Instituto de Psicologia – Unidade São Gabriel SHOPPING CENTER: ENTRE O GLAMOUR E A REALIDADE DO TRABALHO Juliane Vieira e Sá Tolentino Belo Horizonte 2006 JULIANE VIEIRA E SÁ TOLENTINO SHOPPING CENTER: ENTRE O GLAMOUR E A REALIDADE DO TRABALHO Monografia elaborada como requisisto parcial para conclusão do curso de graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Orientadora: Nanci das Graças C. Rajão. Belo Horizonte 2006 AGRADECIMENTOS A minha orientadora, Profa. Nanci das Graças Rajão, que tornou possível a realização deste trabalho. A minha mãe e aos meus filhos João Victor, Igor e Maria Fernanda pelo apoio e paciência. Em especial, ao Fernando pela compreensão, apoio e incentivo durante o período da elaboração desta monografia. E a todos que, de alguma forma contribuíram para esta construção, especialmente ao Dr. José Alfredo Canaan pela disponibilidade e preciosa colaboração. Um homem também chora Menina morena Também deseja colo Palavras amenas Precisa de carinho Precisa de ternura Precisa de um abraço Da própria candura Guerreiros são pessoas São fortes, são frágeis Guerreiros são meninos No fundo do peito Precisam de um descanso Precisam de um remanso Precisam de um sonho Que os tornem perfeitos É triste ver este homem Guerreiro menino Com a barra de seu tempo Por sobre seus ombros Eu vejo que ele berra Eu vejo que ele sangra A dor que traz no peito Pois ama e ama Um homem se humilha Se castram seu sonho Seu sonho é sua vida E a vida é trabalho E sem o seu trabalho Um homem não tem honra E sem a sua honra Se morre, se mata Não dá pra ser feliz Não dá pra ser feliz Guerreiro Menino Gonzaguinha SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO....................................................................................................................................... 07 2. O MUNDO DO TRABALHO ................................................................................................................ 11 3. SAÚDE MENTAL DO TRABALHADOR........................................................................................... 17 4. ESTRATÉGIA DEFENSIVA E DEFESAS CONTRA O SOFRIMENTO PSÍQUICO...................................................................................................................................................... 25 4.1. Mecanismos de defesa mais utilizados no trabalho..................................... 28 5. SHOPPING CENTER, SUPER COMÉRCIO VAREJISTA............................................... 33 6. CONDIÇÕES DE TRABALHO, VIDA E SAÚDE EM UM SHOPPING CENTER ..............................................................................................................................................................................37 6.1. Metodologia .............................................................................................................................................37 6.2. Sujeitos......................................................................................................................................................38 6.2.1. Situação e ambiente..........................................................................................................................38 6.2.2. Equipamento e material....................................................................................................................38 6.2.3. Procedimento......................................................................................................................................38 6.3. Coleta de dados......................................................................................................................................40 6.3.1. Elaboração das categorias de comportamentos.....................................................................40 6.3.1.1. Na ausência de clientes................................................................................................................41 6.3.1.2. Na presença de clientes...............................................................................................................41 6.4. Resultados e discussão......................................................................................................................42 6.4.1. Características pessoais..................................................................................................................42 6.4.2. Características das condições de trabalho................................................................................43 6.4.3. Características das condições de saúde...................................................................................48 6.4.4. Características das relações pessoais........................................................................................51 6.5. Discussão dos dados..........................................................................................................................53 8. CONCLUSÃO ............................................................................................................................................56 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................................................58 APÊNDICE 1....................................................................................................................................................62 1 INTRODUÇÃO O fazer humano tem sido objeto de estudo de várias disciplinas, e a psicologia a cada dia vem aprofundando seu interesse com o intuito de produzir conhecimentos acerca do tema em questão. A fim de possibilitar uma melhor compreensão das variáveis a serem investigadas, fez-se necessário conceituar algumas concepções, tais como trabalho, saúde mental, adoecimento psíquico. O trabalho pode ser entendido como mediador importante entre as instâncias sociais e individuais, afetando por meio de seus processos, as condições de saúde dos indivíduos. Nesse sentido, segundo a concepção Dejouriana, o trabalho pode ser fonte de saúde ou de doença para o trabalhador. A escolha do tema surgiu quando cursávamos a disciplina Psicologia e Trabalho, em que foi trabalhada a definição histórica do trabalho, a dimensão do trabalho na sua condição de formação do indivíduo, a formação da subjetividade e a saúde mental no trabalho como objeto de estudo da psicologia. No final de 2005, juntamente com um grupo de colegas, através da empresa Junior da PUCMINAS – Unidade São Gabriel, abrimos o núcleo de psicologia, tendo como primeiro cliente um Shopping center da região. A primeira entrevista com um dos representantes dos lojistas e também trabalhador do Shopping, nos chamou a atenção quando este se refere à saúde mental do trabalhador dentro desse ambiente fechado. Esse fato despertou-nos o interesse de investigar como e quais seriam as ocorrências psicológicas e a percepção de uma determinada classe de trabalhadores de um Shopping Center sobre o seu fazer. Na percepção da entrevistada há alto índice de separação matrimonial em função do ritmo acelerado de trabalho, há o deslumbramento quando inicia o trabalho nesse ambiente sofisticado e o sofrimento deste trabalhador na rotina do dia a dia, iniciando a jornada com dia ainda claro e no término do expediente a noite já está escura, não sabe se faz frio ou calor, se está chovendo ou não. Este trabalhador se aliena do mundo, vivendo nesse que é considerado o reduto do consumismo, mantenedor do sistema capitalista, tentando de uma forma ou de outra se adaptar e se manter saudável. Após tal entrevista, minha percepção foi a de que o adoecimento psíquico é algo banalizado. Segundo Dejours (2005, p.21), a banalização é “um processo que se torna mais visível, na época atual, em virtude de mudanças políticas verificadas nas ultimas décadas”, ou seja, num sistema capitalista, globalizado e altamente competitivo, o estresse, fadiga e o cansaço mental fazem parte do dia a dia das pessoas. Gradualmente o sofrimento vai aumentando e o trabalhador perdendo a esperança de que sua condição de vida possa melhorar. A desmotivação e a infelicidade são sinônimas de ineficiência e baixa lucratividade. O clima de angústia e descontentamento desestabiliza o trabalhador, e a impressão que se tem é de que o empregador não se dá conta que tais sofrimentos possam interferir na produtividade de seu trabalhador. O mercado é muito exigente, o que impera é a produtividade com qualidade e rapidez, curto prazo e baixo custo, com isso o trabalhador a cada dia é mais pressionado, sendo assim, ou ele enfrenta o problema, ou é levado a uma fuga das situações que o incomodam e perturbam, causando desta forma o adoecimento psíquico ou a utilização de estratégias defensivas que, de acordo Dejours (1994), são mecanismos que os trabalhadores constroem e adotam a fim de evitar o adoecimento . Esta pesquisa foi muito importante, uma vez que o “trabalho” faz parte da vida e da identidade social do sujeito, e nos possibilitou, junto aos trabalhadores de um Shopping center da região metropolitana de Belo Horizonte, identificar alguns dos problemas advindos desse trabalho, ao invés de reduzi-los e banalizá-los, ou psicologizá-los, como algo corriqueiro e corrente, como um simples estresse ou como distúrbios de comportamento. Além disso, é de suma importância que se contextualize este fenômeno para que o pesquisador saiba identificar as estratégias defensivas e os sintomas psicopatológicos de maneira mais minuciosa, a fim de compreendê-los e permita o planejamento de uma futura intervenção, onde o trabalhador teria a oportunidade de escuta do seu sofrimento, a possibilidade de identificar e re-significar a importância do trabalho em sua vida como um fator de valorização de si, como valor de reconhecimento pelos outros e interpretar seu trabalho como meio de refletir sobre si mesmo. Nosso objetivo foi verificar se o Shopping Center, propicia o rompimento das estratégias defensivas dos trabalhadores desse comércio, causando-lhes o adoecimento psíquico. Desta forma, apresentamos aqui os resultados da pesquisa sobre as condições de saúde e adoecimento psíquico em trabalhadores do comércio varejista de um Shopping Center da região metropolitana de Belo Horizonte. No primeiro capítulo conceituamos o mundo do trabalho na atualidade. Na lógica da menos valia a maioria dos empregadores não dá o devido valor ao esforço de seu trabalhador para atingir as metas impostas pelo mesmo. Talvez isso ainda seja herança de uma visão taylorista, uma vez que tais idéias influenciam o modo de gestão de alguns empregadores até os dias atuais, onde o trabalhador é encarado como um indivíduo “dotado de energia física e muscular e movido unicamente por motivações de ordem econômica” (CHANLAT, 1999 p.120). No segundo capítulo demos ênfase à saúde mental do trabalhador, uma vez que tal pesquisa possibilita a ampliação do conhecimento no que diz respeito à saúde mental do trabalhador, tanto para empresários, seus subordinados, sindicatos, quanto psicólogos para uma futura intervenção. Dessa forma, pode-se começar a pensar no trabalho como algo mais que uma necessidade de sobrevivência, mas algo para conferir dignidade e maior integração social. No terceiro capítulo buscamos compreender sobre as estratégias defensivas e as defesas contra o sofrimento, descrevendo e identificando as estratégias que os trabalhadores utilizam em seu dia-a-dia, segundo a psicodinâmica do trabalho. Partimos do pressuposto de que o trabalho em um Shopping Center, propicia o rompimento das estratégias defensivas dos trabalhadores desse comércio, causando-lhes o adoecimento psíquico. O capítulo quatro foi dividido em duas partes. A primeira diz respeito ao ambiente pesquisado: o surgimento do shopping center no mundo e em Belo Horizonte, seus objetivos e seu funcionamento. A segunda parte descreve a pesquisa feita junto aos trabalhadores do comércio de um Shopping de Belo Horizonte. A condição de vida, relações do trabalho, a saúde mental e o sofrimento psíquico no trabalho constituem o objeto deste estudo. No interesse de contribuir para as investigações nessa área sobre o que acontece com a vida, o trabalho e a saúde dos trabalhadores de comércio varejista de um shopping center da região metropolitana de Belo Horizonte. Os referenciais teóricos utilizados fundamentaram-se nos pressupostos estabelecidos pela psicodinâmica do trabalho e levam em consideração reformulações apresentadas nas últimas décadas por teóricos e pesquisadores brasileiros desta abordagem. Os resultados mostram que a categoria profissional pesquisada tenta encontrar caminhos para a manutenção da saúde ao utilizar mecanismos que favorecem o enfrentamento do sofrimento e a busca do prazer. 2 O MUNDO DO TRABALHO A palavra trabalho tem vários significados e sentidos e os mesmos guardam entre si correlações e contradições. Há uma variedade de critérios para classificarmos o trabalho. Segundo Borges e Yamamoto (2004), existe uma complicada e vasta relação de classificação de profissões e ocupações, dentre essas temos o trabalho formal e o informal, o trabalho abstrato e o complexo, o braçal e o intelectual, voluntário e remunerado, prescrito e real, humano e animal. Enfim, quando utilizamos a palavra trabalho nem sempre estamos descrevendo um mesmo objeto. Na abordagem psicológica organizacional e do trabalho, é utilizado como objeto de estudo em uma diversidade de formas, tais como a motivação para o trabalho, o envolvimento, comprometimento, comportamento, dentre outros, sendo assim vamos delimitar certos aspectos para facilitar o nosso entendimento. De acordo com Albornoz (1986), o que distingue o trabalho humano do animal é a consciência e a intencionalidade, uma vez que enquanto os animais trabalham por instinto, o homem trabalha para sua sobrevivência. Borges e Yamamoto (2004), citando Argyle, elegem como fundamental nesta distinção a intermediação cultural. Trabalho então vai indicar a ação do homem em busca da sua sobrevivência e realização pessoal, e isso vai ocorrer através das relações interpessoais. O homem irá construir a sua história e a maneira de pensar sobre o trabalho de acordo com as condições sócio-históricas em que vive. Sendo assim, o trabalho terá algumas dimensões no mundo do trabalho que é importante descrever: 9 Dimensão concreta que se refere à tecnologia e às condições materiais a que o trabalhador está sujeito; 9 Dimensão gerencial que é o modo de gestão de pessoas ; 9 Dimensão socioeconômica na qual o trabalhador está inserido. Vale ressaltar, que tais dimensões estarão interligadas umas nas outras e evoluem historicamente. Faremos uma breve viagem no tempo que antecede o capitalismo com a finalidade de contrastar com o sistema atual. Houve um tempo em que o homem trabalhava para produzir o que consumia, seja em gêneros alimentícios, vestuário ou moradia, e de acordo com Albornoz (1986), neste aspecto o trabalho servia apenas, indiretamente, para a sobrevivência. Ao constituir as primeiras sociedades, o trabalho era recompensado por mercadorias (escambo) como uma espécie de troca. Com a prática da agricultura, surge a noção de propriedade e produtos excedentes (ALBORNOZ, 1986). Já na Idade Média o sistema predominante era o feudalismo, onde as propriedades rurais eram auto-suficientes. Ao longo do tempo vai surgindo o burgo para trocar as mercadorias. Este movimento vai crescendo dando origem à classe burguesa. Na transição da Idade Media para a Idade Moderna surge então o sistema capitalista, mudando completamente o modo de produção, o aspecto socioeconômico e as relações sociais. Com a chegada da Industrialização há uma migração em massa do campo para as cidades e com isso surgem novas profissões e áreas de trabalho. De acordo com Borges e Yamamoto (2004), citando Marx, a partir de então constitui a história do ponto de partida da produção capitalista, no qual o detentor de poder e dos meios de produção é o capitalista e aquele que não possui o capital não tem como reproduzir seu modo de vida. No capitalismo a produção é socializada, todavia a distribuição dos lucros é privada e não socializada. A Sociedade Capitalista propõe uma ideologia igualitária, ou seja, dá-se à impressão de que se tem uma troca, porém não há equivalência de troca. O trabalhador vende parte do seu dia para o mercado em horas, sendo que o valor do salário é estabelecido por este mercado e, no mesmo não há igualdades. O trabalho humano é percebido como uma mercadoria, entretanto, tal mercadoria é peculiar, uma vez que irá gerar lucro para o capitalista, ou seja, a mais valia. Marx afirma que todo assalariado ganha menos do que merece, menos do que vale seu trabalho e essa diferença está no lucro. Com o empresário exigindo cada vez mais lucro, o trabalhador vai se alienando mais e mais, fazendo com que estes não percebam como sociais os frutos de seu trabalho. E produzindo mais, gera mais renda para o patrão. O capitalismo, segundo Marx, irá criar as formas de sobrevivência. A partir do momento que o trabalhador começa a produzir trabalho excedente é originada a Divisão Social do Trabalho, sendo que é através da produção que este trabalhador se humaniza, se reproduz enquanto espécie e estabelece relações sociais. É através da apropriação por não produtores de uma parcela do que é produzido socialmente, que se origina a divisão da sociedade, a exploração, a opressão e a alienação. Assim, a mais valia é a extensão do processo de formação de valores. Para Marx o trabalho deveria ser humanizador, sem contradição de interesses e voltado para as potencialidades criativas que os homens livres abrigam em seu espírito. Pfeffer (1997), afirma que no século XXI, estamos propensos a cometer os mesmos erros do passado. A história permeia o nosso dia-a-dia e uma grande maioria não se dá conta disso e, certos pesquisadores acham que estão criando novos modelos organizacionais, no entanto, tais modelos foram criados há mais de um século. O que pensamos ser uma grande inovação do mercado atual já ocorreu no século XIX, como por exemplo, o sistema fabril em que os operários possuíam seu maquinário e eles mesmos determinavam as horas que iriam trabalhar. Hoje em dia vemos muito este sistema de trabalho como se fosse algo inovador, assim como a prática de empreitada a qual substituiu o sistema fabril, onde os operários fabricavam os produtos e recebiam por unidade acabada. No século passado houve um efervescente crescimento tecnológico, como o desenvolvimento na energia elétrica, o telefone, o telégrafo, o motor à gasolina, ferrovias, dentre várias outras invenções. Acreditamos que a mudança tecnológica daquela época tenha sido muito mais impactante do que nos dias atuais, pelo seu caráter de novidade, sendo que na atualidade praticamente todo o dia tem algo novo no mercado, por exemplo, se se compra um computador ou um celular hoje, amanhã já estarão lançando um modelo mais moderno. Na Era Industrial, em função da produtividade e da lucratividade, o modo de administração teve que ser repensado. Antigamente o índice de rotatividade era absurdamente alto, com isso Henry Ford propôs uma nova metodologia de administração, oferecendo um melhor salário e bonificação para empregados com mais tempo de casa visando atender à demanda de mercado e assegurar a sua produção. A partir de então, e no contexto atual da globalização, outras empresas começaram a buscar alternativas para atender à crescente demanda. Começaram com as sub-contratações de peças e componentes, prática esta que ainda hoje é realizada, e não só nos EUA, como também em outros países, com isso veio a prática dos trabalhos temporários, mão-de-obra barata e uma crescente desvalorização do trabalho humano. A empresa Nike é um exemplo muito atual dessas práticas, cada parte do tênis e confeccionado em um local diferente como China e Indonésia, os fabricantes pagam pelos serviços um valor irrisório e quando chega no mercado para o consumidor final o custo é muito elevado. Práticas como essas têm colocado em discussão a questão da responsabilidade social das organizações. As organizações preocupadas apenas com sua produção e o lucro, esquecem um fator fundamental dentro da empresa, o seu funcionário. Os empresários acreditam que pagando um salário baixo e sem qualificação, isto porque o custo de um treinamento é alto, irá trazer benefícios para empresa. Pfeffer (1997) refere-se a organizações que em busca de políticas de mercado, de estratégias de redução de custos deixam de dar importância ao desenvolvimento da carreira e às promoções, com isso voltou a aumentar o índice de turnover dentro das empresas. Em função da busca de novas estratégias surgiu a reengenharia e, segundo Chanlat (1999), foi traduzido em demissões em massa e péssimos resultados financeiros e operacionais, pois mais uma vez foi dada pouca atenção às dimensões humanas. De acordo com Pfeffer (1997), na tentativa de criar algo novo, o homem acaba por reinventar o velho, como por exemplo a participação nos lucros cuja idéia foi utilizada na década de 30 do século passado . O autor afirma que “não podemos esperar dedicação e lealdade dos funcionários, a menos que estejamos dispostos a assumir um compromisso mútuo”(PFEFFER,1997 p.52). Segundo Chanlat (1999), a distribuição de renda é algo muito marcante na nossa civilização. Os salários e as desigualdades sociais são crescentes. Levando em consideração dados pesquisados nos EUA no período de 1989 a 1994, a categoria de trabalhadores que recebiam um baixo salário conheceu uma realidade de 10% de redução na sua remuneração, enquanto que a classe que percebiam salários mais elevados, a taxa ao invés de reduzir, aumentou em 74,2%, ou seja, é uma realidade que ainda vigora, inclusive no Brasil. São muitos os desafios a serem vencidos em função da burocratização. De acordo com Almeida (2006), ou o Brasil e seus governantes modificam essa gestão e esta conduta neoliberal desastrosa, ou os índices de pobreza tenderão a aumentar. Sendo assim, a derrocada do ensino se acentuará, a saúde publica extinguirá, o real continuará a se desvalorizar, a bolsa cairá no descrédito e todos, classe média e baixa, compartilharemos da miséria absoluta que as estatísticas teimam em anunciar. Para compensar o desastre, os ricos sobreviverão cada vez mais milionários e felizes com seus ganhos. De acordo com pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao Ministério do Planejamento, em 2003, 1% dos brasileiros mais ricos detinham uma renda equivalente aos ganhos dos 50% de trabalhadores ativos. No mesmo período, cerca de um terço da população, isto é 53,9 milhões de pessoas foi considerada pobre, um critério que inclui todos os que viviam com renda familiar per capita de até meio salário mínimo (R$ 120,00 na ocasião). O Ipea indicou que, para avançar no combate à desigualdade, é preciso alcançar um nível de crescimento econômico e um modelo de desenvolvimento que viabilizem a inserção da população no mercado de trabalho, além das ações sociais. Alem disso, pode-se observar o declínio da situação econômica do paÍs. Segundo Chanlat (1999), os trabalhadores se embrenham numa rede de endividamentos para suprir e garantir sua sobrevivência, ou seja, a economia fica cada vez mais dominada pelo capitalismo, e com isso, há desastrosas conseqüências humanas: perde-se a segurança, a liberdade de criação, conflitos interpessoais dentro das empresas, gerando burocratização e rigidez, conseqüentemente o estresse profissional e o adoecimento psíquico. No mundo organizacional é comum a prática de copiar modismos estratégicos sem contextualizar a realidade na qual está inserida. São inúmeros modelos de gestão, um exemplo citado por Chanlat (1999) é a “disciplina do management”, neste modelo privilegia-se a ação, a frieza, o conformismo e a racionalidade, e tudo aquilo que tem origem em movimentos sociais é abolido, uma vez que emoções fortes podem minar a eficácia em proveito da solidariedade. Contudo, atualmente, os lideres estão começando a perceber que o sujeito é “um ator e que a realidade das organizações se produz, se reproduz e se transforma por meio da interação dos diferentes grupos e indivíduos que as compõe” (CHANLAT, 1999, p.65) e que somos produto de relações sociais historicamente situadas. A experiência humana ao mesmo tempo engloba o conhecimento de uma atividade como também o modo como vê o objeto. Segundo Brant (2006), atualmente nas empresas o que prevalece é uma seleção biológica e somente sobrevive, dentro das organizações, o indivíduo mais adaptável às transformações tecnológicas e gerenciais, sendo que uma das principais fontes de sofrimento é a rapidez. Em nossa sociedade, o trabalho é mediador de integração social, seja por seu valor econômico (subsistência), seja pelo aspecto cultural (simbólico), tendo assim, importância fundamental na constituição da subjetividade, no modo de vida e, portanto na saúde física e mental das pessoas. A contribuição do trabalho para as alterações da saúde mental das pessoas dá-se a partir de ampla gama de aspectos: desde fatores pontuais como a exposição a determinados agentes tóxicos até a complexa articulação de fatores relativos à organização do trabalho, como a divisão e parcelamento das políticas de gerenciamento das pessoas e a estrutura hierárquica organizacional. As ações implicadas no ato de trabalhar podem atingir o corpo dos trabalhadores, produzindo disfunções e lesões biológicas, mas, também, reações psíquicas às situações de trabalho patogênicas, além de poderem desencadear processos psicopatológicos especificamente relacionados às condições do trabalho desempenhado pelo trabalhador. 3 SAÚDE MENTAL DO TRABALHADOR Várias disciplinas se debruçam sobre o estudo de saúde mental do trabalhador. Uma abordagem metodológica que se propõe subsidiar as investigações neste campo do conhecimento, que se baseia nos fundamentos psicanalíticos, na concepção teórico-conceitual e de ciência e pesquisa é a Psicodinâmica do Trabalho. Tem como principal teórico o francês Christophe Dejours nascido em 1949, médico do trabalho, psiquiatra e psicanalista, vive em Paris e seus estudos utilizam pressupostos psicanalíticos. De acordo Jacques (2003), a ênfase inicial proposta por Dejours recaiu no estudo da normalidade sobre a patologia, com os avanços nas pesquisas a expressão psicopatologia do trabalho foi substituída por Psicodinâmica do Trabalho, tendo em vista que o campo da psicodinâmica está preocupada com a origem e as transformações do sofrimento mental vinculadas à organização do trabalho. A autora cita Dejours & Abdouchely quando estes introduzem o conceito de sofrimento psíquico como uma vivência subjetiva situada entre a doença mental descompensada e o conforto e bem-estar psíquico, introduzindo a utilização das estratégias defensivas coletivas ou individuais. Seligmann-Silva (1994, p.20), ressalta que a abordagem da Psicodinâmica do trabalho, inicialmente “era centrada no estudo das dinâmicas que, em situação de trabalho, conduziam ora ao prazer, ora ao sofrimento, e o modo como este podia seguir diferentes desdobramentos”. Hoje essa corrente de estudos vai além da dinâmica saúde/doença. De Acordo com a Lei Orgânica da Saúde (Título II, Cap. I, art. 6º, parágrafo terceiro) entende-se por saúde do trabalhador: Um conjunto de atividades que se destina, através das ações de vigilância epidemiológica e vigilância sanitária, à promoção e proteção da saúde dos trabalhadores, assim como visa a recuperação e reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho. (BRASIL, 1990) Codo e Soratto (1999), afirmam que mesmo com a lei assegurando a saúde do trabalhador, a saúde pública presta pouca atenção à situação do mesmo. Segundo os autores, aqui no Brasil ainda não há estatísticas definidas quanto ao número de estresse e estados de desordem psicológica ligados ao trabalho, contudo, devido ao quadro econômico do país ser instável, o setor de serviços é o que se desenvolve mais rapidamente, além das reorganizações relâmpagos nas condições de trabalho. De acordo com a definição de saúde da OMS “a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não consiste, somente, em uma ausência de doença ou enfermidade”. Dejours, Dessors e Desriaux (1993), criticam tal definição a partir do momento que cada indivíduo tem uma compreensão subjetiva acerca do conceito de saúde, isto é, algo difícil de definir. Outro ponto discutível diz respeito a existência do “estado” de completo bem-estar. Os autores ponderam este estado como um ideal a ser conquistado, sendo assim a saúde seria um objetivo e, a partir desta hipótese é relevante desenvolver uma ação de promoção e prevenção da saúde. Através da ciência é possível uma melhor compreensão do que vem a ser saúde. Dejours, Dessors e Desriaux (1993), classificam este conhecimento em três séries. A primeira é a fisiologia que nos ensina que o organismo é mutável, vive em constante oscilação entre desequilíbrio e equilíbrio, sempre na busca do equilíbrio. Eles ressaltam que a saúde, seguramente não é um estado calmo, estável, plano, e nem uniforme. No que tange ao domínio psíquico, os autores exemplificam com a angústia, que de acordo com a psicanálise é algo que não se sabe conscientemente o que é. Ela é uma sensação “penosa”, vivenciada no corpo, e difícil a que todos estão sujeitos, indiferente se estão com uma boa saúde ou não, pode ter resolução momentânea e ressurgir novamente numa outra perspectiva. A segunda série refere-se à psicossomática que, de acordo com Zimermam (2004, p. 30), designa “no campo da medicina, a decisiva influência dos fatores psicológicos na determinação das doenças orgânicas, já admitindo uma inseparabilidade entre elas”, ou seja, sofrimento psíquico repercute no corpo e viceversa. A compreensão das relações entre o corpo, a linguagem que o constitui e o organismo delimita a vertente psicanalítica da psicossomática. O corpo e o organismo sofrem porque existe um obstáculo que barra o acesso do sujeito à sua história e à origem da angústia. Uma vez que o sujeito é um ser biopsicossocial, vale ressaltar que a influência de fatores sociais, econômicos, familiares, etc., também pode desencadear distúrbios psicossomáticos. Romano (2005) afirma que “ todo ser é resultante de vetores biopsicossociais” sendo que o biológico, no processo do adoecer, está em desequilíbrio. O psíquico é resultante, por sua vez, de outros vetores como estrutura de personalidade, interpretação e vivência de acontecimentos, ou seja, do imaginário e do real. O social compreende a família de onde vem e para onde se retorna e, a sociedade em seu sentido mais amplo, isto é, a comunidade, a escola e o grupo de trabalho. Todos se retroalimentando e se influenciando mutuamente de modo contínuo e inseparável. Numa entrevista realizada com um médico do trabalho questionamos como ele faz para chegar a um diagnóstico de doença psicossomática. Segundo Dr. Canaan, na maioria das vezes é através da anamnese e do diálogo realizado com o paciente que se detecta o transtorno, ele procura primeiro as causas orgânicas, solicita vários exames laboratoriais e, caso haja alguma lesão, ela é tratada. Contudo, quando os sintomas retornam repetidas vezes, é mais uma indicação de doença psicossomática. É mais comum a detecção da doença na anamnese, pois geralmente o próprio paciente faz uma correlação do sintoma com as situações com as quais está vivenciando no momento, desta forma o médico do trabalho tem a possibilidade de identificar tais casos em função do contato com este paciente. Por fim a terceira série refere-se à psicopatologia do trabalho, que tem se voltado para analisar a constituição do sofrimento mental, partindo da percepção dos próprios trabalhadores e sua articulação com a organização do trabalho. O trabalho afeta a saúde do trabalhador na medida em que ele pode ser um causador de doenças, como pode também agir de forma positiva na vida deste indivíduo. Segundo Dejours (1994, p.48), a psicopatologia do trabalho ”é um método de investigação clínico e teórico que tenta integrar as duas rupturas epistemológicas”. Dejours (1994), afirma que todo trabalho exerce uma carga para o trabalhador, isto é, a carga física e a carga psíquica, que pode ser equilibrante ou fatigante. Em ergonomia o componente físico da carga de trabalho diz respeito aos fatores de risco, tais como: barulho, calor, desgaste energético, iluminação, etc, além do componente mental da carga de trabalho, que é uma mistura de fenômenos neurofisiológicos e psicofisiológicos, ou seja, relativo à percepção e ao tratamento da informação necessária à execução do trabalho. Tal noção de carga em ergonomia tem a preocupação da quantificação, avaliação e da objetividade. Contudo, mensurar a carga psíquica de trabalho é inviável, pois como seria possível medir uma vivência, ou seja, o prazer, a satisfação , agressividade, frustração? Tudo isso é da ordem qualitativa e referem-se a fenômenos afetivos e relacionais que se distinguem da carga cognitiva da realização da tarefa. Em contato com as excitações advindas do exterior (informações sensoriais) ou provenientes do interior (excitações instintivas ou pulsionais) o trabalhador acaba por acumular esta excitação (energia) transformando-a em tensão nervosa. A via de descarga desta energia será através da via psíquica, motora ou visceral. (DEJOURS,1994. DEJOURS, DESSORS E DESRIAUX, 1993). Pudemos constatar com a entrevista realizada com o médico do trabalho, que em relação às queixas dos trabalhadores relacionadas ao ambiente de trabalho o que mais lhes afeta em primeiro lugar é a pressão do tempo de execução da tarefa, ou atingir as metas propostas pelo empregador, em seguida vem a fadiga industrial em função dos movimentos repetitivos (dorsalgia). Segundo Dr. Canaan a relação interpessoal não está entre os primeiros lugares como um fator adoecedor. Podemos questionar que na medida em que os outros fatores são tão evidentes e estudados, eles podem mascarar a contribuição das relações interpessoais para o estabelecimento do nexo causal com a doença psicossomática. De acordo com a percepção do médico, o fator ambiental e ocupacional tem que ser avaliado, pois pode ser um causador de doenças e do ponto de vista ocupacional este é um fator de agravo e de acordo com a evolução biopsicossocial, sempre surgem problemas, principalmente ligados à agressividade. Segundo Dr. Canaan, quando este trabalhador sofre ou está insatisfeito no trabalho, ele começa a agredir a empresa, como por exemplo, produzindo peças com defeito, atendendo mal os clientes, começa a faltar ao serviço e etc. Isso comprova empiricamente o sofrimento psíquico decorrente da organização do trabalho como já demonstrado pelos estudiosos da psicodinâmica do trabalho. De acordo com Codo, Soratto e Vazques-Menezes (2004), o adoecimento psiquico é o rompimento da capacidade de construir a si próprio e a espécie, produzindo e reproduzindo a si próprio e a espécie. Dejours (1994, p. 29), afirma que o sofrimento é a “energia pulsional que não acha descarga no exercício do trabalho se acumula no aparelho psíquico, ocasionando um sentimento de desprazer e tensão”. Seligmann-Silva (1994), cita Dejours quando este afirma que o sofrimento designa o campo que separa a doença da saúde. A forma como se dá a luta contra o sofrimento é que permite conceituar e identificar as estratégias defensivas. Codo, Soratto e Vazques-Menezes (2004) afirmam que os estudos de Dejours são baseados numa tentativa de compreender como o trabalhador consegue alcançar um certo equilíbrio psíquico, pois mesmo estando submetido a condições de trabalho desestruturantes, ele busca maneiras e estratégias para manter-se saudável e não adoecer. A união do sofrimento e a luta contra este sofrimento no trabalho, Dejours denomina de “normalidade sofrente”, isto é, “o resultado alcançado na dura luta contra a desestabilização psíquica provocada pelas pressões do trabalho” (DEJOURS, 1994, p.15). Segundo Codo, Soratto e Vazques-Menezes (2004), o sofrimento é considerado inerente ao processo de trabalho, dessa forma praticamente impossível de ser eliminado, contudo ele não é necessariamente causador de doenças, mas pode tornar a ser, caso o trabalhador não se adapte ao trabalho e suas defesas se rompam, ou quando já esgotou todas as possibilidades de mudança na organização de trabalho Dejours (1994) denomina tal sofrimento de patogênico. Entretanto, o sofrimento mental também pode ser transformado em criatividade e beneficiar a identidade. Chamado sofrimento criativo, este ocorre quando o trabalho “aumenta a resistência do sujeito ao risco de desestabilização psíquica e somática”, funcionando como um mediador para a saúde (DEJOURS, 1994, p.91). De acordo com os autores, a diferença entre o sofrimento criativo e o patogênico irá depender da condição social e individual de cada trabalhador, ou seja, sua estrutura, história de vida, organização do trabalho e suas relações interpessoais. Cabe à psicodinâmica do trabalho definir as ações suscetíveis de modificar o destino do sofrimento e favorecer sua transformação. Segundo Dejours (1994), o surgimento de uma doença na vida do trabalhador é algo vergonhoso, que precisa ser justificado. Esse sujeito se sente julgado e acusado pelo grupo social. O jeito é conter, controlar e conviver com a doença, não é a cura o mais importante e sim não sofrer. Tal atitude é denominada de ideologia da vergonha. A mesma é caracterizada de duas maneiras: aquilo que diz respeito ao corpo e a relação existente entre doença e trabalho. O corpo deve ser recoberto com o véu do silêncio, uma vez que ele só é aceito pela sociedade como o corpo que trabalha, ou seja, ideologicamente o normal é trabalhar. O parar de trabalhar corresponde à ideologia da vergonha. Para conseguir suportar o fardo, um dos mecanismos mais utilizados é o acidente de trabalho, que consiste numa forma inconsciente encontrada pelo trabalhador para evitar o conflito existente na relação homem-empresa que produz a insatisfação e ansiedade. Os artigos 131 da legislação previdenciária considera que: Acidente de trabalho é aquele que ocorre durante o exercício do trabalho, provoca lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte, perda ou redução permanente ou temporária da capacidade para o trabalho. Considera-se igualmente os casos ocorridos no percurso da residência e do local de refeição para o trabalho ou deste para aquele (BRASIL, 1991) De acordo com os índices do Fundacentro, no ano de 2002 foram computados 387.905 acidentes e doenças do trabalho no Brasil, sendo que 58% deste total é na Região Sudeste, e dizem respeito a trabalhadores empregados pelo setor formal da economia, ou seja, regidos pela CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) e registrados em carteira. Segundo Dejours (1982, p.34), o que causa angústia no trabalhador através da doença, “é a destruição do corpo enquanto força capaz de produzir trabalho” . Ideologicamente instaura-se o processo de individuação, em que no adoecimento o sujeito é o problemático. O sofrimento mental é causado entre a tensão das necessidades da organização e as necessidades pessoais, e o sofrimento advém das vivências subjetivas do cotidiano do trabalho. Codo (2004), afirma que todos os aspectos importantes para a construção da personalidade e identidade do sujeito são fatores de risco, implicando assim na saúde mental do trabalhador. O sofrimento mental juntamente com a fadiga é uma manifestação proibida no trabalho, e com o surgimento da doença o trabalhador vai caracterizá-lo como medo, ansiedade ou doença mental. Segundo Araújo (1999), o termo sofrimento designa situações de desconforto e insatisfação que, embora não impeçam a continuidade de suas atividades laborais, inviabilizam que o trabalho seja fonte de prazer e de realização pessoal. A autora afirma que na abordagem da psicodinâmica do trabalho são classificados dois tipos básicos de sofrimento, vivenciados pelos trabalhadores através de dois tipos de sintomas: a insatisfação e a ansiedade, e que são fundamentais neste processo de adoecimento. Para Dejours (1994) são duas as fontes principais no que se refere à insatisfação no trabalho e são elas: a) Resultado do conteúdo significativo do trabalho b) Relacionado ao conteúdo ergonômico da tarefa A partir do momento em que o trabalho se torna apenas uma mercadoria, ele perde o significado, ficando empobrecido e o sujeito perde o prazer em estar fazendo algo útil. O trabalho é uma via de construção da identidade, satisfação e prazer, além de estar associado a um status social, uma roupa específica ou até mesmo a um vocabulário particular. Para Codo (2002, p.173), o trabalho “é uma dupla relação de transformação entre o homem e a natureza, geradora de significados” . O trabalho também é uma forma de inserção social que tanto pode ser um fator causador de doenças, como também um fator de equilíbrio (DEJOURS, DESSORS E DESRIAUX ,1993). Já a insatisfação relacionada ao conteúdo ergonômico da tarefa é decorrente de uma inadequação entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Neste caso, a insatisfação será o resultado, principalmente, das condições concretas de trabalho e o corpo do sujeito será o escudo protetor, ou a linha de frente desta batalha, onde a doença somática denunciará o estado de insatisfação. A ergonomia é uma disciplina do campo da saúde que trata de reconhecer quais são as regras e normas do trabalhador no ambiente de trabalho, ou seja, a ergonomia procura conhecer o trabalho concreto e sua adequação ao homem. Segundo Telles (1995), caracteriza-se pela busca de conhecimento para intervenção através da análise de situações de trabalho ou da análise do trabalho em situações reais e não simuladas, em que o foco são as atividades realizadas pelos trabalhadores, uma vez que toda atividade humana tem um espaço para a heteronomia e autonomia e, cada trabalhador tem um potencial de colocar algo de si no trabalho. A ansiedade aparece em situações de perigo e sobrecarga de exigências no trabalho. Nas situações em que o perigo existe e é conhecido, porém, os mecanismos que o geram são desconhecidos, irá gerar o medo, que está associado à idéia de risco. O risco é exterior e frequentemente coletivo. Os mecanismos para controlar o medo implicam em atitudes de negação e desprezo do medo, desta forma aumentando o risco e, consequentemente, a ansiedade. Segundo Claro, Botomé e Kubo (2003), atualmente, o desemprego, a ruptura familiar, insegurança financeira e a falta de perspectiva de crescimento, dentre outros fatores, são ameaças distintas na vida do trabalhador, alem de causadores de sofrimento psíquico. Os autores citando Moura, de acordo com pesquisa realizada na Universidade Harvard, apontam o alcoolismo, isolamento emocional, trabalho excesso, violência, problemas do coração como alguns sintomas correntes apresentados pela população masculina diante da ansiedade relacionada à insegurança socioeconômica. Já as mulheres apresentam baixa auto-estima, dependência emocional, desconfiança, conflitos destrutivos entre outros sintomas físicos, tais como TPM, dores lombares, dores de cabeça, etc. Os autores afirmam que, no comércio diante de tarefas de natureza simples, o grau de qualificação normalmente supera as exigências da tarefa, esse fato pode resultar para o trabalhador em frustrações, diminuindo assim as perspectivas de um futuro melhor, uma vez que, “quando o trabalhador não se reconhece no seu trabalho, surgem frustrações e sentimentos de auto-desvalorização” (CLARO, BOTOMÉ E KUBO, 2003. p. 68) Outro dado importante citado pelos autores e baseados em Seligmann-Silva, é que, de acordo com estudos experimentais, fatores econômicos e sociais também influenciam na etiologia das doenças crônicas. Vivências prolongadas de tensão de origem social podem influenciar de modo negativo o sistema psiconeuroendócrino, a baixa no sistema imunológico, doenças cardiovasculares e até mesmo um câncer, quando aliadas a exposição de carcinógenos, onde a probabilidade de resultar em câncer após 15 a 20 anos é alta. Sem contar que o estresse e a fadiga são fatores que enfraquecem o organismo pouco a pouco. 4 ESTRATEGIAS DEFENSIVAS E AS DEFESAS CONTRA O SOFRIMENTO Como vimos o trabalho é responsável tanto pela saúde quanto pela doença mental do trabalhador. Para lidar com o sofrimento o trabalhador desenvolve estratégias defensivas construídas individualmente ou coletivamente. Dejours propõe explicar em que consiste tal estratégia defensiva, como elas surgem e evoluem. Essas defesas levam à modificação, transformação e, em geral, à eufemização da percepção que os trabalhadores têm da realidade que os faz sofrer (...) e graças a suas defesas, minimizar a percepção que eles têm dessas pressões, fontes de sofrimento (DEJOURS, 1994, p 128) As estratégias defensivas são marcadas pelas pressões reais do trabalho (DEJOURS 1994). Os trabalhadores constroem e adotam tais estratégias a fim de evitar o adoecimento, numa tentativa de preservação do equilíbrio psíquico. De acordo com o autor, em tais estratégias existem sutilezas, cheias de engenhosidade, diversidade e inventividade. Quando estas estratégias se rompem, o trabalhador irá enfrentar sozinho as conseqüências das quais tanto se defendia. O sofrimento irá se materializar em forma de doença e incapacidade. A partir do momento que o problema psicológico se transforma em fisiológico, é o sintoma que vem à tona como uma doença psicossomática. A estratégia defensiva irá mascarar uma ansiedade séria e cada grupo social desenvolve as estratégias com uma especificidade diferente de outros grupos. Tais estratégias são destinadas a combater perigos e riscos mais concretos, e não no nível mental subjetivo. Tais mecanismos de defesas podem ser coletivos ou individuais A estratégia coletiva é sustentada em comum acordo entre os trabalhadores, e funcionam como regras até que o acordo se rompe. Já a estratégia individual está interiorizada no trabalhador, e vai continuar existindo mesmo sem a presença física de outros. As estratégias defensivas são ambivalentes, pois tanto são necessárias para proteção da saúde psíquica, como podem também deixar o trabalhador insensível contra aquilo que o faz sofrer. As estratégias defensivas podem tanto proteger o trabalhador quanto aliená-lo, uma vez que o afasta dos problemas da organização do trabalho, entendendo por organização do trabalho não só a divisão de tarefas entre os trabalhadores, o ritmo e o modo prescrito do trabalho, como também as hierarquias, repartições de responsabilidades e os sistemas de controle. Para Dejours, alienação apresenta dois sentidos: Alienação no sentido em que Marx a compreendia nos manuscritos de 1844, isto é, a tolerância graduada segundo os trabalhadores de uma organização do trabalho, que vai contra seus desejos, suas necessidades e sua saúde. Alienação no sentido psiquiátrico também, de substituição da vontade própria do Sujeito pela do objeto. Nesse caso, trata-se de uma alienação, que passa pelas ideologias defensivas, de modo que o trabalhador acaba por confundir com seus desejos próprios a injunção organizacional que substituiu seu livre arbítrio, vencido pela vontade contida na organização do trabalho, ele acaba por usar todos os seus esforços para tolerar esse enxerto contra sua natureza, ao invés de fazer triunfar sua própria vontade. Instalado o circuito, é a fadiga que assegura sua perenidade, espécie de chave, necessária para fechar o cadeado do circulo vicioso. (DEJOURS,1994, p.137). Dejours aponta alguns procedimentos defensivos contra o sofrimento e são eles: 9 Desvencilhamentos das responsabilidades, não tomando iniciativas, deixando as decisões a cargo das chefias; 9 Atitude de fechamento em uma autonomia máxima, seja de segredo, ou imprudência e silêncios tanto frente aos colegas quanto à chefia; 9 Cria uma desconfiança sistemática, tentando interpretar tudo como se fossem hostilidades dirigidas a si próprio; 9 Não respeitar a hierarquia; 9 Verbalizar seu sofrimento apenas no consultório médico (sinal de que as defesas coletivas estão ineficazes); 9 Individualismo; 9 Alcoolismo; 9 Contratação de terceirizados para realização do seu trabalho; 9 Proteção de forma ciumenta de seu trabalho; 9 Delegar tarefas ingratas; 9 Recusar cumprimentar o colega; 9 Denunciar o colega; 9 Equipes de trabalho fortemente diferenciadas; 9 Evitar todas as ocasiões de discussão; 9 Privilegiar o ativismo, presenteísmo, trabalhar até a exaustão. Sintomas psicológicos: 9 Vivência do medo; 9 Síndrome de bournout; 9 Ansiedade; 9 Apreensão; 9 Desespero; 9 Dificuldade de concentração; 9 Sensação de pânico; 9 Hipervigilância; 9 Irritabilidade; 9 Fadiga; 9 Insônia, etc. Sintomas de ordem somática: 9 Dor de cabeça; 9 Palpitação; 9 Sudorese; 9 Tensão nos músculos do pescoço; 9 Boca seca; 9 Náusea e vazio no estômago; 9 Falta de ar; 9 Tontura, e etc. Segundo informações do Dr. José Alfredo Canaan, médico do trabalho, pudemos constatar que as doenças mais comuns de fundo emocional que normalmente são diagnosticadas são a ansiedade, as reações de estresse, depressão de difícil identificação, psorise, algumas dermatoses, gastrites, duodenites, colites, esofagites, úlceras, doenças da esfera sexual, hipertensão, e por fim a fibromialgia. O desenvolvimento destas manifestações, na sua experiência clínica, pôde ser correlacionado a situações laborais. 4.1 Mecanismos de defesa mais utilizados no trabalho Segundo Seligmann-Silva (1994) é importante que se faça uma distinção entre defesa e resistência. Defesa será abordada como um mecanismo trabalhando contra o sofrimento, ou, pelo menos tentando torná-lo suportável e, geralmente, não propiciam transformações nas situações das quais causam o sofrimento. Enquanto que a resistência é o enfrentamento das condições determinantes de sofrimento e que, no entanto, transformam tais situações. Os mecanismos psicológicos de defesa podem ser tanto conscientes como inconscientes, e não deixam de ser uma alienação do trabalhador frente às situações de conflito e sofrimento. A autora define defesa na perspectiva psicanalítica como a luta do ego contra idéias ou afetos dolorosos ou insuportáveis. Esta teoria estuda principalmente os conflitos intrapsíquicos e a forma como eles propiciam o surgimento de mecanismos defensivos. A psicanálise distingue treze formas de defesa, das quais vale ressaltar em nosso trabalho e conceituar apenas a negação, o recalque, a repressão, o isolamento, a racionalização e a sublimação. Segundo a autora, diante de situações conflitivas, normalmente os trabalhadores recorrem a estes mecanismos de defesa com maior freqüência. Segundo Laplanche e Pontalis (2001, p. 293), a negação consiste em um “processo pelo qual o sujeito, embora formulando um dos seus desejos, pensamentos ou sentimentos até então recalcado, continua a defender-se dele negando que lhe pertença” . Já a repressão, num sentido mais amplo, quer dizer uma “operação que tende a fazer desaparecer da consciência um conteúdo desagradável ou inoportuno”, tal como uma idéia, por exemplo. (LAPLANCHE, 2001:457) O isolamento é um mecanismo de defesa que “consiste em isolar um pensamento ou comportamento, de tal modo que as suas conexões com outros pensamentos ou com o resto da existência do sujeito ficam rompidas”. (LAPLANCHE, 2001.p .258) Na racionalização ocorre um “processo pelo qual o sujeito procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, idéia, sentimento etc, cujos motivos verdadeiros não percebe”. (LAPLANCHE, 2001 p.423) Por fim a sublimação é um “processo que irá explicar atividades humanas sem qualquer relação aparente com a sexualidade, mas que encontrariam o seu elemento propulsor na força da pulsão sexual” (LAPLANCHE, 2001 p.495) Na situação de trabalho, quando o trabalhador se depara com circunstâncias que causam ansiedade e não consegue contornar, conscientemente, ele recorre a estes mecanismos acima citados. Seligmann-Silva (1994) exemplifica estes mecanismos de defesa quando numa organização de trabalho é exigida de um trabalhador grande quantidade de concentração de atenção e detalhes e, se o mesmo é do tipo obsessivo, podem ocorrer mudanças significativas da identidade e da sociabilidade nesse sujeito, emergindo o embotamento afetivo. Segundo a autora, quando a dominação se intensifica e o espaço de autonomia se estreita, pode ocorrer uma “vivência de dependência” propiciando uma regressão psicológica ao período infantil, ou seja, diante de situações ameaçadoras, o sujeito utiliza da negação e repressão para lidar com tais situações, sendo que estes mecanismos são mais comuns na infância do que na vida adulta do individuo. Uma outra situação pode ser caracterizada quando o trabalhador utiliza da racionalização como estratégia de defesa, isto é, ele exerce uma atividade intelectual conscientemente, porém quando este trabalhador começa a justificar demasiadamente, baseando principalmente do ponto de vista tecnológico, que seu modo de trabalho é muito moderno e seguro, mesmo que isso esteja massacrando-o e o violentando como ser humano, e ainda assim ele consegue arranjar explicações viáveis para justificar o fato, isso é uma indicação de que ele esteja ocultando de si mesmo constatações dolorosas para a sua vida. A negação do perigo e a repressão do medo são modalidades do mecanismo de defesa contra o medo que o trabalhador utiliza para suportar e de sobreviver a certas situações penosas e de conflito existentes no ambiente de trabalho e que ao mesmo tempo podem servir à manutenção e ao fortalecimento da dominação do trabalho. De acordo com Seligmann-Silva (1994), o trabalhador utiliza estratégias defensivas contra o tédio, o sono, o cansaço, para quebrar a tensão ou raiva e etc. Nestes momentos ele constrói fantasias quando trabalho é monótono, por exemplo. Para evitar a sonolência costumam cantar alto e batucar. Com o intuito de amenizar a tensão, algumas empresas estão implantando ginástica laboral, ioga, aulas de musica, academias, e etc. Outra estratégia, são as conversas na “hora do cafezinho” e no intervalo do almoço, contando anedotas e fazendo brincadeiras, tudo isso tem a função de descontrair o ambiente e aliviar o estresse do dia-a-dia. Algumas pessoas colocam apelidos nos chefes, outras brincam de forma rude com seus companheiros suscitando mágoas, num processo de reprodução das agressões sofridas. Vale ressaltar que o alcoolismo também pode se apresentar como um caráter defensivo contra a ansiedade e estresse relacionado ao trabalho. A auto-repressão, ou seja, o bloqueio à expressão dos próprios sentimentos, é outra forma de defesa que o trabalhador utiliza no seu cotidiano. Uma vez que exteriorizar emoções como irritação, raiva ou revolta pode colocar em risco a manutenção de seu emprego, impedindo a manifestação destes sentimentos ele estará interiorizando-os, aumentando a tensão e, consequentemente, contribuindo para a constituição de doenças psicossomáticas, distúrbios psicossociais e mentais. As estratégias coletivas de defesa, segundo Seligmann-Silva (1994) e Dejours (1994), operam através de inversão e de eufemismo, sendo que a inversão consiste em desafiar o perigo ao invés de se sentir ameaçado por ele, enquanto a eufemização se expressa, por exemplo, diante da ridicularizarão dos perigos aos quais o trabalhador está exposto, Seligmann-Silva (1994), ilustra o fato quando o trabalhador emprega diminutivos para nomear máquinas perigosas com as quais lida diariamente. Já as estratégias de defesas psicológicas individuais se constituem a partir de necessidades distintas. Segundo a autora, no trabalho perigoso, por exemplo, as estratégias servem para neutralizar o medo. Em outras situações, as defesas podem ser utilizadas para tornar suportável um trabalho tedioso, ou ainda, quando o controle e a opressão são intensos e surgem comportamentos defensivos visando aliviar a irritação ou a revolta acumulada. De acordo com ela, quanto menos autonomia tiver o trabalhador, menor será a possibilidade de criatividade e consequentemente, reconhecimento pelo trabalho desenvolvido. “O sufocamento da liberdade corresponde, pois, ao sufocamento das expressões da inteligência dos trabalhadores, que poderiam desenvolver produtos de maior qualidade e originalidade”. (SELIGMANN-SILVA, 1994 p.271) Na entrevista com Dr. Canaan, algo que nos chamou atenção foi quando perguntamos sobre a possibilidade de indicar alguns pacientes para um tratamento psicológico. Segundo o médico esta informação é muito bem recebida pelos trabalhadores, contudo em função da maioria dos convênios não cobrirem as despesas com atendimentos psicológicos e a dificuldade de se conseguir tal atendimento através do SUS, fica inviável a prescrição. Portanto, dificilmente um médico irá sugerir ao seu paciente que busque ajuda psicoterápica, o mais comum é o encaminhamento ao psiquiatra para um tratamento farmacológico. No que diz respeito aos medicamentos e à interferência no desempenho do trabalhador, segundo o médico, o ansiolítico freia os reflexos do indivíduo, e infelizmente hoje em dia o consumo deste medicamento virou moda. Outro medicamento muito utilizado também é o clorazepam ou rivotril, que é um medicamento anticonvulsivante e com o uso verificou-se que também possui propriedades ansiolíticas, ele bloqueia estímulos neuronais e quem o utiliza fica com movimentos lentos, anda de pernas abertas e constantemente perde o equilíbrio. Tal medicamento tem sido utilizado por pessoas que desejam perder peso. Muitas vezes o sujeito em função do estresse do dia a dia começa a comer compulsivamente e, quando cai em si, está com o peso acima do normal. Geralmente, ou este sujeito apela para dietas mirabolantes, ou procuram um médico, o que é o mais acertado, contudo acontece também desse sujeito ir com o receituário pronto e o pior, há médicos que aviam tal receita. Este indivíduo sem saber, já é uma vítima em potencial de acidente de trabalho. Esta situação pode ser relacionada ao uso do mecanismo de defesa individual, como por exemplo, a negação, onde o sujeito vê o aumento de peso para não ter que lidar com o estresse ocupacional. Na experiência do Dr. Canaan as válvulas de escape mais comuns que os trabalhadores utilizam para aliviar as tensões diárias são tabagismo, bebida alcoólica, alimentação e o sono. Segundo Seligmann-Silva (1994), o consumo de bebida alcoólica, muitas vezes está relacionada a situações de trabalho, algumas pessoas recorrem à bebida como recurso para relaxar e amenizar a tensão do dia a dia em função da pressão sofrida pelo chefe, ou do risco laboral, ou alta exigência de responsabilidade, situações constrangedoras, como também numa busca de satisfação para compensar as frustrações profissionais, pessoais, afetivas ou de oportunidade de lazer significativo. Muitos recorrem ao álcool como que para anestesiar a dor psíquica. 5 SHOPPING CENTER, SUPER COMERCIO VAREJISTA Comércio varejista de acordo com o Instituto do Observatório Social1 são os estabelecimentos cuja atividade principal consiste na revenda de mercadorias a varejo, geralmente sem transformação significativa, e na prestação de serviços associados ou não com a venda no varejo. O comércio varejista representa o último elo da cadeia de distribuição; os varejistas são, portanto, organizados para vender mercadorias em pequenas quantidades ao grande público. De acordo com Frank (2001), o surgimento do Shopping center se deu nos Estados Unidos da América. No começo era o Country Club Plaza, de Kansas City. Construído na década de 20, como parte de um vasto conjunto de bairros residenciais, o Plaza foi o primeiro grande shopping center de periferia do mundo a ser planejado como um todo. Segundo o autor, no final da década de 50, o shopping center coberto e fechado foi inventado por um promotor de vendas de Minneapolis, com a preocupação de vender o máximo, mas também de proporcionar conforto durante os rigorosos invernos do norte do país. Nos quarenta anos seguintes, essa idéia rapidamente se espalhou por toda América, estendendo-se depois para o mundo todo, sempre mais ou menos com o mesmo esquema de base: uma gigantesca estrutura, estacionamentos suficientemente amplos, pelo menos duas marcas famosas (entre elas, uma loja de departamentos de porte nacional) devem situar-se nas extremidades da estrutura, com um espaço intermediário preenchido por pequenas lojas; uma praça de alimentação que ofereça uma ampla escolha de fast food aos consumidores; e uma ausência quase absoluta de decoração externa, uma vez que todo o design arquitetônico inovador se concentra no espaço com ar condicionado. De acordo com Padilha (2006), aqui no Brasil os primeiros shoppings centers se instalaram nos anos 60, seguindo o padrão americano. A expansão desse novo modelo de vida e de urbanidade se deu efetivamente nos anos 80. A consolidação 1 O Instituto Observatório Social é uma organização que analisa e pesquisa o comportamento de empresas multinacionais, nacionais e estatais em relação aos direitos fundamentais dos trabalhadores. O Observatório é uma iniciativa da CUT Brasil em cooperação com o CEDEC (Centro de Estudos de Cultura Contemporânea), DIEESE (Departamento Intersindical de Estudos SócioEconômicos) e UNITRABALHO (Rede Inter-Universitária de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho). do shopping center no Brasil foi concomitante ao crescimento populacional, à proliferação da idéia desenvolvimentista e ao aumento do número de mulheres no mercado de trabalho, o que gerou modificações nos hábitos de consumo dos brasileiros. Os primeiros shoppings brasileiros atenderam à camada da população mais rica do país, oferecendo o consumo de luxo. A partir dos anos 1970 houve um crescimento do setor de serviços e da produção industrial, além de um aumento do consumo dos assalariados da chamada classe média. Segundo informações extraídas da Associação Brasileira de Shopping centers (Abrasce), 64% dos Shoppings Centers existentes no Brasil são na região Sudeste, 50% tem projetos de expansão, 93% abrem aos domingos. Numa pesquisa realizada pela ABRASCE, 41% dos shoppings que funcionam todos os domingos afirmaram ter havido um aumento de 10% no número de empregos gerados. Em 1966 existia apenas um shopping no Brasil; atualmente perfazem o total de 263, sendo que 251 estão em operação e 12 em construção e só em Minas Gerais existem 22, gerando 31.653 empregos. O Shopping pesquisado foi inaugurado em 15 de setembro de 1991, com uma estrutura de 82.000 m2 e 56.000 m2 de área construída, 2 pavimentos, 2 cinemas, estacionamento para 3.000 carros, 4 lojas âncoras, 6 lojas satélites, gerando em torno de 4.000 empregos diretos e 6.000 empregos indiretos. Na administração do Shopping em questão, são 312 funcionários, com um turnover de 30% ao ano, segundo informações obtidas através de entrevista com o coordenador de Marketing da instituição. Uma das questões colocadas para o entrevistado foi qual o motivo para se construir um shopping center numa região de classe média baixa, uma vez que naquela época não existia a canalização do córrego Cachoeirinha, o hotel cinco estrelas, ou seja, as melhorias que foram realizadas após a inauguração do shopping. A resposta foi que esta área já estava na mira para expansão. O projeto iniciou em 1983 pelas incorporadoras OAS e Líder, além de alguns fundos de pensão, pois os acionistas já vislumbravam o crescimento da área. O entrevistado relata que o referido Shopping Center se mantêm no mercado através do condomínio e um fundo de promoção (uma porcentagem sobre a venda do mês de cada loja), além do aluguel das lojas. Este último é diferenciado de acordo com tamanho da loja. Entrevistamos também a funcionária da associação dos lojistas deste Shopping Center. Segundo informações da mesma, há um índice muito alto de adoecimento entre os funcionários do shopping. Segundo a funcionária, quando as pessoas começam a trabalhar num shopping elas acham interessantíssimo, elas vêem muita gente arrumada, bem vestida, ficam todos encantados, contudo, com o passar do tempo, eles começam a perceber que o trabalho não era bem como eles imaginavam. O trabalho é “muito puxado”(sic), a carga horária é diferente e muito cansativa, todos têm de trabalhar nos finais de semana, feriados, e as pessoas não têm tempo para a família. Isso causa um desconforto muito grande, causando inclusive vários transtornos e conflitos familiares, mas como estas pessoas precisam trabalhar, elas têm que se submeter a isto. Além disso, segundo a mesma, a qualidade de vida dentro de um shopping é muito complicada, porque “uma coisa é passear, ir a lazer e outra bem diferente é estar lá dentro várias horas, todos os dias. Há dias que parece não entrar uma pessoas sequer nas lojas, e os vendedores ficam aguardando de pé, com um sorriso no rosto, é muito estressante”(sic). A maioria dos lojistas não paga assistência médica para seus funcionários e conforme a entrevistada, o ambulatório do Shopping Center pesquisado só atende primeiros socorros. Além da inexistência de assistência médica, muitos também não pagam o vale refeição, e alguns funcionários então levam marmita para almoçarem ou jantarem no shopping. Na administração tem um refeitório onde as pessoas podem esquentar sua comida, contudo, conforme declaração da entrevistada, não há espaço suficiente para todas as pessoas se alimentarem, muitas assentam no chão, ocorrendo que às vezes um colega ao retirar sua vasilha do “banho maria”, deixa cair água quente naquelas pessoas que estão assentadas próximo ao local. Segundo Dejours (2004), as condições de trabalho exprimem de modo determinado a sociedade de que faz parte. O resultado da pesquisa coloca em evidência o paradoxo existente entre o ambiente sofisticado de um shopping center e as relações de trabalho, evidenciando o cenário acima exposto. A precariedade do trabalho vem implicando em mudanças nas relações de trabalho. Tal processo pode estar ocorrendo justamente pela constatação de que hoje é possível o crescimento econômico sem a ampliação do número de empregos. O medo pela perda do emprego é uma das causas pela qual o trabalhador se submete a tais condições. As conseqüências do medo são, em primeiro lugar, a perda do prazer de trabalhar e, em seguida, o desaparecimento da confiança nos colegas. Além disso, o medo dá lugar à agressividade, ao ódio, ao rancor etc. O medo faz sofrer. É preciso se defender. E as estratégias de defesa são difíceis de construir e manter. Quando elas são solidamente constituídas, transformam profundamente a personalidade desse trabalhador. 6 CONDIÇÕES DE TRABALHO, VIDA E SAÚDE EM UM SHOPPING CENTER: A PESQUISA 6.1 Metodologia A pesquisa bibliográfica foi baseada nas referências teóricas da psicodinâmica do trabalho, privilegiando os autores C. Dejours e W. Codo, e a pesquisa de campo foi utilizado como modelo de metodologia a pesquisa de Claro, Botomé e Kubo (2003). A metodologia utilizada foi a pesquisa de campo, que de acordo Santos (2004), consiste em colher informações de um grupo de pessoas, o fator relevante de tal pesquisa não é com o rigor estatístico, mas com o aprofundamento das questões propostas; tem maior flexibilidade, podendo reformular seus objetivos no decorrer do processo da pesquisa. A pesquisa de campo se dividiu em duas etapas: Primeira etapa: Utilizamos a técnica da entrevista semi-estruturada, para reunir dados clínicos com profissional da medicina do trabalho, na busca de conhecimento e interpretação sobre os sintomas físicos e psicológicos que trabalhadores do comercio varejista apresentam. Segunda etapa: utilizamos um questionário semi-estruturado com questões relativas a dados objetivos, com características objetivas relativas a idade, gênero, escolaridade, renda familiar e condições de trabalho que foi aplicado em trabalhadores do comércio varejista de um Shopping Center da região metropolitana de Belo Horizonte, no qual buscamos destacar a questão do adoecimento e das estratégias defensivas nas relações estabelecidas. De acordo com Lima (2003, p.83), é importante que se faça “uma análise das condições de vida e de trabalho daqueles que fazem parte das categorias identificadas, a fim de entendermos melhor seu significado” para só então agirmos sobre elas. Segundo Lima (2003), não é desejável um método para subsidiar nossas investigações e nossa prática no campo da Psicologia do Trabalho. Ao contrário, devemos dirigir nosso olhar em direção ao que queremos analisar e pesquisar com a nossa lógica sem ficar preso a qualquer idéia apriorística sobre o assunto. O correto é começar pelo real, pelo concreto para depois chegarmos às abstrações, às generalizações. Portanto, é o próprio objeto que nos fornece as direções ou o caminho para conhecê-lo a fundo. Seria conveniente também, levar em conta que o conhecimento é mutável e perecível, pois ele é provisório. E para tanto é importante que se faça uma analise ergonômica do trabalho para se apreender o trabalho real, através da observação direta dos sujeitos em situação de trabalho, através da exploração das condições concretas de realização das atividades, para se compreender o espaço social do trabalhador. E também uma análise Psicossocial do Trabalho, apoiado no discurso do trabalhador , para que se possa resgatar suas histórias de vida e seus históricos operacionais na empresa, além de analisar os significados que atribuem ao trabalho, às relações interpessoais, às pressões psicológicas que são submetidos e às defesas que elaboram contra elas. Ambas se complementam e só com a sua interação se tem uma compreensão do todo, mais completa e que vai além das questões imediatas, ultrapassando a materialidade do aspecto laboral. Faz-se importante esclarecer sobre o foco desta análise, que visa o processo de produção, da socialização para saber se o trabalhador tem consciência de sua atividade e que ela é orientada para um propósito, uma finalidade. O trabalho e as formas de trabalho são situados em um momento histórico, político, econômico e social, o psicólogo necessita se desarmar de preconceitos e de métodos utilizados por outros. Só assim o profissional poderá perceber com clareza tudo que esta acontecendo ao seu entorno, naquele momento, para adquirir conhecimento mais profundo sobre o assunto, tendo em vista de que o trabalho é um processo, sempre em movimento, e, portanto, trataremos dessa psicodinâmica do trabalho. 6.2 Sujeitos Foram entrevistados 10 funcionários de comércio varejista que trabalham com atendimento direto ao cliente em lojas que fazem parte do Shopping em questão. Do total, 06 eram mulheres e 04 homens. A média de idade foi de 34 anos e 3 meses, variando em uma faixa de 19 a 63 anos de idade. A maior incidência de sujeitos foi na faixa de 24 a 30 anos. Quanto ao grau de escolaridade dos sujeitos, todos eles possuíam até o 2º grau completo. 6.2.1 Situação e ambiente As observações diretas e as entrevistas foram feitas nos locais de trabalho, durante os meses de julho, agosto, setembro e outubro. Os locais onde foram feitas as pesquisas faziam parte das instalações concentradas em forma de shopping center. 6.2.2 Equipamento e material Nas observações diretas foram utilizadas folhas de registro e relógio para controlar o tempo total de observação dos comportamentos dos sujeitos. Para as entrevistas foi utilizado um roteiro contendo perguntas semiestruturadas, enfocando saúde, trabalho e características pessoais. 6.2.3 Procedimento a) Escolha dos sujeitos Foram escolhidos como sujeitos 10 (dez) funcionários de comércio varejista que trabalham com atendimento direto ao cliente. Os sujeitos foram selecionados considerando a diversidade de ramos dessa atividade: comércio de confecções (masculina, feminina, infantil, cama/mesa/banho), acessórios, esportes, papelaria, ótica, moda íntima, brinquedos. Os trabalhadores varejistas cujos comportamentos na loja foram observados diretamente foram escolhidos por estarem na loja no horário das observações. Cada um dos sujeitos escolhidos pertencia a uma loja; dessa forma, os distintos segmentos comerciais foram representados. Os sujeitos observados não necessariamente foram os mesmos entrevistados. 6.3 Coleta de dados As técnicas de coletas de dados utilizadas foram a observação direta e a entrevista semi-estruturada. A técnica de observação escolhida foi a de registro contínuo cursivo registrando o que ocorria na situação, obedecendo à seqüência temporal em que os fatos se davam, com o intuito de caracterizar os comportamentos apresentados por um trabalhador dentro da loja, nos períodos em que havia e não havia clientes para serem atendidos. Os dias escolhidos para fazer as observações foram aleatórios, no período da tarde, o tempo de cada observação foi de aproximadamente 30 minutos. Foram feitas 05 observações com vários sujeitos em cada loja observada. As entrevistas foram realizadas com posteridade às observações direta, em diferentes dias da semana. Foi utilizado como instrumento, um conjunto de questões estandardizadas que obedeceram a uma ordem invariável à totalidade dos sujeitos e cuja natureza das questões dizia respeito à informação sobre características pessoais (idade, escolaridade, moradia, etc), de trabalho (horas de trabalho, folgas, etc) e sobre condições de saúde ( horas de sono diário, pratica de esporte, alimentação, etc). Os sujeitos contatados para serem entrevistados aceitaram e se interessaram em responder às perguntas; cinco entrevistados solicitaram permissão ao gerente para responder o questionário; apenas em uma loja visitada, os funcionários não mostraram interesse e disposição para responder às perguntas. 6.3.1 Elaboração das categorias de comportamentos Os diferentes tipos de comportamentos observados foram agrupados em categorias, obedecendo ao critério de funcionalidade. Dessa forma, cada categoria envolveu um grupo de comportamentos apresentados pelos funcionários de comércio. 6.3.1.1 Na ausência de clientes Distrair-se Ler revistas, escrever, conversar por telefone, conversar com o colega, ouvir música, jogo da velha, adedanha. Esperar Ficar de pé, apoiar-se no balcão, sentar-se. Locomover-se Andar dentro da loja, sair da loja e andar no corredor, andar atrás do balcão Relacionar-se consigo mesmo Pentear-se, olhar-se no espelho, experimentar brincos, maquiar-se, apertar espinhas no rosto, mexer nas unhas. Arrumar a loja Dobrar mercadorias, retirar mercadorias da prateleira e cabides, limpar a loja, arrumar vitrine, organizar os produtos expostos, remarcar preços. Alimentar-se Comer atrás do balcão, beber dentro da loja. 6.3.1.2 Na presença de clientes Atender prontamente Ir ao encontro do cliente; levantar-se rapidamente para atender o cliente; cumprimentar imediatamente o cliente ao entrar na loja. Não atender Ficar sentado enquanto o cliente olha os produtos, continuar com outra atividade sem dar atenção ao cliente, ficar conversando com o colega. Vender Mostrar mercadoria: procurar outras mercadorias, ver o preço dos produtos, cobrar, embrulhar o produto. Interagir com o cliente Conversar com o cliente assuntos não relacionados com a venda, rir junto com o cliente. 6.4 Resultados e discussão Os dados obtidos por meio de entrevistas realizadas com 10 (dez) funcionários de comércio de um Shopping Center da região metropolitana de Belo Horizonte e de observações diretas de comportamentos de funcionários desse mesmo local serão apresentados em tópicos: 1. Características pessoais, 2. Características das condições de trabalho, 3. características das condições de saúde e 4. características das relações interpessoais. 6.4.1 Características pessoais Foram entrevistados 10 (dez) funcionários, 60% do sexo feminino e 40% do sexo masculino. 50% são casados, 10% viúvo, 10% divorciado e 30% solteiros. Sendo que 90% residem em casa própria e 10% residem em casa de aluguel. Por meio dos dados coletados foi possível verificar que a maioria dos pesquisados possui boas condições de moradia. Contudo existe pouca probabilidade de que os trabalhadores possuam tal moradia como conseqüência direta do nível salarial. 6.4.2 Características das condições de trabalho O tempo de casa no emprego atual, tempo da jornada de trabalho, comissões sobre as vendas realizadas e o nível salarial dos entrevistados estão apresentadas na tabela 1 abaixo. No que diz respeito ao tempo de casa, a maior proporção (50%) dos entrevistados está na empresa entre 6 (seis) e 10 (dez) anos, 30% de 1 (um) ano a 3 (três) anos e 20% há menos de 1 (um) ano. Em relação à quantidade de horas dedicadas ao trabalho, 50% trabalham durante seis horas e 50% dedicam oito horas no trabalho. Vale ressaltar que uma das entrevistadas relatou que no contrato reza apenas seis horas, mas desde que iniciou trabalha 8 (oito) horas diárias. No que se refere ao intervalo para descanso os 50% que trabalham 8 (oito) h/dia, descansam durante 1 (uma) hora por dia. Já os funcionários que a jornada é de 6 (seis) h/dia, 30% fazem 30 (trinta) minutos de intervalo, 10% 15 (quinze) minutos e 20% não têm nenhum momento para repouso. Vale ressaltar que de acordo com a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) Art. 71, considera que: em qualquer trabalho contínuo, cuja duração exceda de 6 (seis) horas, é obrigatório a concessão de um intervalo para repouso ou alimentação, o qual será no mínimo de 1 (uma) hora e salvo acordo escrito ou contrato coletivo em contrário, não poderá exceder de 2 (duas) horas. & 1º Não excedendo de 6(seis) horas o trabalho será, entretanto, obrigatório um intervalo de 15 (quinze) minutos quando a duração ultrapassar 4 (quatro) horas. Quanto aos níveis salariais auferidos pelos entrevistados, conforme os seus relatos, 70% recebem entre um a três salários mínimos, e 30% auferem entre três e seis salários. Do total de pessoas entrevistadas, 100% relatam receber comissões sobre as vendas. Tabela 1: Ocorrências de respostas sobre o tempo de emprego no local, horas da jornada de trabalho, recebimento de comissões sobre as vendas e o nível salarial. Tempo de casa Ocorrência (%) Horas de trabalho Ocorrência (%) Comissões sobre venda Ocorrência (%) De 6 a 10 anos De 1 a 3 anos Menos de 1 ano 50 6 horas 50 Sim 100 30 8 horas 50 Não -x- Nível salarial De 1 a 3 SM De 3 a 6 SM Ocorrência (%) 70 30 20 O modo de trabalhar na empresa atual em relação a anterior, baseada na pesquisa, 70% dos funcionários respondeu que existe diferença, 20% se absteram em responder e 10% disse que não havia nenhuma diferença entre a empresa atual e as anteriores. Em relação à freqüência com que o chefe solicita opinião sobre o trabalho, a grande maioria relata que o gerente solicita a sua opinião e apenas 10% não são solicitados. De acordo com os relatos, todos os entrevistados são controlados através de observação direta, relatórios de venda e resultados, 90% dos entrevistados têm uma cota a cumprir e apenas 10% não tem, apesar de receber comissão sobre as vendas. Quanto a relação entre funcionários e gerência, 60% disseram ser ótima, 30% boa e 10% razoável. A tabela 2 apresenta um resumo desses dados. Percebe-se aqui que há um movimento em direção a buscar a cooperação do empregado e envolvimento com o trabalho. De acordo com Dejours (2004), a cooperação exige relações de confiança entre os indivíduos, isto é, entre colegas, chefes e subordinados e etc. Hoje em dia a confiança é para além da ordem do psicoafetivo, mas da construção de acordos, normas e regras que se enquadram na maneira que se executa o trabalho. Desta forma a cooperação só é possível se for do desejo do trabalhador. Segundo o autor, para a realização e execução da tarefa, o trabalhador dependerá de esforços de inteligência, de elaboração para construção de opiniões, para se inteirar e participar do debate de opiniões dentro da organização do trabalho, ou seja, “a mobilização subjetiva manifesta-se com grande força na maioria das pessoas saudáveis” (DEJOURS, 2004 p.70). Mas para que ocorra esta mobilização subjetiva, irá depender da contribuição e retribuição, o trabalhador espera ser reconhecido na realização das suas tarefas, e quando isso não ocorre à tendência é desmobilizar-se. Tabela 2: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre o modo de trabalhar na empresa atual em relação a anterior, a freqüência com que o chefe solicita suas opiniões, freqüência de entrevistados que tem cota a cumprir e a relação com a gerência Modo de trabalhar na empresa atual em relação a anterior Há diferença Não há diferença Não responderam Ocorrência (%) Chefe solicita suas opiniões Ocorrência (%) Cotas a cumprir Ocorrência (%) 70 10 SIM NÃO 90 10 SIM NÃO 90 10 20 relação com a gerência Ocorrência (%) Ótima Boa 60 30 Razoável 10 Em relação às condições que mais afetam a execução do trabalho, constatamos que 80% dos entrevistados afirmam que o trabalho aos domingos é muito desgastante, 20% acreditam que deveria haver uma maior comunicação na empresa, 10% afirma que é essencial o incentivo concreto para que haja maior motivação entre os funcionários, 20% informaram que às vezes a falta de mercadoria prejudica nos resultados a serem atingidos, 10% reclamou do pagamento atrasado, e todos se queixaram do movimento fraco do comércio ultimamente. O trabalho ocupa também um lugar fundamental na dinâmica do investimento afetivo das pessoas. Condições favoráveis à livre utilização das habilidades dos trabalhadores, ao controle do trabalho pelos trabalhadores e que ofereça o suporte social necessário, entre outras características, têm sido identificadas como importantes requisitos para que o trabalho possa proporcionar prazer, bem-estar e saúde, deixando de provocar doenças. Por outro lado, o trabalho desprovido de significação, o trabalho não reconhecido ou que se constitua em fonte de ameaça à integridade física e/ou psíquica pode desencadear sofrimento psíquico. Nesse sentido, acreditamos que os aspectos citados pelos entrevistados contribuem para o desencadeamento de sofrimento psíquico. Vale ressaltar o impacto que o contexto econômico na atualidade (“movimento fraco”) também tem sobre esse sofrimento. Apesar dessas condições, a maioria relata que se sentem satisfeitos com o seu trabalho, pois 40% dos entrevistados julgaram estar muito satisfeito, 50% satisfeito e apenas 10% insatisfeito. No que tange aos fatores de risco mencionados pelos entrevistados, a maioria considera que o trabalho em um Shopping center não implica em nenhum fator de risco, 30% acredita que o ar condicionado, 10% as luzes e 20% o estresse físico (desgaste físico) e emocional (pressão), provocam danos à saúde, considerando-os como fatores de risco à saúde. Seligmann-Silva (1994), afirma que existem elementos do ambiente de trabalho que assumiram uma influência importante na produção do mal estar no dia a dia do trabalhador. É possível que os entrevistados que não vêem fatores de riscos no trabalho podem não estar se dando conta disso pela “naturalização” das condições físicas num shopping. A seguir, alguns fragmentos relativos a estes aspectos: “o ar condicionado do shopping me faz muito mal, vira e mexe tenho sinusite e gripe, este ambiente fechado e o ar condicionado ligado...”(sic). “ esta luz forte muito perto do rosto da gente, teve uma cliente que era médica e me disse que tenho que usar filtro solar todos os dias, senão pode causar até câncer de pele...”(sic). “ficar de pé o dia todo, é muito cansativo, já fiz até cirurgia de veia...”(sic). De acordo com Santos (2004, p.47), o sujeito trabalhador não passa simplesmente de um estado de saúde para o estado de doença. Estas mudanças ou alterações sofrem influência de todos os fatores de riscos existentes na sociedade. Entendendo por risco “a combinação da probabilidade de ocorrência e a magnitude de um processo indesejado. (...) as causas são denominadas fatores ou situações de risco.”. O índice de entrevistados que se sentem frustrados quando não realizam nenhuma venda é de 90% e somente 10% afirma saber lidar com esta frustração, acreditando que é preciso estar preparado para situações como esta. O trabalho provoca diferentes graus de motivação e satisfação no trabalhador, principalmente, quanto à forma e o local onde ele desempenha a tarefa. À medida que o indivíduo está inserido no contexto organizacional, ele se encontra sujeito a diferentes variáveis, que afetam diretamente o seu trabalho. Atualmente, existe uma preocupação na saúde do indivíduo neste contexto, pois está relacionada diretamente com a produtividade da empresa. Ou seja, para que se atinja a produtividade e a qualidade na empresa, é necessário que se tenha empregados saudáveis e motivados com seu trabalho. Todos os entrevistados estão submetidos à produtividade, seus salários estão vinculados a um número “x” de cotas preestabelecidas. É preciso considerar que entre as diversas variáveis que afetam a motivação, além das próprias da organização do trabalho, como comissão e cotas, temos a situação da economia no Brasil, como já mencionado. De acordo com Dejours (2000, p.40), o autocontrole nos moldes japoneses “constitui um acréscimo de trabalho e um sistema diabólico de dominação autoadministrado”. Uma questão que podemos levantar é sobre as conseqüências de um impacto negativo na qualidade e na produtividade que o medo pode causar. Segundo o autor, as pressões sociais do trabalho é uma causa freqüente de sofrimento, quando o ambiente social é ruim, cada um trabalhando por si, onde não há cooperação, colegas criando obstáculos, sonegação de informações, tudo isso contribui para o adoecimento do trabalhador e para a construção de estratégias defensivas. Os entrevistados apontaram algumas vantagens que encontram no seu trabalho, sendo que as que mais apareceram foram a segurança do ambiente de shopping center, a jornada reduzida de seis horas/dia, o salário recebido para seus sustento, o conhecimento adquirido, as relações interpessoais, o reconhecimento e a valorização profissional, além da realização pessoal. As desvantagens citadas foram: o trabalho aos domingos e feriados, “jornada de trabalho muito puxada”(sic), não ter tempo para o lazer, a monotonia de “ficar parada o tempo todo”(sic) esperando cliente, desgaste físico e emocional, o espaço fechado e “não saber o que se passa lá fora”(sic), tempo longe da família, se sente “preso e limitado” (sic). De acordo com os entrevistados, satisfação no trabalho é “fazer aquilo que gosta”(sic), conseguir dar o melhor de si e ver os resultados, fazer algo de útil, realizar seus objetivos e projetos de vida. Já insatisfação no trabalho é “fazer aquilo que não gostam, por obrigação, porque precisa” (sic), trabalhar se sentindo constrangida, falta de reconhecimento, “quando não consegue vender e sair mais tarde”, “não atingir as metas”(sic), não ter qualidade de vida. Os pesquisados consideram o ambiente de trabalho um lugar bom de se trabalhar, apenas um considera razoável, uma vez que tem muito desentendimento e fofocas entre colegas. Em relação ao trabalho em shopping center, 50% relataram ser bom de trabalhar, considerando um ambiente agradável, que tem pouca poluição, convive com pessoas com poder aquisitivo melhor e agrega conhecimentos. Os outros 50% dos entrevistados afirmaram que a “qualidade de vida cai muito, a vida social é quase zero, (...) resumindo é uma escravidão” (sic) acham muito cansativo e “desgastante, além de prender e não ter liberdade para fazer nada, uma vez que não sobra tempo para nada” (sic) . Percebe-se aqui entre os entrevistados uma contradição e ambigüidade, uma vez que enquanto metade dos entrevistados gosta de trabalhar dentro de um shopping, considerando-o um ambiente agradável e glamouroso, além de seguro, os demais relatam que se sentem prisioneiros, pois não tem liberdade, lazer e vida social. Diante disso surge uma questão: será que esses entrevistados que admiram tanto trabalhar no shopping não estariam também utilizando estratégias defensivas, na medida em que gostam tanto, mas ao mesmo tempo questionam o excesso de trabalho, prazos e cotas a cumprir, ou até a monotonia da espera, e ainda relatam sobre a insônia, ansiedade e dores constantes nos pés e nas pernas? Podemos perceber que alguns pesquisados estão utilizando estratégias defensivas individuais, como os casos de uma vendedora que relatou “saio para dançar, faço academia e tenho uma alimentação balanceada”(sic), isto porque estava tendo muitas dores musculares e sofrendo de pressão alta, ou outro que se isola dos colegas e fica pensativo quando está estressado pois tem consciência "que minha personalidade muda um pouco"(sic). O fato das lojas possuírem poucos funcionários favorece para a construção de estratégias defensivas individuais, confirmando o que os teóricos afirmam quanto a utilização das estratégias defensivas, como mencionado anteriormente. 6.4.3 Características das condições de Saúde As condições de saúde dos trabalhadores entrevistados foram caracterizadas segundo informações fornecidas em relação ao absenteísmo, disposição para tarefas domésticas, horas de sono diárias, qualidade do sono (freqüência com que acordam durante a noite), quantidade de refeições e tipos de alimentos consumidos, atividades que realizam em dias de folga, freqüência de prática desportiva e em relação a tipos e freqüência de problemas ou desconfortos de saúde. De acordo com os entrevistados 100% não faltam ao trabalho, salvo motivo grave. A maior proporção de indicação em relação à disposição de tarefas após a jornada de trabalho foi de “cansada, mas disposta” (50%), 30% deles relatam ter disposição (grau médio inferior de disposição) para tarefas de casa depois de chegar do trabalho e 20% relatam indisposição para tarefas domésticas e prática de esportes. Na tabela 3 estão apresentadas a quantidade de sono relatada pelos trabalhadores, bem como a qualidade do sono, avaliada pela freqüência com que acordam durante a noite. 50% deles costumam ter oito horas diárias de sono, 10% cinco, 10% seis horas, 20% sete horas e 11 horas 10%. Em relação à freqüência com que acordam durante a noite, 40% relatam que nunca acordam, 30% acordam pouco e 30% indicam que acordam com freqüência durante a noite. Tabela 3: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre a quantidade de horas de sono diárias e a qualidade do sono avaliada pela freqüência com que acordam à noite. Horas de sono diárias 5 horas 6 horas 7 horas 8 horas 11 horas Ocorrência (%) 10 10 20 50 10 Qualidade do sono Acordar à noite Frequente Pouco Nunca Ocorrência (%) 30 30 40 Na tabela 4 estão apresentadas as percentagens de indicações relacionadas à quantidade de refeições diárias. O tipo de alimento mais consumido foi o tipo caseiro para a refeição principal, entretanto 100% dos entrevistados relatam consumir lanches (salgados, chips, bolos, pizza, sanduíches, refrigerante, suco e etc) diariamente nas demais refeições. Em relação as estratégias mais utilizadas para escapar das tensões diárias, os entrevistados relacionaram: dar uma volta pelo shopping e as conversas com amigos para desabafar (50%), 10% sugere algum tipo de comida e/ou chocolate, 10% utiliza bebida alcoólica, 10% toma café, 10% se isola dos colegas e 10% arrumar a loja. Tabela 4: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre a quantidade de refeições diárias Quantidade de refeições diárias 1 refeição por dia 2 refeições por dia 3 refeições por dia 4 refeições por dia 5 refeições por dia Ocorrência (%) 10 30 20 30 10 A tabela 5 apresenta as percentagens de indicações relativas às atividades mais estressantes com relação ao trabalho, ressaltando que cada entrevistado poderia dar mais de uma resposta. 60% indicaram como fator de estresse os prazos a cumprir, 30% o excesso de trabalho, 30% horas extras, outros 30% atividades monótonas e 10% novos desafios. Tabela 5: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre as atividades mais estressantes em relação ao trabalho e com relação aos aspectos da saúde os sintomas mais freqüentes Atividades estressantes Atendimento ao público Telefonemas Excesso de trabalho Prazos a cumprir Atividades monótonas Horas extras Desafios Novas responsabilidades Freqüente 0 0 30 60 30 30 0 0 Ocorrência (%) Pouco Nunca 0 100 0 100 30 40 40 0 40 30 0 70 10 90 0 100 Em relação aos aspectos da saúde, a tabela 6 apresenta a ocorrência desses. Os sintomas mais freqüentes indicados pelos pesquisados foram: 60% dores musculares e 40% ansiedade, 20% irritabilidade, 20% fadiga, 20% perda de memória, 20% dor de cabeça, 20% insônia e 10% depressão. Acreditamos que a predominância das dores musculares seja devido às condições do trabalho no comércio, que é a de permanecer muitas horas em pé. Tabela 6: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre os aspectos da saúde e os sintomas mais freqüentes Aspectos de saúde Irritabilidade Fadiga Perda de memória Enxaqueca Dor de cabeça Insônia Ansiedade Dores musculares Depressão Segundo Freqüente 20 20 20 0 20 20 40 60 0 Selligmann-Silva Ocorrência (%) Pouco Nunca 10 70 0 80 10 70 0 100 10 70 40 40 10 50 10 30 10 90 (1994), a irritabilidade e a insônia são manifestações da fadiga crônica. Situações variadas como um fracasso, um acidente de trabalho, instabilidade financeira, uma mudança de posição (ascensão ou queda) na hierarquia numa carreira profissional, freqüentemente determinam quadros psicopatológicos diversos, desde as reações ao estresse, dores musculares até depressões graves, variando segundo características do contexto da situação e do modo do indivíduo responder a elas. 6.4.4 Características das relações interpessoais As relações interpessoais foram caracterizadas segundo informações fornecidas em relação aos amigos, contato com pessoas estranhas, número de pessoas que residem com o entrevistado, quanto tempo passa com a família, com os colegas e a freqüência que se reúne com esses. Relacionado com o sentimento de incômodo de o entrevistado estar o tempo todo conversando com pessoas estranhas, 90% afirma que não se sente incomodado e que “até gosta de conversar com gente nova”(sic), apenas 10% disse não gostar muito. Em relação ao contato com amigos fora do ambiente de trabalho, todos afirmaram ser boa, mas apenas 20% relataram que encontram sempre, 80% quase não encontram, dizendo que o contato é por telefone, conforme alguns relatos: “Só por telefone”, ou, “Não tenho tempo”, ou, “a relação é ótima, eu ligo sempre”, ou ainda, “é ótima, mas não é constante, pois o fato de trabalhar no shopping consome muito tempo e o que sobra é para ficar com a família”(sic). Na tabela 7, estão apresentados os dados sobre a quantidade de pessoas com que os entrevistados moram e o tempo compartilhado com a família. É possível notar que 80% dos entrevistados vivem em família de até três pessoas, e os restantes constituem famílias de quatro a cinco pessoas. A proporção de tempo compartilhado com a família, 40% dos entrevistados dedicam de quatro a seis horas, 30% entre duas a quatro horas, 20% menos de duas horas. A proporção de pessoas que dedicam mais de seis horas com a família é de 10% da amostra. Tabela 7: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre a quantidade de pessoas com que moram e o tempo compartilhado com a família Quantidade de pessoas com que moram Até 3 pessoas De 4 a 5 pessoas Ocorrência (%) 80 20 Tempo compartilhado com a família Menos de 2h 2h a 4h 4h a 6h Mais de 6h Ocorrência (%) 20 30 40 10 Podemos notar aqui a tendência na sociedade para a constituição de famílias menores do que há alguns anos atrás. Na tabela 8, estão apresentadas a freqüência com que os trabalhadores se reúnem com seus colegas fora do ambiente de trabalho, 60% relatam que se encontram pouco, 20% que se reúnem com mais freqüência e 20% que nunca se encontram fora do ambiente de trabalho. E em termos da relação com os colegas no ambiente de trabalho, 80% afirmam ser ótima a relação e 20% ser boa. Tabela 8: Ocorrências de respostas dos sujeitos sobre a freqüência com que se reúnem com os colegas fora ambiente laboral e a relação com os colegas no ambiente de trabalho. freqüência com que se reúnem com os colegas fora trabalho Sempre Freqüente Pouco Nunca Ocorrência (%) 20 60 20 relação com os colegas no ambiente de trabalho Ótima Boa Razoável Ruim Ocorrência (%) 80 20 O convívio social com os colegas de trabalho é pouco freqüente, o que pode significar que os entrevistados não estabelecem relações muito significativas no ambiente de trabalho, estando a família e amigos preenchendo satisfatoriamente essa necessidade até o momento. Segundo Lima (1994), existe uma estreita relação entre a função afetiva preenchida pela família e o tipo de relação que o sujeito estabelece com a empresa na qual trabalha. De acordo com estudos da autora, os sujeitos que viveram relações originárias pouco afetivas na família, tentam recriar o afeto com a empresa na qual trabalha. Seligmann-Silva (1994, p.195), afirma que nesta interface família/trabalho “há um fluxo em que a subjetividade desloca experiências familiares para o mundo do trabalho” . Pode-se notar que a grande maioria dos entrevistados se dedica às suas famílias e compartilham com elas boa parte do dia. Apesar de cansados, principalmente, quando se referem ao trabalho nos dias de domingo, os sujeitos dizem sentir-se satisfeitos com seu trabalho, mesmo que o trabalhar fora signifique um acúmulo de papeis e tarefas. A satisfação no trabalho pode ter relação com a assimilação de que o fato de estar empregado é, em si mesmo, um benefício, independentemente do conteúdo e das condições do mesmo. 6.5 Discussão dos dados Com base nos resultados, pode-se observar que esse grupo de trabalhadores vivencia tanto o prazer quanto o sofrimento no trabalho. As vivências de sofrimento parecem mais associadas ao não cumprimento das metas preestabelecidas, pela falta de reconhecimento, de fazer o que não gosta ou ainda quando o relacionamento interpessoal não está adequado. Tal configuração, a partir dos pressupostos do modelo teórico, leva-nos a inferir que no grupo de trabalhadores há um processo de amplificação ou até mesmo imposição de estratégias defensivas. Certos tipos de mecanismos de defesa, tais como a idealização, identificação, recusa da realidade, repressão e etc., assim também comportamentos defensivos como individualismo, por exemplo, parecemnos adotados com esforço pelos entrevistados para responder às pressões típicas dessa categoria de trabalhadores. Essas pressões são, essencialmente, as exigências excessivas de produtividade e de qualidade, a forte competição entre os pares e de mercado e as contradições, além do imperativo de autosuperação. É importante esclarecer que a intensificação de mecanismos de defesa é considerada como elemento importante nos processos de ruptura da estabilidade psíquica, o que reforça nossa hipótese de que o trabalho em um shopping center envolve riscos mentais significativos. Em função dos conflitos e sofrimentos, partes significativas do conhecimento sobre a realidade são cindidas e negadas, ocasionando a alienação. O sentido dado ao trabalho por parte dos vendedores pesquisados, é produzido por ideais baseados no mercado econômico, atravessado por contradições, alienação e por uma superficialidade na forma de interpretação das próprias vivências. Já a vivência de prazer no trabalho é caracterizada pela satisfação de fazer o que gosta, quando o sujeito se sente útil, ao cumprir as metas impostas pelo patrão. Uma questão revela-nos um paradoxo na resposta dos entrevistados que estavam muito satisfeitos no trabalho, diz respeito ao fato de se sentirem irritados, com dores de cabeça, insônia e dores musculares freqüentes. Evidente que há mais perguntas do que respostas, já que o estudo é mais uma aproximação do fenômeno do que uma investigação do mesmo. Mas há considerações que podem ser relevantes para tentar entender tais características. A cultura de shopping center pode ser uma das explicações para o alto índice de satisfação indicado pelos entrevistados. Claro, Botomé e Kubo (2003), citando Frúgoli, ressaltam que os shoppings centers estão perpassados por significados e relacionam a sociabilidade que ali se estabelece com um jogo simbólico, ou uma forma lúdica de interação e associação, onde as diferenças sociais são reelaboradas. Isto fica claro numa citação de um entrevistado quando o mesmo diz que se sente privilegiado de trabalhar onde trabalha, uma vez que “quem freqüenta shopping tem potencial maior, são pessoas cultas e pode trazer conhecimento, ajuda na postura”(sic). Verifica-se que a percepção é de que trabalhar em um shopping center tem mais “glamour” do que no comércio aberto (nas ruas). A aparência é muito relevante neste ambiente, desta forma, é importante que os vendedores também tenham uma aparência de sofisticação necessária para manter uma identidade coletiva configurada pela seletividade e pela sofisticação. Deve-se ainda destacar a importância da formação do coletivo para a elaboração e superação do sofrimento relacionado ao contexto de trabalho, elaboração esta que, muitas vezes, sucumbe às estratégias individuais. Nem sempre os trabalhadores proativos e assertivos conseguem enfrentar o sofrimento advindo das relações de trabalho, caracterizadas pela socialização, interação e compartilhamento da relação com o outro. Nesse sentido, o sofrimento é vivido de modo particular, mas se manifesta de forma coletiva, em função da categoria profissional estar submetida às mesmas condições e organização do trabalho. Como forma de enfrentar essa sobrecarga, alguns entrevistados fazem uso de alternativas externas ao ambiente de trabalho, tanto através de meios psiquicamente saudáveis de enfrentamento, como atividades físicas, quanto através de comportamentos de fuga ao sofrimento, ignorando-o por meio de justificativas lógicas e coerentes. Assim, essa forma de enfrentar o sofrimento mostra a utilização pelos vendedores do mecanismo de defesa da racionalização, como por exemplo: “aqui sou respeitado como um acionista”(sic) “não estou dormindo bem, eu sou muito ansiosa” (sic), “me dou ao luxo de ter um carro bom, morar num bairro classe A, tenho crédito em bancos, nome limpo, posso ir à praia uma vez por ano, além disso a empresa paga metade do plano de saúde” (sic). A utilização desse mecanismo de defesa já era esperada, visto que a racionalização é uma defesa secundária, que pode ser consciente e coletiva. Tal defesa relacionada ao trabalho, tem como objetivo a adaptação às condições dolorosas das situações adversas. Portanto, a racionalização é uma das defesas mais utilizadas e apropriadas para o enfrentamento do sofrimento gerado no ambiente de trabalho. 8 CONCLUSÃO O trabalho e as relações de trabalho permeiam a vida dos homens de todos os séculos. Novas teorias têm surgido dando novos conceitos ao trabalho, que este seja concebido como experiência de convivência sadia, respeito, compromisso, gratificação, produção, reconhecimento e que contribua na qualidade de vida do cidadão. O atual quadro econômico mundial, em que as condições de insegurança no emprego, sub-emprego e a segmentação do mercado de trabalho são crescentes, reflete-se em processos internos de reestruturação da produção, enxugamento de quadro de funcionários, incorporação tecnológica, repercutindo sobre a saúde mental dos trabalhadores. O trabalho é responsável tanto pela saúde quanto pelo adoecimento mental do trabalhador. Para lidar com o sofrimento o trabalhador desenvolve estratégias defensivas construídas individualmente ou coletivamente. O trabalho ocupa também um lugar fundamental na dinâmica do investimento afetivo das pessoas. Condições favoráveis à livre utilização das habilidades dos trabalhadores, ao controle do trabalho pelos trabalhadores e que ofereça o suporte social necessário, entre outras características, têm sido identificadas como importantes requisitos para que o trabalho possa proporcionar prazer, bem-estar e saúde, deixando de provocar doenças. Por outro lado, o trabalho desprovido de significação, o trabalho não reconhecido ou que se constitua em fonte de ameaça à integridade física e/ou psíquica pode desencadear sofrimento psíquico. O reconhecimento é a própria dinâmica do aparelho psíquico. O trabalho é um dos instituintes da subjetividade e da identidade do sujeito. Quando não há o reconhecimento, instaura-se o sofrimento psíquico ou mesmo somático. E de acordo com Dejours (2004), entre sofrimento e doença podem intercalar-se as estratégias defensivas. O trabalho como fonte de prazer, sofrimento e definidor da identidade social, conforme estudos teóricos, foi confirmado na presente pesquisa. Diante disso, podemos concluir que o valor atribuído ao trabalho como alternativa de sobrevivência e dignidade, exercem papeis fundamentais na dinâmica de enfrentamento das situações de trabalho que propiciam o sofrimento mental do trabalhador. O ambiente de trabalho – o glamour do Shopping Center – influencia na constituição da subjetividade do trabalhador. Os pesquisados, de acordo com os resultados deste estudo, mesmo apresentando indicadores de saúde, vivenciam o sofrimento psíquico. Acreditamos que é possível que estejam atingindo tal equilíbrio psíquico pelo fato de exercerem um trabalho que lhes possibilite ocupação, sobrevivência, além de ser uma alternativa ao desemprego. Isso funciona como uma estratégia defensiva para manter um investimento no trabalho como fator de realização e identidade psicológica e social. Desta forma, o prazer pode estar mascarado por mecanismos de defesa, conforme citado anteriormente. A importância deste estudo residiu, principalmente, em indicar as características principais de um tipo de trabalho, pouco pesquisado, e ser fonte de questionamentos sobre a relação com a saúde desse trabalhador. Fica como sugestão a necessidade de realizar mais estudos que focalizem o trabalho no comércio e suas implicações para a saúde dos trabalhadores de maneira mais aprofundada. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho. 1º ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1986 ALMEIDA, Paulo Roberto de. Colapso!: prevendo a decadência econômica brasileira. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/060/60almeida.htm. Acesso em: 16 mai. 2006 ARAÚJO, Tânia. O olhar do sujeito sobre o trabalho que executa: sua percepção sobre os riscos e tarefas – um estudo com trabalhadores em telecomunicações. In: Qualidade de vida, saúde mental e psicologia social: estudo contemporâneos. 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Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8080.htm Acesso em 27 ago 2006 CHANLAT, Jean François. Ciências sociais e management, reconciliando o econômico e o social. São Paulo: Atlas, 1999 CLARO, M.M.F. BOTOMÉ, S.P. KUBO, O M. Condições de trabalho, vida e saúde de trabalhadores de comercio em shopping center. RPOT, volume 3, número 2, pg 63-90, julho – dezembro, 2003 CLT acadêmica / obra coletiva de autoria da Editora Saraiva com a colaboração de Antônio Luiz de Toledo, Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt e Lívia Céspedes. São Paulo: Saraiva, 2003 CODO, Wanderley. O trabalho enlouquece?: um encontro entre a clinica e o trabalho. Wanderley Codo (org). Petrópolis. RJ: Vozes, 2004 CODO, Wanderley. Um diagnóstico integrado do trabalho com ênfase em saúde mental. In: Saúde mental e trabalho: Leituras. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2002 CODO, W. SORATTO, L. Saúde Mental e Trabalho: Uma revisão sobre o método. 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( ) Sim ( ) Não 5.Como é trabalhar aqui? ( ) Ótimo ( ) Bom ( ) Razoável ( ) Ruim 6.Como se sente trabalhando nesta empresa? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 7.Como os funcionários são cobrados quanto ao cumprimento de tarefas? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 8.Você se sente útil com o trabalho que realiza? ( ) Sim ( ) Não 9.É o que você gosta?__________________________________________________ 10.Qual é o seu horário de trabalho? _____________________________________ 11.Tem intervalo de tempo para fazer alguma atividade? _____________________ 12.O que você faz quando não tem cliente? (Para ocupar o tempo ocioso?) ____________________________________________________________________ 13.Como é o controle sobre seu trabalho?_________________________________ 14.O que poderia ser feito para melhorar as condições de trabalho? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 15.O que faz quando o cliente chega à loja? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 16.Seu gerente solicita sua opinião sobre o seu trabalho? ( )Sim ( ) Não 17.Qual o grau de satisfação com seu trabalho? Por quê?______________________ ( ) Muito satisfeito ( ) satisfeito ( )insatisfeito 18.Como é sua relação com colegas? ( ) Ótima ( ) Boa ( ) Razoável ( ) Ruim 19.Como é sua relação com supervisores e/ou gerentes? ( ) Ótima ( ) Boa ( ) Razoável ( ) Ruim 20.Como é sua relação com os donos da loja? ( ) Ótima ( ) Boa ( ) Razoável ( ) Ruim 21.Quais os fatores de riscos a que você está exposto? Biológico___________ Físico______________ Químico____________ Nenhum____________ 22.Você sai do trabalho frustrado quando não realiza nenhuma venda? Por quê? ____________________________________________________________________ Em relação a sua saúde: 23.Você adoece muito devido ao seu trabalho?_____________________________ 24.Você falta muito no trabalho? Qual motivo? _____________________________ 25.Você já teve alguma crise de estresse? Qual a causa? 26.Quando o funcionário adoece é feito algum atendimento dentro do Shopping? ________________________________________________________________ 27.Você falta muito no trabalho? Qual motivo? __________________________ 28.Qual sua disposição para tarefas domésticas, depois do trabalho? ( ) Muita ( ) Disposto ( ) Pouca ( ) Indisposto 29.Quantas horas de sono diário? ________________________________________ 30.Acorda durante a noite? _____________________________________________ 31.Quantas refeições por dia?___________________________________________ 32.Qual tipo de alimentação?____________________________________________ 33.Pratica algum esporte?______________________________________________ 34.O que faz em dias de folga?__________________________________________ 35.Qual das atividades é para você mais estressante, com relação ao seu trabalho? ( ) Atendimento ao público ( ) Telefonemas ( ) Excesso de trabalho ( ) Prazos a cumprir ( ) Atividades monótonas ( ) Horas extras ( ) Desafios ( ) Novas responsabilidades Outras–Quais? _________________________________ 36.Você sente algum tipo destes sintomas mais frequentemente? ( ) irritabilidade ( ) Fadiga ( ) Perda de memória ( ) enxaqueca ( ) Dor de cabeça ( ) insônia ( ) ansiedade ( ) dores musculares ( ) depressão ( ) outros – quais? 37.Você tem algum tipo de válvula de escape para as tensões diárias? Indique qual é a principal. ( ) cigarro ( ) café ( ) conversa com amigos ( ) comida ( ) bebida ( ) outros –quais? 38.O que você faz no seu ambiente de trabalho para combater o estresse? ________________________________________________________________ As relações interpessoais: 39.Você se sente incomodado de conversar com pessoas que não conhece o tempo todo? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 40.Como é sua relação com os amigos fora do trabalho? _________________________________________________________________ 41.Quantas pessoas moram com você?___________________________________ 42.Você se reúne com colegas de trabalho? Qual a freqüência? ( ) Nunca ( ) Freqüente ( ) Pouco ( ) Sempre 43.Quanto tempo passa com a família: ( ) menos de 2h ( ) 2h a 4h ( ) 4h a 6h ( ) ±6h 44.Fale três vantagens e três desvantagens que você tem no seu trabalho. 1._________________________________________________________________ 2. _________________________________________________________________ 3. _________________________________________________________________ 1. _________________________________________________________________ 2. _________________________________________________________________ 3. _________________________________________________________________ 45.O que é para você satisfação e insatisfação no trabalho? S:__________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ I:__________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 46.Como qualifica seu ambiente de trabalho? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 47. Como é trabalhar em um Shopping center? Como se sente? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________