PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014)
ILLEGAL CROSSING BOARD: a ‘indústria’ do turismo como máquina de
subjetivação capitalística, infantilização e perversão da (con)vivência
1
Helio Hintze2
Escola Sup. de Agric. Luiz de Queiroz – ESALQ (Universidade de São Paulo)
Juliana Vicentini3
Escola Sup. de Agric. Luiz de Queiroz – ESALQ (Universidade de São Paulo)
Resumo
O turismo apresenta-se como objeto de estudos privilegiado para compreendermos as
dinâmicas contemporâneas do capitalismo. A produção de subjetividade capitalista é o
principal recurso que o sistema dispõe em sua tentativa de autoperpetuação. Por meio do
turismo, as pessoas buscam conhecer o ‘outro’, o ‘diferente’, o ‘estranho’. Essa busca é
mediada por empresas capitalistas que lucram com tal desejo. Nosso objetivo aqui é o de
explorar criticamente um pacote turístico chamado Illegal Crossing Board em busca dos
indícios que nos levem a compreender como é o processo de subjetivação capitalista presente
no turismo. Pudemos constatar que, por meio da exploração de tal pacote, a traumática
experiência de vida dos imigrantes ilegais que transitam entre as fronteiras do México e dos
EUA é espetacularizada para consumo dos turistas. Este processo produz a infantilização dos
turistas, e produz uma relação social perversa entre os turistas e os moradores locais da
região.
Palavras-chave: turismo; subjetivação capitalista; análise crítica de discurso;
discurso; estudos contra-hegemônicos
1
Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho 6 - COMUNICAÇÃO, CONSUMO E
SUBJETIVIDADE, do 4º Encontro de GTs – Comunicon, realizado nos dias 08, 09 e 10 de outubro de
2014.
2
Pós-doutorando em Economia, Administração e Sociologia (LES) ESALQ (USP). Doutor em
Ciências e Mestre em Ecologia Aplicada - Programa Interdisciplinar Ambiente e Sociedade – ESALQ
– CENA (USP). Professor Universitário. [email protected]
3
Doutoranda em Ecologia Aplicada (Ambiente e Sociedade) pela Universidade de São Paulo. É Mestra
em Ciências pela mesma universidade. Atualmente desenvolve pesquisas em análise crítica do discurso
com ênfase no segmento midiático ambiental. [email protected]
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Introdução
O conceito de subjetivação capitalista é uma chave para a investigação das formas
pelas quais o capital introjeta seu poder sedutor, porém repressivo “no conhecimento,
na cultura, na sensibilidade e na sociabilidade nos indivíduos” (GUATTARI, 2001,
p. 31). Na contemporaneidade, não podemos mais falar unicamente em valores de
troca, “valores que são da ordem do capital, das semióticas monetárias ou dos modos
de financiamento” (GUATTARI, 1996, p. 15) como marca distintiva da cultura
capitalística. O que caracteriza estes tempos são certos modos de controle da
subjetividade, modelizações de comportamentos, sensibilidade e percepção do mundo
(GUATTARI, 1996, p. 28) adaptados às demandas do capital. Na vigência do
neoliberalismo, vivemos uma espécie de “generalização da forma econômica do
mercado [que] funciona como princípio de inteligibilidade, princípio de decifração
das relações sociais e dos comportamentos individuais” (FOUCAULT, 2008, p. 334)4.
Uma vez contaminados por tal generalização, os indivíduos, por sua vez,
(re)produzirão o capital a partir de suas ações mais banais.
O objetivo deste artigo é apresentar e discutir criticamente o processo de subjetivação
capitalística presente nos meios de produção, comunicação e promoção de consumo
da ‘indústria’ do turismo, a partir do estudo de caso de um pacote turístico muito
peculiar: o Illegal Crossing Board.
Com isso, temos o intuito de promover e incentivar estudos contra-hegemônicos à
atual forma de produção, comunicação e consumo do turismo. Para explorarmos este
objetivo, nossas hipóteses de trabalho são:
(1) da maneira como é produzido, comunicado e consumido, sob a égide de
gigantescas empresas capitalistas globais que exploram todo o planeta Terra, seus
ambientes e suas gentes sob a forma de atrativos turísticos, o turismo está a
infantilizar as pessoas (chamadas de turistas) e, produzindo formas perversas de
convivências entre estes e os habitantes do lugar turístico;
4
Embora datado de 2008 na edição do livro O nascimento da biopolítica, este pensamento é da aula de
21/03/1979.
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(2) neste sentido, os mecanismos de captura de subjetividade presentes nas práticas
ambientais, administrativas, econômicas, de marketing, e de planejamento do turismo
tornam-se objetos de análise exemplares para os estudos críticos do processo de
subjetivação capitalista contemporâneo.
As estatísticas dos organismos internacionais que atuam tentando legitimar o turismo
não deixam dúvidas de que esta manifestação do capital deve ser investigada
criticamente em todas as suas frentes. Tanto o World Travel and Tourism Council
(WTTC), quanto a Organização Mundial do Turismo (OMT) apresentam números
exorbitantes para a ‘indústria’ do turismo. O WTTC afirma que o turismo é, na
atualidade, uma das maiores ‘indústrias’ do planeta, movimentando, apenas no ano de
2011, a quantia de 2 trilhões de dólares (WTTC, 2012). Levando em consideração
aquilo que o organismo chama de ‘contribuição total do turismo’ (impactos diretos,
indiretos e induzidos), os números apresentados pelo fórum para o ano de 2011 são
bem maiores: 6.3 trilhões de dólares, ou seja, 9% do PIB mundial (WTTC, 2012).
A discussão, um tanto quanto inócua, que ocorre no meio acadêmico do turismo entre
vários acadêmicos pró-turísticos, sobre se o turismo é ou não uma ‘indústria’, tem
pouco valor aqui. O que nos cabe afirmar é que o uso da palavra ‘indústria’ associada
à ideia de turismo é uma típica ocorrência da área semântica da subjetivação
capitalística. E que, portanto, a institucionalização do debate em torno disso é uma
ação que desvia a atenção dos pontos a serem efetivamente analisados.
Compreendemos que referir-se ao turismo como ‘indústria’ é uma relexicalização das
ideias de viagem, de experiência, de encontro, e de evasão como mercadoria, e do
turismo como produtor destas mercadorias. Esta relexicalização é uma das maneiras
pelas quais o capital coloniza os diferentes âmbitos não econômicos da vida. O
turismo é a forma pela qual o capital transforma a viagem, o deslocamento, os
encontros com os outros em mercadoria. Mas, a mesma palavra ‘indústria’ tem vários
outros significados, e por derivação e extensão de seu sentido, com uso
declaradamente pejorativo, a palavra ‘indústria’ significa: “exploração lucrativa e
inescrupulosa de uma atividade que normalmente não deveria ter tal objetivo”
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(HOUAISS; VILLAR, 2001, p. 1609). Esse uso pejorativo vem bem a calhar quando
vários autores se utilizam da palavra ‘indústria’ para associá-la à ideia do turismo.
Para eles, o turismo é a ‘indústria’ das viagens (OMT; WTTC), ou a ‘indústria’ da paz
(MONTEJANO, 2001), ou ainda a ‘indústria’ da diferença (WAINBERG, 2002). Ora,
se o turismo é uma dinâmica capitalística produtora de subjetividade em escala
industrial, ele é, então, no sentido pejorativo, uma verdadeira ‘indústria’ (HINTZE,
2013).
Outro agente hegemônico que procura legitimar o turismo é a Organização Mundial
do Turismo (OMT, 2012). Os números apresentados por este organismo mostram que,
no ano de 2012, a movimentação de pouco mais de um bilhão de turistas ao redor do
planeta. Em 1950, esse número girava em torno de 25 milhões (OMT, 2013). No
período entre 1950 e 2012, a quantidade de turistas circulando ao redor do mundo
elevou-se quarenta (40) vezes. Nas projeções de tal organismo, o turismo deve
alcançar a marca de 1.8 bilhões de turistas viajando pelo planeta até o ano de 2030
(OMT, 2013), aumentando no período de 18 anos (2012-2030) cerca de 80%.
Números que mostram um crescimento assustador e insustentável do turismo como
manifestação do capital. Frente a esses números, a menor reflexão nos leva à
consideração de que o planeta Terra não tem condições de suporte para tal atividade
em médio e longo prazo (HINTZE, 2013).
É necessário afirmar que as relações entre esse avanço vertiginoso da ‘indústria do
turismo’
e
as
grandes
questões
socioambientais
contemporâneas
estão
inextricavelmente entrelaçadas. Isso leva nosso interesse a duas importantes
temáticas:
(1) os graves problemas socioambientais que já estão sendo gerados pelo turismo e
que só se agravarão, caso as estatísticas da OMT estejam corretas sobre as alarmantes
perspectivas de crescimento em médio prazo dessa atividade;
(2) a dimensão do poderio político-econômico dos agentes que se dedicam à
exploração do turismo em nível mundial.
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A partir deste panorama, dos dados até aqui apresentados e de sua relevância para a
compreensão das dinâmicas capitalísticas contemporâneas é preciso afirmar que não
podemos nos manter numa atitude pretensamente neutra frente a esta temática. Tal
possibilidade não há. Consideramos que a objetividade total e a neutralidade total em
estudos científicos são impossíveis (SANTOS, 2011). Mas, nossa missão como
cientistas críticos sociais é a de procurar maximizar a objetividade de nossos trabalhos
ao mesmo tempo em que diminuímos nossa neutralidade (SANTOS, 2011, p. 32).
Este estudo é partícipe de um conjunto maior de estudos que têm como objetivo
explorar diversos aspectos da produção de estudos contra-hegemônicos à subjetivação
capitalística5, procurando colaborar:
(1) na produção de estudos críticos do turismo, a fim de gerar conhecimentos
dissidentes das práticas dominantes;
(2) na exploração da possibilidade de eventos singulares que possibilitem linhas de
fuga da forma hegemônica como o turismo contemporâneo tem sido produzido,
comunicado e consumido;
(3) com a produção de heteronomia, no sentido etimológico da produção de ‘outros
lugares’: lugares diferentes dos lugares-comuns da prática do turismo contemporâneo
(HINTZE, 2013).
Ou seja, assumimos uma posição política dentro do jogo de interesses dos estudos do
turismo.
Para compreendermos nosso objeto de análise é importante reconhecer que são os
discursos que ajudam a fundar e a significar o ‘outro’. O turismo tem, em sua
essência, a ideia da busca por esse ‘outro’. Portanto, para nortear este estudo, nosso
objeto de análises é um pacote turístico, chamando Illegal Crossing Board. Este
pacote explora a relação do turista com o ‘outro’, colocando o primeiro no lugar do
segundo, simulando uma experiência de vida deste para consumo daquele.
5
Fazem parte do projeto de Pós-doutoramento de Helio Hintze intitulado “Contradiscursos à
subjetivação capitalista: críticas da produção neoliberal do turismo contemporâneo”.
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Nossa metodologia de trabalho é a Análise Crítica de Discursos (FAIRCLOUGH,
2008; VAN DJIK, 2008), um tipo de análise de discurso que procura mostrar
estruturas e conexões que não estejam aparentes, mas subentendidas, de difícil
percepção nos textos que ela analisa. Ela procura estudar “os modos como as
estruturas específicas do discurso são organizadas para reproduzir a dominação
social” (VAN DJIK, 2008, p. 116). Desta forma, o discurso analisado não é
considerado mero objeto autônomo, mas fruto de “uma interação situada, como uma
prática social ou como um tipo de comunicação social, cultural, histórica e política”
(VAN DJIK, 2008, p. 12). O que chamamos de ACD é uma série de procedimentos e
técnicas de análises da comunicação. Ela “baseia-se na abordagem de problemas
sociais, considerando que relações de poder são discursivas [...e] deve servir à
interpretação e à explanação dos fatos” (VAN DJIK, 2008, p. 115).
O itinerário deste artigo está assim estruturado: a partir do estudo de caso do ‘pacote’
de turismo, discutiremos o papel do turismo dentro do espectro da produção de
subjetividade capitalista, algumas de suas consequências sociais e a importância da
compreensão destes elementos para as ciências sociais que se pretendam críticas. Por
fim, sob a forma de considerações finais, apresentaremos uma síntese crítica do
material analisado.
Illegal crossing board: o ‘estranho’ em embalagem segura
Morin (2000, p. 72-73) lembra-nos que “a vida de férias se torna uma grande
brincadeira: brinca-se de ser camponês, montanhês, pescador, lenhador, de lutar,
correr, nadar...”. Estudaremos aqui como a ‘indústria’ do turismo trabalha a
construção da ‘brincadeira’ de ‘ser turista’. O turista-consumidor pode querer viver
qualquer tipo de ‘aventura’, desde que ele pague por isso. No entanto, as aventuras
dos turistas são sempre aventuras com o ‘outro’, afinal sempre há alguém do outro
lado da linha abissal (SANTOS, 2009) que funda o turismo, tanto no papel de quem
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recebe o turista, quanto no papel de ‘objetos’ de interesse do olhar do turista (URRY,
2001).
Fisicamente juntos, mas abissal (SANTOS, 2009) e espetacularmente separados
(DEBORD, 2004) estes atores participam de uma encenação na qual “a oferta da
experiência acontece quando uma empresa usa intencionalmente os serviços como um
palco e os produtos como suportes para atrair os consumidores de forma a criar um
acontecimento memorável” (PINE II; GILMORE, 1999, p. 39). A forma de separação
abissal é aquela que representa a maneira moderno-ocidental de “produzir e
radicalizar distinções” (SANTOS, 2009, p. 23). Vejamos: uma linha é traçada, de um
lado, a realidade existente e aceita, no caso deste estudo: o turista, simultaneamente,
“‘o outro lado da linha’ desaparece enquanto realidade, torna-se inexistente, e é
mesmo produzido como inexistente [o objeto do olhar do turista]” (SANTOS, 2009,
p. 23). É necessário investigar estes modos de ser e de estar ‘juntos’ promovidos pelas
diversas (i)lógicas do mercado do turismo.
Estudemos criticamente, então, a produção de subjetividade capitalística a partir da
análise das ‘aventuras’ prometidas pelo pacote turístico chamado ‘Illegal border
crossing park’ ou ‘La caminata nocturna’ 6 . O pacote é vendido na cidade de El
Alberto, numa região próxima à fronteira entre o México e os EUA. Um vídeo
produzido para promover o parque afirma que, este povoado tem cerca de 3000
habitantes do povo Ñhañhu (e, 90% de sua população envolvida na tentativa de
imigrar para os EUA). A atividade é promovida para que os turistas possam “simular
a experiência de tentar cruzar a divisa entre os dois países perseguidos por falsos
controladores”7. O público-alvo do pacote é basicamente formado por jovens. Ainda,
segundo o vídeo, a estrutura do pacote comporta o trabalho de 82 pessoas.
6
Há um vídeo no site youtube.com (http://www.youtube.com/watch?v=BH_Z5BEZ5ts) de 28m39s
que apresenta o projeto. As informações deste artigo são, em parte, retiradas deste vídeo.
7
O Portal Terra apresentou uma reportagem (replicando uma reportagem postada no The Guardian)
sobre o pacto objeto de nossas análises. Disponível em http://noticias.terra.com.br/mundo/estadosunidos/turistas-simulam-tentativa-de-cruzar-fronteira-mexicoeua,7719803f3f40b310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html. Acesso em 01/01/13.
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O pacote é iniciado com a fala do guia que afirma que tudo o que ali será feito é em
‘honra e tributo’ aos imigrantes, e deseja mostrar o ‘México que existe, mas que
muitos não querem ver’. O guia afirma também que o que se vive neste pacote não é
5% do que vive um imigrante. Acompanhemos um trecho de uma reportagem do The
Guardian, publicada pelo Portal Terra:
Na última semana, o jornal The Guardian publicou uma notícia sobre a
simulação de tentativa de cruzar a fronteira com os Estados Unidos, que
acontece em uma cidade mexicana, a cerca de 3 mil km da fronteira real. Para
passar pela experiência, os interessados pagam cerca de R$ 25. O
"espetáculo" acontece no povoado El Alberto, um dos mais pobres da região.
Em grupos de aproximadamente 20 pessoas, os turistas disfarçados de
imigrantes ilegais se escondem atrás de arbustos e são perseguidos por
‘guardas’, que os alertam dos perigos de tentar cruzar a fronteira. ‘Somos
agentes federais e sabemos que estão aí’, diz uma voz que se faz ouvir por
meio de amplificadores. ‘Não tentem atravessar o rio. Não tentem atravessar
o deserto. É perigoso. Fiquem no México’, completa o ‘fiscal’.
[...] Os que já passaram pela experiência garantem que ela se aproxima muito
do real. Os falsos imigrantes podem inclusive ouvir sirenes de patrulhas e
atravessar um rio. A simulação pode ser rápida, de apenas uma hora, ou
chegar a seis horas, dependendo da resistência do participante.
A comunidade de El Alberto pretende transformar a simulação em uma fonte
de turismo para a região, mas, por enquanto, a arrecadação ainda é pouca e
precisa ser revertida para o próprio projeto. Os organizadores pretendem
construir em seguida acomodações para os turistas durante a ‘travessia’.
Figura 1 - Turistas disfarçados de imigrantes ilegais8
Fonte:
http://www.brazilianvoice.com/bv_noticias/bv_imigracao/5273-Turistas-simulam-tentativacruzar-fronteira-Mxico-EUA.html acesso em 25/02/13
8
Postado em 25/03/2009 12:26:00. Edição: 1059 por Leonardo Ferreira.
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Como podemos observar na figura 1, o turista pode ‘brincar’ de imigrante ilegal, e
‘viver toda a emoção’ de ser caçado por falsos agentes de fronteira. Este é um pacote
que promete emoção e adrenalina por meio da simulação da travessia ilegal da
fronteira entre México e Estados Unidos, com a segurança de que ‘nada vai dar
errado’ para o turista: garantia típica da ‘indústria’ do turismo.
Segundo a reportagem acima, El Alberto é uma das regiões mais pobres do México.
As pessoas que lá habitam estão na borda do capitalismo. O que lhes restou é vender a
simulação de sua traumática experiência para tentar suprir a necessidade de renda.
Isso atrai público porque é um fato inusitado. Trata-se da espetacularização
(DEBORD, 2004) dos conflitos da imigração ilegal de mexicanos para os EUA para
consumo dos turistas. Mas, mais que isso, trata-se de uma forma do capital produzir
as relações sociais, logo humanas, afinal “a ordem capitalística produz os modos das
relações humanas até em suas representações inconscientes” (GUATTARI, 1996, p.
42). O encontro entre estes diferentes grupos sociais (turistas e residentes) produz
subjetividade que é essencialmente social, mas ao mesmo tempo é “assumida e vivida
por indivíduos em suas existências particulares” (GUATTARI, 1996, p.33 – itálicos
do autor). Ou seja, a exploração das mazelas do grupo social receptor produz a forma
como as relações sociais se darão entre estes e os turistas, reforçando a superioridade
dos turistas – justamente por serem estes, agentes privilegiados do capital em
detrimento da realidade exposta daqueles que tentam imigrar ilegalmente. Forma-se
uma espécie de segregação que reforça por si só a superioridade do turista em relação
ao seu ‘outro’ – no momento em que o turista ‘brinca’ de viver a tragédia alheia.
Na produção deste pacote há uma proposital confusão entre o real e o imaginário.
Pudemos acompanhar no texto do The Guardian que aqueles que tiveram a
oportunidade de ‘vivenciar’ a experiência do pacote, ou seja, os turistasconsumidores, dizem que ‘ela se aproxima muito do real’. Mas, faz-se necessário
perguntar: o que é o ‘real’? Como essas pessoas podem saber como é o real no caso
da tentativa de travessia ilegal para os EUA, se suas vidas não estão em risco? Será
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que alguém que efetivamente tentou cruzar ilegalmente a borda e não conseguiu, que
foi impedido de chegar aos EUA, com toda a violência que isso representa, voltou lá e
comprou o pacote para ‘curtir’ novamente a ‘experiência’? Somente uma pessoa que
vivenciou a tentativa da travessia poderia dizer que a simulação se aproxima do real;
os demais não podem. E, muito provavelmente quem viveu a experiência real não
desejará comprar o tal pacote. O que é ‘real’ neste pacote é que ele é oferecido no
momento histórico em que “o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama,
considera enviar tropas da Guarda Nacional à fronteira com o México para conter a
imigração ilegal – em especial de narcotraficantes”9.
Na produção do turismo, há uma grande (e, propositalmente construída) confusão
entre o ‘real’ e o imaginário, o simulacro (BAUDRILLARD, 1991), e o espetáculo
(DEBORD, 2004). No caso que estamos a analisar, há um despregamento do real, sua
completa inversão para usufruto de quem está ‘dentro’ do capital (o turista),
explorando as ‘emoções’ da situação de risco de morte de outras pessoas (os
moradores de El Alberto), que, via de regra, estão ‘fora’ do circuito de consumo desta
sociedade. Essa
necessidade de imitação que o consumidor sente é esse desejo infantil,
condicionado por todos os aspectos de sua despossessão fundamental.
Segundo os termos que Gabel aplica em outro nível patológico, ‘a
necessidade anormal de representação compensa aqui o sentimento torturante
de está à margem da existência’ (DEBORD, 2004, p. 140-141).
O espetáculo domina de forma tão profunda o cotidiano das pessoas que, aquele que
“sofre de modo passivo seu destino cotidianamente estranho é levado a uma loucura
que reage de modo ilusório a esse destino, pelo recurso a técnicas mágicas”
(DEBORD, 2004, p. 140). Dentre tais ‘técnicas mágicas’ de evasão deste cotidiano
encontra-se o turismo. A área ‘psi’ pode colaborar com a proposta de estudarmos
criticamente o turismo, especialmente na tentativa de compreensão de como o
cotidiano é usado para produzir expectativas de consumo turístico.
9
Disponível em http://noticias.terra.com.br/mundo/estados-unidos/turistas-simulam-tentativa-decruzar-fronteira-mexico-eua,7719803f3f40b310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html. Acesso em
01/01/13.
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Os dois lados da perversa relação social que se forma no pacote Illegal Crossing
Board conformam prejuízos a seus participantes. Por um lado, as simulações são
fonte de renda para pessoas de El Alberto; simular diariamente aquilo que
provavelmente seja seu pior pesadelo para poderem se manter vivos. Isso gera a
dependência destas pessoas para com tal exploração, constituindo uma nova forma de
subjetivação: a de dependentes da exploração do turismo, subjetivação na condição de
atrativos turísticos vivos. Por outro lado, para os turistas que lá vão, a desconexão é
total, afinal de contas, por mais que vivam a adrenalina do momento, eles estão
dispensados da consequência – toda sorte de violência física, humilhações, riscos de
morte e dos perigos de retaliação do Estado por conta de seus atos. Deslocam-se por
cima do problema, e sequer tomam alguma consciência da situação. Apenas passam...
tornam-se consumidores de sensações: outra forma de subjetivação.
Para que o espetáculo turístico de tal pacote possa se realizar, a complexidade da
situação deve ser empobrecida e simplificada para um consumo turístico gerador de
adrenalina como fruição para o turista. Banalização da realidade alheia: lembrando
que isso é feito a partir da simulação da violência da vida daquele que lá mora – o
‘outro’ subjetiva e objetivamente constituído como ‘objeto’ para consumo do turista.
Temos aqui mais uma forma de produção de subjetividade capitalista: o ‘outro’
mercadoria.
Os estudiosos pró-turísticos têm interessantes considerações que fazem muito sentido
para este estudo. Para Wainberg (2002), por exemplo, o turismo é tido como a
‘indústria da diferença’. Para aquele autor, o produto desta indústria é o estranho.
Acompanhemos suas reflexões: “a fronteira demarca as diferenças. O Turismo como
indústria vende como produto o estranho [...] O estranho como produto demanda
embalagem segura. O Turismo, como indústria, apresenta, por isso, graus variáveis de
controle dessa interação” (p. 55-59). Em El Alberto, o estranho é vendido em uma
embalagem bastante segura: a simulação da traumática experiência da tentativa de
travessia ilegal da fronteira entre México e EUA (que para seus participantes reais,
inclui reais riscos à vida) é vendida como atração e adrenalina, mas sem riscos reais
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para os praticantes. Não há consequências. Os turistas estão dentro e fora do ‘real’ de
El Alberto. Isso equivale a dizer que o estranho é anulado por sua embalagem
turística – resultado pleno do processo de subjetivação, que reduz a complexidade dos
eventos a um mínimo consumível: imagem e adrenalina para deleite daqueles que
podem pagar; alguns trocados para os morados locais.
Enfim, neste caso, há a produção de uma relação perversa na qual o ‘estranho’ é
morto pelo turismo para consumo do turista. Isso produz um grave problema para
aquele que se desloca, afinal, com seu duplo – o ‘estranho’ – morto, a
autoidentificação do viajante morre igualmente, afinal só podemos nos conhecer por
meio do encontro com o ‘outro’. É a separação consumada do espetáculos de que nos
fala Debord (2004).
Considerações finais
Fica bastante claro que o mercado não tem preceitos de ordem moral, e se utilizará de
quaisquer artifícios para garantir sua reprodução. Neste estudo, três considerações se
fazem importantes:
(1) o processo de subjetivação capitalista;
(2) a infantilização do turista, e;
(3) a produção de uma relação social perversa entre turistas e moradores locais.
Primeira produção de subjetividade: o turista é o consumidor e tudo o mais é
consumido – é desta maneira que as coisas parecem ser construídas pelos
legitimadores do turismo. Para Lipovetsky, “a figura do consumidor é observada em
todos os níveis da vida social, imiscui-se em toda parte, em todos os domínios, sejam
econômicos ou não: ela se apresenta como o espelho perfeito no qual se decifra a
nova sociedade dos indivíduos” (2007, p. 129). Resta-nos perguntar ao autor, se essa
sociedade dos indivíduos dá conta de tratar a todos como indivíduos? Pelo tipo da
produção do turismo em El Alberto fica evidente que não.
Indivíduo é o turista, que fica ali na bolha – com a benção de estar ‘dentro’ e ‘fora’ ao
mesmo tempo (BAUMAN, 1998), vivendo o ‘risco’ simulado, pelo tempo que seu
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condicionamento físico e a emoção o seguram, e depois, pode evadir para outras e
mais emocionantes buscas.
Segunda produção de subjetividade: esse ‘indivíduo’ é tratado de maneira amável,
infantil e infantilizadora, protegido e enganado ao vivenciar algo que não é
vivenciável. A infantilização é uma “função da economia subjetiva capitalística”
(GUATTARI, 1996, p. 41). Para compreender isso, basta analisar o pacote turístico,
no qual tudo é anteriormente pensado pelos planejadores para que os turistas apenas
cumpram as fases programadas. Da maneira como organizam a vivência, a desgraça
do ‘outro’ não deve perturbar a adrenalina do pacote de quem pagou. As sensações
negativas devem ser estirpadas do mundo do turista, apenas a emoção e a adrenalina
devem ficar.
Terceira produção de subjetividade: se o turista pode se deslocar a hora que quiser,
o imigrante ilegal e o povo de El Alberto ali permanecem enraizados e prisioneiros
da simulação de sua catástrofe para a próxima leva de turistas.
Como Bauman (1999) afirma, os personagens que melhor descrevem a condição da
pós-modernidade são os ‘turistas’ e os ‘vagabundos’. Os primeiros têm a liberdade de
escolha, eles podem ‘querer’ estar em El Alberto (pelo tempo que quiserem, e irem
embora antes que o tédio os alcance). Essa liberdade é “de longe, na sociedade pósmoderna, o mais essencial entre os fatores de estratificação. Quanto mais liberdade de
escolha se tem, mais alta a posição alcançada na hierarquia social pós-moderna”
(BAUMAN, 1999, p. 118). Os segundos, ou seja, os vagabundos, os moradores de El
Alberto “são os restos do mundo que se dedicaram aos serviços dos turistas”
(BAUMAN, 1999, p. 117). Eles não têm como sair de El Alberto, ao menos não sem
arriscar suas vidas no deserto e na fronteira real com os EUA.
Quarta produção de subjetividade: os turistas são construídos pelo capital
“primeiro e acima de tudo [como] acumuladores de sensações; são colecionadores de
coisas apenas num sentido secundário e derivativo” (BAUMAN, 1999, p. 91). O
estímulo ao consumo turístico deve ser constante, e os consumidores-turistas devem
estar continuamente instigados a querer mais – nova infantilização.
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As consequências disso são uma produção irresponsável de um mundo que explora
mazelas humanas em prol do prazer de uns poucos pagantes – mas, sempre com o
discurso de que esta exploração é feita em ‘honra e tributo’ dos explorados.
Produção, portanto, de uma perversa forma de (con)vivência. Segregação, ao invés de
união: o turismo da maneira como é produzido reforça o papel hegemônico do turista
e reafirma o papel inferior do morador de El Alberto.
Procuramos mostrar com este artigo que é necessário atacar a suposta neutralidade
dos estudos em turismo. Em sua grande maioria, estes estudos desviam-se de temas
como os aqui apresentados e reforçam a produção hegemônica neoliberal do turismo.
A posição dos estudiosos do turismo deve ser questionada, assim como a produção, a
comunicação e o consumo do turismo. A cientificidade destes estudos também. As
pessoas que
se consideram depositárias ou canais de transmissão de um saber científico,
só por isso já fizeram uma opção reacionária. Seja qual for sua inocência ou
boa vontade, elas ocupam efetivamente uma posição de reforço dos sistemas
de produção da subjetividade dominante (GUATTARI, 1996, p. 29).
Quinta produção de subjetividade: Mesmo fora do âmbito da ação do turismo,
naquilo que chamamos de ‘mundo acadêmico’ podemos notar a que a subjetivação
capitalista está a atuar. Há muitas pessoas que se utilizam da forma retórica do
discurso ‘neutro’ da ciência para agir em nome do capital. Sem dúvidas, esta é uma
das mais preocupantes formas de subjetivação capitalista.
Acreditamos ser necessário dizer não, fazer uma recusa crítica a esse tipo de turismo e
investir em estudos que deem conta de questionar esta estrutura profunda que está
longe de ser apreendida pelo senso comum, onde quer que ele se encontre.
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