Instituto de Psicologia – Unidade São Gabriel
SHOPPING CENTER: ENTRE O GLAMOUR E A
REALIDADE DO TRABALHO
Juliane Vieira e Sá Tolentino
Belo Horizonte
2006
JULIANE VIEIRA E SÁ TOLENTINO
SHOPPING CENTER: ENTRE O GLAMOUR E A
REALIDADE DO TRABALHO
Monografia elaborada como requisisto parcial
para conclusão do curso de graduação em
Psicologia da Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais.
Orientadora: Nanci das Graças C. Rajão.
Belo Horizonte
2006
AGRADECIMENTOS
A minha orientadora, Profa. Nanci das Graças Rajão, que tornou possível a
realização deste trabalho.
A minha mãe e aos meus filhos João Victor, Igor e Maria Fernanda pelo apoio
e paciência. Em especial, ao Fernando pela compreensão, apoio e incentivo durante
o período da elaboração desta monografia.
E a todos que, de alguma forma contribuíram para esta construção,
especialmente ao Dr. José Alfredo Canaan pela disponibilidade e preciosa
colaboração.
Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem perfeitos
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz
Guerreiro Menino
Gonzaguinha
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO....................................................................................................................................... 07
2. O MUNDO DO TRABALHO ................................................................................................................ 11
3. SAÚDE MENTAL DO TRABALHADOR........................................................................................... 17
4.
ESTRATÉGIA
DEFENSIVA
E
DEFESAS
CONTRA
O
SOFRIMENTO
PSÍQUICO...................................................................................................................................................... 25
4.1. Mecanismos de defesa mais utilizados no trabalho..................................... 28
5. SHOPPING CENTER, SUPER COMÉRCIO VAREJISTA............................................... 33
6.
CONDIÇÕES
DE TRABALHO, VIDA E SAÚDE EM UM SHOPPING CENTER
..............................................................................................................................................................................37
6.1. Metodologia .............................................................................................................................................37
6.2. Sujeitos......................................................................................................................................................38
6.2.1. Situação e ambiente..........................................................................................................................38
6.2.2. Equipamento e material....................................................................................................................38
6.2.3. Procedimento......................................................................................................................................38
6.3. Coleta de dados......................................................................................................................................40
6.3.1. Elaboração das categorias de comportamentos.....................................................................40
6.3.1.1. Na ausência de clientes................................................................................................................41
6.3.1.2. Na presença de clientes...............................................................................................................41
6.4. Resultados e discussão......................................................................................................................42
6.4.1. Características pessoais..................................................................................................................42
6.4.2. Características das condições de trabalho................................................................................43
6.4.3. Características das condições de saúde...................................................................................48
6.4.4. Características das relações pessoais........................................................................................51
6.5. Discussão dos dados..........................................................................................................................53
8. CONCLUSÃO ............................................................................................................................................56
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................................................58
APÊNDICE 1....................................................................................................................................................62
1 INTRODUÇÃO
O fazer humano tem sido objeto de estudo de várias disciplinas, e a psicologia
a cada dia vem aprofundando seu interesse com o intuito de produzir conhecimentos
acerca do tema em questão.
A fim de possibilitar uma melhor compreensão das variáveis a serem
investigadas, fez-se necessário conceituar algumas concepções, tais como trabalho,
saúde mental, adoecimento psíquico.
O trabalho pode ser entendido como mediador importante entre as instâncias
sociais e individuais, afetando por meio de seus processos, as condições de saúde
dos indivíduos. Nesse sentido, segundo a concepção Dejouriana, o trabalho pode
ser fonte de saúde ou de doença para o trabalhador.
A escolha do tema surgiu quando cursávamos a disciplina Psicologia e
Trabalho, em que foi trabalhada a definição histórica do trabalho, a dimensão do
trabalho na sua condição de formação do indivíduo, a formação da subjetividade e a
saúde mental no trabalho como objeto de estudo da psicologia.
No final de 2005, juntamente com um grupo de colegas, através da empresa
Junior da PUCMINAS – Unidade São Gabriel, abrimos o núcleo de psicologia, tendo
como primeiro cliente um Shopping center da região.
A primeira entrevista com um dos representantes dos lojistas e também
trabalhador do Shopping, nos chamou a atenção quando este se refere à saúde
mental do trabalhador dentro desse ambiente fechado.
Esse fato despertou-nos o interesse de investigar como e quais seriam as
ocorrências psicológicas e a percepção de uma determinada classe de
trabalhadores de um Shopping Center sobre o seu fazer. Na percepção da
entrevistada há alto índice de separação matrimonial em função do ritmo acelerado
de trabalho, há o deslumbramento quando inicia o trabalho nesse ambiente
sofisticado e o sofrimento deste
trabalhador na rotina do dia a dia, iniciando a
jornada com dia ainda claro e no término do expediente a noite já está escura, não
sabe se faz frio ou calor, se está chovendo ou não. Este trabalhador se aliena do
mundo, vivendo nesse que é considerado o reduto do consumismo, mantenedor do
sistema capitalista, tentando de uma forma ou de outra se adaptar e se manter
saudável.
Após tal entrevista, minha percepção foi a de que o adoecimento psíquico é
algo banalizado. Segundo Dejours (2005, p.21), a banalização é “um processo que
se torna mais visível, na época atual, em virtude de mudanças políticas verificadas
nas ultimas décadas”, ou seja, num sistema capitalista, globalizado e altamente
competitivo, o estresse, fadiga e o cansaço mental fazem parte do dia a dia das
pessoas. Gradualmente o sofrimento vai aumentando e o trabalhador perdendo a
esperança de que sua condição de vida possa melhorar.
A desmotivação e a infelicidade são sinônimas de ineficiência e baixa
lucratividade. O clima de angústia e descontentamento desestabiliza o trabalhador, e
a impressão que se tem é de que o empregador não se dá conta que tais
sofrimentos possam interferir na produtividade de seu trabalhador.
O mercado é muito exigente, o que impera é a produtividade com qualidade e
rapidez, curto prazo e baixo custo, com isso o trabalhador a cada dia é mais
pressionado, sendo assim, ou ele enfrenta o problema, ou é levado a uma fuga das
situações que o incomodam e perturbam, causando desta forma o adoecimento
psíquico ou a utilização de estratégias defensivas que, de acordo Dejours (1994),
são mecanismos que os trabalhadores constroem e adotam a fim de evitar o
adoecimento .
Esta pesquisa foi muito importante, uma vez que o “trabalho” faz parte da vida
e da identidade social do sujeito, e nos possibilitou, junto aos trabalhadores de um
Shopping center da região metropolitana de Belo Horizonte, identificar alguns dos
problemas advindos desse trabalho, ao invés de reduzi-los e banalizá-los, ou
psicologizá-los, como algo corriqueiro e corrente, como um simples estresse ou
como distúrbios de comportamento. Além disso, é de suma importância que se
contextualize este fenômeno para que o pesquisador saiba identificar as estratégias
defensivas e os sintomas psicopatológicos de maneira mais minuciosa, a fim de
compreendê-los e permita o planejamento de uma futura intervenção, onde o
trabalhador teria a oportunidade de escuta do seu sofrimento, a possibilidade de
identificar e re-significar a importância do trabalho em sua vida como um fator de
valorização de si, como valor de reconhecimento pelos outros e interpretar seu
trabalho como meio de refletir sobre si mesmo.
Nosso objetivo foi verificar se o Shopping Center, propicia o rompimento das
estratégias defensivas dos trabalhadores desse comércio, causando-lhes o
adoecimento psíquico.
Desta forma, apresentamos aqui os resultados da pesquisa sobre as
condições de saúde e adoecimento psíquico em trabalhadores do comércio varejista
de um Shopping Center da região metropolitana de Belo Horizonte.
No primeiro capítulo conceituamos o mundo do trabalho na atualidade. Na
lógica da menos valia a maioria dos empregadores não dá o devido valor ao esforço
de seu trabalhador para atingir as metas impostas pelo mesmo. Talvez isso ainda
seja herança de uma visão taylorista, uma vez que tais idéias influenciam o modo de
gestão de alguns empregadores até os dias atuais, onde o trabalhador é encarado
como um indivíduo “dotado de energia física e muscular e movido unicamente por
motivações de ordem econômica” (CHANLAT, 1999 p.120).
No segundo capítulo demos ênfase à saúde mental do trabalhador, uma vez
que tal pesquisa possibilita a ampliação do conhecimento no que diz respeito à
saúde mental do trabalhador, tanto para empresários, seus subordinados,
sindicatos, quanto psicólogos para uma futura intervenção. Dessa forma, pode-se
começar a pensar no trabalho como algo mais que uma necessidade de
sobrevivência, mas algo para conferir dignidade e maior integração social.
No terceiro capítulo buscamos compreender sobre as estratégias defensivas
e as defesas contra o sofrimento, descrevendo e identificando as estratégias que os
trabalhadores utilizam em seu dia-a-dia, segundo a psicodinâmica do trabalho.
Partimos do pressuposto de que o trabalho em um Shopping Center, propicia o
rompimento das estratégias defensivas dos trabalhadores desse comércio,
causando-lhes o adoecimento psíquico.
O capítulo quatro foi dividido em duas partes. A primeira diz respeito ao
ambiente pesquisado: o surgimento do shopping center no mundo e em Belo
Horizonte, seus objetivos e seu funcionamento. A segunda parte descreve a
pesquisa feita junto aos trabalhadores do comércio de um Shopping de Belo
Horizonte.
A condição de vida, relações do trabalho, a saúde mental e o sofrimento
psíquico no trabalho constituem o objeto deste estudo. No interesse de contribuir
para as investigações nessa área sobre o que acontece com a vida, o trabalho e a
saúde dos trabalhadores de comércio varejista de um shopping center da região
metropolitana de Belo Horizonte.
Os referenciais teóricos utilizados fundamentaram-se nos pressupostos
estabelecidos
pela
psicodinâmica
do
trabalho
e
levam
em
consideração
reformulações apresentadas nas últimas décadas por teóricos e pesquisadores
brasileiros desta abordagem.
Os resultados mostram que a categoria profissional pesquisada tenta
encontrar caminhos para a manutenção da saúde ao utilizar mecanismos que
favorecem o enfrentamento do sofrimento e a busca do prazer.
2 O MUNDO DO TRABALHO
A palavra trabalho tem vários significados e sentidos e os mesmos guardam
entre si correlações e contradições.
Há uma variedade de critérios para classificarmos o trabalho. Segundo
Borges e Yamamoto (2004), existe uma complicada e vasta relação de classificação
de profissões e ocupações, dentre essas temos o trabalho formal e o informal, o
trabalho abstrato e o complexo, o braçal e o intelectual, voluntário e remunerado,
prescrito e real, humano e animal. Enfim, quando utilizamos a palavra trabalho nem
sempre estamos descrevendo um mesmo objeto.
Na abordagem psicológica organizacional e do trabalho, é utilizado como
objeto de estudo em uma diversidade de formas, tais como a motivação para o
trabalho, o envolvimento, comprometimento, comportamento, dentre outros, sendo
assim vamos delimitar certos aspectos para facilitar o nosso entendimento.
De acordo com Albornoz (1986), o que distingue o trabalho humano do animal
é a consciência e a intencionalidade, uma vez que enquanto os animais trabalham
por instinto, o homem trabalha para sua sobrevivência.
Borges e Yamamoto (2004), citando Argyle, elegem como fundamental nesta
distinção a intermediação cultural. Trabalho então vai indicar a ação do homem em
busca da sua sobrevivência e realização pessoal, e isso vai ocorrer através das
relações interpessoais. O homem irá construir a sua história e a maneira de pensar
sobre o trabalho de acordo com as condições sócio-históricas em que vive.
Sendo assim, o trabalho terá algumas dimensões no mundo do trabalho que é
importante descrever:
9 Dimensão concreta que se refere à tecnologia e às condições materiais
a que o trabalhador está sujeito;
9 Dimensão gerencial que é o modo de gestão de pessoas ;
9 Dimensão socioeconômica na qual o trabalhador está inserido.
Vale ressaltar, que tais dimensões estarão interligadas umas nas outras e
evoluem historicamente.
Faremos uma breve viagem no tempo que antecede o capitalismo com a
finalidade de contrastar com o sistema atual.
Houve um tempo em que o homem trabalhava para produzir o que consumia,
seja em gêneros alimentícios, vestuário ou moradia, e de acordo com Albornoz
(1986), neste aspecto o trabalho servia apenas, indiretamente, para a sobrevivência.
Ao constituir as primeiras sociedades, o trabalho era recompensado por
mercadorias (escambo) como uma espécie de troca.
Com a prática da agricultura, surge a noção de propriedade e produtos
excedentes (ALBORNOZ, 1986).
Já na Idade Média o sistema predominante era o feudalismo, onde as
propriedades rurais eram auto-suficientes. Ao longo do tempo vai surgindo o burgo
para trocar as mercadorias. Este movimento vai crescendo dando origem à classe
burguesa.
Na transição da Idade Media para a Idade Moderna surge então o sistema
capitalista,
mudando
completamente
o
modo
de
produção,
o
aspecto
socioeconômico e as relações sociais.
Com a chegada da Industrialização há uma migração em massa do campo
para as cidades e com isso surgem novas profissões e áreas de trabalho. De acordo
com Borges e Yamamoto (2004), citando Marx, a partir de então constitui a história
do ponto de partida da produção capitalista, no qual o detentor de poder e dos meios
de produção é o capitalista e aquele que não possui o capital não tem como
reproduzir seu modo de vida.
No capitalismo a produção é socializada, todavia a distribuição dos lucros é
privada e não socializada. A Sociedade Capitalista propõe uma ideologia igualitária,
ou seja, dá-se à impressão de que se tem uma troca, porém não há equivalência de
troca. O trabalhador vende parte do seu dia para o mercado em horas, sendo que o
valor do salário é estabelecido por este mercado e, no mesmo não há igualdades. O
trabalho humano é percebido como uma mercadoria, entretanto, tal mercadoria é
peculiar, uma vez que irá gerar lucro para o capitalista, ou seja, a mais valia.
Marx afirma que todo assalariado ganha menos do que merece, menos do
que vale seu trabalho e essa diferença está no lucro. Com o empresário exigindo
cada vez mais lucro, o trabalhador vai se alienando mais e mais, fazendo com que
estes não percebam como sociais os frutos de seu trabalho. E produzindo mais,
gera mais renda para o patrão.
O capitalismo, segundo Marx, irá criar as formas de sobrevivência. A partir do
momento que o trabalhador começa a produzir trabalho excedente é originada a
Divisão Social do Trabalho, sendo que é através da produção que este trabalhador
se humaniza, se reproduz enquanto espécie e estabelece relações sociais. É
através da apropriação por não produtores de uma parcela do que é produzido
socialmente, que se origina a divisão da sociedade, a exploração, a opressão e a
alienação. Assim, a mais valia é a extensão do processo de formação de valores.
Para Marx o trabalho deveria ser humanizador, sem contradição de interesses
e voltado para as potencialidades criativas que os homens livres abrigam em seu
espírito.
Pfeffer (1997), afirma que no século XXI, estamos propensos a cometer os
mesmos erros do passado. A história permeia o nosso dia-a-dia e uma grande
maioria não se dá conta disso e, certos pesquisadores acham que estão criando
novos modelos organizacionais, no entanto, tais modelos foram criados há mais de
um século.
O que pensamos ser uma grande inovação do mercado atual já ocorreu no
século XIX, como por exemplo, o sistema fabril em que os operários possuíam seu
maquinário e eles mesmos determinavam as horas que iriam trabalhar. Hoje em dia
vemos muito este sistema de trabalho como se fosse algo inovador, assim como a
prática de empreitada a qual substituiu o sistema fabril, onde os operários
fabricavam os produtos e recebiam por unidade acabada.
No século passado houve um efervescente crescimento tecnológico, como o
desenvolvimento na energia elétrica, o telefone, o telégrafo, o motor à gasolina,
ferrovias, dentre várias outras invenções.
Acreditamos que a mudança tecnológica daquela época tenha sido muito
mais impactante do que nos dias atuais, pelo seu caráter de novidade, sendo que na
atualidade praticamente todo o dia tem algo novo no mercado, por exemplo, se se
compra um computador ou um celular hoje, amanhã já estarão lançando um modelo
mais moderno.
Na Era Industrial, em função da produtividade e da lucratividade, o modo de
administração teve que ser repensado. Antigamente o índice de rotatividade era
absurdamente alto, com isso Henry Ford propôs uma nova metodologia de
administração, oferecendo um melhor salário e bonificação para empregados com
mais tempo de casa visando atender à demanda de mercado e assegurar a sua
produção.
A partir de então, e no contexto atual da globalização, outras empresas
começaram a buscar alternativas para atender à crescente demanda. Começaram
com as sub-contratações de peças e componentes, prática esta que ainda hoje é
realizada, e não só nos EUA, como também em outros países, com isso veio a
prática
dos
trabalhos
temporários,
mão-de-obra
barata
e
uma
crescente
desvalorização do trabalho humano. A empresa Nike é um exemplo muito atual
dessas práticas, cada parte do tênis e confeccionado em um local diferente como
China e Indonésia, os fabricantes pagam pelos serviços um valor irrisório e quando
chega no mercado para o consumidor final o custo é muito elevado. Práticas como
essas têm colocado em discussão a questão da responsabilidade social das
organizações.
As organizações preocupadas apenas com sua produção e o lucro, esquecem
um fator fundamental dentro da empresa, o seu funcionário. Os empresários
acreditam que pagando um salário baixo e sem qualificação, isto porque o custo de
um treinamento é alto, irá trazer benefícios para empresa. Pfeffer (1997) refere-se a
organizações que em busca de políticas de mercado, de estratégias de redução de
custos deixam de dar importância ao desenvolvimento da carreira e às promoções,
com isso voltou a aumentar o índice de turnover dentro das empresas.
Em função da busca de novas estratégias surgiu a reengenharia e, segundo
Chanlat (1999), foi traduzido em demissões em massa e péssimos resultados
financeiros e operacionais, pois mais uma vez foi dada pouca atenção às dimensões
humanas.
De acordo com Pfeffer (1997), na tentativa de criar algo novo, o homem
acaba por reinventar o velho, como por exemplo a participação nos lucros cuja idéia
foi utilizada na década de 30 do século passado . O autor afirma que “não podemos
esperar dedicação e lealdade dos funcionários, a menos que estejamos dispostos a
assumir um compromisso mútuo”(PFEFFER,1997 p.52).
Segundo Chanlat (1999), a distribuição de renda é algo muito marcante na
nossa civilização. Os salários e as desigualdades sociais são crescentes. Levando
em consideração dados pesquisados nos EUA no período de 1989 a 1994, a
categoria de trabalhadores que recebiam um baixo salário conheceu uma realidade
de 10% de redução na sua remuneração, enquanto que a classe que percebiam
salários mais elevados, a taxa ao invés de reduzir, aumentou em 74,2%, ou seja, é
uma realidade que ainda vigora, inclusive no Brasil. São muitos os desafios a serem
vencidos em função da burocratização. De acordo com Almeida (2006), ou o Brasil e
seus governantes modificam essa gestão e esta conduta neoliberal desastrosa, ou
os índices de pobreza tenderão a aumentar. Sendo assim, a derrocada do ensino se
acentuará, a saúde publica extinguirá, o real continuará a se desvalorizar, a bolsa
cairá no descrédito e todos, classe média e baixa, compartilharemos da miséria
absoluta que as estatísticas teimam em anunciar. Para compensar o desastre, os
ricos sobreviverão cada vez mais milionários e felizes com seus ganhos.
De acordo com pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada
(Ipea), ligado
ao
Ministério
do Planejamento, em 2003, 1%
dos
brasileiros mais ricos detinham uma renda equivalente aos ganhos dos 50% de
trabalhadores ativos. No mesmo período, cerca de um terço da população, isto é
53,9 milhões de pessoas foi considerada pobre, um critério que inclui todos os que
viviam com renda familiar per capita de até meio salário mínimo (R$ 120,00 na
ocasião).
O Ipea indicou que, para avançar no combate à desigualdade, é preciso
alcançar um nível de crescimento econômico e um modelo de desenvolvimento que
viabilizem a inserção da população no mercado de trabalho, além das ações sociais.
Alem disso, pode-se observar o declínio da situação econômica do paÍs.
Segundo Chanlat (1999), os trabalhadores se embrenham numa rede de
endividamentos para suprir e garantir sua sobrevivência, ou seja, a economia fica
cada vez mais dominada pelo capitalismo, e com isso, há desastrosas
conseqüências humanas: perde-se a segurança, a liberdade de criação, conflitos
interpessoais
dentro
das
empresas,
gerando
burocratização
e
rigidez,
conseqüentemente o estresse profissional e o adoecimento psíquico.
No mundo organizacional é comum a prática de copiar modismos estratégicos
sem contextualizar a realidade na qual está inserida. São inúmeros modelos de
gestão, um exemplo citado por Chanlat (1999) é a “disciplina do management”,
neste modelo privilegia-se a ação, a frieza, o conformismo e a racionalidade, e tudo
aquilo que tem origem em movimentos sociais é abolido, uma vez que emoções
fortes podem minar a eficácia em proveito da solidariedade.
Contudo, atualmente, os lideres estão começando a perceber que o sujeito é
“um ator e que a realidade das organizações se produz, se reproduz e se transforma
por meio da interação dos diferentes grupos e indivíduos que as compõe”
(CHANLAT, 1999, p.65) e que somos produto de relações sociais historicamente
situadas. A experiência humana ao mesmo tempo engloba o conhecimento de uma
atividade como também o modo como vê o objeto.
Segundo Brant (2006), atualmente nas empresas o que prevalece é uma
seleção biológica e somente sobrevive, dentro das organizações, o indivíduo mais
adaptável às transformações tecnológicas e gerenciais, sendo que uma das
principais fontes de sofrimento é a rapidez.
Em nossa sociedade, o trabalho é mediador de integração social, seja por seu
valor econômico (subsistência), seja pelo aspecto cultural (simbólico), tendo assim,
importância fundamental na constituição da subjetividade, no modo de vida e,
portanto na saúde física e mental das pessoas.
A contribuição do trabalho para as alterações da saúde mental das pessoas
dá-se a partir de ampla gama de aspectos: desde fatores pontuais como a exposição
a determinados agentes tóxicos até a complexa articulação de fatores relativos à
organização do trabalho, como a divisão e parcelamento das políticas de
gerenciamento das pessoas e a estrutura hierárquica organizacional.
As ações implicadas no ato de trabalhar podem atingir o corpo dos
trabalhadores, produzindo disfunções e lesões biológicas, mas, também, reações
psíquicas às situações de trabalho patogênicas, além de poderem desencadear
processos psicopatológicos especificamente relacionados às condições do trabalho
desempenhado pelo trabalhador.
3 SAÚDE MENTAL DO TRABALHADOR
Várias disciplinas se debruçam sobre o estudo de saúde mental do
trabalhador.
Uma
abordagem
metodológica
que
se
propõe
subsidiar
as
investigações neste campo do conhecimento, que se baseia nos fundamentos
psicanalíticos, na concepção teórico-conceitual e de ciência e pesquisa é a
Psicodinâmica do Trabalho. Tem como principal teórico o francês Christophe
Dejours nascido em 1949, médico do trabalho, psiquiatra e psicanalista, vive em
Paris e seus estudos utilizam pressupostos psicanalíticos.
De acordo Jacques (2003), a ênfase inicial proposta por Dejours recaiu no
estudo da normalidade sobre a patologia, com
os avanços nas pesquisas a
expressão psicopatologia do trabalho foi substituída por Psicodinâmica do Trabalho,
tendo em vista que o campo da psicodinâmica está preocupada com a origem e as
transformações do sofrimento mental
vinculadas à organização do trabalho. A
autora cita Dejours & Abdouchely quando estes introduzem o conceito de sofrimento
psíquico
como
uma
vivência
subjetiva
situada
entre
a
doença
mental
descompensada e o conforto e bem-estar psíquico, introduzindo a utilização das
estratégias defensivas coletivas ou individuais.
Seligmann-Silva (1994, p.20), ressalta que a abordagem da Psicodinâmica do
trabalho, inicialmente “era centrada no estudo das dinâmicas que, em situação de
trabalho, conduziam ora ao prazer, ora ao sofrimento, e o modo como este podia
seguir diferentes desdobramentos”. Hoje essa corrente de estudos vai além da
dinâmica saúde/doença.
De Acordo com a Lei Orgânica da Saúde (Título II, Cap. I, art. 6º, parágrafo
terceiro) entende-se por saúde do trabalhador:
Um conjunto de atividades que se destina, através das ações de vigilância
epidemiológica e vigilância sanitária, à promoção e proteção da saúde dos
trabalhadores, assim como visa a recuperação e reabilitação da saúde dos
trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de
trabalho. (BRASIL, 1990)
Codo e Soratto (1999), afirmam que mesmo com a lei assegurando a saúde
do trabalhador, a saúde pública presta pouca atenção à situação do mesmo.
Segundo os autores, aqui no Brasil ainda não há estatísticas definidas quanto ao
número de estresse e estados de desordem psicológica ligados ao trabalho,
contudo, devido ao quadro econômico do país ser instável, o setor de serviços é o
que se desenvolve mais rapidamente, além das reorganizações relâmpagos nas
condições de trabalho.
De acordo com a definição de saúde da OMS “a saúde é um estado de
completo bem-estar físico, mental e social e não consiste, somente, em uma
ausência de doença ou enfermidade”. Dejours, Dessors e Desriaux (1993), criticam
tal definição a partir do momento que cada indivíduo tem uma compreensão
subjetiva acerca do conceito de saúde, isto é, algo difícil de definir. Outro ponto
discutível diz respeito a existência do “estado” de completo bem-estar. Os autores
ponderam este estado como um ideal a ser conquistado, sendo assim a saúde seria
um objetivo e, a partir desta hipótese é relevante desenvolver uma ação de
promoção e prevenção da saúde.
Através da ciência é possível uma melhor compreensão do que vem a ser
saúde. Dejours, Dessors e Desriaux (1993), classificam este conhecimento em três
séries. A primeira é a fisiologia que nos ensina que o organismo é mutável, vive em
constante oscilação entre desequilíbrio e equilíbrio, sempre na busca do equilíbrio.
Eles ressaltam que a saúde, seguramente não é um estado calmo, estável, plano, e
nem uniforme.
No que tange ao domínio psíquico, os autores exemplificam com a angústia,
que de acordo com a psicanálise é algo que não se sabe conscientemente o que é.
Ela é uma sensação “penosa”, vivenciada no corpo, e difícil a que todos estão
sujeitos, indiferente se estão com uma boa saúde ou não, pode ter resolução
momentânea e ressurgir novamente numa outra perspectiva.
A segunda série refere-se à psicossomática que, de acordo com Zimermam
(2004, p. 30), designa “no campo da medicina, a decisiva influência dos fatores
psicológicos
na
determinação
das
doenças
orgânicas,
já
admitindo
uma
inseparabilidade entre elas”, ou seja, sofrimento psíquico repercute no corpo e viceversa. A compreensão das relações entre o corpo, a linguagem que o constitui e o
organismo delimita a vertente psicanalítica da psicossomática. O corpo e o
organismo sofrem porque existe um obstáculo que barra o acesso do sujeito à sua
história e à origem da angústia.
Uma vez que o sujeito é um ser biopsicossocial, vale ressaltar que a
influência
de
fatores
sociais,
econômicos,
familiares,
etc.,
também
pode
desencadear distúrbios psicossomáticos.
Romano (2005) afirma que “ todo ser é resultante de vetores biopsicossociais”
sendo que o biológico, no processo do adoecer, está em desequilíbrio. O psíquico é
resultante, por sua vez, de outros vetores como estrutura de personalidade,
interpretação e vivência de acontecimentos, ou seja, do imaginário e do real. O
social compreende a família de onde vem e para onde se retorna e, a sociedade em
seu sentido mais amplo, isto é, a comunidade, a escola e o grupo de trabalho. Todos
se retroalimentando e se influenciando mutuamente de modo contínuo e
inseparável.
Numa entrevista realizada com um médico do trabalho questionamos como
ele faz para chegar a um diagnóstico de doença psicossomática. Segundo Dr.
Canaan, na maioria das vezes é através da anamnese e do diálogo realizado com o
paciente que se detecta o transtorno, ele procura primeiro as causas orgânicas,
solicita vários exames laboratoriais e, caso haja alguma lesão, ela é tratada.
Contudo, quando os sintomas retornam repetidas vezes, é mais uma indicação de
doença psicossomática.
É mais comum a detecção da doença na anamnese, pois geralmente o
próprio paciente faz uma correlação do sintoma com as situações com as quais está
vivenciando no momento, desta forma o médico do trabalho tem a possibilidade de
identificar tais casos em função do contato com este paciente.
Por fim a terceira série refere-se à psicopatologia do trabalho, que tem se
voltado para analisar a constituição do sofrimento mental, partindo da percepção dos
próprios trabalhadores e sua articulação com a organização do trabalho. O trabalho
afeta a saúde do trabalhador na medida em que ele pode ser um causador de
doenças, como pode também agir de forma positiva na vida deste indivíduo.
Segundo Dejours (1994, p.48), a psicopatologia do trabalho ”é um método de
investigação clínico e teórico que tenta integrar as duas rupturas epistemológicas”.
Dejours (1994), afirma que todo trabalho exerce uma carga para o
trabalhador, isto é, a carga física e a carga psíquica, que pode ser equilibrante ou
fatigante. Em ergonomia o componente físico da carga de trabalho diz respeito aos
fatores de risco, tais como: barulho, calor, desgaste energético, iluminação, etc,
além do componente mental da carga de trabalho, que é uma mistura de fenômenos
neurofisiológicos e psicofisiológicos, ou seja, relativo à percepção e ao tratamento
da informação necessária à execução do trabalho. Tal noção de carga em
ergonomia tem a preocupação da quantificação, avaliação e da objetividade.
Contudo, mensurar a carga psíquica de trabalho é inviável, pois como seria
possível medir uma vivência, ou seja, o prazer, a satisfação , agressividade,
frustração? Tudo isso é da ordem qualitativa e referem-se a fenômenos afetivos e
relacionais que se distinguem da carga cognitiva da realização da tarefa.
Em contato com as excitações advindas do exterior (informações sensoriais)
ou provenientes do interior (excitações instintivas ou pulsionais) o trabalhador acaba
por acumular esta excitação (energia) transformando-a em tensão nervosa. A via de
descarga desta energia será através da via psíquica, motora ou visceral.
(DEJOURS,1994. DEJOURS, DESSORS E DESRIAUX, 1993).
Pudemos constatar com a entrevista realizada com o médico do trabalho, que
em relação às queixas dos trabalhadores relacionadas ao ambiente de trabalho o
que mais lhes afeta em primeiro lugar é a pressão do tempo de execução da tarefa,
ou atingir as metas propostas pelo empregador, em seguida vem a fadiga industrial
em função dos movimentos repetitivos (dorsalgia). Segundo Dr. Canaan a relação
interpessoal não está
entre os primeiros lugares como um fator adoecedor.
Podemos questionar que na medida em que os outros fatores são tão evidentes e
estudados, eles podem mascarar a contribuição das relações interpessoais para o
estabelecimento do nexo causal com a doença psicossomática.
De acordo com a percepção do médico, o fator ambiental e ocupacional tem
que ser avaliado, pois pode ser um causador de doenças e do ponto de vista
ocupacional este é um fator de agravo e de acordo com a evolução biopsicossocial,
sempre surgem problemas, principalmente ligados à agressividade. Segundo Dr.
Canaan, quando este trabalhador sofre ou está insatisfeito no trabalho, ele começa a
agredir a empresa, como por exemplo, produzindo peças com defeito, atendendo
mal os clientes, começa a faltar ao serviço e etc. Isso comprova empiricamente o
sofrimento psíquico decorrente da organização do trabalho como já demonstrado
pelos estudiosos da psicodinâmica do trabalho.
De acordo com Codo, Soratto e Vazques-Menezes (2004), o adoecimento
psiquico é o rompimento da capacidade de construir a si próprio e a espécie,
produzindo e reproduzindo a si próprio e a espécie.
Dejours (1994, p. 29), afirma que o sofrimento é a “energia pulsional que não
acha descarga no exercício do trabalho se acumula no aparelho psíquico,
ocasionando um sentimento de desprazer e tensão”.
Seligmann-Silva (1994), cita Dejours quando este afirma que o sofrimento
designa o campo que separa a doença da saúde. A forma como se dá a luta contra
o sofrimento é que permite conceituar e identificar as estratégias defensivas.
Codo, Soratto e Vazques-Menezes (2004) afirmam que os estudos de
Dejours são
baseados numa tentativa de compreender como o trabalhador
consegue alcançar um certo equilíbrio psíquico, pois mesmo estando submetido a
condições de trabalho desestruturantes, ele busca maneiras e estratégias para
manter-se saudável e não adoecer.
A união do sofrimento e a luta contra este sofrimento no trabalho, Dejours
denomina de “normalidade sofrente”, isto é, “o resultado alcançado na dura luta
contra a desestabilização psíquica provocada pelas pressões do trabalho”
(DEJOURS, 1994, p.15).
Segundo Codo, Soratto e Vazques-Menezes (2004), o sofrimento é
considerado inerente ao processo de trabalho, dessa forma praticamente impossível
de ser eliminado, contudo ele não é necessariamente causador de doenças, mas
pode tornar a ser, caso o trabalhador não se adapte ao trabalho e suas defesas se
rompam, ou quando já esgotou todas as possibilidades de mudança na organização
de trabalho Dejours (1994) denomina tal sofrimento de patogênico.
Entretanto, o sofrimento mental também pode ser transformado em
criatividade e beneficiar a identidade. Chamado sofrimento criativo, este ocorre
quando o trabalho “aumenta a resistência do sujeito ao risco de desestabilização
psíquica e somática”, funcionando como um mediador para a saúde (DEJOURS,
1994, p.91). De acordo com os autores, a diferença entre o sofrimento criativo e o
patogênico irá depender da condição social e individual de cada trabalhador, ou
seja, sua estrutura, história de vida, organização do trabalho e suas relações
interpessoais. Cabe à psicodinâmica do trabalho definir as ações suscetíveis de
modificar o destino do sofrimento e favorecer sua transformação.
Segundo Dejours (1994), o surgimento de uma doença na vida do trabalhador
é algo vergonhoso, que precisa ser justificado. Esse sujeito se sente julgado e
acusado pelo grupo social. O jeito é conter, controlar e conviver com a doença, não
é a cura o mais importante e sim não sofrer. Tal atitude é denominada de ideologia
da vergonha. A mesma é caracterizada de duas maneiras: aquilo que diz respeito ao
corpo e a relação existente entre doença e trabalho.
O corpo deve ser recoberto com o véu do silêncio, uma vez que ele só é
aceito pela sociedade como o corpo que trabalha, ou seja, ideologicamente o normal
é trabalhar. O parar de trabalhar corresponde à ideologia da vergonha. Para
conseguir suportar o fardo, um dos mecanismos mais utilizados é o acidente de
trabalho, que consiste numa forma inconsciente encontrada pelo trabalhador para
evitar o conflito existente na relação homem-empresa que produz a insatisfação e
ansiedade. Os artigos 131 da legislação previdenciária considera que:
Acidente de trabalho é aquele que ocorre durante o exercício do trabalho,
provoca lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte, perda
ou redução permanente ou temporária da capacidade para o trabalho.
Considera-se igualmente os casos ocorridos no percurso da residência e
do local de refeição para o trabalho ou deste para aquele (BRASIL, 1991)
De acordo com os índices do Fundacentro, no ano de 2002 foram
computados 387.905 acidentes e doenças do trabalho no Brasil, sendo que 58%
deste total é na Região Sudeste, e dizem respeito a trabalhadores empregados pelo
setor formal da economia, ou seja, regidos pela CLT (Consolidação das Leis
Trabalhistas) e registrados em carteira.
Segundo Dejours (1982, p.34), o que causa angústia no trabalhador através
da doença, “é a destruição do corpo enquanto força capaz de produzir trabalho” .
Ideologicamente instaura-se o processo de individuação, em que no
adoecimento o sujeito é o problemático. O sofrimento mental é causado entre a
tensão das necessidades da organização e as necessidades pessoais, e o
sofrimento advém das vivências subjetivas do cotidiano do trabalho.
Codo (2004), afirma que todos os aspectos importantes para a construção da
personalidade e identidade do sujeito são fatores de risco, implicando assim na
saúde mental do trabalhador. O sofrimento mental juntamente com a fadiga é uma
manifestação proibida no trabalho, e com o surgimento da doença o trabalhador vai
caracterizá-lo como medo, ansiedade ou doença mental.
Segundo Araújo (1999), o termo sofrimento designa situações de desconforto
e insatisfação
que, embora não impeçam a continuidade de suas atividades
laborais, inviabilizam que o trabalho seja fonte de prazer e de realização pessoal.
A autora afirma que na abordagem da psicodinâmica do trabalho são
classificados dois tipos básicos de sofrimento, vivenciados pelos trabalhadores
através de dois tipos de sintomas: a insatisfação e a ansiedade, e que são
fundamentais neste processo de adoecimento.
Para Dejours (1994) são duas as fontes principais no que se refere à
insatisfação no trabalho e são elas:
a) Resultado do conteúdo significativo do trabalho
b) Relacionado ao conteúdo ergonômico da tarefa
A partir do momento em que o trabalho se torna apenas uma mercadoria, ele
perde o significado, ficando empobrecido e o sujeito perde o prazer em estar
fazendo algo útil. O trabalho é uma via de construção da identidade, satisfação e
prazer, além de estar associado a um status social, uma roupa específica ou até
mesmo a um vocabulário particular. Para Codo (2002, p.173), o trabalho “é uma
dupla relação de transformação entre o homem e a natureza, geradora de
significados” .
O trabalho também é uma forma de inserção social que tanto pode ser um
fator causador de doenças, como também um fator de equilíbrio (DEJOURS,
DESSORS E DESRIAUX ,1993).
Já a insatisfação relacionada ao conteúdo ergonômico da tarefa é decorrente
de uma inadequação entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Neste caso, a
insatisfação será o resultado, principalmente, das condições concretas de trabalho e
o corpo do sujeito será o escudo protetor, ou a linha de frente desta batalha, onde a
doença somática denunciará o estado de insatisfação.
A ergonomia é uma disciplina do campo da saúde que trata de reconhecer
quais são as regras e normas do trabalhador no ambiente de trabalho, ou seja, a
ergonomia procura conhecer o trabalho concreto e sua adequação ao homem.
Segundo Telles (1995), caracteriza-se pela busca de conhecimento para intervenção
através da análise de situações de trabalho ou da análise do trabalho em situações
reais e não simuladas, em que o foco são as atividades realizadas pelos
trabalhadores, uma vez que toda atividade humana tem um espaço para a
heteronomia e autonomia e, cada trabalhador tem um potencial de colocar algo de si
no trabalho.
A ansiedade aparece em situações de perigo e sobrecarga de exigências no
trabalho.
Nas situações em que o perigo existe e é conhecido, porém, os
mecanismos que o geram são desconhecidos, irá gerar o medo, que está associado
à idéia de risco. O risco é exterior e frequentemente coletivo. Os mecanismos para
controlar o medo implicam em atitudes de negação e desprezo do medo, desta
forma aumentando o risco e, consequentemente, a ansiedade.
Segundo Claro, Botomé e Kubo (2003), atualmente, o desemprego, a ruptura
familiar, insegurança financeira e a falta de perspectiva de crescimento, dentre
outros fatores, são ameaças distintas na vida do trabalhador, alem de causadores de
sofrimento psíquico. Os autores citando Moura, de acordo com pesquisa realizada
na Universidade Harvard, apontam o alcoolismo, isolamento emocional, trabalho
excesso, violência, problemas do coração como alguns sintomas correntes
apresentados pela população masculina diante da ansiedade relacionada à
insegurança socioeconômica. Já as mulheres apresentam baixa auto-estima,
dependência emocional, desconfiança, conflitos destrutivos entre outros sintomas
físicos, tais como TPM, dores lombares, dores de cabeça, etc.
Os autores afirmam que, no comércio diante de tarefas de natureza simples, o
grau de qualificação normalmente supera as exigências da tarefa, esse fato pode
resultar para o trabalhador em frustrações, diminuindo assim as perspectivas de um
futuro melhor, uma vez que, “quando o trabalhador não se reconhece no seu
trabalho, surgem frustrações e sentimentos de auto-desvalorização” (CLARO,
BOTOMÉ E KUBO, 2003. p. 68)
Outro dado importante citado pelos autores e baseados em Seligmann-Silva,
é que, de acordo com estudos experimentais, fatores econômicos e sociais também
influenciam na etiologia das doenças crônicas. Vivências prolongadas de tensão de
origem social podem influenciar de modo negativo o sistema psiconeuroendócrino, a
baixa no sistema imunológico, doenças cardiovasculares e até mesmo um câncer,
quando aliadas a exposição de carcinógenos, onde a probabilidade de resultar em
câncer após 15 a 20 anos é alta. Sem contar que o estresse e a fadiga são fatores
que enfraquecem o organismo pouco a pouco.
4 ESTRATEGIAS DEFENSIVAS E AS DEFESAS CONTRA O SOFRIMENTO
Como vimos o trabalho é responsável tanto pela saúde quanto pela doença
mental do trabalhador. Para lidar com o sofrimento o trabalhador desenvolve
estratégias defensivas construídas individualmente ou coletivamente.
Dejours propõe explicar em que consiste tal estratégia defensiva, como elas
surgem e evoluem.
Essas defesas levam à modificação, transformação e, em geral, à
eufemização da percepção que os trabalhadores têm da realidade que os
faz sofrer (...) e graças a suas defesas, minimizar a percepção que eles
têm dessas pressões, fontes de sofrimento (DEJOURS, 1994, p 128)
As estratégias defensivas são marcadas pelas pressões reais do trabalho
(DEJOURS 1994). Os trabalhadores constroem e adotam tais estratégias a fim de
evitar o adoecimento, numa tentativa de preservação do equilíbrio psíquico. De
acordo com o autor, em tais estratégias existem sutilezas, cheias de engenhosidade,
diversidade e inventividade.
Quando estas estratégias se rompem, o trabalhador irá enfrentar sozinho as
conseqüências das quais tanto se defendia. O sofrimento irá se materializar em
forma de doença e incapacidade. A partir do momento que o problema psicológico
se transforma em fisiológico,
é o sintoma que vem à tona como uma doença
psicossomática.
A estratégia defensiva irá mascarar uma ansiedade séria e cada grupo social
desenvolve as estratégias com uma especificidade diferente de outros grupos. Tais
estratégias são destinadas a combater perigos e riscos mais concretos, e não no
nível mental subjetivo.
Tais mecanismos de defesas podem ser coletivos ou individuais A estratégia
coletiva é sustentada em comum acordo entre os trabalhadores, e funcionam como
regras até que o acordo se rompe. Já a estratégia individual está interiorizada no
trabalhador, e vai continuar existindo mesmo sem a presença física de outros.
As estratégias defensivas são ambivalentes, pois tanto são necessárias para
proteção da saúde psíquica, como podem também deixar o trabalhador insensível
contra aquilo que o faz sofrer. As estratégias defensivas podem tanto proteger o
trabalhador quanto aliená-lo, uma vez que o afasta dos problemas da organização
do trabalho, entendendo por organização do trabalho não só a divisão de tarefas
entre os trabalhadores, o ritmo e o modo prescrito do trabalho, como também as
hierarquias, repartições de responsabilidades e os sistemas de controle.
Para Dejours, alienação apresenta dois sentidos:
Alienação no sentido em que Marx a compreendia nos manuscritos de 1844,
isto é, a tolerância graduada segundo os trabalhadores de uma organização
do trabalho, que vai contra seus desejos, suas necessidades e sua saúde.
Alienação no sentido psiquiátrico também, de substituição da vontade própria
do Sujeito pela do objeto. Nesse caso, trata-se de uma alienação, que passa
pelas ideologias defensivas, de modo que o trabalhador acaba por confundir
com seus desejos próprios a injunção organizacional que substituiu seu livre
arbítrio, vencido pela vontade contida na organização do trabalho, ele acaba
por usar todos os seus esforços para tolerar esse enxerto contra sua
natureza, ao invés de fazer triunfar sua própria vontade. Instalado o circuito,
é a fadiga que assegura sua perenidade, espécie de chave, necessária para
fechar o cadeado do circulo vicioso. (DEJOURS,1994, p.137).
Dejours aponta alguns procedimentos defensivos contra o sofrimento e são
eles:
9 Desvencilhamentos das responsabilidades, não tomando iniciativas,
deixando as decisões a cargo das chefias;
9 Atitude de fechamento em uma autonomia máxima, seja de segredo,
ou imprudência e silêncios tanto frente aos colegas quanto à chefia;
9 Cria uma desconfiança sistemática, tentando interpretar tudo como se
fossem hostilidades dirigidas a si próprio;
9 Não respeitar a hierarquia;
9 Verbalizar seu sofrimento apenas no consultório médico (sinal de que
as defesas coletivas estão ineficazes);
9 Individualismo;
9 Alcoolismo;
9 Contratação de terceirizados para realização do seu trabalho;
9 Proteção de forma ciumenta de seu trabalho;
9 Delegar tarefas ingratas;
9 Recusar cumprimentar o colega;
9 Denunciar o colega;
9 Equipes de trabalho fortemente diferenciadas;
9 Evitar todas as ocasiões de discussão;
9 Privilegiar o ativismo, presenteísmo, trabalhar até a exaustão.
Sintomas psicológicos:
9 Vivência do medo;
9 Síndrome de bournout;
9 Ansiedade;
9 Apreensão;
9 Desespero;
9 Dificuldade de concentração;
9 Sensação de pânico;
9 Hipervigilância;
9 Irritabilidade;
9 Fadiga;
9 Insônia, etc.
Sintomas de ordem somática:
9 Dor de cabeça;
9 Palpitação;
9 Sudorese;
9 Tensão nos músculos do pescoço;
9 Boca seca;
9 Náusea e vazio no estômago;
9 Falta de ar;
9 Tontura, e etc.
Segundo informações do Dr. José Alfredo Canaan, médico do trabalho,
pudemos constatar que as doenças mais comuns de fundo emocional que
normalmente são diagnosticadas são a ansiedade, as reações de estresse,
depressão
de
difícil
identificação,
psorise,
algumas
dermatoses,
gastrites,
duodenites, colites, esofagites, úlceras, doenças da esfera sexual, hipertensão, e por
fim a fibromialgia. O desenvolvimento destas manifestações, na sua experiência
clínica, pôde ser correlacionado a situações laborais.
4.1 Mecanismos de defesa mais utilizados no trabalho
Segundo Seligmann-Silva (1994) é importante que se faça uma distinção
entre defesa e resistência. Defesa será abordada como um mecanismo trabalhando
contra o sofrimento, ou, pelo menos tentando torná-lo suportável e, geralmente, não
propiciam transformações nas situações das quais causam o sofrimento. Enquanto
que a resistência é o enfrentamento das condições determinantes de sofrimento e
que, no entanto, transformam tais situações.
Os mecanismos psicológicos de defesa podem ser tanto conscientes como
inconscientes, e não deixam de ser uma alienação do trabalhador frente às
situações de conflito e sofrimento.
A autora define defesa na perspectiva psicanalítica como a luta do ego
contra idéias ou afetos dolorosos ou insuportáveis. Esta teoria estuda principalmente
os conflitos intrapsíquicos e a forma como eles propiciam o surgimento de
mecanismos defensivos. A psicanálise distingue treze formas de defesa, das quais
vale ressaltar em nosso trabalho e conceituar apenas a negação, o recalque, a
repressão, o isolamento, a racionalização e a sublimação. Segundo a autora, diante
de situações conflitivas, normalmente os trabalhadores recorrem a estes
mecanismos de defesa com maior freqüência.
Segundo
Laplanche e Pontalis (2001, p. 293), a negação consiste em um
“processo pelo qual o sujeito, embora formulando um dos seus desejos,
pensamentos ou sentimentos até então recalcado, continua a defender-se dele
negando que lhe pertença” .
Já a repressão, num sentido mais amplo, quer dizer uma “operação que tende
a fazer desaparecer da consciência um conteúdo desagradável ou inoportuno”, tal
como uma idéia, por exemplo. (LAPLANCHE, 2001:457)
O isolamento é um mecanismo de defesa que “consiste em isolar um
pensamento ou comportamento, de tal modo que as suas conexões com outros
pensamentos ou com o resto da existência do sujeito ficam rompidas”.
(LAPLANCHE, 2001.p .258)
Na racionalização ocorre um “processo pelo qual o sujeito procura apresentar
uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista
moral, para uma atitude, uma ação, idéia, sentimento etc, cujos motivos verdadeiros
não percebe”. (LAPLANCHE, 2001 p.423)
Por fim a sublimação é um “processo que irá explicar atividades humanas
sem qualquer relação aparente com a sexualidade, mas que encontrariam o seu
elemento propulsor na força da pulsão sexual” (LAPLANCHE, 2001 p.495)
Na situação de trabalho, quando o trabalhador se depara com circunstâncias
que causam ansiedade e não consegue contornar, conscientemente, ele recorre a
estes mecanismos acima citados.
Seligmann-Silva (1994) exemplifica estes mecanismos de defesa quando
numa organização de trabalho é exigida de um trabalhador grande quantidade de
concentração de atenção e detalhes e, se o mesmo é do tipo obsessivo, podem
ocorrer mudanças significativas da identidade e da sociabilidade nesse sujeito,
emergindo o embotamento afetivo.
Segundo a autora, quando a dominação se intensifica e o espaço de
autonomia se estreita, pode ocorrer uma “vivência de dependência” propiciando uma
regressão psicológica ao período infantil, ou seja, diante de situações ameaçadoras,
o sujeito utiliza da negação e repressão para lidar com tais situações, sendo que
estes mecanismos são mais comuns na infância do que na vida adulta do individuo.
Uma outra situação pode ser caracterizada quando o trabalhador utiliza da
racionalização como estratégia de defesa, isto é, ele exerce uma atividade
intelectual conscientemente, porém quando este trabalhador começa a justificar
demasiadamente, baseando principalmente do ponto de vista tecnológico, que seu
modo de trabalho é muito moderno e seguro, mesmo que isso esteja massacrando-o
e o violentando como ser humano, e ainda assim ele consegue arranjar explicações
viáveis para justificar o fato, isso é uma indicação de que ele esteja ocultando de si
mesmo constatações dolorosas para a sua vida.
A negação do perigo e a repressão do medo são modalidades do mecanismo
de defesa contra o medo que o trabalhador utiliza para suportar e de sobreviver a
certas situações penosas e de conflito existentes no ambiente de trabalho e que ao
mesmo tempo podem servir à manutenção e ao fortalecimento da dominação do
trabalho.
De acordo com Seligmann-Silva (1994), o trabalhador utiliza estratégias
defensivas contra o tédio, o sono, o cansaço, para quebrar a tensão ou raiva e etc.
Nestes momentos ele constrói fantasias quando trabalho é monótono, por exemplo.
Para evitar a sonolência costumam cantar alto e batucar. Com o intuito de amenizar
a tensão, algumas empresas estão implantando ginástica laboral, ioga, aulas de
musica, academias, e etc. Outra estratégia, são as conversas na “hora do cafezinho”
e no intervalo do almoço, contando anedotas e fazendo brincadeiras, tudo isso tem a
função de descontrair o ambiente e aliviar o estresse do dia-a-dia.
Algumas pessoas colocam apelidos nos chefes, outras brincam de forma rude
com seus companheiros suscitando mágoas, num processo de reprodução das
agressões sofridas. Vale ressaltar que o alcoolismo também pode se apresentar
como um caráter defensivo contra a ansiedade e estresse relacionado ao trabalho.
A auto-repressão, ou seja, o bloqueio à expressão dos próprios sentimentos,
é outra forma de defesa que o trabalhador utiliza no seu cotidiano. Uma vez que
exteriorizar emoções como irritação, raiva ou revolta pode colocar em risco a
manutenção de seu emprego, impedindo a manifestação destes sentimentos ele
estará interiorizando-os, aumentando a tensão e, consequentemente, contribuindo
para a constituição de doenças psicossomáticas, distúrbios psicossociais e mentais.
As estratégias coletivas de defesa, segundo Seligmann-Silva (1994) e Dejours
(1994), operam através de inversão e de eufemismo, sendo que a inversão consiste
em desafiar o perigo ao invés de se sentir ameaçado por ele, enquanto a
eufemização se expressa, por exemplo, diante da ridicularizarão dos perigos aos
quais o trabalhador está exposto, Seligmann-Silva (1994), ilustra o fato quando o
trabalhador emprega diminutivos para nomear máquinas perigosas com as quais
lida diariamente.
Já as estratégias de defesas psicológicas individuais se constituem a partir de
necessidades distintas. Segundo a autora, no trabalho perigoso, por exemplo, as
estratégias servem para neutralizar o medo. Em outras situações, as defesas podem
ser utilizadas para tornar suportável um trabalho tedioso, ou ainda, quando o
controle e a opressão são intensos e surgem comportamentos defensivos visando
aliviar a irritação ou a revolta acumulada.
De acordo com ela, quanto menos autonomia tiver o trabalhador, menor será
a possibilidade de criatividade e consequentemente, reconhecimento pelo trabalho
desenvolvido. “O sufocamento da liberdade corresponde, pois, ao sufocamento das
expressões da inteligência dos trabalhadores, que poderiam desenvolver produtos
de maior qualidade e originalidade”. (SELIGMANN-SILVA, 1994 p.271)
Na entrevista com Dr. Canaan, algo que nos chamou atenção foi quando
perguntamos sobre a possibilidade de indicar alguns pacientes para um tratamento
psicológico. Segundo o médico esta informação é muito bem recebida pelos
trabalhadores, contudo em função da maioria dos convênios não cobrirem as
despesas com atendimentos psicológicos e a dificuldade de se conseguir tal
atendimento através do SUS, fica inviável a prescrição. Portanto, dificilmente um
médico irá sugerir ao seu paciente que busque ajuda psicoterápica, o mais comum é
o encaminhamento ao psiquiatra para um tratamento farmacológico.
No que diz respeito aos medicamentos e à interferência no desempenho do
trabalhador, segundo o médico, o ansiolítico freia os reflexos do indivíduo, e
infelizmente hoje em dia o consumo deste medicamento virou moda. Outro
medicamento muito utilizado também é o clorazepam ou rivotril, que é um
medicamento anticonvulsivante e com o uso verificou-se que também possui
propriedades ansiolíticas, ele bloqueia estímulos neuronais e quem o utiliza fica com
movimentos lentos, anda de pernas abertas e constantemente perde o equilíbrio. Tal
medicamento tem sido utilizado por pessoas que desejam perder peso.
Muitas vezes o sujeito em função do estresse do dia a dia começa a comer
compulsivamente e, quando cai em si, está com o peso acima do normal.
Geralmente, ou este sujeito apela para dietas mirabolantes, ou procuram um
médico, o que é o mais acertado, contudo acontece também desse sujeito ir com o
receituário pronto e o pior, há médicos que aviam tal receita. Este indivíduo sem
saber, já é uma vítima em potencial de acidente de trabalho. Esta situação pode ser
relacionada ao uso do mecanismo de defesa individual, como por exemplo, a
negação, onde o sujeito vê o aumento de peso para não ter que lidar com o estresse
ocupacional.
Na experiência do Dr. Canaan as válvulas de escape mais comuns que os
trabalhadores utilizam para aliviar as tensões diárias
são tabagismo, bebida
alcoólica, alimentação e o sono.
Segundo Seligmann-Silva (1994), o consumo de bebida alcoólica, muitas
vezes está relacionada a situações de trabalho, algumas pessoas recorrem à bebida
como recurso para relaxar e amenizar a tensão do dia a dia em função da pressão
sofrida pelo chefe, ou do risco laboral, ou alta exigência de responsabilidade,
situações constrangedoras, como também numa busca de satisfação para
compensar as frustrações profissionais, pessoais, afetivas ou de oportunidade de
lazer significativo. Muitos recorrem ao álcool como que para anestesiar a dor
psíquica.
5 SHOPPING CENTER, SUPER COMERCIO VAREJISTA
Comércio varejista de acordo com o Instituto do Observatório Social1 são os
estabelecimentos cuja atividade principal consiste na revenda de mercadorias a
varejo, geralmente sem transformação significativa, e na prestação de serviços
associados ou não com a venda no varejo. O comércio varejista representa o último
elo da cadeia de distribuição; os varejistas são, portanto, organizados para vender
mercadorias em pequenas quantidades ao grande público.
De acordo com Frank (2001), o surgimento do Shopping center se deu nos
Estados Unidos da América. No começo era o Country Club Plaza, de Kansas City.
Construído na década de 20, como parte de um vasto conjunto de bairros
residenciais, o Plaza foi o primeiro grande shopping center de periferia do mundo a
ser planejado como um todo.
Segundo o autor, no final da década de 50, o shopping center coberto e
fechado foi inventado por um promotor de vendas de Minneapolis, com a
preocupação de vender o máximo, mas também de proporcionar conforto durante os
rigorosos invernos do norte do país. Nos quarenta anos seguintes, essa idéia
rapidamente se espalhou por toda América, estendendo-se depois para o mundo
todo, sempre mais ou menos com o mesmo esquema de base: uma gigantesca
estrutura, estacionamentos suficientemente amplos, pelo menos duas marcas
famosas (entre elas, uma loja de departamentos de porte nacional) devem situar-se
nas extremidades da estrutura, com um espaço intermediário preenchido por
pequenas lojas; uma praça de alimentação que ofereça uma ampla escolha de fast
food aos consumidores; e uma ausência quase absoluta de decoração externa, uma
vez que todo o design arquitetônico inovador se concentra no espaço com ar
condicionado.
De acordo com Padilha (2006), aqui no Brasil os primeiros shoppings centers
se instalaram nos anos 60, seguindo o padrão americano. A expansão desse novo
modelo de vida e de urbanidade se deu efetivamente nos anos 80. A consolidação
1
O Instituto Observatório Social é uma organização que analisa e pesquisa o
comportamento de empresas multinacionais, nacionais e estatais em relação aos direitos
fundamentais dos trabalhadores.
O Observatório é uma iniciativa da CUT Brasil em cooperação com o CEDEC (Centro de
Estudos de Cultura Contemporânea), DIEESE (Departamento Intersindical de Estudos SócioEconômicos) e UNITRABALHO (Rede Inter-Universitária de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho).
do shopping center no Brasil foi concomitante ao crescimento populacional, à
proliferação da idéia desenvolvimentista e ao aumento do número de mulheres no
mercado de trabalho, o que gerou modificações nos hábitos de consumo dos
brasileiros.
Os primeiros shoppings brasileiros atenderam à camada da população mais
rica do país, oferecendo o consumo de luxo. A partir dos anos 1970 houve um
crescimento do setor de serviços e da produção industrial, além de um aumento do
consumo dos assalariados da chamada classe média.
Segundo informações extraídas da Associação Brasileira de Shopping centers
(Abrasce), 64% dos Shoppings Centers existentes no Brasil são na região Sudeste,
50% tem projetos de expansão, 93% abrem aos domingos. Numa pesquisa
realizada pela ABRASCE, 41% dos shoppings que funcionam todos os domingos
afirmaram ter havido um aumento de 10% no número de empregos gerados. Em
1966 existia apenas um shopping no Brasil; atualmente perfazem o total de 263,
sendo que 251 estão em operação e 12 em construção e só em Minas Gerais
existem 22, gerando 31.653 empregos.
O Shopping pesquisado foi inaugurado em 15 de setembro de 1991, com uma
estrutura de 82.000 m2 e 56.000 m2 de área construída, 2 pavimentos, 2 cinemas,
estacionamento para 3.000 carros, 4 lojas âncoras, 6 lojas satélites, gerando em
torno de 4.000 empregos diretos e 6.000 empregos indiretos. Na administração do
Shopping em questão, são 312 funcionários, com um turnover de 30% ao ano,
segundo informações obtidas através de entrevista com o coordenador de Marketing
da instituição.
Uma das questões colocadas para o entrevistado foi qual o motivo para se
construir um shopping center numa região de classe média baixa, uma vez que
naquela época não existia a canalização do córrego Cachoeirinha, o hotel cinco
estrelas, ou seja, as melhorias que foram realizadas após a inauguração do
shopping. A resposta foi que esta área já estava na mira para expansão. O projeto
iniciou em 1983 pelas incorporadoras OAS e Líder, além de alguns fundos de
pensão, pois os acionistas já vislumbravam o crescimento da área.
O entrevistado relata que o referido Shopping Center se mantêm no mercado
através do condomínio e um fundo de promoção (uma porcentagem sobre a venda
do mês de cada loja), além do aluguel das lojas. Este último é diferenciado de
acordo com tamanho da loja.
Entrevistamos também a funcionária da associação dos lojistas deste
Shopping Center. Segundo informações da mesma, há um índice muito alto de
adoecimento entre os funcionários do shopping.
Segundo a funcionária, quando as pessoas começam a trabalhar num
shopping elas acham interessantíssimo, elas vêem muita gente arrumada, bem
vestida, ficam todos encantados, contudo, com o passar do tempo, eles começam a
perceber que o trabalho não era bem como eles imaginavam. O trabalho é “muito
puxado”(sic), a carga horária é diferente e muito cansativa, todos têm de trabalhar
nos finais de semana, feriados, e as pessoas não têm tempo para a família. Isso
causa um desconforto muito grande, causando inclusive vários transtornos e
conflitos familiares, mas como estas pessoas precisam trabalhar, elas têm que se
submeter a isto.
Além disso, segundo a mesma, a qualidade de vida dentro de um shopping é
muito complicada, porque “uma coisa é passear, ir a lazer e outra bem diferente é
estar lá dentro várias horas, todos os dias. Há dias que parece não entrar uma
pessoas
sequer nas lojas, e os vendedores ficam aguardando de pé, com um
sorriso no rosto, é muito estressante”(sic).
A maioria dos lojistas não paga assistência médica para seus funcionários e
conforme a entrevistada, o ambulatório do Shopping Center pesquisado só atende
primeiros socorros. Além da inexistência de assistência médica, muitos também não
pagam o vale refeição, e alguns funcionários então levam marmita para almoçarem
ou jantarem no shopping. Na administração tem um refeitório onde as pessoas
podem esquentar sua comida, contudo, conforme declaração da entrevistada, não
há espaço suficiente para todas as pessoas se alimentarem, muitas assentam no
chão, ocorrendo que às vezes um colega ao retirar sua vasilha do “banho maria”,
deixa cair água quente naquelas pessoas que estão assentadas próximo ao local.
Segundo Dejours (2004), as condições de trabalho exprimem de modo
determinado a sociedade de que faz parte. O resultado da pesquisa coloca em
evidência o paradoxo existente entre o ambiente sofisticado de um shopping center
e as relações de trabalho, evidenciando o cenário acima exposto.
A precariedade do trabalho vem implicando em mudanças nas relações de
trabalho. Tal processo pode estar ocorrendo justamente pela constatação de que
hoje é possível o crescimento econômico sem a ampliação do número de empregos.
O medo pela perda do emprego é uma das causas pela qual o trabalhador se
submete a tais condições. As conseqüências do medo são, em primeiro lugar, a
perda do prazer de trabalhar e, em seguida, o desaparecimento da confiança nos
colegas. Além disso, o medo dá lugar à agressividade, ao ódio, ao rancor etc. O
medo faz sofrer. É preciso se defender. E as estratégias de defesa são difíceis de
construir e manter. Quando elas são solidamente constituídas, transformam
profundamente a personalidade desse trabalhador.
6 CONDIÇÕES DE TRABALHO, VIDA E SAÚDE EM UM SHOPPING CENTER:
A PESQUISA
6.1 Metodologia
A
pesquisa
bibliográfica
foi
baseada
nas
referências
teóricas
da
psicodinâmica do trabalho, privilegiando os autores C. Dejours e W. Codo, e a
pesquisa de campo foi utilizado como modelo de metodologia a pesquisa de Claro,
Botomé e Kubo (2003).
A metodologia utilizada foi a pesquisa de campo, que de acordo Santos
(2004), consiste em colher informações de um grupo de pessoas, o fator relevante
de tal pesquisa não é com o rigor estatístico, mas com o aprofundamento das
questões propostas; tem maior flexibilidade, podendo reformular seus objetivos no
decorrer do processo da pesquisa.
A pesquisa de campo se dividiu em duas etapas:
Primeira etapa: Utilizamos a técnica da entrevista semi-estruturada, para
reunir dados clínicos com profissional da medicina do trabalho, na busca de
conhecimento e interpretação sobre os sintomas físicos e psicológicos que
trabalhadores do comercio varejista apresentam.
Segunda etapa: utilizamos um questionário semi-estruturado com questões
relativas a dados objetivos, com características objetivas relativas a idade, gênero,
escolaridade, renda familiar e condições de trabalho que foi aplicado em
trabalhadores do comércio varejista de um Shopping Center da região metropolitana
de Belo Horizonte, no qual buscamos destacar a questão do adoecimento e das
estratégias defensivas nas relações estabelecidas.
De acordo com Lima (2003, p.83), é importante que se faça “uma análise das
condições de vida e de trabalho daqueles que fazem parte das categorias
identificadas, a fim de entendermos melhor seu significado” para só então agirmos
sobre elas.
Segundo Lima (2003), não é desejável um método para subsidiar nossas
investigações e nossa prática no campo da Psicologia do Trabalho. Ao contrário,
devemos dirigir nosso olhar em direção ao que queremos analisar e pesquisar com a
nossa lógica sem ficar preso a qualquer idéia apriorística sobre o assunto. O correto
é começar pelo real, pelo concreto para depois chegarmos às abstrações, às
generalizações. Portanto, é o próprio objeto que nos fornece as direções ou o
caminho para conhecê-lo a fundo. Seria conveniente também, levar em conta que o
conhecimento é mutável e perecível, pois ele é provisório.
E para tanto é importante que se faça uma analise ergonômica do trabalho
para se apreender o trabalho real, através da observação direta dos sujeitos em
situação de trabalho, através da exploração das condições concretas de realização
das atividades, para se compreender o espaço social do trabalhador. E também uma
análise Psicossocial do Trabalho, apoiado no discurso do trabalhador , para que se
possa resgatar suas histórias de vida e seus históricos operacionais na empresa,
além de analisar os significados que atribuem ao trabalho, às relações interpessoais,
às pressões psicológicas que são submetidos e às defesas que elaboram contra
elas.
Ambas se complementam e só com a sua interação se tem uma
compreensão do todo, mais completa e que vai além das questões imediatas,
ultrapassando a materialidade do aspecto laboral.
Faz-se importante esclarecer sobre o foco desta análise, que visa o processo
de produção, da socialização para saber se o trabalhador tem consciência de sua
atividade e que ela é orientada para um propósito, uma finalidade.
O trabalho e as formas de trabalho são situados em um momento histórico,
político, econômico e social, o psicólogo necessita se desarmar de preconceitos e de
métodos utilizados por outros. Só assim o profissional poderá perceber com clareza
tudo que esta acontecendo ao seu entorno, naquele momento, para adquirir
conhecimento mais profundo sobre o assunto, tendo em vista de que o trabalho é
um processo, sempre em movimento, e, portanto, trataremos dessa psicodinâmica
do trabalho.
6.2 Sujeitos
Foram entrevistados 10 funcionários de comércio varejista que trabalham com
atendimento direto ao cliente em lojas que fazem parte do Shopping em questão.
Do total, 06 eram mulheres e 04 homens. A média de idade foi de 34 anos e 3
meses, variando em uma faixa de 19 a 63 anos de idade. A maior incidência de
sujeitos foi na faixa de 24 a 30 anos.
Quanto ao grau de escolaridade dos sujeitos, todos eles possuíam até o 2º
grau completo.
6.2.1 Situação e ambiente
As observações diretas e as entrevistas foram feitas nos locais de trabalho,
durante os meses de julho, agosto, setembro e outubro. Os locais onde foram feitas
as pesquisas faziam parte das instalações concentradas em forma de shopping
center.
6.2.2 Equipamento e material
Nas observações diretas foram utilizadas folhas de registro e relógio para
controlar o tempo total de observação dos comportamentos dos sujeitos.
Para as entrevistas foi utilizado um roteiro contendo perguntas semiestruturadas, enfocando saúde, trabalho e características pessoais.
6.2.3 Procedimento
a) Escolha dos sujeitos
Foram escolhidos como sujeitos 10 (dez) funcionários de comércio varejista
que trabalham com atendimento direto ao cliente. Os sujeitos foram selecionados
considerando a diversidade de ramos dessa atividade: comércio de confecções
(masculina, feminina, infantil, cama/mesa/banho), acessórios, esportes, papelaria,
ótica, moda íntima, brinquedos.
Os trabalhadores varejistas cujos comportamentos na loja foram observados
diretamente foram escolhidos por estarem na loja no horário das observações. Cada
um dos sujeitos escolhidos pertencia a uma loja; dessa forma, os distintos
segmentos comerciais foram representados.
Os
sujeitos
observados
não
necessariamente
foram
os
mesmos
entrevistados.
6.3 Coleta de dados
As técnicas de coletas de dados utilizadas foram a observação direta e a
entrevista semi-estruturada.
A técnica de observação escolhida foi a de registro contínuo cursivo
registrando o que ocorria na situação, obedecendo à seqüência temporal em que os
fatos se davam, com o intuito de caracterizar os comportamentos apresentados por
um trabalhador dentro da loja, nos períodos em que havia e não havia clientes para
serem atendidos. Os dias escolhidos para fazer as observações foram aleatórios, no
período da tarde, o tempo de cada observação foi de aproximadamente 30 minutos.
Foram feitas 05 observações com vários sujeitos em cada loja observada.
As entrevistas foram realizadas com posteridade às observações direta, em
diferentes dias da semana. Foi utilizado como instrumento, um conjunto de questões
estandardizadas que obedeceram a uma ordem invariável à totalidade dos sujeitos e
cuja natureza das questões dizia respeito à informação sobre
características
pessoais (idade, escolaridade, moradia, etc), de trabalho (horas de trabalho, folgas,
etc) e sobre condições de saúde ( horas de sono diário, pratica de esporte,
alimentação, etc). Os sujeitos contatados para serem entrevistados aceitaram e se
interessaram em responder às perguntas; cinco entrevistados solicitaram permissão
ao gerente para responder o questionário; apenas em uma loja visitada, os
funcionários não mostraram interesse e disposição para responder às perguntas.
6.3.1 Elaboração das categorias de comportamentos
Os diferentes tipos de comportamentos observados foram agrupados em
categorias, obedecendo ao critério de funcionalidade. Dessa forma, cada categoria
envolveu um grupo de comportamentos apresentados pelos funcionários de
comércio.
6.3.1.1 Na ausência de clientes
Distrair-se
Ler revistas, escrever, conversar por telefone, conversar com o colega, ouvir
música, jogo da velha, adedanha.
Esperar
Ficar de pé, apoiar-se no balcão, sentar-se.
Locomover-se
Andar dentro da loja, sair da loja e andar no corredor, andar atrás do balcão
Relacionar-se consigo mesmo
Pentear-se, olhar-se no espelho, experimentar brincos, maquiar-se, apertar
espinhas no rosto, mexer nas unhas.
Arrumar a loja
Dobrar mercadorias, retirar mercadorias da prateleira e cabides, limpar a loja,
arrumar vitrine, organizar os produtos expostos, remarcar preços.
Alimentar-se
Comer atrás do balcão, beber dentro da loja.
6.3.1.2 Na presença de clientes
Atender prontamente
Ir ao encontro do cliente; levantar-se rapidamente para atender o cliente;
cumprimentar imediatamente o cliente ao entrar na loja.
Não atender
Ficar sentado enquanto o cliente olha os produtos, continuar com outra atividade
sem dar atenção ao cliente, ficar conversando com o colega.
Vender
Mostrar mercadoria: procurar outras mercadorias, ver o preço dos produtos, cobrar,
embrulhar o produto.
Interagir com o cliente
Conversar com o cliente assuntos não relacionados com a venda, rir junto com o
cliente.
6.4 Resultados e discussão
Os dados obtidos por
meio de entrevistas realizadas com 10 (dez)
funcionários de comércio de um Shopping Center da região metropolitana de Belo
Horizonte e de observações diretas de comportamentos de funcionários desse
mesmo local serão apresentados em tópicos: 1. Características pessoais, 2.
Características das condições de trabalho, 3. características das condições de
saúde e 4. características das relações interpessoais.
6.4.1 Características pessoais
Foram entrevistados 10 (dez) funcionários, 60% do sexo feminino e 40% do
sexo masculino. 50% são casados, 10% viúvo, 10% divorciado e 30% solteiros.
Sendo que 90% residem em casa própria e 10% residem em casa de aluguel.
Por meio dos dados coletados foi possível verificar que a maioria dos
pesquisados
possui
boas
condições
de
moradia.
Contudo
existe
pouca
probabilidade de que os trabalhadores possuam tal moradia como conseqüência
direta do nível salarial.
6.4.2 Características das condições de trabalho
O tempo de casa no emprego atual, tempo da jornada de trabalho, comissões
sobre as vendas realizadas e o nível salarial dos entrevistados estão apresentadas
na tabela 1 abaixo.
No que diz respeito ao tempo de casa, a maior proporção (50%) dos
entrevistados está na empresa entre 6 (seis) e 10 (dez) anos, 30% de 1 (um) ano a
3 (três) anos e 20% há menos de 1 (um) ano.
Em relação à quantidade de horas dedicadas ao trabalho, 50% trabalham
durante seis horas e 50% dedicam oito horas no trabalho. Vale ressaltar que uma
das entrevistadas relatou que no contrato reza apenas seis horas, mas desde que
iniciou trabalha 8 (oito) horas diárias. No que se refere ao intervalo para descanso
os 50% que trabalham 8 (oito) h/dia, descansam durante 1 (uma) hora por dia. Já os
funcionários que a jornada é de 6 (seis) h/dia, 30% fazem 30 (trinta) minutos de
intervalo, 10% 15 (quinze) minutos e 20% não têm nenhum momento para repouso.
Vale ressaltar que de acordo com a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas)
Art. 71, considera que:
em qualquer trabalho contínuo, cuja duração exceda de 6 (seis) horas, é
obrigatório a concessão de um intervalo para repouso ou alimentação, o
qual será no mínimo de 1 (uma) hora e salvo acordo escrito ou contrato
coletivo em contrário, não poderá exceder de 2 (duas) horas.
& 1º Não excedendo de 6(seis) horas o trabalho será, entretanto, obrigatório
um intervalo de 15 (quinze) minutos quando a duração ultrapassar 4
(quatro) horas.
Quanto aos níveis salariais auferidos pelos entrevistados, conforme os seus
relatos, 70% recebem entre um a três salários mínimos, e 30% auferem entre três e
seis salários. Do total de pessoas entrevistadas, 100% relatam receber comissões
sobre as vendas.
Tabela 1: Ocorrências de respostas sobre o tempo de emprego no local, horas da jornada de
trabalho, recebimento de comissões sobre as vendas e o nível salarial.
Tempo
de casa
Ocorrência
(%)
Horas de
trabalho
Ocorrência
(%)
Comissões
sobre venda
Ocorrência
(%)
De 6 a
10 anos
De 1 a 3
anos
Menos
de 1
ano
50
6 horas
50
Sim
100
30
8 horas
50
Não
-x-
Nível
salarial
De 1 a
3 SM
De 3 a
6 SM
Ocorrência
(%)
70
30
20
O modo de trabalhar na empresa atual em relação a anterior, baseada na
pesquisa, 70% dos funcionários respondeu que existe diferença, 20% se absteram
em responder e 10% disse que não havia nenhuma diferença entre a empresa atual
e as anteriores.
Em relação à freqüência com que o chefe solicita opinião sobre o trabalho, a
grande maioria relata que o gerente solicita a sua opinião e apenas 10% não são
solicitados. De acordo com os relatos, todos os entrevistados são controlados
através de observação direta, relatórios de venda e resultados, 90% dos
entrevistados têm uma cota a cumprir e apenas 10% não tem, apesar de receber
comissão sobre as vendas. Quanto a relação entre funcionários e gerência, 60%
disseram ser ótima, 30% boa e 10% razoável. A tabela 2 apresenta um resumo
desses dados. Percebe-se aqui que há um movimento em direção a buscar a
cooperação do empregado e envolvimento com o trabalho.
De acordo com Dejours (2004), a cooperação exige relações de confiança
entre os indivíduos, isto é, entre colegas, chefes e subordinados e etc. Hoje em dia
a confiança é para além da ordem do psicoafetivo, mas da construção de acordos,
normas e regras que se enquadram na maneira que se executa o trabalho. Desta
forma a cooperação só é possível se for do desejo do trabalhador.
Segundo o autor, para a realização e execução da tarefa, o trabalhador
dependerá de esforços de inteligência, de elaboração para construção de opiniões,
para se inteirar e participar do debate de opiniões dentro da organização do
trabalho, ou seja, “a mobilização subjetiva manifesta-se com grande força na
maioria das pessoas saudáveis” (DEJOURS, 2004 p.70). Mas para que ocorra esta
mobilização subjetiva, irá depender da contribuição e retribuição, o trabalhador
espera ser reconhecido na realização das suas tarefas, e quando isso não ocorre à
tendência é desmobilizar-se.
Tabela 2: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre o modo de trabalhar na empresa atual em
relação a anterior, a freqüência com que o chefe solicita suas opiniões, freqüência de entrevistados
que tem cota a cumprir e a relação com a gerência
Modo
de
trabalhar na
empresa
atual
em
relação
a
anterior
Há diferença
Não
há
diferença
Não
responderam
Ocorrência
(%)
Chefe
solicita
suas
opiniões
Ocorrência
(%)
Cotas
a
cumprir
Ocorrência
(%)
70
10
SIM
NÃO
90
10
SIM
NÃO
90
10
20
relação
com
a
gerência
Ocorrência
(%)
Ótima
Boa
60
30
Razoável
10
Em relação às condições que mais afetam a execução do trabalho,
constatamos que 80% dos entrevistados afirmam que o trabalho aos domingos é
muito desgastante, 20% acreditam que deveria haver uma maior comunicação na
empresa, 10% afirma que é essencial o incentivo concreto para que haja maior
motivação entre os funcionários,
20% informaram que às vezes a falta de
mercadoria prejudica nos resultados a serem atingidos, 10% reclamou do
pagamento atrasado, e todos se queixaram do movimento fraco do comércio
ultimamente.
O trabalho ocupa também um lugar fundamental na dinâmica do investimento
afetivo das pessoas. Condições favoráveis à livre utilização das habilidades dos
trabalhadores, ao controle do trabalho pelos trabalhadores e que ofereça o suporte
social necessário, entre outras características, têm sido identificadas como
importantes requisitos para que o trabalho possa proporcionar prazer, bem-estar e
saúde, deixando de provocar doenças. Por outro lado, o trabalho desprovido de
significação, o trabalho não reconhecido ou que se constitua em fonte de ameaça à
integridade física e/ou psíquica pode desencadear sofrimento psíquico.
Nesse sentido, acreditamos que os aspectos citados pelos entrevistados
contribuem para o desencadeamento de sofrimento psíquico. Vale ressaltar o
impacto que o contexto econômico na atualidade (“movimento fraco”) também tem
sobre esse sofrimento.
Apesar dessas condições, a maioria relata que se sentem satisfeitos com o
seu trabalho, pois
40% dos entrevistados julgaram estar muito satisfeito, 50%
satisfeito e apenas 10% insatisfeito.
No que tange aos fatores de risco mencionados pelos entrevistados, a maioria
considera que o trabalho em um Shopping center não implica em nenhum fator de
risco, 30% acredita que o ar condicionado, 10% as luzes e 20% o estresse físico
(desgaste físico) e emocional (pressão), provocam danos à saúde, considerando-os
como fatores de risco à saúde.
Seligmann-Silva (1994), afirma que existem elementos do ambiente de
trabalho que assumiram uma influência importante na produção do mal estar no dia
a dia do trabalhador. É possível que os entrevistados que não vêem fatores de
riscos no trabalho podem não estar se dando conta disso pela “naturalização” das
condições físicas num shopping.
A seguir, alguns fragmentos relativos a estes aspectos:
“o ar condicionado do shopping me faz muito mal, vira e mexe tenho
sinusite e gripe, este ambiente fechado e o ar condicionado ligado...”(sic).
“ esta luz forte muito perto do rosto da gente, teve uma cliente que era
médica e me disse que tenho que usar filtro solar todos os dias, senão pode
causar até câncer de pele...”(sic).
“ficar de pé o dia todo, é muito cansativo, já fiz até cirurgia de veia...”(sic).
De acordo com Santos (2004, p.47), o sujeito trabalhador não passa
simplesmente de um estado de saúde para o estado de doença. Estas mudanças
ou alterações sofrem influência de todos os fatores de riscos existentes na
sociedade. Entendendo por risco “a combinação da probabilidade de ocorrência e a
magnitude de um processo indesejado. (...) as causas são denominadas fatores ou
situações de risco.”.
O índice de entrevistados que se sentem frustrados quando não realizam
nenhuma venda é de 90% e somente 10% afirma saber lidar com esta frustração,
acreditando que é preciso estar preparado para situações como esta.
O trabalho provoca diferentes graus de motivação e satisfação no trabalhador,
principalmente, quanto à forma e o local onde ele desempenha a tarefa. À medida
que o indivíduo está inserido no contexto organizacional, ele se encontra sujeito a
diferentes variáveis, que afetam diretamente o seu trabalho.
Atualmente, existe uma preocupação na saúde do indivíduo neste contexto,
pois está relacionada diretamente com a produtividade da empresa. Ou seja, para
que se atinja a produtividade e a qualidade na empresa, é necessário que se tenha
empregados saudáveis e motivados com seu trabalho. Todos os entrevistados estão
submetidos à produtividade, seus salários estão vinculados a um número “x” de
cotas preestabelecidas. É preciso considerar que entre as diversas variáveis que
afetam a motivação, além das próprias da organização do trabalho, como comissão
e cotas, temos a situação da economia no Brasil, como já mencionado.
De acordo com Dejours (2000, p.40), o autocontrole nos moldes japoneses
“constitui um acréscimo de trabalho e um sistema diabólico de dominação autoadministrado”. Uma questão que podemos levantar é sobre as conseqüências de um
impacto negativo na qualidade e na produtividade que o medo pode causar.
Segundo o autor, as pressões sociais do trabalho é uma causa freqüente de
sofrimento, quando o ambiente social é ruim, cada um trabalhando por si, onde não
há cooperação, colegas criando obstáculos, sonegação de informações, tudo isso
contribui para o adoecimento do trabalhador e para a construção de estratégias
defensivas.
Os entrevistados apontaram algumas vantagens que encontram no seu
trabalho, sendo que as que mais apareceram foram a segurança do ambiente de
shopping center, a jornada reduzida de seis horas/dia, o salário recebido para seus
sustento, o conhecimento adquirido, as relações interpessoais, o reconhecimento e
a valorização profissional, além da realização pessoal.
As desvantagens citadas foram: o trabalho aos domingos e feriados, “jornada
de trabalho muito puxada”(sic), não ter tempo para o lazer, a monotonia de “ficar
parada o tempo todo”(sic) esperando cliente, desgaste físico e emocional, o espaço
fechado e “não saber o que se passa lá fora”(sic), tempo longe da família, se sente
“preso e limitado” (sic).
De acordo com os entrevistados, satisfação no trabalho é “fazer aquilo que
gosta”(sic), conseguir dar o melhor de si e ver os resultados, fazer algo de útil,
realizar seus objetivos e projetos de vida. Já insatisfação no trabalho é “fazer aquilo
que não gostam, por obrigação, porque precisa” (sic), trabalhar se sentindo
constrangida, falta de reconhecimento, “quando não consegue vender e sair mais
tarde”, “não atingir as metas”(sic), não ter qualidade de vida.
Os pesquisados consideram o ambiente de trabalho um lugar bom de se
trabalhar, apenas um considera razoável, uma vez que tem muito desentendimento
e fofocas entre colegas.
Em relação ao trabalho em shopping center, 50% relataram ser bom de
trabalhar, considerando um ambiente agradável, que tem pouca poluição, convive
com pessoas com poder aquisitivo melhor e agrega conhecimentos. Os outros 50%
dos entrevistados afirmaram que a “qualidade de vida cai muito, a vida social é
quase zero, (...) resumindo é uma escravidão” (sic) acham muito cansativo e
“desgastante, além de prender e não ter liberdade para fazer nada, uma vez que não
sobra tempo para nada” (sic) .
Percebe-se aqui entre os entrevistados uma contradição e ambigüidade, uma
vez que enquanto metade dos entrevistados gosta de trabalhar dentro de um
shopping, considerando-o um ambiente agradável e glamouroso, além de seguro, os
demais relatam que se sentem prisioneiros, pois não tem liberdade, lazer e vida
social.
Diante disso surge uma questão: será que esses entrevistados que admiram
tanto trabalhar no shopping não estariam também utilizando estratégias defensivas,
na medida em que gostam tanto, mas ao mesmo tempo questionam o excesso de
trabalho, prazos e cotas a cumprir, ou até a monotonia da espera, e ainda relatam
sobre a insônia, ansiedade e dores constantes nos pés e nas pernas?
Podemos perceber que alguns pesquisados estão utilizando estratégias
defensivas individuais, como os casos de uma vendedora que relatou “saio para
dançar, faço academia e tenho uma alimentação balanceada”(sic), isto porque
estava tendo muitas dores musculares e sofrendo de pressão alta, ou outro que se
isola dos colegas e fica pensativo quando está estressado pois tem consciência "que
minha personalidade muda um pouco"(sic).
O fato das lojas possuírem poucos funcionários favorece para a construção
de estratégias defensivas individuais, confirmando o que os teóricos afirmam quanto
a utilização das estratégias defensivas, como mencionado anteriormente.
6.4.3 Características das condições de Saúde
As condições de saúde dos trabalhadores entrevistados foram caracterizadas
segundo informações fornecidas em relação ao absenteísmo, disposição para
tarefas domésticas, horas de sono diárias, qualidade do sono (freqüência com que
acordam durante a noite), quantidade de refeições e tipos de alimentos consumidos,
atividades que realizam em dias de folga, freqüência de prática desportiva e em
relação a tipos e freqüência de problemas ou desconfortos de saúde.
De acordo com os entrevistados 100% não faltam ao trabalho, salvo motivo
grave. A maior proporção de indicação em relação à disposição de tarefas após a
jornada de trabalho foi de “cansada, mas disposta” (50%), 30% deles relatam ter
disposição (grau médio inferior de disposição) para tarefas de casa depois de
chegar do trabalho e 20% relatam indisposição para tarefas domésticas e prática
de esportes.
Na tabela 3 estão apresentadas a quantidade de sono relatada pelos
trabalhadores, bem como a qualidade do sono, avaliada pela freqüência com que
acordam durante a noite. 50% deles costumam ter oito horas diárias de sono, 10%
cinco, 10% seis horas, 20% sete horas e 11 horas 10%. Em relação à freqüência
com que acordam durante a noite, 40% relatam que nunca acordam, 30% acordam
pouco e 30% indicam que acordam com freqüência durante a noite.
Tabela 3: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre a quantidade de horas de sono diárias e a
qualidade do sono avaliada pela freqüência com que acordam à noite.
Horas de sono diárias
5 horas
6 horas
7 horas
8 horas
11 horas
Ocorrência
(%)
10
10
20
50
10
Qualidade do sono
Acordar à noite
Frequente
Pouco
Nunca
Ocorrência
(%)
30
30
40
Na tabela 4 estão apresentadas as percentagens de indicações relacionadas
à quantidade de refeições diárias.
O tipo de alimento mais consumido foi o tipo caseiro para a refeição principal,
entretanto 100% dos entrevistados relatam consumir lanches (salgados, chips,
bolos, pizza, sanduíches, refrigerante, suco e etc) diariamente nas demais refeições.
Em relação as estratégias mais utilizadas para escapar das tensões diárias,
os entrevistados relacionaram: dar uma volta pelo shopping e as conversas com
amigos para desabafar (50%), 10% sugere algum tipo de comida e/ou chocolate,
10% utiliza bebida alcoólica, 10% toma café, 10% se isola dos colegas e 10%
arrumar a loja.
Tabela 4: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre a quantidade de refeições diárias
Quantidade de refeições diárias
1 refeição por dia
2 refeições por dia
3 refeições por dia
4 refeições por dia
5 refeições por dia
Ocorrência (%)
10
30
20
30
10
A tabela 5 apresenta as percentagens de indicações relativas às atividades
mais estressantes com relação ao trabalho, ressaltando que cada entrevistado
poderia dar mais de uma resposta. 60% indicaram como fator de estresse os prazos
a cumprir, 30% o excesso de trabalho, 30% horas extras, outros 30% atividades
monótonas e 10% novos desafios.
Tabela 5: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre as atividades mais estressantes em relação
ao trabalho e com relação aos aspectos da saúde os sintomas mais freqüentes
Atividades estressantes
Atendimento ao público
Telefonemas
Excesso de trabalho
Prazos a cumprir
Atividades monótonas
Horas extras
Desafios
Novas responsabilidades
Freqüente
0
0
30
60
30
30
0
0
Ocorrência (%)
Pouco
Nunca
0
100
0
100
30
40
40
0
40
30
0
70
10
90
0
100
Em relação aos aspectos da saúde, a tabela 6 apresenta a ocorrência desses.
Os sintomas mais freqüentes indicados pelos pesquisados foram: 60% dores
musculares e 40% ansiedade, 20% irritabilidade, 20% fadiga, 20% perda de
memória, 20% dor de cabeça, 20% insônia e 10% depressão. Acreditamos que a
predominância das dores musculares seja devido às condições do trabalho no
comércio, que é a de permanecer muitas horas em pé.
Tabela 6: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre os aspectos da saúde e os sintomas mais
freqüentes
Aspectos de saúde
Irritabilidade
Fadiga
Perda de memória
Enxaqueca
Dor de cabeça
Insônia
Ansiedade
Dores musculares
Depressão
Segundo
Freqüente
20
20
20
0
20
20
40
60
0
Selligmann-Silva
Ocorrência (%)
Pouco
Nunca
10
70
0
80
10
70
0
100
10
70
40
40
10
50
10
30
10
90
(1994),
a
irritabilidade
e
a
insônia
são
manifestações da fadiga crônica. Situações variadas como um fracasso, um
acidente de trabalho, instabilidade financeira, uma mudança de posição (ascensão
ou queda) na hierarquia numa carreira profissional, freqüentemente determinam
quadros psicopatológicos diversos, desde as reações ao estresse, dores musculares
até depressões graves, variando segundo características do contexto da situação e
do modo do indivíduo responder a elas.
6.4.4 Características das relações interpessoais
As relações interpessoais foram caracterizadas segundo informações
fornecidas em relação aos amigos, contato com pessoas estranhas, número de
pessoas que residem com o entrevistado, quanto tempo passa com a família, com
os colegas e a freqüência que se reúne com esses.
Relacionado com o sentimento de incômodo de o entrevistado estar o tempo
todo conversando com pessoas estranhas, 90%
afirma que não se sente
incomodado e que “até gosta de conversar com gente nova”(sic), apenas 10% disse
não gostar muito. Em relação ao contato com amigos fora do ambiente de trabalho,
todos afirmaram ser boa, mas apenas 20% relataram que encontram sempre, 80%
quase não encontram, dizendo que o contato é por telefone, conforme alguns
relatos:
“Só por telefone”, ou, “Não tenho tempo”, ou, “a relação é ótima, eu ligo
sempre”, ou ainda, “é ótima, mas não é constante, pois o fato de trabalhar
no shopping consome muito tempo e o que sobra é para ficar com a
família”(sic).
Na tabela 7, estão apresentados os dados sobre a quantidade de pessoas
com que os entrevistados moram e o tempo compartilhado com a família. É possível
notar que 80% dos entrevistados
vivem em família de até três pessoas, e os
restantes constituem famílias de quatro a cinco pessoas. A proporção de tempo
compartilhado com a família, 40% dos entrevistados dedicam de quatro a seis horas,
30% entre duas a quatro horas, 20% menos de duas horas. A proporção de pessoas
que dedicam mais de seis horas com a família é de 10% da amostra.
Tabela 7: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre a quantidade de pessoas com que moram e o
tempo compartilhado com a família
Quantidade de
pessoas com que
moram
Até 3 pessoas
De 4 a 5 pessoas
Ocorrência
(%)
80
20
Tempo
compartilhado
com a família
Menos de 2h
2h a 4h
4h a 6h
Mais de 6h
Ocorrência
(%)
20
30
40
10
Podemos notar aqui a tendência na sociedade para a constituição de famílias
menores do que há alguns anos atrás.
Na tabela 8, estão apresentadas a freqüência com que os trabalhadores se
reúnem com seus colegas fora do ambiente de trabalho, 60% relatam que se
encontram pouco, 20% que se reúnem com mais freqüência e 20% que nunca se
encontram fora do ambiente de trabalho. E em termos da relação com os colegas no
ambiente de trabalho, 80% afirmam ser ótima a relação e 20% ser boa.
Tabela 8: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre a freqüência com que se reúnem com os
colegas fora ambiente laboral e a relação com os colegas no ambiente de trabalho.
freqüência com que se
reúnem com os
colegas fora trabalho
Sempre
Freqüente
Pouco
Nunca
Ocorrência
(%)
20
60
20
relação com os
colegas no ambiente
de trabalho
Ótima
Boa
Razoável
Ruim
Ocorrência (%)
80
20
O convívio social com os colegas de trabalho é pouco freqüente, o que pode
significar que os entrevistados não estabelecem relações muito significativas no
ambiente de trabalho, estando a família e amigos preenchendo satisfatoriamente
essa necessidade até o momento.
Segundo Lima (1994), existe uma estreita relação entre a função afetiva
preenchida pela família e o tipo de relação que o sujeito estabelece com a empresa
na qual trabalha. De acordo com estudos da autora, os sujeitos que viveram
relações originárias pouco afetivas na família, tentam recriar o afeto com a empresa
na qual trabalha.
Seligmann-Silva (1994, p.195), afirma que nesta interface família/trabalho “há
um fluxo em que a subjetividade desloca experiências familiares para o mundo do
trabalho” .
Pode-se notar que a grande maioria dos entrevistados se dedica às suas
famílias e compartilham com elas boa parte do dia. Apesar de cansados,
principalmente, quando se referem ao trabalho nos dias de domingo, os sujeitos
dizem sentir-se satisfeitos com seu trabalho, mesmo que o trabalhar fora signifique
um acúmulo de papeis e tarefas. A satisfação no trabalho pode ter relação com a
assimilação de que o fato de estar empregado é, em si mesmo, um benefício,
independentemente do conteúdo e das condições do mesmo.
6.5 Discussão dos dados
Com base nos resultados, pode-se observar que esse grupo de trabalhadores
vivencia tanto o prazer quanto o sofrimento no trabalho.
As vivências de sofrimento parecem mais associadas ao não cumprimento
das metas preestabelecidas, pela falta de reconhecimento, de fazer o que não gosta
ou ainda quando o relacionamento interpessoal não está adequado.
Tal configuração, a partir dos pressupostos do modelo teórico, leva-nos a
inferir que no grupo de trabalhadores há um processo de amplificação ou até mesmo
imposição de estratégias defensivas. Certos tipos de mecanismos de defesa, tais
como a idealização, identificação, recusa da realidade, repressão e etc., assim
também comportamentos defensivos como individualismo, por exemplo, parecemnos adotados com esforço pelos entrevistados para responder às pressões típicas
dessa categoria de trabalhadores. Essas pressões são, essencialmente, as
exigências excessivas de produtividade e de qualidade, a forte competição entre os
pares e de mercado e as contradições, além do imperativo de autosuperação. É
importante esclarecer que a intensificação de mecanismos de defesa é considerada
como elemento importante nos processos de ruptura da estabilidade psíquica, o que
reforça nossa hipótese de que o trabalho em um shopping center envolve riscos
mentais significativos.
Em função dos conflitos e sofrimentos, partes significativas do conhecimento
sobre a realidade são cindidas e negadas, ocasionando a alienação. O sentido dado
ao trabalho por parte dos vendedores pesquisados, é produzido por ideais baseados
no mercado econômico, atravessado por contradições, alienação e por uma
superficialidade na forma de interpretação das próprias vivências.
Já a vivência de prazer no trabalho é caracterizada pela satisfação de fazer o
que gosta, quando o sujeito se sente útil, ao cumprir as metas impostas pelo patrão.
Uma questão revela-nos um paradoxo na resposta dos entrevistados que
estavam muito satisfeitos no trabalho, diz respeito ao fato de se sentirem irritados,
com dores de cabeça, insônia e dores musculares freqüentes.
Evidente que há mais perguntas do que respostas, já que o estudo é mais
uma aproximação do fenômeno do que uma investigação do mesmo. Mas há
considerações que podem ser relevantes para tentar entender tais características. A
cultura de shopping center pode ser uma das explicações para o alto índice de
satisfação indicado pelos entrevistados. Claro, Botomé e Kubo (2003), citando
Frúgoli, ressaltam que os shoppings centers estão perpassados por significados e
relacionam a sociabilidade que ali se estabelece com um jogo simbólico, ou uma
forma lúdica de interação e associação, onde as diferenças sociais são
reelaboradas. Isto fica claro numa citação de um entrevistado quando o mesmo diz
que se sente privilegiado de trabalhar onde trabalha, uma vez que “quem freqüenta
shopping tem potencial maior, são pessoas cultas e pode trazer conhecimento,
ajuda na postura”(sic). Verifica-se que a percepção é de que trabalhar em um
shopping center tem mais “glamour” do que no comércio aberto (nas ruas). A
aparência é muito relevante neste ambiente, desta forma, é importante que os
vendedores também tenham uma aparência de sofisticação necessária para manter
uma identidade coletiva configurada pela seletividade e pela sofisticação.
Deve-se ainda destacar a importância da formação do coletivo para a
elaboração e superação do sofrimento relacionado ao contexto de trabalho,
elaboração esta que, muitas vezes, sucumbe às estratégias individuais. Nem
sempre os trabalhadores proativos e assertivos conseguem enfrentar o sofrimento
advindo das relações de trabalho, caracterizadas pela socialização, interação e
compartilhamento da relação com o outro. Nesse sentido, o sofrimento é vivido de
modo particular, mas se manifesta de forma coletiva, em função da categoria
profissional estar submetida às mesmas condições e organização do trabalho.
Como forma de enfrentar essa sobrecarga, alguns entrevistados fazem uso
de alternativas externas ao ambiente de trabalho, tanto através de meios
psiquicamente saudáveis de enfrentamento, como atividades físicas, quanto através
de comportamentos de fuga ao sofrimento, ignorando-o por meio de justificativas
lógicas e coerentes. Assim, essa forma de enfrentar o sofrimento mostra a utilização
pelos vendedores do mecanismo de defesa da racionalização, como por exemplo:
“aqui sou respeitado como um acionista”(sic) “não estou dormindo bem, eu
sou muito ansiosa” (sic), “me dou ao luxo de ter um carro bom, morar num
bairro classe A, tenho crédito em bancos, nome limpo, posso ir à praia uma
vez por ano, além disso a empresa paga metade do plano de saúde” (sic).
A utilização desse mecanismo de defesa já era esperada, visto que a
racionalização é uma defesa secundária, que pode ser consciente e coletiva. Tal
defesa relacionada ao trabalho, tem como objetivo a adaptação às condições
dolorosas das situações adversas. Portanto, a racionalização é uma das defesas
mais utilizadas e apropriadas para o enfrentamento do sofrimento gerado no
ambiente de trabalho.
8 CONCLUSÃO
O trabalho e as relações de trabalho permeiam a vida dos homens de todos
os séculos. Novas teorias têm surgido dando novos conceitos ao trabalho, que este
seja concebido como experiência de convivência sadia, respeito, compromisso,
gratificação, produção, reconhecimento e que contribua na qualidade de vida do
cidadão.
O atual quadro econômico mundial, em que as condições de insegurança no
emprego, sub-emprego e a segmentação do mercado de trabalho são crescentes,
reflete-se em processos internos de reestruturação da produção, enxugamento de
quadro de funcionários, incorporação tecnológica, repercutindo sobre a saúde
mental dos trabalhadores.
O trabalho é responsável tanto pela saúde quanto pelo adoecimento mental
do trabalhador. Para lidar com o sofrimento o trabalhador desenvolve estratégias
defensivas construídas individualmente ou coletivamente.
O trabalho ocupa também um lugar fundamental na dinâmica do investimento
afetivo das pessoas. Condições favoráveis à livre utilização das habilidades dos
trabalhadores, ao controle do trabalho pelos trabalhadores e que ofereça o suporte
social necessário, entre outras características, têm sido identificadas como
importantes requisitos para que o trabalho possa proporcionar prazer, bem-estar e
saúde, deixando de provocar doenças. Por outro lado, o trabalho desprovido de
significação, o trabalho não reconhecido ou que se constitua em fonte de ameaça à
integridade física e/ou psíquica pode desencadear sofrimento psíquico.
O reconhecimento é a própria dinâmica do aparelho psíquico. O trabalho é um
dos instituintes da subjetividade e da identidade do sujeito. Quando não há o
reconhecimento, instaura-se o sofrimento psíquico ou mesmo somático. E de acordo
com Dejours (2004), entre sofrimento e doença podem intercalar-se as estratégias
defensivas.
O trabalho como fonte de prazer, sofrimento e definidor da identidade social,
conforme estudos teóricos, foi confirmado na presente pesquisa. Diante disso,
podemos concluir que o valor atribuído ao trabalho como alternativa de
sobrevivência e dignidade, exercem papeis fundamentais na dinâmica de
enfrentamento das situações de trabalho que propiciam o sofrimento mental do
trabalhador.
O ambiente de trabalho – o glamour do Shopping Center – influencia
na constituição da subjetividade do trabalhador. Os pesquisados, de acordo com os
resultados deste estudo, mesmo apresentando indicadores de saúde, vivenciam o
sofrimento psíquico. Acreditamos que é possível que estejam atingindo tal equilíbrio
psíquico pelo fato de exercerem um trabalho que lhes possibilite ocupação,
sobrevivência, além de ser uma alternativa ao desemprego. Isso funciona como uma
estratégia defensiva para manter um investimento no trabalho como fator de
realização e identidade psicológica e social. Desta forma, o prazer pode estar
mascarado por mecanismos de defesa, conforme citado anteriormente.
A
importância
deste
estudo
residiu,
principalmente,
em
indicar
as
características principais de um tipo de trabalho, pouco pesquisado, e ser fonte de
questionamentos sobre a relação com a saúde desse trabalhador. Fica como
sugestão a necessidade de realizar mais estudos que focalizem o trabalho no
comércio e suas implicações para a saúde dos trabalhadores de maneira mais
aprofundada.
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APÊNDICE I
QUESTIONÁRIO SEMI-ESTRUTURADO
Em relação às características pessoais:
Nome:
Sexo:
Idade:
Escolaridade:
Mora em casa ( ) própria ( )aluguel ( ) outros
Em Relação ao trabalho:
1.Qual a sua faixa salarial ?
( ) 1 a 3 sm
( ) 3 a 6 sm
( ) 6 a 12 sm
2. Quanto tempo você trabalha na empresa?_______________________________
3.Quanto tempo trabalha fora? Nesta profissão?_____________________________
4. diferença no modo de trabalhar aqui e em outra empresa? Qual?
( ) Sim ( ) Não
5.Como é trabalhar aqui?
( ) Ótimo
( ) Bom
( ) Razoável
( ) Ruim
6.Como se sente trabalhando nesta empresa?
____________________________________________________________________
____________________________________________________________________
7.Como os funcionários são cobrados quanto ao cumprimento de tarefas?
____________________________________________________________________
____________________________________________________________________
8.Você se sente útil com o trabalho que realiza?
( ) Sim ( ) Não
9.É o que você gosta?__________________________________________________
10.Qual é o seu horário de trabalho? _____________________________________
11.Tem intervalo de tempo para fazer alguma atividade? _____________________
12.O que você faz quando não tem cliente? (Para ocupar o tempo ocioso?)
____________________________________________________________________
13.Como é o controle sobre seu trabalho?_________________________________
14.O que poderia ser feito para melhorar as condições de trabalho?
____________________________________________________________________
____________________________________________________________________
15.O que faz quando o cliente chega à loja?
____________________________________________________________________
____________________________________________________________________
16.Seu gerente solicita sua opinião sobre o seu trabalho? ( )Sim ( ) Não
17.Qual o grau de satisfação com seu trabalho? Por quê?______________________
( ) Muito satisfeito
( ) satisfeito
( )insatisfeito
18.Como é sua relação com colegas?
( ) Ótima
( ) Boa
( ) Razoável
( ) Ruim
19.Como é sua relação com supervisores e/ou gerentes?
( ) Ótima
( ) Boa
( ) Razoável
( ) Ruim
20.Como é sua relação com os donos da loja?
( ) Ótima
( ) Boa
( ) Razoável
( ) Ruim
21.Quais os fatores de riscos a que você está exposto?
Biológico___________
Físico______________
Químico____________
Nenhum____________
22.Você sai do trabalho frustrado quando não realiza nenhuma venda? Por quê?
____________________________________________________________________
Em relação a sua saúde:
23.Você adoece muito devido ao seu trabalho?_____________________________
24.Você falta muito no trabalho? Qual motivo? _____________________________
25.Você já teve alguma crise de estresse? Qual a causa?
26.Quando o funcionário adoece é feito algum atendimento dentro do Shopping?
________________________________________________________________
27.Você falta muito no trabalho? Qual motivo? __________________________
28.Qual sua disposição para tarefas domésticas, depois do trabalho?
( ) Muita
( ) Disposto
( ) Pouca
( ) Indisposto
29.Quantas horas de sono diário? ________________________________________
30.Acorda durante a noite? _____________________________________________
31.Quantas refeições por dia?___________________________________________
32.Qual tipo de alimentação?____________________________________________
33.Pratica algum esporte?______________________________________________
34.O que faz em dias de folga?__________________________________________
35.Qual das atividades é para você mais estressante, com relação ao seu trabalho?
( ) Atendimento ao público
( ) Telefonemas
( ) Excesso de trabalho
( ) Prazos a cumprir
( ) Atividades monótonas
( ) Horas extras
( ) Desafios
( ) Novas responsabilidades
Outras–Quais? _________________________________
36.Você sente algum tipo destes sintomas mais frequentemente?
( ) irritabilidade
( ) Fadiga
( ) Perda de memória
( ) enxaqueca
( ) Dor de cabeça
( ) insônia
( ) ansiedade
( ) dores musculares
( ) depressão
( ) outros – quais?
37.Você tem algum tipo de válvula de escape para as tensões diárias? Indique qual
é a principal.
( ) cigarro
( ) café
( ) conversa com amigos
( ) comida
( ) bebida
( ) outros –quais?
38.O que você faz no seu ambiente de trabalho para combater o estresse?
________________________________________________________________
As relações interpessoais:
39.Você se sente incomodado de conversar com pessoas que não conhece o tempo
todo?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
40.Como é sua relação com os amigos fora do trabalho?
_________________________________________________________________
41.Quantas pessoas moram com você?___________________________________
42.Você se reúne com colegas de trabalho? Qual a freqüência?
( ) Nunca
( ) Freqüente
( ) Pouco
( ) Sempre
43.Quanto tempo passa com a família:
( ) menos de 2h
( ) 2h a 4h
( ) 4h a 6h
( ) ±6h
44.Fale três vantagens e três desvantagens que você tem no seu trabalho.
1._________________________________________________________________
2. _________________________________________________________________
3. _________________________________________________________________
1. _________________________________________________________________
2. _________________________________________________________________
3. _________________________________________________________________
45.O que é para você satisfação e insatisfação no trabalho?
S:__________________________________________________________________
___________________________________________________________________
I:__________________________________________________________________
_________________________________________________________________
46.Como qualifica seu ambiente de trabalho?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
47. Como é trabalhar em um Shopping center? Como se sente?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
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shopping center: entre o glamour e a realidade do trabalho