FOCALIZAÇÃO DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA: UMA ANÁLISE DE ERROS DE COBERTURA E VAZAMENTOS [email protected] APRESENTACAO ORAL-Políticas Sociais para o Campo SONIA REBOUÇAS DA SILVA MELO; YONY DE SÁ BARRETO SAMPAIO. UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO, RECIFE - PE - BRASIL. Focalização do Programa Bolsa Família: Uma Análise de Erros de Cobertura e Vazamentos RESUMO O governo tem adotado políticas de transferência de renda condicionadas, entre as quais o Bolsa Família. Porém, estudos revelam que o Bolsa Família apresenta problemas de focalização. Analisa-se a focalização e calcula-se erros de cobertura e vazamento. Transferências ótimas são obtidas com minimização de indicadores de pobreza dada uma restrição orçamentária. São utilizados dados da PNAD. Constata-se que o erro de cobertura é expressivo e o erro de vazamento mostra que 50% dos recursos são gastos com famílias não elegíveis. Assim, é possível aumentar a eficiência com a melhora da focalização. Palavras-chave: Bolsa Família, focalização e programas sociais. ABSTRACT Brazil adopted direct conditional income transference programs, including Bolsa Família. Studies show that Bolsa Familia presents targeting problems resulting in leakages and lost resources. Targeting is analyzed and coverage and leakage errors are estimated. To estimate optimal transferences a poverty index is minimized given a budget constraint. PNAD data is used. Results shows that coverage error is sizable and most of the poor families are excluded; leakage error shows that about 50% of resources are spent with non elegible families. Thus it is not easy to define income transference policy but it is possible to increase efficiency improving targeting. Key-Words: Bolsa Família, targeting e social policies. 1 Transferências de Renda, Focalização e o Bolsa Família A pobreza faz parte da realidade de muitos países desenvolvidos e caracteriza muitas regiões dos países em desenvolvimento; ela resulta, dentre outros fatores, do nível e da forma da distribuição dos recursos totais de uma sociedade entre sua população. O crescimento econômico, quando promove desenvolvimento e redistribuição de renda na sociedade, é uma forma de melhorar as condições de vida da população mais pobre. Porém, tem se constatado que esses efeitos são de mais longo prazo, havendo necessidade, em muitos paises, de adoção de políticas emergenciais de curto prazo. Políticas sociais visando atender aos pobres, no curto prazo, têm apresentado destaque no âmbito da política social do Brasil por longo tempo. A partir dos anos cinqüenta os principais programas transferiam alimentos, como a merenda escolar e a complementação alimentar de gestantes, nutrizes e crianças menores de 5 anos. Nos anos noventa ocorre mudança para transferência condicionada de renda, são lançados diversos programas, como o Bolsa Escola e o Bolsa Alimentação. O Bolsa Família, lançado em outubro de 2003, unifica diversas dessas iniciativas de transferência de renda do governo federal e estabelece parâmetros de renda para delimitação das famílias beneficiárias, assim como regras para a determinação do valor das transferências, que voltam a ser diferenciadas (ROCHA, 2004). 1 Para unificar os procedimentos de gestão e execução das ações de transferência, o Programa Bolsa Família foi composto pelo Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à educação – Bolsa Escola, pelo Programa Nacional de Acesso à Alimentação – PNAA, pelo Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à saúde – Bolsa Alimentação e pelo Programa AuxílioGás, além de adotar o Cadastramento Único do Governo Federal (LÍCIO, 2004). O programa Bolsa Família foi inicialmente destinado às famílias em situação de pobreza, com renda mensal per capita de até R$ 100,00. O recebimento do benefício está condicionado ao cumprimento de compromissos por parte dos beneficiários nas áreas de saúde, alimentação e educação. Na realidade, este programa foi desenvolvido para atender famílias com renda mensal de até R$ 50,00 por pessoa, independentemente de sua composição, que receberiam um benefício básico no valor de R$ 50,00 mensais, e famílias com renda mensal entre R$ 50,01 e R$ 100,00 por pessoa, desde que possuam gestantes, nutrizes, ou crianças e adolescentes entre 0 a 15 anos de idade. Famílias com esta composição receberiam o benefício do tipo variável, um valor de R$ 15,00 mensais para cada criança ou adolescente de até 15 anos, até R$ 45,00, o que equivale a três filhos por família. Desta forma, cada família pode receber um benefício máximo no valor de R$ 95,00 por mês, somando o básico e o variável. A mulher, dado seu papel central na condução do lar, é o público alvo preferencial para o recebimento do benefício em nome da família. Em primeiro de agosto de 2006, o governo promoveu reajuste, aumentando os benefícios em 18,5%, tendo por base o índice nacional de preços ao consumidor - INPC. Deste modo, o menor valor pago do benefício variável passa de R$ 15 para R$ 18, atingindo o valor máximo, por família, de R$ 54,00 e o valor do benefício básico passa de R$ 50,00 para R$ 58,00, enquanto o teto máximo do programa (benefício básico mais variável) sobe de R$ 95 para R$ 112. Em novembro de 2008 foi promovido novo reajuste, passando o beneficio básico para R$ 62,00, para famílias com renda mensal de até R$ 60,00 por pessoa, o variável para R$ 20,00, atingindo o valor máximo de R$ 60,00, e sendo criado um beneficio variável vinculado ao adolescente de R$ 30,00 para famílias beneficiárias que tenham adolescentes de 16 e 17 anos, até o máximo de R$ 60,00, passando o beneficio a variar de R$ 20,00 a R$ 182,00. Com este reajuste, decorrente da inflação, o governo procura assegurar o poder de compra dos beneficiários e garantir a continuidade da redução da pobreza no País. Atualmente, o programa dispões do benefício básico no valor de R$ 68,00, para famílias que apresentam rendimento mensal per capita de R$ 70,00, do benefício variável de R$ 22,00 pago às famílias pobres que contam com renda mensal per capita de até R$ 140,00, desde que tenham crianças e adolescentes de até 15 anos, atingindo o valor máximo de R$ 66,00 e o benefício vinculado ao adolescente no valor de R$ 33,00, condicionado as famílias que tenham adolescentes de 16 e 17 anos freqüentando a escola, atendendo até dois adolescentes por família, viabilizando uma soma de até R$ 66,00. Assim, o Bolsa Família apresenta valores de benefício que variam de R$ 22,00 a R$ 200,00 por família beneficiada. As condicionalidades do programa, segundo Soares, et al. (2006), correspondem à freqüência mínima na escola de 85% para as crianças em idade escolar, a atualização do cartão de vacinação para crianças entre 0 e 6 anos e, para as mães, visitas regulares ao posto de saúde para realização de pré-natal e no período de amamentação. Para a população adulta que não tem de obedecer às condicionalidades do programa, casos das famílias que recebem o benefício básico, tem-se a adoção de atividades estruturantes que objetivam aumentar o acesso das famílias beneficiárias aos serviços públicos, tais como: preferência na seleção para cursos de capacitação profissional (incluindo cursos de alfabetização) e para programas de geração de emprego e renda; e aqueles membros da família sem registro civil terão acesso a esses registros e a outros documentos de identificação. Conforme Lício (2004), as condicionalidades, são o ponto mais forte do Bolsa Família e o diferencial da mera “esmola”, que alivia a situação de privação temporária. Assim, para 2 que os objetivos de médio e longo prazo sejam alcançados é de fundamental importância o controle de tais condicionalidades. Alguns estudos de avaliação tem analisado o desempenho de programas e a operacionalização das condicionalidades. Barros, Mendonça e Henriques (2001) e Néri (2004), analisaram o desempenho dos programas que antecedem o Bolsa Família e destacam que o valor transferido demonstra-se insuficiente para promover grandes transformações sócio-econômicas das famílias beneficiárias. As políticas sociais, em geral, não atendem aos mais necessitados e aquelas que atendem, não cumprem adequadamente seus objetivos sociais, além de não deixar efeitos permanentes sobre o estado da pobreza. Também defendem que o problema das políticas sociais no Brasil não é a falta de recursos e sim, o da má aplicação destes. Estudos de Rocha (2004), Barros e Carvalho (2003), Rocha e Albuquerque (2003), Barros e Foguel (2000) e Barros, Conseuil e Foguel (2001), confirmam essas conclusões. No entanto, estudos mais recentes vêm demonstrando que o esforço contínuo e persistente do governo em ampliar as políticas sociais de transferência direta de renda no país tem promovido resultados visíveis na redução da pobreza no período de 2002 a 2006. Barros, et al. (2007a, 2007b e 2007c) e Soares, et al. (2006) demonstram a importância do programa Bolsa Família para a redução dos índices de pobreza e de desigualdade do país. Analisando a concentração de renda no Brasil observam que 80% da renda transferida pelo programa beneficia a população que está abaixo da linha de pobreza de R$ 130,00. Revelam ainda que, caso o programa não existisse, 14% da população mais pobre estaria abaixo da linha de indigência (estes recebem 48% da renda transferida pelo programa). De acordo com Soares et al. (2007), 80% dos benefícios do programas estão destinados aos 40% mais pobres. Apesar desta mudança, Barros, et al. (2007c) argumentam que o país ainda ocupa posição negativa de destaque no cenário internacional, sendo um dos países de maior grau de desigualdade de renda do mundo. E, ainda vale salientar que, a melhoria nos índices de pobreza e de desigualdade observada, nos últimos anos, deve ser vista com ressalvas. Uma outra questão diz respeito à focalização e ao critério de elegibilidade. Rocha (2004) destaca que o Bolsa Família, além dos condicionantes ligados à composição da família, usa a renda como o principal critério de elegibilidade para definir o número de pobres potencialmente beneficiados por município, ficando a cargo deste a identificação e cadastramento dos beneficiários. Porém a renda não se constitui em um bom parâmetro para definir a população mais pobre, uma vez que a pobreza não está limitada ao déficit da renda, ou seja, é intrínseca a privação de capacidades, podendo ser identificada por um conjunto de fatores que determinam o bem-estar do indivíduo. A visão do Banco Mundial, é que a pobreza tem um caráter multidimensional e relaciona os déficits de renda às dificuldades de acessar os bens públicos que estão à disposição de todos os cidadãos, como os serviços de saúde, serviços públicos, lazer e a carência de produtos básicos, como alimentação. Assim, o uso da renda é uma medida bastante imperfeita para aferir as condições de vida de uma pessoa ou família, o que se agrava ainda mais em economias rurais que não são plenamente monetizadas. Além disso, a renda como critério único pode ser facilmente manipulada. Tavares e Pazello (2006), Faria (2006), Faria, Silva e Feijó (2006), Muller e Bibi (2005), Muller (2005), Bibi (2000), Annuate, Fernandes e Pazzelo (2000), Grosh e Baker (1995), Glewwer (1990, 1992), Glewwer e Kannan (1989) e Havallion e Chao (1989) demonstram que a adição de variáveis relacionadas ao bem-estar dos indivíduos melhora a focalização dos programas, ou seja, a utilização de proxies para a renda pelo mecanismo denominado de proxy means-tested ajuda a melhorar os indicadores de pobreza, tornando a transferência do governo mais eficiente. Assim, quando se deseja desenvolver políticas de transferência de renda em que se tem como prioridade atender aos mais necessitados, deve-se buscar critérios de elegibilidade que tornem tais políticas mais eficientes na identificação de seus beneficiários, o que evita 3 possíveis desperdícios de recursos, bem como promove uma distribuição mais eqüitativa no sentido de mitigar as diferenças de renda e de oportunidades existentes na sociedade. Ademais, tais políticas adotadas em âmbito nacional, de certa forma, generalizam as características específicas de cada região, podendo minimizar o impacto desejado. Assim, para melhorar a eficácia do Bolsa Família é necessário compreender quais e como se dão os desvios ocorridos em sua aplicação, de modo a permitir a adoção de medidas apropriadas na coibição destes desvios, visando propiciar redução permanente da pobreza no país. Para atender a esses objetivos, o trabalho é estruturado em três seções, além dessa primeira. Uma contém a metodologia, outra os resultados e por fim as conclusões. O trabalho trata apenas dos critérios de elegibilidade, não analisando distorções porventura ocorrentes na sua aplicação; mas, na discussão, destacam-se critérios menos susceptíveis à distorção. 2 Metodologia 2.1 Método de Focalização para Minimizar a Pobreza O método de proxy means-tested, desenvolvido por Glewwer (1990, 1992) e utilizado por Bibi (2000), Muller e Bibi (2005) e Muller (2005), partindo de melhor caracterização da população mais carente permite definir transferências ótimas de política anti-pobreza, que reduzam a pobreza e minimizem os erros de cobertura e de vazamento. Baseado em dados de pesquisas domiciliares que informam o padrão de vida e características das famílias, com predições de renda e/ou despesas familiares, Glewwe (1992) desenvolveu modelo de focalização que se apresenta como um problema de minimização da pobreza sujeito a um orçamento fixo, o que permite orientar transferências para pessoas ou famílias pobres em função de suas características observáveis. A solução deste problema constitui-se na formulação de um exercício de programação matemática não-linear. A transferência anti-pobreza parte da suposição de que a focalização das transferências para os pobres tem por objetivo reduzir a pobreza, dada a transferência de valores monetários. Desta forma, o problema pode ser formulado da seguinte forma1: min P( y + t ; z ) sujeito a ∑ ti ≤ T (1) t i ou seja, tem-se que dividir uma certa quantia de dinheiro disponível ( T ) em um conjunto de transferências, t , sendo este um vetor, onde os ti ’s são os elementos do vetor ( t ) para ser distribuído entre alguns ou para todos os membros de uma população a fim de minimizar o índice de pobreza, denotado P( y; z ) , onde y é um vetor de renda e z é a linha de pobreza. Glewwe (1992) destaca que Kakwani (1989)2 observa que o melhor índice de pobreza a ser usado é o índice desenvolvido por Foster, Greer e Thorbecke (FGT)3, pois permite decomposição por grupos e a obtenção de outros índices em casos especiais. Então tem-se: α 1 n gi ∑ , gi = z − yi se yi ≤ z (2) n i =1 z =0 se yi > z onde n é o número de indivíduos e α é um termo constante que pode ser fixo para diferentes níveis. O índice FGT é convexo na renda para α ≥ 1 e estritamente convexo em α > 1 4. Em Pα ( y; z ) = 1 Vale salientar que o autor parte do pressuposto de que o vetor de renda não é afetado pelo vetor de transferência de renda. 2 Ver: Kakwani, Nanak, 1989, Testing for significance of poverty differences with applications to Côte d’Ivoire, Mimeo. (Welfare and Human Resources Division, The World Bank, Washington, DC.) 3 Ver Foster, James, Joel Greer e Erik Thorbecke, 1984, A class of decomposable poverty measures, Ecomometrica 52, n°3, 761-766. 4 Ver Glewwe (1990), apêndice II. 4 geral, o mais alto α dá mais peso para os mais pobres entre os pobres. Caso α = 1 , o índice se torna a taxa do hiato de renda, correspondendo a quantia de dinheiro necessária para fazer a renda de todos os pobres ascender à linha de pobreza. Se α > 1 o índice FGT mostra os mais pobres quando uma maior desigualdade é achada entre os pobres, coeteris paribus. Utilizando-se dados de domicílio ou família, caso do presente estudo, torna-se necessário a realização de uma adaptação da formulação do problema. Reajusta-se o índice de pobreza FGT, seguindo Bibi (2000), expressando-se a minização (1) da seguinte forma: Min sujeito H ∑n t h h = T, 1 Pα ( z , Y + T ) = H ( nh z − y h + t h ∑ z h =1 n a H ) α (3) com t ≥ 0, ∇h h =1 onde Y é a distribuição da renda per capita da população, t é o vetor de transferências, t h é a transferência de renda per capita para a família h, yh é a renda per capita da família h, nh é o número de membros da família, n é o tamanho médio das famílias e H o número total de membros de todas as famílias. As transferências devem ser não negativas para todas as famílias e não devem exceder o orçamento do governo, T, disponível para o programa. Na prática, os recursos são limitados e as informações utilizadas para determinar a elegibilidade dos programas são imperfeitas, o que promove a incidência de dois tipos de erros, o chamado erro do tipo I (ou erro de subcobertura ou erro de exclusão ou de E-erro) que ocorre quando, erroneamente, uma pessoa pobre não é incluída no programa, pois este a identificou como não pobre, e o chamado erro do tipo II (ou erro de vazamento ou erro de inclusão ou de F-erro) que ocorre quando, equivocadamente, o programa elege como beneficiária uma pessoa que não é pobre5. Cornia e Stewart (1995), dizem que um método de focalização é eficiente quando minimiza o erro do tipo I. Coady, Grosh e Hoddinott (2004) e Coady e Skoufias (2001) apresentam uma formula simples para mensurar os erros do tipo I e II6. Matematicamente tem-se: N U = p,o Np (4) a) Erro do tipo I: N p ,o Np onde é o número de pessoas pobres que ficam fora do programa e é o número total de pessoas pobres. N np , i L= Ni b) Erro do tipo II: (5) N N onde np ,i é o número de pessoas não pobres do programa e i é o número total de pessoas do programa. 2.2 Procedimentos para Estimação das Transferências Ótimas e da Eficiência Para facilitar a utilização do modelo, alguns procedimentos devem ser seguidos: 1º Passo: Estimação da predição do padrão de vida: ŷ h Usando os dados das famílias, realiza-se a predição da renda, yh, baseada nas características correlatas da renda Xh, ou seja, faz-se a regressão quantílica de yh em função 5 Mais detalhes ver: Coady, Grosh e Hoddinott (2004); Coady e Skoufias (2001) e Cornia e Stewart (1995). Cornia e Stewart (1995) apresentam uma outra forma de mensurar estes erros, onde denomina o erro do tipo I de E-erro e o do tipo II de F-erro. Ver Melo (2008). 6 5 das ‘n’ características em cada conjunto considerado e estima-se ŷ h para cinco modelos diferentes (descritos na seção 2.4 abaixo): yˆ h = β̂ X (6) h 2º Passo: Calculo do vetor de transferências t ( yˆ ) e dos indicadores de pobreza Pα ( z , Y + T ) Neste passo utiliza-se o método para identificar as transferências ótimas, para o problema de minimização descrito por Glewwe (1990, 1992) e adaptado por Bibi (2000), Muller e Bibi (2005) e Muller (2006), ou seja, realiza-se a otimização descrita na equação (3). Como indicadores de pobreza utilza-se o FGT (P2), o hiato de renda (P1) e a proporção de pobres (P0). 3º Passo: Determinação dos critérios de eficiência. Para melhor estimação dos critérios determinam-se os erros tipo I (de cobertura – equação 4) e tipo II (de vazamento – equação 5). Os autores já referidos sugerem que o cálculo do erro de cobertura deve corresponder ao percentual de pobres que não são beneficiados pelo programa utilizando-se a equação do erro tipo I. Para estimação do vazamento, que corresponde à proporção dos gastos do governo que pode ser economizada desde que não se transfira renda para os domicílios não pobres ou que as transferências não ergam as famílias pobres acima da linha de pobreza, há dois tipos de cálculo de vazamentos. No primeiro caso, o vazamento é a adição das transferências realizadas para as famílias que tem renda inicial acima da linha de pobreza quando considerada a renda declarada e não a mensurada no primeiro passo que englobam as transferências (embora recebidas pelos pobres tornam-se desnecessárias, pois os elevam acima da linha de pobreza). Neste caso a taxa de vazamento é o quociente entre esta adição e o orçamento total. No segundo caso, o vazamento só ocorre se as transferências elevarem os pobres acima da linha de pobreza; isto ocorre, por exemplo, no caso de transferências fixas. No trabalho, a otimização limita as transferências do governo até a linha de pobreza; dessa forma pode-se ajustar a alocação ótima e, assim, eliminar o segundo problema. Com este procedimento só é necessário calcular o primeiro tipo de vazamento. 2.3 Natureza e Tratamento dos Dados São utilizados dados suplementares da PNAD de 2004. A amostra estabelecida para este trabalho representa um conjunto de informações de características de renda, localização, composição da família, formação, propriedade de bens duráveis e acesso a serviços que são correlatos à renda e que estabelecem uma boa proxy para definir o padrão de vida das famílias. É considerado componente da família o pai, a mãe, os filhos, outros parentes e agregados, excluindo os pensionistas, empregados domésticos ou parentes do empregado doméstico. Além disso, só foram consideradas na amostra as famílias que apresentaram informações sobre as características consideradas para a análise. Dadas tais restrições, verifica-se que a amostra total é composta por 85.376 famílias, o que corresponde a 286.896 pessoas, dentre as quais 74.162 famílias residem no meio urbano (245.984 pessoas) e 11.214 famílias encontram-se na área rural (40.912 pessoas). Quanto à renda, torna-se necessário estabelecer o valor do Bolsa Família das famílias que afirmaram ser beneficiadas do programa, derivando a renda familiar per capita ex ante e ex post ao recebimento do benefício. A variável renda considerada foi a denominada pela PNAD de V4722, que corresponde ao rendimento mensal familiar, excluídos aqueles rendimentos proveniente dos pensionistas, empregados domésticos, parentes dos empregados domésticos e pessoas de menos de 10 anos de idade. Para definir o valor recebido pelas famílias beneficiárias do programa, observa-se que no questionário há uma pergunta (com código V2005) que investiga se, “em setembro de 2004, algum morador do domicílio recebeu dinheiro do programa social Bolsa Família” e que a variável “juros de caderneta de poupança e de outras aplicações, dividendos e outros 6 rendimentos que recebia normalmente” (V1273), além de conter informação sobre os valores provenientes das aplicações financeiras, parceria, etc, também incluiu o rendimento mensal que é chamado de “outros rendimentos”, que corresponde aos valores de recebimento de benefícios de programas sociais (renda mínima, tais como: Auxílio-Gás, Bolsa Alimentação, Cartão Alimentação do Programa Fome Zero e Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI, além do Bolsa Família e do Benefício Assistencial de Prestação Continuada - BPCLOAS), bem como do programa oficial de auxílio educacional (como o Bolsa-Escola). Apesar de não estar explícito no questionário o valor do benefício recebido em cada programa social, feita análise preliminar dos dados apresentados pela variável V1273, constata-se que o valor de recebimento declarado e a composição das famílias - considerando rendimentos per capita e o número de crianças com idade para a inclusão no programa avaliado, coincidem com os critérios estabelecidos pela política do governo federal. Como não é possível distinguir o valor do benefício do Bolsa Família, dentre os demais programas citados acima, torna-se necessário o tratamento desta informação. Além desta dificuldade, o banco de dados ainda apresenta outros problemas de compilação. Observa-se que 74,72% (dos quais 25,55% correspondem às respostas dos habitantes da zona rural e 74,45% da área urbana) das famílias que informaram ser beneficiárias não declararam o recebimento de qualquer valor na variável V1273. Do restante dos domicílios beneficiários, 25,28% do total, que declaram receber “outros rendimentos”, 17,94% afirmam valores múltiplos de R$15,00 que corresponde ao valor do benefício de 1 a 3 filhos, 6,12% revelam valor de R$ 50,00 correspondente ao valor básico, e 43,61% valores iguais a R$ 65,00, R$ 80,00 e R$ 95,00 correspondentes ao recebimento do benefício fixo, que independe da composição familiar, e ao variável, que depende da composição da família. Nos casos em que são declarados outros valores de recebimento (32,33%), como indicam Tavares e Pazello (2006), várias suposições podem explicar estas variações, tais como: juros de caderneta de poupança e de outras aplicações, dividendos, dentre outros; ou ainda pode corresponder ao valor do benefício somado a rendimentos dessas outras fontes. O tratamento dessa informação se deu da seguinte forma: construiu-se uma variável, “valor do Bolsa Família”, e atribuiu-se os valores acima citados às famílias que se declararam beneficiárias compatíveis ao programa. Nos casos em que o rendimento declarado é inferior ao valor mínimo compatível, considerando os critérios de elegibilidade do programa, atribuiuse o valor mínimo compatível; nos casos em que os valores declarados são superiores aos valores compatíveis, foram desconsiderados os valores excedentes (descartando-se os valores das complementações municipais, já que o foco de análise é o programa federal). A adoção das suposições acima citadas pode sub ou super-estimar o cálculo dos vazamentos, quando calculado como proporção dos gastos que foram transferidos para as famílias não pobres. Nos casos em que o rendimento V1273 não foi informado, considera-se a composição e a renda per capita da família, atribuindo valores compatíveis ao programa à variável “valor do Bolsa Família”. Porém, observam-se algumas dificuldades na mensuração desta variável, pois 8,72% das famílias que não informaram o valor de V1273 também não possuem filhos na idade de 0 a 15 anos, nem apresentam renda per capita menor ou igual a R$ 50,00 mensais, ou seja, estas famílias estão recebendo benefícios do Bolsa Família, mas não apresentam características compatíveis com os critérios de elegibilidade do programa. Como se necessita analisar os vazamentos apresentados pelo programa, considera-se todas as famílias que informaram ser beneficiárias do programa, isto é, opta-se por não descartar esta parte da amostra, mesmo sob o inconveniente de estar incorrendo em um erro de estimação. Neste caso, para atribuir um valor à variável “valor do Bolsa Família”, supõe-se que estas famílias estejam recebendo no mínimo o valor de R$ 15,00 por mês. Realizados os procedimentos descritos acima, pôde-se construir as variáveis de renda corrigidas: renda familiar per capita sem o Bolsa Família (renda familiar ex ante) e renda 7 familiar per capita com o Bolsa Família (renda familiar ex post). A diferença entre essas duas medidas está na inclusão do benefício associado ao Bolsa Família. Assim, para mensurar ex ante, procede-se da seguinte forma: nos casos em que nenhum rendimento associado ao programa tenha sido informado, a renda familiar declarada na PNAD é exatamente igual à renda familiar ex ante e nos casos em que o rendimento foi informado subtraiu-se da renda declarada na PNAD o “valor do Bolsa Família”. Por outro lado, para mensurar a renda familiar per capita ex post, no caso em que nenhum rendimento associado ao programa foi declarado, adicionou-se à renda o “valor do Bolsa Família” e no segundo caso, a renda é exatamente igual à renda declarada na pesquisa. Obviamente, para os domicílios nãobeneficiários, não há diferença entre as rendas ex ante e ex post. Objetivando observar se é possível melhoram a focalização do programa, utiliza-se como restrição o orçamento disponível pelo programa Bolsa Família na época, para realizar a otimização do problema de minimização matemática não linear. 2.4 Características Utilizadas na Estimação da Renda A fim de definir o padrão de vida da população, foram consideradas características correlatas à renda divididas em cinco grupos, conforme segue:7: Modelo 1: Características de localização: Dummies da região Norte; Nordeste ; Sul ; e, CO - Centro-oeste. Modelo 2: Modelo 1 mais as características demográficas e de raça: Dmascul Dummy para chefe da família do sexo masculino; Idade - Idade do chefe da família; Idade2 - Idade ao quadrado do chefe da família; Nfid0_2 - Número de crianças na família de 0 a 2 anos de idade; Nfid3_6 - Número de crianças de 3 a 6 anos de idade; Nfid7_11 - Número de crianças de 7 a 11 anos de idade; Nfid12_15 - Número de adolescentes de 12 a 15 anos de idade; Nfid16_18 - Número de jovens de 16 a 18 anos de idade; Nfid19_ - Número de adultos de 19 ou mais anos de idade; Dcheffnd - Dummy para chefe da família que não é chefe do domicílio em que mora; Dbranca - Dummy para chefe da família de cor branca; de cor preta, Dpreta; de cor amarela, Damarela; e de cor parda, Dparda. Modelo 3: Modelo 2 mais as características de acesso e propriedade: Dcasa - Dummy para família que mora em casa ou em apartamento, Dapart; Dpardur - Dummy para família que mora em domicílio com paredes duráveis; Dtelhdur - Dummy para família que mora em domicílio com telhado durável; Razcommf - Razão cômodo por morador da família; Ddompro - Dummy para família com domicílio próprio; Daguapot - Dummy para acesso à água potável; Numbanh - Número de banheiros no domicílio; Dsaneab Dummy para acesso a saneamento básico; Dcollixo - Dummy para acesso à coleta de lixo; Denegia - Dummy para acesso à energia elétrica; Dummies para propriedade de telefone fixo ou móvel (Dfone), fogão (Dfogao), rádio (Dradio), televisão (Dtv), geladeira e/ou freezer (Delfrez); máquina de lavar (Dmaqlavr); e microcomputador (Dmicroc). Modelo 4: Modelo 3 mais as características de formação educacional: Nfcrepre Número de estudantes em creche e pré-escolar; Nffundam - Número de estudantes no ensino fundamental; Nffmedio - Número de estudantes no ensino médio;.Nfenssup Número de estudantes no ensino superior; Nfposgra - Número de estudantes em pósgraduação; Nfalfadu - Número de estudantes na alfabetização para adultos; Nfpreves Número de estudantes no pré-vestibular; Anosestud - Anos de estudo do chefe de família; Dcfunmen - Dummy para chefe de família com ensino fundamental menor; com ensino fundamental maior, Defunmai; com ensino médio, Dcenmed; com ensino superior incompleto, Deseinc; e, com ensino superior completo, Desucom. 7 Vale salientar que, quando se considera a amostra total, e mensura-se a renda usando o conjunto 3, foi adicionaao a dummy da zona rural. 8 Modelo 5: Modelo 4 mais as características de ocupação e composição da renda: Napospen - Número de membros da família que recebem aposentadoria ou pensão; Nffocudr - Número de mulheres membros da família que estavam ocupadas; Nfmocudr - Número de homens membros da família que estavam ocupados; Dummies para chefe da família ocupado na atividade agrícola Docup 1; na atividade de construção Docup 4; na atividade de comércio e reparação Docup 5; na atividade de alojamento e alimentação Docup 6; na atividade de transporte, armazenagem e comunicação Docup 7; na atividade de administração pública Docup 8; na atividade de educação, saúde e serviços sociais Docup 9; na atividade de serviços domésticos Docup 10; na atividade de outros serviços coletivos, sociais e pessoais Docup 11; e, em outras atividades Docup 12. Conforme pode-se observar em Muller e Bibi (2005), Muller (2005) e Bibi (2000), uma vez que deseja-se comparar os resultados de cada uma das simulações mantendo uniformidade de informações, ao estimar cada uma das simulações consideram-se todas as demais variáveis descritas em cada um dos modelos, mesmo que estas não sejam estatisticamente significantes, só sendo eliminadas as variáveis que apresentarem forte correlação. Algumas variáveis não são estatisticamente significantes em uma simulação mas podem passar a ser em outra: além disso, observa-se que tais variáveis são teoricamente relevantes para identificar o padrão de vida da população, como as variáveis de acesso a energia, água potável e saneamento, por exemplo, não devendo ser excluídas. 3 RESULTADOS 3.1 Análise dos Índices de Pobreza, Erros de Cobertura e de Vazamento com os Dados Originais da PNAD Antes de apresentar os resultados das simulações realizadas, faz-se necessário identificar os índices de pobreza observados antes e após o recebimento do benefício do programa. Assim, utilizando os dados de renda familiar per capita ex ante e ex post ao recebimento do benefício, faz-se uma breve apresentação dos índices de pobreza e dos erros de vazamento e de cobertura. Para tanto, utiliza-se duas linhas de pobreza, uma correspondente a R$ 50,00 e outra a R$ 100,00, o que equivale aos critérios de renda básico e variável utilizados pelo programa no período analisado. Quanto à mensuração do erro de cobertura, quando a linha de pobreza é de R$ 50,00, tem-se que este corresponde à proporção de pobres que não são beneficiários do programa analisado. O erro de vazamento corresponde à proporção das famílias que declaram receber o beneficio básico, mas tem renda superior a R$ 50,00, ou seja, é a proporção de todas as famílias que têm renda superior a R$ 50,00 e que recebem o benefício básico do programa. Quando mensuram-se os erros de cobertura e de vazamento com linha de pobreza igual a R$ 100,00, também leva-se em consideração a composição da família conforme os critérios de elegibilidade do programa Bolsa Família. O erro de cobertura equivale, portanto, à proporção de famílias pobres que têm renda familiar per capita mensal menor igual a R$ 100,00 e que tenham filhos de 0 a 15 anos de idade, mas que não são beneficiadas. O erro de vazamento corresponde à proporção de famílias que recebe o benefício mesmo tendo renda acima de R$ 100,00 e/ou não possuem filhos na idade de receber o benefício, bem como as famílias que apesar de possuir renda familiar per capita mensal menor igual a R$ 100,00, não tem filhos de 0 a 15 anos de idade. Observando as Tabelas 1 e 2 abaixo, vê-se que a adoção do programa Bolsa Família gera maiores impactos sobre as famílias que possuem renda per capita mensal menor igual a R$ 50,00, ou seja, promove um alívio maior sobre a parte da população indigente, mais especificamente, gera maior impacto sobre os indigentes que vivem em áreas rurais do país. 9 Ademais, verifica-se que o meio rural apresenta índices de pobreza pouco maiores que os observados no meio urbano, independente da intensidade em que se está analisando, ou seja, tanto para P0 (proporção de pobres), P1 (hiato de renda) e P2 (índice de pobreza FGT com maior aversão a pobreza), quanto para as linhas de pobreza R$ 50,00 e R$ 100,00, vê-se que o meio rural sempre apresenta índice de pobreza superior ao observado pelo meio urbano. TABELA 1: Índices de pobreza (com linha de pobreza igual a R$ 50,00 e considerando os critérios de elegibilidade para o benefício básico) e erros de cobertura e vazamento das áreas total, rural e urbano – Dados PNAD 2004. Total Rural Urbano Índices e erros Renda per capita ex ante Taxa de Cresc. Renda per capita ex post Renda per capita ex ante Taxa de Cresc. (%) Renda per capita ex post (%) Renda per capita ex ante Renda per capita ex post Taxa de Cresc. (%) P0 0,0221 0,0204 - 7,49 0,0383 0,0350 - 8,68 0,0191 0,0177 -7,06 P1 0,0101 0,0092 - 8,84 0,0149 0,0133 -10,50 0,0092 0,0084 -8,35 P2 0,0073 0,0066 - 9,42 0,0095 0,0084 -11,30 0,0069 0,0063 -8,95 Erro de Cobert. (%) Erro de vaz. (%) 87,20 84,40 88,03 47,55 37,68 50,67 Fonte: Elaborado pelos autores TABELA 2: Índices de pobreza (com linha de pobreza igual a R$ 100,00 e considerando os critérios de elegibilidade para o benefício variável) e erros de cobertura e vazamento das áreas total, rural e urbano – Dados PNAD 2004. Total Rural Urbano Renda per capita ex ante Renda per capita ex post Taxa de Cresc. P0 0,0675 P1 P2 Índices e erros Renda per capita ex ante Taxa de Cresc. (%) Renda per capita ex post Renda per capita ex post Taxa de Cresc. (%) Renda per capita ex ante 0,0669 - 0,99 0,1071 0,1066 - 0,86 0,0601 0,0595 - 1,04 0,0263 0,0254 - 3,53 0,0435 0,0419 - 3,69 0,0231 0,0223 - 3,48 0,0156 0,0147 - 5,75 0,0250 0,0234 - 6,26 0,0139 0,0131 - 5,59 Erro de Cobert. (%) 86,44 83,87 87,19 Erro de Vaz. (%) 37,85 31,43 39,88 (%) Fonte: Elaborado pelos autores 10 Por outro lado, observa-se que o programa apresenta um alto nível de erro de cobertura, uma vez que 87,20% das famílias que têm renda menor igual a R$ 50,00 não estão sendo atendidas pelo programa e 86,44% das crianças pobres (considerando até três crianças por família, dados o critério de elegibilidade) que pertencem a famílias com renda per capita mensal menor igual R$ 100,00 não estão sendo assistidas pelo programa. Estes erros são intensificados quando se avalia os dados para o meio urbano: vê-se que 88,03% e 87,19% dos possíveis beneficiários, considerando os critérios de elegibilidade da linha de pobreza de R$ 50,00 e de R$ 100,00, respectivamente, não estão sendo atendidos pelo programa. Quanto ao erro de vazamento, observa-se que a aplicação do benefício básico gera um maior nível de vazamentos dos recursos do governo em relação à soma dos benefícios (básico e variável): 47,55% da totalidade das famílias que afirmam ter renda per capita mensal menor igual R$ 50,00, estão falseando sua renda para menos enquanto que para a soma de benefícios o vazamento é de 37,85%. Acredita-se que isto se deve ao fato de ser mais fácil declarar um nível de renda errado, do que falsear a composição da família. Analisando o erro de vazamento também se pode verificar que o meio urbano apresenta um maior nível de erro de vazamentos, 50,67% e 39,88%, para os critérios de elegibilidade básico e variável, respectivamente; enquanto que no meio rural tem-se um nível de vazamento de 37,68% e 31,43%. Observa-se, ainda, que o nível dos erros de cobertura é maior que os apresentados pelos erros de vazamentos. Estes resultados, porém, devem ser analisados com cautela uma vez que, além dos problemas já identificados anteriormente, os dados utilizados nesta análise são de 2004 e desde então o governo tem ampliado os recursos aplicados neste programa, atingindo numero bem mais elevado de famílias. 3.2 Análise dos Modelos de Estimação da Renda com Base nas Características Foram procedidas diversas estimações, sendo apresentada a estimação do padrão de vida da população pela regressão quantílica (0,5 quantil) para a totalidade da amostra. Foram também estimados modelos para a zona rural e urbana, os quais não são apresentados, porém são comentados. Para cada estimação foram estimados cinco modelos. No modelo 1, que considera apenas variáveis dummies para as regiões, constata-se, para todas, geração de renda inferior à gerada na região sudeste, com exceção da região sul. Ao se expandir a composição da regressão, adicionando características de propriedade de bens duráveis, acesso a serviços básicos, nível educacional e ocupação, nota-se que a região nordeste permanece apresentando uma correlação negativa com a renda familiar per capita, o que equivale à análise por zona urbana e rural. TABELA 3: Predição da renda estimada com regressão quantílica (5º quantil) – Dados Totais Variável Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3 Modelo 4 Modelo 5 300 (0,00) 160,54 (0,00) -58,82 (0,001) -35,09 (0,06) -72,15 (0,00) Constante -100 (0,00) -32,29 (0,00) 31,12 (0,00) 14,37 (0,00) 15,12 (0,00) Norte -140 (0,00) -89,91 (0,00) -34,52 (0,00) -41,13 (0,00) -38,52 (0,00) Nordeste 55,5 (0,00) 18,39 (0,00) 9,913 (0,00) 10,58 (0,00) 4,12 (0,06) Sul -16,66 (0,00) -2,70 (0,38) 23,81 (0,00) 16,51 (0,00) 19,55 (0,00) CO 17,49 (0,00) 32,46 (0,00) 40,76 (0,00) 42,79 (0,00) Dmascul 8,82 (0,00) 0,95 (0,00) 1,24 (0,00) 4,60 (0,00) Idade -0,09 (0,00) -0,003 (0,26) 0,001 (0,61) -0,05 (0,00) Idade2 -82,94 (0,00) -28,48 (0,00) -31,37 (0,00) -28,96 (0,00) Nfid0_2 -74,76 (0,00) -23,88 (0,00) -25,32 (0,00) -24,56 (0,00) Nfid3_6 -68,83 (0,00) -22,77 (0,00) -17,50 (0,00) -24,37 (0,00) Nfid7_11 -69,15 (0,00) -26,46 (0,00) -18,99 (0,00) -32,33 (0,00) Nfid12_15 11 Nfid16_18 Nfid19_ Dcheffnd Dbranca Dpreta Damarela Dparda Drural Dcasa Dapart Dpardur Dtelhdur Razcommf Ddompro Daguapot Numbanh Dsaneab Dcollixo Denegia Dfone Dfogao Dradio Dtv Dgelfrez Dmaqlavr Dmicroc Nfcrepre Nffundam Nffmedio Nfenssup Nfposgra Nfalfadu Nfpreves Anosestud Dcfunmen Dcfunmai Dcenmed Dcsuinc Dcsucom Napospen Nffocudr Nfmocudr Docup_1 Docup_4 Docup_5 Docup_6 Docup_7 Docup_8 -56,92 (0,00) -7,82 (0,00) -78,46 (0,00) 72,99 (0,00) -2,74 (0,86) 325,47 (0,00) 1,20 (0,94) -21,88 (0,00) 8,45 (0,00) -136,27 (0,00) 41,80 (0,00) 18,76 (0,095) 96,99 (0,00) 20,25 (0,07) -9,25 (0,00) -61,72 (0,00) 203,38 (0,00) -7,68 (0,03) -2,56 (0,43) 68,15 (0,00) -6.51 (0,00) 2,30 (0,16) 115,81 (0,00) 20,02 (0,00) 11,22 (0,00) -11,68 (0,00) 39,42 (0,00) -18,75 (0,00) 6,63 (0,00) 13,09 (0,00) 4,93 (0,00) 71,59 (0,00) 278,53 (0,00) -8,84 (0,00) 10,02 (0,00) -126,23 (0,00) 24,45 (0,04) 8,15 (0,51) 46,28 (0,05) 10,29 (0,39) -7,25 (0,00) -57,65 (0,00) 119,36 (0,00) -7,91 (0,01) -6,35 (0,10) 61,65 (0,00) -4,22 (0,00) 1,26 (0,44) 76,28 (0,00) 15,29 (0,00) 6,30 (0,00) -5,47 (0,13) 30,80 (0,00) -21,26 (0,00) 5,90 (0,00) 10,09 (0,00) -0,35 (0,86) 57,69 (0,00) 165,58 (0,00) 2,06 (0,11) -5,99 (0,00) -21,02 (0,00) 47,18 (0,00) 293,66 (0,00) 1,10 (0,72) -33,62 (0,00) 6,76 (0,00) -4,72 (0,02) -9,78 (0,00) 0,45 (0,94) 79,80 (0,00) 447,70 (0,00) -34,61 (0,00) -26,33 (0,00) -117,42 (0,00) 24,20 (0,03) 7,12 (0,51) 58,84 (0,02) 9,51 (0,38) -7,21 (0,00) -54,80 (0,00) 118,55 (0,00) -11,22 (0,00) -5,56 (0,06) 56,54 (0,00) -6,87 (0,00) 1,80 (0,32) 77,85 (0,00) 15,39 (0,00) 7,11 (0,00) 2,82 (0,44) 28,37 (0,00) -15,00 (0,08) 4,45 (0,01) 7,99 (0,00) -1,18 (0,54) 55,35 (0,00) 159,84 (0,00) -1,12 (0,45) -3,43 (0,00) -14,58 (0,00) 49,79 (0,00) 278,62 (0,00) -2,95 (0,32) -22,18 (0,02) 6,95 (0,00) -7,19 (0,00) -14,23 (0,00) -10,08 (0,09) 61,71 (0,00) 443,89 (0,00) 66,16 (0,00) 34,70 (0,00) 46,30 (0,00) -41,37 (0,00) -15,87 (0,00) -15,82 (0,00) -24,84 (0,00) 3,62 (0,24) 29,86 (0,00) 12 -14,21 (0,00) Docup_9 -21,23 (0,00) Docup_10 -15,05 (0,00) Docup_11 -2,40 (0,39) Docup_12 2 0,027 0,100 0,259 0,295 0,305 R Fonte: Elaborado pelos autores. P-value em parênteses. N = 85.376. Analisando a inclusão das variáveis de composição da família (Modelo 2), quanto maior a família menor é a renda, porém é a existência de um maior número de crianças, adolescentes e jovens de 0 a 18 anos na família que apresenta uma relação negativa mais forte com renda familiar per capita. Ademais, se o chefe de família for de raça preta e/ou não for o chefe do domicílio, em ambos os casos tais características têm relação negativa com a renda. Avaliando as relações das características do Modelo 3 com a renda familiar per capita mensal, nota-se que quanto às características do domicílio, os que moram em casa, mesmo que própria, com paredes e telhas duráveis, com acesso a energia e que possuem fogão, apresentam impacto negativa sobre a renda, aumentando a possibilidade destas famílias serem beneficiárias de programas de transferências de renda. Além disso, existe uma relação fortemente positiva e crescente da renda com relação à variável que indica a razão entre número de cômodos/morador e quantidade banheiro, bem como a propriedade de microcomputador e máquina de lavar. Analisando os resultados obtidos pela estimação da renda como as características do Modelo 4, onde se adiciona as variáveis que indicam o nível educacional, nota-se que quanto maior o tempo de estudo do chefe da família, maior será a renda per capita da família. Vê-se que o chefe da família que tem o nível fundamental de escolaridade demonstra renda menor que os demais, se comparados aos analfabetos. Além disso, quanto maior o número de crianças, adolescentes e jovens que estudam no ensino fundamental, médio e fazem prévestibular, maior o impacto negativo sobre a renda. Com a adição de variáveis de ocupação e de composição da renda (Modelo 5), verifica-se que as famílias em que o chefe trabalha nas atividades de transporte, armazenagem e comunicação, bem como na administração pública são aquelas que demonstram renda superior à dos que estão ocupados com a atividade industrial. Além disso, quanto maior o número de trabalhadores na família, independente do sexo, maior a renda. E, quanto maior o número de aposentados e pensionistas na família, maior será a renda gerada pela família. Vale salientar que a variável número de aposentados e pensionistas é a que apresenta relação positiva mais forte com a renda familiar per capita. É importante salientar que as variáveis que têm correlação negativa com a renda apresentam relação positiva com as transferências do governo, ou seja, as variáveis que causam impacto negativo sobre a renda tornam maior a probabilidade da família receber transferências de renda. 3.3 Análise da Focalização das Transferências: índices de pobreza, Erros de Cobertura e de Vazamento com os Modelos de Estimação da Renda e Minimização dos Índices de Pobreza Para avaliar a focalização das transferências, identificando o melhor esquema de transferência, deve-se analisar os índices de pobreza e as proporções dos erros de cobertura e de vazamento. Assim, após a estimação de cada uma das regressões estima-se a renda em função das características e faz-se a minimização do índice de pobreza e assim calcula-se os erros tipo I (de cobertura) e tipo II (de vazamento), passo 3. Para avaliar qual tipo de regressão é mais adequado para identificar o padrão de vida da população, deve-se analisar qual das simulações 13 apresenta menor erro de cobertura e de vazamento, tendo como critério de prioridade a minimização dos erros de vazamento. Neste caso, mensuraram-se dois tipos de erros de cobertura e de vazamentos. Tem-se que o erro de cobertura I corresponde a proporção de pessoas pobres que não são beneficiadas pela transferência do governo, considerando a renda estimada no segundo passo, enquanto que o erro de cobertura II é à proporção de pessoas que declara-se pobre e não é beneficiada, ou seja, considera-se a renda declarada e não a mensurada. O erro de vazamento foi calculado conforme descrito no passo 3, da seção 2.2. Assim, o erro de vazamento I corresponde à proporção do orçamento gasto com pessoas que não são declaradamente pobres, ou seja, que declararam ter renda acima das linhas de pobreza consideradas. O erro de vazamento II equivale à proporção de pessoas que não são pobres, porém são beneficiadas pelo programa. Em ambos os casos considera-se a renda declarada e não a estimada no passo 2. Vê-se que, Muller e Bibi (2005), indica que a prioridade é reduzir dos vazamentos em termos de orçamento, reduzindo os gastos do governo com famílias que não são pobres. Portanto, realiza-se esta nova otimização para os dados de renda estimados obtidos pela regressão quantílica (0,5 quantil) convertendo a renda negativa em valores zeros. Índices de Pobreza Analisando os resultados, quando se objetiva minimizar os índices de indigência (linha de pobreza igual a R$ 50,00 – Tabela 4), considerando a proporção de pobres (P0) e o hiato de pobreza (P1), deve-se adotar políticas que considerem no critério de eligibilidade a composição das famílias, priorizando as que contêm um maior número de filhos com idade de 0 a 18 anos, de cor preta, nas quais o chefe da família não seja o chefe do domicílio (Modelo 2). Mas para minimizar o índice com maior aversão à pobreza, ou seja, com α = 2 (P2-FGT), tem-se que adotar políticas que além das características descritas acima, priorizem aquelas que habitam na região nordeste, da zona rural, que não tenham acesso a saneamento básico e coleta de lixo, mesmo que morem em domicílios (casas) próprios que tenham paredes e telhados duráveis, com acesso à energia e disponham de fogão a gás (Modelo 3). Quando se deseja reduzir os índices de pobreza (linha de pobreza igual a R$ 100,00), deve-se adotar políticas que buscam observar as características consideradas no Modelo 2, ou seja, as políticas devem atender às família que têm um maior número de componentes com idade de 0 a 18 anos e que dividem o domicílio com outras famílias, de cor preta, em que o chefe da família não é chefe do domicílio. Erros de Cobertura e Vazamento Observando os resultados da otimização com linha de pobreza igual a R$ 50,00, índices P0 e P2, para o erro de cobertura I, nota-se que este tipo de erro será reduzido quando adota-se políticas que busquem observar as características consideradas no Modelo 2. Enquanto que, ao considerar a minimização de P1, tem-se que adotar políticas que estejam atentas às características consideradas no Modelo 3. Observa-se ainda que é a adoção das características consideradas no Modelo 2 que proporciona a menor proporção deste tipo de erro e que este se dá a um nível bem inferior ao apresentado pelo programa aqui analisado. Ou seja, a inclusão de características como critério reduz o erro de cobertura. TABELA 4: Valores estimados para os Índices de pobreza, Erro de Cobertura, Erro de Vazamento, considerando a linha de indigência de R$ 50,00 – Amostra total. Índices Número de de Erro de Cobertura Erro de Vazamento Número de Modelos Famílias Pessoas Pobreza Beneficiadas Beneficiadas P0 I II I II 14 Modelo 1 0,0000 1,0000 1,0000 0,0000 0,0000 0 0 Modelo 2 0,0176 0,8356 0,8704 0,6766 0,6958 462 3340 Modelo 3 0,0200 0,8365 0,8563 0,6079 0,6513 691 3771 Modelo 4 0,0207 0,8372 0,8569 0,6089 0,6645 720 3884 Modelo 5 0,0240 0,8573 0,8604 0,6295 0,6811 716 3851 P1 I II I II Modelo 1 0,0000 1,0000 1,0000 0,0000 0,0000 0 0 Modelo 2 0,0132 0,6856 0,8236 0,6549 0,6850 1274 6387 Modelo 3 0,0133 0,6831 0,8077 0,6613 0,6785 1708 7306 Modelo 4 0,0140 0,7224 0,8274 0,6490 0,7081 1674 6615 Modelo 5 0,0167 0,7327 0,8287 0,6784 0,7360 1784 7207 P2 I II I II Modelo 1 0,0000 1,0000 1,0000 0,0000 0,0000 0 0 Modelo 2 0,0098 0,5830 0,7465 0,5622 0,5688 1049 8471 Modelo 3 0,0093 0,6912 0,7516 0,4885 0,5022 1012 7120 Modelo 4 0,0098 0,6658 0,7333 0,4880 0,5060 1148 7962 Modelo 5 0,0122 0,6538 0,7033 0,4960 0,5102 1346 9334 Fonte: Elaborado pelos autores Obs.: Estas estimações não consideram os valores estimados de renda negativa. Orçamento gasto igual a R$ 131.735,00. N = 85.376. Analisando o erro de cobertura II, vê-se que se deve considerar as características do Modelo 3, quando estima-se P0 e P1. Mas para a otimização de P2, o modelo mais apropriado para reduzir a proporção deste tipo de erro é o Modelo 5 (Tabela 4). Além disso, este último modelo proporciona o menor valor para o erro de cobertura II, bem como pode reduzir este tipo de erro quando comparado com os resultados do programa Bolsa Família. Assim, deve-se considerar todas as características aqui analisadas: regionais, de composição da família, de propriedade de bens duráveis e acesso a serviços básicos, a formação educacional e a ocupação do chefe da família. Nota-se que o Modelo 3 dispõe dos melhores resultados para o erro de vazamento I e II, exceto pelos valores do erro de vazamento I encontrados quando minimiza-se P1 e P2, quando o uso do Modelo 4 torna-se mais adequado para definir os critérios de elegibilidade. Observando os resultados da otimização com linha de pobreza igual a R$ 100,00 (Tabela 5), vê-se que, para reduzir o erro de cobertura I, cada tipo de índice de pobreza apresenta resultados diferentes. Na otimização de P0, deve-se esquematizar políticas que considerem as características do Modelo 3. Para as otimizações de P1 e P2, deve-se observar as características consideradas nos Modelos 2 e 5, respectivamente. Porém, quando o objetivo é obter a menor proporção do erro de cobertura I, deve-se estabelecer políticas que busquem atender às relações negativas entre características e renda que demonstra o Modelo 2, tais como: deve-se atender às famílias com crianças, adolescentes e jovens de 0 a 18 anos. 15 Mas se o objetivo é reduzir a proporção do erro de cobertura II, para a otimização de P0 e P1 deve-se buscar políticas que caracterizem os pobres considerando as características presentes no Modelo 3; para a otimização de P2, deve-se considerar as características do Modelo 5. Destaca-se ainda que se o objetivo é atingir a menor proporção do erro de cobertura I e II, deve-se caracterizar os pobres considerando as variáveis dos Modelos 2 e 5, respectivamente. Além disso, verifica-se que nestes casos têm-se valores do erro de cobertura inferiores aos apresentados pela política de transferência aqui analisada. Objetivando obter menores proporções dos erros de vazamento I e II, para P1 e P2, tem-se que estabelecer políticas que busquem identificar os indivíduos pobres considerando as características do Modelo 3, exceto para o erro de vazamento I que apresenta menor proporção deste tipo de erro quando considera-se as variáveis do Modelo 4 (Tabela 12). A menor proporção do erro de vazamento I, dá-se quando adota-se políticas em que as pessoas pobres são identificadas considerando as característica de localização, composição da família, propriedade de bens e acesso a serviços básicos, além de observar o nível educacional dos componentes da família (Modelo 4). Por outro lado, é o Modelo 3 que apresenta a menor proporção para o erro de vazamento II. Ambas as proporções encontradas para o erro de vazamento são superiores às encontradas pela adoção do Bolsa Família, porém vale salientar que os valores dos erros de cobertura e vazamento calculados para este programa foram realizados levando em consideração algumas suposições descritas na seção 3.4, que podem sub-estimar tais proporções, assim deve-se observar esta análise comparativa com cautela. TABELA 5: Valores estimados para os Índices de pobreza, Erro de Cobertura, Erro de Vazamento, considerando a linha de indigência de R$ 100,00 – Amostra total. Índices Erro de Erro de Número de Número de de Cobertura Vazamento Modelos Famílias Pessoas Pobreza Beneficiadas Beneficiadas P0 I II I II Modelo 1 0,0000 1,0000 1,0000 0,0000 0,0000 0 0 Modelo 2 0,0360 0,9430 0,9193 0,3247 0,3875 343 2111 Modelo 3 0,0461 0,9428 0,9126 0,2935 0,3647 543 2717 Modelo 4 0,0466 0,9432 0,9134 0,3020 0,3838 541 2715 Modelo 5 0,0494 0,9511 0,9143 0,2495 0,3421 499 2461 P1 I II I II Modelo 1 0,0000 1,0000 1,0000 0,0000 0,0000 0 0 Modelo 2 0,0210 0,8057 0,8797 0,4121 0,4594 1807 7164 Modelo 3 0,0244 0,8217 0,8675 0,4247 0,4461 2179 8426 Modelo 4 0,0252 0,8283 0,8713 0,4370 0,4605 2134 8187 Modelo 5 0,0279 0,8302 0,8669 0,4193 0,4477 2231 8516 P2 I II I II Modelo 1 0,0000 1,0000 1,0000 0,0000 0,0000 0 0 Modelo 2 0,0158 0,8886 0,8907 0,2251 0,2332 454 4113 16 Modelo 3 0,0168 0,8733 0,8588 0,1142 0,1275 783 5993 Modelo 4 0,0175 0,8357 0,8330 0,1116 0,1182 1068 7834 Modelo 5 0,0202 0,8278 0,8240 0,1209 0,1323 1164 8638 Fonte: Elaborado pelos autores Obs.: Estas estimações não consideram os valores estimados de renda negativa. Orçamento gasto igual a R$ 131.735,00. N = 85.376. 4 Conclusões Os resultados permitem verificar que o programa Bolsa Família promove melhorias nos índices de pobreza, porém ao analisar os erros de cobertura e de vazamento, considerando o critério de elegibilidade para recebimento do benefício básico, observa-se que 52,45% dos beneficiários do programa pertencem ao público-alvo, o que equivale a dizer que 47,55% dos beneficiários não pertencem ao público-alvo, correspondendo à parcela dos recursos do programa que não é gasta corretamente. Se observarmos o mesmo critério por zona, vê-se que a área urbana apresenta um maior erro de vazamento (50,67%) que a área rural (37,68%), ou seja, é na zona urbana em que se beneficia um maior número de não pobres. Ademais, observa-se ainda que o programa apresenta baixo atendimento, pois 87,20% de toda a população pobre não é beneficiada. Com a ampliação do Bolsa família, após 2004, o atendimento aos mais pobres deve ser ter sido bastante ampliado. Por outro lado, quando se analisam estes erros considerando o benefício variável, que depende da composição da família, nota-se que 86,44% de toda a população que pertence ao público-alvo não é beneficiada pelo programa, muito embora 62,15% dos beneficiários pertençam ao público-alvo, ou seja, 37,85% dos benefícios são entregues a famílias não pobres e/ou que não tem filhos de 0 a 15 anos de idade. A incidência do erro de vazamento é maior na zona urbana, cerca de 39,88% dos recursos disponíveis nesta área são gastos incorretamente; na zona rural este percentual é de 31,43%. Assim, pode-se verificar que o maior problema de focalização do programa Bolsa Família é o erro de cobertura, porém os vazamentos não são desprezíveis. Em termos políticos, é de fundamental importância a redução dos vazamentos, pois este problema além de gerar desperdícios do orçamento, minimiza o atendimento aos mais pobres, desviando o atendimento que devia priorizá-los. Sabe-se ainda que os recursos disponíveis são escassos e que a redução de ambos os erros torna o programa mais eficiente. Outro ponto importante analisado pelo presente estudo foi a forma que o Bolsa Família utiliza atualmente para selecionar os potenciais beneficiários, buscando identificar novos critérios para melhorar a eficiência do programa. Verifica-se que tais critérios poderiam ser melhorados. O uso de características correlatas à renda pode auxiliar na identificação do público-alvo, promovendo uma redução nos erros de cobertura e de vazamentos e, conseqüentemente, melhorando a focalização. Os resultados demonstram que, de forma geral, quando se considera as características de composição da família (Modelo 2) para definir o público-alvo tem-se uma melhoria dos índices de pobreza. Assim, se o objetivo é reduzir os índices de pobreza deve-se considerar no critério de elegibilidade características da família, priorizando as que tem jovens de 0 a 18 anos e as cujo chefe de família não é chefe do domicílio. Em suma, quando se consideram as características de composição da família para definir o público-alvo, obtém-se focalização que se traduz em melhoria dos índices de pobreza. Porém, se o objetivo do governo é reduzir os erros de cobertura e de vazamento, temse de esquematizar políticas que levem em consideração outras características que identifiquem melhor os mais pobres. Observa-se, ainda, que para cada um dos critérios 17 analisados, tem-se que esquematizar uma política que considere características diferentes, ou seja, não existe uma receita única para reduzir o índice de pobreza e os tipos de erro (de cobertura e de vazamento). Em conjunto, o formato da política a ser adotada depende do objetivo político a ser alcançado. Os resultados apresentados mostram que independente da linha de pobreza utilizada, os erros de vazamento e de cobertura podem ser reduzidos. Analisando os resultados obtidos com a amostra total (com linha de pobreza igual a R$ 100,00), pode-se verificar que o erro de cobertura II pode ser reduzido em 4,6%, passando de 86,38% para 82,40% (Modelo 4), ou seja, utilizando os mesmos recursos monetários pode-se atender um número maior de pessoas. Isto também pode ser verificado quando analisa-se os resultados para o meio rural e urbano, reduzindo o erro de cobertura II de 87,14% para 71,65% (Modelo 4). De modo geral, quando objetiva-se obter uma proporção menor do erro de cobertura II, tem-se que desenhar uma política que considere as características de localização e de composição da família inclusos no Modelo 2, deve ainda considerar características correlatas à renda como a propriedade de bens duráveis, o acesso a serviços básicos, além das variáveis que indicam o nível educacional do chefe da família e a composição do número de estudantes (Modelo 4). Algumas variáveis apresentam forte relação negativa com a renda o que, conseqüentemente, possibilita a inclusão no grupo dos pobres, dentre as quais se destacam: o chefe da família que não é chefe do domicílio e o número de banheiros no domicílio. Observa-se ainda que a redução do erro de vazamento I e II é mais expressiva. Quando se avalia os resultados considerando toda a amostra, vê-se que o erro de vazamento II pode atingir uma proporção mínima de 11,82% (Modelo 4), o que equivale a uma redução de 99,75% na proporção do desvio de recursos (sua proporção corresponde a 48,35%). Quando analisa-se os resultados para a zona rural a redução é equivalente a 85,94% (passando de 44,60% para o valor mínimo de 6,27% - Modelo 3) e para a zona urbana tem-se uma redução de 71,09% (passando de 49,50% para o valor mínimo de 14,31% - Modelo 5). Em resumo, verifica-se que para reduzir a proporção do vazamento II, em termos gerais, deve-se adotar medidas que considerem as características do Modelo 4. Porém quando analisa-se os resultados para meio rural, este modelo não parece ser o mais adequando: tem-se que esquematizar uma política que considere as características de localização, de composição da família, de propriedade de bens duráveis e de acesso a serviços básicos. E, para minimizar este erro na aplicação do programa na área urbana devem ser consideradas todas as características analisados, ou seja, além das características inclusas no Modelo 4, deve-se observar a formação da renda e qual o tipo de ocupação do chefe da família (Modelo 5). Assim, em termos de redução dos vazamentos, observa-se que o desenho da política deve levar em consideração em qual zona (rural e urbana) a família habita. Assim, pode-se concluir que a aplicação do método de focalização aqui proposto, pode ajudar a melhorar a eficiência do Bolsa Família, reduzindo os desperdícios de recursos, bem como ampliando o atendimento aos mais pobres com o mesmo volume de recursos totais. Destaca-se, no entanto, que o esquema político mais adequado depende dos objetivos a serem alcançados. Portanto, não é fácil nem trivial a construção de uma política de transferência de renda que minimize os índices de pobreza e ao mesmo tempo reduza os erros de cobertura e de vazamento. O governo tem que previamente escolher seu objetivo e com isto pode privilegiar o meio rural ou urbano, por exemplo. Para atender tanto o meio rural como o urbano pode-se adotar estimativas de pobreza distintas. Mas sempre a renda declarada não é a melhor alternativa a ser considerada; esta deve ser estimada a partir de conjunto de características. Assim, os resultados obtidos na presente análise podem servir para orientar o desenvolvimento dos critérios de elegibilidade do Bolsa-Família, de forma a melhorar sua focalização e reduzir vazamentos. E essa focalização passa, necessariamente, pela escolha das famílias passando a ser baseada em um conjunto de características locacionais, de composição 18 da família e de nível educacional, de propriedade de bens duráveis e acesso a serviços básicos e não exclusivamente com base na renda declarada, como é feito na atualidade. 5 Referencial Bibliográfico ANUATTI NETO, F.; FERNANDES, R. e PAZELLO, E. T. 2000. 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