma novas formas. E essas novas formas, para relembrar a asserção clássica, aparecem não como desvios do sistema capitalista, mas como necessidade de sua lógica interna de expansão. É possível observar nos anos oitenta uma mudança no significado de “proteção social”, quando os países centrais, diante dos efeitos da crise fiscal, 6 O crescimento do salário indireto, nas proporções assinaladas, transformou-se em liberação do salário direto ou da renda domiciliar disponível para alimentar o consumo de massa. O crescimento dos mercados, especialmente o de bens de consumo duráveis, teve, portanto, como uma de suas alavancas importantes, o comportamento já assinalado das despesas sociais públicas ou do salário indireto. Modificações dessa monta no rapport salariel são (...) fatores dos mais importantes no longo período de expansão, que vai desde os fins da II Guerra Mundial até hoje. Noutras palavras, para a ascensão do consumo de massa, combinaram-se de uma forma extraordinária o progresso técnico, a organização fordista de produção, os enormes ganhos de produtividade e o salário indireto, estes dois últimos fatores compondo o rapport salariel. A presença dos fundos públicos, pelo lado, desta vez, da reprodução da força de trabalho e dos gastos sociais públicos gerais, é estrutural ao capitalismo contemporâneo, e, até prova em contrário, insubstituível (OLIVEIRA, 1998, p. 22-23). 28 começam a reformar as políticas clássicas de seguridade social. Como parte da agenda de restrição do gasto e das políticas universalistas, um conjunto de ações e programas para enfrentar o aumento da pobreza e vulnerabilidade começa a ser adotado por vários países e difundido pelas organizações multilaterais. A proteção social passa a ser utilizada tanto para serviços e benefícios assegurados como direitos, quanto para uma gama de programas e ações dirigidos ao enfrentamento de diferentes níveis de privação, risco e vulnerabilidade, prestados por tipos diversos de instituições, públicas ou privadas. Na década de 90, as ações passam a designar um conjunto de intervenções e programas dirigidos aos mais pobres, apoiadas por organizações multilaterais, especialmente o Banco Mundial, ocorrendo a disseminação dos programas de transferência condicionada de renda (VAITSMAN, ANDRADE; FARIAS, 2009). Um dos principais desafios mundiais na década de 2000, segundo o Banco Mundial, era combater a pobreza em meio à opulência, difundindo a ideia de que pobreza abrange não somente baixa renda e consumo, mas também baixos indicadores de educação, saúde, nutrição e outras áreas do desenvolvimento humano. Em 2001 o Banco Mundial lança o primeiro documento setorial sobre proteção social, defendendo programas de proteção social que não apenas ajudem as pessoas a enfrentar os períodos de crise, mas que atuem de forma a superar a situação de pobreza, e proteção social passa a ser definida como toda intervenção pública que ajude indivíduos, domicílios e comunidades a administrar riscos ou apoie os cronicamente pobres (VAITSMAN; ANDRADE; FARIAS, 2009). No contexto atual, as políticas públicas se associam a uma série de ações cuja concepção subjacente é a cidadania entendida como um conjunto de direitos acumulados, sendo eles direitos civis, políticos e sociais (MOREIRA, 2011). Para que os direitos sociais sejam colocados em prática, num país historicamente marcado por desigualdades como o Brasil, é necessária a criação e a execução de políticas sociais por parte do Estado, que visam diminuir a desigualdade social, proporcionando maior equidade entre a população, políticas estas que são discutidas no próximo subitem. 29 2.2 POLÍTICA SOCIAL NO BRASIL Conceituar política social não é tarefa fácil, pois é necessário considerar a complexidade da malha formada pelas instituições governamentais, seus respectivos âmbitos de atuação e o aparato jurídico que dá suporte à estruturação das políticas públicas. Estas possuem aspectos bastantes dinâmicos, pois em sua trajetória histórica, cada sociedade incorpora o reconhecimento de determinadas contingências, riscos sociais e igualdades desejáveis, exigindo que o Estado e outros entes sociais assumam a responsabilidade pela sua defesa e proteção, e todos estes aspectos contribuem para a definição de política social (CASTRO, 2012). Esping-Andersen (1994) aponta três modelos de proteção social. No modelo liberal, dominante nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Suíça, as políticas sociais são direcionadas aos mais pobres, que não podem satisfazer suas necessidades individuais por meios próprios. Este modelo é residual e estabelece estreitas fronteiras para a intervenção estatal, maximizando o alcance mercantil, considerado o espaço privilegiado da distribuição. No modelo conservador, predominante na Europa continental (Alemanha, Áustria, França e Itália), a ação protetora do Estado vincula-se ao desempenho dos grupos protegidos, ou seja, os direitos e deveres estão vinculados ao status e à ocupação e não à condição de cidadania. No modelo socialdemocrata, há predomínio da inclusão, caracterizado pela integralidade e universalidade das políticas sociais. A política social pode ser entendida como modalidade de política pública que pode ser produzida sob distintas estruturas legais e institucionais, em distintos contextos, sistemas e regimes políticos, como resultante de pressões sociais mais ou menos organizadas e mais ou menos representativas da sociedade como um todo, devendo ser entendida em sua dimensão política e histórica (VIANNA, 2002). As convenções formadas socialmente determinam o que será tratado como questão social, ou seja, como serão tratadas as questões que podem determinar ruptura social. As convenções estão intimamente relacionadas com a concepção de justiça predominante ou com os valores éticos e morais compartilhados pela sociedade. Desta maneira, as políticas públicas dirigidas à questão social não são 30 facilmente definidas ou aceitas pela totalidade da sociedade, podendo se manifestar das mais variadas formas nos Estados modernos (MOREIRA, 2011). Segundo Demo (2002, p. 14), “política social pode ser contextualizada, de partida, do ponto de vista do Estado, como proposta planejada de enfrentamento das desigualdades sociais”. A política social objetiva compensar a desigualdade social instaurada pela dinâmica do mercado e, consequentemente, pela política econômica. A eficácia das políticas sociais deve fundamentar-se na análise do funcionamento do aparelho social do Estado e na proposta de um tripé: desburocratização, descentralização e participação social (DRAIBE, 1987). Pobreza e desigualdade social devem ser diferenciadas. A pobreza é decorrente das ações realizadas pelos próprios homens, uma condição que afeta o indivíduo, é entendida como fruto da ação dos homens, sendo resultado das formas como estes pensam, interpretam e direcionam a construção da história, da forma como aceitam os padrões mínimos de sobrevivência de cada indivíduo presente na sociedade. No Brasil, a existência da pobreza não ocorre devido à falta de recursos e sim da desigual distribuição de renda. A pobreza é decorrente da desigualdade social (WLODARSKI; CUNHA, 2005). A desigualdade social é decorrente da má distribuição da propriedade e renda e pode ser caracterizada a partir de diferentes fatores, como a forma de viver, de morar, os relacionamentos, a forma de se vestir, de lidar com a vida, enfim, é um fenômeno social (EUZÉBIOS FILHO; GUZZO, 2009). Segundo Vianna (2002), as ações governamentais com objetivos que visam a proteção social começam a ser produzidas a partir da consolidação dos Estados modernos nacionais, no Ocidente europeu, nos séculos XVI e XVII, com a institucionalização do núcleo definidor do Estado moderno, ou seja, o monopólio da violência legítima, com a presença de condições que tornam possíveis e necessárias as ações estatais. Políticas Sociais podem ser entendidas como intervenção do Estado nas questões sociais existentes, uma tentativa de compensar as distorções decorrentes do processo de desenvolvimento capitalista, que geralmente discrimina e faz com que a distância entre ricos e pobres seja cada vez maior. A sociedade capitalista não dispõe de igualdade de condições, uma vez que os mais pobres tendem a reproduzir continuamente o ciclo de perpetuação da pobreza, corroborados pelo baixo nível 31 educacional, más condições de saúde e alimentação, instabilidade no emprego e baixa renda. Ao estipular políticas sociais, o Estado procura equiparar as oportunidades entre pobres e ricos, minimizando a distância entre esses dois grupos, oferecendo oportunidades mais igualitárias e permitindo que as novas gerações interrompam o ciclo da pobreza (MAIA, 2005). Sobre a necessidade de criação de políticas sociais no Brasil, Secchin e Pettene (2003, p. 9), salientam que é necessário reduzir as disparidades sociais, com a finalidade de proteção e promoção dos direitos de cidadania, sendo um dever constitucional do Estado tal ato. As políticas sociais são uma resposta à dívida social acumulada desde o início da história do Brasil, e que se intensificou a partir dos anos de globalização neoliberal. Estabelecer políticas sociais exige o conhecimento do pressuposto histórico-estrutural da desigualdade social, com o objetivo de enfrentá-la de forma planejada, possibilitando intervenção no processo histórico, para que haja conquista por parte dos interessados (SECCHIN; PETTENE, 2002). A política social depende de determinada conjuntura social, buscando intervir numa realidade que se pretende mudar. A política social pode ser considerada uma modalidade de política pública, uma prática governamental que objetiva alterar situações, sistemas, práticas e comportamentos, alcançando resultados que o sistema socioeconômico não atingiria. A política social é, portanto, o conjunto de intervenções cujo objetivo é promover e priorizar mudanças sociais (MOREIRA, 2011). O Estado não deve ser reduzido à burocracia pública, aos organismos estatais que concebem e implementam as políticas públicas, mas deve ser um órgão ativo. Política pública significa implantação de um projeto de governo, através de programas, de ações voltadas para determinados setores da sociedade. As políticas públicas são de responsabilidade do Estado, em relação à implementação e manutenção a partir de processos envolvendo órgãos públicos e diferentes organismos e agentes da sociedade relacionados à política implementada (HÖFLING, 2001). É importante diferenciar políticas públicas de políticas sociais, uma vez que: [...] políticas sociais se referem a ações que determinam o padrão de proteção social implementado pelo Estado, voltadas, em princípio, para a redistribuição dos benefícios sociais visando a diminuição das desigualdades estruturais produzidas pelo desenvolvimento socioeconômico. As políticas sociais têm suas raízes nos 32 movimentos populares do século XIX, voltadas aos conflitos surgidos entre capital e trabalho, no desenvolvimento das primeiras revoluções industriais (HÖFLING, 2001, p.2) Mais do que ofertar serviços sociais, as ações de políticas públicas devem ser voltadas para a garantia de direitos sociais, estabelecidos pela Constituição Federal de 1988, que preconiza o direito fundamental de todos os cidadãos. Portanto, as políticas públicas não devem ter caráter assistencialista (SECCHIN; PETTENE, 2003). Para Demo (2002, p.31), “[...] enquanto o assistencialismo é estratégia de manutenção das desigualdades sociais, a assistência corresponde a um direito humano”. Patrus Ananias (2007) defende a compreensão das políticas sociais na perspectiva evolutiva dos direitos de cidadania, mantendo a consolidação da situação de justiça social. Segundo o autor, ainda que dada sociedade distribua justamente a renda, assegure condições de igualdade e garanta os direitos sociais básicos, haverá cidadãos, famílias ou comunidades fragilizados que dependerão do apoio do Estado. As políticas sociais devem ser permanentes, uma vez que a erradicação da desigualdade não pode desconsiderar as singularidades dos diferentes grupos sociais no processo de inclusão e emancipação. Mesmo os países mais desenvolvidos do ponto de vista econômico e social não eliminaram suas políticas sociais, que permanecem, acompanhando as demandas sociais, com o objetivo de promoção de igualdade social. Para que o Estado assegure uma política social com qualidade é imprescindível a existência de serviços públicos necessários, resolutivos e equalizadores e a plena participação da sociedade civil, uma vez que a lentidão dos avanços nas políticas sociais indica pouca mobilização social. É essencial a dicotomia Estado e sociedade civil no exercício da participação política na esfera das decisões, mantendo uma relação dialética e democrática, que certamente fortalecerá o Estado ao garantir as políticas públicas, mediante tratamento respeitoso e equânime da sociedade civil, necessitada de políticas igualitárias e justas (SECCHIN; PETTENE, 2003). Na tentativa de solucionar os problemas oriundos da questão social, o Estado lança mão de várias modalidades de intervenção, visando diminuir a desigualdade social. As políticas sociais podem ser mais visíveis ou menos visíveis, embora igualmente importantes para alterar o padrão de consumo, a qualidade de 33 vida, o acesso a direitos, serviços, seguros e ativos, fator que interfere positivamente na economia. As intervenções podem ser diretas e mais aparentes, referentes à provisão de bens públicos, como saúde, educação, saneamento básico e segurança pública; podem ainda se referir às transferências diretas de renda como aposentadorias e pensões para os inativos, programas de combate à pobreza e/ou à fome e outros tipos de programas compensatórios e assistenciais (MOREIRA, 2011). As intervenções também podem ser indiretas e, portanto, menos visíveis, como política fiscal e tributária, que atua sobre gastos e impostos, respectivamente, podendo alterar significativamente a renda dos indivíduos e famílias por meio de isenções e deduções fiscais ou imposto de renda negativo; o perfil da tributação – progressivo, regressivo ou proporcional – também impacta substantivamente o padrão de redistribuição da sociedade; as políticas de emprego que, são fundamentais para garantia de bem-estar ocupacional; a política do salário mínimo, que institui um piso salarial, regulando a assimetria existente entre oferta e demanda de trabalho, protegendo os trabalhadores ativos e inativos da pobreza, baixa qualificação e baixos salários (MOREIRA, 2011). Em relação à política social no Brasil, cabe reportar ao início dos anos 1980, que foi marcado pela presença de uma crise de grandes proporções no balanço de pagamentos, pelo rompimento dos fluxos voluntários de capitais externos ao país, que levou as autoridades nacionais a adotarem um rigoroso ajuste macroeconômico, que esteve centrado, por um lado, na geração de superávits comerciais com o resto do mundo e, por outro lado, na promoção deliberada, via contenção do crédito e elevação das taxas de juros, de uma forte contração doméstica. Tais medidas visavam ao deslocamento dos fatores de produção justamente no sentido da geração de saldo exportador destinado ao pagamento da dívida externa (CASTRO; CARDOSO JR, 2006). No início da década de 1980, grande parte do saldo comercial em moeda estrangeira era de origem privada, cabendo ao governo federal a tarefa de adquirir esses recursos mediante uma intensa emissão de dívida pública interna (monetária e mobiliária), que foi responsável por uma rápida deterioração da capacidade estatal de gestão da crise ao longo dos anos 1980. Este ambiente propiciava uma crescente aversão ao risco e de arrefecimento dos investimentos públicos e privados voltados para o mercado interno, produzindo ao mesmo tempo, dois fenômenos de sérias 34 implicações para o funcionamento da economia brasileira: o deslocamento da riqueza privada para fontes de valorização financeira, fortemente atraída pelos instrumentos de indexação monetária e pela política de juros altos destinada ao refinanciamento público e a estagnação dos índices de crescimento do produto, do emprego privado e da renda per capita (CASTRO; CARDOSO JR, 2002). Num contexto de extrema fragilidade financeira do setor público e de uma brusca mudança comportamental dos agentes privados, a inflação desponta no cenário da década de 1980 como forma de manifestação monetária da instabilidade macroeconômica radical do país, favorecendo diversas tentativas fracassadas de estabilização, que vão desde o Plano Cruzado em 1986, até o Plano Collor, em 1990), evidenciando as preocupações governamentais com alternativas de longo prazo para erradicação e controle da altíssima inflação crônica (CASTRO; CARDOSO JR, 2002). Paralelamente ao entraves macroeconômicos, o país vivia num clima otimista da redemocratização política, que culminaria com a promulgação de uma nova Constituição Federal em 1988, influenciada pela efervescência dos debates e ideias promovidas pelo ressurgimento dos partidos políticos, sindicatos e demais movimentos sociais, pelas liberdades de expressão e manifestação agora vigentes. A Constituição de 1988 trouxe avanços formais na redefinição de princípios e prioridades conferidos aos capítulos da ordem tributária e social (CASTRO; CARDOSO JR, 2002). Sobre as inovações trazidas pela Constituição Federal de 1988 e a estruturação das políticas sociais a partir de então, Castro e Cardoso Jr salientam: Por sua vez, no que diz respeito à nova ordem social, a Constituição demonstrava intenção de promover uma quase revolução na concepção e estruturação das políticas sociais, organizando em torno da vinculação de recursos e do princípio da seguridade social uma série de dispositivos necessários ao cumprimento das promessas de resgate da enorme dívida social brasileira. Dentre tais dispositivos, vale mencionar a vinculação de recursos fiscais dos três níveis de governo para a educação e a criação do Orçamento da Seguridade Social (OSS), no qual pareciam residir as maiores inovações institucionais relativas ao suprimento de recursos necessários à implementação de políticas de saúde, previdência e assistência social, além do pagamento do seguro-desemprego. A diversificação das fontes de recursos e a ampliação das bases de incidência constituir-se-iam na solução tributária ao problema do financiamento social (CASTRO; CARDOSO JR, 2006, p. 323). É importante salientar a diferença entre seguro social e seguridade social. O termo seguridade social abrange as políticas sociais cuja principal característica é 35 expressar o esforço de garantia universal da prestação de benefícios e serviços de proteção social pelo Estado. Sua base de financiamento é bem mais ampla que a do seguro social, conceito que orientou a política previdenciária brasileira desde os anos de 1920, organizada sob inspiração do modelo alemão, criado por Bismark na segunda metade do século XIX. Enquanto o seguro social é restrito aos contribuintes, a seguridade social tem abrangência ampla, se estende a toda a população que se encontra em risco social, como nos casos de perda/redução da capacidade laborativa ou insuficiência de renda. A seguridade social é essencialmente inclusiva, uma vez que reconhece o direito dos cidadãos à proteção social com base em outros critérios universalizáveis que não apenas o da capacidade de contribuição individual daqueles que estão formalmente vinculados ao mercado de trabalho - seguro social (DELGADO; JACCOUD; NOGUEIRA, 2009). A Política Social que o Brasil detém atualmente foi delineada a partir da Constituição de 1988, e está estruturada em dois ramos: a proteção social e a promoção social. Naquele grupo estão as ações de solidariedade e seguro social a indivíduos e grupos em resposta a direitos, riscos, contingências e necessidades sociais, tais como previdência social, saúde, assistência social e habitação; neste grupo, estão as ações que podem gerar oportunidades a indivíduos e permitir a obtenção de resultados, como as clássicas políticas de trabalho e renda, educação, desenvolvimento agrário e saneamento básico (CASTRO, 2008). Amplamente, política social busca atender às demandas por maior igualdade, seja ela de oportunidade ou de resultados, entre indivíduos e/ou grupos sociais; busca promover a solidariedade social mediante a garantia de segurança ao indivíduo em determinadas situações de dependência, ou vulnerabilidade, como nas situações em que há incapacidade de ganhar a vida por conta própria em decorrência de fatores externos, independentes da vontade individual, vulnerabilidade em virtude do ciclo de vida humano, como crianças e idosos, ou ainda situações de risco, como em caso de acidentes que provocaram invalidez, (CASTRO et al., 2008; CASTRO, 2012), conforme ilustrado esquematicamente na Figura 1: 36 FIGURA 1 - OBJETIVOS, TIPO DE AÇÃO, CONTINGÊNCIAS, RISCOS E NECESSIDADES DA POLÍTICA SOCIAL NO BRASIL – 2010 FONTE: Castro (2012, p.3) Atualmente a política social no Brasil atua em onze grandes áreas, por meio de programas e ações do governo federal, sendo elas: Previdência Social; Benefícios a Servidores Públicos Federais; Emprego e Proteção ao Trabalhador; Desenvolvimento Agrário; Assistência Social (especialmente o Programa Bolsa Família); Alimentação e Nutrição; Saúde; Educação; Cultura; Educação e Urbanismo; e Saneamento e Meio Ambiente. A organização das áreas de atuação dos programas e ações baseia-se na descrição programática examinada em cada unidade orçamentária e no patamar mais analítico da classificação funcional programática, na descrição do subtítulo ou do projeto/atividade (CASTRO et al., 2008). Para manter o sistema de proteção e promoção social mostrado na Figura 1, o governo Federal apresenta complexos esquemas de distribuição/redistribuição de renda e de bens e serviços, aplicando parcelas do PIB em políticas setoriais e transversais, que se manifestam objetivamente em ações e programas públicos, mantidos e geridos pelo Estado. Através de uma intrincada rede de tributos, transferências, e provisão de bens e serviços, os recursos financeiros são distribuídos e redistribuídos em múltiplos sentidos, entre ricos e pobres, jovens e idosos, famílias com e sem crianças, pessoas saudáveis e doentes, afetando a situação social dos indivíduos, famílias e grupos sociais, afetando também a economia e o próprio patamar de democracia alcançado (CASTRO, 2012). 37 Com a finalidade de atingir os objetivos mencionados na Figura 1, o Estado brasileiro desenvolve um diversificado conjunto de políticas sociais, conforme mostra resumidamente a Figura 2: FIGURA 2 - OBJETIVOS E POLÍTICAS SETORIAIS E TRANSVERSAIS DA POLÍTICA SOCIAL BRASILEIRA – 2010 FONTE: Castro (2012, p.4) As políticas sociais que estão relacionadas ao primeiro objetivo (Proteção Social) estão vinculadas à Seguridade Social, destinadas a reduzir e mitigar os riscos e vulnerabilidades que qualquer indivíduo pode se expor numa sociedade de mercado, como não poder prover o seu sustento e de sua família através do trabalho, por motivo de velhice, morte, doença ou desemprego. Nesta categoria estão os diferentes programas e ações da Previdência Social (aposentadorias, pensões e auxílios) geral e do setor público, Saúde, Assistência Social e SeguroDesemprego (CASTRO, 2012). Para cumprimento do objetivo Promoção Social, as políticas sociais são agrupadas a partir de determinados instrumentos que visam garantir aos cidadãos oportunidades e resultados mais amplos e mais equânimes de acesso aos recursos e benefícios conquistados pela sociedade no decorrer de sua história, compreendendo um vasto espectro de ações que abrangem desde a formação e desenvolvimento do cidadão, como Educação, acesso à Cultura e às políticas de 38 Trabalho e renda, visando a qualificação profissional e regulação do mercado de Trabalho, até a democratização do acesso a ativos, como as políticas voltadas à Agricultura Familiar, que incluem acesso a crédito, extensão rural, reforma agrária. Também neste grupo estão as políticas sociais que garantam acesso à Economia Solidária, à Habitação e à Mobilidade Urbana (CASTRO, 2012). Paralelamente, são desenvolvidas várias políticas de corte transversais, que possuem caráter tanto de proteger como de promover socialmente. São ações voltadas para a igualdade de gênero, igualdade racial e as destinadas especificamente às etapas do ciclo de vida humano, ou seja, as políticas voltadas para as crianças, adolescentes, jovens e idosos (CASTRO, 2012). Atualmente, algumas características da política social no Brasil merecem atenção: A Política Social, hoje, chama a atenção pela dimensão do seu conjunto: são centenas dos mais diferentes tipos de benefícios ofertados diariamente a dezenas de milhões de cidadãos atingidos pelas ações e programas implementadas pelas diversas políticas públicas de proteção e promoção social. Destaque-se ainda que tais políticas não se apresentam fragmentadas em ações emergenciais ou descontínuas, mas, ao contrário, operam de modo estável e sustentado no tempo, com regras e instituições estabelecidas. Boa parte dos benefícios e serviços têm estatuto de direitos e exigem capacidade instalada, com aplicação diária de recursos materiais, humanos e financeiros na sua produção e provisão, ainda que nem sempre no volume e na qualidade desejados (CASTRO, 2012, p.9-10). Manter esse conjunto de políticas públicas exige, logicamente, a mobilização de recursos fiscais compatíveis. É possível observar crescentes gastos sociais no Brasil desde o final da década de 80, especialmente a partir de 1993, com o efetivo início da implementação das políticas previstas pela Constituição Federal (Sistema Único de Saúde, Loas7, Previdência Rural, dentre outras). Os gastos sociais vêm aumentando de maneira sustentada, não apenas na esfera federal, que responde pela maioria dos recursos disponibilizados, mas também nas esferas estadual e municipal (CASTRO, 2012). 7 O Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social – BPC-LOAS, é um benefício da assistência social, integrante do Sistema Único da Assistência Social – SUAS, pago pelo Governo Federal, cuja a operacionalização do reconhecimento do direito é do Instituto Nacional do Seguro Social – INSS e assegurado por lei, que permite o acesso de idosos e pessoas com deficiência às condições mínimas de uma vida digna (Ministério da Previdência Social, 2012). 39 A 15ª Edição da Publicação Brazilian Economic Outlook8, de abril de 2012 mostra estabilidade das despesas da folha de pagamento de funcionários públicos no Brasil (Gráfico 1). Apesar do aumento no número de funcionários públicos nos últimos anos e sua melhoria salarial, o custo da folha de pagamento terminou 2011 abaixo da média dos últimos 10 anos, em 4,3% do PIB. A medida de “apertar o cinto” foi importante para a consolidação fiscal de 2011 e permanecerá deste modo em 2012, com a finalidade de manter os gastos com investimentos e transferências para as famílias. O nível de custo da folha de pagamento permanece o mesmo nos 12 meses até fevereiro 2012. GRÁFICO 1 - DESPESAS PÚBLICAS (% DO PIB COM BASE EM 12 MESES) FONTE: BRASIL, 2012b. Nota: Em azul, folha de pagamento. Em verde, transferência para as famílias. * Acumulado em 12 meses até Fevereiro de 2012. É possível observar melhoria nos gastos públicos no Brasil na última década, conforme mostra a Tabela 1. O saldo do Governo Federal vem passando por mudanças consideráveis desde 2002, devido à formalização da economia e a redução das desigualdades. O incremento na receita líquida é alocada para transferências de renda para as famílias e de investimento público. 8 Econômica Brasileira em Perspectiva é um documento publicado pelo Ministério das Finanças. O relatório consolida e atualiza os principais indicadores variáveis resultantes da política econômica conduzida pelas seguintes Secretarias do Ministério das Finanças: Secretaria de Política Econômica (SPE), Secretaria do Tesouro Nacional (STN), Secretaria de Assuntos Internacionais (SAIN), Secretaria de Acompanhamento Econômico (SEAE) e Secretaria da Receita Federal (RFB). Na 15ª edição, os dados utilizados no relatório foram atualizados até 9 de abril de 2012. 40 Resultado Primário sem FSB e Cessão Onerosa Impacto de FSB e da Cessão Onerosa*** Resultado Primário (acima da linha) Receita Líquida menos Transferências de Renda às Famílias 2012* 2011 2010 2008 2007 2006 2005 2004 2009 Receita Bruta Transferências para Estados e Municípios Receita Líquida Total Despesas Primárias Pessoal e encargos Transferência de renda às famílias** Investimentos Custeio com saúde e educação Demais despesas de custeio 2003 EM % PIB 2002 TABELA 1 - RESULTADO FISCAL DO GOVERNO FEDERAL – ACIMA DA LINHA (% DO PIB) 21,7 21,0 21,6 22,7 22,9 23,3 23,6 22,8 22,4 23,9 24,3 3,8 3,5 3,5 3,9 3,9 4,0 4,4 3,9 3,7 4,2 4,2 17,9 15,7 4,8 17,4 15,1 4,5 18,1 15,6 4,3 18,8 16,4 4,3 19,0 17,0 4,5 19,3 17,1 4,4 19,2 16,4 4,3 18,9 17,7 4,7 18,7 17,4 4,4 19,7 17,5 4,3 20,1 17,6 4,3 6,8 7,2 7,6 8,1 8,4 8,5 8,1 8,7 8,5 8,6 8,7 0,8 0,3 0,5 0,5 0,6 0,7 0,9 1,0 1,2 1,0 1,0 1,7 1,6 1,7 1,8 1,7 1,8 1,7 1,9 2,0 2,0 2,0 1,6 1,6 1,5 1,8 1,8 1,8 1,4 1,4 1,4 1,5 1,6 2,1 2,3 2,5 2,5 2,1 2,2 2,8 1,2 1,2 2,3 2,5 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 -0,5 0,0 0,8 0,0 0,0 2,1 2,3 2,5 2,5 2,1 2,2 2,4 1,2 2,1 2,3 2,5 11,1 10,3 10,5 10,8 10,6 10,8 11,1 10,2 10,2 11,1 11,4 FONTE: BRASIL, 2012b. * Em uma base de 12 meses até fevereiro 2012 ** Incluindo a segurança social benefícios subsídio e seguro-desemprego, benefícios assistenciais (LOAS e RMV) e o Programa Bolsa Família. *** Incluindo o Fundo de Riqueza Soberana (2008) e Operação de Capitalização da Petrobras (2010) Como houve uma expansão da estrutura institucional e do gasto social nos últimos anos, espera-se que também tenha ocorrido uma extensão dos benefícios oferecidos e consequente alteração no quadro social brasileiro, que pode ser captada em seus indicadores, ou seja, o maior volume de gastos possibilita a maior oferta de bens e serviços sociais, resultando numa diversificação e melhoria da proteção social/geração de oportunidades para a população brasileira (CASTRO, 2012). Apesar de possuir um dos piores coeficientes de Gini9 do mundo, a desigualdade social vem diminuindo no Brasil, conforme mostra o gráfico 2, especialmente na última década, apesar das crises econômicas internacionais. Neste aspecto, o Estado brasileiro está trabalhando para cumprir um dos seus fundamentos, que é reduzir a desigualdade social, sendo inegável a influência das políticas sociais para esta redução. 9 O coeficiente de Gini mede o grau de desigualdade existente na distribuição de indivíduos segundo a renda domiciliar per capita. Seu valor varia de 0, quando não há desigualdade (a renda de todos os indivíduos tem o mesmo valor), a 1, quando a desigualdade é máxima (apenas um indivíduo detém toda a renda da sociedade e a renda de todos os outros indivíduos é nula). Plano das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), 2012. 41 GRÁFICO 2 - COEFICIENTE DE GINI NO BRASIL ENTRE 1960 E 2012. FONTE: BRASIL, 2012b, p. 26. O Ministério da Fazenda aponta como desafios do crescimento em 2012 os investimentos e infraestrutura; o mercado interno; crédito; programas sociais; solidez fiscal; estabilidade da moeda; e o mercado externo. Em relação às políticas sociais, afirma ser necessário ampliá-las, com a finalidade de erradicar a extrema pobreza; reduzir a pobreza e as desigualdades sociais e regionais; e oferecer a toda a população condições dignas de vida e acesso aos serviços públicos (BRASIL, 2012b). Segundo Castro (2012), as políticas sociais e seu gasto público correspondente possuem uma dupla função: A Política Social e seu correspondente gasto público tem um duplo benefício no curto e médio prazo: garante/amplia a proteção social e amplia as capacidades e melhora, em sentido amplo, os resultados econômicos, sociais e políticos alcançados pelos indivíduos e grupos [...] Além disso, no momento de sua realização, como um dos componentes da demanda, pode ser elemento importante para promover o crescimento econômico e uma melhor distribuição de renda. Isto ocorre porque a maioria dos gastos sociais são relativos a transferências de rendas a pessoas/famílias (por exemplo, 2006 foram distribuídos cerca de 43 milhões de benefícios mês), a compra de bens no mercado (livros, computadores, alimentos, etc.) e a remuneração de servidores (auxiliares, técnicos, professores, médicos, engenheiros, etc., foram cerca de 4,7 milhões de empregados diretos, em 2006) que para manter a si e suas famílias realizam seus gastos no mercado. Esse processo de gasto fortalece o circuito de multiplicação de renda, pois estes estratos tendem a consumir menos importados e poupar menos, o que implica em maior propensão a consumir, em geral, e mais produtos nacionais, em particular, o que propicia maiores vendas, mais produção e mais emprego gerado no país (CASTRO, 2012, p.26). Finalizando, política social é um termo abrangente e extremamente complexo de conceituar, uma vez que é dinâmica, envolve avanços relacionados a conquistas sociais e manifesta-se em diversas estruturas jurídicas e institucionais, mobiliza esforços da economia e da sociedade como um todo para financiamento de 42 seus programas e ações nos diversos âmbitos de poder, mobilizando aparato técnico, administrativo e humano. As políticas sociais são efetivas quando trazem reflexos sociais e econômicos positivos, sendo indispensáveis para o enfrentamento de situação desiguais, além de contribuir para a construção de uma sociedade mais democrática e justa10. Discorrido sobre as políticas sociais no Brasil, será analisado no próximo capítulo o Programa Bolsa Família, cujos gastos incrementais, segundo Castro (2012), são claramente os que mais contribuem para a queda na desigualdade. Serão discutidos implantação, abrangência e os efeitos do Programa Bolsa Família, um dos principais programas sociais de distribuição de renda no País. 10 Para Oppenheim (1986), a justiça é um fim social, da mesma forma que a igualdade ou a liberdade ou a democracia ou o bem-estar. Trata-se de um conceito normativo, o que faz surgir o problema da possibilidade de defini-la em termos descritivos. A justiça pode ser equiparada à legalidade, à imparcialidade, ao igualitarismo e à retribuição do indivíduo segundo seu grau, sua habilidade ou sua necessidade. Ideal seria considerar a Justiça como uma noção ética fundamental e não determinada. 43 2 POLÍTICAS DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA O capítulo 3 abordará as Políticas de Transferência de Renda. Serão abordadas as principais políticas de distribuição de renda na América Latina e no Brasil, enfatizando o Programa Bolsa Família. A seção 1 do capítulo 3 discorrerá sobre as políticas de transferência de renda na América Latina. A seção 2 abordará a implantação do Programa Bolsa Família no Brasil, e será dividida em duas sub seções: os programas de distribuição de renda antecedentes ao Programa Bolsa Família e o Programa Bolsa Família, o principal programa de Transferência de Renda no País. 3.1 INTRODUÇÃO A política social é elemento da economia brasileira que interfere na estrutura de bens e serviços. A transferência de renda funciona não só para os mais pobres, mas também para organizar nova estrutura de crescimento com inclusão (Jorge Abrahão, diretor de Políticas Sociais do Ipea, na abertura do XIII Congresso Internacional da Rede Mundial de Renda Básica em 30/06/2010). As políticas de transferência de renda são essenciais para a economia nos países em desenvolvimento. No Brasil, a transferência de renda é política que já integra o atual sistema de governo, um dos motivos pelos quais a crise econômica que afetou os países desenvolvidos em setembro de 2008 afetou pouco o Brasil, devido à criação de um mercado interno de consumo, que ajudou o País a ser pouco afetado11, dentre outros estabilizadores econômicos (BRASIL, 2011b). As próximas seções abordarão as políticas de transferência de renda na América Latina e no Brasil. 11 A cada R$ 1 investido na área social, há aumento de R$ 1,86 na renda das famílias. Em relação ao financiamento da política social, metade do valor gasto na área retorna aos cofres do governo na forma de impostos indiretos, permitindo ao governo manter a transferência de renda. Não é possível atribuir somente à política de transferência de renda o mérito de estabilidade da economia, especialmente para as famílias pobres, mas sem dúvida, tal política é de extrema importância, tanto que o salário mínimo e o Programa Bolsa Família movimentam 35% da economia brasileira (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2010). 44 3.2 POLÍTICAS DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA NA AMÉRICA LATINA A noção de desenvolvimento social passa por uma trajetória cuja origem remota pautava-se na assistência social, sucedânea da caridade e da filantropia, até evoluir, modernamente, para a garantia de condições de vida e bem estar com base numa noção ampliada de cidadania12, incorporando direitos sociais. Da mesma forma, as políticas sociais, principais instrumentos de realização da meta de desenvolvimento social evoluíram de medidas assistenciais, periféricas, para políticas compensatórias mais ambiciosas, chegando a abordagens estruturantes, que visam integrar as ações nas diversas áreas de intervenção governamental, conectando diversas áreas sociais, como educação, saúde, habitação e assistência aos necessitados. Ultimamente, a alternativa de transferência de renda tem sido amplamente utilizada em diversos países, entretanto, já é utilizada na Europa desde a Poor Law inglesa do século XVI (DULCI, 2009). Desde o início da década de 60, modalidades de garantia de renda mínima, no âmbito do Estado do Bem-Estar, foram introduzidas na Europa (especialmente na Dinamarca, Alemanha e Holanda), estendendo–se para o resto do continente. No continente africano, a maior parte dos países está adotando mecanismos de transferência de renda a famílias pobres, focando na população hipossuficiente, especialmente idosos e crianças órfãs de pais vitimados pela AIDS, com o termo “pensões sociais” empregado para designar o apoio aos segmentos mais vulneráveis destes países (SAMSON; KANIKI, 2008). Na maioria dos países da América Latina, a estratégia característica para promover bem estar social é a da transferência de renda mediante contrapartidas dos beneficiários. Os programas são introduzidos para reduzir a pobreza, geralmente estipulando contrapartidas às famílias beneficiadas, requisitos destinados a acumular capital humano, especialmente nas áreas de educação e 12 O conceito de cidadania não se restringe somente a área política, abrangendo também o alcance de todos aos direitos fundamentais de todos os graus, consagrando o cidadão como pedra angular do sistema político como ser pensador, criador e interativo com os meios sociais e estatais, ofertando liberdades e instrumentos de defesa da legalidade, licitude e justiça social. A cidadania abrange um sentido mais amplo do que o de titular de direitos políticos, uma vez que qualifica os participantes da vida do Estado, reconhece o indivíduo como pessoa integrada na sociedade estatal (CF/88, art. 5º, LXXVII). Significa aí, também, que o funcionamento do Estado estará submetido à vontade popular. E aí o termo conexiona-se com o conceito se soberania popular (parágrafo único do art. 1º), com os direitos políticos (art. 14) e com o conceito de dignidade humana (art. 1º, III), com os objetivos da educação (art. 205), como base e meta essencial do regime democrático (Silva, 2006, p. 344-346) 45 saúde, objetivando promover a mobilidade social das famílias ao longo do tempo (DULCI, 2009). As bases do sistema de bem-estar social na América Latina se assentaram justamente na fase crítica do século XX, com a crise da década de 1930 interrompendo a dinâmica de exportação de commodities (produtos agrícolas, pecuários e minerais) que vinha sustentando os países do continente e os empurrando no rumo da substituição de importações. O sucesso do modelo de “crescimento para dentro”, ancorado no mercado interno, requeria a incorporação de novos setores sociais à esfera do consumo, e direitos trabalhistas e sociais foram introduzidos para regular esse processo de inclusão. Na esfera social, os sistemas de proteção abrangiam tipicamente o acesso à previdência (aposentadorias e pensões) e aos serviços de saúde. Eram avanços significativos, mas que alcançavam apenas uma pequena parte da população – aquela vinculada ao mercado de trabalho formal, com contratos definidos de emprego e contribuição regular aos fundos de previdência. Os demais trabalhadores rurais e urbanos da esfera informal permaneciam à margem do bem-estar social. Consequentemente, os sistemas de proteção social latino-americanos foram marcados, desde o início, pela segmentação da cobertura dos serviços, representando um importante fator de agravamento da desigualdade social (DULCI, 2009). Nascimento e Reis (2009) explanam bem a situação da América Latina nos períodos que antecederam a implantação dos programas de transferência de renda: A crise mundial, iniciada ao final da década de 60, as grandes transformações societárias ocorridas a partir de meados da década de 70, enquanto processo de globalização do capital, a “crise da dívida externa” e a presença de vigorosos desequilíbrios macroeconômicos na América Latina, na década de 80, impuseram a adoção de novas medidas econômicas por parte dos países periféricos, sob orientação dos países centrais e de agências multilaterais. [...] Foi nessa perspectiva que o FMI e o BIRD reordenaram suas funções e iniciaram uma nova postura junto aos países do “antigo Terceiro Mundo” como instituições balizadoras da gestão e da coordenação das “novas” políticas econômicas mundiais. Consolidou-se e generalizou-se a nova estratégia econômica para a periferia capitalista e para todos os que deixaram de ser “países em desenvolvimento” para se transformarem em “mercados emergentes” (FIORI, 1998). O FMI e o BIRD tornaram-se, assim, “[...] as novas instituições missionárias, por meio das quais essas ideias eram impostas aos relutantes países pobres, que, via de regra, precisavam muito de seus empréstimos e concessões” (NASCIMENTO E REIS, 2009, p.2-3). Até meados da década de 90, de maneira ampliada, as políticas de proteção social, com cobertura relativamente alta no contexto da América Latina, estavam estruturadas ao redor do mercado formal de trabalho e do sistema de seguridade 46 social, de modo que grande parcela da população passava por dificuldades econômicas e seus impactos na esfera social, que impulsionaram ações focalizadas, a partir de programas sociais, especialmente os de transferência de renda (NASCIMENTO; REIS, 2009). Na América Latina e Caribe, os programas de transferência de renda foram apresentados como uma inovação, pelo fato de romperem com a tradição das cestas básicas e por realizarem transferências monetárias sem o requisito de contribuição prévia, como no modelo seguro social. Tais programas foram considerados singulares por estabelecer co-responsabilidades com o objetivo de melhorar os níveis educacionais, impedir a evasão escolar e o trabalho infantil e, ainda, melhorar os indicadores de saúde e nutrição. A ideia central é que os programas asseguram o exercício, mesmo que temporário, de três direitos básicos: educação, saúde e alimentação, como ocorre no Brasil através do Programa Bolsa Família (FONSECA; VIANA, 2007). No México, o Programa Oportunidades foi criado para enfrentar o déficit gerado por anos de declínio econômico e pelo crescente empobrecimento da população. Durante os anos 80 e meados dos anos 90, houve aumento da população pobre e a queda de muitas famílias de classe média no abismo da pobreza. Mesmo assim, no ano 2000 o México apresentava 53,6% de sua população na linha da pobreza e 24,1% da população abaixo da linha de pobreza alimentar, cuja renda nao era suficiente para atender as necessidades alimentares. Desde a década de 90, políticas e programas de combate à pobreza passaram a ter prioridades no País, sendo alocados na área de Política Social (GONZÁLEZ DE LA ROCHA, 2010). Em 1997, no México, o Progresa (Programa de Educação, Saúde e Alimentação), antecessor do programa Oportunidades, foi concebido de maneira intersetorial, visando garantir o acesso aos direitos à saúde, à educação básica e à alimentação adequada. O Oportunidades, como um programa com co- responsabilidade, estabelece apoios monetários (para garantir alimentação e educação), tendo como condicionalidades a frequência escolar das crianças e adolescentes e a busca por serviços de saúde aos demais membros da família. O México ampliou o público alvo do programa ao incorporar os idosos de 70 anos ou 47 mais, que recebem o valor equivalente a 25 dólares, devendo comparecer a oito visitas médicas programadas ao centro de saúde (FONSECA; VIANA, 2007). No México, o programa começou atendendo as áreas rurais, extremamente pobres, e aos poucos, se expandiu para áreas semiurbanas e urbanas. O foco era a acumulação de capital humano, traduzindo-se pela necessidade de infraestrutura de saúde e educação para que o programa pudesse ser iniciado em uma determinada localidade. Em 2004, o Programa Oportunidades atingiu sua meta de 5 milhões de famílias beneficiárias. Em 2008 o Programa voltou a crescer, alcançando 5,8 milhões de famílias beneficiárias. Em 2010, assim como o Bolsa Família no Brasil, atende 25% da população do país (SOARES, 2010). Em relação ao Programa Oportunidades no México, os gastos são justificados: Levando-se em consideração as transferências monetárias aos seus beneficiários feitas pelos quatro programas abordados, certamente se conclui que são financeiramente viáveis, sendo que os seus orçamentos representam, normalmente, de 1% a 2% do PIB. Desse modo, esses programas não apresentam um vazamento significativo de recursos para os não pobres, não sendo, portanto, uma “pedra no sapato” para as classes dominantes (ZEPEDA, 2008, apud, NASCIMENTO; REIS, 2009, p.189). Na Nicarágua há o Programa Mi Família, que pertence à Rede de Proteção Social, que como os demais programas na América Latina, tem como objetivos melhorar a alimentação das famílias em situação de extrema pobreza, reduzir o absenteísmo escolar e aumentar os cuidados de saúde das crianças e adolescentes (SOARES, 2010). Na Colômbia, o programa Famílias em Ação é dirigido às famílias em situação de extrema pobreza com crianças e adolescentes e apresenta semelhanças com o programa mexicano, dentre elas a proteção à educação, saúde e alimentação. Assim como os demais, o Programa Famílias em Ação é um programa de transferência monetária com co-responsabilidades. As famílias devem manter em dia a carteira de vacinação de seus filhos, levar as crianças menores de sete anos para os exames de controle do crescimento e desenvolvimento, além de garantir que as crianças e adolescentes não faltem às aulas de forma injustificável (FONSECA; VIANA, 2007). No Chile, após um ano e meio de debate, o projeto piloto Chile Solidário foi convertido em Lei em 2004. Em 2002, o então Presidente Ricardo Lagos colocou 48 como desafio de seu governo a eliminação da indigência até o final de seu governo, que seria em 2005. Tal desafio conduziu à criação do Sistema Chile Solidário e do programa Puente. O Programa é dirigido às famílias em situação de indigência e conta com quatro componentes: apoio psicossocial; apoio econômico mensal de proteção à família (cerca de 15 dólares nos primeiros seis meses, 11,5 dólares do 7º ao 12º mês e de 8 e 5 dólares no segundo ano); outros benefícios monetários garantidos, como pensões por velhice, invalidez, deficiência mental, etc.; e acesso preferencial aos programas de promoção social (FONSECA; VIANA, 2007). O programa Chile Solidário busca abordar a pobreza a partir da combinação de dois elementos, considerando a família como elemento central da estratégia: a instalação progressiva de um sistema de proteção social integral para famílias em situação de pobreza e a atenção personalizada às mesmas, a fim de integrá-las às redes de serviços e programas dirigidos a elas. O Programa Chile Solidário atendia mais de 225 mil famílias em 2008 e garantia o acesso aos seis outros programas13 que o compunham, destinados a apoiar as famílias em 53 condições mínimas de qualidade de vida definidas, organizadas em sete categorias, sendo elas: identificação, saúde, educação, dinâmica familiar, habitação, trabalho e renda, sendo que a participação nestes (de acordo com a necessidade particular de cada família) também se configurava como uma condicionalidade para a permanência (NASCIMENTO; REIS, 2009). No Equador, em 2001, o governo tentou eliminar o subsídio universal ao gás e outorgar uma transferência monetária às famílias que viviam em extrema pobreza por meio do programa denominado Bônus de Solidariedade. O subsídio ao gás voltou a ser concedido, porém, o Bônus foi mantido. Em 2002, foi instituído o Bônus de Desenvolvimento Humano, que paga 15 dólares mensais por família, sendo um programa de transferência monetária condicionada: saúde para as famílias com crianças menores de 5 anos e gestantes; educação para crianças e adolescentes entre 6 e 15 anos, com a condição de frequência escolar de 90% (FONSECA; VIANA, 2007). 13 Programa Puente; Programa Vínculos; Programa Calle; Programa Caminos; Programa de Habitabilidad; Programa de Producción Familiar para el Autoconsumo. Além disso, o sistema de proteção social ainda é composto por outros dois tipos de subsídios e dois bônus: Subsidio a la Cédula de Identidad; Subsidio al Pago del Consumo de Agua Potable y Servicio de Alcantarrillado de Aguas Servidas; Bono de Protección para Familias del Chile Solidario; Bono de Egreso para Familias del Chile Solidário 49 Na República Dominicana foi lançado em 2005 o Programa Solidariedade, que visava combater a fome (em torno de 17 dólares para alimentação), incentiva a frequência escolar (4,5 dólares por criança e adolescente em idade escolar - entre 6 e 16 anos) e até quatro por família. Há ainda o Programa República Dominicana com Nome e Sobrenome, que garante o acesso à documentação civil. O Programa Solidariedade se dirige às famílias em situação de extrema pobreza e tem similaridades com o Programa Renda Cidadã (Ingreso Ciudadano) do Uruguai, que se iniciou em 2005 (FONSECA; VIANA, 2007). No Paraguai, o programa Tekoporã (bem estar em guarani) se dirige às famílias em situação de extrema pobreza que residem nas zonas rurais e têm crianças e adolescentes. Lançado em 2005, o programa, que pertence à Rede de Proteção Social, opera com condicionalidades vinculadas à saúde (calendário vacinal, acompanhamento de peso e altura das crianças e acompanhamento de gestantes) e à educação (frequência escolar). Assim como o programa do Chile, há os chamados Guias Familiares que fazem o acompanhamento das famílias (FONSECA; VIANA, 2007). Na Argentina, o programa Jefes y Jefas del Hogar, lançado oficialmente em 2002, destinava–se aos chefes de família sem emprego, com filhos de até 18 anos de idade ou incapacitados (qualquer idade) ou, ainda com o chefe da família ou cônjuge grávida. O programa consistia em um benefício monetário no valor de 50 dólares (150 pesos) com uma dupla condição: crianças e adolescentes nas escolas; participação em atividades de melhorias nas comunidades e que funcionassem como capacitação. O Ministério do Desenvolvimento Social e Meio Ambiente era responsável pelo programa (FONSECA; VIANA, 2007). O programa Jefes y Jefas del Hogar estabeleceu-se como emergencial, com prazo de duração previsto de menos de um ano, acreditando-se que a crise pela qual o País atravessava seria passageira e cuja finalização deveria ter ocorrido em dezembro de 2002, porém foi prorrogado três vezes, originando um amplo debate sobre a pertinência do estabelecimento de um sistema de proteção social permanente (NASCIMENTO; REIS, 2009). Com o início da administração do “casal Kirchner” em 2003, optou-se por uma estratégia gradual de saída do Programa Jefas y Jefes de Hogar Desocupados, mediante a implementação de novos programas, com formulação visando a superar 50 alguns problemas e limitações do programa (NASCIMENTO; REIS, 2009, p. 6). Em fevereiro de 2006, foi anunciada a substituição do Programa por três outros: Familias para la Inclusión Social, Seguro de Empleo y Capacitación e Seguro de Desempleo. De maneira distinta do programa Jefes y Jefas del Hogar, Familias para la Inclusión retira as contraprestações de trabalho e mantém os compromissos com educação e saúde e já não é exclusivamente para os chefes de família desempregados (FONSECA; VIANA, 2007). Entre 2002 e 2007, a Argentina foi o país da América Latina que apresentou os melhores resultados de redução da taxa de pobreza e indigência, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Houve redução de 24,4 pontos percentuais na taxa de pobreza e de 13,7 pontos percentuais na taxa de indigência. Em 2006 os argentinos reduziram os dois indicadores em 5,0 e 1,9 pontos percentuais, respectivamente, contrabalançando os resultados da crise econômica sofrida entre os anos de 1999 e 2002 (SOARES, et al, 2007). No Peru, o Programa Juntos, lançado em setembro de 2005, se dirige às famílias pobres com crianças e adolescentes. As famílias recebem um valor fixo (30 dólares) como incentivo ao cumprimento dos compromissos de participação em alguns programas das áreas de saúde (vacinação, acompanhamento de peso e altura, acompanhamento pré–natal), nutrição (complemento nutricional), educação (frequência escolar) e cidadania, incluindo palestras e acesso facilitado à documentação civil (FONSECA; VIANA, 2007). Em El Salvador, começou em 2005 o Programa Oportunidades, como parte da estratégia social para o período 2004–2009, que se dirige às famílias em situação de extrema pobreza e com crianças e adolescentes (menores de 15 anos) ou com gestantes no momento do cadastramento. O valor do benefício varia entre 15 e 20 dólares por família e o tempo máximo de permanência é de três anos. As coresponsabilidades são: saúde (pré–natal, controle do crescimento e desenvolvimento peso e altura, vacinação completa para os menores de cinco anos); educação: matrícula e frequência escolar (crianças entre 5 e 15 anos) e capacitação quando ofertada (FONSECA; VIANA, 2007). No Panamá, o programa Rede de Oportunidades começou em abril de 2006 e é como os demais programas na América Latina e Caribe, transferindo renda 51 condicionada à educação (frequência escolar) e aos controles de saúde do grupo materno infantil (FONSECA; VIANA, 2007). Os Programas de Transferência de Renda Condicionada na América Latina possuem semelhança de propósitos, pois de modo geral, visam combater a pobreza, focalizando os setores mais vulneráveis de cada país, especialmente os habitantes do meio rural, e incorporam o objetivo mais amplo de promover a acumulação de capital humano. Em função desse objetivo mais amplo é que são exigidas as contrapartidas aos beneficiários, as quais compreendem tipicamente cuidados com a saúde de crianças, mulheres grávidas e nutrizes e escolarização das crianças e adolescentes (DULCI, 2009). Em 2007, os pobres representavam 35,1% do total da população da América Latina, ou seja, 190 milhões de pessoas. Destes, pouco mais de um terço (69 milhões ou 12,7%) dos habitantes estavam abaixo da linha da extrema pobreza e eram considerados indigentes. Embora os dados sejam considerados altos, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão regional das Nações Unidas, que elaborou essas estatísticas, informa que houve uma queda de 9,8 pontos percentuais em relação ao ano de 1990, quando o nível de pobreza atingia 22,5% da população latino americana. Comparando os dados coletados em 2006 com os números levantados pelos técnicos da Cepal em 1990, houve queda de 11,8 pontos percentuais na taxa de pobreza e de 9,1 pontos percentuais na taxa de indigência, significando uma redução de 20 milhões de pessoas em relação à indigência. Foi a primeira vez em menos de duas décadas que o total de pobres cai abaixo de 200 milhões de habitantes (GARSCHAGEN, 2007). Até 2007 houve um avanço médio de 87% na consecução dos objetivos de desenvolvimento do milênio na América Latina e Caribe, dentre os quais está a meta de redução pela metade dos índices de extrema pobreza entre 1990 e 2015. Em pouco mais de dois terços do tempo previsto, cinco países atingiram o objetivo de reduzir a miséria pela metade, sendo eles Brasil, México (que juntos representam mais da metade da população da América Latina), Chile, Equador e Panamá. Os programas de transferência de renda condicionada foram apontados como importantes para a melhoria nos indicadores de pobreza em diversos países, visando reduzir de imediato a falta de recursos das famílias mais pobres e atuar, em médio prazo, no rompimento do ciclo de pobreza, impondo condições às famílias 52 beneficiadas, como exigência de frequência escolar e a utilização de serviços de saúde para a família (GARSCHAGEN, 2007). Estudos comparativos sobre o impacto dos programas de distribuição de renda com condicionalidades constataram que em países onde esses programas adquiriram maior importância, como Brasil, México, Chile e Uruguai, tais programas têm um impacto não só sobre o alívio da pobreza, particularmente da pobreza extrema, mas também têm contribuído para a redução da desigualdade de distribuição de renda, além do empoderamento das mulheres, que administram o dinheiro transferido, pois é de titularidade delas as contas para recebimento dos benefícios (SOARES, 2010). Os Programas de Transferência de Renda Condicionada são responsáveis por uma parte muito pequena da renda total, medidas pelas pesquisas amostrais, em cada país, pois equivalem a pouco menos de 1% no México e no Brasil e menos que 0,1% no Chile, entretanto, como a focalização de tais programas é ótima, o impacto sobre a desigualdade equivale a 21% da queda de 2,7 pontos de Gini observada tanto no Brasil como no México. No Chile, a contribuição foi de 15% de uma queda bem mais modesta de 0,1 ponto de Gini. A diferença nos impactos se deve ao fato de o programa chileno ser muito menor que os programas mexicano e brasileiro (SOARES et al, 2007). Abordados os programas de transferência de renda na América Latina, a próxima seção explanará o principal programa de transferência de renda condicionada no Brasil – o Programa Bolsa Família. 3.3 A IMPLANTAÇÃO DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO BRASIL Os programas de transferência de renda, assim como todas as políticas de Estado voltadas para a área social, são uma conquista da sociedade. No caso do Bolsa Família, uma conquista que ganhou reconhecimento internacional por sua gestão e pelo papel que cumpre dentro de uma rede de proteção e promoção social (ANANIAS, 2007). O Brasil possui um longo histórico de desigualdade, injustiça e exclusão: capitanias hereditárias, sesmarias, latifúndio, Lei de Terras de 1850, escravidão, genocídio indígena, importação subsidiada de trabalhadores europeus miseráveis, autoritarismo e ideologia antipopular e racista das elites nacionais. Não havia 53 preocupação com a democracia social, econômica ou política, além de existir resistência ao reconhecimento de direitos individuais e coletivos (GARCIA, 2003). Historicamente o Brasil tem sofrido com a má distribuição de renda, por ter um grande número de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza, apresentando alto índice de desemprego e analfabetismo. A desigualdade no Brasil é uma das mais elevadas do mundo, na medida em que é um país com renda per capita relativamente elevada e nos últimos 20 anos manteve em média 40% da população abaixo da linha de pobreza (Brasil, 2011a). No Brasil, o modelo de transferência de renda condicionada surge após a promulgação da Constituição Federal de 1988, que implantou o conceito de seguridade social, consagrando uma nova perspectiva de direitos, incorporada definitivamente a partir de 2003, com a criação do Programa Bolsa Família (CASTRO et al, 2008). O Programa Bolsa Família foi criado em 20 de outubro de 2003 pela medida provisória nº 132, e posteriormente, transformado na Lei nº 10.836, de 09 de janeiro de 2004, e regulamentado pelo Decreto nº 5.209, de 17 de setembro de 2004. Atualmente é o principal programa de transferência de renda do Governo Federal, constituindo-se num programa estratégico no âmbito do Fome Zero, que por sua vez é uma proposta de política de segurança alimentar, orientando-se pelos objetivos de combate à fome, à pobreza e às desigualdades por meio de transferência de um benefício pecuniário, associado à garantia de acesso a alguns direitos sociais básicos como saúde, educação, assistência social e segurança alimentar. O Programa visa a promoção da inclusão social, contribuindo para a emancipação das famílias beneficiárias, construindo meios e condições para que elas possam sair da situação de vulnerabilidade (BRASIL, 2011c).As famílias são incluídas como beneficiárias do Programa Bolsa Família através do Cadastro Único, que é um instrumento que identifica e caracteriza as famílias de baixa renda (renda mensal de até meio salário mínimo por pessoas ou renda mensal total de até três salários mínimos). Este instrumento permite conhecer a realidade socioeconômica dessas famílias, trazendo informações de todo o núcleo familiar, das características do domicílio, das formas de acesso a serviços públicos essenciais e, também, dados de cada um dos componentes da família. O Governo Federal, por meio de um sistema informatizado, consolida os dados coletados no Cadastro Único. A partir daí, o poder 54 público pode formular e implementar políticas específicas, que contribuem para a redução das vulnerabilidades sociais a que essas famílias estão expostas. Atualmente, o Cadastro Único conta com mais de 21 milhões de famílias inscritas e é coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), devendo ser obrigatoriamente utilizado para seleção de beneficiários de programas sociais do Governo Federal (BRASIL, 2012a). 3.3.1 Antecedentes O marco inicial da discussão acerca de políticas de transferência de renda condicionada no Brasil ocorreu em 1991, com a aprovação do Programa de Garantia de Renda Mínima (PGRM) pelo Senado Federal, proposto pelo então senador Eduardo Suplicy. Porém, Suplicy atribui a primeira proposta de renda mínima, instituída como imposto de renda negativo, a Antônio Maria da Silveira, em 1975 (PASQUIM; SANTOS, 2007). Anteriormente à implantação do Programa Bolsa Família no Brasil, existiram alguns programas de transferência de renda que exigiam contrapartidas: O Programa Bolsa Família (PBF), criado em outubro de 2003, representa a consolidação desse modelo de programa de transferência de renda no nível nacional. As primeiras experiências foram desenvolvidas em 1995, no Distrito Federal, com o Programa Bolsa Familiar para a Educação, e na prefeitura de Campinas, com o Programa de Garantia de Renda Familiar Mínima. O programa do Distrito Federal se concentrava em transferências para crianças de famílias pobres, entre 7 e 14 anos, e possuía um componente que previa cursos de capacitação profissional para os pais e uma caderneta de poupança para as crianças beneficiárias que só poderia ser sacada ao final do ensino médio. Além disso, era condicionado à frequência escolar. O programa de Campinas protegia famílias em situação de extrema pobreza, com crianças entre 0 e 14 anos. Além da corresponsabilidade de educação, também havia a corresponsabilidade na área de saúde e atividades socioeducativas realizadas por psicólogos e assistentes sociais em reuniões mensais com representantes das famílias beneficiárias. É interessante notar que esses programas municipais tinham alguns componentes que não foram incorporados ao Bolsa Família (e seus antecedentes de escala nacional), mas que aparecem no Progresa – reuniões mensais com beneficiários, as chamadas pláticas – e no Oportunidades – contas de poupança para estimular o término da educação média superior (SOARES, 2010, p. 181). O primeiro programa de transferência de renda condicionada colocado em prática pelo Governo Federal brasileiro foi o Programa para a Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), criado em 1996. Originalmente foi implementado em poucos municípios brasileiros que concentravam crianças em exposição a alto risco de trabalhar em atividades perigosas, como a produção de carvão, pesca marinha artesanal e produção de sisal (SOARES, 2010). 55 Em meados do ano 2000, o Instituto Cidadania reuniu especialistas em políticas sociais com a finalidade de propor um projeto cujo foco fosse a segurança alimentar, entendida como a garantia a todos os brasileiros de acesso a uma alimentação adequada à sobrevivência e à saúde em termos de quantidade, qualidade e regularidade. Deste modo foi proposto o Programa Fome Zero, que se tornou proposta da campanha presidencial de 2002 e prioridade do governo Lula (HEIN, 2005). Como estratégia governamental, segundo Patrus Ananias14 e Frei Betto15: O Fome Zero é uma política pública que visa à erradicação da fome e da exclusão social. É uma política porque expressa a decisão do governo federal de enquadrar o problema da fome como uma questão nacional central e não como uma fatalidade individual. O Estado está alocando recursos humanos e financeiros em praticamente todas as suas áreas de atuação com o objetivo de estender os direitos de cidadania a milhões de brasileiros excluídos. Trata-se, portanto, de uma política pública porque, além do Estado, envolve toda a sociedade. [...] Quando o presidente Lula disse que, se ao final de seu mandato, cada brasileiro tivesse acesso a três refeições diárias, a missão de sua vida estaria cumprida, ele não fazia uma promessa, mas lançava um desafio à sociedade e estabelecia a linha-mestra de um ousado projeto de nação. É por isto que, desde seu lançamento, o Fome Zero alojou-se no espaço comum da mobilização cívica, no qual a sociedade se articula com o Estado (Correio da Cidadania, 2004). O Programa Fome Zero foi um dos pilares da política social do governo Lula, prevendo uma ação integrada de três conjuntos de políticas articuladas entre si: políticas estruturais, políticas específicas e políticas locais. O Programa Bolsa Família situa-se no contexto do Programa Fome Zero e situa-se no contexto das políticas estruturais tendo como função essencial a transferência de renda às famílias em situação de pobreza e extrema pobreza. No início do governo Lula eram executados de forma fragmentada para um público também fragmentado quatro programas de transferência de renda: Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio-Gás e Cartão Alimentação. Depois de ajustes contextuais no novo governo, o Programa Bolsa Família foi lançado oficialmente no dia 20 de outubro de 2003 pelo então Presidente da República Luis Inácio Lula da Silva e pela Secretária Executiva Ana Maria Fonseca (HEIN, 2005), com o objetivo de reduzir a desigualdade social no País. 14 15 Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, com mandato de 23/01/2004 a 31/03/2010. Carlos Alberto Libânio Christo, religioso, teólogo e escritor, militante de movimentos pastorais e sociais, assessor especial do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foi coordenador de mobilização social do Programa Fome Zero. 56 Os programas de transferência de renda condicionados ganharam importância no Brasil em fevereiro de 2001, com a criação do Bolsa Escola sob a responsabilidade do Ministério da Educação, que atendia famílias pobres, com renda per capita inferior a meio salário mínimo, com crianças entre 6 e 15 anos de idade. Ainda em 2001 foram criados outros dois programas: Bolsa Alimentação, vinculado ao Ministério da Saúde, para famílias pobres com crianças entre 0 e 6 anos e/ou mulheres grávidas; e o Auxílio-Gás, benefício não condicional, compensando o fim do subsídio ao gás de cozinha (SOARES, 2010). Em 2001, surgiram o Programa Nacional Bolsa Escola (PNBE), gerido pelo Ministério da Educação e voltado para crianças de 7 a 15 anos e o Programa Bolsa Alimentação (PBA), do Ministério da Saúde (MS), para crianças de 6 meses a 6 anos, gestantes e nutrizes. Ambos tinham como critério de inclusão a renda familiar per capita abaixo de R$ 90,00 e concediam benefícios de R$ 15,00, com máximo de três por família, ou seja, R$ 45,00. No início de 2003, foi criado o Programa Cartão Alimentação (PCA), gerido pelo Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar (MESA), concedendo benefício de R$ 50,00 por família à população com renda inferior a meio salário mínimo per capita. Os três programas alcançaram coberturas expressivas de beneficiários no auge de sua implementação, final de 2003. O PNBE atingiu 8,3 milhões de escolares; o PBA, 2,3 milhões de pré-escolares, gestantes e nutrizes, e o PCA, cerca de 9,9 milhões de pessoas. Os benefícios eram pagos diretamente à população por meio de cartões magnéticos, cabendo aos municípios cadastrar, selecionar as famílias e acompanhar as condicionalidades, que eram frequência escolar de no mínimo 85% para o PNBE, ações de saúde e nutrição para o PBA e controle de notas fiscais de compra de alimentos para o PCA (PASQUIM; SANTOS, 2007). O Programa Bolsa Família unificou os atos e procedimentos de gestão de antigos programas de transferência de renda do Governo Federal, chamados Programas Remanescentes, quais sejam: a) Bolsa Escola, instituído pela Lei nº 10.219, de 21 de abril de 2001; b) Bolsa Alimentação, instituído pela Medida Provisória nº 2.206, de 6 de setembro de 2001; c) Auxílio Gás, instituído pelo Decreto nº 4.102, de 24 de janeiro de 2002; e d) Cartão Alimentação, instituído pela Lei nº 10.689, de 13 de junho de 2003. Cada um desses programas estava sob a responsabilidade de um órgão específico, o que dificultava ou inviabilizava a 57 coordenação de ação de caráter intersetorial para o combate à pobreza. A unificação dos programas sociais de transferência de renda reduziu os custos gerenciais e as duplicidades de pagamentos, além de possibilitar melhorias significativas na gestão (BRASIL, 2011b). 3.3.2 O Programa Bolsa Família: condicionalidades e abrangência O Programa Bolsa Família difere bastante dos outros programas de transferência de renda condicionados por não utilizar nenhuma aproximação de provas de meio (proxy means test) para a seleção dos beneficiários. A focalização do Bolsa Família se dá a partir de cotas calculadas através de mapas de pobreza do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseado na habilidade dos gestores municipais e dos trabalhadores sociais em localização das famílias pobres nos municípios. A elegibilidade para o cadastro no Programa Bolsa Família é determinada pelo cálculo da renda per capita da família a partir de sua renda autodeclarada (SOARES, 2010). Três eixos principais pautam o Programa Bolsa Família: 1) transferência de renda, promovendo o alívio imediato da pobreza; 2) condicionalidades, que reforçam o acesso a direitos sociais básicos nas áreas de educação, saúde e assistência social; e 3) programas complementares, que têm por objetivo o desenvolvimento das famílias, para que os beneficiários tenham condições de superar suas situações de vulnerabilidade (BRASIL, 2011c). É baseado no modelo de transferência de renda condicionada, sendo motivo de controvérsia entre os atores que discutem a proteção social no Brasil. Tal modelo de intervenção teve origem nos anos 1990, sendo implantado em diversos países da América Latina e Caribe. Entretanto, tais os programas apresentam peculiaridades, dependendo de cada contexto nacional (CASTRO et al, 2008). O foco do Programa Bolsa Família são os grupos mais vulneráveis da população, que encontravam grande dificuldade de acesso aos serviços e benefícios sociais de que necessitam. A principal finalidade do Programa seria desenvolver uma estratégia que facilitasse o acesso das famílias mais pobres aos serviços e benefícios oferecidos pelo Estado nas áreas da saúde, educação, habitação e distribuição de renda. Deste modo, o Bolsa Família imputou condicionalidades para 58 que fossem cumpridas atribuindo ao poder público a responsabilidade de provedor do acesso à saúde e à educação (BRASIL, 2011c). Em relação à abrangência do Programa Bolsa Família, até abril de 2012, eram mais de 13 milhões de famílias atendidas, conforme mostra o Quadro 1: QUADRO 1 - ESTIMATIVA DE FAMÍLIAS ATENDIDAS PELO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA EM ABRIL/2012 FONTE: BRASIL, 2011c. O Mapa 1 mostra cobertura do Programa Bolsa Família no ano de sua implantação (2004) e no ano de 2011. MAPA 1 - FAMÍLIAS BENEFICIADAS PELO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO BRASIL EM 2004 E EM 2011 FONTE: BRASIL, 2011c. Em relação à importância do Programa Bolsa Família na redução da desigualdade e na interrupção do ciclo de pobreza: 59 A baixa escolaridade é o principal empecilho para que ocorra menor disparidade entre ricos e pobres, e o que chama a atenção é que esta pobreza é transmitida de pai para filho, ocorrendo um ciclo de geração em geração. Isso quer dizer que os filhos de pais pobres têm mais chances de serem pobres, e quando crescerem e tiverem seus filhos, eles terão grandes chances de serem pobres também. Deve ocorrer um rompimento neste ciclo, por isso a Educação e a Saúde vêm como condicionalidade na constituição do Programa Bolsa Família, partindo do princípio de que quem tem mais anos de estudos ganham as melhores rendas e tem acesso a melhor saúde (BRASIL, 2011b). No período entre 2003 e 2004 houve redução da desigualdade social (20% devido aos programas de transferência de renda), e apesar da significativa contribuição do sistema de proteção social para a redução da pobreza, o maior responsável pelo aumento da renda das famílias foi o mercado de trabalho, que reduziu significativamente a pobreza e a indigência no período, mas não reduziu significativamente a desigualdade (BRASIL, 2011b). Os Programas de Transferência de Renda são importantes mecanismos para o enfrentamento da pobreza e redução da desigualdade social em todo o Brasil, na medida em que possibilitam a dinamização da economia, principalmente em pequenos municípios com economia pouco desenvolvida e escassez de emprego (INEP, 2010). Sobre a abrangência do Programa Bolsa Família: O Bolsa Família atendia até junho de 2006, 11,1 milhões de famílias, com orçamento para o ano de 2007 de R$ 8,3 bilhões. A estimativa de famílias pobres no Brasil, segundo dados oficiais, é 11.206.212 milhões, o que significa que mais de 99% já se encontram atendidas, representando a universalização do programa em relação às famílias pobres do Brasil. O valor médio da transferência monetária recebida por essas famílias é de R$ 60,26 (BRASIL, 2011b). Em relação à efetividade do Programa Bolsa Família no combate à pobreza, o Programa é mais efetivo que o aumento do salário mínimo, conforme sugerem Costa e Salvato (2011): Comparando os benefícios do BF com os do aumento do salário mínimo (SM), para que o programa gerasse impacto equivalente ao observado pelo aumento de 10% no SM seria necessário elevar os gastos do primeiro em 52%, aumentando os gastos governamentais em R$ 2,3 bilhões, sendo que o custo desta expansão é “40% do que seria necessário para financiar um aumento de 10% no SM, portanto o Bolsa Família é um instrumento 2.5 vezes mais efetivo que o SM no combate à pobreza” (COSTA; SALVATO, 2011, p.3-4). Em relação à redução da desigualdade, o Bolsa Família também é mais efetivo que o salário mínimo, conforme elucidam Costa e Salvato (2011): Para o caso da extrema pobreza, a efetividade do Bolsa Família quando comparado ao SM é ainda maior: o programa mostra-se seis vezes mais efetivo que o SM. Já 60 com relação à desigualdade, seria suficiente aumentar as transferências em 80% para chegar ao mesmo resultado do SM, o que equivale a um gasto de R$ 3,5 bilhões anuais; logo, percebe-se que o Bolsa Família é 2,5 vezes mais efetivo do que o SM na redução da desigualdade. Ao mudar a medida de desigualdade do índice de Gini para a razão entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres, percebese que a eficácia do Bolsa Família aumenta: este mostra-se 5 vezes mais efetivo que o SM (COSTA; SALVATO, 2011, p. 3-4) De modo geral, o programa de transferência de renda Bolsa Família aponta resultados positivos para a população brasileira, entretanto, os valores repassados não possuem a característica de elevar o indivíduo acima da linha de pobreza, fazendo que não ocorram grandes variações neste indicador, pois no caso de uma família com renda zero, esta receberá no máximo R$120,00; considerando uma linha de pobreza de meio salário mínimo, esta família está longe de ultrapassá-la, sendo contabilizada como pobre. Para manutenção desta política é necessário aperfeiçoamento, aumento da cobertura, controle de fraudes e implementação de incentivos aos beneficiários, para que estes possam ser reinseridos no setor produtivo gerando maior emprego e renda e diminuindo a desigualdade (BRASIL, 2011c). Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizado pelo Núcleo de Pesquisas Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) em março de 2006, mostrou que o Programa Bolsa Família traz um aspecto positivo relacionado ao acesso ao crédito. Aproximadamente 1/3 dos entrevistados respondeu que o crédito da família com os comerciantes locais melhorou após o ingresso no Bolsa Família. A facilidade de crédito, segundo a pesquisa, viabilizou possibilidades concretas de melhoria da qualidade de vida das famílias, apesar das inúmeras limitações impostas pela condição de pobreza (BRASIL, 2011b). Apontado pelo Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio como importante articulador para reduzir as desigualdades em diversas áreas como saúde, educação, combate à fome e desenvolvimento social, o Programa Bolsa Família ainda reduz as desigualdades de forma desigual, na medida em que o gênero, a raça, a etnia e o local do nascimento de uma criança no Brasil ainda determinam suas oportunidades futuras (IPEA, 2011a). Há críticas e elogios em relação ao Programa Bolsa Família. Barros (2011) questiona se intervenções prolongadas para alívio da pobreza são efetivas. Há defesa de tais intervenções, que reforçam o acesso aos direitos sociais da 61 população carente e rompem com o ciclo de transmissão da pobreza. Segundo estudo realizado por técnicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, os recursos absorvidos pelos programas sociais de transferência de renda e com a previdência social são os principais responsáveis pelo crescimento dos gastos públicos nos últimos anos. Muitos críticos reconhecem a importância dos efeitos positivos do Programa para a melhoria da vida das famílias mais pobres, entretanto, acreditam que o Programa é insuficiente para alterar o quadro de desigualdade social no País (BRASIL, 2011b). A transferência de renda realizada pelo Programa Bolsa Família não mostra mudanças imediatas na redução estrutural da pobreza, pois seu objetivo é o alívio imediato da insuficiência de renda, entretanto, suas condicionalidades propiciam o fortalecimento do acesso à educação e à saúde, contribuindo para a ruptura do ciclo intergeracional da pobreza (BRASIL, 2009). Discorrido sobre o Programa Bolsa Família no Brasil, o próximo capítulo abordará o caso do Paraná e os aspectos do Programa Bolsa Família no Estado. 62 3 CONTEXTUALIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA DO ESTADO DO PARANÁ NO CENÁRIO BRASILEIRO O Capítulo 4 tratará do Estado do Paraná, foco principal desta pesquisa. Localizado numa das regiões mais desenvolvidas do Brasil e com bons indicadores sociais e econômicos, o Estado convive com altos padrões de pobreza. O Paraná possui dez mesorregiões geográficas, sendo que três delas concentram em sua população mais de 30% das famílias pobres (Centro-Sul, Sudeste e CentroOcidental), enquanto outras três concentram mais de 50% das famílias pobres em todo o Estado (Metropolitana de Curitiba, Norte-Central e Oeste). O capítulo será estruturado em duas seções. A primeira seção contextualizará o Estado do Paraná, com seus aspectos demográficos, econômicos e estruturais mais importantes. A segunda seção tratará da pobreza no Estado, da localização geográfica das famílias pobres e o padrão de vulnerabilidade das famílias. 4.1 GEOGRAFIA, ECONOMIA E INFRAESTRUTURA O Estado do Paraná situa-se na Região Sul do Brasil, fazendo fronteira com os estados de São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, com a Argentina e o Paraguai e limite com o Oceano Atlântico. Sua área geográfica é de 199.880 km², conforme mostra o Mapa 2. A população no Estado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com base no Censo 2010 é de 10.444.526 habitantes, concentrada predominantemente na Região Metropolitana de Curitiba (IPARDES, 2012) 63 MAPA 2 - LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA DO ESTADO DO PARANÁ FONTE: IPARDES, 2012 No século XVII o Paraná passou a pertencer à Coroa Portuguesa, datando desta época a fundação das primeiras cidades: Paranaguá no litoral e Curitiba no primeiro planalto. A ocupação do Estado foi lenta e esparsa nos séculos XVIII e XIX, com as atividades econômicas centradas na agricultura de subsistência, dominada por latifúndios e sociedade escravagista. O comércio de mulas e arrendamento de terras para invernada de rebanhos vindos do extremo sul do País faz com que se multipliquem as cidades e vilarejos ao longo dos caminhos que cortavam o Estado, surgindo assim, antigas cidades paranaenses, como Palmas, Lapa, Ponta Grossa, Castro, Jaguariaíva e Guarapuava, situadas nos segundo e terceiro planaltos. A exploração de erva-mate e o comércio de tropas no século XIX tornaram-se as principais atividades econômicas, sendo responsáveis por importantes modificações econômicas e demográficas no Paraná (SWAIN, 2006). A imigração contribuiu para a instalação de pequenas e médias propriedades agrícolas, responsáveis pelo abastecimento das cidades. Por iniciativa do governo regional, foram distribuídos lotes rurais, na tentativa de compensar o déficit da produção alimentar, decorrente da substituição das atividades agrícolas 64 pelas atividades de comércio e de exportação. A partir de 1880, passa a ocorrer uma colonização privada, e as colônias próximas às cidades e vilarejos já estabelecidos prosperam, enquanto que muitas se desintegram e desaparecem, em virtude do isolamento e da falta de infra-estrutura, comunicação e transporte. Deste modo, o povoamento se concentra em torno das cidades antigas, especialmente no leste do Estado, sendo que no início do século XX, aproximadamente 2 /3 do território paranaense ainda se encontravam praticamente desertos (SWAIN, 2006). A região Sul do Brasil, até os anos 1830, não participava da produção cafeeira. Por volta de 1860, o café aparece timidamente no norte do Paraná e se estende lentamente. A proximidade com o Estado de São Paulo propicia condições de mercado que permitem a quebra do isolamento a despeito das dificuldades de transporte, e a partir dos anos 1930-1940, a economia cafeeira atinge o Paraná, e este passa a representar a principal fronteira agrária e agrícola do País (SWAIN, 2006) No início do século XX, com a finalidade de evitar crises de superprodução, o governo do Estado de São Paulo passou a taxar todas as novas plantações de café no Estado, favorecendo a expansão do café em direção ao território vizinho (Paraná). A partir de 1940, a população paranaense aumenta de forma rápida, atraída pelo café, chamado de ouro verde. Os preços da terra eram baixos quando comparados aos preços praticados em São Paulo. A colonização organizada favoreceu a implantação de estradas e caminhos ligando as cidades, estimulando a produção e o comércio (SWAIN, 2006). Entre 1940 e 1950, o Estado do Paraná teve um aumento de 71% de sua população, sendo que ¾ desta população estava concentrada na zona rural. Entre 1950 e 1960, décadas de maior afluxo migratório, a população paranaense cresceu 105%. Nos anos 50, num total de 2.124.266 migrantes brasileiros, vindos principalmente de Minas Gerais, Espírito Santo e do Nordeste, 45% foram acolhidos pelo Paraná, motivados pela alta dos preços do café e expansão dos programas de colonização, fazendo com que o Paraná se tornasse o maior produtor de café do Brasil. O aumento da produção do café no Paraná propiciou também o aumento da produção agrícola diversificada, especialmente baseado em culturas alimentares, desenvolvendo-se assim, inúmeras pequenas propriedades agrícolas (SWAIN, 2006). 65 Os anos 60 são permeados por profundas transformações políticas, econômicas e sociais em todo o Brasil. Em 1964, com a tomada do poder pelos militares, inicia-se a modernização econômica, especialmente no setor agrícola, visando a diversificação das exportações agrícolas, que até então era exclusivamente cafeeira. A produção do café começa a se estafar, em virtude de colheitas cada vez mais abundantes, acarretando queda de preço. Na época, toda a produção era comprada pelo governo brasileiro através do Instituto Brasileiro do Café, que a exportava em seguida. Logo esta operação tornou-se deficitária, sendo necessário queimar ou estocar toneladas de excedente da produção (SWAIN, 2006). Em 1963 o governo militar inicia uma política de racionalização da produção, objetivando reduzir as áreas de cultivo e eliminação dos cafezais por meio de pagamento aos produtores para substituição do café por outros produtos agrícolas. O Paraná foi diretamente afetado por tal política, uma vez que era o maior produtor de café do País. Em 1975, o Estado reduzira 47% das plantações cafeeiras, acarretando também a redução de culturas secundárias de subsistência, como milho, feijão e arroz (SWAIN, 2006). Aliado a estes fatos, no dia 18 de julho de 1975, uma forte geada, conhecida como geada negra, dizimou todas as plantações de café do Paraná, provocando o êxodo de cerca de 2,6 milhões de pessoas. Antes da geada, a safra de 1975 já havia sido colhida, e o Paraná fora responsável por 48% da produção nacional. Após a geada, em 1976, a participação paranaense na produção nacional de café caiu para 0,1%. O estrago seria duradouro, pois nos dias seguintes à geada negra, o então governador Jayme Canet Júnior anunciou redução de 20% no orçamento do Estado no ano seguinte. Na cotação feita por especialista na época, o prejuízo chegou a US$ 75 milhões apenas nas lavouras cafeeiras, mas outras culturas também foram afetadas (PANOBIANCO, 2011). Sobre o impacto da geada de 1975 e a substituição da cultura de café, Fajardo (2007, p. 89-101), salienta: A crise na cafeicultura instala-se reforçada real e simbolicamente pelas constantes geadas que iam destruindo os cafezais (com destaque para o ano de 1975). Foi esse o período em que as lavouras “modernas” (principalmente soja e trigo) desenvolvem-se decisivamente em substituição ao café. E foi essa a orientação das políticas públicas do governo brasileiro: desestimular a continuidade da cafeicultura (que encontra reforço nas geadas) (FAJARDO, 2007, p. 89-101). 66 A construção da Usina de Itaipu no oeste do Estado, no período de 1975 a 1982, gerou uma demanda por terra ao obrigar pelo menos 8 mil agricultores a deixarem suas propriedades. Tal demanda não tinha como ser suprida na região. Culturas tradicionais no Estado, como o trigo e o algodão passaram a sofrer com o clima e a conjuntura econômica. A geada ocorrida em 1983 repetiu em escala menor para os produtores de trigo o estrago que os cafeicultores experimentaram oito anos antes. Produtores de Cornélio Procópio, Loanda, Maringá, São Miguel do Iguaçu e Engenheiro Beltrão começaram a buscar terras planas e baratas ao Norte do País, iniciando movimento migratório ao longo dos anos 80, que fez com que o Estado perdesse 13% de sua população (PANOBIANCO, 2011). O Estado do Mato Grosso foi um dos principais destinos dos agricultores paranaenses após a geada de 1975. A magnitude da migração pode ser avaliada pelos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), feita pelo Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE) em 2001, que mostrou a presença de 248 mil pessoas residentes no Mato Grosso que declaravam ter nascido no Paraná (9,6% da população mato-grossense, o maior contingente de migrantes no Estado), sendo que 68% deles viviam em áreas rurais (SWAIN, 2006). A produção de alimentos é drasticamente reduzida no Paraná, gerando graves consequências para o abastecimento estadual e nacional. Nos anos 70, as consequências são intensamente sentidas, quando a importação de gêneros alimentícios como feijão e arroz se faz necessária. A erradicação cafeeira no Paraná acarreta transformações econômicas no setor agrícola, levando a maior mecanização e mudanças nos fatores de produção. A soja passa a ser a cultura ideal para substituir o café, por ser fácil de cultivar, totalmente mecanizável, além de receber incentivos fiscais e apoio governamental para seu cultivo (SWAIN, 2006). Sobre a importância da soja na modernização da agricultura paranaense, Fajardo (2008) elucida: É justamente a cultura da soja o fator mais representativo da modernização na agricultura paranaense, especialmente no Norte do Estado. O sucesso da soja em substituição ao café no Norte do Paraná, se deve à condição de essa cultura possuir: inovações pré-adquiridas como sementes selecionadas; um processo de produção totalmente mecanizado desde o plantio até a colheita; a capacidade de aliar interesses, que impulsionaram o seu cultivo: o das indústrias processadoras e exportadoras do produto e do Estado que teve incluído um produto de grande aceitação na pauta de suas exportações (FAJARDO, 2008, p. 31-34). 67 Do ponto de vista da mão de obra, a expansão do cultivo de soja foi negativa, gerando desemprego no campo, êxodo rural e empobrecimento das pequenas propriedades, pois enquanto a cultura do café emprega em média 30 pessoas, a de soja não necessitava mais do que uma. Surge assim uma nova categoria de trabalhadores agrícolas no Paraná, os volantes, que migravam segundo as necessidades da estação, sem residência fixa, sem contrato de trabalho, bóiasfrias que moravam nas periferias e trabalhavam por tarefas ou empreitadas (FAJARDO, 2008). Uma onda migratória rumo a outros estados e cidades toma conta do Paraná, na tentativa de fugir da pobreza crescente, da concorrência impossível com os grandes produtores, da falta de crédito e do excesso de mão-de-obra disponível no estado. Rondônia passa a tomar o lugar ocupado pelo Paraná a partir da década de 70, tornando-se o centro de acolhida dos migrantes vindos de todo o Brasil, por ser zona de fronteira agrícola. Dos 390.000 migrantes que foram para Rondônia na primeira onda migratória nos anos 70, aproximadamente 30% eram originárias do Paraná, atraídos pela distribuição de terras públicas e compra de lotes a preços baixos, entretanto, as dificuldades são agravadas pelo clima extenuante, doenças tropicais, isolamento e falta de infraestrutura, com colonização precária e desordenada. Apesar do custo mais elevado das terras, migrantes originários do Paraná com algum recurso financeiro vão para o Mato Grosso, em virtude de a colonização privada oferecer condições mais favoráveis de instalação (SWAIN, 2006). Ao longo da década de 90, a agricultura no Paraná também passou por profundas transformações, seguindo a tendência da economia nacional. A safra 2001/2002 correspondeu a 21,77% da safra nacional no período, não obstante a crise fiscal do Estado brasileiro, que reduziu drasticamente o financiamento agrícola no período, evidenciando que a agricultura comercial, responsável pela maior parte da produção de grãos no Estado não depende exclusivamente de crédito rural oficial, mas de instrumentos alternativos de financiamento (IPARDES, 2003b). A agroindústria é fortemente vinculada ao financiamento da produção agrícola, excluindo segmentos integrantes de cadeias produtivas pouco organizadas, em geral quase que exclusivamente destinadas ao consumo doméstico. As 68 mesorregiões Norte-Central, Oeste e Centro Ocidental responderam, em 2001, por 46,3% do total do Valor Bruto da Produção (IPARDES, 2003b). É inegável a importância do agronegócio para a economia paranaense, entretanto, inúmeros municípios alicerçados em torno das regiões onde ele é bem desenvolvido estão excluídos econômica e socialmente, associado ao fato de apresentarem administrações frágeis e engessadas por dificuldades financeiras e de gestão, sendo necessário encontrar e estimular melhores condições de produção e a própria identidade, evitando uma desagregação social e a destruição das condições ambientais (IPARDES, 2003b). Sobre a importância das cooperativas agropecuárias para o agronegócio paranaense, Fajardo (2008) explica: [...] as cooperativas agropecuárias surgem como uma das formas alternativas à inserção na modernização tecnológica do campo. Ao mesmo tempo, elas acabam também por incorporar os produtores à lógica e dinâmica do Complexo Agroindustrial. Ao ingressar em atividades agroindustriais as cooperativas vão buscar fortalecimento agregando valor aos produtos primários, e ampliando sua participação nas cadeias produtivas. E atingindo seus objetivos primários as cooperativas também atendem aos interesses do Estado, de um lado como instrumento da penetração do capitalismo no campo e de outro desencadeando um desenvolvimento econômico regional, segundo o modelo agroindustrial-exportador, implantado nos anos de 1970 (FAJARDO, 2008, p. 31-34). No setor dos agronegócios, o Paraná é sede de importantes cooperativas agropecuárias, conforme mostra a Tabela 2. Entre as 400 maiores empresas brasileiras do setor do agronegócio, 19 são cooperativas do Paraná. Elas faturaram em 2008, R$ 14,9 bilhões, conforme levantamento feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi/USP) para o Anuário Exame de Agronegócio 2008-2009 (GASPARIN, 2011). As cooperativas paranaenses que merecem destaque são: Coamo, de Campo Mourão; C.Vale, de Palotina; Lar, de Medianeira; Cocamar, de Maringá; Integrada, de Londrina; Agrária, de Guarapuava; Batavo, de Carambeí; Castrolanda, de Castro, dentre outras. As cooperativas agropecuárias paranaenses têm uma receita superior representando cerca de 55% do PIB agrícola do Paraná. a R$ 21 bilhões, 69 TABELA 2 - POSIÇÃO E FATURAMENTO DAS COOPERATIVAS PARANAENSES CITADAS ENTRE AS 400 MAIORES EMPRESAS DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO – 20082009. Colocação Cooperativa Vendas em R$ milhões Crescimento 18 Coamo 3.494,8 31,2% 50 C. Vale 1.479,4 39,8% 68 Lar 1.180,9 125% 70 Agrária 1.110,7 38% 72 Cocamar 1.077,9 21,9% 78 Integrada 928,7 21,2% 102 Coopavel 742,7 23% 104 Copacol 726,2 13,8% 112 Castrolanda 653,1 20% 118 Batavo 620,8 32,1% 119 Frimesa 613,5 12% 131 Corol 542,2 3,6% 159 Copagril 425,6 42,2% 167 Cocari 393,7 28,5% 186 Confepar 353,8 43,2% 230 Coasul 279,3 51,6% 295 Coagru 183,3 26,3% 311 Cofercatu 162,1 8,5% Total 14.968,70 26,05 (crescimento médio) FONTE: Anuário Exame, 2009. Sete eixos de oportunidade ancoram a expansão quantitativa e qualitativa da capacidade produtiva do Estado: 1) o fortalecimento da produção familiar rural; 2) a modernização do agronegócio, com forte presença das cooperativas; 3) o potencial de complementaridade da indústria metal-mecânica/automobilística; 4) a ampliação quantitativa e qualitativa do complexo madeireiro e papeleiro; 5) a expansão da fronteira internacional, incluindo o Mercosul; 6) ações voltadas para o melhor aproveitamento das vocações; e 7) o desenvolvimento das aptidões regionais e a retaguarda infraestrutural, otimizando o tripé transportes, energia e telecomunicações (IPARDES, 2003b). A agricultura familiar é uma ferramenta utilizada para a redução da fome, sendo amplamente incentivada pelo Fome Zero. O Paraná apresenta em todas as mesorregiões a agricultura em regime de economia familiar. Entretanto, apesar de sua grande importância, nas últimas décadas tal regime vem apresentando fragilidade, devido à redução no número de estabelecimentos rurais (IPARDES,2003b). As mesorregiões que apresentam maior presença da agricultura familiar no Estado são: Sudoeste, Oeste, Sudeste e Metropolitana de Curitiba, sendo áreas responsáveis por ¾ do pessoal ocupado. Contudo, a agricultura familiar dispõe de menos de 1/3 da área agrícola no Paraná, mostrando o desequilíbrio na distribuição de terra, fator que contribui significativamente para a pobreza dos agricultores 70 familiares, que em virtude da escassez de terra não conseguem gerar renda suficiente para suprir suas necessidades básicas (IPARDES, 2003b). Também há desequilíbrio nas condições de produção na agricultura familiar quando comparadas com a agricultura empresarial. Esta dispõe de tecnologia e mão de obra mecânica, fatores que otimizam a produção, enquanto aquela ainda utiliza força animal na maioria das propriedades e não dispõe de renda para modernizar a força mecânica. Soja e cana-de-açúcar, que são alguns dos principais produtos agrícolas produzidos no Paraná possuem maior vinculação à agroindústria, enquanto que produtos que exigem intensa mão de obra, como frutas, fumo e café são destacados na agricultura familiar (IPARDES, 2003b). A agropecuária tem importante contribuição na economia no Estado do Paraná, sendo este o maior produtor nacional de grãos, apresentando uma pauta agrícola diversificada, em virtude de avançadas técnicas agronômicas utilizadas no estado, com destaque em termos de produtividade (IPARDES, 2012). A Tabela 3 mostra os principais produtos agrícolas do Estado e sua participação na safra nacional. TABELA 3 - PRINCIPAIS PRODUTOS AGRÍCOLAS NO PARANÁ – 2010 PRODUTO QUANTIDADE (toneladas) PARTICIPAÇÃO PARANÁ/BRASIL (%) Cana-de-acúcar 48.360.397 6,7 Milho 13.567.096 24,2 Soja 14.091.829 20,6 Trigo 3.442.660 57,0 Feijão 792.010 24,7 FONTE: IPARDES, 2012. A economia paranaense é a quinta maior do País, ficando atrás de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O Estado responde atualmente por 6% do PIB nacional, registrando uma renda per capita de R$ 21,1 mil em 2010, acima do valor de R$ 19,3 mil referente ao Brasil. A Tabela 4 mostra o PIB do Estado de 2000 a 2010 e faz uma estimativa para 2011: 71 TABELA 4 - PRODUTO INTERNO BRUTO DO PARANÁ NO PERÍODO DE 2002 A 2010 E ESTIMATIVA PARA 2011 ANO PARANÁ BRASIL PARTICIPAÇÃO Preços correntes Preços correntes PARANÁ/BRASIL (R$ milhão) (R$ milhão) (%) 2002 88.407 1.477.822 6,0 2003 109.459 1.699.948 6,4 2004 122.434 1.941.498 6,3 2005 126.677 2.147.239 5,9 2006 136.615 2.369.484 5,8 2007 161.582 2.661.345 6,1 2008 179.263 3.032.203 5,2 2009 189.992 3.239.404 5,9 (1) 2010 226.071 3.770.085 6,0 (1) 251.579 4.143.013 6,1 2011 FONTE: IPARDES, 2012. (1) Estimativa do Ipardes para o PIB do Paraná Em relação ao interior do Estado, Londrina e Maringá, têm forte presença da agroindústria e nos serviços. Em Foz do Iguaçu sobressaem as atividades ligadas ao turismo e à produção de energia elétrica. Na região litorânea, Paranaguá tem um PIB significativo devido às atividades portuárias (IPARDES, 2012). A Tabela 5 mostra as dez maiores economias do Estado. TABELA 5 - AS MAIORES ECONOMIAS NO PARANÁ EM 2009 MUNICÍPIO PIB (R$ mil correntes) Curitiba 45.762.418 Araucária 11.962.877 São José dos Pinhais 11.511.811 Londrina 8.884.459 Maringá 7.284.401 Foz do Iguaçu 6.702.200 Paranaguá 5.443.256 Ponta Grossa 5.072.749 Cascavel 4.991.770 Toledo 2.456.512 Outros municípios 79.949.496 PARANÁ 189.991.949 FONTE: IPARDES, 2012. PARTICIPAÇÃO (%) 24,1 6,3 6,1 4,7 3,8 3,5 2,9 2,7 2,6 1,3 42,1 100,0 Para fins de divulgação das estatísticas institucionais, o Brasil e os estados estão divididos em mesorregiões geográficas (Mapa 3). As mesorregiões se subdividem em microrregiões geográficas, sendo que a menor unidade territorial para a composição dessas subdivisões é o município (unidade políticoadministrativa). Logo, um conjunto de municípios forma uma microrregião e um conjunto de microrregiões forma uma mesorregião e não existem mesorregiões que pertençam a mais de um estado e nem municípios que pertençam a mais de uma microrregião (PARANÁ’S, 2010). 72 MAPA 3 - MESORREGIÕES GEOGRÁFICAS NO ESTADO DO PARANÁ - 2010 FONTE: IPARDES, 2012. Mapas. Base física e política. Mesorregiões Geográficas (IBGE) – Paraná As regiões metropolitanas de Curitiba, Maringá e Londrina, bem como o município de Foz do Iguaçu serão mais bem detalhados pelo fato de terem uma das maiores economias e populações do Estado, além de concentrarem bolsões de pobreza. A Mesorregião Norte Central do Paraná localiza-se num raio de 120 km que liga as cidades de Londrina e Maringá e possui 71 municípios. Constituem-se em um pólo de atração de outras áreas da região Norte do Paraná e de áreas vizinhas do estado de São Paulo e do Mato Grosso do Sul, com uma população de mais de três milhões de habitantes, colonizada e desenvolvida a partir da cafeicultura. Entretanto, condições climáticas adversas propiciaram grande quebra da safra de café na metade dos anos 70, fazendo com que as plantações de café praticamente desaparecessem da região, sendo substituída por outras culturas agrícolas, especialmente plantações de soja e pecuária, tornando a mesorregião Norte Central um dos pólos agrícolas mais importantes do País (PARANÁ’S, 2010). Esta mesorregião, sobretudo o eixo Londrina-Maringá, apresenta notável tradição de organização agrícola em grandes cooperativas, além de apresentar a 73 segunda maior concentração industrial do Estado. Tais indústrias estão estreitamente relacionadas ao agronegócio e aos mercados urbanos, com predomínio das atividades moveleira, têxtil, alimentícia, de plásticos e mecânico, entre outras, além de importante crescimento no setor de serviços, em decorrência da crescente urbanização apresentada pela mesorregião (PARANÁ’S, 2010). A Região Metropolitana de Londrina foi instituída pela Lei Complementar Estadual 81, de 17 de Junho de 1998, sendo formada pelos Municípios de Londrina, Cambé, Rolândia, Ibiporã, Sertanópolis, Bela Vista do Paraíso, Jataizinho, e Tamarana (Prefeitura de Londrina), conforme mostra o Mapa 4. Possui área territorial de 4.288,626 Km2, e segundo estimativas do IBGE em 2010, é composta por 764.348 habitantes, sendo que 107.203 pessoas encontram-se em situação de pobreza (IPARDES, 2011b): MAPA 4 - REGIÃO METROPOLITANA DE LONDRINA FONTES:Ipardes (2011b). O Município de Londrina é constituído pelo Distrito Sede e por 8 Distritos Rurais (Espírito Santo, Guaravera, Irerê, Lerroville, Maravilha, Paiquerê, São Luiz e Warta), sendo que a área rural representa 90% da área territorial do Município que têm uma área oficial de 1.715, 897 km² (Prefeitura de Londrina. Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento). Devido à extensa área rural, a economia da Região Metropolitana de Londrina baseia-se no setor agropecuário. Atualmente, dentre as atividades dominantes estão a avicultura, a pecuária bovina e a produção de soja, de trigo, de milho, cana-de-açúcar e café em menor significância (PIRES et al, 2006). 74 Há grande desproporção entre habitantes da zona rural e urbana, uma vez que as principais atividades econômicas, como a soja e a pecuária bovina, demandam baixa utilização de mão de obra, associado à crescente mecanização das lavouras, que fez com que boa parte da população urbana destes municípios esteja empregada na produção agrícola como trabalhadores rurais volantes, isto é, como mão de obra utilizada apenas em fases específicas da produção, na época do plantio e da colheita, permanecendo desempregada ou em subempregos na maior parte do ano (PIRES et al, 2006). No setor secundário da economia, Cambé figura como o município mais industrializado, contando, com cinco distritos ou áreas industriais e 600 estabelecimentos, 59,83% deles ocupando uma área de 101 a 500 m2 (médio e grande porte). De acordo com o IBGE, predomina no município a indústria química, mecânica, de matéria plástica, de produtos alimentares e de bebidas, justificando a grande proporção de residentes na zona urbana. Algumas atividades industriais estão presentes nos demais municípios da Região Metropolitana, acrescidos da indústria têxtil, de produtos minerais não metálicos, de vestuário, de mobiliário e de couros, peles e produtos similares (PIRES et al, 2006). Em relação ao setor terciário, a participação no PIB dos municípios em 2006 foi de 21,41% em Cambé, 61,57% em Ibiporã, 55,66% em Jataizinho, 75,68% em Londrina, 68,52% em Rolândia e 31,64% em Tamarana. O maior percentual é o de Londrina, associado ao fato de a mesma figurar como cidade pólo da região, principalmente referente ao setor de serviços. Há grande afluxo de moradores da região, não só da Região Metropolitana, mas das cidades vizinhas, para utilização de seu forte comércio, que conta com 5.745 estabelecimentos varejistas, 719 atacadistas e 1.232 estabelecimentos de serviços (PIRES et al, 2006). Apesar de os municípios da Região Metropolitana de Londrina possuírem PIB per capita considerados altos (R$ 1.249,12 em Jataizinho a R$ 3.968,23 em Rolândia), este alto PIB per capita não se reflete na renda dos habitantes da região. Dentre os 535.602 habitantes com mais de 10 anos, 194.202 não possuem nenhum rendimento, representando 36,26% desta população, dados estes referentes ao ano 2000 (PIRES et al, 2006), conforme mostra a Tabela 6. TABELA 6 - NÚMERO E PERCENTUAL DE PESSOAS DA REGIÃO METROPOLITANA DE LONDRINA QUE RECEBE ATÉ 02 SALÁRIOS MÍNIMOS MENSAIS REFERENTES AO ANO 2000 75 POPULAÇÃO NA FAIXA DE RENDA DE ATÉ 02 SALÁRIOS MÍNIMOS TOTAL DA POPULAÇÃO PERCENTUAL 24.064 33,27 12.406 35,84 3.686 41,04 14.912 36,34 103.172 27,80 2.925 38,54 MUNICÍPIOS Cambé Ibiporã Jataizinho Rolândia Londrina Tamarana FONTE: PIRES et al (2006) Em relação à distribuição de renda na Região Metropolitana de Londrina, Pires et al. (2006) salientam: [...] constata-se que a realidade da região metropolitana de Londrina é menos crítica se comparada à existente no Paraná e no Brasil. No entanto, isto não significa uma situação cômoda e muito menos ideal. Se somarmos os que estão na faixa de até 02 salários mínimos com aqueles que não possuem nenhuma renda, temos um número de 355.367 habitantes, representando 66,35% dos que estão na faixa de 10 anos ou mais. Neste quesito, a mais grave realidade é a de Tamarana com 84,27% da população nesta condição. A ela seguem, Jataizinho (79,37%), Ibiporã (73,12%), Rolândia (71,41%), Cambé (71,14%) e Londrina (63,64%).Com o quadro até aqui descrito, entendemos que é inquestionável que a maioria da população residente nos municípios da região metropolitana de Londrina enfrenta sérias dificuldades para satisfazer suas necessidades em áreas consideradas essenciais como saúde, educação, habitação, vestuário, transporte, lazer e alimentação. É também inquestionável a existência de uma parcela significativa dela que enfrenta dificuldades para sobreviver – alcançar uma sobre vida (PIRES et al, 2006). A Região Metropolitana de Maringá foi criada pela Lei Estadual 83/98, composta inicialmente por oito municípios (CARTA, 2011), e desde o ano 2010, é formada por 25 municípios (Mapa 5). As cidades que já a compunham eram: Astorga, Ângulo, Doutor Camargo, Floresta, Iguaraçu, Itambé, Ivatuba, Mandaguaçu, Mandaguari, Marialva, Maringá, Paiçandu e Sarandi. Em 2010, as novas cidades que se associaram à Região Metropolitana de Maringá foram: Atalaia, Bom Sucesso, Cambira, Floraí, Flórida, Jandaia do Sul, Lobato, Munhoz de Mello, Ourizona, Presidente Castelo Branco, Santa Fé e São Jorge do Ivaí. Com a inclusão destas cidades, a população da Região Metropolitana de Maringá passou de 592,8 mil para 670,3 mil (GAZETA, 2010). A Região Metropolitana de Maringá ocupa uma área territorial de 3.190,826 km2, com estimativa populacional, segundo o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social – Ipardes era de 612.545 habitantes para 2010, com 76.877 pessoas em situação de pobreza (IPARDES, 2011d). MAPA 5 - REGIÃO METROPOLITANA DE MARINGÁ 76 FONTES: Ipardes (2011d) e Carta Geográfica (2011). A economia na Região Metropolitana de Maringá tem forte predomínio do setor agropecuário, com destaque para o plantio de soja, milho e uva, além de criações de bovinos, galináceos e suínos. Marialva apresenta-se como um espaço totalmente agrícola, com destaque para o cultivo de uva, com grande número de pequenas propriedades e grande absorção de mão-de-obra na região. Em relação ao padrão de emprego urbano, destacam-se os setores de serviço, comércio e indústria, especialmente açúcar, álcool e vestuário (IPARDES, 2011d). Segundo a Agência de Notícias do Estado do Paraná, foram criados 8.081 empregos na Região Metropolitana de Maringá no mercado formal de trabalho em 2007, representando um aumento de 33,5% em relação ao ano anterior, quando foram gerados 6.051 postos de trabalho, segundo números dos Registros Administrativos do Ministério do Trabalho e Emprego. O setor que mais se destacou na geração de empregos foi o comércio. No ano de 2007 foram contratados 2.442 trabalhadores com carteira assinada no setor, representando um aumento de 107,5% em relação ao número de contratações no ano anterior (1.177 contratações em 2006 no comércio). A indústria de transformação foi responsável pela criação de 1.798 novos postos de trabalho em 2006. Em 2007, 2.672 trabalhadores foram contratados no mercado formal do setor, representando um aumento de 48,6% das contratações. Em relação ao salário, dados do Ministério do Trabalho e Emprego indicam que, nos meses de janeiro a dezembro de 2007, os trabalhadores da Região Metropolitana de Maringá receberam salário médio de R$ 541,00. As cidades ao entorno de Maringá acomodam as classes de baixa renda, pois este é um dos elementos constitutivos do processo de controle urbanístico buscado desde o início da cidade, assim como algumas cidades de médio porte ou 77 capitais. Uma das características que Maringá apresenta em todos os fóruns possíveis (publicidade institucional, eventos de negócios e de turismo, Associação Comercial, Conselho de Desenvolvimento, etc) é a inexistência de favelas no seu espaço urbano, sendo conhecida como cidade verde, ou ecológica (RODRIGUES, 2004). As classes sociais mais pobres, dependentes de recursos públicos para aquisição da casa própria ocupam as franjas periféricas das cidades, cada vez mais distantes de espaços de qualidade superior, muitas vezes em áreas de ocupações irregulares, de risco, áreas de mananciais de preservação ambiental (RODRIGUES, 2004). Rodrigues (2004) salienta que a Região Metropolitana de Maringá apresenta uma estrutura social binária entre ricos e pobres, oriunda da segmentação do mercado de trabalho, com pequeno número de empregos altamente qualificados e bem remunerados e amplo contingente de ocupações pouco qualificadas e mal remuneradas, aumentando o número de atividades terciárias (RODRIGUES, 2004). Sobre a desigualdade na Região Metropolitana de Maringá, prossegue a autora: Os aspectos da desigualdade estão presentes na ocupação dos espaços urbanos da RMM. Ocorrem nos níveis inter e intramunicipal, através de processos dialéticos que produzem e reproduzem a realidade social baseada na própria desigualdade. Enquanto categoria, a desigualdade pode nos oferecer visibilidade de si mesma se a tomarmos como um conjunto de variáveis através do qual ela ganha existência concreta. [...] No espaço da cidade e entre as cidades da RMM, estas variáveis compõem-se de diversos índices socioeconômicos, dentre os quais, a situação demográfica, o PIB per capita, o rendimento da população, as condições urbanas de vida dos habitantes (padrão das residências, infraestrutura, saneamento, serviços de educação, saúde, creche) e, com destaque especial, o acesso ao transporte urbano. As situações de desigualdade ocorrem dentro de cada município pelas distintas possibilidades que os moradores têm do acesso à cidade e, entre as municipalidades, se reproduz essa mesma conjuntura igualmente díspar [...] (RODRIGUES, 2004, p.137-138). Portanto, a Região Metropolitana de Maringá apresenta grande desigualdade social e concentração de pobreza. Outra região de destaque no estado do Paraná que congrega significativa parcela da população na condição de pobreza é a Região Metropolitana de Curitiba. A Região Metropolitana de Curitiba é composta atualmente por 26 municípios e ocupa uma área territorial de 15.462,277 km2. Segundo estimativas do IBGE, a população em 2010 era de 3.174.201 habitantes, com 430.228 pessoas em situação de pobreza (IPARDES, 2011c). A Região Metropolitana de Curitiba foi criada pela Lei Complementar n. 14/73, englobando inicialmente 14 municípios: Curitiba, Almirante Tamandaré, 78 Araucária, Balsa Nova, Bocaiúva do Sul, Campina Grande do Sul, Campo Largo, Colombo, Contenda, Mandirituba, Piraquara, Quatro Barras, Rio Branco do Sul e São José dos Pinhais. Tal configuração foi mantida até a década de 90, quando ocorreram os primeiros desmembramentos de municípios metropolitanos: Fazenda Rio Grande (criado em 28 de janeiro de 1990, desmembrado de Mandirituba); Tunas do Paraná (criado em 30 de abril de 1990, desmembrado de Bocaiúva do Sul); Itaperuçu (criado em 09 de novembro de 1990, desmembrado de Rio Branco do Sul); e, em 18 de março de 1992, Pinhais, que foi desmembrado de Piraquara (PARANÁ, 2011a). Entretanto, os limites territoriais da Região Metropolitana de Curitiba somente são alterados em 1994 pela Lei Estadual n. 11.027/94, sendo incluídos os municípios de Cerro Azul, Doutor Ulysses (desmembrado de Cerro Azul em 20 de novembro de 1990), Quitandinha (desmembrado de Contenda e de Rio Negro em 13 de junho de 1961), e Tijucas do Sul. Os contornos da Região Metropolitana de Curitiba são expandidos em 1995, através da Lei Estadual n. 11.096/95, com a inserção de Adrianópolis (desmembrado em 25 de julho de 1960 de Bocaiúva dos Sul), juntamente com a inserção de Campo Magro (desmembrado do município de Almirante Tamandaré em 11 de dezembro de 1995. A inclusão de Agudos do Sul (desmembrado de Tijucas do Sul em 25 de julho de 1960) pela Lei Estadual n. 12.125/98 marca a última alteração ocorrida na década de 90, permanecendo o território com 25 municípios até a inserção da Lapa, por meio da Lei Estadual n. 13.512/2002, permanecendo com esta configuração atualmente (PARANÁ, 2011a). O Mapa 6 mostra a geografia da Região Metropolitana de Curitiba, enquanto a Tabela 7 mostra a população rural e urbana da região. 79 MAPA 6 - REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA FONTES IPARDES (2011c) E PARANÁ (2011b). TABELA 7 - POPULAÇÃO TOTAL, URBANA E RURAL DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA – 2010 FONTE: Dados do IBGE – Censo 2010 (PARANÁ, 2011b). Da área total da RMC, apenas 4,22% é considerada urbana, entretanto, esta pequena área urbana concentra 91,17% da população total, que quadruplicou desde a década de 70, decorrente da migração do homem do campo, decorrente da diversificação e modernização da agricultura e da introdução de ramos industriais na linha metal-mecânica. Neste período, a RMC experimenta uma alta taxa de 80 crescimento populacional, com uma marcha urbana ultrapassando os limites do município pólo, estendendo-se à região norte-nordeste de Curitiba (especialmente Colombo, Almirante Tamandaré e Rio Branco do Sul) e à região leste (Piraquara e São José dos Pinhais) (PARANÁ, 2011b). A economia da Região Metropolitana de Curitiba tem importante participação do agronegócio, em decorrência da extensa área rural, com destaque para o cultivo de milho, batata-inglesa e trigo, além de criações de bovinos, equinos e suínos, além de destaque para o setor hortifrutigranjeiro (IPARDES, 2011c). As atividades industriais automobilísticas iniciaram suas atividades na RMC na década de 1970, entretanto, a consolidação apenas ocorreu na década de 1990, com a abertura comercial brasileira e com o recebimento de incentivos fiscais, financeiros e estruturais pelo Governo do Estado. No final da década de 90, a região recebeu três montadoras, que somadas às plantas da Volvo e New Holland, constituiu-se num dos pólos mais modernos do Brasil. Em junho de 1998 a Daimler Chrysler se instalou em Campo Largo (encerrando suas atividades três anos depois). Em dezembro de 1998 a Renault foi inaugurada em São José dos Pinhais, e em janeiro de 1999, a Audi/Volkswagem se instala na mesma cidade. Característica importante da instalação da indústria automobilística na RMC foi a instalação simultânea de fornecedores de autopeças, ocasionando maior capacidade de geração de empregos indiretos e diminuição no custo da produção (SESSO FILHO et al, 2004). Atualmente a indústria automotiva tem bastante representatividade na economia e geração de empregos na RMC. No dia 18 de outubro de 2011 foi inaugurada a nova fábrica da Caterpillar Brasil no município de Campo Largo, Região Metropolitana de Curitiba. A unidade enquadra-se no programa Paraná Competitivo, foram investidos cerca de R$ 170 milhões e vai criar mil postos de trabalho até 2013 (PARANÁ, 2011c). Segundo Lira e Delgado (2005), a taxa de atividade da RMC ficou próxima de 60% em 2003 e 2004, mostrando alta capacidade de absorção ocupacional, e juntamente com Porto Alegre, vem apresentando as maiores participações de empregados com carteira de trabalho assinada. Estas duas regiões, juntamente com São Paulo, apresentam as maiores participações do emprego industrial no total das ocupações. 81 Para Oliveira (2000), as regiões metropolitanas apresentam um problema em relação à percepção e distribuição da pobreza: [...] esse padrão de coexistência entre a capital e sua região metropolitana não é exclusividade curitibana, dado que se repete em maior ou menor grau em todo o país. Contudo, no contexto local ele assume uma importância extraordinária, pela funcionalidade de que ele se investe na preservação da positividade da imagem de Curitiba. Assim, de certa forma, pode-se dizer que a imagem de Curitiba só existe tal qual ela é precisamente devido aos serviços que os municípios vizinhos prestam à causa da sua manutenção. [...] Curitiba é a região metropolitana que tem menos pobres no Brasil. Mais ainda, a maioria dos seus pobres [66,2%] não se encontra no núcleo, mas espalhada pela sua periferia, confirmando a funcionalidade do papel desempenhado pelos municípios vizinhos na absorção de mazelas sociais e ambientais (OLIVEIRA, 2000, p. 182). Lourenço (2003) aponta alguns fatores que acentuam os cinturões de pobreza em torno da Região Metropolitana de Curitiba e de cidades de médio porte: Já o processo migratório reproduz um ambiente demográfico marcado pela combinação entre o prosseguimento da intensificação do fluxo campo-cidade, nos limites geográficos do Estado, e a migração de retorno das regiões de fronteiraagrícola, o que implica a acentuação da concentração populacional na RMC e em algumas cidades de porte médio, ampliando os cinturões de pobreza. [...] Tal fenômeno deriva da fragilização das atividades rurais em razão do corte de subsídios, da redução dos recursos creditícios e da abertura indiscriminada às importações (subsidiadas nos países de origem e beneficiadas por condições de crédito com taxas e prazos internacionais), multiplicadas pela falta de uma política agrícola como horizonte de longo prazo. De um ângulo estrutural, o mais gritante é a substancial margem potencial de liberação de mão de obra do meio rural do Estado, em virtude da irreversibilidade do processo de mecanização, inclusive das lavouras de algodão, cana-de-açúcar e, em menor proporção, feijão (LOURENÇO, 2003, p.152). Foz do Iguaçu, localizado no extremo oeste do Paraná (Mapa 7), é a 7ª cidade mais populosa do Estado. Possui área territorial de 610,209 km2, população estimada em 2010 de 256.088 habitantes, com 55.847 pessoas em situação de pobreza (IPARDES, 2011a). As principais fontes de renda em Foz do Iguaçu são o turismo e a produção de energia elétrica, pois possui um dos mais belos destinos turísticos do mundo, com amplo parque hoteleiro, e a Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo em produção de energia (Prefeitura de Foz do Iguaçu). O Mapa 7 mostra a localização geográfica de Foz do Iguaçu: 82 MAPA 7 - LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA DE FOZ DO IGUAÇU FONTE: Ipardes (2011a) A economia em Foz do Iguaçu também se baseia no agronegócio, com destaque para a produção de soja, milho e trigo, além da pecuária e criação de galináceos. O IDH-m do município é de 0,788, entretanto, a distribuição de renda é desigual, pois o índice de Gini é de 0,580 e a taxa de analfabetismo de 15 anos ou mais é de 7,5% (IPARDES, 2011a). Grande parte da expansão da malha viária paranaense ocorreu até o início da década de 1980, sofrendo uma desaceleração após este período. Alguns trechos foram duplicados no decorrer dos anos 1990, como a ligação entre Curitiba e Joinville, Londrina e Maringá e Ponta Grossa e Piraí do Sul. Entretanto, o ritmo de ampliação foi muito lento e vários projetos de implantação de rodovias não foram realizados, por restrições orçamentárias ou ambientais (LIMA; DIAS, 2008). O sistema viário no Paraná carece de inúmeras obras, dentre as quais merecem destaque: BR-116 (Rodovia Régis Bittencourt) em especial nos trechos Anel Viário de Acesso a Curitiba (Divisa Paraná - São Paulo) e Anel Viário Curitiba – Fazenda Rio Grande (PR) – Rio Negro (PR) na Divisa Paraná – Santa Catarina, com duplicações e criação de terceiras faixas de rolamento; BR-163 com duplicação dos trechos Cascavel – Toledo – Marechal Cândido Rondon – Divisa Paraná – Mato Grosso do Sul em Guaíra (PR); BR-272, duplicando o trecho Guaíra no entroncamento da BR 163 e na divisa Brasil/Paraguai – Umuarama, dentre outras (PROGRAMA RODOFERROVIÁRIO, 2011). Em termos qualitativos, as rodovias paranaenses são inferiores em relação às rodovias paulistas, uma vez que grande parte da malha paranaense é composta 83 de malhas vicinais e os trechos duplicados representam um pouco mais de 5% do total de rodovias, enquanto que em São Paulo estes trechos chegam perto de 15% (LIMA; DIAS, 2008). Crítica também é a situação de estradas em diversas regiões do Estado, especialmente no Norte, com recorrentes ações tapa-buracos, sem investimentos que melhorem a qualidade viária nestas estradas. Sobre a necessidade de investimentos na área viária no Estado, Lourenço (2007) salienta: Igualmente seria a viabilização de pesados investimentos, que extrapolem as operações tapa-buracos, em reparação, manutenção corretiva e preventiva, e expansão da malha estadual (85,0% do total), que ficou de fora dos 2,344 mil Km operados pelo setor privado, sendo 1,781 mil (76,0%) federais e 0,563 mil (24,0%) estaduais (LOURENÇO, 2007, p.117). A malha rodoviária paranaense deve ser incrementada, atendendo a quatro requisitos logísticos: 1) execução de obras rodoviárias articulando os pólos regionais do Estado, especialmente com o Anel de Integração, que possui mais de 2.000 km de estradas federais que cortam o Paraná; 2) implantação de duas conexões rodoviárias do Estado com o Centro-Oeste brasileiro, ligando o Paraná ao Mato Grosso do Sul, fato que possibilitaria maior disponibilidade de matéria-prima agroindustrial e seu escoamento pó Paranaguá, uma alternativa ao transporte via Rio Tietê até Santos (SP); 3) extensão da Ferroeste até Guaíra e a construção de um ramal na direção Sudoeste, articulando a produção agrícola do Centro-Oeste brasileiro com o modal hidroviário argentino e com a oferta de grãos do Paraguai; e 4) a reestruturação do sistema portuário, com a ampliação do cais, construção de novos terminais e a readequação do corredor de exportações em Paranaguá (LOURENÇO, 2003, p.123-124). Na época de safra, os motoristas de caminhões sofrem com a violência nas estradas para o Porto de Paranaguá, com constantes roubos e perda de suas cargas (LEITÓLES et al., 2010), devido à falta de segurança na estrada e logística inadequada para escoamento dos grãos, obrigando os motoristas a permanecerem longos períodos em espera. Apesar de possuir um bom Índice de Desenvolvimento Humano16, como uma das maiores economias do País, o Estado concentra um grande número de famílias pobres, conforme mostra a Tabela 8. 16 Segundo o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social, em 2007 o Estado possuía IDH de 0,846. O objetivo da elaboração do Índice de Desenvolvimento Humano é oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica 84 TABELA 8 - SÍNTESE DOS PROGRAMAS SOCIAIS NO PARANÁ EM ABRIL DE 2012. FONTE: BRASIL, 2011c. É necessário averiguar onde se localizam os mapas da pobreza no Estado do Paraná, suas regiões mais críticas e qual a situação de vulnerabilidade da população que se encaixa neste perfil, levantamento que será feito na próxima seção. 4.2 FAMÍLIAS POBRES NO PARANÁ Conceituar pobreza envolve grande complexidade, podendo levar em consideração algum “juízo de valor”, em termos relativos ou absolutos, pode ser estudada apenas do ponto de vista econômico ou englobando aspectos não econômicos, pode ser contextualizada de forma dependente ou não da estrutura social e política de determinado território (CRESPO; GUROVITZ, 2002). O conceito de pobreza é categorizado como “juízo de valor” quando se trata de uma visão subjetiva da pessoa, acerca do que deveria ser um grau suficiente de do desenvolvimento. Criado por Mahbub ul Haq com a colaboração do economista indiano Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1998, o IDH pretende ser uma medida geral, sintética, do desenvolvimento humano. Não abrange todos os aspectos de desenvolvimento e não é uma representação da "felicidade" das pessoas, nem indica "o melhor lugar no mundo para se viver". Além de computar o PIB per capita, depois de corrigi-lo pelo poder de compra da moeda de cada país, o IDH também leva em conta dois outros componentes: a longevidade e a educação. Para aferir a longevidade, o indicador utiliza números de expectativa de vida ao nascer. O item educação é avaliado pelo índice de analfabetismo e pela taxa de matrícula em todos os níveis de ensino. A renda é mensurada pelo PIB per capita, em dólar PPC (paridade do poder de compra, que elimina as diferenças de custo de vida entre os países). Essas três dimensões têm a mesma importância no índice, que varia de zero a um. Fonte: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. 85 satisfação de suas necessidades, ou de estipulação de um nível de privação normalmente suportável (CRESPO;GUROVITZ, 2002). A pobreza relativa é medida dentro de um contexto cultural, remetendo a necessidades que são variáveis no tempo e espaço. A pobreza absoluta reflete necessidades universais, essenciais à dignidade humana (IPARDES, 2003a). Amartya Sen (2001) define pobreza como uma privação das capacidades básicas de uma pessoa e não apenas como uma renda inferior a um patamar préestabelecido. A definição dominante de pobreza especifica uma “linha de pobreza” divisória, definida como o nível de renda abaixo do qual as pessoas são diagnosticadas como pobres. O índice de pobreza é definido como a proporção do total da população que está abaixo da linha da pobreza (SEN, 2001, p.165). A privação de capacidades elementares pode refletir-se em morte prematura, subnutrição considerável, principalmente em crianças e idosos, morbidades persistentes, analfabetismo e outras deficiências. Contudo, tal definição não despreza o fato de a pobreza também ser caracterizada como uma renda inferior a um patamar pré-estabelecido, uma vez que a renda baixa pode ser a principal razão da privação de capacidades de um indivíduo (CRESPO; GUROVITZ, 2002). Explanam os autores sobre o conceito relativo de pobreza: A percepção da pobreza como conceito relativo é uma abordagem de cunho macroeconômico, assim como o conceito de pobreza absoluta. A pobreza relativa tem relação direta com a desigualdade na distribuição de renda. É explicitada segundo o padrão de vida vigente na sociedade que define como pobres as pessoas situadas na camada inferior da distribuição de renda, quando comparadas àquelas melhor posicionadas. O conceito de pobreza relativa é descrito como aquela situação em que o indivíduo, quando comparado a outros, tem menos de algum atributo desejado, seja renda, sejam condições favoráveis de emprego ou poder. Uma linha de pobreza relativa pode ser definida, por exemplo, calculando a renda per capita de parte da população. Essa conceituação, por outro lado, torna-se incompleta ao não deixar margem para uma noção de destituição absoluta, requisito básico para a conceituação de pobreza. Também acaba gerando ambiguidade no uso indiferente dos termos pobreza e desigualdade que, na verdade, não são sinônimos (CRESPO; GUROVITZ, 2002). Sobre a pobreza absoluta, continuam os autores: O enfoque absoluto na conceituação da pobreza se observa quando da fixação de padrões para o nível mínimo ou suficiente de necessidades, conhecido como linha ou limite da pobreza, determinando a percentagem da população que se encontra abaixo desse nível. Esse padrão de vida mínimo, apresentado sob diferentes aspectos, sejam nutricionais, de moradia ou de vestuário, é normalmente avaliado segundo preços relevantes, calculando a renda necessária para custeá-los. Para o estabelecimento dos limites de pobreza utilizam-se diferentes enfoques, quer sejam o biológico, o das necessidades básicas ou o dos salários mínimos. O enfoque biológico define a linha de pobreza a partir dos requisitos nutricionais mínimos da dieta alimentar, definindo o valor aproximado para a renda a ser gasta para o 86 atendimento desses requisitos. Por básicas entendem-se necessidades como alimentação, moradia, vestuário e serviços essenciais: água potável, saneamento, transporte público, serviços médicos e escolas. Já o enfoque dos salários mínimos lida com a ideia de que exista um salário mínimo oficial que deve ser uma boa aproximação do montante em dinheiro necessário para o nível de vida mínimo (CRESPO; GUROVITZ, 2002). Jannuzzi e Ferreira (2003) destacam dois enfoques para a abordagem da pobreza absoluta: 1º) a pobreza como insuficiência de renda, do mínimo necessário para custear as despesas com bens e serviços essenciais à sobrevivência familiar; e 2º) a pobreza como insatisfação de necessidades básicas17, de bens e serviços considerados mínimos, que apontam para múltiplas carências a serem atendidas (IPARDES, 2003a). As famílias paranaenses consideradas pobres pelo Ipardes são aquelas que vivem com renda familiar per capita até ½ salário mínimo, adotando-se a abordagem de pobreza absoluta como primeiro critério de identificação da população pobre no Paraná, tendo como principal indicador a renda familiar mensal per capita, que é a soma de todos os rendimentos da família, como salário, poupança, benefícios da seguridade social, dentre outros, dividido pelo número de seus membros. A Tabela 9 e o Mapa 8 mostram a distribuição das famílias pobres por mesorregiões no Paraná no ano 200018. TABELA 9 - NÚMERO E DISTRIBUIÇÃO DE FAMÍLIAS, DE FAMÍLIAS POBRES E TAXA DE POBREZA, SEGUNDO MESORREGIÃO – PARANÁ, 2000 17 Indigência ou extrema pobreza se refere à população cuja renda familiar per capita é inferior ao valor necessário para atender tão-somente às necessidades básicas da alimentação (Rocha, 2006). 18 Foram utilizados dados do Censo 2000 porque ainda não foram disponibilizados integralmente pelo IBGE dados referentes ao Censo 2010. 87 MAPA 8 - FAMÍLIAS POBRES, SEGUNDO MESORREGIÕES NO PARANÁ – 2000. FONTE: IPARDES (2003a). As aglomerações urbanas concentram as melhores situações de IDH-M no Paraná, entretanto, apresentam também maior desigualdade interna. Desta forma, as sete aglomerações paranaenses, englobando 47 municípios, concentram 36,97% das famílias pobres (217.881 famílias). A Região Metropolitana de Curitiba corresponde a 17,01% do total estadual, conforme Tabela 10. No Mapa 9 é possível observar os bolsões de pobreza ao redor de regiões metropolitanas e cidades de grande porte. TABELA 10 - NÚMERO DE DISTRIBUIÇÃO DO TOTAL DE FAMÍLIAS, DE FAMÍLIAS POBRES E DE POBREZA, SEGUNDO AGLOMERAÇÕES URBANAS – PARANÁ – 2000. TAXA 88 MAPA 9 - DISTRIBUIÇÃO DAS FAMÍLIAS POBRES NO PARANÁ – 2000 FONTE: IPARDES (2003a). O Mapa 10 mostra o mapa do Índice de Desenvolvimento Humano no Estado do Paraná, sendo possível observar as mesorregiões com maior concentração de pobreza em tons de marrom no mapa. MAPA 10 - ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO NO ESTADO DO PARANÁ - ANO 2000. FONTE: IPARDES, 2003. 89 O percentual de famílias pobres no meio rural19 é de 46,94%, equivalente a 276.678 famílias (Gráfico 3), merecendo destaque o fato de que os municípios que concentram esta população ser dependente basicamente de atividades rurais. As áreas urbanas dos municípios com mais de 20.000 habitantes concentram 16,09% da pobreza no Paraná. GRÁFICO 3 - PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL DAS FAMÍLIAS “RURAIS” NO TOTAL DE FAMÍLIAS, SEGUNDO CLASSES DE RENDA FAMILIAR MENSAL PER CAPITA – PARANÁ - 2000 FONTE: Ipardes (2003a) Tal realidade de pobreza mostra a necessidade de criação de políticas públicas contemplando ações específicas, levando em consideração o redimensionamento do rural para que as políticas públicas promovam equidade, uma vez que estudos mostram que em relação ao crescimento econômico, as populações urbanas são mais beneficiadas, enquanto que as populações de áreas rurais dependem fundamentalmente de ações de cunho estrutural Ipardes (2003a). Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2004, lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o crescimento da pobreza, fome e desigualdade continua alarmante, advindo a necessidade de 19 Estatisticamente, conclui-se que na região Sul o rural está praticamente abolido, visto que a taxa de urbanização ultrapassa 80%. Mais de 80% dos habitantes do Estado do Paraná residem em domicílios urbanos. Nas sociedades modernas, o rural permanece como espaço específico e diferenciado, onde o pequeno município é parte integrante do mundo rural. Um corte por tamanho da população (população total de até 20.000 habitantes, conforme defendido por George Martini, por exemplo) altera a distribuição entre urbano e rural. No Paraná, menos de 1/3 dos municípios (81 municípios) seria considerado urbano (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social. Famílias pobres no Estado do Paraná, 2003). 90 criação de políticas sociais compensatórias na tentativa de alcançar um equilíbrio nas relações desiguais entre ricos e pobres geradas pelo capitalismo. O Estado exerce o papel de intermediador entre estas duas classes, tendo como um dos principais deveres a redução da pobreza e desigualdade social. As políticas sociais buscam atender aos direitos e necessidades universais estabelecidos juridicamente (BRASIL, 2011b). É importante perceber a pobreza como fenômeno estrutural decorrente da dinâmica histórica no desenvolvimento do capitalismo. A pobreza é um fenômeno complexo, multidimensional e relativo, não devendo ser entendida apenas como decorrente da insuficiência de renda, tampouco os pobres devem ser considerados apenas um grupo homogêneo e com fronteiras bem delimitadas. É necessário desvelar os valores e concepções inspiradoras das políticas de intervenção nas situações de pobreza e suas possibilidades e impossibilidades para sua redução, superação ou regulação. Desta forma, os Programas de Transferência de Renda são considerados eixos prevalentes para a proteção social no Brasil, operando transformações econômicas e societárias que reestruturam o capitalismo e diminuem as desigualdades sociais (BRASIL, 2011b). O próximo capítulo tratará dos efeitos do Programa Bolsa Família no Estado do Paraná. Inicialmente serão abordadas as mesorregiões mais críticas do Estado em relação à pobreza e posteriormente será feita a análise da efetividade do Programa na redução da pobreza nestas mesorregiões, bem como a análise dos outros indicadores sociais, que fazem parte das condicionalidades do Programa Bolsa Família. 91 4 O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA: ABRANGÊNCIA, EFEITOS E PROBLEMATIZAÇÕES O Capítulo 5 será dividido em 4 seções. A primeira seção abordará a abrangência e os efeitos do programa Bolsa Família no estado do Paraná em relação à redução da pobreza. A segunda seção tratará de duas mesorregiões críticas no estado do Paraná, que concentram grande percentual de famílias pobres, sendo elas as mesorregiões Centro-Sul e Oeste. A terceira seção discorrerá sobre a relação do programa e algumas condicionalidades, sendo dividida em três sub seções. A primeira sub seção explanará sobre educação, melhoria em seus indicadores e novas perspectivas. A segunda sub seção discorrerá sobre saúde e melhora neste indicador. A terceira sub seção explanará aspectos sobre emprego e renda no estado, que apresentaram discreta melhora nos índices, em comparação com a educação e saúde. Finalmente, a última seção discutirá as problematizações do Programa Bolsa Família, especialmente em relação à necessidade de criação de programas de qualificação que insiram os beneficiários no mercado de trabalho, valorização do salário mínimo e investimentos na área do empreendedorismo, uma vez que a pobreza é um fenômeno complexo que não pode ser combatida apenas com uma política de transferência de renda. Também serão apresentadas as novas estratégias para a ampliação do Programa Bolsa Família e alcance das populações mais vulneráveis. 5.1 ABRANGÊNCIA E EFEITOS DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO ESTADO DO PARANÁ Para fins de avaliação dos efeitos do Programa Bolsa Família no estado do Paraná, esta seção avaliará a abrangência do programa e a sua relação com a redução da pobreza no estado. 92 5.1.1 Abrangência do Programa Bolsa Família no Estado do Paraná O estado do Paraná possuía até maio de 2012, 436.750 famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família (BRASIL, 2012a), conforme mostra o Quadro 2: QUADRO 2 - SÍNTESE DOS PROGRAMAS SOCIAIS NO ESTADO DO PARANÁ – MAIO DE 2012. FONTE: BRASIL (2011c). O Mapa 11 mostra a distribuição das famílias beneficiadas, com predomínio nas mesorregiões Norte e Centro-Sul, e Região Metropolitana de Curitiba. MAPA 11 - FAMÍLIAS BENEFICIADAS PELO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO ESTADO DO PARANÁ EM 2004 E EM 2011 FONTE: BRASIL (2011c). 93 Os dados mostram seis cidades paranaenses e a relação entre o Programa Bolsa Família e as condicionalidades do programa. Foram selecionadas três cidades de regiões metropolitanas, com bons IDH-Ms (Curitiba, Londrina e Maringá), e três cidades pertencentes a mesorregiões pobres (Guarapuava na mesorregião CentroSul e Diamante do Sul, na mesorregião Oeste), bem como Ortigueira, que possui o pior IDH-M do estado. As seis cidades são acompanhadas em grande parte devido à condicionalidade educação (crianças e jovens de 6 a 17 anos). 5.1.2 Redução da Pobreza no Paraná O Paraná, assim como a maioria dos Estados brasileiros, vive o problema da desigualdade de distribuição de renda. No caso paranaense, o Índice de Gini passou de 0,597 para 0,607 entre 1991 a 2000, segundo dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), apesar de haver redução da pobreza entre 1991 e 2000 conforme dados do IPEA, indicando que embora a população pobre e indigente esteja reduzindo, a parcela da população mais rica está crescendo na participação da renda apropriada da população (SILVA; LOPES; MICHON JR, 2009). Nas duas últimas décadas acirrou-se o debate acerca da importância da renda não agrícola20 na composição da renda das famílias residentes no meio rural, pois este costuma abrigar um grande número de famílias pobres. A Tabela 11 mostra o número total de famílias rurais existentes no Paraná, por faixa de rendimento e com renda não declarada. Os números da tabela chamam atenção pelo significativo contingente de famílias que deixaram a faixa de renda de até meio salário mínimo per capita, ou seja, aqueles tradicionalmente chamados de pobres. Em 2001, eles representavam 34,9% das famílias, e em 2009 não passavam de 24,1%. É possível observar também que o percentual das famílias com renda per capita acima de um salário mínimo passa de 37,4% em 2001 para 44,9% em 2009, corroborando os estudos que apresentam uma redução da pobreza entre a população brasileira como um todo (BAZOTTI; SUGAMOSTO, 2011, p. 46-49). 20 A renda não agrícola compreende os rendimentos provenientes de aposentadorias, oriundos de juros e dividendos de caderneta de poupança e outras aplicações, valores repassados pelos programas da assistência social, como o Programa Bolsa Família e os benefícios asistenciais (Bazotti e Sugamosto, 2011). 94 TABELA 11 - NÚMERO DE FAMÍLIAS RURAIS POR FAIXA DE RENDIMENTOS – PARANÁ- 20012009 FAIXAS DE RENDIMENTO TOTAL Até ½ SM Acima de ½ até 1 Mais de 1 SM Renda não ANO SM declarada Abs. % Abs. % Abs. % Abs. % Abs. 2001 171.856 34,9 132.762 27,0 184.301 37,4 2004 151.351 30,9 153.819 31,4 182.602 2007 150.586 30,2 131.826 40,5 201.661 2009 121.903 24,1 149.772 44,9 227.298 FONTE: BAZZOTTI; SUGAMOSTO (2011). Ao verificar a importância das diferentes fontes na composição da renda das famílias rurais paranaenses, foram selecionadas as três principais fontes de rendimentos presentes no meio rural, levantadas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que juntas respondem por mais de 97% da renda total das famílias, sendo elas: 1) trabalho; 2) aposentadorias; e 3) outros rendimentos e benefícios sociais. Em relação a esta última fonte, é importante informar que nela estão aglutinados, além dos rendimentos provenientes de juros e dividendos de caderneta de poupança e outras aplicações, os valores repassados pelos programas da assistência social como o Programa Bolsa Família e os Benefícios Assistenciais, incluindo Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Benefícios Eventuais (BAZOTTI; SUGAMOSTO, 2011). Bazotti e Sugamosto (2011) atribuem ao Programa Bolsa Família um impacto positivo em relação à composição da renda de famílias rurais: Houve um crescimento da ordem de 137% entre 2001 e 2009, sendo que entre 2001 e 2004, ano de implantação do Bolsa Família, esse crescimento chega a 148%. Quando se analisa o impacto dessa fonte por faixa de rendimento, observa-se que as famílias pobres – até meio salário mínimo – são as mais impactadas, tendo essa fonte aumentado sua participação na composição da renda em 255%, passando de 3,41% em 2001 para 12,12% em 2009. Nesse sentido, conclui-se que esse aumento esteja vinculado à obtenção dos benefícios da seguridade social, mais especificamente o Bolsa Família. A importância maior dessa fonte na composição da renda das famílias pobres pode indicar que este programa está alcançando seu público-alvo (BAGOTTI E SUGAMOSTO, 2011, p.49-50). O peso das transferências na composição dos rendimentos familiares no País, em 2008, atingiu 19,3% de participação, com aumento expressivo comparativamente a 1988, que era de 9,5% (IPARDES, 2010). Dentre os programas, o Bolsa Família é o mais significativo atualmente. Como mencionado, há outras fontes de renda que reduzem a pobreza, entretanto, o impacto do Programa Bolsa Família é maior neste quesito. No período entre 2003 e 2008, o índice de pobreza teve queda de 8,25 pontos percentuais no Estado do Paraná, segundo dados compilados pelo Centro de 95 Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), a partir do resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgados em setembro de 2009. Em 2003, 16% dos paranaenses (aproximadamente 1,6 milhão de pessoas) viviam na linha da pobreza. Cinco anos depois, com um aumento de um milhão de habitantes, o índice caiu para 7,75%, (813 mil pessoas). A maior redução do índice de pobreza ocorreu no interior do Estado, que passou de 16,8% para 8,46% em cinco anos, enquanto na Região Metropolitana/Capital, o índice recuou de 10,5% para 3,92% e na periferia da Região Metropolitana, de 18,7% para 9,09% (FGV, 2009). Com base nos dados do Censo 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Paraná tinha 1,03 milhão de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza estabelecida pelo Programa Fome Zero, segundo dados apontados por um levantamento elaborado pelo Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), apresentado em junho de 2003. O Programa Fome Zero considera pobres as pessoas que recebem menos de um quarto do salário mínimo mensal, descontadas as despesas com habitação e acrescida a renda por produção de alimentos para consumo próprio (IAPAR, 2003). A pesquisa apontou Curitiba como a cidade do Paraná com o maior número de pobres, ou seja, 83.682 pessoas (5,33% da população total com base no Censo de 2000). Em Londrina, no mesmo período, 28.823 pessoas estavam abaixo da linha de pobreza segundo o Programa Fome Zero, correspondendo a 6,5 % da população de 443 mil pessoas (IAPAR, 2003). A Região Metropolitana de Curitiba é uma das que concentram o maior número de pobres, entretanto, a capital vem reduzindo este número. Segundo entrevista com o economista Marcelo Neri, Chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, em dezembro de 2011, Curitiba estava bem à frente de outras cidades do seu porte, incluindo as capitais, preparada para erradicar a miséria e a pobreza21. Na mesorregião Centro-Sul e na região do Vale do Ribeira há grande parte da população com insuficiência de renda, segundo dados levantados pelo Instituto 21 Curitiba reduziu a pobreza em mais de 60% no período de seis anos, cumprindo em curto prazo a primeira meta do milênio da ONU que prega a redução da pobreza à metade no período de 1990 a 2015. Segundo o economista, entre 2003 a 2009 saíram da pobreza 107 mil pessoas, representando 65,33% na redução da pobreza em Curitiba, sendo que no Brasil a redução foi de 45,5% no mesmo período (NERI, 2011). 96 Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), que considerou pobres os domicílios com renda per capita de até meio salário mínimo. O município de Nova Laranjeiras, localizado na mesorregião Centro-Sul apresentou o pior desempenho na redução da pobreza, conseguindo variação de apenas quatro pontos porcentuais em uma década, passando de 51% para 47%. Na mesma mesorregião está a cidade mais pobre do Paraná, Laranjal, que de cada dez pessoas, quase seis são carentes (SILVA; CARVALHAL, 2010). Em julho de 2010, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), projetou dados estimando que o País eliminará a miséria e reduzirá a pobreza de apenas 4% da população até 2016. O trabalho mostrou que entre 1995 e 2008, 12,8 milhões de brasileiros saíram da condição de pobreza absoluta (renda domiciliar mensal per capita de até meio salário mínimo). Em relação à pobreza extrema (renda per capita de até um quarto do salário mínimo), o número de pessoas que deixou essa condição no mesmo período foi de 12,1 milhões (IPEA, 2010b). Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), um dos maiores desafios é promover a redução da miséria, uma vez que os estados apresentam ritmos diferenciados de redução da miséria, justamente por apresentarem níveis diferentes de distribuição de renda e de riqueza. Entre 1995 e 2008, as taxas de pobreza extrema entre as unidades da federação foram bem desiguais. Em 1995, Maranhão, Piauí e Ceará eram os estados com maior proporção de miseráveis em relação à população, com 53,1%, 46,8% e 43,7%, respectivamente. Treze anos depois, Alagoas assumiu o topo do ranking, com taxa de pobreza extrema de 32,3%. No outro extremo, Santa Catariana, São Paulo e Paraná apresentaram os melhores resultados, com 2,8%, 4,6% e 5,7%, respectivamente. Em relação à pobreza absoluta, os estados que tiveram os melhores resultados no mesmo período são Santa Catarina, com redução de 61% no período de 13 anos, Paraná, com redução de 52,2% e Goiás, com redução de 47,3%, enquanto Amapá (12%), Distrito Federal (18,2%) e Alagoas (18,3%) tiveram as menores taxas de redução do universo de pessoas nessas condições (IPEA, 2010b). 97 Apesar de o estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) não descrever a influência da estabilidade econômica no combate à pobreza, Gilmar Mendes Lourenço credita 80% do sucesso brasileiro ao fim da inflação, pois para ele a recuperação do poder aquisitivo da população e da oferta de crédito é fundamental para a melhora da economia, além de merecer destaque as políticas de aumento real do salário mínimo nos governos FHC e Lula, a recuperação da economia com o crescimento do emprego formal (especialmente na faixa de até 2,5 salários mínimos) e os programas de transferência de renda (IPEA, 2011b). No período entre 2003 e 2004 houve redução da desigualdade social (20% devido aos programas de transferência de renda, 12% devido à educação, 8% devido ao aumento do salário mínimo e 2% devido à redução do desemprego), e apesar da significativa contribuição do sistema de proteção social para a redução da pobreza, o maior responsável pelo aumento da renda das famílias foi o mercado de trabalho, que reduziu significativamente a pobreza e a indigência no período, mas não reduziu significativamente a desigualdade (BRASIL, 2011a). Houve redução da pobreza no Estado do Paraná, mas certamente os programas de transferência de renda não foram os únicos responsáveis pela redução da pobreza, pois outros fatores como a estabilização da economia, oferta de empregos, redução da inflação e valorização do salário mínimo também contribuíram, entretanto, os programas de transferência de renda condicionada têm fundamental importância nas cidades menores e nas cidades que concentram bolsões de pobreza, onde não há geração de empregos e para as famílias cuja renda não é vinculada ao salário mínimo. 5.2 MESORREGIÕES CRÍTICAS NO PARANÁ No estado do Paraná três mesorregiões concentram metade das famílias pobres, sendo elas a Mesorregião Metropolitana de Curitiba (21,85%), Norte-Central (16,28%) e Oeste (12,03%), entretanto, nas mesorregiões Centro-Sul, Sudeste e Centro-Ocidental, a proporção de famílias pobres supera 30% do total de famílias (IPARDES, 2003a), motivo pelo qual algumas regiões serão mais bem detalhadas nas próximas sub seções. Não foi possível elaborar uma avaliação completa que permita uma generalização dos resultados, portanto, será feita uma ilustração. Para 98 alcançar este objetivo, serão abordadas a mesorregião Centro-Sul, que possui todos os municípios com IDH-M abaixo da média paranaense, e a mesorregião Oeste, que apresenta taxa média de pobreza de 28,76% e alguns municípios com taxas de pobreza margeando 50%, conforme será discutindo nas próximas sub seções. 5.2.1 Mesorregião Centro-Sul A mesorregião Centro-Sul Paranaense tem população estimada de 533.317 pessoas, distribuídas em 29 municípios agrupados em três microrregiões denominadas Guarapuava, Palmas e Pitanga. A taxa de crescimento populacional figura em 0,69% (período de referência 1991/2000). Possui área territorial de 26.409,78 km², equivalente a 6% do território total do Estado, com densidade populacional de 21,1 hab./km², a mais baixa dentre todas as mesorregiões paranaenses. O maior núcleo urbano da mesorregião é Guarapuava (SESCPR, 2011). A principal fonte de riqueza da região é a extração de madeira de pinus e eucaliptos. Na agricultura se destacam o cultivo de trigo, cevada e soja, além da extração da erva-mate. A ocupação do território da mesorregião Centro-Sul baseouse em grandes propriedades rurais, com atividades de cunho extensivo e extrativo. Nas últimas décadas do século XX, uma corrente migratória, oriunda, predominantemente, do Norte e do Oeste do Paraná, foi atraída pela existência de áreas economicamente subutilizadas. A produção agrícola familiar é marcada por baixos rendimentos e a organização em cooperativas sofre sucessivas crises Guarapuava (SESCPR, 2011). Os municípios que compõem a mesorregião Centro-Sul do Estado do Paraná são essencialmente rurais, de pequeno porte e possuem baixa densidade de ocupação. A mesorregião é uma das menos urbanizadas do Paraná, possuindo um dos mais altos índices de população rural do Estado, característica reforçada pelo elevado número de assentamentos rurais (34% das famílias assentadas do Paraná) e áreas indígenas (62%). Segundo o Ipardes (2003b), todos os municípios da mesorregião Centro-Sul apresentam IDH-M22 abaixo da média paranaense e a renda 22 Os componentes desse índice são Esperança de Vida ao Nascer, Taxa de Alfabetização de Adultos, Taxa de Frequência Escolar (pessoas de 7 a 22 anos de idade) e Renda per capita. A mediana dos municípios da 99 per capita é o componente mais crítico. Sete dos doze municípios mais pobres do Paraná localizam-se ali, com 1/3 da população pobre (ROOS, 2011). O Mapa 12 mostra a localização geográfica da mesorregião Centro-Sul do Paraná. MAPA 12 - MESORREGIÃO CENTRO-SUL DO ESTADO DO PARANÁ FONTE: Wikipedia (2011) A transição demográfica não se encontra em fase avançada na Centro-Sul, que apresentou o nível mais elevado de fecundidade na comparação mesorregional durante os anos 90, tendo menores índices de expectativa de vida ao nascer. A composição etária é marcada por uma população, preponderantemente jovem, com a presença de idosos ainda incipiente. É latente a dificuldade de geração de emprego na mesorregião. No tocante à estrutura ocupacional, a importância das atividades rurais é marcante, somando 39% do total de ocupados. Concentradas em Guarapuava, as ocupações industrial e terciária não têm alcançado dinamismo suficiente para absorver a população ativa, tanto que Guarapuava apresenta a maior taxa de pessoas desocupadas da mesorregião (SESCPR, 2011). mesorregião é de 0,708, enquanto o menor índice encontrado é 0,640 e o maior 0,773, enquanto a média do Estado do Paraná é 0,787. 100 5.2.2 Mesorregião Oeste A mesorregião Oeste do Paraná engloba 50 municípios e, em relação aos dados sobre o Programa Bolsa Família na mesorregião, segundo dados do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), em maio de 2006, o valor médio do benefício foi de R$ 49,80 e a taxa de pobreza de 28,76%. O município em que o valor médio do benefício foi mais alto é Diamante do Sul, que apresenta a maior taxa de pobreza da mesorregião oeste paranaense, com 48,85% da população total. O município que tem o menor valor médio do benefício foi Entre Rios do Oeste, com valor médio de R$ 32,91, tendo a segunda menor taxa de pobreza da mesorregião com 9,49% da população total (SILVA; CARVALHAL, 2010). A cobertura do Programa Bolsa Família é distribuída de forma diversa, pois há municípios em que a taxa de pobreza é reduzida e que apresentam alta porcentagem de cobertura (hachura horizontal) e outros municípios em que a taxa de pobreza é elevada e apresenta porcentagem considerável de atendimento do Programa em relação às famílias pobres (hachura vertical). Marechal Cândido Rondon apresenta taxa de pobreza de 12,41%, entretanto, a porcentagem de atendimento do Programa Bolsa Família é 90,50%. A amplitude do PBF está disseminada por todos os municípios da Mesorregião Oeste do Paraná, porém de maneira diversa (SILVA; CARVALHAL, 2010). Referente à taxa de pobreza, esta se concentra em algumas áreas da mesorregião Oeste. Segundo dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Social e Econômico (IPARDES) referentes a 2003, a pobreza concentra-se principalmente na área central da mesorregião Oeste, especialmente em São José das Palmeiras com 36,3%, Diamante do Oeste com 36,19% e Ramilândia com 48,6% (SILVA; CARVALHAL, 2010). A parte leste da mesorregião Oeste também concentra municípios pobres, como Diamante do Sul com 48,85% (maior taxa de pobreza da mesorregião), Campo Bonito com 48,08%, Ibema com 40,96% e Catanduvas com 43,05%. Quatro Pontes é o município com menor taxa de pobreza na mesorregião Oeste, com 7,92% da população pobre. Marechal Cândido Rondon apresenta a terceira menor taxa de pobreza da mesorregião (12,41%) (SILVA; CARVALHAL, 2010). 101 O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) na mesorregião acompanha a concentração da taxa de pobreza, apresentando maior agrupamento na parte central e na parte leste da mesorregião, pois os municípios que apresentam as maiores taxas de pobreza também apresentam os menores Índices de Desenvolvimento Humano. Nas regiões que apresentam os piores IDHs, o valor médio do benefício pago pelo Programa Bolsa Família é mais alto. O município de Diamante do Sul, por exemplo, apresenta o maior valor médio do beneficio (R$ 73,15), enquanto Diamante do Oeste, na parte central, apresenta valor médio de R$ 66,33. Assim, o PBF apresenta uma espacialidade dependente de outros elementos relacionados a indicadores sociais que contribuem para o avanço da pobreza, como a concentração fundiária e os processos de desenvolvimento desigual ocasionados pelo capitalismo (SILVA; CARVALHAL, 2010). Mostradas as regiões mais críticas, a próxima seção procurará avaliar os efeitos do Programa Bolsa Família na redução da pobreza e desigualdade de renda, bem como o acesso aos direitos sociais garantidos pelo Programa. Portanto, a seção será subdivida em quatro itens: redução da pobreza, escolaridade, emprego e saúde. 5.3 O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA E SUA RELAÇÃO COM AS CONDICIONALIDADES NO ESTADO DO PARANÁ Para avaliação das condicionalidades do Programa Bolsa Família no estado do Paraná, será utilizado o Índice Ipardes de Desempenho Municipal (IPDM), que procura avaliar os estágios de desenvolvimento em suas dimensões mais importantes, consolidadas em índices parciais de renda e emprego, de educação e de saúde nos municípios paranaenses. O índice parcial renda e emprego é construído a partir dos dados referentes a remuneração média, emprego formal e produção agropecuária. O índice educação é obtido a partir de atendimento à educação infantil, percentual de docentes com curso superior, taxa de não abandono e média do índice de desenvolvimento da educação básica (IDEB). Finalmente, o índice saúde é obtido a partir de percentual de mais de seis consultas pré-natais por nascido vivo, percentual de óbitos por causas mal definidas e percentual de óbitos de menores de cinco anos por causas 102 evitáveis por nascidos vivos. Os índices apresentam variações de 0 a 1, condições mínima e máxima de desenvolvimento, respectivamente (IPARDES, 2010). O IPDM para o ano de 2009 aponta contínua melhoria das condições socioeconômicas dos municípios paranaenses em relação ao ano de 2008 e, notadamente, em relação ao ano de início da série, 2002. Dos 399 municípios paranaenses, 312 apresentaram elevação, enquanto 87 tiveram redução no IPDM, conforme mostra a tabela 12. TABELA 12 - MÉDIA MUNICIPAL DOS ÍNDICES DO IPDM - PARANÁ - 2002/2009 ÍNDICE MÉDIA MUNICIPAL 2002 2005 2007 2008 Geral 0,5673 0,6223 0,6569 0,6614 Renda 0,4240 0,4733 0,4834 0,4806 Educação 0,5892 0,6455 0,7125 0,7173 Saúde 0,6886 0,7481 0,7749 0,7864 FONTE: Ipardes (2010) 2009 0,6763 0,4888 0,7502 0,7899 5.3.1 Educação A educação é uma condição fundamental para que as novas gerações participem de modo mais crítico e com maior competência na definição dos destinos da humanidade, porém, no Brasil, é nítida a crise no sistema educacional e sua interface com a problemática da vulnerabilidade social em que se encontra grande parte da população (HERKENHOFF et al., 2006). As condicionalidades são contrapartidas sociais que devem ser cumpridas pelo núcleo familiar como requisito para o recebimento do benefício mensal do Programa Bolsa Família, visando assegurar o acesso dos beneficiários às políticas sociais básicas de saúde, educação e assistência social, favorecendo a melhoria das condições de vida da população, promovendo a redução da pobreza para a próxima geração e propiciando condições mínimas necessárias para sua inclusão social sustentável (BRASIL, 2010). Sobre a importância da escolaridade para o desenvolvimento: As teorias mais recentes sobre desenvolvimento, sempre apontam a importância da educação para o processo de desenvolvimento no longo prazo. Somente a educação permite que a melhoria da produtividade seja contínua sem causar impactos negativos no mercado de trabalho. A principal proxy utilizada para quantificar a variável educação é o anos de estudo da população acima de 25 anos. Segundo dados do IPEA, o Paraná foi um dos estados que mais aumentaram os anos de estudo entre 1990 e 2001 (SILVA; LOPES; MICHON JR, 2009, p. 8). 103 O analfabetismo afeta importante segmento da população brasileira. No Paraná, a taxa de analfabetismo foi reduzida de 8,7%, em 2001, para 6,7%, em 2009, porém, em 2009, 551 mil pessoas de 15 anos ou mais afirmaram não saber ler nem escrever, sendo consideradas analfabetas absolutas. O analfabetismo, no Paraná, continua sendo um problema social relevante, afetando principalmente a população idosa, a qual representa, nas duas concepções adotadas, mais de 40% do total de analfabetos no Estado. Entretanto, mesmo com participação relativa menor, há um importante contingente de jovens adultos (até 39 anos) na condição de analfabetos funcionais23, cuja possibilidade de inserção ocupacional poderá ser comprometida, dada a tendência decrescente requerimento de escolaridade pelo mercado de trabalho (IPARDES, 2010). O maior avanço no Paraná, na primeira década do ano 2000 se deu em relação às crianças de 0 a 6 anos, cuja taxa se expandiu em quase 15 pontos percentuais. Entretanto, este segmento populacional está vinculado basicamente à educação infantil (creche e pré-escola), sendo que a evolução da taxa foi resultado de dois fenômenos concomitantes: a expansão de vagas na educação infantil e a redução, no Estado, da população deste grupo etário, resultante de uma dinâmica demográfica marcada pela acentuada queda nas taxas de fecundidade (IPARDES, 2010). Em relação à faixa etária entre 7 a 14 anos, correspondente ao ensino fundamental, verifica-se que o Estado apresenta, desde o início da década, índice considerado compatível com a universalização do acesso escolar. Quanto aos jovens de 15 a 17 anos, aumentou o percentual que frequenta a escola, entretanto, a questão preocupante é que este aumento se deu no início do ano 2000, ocorrendo então certa estabilização da taxa em torno de 80%, significando que uma parcela importante destes jovens está fora da escola (IPARDES, 2010, p. 40). A Tabela 13 mostra as taxas de atendimento escolar e escolarização no Paraná entre 2001 e 2009. 23 A UNESCO define o analfabeto funcional como toda pessoa que sabe escrever seu próprio nome, assim como lê e escreve frases simples, efetua cálculos básicos, porém é incapaz de interpretar o que lê e de usar a leitura e a escrita em atividades cotidianas, impossibilitando seu desenvolvimento pessoal e profissional. Ou seja, o analfabeto funcional não consegue extrair o sentido das palavras, colocar ideias no papel por meio da escrita, nem fazer operações matemáticas mais elaboradas (Ipardes, 2010, p.38). 104 TABELA 13 - TAXAS DE ATENDIMENTO ESCOLAR, DE ESCOLARIZAÇÃO BRUTA E LÍQUIDA PARANÁ – 2001-2009 24 – TAXA GRUPO ETÁRIO 0 a 6 anos 7 a14 anos 15 a 17 anos FONTE: IPARDES (2010) 2001 2009 2001 2009 ESCOLARIZAÇÃO LÍQUIDA 2001 2009 30,7 96,5 75,1 45,5 97,6 80,5 25,8 115,7 89,1 32,5 115,6 95,1 25,3 95,2 49,0 ATENDIMENTO ESCOLARIZAÇÃO BRUTA 31,9 94,5 59,6 No período entre 2001 e 2009, a taxa de jovens de 15 a 17 anos com 8 anos ou mais de estudo aumentou. Em 2009, 70% dos jovens desta faixa etária tinham concluído o ensino fundamental. Este percentual aumenta quando são considerados os jovens com idade entre18 e 24 anos, pois nesta faixa etária, 84% concluíram o ensino fundamental. Entretanto, o problema do atraso escolar e/ou do abandono escolar parece continuar comprometendo a maior eficiência da educação fundamental no Estado. Em relação ao ensino médio (11 ou mais anos de estudo) o avanço foi mais expressivo, com um aumento de quase 18 pontos percentuais na taxa de conclusão. Ainda assim, em 2009, apenas 58% dos jovens de 18 a 24 anos tinha atingido este nível de escolaridade, ou seja, mais de 40% dos jovens nesta faixa etária está fora da escola (IPARDES, 2010). O Ministério de Educação e Cultura (MEC) vem divulgando, desde 2007, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), indicador que pretende refletir a evolução da educação básica no País em termos de resultados, avaliando dois conceitos igualmente importantes para a qualidade da educação: fluxo escolar e médias de desempenho nas avaliações. A escala de avaliação vai de 0 a 10 e, para os diversos níveis, tem-se como meta atingir a nota 6,0. Entre 2005 e 2009, o Paraná avançou nos três níveis considerados: séries iniciais e finais do fundamental e nível médio (conforme mostra a Tabela 14), possuindo a maior nota relacionada ao ensino médio (4,2). Entretanto, é neste nível que o Estado tem seu pior desempenho (IPARDES, 2010). 24 Taxa de Escolarização Líquida identifica a parcela da população na faixa etária de 7 a 14 anos matriculada no Ensino Fundamental e a Taxa de Escolarização Bruta identifica se a oferta de matrícula no Ensino Fundamental é suficiente para atender a demanda na faixa etária de 7 a 14 anos (Menezes e Santos, 2002). 105 TABELA 14 - ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO BÁSICA – 2005-2009 REGIÃO/UNIDADE DA FEDERAÇÃO Brasil Sul Paraná Maior índice UF FUNDAMENTAL Séries iniciais 2005 3,8 4,4 4,6 4,8 2007 4,2 4,8 5,0 5,0 MÉDIO Séries finais 2009 4,6 5,1 5,4 5,6 2005 3,5 3,8 3,6 4,3 2007 3,8 4,1 4,2 4,3 2009 4,0 4,3 4,3 4,5 2005 3,4 3,7 3,6 3,8 2007 3,5 3,9 4,0 4,0 2009 3,6 4,1 4,2 4,2 FONTE: IPARDES (2010) Nas séries iniciais do ensino fundamental, o Paraná possui nota superior à média da Região Sul e à do País e, se mantiver o ritmo de crescimento do período 2005-2009, poderá atingir a meta antes do ano previsto (2017). Entretanto, para as séries finais e para o nível médio, o esforço para atingir as metas deverá ser maior, uma vez que as notas obtidas em 2009 foram baixas e o ritmo de desempenho diminuiu entre 2007 e 2009. O IDEB avalia rendimento escolar (aprovação) e desempenho (proficiências), e no caso do Paraná, o avanço no IDEB resultou de variações positivas nestas duas dimensões, porém, no ensino fundamental, a melhoria relativa foi maior em termos de evolução do desempenho, maiores notas na Prova Brasil, enquanto, no ensino médio, o avanço esteve relacionado principalmente às maiores taxas de aprovação. Este resultado do ensino médio é condizente, de certo modo, com todo o esforço que vem sendo realizado para aumentar o acesso e a permanência dos jovens na escola, mas aponta, também, para a necessidade de se alcançar resultados mais expressivos em termos de proficiência (IPARDES, 2010). O Programa Bolsa Família possui a condicionalidade da frequência escolar de crianças e jovens, entretanto, como demonstrado, a frequência escolar de jovens está estagnada desde os anos iniciais da primeira década de 2000. Um problema a ser pensado é o fato da população idosa e adulta continuar representando altas taxas de analfabetismo e não ser contemplada diretamente em tais políticas. Atualmente o estado do Paraná apresenta 501.882 beneficiários com o perfil educação. Este indicador apontou melhoria geral em 86,7% (346) do total de municípios paranaenses, dos quais a maior parte situa-se na categoria de médio desempenho, conforme mostra a gráfico 4. Este aumento foi fortemente influenciado pela melhoria do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), tanto do ensino de 1ª a 4ª série, como de 5ª a 8ª série. O atendimento à educação infantil (relação entre número de matrículas em creches e pré-escolas de crianças com 106 idade entre 0 e 5 anos e número de crianças nessa faixa etária) também contribuiu para o aumento (IPARDES, 2010) GRÁFICO 4 - ÍNDICE IPARDES 2008/2009 DE DESEMPENHO MUNICIPAL – DIMENSÃO EDUCAÇÃO – FONTE: Ipardes (2010, p. 7) Os mapas 13 e 14 mostram os índices de desempenho na área da educação no estado do Paraná, em 2002 e 2009, respectivamente. É possível observar grande melhora neste índice, sendo que, em 2009, nenhum município apresentou baixo desempenho, enquanto que, em 2002, este índice estava presente em 14 municípios. Em relação ao alto desempenho, o número de municípios passou de 6 em 2002, para 115, em 2009. 107 MAPA 13 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA DA EDUCAÇÃO, DOS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARANÁ EM 2002 FONTE: Ipardes (2010) MAPA 14 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA DA EDUCAÇÃO, DOS MUNICÍPIOS ESTADO DO PARANÁ EM 2009 FONTE: Ipardes (2010) 108 Em relação aos seis municípios paranaenses selecionados, a Tabela 15 mostra seus desempenhos individuais, na área da educação, nos anos 2002, 2005, 2007, 2008 e 2009, apontando crescimento neste indicador em todas as cidades analisadas. TABELA 15 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA EDUCAÇÃO PARANAENSES EM 2002, 2005, 2007, 2008 E 2009 Município Curitiba Londrina Maringá Guarapuava Diamante do Sul Ortigueira 2002 0,6511 0,6764 0,7556 0,5391 0,3772 0,3810 2005 0,7279 0,7235 0,8078 0,6052 0,5057 0,4392 2007 0,7631 0,7542 0,8233 0,6332 0,6100 0,5459 DE ALGUNS 2008 0,7769 0,7555 0,8410 0,6515 0,6387 0,5625 MUNICÍPIOS 2009 0,8062 0,7848 0,8637 0,7079 0,6496 0,6229 FONTE ipardes (2010). A educação certamente apontará melhores resultados nos próximos anos, uma vez que a meta do Plano Brasil Sem Miséria no Programa Mais Educação é concentrar a expansão do Programa em escolas nas quais a maioria dos estudantes são membros de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família (BRASIL, 2012a). Discorrido sobre a educação, a próxima sub seção tratará da condicionalidade saúde. 5.3.2 Saúde As condições de saúde da população são pré-requisito para garantia de desenvolvimento de um País, assegurando a qualidade de sua inserção no mercado de trabalho. No Brasil, o setor público detém a responsabilidade pela oferta dos serviços de saúde, assegurada como direito constitucional fundamental garantido à população (IPARDES, 2010). O Programa Saúde da Família, criado em 1994, é entendido como uma estratégia do Governo Federal que reorientou o modelo assistencial de saúde, operacionalizado mediante a implantação de equipes multiprofissionais em unidades básicas de saúde. As equipes são responsáveis pelo acompanhamento de um número definido de famílias, localizadas em áreas geográficas delimitadas. As equipes atuam com ações que objetivam promover a saúde, prevenir, recuperar, reabilitar doenças e agravos mais freqüentes, além de manter a saúde da população. As equipes do Programa Saúde da Família são compostas, no mínimo, por um médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e de quatro a seis 109 agentes comunitários de saúde. Outros profissionais, como dentistas, assistentes sociais e psicólogos, podem ser incorporados às equipes ou formar equipes de apoio, de acordo com as necessidades e possibilidades locais (BRASIL, 2012d). No intuito de viabilizar estratégias que garantam o acesso à saúde, o Ministério da Saúde preconiza o número de equipes de agentes comunitários de saúde, equipes de saúde da família e de saúde bucal para o atendimento populacional (IPARDES, 2010). A Tabela 16 mostra o avanço lento da oferta desses serviços, em 2007. TABELA 16 - COBERTURA DA REDE DE ATENÇÃO BÁSICA EM SAÚDE PROPOSTA PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE E EFETIVADA PELOS MUNICÍPIOS DO PARANÁ – AGOSTO DE 2007 ESPECIFICAÇÃO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE EQUIPE DE SAÚDE DA FAMÍLIA Credenciamento (a) 25.723 Coberta (b) 11.137 EQUIPES DE SAÚDE BUCAL Mobilidade I Mobilidade II Total 4.292 4.292 4.292 4.292 1.572 622 353 975 (a/b) % 43,3 37,0 14,5 8,2 22,8 FONTE: BRASIL (2012d). NOTA: Equipe de Saúde Bucal modalidade I é composta por cirurgião-dentista e auxiliar de consultório dental. Equipe de Saúde Bucal modalidade II é composta por cirurgião-dentista, técnico de higiene dental e auxiliar de consultório dental. Embora o atendimento à população possa se dar em unidades ambulatoriais (postos e centros de saúde), dada a prioridade que têm tais programas estratégicos no âmbito da atenção básica, o índice de cobertura fica bem aquém do nível preconizado pelo Ministério da Saúde, entretanto, alguns indicadores apontam avanços importantes no quadro de saúde da população paranaense, dentre os quais os indicadores de mortalidade infantil. Entre 2003 e 2008, houve uma redução da taxa de mortalidade infantil (menores de 1 ano por mil nascidos vivos) de 16,5 para 13,1 óbitos infantis. Tal redução certamente está associada a medidas de caráter, como o atendimento às gestantes e as campanhas de vacinação (IPARDES, 2010). No período entre 2003 e 2008, foi ampliado o acompanhamento às gestantes, com o percentual de nascidos vivos cujas mães passaram por sete ou mais consultas de pré natal, ampliando de 68,8%, em 2003, para 78,2%, em 2008. Em 2008, este índice foi superior ao da Região Sul (73,6%) e ao do País (57,8%). Também neste período o percentual de óbitos de menores de 5 anos por causas evitáveis apresentou redução de 1,58% para 1,22% (IPARDES, 2010). 110 Em 2009, a melhoria do índice geral de desempenho dos municípios paranaenses teve menor contribuição da área de saúde, uma vez que 197 deles tiveram redução ou apresentaram estabilidade, e 202 tiveram aumento neste indicador (gráfico 5). Grande parte da melhoria registrada ocorreu nos municípios com menor desempenho em 2008, que foi compensada para baixo nos municípios que já apresentavam índices mais elevados nesse ano. Ainda assim, o índice da área da saúde sempre foi o maior, entre as três dimensões que compõem o IPDM. GRÁFICO 5 - ÍNDICE IPARDES DE DESEMPENHO MUNICIPAL – DIMENSÃO SAÚDE 2008/2009 FONTE: Ipardes (2010). Os mapas 15 e 16 mostram os desempenhos dos municípios paranaenses em 2002 e 2009, respectivamente, em relação ao indicador saúde. Houve avanço neste índice, uma vez que em 2002 o estado apresentava 14 municípios com baixo desempenho, e em 2009, apenas um município (Doutor Ulysses) apresenta este resultado. Em relação ao alto desempenho na saúde, em 2002, 101 municípios se enquadravam nesta classificação, passando para 200 municípios, em 2009. 111 MAPA 15 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA DA SAÚDE, DOS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARANÁ 2002 FONTE: Ipardes (2010) MAPA 16 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA DA SAÚDE, DOS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARANÁ 2009 FONTE: Ipardes (2010) Dentre os municípios paranaenses selecionados para a ilustração, a Tabela 17 mostra seus desempenhos individuais, na área saúde, nos anos 2002, 2005, 2007, 2008 e 2009, apontando crescimento neste indicador em todas as cidades 112 analisadas nos anos 2002, 2005, 2007 e 2008. Em 2009, com exceção de Curitiba, todos os municípios apontaram queda no indicador. TABELA 17 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA SAÚDE DE PARANAENSES EM 2002, 2005, 2007, 2008 E 2009. Município 2002 2005 2007 Curitiba 0,8438 0,8621 0,8906 Londrina 0,8484 0,8958 0,8903 Maringá 0,8224 0,8608 0,8747 Guarapuava 0,6606 0,6852 0,7137 Diamante do Sul 0,4002 0,5107 0,6795 Ortigueira 0,4327 0,6420 0,7262 FONTE: Ipardes (2010) ALGUNS MUNICÍPIOS 2008 0,8990 0,8942 0,8813 0,7255 0,8217 0,7621 2009 0,9000 0,8913 0,8699 0,7161 0,7914 0,6892 Em 2010, o Paraná teve 403.509 famílias beneficiadas pelo Programa Bolsa Família, sendo que 76,82% (309.976 famílias) foram acompanhadas pela condicionalidade saúde, cuja meta pactuada era de 71,00% (Informe alimentação e nutrição (BRASIL, 2011c). 5.3.3 Emprego e Renda O Programa Bolsa Família contribui significativamente para a composição da renda de famílias em situação de extrema pobreza e pobreza, entretanto, se caracteriza por ser um programa de governo, e não de Estado, motivo pelo qual há o risco de descontinuidade do Programa. A renda transferida pelo Programa não constitui um direito social, motivo pelo qual pode ser reduzida ou retirada, conforme o interesse de cada governo (DRUCK; FILGUEIRAS, 2007). Há ainda a cobrança de alguns segmentos da sociedade em relação à distribuição de renda no Programa, que alegam que o repasse mensal poderia levar à acomodação das famílias mais pobres, com desestímulo à busca pelo emprego com carteira assinada. Inicialmente a situação de pobreza reforçou a necessidade de estruturar o campo da proteção social, unificando os programas de transferência de renda, a implantação do Sistema Único da Assistência Social (SUAS) e o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN); posteriormente, esforços foram requeridos para viabilizar a promoção social por meio da articulação e potencialização de ações de inclusão produtiva. Desta forma, as ações complementares que contribuem para a ampliação das oportunidades de inclusão 113 para as famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família são essenciais para a inclusão dos beneficiários no mercado de trabalho (BRASIL, 2011d). Deste modo, a criação de emprego, garantia de renda e valorização do salário mínimo são fatores determinantes para o desempenho econômico no Brasil e nos estados. Esta sub seção tratará do emprego e renda no estado do Paraná. Na última década, seguindo a tendência nacional, o Paraná intensificou o ritmo de geração de trabalho, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que mostrou que no período entre 2002 e 2008 o número de ocupados no Estado foi ampliado em 577,4 mil trabalhadores, atingindo em 2008, 5,6 milhões de pessoas ocupadas. Seguindo tendência que remonta aos anos 1970, as ocupações agrícolas no Estado vêm sendo reduzidas, tendo eliminado cerca de136 mil postos de trabalho desde então. Ainda assim, o trabalho agrícola representava, em 2008, 17% do total das ocupações no Paraná (IPARDES, 2010). O incremento das ocupações não agrícolas foi superior a 713 mil, sofrendo variação de 18,2% no período. Setorialmente, a maior variação relativa (21,8%) foi apresentada pela indústria de transformação, responsável pela geração de 154 mil postos de trabalho, refletindo recuperação recente desta atividade no âmbito da economia estadual. O setor de serviços foi responsável pela maior parcela das ocupações geradas no Estado, representando 71,2% do incremento verificado nas ocupações não agrícolas, entre 2002 e 2008; neste setor foram gerados 508 mil empregos, 134 mil pelo comércio e 374 mil pelos demais serviços (IPARDES, 2010). Em 2010, as ocupações agrícolas envolvem quase 1 milhão de pessoas no Estado do Paraná, sendo que a redução observada se deve basicamente à evolução negativa do contingente de trabalhadores não remunerados, geralmente membros da família que auxiliam o produtor. Em contrapartida, o número de produtores, considerando-se a soma de conta-própria e empregadores, manteve-se relativamente estável no período. A maior parte das ocupações (72%, em 2008) estava relacionada à produção familiar. Porém, aumentou a participação do assalariamento no total das ocupações agrícolas, com importante incremento, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), do emprego formal, cujo estoque já supera 100 mil postos de trabalho, crescimento que pode ser associado à dinâmica do agronegócio, 114 com destaque às atividades ligadas à produção de soja e de cana-de-açúcar,ao reflorestamento e à criação de bovinos e de aves (IPARDES, 2010). Em relação ao emprego no Paraná na última década, é possível observar dois movimentos: a redução da participação das classes de maior rendimento (5 ou mais salários mínimos), a qual passou de 10,9%, em 2002, para 9,1%, em 2008; e a redução expressiva dos trabalhadores que não tinham remuneração, bem como daqueles que ganhavam até um salário mínimo, categorias que, em 2002, representavam 35,5% dos trabalhadores no Estado, passando a 29,3%, em 2008 (IPARDES, 2010), conforme mostra o Gráfico 6. GRÁFICO 6 - DISTRIBUIÇÃO DOS OCUPADOS SEGUNDO CLASSES DE RENDIMENTO MENSAL NO TRABALHO PRINCIPAL – PARANÁ 2002/2008 FONTE: O Ipardes (2012) publicou o Estudo Economia Paranaense: Resultados em 2011, onde mostra na Tabela 18 o saldo de emprego formal na Região Metropolitana de Curitiba e no interior do Estado. TABELA 18 - SALDO DE EMPREGO FORMAL, SEGUNDO ATIVIDADES ECONÔMICAS – PARANÁ - JANEIRO A DEZEMBRO DE 2011 ATIVIDADE SALDO DO EMPREGO FORMAL (n.º de vagas) Região Metropolitana de Interior do Estado Paraná Curitiba Extrativa mineral 161 286 447 Indústria de transformação 9.051 14.759 23.810 Serv. Industriais de útil. pública 1.589 219 1.808 Construção civil 4.973 5.683 10.656 Comércio 10.499 22.770 33.269 Serviços 23.965 27.592 51.557 Administração pública -1 1.877 1.876 Agropecuária 477 16 493 Total 50.714 73.202 123.916 FONTE: IPARDES (2012) 115 A taxa de desocupação na Região Metropolitana de Curitiba é uma das menores do País, segundo o Ipardes (2012), conforme mostra a Tabela 19. TABELA 19 - TAXA DE DESOCUPAÇÃO, SEGUNDO REGIÕES METROPOLITANAS – 2011 REGIÃO METROPOLITANA TAXA DE DESOCUPAÇÃO (%) Dezembro de 2011 Média Jan-Dez/2011 Recife 4,7 6,5 Salvador 7,7 9,6 Belo Horizonte 3,8 4,9 Rio de Janeiro 4,9 5,2 São Paulo 4,7 6,2 Porto Alegre 3,1 4,5 Curitiba 3,0 3,7 Média nacional 4,7 6,0 FONTE: IPARDES (2012). Os mapas 17 e 18 mostram os índices de desempenho na área renda no estado do Paraná em 2002 e 2009, respectivamente. Este índice apresentou melhora em relação à diminuição do número de municípios com baixo desempenho, reduzindo de 187 municípios em 2002 para 67 em 2009. Entretanto, em 2009, apenas quatro municípios da RMC apresentaram alto desempenho neste indicador (Curitiba, Quatro Barras, Araucária e São José dos Pinhais), sendo que em 2002 apenas Curitiba detinha este índice. MAPA 17 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA RENDA, DOS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARANÁ EM 2002 FONTE: Ipardes (2010) 116 MAPA 18 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA RENDA, DOS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARANÁ EM 2009 FONTE: Ipardes (2010). Em relação à renda, vários municípios se encontram em categorias iniciais de desempenho, e foi possível verificar a elevação dos índices de renda para 253 municípios (Gráfico 7), com destaque para os grupos médio baixo e médio desempenho, comportamento vinculado a uma melhoria da geração de emprego formal e crescimento da remuneração média (IPARDES, 2010). 117 GRÁFICO 7 - ÍNDICE IPARDES DE DESEMPENHO MUNICIPAL – DIMENSÃO RENDA – 2008/2009 FONTE: IPARDES (2010) Em relação aos seis municípios paranaenses selecionados para a ilustração, a Tabela 20 mostra seus desempenhos individuais, na área renda, nos anos 2002, 2005, 2007, 2008 e 2009, apontando crescimento na maioria deles, com exceção em 2009, onde quatro municípios apresentaram ligeira queda. TABELA 20 - ÍNDICE DE DESEMPENHO NA ÁREA RENDA PARANAENSES EM 2002, 2005, 2007, 2008 E 2009. Município 2002 2005 2007 Curitiba 0,8710 0,8864 0,8697 Londrina 0,7333 0,7403 0,7630 Maringá 0,7068 0,7396 0,7542 Guarapuava 0,5750 0,6218 0,6001 Diamante do Sul 0,2547 0,3024 0,4116 Ortigueira 0,4419 0,5324 0,4409 FONTE: IPARDES (2010). DE ALGUNS 2008 0,8768 0,7794 0,7411 0,6437 0,4308 0,4325 MUNICÍPIOS 2009 0,8681 0,7600 0,7540 0,6333 0,4114 0,4400 Comparativamente, os desempenhos nas áreas da saúde e educação apontaram aumento significativo no estado e nas seis cidades paranaenses analisadas, enquanto o indicador renda teve discreta ascensão, apesar de o Paraná possuir taxa de desemprego mais baixa que a média nacional e ter sido o estado brasileiro que mais gerou empregos na indústria neste ano. Em abril de 2012, a mão de obra empregada no setor industrial do Estado teve aumento de 4,1%, em relação ao mesmo mês do ano passado, enquanto no País houve queda de 1,4% no pessoal empregado. No acumulado do ano, o número de postos de trabalho na indústria paranaense subiu 4%, enquanto na média nacional houve recuo de 0,9%. É possível presumir que não houve geração de renda e emprego não relacionada à atividade 118 industrial suficientes para abranger grande parcela da população, especialmente em cidades onde há predomínio de atividades rurais. 5.4 PROBLEMATIZAÇÕES SOBRE O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA A articulação entre o programa Bolsa Família e outras políticas públicas associa-se ao entendimento da pobreza como fenômeno complexo e multidimensional. A pobreza não deve ser compreendida apenas como sinônimo de insuficiência de renda das famílias, nem seu combate devem ser restritos ao recebimento de recursos financeiros pelos beneficiários. A partir de tal concepção, a plena efetivação dos objetivos do programa depende da sua integração com ações e serviços que permitam o desenvolvimento das capacidades das famílias, especialmente em suas inserções no mercado de trabalho (BRASIL, 2011d). Portanto, apenas programas de transferência de renda não são capazes de modificar a condição de pobreza no país, sendo necessárias políticas coerentes de geração de emprego e fortalecimento do salário, especialmente em regiões onde a renda não tem alta concentração. É inegável a contribuição dos programas de transferência de renda na redução da extrema pobreza no país, entretanto, outros fatores têm especial influência. Gilmar Mendes Lourenço, economista e diretor-presidente do Ipardes, aponta alguns fatores para o fortalecimento do mercado interno brasileiro, como o fim da superinflação, com o lançamento e consolidação do Plano Real, a aplicação de programas públicos de transferência de renda, gestados a partir da Constituição Federal de 1988, reunidos no Programa Bolsa Família a partir de 2003, a política de recomposição do valor real do salário mínimo, a criação e proliferação da utilização da modalidade de crédito em consignação, entre outros avanços. Tais fatores contribuíram para o substancial incremento na massa de salários, graças à firme geração de empregos formais (que ultrapassou 80,0% do total em dez anos), a fixação de pisos salariais regionais superiores ao nacional em cinco estados (Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e a obtenção de reajustes reais de rendimentos para a maioria das categorias laborais, decorrentes de realização de dissídios trabalhistas, que suplantaram, em determinadas ocasiões, os ganhos de produtividade setoriais (IPEA, 2011b). 119 No estado do Paraná, há a concentração de mais da metade da geração de renda em três macropolos, sendo eles a faixa entre Paranaguá, Região Metropolitana de Curitiba e Ponta Grossa, com perfil produtivo diversificado, predominantemente agronegócio, metal mecânica e refino de petróleo. O segundo vetor abrange o eixo Londrina-Maringá, amparado no agronegócio e em serviços, sendo que o eixo dispõe de duas universidades estaduais. Já o terceiro motor paranaense está localizado no eixo Cascavel-Foz do Iguaçu, com destaque para o agronegócio, turismo e geração de energia (LOURENÇO, 2012). A tabela 21 mostra as principais economias paranaenses e suas participações no PIB estadual em 2009. TABELA 21 - DISTRIBUIÇÃO DO PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) E POSIÇÃO NO RANKING BRASILEIRO, SEGUNDO MUNICÍPIOS SELECIONADOS - PARANÁ – 2009 MUNICÍPIOS PARTICIPAÇÃO NO PIB POSIÇÃO NO PAÍS ESTADUAL (%) Curitiba 24,1 4.º Araucária 6,3 35.º São José dos Pinhais 6,1 38.º Londrina 4,7 50.º Maringá 3,8 62.º Foz do Iguaçu 3,5 29.º Paranaguá 2,7 86.º Ponta Grossa 2,7 91.º Cascavel 2,6 93.º SUBTOTAL 56,7 TOTAL DO ESTADO 100,00 FONTE: IPARDES (2010) No último ano do governo Lula, em 2010, o então presidente anunciou que encaminharia ao Congresso Nacional o projeto de Consolidação das Leis Sociais, com o objetivo de transformar em lei todos os avanços sociais do governo. A Consolidação deveria incluir programas como o Bolsa Família, com a intenção de garantir a continuidade dos programas implantados, independente da convicção política que assumisse a presidência (Pires, 2010). O projeto recebeu inúmeras críticas, especialmente em relação à política eleitoreira do projeto. Em agosto de 2010 o então presidente desistiu de enviar o projeto ao Congresso, por conta do processo eleitoral (IGLESIAS, 2010). Foi uma tentativa de transformar um programa de governo em programa de Estado, entretanto, não foi consolidado. O governo federal busca constantemente reduzir a extrema pobreza e a pobreza, ampliando os investimentos no Programa Bolsa Família, priorizando famílias com crianças, buscando ativamente cadastrar famílias em situação de extrema pobreza e pobreza, além de ampliar os critérios de inclusão e criando 120 programas e estratégias que o fortaleçam, como o Brasil Sem Miséria e o Brasil Carinhoso. O Plano Brasil Sem Miséria foi lançado pelo Governo Federal em 2 de junho de 2011, com o objetivo de superar a extrema pobreza até o final de 2014. O Plano é pautado em três eixos: 1) garantia de renda, para alívio imediato da situação de extrema pobreza; 2) acesso a serviços, para melhoria das condições de educação, saúde, assistência e cidadania das famílias que compõem o público-alvo; e 3) inclusão produtiva, para aumentar as capacidades e as oportunidades de ocupação e geração de renda entre as famílias extremamente pobres. O Plano Brasil Sem Miséria incorporou, fortaleceu e articulou ações e programas que já eram eficazes na redução da pobreza, além de criar novas iniciativas, como a Ação Brasil Carinhoso (BRASIL, 2012b). No período de junho de 2011 a março de 2012, foi realizada uma estratégia de Busca Ativa, resultante da articulação do Governo Federal, Estados e Municípios, que objetivou a ampliação do cadastramento das famílias extremamente pobres. Tal estratégia fez parte do Plano Brasil Sem Miséria, que incluiu 687 mil novas famílias extremamente pobres no Cadastro Único, e que passaram a receber o Bolsa Família, superando a meta de 640 mil famílias prevista para 2012, conforme mostra a Gráfico 8. Dentre as famílias incluídas no Cadastro Único, 39% estão em municípios com mais de 100 habitantes, 75% delas estão em centros urbanos e 14% representam públicos específicos, ou seja, quilombolas, indígenas, agricultores familiares, assentados, acampados, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos, catadores de material reciclável, população em situação de rua e outros (BRASIL, 2012b). 121 GRÁFICO 8 - FAMÍLIAS EXTREMAMENTE POBRES INCLUÍDAS NO CADASTRO ÚNICO PELO PLANO BRASIL SEM MISÉRIA, NO PERÍODO DE JUNHO DE 2011 A MARÇO DE 2012 FONTE: BRASIL (2012b, p. 6) O orçamento do Programa Bolsa Família aumentou em 40% de 2010 a 2012, passando de 0,38% para 0,46% do PIB (gráfico 9). Os recursos adicionais destinaram-se ao reajuste dos benefícios, ao aumento do número de famílias beneficiárias e ao aumento da quantidade de benefícios por família, o que elevou o valor médio repassado às famílias beneficiária do Programa. 122 GRÁFICO 9 - EXPANSÃO DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA, EM R$ BILHÕES E % DO PIB, DE 2003 A 2012 FONTE: BRASIL (2012b, p. 8). O valor do benefício médio do Programa Bolsa Família aumentou de R$ 97 para R$ 134, representando um acréscimo de 38% com o Brasil Sem Miséria. O benefício médio passou por três momentos de aumento, sendo dois deles em 2011, com o reajuste e as inovações introduzidas pelo Brasil Sem Miséria no Programa; e o terceiro em 2012, com o lançamento da Ação Brasil Carinhoso, conforme mostra a figura 3. FIGURA 3 - AUMENTO DO BENEFÍCIO MÉDIO DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO PERÍODO 20102012 FONTE: BRASIL (2012b, p. 9) 123 A Ação Brasil Carinhoso foi lançada em maio de 2012, tendo como meta a superação da miséria em todas as famílias com crianças de 0 a 6 anos, associada à ampliação de acesso a creche, pré-escola e saúde, assegurando renda de pelo menos R$ 70 por pessoa a famílias extremamente pobres com crianças nessa faixa etária (BRASIL, 2012b). O início do pagamento deste benefício em junho de 2012 reduziu a extrema pobreza total em 40%, conforme salienta o gráfico 10: GRÁFICO 10 - PERCENTUAL DE REDUÇÃO DE EXTREMA POBREZA POR FAIXA ETÁRIA APÓS A AÇÃO BRASIL CARINHOSO FONTE: BRASIL (2012b, p. 13). Com o objetivo de combater a pobreza e a pobreza extrema no resgate das famílias via inserção no mercado de trabalho, o IPEA (2011c) caracterizou-as em função das conexões na população em idade ativa (PIA) familiar à renda do trabalho, sendo criados três tipos mutuamente exclusivos de famílias: famílias com conexão agrícola, famílias com conexão precária e famílias sem conexão. Os dois primeiros tipos serão melhor detalhados, enquanto o terceiro tipo se refere a famílias onde nenhum integrante está ocupado (desempregados ou inativos). As famílias com conexão agrícola são as mais associada à pobreza extrema (frequência 4 vezes maior que a esperada) e à pobreza (frequência 2,4 vezes maior do que a esperada), onde pelo menos metade da PIA familiar ocupada (desconsiderando desocupados e inativos) se encaixa na categoria de produtores agrícolas, sendo bem representadas pelos agricultores familiares, cujos principais 124 obstáculos à emancipação produtiva são, pela ordem, o pequeno tamanho de suas terras e a disponibilidade de insumos, especialmente de água, de assistência técnica e a venda da produção (IPEA, 2011c). Com a finalidade de apoiar famílias em extrema pobreza a produzir mais e melhor e a comercializar seus produtos, o Plano Brasil Sem Miséria ampliou a construção de cisternas, a oferta de assistência técnica e extensão rural (ATER), a distribuição de sementes e o fomento, ou seja, recursos para aquisição de insumos necessários à produção, sendo realizados mais de 1 milhão de atendimentos, onde foram beneficiadas 263 mil famílias em extrema pobreza que vivem no campo. Muitas dessas famílias foram atendidas pelo Luz Para Todos e pela ampliação do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que garante a compra da produção dos agricultores familiares em extrema pobreza (BRASIL, 2012b). Em relação à inclusão produtiva urbana, o Plano Brasil sem miséria se pauta na qualificação profissional, através do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC), que disporá de um milhão de vagas até 2014 para pessoas registradas no Cadastro Único. Foram criadas 256 mil vagas nos 27 Estados da Federação, com 123 mil pessoas inscritas, sendo que destes, 70% são mulheres e 44% têm entre 18 e 28 anos. As vagas ofertadas são distribuídas em 189 tipos de cursos, incluindo auxiliar administrativo, costureira, eletricista, cuidador de idosos, operador de computador, dentre outros (BRASIL, 2012b). Em relação à classificação do IPEA, citada anteriormente, o tipo de famílias com conexão precária é composto por pessoas que se enquadram nas categorias empreendedores e empregados informais, sendo os empregados sem carteira assinada e que na falta de emprego tornam-se autônomos, montando um negócio informal, prestando serviços ou fazendo biscates. Têm grandes chances de, no caso de adversidade, como a perda do emprego informal do principal provedor de renda ou uma doença que acometa um membro que trabalhe como autônomo, virem a se tornar famílias sem conexão à renda do trabalho, cuja situação seria mais grave caso não conte com conexões a outras fontes de renda, em particular as da previdência e da assistência social (IPEA, 2011c). Com o objetivo de apoiar o empreendedorismo, o Plano Brasil Sem Miséria firmou parceria com o Sebrae, contemplando a formalização e a assistência técnica para os Microempreendedores Individuais (MEI). Foram formalizados 171 mil novos 125 MEIs do Cadastro Único, dentre os quais 81 mil são beneficiários do Programa Bolsa Família (gráfico 11), sendo que cerca de 23 mil deles receberam assistência técnica especializada (BRASIL, 2011c). GRÁFICO 11 - PERFIL DOS EMPREENDEDORES INDIVIDUAIS FORMALIZADOS E ASSISTIDOS NO PERÍODO DE DEZEMBRO/2010 A FEVEREIRO/2012 FONTE: BRASIL (2012b, p. 25). Embora os programas de distribuição de renda reduzam a extrema pobreza e a pobreza, não alteram significativamente a condição das famílias pobres. O Brasil alcançou importante avanço na condição socioeconômica da população mais carente, investindo em saúde e educação, entretanto, são necessários programas que fortaleçam a criação de emprego e renda, da agricultura familiar, que valorizem o salário mínimo e que apoiem o empreendedorismo. Desta maneira, a inclusão social e a diminuição da desigualdade serão duradouras e estáveis. 126 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho foi desenvolvido buscando responder se o Programa Bolsa Família é efetivo na redução da pobreza no estado do Paraná. Seu delineamento baseou-se em indicadores de direitos sociais como saúde, educação e renda. De maneira geral, houve redução na pobreza e melhora nos indicadores sociais no estado, conforme demonstrado no decorrer do trabalho. Entretanto, muitos dados específicos sobre a população beneficiária do programa e a relação com tais indicadores é inexistente. O Brasil é um Estado soberano, que aborda em sua Constituição aspectos decorrentes da desigualdade social, como a pobreza e a desigualdade social, elencando um rol de direitos sociais que visa diminuir a desigualdade, garantidos constitucionalmente. Os direitos sociais representam a extensão dos direitos fundamentais do homem, que devem ser garantidos pelo Estado, com a finalidade de proporcionar melhores condições de vida aos grupos vulneráveis. Para alcançar tal objetivo, o Estado cria sistemas públicos de proteção social para a regulação da vida em sociedade. A integração da sociedade deve ser mantida para a manutenção da soberania estatal e situações que apresentam risco de ruptura social devem ser combatidas, como a pobreza, a desigualdade, o desemprego e a estratificação social. As políticas públicas são os instrumentos utilizados para a manutenção da ordem social, pois visam proporcionar um estado de bem estar. A proteção social passa a ser assegurada como um direito, abrangendo programas e ações dirigidos ao enfrentamento de diferentes níveis de privação, risco e vulnerabilidade, prestados por tipos diversos de instituições, públicas ou privadas. No contexto atual, as políticas públicas são associadas a um conjunto de ações cuja concepção subjacente é a cidadania entendida como um conjunto de direitos acumulados, sendo eles direitos civis, políticos e sociais. A política social é dinâmica, pois em sua trajetória histórica, cada sociedade incorpora o reconhecimento de determinadas contingências, riscos sociais e igualdades desejáveis, exigindo que o Estado e outros entes sociais assumam a 127 responsabilidade pela sua defesa e proteção e as convenções formadas socialmente determinam o que será tratado como questão social. Pobreza e desigualdade devem ser encaradas como questão social e não devem ser confundidas. A pobreza é decorrente das ações realizadas pelos próprios homens, uma condição que afeta o indivíduo, é, portanto, decorrente da desigualdade social. Esta, por sua vez, decorre da má distribuição da propriedade e renda. O Estado deve assegurar uma política social com qualidade, imprescindível à existência de serviços públicos necessários, resolutivos e equalizadores e a plena participação da sociedade civil. No Brasil, o modelo de política social vigente abrange a seguridade social, garantindo universalmente a prestação de serviços e benefícios. É importante diferi-la da noção de seguro social, que é restrito aos contribuintes e não é totalmente abrangente. A Política Social vigente no Brasil tem suas bases na Constituição de 1988, sendo estruturada em dois ramos: a proteção social e a promoção social. No primeiro grupo estão as ações de solidariedade e seguro social a indivíduos e grupos em resposta a direitos, riscos, contingências e necessidades sociais, tais como previdência social, saúde, assistência social e habitação, enquanto no segundo grupo se enquadram as ações que podem gerar oportunidades a indivíduos e permitir a obtenção de resultados, como as clássicas políticas de trabalho e renda, educação, desenvolvimento agrário e saneamento básico. Para financiamento das políticas sociais, são necessários gastos públicos, que têm um duplo benefício no curto e médio prazo, uma vez que garantem e/ou ampliam a proteção social, as capacidades e melhora, e em sentido amplo, os resultados econômicos, sociais e políticos alcançados pelos indivíduos e grupos. As políticas de transferência de renda são essenciais para a economia nos países em desenvolvimento. No Brasil, a transferência de renda é política que já integra o atual sistema de governo. Na maioria dos países da América Latina, a promoção do bem estar social é garantida através da transferência de renda mediante contrapartidas dos beneficiários, ou condicionalidades, requisitos destinados a acumular capital humano, especialmente nas áreas de educação e saúde, objetivando promover a 128 mobilidade social das famílias mais vulneráveis ao longo do tempo, combatendo especialmente a pobreza rural e a desigualdade social. No Brasil, o principal programa de transferência de renda condicionada é o Programa Bolsa Família, que foi criado em 20 de outubro de 2003 pela medida provisória nº 132, e posteriormente, transformado na Lei nº 10.836, de 09 de janeiro de 2004, e regulamentado pelo Decreto nº 5.209, de 17 de setembro de 2004. As famílias são incluídas como beneficiárias do Programa Bolsa Família através do Cadastro Único, que é um instrumento que identifica e caracteriza as famílias de baixa renda. O Programa unificou os atos e procedimentos de gestão de antigos programas de transferência de renda do Governo Federal, chamados Programas Remanescentes (Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio Gás e Cartão Alimentação). O Programa Bolsa Família é pautado em três eixos: transferência de renda, promovendo o alívio imediato da pobreza; condicionalidades, que reforçam o acesso a direitos sociais básicos nas áreas de educação, saúde e assistência social; e programas complementares, que visam o desenvolvimento das famílias, para que os beneficiários tenham condições de superar suas situações de vulnerabilidade. Atualmente o programa atende mais de 13 milhões de famílias no país. Os programas de transferência de renda contribuem razoavelmente para a redução da desigualdade social, entretanto, o maior responsável pelo aumento da renda das famílias é o mercado de trabalho (BRASIL, 2011b). No período entre 2004 a 2009, a desigualdade na distribuição de renda entre os brasileiros, medida pelo coeficiente de Gini, diminuiu 5,6% e a renda média real subiu 28%. Essa evolução na distribuição de renda foi, em grande parte, motivada pelo crescimento econômico e a geração de empregos. Também contribuíram as mudanças demográficas e o lento aumento da escolaridade da população adulta. Outro fator importante foi a transformação da política social em protagonista dos processos de mudança, por meio dos aumentos reais do salário mínimo, e da expansão das transferências focalizadas de renda (IPEA, 2011c). A transferência de renda realizada pelo Programa Bolsa Família não alcança mudanças imediatas na redução estrutural da pobreza, pois seu objetivo é o alívio imediato da insuficiência de renda, entretanto, suas condicionalidades propiciam o 129 fortalecimento do acesso à educação e à saúde, contribuindo para a ruptura do ciclo intergeracional da pobreza. Neste aspecto, dificuldades metodológicas foram encontradas, uma vez que não há dados específicos que correlacionem o recebimento do benefício e a busca por serviços de saúde e educação. Os dados utilizados na pesquisa foram dados gerais encontrados, que mostraram melhora nos indicadores selecionados no presente trabalho, não sendo encontradas informações que sejam específicas às famílias beneficiadas pelo programa Bolsa Família. O Estado do Paraná, localizado na região Sul do Brasil, possui raízes agrícolas, é um estado com bom IDH, de economia baseada na agroindústria, indústria automobilística, tecnologia e turismo, apesar de conviver com níveis elevados de pobreza em determinadas mesorregiões geográficas, em decorrência de agricultura familiar e poucas oportunidades de emprego e desenvolvimento, especialmente no interior do estado. O programa Bolsa Família atende mais de 430 mil famílias no estado do Paraná. O percentual de famílias pobres no meio rural é de 46,94%, equivalente a 276.678 famílias, localizadas nos municípios que concentram basicamente atividades rurais. Grande contingente de famílias no Paraná deixou a faixa de renda de até meio salário mínimo per capita (chamados de pobres): em 2001, eles representavam 34,9% das famílias, e em 2009 não passavam de 24,1%, além do percentual das famílias com renda per capita acima de um salário mínimo passar de 37,4% em 2001 para 44,9% em 2009, corroborando os estudos que apresentam uma redução da pobreza entre a população brasileira como um todo. Os benefícios sociais têm grande interferência na composição de renda das famílias rurais, especialmente o programa Bolsa Família (BAZOTTI; SUGAMOSTO, 2011, p. 48). A redução da pobreza no estado do Paraná não deve ser atribuída somente aos programas de transferência de renda, uma vez que a estabilização da economia, a oferta de empregos, a redução da inflação e valorização do salário mínimo também contribuem. Entretanto, os programas de transferência de renda condicionada têm fundamental importância nas cidades menores e nas que concentram bolsões de pobreza, onde a geração de empregos é escassa e para as famílias cuja renda não é vinculada ao salário mínimo. 130 O estado do Paraná apresentou redução na pobreza após a implantação do Programa Bolsa Família, mas certamente os programas de transferência de renda não foram os únicos responsáveis por tal redução, uma vez que outros fatores como a estabilização da economia, a oferta de empregos, a redução da inflação e a valorização do salário mínimo também tiveram contribuição, entretanto, os programas de transferência de renda condicionada têm fundamental importância nas cidades menores e nas cidades que concentram bolsões de pobreza, onde a geração de empregos é escassa, bem como para as famílias cuja renda não é vinculada ao salário mínimo. O estado do Paraná possui dez mesorregiões geográficas, sendo que três delas concentram metade das famílias pobres (Mesorregião Metropolitana de Curitiba - 21,85%, Norte-Central - 16,28%, e Oeste - 12,03%. No entanto, nas mesorregiões Centro-Sul, Sudeste e Centro-Ocidental, a proporção de famílias pobres supera 30% do total de famílias (IPARDES, 2003a). Em relação às condicionalidades, o estado do Paraná apresenta 501.882 beneficiários com o perfil educação. Este indicador apontou melhoria, uma vez que a maioria dos municípios situa-se na categoria de médio desempenho, que se deve ao bom Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), tanto do ensino de 1ª a 4ª série, como de 5ª a 8ª série. O governo federal, através da meta do Plano Brasil Sem Miséria no Programa Mais Educação pretende concentrar a expansão do Programa em escolas nas quais a maioria dos estudantes são membros de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família, portanto, os índices certamente serão melhorados. Referente à condicionalidade saúde, em 2010, o Paraná teve 403.509 famílias beneficiadas pelo Programa Bolsa Família, sendo que 76,82% (309.976 famílias) foram acompanhadas por esta condicionalidade, cuja meta pactuada era de 71,00% (BRASIL, 2011c). Os indicadores apresentavam melhora no índice, com redução da mortalidade materna e infantil, maior cobertura vacinal e maior número de consultas de pré-natal. Em relação ao emprego e renda, na última década, como ocorreu no país, o Paraná intensificou o ritmo de geração de trabalho, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (IPEA, 2012), entretanto, os índices de crescimento foram 131 modestos no estado, apesar de vários municípios se encontrarem em categorias iniciais de desempenho, sendo observada uma elevação dos índices de renda para 253 municípios, destacando-se os grupos médio baixo e médio desempenho, comportamento vinculado a uma melhoria da geração de emprego formal e crescimento da remuneração média. É possível presumir que não houve geração de renda e emprego suficientes para suprir a mão de obra e garantir uma renda adequada. O programa Bolsa Família deve articular-se com outros programas, integrando-se com ações e serviços que permitam o desenvolvimento das capacidades das famílias, especialmente qualificação profissional e consequente inserção no mercado de trabalho. Um dos problemas apresentados no estado do Paraná é a concentração de mais da metade da geração de renda em três macropolos, ou seja, nas regiões metropolitanas, portuária e com atividades de turismo, permanecendo outras regiões com altos níveis de pobreza e insuficiência de renda. O programa Bolsa Família contribui para a diminuição da desigualdade na distribuição de renda e redução da pobreza, entretanto, é um programa de governo, que pode ser interrompido a qualquer momento, sendo, portanto, necessários programas e políticas mais eficazes para a mudança deste quadro persistente, como a geração de empregos, a valorização do salário mínimo e investimentos na área de agricultura familiar, qualificação profissional e empreendedorismo. Neste sentido, o Plano Brasil Sem Miséria e Brasil Carinhoso visam fornecer subsídios para que este objetivo seja alcançado. O Brasil está no caminho certo, mas ainda há muito a fazer. 132 REFERÊNCIAS AGÊNCIA DE NOTÍCIAS ESTADO DO PARANÁ. Empregos na Região Metropolitana de Maringá aumentam 33,5%. Publicado em 01/02/2008. Disponível em: http://www.historico.aen.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=34902&tit=Empregos-naRegiao-Metropolitana-de-Maringa-aumentam-335. Acesso em: 23 out. 2011. ANANIAS, P. Políticas sociais e inclusão econômica. <http://mds.gov.br/resolveuid/.../download. Acesso em 22 nov. 2011. 2007. Disponível em ANUÁRIO EXAME 2008-2009. Cooperativas e economia paranaense. Disponível em <http://exame.abril.com.br/revistaanuarioexame/edicoes>. Acesso em 27 out. 2011. BAND NEWS. 63 presos por roubar cargas do Porto de Paranaguá. Disponível em: <http://mais.uol.com.br/view/99at89ajv6h1/63-presos-por-roubar-cargas-do-porto-de-paranagua04029A3962D08983C6?types=A>. Acesso em: 02 nov. 2011. BAZOTTI, A.; SUGAMOSTO, M. Renda das famílias rurais paranaenses: uma análise exploratória. Cad. Ipardes. Curitiba, v.1, n 2, p 45-61, jul./dez. 2011. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Análise do programa de transferência de renda bolsa família para o período 2004-2006: impactos sobre pobreza, desigualdade e focalização. Disponível em: <http://www.ipc-undp.org/publications/mds/41P.pdf>. Acesso em: 04 out. 2011a. ______. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Efeitos do Programa Bolsa Família na redução da pobreza e distribuição de renda. Disponível em: <http://www.ipcundp.org/publications/mds/46P.pdf>. Acesso em: 02 nov. 2011b. ______. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Perfil das Famílias Beneficiadas pelo Programa Bolsa Família. Brasília, 2009. ______. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Programa Bolsa Família. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/bolsa-familia>. Acesso em: 23 out. 2011c. ______. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Programa Brasil sem Miséria: 1 ano de resultados. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/ brasilsemmiseria/arquivos/BSM.pdf. Acesso em: 20 jun. 2012a. ______. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Qualificação profissional para beneficiários do Bolsa Família: Orientações técnicas para o acompanhamento do Plano Setorial de Qualificação e Inserção Profissional para os beneficiários do programa Bolsa Família. Brasília. 2011d. ______. Ministério das Finanças. Brazilian Economic Outlook. 15th ed. April 2012b. ______. Ministério das Finanças. Desafios do crescimento num cenário de crise global. Brasília, 13 março de 2012c. ______. Ministério da Saúde. Programa Saúde da Família. Disponível em <http://portal.saude.gov.br/portal/saude/cidadao/area.cfm?id_area=149>. Acesso em: 14 jun. 2012d. 133 CARTA Geográfica. Temas em Geografia e afins. Região Metropolitana de Maringá. Disponível em: <http://cartageografica.blogspot.com/2011/06/geografia-regiao-metropolitanade.html>. Acesso em: 23 out. 2011. CASTEL, R. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 1998, 611p. CASTRO, J. A. de. Política social no Brasil contemporâneo. Abril de 2012. CASTRO, J. A. et. al. Gasto social e política macroeconômica: trajetórias e tensões no período 1995-2005. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2008. (Texto para Discussão nº 1324). CASTRO, J. A. de; CARDOSO JR, J. C. Políticas sociais no Brasil: restrições macroeconômicas ao financiamento social no âmbito federal entre 1995 e 2002. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2006. CHANG, H.J. Breaking the mould: an Institucionalist Political Economy alternative to the Neoliberal theory of the market and the State. United Nations Research Institute for Social Policy and Development Programme Papper. Number 6, May 2001. CORREIO da Cidadania. Redução da fome e desigualdade social. Disponível em <http://correiodacidadania.com.br/antigo/ed405/betto.html. 17 de outubro de 2004. Acesso em: 08 set. 2011. COSTA, A. A. B.; SALVATO, M. A. Análise contrafactual do programa de transferência de renda Bolsa Família para o período 2004-2006. Disponível em: <http://www.abep.nepo.unicamp.br/encontro2008/docsPDF/ABEP2008_1320.pdf>. Acesso em: 27 out. 2011. CRESPO, A. P. A.; GUROVITZ, E. A pobreza como um fenômeno multidimensional. Revista Eletrônica da Fundação Getúlio Vargas. Escola de Administração de Empresas de São Paulo. RAE-eletrônica, v.1, n.2, jul./dez.2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/ pdf/raeel/v1n2/v1n2a03.pdf>. Acesso em: 20 out. 2011. CURITIBA. Prefeitura de Curitiba. Curitiba avança na erradicação da pobreza, diz FGV. Publicado em 06 de dezembro de 2011. Disponível em: <http://www.curitiba.pr.gov.br/ noticias/curitiba-avanca-na-erradicacao-da-pobreza-diz-fgv/25218>. Acesso em: 29 abr. 2012. DELGADO, G.; JACCOUD, L.; NOGUEIRA, R. P. Seguridade social: redefinindo o alcance da cidadania. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2009. DEMO, P. Introdução à sociologia: complexidade, interdisciplinaridade e desigualdade social. São Paulo: Atlas, 2002. DORIGON, N. G. Educação e trabalho: a convocação das workhouses. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Maringá. Maringá, 2006. DRAIBE, S. M. O sistema brasileiro de proteção social: características e desafios na democratização. Políticas públicas e educação - INEP: Fundação Carlos Chagas/UNICAMP. Campinas, 1987. DRUCK, G.; FILGUEIRAS, L. Política social focalizada e ajuste fiscal: as duas faces do governo Lula. Rev. Katál. Florianópolis, v.10, n.1, p.24-34, jan./jun. 2007. DULCI, O. S. Transferência de renda e política social: modelos e trajetórias institucionais na América Latina. Minas Gerais, 2009. 134 ESPING-ANDERSEN, G. After the Golden Age: the future of the Welfare State in the New Global Order. Genebra, UNRISD (United Nations Research Institute for Social Development), 1994. EUZÉBIOS FILHO A.; GUZZO, R. S. L. Desigualdade social e pobreza: contexto de vida e de sobrevivência. Psicologia & Sociedade; v.21, n.1, p.35-44, 2009. FAJARDO, S. Aspectos da ocupação, da formação da estrutura produtiva e das transformações na paisagem rural no território paranaense. Revista Eletrônica Caminhos de Geografia, Uberlândia, v.7, n.20, p.89-101, fev. 2007. Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/ index.php/caminhosdegeografia/article/viewFile/10287/6143>. Acesso em: 22 out. 2011. ______. Complexo agroindustrial, modernização da agricultura e participação das cooperativas agropecuárias no Estado do Paraná. Revista Eletrônica Caminhos de Geografia. Uberlândia, v.9, n.27, p.31-44, set. 2008. Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/index. php/caminhosdegeografia/article/viewFile/10539/6282>. Acesso em 22 out. 2011. FONSECA, A. M. M. da; VIANA, A. L. D. Direito à saúde, atenção básica e transferências condicionadas de renda na América Latina. Ciênc. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.12, n.6, nov./dez. 2007. FOZ DO IGUAÇU. Prefeitura do Município de Foz do Iguaçu. <http://www.pmfi.pr.gov.br/portal2/home_turismo/>. Acesso em: 02 nov. 2011. Disponível em: FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. Centro de políticas sociais. Publicações. Disponível em <http:cps.fgv.br/publicações>. Acesso em 12 fev. 2012. GARCIA, R. C. Iniqüidade social no Brasil: uma aproximação e uma tentativa de dimensionamento. Brasília: IPEA, ago. 2003. (texto para discussão). GARSCHAGEN, S. Resgate Social América Latina. Desafios do desenvolvimento. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 14 dez. 2007. GASPARIN, M. Cooperativas do Paraná estão entre as maiores empresas do Brasil. Disponível em: <http://jornale.com.br/mirian/?p=1469>. Acesso em: 09 out. 2011. GAZETA MARINGÁ. Região Metropolitana de Maringá cresce e agora é formada por 25 municípios. 2010. Disponível em: <http://www.gazetamaringa.com.br/online/conteudo.phtml?tl= 1&id=1005547&tit=Regiao-Metropolitana-de-Maringa-cresce-e-agora-e-formada-por-25municipios>. Acesso em: 23 out. 2011. GONZÁLEZ DE LA ROCHA, M. Pobreza, progresa y oportunidades: una mirada de relativo largo plazo. In: CASTRO, J. A.; MODESTO, L. Bolsa família 2003-2010: avanços e desafios. Brasília: Ipea, 2010. HEIN, E. L. L. O Programa Bolsa Família no contexto da política social brasileira. In: SEMINÁRIO NACIONAL ESTADO E POLÍTICAS SOCIAIS NO BRASIL, 2., 2005. Anais eletrônicos... Cascavel, outubro de 2005. Disponível em: <http://cac-php.unioeste.br/projetos/ gpps/midia/seminario2/trabalhos/servico_social/MSS23.pdf>. Acesso em: 14 dez. 2011. HERKENHOFF, M. B. L.; OLIVEIRA, J. A.; SILVA, T. A. et al. A (des) articulação entre a Educação e a Assistência Social no Programa Bolsa Família. 2006. Disponível em <http://www.mds.gov.br/programabolsafamilia/biblioteca-virtual-bolsa-familia-1>. Acesso em: 22 mar. 2012. HÖFLING, E. M. Estado e políticas (públicas) sociais. Cadernos Cedes, ano XXI, nº 55, novembro/2001. 135 IGLESIAS S. Lula desiste de consolidação das leis sociais por causa da eleição. Folha de São Paulo, 12 ago. 2010. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/781876-lula-desistede-consolidacao-das-leis-sociais-por-causa-da-eleicao.shtml >. Acesso em: 21 jun. 2012. INSTITUTO AGRONÔMICO DO PARANÁ - IAPAR. Mapeamento da pobreza no Estado do Paraná. 2003. Disponível em <http://www.iapar.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo= 1034> . Acesso em: 19 dez. 2011. INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA. Desigualdade e educação no Brasil. Textos para discussão. 2010. Disponível em <http://www.publicacoes.inep.gov.br/resultados.asp?cat=8fsubcat=13>. Acesso em 15 jan. 2012. INSTITUTO PARANAENSE DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL – IPARDES. Economia Paranaense: Resultados em 2011. Curitiba: Ipardes, 2012. ______. Famílias pobres no Estado do Curitiba: IPARDES, 2003a. ______. Municípios e regiões, perfil dos municípios: Foz do Iguaçu. Disponível em: <http://www.ipardes.gov.br/perfil_municipal/MontaPerfil.php?Municipio=85850&btOk=ok>. Acesso em: 02 nov. 2011a. ______. Municípios e regiões, perfil das regiões: perfil da Região Metropolitana de Londrina. Disponível em: <http://www.ipardes.gov.br/perfil_regioes/MontaPerfilRegiao.php?Municipio= 922&btOk=ok>. Acesso em: 22 out. 2011b. ______. Paraná: diagnóstico social e econômico. Curitiba: IPARDES, 2003b. ______. Nota Técnica n. 20: o Paraná na primeira década do século XXI. Curitiba, dez. 2010. ______. Perfil da Região Metropolitana de Curitiba. Disponível em: <http://www.ipardes. gov.br/perfil_regioes/MontaPerfilRegiao.php?Municipio=921&btOk=ok>. Acesso em: 23 out. 2011c. ______. Perfil da Região Metropolitana de Maringá. Disponível em <http://www.ipardes.gov.br/perfil_regioes/MontaPerfilRegiao.php?Municipio=923&btOk=ok>. Acesso em 23 out. 2011d. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA - IPEA. Bolsa família 2003-2010: avanços e desafios. Brasília: Ipea, 2010a. ______. Comunicado n. 58: dimensão, evolução e projeção da pobreza por região e por estado no Brasil. Brasília, 13 de julho de 2010b. ______. Comunicados do Ipea nº 111: mudanças recentes na pobreza brasileira. Brasília: Ipea, 15 set. 2011a. ______. Paraná diminui a pobreza absoluta em 52% em 13 anos. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=1594>. Acesso em: 17 dez. de 2011b. ______. Situação Social nos Estados: Paraná. Brasília, 2012. ______. Renda do Programa Bolsa Família. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/>. Acesso em: 24 out. 2011c. 136 LEITÓLES, F. et al. Ação contra roubo de cargas no Porto de Paranaguá prende 63 no Paraná. Gazeta do Povo, Curitiba, 2010. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/ vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1054539>. Acesso em: 02 nov. 2011. LEVY, P. M.; VILLELA, R. Uma agenda para o crescimento econômico e a redução da pobreza. Rio de Janeiro: IPEA, 2006. (Texto para discussão nº 1234). Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/ publicacoes/tds/td_1234.pdf>. Acesso em: 29 out. 2011. LIMA, F. R. F. de; DIAS, A. C. A infra-estrutura rodoviária no Paraná e o tráfego nas rodovias pedagiadas – 2000-2006. Revista Geografar, Curitiba, v.3, n.1, p.16-33, jan./jun. 2008. LIRA, S. A.; DELGADO, P. R. Pesquisa mensal de emprego na Região Metropolitana de Curitiba. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Mercado de Trabalho. 27 maio 2005. Disponível em: <http://ipea.gov.br/pub/bcmt/mt_27h.pdf>. Acesso em: 23 out. 2011. LONDRINA. Prefeitura de Londrina. Região Metropolitana de Londrina. Disponível em: <http://www1.londrina.pr.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=132&Itemid=28 >. Acesso em: 22 out. 2011. ______. Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento. Disponível em: <http://www1.londrina.pr.gov.br/index.php?option=com_content&view=frontpageplus&Itemid=151 >. Acesso em: 22 out. 2011. LOURENÇO, G. M. A economia paranaense em tempos de globalização. Curitiba: Editora do Autor, 2003. ______. Economia paranaense: fatores de mudanças e entraves ao desenvolvimento. Curitiba: Editora do Autor, 2007. ______. As economias municipais do Brasil. Análise conjuntural, v.34, n.1-2, jan./fev. 2012. MAIA, M. Gestão social: reconhecendo e reconstruindo referenciais. Revista virtual textos e contextos, n. 4, dez 2005. MENEZES, E. T.; SANTOS, T. H. Taxa de escolarização (verbete). Dicionário Interativo da Educação Brasileira - EducaBrasil. São Paulo: Midiamix, 2002. MOREIRA, J. D. D. Estratégias de redução da pobreza e das desigualdades no Brasil. 2011. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2011. NASCIMENTO, A. F., REIS, C. N. Os programas de transferência de renda condicionada na América Latina: especificidades de uma realidade que se mantém. Rev. Pol. Públ. São Luis, v.13, n.2, p.183-193, jul./dez. 2009. OLIVEIRA, D. de. Curitiba e o mito da cidade modelo. Curitiba: UFPR, 2000. OLIVEIRA, F. de. Os direitos do antivalor: a economia política da hegemonia imperfeita. São Paulo: Vozes, 1998. OPPENHEIM, F. E. In: BOBBIO, N; MATTEUCCI, N. M.; PASQUINO, G. (Orgs.). Dicionário de Política. Brasília: Universidade de Brasília, 1986. PANOBIANCO, D. Revista Cafeicultura. A Revista do Agronegócio Café. Especial 35 anos da Geada de 1975. Disponível em: <http://www.revistacafeicultura.com.br/index.php? tipo=ler&mat=34022>. Acesso em: 21 out. 2011. 137 PARANÁ. Secretaria do Desenvolvimento Urbano. Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba (COMEC). Formação da RMC. Disponível em: <http://www.comec.pr.gov.br /modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=30>. Acesso em: 23 out. 2011a. ______. Secretaria do Desenvolvimento Urbano. Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba (COMEC). Ocupação da RMC. Disponível em: <http://www.comec.pr.gov.br /modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=31>. Acesso em: 23 out. 2011b. ______. Secretaria do Desenvolvimento Urbano. Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba (COMEC). Nova Unidade da Caterpillar vai geral mil empregos no PR. Disponível em: <http://www.comec.pr.gov.br/>. Acesso em: 23 out. 2011c. PARANÁ’S Regional Steering Committee. The State of Paraná, Brazil: Self-Evaluation Report. OECD Reviews of Higher Education in Regional and City Development, IMHE. 2010. Disponível em: <www.oecd.org/dataoecd/24/53/45420606.pdf>. Acesso em: 18 out. 2011. PASQUIM, E. M., SANTOS, L. M. P. Análise de programas de transferência de renda no Brasil sob a ótica e prática de atores federais e estaduais. Saúde Soc., São Paulo, v.16, n.3, set./dez. 2007. PIRES, C. Lula deve enviar PL da Cosolidação das Leis Sociais até março. 02 fev 2010. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,lula-deve-enviar-pl-daconsolidacao-das-leis-sociais-atemarco,505173,0.htm>. Acesso em: 21 jun. 2012. PIRES, S. R. A. et al. Região Metropolitana de Londrina: caracterização e indicadores sociais. 2006. Disponível em: <http://www.uel.br/revistas/ssrevista/c-v8n2_sandra2.htm>. Acesso em: 22 out. 2011. PROGRAMA RODOFERROVIÁRIO, obras e providências especiais prioritárias. Paraná. Disponível em: <http://www.umnovobrasil.com.br/files/rodo.pdf>. Acesso em: 02 nov. 2011. PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS para o Desenvolvimento. Índice de Desenvolvimento Humano. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/idh/>. Acesso em: 28 abr. 2012. ROCHA, S. Pobreza e indigência no Brasil: algumas evidências empíricas com base na PNAD 2004. Nova Economia, Belo Horizonte. v.16, n.2, p.265-299. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/neco/v16n2/03.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2012. RODRIGUES, A. L. A ocupação urbana da Região Metropolitana de Maringá: uma história de segregação. Revista Paranaense de Desenvolvimento, Curitiba, n.108, p.61-86, jan./jun. 2005. Disponível em: <http://www.ipardes.gov.br/pdf/revista_PR/108/ana_lucia.pdf>. Acesso em: 23 out. 2011. ______. A pobreza mora ao lado: segregação socioespacial na Região Metropolitana de Maringá. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2004. Disponível em: <http://www.cch.uem.br/observatorio/arquivo/teses/tese_analucia1.pdf>. Acesso em: 23 out. 2011. ROOS, D. O aprendizado e resistência camponesa nos acampamentos e assentamentos de sem-terra em Quedas do Iguaçu/Paraná. Dissertação de Mestrado (Programa de PósGraduação em Geografia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná). Disponível em: <http://tede.unioeste.br/tede//tde_arquivos/10/TDE-2010-06-25T203716Z-423/Publico/Capitulo% 20II.pdf>. Acesso em: 16 dez. 2011. RPC TV. Presa quadrilha de roubo de cargas no Porto de Paranaguá. Disponível em: <http://www.rpctv.com.br/parana-tv/2010/10/presa-quadrilha-de-roubo-de-cargas-no-porto-deparanagua/>. Acesso em: 02 nov. 2011. 138 SAMSON, M.; KANIKI, S. Social pensions as developmental social security for Africa. Poverty in Focus, n.15, 2008. SECCHIN, D. N.; PETTENE H. O papel do Estado na materialização das políticas sociais. Marília: Faculdade de Nova Venécia, Univem, 2003. SEN, A. K. Desigualdade reexaminada. Rio de Janeiro: Record, 2001. SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO - SESCPR. Mesorregião centro-sul paranaense: dados geográficos, populacionais e históricos. Disponível em: <http://www.sescpr.com.br/inventar io/regioes.php?cod=8>. Acesso em 16 dez. 2011. SESSO FILHO, U. A. et al. Indústria automobilística no Paraná: impactos na produção local e no restante do Brasil. Curitiba: Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia – ANPEC, 2004. SILVA, C. L.; LOPES, C.; MICHON, J. R. W. Intervenção do Estado e desenvolvimento local: uma análise cross section dos municípios paranaenses. Interações, Campo Grande, v.10, n.1, jan./jun. 2009. SILVA, G. R.; CARVALHAL, M. D. A territorialidade do Programa Bolsa Família e da pobreza no Oeste do Paraná. Revista Pegada, v.11, n.1, jun. 2010. SILVA, J. A. Curso de direito constitucional positivo. 26.ed. São Paulo: Malheiros, 2006. SOARES, F. V. Para onde caminham os programas de transferência condicionadas?: as experiências comparadas do Brasil, México, Chile e Uruguai. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2007. ______. Transferências condicionadas de renda. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2010. SOARES, S. et al. Programas de transferência condicionada de renda no Brasil, Chile e México: impactos sobre a desigualdade. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2007 (Texto para Discussão nº 1293). SWAIN, T. N. Fronteiras do Paraná: da colonização à migração. 2006. Disponível em: <http://horizon.documentation.ird.fr/exloc/pleins_textes/pleins_textes_7/b_fdi_03_01/37774. pdf>. Acesso em: 19 out. 2011. VAITSMAN J.; ANDRADE G. R. B.; FARIAS, L. O. Proteção social no Brasil: o que mudou na assistência social após a Constituição de 1988. Ciênc. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.14, n.3, May/June 2009. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1413-81232009000300009>. Acesso em: 14 maioi 2012. VIANNA, M. L. T. W. Em torno do conceito de política social: notas introdutórias. Rio de Janeiro, 2002. WIKIPEDIA. Mesorregião Centro-Sul do Paraná. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Parana_Meso_CentroSulParanaense.svg>. Acesso em: 16 dez. 2011. WLODARSKI, R; CUNHA L. Desigualdade social e pobreza como conseqüências do desenvolvimento da sociedade. Londrina: 2005. Disponível em <http://www.uel.br/grupoestudo/processoscivilizadores/portugues/sitesanais/anais9/artigos/works hop/art15.pdf>. Acesso em: 12 dez. 2011.