Português VISITAS GUIADAS 07 SET 2006 (Qui), 18h30 por Ulrich Loock REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Gego, Entre la Transparencia y lo Invisible, The Museum of Fine Arts, Houston; Fundación Eduardo F. Constantini, Buenos Aires, Yale University Press, New Haven e Londres, 2006. Sabiduras y Otros Textos de Gego, Maria Elena Huizi, Josefina Manrique (ed.), The Museum of Fine Arts, Houston and Fundación Gego, Caracas, Yale University Press, New Haven e Londres, 2005. Gego. Obra Completa 1955-1990, Fundación Cisneros, Fundación Gego, Fundación Museo de Bellas Artes, Editorial ExLibris, Caracas, 2003. Questioning the Line: Gego in Context, Mari Carmen Ramírez with Theresa Papanikolas (ed.), International Center for the Arts of the Americas, The Museum of Fine Arts, Houston, University of Texas Press, Houston, 2003. COMISSARIADO Mónica Amor PRODUÇÃO Fundação de Serralves, Porto; MACBA, Barcelona Reticulárea, 1969; Vista de instalação no Museo de Bellas Artes, Caracas, 1969 Cortesia Fundación Gego, Caracas; Fotografia ©: Paolo Gasparini GEGO DESAFIANDO MECENAS EXCLUSIVO DA EXPOSIÇÃO MECENAS DO MUSEU ESTRUTURAS 28 JUL-15 OUT 2006 Seguradora Oficial: Império Bonança | Apoios: Porto Palácio Hotel | Sogrape Rua D. João de Castro, 210 .4150-417 Porto www.serralves.pt | [email protected] Informações: 808 200 543 Geral: 226 156 500 PARQUE DE ESTACIONAMENTO Entrada pelo Largo D. João III (junto à Escola Francesa) “Só com metal posso transformar aquilo que é transparente, e isso inclui o espaço em volta da escultura, a fim de o incorporar na própria obra.” Esta exposição apresenta uma selecção de obras da artista germano-venezuelana Gertrud Goldschmidt, mais conhecida por Gego, realizadas entre 1958 e 1991. A prolífica produção artística de Gego caracteriza-se por uma cuidadosa atenção ao comportamento da linha. Isso é visível na diversidade de desenhos, aguarelas e gravuras que Gego produziu durante a sua vida num esforço intenso para revitalizar a tradição do desenho no espaço. Não há dois desenhos de Gego iguais. Oscilam entre o gestual e o mecânico e revelam como é obsoleto qualquer tipo de categorização estilística. Uma selecção de obras sobre papel realizadas nos anos sessenta acompanha esculturas do mesmo período: propostas geométricas baseadas no objecto que pretendem dissolver as figuras geométricas platónicas adoptadas pelo construtivismo, a arte concreta e outras tendências da abstracção geométrica populares na Venezuela, no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos, na Suíça e na França após a Segunda Guerra Mundial. A primeira sala apresenta exemplos de experiências em pequena escala que mostram a técnica de montagem que permitiria a Gego trabalhar autonomamente, sem precisar de soldadores nem de planos. A linha é sempre a sua preocupação e no final da década a artista interessa-se mais pelos efeitos da linha no espaço do que pelo objecto em si. Isso é ensaiado em obras realizadas com lâminas finas de aço inoxidável agrupadas de modo a parecerem relva. Uma segunda sala com desenhos e aguarelas apresenta ao espectador as teias expansíveis que Gego desenvolveu a partir de 1969 como base de um dos seus sistemas de construção (sobre papel e no espaço). A rede triangular foi utilizada em obras tanto bidimensionais como tridimensionais. Gego, convém não esquecer, rejeitava o termo “escultura” e enfatizava a fragilidade das suas experiências híbridas. A estrutura da rede serviu de base à sua Reticulárea, de 1969, uma obra ambiental que a artista instalou pela primeira vez na Galeria de Arte Nacional de Caracas. A obra, feita de malhas irregulares e redes de vários metais, que se ligavam e dispersavam no espaço, foi instalada por Gego em várias ocasiões, desenvolvendo a tendência da artista para pensar espacialmente. Com efeito, Gego estudou na Alemanha arquitectura e engenharia e é óbvio que essa formação a influenciou, levando-a a pensar em termos de espaço. Mas a tradição arquitectónica invocada por Gego na sua obra está longe daquela em que foi formada. Estudou na Technische Hochschule de Estugarda sob a tutela de Paul Bonatz, que defendia formas e métodos de construção bastante tradicionais. Em 1976, o poeta e crítico de arte Hanni Ossott escreveu: “Gego, como nós, desprezava as exigências e as premissas ditadas pelos professores de arquitectura”. E embora as suas estruturas reticulares e espaciais possam ter sido influenciadas pelas cúpulas geodésicas de Buckminster Fuller, ela contornou as suas espectaculosidade, grandiosidade, precisão estrutural, eficácia funcional e optimismo industrial através de estratégias de precariedade que revelavam as contradições da tecnologia. Assim, as redes de Gego irradiam ausência de forma, irregularidade, descontinuidade e disjunção – qualidades não acarinhadas por uma história de abstracção geométrica que favorecia a clareza e a harmonia e cujo principal representante é o artista suíço Max Bill. O comportamento reticular caracterizado por um abandono apenas visto na arte processual de finais dos anos sessenta foi levado mais longe nas obras intituladas Chorros, produzidas em 1970-71. Concebidos como peças individuais, mas sempre expostos em grupo, os Chorros são cascatas irregulares de tubos de alumínio terminados por argolas, combinados com elementos de aço inoxidável ou ferro e ligados verticalmente a outros tubos que embatem no chão, enquanto toda a obra pende do tecto. Se alguns Chorros ziguezagueiam em direcção ao chão, outros ficam suspensos no ar, activando os espaços entre as peças. Na galeria três podem ver-se treze Chorros, na maioria restaurados e nunca apresentados depois de 1985, o ano em que Gego os instalou pela última vez no Museo de Barquisimeto, na Venezuela. Essas obras ofereceram a Gego a possibilidade de pensar numa natureza errática, não governada pelas leias da harmonia e da causalidade mas pelo caos, o acaso e a entropia. Se em inglês “Chorro” pode ser traduzido por “Stream” [ribeiro], em espanhol e em português “Chorro” é um termo mais pedestre, sem as conotações campestres de “Stream”. “Chorro” designa um fluxo líquido vigoroso, pelo que “Gush” [jorro] seria talvez uma tradução mais adequada. Na galeria três o observador encontrará ainda os Troncos e as Esferas produzidos em meados da década de 1970. Nessas obras, a artista retomou com maior ênfase a noção de estrutura que enformara o seu trabalho de finais dos anos cinquenta, início dos anos sessenta. Influenciada pelas aulas que deu sobre as formas bidimensional e tridimensional no Instituto de Diseño Neumann, em Caracas, Gego ficou fascinada com a projecção no espaço do desenho técnico. Mas o pensamento serial iniciado com as Reticuláreas que formaram e seguiram a sua obra ambiental de 1969, foi mantido nestas obras dos anos setenta, bem como o desejo de criar ambientes utilizando grupos de obras. Através deles, Gego convida o espectador a ter da obra uma experiência física e não apenas visual. O observador deve rodear a obra e, nalguns casos, como por exemplo na Reticulárea ambiental, entrar dentro dela. Durante a sua carreira, a instalação das obras de Gego torna-se cada vez mais importante, levando-a a considerar não só o objecto individual, mas também a relação entre as obras e entre estas e os observadores. A vulnerabilidade introduzida na obra em finais dos anos sessenta, por meio de sistemas de fixação maleáveis que favoreciam a flexibilidade e de materiais frágeis que permitiam a deformação, bem como a rejeição de uma estrutura visual e conceptualmente transparente, levaram-na a ultrapassar os limites da sua empresa intermediática nos Dibujos sin Papel [Desenhos sem Papel]. Estas obras, feitas com materiais residuais encontrados no estúdio, são desenhos sem suporte cujas configurações lineares se projectam na parede, fazendo da sombra dessa mistura de elementos parte integrante da obra e delineando os caprichos da linha para além do objecto em si. Em Tejeduras, a última série de obras produzidas por Gego, sucede o oposto: o suporte é construído, tecido com fios residuais de papel (de maços de cigarros, revistas, etc.) e torna-se a obra. Em todos os casos o processo de feitura, o tecer de elementos díspares, é crucial no ethos relacional da obra da artista – um ethos cujo fundamento foi uma lógica de reversão.