XIII SIMPEP – Bauru, SP, Brasil, 6 a 8 de Novembro de 2006
Arranjo produtivo local e desenvolvimento endógeno: uma
apresentação do APL de turismo no litoral norte do estado de Alagoas
Renata Reis Barreto (UFPE) [email protected]
Emanuelle de Sales Oliveira (UFPE) [email protected]
Abraham Benzaquen Sicsú (UFPE) [email protected]
Resumo:: Com base nas profundas e crescentes transformações trazidas pelo processo de
globalização, assim como o declínio de regiões altamente industrializadas, o surgimento de
regiões com novos paradigmas industriais, a abertura das economias nacionais e as
mudanças significativas no modo de produção e organização industrial; o presente estudo se
propõe a discutir sobre os novos mecanismos capazes de atender aos desafios propostos pela
nova teoria de crescimento econômico. A substituição do desenvolvimento exógeno pelo
desenvolvimento endógeno, preocupado com a questão das potencialidades locais, resultou
na necessidade de abordar novas maneiras para que grupos de empresas e outras instituições
possam alavancar o desenvolvimento regional. Nesse sentido, os aglomerados de empresa,
em especial os arranjos produtivos locais, aparecem como grandes alternativas para o
desenvolvimento endógeno. Apenas para demonstrar como os arranjos produtivos
localizados podem contribuir para o desenvolvimento regional e endógeno, foi apresentado o
caso do APL Costa dos Corais (arranjo produtivo do turismo no litoral norte do estado de
Alagoas). Esse arranjo surgiu a partir das potencialidades locais, através do envolvimento de
diversos atores de instituições públicas e privadas e em quase dois anos de existência já
apresenta bons resultado.
Palavras-chave:: Desenvolvimento Regional; Desenvolvimento Endógeno; Arranjo Produtivo
Local; Turismo.
1. Introdução
O processo de globalização trouxe crescentes e profundas transformações no cenário
socioeconômico dos países. Mudanças importantes no sistema produtivo mundial revelaram a
necessidade de tratar a questão regional, mais especificamente, o desenvolvimento de regiões
periféricas e a mobilização da economia local.
O que se pode observar é o surgimento de novos paradigmas no que se refere à
questão do desenvolvimento regional. Antes esse desenvolvimento era pensado de cima para
baixo onde se introduziam grandes projetos estruturantes em regiões desfavorecidas, a
exemplo dos pólos de desenvolvimento e os complexos industriais. Agora, com a perspectiva
de desenvolvimento endógeno, o novo modelo de desenvolvimento é realizado de baixo para
cima, ou seja, parte das potencialidades dos próprios atores locais. (AMARAL FILHO, 1996)
Segundo Sicsú e Lima (2000) o desenvolvimento de regiões periféricas tem sido
discutido por muitos estudiosos os quais tentam teorizar sobre processos (mecanismos) que
podem de alguma maneira não somente explicar, mas estimular o crescimento de regiões com
baixo grau de dinamismo.
Ao se questionar sobre esses mecanismos, os aglomerados de empresas aparecem
como uma alternativa de promoção do desenvolvimento regional e endógeno. Dentre os
diversos tipos de aglomerados estão os distritos industriais, clusters e arranjos produtivos
locais. Estas abordagens apresentam características próprias e heterogêneas, mas de modo
geral enfocam grupos de empresas em torno de atividades afins dentro de um mesmo espaço
geográfico.
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Nesse sentido, o presente artigo pretende discutir como os aglomerados de empresas,
em especial os arranjos produtivos locais, podem contribuir para o desenvolvimento de
regiões menos favorecidas a partir de fatores endógenos. Em um último momento, será
apresentado o arranjo produtivo de turismo no litoral norte de Alagoas. O turismo nesse
estado é considerado como uma atividade de grande potencial econômico e o arranjo,
denominado como APL Costa dos Corais, é visto como uma alternativa para o
desenvolvimento endógeno da região marcada por grandes diferenças sociais.
2. Desenvolvimento regional e endógeno
Muito se tem discutido em torno do tema desenvolvimento regional. Segundo Costa e
Garcia (2005) essas discussões surgiram a partir da busca de eqüidade entre as regiões e
ocorrem tanto em países periféricos como em países centrais. Além da eqüidade, Costa e
Cunha (2002) acrescentam a preocupação com a preservação do meio-ambiente, a
participação da população, a melhoria da qualidade de vida e a democratização como os
fatores que contemplam o novo modelo de desenvolvimento.
Este novo modelo parte das potencialidades socioeconômicas do local e realiza o
desenvolvimento de baixo para cima o que se contrapõem às formulações tradicionais onde o
desenvolvimento era pensado em termos nacionais partindo de cima para baixo e
desconsiderando os interesses de grupos políticos regionais ou locais. Pela ótica da teoria
macroeconômica do desenvolvimento a teoria tradicional do crescimento considerava apenas
fatores exógenos na determinação do crescimento onde o volume de produção era
determinado por dois fatores: capital e trabalho. Na nova teoria do crescimento são
considerados fatores endógenos como: conhecimento, informação, capital humano, pesquisa e
desenvolvimento, etc. (AMARAL FILHO, 1996)
O declínio de regiões altamente industrializadas juntamente com o surgimento de
regiões com novos paradigmas industriais, a globalização, a abertura das economias nacionais
e as mudanças significativas no modo de produção e organização industrial são alguns dos
fatores que contribuíram para as transformações das teorias de desenvolvimento regional.
Para Amaral Filho (2001) a economia regional deixou de exercer um papel secundário na
ciência econômica e passou a representar um papel ativo tanto no que se refere às decisões
tomadas em relação ao seu destino como a utilização de seus próprios recursos.
Dessa forma, um dos principais desafios desse novo contexto é a incorporação dos
atores locais no processo de desenvolvimento regional sem, ao mesmo tempo, negligenciar o
importante papel dos governos centrais. Torna-se necessário superar a forma centralizadora de
tomada de decisões e estabelecer sistemas de cooperação que considerem tanto as diferenças
entre as regiões como as preferências dos grupos sociais envolvidos. Essas preocupações são
fundamentais para o alcance da eficiência, eficácia e efetividade de qualquer projeto de
desenvolvimento local. (COSTA e CUNHA, 2002)
Falar em desenvolvimento regional significa estar atento ao desenvolvimento
endógeno de determinada localização, valorizando o cenário e as potencialidades locais para
que se possa investir em atividades de base local.
Amaral Filho (2001, p.265) define desenvolvimento endógeno da seguinte maneira:
“...desenvolvimento endógeno pode ser entendido como um processo de
crescimento econômico que implica uma contínua ampliação da capacidade
de agregação de valor sobre a produção, bem como da capacidade de absorção
da região, cujo desdobramento é a retenção do excedente econômico gerado
na economia local e/ou a atração de excedentes provenientes de outras
regiões. Esse processo tem como resultado a ampliação do emprego, do
produto e da renda do local ou da região.”
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Nessa mesma linha de raciocínio Haddad (1989) descreve que a concepção e a
implementação do processo de desenvolvimento endógeno parte da capacidade de mobilização
social e política de determinada comunidade de uma localidade ou região. O mesmo autor
também apresenta as etapas a serem percorridas para o processo de desenvolvimento endógeno, a
saber:
1ª etapa: Estruturação do inconformismo
Consiste na estruturação do inconformismo em relação aos problemas socioeconômicos e
às potencialidades não mobilizadas.
2ª etapa: Processo de diagnose
Levantamento de informações técnicas e políticas quanto às razões e causas dos
problemas destacados na primeira etapa, por meio de fórum de debates. O objetivo é sensibilizar e
conscientizar as comunidades locais quanto ao que deve ser feito, além de identificar o conjunto
de oportunidades, ameaças e riscos envolvidos no aglomerado.
3ª etapa: Construção da agenda de mudanças
Através de instrumentos disponíveis e consultas às lideranças é possível elaborar um
plano de trabalho de mudanças, objeto da próxima etapa.
4ª etapa: Elaboração do plano de mudanças
No plano de mudanças deve conter toda a consistência técnica envolvida e o processo de
negociação.
5ª etapa: Processo de implementação
Essa última etapa engloba um comitê gestor do cluster e o conselho consultivo do cluster.
Apesar de existirem diversas abordagens importantes que envolvem a questão do
desenvolvimento regional e endógeno, a intenção deste trabalho não está voltada para a
discussão sobre esse tema em si, mas para os mecanismos que podem de alguma maneira
alavancar o desenvolvimento de uma região aumentando a competitividade e a capacidade de
organização das empresas de determinado local.
Nesse sentido, Sicsú e Lima (2000) defendem que os pólos econômicos de base local,
caracterizados por atividades econômicas já existentes há um tempo em determinada região,
podem ser considerados como uma alternativa criativa para a promoção do desenvolvimento
local em estados menos favorecidos em relação a orçamentos e externalidades.
3. Aglomerados de empresas
Os estudos sobre aglomerados de empresa deram um grande salto a partir dos
trabalhos desenvolvidos por Michael Porter (1999). Ao buscar desenvolver uma teoria sobre
competitividade nacional, estadual e local; em seu trabalho chamado ‘A vantagem
competitiva das nações’, o conceito de aglomerados ganhou um papel de destaque como meio
de obter vantagem competitividade. Para o autor o conceito de aglomerado se traduz da
seguinte forma:
“Um aglomerado é um agrupamento geograficamente concentrado de
empresas inter-relacionadas e instituições correlatas numa determinada área,
vinculadas por elementos comuns e complementares.” (PORTER, 1999,
p.211)
O mesmo autor ao definir o termo ainda relaciona a busca da competitividade com o
conceito de sinergia quando afirma que a inter-relação entre as empresas e instituições
componentes do sistema resulta em um todo que é maior que a soma das partes.
Dessa forma, pode-se afirmar que a competitividade está associada à idéia de
aglomerações de empresas dentro de um determinado espaço geográfico. Podem ser
apontados como exemplos de sucessos em relação ao ganho de competitividade a partir de
aglomerações o Vale do Silício e a Terceira Itália. Apesar desses exemplos representarem
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experiências de países desenvolvidos, a abordagem de aglomerados para elevar a
competitividade das empresas também tem sido difundida nos países em desenvolvimento.
(CASSIOLATO e SZAPIRO, 2003). Entretanto, Porter (1999) argumenta que os aglomerados
nas economias avançadas possuem uma profundidade e amplitude maior, o que os tornam
mais visíveis em comparação aos aglomerados de economias menos favorecidas. O mesmo
autor defende que um dos passos para que haja evolução econômica nos países em
desenvolvimento é o desenvolvimento de aglomerados que funcionem bem nessas regiões.
A partir das definições de aglomerados fica claro que o foco de análise em empresas
individuais não é mais o suficiente para entender os fatores que aumentam o desempenho
competitivo das empresas. É necessário investigar as relações tanto entre as firmas como entre
estas e as demais instituições dentro de uma determinada região. (CASSIOLATO e
SZAPIRO, 2002). De acordo com Correia e Lins (2003) as empresas integrantes do cluster
possuem como vantagem sobre as empresas que atuam isoladas a alta capacidade de
desenvolver habilidades, eficiência coletiva e competitividade. Esses pensamentos
corroboram com Porter (1999) ao discutir que os aglomerados nas economias estão
predominando no lugar de empresas e setores isolados.
De fato, os aglomerados são tomados como objeto de estudo ao tentar explicar o
processo de desenvolvimento de uma região bem como meio de obter vantagem competitiva
no novo cenário econômico resultado das mudanças trazidas pela globalização. Os
aglomerados são representados por clusters, distritos industriais e arranjos produtivos locais.
Este último foi definido pela Redesist (2005) como aglomerações territoriais de empresas e
instituições públicas e privadas voltadas para um conjunto específico de atividades
econômicas afins, mesmo que esse vínculo seja ainda que incipiente.
3.1 Arranjos produtivos como meio de desenvolvimento endógeno
Nas décadas de 70 e 80 o desenvolvimento de regiões menos favorecidas era baseado
em grandes projetos de investimentos a exemplo dos pólos de desenvolvimento de Perroux e
os complexos industriais. Acreditava-se que com a implantação de grandes empreendimentos,
os quais seriam atraídos pela concessão de variados e custosos benefícios fiscais, as empresas
âncoras iriam arrastar as outras empresas ao redor em direção ao desenvolvimento. (SICSÚ,
LIMA e SILVA, 2006). Esse efeito promovido pelos pólos de desenvolvimento é denominado
por Haddad (1989) como “efeitos de arrasto” onde as empresas motrizes e dinâmicas desse
pólo são capazes de introduzir transformações na sua área. Além disso, os pólos de
desenvolvimento estão associados a projetos que envolvem grandes investimentos em uma
determinada localização geográfica, além de apresentar fortes vínculos políticos, sociais,
econômicos e institucionais dentro da sua área de influência.
A experiência de pólos de desenvolvimento no Brasil deu-se por volta dos anos 50 até
os anos 70, como estratégias de promover o desenvolvimento de regiões periféricas, por meio
do Plano de Metas e do II Plano Nacional de Desenvolvimento. Sicsú, Lima e Silva (2006)
acrescentam ainda a política de desenvolvimento regional nas regiões Norte e Nordeste
promovida pela Sudam e Sudene respectivamente. Pode-se apontar como grandes projetos de
pólos de desenvolvimento e complexos industriais implantados ou em fase de consolidação no
nordeste brasileiro: o complexo petroquímico de Camaçari na Bahia; o pólo cloroquímico de
Alagoas; o complexo químico-metalúrgico do Rio Grande do Norte; o complexo industrial
integrado de base do Sergipe, entre outros.
Segundo Sicsú, Lima e Silva (2006) tais projetos trouxeram alguns resultados
concretos, a exemplo da ampliação da estrutura produtiva, mas por outro lado, questões
sociais e até mesmo econômicas ficaram a desejar, além dos altos custos que eram exigidos
para a implantação e manutenção desses projetos. Haddad (1989) aponta os impactos
regionais e locais negativos como motivo de críticas ao sistema de pólos de desenvolvimento.
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Diante disso, tornou-se necessário o desenvolvimento de mecanismos mais articulados
com a base econômica local e preocupados com questões sociais e locais como a melhor
distribuição de renda, controle dos impactos ambientais gerados pelas atividades econômicas
do aglomerado e maior participação do setor privado. Ou seja, as estratégias dos pólos de
desenvolvimento não conseguem atender ao novo paradigma do desenvolvimento econômico.
Nesse sentido, Lastres e Cassiolato (2003) destacam os arranjos produtivos como os
mecanismos ideais para satisfazer as necessidades do novo modelo de desenvolvimento. Para
os autores arranjos produtivos são sistemas produtivos e inovativos locais detentores de
fatores como interação, cooperação e aprendizagem. Esses fatores quando bem articulados são
capazes de potencializar a capacidade inovativa endógena, gerando competitividade e
desenvolvimento local.
4. APL de turismo no litoral norte do estado de Alagoas
4.1 Caracterização do setor de turismo no Brasil e em Alagoas
O turismo é uma das atividades que mais cresce no país e que assume um papel de
grande importância para o desenvolvimento do mesmo. Em uma tentativa de definir o termo
Cooper et al. (2001) argumentam que é difícil encontrar uma base de coerência conceitual
devido à complexidade que envolve o turismo, além da imaturidade que apresenta como
campo de estudo. Mesmo assim, esses autores afirmam que o turismo pode ser pensado como
a combinação de um conjunto amplo de entidades – indivíduos, organizações, empresas e
lugares – que realizam uma experiência de viagem.
Atividade econômica do setor de serviços, o turismo, segundo dados da Setur (2006) e
da Embratur (2001), apresentou em termos internacionais um crescimento médio anual de
4,4% no período de 1975 a 2000, enquanto o crescimento mundial médio no mesmo período,
medido pelo PIB, foi de 3,5% ao ano. No período de 1995 a 2005 as chegadas internacionais
em todo mundo apresentou um crescimento de 50%, enquanto no Brasil estes números
cresceram em uma ordem de 170%. Com relação à geração de empregos, em torno de 6 a 8%
do total de empregos gerados no mundo dependem do turismo.
Conhecida por suas belezas naturais, Alagoas têm o turismo como uma das atividades
potenciais do Estado. De acordo com dados da Secretaria Executiva de Turismo (2006) a taxa
de ocupação hoteleira no estado foi de 82,2% no primeiro trimestre de 2006 contra 76,4% em
2005, o que representa um acréscimo de 7,59%.
Ao observar os números que envolvem o turismo fica claro a importância econômica
da indústria turística e seus impactos significativos sobre o setor terciário, a população e os
ambientes. Para Cooper et al. (2001) o turismo representa uma atividade econômica, que se
bem gerenciada, pode ser considerada uma alternativa para a realização dos objetivos de
desenvolvimento que tem como preocupações a sustentabilidade ambiental, redução das
desigualdades regionais e sociais, além da criação de postos de trabalho e a geração e
distribuição de renda. Todos esses fatores possibilitam a efetiva descentralização do país no
que se refere ao desenvolvimento.
4.2 Contextualização do APL Costa dos Corais
Diante do que foi exposto pode-se pensar o turismo como uma atividade potencial
para o desenvolvimento regional de forma endógena. No caso de Alagoas, a concepção de
arranjos produtivos locais foi o mecanismo adotado como alternativa para esse tipo de
desenvolvimento no setor de turismo. Nesse sentido, foram concebidos dois arranjos
produtivos locais no segmento turístico: APL das Lagoas e o APL Costa dos Corais, arranjos
preocupados com o desenvolvimento da atividade nos litorais sul e norte do estado
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respectivamente. Vale ressaltar que o presente artigo irá abordar apenas o arranjo que envolve
o litoral norte.
Constituído por oito municípios – Paripueira, Barra de Santo Antonio, Passo de
Camaragibe, São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras, Japaratinga, Maragogi e Porto Calvo
- o litoral norte de Alagoas apresenta uma realidade não muito distante dos demais municípios
do estado. A região é marcada por grandes problemas econômicos e sociais, a exemplo do
baixo índice de desenvolvimento humano (IDH) como mostra o Quadro 1 logo abaixo.
QUADRO 1 – Descrição da área, população, IDH médio e principais atividades referentes aos oito municípios
Área
População
IDH
médio
Paripueira
93km2
8.049
0,617
Barra de Santo
Antonio
Passo de
Camaragibe
138km2
11.351
0,594
187km2
13.755
0,563
São Miguel dos
Milagres
Porto de Pedras
65km2
5.860
0,621
266km2
10.238
0,499
Japaratinga
85km2
6.868
0,613
Maragogi
334km2
21.832
0,619
Porto Calvo
260km2
23.951
0,599
Municípios
Principais atividades
Apicultura, Laticínio,
Ovinocaprinocultura e Turismo
Mandioca, Laticínio e Turismo
Apicultura, Mandioca,
Laticínio, Ovinocaprinocultura
e Turismo
Mandioca e Turismo
Mandioca, Ovinocaprinocultura
e Turismo
Apicultura, Mandioca,
Ovinocaprinocultura e Turismo
Apicultura, Mandioca,
Ovinocaprinocultura e Turismo
Apicultura, Mandioca,
Ovinocaprinocultura e Turismo
Fonte: IBGE (Censo 2000) e Sebrae/AL (2006)
Como pode ser observado o Índice de Desenvolvimento Humano da região é baixo e
gera em torno de 0,590. Esse valor é mais baixo do que o do próprio estado que é de 0,633 o
qual representa o menor índice de IDH do país segundo dados do censo IBGE (2000). As
principais atividades entre os municípios desenvolvem-se, em geral, dentro de um mesmo
contexto onde o turismo aparece como atividade principal em todos os municípios. Isso se
deve ao fato da região abranger uma área litorânea de aproximadamente 1430km2
caracterizada por belas praias com seus recifes de coral e piscinas naturais.
O APL de turismo Costa dos Corais é resultado do Programa de Mobilização para o
Desenvolvimento dos Arranjos e Territórios Produtivos Locais do Estado de Alagoas (PAPL)
implantado em agosto de 2004 pelo governo do Estado, por meio da Secretaria Executiva de
Planejamento e Orçamento (Seplan), e pelo Sebrae local, juntamente com parceria de
instituições públicas e privadas. O principal objetivo do programa é mobilizar ações coletivas
no sentido de estimular processos locais de desenvolvimento, gerando renda e emprego na
região e, ao mesmo tempo, garantir competitividade e sustentabilidade aos micro e pequenos
negócios. (SEBRAE/AL, 2006)
O programa atua em dez Apl’s distribuídos em três segmentos, agronegócios,
indústria e serviços. São 62 municípios envolvidos e mais de 27 mil produtores. Contas ainda
com a parceria de 60 instituições, dentre elas estão os agentes financeiros como o Banco do
Brasil, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Nordeste.
De acordo com o Plano de Ação do APL elaborado pela Seplan (2004), as
potencialidades locais estão representadas não só pelos belos recursos naturais como também
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pelas hospedagens oferecidas (com o maior resort do estado), gastronomia variada (mais de
60 estabelecimentos entre bares e restaurantes) e cultura (grandes artesãos). No entanto, o
plano também apresenta os muitos problemas identificados na região no que se refere à
tecnologia, capacitação, gestão, promoção e marketing, financeiro e infra-estrutura
(especializada e pública). Paralelamente são apresentadas as ações a serem aplicadas em cada
situação.
Para uma melhor compreensão do caso aqui apresentado, o Quadro 2 demonstra de
forma resumida as principais variáveis abordadas no plano de ação do APL Costa dos Corais.
Quadro 2: Resumo das variáveis abordadas no Plano de Ação do APL Costa dos Corais
Público Alvo: Micros e pequenos empresários e empreendedores, formais e
informais que atuam no setor Turístico da Região.
Serão beneficiados 300 empresários ligados às atividades turísticas e 150
artesãos.
Objetivo: Transformar a região do Litoral Norte de Alagoas em um destino
turístico consolidado e sustentável.
Foco Estratégico: Preservação dos meios naturais; expansão e melhoria no
meio artificial (sistema viário, hospedagem, alimentação, comunicação,
serviços públicos, etc...); formação profissional; sensibilização da
comunidade para a importância do turismo; estratégias de marketing,
(seleção do mercado, posicionamento, linhas de produto).
Premissas: Observância das diretrizes do Plano Nacional de Turismo;
observância das diretrizes do Plano Estadual de Turismo; correta aplicação
da legislação ambiental; busca da sinergia entre o poder público, a iniciativa
privada e as entidades de classe.
Identificação dos principais problemas e desenvolvimento de ações nas
seguintes áreas: Tecnologia, marketing, infra-estrutura, financeira,
capacitação e gestão.
Atores envolvidos: proprietários de pousadas, hotéis, bares,
restaurantes e comércios locais; associação dos artesãos; Projeto
Integrado Ação e Cidadania; ASSAMAL; SEBRAE-AL; Associação
comercial de Porto Calvo; Secretaria Executiva de Turismo; Secretaria de
Meio Ambiente; Secretaria Executiva de Agricultura; Centro de ensino
superior de Maceió; Prefeitura dos municípios; Projetos Recifes Costeiros;
Propriedade rural; Caixa Econômica Federal; Secretaria de Planejamento e
Orçamento.
Fonte: Plano de Ação do APL Costa dos Corais (2004), adaptado pelos autores.
4.2.1 Principais resultados alcançados
Em quase dois anos de existência, o Arranjo Produtivo Local Costa dos Corais já
apresentou resultados significativos. O ano de 2005 foi marcado pelo alto volume de ações
desenvolvidas e pela presença de todos os parceiros segundo o Serviço Brasileiro de apoio a
micro e pequenas empresas de Alagoas (SEBRAE/AL, 2006).
Segue abaixo as principais ações e resultados alcançados pelo APL até o momento,
segundo o Sebrae/Al (2006):
- O arranjo conseguiu envolver 643 empreendedores, 8 municípios, uma associação
de empresários com 51 associados e cinco associações de artesãos.
- Promoção e participação em um total de 68 eventos os quais envolveram 2.516
participantes. Esse fator foi fundamental para a divulgação do turismo desenvolvido no
litoral norte, além de promover o artesanato ali desenvolvido.
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- Criação do centro de informações turísticas no município de Maragogi,
apresentando as atrações e os passeios oferecidos na região.
- Projeto Funcred por meio do apoio do Banco Cidadão para o artesanato local.
- Desenvolvimento e promoção de roteiros integrados nos oito municípios que
compõem o arranjo.
- Início do processo de negociação para licenciamento ambiental.
- Realização de pesquisa de mercado em sete estados brasileiros (Alagoas,
Pernambuco, Sergipe, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Goiás)
- Participação dos empresários na BNTM (Brazil National Tourism Mart).
Considerada uma das mais importantes bolsas de negócios de turismo do país, a BTM é
promovida pela Fundação Comissão de Turismo Integrado do Nordeste. Seu principal
objetivo é estimular o turismo internacional no Brasil, em especial no nordeste. Esse evento
possibilitou a apresentação dos diversos destinos turísticos do litoral norte, bem como os
produtos e serviços oferecidos.
- Participação no II Salão Brasileiro de Turismo
- Melhoria da qualidade do artesanato
- Fortalecimento das associações de artesãos.
Também pode ser observado um maior desenvolvimento quanto à qualificação dos
profissionais e empresários da região. Nesse sentido, a parceria desenvolvida com o Senac
Alagoas foi de fundamental importância para a capacitação de mão-de-obra. Por meio da
unidade móvel foi possível desenvolver, no município de Maragogi, cursos de garçom,
governança hoteleira, serviços de atendimento em bares e restaurantes, cozinheiro auxiliar de
restaurante, informante turístico e reciclagem de resíduos sólidos. No total foram mais de 200
beneficiados em toda região.
5. Conclusões
O presente artigo representou uma tentativa de discutir como os aglomerados de
empresas, em especial os arranjos produtivos locais, podem ser considerados como
mecanismos capazes de promover o desenvolvimento regional e endógeno de regiões com
baixo dinamismo.
Para isso, em primeiro lugar foi discutido sobre as mudanças do paradigma de
desenvolvimento trazidas pelo processo de globalização da economia. Até a década de 80 o
desenvolvimento de uma região era pensado de forma exógena, ou melhor, eram considerados
apenas fatores de natureza externa totalmente fora do controle local. Nesse contexto, os pólos
de desenvolvimento foram os mecanismos adotados para alavancar o desenvolvimento de
regiões menos favorecidas por meio de grandes projetos de investimentos. No Brasil esse
mecanismo está representado pelo Plano de Metas, pelo II Plano Nacional de
Desenvolvimento, além das políticas de desenvolvimento regional nas regiões Norte e
Nordeste. Embora os pólos de desenvolvimento tenham trazidos alguns benefícios, o que se
pôde verificar foi uma oposição às exigências e desafios trazidos pelo novo modelo de
desenvolvimento: o desenvolvimento regional e endógeno.
Esse novo modelo parte das potencialidades socioeconômicas do local (movimento de
baixo para cima) e considera fatores como conhecimento, informação, capital humano,
pesquisa e desenvolvimento, fundamentais no processo de desenvolvimento regional. Surge
então, a necessidade de abordar mecanismos contrários aos conceitos de pólos de
desenvolvimento.
Nesse sentido, os aglomerados de empresas aparecem como os
mecanismos mais adequados para atender aos desafios proposto pelo novo contexto de
desenvolvimento regional nos quais os arranjos produtivos locais podem ser considerados
como um tipo de aglomerado capaz de promover o desenvolvimento endógeno, já que
constituem em um conjunto de empresas e instituições dentro de um determinado espaço com
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o objetivo de aumentar a participação e desenvolvimento da região a partir das
potencialidades locais e da articulação de diversos atores.
Em relação ao caso aqui apresentado pode-se afirmar que o Arranjo Produtivo de
Turismo Costa dos Corais no litoral norte do estado de Alagoas pode ser considerado um
aglomerado com todo o potencial necessário para alavancar a economia daquela região de
maneira endógena. Com a participação de diversos atores tanto de setores públicos como
privados, o arranjo parte da potencialidade do local traduzida pela atividade turística e tem
como preocupações a redução das diferenças sociais e a promoção do desenvolvimento local.
Diante do exposto se reconhece que o arranjo produtivo local do segmento turístico no
litoral norte de Alagoas, APL Costa dos Corais, pode ser abordado como objeto de estudos
futuros que englobem a questão do aglomerado como uma maneira nova e complementar de
compreender o novo modelo de desenvolvimento regional baseado em fatores endógenos.
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Arranjo produtivo local e desenvolvimento endógeno: uma