1 HELVÉCIO ALVES JUNIOR DA ESCOLA PARA O PALCO: UMA POÉTICA TEATRAL COM ADOLESCENTES. Criação coletiva de uma peça por estudantes da EE Julio Mesquita e do Colégio Básico, Campinas/SP. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação, do Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação, sob a orientação do Prof. Dr. Severino Antônio Moreira Barbosa. UNISAL AMERICANA 2009 2 Autor: Helvécio Alves Junior Título: Da escola para o palco: uma poética teatral com adolescentes; criação coletiva de uma peça por estudantes da EE Julio Mesquita e do Colégio Básico, Campinas-SP. Dissertação apresentada como exigência parcial para a obtenção do grau de Mestre em Educação. Trabalho de conclusão de curso defendido e aprovado em _____/_____/_____, pela comissão julgadora: _____________________________________________________ Prof. Dr. Severino Antonio Moreira Barbosa (orientador- UNISAL) _____________________________________________________ Prof. Dr. Luis Antonio Groppo (membro interno – UNISAL) ______________________________________________________ Prof. Dr. José Geraldo Marques (membro externo – UNICAMP) UNISAL Americana 2009 3 Dedicatória Dedico este trabalho a todos artistaseducadores e a todos educadores-artistas cônscios de suas responsabilidades perante a humanidade: meus primeiros educadores, meus pais, Helvécio e Irene; meus queridos mestres escolares; as pessoas do mundo com as quais aprendi e nem sei os seus nomes; e tantos outros mestres: Chaplin, Elis Regina, Maiakovski, Burle Marx, Shakespeare, Fernando Pessoa, Brecht, Manuel Bandeira, Villa-Lobos, Gandhi, Mandela, Mario Monicelli – diretor de um Companheiros”, belo filme “Os visto na adolescência e jamais esquecido... Entre outras belas pessoas - artistas e educadoras - que dão sentido a minha vida. 4 AGRADECIMENTOS Agradeço... - à Deus, mistério, certeza e sentido maior da minha existência; - à Irene e Helvécio Alves, minha mãe e meu pai pelos verdadeiros e belos exemplos de vida, pelas histórias lidas e contadas, pelas idas aos cinemas, teatros e circos, pela confiança em mim, por tudo que me possibilitaram material e emocionalmente, por tudo que me ensinaram; - à Bia, Gomes, Fellipe e Amanda, minha irmã, cunhado e sobrinhos, por todo apoio e aprendizado na rica e prazerosa convivência; - à Tia Luzia (in memoriam), que prestigiava os meus “teatrinhos” e a todos os outros tios, tias, primos e primas – são muitos nomes - que fazem parte da minha família, da minha história, da minha educação, da minha arte, da minha vida! Com vocês aprendi o valor do amor e da união; - à todas/todos as/os mestres que tive desde o primário até o mestrado, particularmente os da UNISAL: Profa. Sueli, Profa. Norma, Prof. Marcos, Prof. Groppo, Prof. João, Prof. Paulo, Prof. Augusto e Prof. Severino; muitíssimo obrigado; - à todos os colegas de escola, de universidade e de mestrado; pelas imprescindíveis trocas de conhecimentos vários, entre tantos destaco: Silvia E. Zanoni – que me indicou a UNISAL, Andréa Cassado, Martha, Liris, Yara, Camila, entre tantos outros; - à todos os meus ex e atuais alunos, com os quais convivi, ensinei e aprendi, em nome de todos eles destaco aqueles que participaram deste projeto, sétimas séries (oitavo ano) da EE Julio Mesquita e do Colégio Básico: Aline, Amanda, Bianca, Bruna, Bruno, Caio, Eric, Fernanda, Giovana, Guilherme A., Guilherme C., Guilherme S., Jéssica, Johny, Júlia, Juliana, Júlio, Leonardo, Leone, Ludmila, Paula, Rafael, Rebeca, Renan, Rodrigo, Sergio A., Sergio G., Stella, Thaís L., Thaís M., Thamires, Thiago, Victor e Vinicius; - à todo pessoal da Diretoria de Ensino Campinas Oeste, todos responsáveis pela Bolsa Mestrado, programa fundamental para que eu pudesse fazer este curso; 5 - às Diretoras com as quais muito aprendi nas escolas em que lecionei, mulheres que educam com amor e sabedoria: Elena da EEPSG “Rev Prof. José Carlos Nogueira” – 1992/1994, Marlene do Colégio Farroupilha - 1993/2002, Helen e Mara da EE “Julio Mesquita” 2004/2009 e Stela e Renata do Colégio Básico – 2008/2009; - ao Paulo Guilarducci por todo apoio e ao “palhaço de picadeiro” Rodrigo Senden pelo poético encontro na praça; - à todos meus amigos que foram e são fundamentais na travessia da vida: César, Euler, Silas, Elizinha, Ana Elisa, Ana Leimer, entre tantos outros; - à Marcia Spaolonzi, uma amiga que já partiu, verdadeira mestre e orientadora educacional, foi para mim um exemplo de força, sabedoria, bom-humor, amor e respeito à liberdade, à vida, ao próximo. Meu muito obrigado! 6 “A educação deveria sempre abranger o um e os muitos, a pessoa e o grupo; e qualquer fase da educação que tenda a dar ênfase à pessoa contra o grupo, ou o grupo contra a pessoa, é obviamente destruidora.” Herbert Read (READ, 1986, p.59) 7 RESUMO Este trabalho originou-se da questão de pesquisa: quão educativa e significativa pode ser uma montagem teatral feita por adolescentes no ambiente escolar? Esta dissertação, pesquisa bibliográfica e pesquisa-ação, apresenta o relato de experiência e interpretação do processo de criação da peça “Adolê Sendo”, com 32 jovens de duas escolas, uma estadual e outra particular, ambas do município de Campinas/SP. Buscou-se um processo educativo e prazeroso por meio da arte educação, da valorização da linguagem, do poético, do lúdico e de uma concepção fenomenológica de educação. A base teórica foi dada pelas contribuições, entre outras, de V. Spolin e R. Courtney sobre o teatro na educação; H. Read, A. Rezende e P. Freire na área educacional; A. Bosi, E. Morin e J. Huizinga no campo filosófico; G. Gusdorf, O. Paz, F. Dolto, S. Antônio e I. Bordelois na área da linguagem. Os objetivos do projeto foram propiciar aos jovens maior conhecimento da linguagem teatral; promover maior interação entre os educandos e trabalhar valores estéticos, éticos e humanos. O projeto previa que os alunos participassem ativamente de todo o processo e que tudo fosse decidido coletivamente. O trabalho culminou com uma apresentação pública, seguida de debate. Os relatos demonstram que a peça superou as expectativas de todos, não houve diferenças no desempenho cênico entre os jovens das duas escolas, e a peça abrangeu conhecimentos transdisciplinares e complexos; durante a peça houve muito companheirismo entre os alunos-atores e os depoimentos destacam que houve um aprendizado significativo e muito prazeroso. Este trabalho realizou seus objetivos na busca de novos sentidos e ressignificações em um mundo onde a vida e a educação cada vez mais carecem de sentido(s). Palavras-chave:Educação, Teatro, Linguagem, Poética, Jogo, Fenomenologia. 8 ABSTRACT The present text is originary of a question: How much a theater work, produced by teenagers, could be meaningful and instructive in a school environment? This dissertation is based on official bibliography and in local search which data collected confirmed the result. The work tells how 32 students of a public school and a private school ( both located in Campinas – SP) experienced and understood the process of how to develop a creation of a play, that they named as “ Adole Sendo “. Through a pleasure educational process of art education, the work aimed to value the poetic language, as well as, a fun and remarkable conception about education, BASEADA NOS PRINCÍPIOS DA PHENOMENOLOGY. V. Spolin and R. Cournt were considered a rich bibliography with their theory about “ the art of teaching with theater games “ ,, H. Read, A. Rezende and P. Freire in the education field were some of the biggest contributions to value more and more the theoric part of the search. Others important names as A. Bosi E. Morin and J. Huizinga were valuable in the philosophic field, authors as G. Gusdorf, , O. Paz, F. Dolto, S. Antonio and I. Bordois supported the language aspects to complete the thesis. The main objective of the project were to enlarge knowledge about the theater language art in order to make the students to interact each other and besides to learn art values as esthetic and ethic, they also learned important human values. The project forecasted that the students should be involved completely in the work, and any and all decision should be taken by them as a team, always in a democrat way. The highest point of the work was a public presentation with a debate done right after ending the presentation. All the speeches demonstrated that the play had an over expectation. Any differences in the theatrical performance of the students, in both: public and private school were well worked and well solved by themselves. The learning through the play covered a complex and wide knowledge and expands all fields of the curricular system. During the presentation students were friendly each other and by their own narratives after ending the play it was pleasant and meaningful to be in the play project The atmosphere showed that there was also a meaningful learning. The conclusion is that in a world which citizens are always anxious for a meaningful and efficient education, this project proves that through the art of theater work in schools, people can reach and feel the power of wisdom got through a good education. All done with great pleasure and meaningful methodology. Key-words: Education, Theater, Language, Poetics, Play, Phenomenology. 9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES ILUSTRAÇÃO 1 – Quadro comparativo entre duas escolas...................... 045 ILUSTRAÇÃO 2 – Quadro Sinóptico sobre Educação.............................. 113 ILUSTRAÇÃO 3 – Foto da platéia do Teatro da E E “Culto à ciência”...... 178 ILUSTRAÇÃO 4 – Foto do palco do Teatro da E E “Culto à ciência” ........ 179 ILUSTRAÇÃO 5 – Palco Tipo Italiano ...................................................... 179 ILUSTRAÇÃO 6 – Convite para a estréia.................................................. 184 ILUSTRAÇÃO 7 – Cartaz da peça............................................................ 189 ILUSTRAÇÃO 8 – Foto do Elenco após a peça........................................ 194 ILUSTRAÇÃO 9 – Fotos da peça.............................................................. 200 10 SUMÁRIO PRÓLOGO – Uma introdução teatral ...................................................... 011 Ato I – Teatro: a arte do diálogo, do eu e do outro Cena única................................................................................................. 015 Ato II - Por uma educação significativa, prazerosa e poética .............. 030 Cenas: 2.01 - Redescobrir: o que nos move, a autoria...................................... 031 2.02 - Ser ou não ser? Eis a questão!..................................................... 036 2.03 - Um recorte do universo.................................................................. 042 2.04 - Teatro: arte do encontro, arte que educa..................................... 050 2.05 - Fenomenologia e educação........................................................... 051 2.06 - Sobre Hermes e hermenêutica...................................................... 070 2.07 - Freire: por uma pedagogia da autonomia................................... 076 2.08 - Linguagem, poesia e poética........................................................ 081 2.09 - Jogo: lúdico, educativo e estético................................................ 090 2.10 - Complexidade e educação............................................................. 103 2.11 - Por uma educação dos sentidos................................................... 108 Ato III - A carpintaria teatral..................................................................... 115 Cenas: 3.1 - Antes da carpintaria......................................................................... 116 3.2 - Read e a educação por meio da arte............................................... 117 3.3 - Algumas bases teóricas para o teatro na educação..................... 122 3.4 - Oficinas e jogos teatrais ................................................................. 143 3.5 - “Adolê Sendo”: uma poética teatral, uma criação coletiva ......... 163 3.6 - Uma síntese da peça: textos e contextos....................................... 185 3.7 - Abrindo as cortinas: vivenciando o transdisciplinar, reencontrando o humano..................................................................................... 190 Último Ato - Considerações Finais......................................................... 207 Referências Bibliográficas....................................................................... 216 Anexo 01 – Jogos Teatrais e Bibliografia sobre Teatro........................... 221 Anexo 02 – Expressão Vocal................................................................... 224 Anexo 03 – Dramaturgia.......................................................................... 225 Anexo 04 – Escrita de cena A e B............................................................ 227 Anexo 05 – Sobre amores reais................................................................ 228 Anexo 06 – Desenhos de alunos: “ser adolescente / adolescência” ........ 229 Anexo 07 – Mensagem aos alunos e Poema de Maiakovski.................... 230 Anexo 08 – Carta de uma mãe de aluna................................................... 231 Anexo 09 – Texto de aluna sobre teatro na escola................................... 232 Anexo 10 – Modelo de Autorização para Alunos....................................... 234 Anexo 11 – Modelo resumido de “Check List” .......................................... 235 Anexo 12 – Pequeno Glossário de Cenografia......................................... 236 Anexo 13 – Texto da peça “Adolê Sendo” ................................................ 239 Anexo 14 – DVD da peça “Adolê Sendo” .................................................. 267 11 PRÓLOGO Uma introdução teatral... (Autor sobe ao palco e no proscênio, diante das cortinas fechadas, manuseia alguns livros, algumas folhas manuscritas, outras folhas digitadas. Olha para o público e diz:) AUTOR: Antes de publicar, de público tornar, muitas folhas foram lidas, muitas folhas foram escritas e reescritas. A obra que agora se apresenta bem antes foi concebida. Muitas vozes somaram-se à minha. Vozes de alunos, de mestres, pesquisadores e companheiros queridos. Dentre tantas vozes exercitei um ouvir atento, um interpretar, um desvelar sentidos... (pausa) Dentre tantas vozes procurei minha voz própria. Busquei uma questão mobilizadora, um projeto de educação. Não qualquer educação. Uma educação dos sentidos – de todos os sentidos – corpo, mente, emoções. Significativa. Ética e estética. Artística e poética. E, antes de tudo, prazerosa. Uma educação que resgatasse o sabor do saber! E eis a minha questão! (fala pausada e reflexivamente) - Quão educativa e significativa pode ser uma montagem teatral feita por adolescentes no ambiente escolar? (pausa. Outro tom) Esta obra é fruto de uma pesquisa bibliográfica, de uma pesquisa-ação. Farei o relato de uma experiência, de uma intervenção educativa, uma vivência estética, uma poética teatral com adolescentes: a criação e a montagem de uma peça sobre adolescência com 32 jovens de sétimas séries, oitavo ano, de duas escolas de Campinas/SP, uma estadual - EE Julio Mesquita - e outra particular, Colégio Básico. A peça foi criada pelos alunos das escolas, dentro do período de aulas, tudo foi democraticamente escolhido e decidido. Convém salientar que os jovens atores só se conheceram na véspera da estréia, para juntos apresentarem uma mesma criação, a peça teatral “Adolê Sendo”. 12 Como surgiu este projeto, que mediações e intervenções foram feitas, o relato e as reflexões sobre este processo de montagem – esta poética teatral – são aspectos fundamentais deste trabalho. (outro tom) Posso adiantar que, entre outros, estes foram meus principais objetivos: propiciar aos jovens um maior contato e conhecimento da linguagem teatral para que pudessem utilizar o teatro como forma de expressão de suas próprias idéias e sentimentos; desenvolver habilidades e competências dos alunos através de jogos teatrais; promover maior interação entre os educandos e trabalhar valores éticos, estéticos e humanos. (Autor pega uma folha onde se lê: Roteiro dos Atos e Cenas) Detalharei o percurso – o Roteiro - desta obra. No Primeiro Ato, como neste prólogo, procurei unir a linguagem do teatro e a linguagem lógico-dissertativa. Falaremos – eu mesmo e alguns mestres – sobre teatro, linguagem, arte, filosofia e, perpassando todas as categorias, educação. (Pausa. Outro tom) Falando em educação, apresento minhas visões. Identifico-me com a concepção fenomenológica de educação, com as idéias de Paulo Freire e a proposta de uma educação por meio da arte de Herbert Read. Vejo educação como um processo em que todos os envolvidos são coresponsáveis, cada qual com participação ativa, cada qual construindo seus conhecimentos, desenvolvendo suas habilidades e competências de forma interacionista, importando o meio, o contexto em que estão, onde tanto educadores quanto educandos aprendem juntos e exercem mútuas influências. Acredito que o processo educativo promova aquisição e produção de cultura, importando aspectos biológicos, econômicos, sociais, políticos, históricos, enfim, culturais. Educar engloba interpretar e conhecer o mundo e a si mesmo, encontrar sentidos, desenvolver a criticidade e a imaginação, promover diálogos e propagar o respeito aos outros. Defendo a idéia de uma educação significativa e prazerosa por meio da arte. (Pausa.) 13 No Primeiro, Segundo e Terceiro Atos apresentarei as referências teóricas. No Ato I lançarei os fios-idéias que serão tecidos ao longo deste texto, apresentando os principais autores que norteiam esta dissertação. Além de Freire, Rezende e Read na área educacional, a base teórica deste projeto é dada pelas contribuições de Viola Spolin e Richard Courtney sobre o teatro na educação; Alfredo Bosi, Edgar Morin e Johan Huizinga no campo filosófico; Georges Gusdorf, Octavio Paz, Françoise Dolto, Ivonne Bordelois e Severino Antônio na área da linguagem; No Ato II dissertarei sobre fenomenologia, hermenêutica, pedagogia da autonomia, linguagem, poesia, jogo, poética, estética e pensamento complexo. Educação será o tema recorrente relacionado aos outros temas. No Ato III falarei sobre educação por meio da arte segundo Read e sobre o teatro na educação segundo Viola Spolin e Richard Courtney. Na seqüência apresentarei o relato da montagem teatral e o roteiro final da peça apresentada, descrevendo, interpretando, refletindo e comentando o processo de criação, a metodologia utilizada, em diálogo com os referenciais teóricos. Para finalizar o terceiro Ato destacarei como foi a experiência da apresentação teatral para nós: educador, educandos e público. Farei também reflexões sobre o caráter transdisciplinar do teatro e finalizarei expondo como podemos - por meio da arte teatral, do prazer e do riso - conhecer e resgatar nosso lado mais espontâneo, flexível, tolerante, e, humano. (outro tom) No “Ato Final” dessa peça as cortinas não serão fechadas, nem esperarei por aplausos. Não chegarei a conclusões que esgotem possibilidades de continuidade, porque vejo a mim e a este trabalho como inconclusos e, compreendendo o sentido de per feito como totalmente feito, acabado, vejo-nos como perfectíveis, sabendo o quanto ainda preciso fazer. Finalizarei com algumas considerações porque é necessário terminar esse texto – sabendo que este trabalho é apenas um capítulo no texto da minha vida como educador. Mas outros textos e trabalhos virão porque também aprendi que considerar como disse Ivonne Bordelois - con-siderar é a “atividade daquele que vai com as estrelas, isto é, as consulta ao caminhar ou navegar ou pensar” (BORDELOIS, 2005, p. 53). 14 E são muitas estrelas, vislumbro todo um universo a se explorar, a pensar, a navegar. E, como disse o grande escritor e poeta português Fernando Pessoa, “navegar é preciso”. Preciso em todos os sentidos. Porque há sentido e há sentidos! (Pausa. Outro tom) Seguindo a lógica da dramaturgia, após o prólogo, que a peça se inicie! (Black-out.) 15 Ato I – Teatro: a arte do diálogo, do eu e do outro O MENINO – [...] Preciso é de um novo grande costume, que devemos introduzir imediatamente: o costume de refletir novamente diante de cada nova situação. [...] O GRANDE CORO – Assim os amigos levaram o amigo E eles criaram um novo costume, [...] Lado a lado, caminharam juntos Ao encontro do desprezo, Ao encontro da zombaria, de olhos abertos, Nenhum mais covarde que o outro. Trechos da peça “Aquele que diz sim, aquele que diz não” de B. Brecht (BRECHT, 1992, p.231 e 232) 16 Ato I (Um ator, representando o Autor, entra em cena com uma vela acesa em mãos e diz:) AUTOR: Teatro é a arte do encontro, do jogo, da linguagem, do eu e do outro. Agora nos encontramos por meio destas palavras. Que seja um encontro rico e prazeroso, como um jogo. (Pausa. Continua falando:) AUTOR: Teatro só acontece entre pessoas, nunca solitariamente. (Luzes iluminam o público presente. O ator prossegue:) AUTOR: Teatro se faz no momento presente. Diante do público transformações ocorrem, quase mágicas, sempre (outro tom, destacando a palavra:) misteriosas. MARGOT BERTHOLD (1922- ) : “O mistério do teatro reside numa aparente contradição. Como uma vela, o teatro consome a si mesmo no próprio ato de criar a luz.”(BERTHOLD, 2006,p.XI) AUTOR: E o que é teatro? Conceituar o que é arte ou o que é teatro trata-se de tarefa árdua, polêmica, em que vários trabalhos acadêmicos apresentam múltiplas definições e não chegam a um consenso, a uma definição única. JORGE COLI (1947 - ) : “Ora, é importante ter em mente que a idéia de arte não é própria a todas as culturas e que a nossa possui uma maneira muito específica de concebê-la.” (COLI, 2006, p. 64) - (Pausa. Continua:) 17 COLI: “Os discursos que determinam o estatuto e o objeto das artes não são unânimes nem constantes” (COLI, 2006, p. 23). AUTOR: Podemos pensar na etimologia da palavra teatro que tem sua origem no vocábulo grego theatron: local de onde se vê. Mas teatro é mais que platéia ou edifício. Tratarei aqui nesta peça, neste trabalho, do teatro como uma vivência estética, uma intervenção educativa, uma poética. (pausa) Focarei o teatro como linguagem artística, ressaltando que toda linguagem pressupõe comunicar e expressar algo a um outro: GEORGES GUSDORF (1912-2000) : “Eu falo, porque não estou só. Mesmo no solilóquio, na palavra interior, eu refiro-me a mim como outro, apelo da minha consciência para a minha consciência.” (GUSDORF, 1970, p. 43) AUTOR: Teatro é uma das formas de conhecimento humano. Conhecimento que se produz, se aprecia, se compartilha, conhecimento que educa - como será demonstrado nas próximas falas e páginas. E educa com prazer: FERNANDO PEIXOTO (1937 - ) : “Foi Brecht que [...] levou às últimas conseqüências a formulação do teatro a serviço da vida social, com a condição de cada vez mais aprofundar sua linguagem enquanto teatro. Assim, Brecht chegou a afirmar que” : BERTOLD BRECHT (1898-1956) : (citado por Peixoto) “o prazer é a mais nobre função da atividade teatral”. (PEIXOTO, 1989, p.13) AUTOR: O teatro, sendo uma linguagem, é criação exclusivamente humana. E pode prazerosamente - promover união e humanização: 18 EDGAR MORIN (1921 - ) : “A linguagem, portanto, é a encruzilhada essencial do biológico, do humano, do cultural, do social. [...] O homem faz-se na linguagem que o faz. A linguagem está em nós e nós estamos na linguagem” (MORIN,2007, p. 37) IVONNE BORDELOIS (1934 - ) : “A linguagem é um fermento indestrutível de unidade e comunidade entre nós talvez um dos últimos que nos restam. [...] Enquanto conservarmos essa amizade pelas palavras [...] preservaremos um território inalienável [...] de liberdade, conhecimento e prazer em nossos dias.” (BORDELOIS, 2005, p. 105) FRANÇOISE DOLTO (1908-1988): “[...] o ser humano é acima de tudo um ser de linguagem. Essa linguagem exprime seu desejo inextinguível de encontrar um outro, semelhante ou diferente dele, e de estabelecer com este outro uma comunicação.” (DOLTO, 1999, p. XV- XVI) ALFREDO BOSI (1936 - ) : “A linguagem, reza o iluminista alemão Hamann, “o mago do Norte”, é o Logos, a revelação, de tal modo que só graças ao Verbo é que os caleidoscópios cacos sonoros se compõem e permitem a emergência do sentido. Sem o Logos, que sopra nas formas do mundo, estas seriam inertes, vazios sons incapazes de fundar a operação do dia-logo.” (BOSI, 2004, p. 54) AUTOR: Bosi complementa a idéia de arte como conhecimento: ALFREDO BOSI: “[...] o termo alemão para arte, Kunst, partilha com o inglês know, com o latim cognosco e com o grego gignosco (= eu conheço) a raiz gno, que indica a idéia geral de saber, teórico ou prático”. (BOSI, 2004, p. 27-28) 19 AUTOR: E fala sobre conhecimento e construção: ALFREDO BOSI: “[...] o trabalho do artista se desenvolve, ao mesmo tempo, no plano do conhecimento do mundo (ainda a mímesis) e no plano da construção original de um outro mundo (a obra)”. (BOSI, 2004, p. 36) AUTOR: Bosi acaba de se referir à mímesis, termo que normalmente é traduzido por imitação, mas que possui significado mais amplo; poderíamos dizer que na arte o termo está relacionado às correntes realistas, em que os artistas procuram retratar ou representar aspectos do mundo em que vivemos. Para melhor compreendermos a mímesis e esta fala de Bosi tentarei elucidar um pouco mais, porém por não se tratar de um conceito fundamental para este trabalho farei apenas uma brevíssima exposição, pedindo desculpas pelas simplificações conceituais. Por outro lado falarei sobre algumas idéias platônicas e aristotélicas que me servirão ao longo deste trabalho, sendo idéias retomadas por autores de diferentes épocas. Pois bem, voltemos ao tempo! AUTOR: (fala como se contasse uma estória) Na Grécia antiga o filósofo Platão, 427 a.C. - 347 a.C., na sua obra República, apresentou O Mito da Caverna, e através desta alegoria expôs sua concepção da existência de dois mundos: o mundo das idéias e o mundo das aparências ou o mundo sensível, este em que vivemos. Platão dizia que nós não temos contato direto com as idéias, somente com suas imitações ou com suas sombras. Na alegoria dizia que somos prisioneiros dentro de uma caverna, estamos de costas para a abertura dela, lá fora é o mundo das idéias, tudo que existe é projetado em forma de sombras na parede da caverna, e são somente sombras o que vemos, no entanto pensamos que assim são as coisas, confundimo-nos com suas aparências e não podemos ver de fato suas essências. Exemplificando: um marceneiro não cria uma cama, a idéia de cama, cria uma imitação material, sensível, da idéia de cama. Já na arte um pintor ou um cenógrafo fabricam uma 20 cama que imita a cama do marceneiro que por sua vez imita a cama do mundo das idéias. Ou seja, a arte é imitação da imitação. E tais imitações poderiam ser perigosas, porque poderiam parecer tão reais que iludiriam o público, por este motivo Platão chega a propor a expulsão dos artistas de sua República ideal (PLATÃO, 2006). Por outro lado, em diversas obras de Platão encontramos idéias que são, ainda hoje, referências para uma educação que valoriza os jogos – o lúdico – e a arte. PLATÃO: “Devemos passar nossa vida tornando nosso divertimento o mais perfeito possível [...] Mas a verdade é que na guerra não encontramos, e nunca encontraremos, nenhum divertimento real ou educação verdadeira digna desse nome, e essas são as coisas que considero supremamente sérias para criaturas como nós. (PLATÃO, As leis, VII,803, apud READ, 1986, p. 13 e 14) Qual é, então, a maneira mais certa de viver? A vida deve ser vivida como jogo, jogando certos jogos, fazendo sacrifícios, cantando e dançando” (PLATÃO, As leis, VII,796 B, apud HUIZINGA, 2005, p. 22) AUTOR: Jogar a vida, mas jogando “certos jogos”... O divertimento, o jogo, a ética. Valores morais e humanos. Podemos observar como estas palavras relacionam-se às palavras de Johan Huizinga, em sua famosa obra “Homo Ludens” de 1938: HUIZINGA (1872 -1945) : “Chegamos portanto [...] à seguinte conclusão: a verdadeira civilização não pode existir sem um certo elemento lúdico, [...] Para ser uma vigorosa força criadora de cultura, é necessário que este elemento lúdico seja puro, que ele não consista na confusão ou no esquecimento das normas prescritas pela razão, pela humanidade ou pela fé.” ( HUIZINGA, 2005, p. 234) AUTOR: Estas palavras estão longe de serem “moralistas”, no sentido comum e atual de discriminações, cerceamento e “patrulhamento” moral e social. Lembra-nos sim 21 que vivemos em sociedade, normas são necessárias e liberdade tem limites. Mas sobre este assunto dissertarei no Ato II quando falar sobre disciplina, limites e educação. AUTOR: (outro tom) Falamos sobre Platão. Já na obra Poética de Aristóteles, 384 a.C. 322 a.C., outro filósofo grego, que tinha sido discípulo de Platão, encontramos interessantes observações sobre a arte, a mímesis e o papel do artista na sociedade. Dizia Aristóteles que a imitação era uma tendência natural nos homens, através dela aprendíamos os primeiros conhecimentos humanos. (ARISTÓTELES, 1999, p.40). No campo das artes ele defendia dois grandes modos de imitar: o modo de imitar por meio da narrativa e o modo de imitar por meio de atores. Mas os artistas não imitavam os homens e sim as ações dos homens. E nas artes, nas tragédias e nos poemas, imitavam ações de homens melhores que os homens comuns; assim a mímesis para Aristóteles é norma: “deve-se imitar o exemplo dos bons pintores de retratos. Estes, quando reproduzem a forma distintiva do original, compõem uma semelhança que é verdadeira em relação à vida e, contudo, mais bela” (Poética, 1454 b, apud BOSI, 2004, p. 30). Falando em arte, aproveito para citar outro termo muito utilizado no teatro: para Aristóteles, as tragédias provocam a “catarse” no público, catarse seria, segundo o filósofo francês André Lalande (1867-1963), uma “purificação”, uma “purgação”, (Lalande, 1996, p. 140), em que o público vivenciava uma liberação de emoções – as tragédias suscitavam no público o terror e a piedade (ARISTÓTELES, 1999, p.51) – e os espectadores saiam do teatro mais leves e tranqüilos, aceitando a idéia que cada um tinha sua “moira”, o seu “destino”. O teatro tinha então uma nobre função social na democracia grega: aliviar as tensões e manter o povo dentro de comportamentos desejados, para que não se rebelasse. (CAIRUS, 2008, p. 25) AUTOR: (outro tom) De qualquer forma tanto para Platão quanto para Aristóteles a mímesis era uma forma de se perceber a vida e o mundo em que vivemos, segundo Bosi: “O conceito de mímesis abre caminho para a idéia de arte como percepção analógica de certos perfis da experiência.” (BOSI, 2004, p. 30) Para 22 concluir devo ressaltar que na história mundial este conceito teve diversos sentidos, como bem sinaliza Bosi nesta fala: “A mímesis não é uma operação ingênua, idêntica em todas as épocas e para todos os povos. Conhecer quem mimetiza, como, onde e quando, não é uma informação externa, mas inerente ao discurso sobre o realismo na arte.” (BOSI, 2004, p. 31) AUTOR: (outro tom) Tentei demonstrar até aqui como a linguagem é conhecimento incluindo o teatro - que nos une. Fazemos a linguagem e a linguagem nos faz! Forma humana de conhecer, educar, transformar... (sobe o tom) E com alegria e prazer! Como disse Brecht sobre o teatro e diz Freire sobre educação... PAULO FREIRE (1921-1997): “A atividade docente de que a discente não se separa é uma experiência alegre por natureza. É falso também tomar como inconciliáveis seriedade docente e alegria, como se a alegria fosse inimiga da rigorosidade. [...] A alegria não chega apenas no encontro do achado mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.” (FREIRE,1996 p.142) AUTOR: Preciso dizer que Paulo Freire é um dos meus grandes companheiros de viagem? Importante referencial teórico, educador brasileiro que propôs uma pedagogia transformadora, uma pedagogia da autonomia, suas idéias continuam vivas e ecoando em muitas práxis educativas, porque não basta falar... FREIRE: “Como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha. Não posso ensinar o que não sei. Mas, este, repito, não é saber de que apenas devo falar e falar com palavras que o vento leva. É saber, pelo contrário, que devo viver concretamente com os educandos. O melhor discurso sobre ele é o exercício de sua prática.” (FREIRE, 1996, p. 95) 23 AUTOR: O objetivo maior deste trabalho foi dar voz aos alunos adolescentes dentro da escola para que pudessem dizer o que pensavam e o que sentiam através do teatro. Para isto muitos deles superaram os medos e a timidez, aprenderam a se colocar, como veremos nos depoimentos do terceiro e quarto atos. E isto levarão para a vida! REBECCA (uma aluna): (fala com seu humor habitual) “Aprender não é uma coisa que eu faço com tanta facilidade, mas o que eu aprendi foi: seja sem vergonha no palco, porque só assim sua mãe vai descobrir o que você realmente é. [...] Dependendo da personagem, acho que no palco a gente pode mostrar o que realmente somos e fazermos tudo o que sonhamos.” RODRIGO T. (um aluno): “O que aprendi e nunca vou esquecer foi como não ter medo de público.” JULIANA – “Aprendi que quando uma pessoa ta falando eu tenho que respeitar e ouvir.” AUTOR: Vale ressaltar que a proposta feita para eles compreende uma busca contínua: dizer o que se sente e o que se pensa, procurar um estilo pessoal de ser e de dizer, ter opiniões próprias bem fundamentadas, saber lutar por elas. Aprender a ouvir, estar aberto ao diálogo com o outro. Como pedir isto aos alunos se eu mesmo não dialogasse com eles, se não assumisse posições pessoais e nem tivesse voz própria? (pausa) Esta dissertação, agora, é a continuação desta busca por um estilo pessoal, por uma voz própria, por um diálogo fecundo com tantos mestres... E, não poderia deixar de, neste Primeiro Ato, agradecer aos professores e mestres Augusto Novaski e Severino Antonio que me mostraram a importância da busca pela “voz própria”. E a necessária e generosa missão de darmos voz a todas as pessoas – de fazermos a escuta atenta destas 24 vozes, sermos seus interlocutores e intérpretes - o que Augusto e Severino sempre mostraram na prática. SEVERINO (1951 - ) : “Fazer sua própria escuta, ver com os próprios olhos, expressar-se com linguagem própria: isso é construção de conhecimento, de cultura, de história”. (ANTÔNIO, 2002, v. 1, p. 36) AUTOR: E interpretar é interpretar-se... É buscar sentido(s)! AUGUSTO (1938 ? - 2007) : “[...] compreender é compreender-se, interpretar é interpretar-se. Isso é um risco, posto que exige expor-se diante de si mesmo.” (NOVASKI, 1984, p. 03). “[...] as obras que testemunham a passagem dos homens pela história mostram seu esforço por existir e seu desejo de ser; o segredo do sentido da vida só será confiado ao homem mediante a interpretação desse testemunho: sua própria vida” (NOVASKI, 1984, índice) AUTOR: Por falar em diálogo com mestres, não posso perder esta oportunidade... (luz dá um clima fantástico, respira fundo e fala) Sabe, Freire, tomei muito cuidado para que, em nenhum momento, usasse da minha posição de professor, ou de persuasão, para impor aos alunos meus gostos ou concepções cênicas... Defendi sim minhas idéias, mas respeitei as idéias dos alunos. Durante todo o processo conversamos sobre ética e valores humanos. Um exemplo de controvérsia: teve uma cena de briga proposta por três garotos a que, a princípio, eu não gostava nem um pouco – não falei para eles sobre meu gosto pessoal, procurei compreender o desejo deles, refletimos sobre atos de violência, formas de colocá-los no palco, trabalhamos a cena e ficou muito boa! Durante o processo o importante era o diálogo, a sinceridade e o respeito à opinião de todos. 25 FREIRE: “Nas minhas relações com os outros, que não fizeram necessariamente as mesmas opções que fiz, no nível da política, da ética, da estética, da pedagogia, nem posso partir de devo “conquistá-los”, não importa a que custo, nem tampouco temo que pretendam “conquistar-me”. É no respeito às diferenças entre mim e eles ou elas, na coerência entre o que faço e o que digo, que me encontro com eles ou elas. É na minha disponibilidade à realidade que construo minha segurança, indispensável à própria disponibilidade. É impossível viver a disponibilidade à realidade sem segurança mas é impossível também criar a segurança fora do risco da disponibilidade.” (FREIRE, 1996, p. 135) AUTOR: (exultante) Estou muito feliz por este momento! Penso – e sinto – que estou no caminho certo... Ou melhor, estou construindo o meu caminho. Faço escolhas. E toda escolha é um ato político. Procuro ser coerente, fazer o melhor possível, com energia, afeto, prazer... Os alunos percebem isto. E retribuem. FREIRE: “Não posso ser professor sem me pôr diante dos alunos, sem revelar com facilidade ou relutância minha maneira de ser, de pensar politicamente. Não posso escapar à apreciação dos alunos. E a maneira como eles me percebem tem importância capital para o meu desempenho. Daí, então, que uma de minhas preocupações centrais deva ser a de procurar a aproximação cada vez maior entre o que digo e o que faço, entre o que pareço ser e o que realmente estou sendo.” (FREIRE, 1996, p. 96) AUTOR: Agradeço muitíssimo ao senhor Freire, que retornará outras vezes. (luz volta à normalidade - normas são necessárias, mas que não sejam amarras. Fala ao leitor) Desculpe este quase delírio... Fui sincero e não poderia perder esta oportunidade de criação e experimentação, sem liberdade para imaginar e tentar como poderemos encontrar algo novo? Como poderemos mudar e superar o que aí está? Sonho – como muitos sonham - com um outro mundo, 26 uma outra educação, uma nova ciência, uma nova arte... E me parece que ninguém ainda sabe como será... Creio na liberdade de imaginar, sonhar, experimentar, criar... Liberdade comprometida com a ética e a estética. Liberdade na educação por meio da arte. Passo a palavra para aqueles que reverberam com estas idéias e ideais: OLGA REVERBEL (1917 – 2008): “A única lei na educação pela arte é a liberdade” (REVERBEL, 2003, p. 24) MAIAKOVSKI (1893-1930): “Eu não forneço regra para que uma pessoa se torne poeta e escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Chama-se poeta justamente o homem que cria estas regras poéticas.” (apud ANTÔNIO, 2002, v. 2, p. 49) SEVERINO: “Num pedaço de azul do dia, num roçar de asas na água que passa, numa criança ensaiando os passos, no corpo com pelos eriçados e a boca que ama, num desenho de Paul Klee, numa música de Cartola, nos braços camaradas, nos olhos esquivos de uma esquina – a poesia é inumerável. A poesia não está apenas nas páginas dos livros. Está, também, nas coisas. Nos corpos. No vivido. Descobrimos poesia nas coisas. Reconhecemos – e criamos – poesia nas relações com os outros. Com os bichos. Com as plantas. Com o cosmos. A poesia faz parte do reconhecimento das significações do mundo. E faz parte da produção de significações com que fazemos o nosso mundo.” (ANTÔNIO, 2002, v. 2, p.40) AUTOR: Por bocas pensantes, cabeças pulsantes, corações falantes. Por novos poetas, cientistas, políticos, artistas. Por uma humanidade renovada. Pela liberdade de pensamento, de expressão, de buscar novas verdades, novos conhecimentos... HERBERT READ (1893-1968) : “O objetivo de pensar é chegar à verdade, e esta não é propriedade exclusiva daqueles que têm um alto “quociente de inteligência”, é o que afirmamos; ela 27 também surge da boca dos bebês e crianças pequenas, dos poetas e dos artistas, e até dos loucos.” (READ, 1986, p. 27) AUTOR: Voltemos à questão do teatro! (outro tom) Em vários momentos da história mundial podemos observar as diversas funções sociais exercidas pelo teatro. Observamos também uma vasta gama de formas, gêneros e estilos teatrais. Porém, em se tratando de uma linguagem, podemos verificar seus elementos constitutivos, sua forma, sua gramática. Tais elementos variam conforme o estilo, o local e a época onde foram e são utilizados. Encontramos vasta bibliografia sobre o assunto, registrando a presença do teatro desde os tempos mais remotos da civilização humana, nas mais diferentes culturas e sociedades. Originalmente ligado aos rituais transformou-se e transforma-se continuamente. Em períodos históricos distintos o teatro passou por grandes mudanças ideológicas e formais, acompanhando as mudanças históricas, sociais, políticas e econômicas. Nos diversos papéis assumidos pelo teatro na história da humanidade podemos observar a presença de vários aspectos educativos e formativos: o teatro promoveu catarses coletivas, propagou idéias hegemônicas, satirizou situações e personalidades, divulgou ideais revolucionários. Foi instrumento de catequização e terapêutico. Gerou trabalho e renda, reproduziu o sistema no qual esteve inserido, combateu o próprio sistema. Foi apresentado em circos, praças, palácios, teatros simples ou luxuosos. Educou, divertiu, chocou, alienou, foi popular e elitista, enfim, o teatro é um espaço democrático por natureza, onde diferentes ideologias podem se manifestar. Teatro é comunhão, encontro. Não se faz teatro sozinho. AUTOR: (outro tom) E, conduzindo ao desfecho deste Primeiro Ato, citaremos uma fala de Augusto Boal, diretor de teatro, dramaturgo, um dos mais importantes teatrólogos do teatro contemporâneo mundial, criador do Teatro do Oprimido: 28 BOAL (1931 - 2009): “Teatro é a capacidade dos seres humanos (ausente nos animais) de se observarem a si mesmos em ação. [...] Podem se ver aqui e se imaginar adiante, podem se ver como são agora e se imaginar como serão amanhã.” (BOAL, 2000, p. XIV) AUTOR: Que o teatro na educação possa ser o espaço do novo, das transformações possíveis, necessárias e ainda não realizadas... (pausa) Para melhor ilustrar estas idéias passo a palavra ao professor universitário Regis de Morais, mineiro de Passa Quatro, poeta, livre docente em Filosofia da Educação: REGIS (1940 - ) : “Criar é, em um primeiro momento, erguer utopias. Sim, porque aquilo que já tem seu lugar na vida já foi criado e estabelecido. Utopia (u-topos) significa: aquilo que não tem lugar, ou que não teve lugar ainda. [...] “Construir uma utopia” escreve Marçal Versiani “significa repensar o horizonte de vida em que se viveu até então, significa recusar a topia, isto é, o quadro de referências recebido culturalmente, ou mesmo adotado livremente num determinado momento da existência”. Uma vez acordes com esta concepção, percebemos que o futuro está carregado de todas as possibilidades – boas e más – e que, portanto, o projeto que emergir da criatividade de cientistas, pensadores e artistas, tem larga chance de se constituir numa antecipação deste futuro. De modo que, é idiota perguntar-se sobre o grau de realismo de uma utopia; há que perguntar-se sobre o grau de negação do real, em vista do desejável. Neste limite se encontra a distinção que faz o teólogo Jurgen Moltmann entre experiência e esperança. Experiência como sendo o “horizonte de vida em que se viveu até então”, e aí havendo muito o que negar-se certamente, enquanto que esperança é o que a vida nos autoriza a cultivar até mesmo a despeito de não termos razões objetivas que a justifiquem”. (MORAIS, 1982, p. 76 e 77) AUTOR: Apresento agora, em consonância com as idéias do professor Regis, três sábias falas de Paulo Freire: 29 FREIRE: “A esperança faz parte da natureza humana. [...] A esperança é uma espécie de ímpeto natural possível e necessário, a desesperança é o aborto desse ímpeto. (FREIRE, 1996, p. 72) (Pausa para reflexão, continua:) FREIRE: “[...] histórico, vivo a História como tempo de possibilidade, não de determinação.” (FREIRE, 1996, p. 75) FREIRE: (Fala demonstrando paixão, energia, sinceridade e convicção:) “Se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode.” (FREIRE, 1996, p.112) AUTOR: Falemos sobre educação, foco principal deste trabalho, educação significativa, prazerosa e poética. Passemos ao Ato II. 30 Ato II - Por uma educação significativa, prazerosa e poética. “O poeta, por mais desencantado que seja, é sempre um portador de esperança.” Paulo de Tarso “A estética é algo de mais alto que a ética. Pertence a uma esfera mais alta. Discernir a beleza de uma coisa é o ponto mais alto a que podemos chegar. Até mesmo o sentido da cor é mais importante, no desenvolvimento do indivíduo, do que a noção do bem e do mal.” Oscar Wilde 31 2.1 – Redescobrir: o que nos move, a autoria Em plena travessia de Mestrado, no momento em que iniciava a escrita de minha dissertação, após um tanto de leituras, de estudos possibilitados pelas aulas da pós-graduação que alavancaram transformações no meu projeto original sobre teatro na educação, após muito debater e receber orientações do meu professor (que bela, sábia e difícil responsabilidade orientar alguém) eu ainda buscava um norte. Buscava um caminho para onde ir, já que muitas idéias pululavam em minha mente e eu precisava fazer escolhas, delimitações e eu não queria ainda fechar possibilidades, pelo contrário, queria ainda navegar livremente pelas águas do conhecimento. Nesse momento, em que poderia parecer a olhos externos que eu estivesse perdido, eu tranquilamente buscava uma direção que me atraísse mais, que me dissesse: “Vem, o teu caminho é por aqui”. Estava em paz, não estava passivamente esperando, pelo contrário, estava na busca de um conhecimento vivo, significativo, apaixonante, que não fosse baseado em razões, em motivos racionalmente escolhidos e arquitetados para justificar a importância e a relevância do meu projeto. Buscava prazer e emoções na criação da minha dissertação, mas ainda não achava. Lembrava-me dos professores Severino e Augusto e da importância da “voz própria”, do estilo próprio de escrever que não deveria ser mera forma e sim refletir o estilo pessoal de ser e de viver. O tempo passando, prazos e exigências para cumprir e embora eu ainda não tivesse total clareza do que fazer, de que por caminho seguir, tinha algumas certezas: não queria fazer algo burocraticamente, não queria pesquisar e comprovar cientificamente o que eu já sabia na prática – meu projeto original era confortável demais, iria repetir o que faço há vinte anos ministrando aulas de teatro. Em meu primeiro projeto buscaria verificar se os alunos adquiririam conhecimentos da linguagem teatral através de jogos durante poucas aulas, dentro do horário escolar, comparando os resultados entre uma classe de colégio particular e uma classe de escola estadual. Eu queria um projeto novo, desafiante, que me motivasse e me mobilizasse inteiramente. Embora não soubesse exatamente o que. 32 Dois momentos foram fundamentais para finalmente eu encontrar e escolher o caminho que eu iria seguir. E esses dois momentos foram experiências estéticas. O primeiro momento foi em uma mesa redonda onde, entre muitas coisas, falaram sobre “poiesis”, poesia escrita e poesia da vida, com a presença do professor Régis de Moraes e da escritora Eliana dos Santos no lançamento do livro O visível e o invisível – alguma poesia do professor Severino Antônio que logicamente participava da mesa. Algumas falas me tocaram profundamente, ressoaram em mim como se eu me redescobrisse, como se reencontrasse comigo mesmo, porque muitas vezes nos turbilhões da vida nos perdemos ou esquecemos de nós mesmos... Ah a canção do Gonzaguinha, 1945 – 1991, este grande compositor e cantor brasileiro: Redescobrir Como se fora brincadeira de roda, memória Jogo do trabalho na dança das mãos, macias O suor dos corpos na canção da vida, história O suor da vida no calor de irmãos, magia [...] Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia Vai o bicho homem fruto da semente, memória Renascer da própria força, própria luz e fé, memória Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós, história Somos a semente, ato, mente e voz, magia [...] (Disponível em: http://letras.terra.com.br/gonzaguinha/46286/ Acesso em: 25 mai. 2009) Desta mesa redonda três palavras ficaram reverberando em mim: beleza, prazer e poesia. Vivemos em mundo onde a idéia de beleza está um tanto distorcida. O prazer está vinculado muitas vezes ao consumo, ao individualismo, a substâncias artificiais que dão sensações prazerosas. Vendese e compra-se prazer e beleza. Será mesmo? E a poesia? Como foi dito na mesa redonda, felizmente a poesia não se tornou mais um mero produto no imenso mercado globalizado. Também foi dito que, infelizmente, muitas pessoas perderam a noção do que seja poesia. Embora a poesia se faça presente na vida delas, elas nem percebem isso. 33 Falaram sobre a poesia escrita – os poemas. A poesia nos dá a possibilidade de dizer o indizível. Dizer aquilo que é difícil exprimir, verbalizar, colocar em palavras senão em poemas. O professor Severino falou sobre a poesia presente no cotidiano, entre muitos exemplos falou sobre a maneira como uma feirante arrumava as frutas em sua bancada, fazendo uma verdadeira composição poética de formas, cores, texturas, ritmos, sem que tivesse noção de que era poesia o que fazia na feira, ela fazia para ficar mais bonito e atraente. Contou também sobre um casal, uma história real, singela e poética que Severino registrou no poema Sopro, sem dúvida foi o mais poético dos exemplos que ouvi naquela noite. Tão inspirador que o utilizei para sensibilizar os alunos, vou relatar a história do casal - e citar o poema - mais adiante, durante o relato da montagem. Naquela noite, ouvindo aquelas palavras, pensei na poesia presente em todas as linguagens artísticas. Tendo maior intimidade com o teatro pensei na poesia da cena. Na beleza dos corpos humanos em cena. Das palavras em cena. Dos cenários, figurinos, iluminação, sonoplastia e adereços. Das cenas mudas e inteligíveis. Lembrei-me que fiz tantas pantomimas como ator e depois como professor e diretor de teatro. Lembrei-me de Charles Chaplin (18891977), cineasta genial, nascido na Inglaterra, teve uma infância difícil, mas tornou-se um dos maiores astros de Hollywood e do cinema mundial, escrevendo, dirigindo, atuando, compondo as trilhas musicais e produzindo seus próprios filmes. Ainda menino começou a fazer teatro, na juventude viajou com companhias teatrais inglesas pelo mundo e em 1914, já nos Estados Unidos, atuou em seu primeiro filme, na época do cinema mudo. Em 1915 filma seu primeiro clássico “O Vagabundo”, no qual o enredo não se prendia a uma comédia, mas levava também o público à comoção, disse Chaplin: “Amo a tragédia porque ela é bela. A única comédia que vale a pena é aquela que contém a beleza.” (CLARET, 1990, p. 27). E Chaplin nos fala sobre seu conceito de beleza: “A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la – mas, quem consegue, descobre tudo.” (CLARET, 1990, p. 69). O conceito de Chaplin me faz lembrar o de Manuel Bandeira, 1886 – 1968, poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro: “A poesia está em tudo, tanto nos amores quanto nos chinelos, tanto nas coisas lógicas quanto nas disparatadas.” (BANDEIRA, 2007, p. 59) 34 Quando adolescente, minha primeira montagem teatral com um diretor profissional foi a dramatização de “Operário em Construção”, poema de Vinicius de Moraes, 1913 – 1980, importante poeta e compositor brasileiro que também foi diplomata, dramaturgo e jornalista. Depois de adulto diversas vezes eu dramatizei este belo poema de Vinicius com meus alunos. Minha primeira montagem profissional na função de diretor foi a partir da obra do poeta russo Maiakovski adaptada para o teatro por mim após ampla pesquisa, onde descobri inclusive que Maiakovski escreveu pantomimas e que adorava o circo. Eu também dirigi e adaptei a obra “Estrela da Vida Inteira” de Manuel Bandeira para o teatro. Poesia, pantomimas, beleza. Qual a relação com o meu projeto de mestrado? Como professor de teatro sempre debati com meus alunos estas questões: a função da arte e do artista na sociedade; o que era a beleza e a poesia na arte e na vida; montei muitas pantomimas, mas ainda faltava um sentido nessas divagações todas. Sempre pergunto aos alunos porque querem fazer teatro. Se querem montar uma peça questiono o que querem dizer por meio do teatro. E qual o gênero teatral que pretendem utilizar. Já havia feito essas questões aos alunos participantes deste projeto de mestrado e a resposta foi unânime: queriam falar sobre a adolescência e de forma cômica. Questionei o que pensavam sobre essa fase da vida e muitos responderam que era uma fase boa da vida onde podiam ainda se divertir, diferente da fase adulta. Que perspectiva digamos sombria, para a vida adulta... Ou ainda, que falta de perspectivas, de melhoras necessárias e possíveis. Desde a mesa redonda, do lançamento do livro, eu pensava que queria propiciar aos meus alunos o encontro com a poesia, com o belo. Mas eles queriam fazer comédia. E tinham poucas referências de humor com alta qualidade artística. A maioria só tinha visto programas televisivos repletos de esteriótipos e filmes que muitas vezes tratam atores e público como “Debi” e “Lóides”, parodiando o nome do filme norte-americano Debi & Lóide - Dois Idiotas em Apuros (Dumb and Dumber), de 1994, direção de Peter Farrelly e 35 Bobby Farrelly que traz no elenco, entre outros, Jim Carrey e Jeff Daniels. (Disponível em: http://www.cinepop.com.br/filmes/debieloide.htm - Acesso em: 29 mai. 2009). Não quero fazer nenhuma análise crítica deste filme, apenas apontar como alguns alunos pensam que fazer caretas e agir como um idiota, basta para ser engraçado, longe disto! E a minha questão era como conciliar meus anseios por beleza e poesia com os desejos dos alunos de montar uma comédia... Como? Claro! Lembrei-me novamente de Chaplin! Existe melhor exemplo para demonstrar o encontro do humor e da poesia? Meus alunos pouco sabiam sobre ele, alguns nem o conheciam. Incluí Chaplin no processo de montagem. E, como disse alguns parágrafos atrás, dois momentos foram decisivos para que eu encontrasse o caminho que resultou neste trabalho. O primeiro - a mesa redonda - já citei. O segundo momento foi aquele em que as peças deste quebra-cabeça chamado “projeto e dissertação de mestrado” se encaixaram. Vou relatá-lo a seguir. Elza Soares ia fazer um show na praça Carlos Gomes em Campinas, ela cantaria no coreto da praça. E cantou e encantou com suas habilidades jazzísticas de improvisação musical. Fui até lá para assistir o show. Na praça vi uma criança brincando com sua mãe e com seu cachorro, em uma caixa de areia. Os três se divertiam muito. Pensei como a felicidade pode advir de coisas tão simples, pensei na importância destas pequenas ações e como estes momentos tão significativos estão rareando em nossas vidas. Quase não temos tempo para brincar com filhos ou amigos. Logo entendi que meus alunos estavam certos, a peça deveria fundamentalmente divertir. Comecei a pensar no gênero comédia, muitas vezes visto como um gênero menor na história do teatro, diante das tragédias e dos dramas. Nessa mesma praça, enquanto aguardava o show e pensava com meus botões, reencontrei um ator campineiro que há muito tempo não nos víamos, o Rodrigo Senden. Perguntou-me o que eu andava fazendo, eu lhe disse e quando eu lhe perguntei sobre sua vida ele prontamente respondeu: “Sou palhaço agora, você sabe?” Eu não sabia. E foi delicioso ouvi-lo falar sobre como se tornou palhaço. Sobre a visão que ele tem do palhaço, sobre a origem e história do palhaço no mundo ocidental. Eu pouco conhecia sobre esse universo. Ele fez “escola” com palhaços de picadeiros tradicionais. Falamos 36 sobre os circos que apresentavam peças de teatro que eu cheguei a assistir nas periferias de Campinas na minha infância, meu pai era policial militar e me levava aos circos onde ele fazia a ronda. Falamos sobre clowns, sobre Chaplin. Pronto! As peças se encaixaram! Eu sempre pensei na importância do humor em cena, da inteligência crítica dos “bobos-da-corte”, das comédias dos grandes mestres e agora encontrava o humor do palhaço circense, e, o mais belo de tudo, as peças que faltavam pra mim se encaixaram naquele lugar: ali estava eu, numa praça, do lado de um coreto, falando com um palhaço orgulhoso da sua arte. E Elza Soares rasgava o verbo com sua voz rascante. Eu reencontrava antigos sonhos e ideais, antigos, mas sempre presentes companheiros de viagem. A dissertação ganhara um rumo. E eu ganhara muito mais. Passarei agora à questão de pesquisa que originou este trabalho. 2.2 - Ser ou não ser? Eis a questão! Quão educativa e significativa pode ser uma montagem teatral feita por adolescentes no ambiente escolar? Retomemos a questão fundadora deste trabalho. Convém elucidar as idéias contidas nesta frase questionadora. Antes, porém, farei um aparte sobre idéias expressas em palavras. Linguagem. Estilo. A busca das palavras certas. Tenho refletido muito sobre a busca da exatidão - no uso das palavras que um trabalho científico requer. Penso que este rigor não deva resultar em um texto árido, frio, sem vida, pelo contrário, acredito que nos textos as palavras devam pulsar, refletir idéias e sentimentos repletas de energia e de vida, aliás, creio na Palavra que gera vida, como na imagem bíblica onde o Verbo se fez carne. Acredito que o texto científico não exclua o filosófico nem o artístico. Acredito que é necessário somar, não excluir. 37 Reconheço a importância da linguagem clara e coesa. Do texto escrito com rigor intelectual e precisão lógica. (...) Por outro lado, a busca de uma linguagem dissertativa não significa a neutralização da escrita. A esterilização de nosso discurso. A estereotipação de nossos textos, como se não houvesse autores. Como se apenas se reduzissem à aplicação mecânica de métodos e processos de exposição lógica e redação acadêmica. Um texto, em particular de uma reflexão filosófica, pode e precisa ter um estilo. (ANTÔNIO, 2002, p. 111) Meu orientador, Severino Antônio, e o professor Augusto Novaski estimulavam os alunos para que a escrita da dissertação refletisse um estilo próprio, para que cada um encontrasse sua “voz própria”. Com eles aprendi que estilo não é mera forma, o estilo da escrita advém do estilo de vida, do aprimoramento do “ser” de cada autor. Ser e saber o que se quer nesse mundo. Em minhas buscas encontrei visões, como a de Bosi, com as quais compactuo. Bosi destaca que Goethe e o lingüista Humboldt criaram uma teoria da expressão que entende a linguagem como energeia, termo grego que significa “força em ação”, “produção” e ainda “força operante em cada signo, ou, nos termos antigos, alma inerente ao corpo, e dele inscindível.” (Bosi, 2004, p. 54) Creio na energia e na força das palavras. Palavras gerando atos e atitudes. A força da palavra escrita. A força do som da palavra dita. Força racional, emocional, sensorial, mágica, profética, poética. A poesia é uma forma de energia. (...) O poema: energia rítmica, emocional, imagística, semântica. Energia que se manifesta na linguagem e como linguagem, mas que não é apenas verbal: enraíza-se nas pulsações da matéria cósmica e da vida em geral, singularmente na humana. O mistério existencial e sagrado da palavra. A força mágica da linguagem-criação. (...) Parto e geometria. Vidência e arquitetação. (ANTÔNIO, 2002, p. 20) Creio que palavras enganam, esclarecem, ferem, alegram, emocionam, educam, transformam. Palavras manipulam multidões... Desde criança sempre gostei de escrever, gostava do jogo que alguns poetas e escritores faziam com as palavras, e jogo, desde cedo percebi que era coisa séria e prazerosa. Como também desde pequeno pensava no poder 38 das palavras. “No princípio era o Verbo” e o “Verbo se fez carne”. Logo percebi que as palavras podem muito. Pode parecer exagero uma criança pensar em “palavras”, mas na quarta série do primeiro grau (atualmente quinto ano do ensino fundamental) escrevi uma redação em que dizia que queria ser engenheiro eletrônico para construir uma máquina que pudesse captar o sermão da montanha proferido por Jesus e cujas ondas sonoras ainda ressoam pelo universo... Havia aprendido que tudo que dizemos fica reverberando pelo universo para todo o sempre... Assim sempre acreditei que nossas ações e palavras têm reflexos para além de nós mesmos e do momento presente. No mestrado, também por meio dos professores Severino e Augusto, encontrei a beleza da etimologia, ciência que busca a origem e o significado das palavras, e conheci a hermenêutica, originalmente ligada a interpretação de textos religiosos e filosóficos, posteriormente a todo tipo de texto incluindo os jurídicos e artísticos, atualmente podemos dizer que se trata de uma forma de conhecer e interpretar o mundo , respeitando a historicidade e a existência de cada Ser, inclusive do próprio intérprete. (ALBERTI, 1996) A busca pelos termos certos pode ser encarada como um trabalho de garimpo e arqueologia de palavras, buscando suas origens, seus sentidos perdidos e ou esquecidos, a beleza, a essência, a alma das palavras. Ou ainda, uma forma de amor e respeito à língua, buscando resgatar o significado mais profundo das palavras em uma época em que a rapidez e o costume de se consumir e se descartar tudo e todos gera um uso tão superficial e inconseqüente das palavras, como nesta frase publicitária da rede de lanchonetes Mc Donalds: “Amo muito tudo isso”. Fico triste quando meus alunos, ao questioná-los sobre este slogan, afirmam amar sanduíches e refrigerantes... Se não bastasse este slogan, os sorvetes Kibon aderiram a esta concepção de amor e lançaram sua atual propaganda: “Amo leite. Amo fruta. Amo chocolate.” Pena que as pessoas amem coisas e se esqueçam de amar pessoas... E como fazer meus educandos refletirem sobre o significado, digamos, mais profundo e poético, da palavra amor? Em um mundo onde ocorrem tantas violências e desrespeitos aos semelhantes humanos, ao planeta como um todo, onde os sistemas econômicos e políticos geram tantas injustiças sociais, onde a educação e a 39 busca de conhecimentos não despertam mais interesse na maioria dos estudantes, acredito que buscar o sentido das palavras ajudaria a encontrar um sentido para a vida, um sentido de justiça, de cooperação, de humanidade. Lembrando que saber e sabor, etimologicamente, têm a mesma raiz. Pena que o saber atualmente tenha perdido o sabor... Vejo nas palavras uma forma de se auto-conhecer e de se conhecer o mundo em que se vive, uma forma de organizar os sentimentos e pensamentos, uma forma de trocarmos e comunicarmos, uma forma de nos tornarmos - ou de resgatarmos nossos aspectos - mais humanos. Claro que além de palavras precisaremos de ações, de muitas mudanças nos sistemas econômicos, políticos e educacionais. Infelizmente, ainda hoje, uma expressiva parcela da população mundial é excluída de condições mínimas de sobrevivência, sem acesso a água limpa, moradia, saúde, educação, alimentação... Temos tantos contrastes: alta tecnologia (informática, robótica, nanociência) e falta de infra-estruturas básicas (saneamento, hospitais, transportes públicos eficientes etc.), tanta riqueza ao lado da miséria total, tudo isto em pleno século XXI. Acredito que as palavras sejam apenas o início, retomando a idéia: “no princípio era o Verbo”. Quem sabe um dia o Verbo se faça Arte. E talvez então o mundo seja um lugar melhor para se viver. Retomemos a questão inicial e o sentido das palavras contidas nela: Quão educativa e significativa pode ser uma montagem teatral feita por adolescentes no ambiente escolar? Começarei pelo fim: “ambiente escolar”. Atualmente temos visto muitas notícias sobre violência nas escolas, por parte de alunos e também de professores. Falta de respeito humano. Falta de diálogo. Ouço muitos alunos se queixarem de que não são ouvidos. De que recebem gritos e insultos por parte de alguns professores e diretores. Por outro lado os alunos reconhecem que muitos não respeitam os professores e que fazem bagunça. Dizem que até gostam da escola, para encontrar os amigos, paquerar, conversar, menos para estudar, dizem que as aulas são muito “chatas”. 40 Este trabalho tenta verificar se é possível, através da montagem de uma peça, educar significativa e prazerosamente. É o que procuro para mim e para meus alunos, trabalhar com prazer. Não que não seja cansativo, desgastante, repleto de dificuldades e contratempos, mas ainda assim, prazeroso. Como disse Freire, já citado no Prólogo: A atividade docente de que a discente não se separa é uma experiência alegre por natureza. É falso também tomar como inconciliáveis seriedade docente e alegria, como se a alegria fosse inimiga da rigorosidade. [...] A alegria não chega apenas no encontro do achado mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. (FREIRE, 1996, p. 142) Retornemos ao início da frase. A primeira palavra. Quão é uma palavra que guarda uma riqueza talvez esquecida por ser pouco utilizada atualmente, é um advérbio que comporta o quanto e o como (FERREIRA,1999, p.1676), a quantidade e a qualidade caminhando juntas. Em um mundo onde tudo é classificado por isto ou aquilo gosto de idéias que somam ao invés de dividir: isto mais aquilo. Neste sentido me aproximo da corrente filosófica do pensamento complexo: É a viagem em busca de um modo de pensamento capaz de respeitar a multidimensionalidade, a riqueza, o mistério do real; e de saber que as determinações – cerebral, cultural, social, histórica – que se impõe a todo o pensamento co-determinam sempre o objecto de conhecimento. É isto que eu designo por pensamento complexo. (Edgar Morin – O Método II: A Vida da Vida - p. 14 – apud PETRAGLIA, 1995, p. 46) Morin rejeita a idéia de um saber parcelado e vê o todo como uma unidade complexa. “[...] o todo não se reduz a mera soma dos elementos que constituem as partes. É mais do que isto, pois cada parte apresenta sua especificidade e, em contato com as outras, modificam-se as partes e também o todo.” (PETRAGLIA, 1995, p. 48) Esta concepção de conhecimento implica em uma forma não linear nem compartimentada de se apreender o mundo, de se educar. Uma forma complexa em que não se trabalha com dualismos e exclusões e sim com 41 interações e complementações: razão e emoção, objetividade e subjetividade, ciência e arte. Neste sentido acredito que idéias são expressas ou comunicadas não só através de palavras, mas através de toda e qualquer forma de linguagem, seja na literatura, na música, nas artes visuais, nas artes cênicas ou mesmo na fusão de todas estas linguagens. Por não se tratar de um trabalho de lingüística, não entrarei na discussão sobre o que é comunicação e expressão, apenas explicitarei um conceito fundamental para este trabalho; segundo André Lalande (1996), linguagem é: Propriamente, função de expressão verbal do pensamento, quer interior, quer exterior. [...] No sentido mais amplo, todo o sistema de signos que podem servir de meio de comunicação. “A linguagem dos gestos.” “Todos os órgãos dos sentidos podem servir para criar uma linguagem” - Vendryès, A linguagem, p.9. (LALANDE, 1996, p. 627) Já foram expostas no Primeiro Ato, segundo diversos e respeitáveis autores, algumas idéias a respeito da linguagem, assunto que retomarei ainda neste Ato II. Muitos defendem a idéia de que a linguagem é fruto da humanidade e nos faz mais humanos. Também foi destacada a idéia da linguagem – e do teatro - como forma de prazer. Aceitando-se o teatro como forma de linguagem e a linguagem como forma de se conhecer e se produzir conhecimento quero demonstrar que ao criar e montar uma peça de teatro estamos produzindo conhecimento, além de trabalharmos habilidades e competências – físicas, mentais e emocionais - necessárias a uma montagem teatral, estamos promovendo educação da mais alta qualidade. Retomando a questão: quão educativa e significativa pode ser uma montagem teatral feita por adolescentes no ambiente escolar? Para elucidar os termos educativa e significativa, logo adiante farei a exposição sobre minha concepção de educação e como penso ser possível torná-la significativa e prazerosa. 42 2.3 – Um recorte do universo Neste momento vamos delimitar o universo abrangido por esta pesquisa: o ambiente escolar e os atores – literalmente – envolvidos. No ano de 2008 ministrei aulas em duas escolas no município de Campinas/SP, Escola Estadual Julio Mesquita e Colégio Básico. Farei um breve texto comentando sobre as duas escolas e a seguir apresentarei um quadro comparativo entre elas. A Escola Estadual, na qual sou professor efetivo, está localizada no Jardim das Oliveiras, bairro classe média de Campinas. Diferente do que se vê em noticiários sobre algumas escolas estaduais a nossa escola é um bom local para se estudar e trabalhar, pelos depoimentos que costumo ouvir. Não temos casos sérios de violência, o que costumam ocorrer são algumas agressões verbais entre alunos, às vezes envolvendo professores; raras são as brigas entre alunos, nada sério e logo são acalmados. Os alunos são camaradas, porém de quinta a oitava série são bastante barulhentos, gritam por muitos motivos e, se professores e direção não os controlam, saem correndo pelos corredores e pelo pátio da escola. Como se tivessem muita energia para gastar e esta energia explodisse em gritos e corridas. Durante as aulas muitas vezes querem conversar, brincar e muitos têm dificuldades para se concentrarem quando os professores estão explicando algo. Tirando isto existe respeito e participação na maioria das aulas, exceto nas aulas de alguns professores que os próprios alunos costumam dizer que não “controlam a classe’”. Tenho boa relação com os alunos, se bem que muitas vezes ao entrar na sala tenho que colocar limites bem rígidos, faço cara de “sério”, falo em alto e bom som: vou contar até três para quem estiver em pé se sentar e fazer silêncio, aliás devem se sentar direito, não conversar com ninguém, prestar atenção no professor e quem quiser falar deve levantar a mão – tudo isto procurando não ofender ou gritar com os alunos; apesar disto quando não consigo dar aulas, em última instância, retiro da sala o aluno que está atrapalhando a aula e mando-o para a diretoria, nossa diretora Hellen está 43 sempre pronta para conversar com os alunos, fazê-los refletir sobre seus atos e, se preciso, contatar a família quantas vezes forem necessárias. Felizmente em outras vezes os alunos participam sem histerias nem brincadeiras fora de hora e as aulas fluem num clima muito prazeroso para todos. O chamado “rendimento escolar” dos alunos - tão cobrado pelos órgãos governamentais – está acima da média estadual, verificado através do ENEM, da Prova Brasil e dos índices de reprovação e de evasão escolar. A direção da escola preocupa-se mais com o aprendizado real - se os educandos estão aprendendo, o quê e como - do que com tais índices. Verifica-se que a maioria dos alunos tem notas medianas entre 5,0 e 7,0. Por volta de dez por cento dos alunos têm notas altas entre 8,0 e 10,0. Uns 25% dos alunos tiram notas abaixo de 5,0, mais verificadas em matemática, mas também em português, inglês, física, história, geografia e demais disciplinas. Alguns alunos chegam à escola na quinta série (sexto ano) sem estarem alfabetizados, tendo dificuldade de escrita e de leitura; alguns alunos - de todas as séries do ensino fundamental e médio - apresentam dificuldades de compreensão oral e escrita e também de pensamento lógico e matemático, muito disto por falta de atenção porque quando se concentram mostram que têm capacidades. São reprovados poucos alunos por sala na oitava série e no Ensino Médio, até porque a legislação estadual não permite reprovação nas outras séries. No ensino médio alguns alunos ficam de dependência nas disciplinas em que obtiveram média final inferior a 5,0; passam para a série seguinte e têm que apresentar um trabalho escrito e oral para uma banca de professores sobre os conteúdos da disciplina de dependência. Em todas as séries os alunos com dificuldades cognitivas são indicados para aulas extras de recuperação, porém, por diversos motivos, estas aulas não recuperam os alunos com defasagem escolar. Sobre o perfil econômico dos alunos nota-se que muitos têm TV a cabo e internet em suas casas, cada um com seu celular, com seu aparelho tipo MP(4,5...) que toca músicas, embora uma minoria não tenha computador, internet ou impressora em seus lares. Mesmo assim nós professores pedimos 44 trabalhos informatizados e os alunos fazem sem problemas, se precisarem fazem na própria escola em horário inverso ao das aulas. A escola tem uma ligação muito forte com a comunidade onde está inserida. Nela estudaram e estudam várias gerações das mesmas famílias. É comum avós e mães que lá estudaram freqüentarem atualmente a escola levando seus netos e filhos. Também temos ex-alunos que voltaram na função de professores. A escola faz parte da história do bairro e das pessoas, isto é muito positivo. A estrutura física da escola é boa e será caracterizada a seguir, no quadro comparativo entre as duas escolas. Um problema que temos é que, infelizmente, os alunos escrevem nas carteiras e jogam lixo no chão, embora haja muitas latas de lixo em todos os locais da escola e estamos sempre pedindo para ajudarem na manutenção da limpeza da escola. Felizmente as paredes são poupadas, não temos as famosas e visualmente poluidoras pichações. A escola particular, o Colégio Básico, situa-se no Jardim Chapadão, também em Campinas/SP. O bairro e os alunos são de classe média alta. Muitos viajam costumeiramente de avião ou de navios, vão para Campos do Jordão, para o exterior, mas não são alunos esnobes, pelo contrário, são muito afetivos e percebo que suas famílias discutem com eles sobre os problemas sociais do nosso país e sobre valores humanos. Embora em determinadas improvisações algumas falas mostrassem personagens tipo “burguesinhas” falando mal de “pobres”, quando converso com eles percebo que não acham justo as formas de discriminação ou os preconceitos de classe, raça, sexo, opção religiosa ou nível cultural. O Colégio Básico tem boa estrutura física, salas de aula com no máximo 25 alunos, algumas turmas têm entre 12 e 16 alunos. O espaço físico é pequeno, sempre limpo e organizado. O que mais admiro é que alunos do sexto ao nono ano convivem no mesmo pátio e na quadra com alunos de Educação Infantil, convivência amistosa, sem gritarias, ambiente calmo e tranqüilo. Alguns alunos do Colégio Básico são muito falantes e, às vezes, atrapalham as aulas, mas basta uma pequena advertência oral para que colaborem. Temos uma pasta em cada sala onde devemos escrever caso 45 algum aluno tenha comportamento inadequado e também se esquecerem de trazer algum trabalho ou de fazerem alguma tarefa. Em um ano e meio lecionando no Colégio Básico somente duas vezes tive que tirar dois alunos das salas, um por vez, porque apesar de eu pedir postura e participação compatíveis com as aulas, eles extrapolaram e arrumaram confusão com colegas, nestes casos achei que não adiantava pedir desculpas, precisavam sair para refletir sobre o ocorrido e não repetirem mais estes comportamentos, mas saíram sem estresse, sem gritos nem broncas. Como se trata de um colégio pago, cuja média é 7,0, os pais pressionam os alunos que se esforçam para garantir ao menos a média. Existe uma certa competição entre alguns alunos para ver quem tem as melhores notas. Os alunos com dificuldades e notas baixas têm aulas de recuperação e fazem novas avaliações. A família é comunicada o tempo todo. Caso o aluno não recupere as notas corre o risco de ser reprovado em qualquer ano (série), o que ocorre com pouquíssimos alunos. Apresento agora um quadro comparativo entre as duas escolas. CARACTERÍSTICAS Endereço Localização / Arredores (quarteirões vizinhos à escola) Data de fundação da escola Projeto Pedagógico Materiais didáticos Avaliação ESCOLA ESTADUAL JULIO MESQUITA Rua Daniel Cesário Andrade, 190 Jd. das Oliveiras Campinas/SP Bem localizada, bairro residencial, classe média, boas casas com arquitetura simples; comércio: 1 padaria, 1 bar, 1 posto de combustível, 1 mercado de frutas e verduras, 1 praça vizinha à escola; 08.08.1962 COLÉGIO BÁSICO Rua Bartolomeu Lourenço de Gusmão, 69 Jd. Novo Chapadão Campinas/SP Bem localizada, bairro residencial, classe média alta, casas com belos projetos arquitetônicos; comércio: 1 sorveteria, 1 lanchonete, 1 posto de combustível, 1 buffet de festas. Segue normas estaduais, porém a Direção propõe projetos significativos: Saídas de estudos; “Encontro de Ciência e Arte” e “Congresso Temático” para Ensino Médio; “Gincanas de Matemática, Soletrando, Escola segue linha construtivista sóciointeracionista; trabalha com projetos; promove saídas de estudos e exposições dos alunos; organiza festas; arte é valorizada: alunos têm aulas de artes visuais, 01.08.1987 46 Perfil cognitivo e comportamental dos alunos Direção / Coordenação Classes sociais dos alunos Número de alunos / manhã Número de alunos / tarde Número de alunos / noite Número de alunos / Total Faixas de Educação Conhecimentos Gerais e Jogos”, “Friday Fun” para Ensino Fundamental; incentiva propostas interdisciplinares; Alunos recebem livros e apostilas do governo estadual; alunos compram materiais como cartolinas, tintas etc. A avaliação é contínua, notas de 0 a 10, com média 5. A maioria dos alunos têm desempenho cognitivo entre médio e bom, uma minoria está acima da média e uns 5% apresentam grandes dificuldades. São reprovados poucos alunos por sala, até porque a legislação estadual não permite reprovação. No ensino médio alguns alunos passam, mas ficam de dependência. A maioria dos alunos tem bom comportamento, poucos são os que cometem excessos ou atos de violência física ou verbal. Direção e coordenação muito atuantes, acompanham o plano de aulas de cada professor, procuram dar sugestões e apoio aos educadores, colocam limites para os alunos e buscam o apoio da comunidade – pais e parentes - no processo educacional. Classe média e baixa 398 374 104 876 Ensino Fundamental - II (quinta a oitava série – sexto ao nono ano) música e teatro com professores especialistas; alunos utilizam apostilas do sistema Anglo; alunos compram livros e materiais como cartolinas, tintas etc. A avaliação é contínua, notas de 0 a 10, com média 7. Como se trata de um colégio pago, cuja média é 7,0, os pais pressionam os alunos que se esforçam para garantir ao menos a média, alguns competem pelas melhores notas. Os alunos com dificuldades e notas baixas têm aulas de recuperação e fazem novas avaliações. Caso o aluno não recupere as notas corre o risco de ser reprovado em qualquer ano (série), o que ocorre com pouquíssimos alunos. O comportamento dos alunos é muito bom, com raros casos de indisciplina, nada muito grave. Direção e coordenação muito atuantes, acompanham o plano de aulas de cada professor, procuram dar sugestões e apoio aos educadores, colocam limites para os alunos e buscam o apoio da comunidade – pais e parentes - no processo educacional. Classe média e alta 140 98 00 238 Educação Infantil (Maternal, Infantil, Jardim I e II – 2 a 5 anos) 47 Ensino Médio (primeiro ao terceiro ano) Séries (Anos) no período matutino Ensino Fundamental: 4 oitavas séries (nono ano) Ensino Médio: 4 primeiros, 2 segundos e 2 terceiros anos Séries (Anos) no período vespertino Séries (Anos) no período noturno Número de salas de aula Possui quadra de esportes? Possui laboratório de ciências? Possui biblioteca? Ensino Fundamental: 5 quintas séries (sexto ano), 4 sextas séries (sétimo ano), 3 sétimas séries (oitavo ano). Ensino Médio: 1 primeiro, 1 segundo e 2 terceiros anos. 12 salas grandes, para até 42 alunos Sim, descoberta. Ensino Fundamental - I e II (a partir de 6 anos primeiro ao nono ano) Educação Infantil: (Maternal, Infantil, Jardim I e II) Ensino Fundamental, uma classe por ano: primeiro ao nono ano. Educação Infantil: (Maternal, Infantil, Jardim I e II) Ensino Fundamental: (primeiro ao quinto ano) Sem classes. 11 salas médias, para até 25 alunos Sim, descoberta. Sim Sim Pequena, não é utilizada. Possui salas ambiente? Não Estantes de livros no laboratório e nas salas de aula Não Possui pátio e cantina? Sim, grande. Sim, pequeno. Possui sala de professores? Possui sala de vídeo? Muito pequena. Não. Sim. Possui sala de informática? Possui jardim e/ou horta? Sim, desativada há um ano. Jardim. Não, TV e vídeo são levados para salas de aula em um carrinho. Sim. Número de banheiros 1 professoras, 1 professores, 1 coletivo alunas, 1 coletivo alunos. Boa limpeza nas salas; pátio sempre limpo; sem pichações internas; no banheiro masculino os alunos não cooperam. Limpeza dos ambientes Jardim, horta e a educação infantil possui um grande espaço com brinquedos, quiosque, árvores. 1 professoras(es), 2 coletivo alunas, 2 coletivo alunos. Ótima limpeza, todos os ambientes. 48 Após esta breve caracterização das escolas falemos sobre este projeto. Desde o início do mestrado pensei em trabalhar com as duas escolas, fazendo um cotejo entre elas. Teria diferença o trabalho com a linguagem teatral realizado em uma escola estadual e em um colégio particular? Como seria o processo e os resultados em cada escola? Como já expus anteriormente, iria trabalhar a princípio só com jogos teatrais, depois refleti e achei que seria mais enriquecedor para mim e para os alunos, a criação e a montagem de uma peça de teatro. De qualquer forma o cotejo entre as duas escolas foi feito, comparandose o processo de montagem e o desempenho dos alunos na apresentação, estas reflexões serão apresentadas nos itens sobre a montagem e a apresentação da peça no Ato III. Falarei agora sobre a definição do elenco da peça. Como era professor de arte da EE Julio Mesquita, questionei qual classe gostaria de montar uma peça teatral. A turma onde quase todos mostraram interesse, 28 jovens de um total de 36, foi a sétima série D. Já no Colégio Básico onde era professor de teatro, fiz a proposta para o oitavo ano (sétima série) e os 11 jovens da classe aceitaram a proposta com muita animação. Resolvi montar a peça com os estudantes das duas escolas. Como seria o desempenho dos alunos? Haveria diferenças significativas entre os alunos da escola estadual e da particular? E como seria o encontro deles ao dividirem um mesmo palco e participarem de uma mesma peça? Meu objetivo principal com esse projeto era propiciar aos jovens um maior contato e conhecimento da linguagem cênica e que pudessem utilizar o teatro como forma de expressão de suas próprias idéias e sentimentos. Para isto era necessário escutá-los, era necessário que tivessem vozes próprias. Relatarei as intervenções realizadas e os resultados obtidos durante o processo de montagem. Porém ao trabalhar com jovens de duas escolas também quis possibilitar o intercâmbio entre eles, para que conhecessem alunos de uma realidade diferente da deles, para que dialogassem e verificassem se havia diferença ser adolescente aqui ou acolá. E que, ao conhecer outros jovens, outras realidades, procurassem também um maior conhecimento de si mesmos e do mundo que habitamos. 49 Havia uma importante questão: quando e como os jovens iriam se conhecer? As escolas ficam em bairros distantes uma da outra. Pensei em trocarem cartas escritas em papel, eu seria uma espécie de carteiro entre as duas escolas e depois marcaríamos um dia para se conhecerem ao vivo, mas não tivemos tempo para isto. Não queria que conversassem pela internet ou por celular, queria um encontro, um conhecer diferente. Como não conseguimos marcar ensaios durante o processo de montagem acabamos promovendo um único encontro antes da apresentação da peça, isto contarei mais à frente. Para realizar este projeto os estudantes participaram de jogos teatrais, aprenderam técnicas vocais, corporais e de interpretação, também conheceram técnicas de dramaturgia e importantes elementos presentes na montagem de um espetáculo. O projeto previa que os jovens participassem ativamente de todo o processo de forma democrática, ou seja, a decisão da maioria prevaleceria. Foi o que aconteceu. Tudo no espetáculo foi decidido coletivamente. Eles escolheram os temas, o gênero teatral, uma comédia com conteúdos; escreveram algumas cenas, sugeriram soluções cênicas, as músicas, figurinos, o nome da peça, tudo isso com a minha orientação, minha função foi de diretor e dramaturgo. Como já foi dito os estudantes não se conheciam, fiz a ponte entre eles, levava e trazia idéias e sugestões, tudo foi democraticamente decidido. Durante os ensaios todos sabiam onde estavam os alunos da “outra” escola. Sabiam as falas e a seqüência de cenas de cada escola. Por onde entravam em cena, onde ficavam e por onde saiam. Os jovens só conheciam o palco por fotos. Ensaiávamos pensando como seria quando se juntasse tudo. A junção foi feita na véspera da apresentação, na escola estadual. Só nesse dia os estudantes se conheceram e na tarde seguinte apresentaram a peça para alunos de uma terceira escola campineira, a Escola Estadual Benedito Sampaio. Vale lembrar que cada grupo montou sua parte que somada a parte da outra escola formaria um espetáculo único. E assim foi. Para o público não houve diferenciação entre alunos desta ou daquela escola, no palco todas as 50 diferenças individuais somaram-se, integraram-se e deram lugar a uma só equipe, ao elenco da peça “Adolê... Sendo”. A apresentação da peça foi marcada pelo encontro dos alunos-atores com o seu público, mas posso dizer que o processo de montagem promoveu uma significativa sucessão de encontros. 2.4 - Teatro: arte do encontro, arte que educa Falarei um pouco mais sobre a arte – neste projeto em particular abordarei o teatro –– como instrumento educativo. No Ato I já foi dito que não se faz teatro sozinho. O fenômeno teatral acontece no momento em que o ator encontra seu espectador. E antes que o elenco do “Adolê” encontrasse seu público muitos outros encontros aconteceram. O encontro de cada um consigo mesmo, na reflexão e na decisão de escolher como e o que dizer através do teatro. O encontro de sentidos e significados para a vida e para a arte. O que é ser adolescente? O que é teatro? O que é poesia... O encontro com colegas de sala de aula em circunstâncias novas: os jogos teatrais, a concepção e a preparação da peça, as improvisações, as escritas e reescritas das cenas, os ensaios. O encontro com a linguagem teatral, seus elementos, sua gramática, sua poética. O encontro no palco com colegas da própria escola e novíssimos colegas da outra escola. Um encontro especial entre pares, parceiros de cena, entre seres humanos. A integração e a cumplicidade, nesta situação verificadas, fortaleceram minha convicção de que felizmente, em alguns momentos, podemos esquecer interesses e diferenças individuais e vivenciar laços invisíveis que nos unem magica e profundamente a outros seres humanos. Esses momentos de comunhão, com “estranhos” ou com “familiares”, fazem-nos experienciar uma sensação de pertencimento a uma comunidade maior – humana - 51 independente de classes sociais, independente da complexidade e diversidade cultural, independente de idiomas ou costumes, alguma coisa de humano se manifesta e se impõe, contagiando uns e outros, como sorrisos sinceros que são compreendidos em qualquer parte do mundo, como a música e as outras artes que em alguns momentos podem promover essa sensação de comunhão e de pertencimento a humanidade, talvez porque a linguagem da arte seja essencialmente humana. E finalmente o grande encontro teatral, o encontro com o público. Novamente a magia aconteceu. Após a apresentação elenco e diretor conversaram com o público e os relatos confirmaram o poder da arte de resgatar nosso lado mais humano, mas sobre isso falaremos mais adiante. No terceiro ato passarei a palavra para alguns pensadores do teatro e da arte educação: Read, Bosi, Courtney; mas pelo que foi escrito até aqui se pode perceber o poder educativo do teatro? O quão educativa pode ser uma montagem teatral realizada com e por alunos? Neste momento apresentarei meus referenciais teóricos – meus companheiros de viagem - começarei abordando a concepção fenomenológica de educação, passarei por alguns conceitos sobre hermenêutica, a seguir dissertarei sobre educação segundo Freire. Depois falarei um pouco mais sobre a linguagem. Na seqüência focalizarei a importância dos jogos de acordo com Huizinga, depois abordarei as relações da educação com o pensamento complexo e por fim falarei sobre a educação dos sentidos. O objetivo desta divisão é tornar o texto mais compreensível e facilitar futuras localizações, na realidade todos estes assuntos estão interligados e se complementam, assim como os assuntos dos próximos Atos. 2.5 – Fenomenologia e educação O que é a Fenomenologia? Augusto Novaski escreveu o prefácio para o livro Concepção fenomenológica da Educação do professor Antonio Muniz de Rezende. Logo no início do texto Augusto diz que Rezende teve contato pessoal com 52 “fenomenólogos do porte de Paul Ricoeur, Jean Ladrière, Alphonse De Waelhens”, além de abeberar-se nas “obras originais de Husserl, de Heidegger e de Merleau-Ponty” (prefácio de NOVASKI in: REZENDE, 1990, p. 7). Ainda segundo Novaski: É tendo em vista esse contato pessoal fecundo que o Prof. Rezende, diante da pergunta “o que é a Fenomenologia” sempre responde com convicção: é preciso ler os fenomenólogos fazendo Fenomenologia para se inteirar daquilo em que consiste esse estilo! (NOVASKI in: REZENDE, 1990, p.7) Entenda-se estilo no sentido de estratégia de pensamento ou modo próprio de vivenciar. Mesmo sabendo que o ideal seria ler os “fenomenólogos fazendo Fenomenologia”, considerando a necessidade que este trabalho tem de explicitar alguns conceitos e suas possíveis aplicações na educação, tentarei a seguir - através das palavras do professor Rezende - expor de forma sucinta o que é a fenomenologia, no âmbito de uma filosofia da educação. Rezende faz algumas observações “a respeito da práxis fenomenológica, como sendo antes de tudo um estilo no dizer de MerleauPonty.” Destaca que “nenhum dos grandes autores da fenomenologia redigiu um ‘tratado sobre a educação’.” Propõe então que se faça uma “filosofia da educação em moldes fenomenológicos”. Segundo Rezende, este estilo se interessa por todos os temas filosóficos e a educação não deixa de ser “um fenômeno que aparece sob uma determinada luz e pode ser abordado dentro do estilo desta corrente filosófica no estudo de outros fenômenos.” (REZENDE, 1990, p. 13 e 14). Retomando a citação de Augusto feita acima e mencionando o papel do professor – do mestre – nesta concepção de educação, Rezende diz que: “É difícil entender a fenomenologia sem ver como os fenomenólogos trabalham, discursam, buscam o sentido. Aliás, esta é também uma das características da fenomenologia da educação, para a qual o mestre desempenha um papel muito importante, pois a intenção pedagógica só pode ser vivida como uma experiência de encontro entre o educador e o educando.” (REZENDE, 1990, p. 14) 53 E, em total consonância com o que tenho escrito neste trabalho sobre a busca por um “estilo pessoal” – lembrando-me de Augusto e de Severino, cito estas palavras do professor Rezende: Foram eles [Maurice Merleau-Ponty e Paul Ricouer] principalmente que nos fizeram compreender como o estilo característico da fenomenologia consiste também em cada um buscar o seu próprio, como estilo de trabalho, de pensamento, de ação, de discurso e posicionamento diante dos homens, do mundo, da história e da sociedade. (REZENDE, 1990, p. 14 – para compreensão de quem foram “eles”, Merleau-Ponty e Ricouer, inclui os parênteses) Rezende destaca que “o método da fenomenologia é discursivo e não apenas definitivo das essências.” A preocupação está em “dizer em que sentido há sentido, e mesmo em que sentido há sentidos. Mais ainda, nos fazer perceber que há sempre mais sentido além de tudo aquilo que podemos dizer.” (REZENDE, 1990, p. 17) Será alcançado um maior entendimento sobre discurso e sentido(s) logo no parágrafo abaixo e ao longo deste texto sobre o estilo fenomenológico. A fenomenologia, principalmente a de Merleau-Ponty, foi chamada “filosofia da ambigüidade”. Significando uma “superação do essencialismo em todas as suas formas, principalmente no cartesianismo como filosofia das idéias claras e distintas, ou como filosofia da evidência” e aproximando este estilo da “filosofia da linguagem, especialmente atenta aos problemas semânticos”. (REZENDE, 1990, p.17) Vale ressaltar que a semântica, segundo Lalande, é: Parte da lingüística que se ocupa do vocabulário e da significação das palavras; em particular, estudo histórico do sentido das palavras considerado nas suas variações. (LALANDE, 1996, p. 984) Observando que as variações dizem respeito há diferentes sentidos para uma mesma palavra no decorrer da história humana, para diferentes grupos, diferentes épocas ou mesmo diferentes indivíduos. Há sentido e há sentidos. Rezende diz que: 54 Aliás, mais do que de ambigüidade, Paul Ricoeur prefere falar de polissemia e de densidade semântica do símbolo.O fenômeno aparece desde o início como uma “realidade” típica do mundo humano, e o símbolo como uma estrutura de estruturas, reunindo, concentrando, articulando os diversos sentidos, ou as diversas manifestações do sentido na trama constitutiva do discurso existencial. (REZENDE, 1990, p. 17) Neste momento é válido lembrarmos que somente seres humanos criam e utilizam símbolos, daí dizermos que as linguagens (textual, musical, visual, teatral) são criações exclusivamente humanas, lembrando a definição de símbolo: Objeto material, figura ou som que toma o lugar de uma coisa ausente ou impossível de perceber e serve quer para trazê-la de volta ao espírito (como por exemplo, os signos que representam os metais, os elementos, na antiga química), quer para se combinar com outros signos do mesmo gênero para efetuar operações (simples ou complexas, precisas ou não) sobre as relações das coisas significadas. “Os signos da linguagem”; “ +, signo da adição”; “∞, signo do infinito, etc.” (LALANDE, 1996, p. 1012) Segundo o professor Rezende, além da “necessidade do discurso para nos referirmos ao fenômeno, a fenomenologia nos prescreve a atitude descritiva como sendo realmente a que corresponde à densidade semântica do fenômeno experimentado.” (REZENDE, 1990, p. 18). Nas palavras do mestre: [...] uma verdadeira descrição, supondo a consciência perceptiva, só pode ser feita por alguém que seja sujeito de seu próprio discurso e entre em contato com um mundo complexo tanto em sua constituição como em sua história. Didaticamente falando, podemos enumerar as seguintes características do discurso fenomenológico descritivo: deve ser significante, pertinente, relevante, referente, provocante, suficiente. (REZENDE, 1990, p. 18) Para não me estender demais, escreverei sucintamente sobre cada uma das características do discurso fenomenológico, destacando aquelas que mais ajudarão na compreensão da fenomenologia e de sua aplicação na educação. 55 Nas palavras de Novaski, retiradas do prefácio do livro a que venho me referindo, a primeira característica é ser significante, ou seja, o discurso deve tecer considerações sobre: [...] todos e somente aqueles aspectos que são indispensáveis à descrição, a começar pela existencialidade do fenômeno, pela significação da existência para a consciência perceptiva e para a consciência cognitiva.” (NOVASKI in: REZENDE, 1990, p. 09) Destaco algumas falas do Prof. Rezende em que ele se refere à consciência perceptiva e a consciência cognitiva, referindo-se a uma fenomenologia tanto da percepção como do espírito, convidando-nos – como o fez Merleau-Ponty – a abandonar a perspectiva de um sujeito transcendental e propondo a visão de sujeitos engajados, com consciência engajada, “cujo serno-mundo é também ser-ao-mundo” : Em primeiro lugar, o sentido diz respeito à existencialidade do fenômeno, em íntima relação com a consciência perceptiva. Não é sem razão que uma das principais obras de Merleau-Ponty se intitula A fenomenologia da percepção. Descrever é dizer o que há, o que existe, o que acontece, o que se dá a conhecer. Merleau-Ponty [...] querendo com isso afirmar a impossibilidade de percebermos sentido fora do lugar de sua manifestação, a existência. Neste sentido é que se fala de uma fenomenologia existencial. [...] Os que se referem à fenomenologia como uma filosofia idealista não compreendem este seu aspecto fundamental. [...] Se há sentido para a consciência perceptiva, há também para a inteligência e a consciência cognitiva. A fenomenologia da percepção não exclui, antes se completa numa “fenomenologia do espírito”. (REZENDE, 1990, p. 19) Segundo Novaski o discurso fenomenológico deve também ser pertinente: E se este discurso é significante, a pertinência que o caracteriza é uma intensificação e explicitação dessa significância. Trata-se da estrutura deste fenômeno e não de outro. (NOVASKI in: REZENDE, 1990, p. 10) Sobre a pertinência nos fala Rezende: 56 Dois vícios se apresentam como possíveis derrogações da pertinência: o reducionismo e o fenomenismo. O reducionismo consiste em insistir num aspecto em detrimento de outros, [...] O fenomenismo, ao contrário, consiste em acumular toda e qualquer informação, em multiplicar os aspectos enumerados, [...] sem cuidar se eles devem de fato ser apontados, tanto em nome da significância como da pertinência e da relevância. Sem cair no reducionismo ou no fenomenismo, a descrição pertinente procura levar em conta a complexidade da estrutura fenomenal. (REZENDE, 1990, p. 21) A terceira característica é ser relevante: [...] há o constante cuidado de a cada passo precisar cada vez mais os seus aspectos significantes e os pertinentes, pois o que é menos pertinente ou relevante torna-se menos significante. (NOVASKI in: REZENDE, 1990, p. 10) A quarta característica é ser referente: [...] cada aspecto do fenômeno só adquire aqui sua significação própria na medida ou enquanto se referir aos demais aspectos que compõem a estrutura do fenômeno em pauta, a tal ponto que essa estrutura se modificará semanticamente quando da modificação significativa de um dos seus elementos, pois isso repercutirá significativamente em todos os outros. (NOVASKI in: REZENDE, 1990, p. 11) Observe-se a complexidade dos fenômenos e note-se como não podemos estudá-los fora do contexto em que se manifestam, nem podemos analisar cada aspecto ou parte do fenômeno isoladamente, cada aspecto da sua estrutura refere-se aos demais. Cada modificação significativa em uma das partes ou em um dos aspectos relacionados ao fenômeno em pauta, modifica-o significativamente. Devemos observar tudo que se relacione ao fenômeno, percebendo que se trata de um evento único em um contexto próprio, ou seja, por mais semelhantes que sejam, cada fenômeno é um caso particular. Neste sentido, penso eu, nós professores podemos observar que é impossível ministrar duas aulas idênticas, por mais que apliquemos as mesmas atividades e o mesmo conteúdo, por mais parecidos que sejam os contextos em que nos encontremos. Isto porque as variáveis são muitas e é preciso perceber quais delas são significativas e quais delas podem alterar 57 significativamente o fenômeno educacional. Tenho observado algumas significativas variáveis, em determinados dias, em determinadas classes, porém muitas vezes não percebemos os sinais – os signos - dados pelos alunos através de seus corpos que falam, de seus semblantes, seus silêncios ou ruídos estridentes, note-se como podem afetar o fenômeno educacional: o estresse dos alunos após uma avaliação; o cansaço de todos – professor e alunos – em uma última aula do dia; um aluno que interrompe debochadamente o professor o tempo todo, irritando os colegas e o próprio professor; a qualidade de vida (nutrição, higiene, lazer, cultura, etc.) de cada aluno e mesmo do professor (imaginemos então as diferenças entre alunos e entre professores de diferentes classes sociais e de escolas distintas); ou ainda, o interesse e o nível de facilidade ou dificuldade cognitiva de cada aluno. Como trabalhar com cada uma destas “realidades”? Deixo esta questão para reflexão, para retomá-la mais adiante. Voltando ao prólogo do professor Augusto, diz ele que a abordagem educacional do professor Rezende é provocante, diferentemente das abordagens behavioristas - esclareço que o termo Behaviorismo origina-se do inglês behaviour no Reino Unido ou behavior nos Estados Unidos, podendo ser traduzido por comportamento ou conduta. Trata-se de uma corrente da psicologia interessada no estudo do comportamento e das reações. Simplificadoramente posso dizer que as abordagens behavioristas vêem a “psicologia como uma ciência prática, que formula leis pelas quais se possa prever a reação ao conhecerem-se os estímulos ou determinar o estímulo ao conhecer-se a reação”. (LALANDE, 1996, p. 123 e 124) Cito alguns cientistas e pensadores ligados ao Behaviorismo: Ivan Pavlov, Burrhus Frederic Skinner e John Broadus Watson, entre outros. Esta concepção evolutiva e determinista apresenta o ensino e a aprendizagem como um processo que envolve ações e reações, estímulos e respostas, prêmios e castigos, por vezes assemelhandose aos “adestramentos” animais, embora em se tratando de humanos diríamos condicionamentos – lembro-me do termo “condicionamento físico” – e dos treinamentos – vem-me a mente exercícios de caligrafia ou de digitação, repetitivos, puramente mecânicos. Concebia-se que todos os alunos deveriam ter uma mesma reação, uma mesma resposta para determinado estímulo, não se considerando diferenças 58 individuais ou outras variáveis possíveis. Esta concepção resultou em práticas escolares não significativas para os alunos. Recordando que ser provocante é a quinta qualidade do discurso fenomenológico descritivo, diz Novaski sobre a abordagem provocante de Rezende: [...] as respostas que o educando dará às situações concretas vividas não são simples reações de maneira determinista, mas sim ações, que podem comportar elementos de imprevisão e de imprevisibilidade. O Prof. Rezende nos fala então em provocação e não em estímulo, nos fala do símbolo e da liberdade. [...] é preciso ver sim como são dadas aquelas respostas, mas, mais que isso, de que outras maneiras elas poderiam ou deveriam ser dadas.(NOVASKI in: REZENDE, 1990, p. 11) E Augusto nos coloca a questão de um discurso suficiente – a sexta característica do discurso descritivo: Se por um lado sabemos que o discurso humano é necessariamente inacabado, incompleto, dada a inesgotabilidade da questão semântica no que diz respeito à existência, à história, de outro lado é preciso dizer que ele deve ser suficiente. (NOVASKI in: REZENDE, 1990, p. 11) Augusto Novaski coloca ainda a questão do discurso do Professor Rezende ser compreensivo: [...] busca a compreensão do fenômeno educacional, sabendo da sua inesgotabilidade, pois seu sentido pleno é um horizonte. [...] Não só a existência é simbólica, mas especificamente a educação também dotada de teor simbólico, na medida em que, encarnada e polissêmica, comporta sentido, sentidos e mais sentidos. A compreensão é um desafio que o Prof. Rezende aceita para a inteligibilidade do fenômeno educacional. Desafio porque o sentido pleno do símbolo nos é inatingível, não obstante nunca poderemos renunciar à busca; isto vem dinamizar essa procura e relativizar nossas descobertas. (NOVASKI in: REZENDE, 1990, p. 12) Sobre o que se sabe, o que se vê, e o que ainda não se sabe, ainda não se vê, diz o Prof. Rezende: 59 A fenomenologia desconfia daqueles que pretendem acabar com os mitos e a poesia, ou afirmar a univocidade em detrimento da polissemia. Interessa-nos “o visível e o invisível”, “o olho e o espírito”, o “sentido e o não sentido”, “as aventuras e a dialética”, “a existência e a significação”, “a vida e a metáfora”. [...] A fenomenologia não é uma filosofia da evidência mas da verdade em todas as suas manifestações. Ora, a verdade tanto se manifesta como se oculta, e o seu ocultamento ainda é uma das formas de sua manifestação. O desvelamento (a-letheia) consiste em descobrir (des-cobrir) que a verdade nunca se revela totalmente. Há, portanto, uma relação essencial entre a verdade e o símbolo, entre a verdade e o sentido pleno, entre a verdade e a utopia. E fica claro em que sentido a descrição está em função da compreensão, esta dinamizando aquela. Mas tanto a descrição como a compreensão implicam, por sua vez, a interpretação, a hermenêutica, como sendo a atitude que de fato corresponde à busca da verdade: interpretar é tentar desvelar, no sentido em que o desvelamento é possível. (REZENDE, 1990, p. 29) Sinto necessidade de escrever algumas linhas sobre interpretação e hermenêutica, o que farei logo após este item sobre a fenomenologia na educação. O Prof. Novaski explicita algumas idéias que justificam essa necessidade: “se o fenômeno educacional é da ordem do símbolo, o acesso à ele só se pode dar pelo caminho da interpretação. Se houvesse só um sentido, se o fenômeno fosse unívoco, não se plantearia a necessidade da interpretação. Sua polissemia entretanto impõe uma hermenêutica que irá acompanhar a estruturação dos diversos sentidos no interior do fenômeno educação. Interpretar, para Ricoeur, consiste em “desdobrar os níveis de significação implicados na significação,literal”. (NOVASKI in: REZENDE, 1990, p. 12) O Prof. Rezende diz que “a interpretação diz respeito ao fenômeno enquanto percebido e vivido: trata-se de interpretar a existência.” (REZENDE, 1990, p. 29). Diz ainda que: Interpretar é analisar um fenômeno como se analisa um texto. Não se trata de desfazer o texto pela identificação pura e simples dos fios que constituem a trama textual, mas de compreender o papel semântico que desempenham no tecimento do texto em sua textura e configuração. (REZENDE, 1990, p. 30). 60 E fala sobre a importância de se interpretar a própria cultura: Uma cultura que não se interpreta a si mesma é simplesmente vivida e corre o risco de degradar para um nível inferior ao humano. Isto quer dizer que sem a interpretação, a cultura e o discurso cultural correm o risco de perder a sua dimensão simbólica, ao menos no nível da consciência (simbólica). A interpretação torna-se, portanto, fator de desenvolvimento cultural, permitindo que a cultura seja vivida humanamente, conscientemente, como uma realidade simbólica, densa de sentido e de sentidos. (REZENDE, 1990, p. 30). Será que nossa “civilização” deixou de se interpretar e talvez por isto o respeito ao próximo, ao planeta, à vida tenham perdido o sentido? Talvez por isto muitas vezes não saibamos que sentido seguir para melhorarmos nossas sociedades? Talvez por isto temos alcançando níveis tão altos de violência e de agressões das mais diversas formas? Através do trecho acima citado podemos refletir sobre as relações entre linguagem, interpretação, discurso, cultura e tudo aquilo que nos faz mais - ou menos - humanos. Questões levantadas desde o prólogo deste trabalho. Em mundo com tantas injustiças econômicas e políticas, deteriorações ambientais e sociais, qual é o discurso que adotamos? Como interpretamos nossa própria cultura? Que ações temos tomado? Rezende nos fala sobre o inevitável conflito de interpretação: Além de simbólica, estruturada e histórica, a experiência da interpretação é também um fenômeno social. Não só indivíduos diferentes mas grupos humanos historicamente situados podem interpretar diferentemente. [...] o inevitável conflito de interpretação sempre conota a possibilidade de imposição de um tipo de interpretação pela classe dominante, na forma de uma cultura dominante. (REZENDE,1990, p. 31) E menciona Goldmann: Lucien Goldmann nos fala [...] de umas poucas visões do mundo dentro das quais se situam os indivíduos e grupos para interpretar a cultura e a história (Dialética e cultura, p. 63). Nós mesmos, em páginas anteriores, distinguimos o mundo como horizonte de todos os horizontes e um mundo como ponto de vista a partir do qual abriremos os olhos sobre os diversos fenômenos. (REZENDE,1990, p. 31) 61 A partir de que visão de mundo, temos abertos nossos olhos? Temos tentado compreender – interpretar – os fenômenos (inclusive a educação), procurado chegar às causas e buscado formas de superação possíveis para tantos problemas? Ou temos repetido – resignados e incrédulos – o discurso que favorece as classes que não querem mudança alguma e que são favorecidas pelas atuais situações de vida? Muitas pessoas acreditam – ou passam a acreditar - que não se pode mudar a “realidade” em que vivemos; que não há o que fazer; que não adianta protestar; que política é um assunto que não interessa; e muitos dizem sem nenhuma crise ética – o que acho muito triste – que se fossem políticos iriam tirar proveitos econômicos das situações favorecendo a si mesmos e aos seus familiares. Continuarei a enumerar algumas coisas que são ditas – por mais que reflitam aspectos da realidade, por mais que comportem verdades, trazem um discurso bastante perigoso: muitos dizem que a justiça existe só para quem tem dinheiro; que está difícil confiar em policiais; que os bandidos estão melhores armados; que o mercado só valoriza conhecimentos rapidamente aplicados que geram riquezas – professores e pesquisadores ganham menos que muitos vendedores; que o importante é consumir para se aumentar a produção e o país prosperar... (e as questões ambientais? E o colapso dos recursos naturais?); e o que mais escutamos e até repetimos sobre a falta de justiça nacional, no Brasil “tudo acaba em pizza”... Como querer que nossos alunos estudem – para que? – diante de um discurso como este? Se nada adianta fazer, se não é possível mudar, se os professores não acreditam mais, como irão os educandos acreditar? Esperança. Discurso. Ação. Relembrando, para não esquecer as palavras de Paulo Freire, citadas no Ato I: “a esperança faz parte da natureza humana. [...] A esperança é uma espécie de ímpeto natural possível e necessário, a desesperança é o aborto desse ímpeto. (FREIRE, 1996, p. 72); “[...] histórico, vivo a História como tempo de possibilidade, não de determinação.” (FREIRE, 1996, p. 75) “Se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode.” (FREIRE, 1996, p.112). 62 Prosseguiremos as reflexões com algumas palavras de Rezende sobre aprendizagem e discurso “próprio”: [...] o método da fenomenologia é afinal um método de aprendizagem, diretamente relacionado com a experiência cultural, e em essência atento ao problema do sentido da existência. Todos nós somos aprendizes, em relação a ele, constantemente desafiados a tornarmo-nos mais plenamente sujeitos de nossa própria história, sujeitos de nosso próprio discurso cultural. A fenomenologia provoca-nos, precisamente, a fazermos a experiência de um discurso assumido, de maneira humana, na primeira pessoa, tanto do singular como do plural. (REZENDE,1990, p. 32) Fala também sobre atitudes não dogmáticas e liberdade: [...] a busca do sentido, como experiência da verdade, supõe uma atitude interpretativa da história e das situações, num contexto de mundo, em que o conflito não só é possível como necessário e inevitável. O conflito das interpretações manifesta ainda melhor a dimensão simbólica do sentido da existência, a necessidade de um confronto com outros indivíduos e grupos, e a impossibilidade de se adotar uma atitude dogmática tanto no nível do conhecimento como da liberdade. (REZENDE,1990, p. 32) Novamente Paulo Freire, relembrando uma citação feita no Ato I: Nas minhas relações com os outros, que não fizeram necessariamente as mesmas opções que fiz, no nível da política, da ética, da estética, da pedagogia, nem posso partir de devo “conquistá-los”, não importa a que custo, nem tampouco temo que pretendam “conquistar-me”. É no respeito às diferenças entre mim e eles ou elas, na coerência entre o que faço e o que digo, que me encontro com eles ou elas. É na minha disponibilidade à realidade que construo minha segurança, indispensável à própria disponibilidade. É impossível viver a disponibilidade à realidade sem segurança mas é impossível também criar a segurança fora do risco da disponibilidade. (FREIRE, 1996, p. 135) Não por acaso retomei as mesmas citações. O Prólogo e Ato I apresentaram os tópicos – fios – que venho puxando e retomando. Esse discurso recursivo não se trata de repetição compulsiva ou de mero formalismo, até porque acredito que forma e conteúdo se complementam e se 63 revelam dialeticamente. Forma influencia conteúdo e conteúdo influencia forma. Meu objetivo é expor - em concordância com a fenomenologia - que cada parte está em relação com as outras partes deste texto, assim como todas as partes estão em relação no texto da vida. Falando em forma, falemos de estrutura. Rezende diz que a fenomenologia “propõe-nos encararmos o fenômeno como uma estrutura reunindo dialeticamente na intencionalidade o homem e o mundo, o sujeito e o objeto, a existência e a significação.” (REZENDE, 1990, p. 34-35) Diz que a estrutura “é a noção chave de que a fenomenologia se serve para superar todas as formas de dicotomia do passado, do presente e do futuro. [...] a estrutura fenomenal é uma multiplicidade unificada por uma ordem cujo sentido é correspondência intencional à situação existencial.” (REZENDE, 1990, p. 35) Fala sobre o fim da oposição dicotômica homem e mundo. “O homem não é o mundo, o mundo não é o homem, mas um não se concebe sem o outro.” (REZENDE, 1990, p. 35) Em uma visão dialética e histórica diz que: O mundo humano é o mundo da cultura, o mundo das civilizações, em cujo seio a existência humana assume a forma de “um comportamento relativamente aos outros, à natureza, ao tempo e à morte, uma certa maneira de pôr o mundo em forma”. São dimensões do mundo como dimensões da história. (REZENDE, 1990, p. 40) A fenomenologia propõe ser uma “filosofia do mundo, tanto quanto uma filosofia do homem”. (REZENDE, 1990, p. 40). Neste sentido interessa-se por todas as questões e áreas do conhecimento: Isto quer dizer que o mundo não deve ser compreendido somente a partir da economia, da sociologia, da política, da ideologia, mas de todas as maneiras pelas quais temos acesso ao sentido. Não há porque privilegiar a infra-estrutura ou a supra-estrutura em detrimento da estrutura. Esta aparece onde quer que haja sentido. E tudo tem sentido, embora nem tudo tenha o mesmo sentido. É no mundo que o homem encontra sentido. É nele que o sentido se encarna para fazer dele um mundo humano. (REZENDE, 1990, p. 40-41) 64 Poderíamos discutir – pensando-se em educação – as questões inter e transdisciplinares, mas deixarei este tópico para o Ato III. Falemos agora mais precisamente sobre uma fenomenologia da educação. Segundo Rezende, ao se considerar a educação um fenômeno, devemos “reconhecer que se trata de uma experiência profundamente humana”. Diz que todos e somente os seres humanos se educam. Diz ainda que a educação “pode ser enfocada de vários pontos de vista, mas cada um deles acaba por remeter aos demais”. Alerta que ao privilegiar um aspecto em detrimento dos outros, alguns autores “incorrem num reducionismo que tanto impede a compreensão do fenômeno educacional como do fenômeno humano propriamente dito”. (REZENDE, 1990, p. 46) De acordo com Rezende: E a educação nos parece, desde logo, como sendo o fenômeno da aprendizagem da cultura. Desse ponto de vista, o diálogo da fenomenologia se estabelece preferencialmente com as ciências humanas, em especial a antropologia, a sociologia, a história e a psicologia. A respeito desse diálogo, seria importante lembrar, que, ao estabelecê-lo, a fenomenologia pretende continuar sendo uma filosofia, sem se transformar sucessivamente em sociologia, antropologia, história ou psicologia da educação. (REZENDE, 1990, p. 4647) O professor Rezende nos lembra que a filosofia “tenta compreender o mundo, apreender o seu sentido, da maneira como ele é vivido”. E que “tudo isso diz particularmente respeito à educação”. (REZENDE, 1990, p. 47) Fala também que, se por um lado as teorias comportamentalistas reduziram o educando-aprendiz a menos que homem, por outro lado as teorias tecnocráticas (uma retomada do racionalismo) desanimalizaram o homem, como se fosse um puro espírito, desencarnado. Já para a fenomenologia o “homem não aprende somente com sua inteligência, mas com seu corpo e suas vísceras, sua sensibilidade e imaginação”. (REZENDE, 1990, p. 49) Sobre uma aprendizagem significativa diz ele: Tanto em seu método como em sua temática, a fenomenologia insiste na percepção de sentido da existência como sendo a questão propriamente fenomenológica. Educar- 65 se, para ela, consiste, antes de tudo, em aprender esse sentido, para que a existência possa ser vivida humanamente como tal. O problema subjacente a semelhante posicionamento é o da alienação, na medida em que indivíduos e grupos, a sociedade e as classes sociais, ou mesmo a humanidade, podem viver sem perceber o sentido que suas vidas realmente têm. (REZENDE, 1990, p. 51) E sobre o sentido da existência nos lembra que: [...] a fenomenologia insiste em dizer que não apenas há sentido na existência, mas há sentidos e mais sentido do que a consciência ingênua poderia imaginar. O símbolo é precisamente a concentração do sentido e dos sentidos da existência. Dizer isto é adotar uma postura propriamente filosófica, cheia de conseqüências para a educação. (REZENDE, 1990, p. 51) Rezende nos fala sobre a noção de símbolo que nos refere à de estrutura, e mesmo a uma estrutura de estruturas. “Como tal, a aprendizagem humano-significativa vai consistir em buscar o sentido que se articula no símbolo, procurando apreendê-lo através das diversas relações semânticas que se estabelecem na estrutura simbólica e a partir dela. Por isso é que a fenomenologia praticamente identifica a aprendizagem e a compreensão”. (REZENDE, 1990, p. 51) O professor diz que “a primeira das relações semânticas a serem estabelecidas por uma fenomenologia da educação é entre os diversos sentidos da própria palavra sentido”. (REZENDE, 1990, p. 51) E diz que há três sentidos para o sentido: sentido dos cinco sentidos, sentido do significado e sentido da direção. Neste momento faço um aparte, segundo Severino Antônio há um quarto e fundamental sentido para a palavra sentido: sentido de sentimento; e tanto Antônio quanto Morin e outros pensadores defendem a importância de uma educação que integre razão e emoção, que eduque os sentidos, incluindo os sentimentos, a afetividade e a imaginação. Severino Antônio defende a tese da educação dos sentidos, da educação poética, “educação dos olhos, dos ouvidos, da nossa percepção sensível do mundo, assim como nossa capacidade de admiração, de espanto, de alumbramento.” Diz que esta educação poética “é também educação dos sentimentos. [...] Sem a educação 66 dos sentimentos, no sentido da reverência pela vida, provavelmente não sobreviveremos neste planeta ainda azul apesar de todas as desfigurações.” (ANTÔNIO, 2008, p. 90) Retomando as idéias de Rezende abordarei o primeiro sentido da palavra sentido, conotando os cinco sentidos e a condição corporal do homem: Para a fenomenologia, há na educação todo um trabalho de educar os sentidos e a partir deles: aprende-se a ouvir, a ver, a cheirar, a degustar, a sentir, como se aprende também a lidar com a imaginação.(REZENDE, 1990, p. 52) Rezende fala sobre os obstáculos à percepção da realidade, como as diversas formas de poluição cultural, “que introduzem ruídos, impedindo de ver e ouvir o mundo como realmente ele é.” Diz ainda que: Nesta perspectiva, haveria muito proveito em relermos o que Merleau-Ponty escreve em O olho e o espírito, mostrando como os artistas desempenham um importante papel pedagógico, ensinando-nos a ver o mundo. (REZENDE, 1990, p. 52) O professor trata então, do segundo sentido da palavra sentido, que diz respeito à significação propriamente dita “e de uma correspondente educação da inteligência”. (REZENDE, 1990, p. 52). Diz ele: A aprendizagem significativa é necessariamente interpretativa, hermenêutica, procurando descobrir em que sentido(s) há sentido(s). É na interpretação que se acompanha a gênese do sentido e se faz a crítica dos conhecimentos. (REZENDE, 1990, p. 53) Proponho uma pausa para reflexões. Costuma-se dizer que o conteúdo estudado deve ser significativo para os alunos, deve ter algum sentido para suas vidas, senão não lhes desperta interesse algum. Porém está difícil fazer com que se interessem pelos estudos, mesmo contextualizando os conteúdos e mostrando-lhes suas aplicações no mundo. Como tornar os alunos mais curiosos, críticos e interessados pelos conhecimentos da humanidade? Outro ponto importante é a questão da dificuldade de compreensão por parte dos educandos. Tenho escutado professores reclamando que os alunos 67 não têm compreendido o que lêem, não entendem os enunciados das questões e por isto dão respostas muito equivocadas. O que podemos fazer para melhorar a compreensão daquilo que lêem? Estes são realmente dois pontos críticos – falta de interesse e de compreensão - e espero, neste e nos próximos Atos, contribuir com alguma luz sobre estas questões. Voltando ao segundo sentido da palavra sentido – que diz respeito à significação propriamente dita – nos diz Rezende: [...] dizendo respeito à inteligência, diz igualmente respeito à linguagem. É por meio dela que o homem significa, e a aprendizagem não será significativa se não for também uma aprendizagem da língua e das demais formas da linguagem.(REZENDE, 1990, p. 54) Posso adiantar que, ao trabalhar com meus alunos a linguagem teatral, que também abrange textos, corpos, músicas e imagens, trabalhava em uma perspectiva fenomenológica, embora, naquela época, nem soubesse disto. “O terceiro sentido da palavra sentido é relativo aos rumos, à orientação que a existência está tendo ou poderia ter”, diz Rezende, “em função do posicionamento dos sujeitos ante a realidade do mundo (primeiro sentido da palavra sentido) e a sua significação (segundo sentido) tal como percebida existencialmente e interpretada de maneira inteligente”. (REZENDE, 1990, p. 54) Caminhando para o fim deste item sobre a fenomenologia devo ressaltar que este estilo filosófico vê a educação como aprendizagem da cultura, porém não como o culturalismo, que “nos fala da cultura numa perspectiva causalista, em termos de causa e efeito, supondo portanto uma exterioridade entre ambos, a fenomenologia começa por afirmar a mútua presença, a mútua implicação do homem e da cultura, em razão da estrutura do fenômeno e da experiência da intencionalidade”. (REZENDE, 1990, p. 59) O Prof. Rezende diz que “a educação é um fenômeno que diz respeito aos sujeitos”. Para a filosofia da educação interessa saber até que ponto o educando “se torna sujeito da cultura como sujeito-agente do discurso cultural, histórico e social”. (REZENDE, 1990, p. 68) Rezende nos fala sobre o papel da educação como um projeto de “desambiguação e interpretação do discurso cultural”: 68 [...] a existência humana é sempre ambígua, vivida na dialética da apropriação e da alienação. O homem é constantemente ameaçado de viver sem perceber o(s) sentido(s) que sua vida está realmente tendo. À ambigüidade de uma existência histórica, social, cultural, deve portanto corresponder, especialmente em termos de educação, um projeto de desambiguação e interpretação do discurso cultural. [...] semelhante projeto consiste em o sujeito deixar de ser falado para se tornar falante. [...] a educação aparece como processo-projeto de humanização do sujeito, que não seria simplesmente objetopassivo mas sujeito-ativo da história e da cultura. (REZENDE, 1990, p. 69) Rezende chama a atenção para o fato de haver, além de uma alienação de indivíduos, “uma alienação cultural dos grupos e classes sociais”, promovida especialmente pela “cultura de massa” que resulta, na maioria dos casos, em uma “massificação cultural”. Sobre cultura popular, equivocadamente confundida com cultura de massa, diz ele: Um povo, os grupos e indivíduos não podem ser desmassificados senão na medida em que se tornem sujeitos de sua própria cultura. Em contexto brasileiro, este nos parece ser um dos aspectos mais positivos da mensagem de Paulo Freire. (REZENDE, 1990, p. 69) Freire é citado em muitas outras passagens no livro do professor Rezende. Ainda sobre educação, entendida como atividade ou práxis educativa, nos fala: [...] pode ser descrita como comportando um esforço característico, dos educandos e educadores, em vista da compreensão do sentido do relacionamento dialético entre a estrutura do sujeito e a do mundo, como constitutivo da experiência da estrutura simbólica. Somente esta compreensão permitirá o acesso dos sujeitos da educação à condição de sujeitos da cultura pela apropriação do sentido da existência. (REZENDE, 1990, p. 70) Rezende nos fala sobre o discurso pedagógico referindo-se “aos textos utilizados em nossas escolas, à mensagem transmitida por nossos professores e ao contexto institucional em que é comunicada”. (REZENDE, 1990, p. 87) 69 Em seguida faz uma “análise pedagógica do discurso pedagógico”, entre outros aspectos, o Prof. Rezende destaca até que ponto o discurso pedagógico contribui para uma aprendizagem realmente humana e humanizante. Sobre a cultura a ser aprendida, ele nos fala que os textos “poderão fazer-nos ver, mais ou menos, a estrutura do mundo e sua complexidade”. Diz que existem textos alienados e alienantes. Fala também que os discursos pedagógicos “dizem respeito ao próprio discurso cultural vivido”. Rezende discorre sobre como o “texto poderá traduzir as características de uma cultura de classe, bem como as relações que, dentro dela, se estabelecem entre os homens: cultura dominante, cultura dominada; popular ou de elite etc.” (REZENDE, 1990, p. 8990) Rezende expõe a dimensão política sempre presente: Isto mesmo significa que a visão de mundo manifestada pelo discurso pedagógico nunca é neutra. Trata-se, portanto, de verificarmos se o texto apresenta alguma consciência de sua própria dimensão ideológica e se traz alguma contribuição para a crítica das diversas ideologias. (REZENDE, 1990, p. 90) Retomando a questão da massificação e alienação cultural, Rezende diz que este problema surge especialmente com a indústria cultural, “tendo como uma de suas características a massificação do próprio autor, que não cria mas executa um discurso encomendado”. (REZENDE, 1990, p. 90) Farei outro aparte, lembro-me de depoimentos de músicos cujos discos eram – e ainda são – produzidos de acordo com os interesses das grandes gravadoras e não a partir de seus próprios interesses ou desejos. “E a questão se coloca de saber se, e em que medida, o discurso pedagógico se desenvolve como autêntica ação cultural” (REZENDE, 1990, p.90) – ação cultural entendida como aprendizagem da cultura e “passagem da consciência ingênua a uma consciência crítica, e desta à consciência prática”. (REZENDE, 1990, p. 76) Pois não basta ter consciência crítica, é preciso agir, transformar, tornar-se sujeito ativo. Social, histórico e culturalmente falante. É importante notar que, para Rezende, o discurso pedagógico “poderá contribuir mais ou menos para a história da cultura e o seu desenvolvimento cultural”. (REZENDE, 1990, p. 90) 70 Fala ainda sobre os valores, “o discurso pedagógico poderá traduzir uma determinada hierarquia de valores, sem questioná-la, como poderá também pôla em questão abrindo perspectivas para outros valores, numa nova forma de existência”. (REZENDE, 1990, p. 91) O Prof. Rezende nos faz um questionamento: “qual é então o projeto cultural contido no discurso pedagógico?” Diz que sempre há um projeto, implícito ou explicito. Fala-nos que na instituição escolar um texto nunca é utilizado de maneira isolada e questiona: “qual o discurso pedagógico que emerge do conjunto dos textos preferidos, em função de um currículo e de sua integração, tanto horizontal como vertical”? E conclui: “isto sem mencionar a orientação adotada para a própria instalação de uma biblioteca. Que livros e autores são preferidos?” (REZENDE, 1990, p. 92-93) E pensar que em muitas escolas em que lecionei – e leciono – nem biblioteca temos, os alunos poucos contatos têm com os livros... A cultura lhes chega pelos livros didáticos, pela televisão, pela internet, pela família, pela igreja, pela comunidade, pelos professores... Que leitura de mundo estarão fazendo? Que cultura estão recebendo, criando, transformando ou simplesmente reproduzindo? Encerrarei este item com algumas belas palavras de Rezende: [...] a fenomenologia da educação prefere sempre falar de educação e mundo, educação e cultura, e não apenas de educação e sociedade, educação e política, educação e economia, reconhecendo o caráter universalmente englobante do mundo e da cultura, em cujo âmbito se situam as outras experiências. Para a fenomenologia, o problema educacional tem as dimensões do mundo. (REZENDE, 1990, p. 59) 2.6 – Sobre Hermes e hermenêutica Não pretendo aqui definir o que é hermenêutica, busco apenas uma compreensão básica do termo, vale salientar a riqueza desta ciência para o trabalho com textos, inclusive de peças teatrais e para com a educação em geral. 71 Meu primeiro contato foi através do professor hermeneuta Augusto Novaski. Depois ao pesquisar Platão conheci a obra Hermenêutica e Dialética, dos estudos platônicos ao encontro com Hegel, do professor Custódio Almeida, obra resultante de seu doutoramento em filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Através da obra de Almeida tive contato com o filósofo hermeneuta contemporâneo, Gadamer. Buscando maior clareza sobre a história da hermenêutica encontrei o artigo A existência na história: revelações e riscos da hermenêutica, de Verena Alberti, formada em história, mestre em antropologia social e doutora em teoria da literatura. Segundo Alberti, o conceito de hermenêutica sofreu muitas modificações ao longo da história. Comecemos pela origem do termo, o que de princípio já gera algumas controvérsias. “Etimologicamente, como nos informa Palmer (1969), hermenêutica remonta ao verbo grego hermeneuein, geralmente traduzido por "interpretar", e ao substantivo hermeneia, "interpretação" ” (Alberti, 1996). Sabe-se que o termo era usado por Platão e por Aristóteles e têm-se dúvidas se o nome do deus grego Hermes deu origem a palavra “hermenêutica”. Hermes, mensageiro e arauto dos deuses, era associado à função de “transmutar aquilo que estivesse além do entendimento humano em uma forma que a inteligência humana pudesse compreender.” (Alberti, 1996). Para os gregos, Hermes foi inventor da linguagem regular e da escrita, responsável por trazer à compreensão o que não fosse compreensível. Deus dos caminhos, do comércio, dos oradores, dos pastores e dos ladrões. Guiava as almas pelo caminho para o mundo subterrâneo e conduzia os homens para o sono e para o sonho. (Alberti, 1996) De acordo com Alberti, a hermenêutica não teve destaque permanente no decorrer da história da civilização ocidental, foi objeto de maior interesse nos momentos de crise, quando havia uma maior necessidade de interpretações de textos como, por exemplo, durante a Idade Média nos estudos de textos bíblicos e no Renascimento com os estudos de textos da filosofia grega clássica. 72 Alberti, em seu artigo já citado, passa a expor quais foram - para a hermenêutica - as contribuições de grandes pensadores, entre eles: Friedrich Schleiermacher (1768-1834), Wilhelm Dilthey (1833-1911), Martin Heidegger (1889-1976) e Hans-Georg Gadamer (1900-2002). A autora mostra as relações da hermenêutica com os seguintes tópicos: compreensão, história, ciências sociais e filosofia da linguagem. Não me estenderei em discorrer sobre estes tópicos, nem farei um resumo da história da hermenêutica, pois além de não ser o foco deste trabalho daria um grande número de páginas, mas vale ressaltar que se trata de um tema bastante interessante para aqueles que desejam uma melhor compreensão e interpretação da história, dos textos, da existência. Devo dizer que a obra do professor Custódio foi um feliz achado, tratando de temas relacionados à minha pesquisa, incluindo mythos, logos, filosofia, educação, jogo, diálogo, linguagem, arte e, evidentemente, hermenêutica. Cito Custódio para falar como a hermenêutica pode contribuir para a religação dos saberes humanos, segundo Gadamer: “a hermenêutica é, ao mesmo tempo, arte e ciência conciliadas”. (ALMEIDA, 2002, p. 376) Em minhas buscas procurei ler um autor muito referendado pelo professor Severino e bastante citado na obra do professor Rezende, Paul Ricoeur. Ricoeur (1913 – 2005) foi um grande filósofo e pensador francês. Sua obra inclui temas como filosofia política, linguística, psicanálise, estruturalismo e hermenêutica, com um interesse particular pelos textos sagrados do cristianismo. Queria ler um fenomenólogo – Ricoeur – fazendo fenomenologia. Ao lêlo descobri algumas divergências entre ele e Gadamer. Na realidade, nestas leituras iniciáticas, encontrei muitas divergências entre os vários hermeneutas aqui citados, ao mesmo tempo percebi a contribuição de cada um em busca de uma superação constante, de um aperfeiçoamento hermenêutico, cuja riqueza está no diálogo – repleto de questionamentos - entre os autores contemporâneos e entre eles e seus predecessores, um movimento de voltar às origens para seguir adiante. Cito abaixo um fragmento de Ricoeur onde diz que uma das preocupações da hermenêutica seria ampliar progressivamente sua visada, “de 73 tal modo que todas as hermenêuticas regionais fossem incluídas numa hermenêutica geral”. Aliás, “não somente geral, mas fundamental”, diz ele que esse movimento: [...] não pode ser levado a bom termo sem que, ao mesmo tempo, as preocupações propriamente epistemológicas da hermenêutica, ou seja, seu esforço para constituir-se em saber de reputação científica, estejam subordinadas a preocupações ontológicas segundo as quais compreender deixa de aparecer como um simples modo de conhecer para tornar-se uma maneira de ser e de relacionar-se com os seres e com o ser. (RICOUER,1988, p.18) Entre tantas concepções podemos dizer que a hermenêutica pósRicouer, pós-Gadamer, trata de uma forma de ser, de conhecer e interpretar o mundo, respeitando a historicidade e a existência de cada Ser, inclusive do próprio intérprete. E, como disse Alberti, se em momentos de crise a hermenêutica teve maior destaque na história ocidental, eis um oportuno momento de nos interessarmos por ela, por nós mesmos, pela busca de compreensão e de sentido(s). Falemos brevemente sobre a interpretação. Escreverei algumas linhas, a partir do artigo: “Poética e Poiesis: a questão da interpretação”, da autoria do Prof. Manuel Antônio de Castro. De acordo com Castro a palavra interpretação vem do latim interpretatio e tem origem na feira, na discussão do preço, o pretium. Devido as diferentes posições dos interlocutores ao negociarem o preço temos o inter-pretium. O prefixo inter remete-nos ao diálogo, a negociação e a mutabilidade do preço leva-nos a pensar em mudanças de valoração, ou seja, a questão dos valores em jogo. Jogo sim, porque a negociação é um jogo com regras e estratégias onde leva a melhor quem usar os melhores argumentos para convencer o interlocutor com quem negocia. E o mais interessante, interpretatio é a tradução da palavra grega hermeneia, formada do verbo hermeneuein, interpretar. (CASTRO, 1998, p.3) Já vimos que Hermes era o deus do comércio, e todo comércio envolve negociação. Voltemos à Grécia antiga. Falemos sobre Aristóteles e sua Poética. O que isto tem a ver com interpretação? Farei uma longa, mas elucidativa e densa citação. Segundo Castro: 74 Há uma simbiose fundamental entre Poética, poiesis, interpretação e mito. O que é o mito, originariamente, para que torne possível esta simbiose? Mythos se formou do verbo mytheomai, que significa: desocultar pela palavra. [...] O mito aparece como o próprio real se doando como Linguagem na palavra. O real se manifestando como Linguagem é a poiesis, é o "sentido do ser". Por outro lado, "o sentido da palavra divina que se apresenta em forma de palavra humana" não pode originariamente ser externo ao próprio mito, nem à poiesis, nem à Poética, nem à interpretação. A própria Poética precisa eclodir pela força do mito, que se presentifica na palavra mítica, e que atenda tanto à dimensão da Linguagem divina como à dimensão da palavra humana. Di-mensão significa o mediar através do qual se fazem presentes o dual do sagrado: o divino e o humano. Tal dimensão idêntica e diversa nos advém no mito de Hermes. É uma figura na qual se fazem presentes o divino e o humano, o mito como palavra, o ethos como verdade e não-verdade. [...] Hermes não é um mito que explica a mediação, é a própria palavra fundadora de poema e interpretação. A manifestação originária da poiesis se dá como mito, pois mito é em si a palavra divina. Esta palavra divina é a voz das musas, filhas de Zeus e Mnemosine. Essa voz nos chega no canto do poeta. [...] Na palavra do poeta, falam as musas como fala (mythos) de revelação (mimesis) do ser (physis). Podemos concluir que a Poética, originariamente, se constitui em torno da physis, das Musas, do Mito e da mimesis. Quando o poeta, atento e aberto à voz das Musas, canta o canto da poiesis, nesse canto advém "a visão do que foi, do que é e do que será", pois as Musas são filhas de Mnemosine, a Memória. Não é qualquer memória, não é a memória do escrito. É a Memória do Ser que se doa como tempo. O poeta só é poeta porque seu poema é a interpretação da fala das Musas. Nele se manifesta a visão do que foi, do que é e do que será. Essa manifestação é possível, porque nela se presentifica Hermes. Por isso, todo poeta é hermeneuta, não a partir dele, mas da palavra mítica que nele ocorre. (Castro, 1998, p. 3-4) Vimos que interpretação, poesia e mito têm uma história em comum, se procurarmos a etimologia de outras palavras descobriremos relações e significados que se perderam com o tempo. Talvez o cientificismo tenha colaborado para esta perda de significados, de relações, de sentidos entre tudo que compõe a vida e o mundo. Quando classificamos e compartimentamos tudo que pensamos saber, muitas vezes deixamos de estabelecer relações, pelo contrário, cortamos os fios que sustentavam e integravam coisas concretas com idéias e representações milenares, perdendo a possibilidade de 75 conhecer nossa própria origem, nossa história e, ao perdermos nossas raízes, deixamos de nos nutrir, perdemos nosso chão, perdemos o sentido da vida. A questão da interpretação passa também pela questão da verdade, da ética, do método. Para Platão, a interpretação passa a ser verdadeira enquanto caminha em direção à idéia (o real único, o mundo das idéias), caminhar em direção a se diz em grego metá hodós (CASTRO, 1998, p. 5). Ou seja, o método é o caminho para se fazer algo, até mesmo para se procurar a verdade. E o que é verdade? Como escolher entre os diferentes métodos de pesquisa e de educação? Diferentes caminhos levam a diferentes lugares. Diferentes métodos levam a diferentes resultados, diferentes interpretações, diferentes “verdades”. É necessário buscar um conhecimento comprometido com a ética, a história, a estrutura dos fenômenos, a complexidade de relações do mundo e da vida. Finalizo este item sobre interpretação com algumas palavras da tese de doutorado de Augusto Novaski intitulada “Fenomenologia da Ação – Proposta de uma Filosofia da Educação a partir da Fenomenologia de Paul Ricoeur”, trabalho em que Augusto aborda questões sobre a hermenêutica e a interpretação, segundo Augusto: qual o resíduo da hermenêutica? Colocando isso em seus devidos termos, quero com ela buscar o que fica, qual o resultado, depois do trabalho da interpretação. (...) Para mim o que fica, depois da interpretação, é essa abertura, à maneira de esforço, de disponibilidade e de compromisso. Esforço por descobrir novos sentidos para o viver, disponibilidade criteriosa para ouvi-los, de onde quer que venham, e compromisso em assumi-los. (NOVASKI, 1984, p. 31) Que saibamos ouvir e assumir os novos sentidos para o viver – venham de onde vier. Que busquemos estes sentidos, para que, com esforço e disponibilidade, possamos salvar nosso planeta e a nós mesmos das tantas e atuais ameaças de destruição. Talvez Freire possa nos ajudar nestas buscas. 76 2.7 - Freire: por uma pedagogia da autonomia Paulo Freire marcou profundamente minha formação. Lido nos tempos de graduação e no início de minha prática como docente, relido durante o mestrado, fez-me perceber o quanto minhas falas e ações são freireanas, ou pretendem ser. Destacarei a seguir algumas idéias de Freire sobre educação com as quais me identifico. Interessante notar como as idéias neste momento apresentadas vão ao encontro de idéias expostas por outros autores citados nesta dissertação. Uma idéia recorrente: a importância de uma leitura atenta, curiosa, metódica e crítica. A leitura própria de cada sujeito, de cada ser histórico, observando outras leituras, outros sujeitos, outros tempos e possibilidades históricas. Segundo Freire: A leitura verdadeira me compromete de imediato com o texto que a mim se dá e a que me dou e de cuja compreensão fundamental me vou tornando também sujeito. (FREIRE,1996, p.27). Paulo fala sobre o “pensar certo” e o “ensinar certo”. Nos alerta que “[...] uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiadamente certos de nossas certezas.” E que: O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo. Mas, histórico como nós, o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser produzido, o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e se fez velho e se “dispõe” a ser ultrapassado por outro amanhã. (FREIRE,1996, p.27-28). Freire destaca que “ensinar exige respeito aos saberes dos educandos”, vimos que Rezende também defende a valorização da cultura própria de cada sujeito, como, por exemplo, a cultura popular: [...] pensar certo coloca ao professor ou, mais amplamente, à escola, o dever de não só respeitar os saberes com que os 77 educandos, sobretudo os das classes populares, chegam a ela (FREIRE,1996, p.30). Observamos a importância da cultura, do belo e dos valores para uma educação significativa e criadora de sentidos. Valores críticos, éticos e estéticos. Assim sendo, ensinar exige ética e estética: A necessária promoção da ingenuidade à criticidade não pode ou não deve ser feita a distância de uma rigorosa formação ética ao lado sempre da estética. Decência e boniteza de mãos dadas. (FREIRE,1996, p.32). Freire noz fala sobre o caráter formador da educação, que não pode ser vista como puro treinamento técnico, diz que o ensino dos conteúdos “não pode dar-se alheio à formação moral do educando”. Diz ainda que como “seres histórico-sociais, nos tornamos capazes de comparar, de valorar, de intervir, de escolher, de decidir, de romper, por tudo isso nos fizemos seres éticos.” Neste sentido, pensar certo: [...] demanda profundidade e não superficialidade na compreensão e na interpretação dos fatos. Supõe a disponibilidade à revisão dos achados, reconhece não apenas a possibilidade de mudar de opção, de apreciação, mas o direito de fazê-lo. [...] não há como pensar certo à margem de princípios éticos. (FREIRE,1996, p.33-34). Destacando que não basta pensar certo, as palavras devem ser corporeificadas pelo exemplo: “quem pensa certo está cansado de saber que as palavras a que falta a corporeidade do exemplo pouco ou quase nada valem. Pensar certo é fazer certo.” (FREIRE,1996, p.34). Temos falado neste trabalho - e também agora Freire nos fala - sobre seres históricos, culturais - e afetivos - que somos. Freire diz que “ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural”: Assumir-se como ser social e histórico como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar. (FREIRE,1996, p.41). 78 Identifico-me com a idéia de um conhecimento construído pelos educandos, neste sentido nos fala Freire que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE,1996, p.47). Outra idéia recorrente, a idéia de sermos inacabados: “Onde há vida, há inacabamento.” (FREIRE,1996, p.50). E da consciência do inacabamento surge à necessidade da ética e da educação: “não foi a educação que fez homens e mulheres educáveis, mas a consciência de sua inconclusão é que gerou a educabilidade.” (FREIRE,1996, p.58). Passarei a falar sobre respeito, disciplina, limites e bom senso. Como veremos a autoridade do educador é necessária e não se confunde com o autoritarismo. O educador é respeitado, principalmente quando respeita os educandos, quando tem segurança e domínio da atividade educativa; nestes anos todos é notável observar como os alunos avaliam os professores bem preparados, os profissionais comprometidos com a educação e os que não levam este ofício tão a sério. Embora não converse com educandos sobre outros professores é comum ouvirmos e vermos as reações dos estudantes nos intervalos e nos corredores. Muito do que neste parágrafo foi dito será exposto a seguir. “Ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando”, respeito à linguagem e à cultura de cada ser, nos fala Freire. Ele também nos diz que o educador não deve ser autoritário, nem licencioso ou estaria transgredindo a ética. Freire adverte que “o respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros.” (FREIRE,1996, p.59). Freire nos diz que “ensinar exige bom senso”: A vigilância de meu bom senso tem uma importância enorme na avaliação que, a todo instante, devo fazer da minha prática. [...] É o meu bom senso que me adverte de que exercer a minha autoridade de professor na classe, tomando decisões, orientando atividades, [...] não é sinal de autoritarismo de minha parte. É a minha autoridade cumprindo o seu dever. [...] É que o trabalho do professor é o trabalho do professor com os alunos e não do professor consigo mesmo. (FREIRE,1996, p.61 e p.64). 79 A citação acima me faz refletir sobre o cuidado que devo ter com meu ego. Como professores muitas vezes estamos diante de um público e falamos e aparecemos mais que o necessário. Temos alguns poderes em sala de aula e o que fazemos com eles? Muitas vezes vejo colegas - e eu mesmo impacientes com os educandos, cometendo pequenos abusos, levantando a voz, fazendo ameaças, algumas nada educativas e desnecessárias. Somos humanos, sim. Os educandos abusam, sim. O que fazer? Tenho procurado ser paciente, compreensivo; tenho buscado tornar minhas aulas mais significativas para os estudantes e tenho tentado colocar limites sempre que preciso e, caso erre, não vejo vergonha nenhuma em pedir desculpas aos educandos e procurar melhorar. Dialogar. Respeitar. Dar o exemplo. Assim posso exigir respeito dos educandos, da direção, da comunidade e dos governantes. Freire diz que “ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores”, diz que “o combate em favor da dignidade da prática docente é tão parte dela mesma quanto dela faz parte o respeito que o professor deve ter à identidade do educando, à sua pessoa, a seu direito de ser.” Alerta que, apesar dos desrespeitos e desprezos por parte dos governantes não podemos desamar ou exercer mal a prática pedagógica nem desamar os educandos, devemos sim lutar por condições mais dignas. (FREIRE,1996, p.66-67). Freire destaca que o professor deve se “mover com clareza” na sua prática, estar seguro de seu desempenho, porque “ensinar exige segurança, competência profissional e generosidade”. E a segurança “se funda na sua competência profissional”, construída através de estudos, formação e esforços próprios. Importante observar que “a incompetência profissional desqualifica a autoridade do professor.” (FREIRE,1996, p.91 e 92). Falando sobre alunos indisciplinados, particularmente não gosto de estudantes muito quietos ou apáticos; concordo com Freire: A autoridade coerentemente democrática está convicta de que a disciplina verdadeira não existe na estagnação, no silêncio dos silenciados, mas no alvoroço do inquietos, na dúvida que instiga, na esperança que desperta. (FREIRE,1996, p.93). 80 Freire noz diz que “ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo” e exige uma “tomada consciente de decisões”: É na diretividade da educação, esta vocação que ela tem, como ação especificamente humana, de “endereçar-se” até sonhos, ideais, utopias e objetivos, que se acha o que venho chamando de politicidade da educação. A qualidade de ser política, inerente à sua natureza. É impossível, na verdade, a neutralidade da educação. [...] Para que a educação fosse neutra era preciso que não houvesse discordância nenhuma entre as pessoas com relação aos modos de vida individual e social, com relação ao estilo político a ser posto em prática, aos valores a serem encarnados.(FREIRE,1996, p.110 e 111). Freire nos fala que “ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica” e nos alerta dizendo que o “discurso ideológico nos ameaça de anestesiar a mente, [...] de distorcer a percepção dos fatos”, diz que não podemos escutar “sem um mínimo de reação crítica”, discursos como este: [...]Maria é negra, mas é bondosa e competente”. (FREIRE, 1996, p. 132-133) Vale lembrarmos do “discurso pedagógico” citado por Rezende no item sobre fenomenologia que poderá “traduzir uma determinada hierarquia de valores, sem questioná-la, como poderá também pô-la em questão abrindo perspectivas para outros valores, numa nova forma de existência”. (REZENDE, 1990, p. 91) Um aspecto que acho fundamental em Freire e que foi um dos maiores objetivos deste projeto de mestrado: saber escutar. O que necessariamente implica em duas idéias freireanas: “ensinar exige disponibilidade para o diálogo” e “ensinar exige querer bem aos educandos”: A minha abertura ao querer bem significa a minha disponibilidade à alegria de viver. Justa alegria de viver, que, assumida plenamente, não permite que me transforme num ser “adocicado” nem tampouco num ser arestoso e amargo. (FREIRE, 1996, p. 141) Ser humano, com alegrias, tristezas, contradições, utopias. Com abertura ao diálogo. Com ética. Sabendo-se inacabado: “estar sendo é a condição, entre nós, para ser”. (FREIRE, 1996, p.33) 81 Ser e saber. Para tanto se faz necessária a linguagem - língua própria. Falemos sobre elas. 2.8 – Linguagem, poesia e poética Farei breves reflexões a respeito deste tema tão vasto e apaixonante - a linguagem - selecionando idéias que tenham convergência com este trabalho. Vários autores destacam a importância da “palavra própria”. Gusdorf salienta que “devemos considerar a palavra não como um sistema objectivo, na terceira pessoa, mas como um empreendimento individual: tomar a palavra é uma das tarefas capitais do homem.” Gusdorf diz que “a linguagem não existe antes da iniciativa pessoal que a põe em movimento.” Diz também que a linguagem da pessoa não está submetida ao dicionário, “mas é antes o dicionário que se propõe o trabalho de seguir com exactidão a palavra em acção e de catalogar os seus significados.” (GUSDORF, 1970, p. 33). Gusdorf nos fala que “uma língua viva surge assim como língua de homens vivos.” (GUSDORF, 1970, p. 33). Bordelois valoriza esta característica da linguagem que se faz e refaz no uso cotidiano, na língua do povo, e não por causa de ilustres escritores ou oradores: Por isso podemos dizer que a linguagem é a única instituição democrática que ainda funciona de forma eficaz. Não ostenta líderes sedutores nem propagandas invasivas, nem controles totalitários como as supostas democracias atuais: está nascendo todos os dias do senso comum e de sua própria e coletiva liberdade. (BORDELOIS, 2005, p. 79) Morin também destaca a liberdade de uma língua viva, descrevendo suas pulsações, modificações e evoluções: Uma língua vive de maneira surpreendente. As palavras nascem, deslocam-se, tornam-se nobres, decaem, são pervertidas, perecem, perduram. As línguas evoluem modificando não apenas o vocabulário, mas também as suas formas gramaticais ou sintáticas. A língua vive como uma grande árvore cujas raízes atingem o mais fundo da vida 82 social e cerebral, cuja copa resplandece no céu das idéias ou dos mitos, cujas folhas farfalham em miríades de conversas. A vida da linguagem é muito intensa nas gírias e poesias, nas quais as palavras acasalam-se, gozam, enchem-se de conotações que invocam e evocam, com a explosão de metáforas, o desabrochar de analogias, frases sacudindo as cadeias gramaticais, alçando a liberdade.(MORIN, 2007, p. 37) Alguns autores, como Morin, apontam a importância da linguagem para a criação da cultura, para o pensamento, para o conhecimento. Octavio Paz considera que: Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade. Não há pensamento sem linguagem, nem tampouco objeto de conhecimento: a primeira coisa que o homem faz diante de uma realidade desconhecida é nomeá-la, batizá-la. Aquilo que ignoramos é o inominado. Toda aprendizagem principia com o ensinamento dos verdadeiros nomes das coisas e termina com a revelação da palavra-chave que nos abrirá as portas do saber. Ou com a confissão de ignorância: o silêncio. E, ainda assim, o silêncio diz alguma coisa, pois está prenhe de signos. (PAZ, 1982, p. 37) Falarei sobre o silêncio mais adiante. Antes, porém, proponho uma reflexão sobre o pensar, o conhecer e, principalmente, o escutar; segundo Bordelois: E se pensarmos na linguagem como um órgão de conhecimento anterior ao pensamento, a pergunta natural não seria “quantas línguas você fala?”, mas “quantas línguas você escuta?”. Estamos falando aqui de um dom mais íntimo, tão desconhecido quanto necessário nos dias de hoje: o dom de escutar línguas e, particularmente, o dom de darmos lugar à escuta de nossa própria língua, que tão desatentamente falamos e à qual tão pouco lugar e tempo de reflexão concedemos. (BORDELOIS, 2005, p. 12) Como educador devo provocar nos alunos o uso da voz própria e também o escutar a própria língua, como também as línguas estrangeiras. De acordo com Bordelois: As línguas não são só construções verbais específicas, mas também carregam com elas a experiência de cada nação, experiência única para a qual existem, certamente, leis de 83 tradução e validação em outras línguas, sem que isso implique eliminar, porém, um resíduo intransferível que constitui o precioso, o único e necessário de cada linguagem, o que cada um aporta insubstituivelmente à mente universal. [...] Como já dissemos, não se trata apenas de falar uma ou mais línguas, mas de saber escutá-las, começando pela própria, que temos aprendido a desatender como conseqüência de seu desgaste pelo uso e abuso. (BORDELOIS, 2005, p. 57-58) Bordelois nos diz que uma primeira forma de violência que a língua sofre “é o preconceito que a define exclusivamente como um meio de comunicação.” Ao pensarmos assim estamos esquecendo “que a linguagem – particularmente a linguagem poética – não é somente o meio, mas também o fim da comunicação.” Esquecemos que “a linguagem é antes de tudo um prazer, um prazer sagrado; uma forma talvez a mais elevada, de amor e conhecimento.” (BORDELOIS, 2005, p. 10) Resgatar o prazer da linguagem, resgatar o lúdico e o poético. Vários pensadores, entre eles Huizinga e Bordelois, valorizam a relação que as crianças e os poetas têm com as palavras, com o jogo de palavras. Antes de falar sobre poesia, falarei sobre etimologia e também sobre cultura de massas. Bordelois nos mostra como o fato de conhecer a origem e o significado das palavras faz com que tenhamos outra relação com a língua e com a realidade: Ao perceber que paixão e paciência têm a mesma raiz, por exemplo, da mesma forma que amar e amamentar possuem um parentesco comum, algo em nós descobre essa fonte, que é a sabedoria inerente da linguagem, e tende a escutá-la. (BORDELOIS, 2005, p. 11) A sabedoria da língua, a fonte da linguagem. Fonte propositalmente esquecida e ignorada pela massificação de tolices. Bordelois alerta que a cultura massificante de nosso tempo “desconfia da linguagem porque, como já dissemos, a consciência crítica da língua é o começo de toda crítica.” (BORDELOIS, 2005, p. 31) Por isto a cultura dominante não favorece o desenvolvimento da consciência lingüística e não nos propicia o silêncio, vital e necessário: 84 E justamente porque se opõe à linguagem, a cultura contemporânea destrói o silêncio, que é a condição primeira e fundamental da palavra genuína, a que vem do necessário e do íntimo e que não é simples mola de resposta mecânica. (BORDELOIS, 2005, p. 32) Lembro-me das famílias mudas diante das TVs, das gritarias nas escolas, dos alunos com fones de ouvido quase que o tempo todo, ouvindo músicas em altos decibéis, dos carros com escapamentos super barulhentos, das buzinas, dos carros de som. E Bordelois complementa: A balbúrdia de nossas cidades, os decibéis de uma música descartável que continuamente atordoa e ensurdece, desafiando e impedindo toda forma de comunicação, são modos patentes de uma violência cada vez mais invasiva que só se sacia com a obstrução da consciência, em particular da consciência que se alimenta dos poderes do diálogo sossegadamente nascido no silencio. E isto não deve nos surpreender: a destruição da intimidade e da vida interior, sobretudo a do adolescente, é uma condição sine qua non para seu adestramento posterior como marionete do mercado e cliente fiel da farândola. (BORDELOIS, 2005, p. 32) Vivemos uma época de palavras esvaziadas de sentido. Violências multiplicam-se. O que podemos fazer? Já foram citados autores e mais autores, desde o Ato I, que defenderam a importância da linguagem para a humanidade. Muitos também observaram que, no decorrer da história, crises sociais coincidiram com crises de linguagem. Também consideraram que novos sistemas políticos e econômicos buscaram novas palavras, linguagens renovadas. Vivemos atualmente um tempo de muitas crises. E, como em outros momentos históricos, a crise da linguagem é também oportunidade de transformações necessárias e possíveis. Para além das crises destaco que muitos dos autores citados observam que a palavra – a linguagem – atinge seu momento mais sublime quando se faz poema. Basta de palavras banalizadas, desgastadas, deturpadas. Falemos de poesia! E posteriormente, no final deste Segundo Ato, falemos de uma “nova escuta poética”, de uma “educação poética”. 85 A poesia – toda – é uma viagem ao desconhecido. (verso do poema Conversa sobre poesia com o fiscal de rendas, MAIAKOVSKI, 1982, p. 117) A poesia é a mais intensa experiência de significação, a mais expressiva concentração de significado, condensação de linguagem significativa. Um modo de refletir, de conhecer, de expressar. [...] A língua recomeçada. A fala recomeçada. O sonho dos signos: tornar-se coisa. Mais que coisa: corpos com vida, símbolos que pulsam. A poesia – raro instante e rara instância de síntese entre intelecto e sensibilidade. [...] A poesia – raiz da linguagem, utopia da palavra. (ANTÔNIO, 2002, p. 14) A palavra do poeta se confunde com ele próprio. Ele é a sua palavra. [...] A criação consiste em trazer à luz certas palavras inseparáveis de nosso ser. Essas e não outras. O poema é feito de palavras necessárias e insubstituíveis. [...] Cada palavra do poema é única. Não há sinônimos. [...] O poema é uma totalidade viva, feita de elementos insubstituíveis. [...] O poeta não é um homem rico em palavras mortas, mas em vozes vivas. (PAZ, 1982, p. 55) Três pensamentos abrem as reflexões sobre poesia e poema. Falam sobre a capacidade do poema em integrar razão e emoção, matéria e abstração, signo e vida. Falam sobre o mistério que cerca os poemas, neles os poetas podem unir idéias contrárias, contrariando a lógica racional. Nos poemas as palavras concentram sentidos, ganham novos significados ou recuperam significados esquecidos. Transmutam. Ganham vida. Polissêmicas. Nos poemas nos falam vozes. Plurivocidade. “As muitas vozes em uma voz.” (ANTÔNIO, 2002, p. 14) Paz nos fala que “a poesia não é um reflexo mecânico da história.” Diz que “a poesia muda; não progride nem decai. Decaem, sim, as sociedades” (PAZ, 1982, p. 53). Huizinga observa o uso dos poemas nos momentos mais sagrados e solenes das primeiras sociedades; o poema ligado aos rituais; os poemas mitológicos e épicos. Segundo Huizinga “a verdadeira designação do 86 poeta arcaico é Vates, o possesso, inspirado por Deus, em transe. Estas qualificações implicam ao mesmo tempo que ele possui um conhecimento extraordinário. Ele é um sábio.” (HUIZINGA,2005, p. 135) No decorrer da história humana o poema caminhou junto ou independente da mitologia e da religião; sociedades decaíram, porém os poemas estiveram e estão presentes em todas as épocas e sociedades. São reconhecidos como tais. Que qualidades o poema possui que, muito mais do que diferenciá-lo da prosa, causam tanto impacto e fascínio nos humanos? Afinal, de que é feito o poema? Severino nos ajuda a desvendar este mistério: O poema: um mundo feito de palavras. Não apenas para informar sobre a realidade, não apenas para comunicar sobre algo exterior, mas as palavras arquitetadas de um outro modo, confabuladas pelo som, pelo ritmo, pela estrutura, pela imagem, pelos significados. As palavras redescobertas. Recomeçadas. As outras faces, secretas. (ANTÔNIO, 2002, p. 41) Voltemos à origem das palavras - poesia, poema e poeta – todas têm uma mesma raiz etimológica, o termo grego: poiesis. Segundo Platão: “Sabes que o conceito de criação (poiesis) é muito amplo, já que seguramente tudo aquilo que é causa de que algo (seja o que for) passe do não ser ao ser é criação, de sorte que todas as atividades que entram na esfera de todas as artes são criações; e os artesãos destas são criadores ou poetas (poietés)” (Banquete, 205 B8) (apud BOSI,2004, p. 14) “O conceito de arte como produção de um ser novo, que se acrescenta aos fenômenos da natureza” foi introduzido por Platão. (BOSI, 2004, p. 14). Arte como construção humana, elaboração, criação, poiesis. Da mesma raiz surge a Poética. Vejamos do que se trata, a partir de um exemplo clássico, a Poética de Aristóteles. “Tratemos da natureza e das espécies da poesia”, assim o filósofo grego inicia sua Poética, passa então a definir as características de cada uma, define seus elementos constitutivos e o que as diferem umas das outras. Vê a poesia como arte imitativa e difere os gêneros pela maneira como representam a imitação. (ARISTÓTELES, 1999, p. 37 a 40) Passa a definir o que é o drama, a tragédia, a comédia, suas partes constitutivas e os efeitos que cada uma delas 87 causa no público. Aristóteles descreve como o poeta deve criar e ordenar cada elemento que constitui a obra, dando exemplos de como se fazer ou de como não se fazer, de acordo os conceitos apresentados e citando obras que para ele foram bem ou mal sucedidas; além de classificar qual gênero é superior em relação ao outro. (ARISTÓTELES, 1999, p. 41 a 75) Observa-se que, em sua Poética, Aristóteles se propôs a pensar sobre as artes poéticas de seu tempo, definindo-as, caracterizando-as, classificandoas, descrevendo cada uma de suas partes e apresentando um conjunto de procedimentos que orientariam a criação artística. A este conjunto de idéias, a este pensar filosófico sobre a criação artística, podemos chamar Poética. Segundo Castro: Realizar diz-se em grego: poiein. De poiein se originaram as palavras poeta, poema e poiesis. Posteriormente, como reflexão em torno do que eclode em todo poiein, se fundou a Poética. É a interpretação filosófica do que é a arte, isto é, o poeta, o poema e a poiesis. [...] Ao lado da Poética filosófica, que pensa as obras poéticas por um paradigma que lhes é externo, podemos também pensar outra Poética, que se origina na dinâmica do próprio fazer poético. Há, portanto, duas Poéticas: a que nos advém na palavra do filósofo e a que nos advém na palavra do poeta, ou seja, nas obras como manifestação da poiesis. (CASTRO, 1998, p.02) Este trabalho se apresenta como uma “poética teatral com adolescentes”. Poética enquanto criação, enquanto busca de harmonia e de relações com o Belo. Estudo de formas e procedimentos teatrais, da criação do texto à montagem da peça. No Ato III falarei sobre a nossa poética - minha e de meus educandos. Podemos dizer, simplificadoramente, que a Poética é um campo da filosofia que se ocupa da criação artística, do processo criativo em Arte, e, por outro lado, existe um campo filosófico complementar à Poética que é a Estética, que analisa os efeitos causados pelas obras de Arte, os sentimentos e as sensações que elas nos despertam, nos suscitam, enfim, as relações entre a obra artística – analisando sua forma, sua harmonia – com o Belo. Voltemos à questão da poesia. Falemos sobre o estado poético e, posteriormente, sobre o estado estético. Sobre o estado poético nos fala Morin: 88 O estado poético é um estado de emoção, de afetividade, realmente um estado de espírito. Alcançamos, a partir de um certo limite de intensidade na participação, a excitação, o prazer. Esse estado pode ser alcançado na relação com o outro, na relação comunitária, na relação imaginária ou estética. (MORIN, 2007, p. 136 ) Morin diz que, para Platão, a poesia é “uma das quatro formas de loucura divina”. Diz ainda sobre o estado poético: Vive-se o estado poético como alegria, embriaguez, festa, gozo, volúpia, delícia, deslumbramento, fervor, fascínio, satisfação, encantamento, adoração, comunhão, entusiasmo, exaltação, êxtase. Volta-se ao deslumbramento infantil. O estado poético proporciona satisfações carnais e espirituais. (MORIN, 2007, p. 136) Morin expõe que há muitos caminhos para alcançar o estado poético, o caminho dos cantos, danças, festas; o caminho das bebidas fermentadas e dos alucinógenos; o caminho dos rituais; o caminho da relação estética com a natureza; o caminho dos espetáculos de massa; o caminho dos jogos; o caminho das obras de arte. (MORIN, 2007, p.136-137) Diz ainda que “a vida real da poesia é o amor. Um amor nascente inunda o mundo de poesia; um amor que dura irriga de poesia a vida cotidiana; o fim de um amor nos devolve à prosa.” (MORIN, 2007, p.137) Para Morin o amor é “unidade incandescente da sabedoria e da loucura”. Para ele “a própria ciência tem a sua poesia. Lautréamont cantou a beleza da matemática rigorosa.” Morin destaca que Hölderlin estava certo ao dizer que “o homem habita poeticamente a terra”, mas considera que cabe complementar: “O homem habita poética e prosaicamente a terra”. (MORIN, 2007, p.137) Para Morin a “prosa denota, precisa, define. Está mais ligada à nossa atividade racional – lógica – técnica.” Diz ainda que “vivemos o estado prosaico, em situação utilitária e funcional, nas atividades destinadas à sobrevivência, (...) no trabalho submetido, monótono, fragmentado,na ausência e no recalcamento da afetividade”. (MORIN, 2007, p.136) Morin faz uma crítica às ciências humanas, que salvo algumas exceções, ignora “uma dimensão antropológica capital: o ser humano não vive 89 só de pão, não vive só de mito, vive de poesia. Vive de música, de contemplações, de flores, de sorrisos.” (MORIN, 2007, p.137) Estas palavras vão de encontro à minha busca por uma educação –uma vida – significativa, prazerosa, poética. Claro que para isto precisamos de transformações sociais, políticas, econômicas, enfim, culturais. Esta mudança de cultura implica em uma valorização da arte, do lúdico, do tempo livre para contemplações. Quando se percebe isto, luta-se não somente pelos pães, mas também pela poesia. Morin expõe que a civilização ocidental contemporânea alterna trabalho com lazer. O lazer “remete a iniciativas individuais, à busca da alegria (noites com amigos, bebedeiras, arruaças, bailes), à busca de poesia vivida (férias, turismo, jogos e, sobretudo, amores)” e à busca de poesia por procuração, por meio dos filmes, por exemplo. Porém nos alerta Morin que: [...] o trabalho pode comportar poesia ou mesmo virar poesia quando se trata de uma atividade rica em iniciativa, em criatividade, em participação afetiva, como a do artesão, do artista, do advogado, do parlamentar. (MORIN, 2007, p.139) E eu completaria: como a atividade do educador. Pelo menos penso que assim deveria ser. Esta relação trabalho e prazer, ou falta de, será retomada quando expor o que os adolescentes que participaram deste projeto pensam sobre a vida adulta. Viver com prazer, viver o poético, viver o Belo. Falemos sobre os estados estéticos. Morin diz que “o estado estético é um transe de felicidade, de graça, de emoção, de gozo e de felicidade”: A estética é concebida aqui não somente como uma característica própria das obras de arte, mas a partir do sentido original do termo, aisthètikos, de aisthanesthai, “sentir”. Trata-se de uma emoção, uma sensação de beleza, de admiração, de verdade e, no paroxismo, de sublime; aparece não somente nos espetáculos ou nas artes, [...] mas também nos odores, perfumes, gostos dos alimentos ou das bebidas; origina-se no espetáculo da natureza, no encantamento diante do oceano, da montanha, do nascer do sol. (MORIN, 2007, p. 132) 90 Observe-se a relação desta citação com a tese da educação dos sentidos, com a concepção fenomenológica da educação, enfim, com uma educação poética. Aliás aqui a palavra poética ganha outro sentido, transformase em adjetivo e atribui à educação as qualidades da poesia. Encerro aqui este item sobre linguagem, poesia e poética observando que no final deste Segundo Ato farei algumas reflexões sobre a necessidade dos poemas e da poesia na educação. 2.9 – Jogo: lúdico, educativo e estético Neste momento considerarei a importância do lúdico e do jogo na vida humana. Começarei pela clássica obra Homo Ludens de Johan Huizinga, passarei para a questão do jogo na educação segundo Kishimoto, a seguir abordarei o jogo estético de acordo com Alfredo Bosi. No Ato III falarei especificamente sobre os jogos teatrais segundo Richard Courtney e Viola Spolin. Huizinga faz um retrospecto sobre a presença do jogo na história da humanidade. Expõe como o jogo “é fato mais antigo que a cultura, pois esta [...] pressupõe sempre a sociedade humana; mas os animais não esperaram que os homens os iniciassem na atividade lúdica”. Diz ele que “os animais brincam tal como os homens” e que nestas brincadeiras “encontram-se presentes todos os elementos essenciais do jogo humano” (HUIZINGA, 2005, p. 03). Destaca que “mesmo em suas formas mais simples, ao nível animal, o jogo é mais do que fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico. Ultrapassa os limites da atividade puramente física ou biológica.” Diz ele: É uma função significante, isto é, encerra um determinado sentido. No jogo existe alguma coisa “em jogo” que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação. Todo jogo significa alguma coisa. Não se explica nada chamando “instinto” ao princípio ativo que constitui a essência do jogo; chamar-lhe “espírito” ou “vontade” seria dizer demasiado. Seja qual for a maneira como o considerem, o 91 simples fato de o jogo encerrar um sentido implica a presença de um elemento não material em sua própria essência. (HUIZINGA, 2005, p. 03-04). Adiante estabelecerei relações entre jogo e educação, por hora basta destacar, a partir da citação acima, a função significante do jogo. “Todo jogo significa alguma coisa”. Todo jogo comporta um sentido. E esta é minha busca, que a práxis educativa seja significante e dotada de sentido(s) para os educandos. Huizinga expõe como a psicologia e a fisiologia procuram explicar o jogo dizendo, entre outros pontos, que ele promove “descarga da energia vital superabundante”, satisfaz um “instinto de imitação”, prepara o “jovem para as tarefas sérias que mais tarde a vida dele exigirá”, exercita o “autocontrole”. Todas estas hipóteses “partem do pressuposto que o jogo se acha ligado a alguma coisa que não seja o próprio jogo”, todas se “interrogam sobre o porquê e os objetivos do jogo”. Huizinga diz que as hipóteses tendem a completar-se, porém não passam de soluções parciais do problema. “Por via de regra, deixam praticamente de lado a característica fundamental do jogo”: jogo como divertimento. (HUIZINGA, 2005, p. 04) E, também, desinteressado. Huizinga destaca a existência do jogo independente de qualquer cultura ou concepção do universo: A existência do jogo é inegável. É possível negar, se se quiser, quase todas as abstrações: a justiça, a beleza, a verdade, o bem, Deus. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo.” (HUIZINGA, 2005, p. 06). O jogo para os seres humanos não é uma imposição ou obrigação social, a não ser quando está ligado aos cultos ou rituais. Está mais relacionado aos momentos de ócio e ao prazer que proporciona, sendo que uma característica fundamental do jogo é “o fato de ser livre, de ser ele próprio liberdade”. Como já foi dito, “desinteressado”. (HUIZINGA, 2005, p. 11). Segundo Huizinga o jogo não é vida “corrente” nem vida “real”: Pelo contrário, trata-se de uma evasão da vida “real” para uma esfera temporária de atividade com orientação própria. Toda criança sabe perfeitamente quando está “só fazendo de 92 conta” ou quando está “só brincando”. (HUIZINGA, 2005, p. 11). Interessante notar, como bem escreve Huizinga, que todo jogo tem delimitações de tempo e espaço. “É jogado até ao fim”. “Possui um caminho e um sentido próprios”. (HUIZINGA, 2005, p. 12). “Todo jogo se processa e existe no interior de um campo previamente delimitado, de maneira material ou imaginária, deliberada ou espontânea.” (HUIZINGA, 2005, p. 13). Esta distinção entre jogo e vida “comum” - a delimitação de um tempo e de um espaço - também é observada nas apresentações teatrais - o espaço cênico e a duração da representação – como também é observada nas cerimônias rituais, vale destacar que o ritual, em diferentes culturas, deu origem ao teatro. Huizinga escreve sobre o jogo e o culto: Tal como não há diferença formal entre o jogo e o culto, do mesmo modo o “lugar sagrado” não pode ser formalmente distinguido do terreno de jogo. A arena, a mesa de jogo, o círculo mágico, o templo, o palco, a tela, o campo de tênis, o tribunal etc., têm todos a forma e a função de terrenos de jogo, isto é, lugares proibidos, isolados, fechados, sagrados, em cujo interior se respeitam determinadas regras. Todos eles são mundos temporários dentro do mundo habitual, dedicados à pratica de uma atividade especial. (HUIZINGA, 2005, p. 13). Como disse, falarei adiante sobre jogos e educação, porém aproveito para observar que na citação anterior é dito que determinadas regras devem ser respeitadas e esta é uma característica muito valorizada no âmbito educativo e social, por meio de jogos os educandos vivenciam limites e compreendem a necessidade das regras para se viver em sociedade. Segundo Huizinga o jogo – e as regras do jogo – comporta “um certo valor ético”: Por sua vez, estas regras são um fator muito importante para o conceito de jogo. Todo jogo tem suas regras. São estas que determinam aquilo que “vale” dentro do mundo temporário por ele circunscrito. [...] O jogador que desrespeita ou ignora as regras é um “desmancha-prazeres”. Este, porém, difere do jogador desonesto, do batoteiro, já que o último finge jogar seriamente o jogo e aparenta reconhecer o círculo mágico. É curioso notar como os jogadores são muito mais indulgentes para com o batoteiro do que com o desmancha-prazeres; o 93 que se deve ao fato de este último abalar o próprio mundo do jogo. Retirando-se do jogo, denuncia o caráter relativo e frágil desse mundo no qual, temporariamente, se havia encerrado com os outros. (HUIZINGA, 2005, p. 14). Huizinga diz que o jogador desmancha-prazeres priva o jogo da “ilusão – palavra cheia de sentido que significa literalmente “em jogo” (de inlusio, illudere ou inludere). Torna-se, portanto, necessário expulsá-lo, pois ele ameaça a existência da comunidade de jogadores.” (HUIZINGA, 2005, p. 14). “O desmancha-prazeres destrói o mundo mágico, portanto é um covarde e precisa ser expulso.” Complementando o pensamento de Huizinga: Mesmo no universo da seriedade, os hipócritas e os batoteiros sempre tiveram mais sorte do que os desmancha-prazeres: os apóstatas, os hereges, os reformadores, os profetas e os objetores de consciência. (HUIZINGA, 2005, p. 15). Todavia, freqüentemente, os desmancha-prazeres “fundam uma nova comunidade, dotada de regras próprias.” Segundo Huizinga: Os fora da lei, os revolucionários, os membros das sociedades secretas, os hereges de todos os tipos têm tendências fortemente associativas, se não sociáveis, e todas as suas ações são marcadas por um certo elemento lúdico. (HUIZINGA, 2005, p. 15). Note-se como o jogo aproxima e cria laços entre pessoas, seja entre jogadores de um ou de outro círculo, todos têm “a sensação de estar separadamente juntos, numa situação excepcional, de partilhar algo importante, afastando-se do resto do mundo e recusando as normas habituais”, conservando “sua magia para além da duração de cada jogo”. (HUIZINGA, 2005, p. 15). Este sentimento de união e de pertencimento promovido pelo jogo, respeitando-se as particularidades e a diversidade dos círculos humanos, é vital para a educação. Costumo falar para os alunos que teatro é trabalho de equipe, precisamos muito de todas as pessoas do grupo teatral e precisamos do público. Procuro mostrar que mesmo em jogos competitivos, o futebol, por exemplo, precisamos de outro time para jogar, não jogamos com um time só. Digo que o outro time não é um time contrário ou adversário e sim o time que 94 complementa e viabiliza o jogo, o prazer do jogo. Também costumo trabalhar com jogos cooperativos e sobre estes jogos falarei no Ato III, no item sobre oficinas teatrais. Outra característica destacada por Huizinga é que o jogo “cria ordem e é ordem”: Introduz na confusão da vida e na imperfeição do mundo uma perfeição temporária e limitada, exige uma ordem suprema e absoluta: a menor desobediência a esta “estraga o jogo”, privando-o de seu caráter próprio e de todo e qualquer valor. É talvez devido a esta afinidade profunda entre a ordem e o jogo que este, como assinalamos de passagem, parece estar em tão larga medida ligado ao domínio da estética. (HUIZINGA, 2005, p. 13). Huizinga diz que há no jogo uma “tendência para ser belo”: Talvez este fator estético seja idêntico aquele impulso de criar formas ordenadas que penetra o jogo em todos os seus aspectos. As palavras que empregamos para designar seus elementos pertencem quase todas à estética. São as mesmas palavras com as quais procuramos descrever os efeitos da beleza: tensão, equilíbrio, compensação, contraste, variação, solução, união e desunião. O jogo lança sobre nós um feitiço: é “fascinante”, “cativante”. Está cheio das duas qualidades mais nobres que somos capazes de ver nas coisas: o ritmo e a harmonia. (HUIZINGA, 2005, p. 13) No item sobre educação por meio da arte, baseado nas idéias de Read, retomarei a questão da harmonia e do ritmo, vale ressaltar que ritmo e harmonia também é tema presente nas obras sobre a linguagem, particularmente nas palavras de Otávio Paz. Para não me estender ainda mais na caracterização do jogo recorrerei as palavras de Huizinga: Numa tentativa de resumir as características formais do jogo, poderíamos considerá-lo uma atividade livre, conscientemente tomada como “não-séria” e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total. É uma atividade desligada de todo e qualquer interesse material, com a qual não se pode obter qualquer lucro, praticada dentro de limites espaciais e temporais próprios, segundo uma certa ordem e certas regras. Promove a formação de grupos sociais com tendência a rodearem-se de segredo e a sublinharem sua diferença em relação ao resto do 95 mundo por meio de disfarces ou outros meios semelhantes. (HUIZINGA, 2005, p. 16). Baseado, no trecho acima, destaco novamente a importância de defendermos o respeito e a tolerância às diferenças. Destaco também que comumente ouvimos os alunos perguntando se determinadas tarefas ou trabalhos escolares são para nota, mas dificilmente eles perguntam se algum jogo ou atividade artística – no meu caso a montagem da peça teatral – receberia alguma nota ou pontuação. E os educandos se entregam inteiramente aos jogos e a arte - arte que proporcione prazer, arte significativa, porque já ouvi alunos dizerem que não gostavam de aulas de arte... Em uma sociedade em que os valores do capitalismo impregnaram até mesmo as relações humanas, em que as pessoas sempre esperam alguma coisa em troca, é gratificante saber que o jogo é “uma atividade livre”, “desligada de qualquer interesse material”, com a qual não se espera “obter qualquer lucro” e, no entanto, absorve o jogador “de maneira intensa e total”, respeitando-se “uma certa ordem e certas regras”. Educadores com dificuldades em despertar a participação e o interesse dos alunos, ou com problemas de indisciplina, poderiam buscar alternativas no jogo e, como veremos adiante, na arte. Poderia ainda dissertar, a partir da obra de Huizinga, sobre as semelhanças e diferenças entre o jogo e o ritual, entre a festa e o jogo; destacar as relações entre jogo e luta, linguagem, política, direito, máscara, representação dramática, dança, música, amor, erotismo, entre tantas outras categorias abordadas na vasta e bela obra de Huizinga. Poderia ainda relacioná-las com o presente trabalho, porém me estenderia demais. Para finalizar este tópico focalizarei as relações do jogo com a cultura e a poesia, categorias que se relacionam com a concepção fenomenológica de educação e com a poética, categorias que têm grande importância para este trabalho, lembrando que para a fenomenologia a educação “nos parece, desde logo, como sendo o fenômeno da aprendizagem da cultura” (REZENDE, 1990, p. 46). Veremos neste momento, segundo Huizinga, como o lúdico teve importância fundamental na criação da cultura na Grécia antiga, aliás sobre o 96 processo civilizatório ele diz que “o jogo é muito mais antigo e muito mais original que a civilização” (HUIZINGA, 2005, p. 85). Huizinga também fala sobre a importância do jogo para a civilização romana, diz ele que os ludi romanos, competições sagradas, eram designados “pela simples palavra “jogo”, pois esta palavra exprime da maneira mais simples possível a natureza única desta força civilizadora.” (HUIZINGA, 2005, p. 85). Demonstra que para os antigos gregos o lúdico estava relacionado aos rituais, as batalhas, as necessidades humanas que deram origem a música, a lógica, a cultura grega. Diz que na Grécia clássica se deu “o desenvolvimento da cultura dentro de um contexto lúdico” (HUIZINGA, 2005, p. 84). Huizinga afirma que o lúdico teve importância não somente para a cultura grega, mas para todas as civilizações: na “Grécia, tal como em toda a parte, o elemento lúdico esteve presente desde o início, desempenhando um papel extremamente importante”. Segundo ele: Nosso ponto de partida deve ser a concepção de um sentido lúdico de natureza quase infantil, exprimindo-se em muitas e variadas formas de jogo, algumas delas sérias e outras de caráter mais ligeiro, mas todas elas profundamente enraizadas no ritual e dotadas de uma capacidade criadora de cultura, devido ao fato de permitirem que se desenvolvessem em toda a sua plenitude as necessidades humanas inatas de ritmo, harmonia, mudança, alternância, contraste, clímax etc. A este sentido lúdico está inseparavelmente ligado um espírito que aspira à honra, à dignidade, à superioridade, e à beleza. Tanto a magia como o mistério, os sonhos de heroísmo, os primeiros passos da música, da escultura e da lógica, todos estes elementos da cultura procuram expressão em nobres formas lúdicas. (HUIZINGA, 2005, p. 84 e 85). Para finalizar as relações entre o lúdico e a civilização, entre o jogo e a criação de cultura cito outras palavras de Huizinga: [...] a verdadeira civilização não pode existir sem um certo elemento lúdico, porque a civilização implica a limitação e o domínio de si próprio, a capacidade de não tomar suas próprias tendências pelo fim último da humanidade, compreendendo que se está encerrado dentro de certos limites livremente aceites. De certo modo, a civilização sempre será um jogo governado por certas regras, e a verdadeira civilização sempre exigirá o espírito esportivo, a capacidade de fair play. O fair play é simplesmente a boa fé expressa em termos lúdicos. Para ser uma vigorosa força criadora de 97 cultura, é necessário que este elemento lúdico seja puro, que ele não consista na confusão ou no esquecimento das normas prescritas pela razão, pela humanidade ou pela fé. É preciso que ele não seja uma máscara, servindo para esconder objetivos políticos por trás da ilusão de formas lúdicas autênticas. A propaganda é incompatível com o verdadeiro jogo, que tem um fim em si mesmo, e só numa feliz inspiração encontra seu espírito próprio. (HUIZINGA, 2005, p. 234). Ao ler este parágrafo lembrei-me da política do “pão e circo” na Roma antiga, de ditadores utilizando a arte e o jogo para difundirem suas idéias, do Brasil parando tudo – comércio, fábricas, escolas – para assistir aos jogos da copa do mundo de futebol e penso no grande poder do jogo e da arte que infelizmente ainda estão a serviço de classes dominantes, de forças econômicas e políticas. Tenho esperança que um dia o jogo, a arte, a linguagem e uma educação significativa, possam unir os seres humanos em prol de transformações que respeitem o planeta e toda humanidade. Que cultivemos uma civilização em harmonia com a natureza e não uma barbárie. Ritmo e harmonia. Falemos sobre jogo e poesia. Segundo Huizinga “a poiesis é uma função lúdica”. Exercida num mundo próprio, “no qual as coisas possuem uma fisionomia inteiramente diferente da que apresentam na “vida comum”, e estão ligadas por relações diferentes das da lógica e da causalidade.” Lembro-me de um texto de Octavio Paz em que um poeta afirma: “as pedras são plumas” (PAZ, 1982, p.120), contrariando a lógica e os fundamentos de nosso pensar. No final deste Segundo Ato falarei sobre “pensar por imagens”, “poetizar a educação”, e então citarei esta passagem de Paz sobre pedras que viram plumas. Sobre a poesia escreveu Huizinga: Se a seriedade só pudesse ser concebida nos termos da vida real, a poesia jamais poderia elevar-se ao nível da seriedade. Ela está para além da seriedade, naquele plano mais primitivo e originário a que pertencem a criança, o animal, o selvagem e o visionário, na região do sonho, do encantamento, do êxtase, do riso. Para compreender a poesia precisamos ser capazes de envergar a alma da criança como se fosse uma capa mágica, e admitir a superioridade da sabedoria infantil sobre a do adulto. (HUIZINGA, 2005, p. 133). 98 Huizinga diz que é necessário “rejeitar a idéia de que a poesia possui apenas uma função estética ou só pode ser explicada através da estética.” Segundo ele: Em qualquer civilização viva e florescente, sobretudo nas culturas arcaicas, a poesia desempenha uma função vital que é social e litúrgica ao mesmo tempo. Toda a poesia da antiguidade é simultaneamente ritual, divertimento, arte, invenção de enigmas, doutrina, persuasão, feitiçaria, adivinhação, profecia e competição. (HUIZINGA, 2005, p. 134). Vimos no item sobre Linguagem, e também agora, que a poesia reúne diversas categorias e funções. Huizinga diz que “a poesia nasceu durante o jogo e enquanto jogo” – jogo sagrado, sem dúvida, mas sempre, mesmo em seu caráter sacro, nos limites da extravagância, da alegria e do divertimento.” (HUIZINGA, 2005, p. 136). Poesia ligada ao ritual e a mitologia. Jogo de palavras, entre outros exemplos, o “hai-kai foi certamente, em sua origem, um jogo de rimas em cadeia, iniciado por um jogador e continuado pelo seguinte.” (HUIZINGA, 2005, p. 138). Poesia para expressão de assuntos solenes e sagrados: Toda civilização só muito lentamente vai abandonando a forma poética como principal método de expressão das coisas importantes para a vida da comunidade social. A poesia sempre antecede a prosa; para a expressão de coisas solenes ou sagradas, a poesia é o único veículo adequado. (HUIZINGA, 2005, p. 142) Huizinga destaca que a poesia está presente em toda a parte do mundo e em todas as épocas. E que os elementos formais da poesia (estruturas métricas, ritmo, rima etc.), suas formas (lírico, dramático, épico) e motivos também “são-nos de tal modo familiares que não nos interrogamos sobre sua existência e raras vezes pensamos em inquirir qual é o denominador comum que os leva a ser como são e não de outra maneira.” Para Huizinga esse denominador comum “talvez possa ser encontrado no fato de a função criadora a que chamamos poesia ter suas raízes numa função ainda mais primordial do que a própria cultura, a saber, o jogo.” (HUIZINGA, 2005, p. 147). 99 Encerro estas palavras sobre o Homo Ludens com as características que Huizinga considera próprias do jogo: É uma atividade que se processa dentro de certos limites temporais e espaciais, segundo uma determinada ordem e um dado número de regras livremente aceitas, e fora da esfera da necessidade ou da utilidade material. O ambiente em que ele se desenrola é de arrebatamento e entusiasmo, e torna-se sagrado ou festivo de acordo com a circunstância. A ação é acompanhada por um sentimento de exaltação e tensão, e seguida por um estado de alegria e de distensão. Ora, dificilmente se poderia negar que estas qualidades também são próprias da criação poética. A verdade é que esta definição de jogo que agora demos também pode servir como definição da poesia. (HUIZINGA, 2005, p. 147) Necessário que faça agora algumas breves considerações sobre jogo e educação. Vários autores debruçaram-se sobre este tema, atualmente encontram-se muitos artigos e teorias socioantropológicas, filosóficas e psicológicas. Dewey considera que na sua época a presença constante do jogo nas práticas educativas não teve a mesma presença nas reflexões teóricas: “o jogo é tão espontâneo e inevitável que [...] poucos pensadores educacionais atribuíram a ele em teoria o lugar de destaque que sempre ocupou na prática”. (DEWEY apud KISHIMOTO, 2002, p. 99) Dewey destaca a contribuição de Platão. “Platão em As Leis (1948), observou a importância do “aprender brincando”, em oposição à utilização da violência e da repressão.” (KISHIMOTO, 2002, p. 61). Sócrates, Aristóteles, Horácio, Quintiliano, Sêneca, Tomás de Aquino, Rabelais, entre outros, também se referiram ao jogo e a educação, porém não me estenderei sobre suas idéias. Segundo Kishimoto: Antes de Froebel, três concepções veiculavam as relações entre o jogo infantil e a educação: 1 recreação; 2 uso do jogo para favorecer o ensino de conteúdos escolares e 3 diagnóstico da personalidade infantil e recurso para ajustar o ensino às necessidades infantis (Brougère, 1995, p. 64) (apud KISHIMOTO, 2002, p.61) Como falamos em jogo, linguagem e poesia, destaco que para Michel de Montaigne (1533-1592) “o jogo é um instrumento de desenvolvimento da 100 linguagem e do imaginário. É o escritor, o poeta, sua prioridade. Privilegia os jogos que valorizam a escrita.” (KISHIMOTO, 2002, p.63) Juan Luis Vives (1492-1540) complementa o sentido do jogo: [...] como um meio de expressão de qualidades espontâneas ou naturais da criança, como recreação, momento adequado para observar a criança, que expressa através dele sua natureza psicológica e inclinações. (KISHIMOTO, 2002, p.63) Tal concepção de jogo relaciona-se com a nova percepção da infância que começa a se constituir no Renascimento e que irá se fixar no Romantismo. Surge na Alemanha, influenciada por Rousseau (1712-1778) e por Pestalozzi (1746-1827), um grande interesse pelo jogo como fator de desenvolvimento físico da raça. Destaca-se a campanha desencadeada em 1796 por Friederick Gutsmuths (1759-1839), considerado o pai da ginástica pedagógica moderna. Sua campanha “continua aumentando durante um século e culmina na destinação de áreas de jogo por toda a Alemanha.” Os campos de jogos eram “inspecionados por homens competentes e preparados psicologicamente para compreender a relação do jogo com o desenvolvimento humano.”(KISHIMOTO, 2002, p.63-64). Friedrich Froebel (1782-1852), criador do jardim da infância, “foi influenciado pelo grande movimento de seu tempo a favor do jogo”: Ao elaborar sua teoria da lei da conexão interna, percebe que o jogo resulta em benefícios intelectuais, morais e físicos e o erige como elemento importante no desenvolvimento,integral da criança. (HUGHES, 1925, p. 41) apud (KISHIMOTO, 2002, p. 64) Dewey também foi um grande defensor do uso do jogo na educação de crianças, inclusive dos jogos dramáticos. (KISHIMOTO, 2002, p. 101) Schiller, Spencer, Groos, Lee, entre outros autores, deram suas contribuições sobre a temática do jogo na educação, na maioria das vezes focando a educação infantil. Muito se diz atualmente sobre a importância dos jogos na educação em geral e acreditando que o jogo faça parte – ou deva fazer parte - da vida dos seres humanos, principalmente na formação e na práxis dos educadores, cito Cyrce Andrade: 101 Mais importante que os adultos sejam pessoas que saibam jogar, é fundamental que se recupere o lúdico no universo adulto. “Saber jogar” é mais do que mostrar algumas brincadeiras e jogos às crianças, é sentir prazer no jogo... (1994, p. 97) apud (KISHIMOTO, 2002, p. 135) Estabelecerei agora algumas relações entre jogo e estética, retomando alguns pensamentos, como a idéia de que a esfera do jogo não é a mesma da “vida real”, assim como a poesia não segue as leis do mundo lógico e racional. Farei um cotejo entre pensamentos de diferentes autores. Segundo Bosi “o prazer estético que anima o jogo da criação é, para Kant, puramente subjetivo, pois se exerce com representações e não com a realidade do objeto.” (BOSI, 2004, p. 15). Em outras palavras algo próximo nos diz Huizinga: todo jogo é significante, tem uma dimensão não material e situase fora do “mundo real”. Ainda para Kant, nos fala Bosi: “como em todo jogo, também na arte a liberdade de formar atenderia a leis de necessidade interna; leis adequadas ao cumprimento de um objetivo universal: na caso da arte, a Beleza ou Harmonia.” (BOSI, 2004, p. 15). De forma semelhante Huizinga nos fala que todo jogo tem suas próprias regras – leis internas – e que todo jogo “cria ordem e é ordem”, tem um “impulso de criar formas ordenadas”, “está cheio das duas qualidades mais nobres que somos capazes de ver nas coisas: o ritmo e a harmonia.” (HUIZINGA, 2005, p. 13). Ambos expressam que a arte e o jogo almejam o Belo. Bosi diz que para Kant o jogo estético resolveria a contradição entre a liberdade de formar e o juízo estético que regula por dentro o fazer artístico, visando à harmonia das formas sensíveis. Cabendo “á faculdade do gosto perceber quando a síntese foi alcançada, isto é, quando o artista produziu uma bela representação da existência, ou quando malogrou no seu intento. (BOSI, 2004, p. 15). Lembro-me de Aristóteles, a mímesis, o Belo. Schiller, de acordo com Bosi, “supõe a existência de um “impulso para o jogo” (Spieltrieb), responsável pelo surgimento das artes plásticas” (BOSI, 2004, p. 16). 102 Para Morin a criação é um jogo que “nasce do encontro entre o caos genésico das profundezas psico-afetivas e a pequena chama da consciência”, segundo ele: A criação é um jogo que se realiza a partir de uma aptidão organizadora (competência) que catalisa em mensagem, idéia, forma, tema musical o que era apenas tumulto, ruído, cacofonia. (MORIN, 2007 p. 126) Finalizo esta breve reflexão sobre o jogo estético com algumas palavras de Bosi: Como o jogo, a obra de arte conhece um momento de invenção que liberta as potencialidades da memória, da percepção, da fantasia: é a alegria pura da descoberta, que pode suceder a buscas intensas ou sobrevir num repente de inspiração: heureca! E como o jogo, a invenção de novos conjuntos requer uma atenção rigorosa às leis particulares de sintaxe que correspondem ao novo esquema imaginário a ser realizado. Em termos de arte poética, e aproveitando a velha Retórica, poderia dizer-se: para cada invenção livre o poeta deve ser fiel à melhor disposição das partes e à sua melhor elocução possível. A liberdade exige e cria uma norma interna. Segundo Pareyson, o fazer do artista é tal que, enquanto opera, inventa o que deve fazer e o modo de fazê-lo. (BOSI, 2004, p. 16). Após as considerações de Huizinga e de Bosi podemos perceber algumas convergências: ambos demonstram que o jogo faz parte da vida e do universo humano; jogo, ritual, poesia e arte estão presentes nas origens de todas as civilizações; a criação artística, o espanto originário da filosofia, as descobertas científicas, estas criações humanas todas nos remetem ao jogo; somos Homo Ludens segundo Huizinga. Somos Homo Complexus segundo Morin. Homo complexus porque somos ao mesmo tempo sapiens, demen, consumans e ludens. No penúltimo item deste Segundo Ato dissertarei sobre algumas idéias de Edgar Morin, com suas palavras entrelaçarei vários fios presentes neste capítulo: cultura, linguagem, jogo, poesia e vida. E, complementando essas idéias, no último item deste Ato, apresentarei a proposta de uma educação dos sentidos, uma educação poética. 103 2.10 – Complexidade e educação Morin, filósofo do pensamento complexo, nos fala que “o homo sapiens só se realiza plenamente na e pela cultura”. Diz ele que “não há cultura sem as aptidões do cérebro humano, mas não haveria palavra nem pensamento sem cultura.” Diz também que a linguagem é “o nó de toda cultura e de toda sociedade humana, e as linguagens de todas as culturas, mesmo as mais arcaicas, têm a mesma estrutura.” (MORIN, 2007, p. 35) Segundo ele: A cultura é, repitamos, constituída pelo conjunto de hábitos, costumes, práticas, savoir-faire, saberes, normas, interditos, estratégias, crenças, idéias, valores, mitos, que se perpetua de geração em geração, reproduz-se em cada indivíduo, gera e regenera a complexidade social. A cultura acumula o que é conservado, transmitido, aprendido e comporta vários princípios de aquisição e programas de ação. O primeiro capital humano é a cultura. O ser humano, sem ela, seria um primata do mais baixo escalão. (MORIN, 2007, p. 35) Ao ler estas palavras compreendo a importância vital da cultura na formação humana e lembro-me que para a fenomenologia a educação “nos parece, desde logo, como sendo o fenômeno da aprendizagem da cultura” (REZENDE, 1990, p. 46). Lembro-me do discurso cultural e do discurso pedagógico e da necessidade de se interpretar a própria cultura porque segundo Rezende “uma cultura que não se interpreta a si mesma é simplesmente vivida e corre o risco de degradar para um nível inferior ao humano.” (REZENDE, 1990, p. 30). Sobre humanidade e desumanidade nos fala Morin: Somos portadores da cultura na sua universalidade humana e nas suas características singulares. Somos os criadores e as criaturas da esfera do espírito e da consciência. Somos os criadores e as criaturas dos reinos do mito, da razão, da técnica, da magia. Estamos enraizados em nosso universo e em nossa vida, mas nos desenvolvemos para além disso. É nesse além que se dá o desenvolvimento da humanidade e da desumanidade da humanidade. (MORIN, 2007, p. 50) 104 Para Morin a humanidade surge de uma pluralidade e de uma justaposição de trindades: trindade indivíduo/sociedade-espécie; trindade cérebro/cultura-espírito; trindade razão/afetividade/pulsão. (MORIN, 2007, p.51) Ele nos mostra que não podemos compreender a humanidade se mantivermos pensamentos dualistas e excludentes, se mantivermos a fragmentação do conhecimento. “Trata-se do problema epistemológico essencial de um conhecimento e de uma compreensão do humano”. Diz Morin: Há impossibilidade de conceber o múltiplo no uno e o uno no múltiplo tanto no pensamento disjuntivo, que separa o homem biológico do homem social, quanto no pensamento redutor, que reduz a unidade humana a um substrato puramente bioanatômico. (MORIN, 2007, p. 65) Segundo Morin “a profunda dificuldade consiste em conceber a unidade do múltiplo, a multiplicidade do uno.” (Morin, 2007, p. 65). Diz ele: A unidade humana não pode reduzir-se a um termo, a um critério, a uma determinação (nem somente genética, cerebral, mental, cultural). Devemos conceber uma unidade que garanta e favoreça a diversidade, uma diversidade inscrita na unidade. A unidade complexa: unidade na diversidade, diversidade na unidade, unidade produtora de diversidade, diversidade produtora de unidade. (MORIN, 2007,p. 66) Sobre o ser humano, homo sapiens e homo faber, no diz Morin: Efetivamente trata-se de um animal dotado de razão e que a aplica fabricando instrumentos, desenvolvendo a técnica. O século XVIII europeu inventou a noção de homo economicus, que completa a definição racional acrescentando-lhe a utilidade e o interesse. (...) Os avanços da ciência, da técnica e da economia confirmam a eficácia da racionalidade humana. (MORIN, 2007, p. 116) Morin diz que a racionalidade “não é única nem soberana”. Cita Platão e Freud para falar sobre o psiquismo humano que é mais do que racional. Nos fala que Maclean mostrou que “o nosso cérebro contém não somente o esplêndido neocórtex próprio da racionalidade humana, mas também a 105 herança do cérebro mamífero (afetividade) e do cérebro dos répteis (cio, agressão, fuga).” (MORIN, 2007, p.116). Assim sendo: A especificação homo sapiens permanece, de qualquer maneira, insuficiente. Faz do humano um ser ignorando loucura e delírio, privado de vida afetiva, de imaginário, do lúdico, do estético, do mitológico e do religioso. Precisamos, então, corrigir, complementar, dialetizar a noção de homo sapiens. (MORIN, 2007, p.116-117). Morin diz que “seria irracional, louco e delirante ocultar o componente irracional, louco e delirante do humano”. Expõe que desde a pré-história o homo sapiens produziu instrumentos de tortura e de assassinato; enumera diversos exemplos, ao longo da história humana, de guerras, delinqüência e criminalidade. Mas também diz que “existem algumas ilhotas de bondade, de generosidade, de amor e de misericórdia no coração desta espécie criminosa.” Porém nos alerta que: Por toda parte onde o homo continua a ser sapiens, onde imperam o homo faber e o homo economicus, a barbárie está sempre pronta para ressurgir. (MORIN, 2007, 117). Morin nos fala que o excesso de racionalização pode nos levar a “abstração, a perda do contexto, o fechamento de uma teoria em doutrina blindada, a transformação da idéia em bandeira”, fala ainda que o “desconhecimento dos limites da lógica e da própria razão leva a formas frias de loucura: a loucura do excesso de coerência. A racionalização é a forma de delírio oposta ao delírio da incoerência, mas a mais difícil a identificar.” E completa: “homo demasiado sapiens torna-se, ipso facto, homo demens.” (MORIN, 2007, p. 119) Mostra que a “agressividade delirante pode servir-se da lógica e utilizar a racionalidade técnica para organizar e justificar seus empreendimentos.” Além da racionalidade Morin nos fala sobre a afetividade que “serve de ligação entre homo sapiens e homo demens.” Diz ainda que “tudo que é humano comporta afetividade, inclusive a racionalidade.” (MORIN, 2007, p. 120). Cito uma bela passagem do texto de Morin em que fala sobre racionalidade e sentimento de realidade: 106 O ser humano é capaz de considerar racionalmente a realidade que o cerca. Mas o princípio da racionalidade só dá uma radiografia da realidade; não lhe dá substância. A realidade humana é o produto de uma simbiose entre o racional e o vivido. O racional comporta o cálculo, a lógica, a coerência, a verificação empírica, mas não o sentimento de realidade, este dá substância e consistência não apenas aos objetos físicos e aos seres biológicos, mas também a entidades como família, pátria, povo, partido e, claro, deuses, espíritos, idéias, as quais, dotadas de vida plena, retornam imperiosamente para dar plenitude à própria realidade. (MORIN, 2007, 121). Morin diz que a nossa realidade é uma co-criação, comportando antagonismo e complementaridade entre nossas duas fontes de realidade, a racional e a afetiva. Diz que a vida humana “precisa da verificação empírica, da correção lógica”, mas precisa “ser nutrida de sensibilidade e de imaginário.” (MORIN, 2007, p. 122) Mostra-nos que racionalidade, afetividade e pulsão formam uma trindade, em que há uma hierarquia instável, permutável e rotativa. Ora uma, ora outra pode dominar ou ser dominada. Porém Morin nos diz que a racionalidade “raramente é hegemônica e, com freqüência, é encoberta, contaminada, ou mesmo manipulada. Em contrapartida, a afetividade é onipresente.” (MORIN, 2007, p. 123) Morin diz que “há um além da razão e da loucura que contém as duas, associa-as e ultrapassa-as.” Morin trata do homo consumans. O nome vem da idéia de despesa e trata-se de, literalmente, consumir-se. Relaciona-se aos momentos de êxtase e festas em que “corre-se riscos de morte para viver mais intensamente”. Morin diz que além do princípio de economia carregamos também um princípio de dilapidação e dissipação, totalmente irracional para o homo economicus, mas leva-nos a compreensão de que vivemos não somente para sobreviver, mas também para viver plenamente. (MORIN, 2007, p. 130) Finalmente Morin nos fala do homo ludens e do jogo, desenvolve idéias expostas na obra de Huizinga, cita o autor e outros pensadores e, ao final de suas reflexões, relaciona o lúdico e o jogo ao prazer: O universo lúdico pode comportar competições, mas elas estão dentro do jogo, que dá prazer e volúpia, inclusive na 107 angústia. O jogo leva ao transe e existem intoxicados de jogo como de uma droga fatal. Pode comportar riscos, mas são riscos pelo prazer ou pela beleza do jogo. O grande jogo é o da vida, no qual se arrisca tudo para viver intensamente. (MORIN, 2007, 130-131). Homo consumans, economicus, demens, sapiens, ludens... Falei resumidamente sobre algumas idéias, sobre outras não dissertei (no item sobre linguagem havia falado sobre estado estético e estado poético segundo Morin), cito agora um trecho síntese das idéias até aqui expostas: Através da trilogia do espírito, da afetividade, do anel que liga e opõe racionalidade, afetividade, imaginário, mito, estética, lúdico, despesa, o ser humano vive sua vida de alternância de prosa e de poesia, em que a privação de poesia é tão fatal quanto a privação de pão. (MORIN, 2007, 141). Pão, poesia, vida. “Quais são as finalidades do indivíduo?” – perguntanos Morin. Existem as finalidades egocêntricas que garantem nossa sobrevivência: alimentar-se, proteger-se; “mas o indivíduo não vive para sobreviver; sobrevive para viver, ou seja, vive para viver.” – argumenta Morin. E nos faz outra questão: “Que significa viver para viver?” Ele mesmo responde: “Viver para gozar da plenitude da vida. Viver para realizar-se.” Morin fala que a felicidade é a plenitude da vida e pode ter muitos rostos: amor, bem-estar, conhecimento. “Os fins de um indivíduo são, ao mesmo tempo, plurais, incertos, complexos. Há possibilidade de escolher finalidades (inclusive a finalidade trinitária que deixou de impor-se por si mesma em nossa civilização).” Para Morin “há uma finalidade em anel/circuito na trindade humana, em que cada termo é meio e fim do outro: indivíduo – sociedade – espécie.” E Morin diz que entre as diversas finalidades humanas “tudo o que dá poesia à vida, com o amor em primeiro lugar, é fim e meio de si mesmo.” (Morin, 2007, p. 155-156) Morin complementa: A partir daí, sobreviver para viver toma um sentido quando viver significa viver poeticamente. Viver poeticamente significa viver intensamente a vida, viver de amor, viver de comunhão, viver de comunidade, viver de jogo, viver de estética, viver de conhecimento, viver de afetividade e de racionalidade, viver assumindo plenamente o destino de homo sapiens-demens, viver inserindo-se na finalidade trinitária. (MORIN, 2007, 156). 108 Em consonância com as idéias aqui expostas destaco a necessidade de compreendermos os seres humanos em suas complexas relações consigo mesmos, com suas culturas, com os outros seres humanos, imersos em seus mundos. Penso que devemos olhar para as diversas dimensões humanas (biológicas, sociais, culturais), procurando compreender que temos pensamentos, desejos, sentimentos e que racionalidade, afeto, êxtase, loucura, prosa, poesia – tudo isto – é que nos faz humanos. E, como educadores, acredito que não podemos privilegiar um ou outro aspecto, ou mesmo negar a participação de todos eles na forma como percebemos a realidade, na maneira como vivemos. Devemos sim trabalhar com a lógica e a imaginação. Com seriedade e ludicidade. Com a prosa e, urgentemente, com a poesia. Vimos neste Segundo Ato a importância da linguagem, do discurso, da cultura, do jogo, das regras, da poesia, do conhecer-se e interpretar-se. Apresento a seguir uma proposta educativa que pode integrar as idéias aqui contempladas. 2.11 – Por uma educação dos sentidos Este Segundo Ato tem como título “Por uma educação significativa, prazerosa e poética”. Começarei o último tópico deste Ato com uma citação que bem ilustra que tipo de educação seria esta: Chaplin, em sua autobiografia, escreve: o estudo na escola me estonteava com conhecimentos e fatos pelos quais eu me interessava muito pouco. Se acaso alguém me houvesse alertado o interesse, se antes de cada matéria lesse algum prefácio estimulante que me despertasse a inteligência, me oferecesse fantasias em lugar de fatos, me divertisse e intrigasse com o malabarismo dos números, romantizasse mapas, desse-me um ponto de vista a respeito da História e me ensinasse a música da poesia, talvez eu tivesse sido um erudito. (ANTÔNIO, 2008, p. 31) 109 Busco neste momento reforçar algumas idéias sobre a educação dos sentidos – que compreende, entre outros aspectos, a educação dos sentimentos e a poetização do pedagógico. Algumas idéias já foram mencionadas nos itens sobre Fenomenologia; sobre Linguagem, poesia e poética; e também no item sobre Complexidade e educação. Outras idéias serão expostas neste tópico e também no próximo Ato, no item sobre educação por meio da Arte. Uma das idéias que abordarei neste momento de acordo com Severino e no Ato III segundo Read, está muito próxima do que foi dito neste Ato e poderá ser de grande valia para o trabalho pedagógico, a idéia de pensar por imagens. Aliás, considerarei neste momento outras formas de pensar. Morin nos fala sobre unir racionalidade e afetividade. Sobre beleza e afetividade nos fala Freire; muitos autores valorizam a poesia e o lúdico; Morin também discorre sobre a importância do estado estético e do estado poético, pois bem, os poemas nos fazem, entre outras coisas, pensar por imagens. Já foi demonstrada a importância de se trabalhar com os quatro sentidos da palavra sentido – cada um dos cinco sentidos, o significado, o rumo, o sentimento; são idéias muito relevantes que podem ganhar corpo nas salas de aula. Encontrei na obra de Severino Antônio algumas propostas de trabalho educativo que podem unir algumas destas idéias e, como dissertarei no Ato III, são propostas que eu mesmo venho utilizando - por exemplo o trabalho com poemas - embora deva relatar que, após estas reflexões, meu trabalho ganhou uma nova dimensão e sinto que terei muito mais o que explorar a partir daqui. Severino nos diz que “com pequenos gestos é possível reeducar a inteligência como interpretação criadora, intus legere, ler entre as linhas. [...] para poetizar a educação como atividade de criação de sentido, precisamos da convivência poética. Precisamos dos poemas.” (ANTÔNIO, 2009, p. 120) A poesia é a mais intensa concentração de sentido, a linguagem condensada de símbolos. Reeduca a inteligência e a sensibilidade – tanto os sentidos, como os sentimentos. Reeduca a imaginação. Aprendemos a inseparabilidade entre o intelectivo e o afetivo, entre o perceber e o imaginar. O poema é um pensar por imagens, que são sentimentos e ritmos. Ao mesmo tempo, é um sentir por imagens e ritmos, 110 que são idéias – e assim reciprocamente, cada dimensão não só se revela interligada às demais, como também elas se convertem umas nas outras. (ANTÔNIO, 2009, p. 128) Segundo Severino a história cultural brasileira nos deixa uma triste herança, marcada por um “culto à retórica retorcida e fútil, à erudição de ostentação, à fraseologia de efeito, à cultura de fachada”, diz ainda que: Em nossos dias, essa herança se conjuga com a miséria da linguagem – produzida sistematicamente pela comunicação de massa, com os seus slogans, os seus clichês [...] Assim, é mais que necessária a convivência com a poesia, o conhecimento de poesia, a fecundação da vida e da linguagem através dos poemas – para resgatar a expressividade das palavras, a vitalidade da nossa língua, a força simbólica da linguagem. É importante conhecer os poemas. Reconhecer as suas estruturas, os seus ritmos, as suas imagens. Para perceber mais. Para sentir mais. Para compreender mais. (ANTÔNIO, 2002, p. 48-49) Severino nos brinda em seu livro, dentre muitos exemplos possíveis, com o relato de uma experiência do pensar por imagens; fala de um “exercício em que os alunos são chamados a fazer comparações originais, a partir de alguns elementos sugeridos, nos diferentes campos da percepção: azul como... doce como... leve como... ” Os alunos têm liberdade para descobrir ou atribuir semelhanças “desde que não reproduzam associações já comuns e desgastadas pela repetição rotineira, como, por exemplo, comparar o azul ao céu, o doce ao mel, o leve à pluma etc.” Severino enumera alguns exemplos de comparações feitas por alunos de terceira e quarta série do ensino fundamental, dois quais citarei apenas dois: “ Quente como o pintinho dentro do ovo” (Larissa); “Silêncio são os planetas desconhecidos, as lagartas dentro do casulo” (Caio). (ANTÔNIO, 2009, p. 69) Ah! A “superioridade da sabedoria infantil”, como nos falou Huizinga. Severino nos diz também sobre o pensar por analogias, e exemplifica: “quando falamos: a nervura das folhas ou, inversa e reciprocamente, a ramificação nervosa”; nos fala sobre as metáforas presentes na natureza, por exemplo: “as linhas e formas das folhas, dos ramos e das raízes são muito semelhantes ao 111 traçado dos rios e seus afluentes, e ao traçado de muitas linhas de relâmpagos.” (ANTÔNIO, 2009, p. 69) Tudo isto exemplifica que podemos pensar, escutar, ver, sentir, aprender, compreender de outras formas além do pensamento lógico. A poesia – a arte – promove outras formas de conhecer. No item sobre poema foi dito que o poeta subverte a lógica quando diz: “pedras são plumas” e, ainda sim, por mais absurda ou impossível de existir na realidade, no poema esta imagem é possível. Cito Octavio Paz: Não sem um justificado assombro as crianças descobrem um dia que um quilo de pedras pesa o mesmo que um quilo de plumas. Custa-lhes muito reduzir pedras e plumas à abstração quilo. Dão-se conta de que pedras e plumas abandonaram sua maneira própria de ser e que, por uma escamoteação, perderam todas as suas qualidades e sua autonomia. A operação unificadora da ciência mutila-as e empobrece-as. O mesmo não ocorre com a poesia. O poeta nomeia as coisas: estas são plumas, aquelas são pedras. E de súbito afirma: as pedras são plumas, isto é aquilo. Os elementos da imagem não perdem seu caráter concreto e singular: as pedras continuam sendo pedras, ásperas, duras, impenetráveis, amarelas de sol ou verdes de musgo: pedras pesadas. E as plumas, plumas: leves. A imagem resulta escandalosa porque desafia o principio de contradição: o pesado é leve. Ao enunciar a identidade dos contrários, atenta contra os fundamentos do nosso pensar. [...] os poetas se obstinam em afirmar que a imagem revela o que é e não o que poderia ser. E ainda mais: dizem que a imagem recria o ser. (PAZ, 1982, p.120-121) Ciência e poesia. Precisão e imaginação. Nem uma nem outra, as duas. Muitos educadores dizem que os alunos têm dificuldade de compreensão e interpretação de textos, de enunciados de questões etc. Mais um motivo para se trabalhar com poemas: O poema [...] religa o pensar e o sentir, o perceber e o imaginar, a criatividade e a comunhão. Assim desperta e desenvolve a capacidade de interpretar. Revela-se imprescindível para educar a capacidade de interpretação: mais do que linhas, as entrelinhas. Ensina-nos a reconhecer a multiplicidade de sentidos, nos textos e no mundo, assim como nas existências. (ANTÔNIO, 2009, p. 120) 112 Estudantes lendo poemas, prosas, vidas! Lembro que há sentido(s). Penso na interpretação – no estudo dos textos teatrais – por atores e diretores que buscam os sub-textos, expressão que abordarei no item sobre oficinas teatrais. Penso nas diversas formas de se pensar – sentir - interpretar o mundo. Lembro-me da hermenêutica, lembro-me de uma passagem do professor Custódio: “a hermenêutica filosófica busca o equilíbrio entre as duas formas do saber que reúne o lado científico e o lado artístico.” (ALMEIDA, 2002, p.379). Ciência com arte. Arte com ciência. Razão e afeto. Vejo que muitas idéias convergem no(s) mesmo(s) sentido(s), apesar das diferentes concepções dos diversos autores citados. Pensando nas idéias apresentadas neste Segundo Ato fiz um quadro sinóptico – do grego synoptikós: que de um só golpe de vista abrange várias coisas – que não deixa de ser uma outra forma de se pensar, de se organizar e de se visualizar as idéias. Antes de expor o Quadro Sinóptico, encerro estas reflexões com algumas palavras de Morin, citadas por Severino: Se eu fosse professor, tentaria religar as questões a partir do ser humano, mostrando-o em seus aspectos biológicos, psicológicos, sociais. Desse modo, poderia acessar as disciplinas, mantendo nelas a marca humana e, assim, atingir a unidade complexa do homem. [...] A missão primordial do ensino implica muito mais em aprender a religar do que aprender a separar, o que foi feito até o presente. É preciso, ao mesmo tempo, aprender a problematizar. [...] É necessário enraizar o conhecimento físico e biológico numa cultura, numa sociedade, numa história, numa humanidade. A partir daí, cria-se a possibilidade de comunicação entre as ciências. (MORIN apud ANTÔNIO, 2002, p. 72 e 73) Apresento a seguir um Quadro Sinóptico. 113 MUNDO HUMANO FENÔMENOS - COMPLEXO EXISTÊNCIA SERES HUMANOS SUJEITOS HISTÓRICOS CULTURA LINGUAGEM SOCIEDADE EDUCAÇÃO TEATRO MITOS SENTIDOS SENTIMENTOS RITOS JOGOS TEXTOS PROSA/ POESIA CONHECIMENTO EMPÍRICO IMAGENS ARTÍSTICO CIENTÍFICO FILOSÓFICO Neste quadro procurei representar as relações entre a educação e o complexo mundo humano: mundo da linguagem, da cultura, do conhecimento, enfim, de tudo que nos diferencia dos demais animais. 114 A educação acontece entre seres humanos – sujeitos históricos, membros de uma família, de uma sociedade. A educação acontece nas escolas, igrejas, ruas etc.; através de jogos, relatos, textos, imagens, ritos, mitos, artes, ciências, vivências; por meio da razão, da imaginação, do afeto, dos cinco sentidos e dos sentimentos. Tudo ganha significação – sentido(s) através da linguagem, por meio dela conhecemos e criamos a cultura humana. O conhecimento humano deve ser concebido como uno e diverso, diverso e uno, complexo. Todos os saberes estão interligados. Os seres humanos devem ser vistos na sua totalidade, observando-se os aspectos biológicos, psicológicos, sociais, históricos e culturais. Esta concepção deve ser levada em conta quando pensamos em Educação. Educação dos sentidos, por meio de todos saberes: ciência, mitologia, poesia, filosofia, jogos, arte etc. Educação poética e significativa, produtora de cultura e de sentidos; humana, ética e estética. Educação que auxilie na transformação deste planeta em mundo melhor e mais belo. 115 Ato III - A carpintaria teatral "A Arte não é a verdade. A Arte é uma mentira que nos ensina a compreender a verdade". Pablo Picasso "A Arte existe para que a verdade não nos destrua" Nietzsche “A única lei na educação pela arte é a liberdade” Olga Reverbel “O artista não é uma espécie diferente de homem, mas todo homem é uma espécie diferente de artista.” Ananda Coomaraswamy 116 3.1 – Antes da carpintaria Neste ato tratarei dos conhecimentos teatrais aplicados à educação. Começarei expondo porque este Ato recebeu o nome de “carpintaria teatral”. Na seqüência falarei sobre a educação por meio da arte; a seguir abordarei questões teóricas e práticas sobre o teatro na educação; farei então o relato da montagem teatral e apresentarei trechos de cenas numa síntese do roteiro da peça. Não por acaso escolhi o título “carpintaria teatral”. Está certo que em muitas peças os cenários utilizam madeiras e temos uma carpintaria real no próprio teatro construindo os elementos cênicos; muitas vezes a caixa cênica, a estrutura do palco é feita de madeira. Mas no caso refiro-me a outro tipo de carpintaria. Trabalho com teatro desde adolescente e não me lembro quando ouvi estes termos pela primeira vez. Sei que utilizamos – metaforicamente – os termos “carpintaria teatral” para designar o conjunto de recursos, de técnicas, de conhecimentos que utilizamos para dar forma a uma peça. Antigamente os textos eram a base dos espetáculos e a carpintaria teatral referia-se mais aos autores, observando-se a construção das personagens e do enredo da peça. Atualmente os próprios atores e/ou diretores fazem a dramaturgia, a escrita do texto teatral, e a carpintaria envolve não apenas o texto, mas todas as soluções cênicas, a concepção dos cenários, iluminação, adereços e demais recursos – incluindo até vídeos e efeitos especiais - utilizados na montagem teatral. Ainda assim quando dizemos que uma peça tem boa carpintaria, ou que faltou carpintaria, nos referimos à estrutura delas. Desde a carpintaria do texto teatral, englobando sua escrita e inúmeras reescritas; sua construção arquitetando o enredo, apresentando as personagens, os contextos e as situações; armando os conflitos, os embates, as revelações, o encadeamento das ações que levam a um clímax; tudo isto faz parte da carpintaria teatral. Como também a encenação, as mudanças de cenários, a iluminação, as entradas e saídas cênicas, enfim todos os recursos e soluções utilizados na montagem de uma peça. 117 No caso deste projeto toda essa carpintaria foi necessária. E qual a relação com a educação? Primeiramente podemos dizer que os alunos trabalharam com uma vasta gama de conhecimentos teatrais, incluindo dramaturgia, cenografia, sonoplastia, interpretação teatral, entre outros. Além de conhecimentos da vida e de outras ciências, tais como: história, geografia, português, matemática, filosofia; e de outras artes, tais como a música, a dança e as artes visuais. Os alunos trabalharam habilidades corporais, mentais e emocionais. E fizeram tudo isto em equipe. Dá para imaginar o que teve de educativa esta montagem? Escolhi “carpintaria teatral” porque estes termos também me lembram as oficinas, onde aprendizes eram iniciados em seus ofícios pelos seus mestres, aprendendo na práxis, aprendendo fazendo, teoria e prática complementandose. E, ainda hoje, é muito comum que cursos de teatro, sejam chamados de oficinas teatrais. São cursos essencialmente práticos e a teoria, dependendo dos educadores, pode ou não ter sua importância devida - falarei sobre oficinas teatrais no quarto item deste Ato. De qualquer forma gosto do termo, oficinas. Penso que como educador, não posso oferecer uma oficina teatral ou propor a montagem de uma peça com estudantes sem que tenha conhecimentos sobre o teatro na educação, ou, antes ainda, conhecimentos sobre a educação por meio da arte. Por este motivo dissertarei a seguir sobre alguns referenciais: Read sobre a educação por meio da arte; Courtney, Spolin e Reverbel que foram as bases que nortearam meu trabalho nas oficinas e na montagem - na carpintaria - teatral. 3.2 – Read e a educação por meio da arte Começarei este item por definir o que é educação pela arte; Read fala sobre a dificuldade de conceituar estes termos tão ambíguos: educação e arte. Segundo Read : 118 O que tenho em minha própria mente é uma fusão completa dos dois conceitos, de forma que quando falo em arte quero dizer um processo educacional, um processo de crescimento; e, quando falo em educação, quero designar um processo artístico, um processo de autocriação. Como educadores, olhamos o processo de fora; como artistas, o vemos por dentro; e ambos os processos, integrados, constituem o ser humano completo. (READ, 1986 p. 12) Read diz que na maior parte do mundo se educa para promover a inteligência, para se obter bons resultados em exames e que esta forma de educação, que classifica e distingue os alunos, promove divisão. Read defende dois princípios: educar com referência a coisas; e educar para unir. “Educação com referência a coisas significa [...] que a educação deveria fluir através dos sentidos, dos membros e dos músculos, e não primordialmente através da faculdade de abstração.” (READ, 1986, p. 12) Read cita Platão e Rousseau como referências e diz como a educação deve se realizar, segundo ele: “através das artes, da ginástica, dos jogos criativos de todos os tipos, ela deve se realizar mais sob a égide de Dionísio que de Apolo.” (READ, 1986, p. 13) Dionísio era um deus grego relacionado à vegetação, às vinhas, à embriaguês, à festa e ao teatro. Apolo, também um deus grego, era relacionado à luz, ao sol, à música, à beleza, à ordem, à profecia, e, no caso do trecho citado, relacionado à inteligência, à Razão. Nas primeiras linhas deste tópico podemos perceber as relações entre as idéias de Read, Huizinga e Morin, por exemplo, a respeito de não se privilegiar o racional, de se valorizar o jogo, a arte e a educação dos sentidos, o poético e o estético. Outra passagem de Read também tem afinidade com as idéias de Morin, sobre método científico e método estético ele nos diz: Ciência implica medida e classificação – o que é chamado “método científico” e análise. Mas isso é apenas um método, e o bom senso, que inclui a ciência em seu campo de ação, implica também síntese: a apreensão e a compreensão das unidades em seu todo e de suas relações, das obras da imaginação e da atividade criativa – em suma, uma abordagem subjetiva e sensorial da realidade; e a esse aspecto do bom senso pode-se chamar o método da arte, ou “método estético”. (READ, 1986 p. 20) 119 Read diz que a arte é “um modo de educar – não tanto como matéria de ensino como método de aprendizado de toda e qualquer matéria.” (READ, 1986, 21). Cita novamente Platão enaltecendo que suas idéias têm o mesmo significado para nós como tinham na Grécia antiga; Read se refere aos conceitos de “harmonia”, “graça” e “ritmo”. Sobre “ritmos” dizia Platão, citado por Read: Não devemos buscar grande variedade deles, nem estudar todos os movimentos indiscriminadamente, mas observar quais são os ritmos naturais de uma vida bem equilibrada e viril, e quando os tivermos descoberto devemos compelir o ritmo e a harmonia a se adaptarem ao sentido de uma vida assim, e não o próprio sentido ao ritmo e à harmonia. (READ, 1986 p. 28-29) Read valoriza a natureza. Considera que “a base de uma comunidade viva, a base de uma felicidade individual, é fisiológica: é apenas enquanto essa base fisiológica mantém a unidade com a natureza (physis = natureza) que a sociedade pode ter harmonia e saúde.” (READ, 1986, p. 45) A natureza é vista como modelo de criação e união, lembrando que devemos “educar para unir” um dos princípios para a educação defendida por Read. Segundo ele: Começamos nossa vida em união – a união física da mãe com a criança, à qual corresponde a união emocional do amor. [...] Mas a base da união [...] é a criatividade. Unimos para criar, e o modelo da criação está na natureza, e fazemos descobertas e nos conformamos a esse modelo por todos os métodos de atividade artística – pela música, pela dança e pelo teatro, mas também ao trabalharmos e vivermos juntos, pois, numa civilização sadia, tudo isso também são artes a partir do mesmo modelo natural. (READ, 1986 p. 47) Read, como foi dito no item por uma educação dos sentidos, também valoriza a imaginação, o pensar por imagens; ele nos fala que, com certeza, “há mais de um padrão de inteligência, e, na verdade, mais de um modo de pensamento.” (READ, 1986, p.27) Segundo Read: [...] quando passamos a investigar a natureza do pensamento científico quanto a ser este uma atividade inventiva ou criativa, e não um arranjo lógico de fatos estabelecidos, descobrimos que ele também se liga às imagens. [...] É possível que haja mais imagens na física atual que na poesia moderna (READ, 1986 p. 47) 120 Read argumenta que podemos usar a própria ciência para a defesa da arte na educação, “podemos nos voltar para os cientistas e convencê-los com base na prova fornecida por seus próprios processos de pensamento.” Como ele diz: pensamento “imaginativo”. (READ, 1986, p. 27) Sobre a relação professor e aluno, nos fala Read: Creio que o mestre não deve ser menos ativo que o aluno. Pois a arte não pode ser aprendida por preceito, por uma instrução verbal qualquer. Ela é, falando com propriedade, um contágio, e se transmite como o fogo de espírito para espírito. (READ, 1986, p. 15) O pensamento acima se assemelha ao pensamento de Viola Spolin, como veremos adiante no item sobre jogos teatrais, quando ela defende que o professor jogue junto com os alunos e que tenha participação ativa nas aulas. Também acredito, por experiência própria, que cada pessoa no grupo – educador e educandos – são responsáveis por manter viva a energia e o entusiasmo do grupo, cabendo ao educador fazer intervenções ou mudar de atividade quando a energia ou o interesse do grupo começar a cair, veremos mais sobre isto com Spolin . Falemos agora sobre liberdade e disciplina, assuntos muito necessários à educação. Na visão de Read a liberdade é o fim, “e não o meio em educação.” (READ, 1986, p. 63) Ele diz que a arte de uma criança é o “seu passaporte para a liberdade, para fruição plena de todos os seus dotes e talentos, para a sua felicidade verdadeira e estável na vida adulta.” (READ, 1986, p. 46) Diz que, enquanto criança, deve ter liberdade de pensamento e de expressão, porém suas ações devem seguir normas e regras sociais. Fala também que a arte na escola deveria ser “o aspecto significante, o aspecto disciplinado, de toda atividade”. (READ, 1986, p. 80) Não de uma disciplina autoritária, porém, e é citado o exemplo de uma escola, em Birmingham, na Inglaterra, em que A. L. Stone e seus colegas professores tentaram, como diz Stone: “dar às crianças a oportunidade de desenvolverem muita atividade e de se expressarem” (READ, 1986, p.62). A oportunidades foram postas “em prática principalmente na forma do 121 jogo e da dramatização, com todas as artes funcionando como auxiliares dessas atividades.” (READ, 1986, p.63). Este exemplo vem ao encontro de muitos dos pressupostos de Read para uma educação por meio da arte e, neste caso, “a disciplina era o resultado da absorção da criança em sua experiência, e não algo imposto pelos professores”. (READ, 1986, p. 63) Também na escola inglesa os educandos manifestaram algumas qualidades essenciais em educação: interesse, concentração e imaginação. (READ, 1986, p. 62) Read nos fala sobre o uso terapêutico da arte, porém ele critica a idéia de sua utilização “apenas quando o paciente está doente.” Para ele “a arte é antes uma expressão de saúde: ela é exuberância, alegria, êxtase.” Mas nos adverte que não é expressão de um estado excepcional de saúde; a arte é “ou deveria ser, a qualidade ou virtude sensorial normal em tudo o que fazemos ou fabricamos.” (READ, 1986, p. 50) Read nos fala que as artes originalmente eram “uma celebração comunal: foram criadas por pessoas reunidas para dançar, cantar ou adorar. Elas ganharam tanto quanto deram nessa comunhão: a forma e o efeito foram intensificados por contágio físico, pela fruição em comum” (READ, 1986, p. 52) Read nos adverte que a sociedade contemporânea divide os homens em classes, divide trabalho e lazer; diz ele que o sistema educacional - por séries e com exames classificatórios - também divide os estudantes ao invés de uni-los; diz, aliás, que o sistema educacional reflete a ordem socioeconômica e “serve antes para preservar as divisões que para promover a unidade”. (READ, 1986, p. 58-59) Ele se refere ao sistema educacional norte americano, mas sabe-se que assim acontece em toda parte, inclusive no Brasil. Read levanta uma questão: “Que tipo de educação irá promover a união social?” E ele nos dá a resposta: [...] o mesmo tipo de educação que promova a integridade pessoal. A educação deveria sempre abranger o um e os muitos, a pessoa e o grupo; e qualquer fase da educação que tenda a dar ênfase à pessoa contra o grupo, ou o grupo contra a pessoa, é obviamente destruidora”. (READ, 1986, p. 59) 122 Precisamos de arte, de estética e de ética. Precisamos de jogos, não apenas os competitivos, mas, principalmente, os que ensinem a cooperação mútua como abordarei no item sobre oficinas teatrais. Read considera que “devemos reformar nossa estrutura industrial, as condições de trabalho e produção” para acabar com tantas divisões já mencionadas (READ, 1986, p. 61). Penso que questões políticas, sociais e econômicas têm grande relevância para a educação e para a transformação possível e necessária do nosso planeta. Encerrarei este tópico com algumas belas palavras de Read: Quando o que fazemos é o “exercício da habilidade e da imaginação humanas em todos os campos do trabalho humano” (Eric Gill, Last Essays, 1942, p. 56), então as diferenças entre trabalho e diversão, entre arte e indústria, entre profissão e recreação, entre os jogos e a poesia – todas essas distinções desaparecem. O ser humano se torna ser humano total, e seu modo de vida uma contínua celebração de sua força e imaginação. (READ, 1986, p. 61) 3.3 – Algumas bases teóricas para o teatro na educação Apresentarei de forma sucinta algumas idéias de R. Courtney e I. Koudela sobre o teatro na educação; na seqüência abordarei os jogos teatrais de V. Spolin. Vale ressaltar que Koudela traduziu para o Brasil as obras de Spolin: Improvisação para o Teatro e Jogos Teatrais: o fichário de Viola Spolin. Koudela acumula muita experiência, pesquisas e publicações sobre teatro na educação, sendo uma das referências primordiais para quem se interessa por este assunto. Primeiramente convém diferenciar jogos dramáticos de jogos teatrais. Começarei pelo conceito de jogo dramático segundo Courtney. Para isto voltarei ao conceito de imitação, que desde a Grécia antiga tem sido relacionado à natureza humana. Courtney diz que desde criança brincamos, ou segundo o autor, fingimos ser nós mesmos ou outra pessoa, destacando que fingir neste caso é sinônimo de representar, ou ainda, de imitar. Courtney observa que “Platão e Aristóteles iriam fundamentar a educação no jogo” 123 (COURTNEY, 1980, p. 281/282) e ainda que “Aristóteles mostrou que o homem aprendeu através da imitação e que o teatro ‘purga’ o homem de emoções impuras” (COURTNEY, 1980, p. 282). Também Peter Slade em seu livro O Jogo Dramático Infantil, ao pensar em crianças, faz “uma distinção muito cuidadosa” entre “drama, no sentido amplo, e teatro, como é entendido pelos adultos”: Teatro significa uma ocasião de entretenimento ordenada e uma experiência emocional compartilhada; há atores e públicos, diferenciados. Mas a criança, enquanto ainda ilibada, não sente tal diferenciação, particularmente nos primeiros anos – cada pessoa é tanto ator quanto auditório. Esta é a importância da palavra drama no seu sentido original, da palavra grega drao – “eu faço, eu luto”. No drama, i.e., no fazer e lutar, a criança descobre a vida e a si mesma através de tentativas emocionais e físicas e depois através da prática repetitiva que é o jogo dramático. As experiências são emocionantes e pessoais e podem se desenvolver em direção a experiências de grupo. Mas nem na experiência pessoal nem na experiência de grupo existe qualquer consideração de teatro no sentido adulto, a não ser que nós a imponhamos. (SLADE, 1978, p.18) Courtney ressalta o papel da imaginação dramática desde os primeiros anos de nossas vidas: Ao final do primeiro ano de vida, a criança humana brinca pela primeira vez, desenvolvendo o humor e, ao fingir ser ela mesma ou outrem, personifica. Essa identificação é qualidade básica do processo dramático, quer quando somos jovens e fingimos ser um leão ou um “mocinho” ou, quando somos mais velhos, “colocamo-nos no lugar de alguém” ou imaginamos as possibilidades inerentes de uma situação. Segue-se que a imaginação dramática, sendo parte tão importante do modo humano de viver, deve ser cultivada por todos os métodos modernos de educação. (COURTNEY, 1980, p. 281) Penso que colocar-se “no lugar de alguém”, possibilitar que alunos vejam, pensem e sintam a vida de forma diferente da sua própria maneira de ser, ver, sentir e pensar já é uma grande contribuição do teatro na educação para trabalharmos a tolerância, a compreensão das diferenças, a empatia, a sensibilização de valores humanos, em um mundo onde as pessoas estão tão focadas em seus próprios “sucessos” e insensíveis às dores e às injustiças 124 alheias; como se tudo não fosse ligado – economica, politica, social e culturalmente - como se não fossemos responsáveis por todos seres humanos, pelo clima, pela natureza, pela sobrevivência deste planeta, como se tudo não refletisse em tudo, como se “causadores” também não se tornassem “vítimas”, sofrendo as conseqüências de seus próprios atos... Creio que tais reflexões, críticas e transformadoras, devam estar presentes em todas as ações educativas. Courtney destaca que “a característica essencial do homem quando comparado com os primatas superiores é sua imaginação, que é essencialmente dramática” (COURTNEY, 1980, p. 281). Para o autor, “após várias abordagens preliminares” no século XX desenvolveu-se uma “filosofia da educação dramática” que “reconhece a imaginação dramática como a qualidade humana essencial” (COURTNEY, 1980, p. 282). Segundo Courtney a educação dramática: Estimula a criança a se expressar em um contexto de movimento criativo, discurso e linguagem espontâneos, personificação e identificação; desse modo, ela pode tanto aprender quanto desenvolver-se – pode relacionar-se com seu meio e perceber a relação entre idéias. A criança passa a desenvolver as habilidades humanas para pensar e explorar, testar hipóteses e descobrir a “verdade”. Nada tem realidade para o ser humano a menos que ele o realize completamente – viva-o na imaginação – atue. (COURTNEY, 1980, p. 282) As palavras de Courtney vêm ao encontro de minha concepção de educação - fundamentada em diversos autores já citados, tais como Read, Freire, Huizinga, Morin, Rezende, Gusdorf, Dolto, Antônio, entre outros – e em cuja base se encontra conceitos tais como educação significativa relacionada ao meio em que se vive, educação que privilegia a arte, a linguagem, o uso de todos os sentidos, o pensar por imagens/imaginação, o jogo, a resolução de problemas, enfim, uma educação de valores humanos, ética e estética, que busque harmonia e “boniteza”. Alguns destes conceitos também estão presentes na obra de Spolin, como veremos mais a frente. Courtney relaciona jogo e teatro com a origem das sociedades humanas; destaca a evolução e transformação do jogo dramático em teatro, entendido como linguagem artística: 125 Em sendo uma atividade social, o teatro está intrinsecamente vinculado à natureza e às origens da sociedade. O âmbito integral do jogo dramático (do jogo ao teatro) é observável em cada sociedade civilizada. As situações da primeira fase da infância são refletidas tanto na personalidade do adulto quanto no teatro representado dentro do contexto cultural. (COURTNEY, 1980, p. 284) Courtney relacionou o jogo dramático com vários campos do conhecimento: Que nos tenhamos debruçado amplamente sobre os campos correlatos da filosofia, psicologia, antropologia e outras disciplinas significa apenas que são uma espécie de ferramenta com a qual podemos aprender o processo humano. Tentamos apenas observar como esses variados campos do aprendizado se relacionavam com o impulso dramático. (COURTNEY,1980, p.281). Courtney estabelece relações entre teatro, jogo dramático e teorias de Piaget, Vygotsky, Moreno, Groos, Freud, Adler, Jung, Aristóteles, Dewey, Nietzsch, Heiddegger, Slade, entre muitos outros pensadores. Courtney fez uma ampla pesquisa demonstrando como a imaginação dramática “é parte inerente tanto do pensamento quanto do aprendizado” (COURTNEY,1980, p.278) e ainda, que ela “está no centro da criatividade humana e, assim sendo, deve estar no centro de qualquer forma de educação que vise o desenvolvimento das características essencialmente humanas.” (COURTNEY,1980, p.281). Para Courtney: A Educação Dramática é, por essa razão, não apenas o modo de encarar o processo educacional (uma filosofia), ou o modo de ajudar o desenvolvimento individual (uma psicologia) ou assistir o indivíduo em sua adequação ao meio (uma sociologia); é a maneira fundamental na qual o ser humano aprende - e, assim, é o mais efetivo método para todas as formas de educação. (COURTNEY,1980, p.278). Viola Spolin, no seu livro Improvisação para o Teatro, fala sobre jogo dramático e teatro: Como o adulto, a criança gasta muitas horas do dia fazendo jogo dramático subjetivo. Ao passo que a versão adulta consiste usualmente em contar estórias, devaneio, tecer 126 considerações, identificar-se com os personagens da TV etc.; a criança tem, além destes, o faz-de-conta onde dramatiza personagens e fatos de sua experiência, desde cowboys até pais e professores. [...] Ao separar o jogo dramático da realidade teatral e num segundo momento fundido o jogo à realidade do teatro, o jovem ator apreende a diferença entre o fingimento (ilusão) e a realidade, no reino do seu próprio mundo. Contudo, essa separação não está implícita no jogo dramático. O jogo dramático e o mundo real freqüentemente são confusos para o jovem e – ai de nós! – para muitos adultos também. (SPOLIN, 1987, p.253/254) Koudela destaca que Spolin desenvolveu um sistema de atuação teatral propondo que a criança a partir dos sete/oito anos de idade é “plenamente capaz de utilizar a linguagem artística do teatro e expressar-se através dela” (KOUDELA, 2006, p.44). Segundo Koudela para Spolin: O processo de jogos teatrais visa a efetivar a passagem do jogo dramático dramático (subjetivo) para a realidade objetiva do palco. Este não constitui uma extensão da vida, mas tem sua própria realidade. A passagem do jogo dramático ou jogo de faz-de-conta para o jogo teatral pode ser comparada com a transformação do jogo simbólico (subjetivo) no jogo de regras (socializado). Em oposição à assimilação pura da realidade ao eu, o jogo teatral propõe um esforço de acomodação, através da solução de problemas de atuação. [...] O jogo teatral não é uma extensão da vida corrente. A improvisação de uma situação no palco tem uma organização própria, como no jogo. (KOUDELA, 2006, p.44) Enquanto Courtney defende a importância da educação dramática como “o mais efetivo método para todas as formas de educação” (COURTNEY,1980, p. 278) , Koudela nos coloca a seguinte questão: Até que ponto o orientador de um grupo de crianças ou adolescentes deve encaminhar o trabalho para o lado artístico ou até que ponto o ensino artístico é de menor importância, considerando-se que está lidando em primeiro lugar com uma atividade de caráter formativo? (KOUDELA,2006, p.17). Entendo que o teatro possa ser utilizado como recurso didático para qualquer disciplina ou atividade educativa, e em muitos casos, com fins terapêuticos. Acredito, porém, que na escola, dentro da disciplina Arte (Educação Artística), o teatro deva ser encarado como conhecimento específico e que os 127 alunos devam se apropriar desta linguagem para melhor compreensão do papel do teatro no mundo. Não deve ter como objetivo principal dirigir a atuação dos alunos para que participem de espetáculos, mas sim proporcionar aos estudantes – por meio de jogos teatrais - oportunidades para que vivenciem problemas de caráter teatral e que busquem possíveis soluções. O que não impede de também montarem espetáculos se este for o desejo dos alunos e não uma imposição do professor e da escola. Por isto desenvolvi este projeto de Mestrado com turmas de alunos que queriam montar uma peça, com outras turmas faço improvisações e jogos teatrais durante as aulas, não ocorrendo apresentações para outras pessoas senão para os colegas da própria turma. Não existe nada mais constrangedor para mim do que ver crianças - ou pessoas da idade que for - totalmente constrangidas diante do público. Infelizmente é bastante comum escolas fazerem apresentações no final do ano, com pais e parentes filmando e fotografando, e crianças no palco chorando, perdidas, sem saber o que estão fazendo naquele espaço, naquele momento. Algumas crianças gostam de se exibir no palco – são chamadas de desinibidas e talentosas – não vejo nenhuma virtude no exibicionismo puro. Pior ainda quando corrigem outras crianças em cena, algumas literalmente travam e, muitas vezes, estas experiências marcam profundamente as crianças que passam a ter vergonha de apresentações públicas e a considerar o teatro como algo impossível para elas ou algo muito “chato”. Tomo o maior cuidado para que meus alunos estejam à vontade e seguros em cena. Claro que um certo nervosismo é natural. Oriento-os a não revelar erros para o público, caso alguém esqueça um objeto ou parte do texto, ou ainda alguma falha técnica ocorra os alunos-atores devem saber superar os problemas, improvisar coerentemente com o momento da peça e dar prosseguimento ao espetáculo. Os jogos teatrais auxiliam muito nessa capacidade de improvisar e resolver problemas; e um estudo bem feito, do texto e das cenas da peça, colabora para que, caso seja necessário uma improvisação, o espetáculo prossiga com coerência, sem perdas de ritmo, do desempenho dos atores, nem da harmonia cênica. 128 Seja como for acredito que quem entra em um palco deva ter conhecimentos básicos da linguagem teatral e saber o que fará naquele espaço, naquele momento. Koudela observa que Spolin aponta para a “necessidade de fundamentar o trabalho de Teatro-Educação nas características da linguagem” (KOUDELA, 2006, p. 64). Além da construção de conhecimentos sobre linguagem teatral, os jogos teatrais possibilitam que os alunos desenvolvam seus potenciais globais e que melhorem as relações interpessoais, como tenho observado em minha prática como arte educador e que Koudela relata em vários momentos, como no trecho que destaco abaixo, sobre um grupo de crianças e adolescentes de São Paulo, participantes de um projeto realizado em 1978 e subvencionado pelo Serviço Nacional de Teatro: Inicialmente, não tínhamos um grupo, mas apenas um conjunto de crianças. O trabalho foi desenvolvido no sentido de criar confiança e sentimento de grupo. (KOUDELA, 2006, p.69) Após dezesseis encontros com os mesmos alunos, totalizando vinte horas, Koudela observou: A transformação mais marcante foi a socialização entre os participantes. Essa socialização se deu num nível tão profundo, que foi propulsora de outras modificações. O índice foi a diminuição da agitação que caracterizava o grupo, que passou a ter um clima de trabalho sereno. Verificou-se a diminuição da ansiedade e principalmente da agressividade que caracterizavam os relacionamentos (espírito de competição). Esses comportamentos iniciais cederam lugar ao respeito pelo trabalho e opiniões dos parceiros, e afetividade entre todos os membros do grupo, que se evidenciaram na amizade que se criou. (KOUDELA, 2006, p.77) Ressaltando que, esse mesmo grupo, obteve a “conscientização do processo de teatro” (KOUDELA, 2006, p.77). Koudela observou que “podemos verificar na avaliação final a utilização de uma terminologia como instrumento de análise” das cenas e improvisações resultantes dos jogos teatrais utilizados; “ao relacionar na avaliação final os elementos da linguagem com a criação em teatro, os participantes demonstram como se deu a aprendizagem durante o 129 processo.” E, “outro aspecto a ser ressaltado é a transposição da aprendizagem para a realidade de cada participante.” (KOUDELA, 2006, p.88). Através dos jogos teatrais os alunos-atores podem se sentir valorizados, construir conhecimentos, desenvolver habilidades e perceber que são capazes de atuar tanto nos palcos como na vida, podendo assumir seus papéis sociais e, quem sabe, serem responsáveis pela construção de uma sociedade melhor e mais justa para todos. Passarei a falar sobre o sistema de jogos teatrais de Viola Spolin procurando destacar suas principais idéias, também utilizarei a experiência e as referências de Koudela sobre este tema, advertindo que não esgotarei o assunto aqui. Destaco que a própria Spolin modificou e atualiza constantemente seu sistema, por não considerá-lo algo fechado, nem acabado, como observaremos na citação a seguir: Ao mesmo tempo em que Spolin apresenta um sistema que pretende regular e abranger a atividade teatral, ele existe para ser superado e negado enquanto conjunto de regras. Os jogos teatrais constituem portanto uma antididática que suscita uma questão. Como ter uma forma planificada de ação se queremos encontrar uma liberdade de ação? O que é criação, se ela supõe sempre algum sistema ou ordem? (KOUDELA, 2006, p. 47) Estas questões são respondidas por Koudela ao explicitar que o uso do jogo no sistema de Spolin permite conciliar liberdade e experimentações dentro de regras estabelecidas entre os parceiros do jogo. Vemos novamente a necessidade de se criar com limites, a questão da liberdade e das regras na criação humana, seja ela artística ou científica, a ética e a estética, vimos com Read e com outros pensadores que criar artisticamente envolve liberdade, ritmo, harmonia e a busca do Belo e do Bom. Segundo Koudela: Qualquer jogo tradicional é realizado a partir de um certo número de regras, aceitas para colocá-lo em movimento. As regras estabelecidas entre os jogadores determinam uma relação de parceria, que implica observação de determinadas leis que asseguram a reciprocidade dos meios empregados para ganhar. Há, portanto, acordo de grupo sobre as regras do jogo e interação, que ocorre a partir da busca de um objetivo comum. [...] A regra estabelece uma estrutura que prefigura o parâmetro para a ação lúdica. Ela propõe um problema a ser 130 solucionado. [...] Como o problema vai ser solucionado depende da atuação de cada jogador. A tensão desempenha no jogo papel fundamental. Ela significa incerteza, acaso. A solução do problema implica no esforço dos jogadores para chegar até o desenlace e a improvisação espontânea de ações, para vencer o imprevisto. [...] Quando o indivíduo percebe que não existe a imposição de modelos ou critérios de julgamento e que o esquema é claro, ele deixa de lado o medo de se expor (subjetivismo) e participa da ação conjunta. (KOUDELA,2006, p.47/48) Clareza e compreensão das regras e dos objetivos do jogo, sem modelos nem receitas de como se fazer, sem julgamentos de certo ou errado. Cada jogador ou grupo faz suas próprias escolhas e caminhos. O acaso, o imprevisível, a liberdade de experimentar dentro dos limites estabelecidos coletivamente – sem imposições autoritárias - pelas regras e objetivos do jogo. Este acordo grupal gera envolvimento e confiança – uma disciplina salutar. Disciplina sem engessamento. Koudela relata a experiência com um grupo de adolescentes que coletivamente decidiram reformular as regras de um determinado jogo: A reformulação do princípio que a regra estabelece não parte de um sujeito individualmente, mas é passível de transformação, se ela for a expressão da vontade geral. A relação autoritária percebe a regra como lei. Na instituição lúdica, a regra pressupõe processo de interação. O sentido de cooperação leva ao declínio do misticismo da regra quando ela não aparece como lei exterior, mas como resultado de uma decisão livre porque mutuamente consentida. Evidentemente, cooperação e respeito mútuo são formas de equilíbrio ideais, que só se realizam através de conflito e exercício da democracia. O consentimento mútuo, o acordo de grupo determina as possibilidades de variação da regra. A regra, que inicialmente estabelece o parâmetro, perde gradativamente a rigidez. (KOUDELA, 2006, p. 49) Conflito e exercício de democracia, consentimento mútuo, regras passíveis de transformações, reflexões e renovações. Lembro-me de Brecht: O MENINO: [...] Preciso é de um novo grande costume, que devemos introduzir imediatamente: o costume de refletir novamente diante de cada nova situação. [...] O GRANDE CORO: 131 Assim os amigos levaram o amigo E eles criaram um novo costume [...] (Trechos da peça “Aquele que diz sim, aquele que diz não” de B. Brecht) (BRECHT, 1992, p.231 e 232) Novamente a possibilidade de, por meio do teatro, refletir e buscar novos costumes ou resgatar esquecidos – antigos, mas não antiquados no sentido de ultrapassados ou sem serventia – valores humanos. Novas relações, novos sentidos – ou ressignificações éticas e estéticas – para o viver em sociedade. Destacarei a seguir algumas idéias básicas e fundamentais do sistema de jogos teatrais de Viola Spolin. Em seu primeiro livro Improvisação para o teatro, Spolin apresenta no primeiro e segundo capítulos a teoria e a fundamentação de suas idéias; do terceiro ao décimo segundo capítulo são abordados os jogos e exercícios que compõe seu sistema de trabalho; do décimo terceiro ao décimo quinto Spolin aborda o trabalho teatral com crianças; do décimo sexto ao décimo oitavo (último capítulo) ela expõe as diferenças entre teatro formal e teatro improvisacional, apresentando dicas de trabalho e recomendando outros livros de jogos. A obra Jogos teatrais: o fichário de Viola Spolin, tradução de Koudela, publicada no Brasil em 2006 é totalmente dedicada “ao jogo de improvisação”, enquanto o livro Improvisação para o teatro “ainda contém uma terça parte dedicada ao teatro formal (preparação para montagens)”. Segundo Koudela “ambos os livros permitem diversas leituras” e “vários encaminhamentos possíveis do processo”. (KOUDELA, 2006, p. 40) Sobre o Fichário de Viola Spolin a tradutora nos fala: Theatre Game File, publicado em 1975, representa uma atualização de Improvisação para o Teatro. A própria organização em forma de fichário quebra a última referência linear que ainda podia ser talvez buscada no primeiro livro. Principalmente para condução do processo em teatro não existe uma seqüência preestabelecida. A proposta de Theatre Game File é um convite para jogar o jogo. O manual que acompanha os jogos fornece as instruções e o fichário é uma compilação de Spolin, realizada a partir de uma experiência de longos anos com teatro de improvisação. A extensão do jogo depende da realidade de cada grupo. Podemos selecionar jogos específicos isoladamente ou jogar uma seqüência durante um tempo indeterminado. O resíduo do processo de jogos está no metabolismo do grupo. (KOUDELA, 2006, p. 43) 132 Apresentarei alguns jogos de Spolin e a ordem em que normalmente os utilizo em minhas aulas e oficinas teatrais no próximo item desta dissertação, lembrando que existem muitas possibilidades de jogar, não existindo seqüências fixas ou imutáveis, pelo contrário, eu mesmo criei variações e novos jogos de acordo com a realidade e a necessidade de cada turma – sendo que, de acordo com as idéias de Spolin – eu me incluo na “turma”. Para compreender o sistema de Spolin apresento um conceito fundamental em sua obra: FOCO, que no primeiro livro (Improvisação para o teatro) era chamado de POC, Ponto de Concentração, segundo Koudela: Através do Foco ou ponto de concentração do ator, o teatro, que constitui uma forma de arte complexa, pode ser isolado em segmentos para que sejam completamente explorados. [...] O nível de concentração é determinado pelo envolvimento com o problema a ser solucionado. [...] Através do Foco, a avaliação gira em torno de um problema de atuação e não do desempenho de uma cena. [...] Através do foco, a matéria (teatro) é apresentada de maneira segmentada, sendo a “técnica” substituída pela exploração e descoberta de unidades mínimas da linguagem teatral. (KOUDELA, 2006, p.45 a 47) Como exemplos de “unidades mínimas da linguagem teatral” o sistema de Spolin apresenta jogos que trabalham o Onde, Quem, O Que; ou ainda jogos que trabalham habilidades necessárias aos alunos-atores: “jogos de observação, jogos de memória, jogos sensoriais, jogos de aquecimento, agilidade verbal, comunicação não-verbal etc.” (KOUDELA, 2006, p. 42 e 43) Convém salientar que estas “unidades mínimas da linguagem teatral” são sempre trabalhadas de forma integrada, nunca compartimentada, ora um aspecto ora outro é privilegiado por meio do Foco, porém sempre em relação com os demais, o todo em relação as partes, as partes em relação ao todo. Spolin adverte que não bastam análises que dissequem, quantifiquem e compartimentem os saberes: O ator pode dissecar, analisar e desenvolver até mesmo um caso em torno de seu papel se ele for incapaz de assimilar e comunicá-lo fisicamente, terá sido inútil para a forma teatral. Não liberta seus pés nem traz o fogo da inspiração aos olhos da platéia. O teatro não é uma clínica. Não deveria ser lugar para se juntar estatísticas. (SPOLIN,1987, p. 14) 133 Ainda sobre Foco vejamos palavras da própria Spolin: No início, o POC (Ponto de Concentração) pode ser a simples manipulação de um copo, uma corda ou uma porta. Ele se torna mais complexo na medida em que os problemas de atuação progridem, e com isto o aluno-ator será levado a explorar o personagem, a emoção, e eventos complexos. Esta focalização do detalhe dentro da complexidade da forma artística, como num jogo, dá a todos alguma coisa para fazer no palco, cria a verdadeira atuação através da total absorção dos jogadores e através da eliminação do medo da aprovação /desaprovação. A partir deste algo para fazer (atuação) aparecem as técnicas de ensino, direção, representação e improvisação de cena. Na medida em que cada detalhe é desdobrado, torna-se um passo em direção a um todo integrado tanto para a estrutura total do individuo como para a estrutura do teatro. Trabalhando intensamente com partes, o grupo também estará trabalhando com o todo, o qual naturalmente é formado de partes. (SPOLIN, 1987, p.21) Observe-se que o termo POC (Ponto de Concentração) do livro Improvisação para o Teatro foi alterado para FOCO, pela própria autora, em sua obra Jogos Teatrais: o Fichário de Viola Spolin. A mudança de terminologia é bastante relevante no caso deste termo e de outros termos, segundo Koudela: É significativo que Viola tenha substituído o termo “ponto de concentração” por “foco”. O termo ponto de concentração sugere uma mente ausente da realidade, fixada em determinado pensamento. O processo é intelectual. Já o termo “foco” sugere energia, movimento. O jogador deve estar constantemente presente para o aqui/agora. Da mesma forma “relacionamento” é um termo estático e implica representação de papéis, enquanto “relação” é uma força em movimento. O termo “motivação”, limitado e subjetivo, pois implica ter uma razão para tudo, foi substituído por “integração”. (KOUDELA, 2006, p. 148) Na citação acima observamos que Spolin – como outros autores citados nesta dissertação – busca um sistema de criação que não privilegie o racional/intelectual; a percepção e os sentidos formam a base do sistema de jogos teatrais. Vale a pena citar o conceito de ver em cena, para Spolin: 134 Ver (objetivo), em oposição a acreditar (subjetivo); um termo usado em oposição a imaginar ou fingir; “Veja-o!”; parte do equipamento sensorial; [...] ver o universo fenomenal e vê-lo; [...] “Se você vê, nós (o público) também veremos!” (SPOLIN, 1987, p. 349) Spolin quer que o ator-jogador se integre com o ambiente, com os objetos, com os outros jogadores-atores, com os problemas de cena, com a platéia, enfim, todas as partes integradas; buscando dar “realidade” cênica ou teatral no próprio momento em que os fenômenos ocorrem, tendo ações/reações a partir de percepções e sensações físicas, sem psicologismos ou explicações racionais, segundo Koudela: A mesma revolução que ocorre com a criança em desenvolvimento pode ser acompanhada no processo de crescimento do indivíduo no palco. Traduzimos a transformação da subjetividade em objetividade no trabalho do ator quando ele compreende a diferença entre estória e ação dramática. Ao “corporificar” (mostrar) o objeto (emoção ou personagem), ele abandona quadros de referência estáticos e se relaciona com os acontecimentos, em função da percepção objetiva do ambiente e das relações no jogo. O ajustamento da realidade a suposições pessoais é superado a partir do momento em que o jogador abandona a estória de vida (psicodrama) e interioriza a função de Foco, deixando de fazer imposições artificiais a si mesmo e permitindo que as ações surjam da relação com o parceiro. (KOUDELA, 2006, p. 148) Dois outros importantes conceitos presentes nas obras de Spolin são contar e mostrar, bem diferentes um do outro, vejamos: Na avaliação dos jogos com objeto imaginário é estabelecida uma diferença entre “mostrar” e “contar”, ou entre “tornar real” e “fazer de conta”. [...] O fato é que mostrar, através do gesto, torna real o imaginário, na medida em que este passa a ser partilhado por todos os que estão envolvidos na relação palco/platéia. O gesto contado coloca a platéia como tal e ela passa a assistir a um relato. Embora a palavra não seja usada nesses jogos iniciais, a platéia diferencia entre gesto narrativo (mímica) e ação no palco. O gesto “contado” é inventivo – sempre se refere a uma ação passada, enquanto o gesto “mostrado” é orgânico, invoca uma presença. Viola compara o jogador, que dá realidade ao objeto, com o mágico, que tira o coelho da cartola. (KOUDELA, 2006, p. 52-53) 135 Koudela cita depoimentos de alunos de doze a quinze anos do Colégio São Domingos, após um semestre de trabalho. Durante uma avaliação foi colocada a seguinte questão: “Qual a diferença entre ‘faz-de-conta’ e ‘tornar real’?” Transcrevo duas das respostas: “Fazer-de-conta” é quando se fala que está fazendo algo no jogo e, no entanto, não se demonstra. A platéia fica sabendo porque contaram. No “tornar real” a platéia sabe o que está acontecendo porque vê. Não é necessário o jogador contar, a platéia vê realmente ! “Fazer-de-conta” é pensar que está fazendo as coisas. “Tornar real” é estar fazendo as coisas. (sic) (KOUDELA, 2006, p. 53-54) Todos nós percebemos quando um ator “faz-de-conta/finge” ou “torna real” algo em cena. Com meus alunos fica claro, por exemplo, quando alguém lê um jornal (objeto imaginário). Se “faz-de-conta” vira as páginas desleixadamente e balança a cabeça como se estivesse lendo; basta perguntar o que acabou de ler para que responda: “não sei, fiz-de-conta”. E ao questionar a platéia todos relatam que já haviam percebido que o aluno estava “contando” – ou fingindo- o que fazia: mímica de ler um jornal. Caso o aluno “torne real” sua leitura de um jornal perceberemos que tipo de notícia ele está lendo, política, esporte, lazer – mesmo em um jornal imaginário! Sobre a verdade do teatro Koudela encerra lindamente seu livro, com a sabedoria das crianças: O processo de jogos teatrais visa efetivar a passagem do teatro concebido como ilusão para o teatro concebido como realidade cênica. [...] Procuremos traduzir o princípio pelo discurso poético. ‘Mentira? A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer. Mentiras. Lili vive no mundo do faz de conta. Faz de conta que isto é um avião. ZZZzzzzzzun... Depois aterrizou em um piquê e virou um trem. Tuc tuc tuc tuc... Entrou pelo túnel chispando. Mas debaixo da mesa havia bandidos. Pum! Pum! Pum! Pum! O trem descarrilou. E o mocinho? Meu Deus! Onde é que está o mocinho? No auge da confusão, levaram Lili para cama, à força. E o trem ficou tristemente derrubado no chão, fazendo de conta que era mesmo uma lata de sardinha.’ (QUINTANA, 136 Mário. Lili inventa o Mundo. Porto Alegre, Ed. Mercado Aberto,1983 apud KOUDELA, 2006. p. 148-149) Koudela finaliza: Nós adultos, precisamos invocar a criança que existe dentro de nós quando jogamos o jogo teatral. Como disse Daniela Menezes (11 anos): ‘Na poesia a mentira (o faz-de-conta) é só a menina que sabe e ela sente como se fosse de verdade, no teatro é uma mentira que todos estão percebendo e sabem que é de mentira. E existe também uma mentira que faz os outros acreditarem que é verdade.’ Ou Thais Ramos Nucci (11 anos): ‘No faz-de-conta da poesia só a menina Lili que vive sua mentira e o tornar real do teatro todos sabem e participam da mentira que está sendo realizada no palco e que em poucas horas ou minutos termina e tudo volta para a realidade.’ (KOUDELA, 2006, p.149) Jogo e teatro, espaço e tempo diferentes da realidade... Com suas regras e liberdade. Poesia. Linguagem. Outras formas de conhecer a verdade. Pausa para reflexões... Estas questões – verdade e arte – me lembram Stanislávski, grande mestre russo do teatro universal, uma das influências na formação de Viola Spolin, como ela mesma fez questão de citar. Existe uma grande diferença entre Stanislávski e Spolin. Enquanto ele propôs a utilização de elementos psicológicos no trabalho de atuação, tal como o uso da memória emotiva do ator na composição da personagem; Spolin aboliu totalmente qualquer aspecto psicológico em seu sistema de atuação teatral. Porém existem muitos pontos de contato entre o mestre russo e a mestre norte-americana. Stanislávski diz que, no palco, devemos sempre ter o(s) objetivo(s) claro(s) da personagem em cada cena e ter justificativas para cada ação realizada durante a peça. Na obra de Spolin o uso do Foco elimina a necessidade de se pensar nos objetivos das personagens, até porque o ator se relaciona com outros atores-jogadores e não com personagens (KOUDELA, 2006, p.50). Spolin também aboliu as justificativas racionais para as ações; porém vale lembrar que toda vez que o aluno-ator entra em cena ele tem o objetivo daquele jogo bem claro e definido... E que, ação é um termo que 137 Spolin cunhou de Stanislávski. Inclusive Viola inicia o décimo quarto capítulo de seu livro (já citado) com um item intitulado Ação Interior (SPOLIN, 1987, p.261). O próprio Foco de Spolin, em alguns jogos, se aproxima do conceito dos círculos de atenção (pequeno, médio, grande, maior de todos) de Stanislávski. O mestre russo dizia que devemos ter verdade e fé cênica – conceito que nos remete a “tornar real” e não “fazer-de-conta”... Poderia fazer um cotejo entre os sistemas de Stanislavski e de Spolin, mas este não é o objetivo desta dissertação. Só enumerei alguns aspectos para evidenciar que Stanilávski é um clássico que reverbera em muitas obras contemporâneas, mesmo quando alguns de seus princípios são negados, afinal, o próprio Stanislávski – como Spolin – nunca defendeu a idéia de um método ou sistema fechado e imutável de trabalho... Citei Stanislávski também porque ele e Viola convergem em relação a um conceito fundamental; ele em suas últimas pesquisas, e ela desde que criou seu sistema. Primeiramente farei menção deste conceito na obra de Viola e posteriormente irei explicitá-lo no método de Stanislávski. Trata-se do conceito de “physicalization”, anteriormente traduzido por fisicalização e atualmente por corporificação. (KOUDELA, 2006, p.51). Para falar sobre “physicalization” faz-se necessário que se fale sobre outros três conceitos muito importantes no sistema de Spolin: os conceitos de experienciar, de intuição e de espontaneidade. Segundo Viola “todas as pessoas são capazes de atuar no palco”; não se trata de uma questão de “talento” ou de “falta de talento”. De acordo com Viola o que é “chamado comportamento talentoso” possa ser simplesmente uma “maior capacidade individual para experienciar” (SPOLIN,1987, p. 3). Experienciar, segundo Spolin, é “penetrar no ambiente, é envolver-se total e organicamente com ele”. Para Spolin este envolvimento se dá em todos os níveis: “intelectual, físico e intuitivo. Dos três, o intuitivo, que é o mais vital para a situação de aprendizagem, é negligenciado.” Viola diz que todos nós tivemos momentos em que a resposta certa “simplesmente surgiu do nada” ou momentos em que “fizemos a coisa certa sem pensar”. Para Spolin quando “a resposta a uma experiência se realiza no nível do intuitivo, quando a pessoa trabalha além de um plano intelectual constrito, ela está realmente aberta para aprender”. (SPOLIN,1987, p. 3-4) Segundo Viola: 138 O intuitivo só pode responder no imediato – no aqui e agora. Ele gera suas dádivas no momento de espontaneidade, no momento quando estamos livres para atuar e inter-relacionar, envolvendo-nos com o mundo à nossa volta que está em constante transformação. [...] A espontaneidade cria uma explosão que por um momento nos liberta de quadros de referência estáticos, da memória sufocada por velhos fatos e informações, de teorias não digeridas e técnicas que são na realidade descobertas de outros. [...] É necessário um caminho para adquirir o conhecimento intuitivo. Ele requer um ambiente no qual a experiência se realize, uma pessoa livre para experienciar e uma atividade que faça a espontaneidade acontecer. Este texto é um curso planejado para tais atividades. (SPOLIN,1987, p. 3 e 4) Este texto como um “curso planejado para tais atividades” que façam a espontaneidade acontecer, a que Spolin se refere, é seu sistema apresentado no livro Improvisação para o Teatro. Sobre espontaneidade Spolin no fala: A espontaneidade é um momento de liberdade pessoal quando estamos frente a frente com a realidade e a vemos, a exploramos e agimos em conformidade com ela. Nessa realidade, as nossas mínimas partes funcionam como um todo orgânico. É o momento de descoberta, de experiência, de expressão criativa”. (Spolin, 1979, p.4) Viola enumera e comenta em seu livro cada um dos “sete aspectos da espontaneidade”, a saber: Jogos, Aprovação/Desaprovação, Expressão de grupo, Platéia, Técnicas teatrais, A transposição do processo de aprendizagem para a vida diária,e, por fim, Fisicalização. Falemos sobre este último conceito. Utilizarei algumas palavras de Koudela que elucida as relações entre espontaneidade e fisicalização/ corporificação: A espontaneidade equivale portanto à liberdade de ação e estabelecimento de contato com o ambiente. [...] quando o processo de improvisação é deixado totalmente livre, poucas vezes ele pode ser identificado com ação espontânea. Pelo contrário, logo se revelam quadros de referência estáticos ou estereotipias na atuação e comportamentos de dependência que são mais prejudiciais do que compensadores. Spolin estabelece uma diferença entre inventividade e espontaneidade. Ao trabalhar apenas com a associação de idéias (estória), o jogo de improvisação permanece ainda no plano cerebral. A ação espontânea exige uma integração entre os níveis físico, emocional e cerebral. Em oposição a uma 139 abordagem intelectual ou psicológica, o processo de jogos teatrais busca o surgimento do gesto espontâneo na atuação, a partir da “corporificação”. (KOUDELA, 2006, p. 51) Vejamos algumas palavras da própria Viola: O termo “fisicalização” usado neste livro descreve a maneira pela qual o material é apresentado ao aluno num nível físico e não verbal, em oposição a uma abordagem intelectual e psicológica. A “fisicalização” propicia ao aluno uma experiência pessoal concreta, da qual seu desenvolvimento posterior depende, e dá ao professor e ao aluno um vocabulário de trabalho necessário para um relacionamento objetivo. (SPOLIN, 1979, p.13 e 14) Spolin fala sobre como a “fisicalização” (ou “corporificação”) apresentada em seu sistema libera o aluno-ator do medo da aprovação/desaprovação: Estamos interessados somente na comunicação física direta; os sentimentos são um assunto pessoal. Quando a energia é absorvida num objeto físico não há tempo para “sentimentos”. Se isto parece rude, esteja certo de que insistir no relacionamento objetivo (físico) com a forma de arte traz uma visão mais clara e uma maior vitalidade, pois a energia retida no medo de se expor é liberada na medida em que o aluno reconhece que ninguém está interessado em saber onde ele escondeu o cadáver. (SPOLIN, 1987, p.14) Ressalto que o sistema de Spolin é muito útil em nossas escolas, onde em muitas delas não encontramos recursos materiais para as aulas de teatro, e, mesmo assim, podemos ter excelentes resultados: No teatro de improvisação, por exemplo, onde pouco ou quase nenhum material de cena, figurino ou cenário são usados, o ator aprende que a realidade do palco deve ter espaço, textura, profundidade e substância – isto é, realidade física. É a criação dessa realidade a partir do nada, por assim dizer, que torna possível dar o primeiro passo, em direção àquilo que está mais além. O ator cria a realidade teatral tornando-a física. (SPOLIN, 1987, p.15) Não detalharei os jogos do sistema de Spolin, porém devo explicitar que seus primeiros jogos são não-verbais, para se evitar o uso do intelecto (Contar) e provocar o uso do físico/corpo para (Mostrar) “tornar real” o que a cena pede. 140 Spolin adverte que o professor fale somente o necessário, que evite dar exemplos – para não influenciar o Como – cada jogo tem suas Instruções apresentadas de forma clara e concisa. Viola também sugere que se utilize jogos de aquecimento no início das aulas/sessões, durante ou sempre que for necessário elevar a vitalidade do grupo, por exemplo “quando os alunos se tornarem impacientes ou estáticos”. (SPOLIN, 1987, p.33-34) Retomo agora o conceito de “fisicalizar ou corporificar” de Spolin buscando relacioná-lo com a obra de Stanislávski, segundo Koudela o próprio mestre russo, em suas últimas pesquisas, estava mais interessado em aspectos físicos/corporais do que em aspectos psicológicos: Stanislávski dedicou os últimos anos de sua vida ao “método das ações físicas”. É através da “vida corporal do papel” que se realiza a criação da personagem. O teatro solicita o olhar do espectador, sua emoção e julgamento. O processo de identificação psicológica não basta – cabe ao ator encarnar e mostrar a personagem. “Quanto mais a passagem da forma interior para a forma exterior for imediata, espontânea, viva, precisa, mais a compreensão da vida interior da personagem que vocês interpretam será, para o público, justa, ampla e plena. É para atingir este resultado que as peças foram escritas e que o teatro existe” (STANISLÁVSKI, A Construção da Personagem, 1976 apud KOUDELA, 2006, p. 147) Convém lembrar que o mestre russo Stanislávski (1863-1938), foi um dos responsáveis pelo surgimento e apogeu do teatro realista-naturalista. Antes dele havia um “artificialismo” em cena, atores representavam com gestos e expressões exageradas, muito “teatrais”. Claro que, para determinadas obras, a “teatralidade” exagerada é muito bem vinda e ainda hoje utilizada. Porém, naquela época, de grandes transformações políticas, econômicas e sociais, Stanislávski pretendeu trazer – e trouxe – para a cena teatral uma interpretação mais verdadeira e natural, mais apropriada para os novos tempos e novos autores que surgiam, como Tchekhov, Ibsen, entre outros. Muitas idéias dele são utilizadas até hoje pelos atores e estudantes de artes cênicas nos teatros, cinemas e vídeos; principalmente para peças e obras realistas-naturalistas. Outras obras, de diferentes estilos teatrais tais como absurdo, épico, simbolista, entre outros, requerem outros estilos de 141 interpretação e, conseqüentemente, outros sistemas de preparação de atores e de composição de personagens. Como compor uma personagem não realista, como um móvel, uma máquina ou um ser imaginário? Neste sentido o sistema de Spolin possibilita que atores interpretem diferentes personagens nos mais diversos estilos teatrais, melhor ainda, que não se prendam a estilos e formas preexistentes, mas sim que busquem um novo estilo de teatro. Encerrarei este item falando sobre a relação professor-aluno no sistema de Spolin. Segundo Viola o professor deve fazer parte do jogo – sem autoritarismos, possibilitando uma convivência democrática. Deve controlar suas ansiedades, deve participar junto aos seus alunos: O professor encontrará seu caminho se nunca perder de vista o fato de que as necessidades do teatro são o verdadeiro mestre, pois o professor também deve aceitar as regras do jogo. (SPOLIN, 1987, p. 8) Spolin fala sobre o papel fundamental do “professor-diretor como o líder do grupo”: Ele deve estar sempre alerta para trazer novos problemas de atuação para solucionar quaisquer dificuldades que possam aparecer. Ele se torna diagnosticador, por assim dizer, desenvolvendo suas habilidades pessoais, em primeiro lugar para descobrir aquilo de que o aluno necessita ou o que está faltando para o seu trabalho, e em segundo lugar para descobrir aquele problema que funcionará o mais exatamente para o aluno. [...] Problemas para solucionar problemas, projeção da voz, caracterização, ação no palco, desenvolvimento de material para improvisação de cenas – tudo isso pode ser trabalhado deste modo. (SPOLIN, 1987, p. 19-20) Spolin expõe como a técnica de solução de problemas utilizada em seu sistema de jogos teatrais possibilita melhorias e maior autonomia na relação aluno-professor e professor-aluno: A técnica de solução de problemas [...] dá um foco objetivo mútuo ao professor e ao aluno. [...] Ela elimina a necessidade de o professor analisar, intelectualizar, dissecar o trabalho de um aluno com critérios pessoais. Isto elimina a necessidade de o aluno ter que passar pelo professor, e o professor ter que passar pelo aluno para aprender. Ela proporciona a ambos o 142 contato direto com o material, desse modo desenvolvendo o relacionamento ao invés da dependência entre os dois. Ela torna a experiência possível e suaviza o caminho para que pessoas de formação diferente trabalhem juntas. (SPOLIN, 1987, p. 19) Ouvimos muitos professores reclamarem de cansaço e de desgaste após as aulas. Sobre isto Viola adverte: Assim como professor-diretor observa seus alunos quanto à inquietação e fadiga, ele deve também observar a si próprio. Se após uma oficina de trabalho ele encontrar-se esgotado e cansado, deve rever cuidadosamente seu trabalho e ver o que ele está fazendo para criar esse problema. Uma experiência sadia e revigorante só pode gerar ânimo. (SPOLIN, 1987, p. 34) As oficinas de jogos teatrais devem ser sempre revigorantes e alegres. Já foi citada a necessidade de se manter a “vitalidade” dos alunos e, também, do professor. Pode-se utilizar jogos de aquecimento ou qualquer estratégia para se elevar a energia do grupo. Vivo estas experiências e por isto fico decepcionado quando alunos falam que participaram de outras aulas de teatro (ou de Arte) e que eram aulas muito chatas... Uma pena! O professor deve encontrar primeiro para ele a alegria e a “boniteza” de ensinar. Aulas chatas são o contrário do que quero e acredito; minha opinião é baseada em tantos mestres; Peter Slade declara que “boas aulas de jogo dramático infantil” devem ser “cheias de alegria” (SLADE,1978, p. 95) , e Spolin nos diz: Todo indivíduo que se envolve e responde com seu todo orgânico a uma forma artística, geralmente devolve o que é comumente chamado de comportamento criativo e talentoso. Quando o aluno-ator responder com alegria e vitalidade, o professor-diretor saberá que o teatro está, então, em sua pele. (SPOLIN, 1987, p. 37) Como disse Freire: A atividade docente de que a discente não se separa é uma experiência alegre por natureza. [...] A alegria não chega apenas no encontro do achado mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. (FREIRE,1996 p.142) 143 Encerro este item com algumas palavras de Susanne Langer, citada por Koudela, quando discute a questão das aulas de teatro, “considerado um braço da educação formal”. Para Koudela e Langer é muito mais do que isto: As artes objetivam a realidade subjetiva e subjetivam a experiência externa da Natureza. A educação artística é a educação do sentimento e uma sociedade que a negligencia se entrega à emoção amorfa. Má arte é corrupção do sentimento. (LANGER, Susanne. Ensaios Filosóficos. São Paulo, Cultrix, 1971 apud KOUDELA, 2006, p. 92) Objetividade e subjetividade. Razão e emoção. Corpo, intelecto, intuição e sentimento. Palco e platéia. Tudo isto junto. Integração. Comunicação. Linguagem. Estrutura. Forma artística. Experiências. Buscas. Resolução de problemas. Método. Sistema. Espontaneidade. Criatividade. Jogo. Alegria. Harmonia. Liberdade e regras. Energia e Vida. Estas, entre outras, são palavras que ecoam em mim ao final deste item. 3.4 – Oficinas e jogos teatrais Neste momento descreverei quais foram os jogos teatrais e as atividades de dramaturgia, interpretação teatral, técnica vocal e expressão corporal que utilizei. Tentarei passar um pouco das minhas experiências e conhecimentos construídos nesta montagem que foram somados as experiências e conhecimentos anteriores a ela. Devo salientar que uma coisa é fazer oficina de teatro em um curso livre, fora do horário das aulas, onde a maioria dos alunos não se conhece, porém procuram a oficina por interesses próprios; e outro é dar aulas de teatro dentro da grade de disciplinas e do horário escolar. Quando Teatro é uma disciplina optativa, ou quando é um curso que o aluno escolheu, praticamente nunca encontrei nenhum problema de indisciplina ou de apatia, pelo contrário, os alunos são muito interessados e participantes. 144 Quando as aulas são ministradas dentro da grade escolar do Ensino Fundamental, e o aluno é obrigado a fazer todas as disciplinas, costumam ocorrer alguns problemas. No segundo caso, no horário e na grade escolar, os alunos já se conhecem, podem existir as “panelinhas” dentro de uma turma e têm aqueles alunos que costumam “brincar” e atrapalhar as aulas de quase todos os professores... Além disto, muitos podem pensar – e normalmente pensam – que farão uma pausa das aulas sérias (matemática, português, física, química...) e que poderão “brincar” e liberar energias... Mostro aos alunos que nas aulas de Teatro (como também nas aulas de Arte ou de Educação Física) não se trata simplesmente de liberar energias e sim de canalizá-las, saber utilizá-las de forma prazerosa e produtiva. Nada contra o “brincar”, desde que os alunos entendam que existem regras e que, mesmo se tratando de algo divertido, “brincar” é algo tão educativo e tão sério quanto qualquer outra matéria escolar. Aprende-se brincando, ou melhor, jogando. Mas aprende-se. Não é mera perda de tempo, pelo contrário, é tempo bem gasto! Por isto quando algum aluno fala: “Professor eu não quero brincar...” ou “Eu não gosto...” Pergunto se todos gostam de matemática, inglês etc. e se não participam das aulas que não gostam, se não fazem as atividades propostas... Alguns dizem que não fazem. “Ok!” - eu respondo. E complemento: “Então não assista minha aula, não é obrigado a ficar na sala. Mas, se ficar, vai participar. Não pode apenas ‘assistir’. A platéia também faz parte ativamente do jogo. Todos vão jogar, eu inclusive”. Como na maioria das escolas as regras não permitem que os alunos simplesmente saiam da sala, ou que não assistam as aulas que não querem, eu também digo: “Peça uma autorização de seus pais ou responsáveis para você não participar das minhas aulas, eu falo com a Direção e você fica no pátio fazendo outra atividade”. Nunca algum aluno chegou a tanto... Quebrada a resistência e a rebeldia, de pouquíssimos alunos, todos acabam participando... Eu brinco: “não vai doer nada... Vai ser legal!” E, em pouco tempo, torna-se uma aula muito legal e contagiante. Para aqueles que realmente não gostam eu peço que participem de atividades em grupos, que 145 ajudem na cenografia, na sonoplastia ou no que for preciso. E que todos respeitem os colegas em cena, sem comentários maldosos ou piadinhas. Acaba funcionando. Porém como cada turma é uma turma, não existem receitas, devemos fazer as necessárias alterações nos planos das aulas, sentir os alunos e a nós mesmos. Normalmente um acordo coletivo antes de começar os jogos já basta para que todos participem respeitosamente. Porém, quando ocorrem “abusos”, mesmo depois de termos feito um “acordo coletivo” eu procedo de duas formas. O primeiro caso é quando apenas um, ou no máximo dois alunos, não têm limites; alunos que não respeitam regras - então costumo tirá-los da sala. Mas isto quase nunca é necessário, porque eles já sabem as regras e as conseqüências do não respeito a elas, tudo foi combinado antes. Como a maioria da sala gosta e quer participar dos jogos teatrais uma minoria não consegue comprometer o bom andamento dos jogos, os próprios colegas controlam os colegas que atrapalham. O segundo caso é quando, por algum motivo, os ânimos se exaltam, a sala toda fica muito “ruidosa” e se inicia uma “bagunça” generalizada, então eu digo que vou suspender os jogos e dar outro tipo de aula, só esta suposição já faz com que os ânimos se acalmem e que a aula flua com tranqüilidade. Feitas estas observações passarei a relatar os jogos/atividades que desenvolvo e como conduzo minhas aulas. Em minhas oficinas, a maior parte do tempo, é de atividades práticas. A teoria é apresentada junto às reflexões feitas após os jogos e atividades. Tomando o cuidado para não “intelectualizar” ou verbalizar demais, porém acho importante que os alunos saibam porquê e para que fazem determinado aquecimento físico ou vocal, qual o objetivo de determinado jogo, qual sua relação com o trabalho do ator no teatro. “Para que serve este jogo?” – pergunto. Alunos respondem, por exemplo: “Para trabalhar a memória, a concentração...”. “E por que o ator precisa exercitar a memória e a concentração?” Os alunos logo me dão as respostas. Outra pergunta que faço aos alunos gera um bom debate, e eu não dou a resposta; refletimos sobre ela, principalmente observando e avaliando os jogos teatrais: “O ator, no palco, pode ficar de costas para o público?” E por ai vamos... 146 Não venho com “discursos” expositivos. Faço perguntas para que os alunos reflitam sobre os elementos que fazem parte da formação (habilidades / competências) dos atores e sobre os elementos da linguagem teatral. Já ministrei cursos que, após três anos na mesma escola de teatro, os alunos não sabiam porque faziam determinadas atividades corporais, alguns até achavam que era perda de tempo.. Claro que nem tudo precisa ser explicado... Convém ao professor falar – ou levar os alunos a falarem e a refletirem – sobre o que cada aluno quer e precisa ouvir, o que eles precisam saber, até porque, muitas vezes, o aluno não percebe que já sabe... Aproveito em minhas oficinas para apresentar, resumidamente, alguns aspectos da história do teatro e de outros elementos presentes nas apresentações teatrais (Noções Básicas de Cenografia, Indumentária, Iluminação, Sonoplastia, Divulgação e Produção Teatral). Daí porque falo, em momentos adequados, sobre espaços cênicos, máscaras, estilos, etc.; falo sobre quem foi Téspis, Stanislavski, Brecht, Boal, Artaud, Appia, entre tantos outros importantes nomes do teatro mundial. Com grupos de adolescentes e de adultos costumo iniciar minhas oficinas - logo no primeiro encontro, antes mesmo que os alunos se apresentem ou que eu faça alguma dinâmica de integração - com o jogo “Exposição” de Viola Spolin (SPOLIN, 1987, p. 47 ou Ficha A1). Gosto de vê-los no palco sem saber o que fazer, nem por que lá estão; com certo medo e nervosismo. Gosto mais ainda quando, durante o jogo e no momento da Avaliação, os alunos percebem que existe uma forma de controlar o desconforto de estar em Exposição diante do público. Por meio deste jogo os alunos compreendem o conceito de Foco. Tendo Foco os alunos, como eles próprios dizem: “a gente acaba esquecendo o medo do público” e “focando no que está fazendo em cena”. Durante este primeiro jogo, com alunos que já se conhecem, podem ocorrer, normalmente ocorrem, algumas brincadeiras. Eles tentam falar e “fazer gracinhas”; tanto o grupo que está em Exposição - como se estivessem em um palco e em pé, quanto o grupo que está sentado diante do “palco”, como platéia. Tentam provocadoras. “chamar atenção” fazendo caretas, falando frases 147 As risadas são naturais, até pelo constrangimento da situação. As instruções de Spolin são muito claras. O professor deve verbalizar bem pouco, somente o necessário. Como as regras foram combinadas antes, mesmo com alunos que já se conhecem e que fazem “gracinhas”, o jogo flui normalmente, poucas vezes preciso lembrá-los das conseqüências do não cumprimento das regras... (Suspender os jogos, tirar da sala, advertência escrita...) Passados alguns minutos todos entram no clima do jogo. Liberdade e prazer com limites/regras. Após o jogo Exposição, quando sei que faremos a montagem de uma peça de teatro formal, costumo falar sobre Viola Spolin e sobre Stanislavski. Até porque, na maioria das oficinas de teatro, acabamos apresentando um trabalho final, nem que sejam cenas criadas a partir dos jogos. No caso de atores muito jovens ou de apresentações de teatro improvisacional não preciso falar sobre Stanislavski. Quando falo sobre ele relato como era o teatro na sua época - antes e após Stanislavski criar o seu sistema (realista / naturalista) e como é o teatro hoje (temos muitos estilos de representação). Mostro como os jogos de Spolin serão muito úteis para que, de forma divertida, a gente aprenda utilizar os elementos da linguagem teatral. Falo sobre Stanislavski porque alguns conceitos serão utilizados durante a montagem e neste momento já é conveniente apresentá-los: os conceitos de Objetivo(s) e de Ações Físicas, conceitos que estão muito ligados um ao outro, vejamos: Objetivos A divisão de uma peça em unidades que possibilitem o estudo de sua estrutura tem um propósito. [...] Existe outra razão interior, muito mais importante. No âmago de cada unidade encontra-se um objetivo criador. [...] Cada objetivo deve trazer, em si, a gênese da ação. [...] Vocês não devem tentar exprimir o significado de seu objetivo em termos de um substantivo, [...] mas [...] devem sempre empregar um verbo [...] (por exemplo “quero”, ou “quero fazer”). [...] A princípio, é melhor optar por objetivos físicos simples, mas que sejam atraentes. [...] Todos os objetivos físicos terão, em si, algo de um objetivo psicológico, uma vez que indissoluvelmente ligados. [...] Não se esforcem demais por definir a linha divisória; [...] orientemse pelos seus sentimentos, fazendo sempre a balança pender ligeiramente para os objetivos físicos. [...] A correta execução 148 de um objetivo físico ajudará a criar um estado psicológico ideal. . An Actor Prepares .Creating a Role (STANISLAVSKI, 1997, p. 142) Lembrando que o sistema de Spolin não trabalha nenhum aspecto psicológico, nem utiliza os conceitos de objetivo(s) nem de justificativa(s); porém, nada impede que os alunos conheçam o sistema de Stanislavski e compare-o ao de Viola. Sobre a ação no teatro, Stanislavski expõe: Ação Em cena é necessário agir, não importa se exterior ou interiormente. Tudo o que acontece em cena tem um objetivo definido. [...] No teatro, toda ação deve ter uma justificativa interior, deve ser lógica, coerente e verdadeira [...] e, como resultado final, temos uma atividade verdadeiramente criadora. [...] As pessoas que não compreendem a linha das ações físicas num papel costumam rir quando lhes explicamos que uma série de ações simples, físicas e realistas são capazes de emprestar [...] a vida de uma alma humana a um papel. [...] A questão fundamental não se encontra nestas ações triviais e realistas, mas em toda a seqüência criativa, desencadeada em decorrência de tais ações físicas. . An Actor Prepares . Creating a Role . Stanislavski’s Legacy (STANISLAVSKI, 1997, p. 1, 2, 4 e 5) Para Stanislávski o conceito de Objetivo em cena é fundamental: objetivo para entrar, permanecer e para sair de cena. Mostro a diferença entre o conceito de Foco (Spolin) e de Objetivo (Stanislávski) – Foco é totalmente orgânico, você olha, pega, age se concentra no aqui e agora, sem “explicações” racionais. Objetivo é mais intelectual, você pensa, estuda o texto da peça, usa tua memória para criar e justificar as Ações. Explico também que, toda personagem de uma peça, filme ou novela tem um Superobjetivo, segundo Stanislavski: Superobjetivo Numa peça, todo o fluxo dos objetivos individuais e menores, todos os pensamentos criativos, sentimentos e ações do ator, devem convergir para a realização deste superobjetivo. . An Actor Prepares 149 . Creating a Role (STANISLAVSKI, 1997, p. 176-177) Para elucidar o conceito de Superobjetivo dou exemplos de peças, filmes ou novelas que todos assistiram. Muitas vezes o Superobjetivo da personagem é “ficar rica,enriquecer”, para alcançar este Superobjetivo a personagem tem outros objetivos que precisa realizar ou alcançar para chegar ao Superobjetivo, no caso de “enriquecer” ela pode arrumar um bom cargo em uma ótima empresa, e depois: aplicar um grande golpe; roubar; se tornar amiga do dono da empresa para conseguir uma ótima promoção; namorar e casar com o dono ou com um acionista rico e poderoso etc. Cito que ninguém, na vida comum, faz nenhuma Ação se não tiver um Objetivo ou uma Justificativa para tal Ação. Por exemplo, se eu me levanto é para pegar alguma coisa ou mesmo que seja para me alongar e me espreguiçar um pouco, ninguém se levanta sem ter um porque. Para a escrita de textos teatrais estas noções de Objetivos menores subordinados ao Superobjetivo da personagem são muito úteis e necessárias. Para o ator, não basta ter entendimento racional do texto, nem estar emocionado com a cena se não consegue demonstrar para o público – têm pessoas na vida que não expressam o que sentem ou pensam. Pergunto aos alunos: “- Como o ator Mostra o que está pensando/sentindo? Como Mostra qual o seu objetivo – ou Foco – na cena?” Os alunos normalmente falam sobre “expressão facial, corporal, gestos, voz...” E eu complemento: “Ações físicas!” Para o meu segundo jogo coloco uma cadeira no meio do palco, ou do espaço que é usado como palco. Digo que não poderão usar nenhum outro objeto real, só a cadeira. Poderão usar objetos imaginários. Não poderão falar. Deverão Mostrar, não Contar! Dou as instruções: “entrar em cena e ter um Objetivo para usar a cadeira. O Foco deve ser a cadeira!” Também combino com os alunos que sempre que eu falar: “-Um minuto!” os alunos-jogadores devem continuar concentrados no Foco do jogo ou da cena – não devem olhar para o professor ou para os colegas, nem apressar ninguém – devem somente ouvir o comando “-Um minuto!” e conduzir, calmamente, a cena (jogo ou improvisação) para um final; não devem acabar abruptamente, mas não devem 150 se estender demais, eles tem, em média, mais um minuto para finalizarem o que estão fazendo. No jogo da cadeira eles, comumente, sentam-se e criam “estórias”, caem, sentam-se de novo; lêem algo; assistem TV; dormem etc. Faço a Avaliação após cada aluno se apresentar: “Muito bem! Usou a cadeira? (alunos respondem) Sim, usou; mas o Foco da atenção dele foi a cadeira?” A maioria diz que não... Foi o livro, a TV, não teve Foco nenhum... Peço para alguém que queira participar do jogo observar e seguir as Instruções: “Use a cadeira, o Foco tem que ser a própria cadeira!” Logo alguém entende, entra em cena e “limpa a cadeira”. Alguns limpam “fazendo de conta”, o pano da limpeza – imaginário - aparece e desaparece das mãos do ator... Na avaliação alguém sempre fala sobre os objetos que sumiram... Se ninguém fala eu pergunto: “Vocês viram os objetos imaginários? Foram bem mostrados e usados?” Peço para o aluno “limpar a cadeira” novamente, concentrado no Foco, a cadeira, e na Ação de limpar, no uso dos objetos, limpe de verdade – torne real, não faça de conta, Mostre! Não conte! Todos acabam entendendo os conceitos de Foco; Mostrar, não contar; e Ações. Logo outro entra e pinta a cadeira; outro a conserta; outro a ajeita e a desenha. Todos concentrados no Foco, na cadeira, Mostrando através de Ações Físicas, manipulando objetos imaginários, tornando-os reais! Passo então ao terceiro jogo: sem falar Mostrar, com uma Ação, da Onde a personagem está vindo. Dou um exemplo: saio da sala, dou um tempo para iniciar o jogo. Então entro fazendo uma Ação: soprando as unhas, com uma de minhas mãos próxima da boca. Os alunos rapidamente falam: “Está vindo da manicure!”. Assim, aluno por aluno, um por vez, sai da sala e entra fazendo uma Ação. Quando observo que todos estão compreendendo que sem falar, sem contar estórias, o ator pode Mostrar da Onde vem. Passo então para outro jogo: Mostrar para Onde vai. E eu saio da sala “mostrando que estou apressado e apertado para ir ao banheiro!” Os alunos participam do jogo, um de cada vez. Spolin propõe que o palco seja como um “corredor”, o aluno-ator passa pelo palco mostrando da Onde vem e para Onde vai, por exemplo: entra em cena espreguiçando os braços e tentando abrir os olhos - veio do quarto, 151 acabou de acordar - e mostra que vai ao banheiro, no caminho enrola uma toalha na cintura etc. Percebam que, após o jogo da Exposição, feito por grupos de alunos, os jogos seguintes – da cadeira, mostrar de Onde vem e mostrar para Onde vai, foram jogos individuais. Está na hora de um jogo coletivo... Proponho o jogo: mostrar Onde está, com objetos imaginários. Um atorjogagor entra e, com Ações, sem falar, mostra Onde está. Quem, da platéia, entender que Onde é este, entra neste mesmo Onde – um de cada vez, sem verbalizar nada - e pode, ou não, se relacionar com o primeiro jogador. Exemplos: um entra e mostra – sem falar nada - que está “escrevendo na lousa” e “explicando uma matéria”, logo outros alunos-jogadores entram e assumem papéis de alunos no mesmo Onde, uma sala de aula. Outros exemplos de Onde muito comuns: uma praia, um supermercado, uma sala de orquestra musical, um salão de beleza etc. Neste jogo peço para que um inicie e entrem mais quatro no máximo, senão todos querem entrar e, muita gente junto, vira bagunça... A primeira aula acontece mais ou menos assim. Se der tempo termino a aula com uma “corrente”. Todo início e final de aula - e sempre antes de cada apresentação de uma peça – o pessoal do teatro costuma fazer uma “corrente”. Exemplo básico de “corrente”: os alunos e o professor – ou atores e diretor – dão as mãos, olham uns nos olhos dos outros, balançam as mãos para o centro do círculo e para fora, num crescendo e vão verbalizando um “Ôôôooooooo” , levantando os braços e aumentando o tom de voz até “explodirem” a corrente e baterem palmas. O objetivo é unir o pessoal, levantar o “astral” e concentrar a energia do grupo. Ou, lembrando Huizinga, delimitar que o Teatro, como todo jogo e todo ritual, tem um tempo e espaço próprio, diferente da vida “comum”. Esta delimitação é muito importante! Existem outras formas de se fazer “correntes”, girando em círculos de mãos dadas, contando os passos para a direita e para esquerda sucessivamente, 8 passos para a direita, 8 passos para a esquerda, depois 4 e 4, 2 e 2, 1 e 1; solta-se as mãos, bate-se palma, gira o corpo, dão-se as mãos e começa de novo para o outro lado: 8-8, 4-4, 2-2, 1-1... Sempre num ritmo crescente. Esta “corrente” esquenta todo mundo! Existem muitas variações... 152 Nas primeiras aulas faço dinâmicas de apresentação: entrevistas em duplas, preencher uma lista de curiosidades sobre os colegas andando pela sala, relatos em círculo... Também faço jogos de aquecimento e de integração utilizando todo o espaço livre. Os alunos tocam os corpos dos colegas – ombros, joelhos, cotovelos... Sem muita intimidade, mas quebrando o gelo e as distâncias. Trabalho aquecimento/alongamento físico e, em aulas mais avançadas, aquecimento vocal. Nas atividades de expressão corporal costumo utilizar o jogo do espelho – apresentarei no Anexo 01 em que livros e/ou fichas poderão ser encontradas as descrições deste(s) jogo(s) – e de outras atividades de consciência corporal; eixos, direções e planos espaciais; formas fechadas e formas abertas; preenchimento do espaço em duplas; diálogo de movimentos; fatores do movimento de Laban etc. Não as descreverei senão daria outro capítulo. Procuro criar confiança entre os membros do grupo, proponho o jogo de condução de cego, em duplas: é um jogo silencioso, exige muito cuidado e respeito para gerar confiança; um aluno é vendado e outro o guia por espaços da escola que são delimitados para garantir a segurança de todos. O cego segura no cotovelo do guia; o guia pode falar poucas palavras: “- Cuidado com um pequeno degrau à frente” etc. Trabalho com jogos cooperativos, principalmente utilizo o jogo: Dança das Cadeiras Cooperativas. A “Dança das cadeiras” mais conhecida é aquela que tem uma cadeira a menos do que o número de participantes, a música para, todos sentam, menos um; este um sai do jogo, tira-se uma cadeira e assim vai. Os jogadores vão sendo eliminados – excluídos - e só um ganha no final; aprendemos brincando a empurrar os colegas, cada qual pegar a cadeira só para si, aprendemos a excluir e não a dividir, nem compartilhar. Pergunto aos alunos se essa não é a lógica do capitalismo radical: cada um por si, cada um quer ganhar e para isso não pensa nos outros... Já a Dança das Cadeiras Cooperativas (BROTTO,1997, p.85) começa igual ao jogo tradicional, uma cadeira a menos, porém quando a música para todos devem sentar. Devem dividir as cadeiras, ou mesmo sentar no colo – com respeito aos colegas; converso antes sobre malícia e “mãos bobas”; nunca tive problemas, todos querem jogar e respeitar as regras, senão nem faço o jogo. A música para e todos sentam. Se sobrar uma pessoa em pé acabou o 153 jogo e ninguém ganhou. Ou todos se sentam e todos ganham ou então ninguém ganha. Ao invés de tirar pessoas, tira-se sempre uma cadeira. Se o grupo quiser parar o jogo com determinado número de cadeiras, eu paro, sempre pergunto: “- Querem parar ou continuar?” Porém normalmente continuam e chegam ao final, todos alunos (25, 30...) sentados em uma única cadeira, sem fazer força, sem colocar peso... É possível! Daí, faço o desafio final: todos sentarem sem cadeira nenhuma. Eles quebram a cabeça, eu faço pequenas intervenções fazendo ouvirem as sugestões dos colegas, faço perguntas que auxiliam a resolução e, a maioria das turmas resolve esse problema, todos sentam nos joelhos do colega de trás, todos sentados... Como? Pense, tente, resolva... Na avaliação, após o jogo, pergunto: é melhor a dança das cadeiras que exclui? De 30 pessoas só uma ganha... Ou a dança das cadeiras cooperativas que todos ganham no final? Eles preferem o jogo em que todos ganham juntos... Meu objetivo foi alcançado! Agora precisam levar esta idéia para suas vidas... Trabalho também música e ritmo: andar pelo espaço no ritmo marcado pelo professor – vou mudando o andamento: muito lento, lento, médio, rápido, muito rápido; jogos de ritmo com palmas, estalos com dedos das mãos, palmas nas coxas, batendo os pés nos chãos, sons vocais; aulas de expressão corporal e canto com diferentes estilos de músicas; criações de frases rítmicas pelos alunos; entre outras atividades. Faço jogos de memória,entre outros, o Jogo da Bandeja de Spolin; e o Jogo de 1 a 10, inventado por mim. O jogo é assim, os alunos espelhados pelo espaço e a cada número que eu digo devem fazer uma ação correspondente, por exemplo: 1 é dar um pulo pro alto, 2 é dar um giro no eixo, 3 é ficar de cócoras, 4 é cumprimentar/apertar a mão do colega, 5 é fazer uma careta. Em uma aula faço de 1 a 5, na outra aula texto a memória dos alunos: “- Quem lembra o que deve fazer quando eu digo o número 1?” Faço uma revisão do 1 ao 5. Então continuo de 6 a 10. Peço sugestões pros alunos: “- O que podemos fazer no número 6?” Eles gostam bastante deste jogo. Trabalho com Jogos de Atenção/Concentração: alguns com Ritmo – vão batendo palmas e estalos no ritmo combinado, ou falando números, tudo sem perder o ritmo, existem muitas variações. Faço atividades com Bastões (cabos- 154 de-vassouras), trabalho lateralidade, coordenação motora, equilíbrio e, é claro, concentração – algumas atividades com bastões lembram malabarismo. É comum alunos terem medo de se machucar, mas conduzo tudo com muito cuidado e controle; todos conseguem fazer as atividades, parecem difíceis, mas são relativamente simples. Em outras atividades utilizo cordas, brincamos de pular corda, um aluno por vez. O aluno entra, pula uma vez e sai, vai um por um até irem todos; entrar na corda, pular e sair é como esperar a “deixa” para entrar em cena, fazer a Ação e sair, sendo que o palco – neste caso a corda – não pode ficar sem ator, todos devem manter o Ritmo da peça... Não podem perder as deixas, ficarem mudos ou sem ações em cena, ou ainda deixarem o colega sem resposta, por exemplo. Depois que todos pularem uma vez, cada um entra, pula duas vezes e sai. E assim vai, existem muitas variações: quando o primeiro está pulando a corda o segundo entra e pula junto com o primeiro, depois o primeiro sai, o segundo pula sozinho uma vez, o terceiro entra e pula com o segundo, o segundo sai o terceiro pula sozinho uma vez, o quarto aluno entra e pula junto com o terceiro... Fazem isto até todos irem e o primeiro entrar para pular junto com o último que entrou. Vou alternando estes jogos durante as aulas, como aquecimento, antes de entrar nos jogos de interpretação e de linguagem teatral. Trabalho improvisações em grupos ou em duplas, nas primeiras aulas somente Ações, sem falas. As vezes dou um tempo para combinarem ou então improvisam na hora. Exemplos de jogos que utilizo neste início: Jogo do Onde (devem Mostrar Onde estão); Mostrar O Que estão fazendo; trabalho também o Jogo de Ações complementares – eu explico: um ator começa uma ação que pode – deve – ser complementada por outro ator, por exemplo: um lava os pratos, outro os enxuga, outro os guarda. Outras improvisações e jogos trabalhados em grupo: Mais Pesado quando cheio; Cabo-de-guerra; Dificuldade com Peças de Roupa ou com Objetos; entre outros. Uma improvisação que os alunos gostam e são bem criativos: Ora pessoa, ora objeto. Ao invés de explicar como é eu escolho alguns alunosatores para Mostrar: coloco um aluno em pé com um dos braços dobrado em 155 frente a sua barriga; coloco outro aluno em pé com os braços e as mãos erguidos mais alto que sua cabeça e um pouco a frente do tronco; coloco outros atores em outras posições no palco. Depois de colocar cada um no seu lugar eu saio do palco para começar minha cena. O primeiro ator é uma Porta, seguro o braço dele como se fosse a maçaneta da porta, faço com que ele desloque seu corpo como se eu abrisse uma porta, faço inclusive som de porta se abrindo. Faço ações de tirar minha roupa imaginária, me coloco na frente do que está com braços e mãos erguidas, ele é o chuveiro, ligo a água e faço som de água caindo. Cada alunoator é um objeto do cenário: o espelho, um armário etc. Termino a cena saindo do banheiro e fechando a porta – representada pelo primeiro aluno. Todos gostam muito. Então explico que todos podem ser tanto personagens humanos (ora pessoa), quanto objetos em cena (ora objeto). Divido a turma em grupos e cada grupo tem de 10 a 15 minutos para combinar, depois cada grupo apresenta para os demais grupos. Quando percebo que os alunos entenderam os primeiros conceitos, passo a utilizar a voz nos jogos e nas cenas. Começo com o Jogo do Telefone: duas cadeiras são colocadas uma de costas para a outra, o professor explica o jogo e pede para um aluno começá-lo, normalmente eu mesmo começo sentando-me numa das cadeiras e “telefonando” para algum aluno da sala; quem começa chama alguém falando “Alô! (por exemplo:) Rodrigo...” O Rodrigo senta-se na outra cadeira e conversa com quem o chamou: “- Alô! Quem fala?”. Os dois desenvolvem um diálogo, como estão sentados e de costas um para o outro facilita que percam a timidez e se soltem. O Foco é manter um diálogo interessante, não jogar tempo fora. Como é teatro podem criar personagens e situações que nada tenham a ver com os alunos-atores reais, por exemplo, falar sobre uma traição, uma descoberta inesperada, etc. O professor não deixa cada dupla se estender demais e fala “-Um minuto!”, para os alunos finalizarem, com calma, o diálogo. Então quem começou se levanta e o segundo, neste exemplo, o Rodrigo, liga para alguém, chamando-o pelo nome: “-Alô! (fala o nome de quem quer chamar)” Quem foi chamado senta-se de costas para quem o chamou e criam um diálogo interessante. Assim vai, até o último da sala for chamado, e, depois, este último 156 chama o primeiro fechando o círculo; todos foram chamados e todos ligaram para alguém. É um jogo bem interessante e divertido. Nesta fase apresento exercícios de Técnica vocal (aquecimento e tônus muscular, respiração, ressonância, dicção, colorido e expressão vocal – Vide Anexo 02) e outros jogos cujo Foco é a expressão vocal: Blablação; Estória continuada (um começa a estória e outro continua, um por vez, até todos participarem e o último dar um fim para a estória criada coletivamente; o professor interrompe a estória em momentos chaves para que outro alune a continue); Dublagem – os alunos gostam muito deste jogo! Costumo colocar dois alunos sentados em cadeiras na frente e dois alunos sentados atrás e abaixo deles, de forma que os que estão atrás não são vistos pelo público, os alunos da frente fazem as ações e expressões faciais, podem se levantar, manipular objetos etc., os alunos de trás fazem as vozes deles, é muito divertido, parece que assistimos a um filme dublado (Spolin, 1987, p. 205); Leitura – em voz alta - e interpretação de Poemas e de outros gêneros (cartas, notícias de jornais etc.); Pequenas cenas de teatro (esquetes teatrais) que os alunos lêem e podem apresentar para a classe como “leitura dramática” ou mesmo como cenas com textos memorizados; Novela e Programas de Rádio – os alunos devem usar todos os recursos possíveis, mudar o timbre das vozes, criar “jingles” para os comerciais, efeitos sonoros (sonoplastia feita ao vivo com a própria boca e com objetos: radiografia faz som de trovão, “pau-dechuva” é um cilindro com sementes dentro e as sementes caindo lentamente fazem som de chuva etc.). Um ator narra, outros atores atuam: o nome já explica, um aluno é o narrador, ele conduz a cena, os outros alunos vão representando o que ele for narrando, mas todos devem contribuir para o desenrolar da cena. Por exemplo, o Narrador começa: “Cristina era uma garota tímida...” Uma aluna assume o papel de Cristina, o Narrador continua: “Uma noite ela estava voltando para sua casa. Quando Cristina passou na frente de um cemitério, um bonito e misterioso rapaz a abordou e disse:” O aluno que entrou em cena para representar o Rapaz Misterioso aproveita a deixa do Narrador e fala algo, Cristina responde ao rapaz, o Narrador vai conduzindo a cena até o seu final. Trabalho também cenas em duplas, pequenos diálogos, que são encenados de forma realista e não-realista, um exemplo: 157 A- (fala para “B”) Vem ou não vem? B- Tenho medo! A- Medo? De que? B- Eu não sei. Os alunos são divididos em duplas. Um aluno de cada dupla é “A” e outro é “B”. Decoram as falas. Não podem falar nada além delas. Dou um tempo (10 a 15 minutos) para os alunos criarem uma cena realista em que este diálogo se encaixe. Devem Mostrar o contexto (a situação) e se, no final, “B” vence o medo e vai com “A’, ou não vai. Exemplos de cenas que os alunos comumente apresentam: “A” convida “B” para andar de moto; “A” oferece droga para “B”, entre outros. Depois de todos apresentarem e avaliarmos as cenas, eu peço para as duplas, com este mesmo texto, criarem uma cena não-realista. Por exemplo: “A” convida “B” para sair voando; as personagens “A” e “B” não são realistas (Fada, Bruxa, Animais, Robôs, Almas etc.); “A” convida “B” para fazer algo atualmente impossível, como viajar pelo tempo ou para outra galáxia etc. Como os alunos também fazem cenas em grupo usando a oralidade é comum que falem muitos atores ao mesmo tempo; o público não consegue ouvir ninguém, até porque os próprios atores não se ouvem... Trabalho então o jogo Duas Cenas A, B e C; que requer conhecer o jogo Dar e Tomar. Se trata de um jogo em que os alunos aprendem a Dar e a Tomar o Foco dos colegas em cena; costumo chamar este jogo de Focos A, B e C e o descrevo nesta dissertação na página 180, durante o relato da montagem com meus alunos. Após estas atividades com falas volto a trabalhar cenas sem falas, somente com Ações; aliás, os alunos devem utilizar tudo que já foi visto anteriormente, somando e relacionando os conhecimentos. O professor pode e deve lembrá-los dos jogos e exercícios já feitos e, sempre que for preciso, retomá-los. Exemplo de outro jogo: mostrar a Idade esperando o ônibus no ponto de parada dele - primeiro individualmente sem verbalizar e depois em grupo. Cada aluno deve escrever em um papel dado pelo professor quantos anos seu 158 personagem terá, após a apresentação de cada aluno o professor pergunta para a classe (a platéia) quantos anos ele Mostrou ter e vê se a idade que o aluno escreveu corresponde ao que ele Mostrou, ou não. Quando forem fazer a cena em grupo, cada aluno deve estabelecer relações com os outros que estão no ponto de ônibus, experimento fazer a cena sem falas; conforme for o desenvolvimento da cena em grupo peço que repitam a cena ou já digo que podem usar a oralidade. Este jogo é de Spolin: Quantos anos eu tenho? (SPOLIN, 1987, p.61) Outro exemplo de improvisação em grupo, com falas: “Jogo do Elevador”, pessoas entram no elevador, em diferentes andares, indo para o térreo, mas o elevador para e elas ficam presas, os alunos devem solucionar o problema e dar um final para a cena. Nesta fase das minhas aulas introduzo o conceito de Personagem, começo com o Jogo do Quem de Spolin; depois comento sobre Personagens de peças, filmes e novelas, questiono: “- Como os atores compõem as personagens que irão interpretar?” Os alunos percebem a importância da Observação na vida diária: tudo é informação para o ator compor personagens, observar todo tipo de pessoa, ter conhecimentos gerais, como fala e age cada pessoa. Existem termos e gírias regionais e de cada profissão; ou de determinadas sociedades, culturas ou mesmo de classes sociais diferentes. Dentro de cada categoria existem diferenças individuais, cada um é único. Porém, se existem semelhanças de vocabulário entre médicos, entre políticos, entre jovens de um bairro ou entre caipiras etc., as diferenças entre os semelhantes são muitas: um homossexual afetado difere de um homossexual discreto; uma mulher rica elegante difere de uma dondoca fútil e esnobe; existem professores e professores, alunos e alunos, e assim vai. Observar, se colocar no lugar, entender, não simplesmente pré-julgar... Falo sobre Stanislavski, sobre o “Se”, sobre “circunstâncias dadas” pelo autor no texto da peça, o contexto em que se desenrola a Ação; o perfil social, moral, cultural e psicológico da personagem... Por exemplo: “- Se eu fosse um desempregado, alcoólatra, agressivo, chegasse no meu barraco e minha mulher reclamasse de mim e dos filhos o que eu faria?” Costumo dar este tipo de improvisação para alunos maiores e adultos. 159 Explico aos alunos o que é Gênese (criação) da Personagem; a Gênese é feita por autores de teatro, de filmes ou de novelas e também por atores que irão interpretar uma personagem; sobre Gênese de Personagem podemos dizer: Com o intuito de desempenhar bem o seu papel na cena, é fundamental que o ator conheça o "perfil psicológico" do seu personagem, o que nem sempre está completo e explícito no texto teatral. Por isso é importante que ele crie a "gênese" de seu personagem. Isso significa tentar resumir por escrito sua vida, desde o momento em que nasceu até o instante em que entra em cena. [...] A "Gênese" dará ao ator condições de conhecer melhor o seu personagem, o que beneficiará a sua atuação. Deve ser escrita na primeira pessoa. A "Gênese" deverá ser entregue ao diretor do espetáculo, ficando uma cópia com o próprio ator. (Disponível em: http://www.barralink.com.br/teatro/Genese.htm Acesso em: 03 abr. 2009.) A Gênese também é vista como a Biografia da Personagem; algumas vezes peço para que cada aluno crie uma personagem e escreva a gênese dela. Peço que coloquem detalhes significativos de como foi a vida da personagem desde o nascimento até a idade em que ela se encontra na peça, descreva também suas características psicológicas, por exemplo: sensível ou “durona”; alegre, inconstante ou depressiva; preguiçosa ou trabalhadora; quieta ou falante; “mandona”; sem iniciativa; sexy; moralista; aspectos sociais, culturais, tudo que for relevante para entendermos como a personagem é, como ela pensa e age. Depois todos lêem e fazemos improvisações com estas personagens criadas pelos alunos. Em algumas turmas apresento Noções Básicas de Dramaturgia, dou dicas de como escrever para o Teatro; apresento conceitos de Cenas, Atos, Rubricas etc. No caso deste projeto os alunos tiveram estes conceitos, vide Anexo 03 sobre Dramaturgia. Quando temos textos de teatro de outros autores, com personagens realistas, peço para que cada aluno crie a gênese de uma personagem com base nas informações contidas no texto teatral e que complemente com detalhes e informações que não foram dadas pelo autor da peça. 160 Fazemos o Estudo do Texto Teatral, observando os sentidos das palavras e das frases; os subtextos presentes nas falas das personagens – o que não é dito explicitamente, mas é pensado pela personagem; as possíveis intenções das personagens em cada fala; mostro como o ator pode fazer anotações e marcações no texto, etc. Para trabalhar a psicologia da personagem, outro exercício que faço, é o Jogo do Envelope/Carta: coloco um envelope sobre uma mesa, um aluno por vez entra em cena e lê o que recebeu, sem verbalizar deve mostrar que notícia tinha dentro do envelope: passou em um concurso, ganhou um prêmio, recebeu as passagens para a viagem dos sonhos, recebeu resultado de exames médicos e está doente (ou não), está grávida, o parceiro(a) escreveu terminando o romance, entre outras possibilidades. Dou para cada aluno o “conteúdo” do envelope e peço para que se coloque naquela situação, o que sua personagem pensa e sente sobre aquilo, quais suas expectativas, desejos, medos, sonhos, enfim, que impacto teria se, naquele contexto, recebesse aquela notícia. Trabalho muitas improvisações em grupo, dou um Tema, Foco, ou mesmo Tema Livre e um tempo para combinarem o roteiro: começo-meio-fim da cena; peço para observarem Onde estão, Quem são, O Que farão, o Como é pura improvisação, não terão tempo para memorizarem um texto... Advirto que não façam uma “novela” com muitas cenas e cenários; sugiro que façam uma cena curta com coerência e lógica: mesmo que comecem pelo fim e que façam um “flash-back”, o público deve compreender o desenvolvimento lógico da cena, como tudo começou, o desenvolvimento e o final coerentes, verossímeis. Lembrando que em toda improvisação temos o grupo que apresenta e os demais alunos são a Platéia. E que é muito importante que se faça uma Avaliação depois que todos tenham se apresentado. É o momento em que os alunos refletem e sistematizam seus aprendizados. Eles devem saber argumentar, comentar, dizer o que acharam de cada cena, sem valorizar os grupos de amigos e sem criticar pejorativamente os grupos de possíveis “desafetos”. Toda critica deve ser construtiva e nada “pessoal”. Os alunos devem perceber porque um grupo foi melhor ou pior que o outro, baseando-se em critérios, coletivamente combinados, são eles: 161 - Uso do espaço e dos recursos cênicos (O grupo usou bem o espaço? Ou não deu para ver direito? Os alunos costumam dizer que “embolaram”, passaram por cima de objetos imaginários, misturaram tudo: a “cozinha” virou “quarto” etc. Utilizaram sonoplastia, móveis, tablados, luzes ou outros recursos?) - Concentração / Foco / Organização (Todos do grupo estavam concentrados? Tinham Focos definidos e claros? O grupo teve organização? Organizaram as entradas e saídas, as funções de cada um ?) - Desempenho dos atores (Tornaram real? Usaram bem os recursos corporais e vocais?) - Criatividade / Idéia(s) (A cena foi criativa? Por que?) - Seqüência lógica (A cena foi coerente e lógica? Teve começo, meio e fim?) Quando preciso dar uma nota – coisa que não acho necessário, quantificar, classificar... – uso estes critérios como parâmetros, cada critério vale de 1 a 2 pontos. Cinco critérios, nota mínima cinco e máxima dez. Dez seria excelente, perfeito, não poderia ser melhor! Nove seria muito bom! Oito seria bom; Sete seria acima da média ou regular; Seis seria um trabalho abaixo da média e cinco seria nota mínima, o grupo precisa melhorar em muitos pontos, todos os pontos mencionados durante a Avaliação. Darei mais dois exemplos de Improvisações em grupos que utilizo muito e tenho bons resultados. O Jogo da Festa e o Jogo de Personagens Dadas. O Jogo da Festa é improvisação pura: um aluno-ator - nas primeiras vezes faço eu - representa o Dono da Festa. Os outros alunos que vão participar deste jogo ficam do lado de fora da sala e, um por vez, bate na porta. Pode-se ser uma porta imaginária também... O Dono abre a porta e diz algo identificando quem chegou, ou seja, o Dono da Festa define que Personagem cada um fará na hora que abre a porta, nem mesmo ele deve ter tempo de pensar nas personagens que dará. Por exemplo: “- Que bom que você chegou! Vá logo para o bar e comece a preparar os aperitivos! Os convidados já estão chegando...”. Outro aluno bate na porta, o Dono da Festa abre e diz: “- Que honra receber uma atriz de 162 Hollywood em minha festa...” E assim vai. Depois que todos entram a improvisação segue por conta de todos integrantes da cena, neste momento é bom que já conheçam o Dar e Tomar o Foco. Para o Jogo de Personagens Dadas: divido os alunos em grupos, dou uma personagem para cada integrante do grupo e peço para que criem uma cena com todos e somente aquelas personagens dadas, não podem tirar nem colocar outras personagens. Misturo, propositalmente, personagens que não têm afinidades, personagens realistas e não-realistas, por exemplo, em um grupo distribuo estas personagens: um padre, um bombeiro, um astronauta, um(a) jogador de futebol, uma atriz, uma médica, uma fada. Haja imaginação! Saem improvisações muito criativas... No caso deste projeto e em muitas outras turmas trabalho também Noções Básicas de Cenografia, Indumentária, Iluminação, Sonoplastia, Divulgação e Produção Teatral. Apresentarei no Anexo 01 um Quadro com sugestões de jogos e onde encontrá-los nas obras de Spolin e em outras obras. Existem bons livros de jogos teatrais além de Spolin – Augusto Boal, Peter Slade, Ola Reverbel - e podemos criar, adaptar ou mesclar vários jogos, conforme as necessidades e realidades de nossas turmas. Convém salientar que muitos destes jogos estão presentes nas obras de Spolin e de outros autores, a própria Viola cita as diversas fontes que ela utilizou; alguns são jogos tradicionais, de domínio público, outros jogos são variações. Não poderia listar todos os jogos que costumo usar, cito os principais; utilizo o nome dado por Spolin e, entre parênteses, coloco como eu e meus alunos costumamos chamá-los. Também separei os jogos e atividades em categorias: jogos introdutórios (para a linguagem teatral); jogos de aquecimento, integração e outras habilidades (observação, memória, concentração, atenção, ritmo); jogos de expressão corporal; expressão vocal; jogos com ações e falas; estudos de personagens e textos; e outros estudos. No Anexo 01 destaco uma pequena lista, com alguns livros de jogos teatrais que podem ser de grande valia, relaciono também livros de Stanislavski e sobre linguagem, história e teoria teatral para quem se interessar. Ressalto que existem muitos outros livros, de cada autor citado e de outros autores que 163 não inclui na lista; existem divergências entre eles, porém cabe a cada um escolher ou criar o seu método de trabalho. Encerro desta forma este item sobre Oficinas e Jogos teatrais. Passarei a descrever e a comentar o processo de montagem da peça “Adolê Sendo” com meus alunos . 3.5 - “Adolê Sendo”: uma poética teatral, uma criação coletiva No ano de 2008 ministrei aulas em duas escolas - um colégio particular e uma escola estadual - ambas no município de Campinas/SP. No Colégio Básico os alunos tinham aula comigo uma vez por semana, o componente curricular era teatro, desde fevereiro apliquei jogos teatrais e improvisações. Na Escola Estadual Júlio Mesquita, como professor de educação artística, deveria trabalhar com quatro linguagens da arte: dança, música, artes visuais e teatro. Desde o início do ano estava trabalhando com as linguagens artísticas, mas o teatro não havia sido sistematizado com nenhuma classe, pois esperava definir como iria desenvolver o meu projeto de mestrado. Somente em junho - quando decidi que mais do que aplicar jogos queria que os alunos tivessem uma experiência estética de criação e apresentação cênica, vivenciando uma montagem, uma poética teatral – apresentei minha proposta aos alunos das duas escolas. No Colégio Básico os onze alunos do oitavo ano (equivalente à sétima série), eram muito unidos e todos gostaram da idéia de montar uma peça. Na Escola Estadual perguntei nas quatro sétimas séries quem gostaria de fazer teatro durante as aulas de arte. A sétima série D foi onde a maioria dos alunos respondeu afirmativamente, vinte e oito jovens de um total de trinta e seis alunos. Quem não queria fazer teatro faria outras atividades de arte, tais como desenhos e colagens, e também acompanharia a montagem da peça como observador crítico. Definidas as classes comecei o desenvolvimento do projeto. 164 No Colégio Básico os alunos do oitavo ano já faziam aulas de teatro comigo. De 29 de janeiro a 10 de junho tiveram 19 aulas de teatro. Havíamos trabalhado alguns elementos da linguagem teatral. Perguntei então o que gostariam de montar, qual o gênero (comédia, drama, musical, etc.), por que e qual o tema. Os alunos escolheram o tema adolescência e o gênero comédia porque estavam mais próximos do momento de vida deles e do que eles gostam. Para que tivessem alguma idéia e contato com um texto teatral sobre adolescência mostrei aos alunos do Colégio Básico um texto de minha autoria, “Equilíbrio Delicado”, esse texto foi escrito com base em conversas com meus alunos adolescentes e em improvisações feitas por eles no Colégio Farroupilha, uma escola particular em Campinas/SP, em 1999. A peça foi remontada depois com outros alunos, em outros locais, sempre com boa aceitação dos atores e do público. A peça é uma colagem de cenas que falam sobre essa fase da vida onde não são mais crianças nem são adultos ainda, tem cenas sobre: sonhos, medos, crises, primeiras paixões, solidão, decepções com amigos, entre outras cenas. Os alunos do Colégio Básico ao lerem se identificaram com as situações e as falas, expressando-se entre risos “comigo é assim mesmo”, “parece minha tia falando”. Eu disse que não montaríamos a peça toda, eles deveriam criar ou escrever novas cenas, poderíamos montar uma ou outra cena do “Equilíbrio Delicado”. Todos escolheram a “cena da boite” onde os jovens estão em uma danceteria, uma “balada” para adolescentes, temas como paquera e sexualidade são abordados com leveza. Os estudantes me disseram que a escolheram porque era a cena mais engraçada, mostrava personagens interessantes, não era para “criancinhas”, era “a cara deles”. A cena, embora cômica, permite reflexões a respeito de não julgar as pessoas pelas aparências, de não ir “no embalo dos outros”, de defender suas próprias opiniões, tudo com muito humor. Eu reescrevi a cena para que ficasse mais atual e fiel ao meu projeto de mestrado, com base nas respostas de um questionário sobre adolescência do qual falarei adiante, fiel também às falas dos adolescentes ouvidos e dos atores participantes. Outras cenas da peça montada como parte desta dissertação em 2008 mostravam temas mais sérios e reflexivos tais como: luta por transformações 165 sociais, violência no esporte, um mundo com mais tolerância, problemas com alcoolismo, drogas e gravidez na adolescência, também tratadas com leveza e, as vezes, com humor. No anexo 13 apresento o texto do “Adolê... Sendo” na íntegra, incluindo a “cena da boite” adaptada da peça “Equilíbrio Delicado”. Na Escola Estadual tinha duas aulas semanais, em junho apliquei alguns jogos teatrais com o objetivo de construir com os alunos alguns conceitos básicos da linguagem do teatro. Em julho foram as férias escolares. Em agosto retomamos os estudos que incluíram técnicas vocais, corporais e de interpretação; os alunos conheceram técnicas de dramaturgia, nomenclaturas de palco e de cenografia; e importantes elementos presentes na montagem de um espetáculo. Enquanto isso, no Colégio Básico, os alunos definiam quem faria qual personagem na cena da boite, estudando as personagens da referida cena e fazendo improvisações a partir dos estudos realizados. Também perguntei na Escola Estadual que tipo de peça gostariam de montar. A maioria escolheu falar sobre a adolescência, esse momento da vida pelo qual estavam passando, e de forma cômica, podendo ter cenas sérias, mas nem tanto. O projeto previa que os alunos participassem ativamente de todo o processo de forma democrática, ou seja, a decisão da maioria prevaleceria, todos aprovaram este acordo para a condução da montagem, uma criação realmente coletiva e colaborativa. Uma vez definido o tema da peça, adolescência, fiz um círculo com todos os alunos da sétima D no pátio da escola estadual e na sala de música do Colégio Básico com os alunos do oitavo ano. Procurei locais afastados de outros alunos, ambiente diferente da sala de aula, e propus um bate-papo sobre o que era ser adolescente, o que e como eles viviam o dia-a-dia, em que pensavam, como eram as relações com família, com os amigos, com a sexualidade, o amor, entre outros temas. As respostas eram dadas em frases curtas, somente os alunos mais desenvoltos falavam, não havia debates, a argumentação era inexpressiva, não conseguia saber o que passava na intimidade de suas mentes e corações, não conseguia desvendar como era ser adolescente no início do século XXI, embora eu procurasse despertar a 166 confiança dos alunos, sensibilizá-los e até mesmo provocá-los; tudo com bastante leveza e naturalidade, tentando deixar o papo fluir com total liberdade. Percebi que oralmente eles não iriam se expor diante dos colegas de classe, nem utilizando improvisações em grupos, visto que na escola estadual haviam competições e julgamentos entre colegas de diferentes “panelinhas”, pequenos agrupamentos de alunos de uma mesma classe que se dividem por afinidades e não se relacionam com os que são “diferentes” deles. Então na aula seguinte propus que elaborássemos um questionário para sabermos o que outros adolescentes pensavam sobre o tema. Aplicaríamos o questionário nas demais turmas da escola, sétimas e oitavas séries na Escola Estadual e sétimo e oitavo ano do Colégio Básico. Os questionários seriam anônimos para garantir a privacidade e total liberdade ao respondê-lo. Com base nas respostas do questionário partiríamos para a escrita das cenas da peça teatral. O processo de escrita compreenderia improvisações, escrita de cenas, ensaios, reescritas e depois a apresentação da peça teatral para adolescentes. Também propus que após a apresentação o elenco debatesse com a platéia sobre os temas e sobre a montagem da peça. Todos concordaram. Dividi os alunos e pedi que cada grupo formulasse cinco questões sobre a adolescência. Na outra aula socializamos as questões para, entre todas, elegermos dez questões. Íamos lendo e agrupando as questões que embora formuladas diferentemente perguntassem a mesma coisa. Levei as questões do Colégio Básico para a Escola Estadual e vice-versa, precisávamos mais uma vez unir as questões em um questionário único e a dificuldade era que queríamos saber muitas coisas. Não conseguíamos eliminar algumas questões para eleger dez, democraticamente ia lendo as questões e os alunos iam votando se a questão deveria permanecer no questionário ou não. Concluímos que o questionário teria mais de dez questões, seria mais trabalhoso para todos, para quem fosse responder e para quem fosse ler e interpretar as respostas, mas seria muito mais rico. E assim chegamos a um questionário de vinte questões: QUESTÕES: 1- O que é a adolescência pra você? 2- Quais as vantagens e desvantagens de ser adolescente? 167 3- Você acha que essa fase da vida é complicada? Qual seria o tema mais complicado da adolescência? Por quê? 4- O que mudou na sua vida em relação à infância? 5- Como eram seus sonhos? Com o que você sonha agora? 6- Como você vê a vida dos adultos? 7- O que você pensa sobre sexo na adolescência? 8- Você conversa sobre sexo? Com quem? 9- Você conhece alguma adolescente que engravidou? Como foi para ela e para o pai? 10- Em relação a amor e sexo você acha que garotas e garotos têm pensamentos e sentimentos diferentes? 11- Um garoto pode ficar com muitas garotas? Uma garota pode ficar com muitos garotos? O que os jovens comentam a esse respeito? Ficar é bom? O que você pensa sobre isso? 12- Afetiva e sexualmente falando, o que chama tua atenção em um(a) garoto(a)? 13- Como você vê a sua escola nesse momento da sua vida? Qual o papel da escola? O que você espera dela? 14- Você percebe algum tipo de violência na escola? Entre quem? Relate. 15- Teus pais te dão liberdade? Para fazer o quê? 16- Quais são os maiores medos de seus pais em relação a você? E quais são os seus maiores medos? 17- Como são suas relações com família? Tem algum conflito? Você tem irmão(s) / irmã(s)? Existem tratamentos diferentes dos pais para com os filhos? Por quê? 18- O que você pensa sobre drogas? 19- O que você pensa sobre amizade, ciúmes, falsidade? Já teve alguma decepção? 20- Você quer ser maior de idade logo? Por quê? Pra que? Nosso objetivo não era fazer uma pesquisa qualitativa, impossível, pelo tempo que tínhamos, interpretar 20 questões abertas! O objetivo era ouvir a voz dos jovens, tanto do elenco quanto de outras turmas das escolas e selecionar temas para futuras cenas. 168 Ninguém foi obrigado a responder o questionário, foi feito um convite para quem quisesse nos ajudar, levaram as questões para casa e devolveram as respostas em folha que constava apenas o nome da escola e a série/ano, sétima ou oitava série na EE, sétimo ou oitavo ano no CB. Era justamente a fala de cada aluno que nos interessava. Quanto mais falas melhor. Nos questionários escritos os alunos puderam discorrer sobre suas intimidades sem medo de serem identificados. Sem medo dos pais descobrirem o que acontece de fato nas baladas. Puderam expressar o que pensam e o que sentem sem o pesado julgamento dos colegas de classe. Expressaram seus medos, desejos, dúvidas. A grande maioria adotou uma escrita informal, coloquial, um aluno até se dirigia ao professor, como se dialogasse comigo. Com base nas respostas destes questionários, durante o mês de setembro, os alunos selecionaram alguns temas e a partir deles fizeram improvisações e escreveram cenas.Tudo decidido coletivamente. Selecionamos algumas das respostas da primeira questão “o que é a adolescência pra você” para colocá-las na peça. Fazem parte da cena sobre ser adolescente, vide páginas 242 a 244 - Anexo 13. Apresento agora algumas destas respostas que viraram falas da peça: “Adolescência é a melhor fase da vida! Em que você se aventura com facilidade, se alegra com qualquer coisa, e se aborrece da mesma forma!” “Fase em que você fica meio “retardado”, pois seu corpo e sua mente entram numa espécie de colapso, onde você pensa muitas coisas e seu corpo muda.” “O maior medo é seguir o caminho de alguns colegas, até de irmãos... O caminho errado e se perder... O caminho das drogas.” “Os garotos pensam mais em “corpo”. Ta entendendo?! Por outro lado as garotas pensam mais no amor, felicidade, blábláblá... Mais parece que isso está se equilibrando hoje em dia, as meninas estão deixando esse lado “emocional” e pensando mais como os meninos...” 169 “Se os adultos ouvissem mais os jovens eles iriam se surpreender, iriam aprender muita coisa com a gente...” Ia lendo as respostas dos questionários e pensando na responsabilidade ética de como montar uma peça que colaborasse com os alunos, sem julgamentos, respeitando suas visões e de que forma eu poderia retribuir aos alunos a confiança que depositaram em nós. Nenhuma resposta revelou envolvimento pessoal com drogas, comportamentos de risco, nem apontou problemas mais sérios, nem pedidos de ajuda. Embora relatassem problemas sérios vividos por colegas ou na própria família. Todos responderam que drogas não valem à pena e devem ser evitadas. Os alunos têm noção dos perigos que passam a enfrentar nessa fase da vida, embora alguns não possam, tenham vergonha ou medo de falar sobre essas coisas com seus pais. Sei também que embora as respostas obtidas sejam de alunos com bom discernimento muitos outros que não responderam o questionário defendem o uso de drogas, tem comportamentos de risco inclusive sexualmente e que hoje em dia essas diferentes realidades convivem lado a lado, isso apareceu nas respostas, os alunos conhecem adolescentes que engravidaram, já viram colegas usando álcool, cigarro, maconha e outras drogas. Um ponto conflituoso para mim era que os alunos tinham decidido montar uma comédia. E, como já foi dito, eles tinham poucas e não tão boas referências... Pensando nestas questões pedi aos alunos que escrevessem o que provoca o riso no público, o que é engraçado pra eles, de onde vem o humor das comédias - depois lemos as respostas e debatemos, pude observar que eles não conseguiam explicar o próprio riso, achavam engraçado e pronto, tinham pouco discernimento sobre esse assunto, riam sem saber porque... As respostas dadas – escritas e oralmente - apontavam para cenas de pastelão, humor bem simplório, apelativo e popular: tombos, tapas, palavrões, personagens esteriotipadas como “loira burra” e “idosos surdos e cambaleantes”, pessoas ingênuas sendo passadas para traz e pessoas espertas se dando mal. Dividi-os em grupos e pedi para que criassem uma pequena cena cômica com começo, meio e fim. Após 15 minutos de elaboração os grupos 170 apresentaram as cenas que não foram muito engraçadas. Fazer humor não é tão simples como se parece, ser engraçado em cena não é resultado do simples uso de caretas, tombos ou palavrões. Felizmente os alunos perceberam a seriedade do riso e conversamos sobre isso, como fazer comédia não é fácil, o tempo certo de se dizer a piada, a entonação e expressão facial correta, se perder o tempo perde a piada. Infelizmente eu não havia lido o livro O riso, de Bérgson, e não pude dizer aos alunos nada sobre as reflexões do autor, por outro lado é quase impossível teorizar no momento da criação artística. Uma avaliação muito formal, a autocrítica, o excesso de pensamento lógico e racional podem ser paralisantes, lembro-me da obra Desenhando com o lado direito do cérebro, livro escrito em 1979 e lançado no Brasil em 1984, da autoria de Betty Edwards, nascida em 1926, uma escritora, pesquisadora e arte-educadora norte-americana. Neste livro Edwards diz que a intuição e a criação artística estão relacionadas ao hemisfério direito do cérebro, enquanto o pensamento lógico e conseqüentemente os julgamentos estão relacionados ao hemisfério esquerdo, a autora defende que utilizemos o cérebro como um todo, embora nossa cultura e nossa educação privilegiem mais o uso da razão do que da intuição, fazendo com que o hemisfério esquerdo sobreponha-se ao hemisfério direito. No livro a autora propõe exercícios para se trabalhar mais o hemisfério direito, propondo outras formas de se olhar os objetos e de se desenhar. Também vale a pena lembrar e citar Stanislavski (1863 – 1938), estudioso russo sobre o teatro, cujas obras são fundamentais para qualquer pessoa que queira ser ator ou que deseje conhecer os mistérios desta arte. Na citação abaixo o autor fala sobre a técnica de atuação por ele proposta, o autor defendia o uso de técnicas conscientes para se chegar ao uso do subconsciente na arte. O trecho citado, com barras, itálico e cortes = [...], foi retirado da obra C. Stanislavski, Manual do Ator e transcrito como aparece no livro: A função de nossa técnica [...] é colocar nosso subconsciente em operação / para criar a verdade artística /, e [...] aprender a não interferir no mesmo a partir do instante em que sua ação já se tenha iniciado. É perfeitamente possível afirmar que esta técnica mantém, com a natureza criadora subconsciente, a mesma 171 relação existente entre a gramática e a poesia. [...] Vemos, ouvimos, entendemos e pensamos de forma diferente, antes e depois de havermos cruzado o limiar do subconsciente. [...] Nossa liberdade deste lado [...] é limitada pela razão e pelas convenções; além dele, nossa liberdade torna-se arrojada, voluntariosa, ativa, num constante movimento de avanço. (STANISLAVSKI, 1997, p. 172 e 173) E no último parágrafo do tópico subconsciente, outras palavras de Stanislavski: Quero que vocês sintam logo de início, ainda que por breves períodos, esta magnífica sensação que toma conta dos atores quando suas faculdades criadoras estão funcionando verdadeira e inconscientemente. Além do mais, trata-se de algo que vocês devem aprender através de suas próprias emoções, e não de forma teórica. Aprenderão a amar este estado de espírito, o que os levará a um esforço contínuo para alcançá-lo. . An Actor Prepares .Building a Character (STANISLAVSKI, op. cit., p. 173 e 174) Cabe salientar que Stanislavski não separa prática de teoria, visto que é um dos mais importantes autores a pensar e escrever sobre interpretação teatral, vários de seus conceitos são estudados e utilizados por muitos atores ainda hoje. Porém existem na criação artística alguns momentos para se vivenciar e se criar, e outros momentos para se pensar sobre a criação. A intuição, por exemplo, não se explica por métodos lógicos, na arte experimentamos outras formas de se conhecer e de se produzir conhecimentos. Como vimos com Bosi, Morin, Read, Antônio, entre outros pensadores. Voltando ao processo de montagem, relatarei algumas cenas cômicas apresentadas. No Colégio Básico as cenas satirizavam personagens e situações quase infantis. No Estado um grupo encenou uma piada, porém ficaram muito tímidos durante a apresentação. Dois alunos ficaram sem grupo e eu propus que eles e eu apresentássemos uma cena já clássica de palhaços modernos, eles concordaram e mais um aluno se juntou a nós. Apresentamos a cena e a classe achou-a muito divertida, embora uma aluna tenha achado-a sem graça, a classe disse que sem graça era ela e não a cena, tudo bem, na aula seguinte ela quis participar dessa mesma cena. 172 Por que os alunos ainda se mostravam tímidos na hora de se apresentar? Já havíamos feito alguns jogos e improvisações. Eles se conheciam, mas a timidez e o medo de julgamento ainda imperavam. Sabia que deveria fazer um aquecimento teatral com eles, jogos de atenção e de integração no início de cada aula, mas dos cinqüenta minutos de aula tirando os deslocamentos restava-nos apenas 45 ou 40 minutos aproveitáveis. Tirando os aquecimentos vocais, corporais e as exposições orais explicando os objetivos da aula teríamos apenas uns quinze ou vinte minutos para as improvisações e ensaios das cenas... Percebi o quanto é difícil trabalhar dentro do horário das aulas com um processo de montagem teatral, se fossem apenas jogos teatrais o tempo seria fácil de administrar, porém o desafio seria criar e ensaiar uma peça juntamente com os alunos nessas circunstâncias pouco favoráveis. Não teríamos tempo de experimentar livremente, teríamos que administrar o tempo de cada aula e fazer cumprir um planejamento para que no dia agendado a peça estivesse pronta, os alunos seguros, para que fizéssemos uma apresentação de qualidade. Eu já havia feito montagens com poucos ensaios e com bons resultados, embora nesses casos nós já tivéssemos um texto pronto para ensaiarmos ou cada ensaio fosse de umas três horas. Agora não, tínhamos poucas semanas, o texto seria escrito pelos alunos e os ensaios seriam de curtíssima duração. Além disso, os ensaios eram em locais pouco apropriados: sala de informática (arrastávamos uma grande mesa para ter mais espaço) ou pátio (sem acústica nenhuma) na Escola Estadual, ou sala de música no Colégio Básico (uma sala de pequena dimensão). Precisávamos aproveitar bem o tempo, sem dispersões. Então a partir das respostas obtidas nos questionários escrevemos a cena com as falas sobre adolescência. Dividimos a cena em duas partes. A primeira parte das falas ficou para os alunos do Colégio Básico, a segunda parte das falas para os alunos do Júlio Mesquita. Os alunos deveriam decorar as falas para começarmos a marcar a cena, eu fui dando sugestões de marcações. Neste momento a peça ainda não tinha um título então pedi aos alunos das duas escolas sugestões de nomes para a peça. Nenhuma sugestão foi 173 aprovada pela maioria das duas escolas, continuaríamos à procura de um nome. Todos já tinham algum contato com textos teatrais, conheciam suas formas, eu mesmo já havia pedido para que escrevessem pequenos diálogos, mas se nas improvisações os diálogos fluíam naturalmente, na hora de escrever tinham dificuldade. Então propus alguns exercícios de escrita de cenas. Para ilustrar darei dois exemplos. Escrevi na lousa o início de um diálogo, quatro falas, duas de uma personagem e duas falas da outra personagem, a partir destas falas eles deveriam continuar o diálogo e dar um final para essa pequena cena. Escrevi na lousa: Complete o diálogo abaixo: PERSONAGEM A – Eu amo você. PERSONAGEM B – Não é o que parece. PERSONAGEM A – Por quê? PERSONAGEM B – Porque............. PERSONAGEM A – ......................... PERSONAGEM B – ......................... Transcrevo dois exemplos do exercício acima proposto, escritos por alunos da Escola Estadual. PERSONAGEM A – Eu amo você. PERSONAGEM B – Não é o que parece. PERSONAGEM A – Por quê? PERSONAGEM B – Porque estou sabendo de um boato aí... PERSONAGEM A – Boato? PERSONAGEM B – É, um boato que você tá me traindo... PERSONAGEM A – Eu? Te traindo, amor? Quem está falando essas “mer... ” pra você? PERSONAGEM B – A Thaís do bloco H, do 302. PERSONAGEM A – Ah! Eu não admito que fale isso de mim. Vamos tirar isso a limpo. PERSONAGEM B – Então vamos! 174 (Chegando lá no 302, Thaís atende) THAÍS – Oi! Que surpresa... PERSONAGEM A – Que história é esta de você falar que eu estou traindo a Amanda? THAÍS – É que... (começa a cantar) “Parabéns pra você...” PERSONAGEM B – “Mor...” Eu sabia que hoje era seu aniversário e como eu sei que você não sai de casa no dia do seu aniversário, tinha que inventar uma coisa bem séria pra você sair de casa. PERSONAGEM A – Ufa! Você acha que eu ia te trair? PERSONAGEM B – Ah bom... Ai de você se me trair! PERSONAGEM A – Te amo! (texto sem identificação, sétima D, data de 01/07/2008) Um segundo exemplo: PERSONAGEM A – Eu amo você. PERSONAGEM B – Não é o que parece. PERSONAGEM A – Por quê? PERSONAGEM B – Porque você dá mais atenção para as outras meninas do que pra mim! PERSONAGEM A – Isso é coisa da sua cabeça! PERSONAGEM B – Não é não. Todo mundo já percebeu que você só me faz de palhaça! PERSONAGEM A – Todo mundo quem? Você e você? PERSONAGEM B – Não, eu e todas as pessoas que dizem ser minhas amigas, mas que no fundo são amigos e amigas do CÃO! PERSONAGEM A – Você coloca besteira na sua cabeça e acha que é verdade! Como você quer que eu prove que te amo de verdade? PERSONAGEM B – Você que tem que saber, arruma um jeito de me provar! PERSONAGEM A – Falando assim parece até que você que não me ama! PERSONAGEM B – Eu pelo menos não fico abraçando os meus amigos... PERSONAGEM A – Então ta! Eu juro que nunca mais vou abraçar outra pessoa, nunca mais vou olhar pra outra pessoa... Porque eu te amo de verdade! E faria tudo pra nunca te perder! 175 PERSONAGEM B – Você nunca vai me perder! Eu quero estar sempre ao seu lado, ficar com você até o fim de nossas vidas! E subirmos para o céu de mãos dadas! Obrigada por tudo! Eu te amo! PERSONAGEM A – Você me faz o cara mais feliz da face da Terra! Eu também te amo! Muito! (Paula C. Faria, sétima D, no final ela deixou um recado: “Sérgio Eu te Amo☺) Estes dois exemplos não seriam os melhores modelos de como escrever cenas teatrais, se fizermos uma análise crítica e artística. Porém são um exemplo de como dar voz aos alunos e deixá-los expressar o jeito próprio de ser, oportunidade rara em nossas escolas. Mesmo que impregnados por modelos da TV ou por outros discursos, podemos observar como a linguagem e as expressões utilizadas pelas alunas-autoras revelam o que elas sentem e pensam; como são suas referências culturais e de vida. Devemos ouvi-las. Os diálogos ilustram o romantismo delas. O primeiro texto foge de situações comuns e o segundo mostra bem o ciúme e a concepção de um amor eterno... Um terceiro exemplo, no Anexo 04, fala de uma garota que tinha ciúme da amizade do seu irmão mais velho com um rapaz por quem ela era apaixonada, ela até dá a entender que o amigo amava o irmão dela e que tiveram algum caso homossexual, ele revela então que se aproximou do irmão para perguntar coisas sobre ela; no final da cena ela e o garoto se declaram um ao outro. Outros textos dos alunos seguem uma linha romântica, sem surpresas imaginativas, nem exemplos muito criativos. As produções do Colégio Básico e da Escola Estadual não diferem muito neste sentido. Ressalto que, ainda sim, são vivências iniciáticas, provocadoras e oportunidades ainda incomuns de criação e de liberdade de expressão. Um outro exercício de criação: Complete o diálogo abaixo: PERSONAGEM C – Experimenta... PERSONAGEM D – Eu não quero PERSONAGEM C – .................... PERSONAGEM D – .................... 176 Apresento a seguir dois exemplos destes diálogos completados por alunos. O primeiro exemplo: PERSONAGEM C – Experimenta... PERSONAGEM D – Eu não quero PERSONAGEM C – Por que? PERSONAGEM D – Porque tem cara feia. PERSONAGEM C – “Deisde” quando cara é sabor? PERSONAGEM D – Ah... sei lá! PERSONAGEM C – Nossa! Tá bom então... Já que você não quer a minha torta só porque tem “cara feia” vou pegar outra coisa pra você comer. PERSONAGEM D – Ta bom. PERSONAGEM C – E essa torta? PERSONAGEM D – Essa ta com a cara boa. PERSONAGEM C – Então coma um pedaço! PERSONAGEM D – (comendo) Blã!... PERSONAGEM C – Que foi? PERSONAGEM D – Ta horrível! É melhor eu comer um pedaço da outra... PERSONAGEM C – Ok! Toma... PERSONAGEM D – Que delícia! PERSONAGEM C – Viu? Nem tudo que é estranho é ruim! (Rafael G., 7ª. série D) Um segundo exemplo: PERSONAGEM C – Experimenta... PERSONAGEM D – Eu não quero. PERSONAGEM C – Por que? PERSONAGEM D – Porque não sei o que é. PERSONAGEM C – Ah! É isso? PERSONAGEM D – É. PERSONAGEM C – Então eu falo... PERSONAGEM D – O que é? Fala logo! PERSONAGEM C – É cerveja. 177 PERSONAGEM D – Meu pai não deixa eu tomar isso. PERSONAGEM C – Mas ele nem vai saber, só se você contar. PERSONAGEM D – Ta bom, eu não sou fofoqueira. PERSONAGEM C – Então toma. PERSONAGEM D – Ta bom... (bebe) PERSONAGEM C – Gostou? PERSONAGEM D – Ah, é bom, mas meu pai não pode saber. PERSONAGEM C – Eu guardo segredo. (Rafaela, 7ª. série D) Neste exercício as cenas escritas pelos alunos falavam sobre experimentar algum alimento ou algum tipo de droga. Algumas questões eram abordadas, tais como: as dúvidas que surgem na hora de fazer escolhas, os medos de experimentar algo novo, as possíveis conseqüências destas experimentações. Reflexões éticas e saudáveis mostrando que muitas vezes os pais dizem uma coisa, os amigos podem dizer outra, e na realidade nem os pais nem os amigos estarão juntos o tempo todo, a vida toda; então cada um deve fazer bem as suas próprias escolhas. Depois destes exercícios escrevemos outros diálogos. Dividi a turma, na Escola Estadual, em duplas ou em pequenos grupos e pedi para escolherem um tema e desenvolverem um diálogo escrito. Os temas deveriam estar ligados à adolescência. Foram diversas tentativas, os diálogos de início não eram bons. Logo abaixo relatarei quando as cenas tornaram-se melhores. Nesta fase falei com os alunos sobre como poderíamos usar poesias – incluindo as músicas com letras - na peça: no início ou no final de cada cena, variando para não ficar presumível e repetitivo para o público. Eles gostaram da idéia. Pedi que trouxessem músicas e poesias, de autoria própria ou de outros, trouxeram pouca coisa. Lembrei de um texto poético A Última Flor e sugeri aos alunos que poderíamos utilizá-lo, citei-o também como exemplo de cena onde alguns atores poderiam narrar o texto enquanto outros encenariam o que era narrado. No terceiro ato falarei mais sobre A Última Flor. Durante os ensaios expliquei aos alunos e demonstrei (exemplo de alongamento dos músculos corporais) a importância do aquecimento físico e 178 vocal, fizemos exercícios vocais e pedi para que treinassem em casa, muitos tinham o volume de voz muito baixo. E as tão faladas e desejadas cenas cômicas ainda não tinham sido criadas, pelo menos nenhuma que valesse a pena ser apresentada ao público, exceto aquela cena já clássica que eu e os dois rapazes havíamos mostrado e os alunos haviam gostado. Propus aos alunos que criássemos cenas mudas, para que entendessem como são essas cenas sem textos mostrei cenas de “Luzes da Cidade”, filme do Chaplin, e também do filme “O Baile” de Ettore Scola. Sugeri que criássemos pantomimas para nossa peça – unindo comédia e poesia, poderiam ser cenas engraçadas, críticas e poéticas, com músicas de fundo e não haveria necessidade de textos, o que facilitaria em diversos aspectos: atores não teriam que decorar texto, nem falar alto. Embora nas cenas mudas os atores precisem transmitir tudo que pensam e sentem corporalmente (posturas, gestos, ritmos) e facialmente (expressões, olhares). Mostrei nas duas escolas fotos do teatro da Escola Estadual “Culto à Ciência”, local da nossa apresentação. Trata-se de um espaço de grandes proporções, daí a necessidade de se usar bem a voz. Falei sobre silêncio e postura nas coxias. Ilustração 3: foto da platéia do Teatro da Escola Estadual “Culto à ciência” - Campinas/SP 179 Ilustração 4: foto do palco do Teatro da Escola Estadual “Culto à ciência” - Campinas/SP Debatemos possibilidades de cenários e tapadeiras laterais - pernas para as coxias. Mostrei, nomeei e expliquei os elementos que constituem a caixa cênica, conforme a ilustração: PALCO TIPO ITALIANO BOCA DE CENA: Abertura frontal do palco que delimita horizontal e verticalmente o espaço visual da cena. Recorte na parede frontal do palco, pode ser variada através do uso de reguladores verticais e horizontais. Ilustração 5: exemplo de caixa cênica, palco tipo italiano. 180 Neste momento da montagem mostrei o programa de uma peça, falamos sobre cartaz, release, camisetas, figurinos, cenários, tudo que a produção de uma peça envolve. Em nossa montagem confeccionamos um cenário simples, cartazes e convites para peça. Cada ator providenciaria sua roupa, mas houve cooperação entre eles, um colaborou com o outro tentando conseguir roupas emprestadas. Continuávamos com aquecimentos vocais, poucos queriam fazer alguns exercícios para soltar a voz, principalmente os mais tímidos. Precisávamos terminar o roteiro da peça, o texto não estava totalmente escrito. Tínhamos a cena da boite, a cena cômica já apresentada na Escola Estadual, a cena com falas sobre adolescência a partir dos depoimentos obtidos no questionário e o texto A Última Flor. A partir deste início em que eu trouxe sugestões de textos e de marcações, os alunos começaram a fazer escolhas e a defenderem suas idéias, passaram a manifestar o que desejavam. Isso é gratificante. Tínhamos pouco tempo, mas eles começaram a se integrar ao processo a partir das minhas sugestões. Claro, ninguém cria do nada, precisávamos partir de alguma coisa, e finalmente eles começaram a ter idéia de como seria a peça. Nas aulas seguintes continuei trazendo idéias e sugestões para dar origem às cenas. Dividi a sétima D em cinco grupos, cada grupo escolheu um tema para escrever/desenvolver uma cena, os temas foram obtidos pelos alunos a partir das respostas dos questionários: violência (sonhos de garotos: futebol e polícia); gravidez na adolescência; quatro garotas falariam sobre garotos e um outro grupo abordaria a saúde na adolescência (diabetes, obesidade, anorexia, imagem corporal). Sugeri que intercalássemos algumas cenas, ou seja, duas personagens começam um diálogo (foco A), depois o foco passa para outras personagens que também estão dialogando (foco B ou C), a seguir volta para o primeiro diálogo (foco A) e assim sucessivamente. Os alunos conheciam esse recurso, pois todos participaram de um jogo de improvisação teatral que trabalha com “focos” (Dar e Tomar – SPOLIN, 1987, p. 145 – Focos A, B e C). Destas atividades surgiram textos que deram origem a algumas cenas da peça “Adolê... Sendo”: cena sobre drogas (dividida em partes 1, 2, 3 e 4); cena das amigas sobre família e cidadania, (chamada de foco A), cena sobre 181 medo de falar em público e superações (foco B); cena sobre gravidez na adolescência (foco C); cena no restaurante sobre bulimia; e cena das amigas sobre amor e traição. Já a cena sobre violência (sonhos de garotos: futebol e polícia) era um nó para mim. Foi uma cena que trabalhei bastante, antes mesmo das cenas com textos (drogas, restaurante, amigas e focos A,B e C) serem escritas. Três garotos escolheram o tema violência e improvisaram uma cena em que torcedores de futebol de times rivais brigavam, nada acontecia senão chutes e murros, aliás é muito comum que garotos façam improvisações com lutas. Mas não seria uma cena para se levar a um palco... Pedi que desenvolvessem a cena, que criassem algumas falas. Eles tentaram, mas não surgiu nada interessante. Fui para casa tentando encontrar uma forma de ajudá-los. Eles queriam uma cena de briga e sobre futebol. Particularmente não gosto destes temas, porém deveria respeitar o desejo dos alunos, sem incitar à violência, muito pelo contrário. Pensei então no tratamento dado à cena e aos temas. Conversando com os garotos resolvemos fazer uma cena satirizando os torcedores fanáticos, colocamos narizes vermelhos neles – a menor máscara do mundo, o nariz do palhaço – fizemos as lutas em câmera lenta, com músicas de fundo, usamos “gags” de palhaço, aquelas cenas clássicas que provocam o riso, procuramos mostrar o absurdo e o ridículo da violência e no final tentamos mostrar que a convivência pacífica seria a melhor opção. Os alunos tiveram dificuldade de fazer a cena com os movimentos leves e lentos, as expressões faciais claras, as ações e reações no tempo certo, mas se dedicaram tanto que o crescimento deles foi espantoso. Eles curtiam muito fazer a cena. O que a princípio para mim era um nó, tornou-se um laço de presente: laço de união, presente de energia criadora. Isto mostra que os desafios valem à pena. Claro que nesta cena pensava em Chaplin e o citava como referência aos alunos. Finalmente, tínhamos já as cenas escolhidas, a peça seria uma colagem de cenas. A ordem destas cenas e as amarrações feitas entre as cenas seriam muito importantes para se garantir o ritmo, a coerência e uma linha crescente para o espetáculo. Ainda não tínhamos criados as cenas mudas, as pantomimas. Sugeri que mostrássemos nestas cenas como era ser adolescente - e as “paqueras” - 182 nos salões de baile em diferentes épocas, citei o filme “O Baile” de Ettore Scolla que já havíamos assistido. E a última cena em pantomima se passaria na época atual, dando seqüência à cena da boite, do Colégio Básico. Esta seqüência de cenas mudas seria chamada de “O amor através dos tempos”. Na tentativa de sensibilizar os alunos para o tema, recorri a três histórias de amor, elas estão narradas no anexo 05, porém citarei neste momento uma delas, aliás, já falei sobre esta história quando mencionei a mesa redonda em que se falava sobre poesia e citei exemplos de poesia na vida. O poema abaixo é tocante e significativo: sopro (para Aparecida e Joaquim) o namoro era com um rio ao meio. ela de um lado, ele de outro. Entre as margens, os olhos e as ondas. não podiam se falar, sopravam a água. uma luz corrente ligava os lábios. nos dois corpos o mesmo ar se respirava. (SEVERINO, 2008, p.32) O poema sopro está no livro O visível e o invisível de Severino Antonio. Durante o lançamento do livro, dia 06/08/2008 em Campinas, o professor Severino contou sobre o casal de idosos que lhe inspirou este poema: toda vez que a senhora se encontrava triste o marido colocava água na palma da mão e soprava essa água na direção do rosto da sua esposa. Os filhos não entendiam, mas logo a esposa do velhinho abria um sorriso e deixava a tristeza de lado. Só o casal entendia o porquê, era um segredo deles, das suas histórias de vida, histórias vividas, da cumplicidade construída durante tantos anos. Do amor que os unia. Um dia o pai revelou de onde veio esse sopro de água. Quando eles eram ainda adolescentes, moravam em sítios vizinhos e estavam enamorados um pelo outro. Como nessa época não podiam ficar juntos - as famílias não permitiam contatos físicos nem que um homem e uma mulher namorassem sozinhos - eles se encontravam nas margens do rio que separava os dois sítios, um de cada lado do rio e então o jovem pegava água 183 do rio e soprava na direção de sua amada como se lhe mandasse um beijo. Ela recebia e retribuía o beijo – o sopro de água. A partir daí esse diálogo silencioso, essa declaração poética de amor tornou-se um código, um segredo só deles, esse rio de amor, esse rio de comunhão, esse beijo de água soprada. Códigos, metáforas, linguagens, poesias. A vida está repleta disso tudo, mas tem gente que não percebe e não vive essa poesia da vida. A partir destas sensibilizações criamos a cena sobre o Amor através dos tempos. Uma ex-aluna minha da EE Julio Mesquita queria voltar a fazer teatro comigo, o irmão dela estudava na sétima D e ela, ao saber deste projeto, pediu para participar e ajudar de alguma maneira. Foi convidada para fazer o papel da mãe de uma garota romântica na cena do Amor através dos tempos. Finalmente chegamos a tão citada “cena da boite” onde alunos das duas escolas dançavam e interagiam, mas só alunos do Colégio Básico tinham falas. A peça estava quase pronta, mas faltava um começo. Pedi aos alunos que escrevessem um texto que apresentasse ao público o tema da peça. Uma poesia ou um texto poético. Ninguém escrevia nada embora eu os motivasse, sensibilizasse ou os provocasse, até que o Vinicius do Colégio Básico trouxe um bonito texto de sua autoria, mas ainda faltava uma cena para abertura da peça, algo que “ganhasse” a platéia logo no início do espetáculo. Propus que fosse uma música, músicas bem escolhidas tocam as pessoas, como se falassem mais aos corações, sendo talvez por isso a música uma linguagem universal. Pedi sugestões de músicas para toda a peça. Os alunos trouxeram algumas. A música para a abertura deveria ter uma letra que remetesse a adolescência. Eu sugeri um pop rock, Fúria e Folia, da banda Barão Vermelho. Música aprovada montamos uma coreografia simples com bandeiras representando o vento e o movimento. Já era outubro quando organizamos a seqüência das cenas, músicas, coreografias e pantomimas. Terminamos a formatação do roteiro do espetáculo e partimos para os ensaios da peça inteira. Precisei intensificar os ensaios. A peça estava agendada para o dia 07 de novembro. Precisei pedir aulas de outros professores no Estado para poder montar a peça no período previsto. Eu tinha aulas na sétima D nas segundas e terças-feiras, nas quartas-feiras pedia a aula de algum professor para ensaiar alguma cena da peça. No Básico tinha aulas às terças-feiras, fizemos poucos 184 ensaios fora do período de aulas, às sextas-feiras. Estes ensaios extras nas duas escolas ocorreram durante o mês de outubro. Um mês antes da estréia a peça ainda não tinha um nome. Como nenhuma sugestão apresentada pelos alunos era aprovada pela maioria, eu ficava procurando algum título que agradasse a todos. Estava então pensando na peça e no título... Adolescente, adolescendo... Eureca! Adolê... Sendo. Adolê lembrando infância e Sendo um ser momentâneo, um tempo de passagem. Mostrei aos alunos e aprovação foi geral. Os alunos fizeram alguns desenhos sobre “ser adolescente / adolescência”, uma pequena mostra encontra-se no Anexo 06. Concebemos o cartaz e os convites, corríamos contra o tempo. Viver é fúria e folia, rumo ao mágico! Aline Bueno - Amanda Souza – Bianca Rodrigues - Bruna Thais – Bruno Galerani Caio Rocha - Eric Souza – Fernanda Ferreira - Giovana Tancler - Guilherme Carvalho Guilherme Mendes - Guilherme Souza - Jéssica Damiana - Johny Regis -Júlia Boscolo Juliana Lima –Júlio Marques -Leonardo Mancini - Leone Henrique - Ludmila Jalkauskas Paula Conde - Rafael Garcia – Rebeca Oliveira - Renan Fussi - Rodrigo Tambellini Sergio Antonio - Sergio Goulart - Stella Mariotto - Thaís Lemes - Thaís Montanari Thamires de Cairos – Thiago Gava - Victor Luis – Vinicius Nascimento C o n v i d a m para a estréia da peça teatral “Adolê Sendo” Humor e poesia. Uma criação coletiva. Um rito de passagem. Uma peça teatral. DATA: Sexta-feira – 07.11.2008 HORA: 16:00h LOCAL: TEATRO CULTO À CIÊNCIA – Campinas/SP Rua Delfino Cintra – próximo Av. Barão de Itapura Direção/Dramaturgia: Helvécio Alves Junior - ENTRADA FRANCA - Ilustração 6: Convite para a estréia Vale lembrar que tive a idéia de montar a peça com alunos de duas escolas de bairros diferentes. Eles não se conheciam, eu fiz a ponte entre eles, levava e trazia idéias e sugestões, tudo foi democraticamente decidido. Durante os ensaios todos sabiam onde estavam os alunos da “outra” escola. Sabiam as falas e a seqüência de cenas de cada escola. Por onde entravam em cena, onde ficavam e por onde saiam. Lembrando que os alunos só conheciam o palco por fotos. Ensaiávamos pensando como seria quando se juntasse tudo. A junção foi feita na véspera da apresentação, na escola estadual. Só nesse dia os alunos se conheceram. E ainda sim uma aluna do Colégio Básico 185 passou mal na sua escola e não teve condições de ir ao ensaio. Ela e todos, eu inclusive, estávamos muito ansiosos. O encontro dos alunos foi um misto de timidez, paquera, tentativas de aproximações, descobertas. Não tivemos tempo de fazer nenhum jogo de integração. Fizemos um breve aquecimento vocal e ensaiamos somente uma hora com os dois elencos. Nem passamos a peça inteira. Atrasamos o começo por causa do malestar da aluna que nem pode ir ao ensaio, terminamos cedo porque alguns alunos tinham aula de reforço escolar. No dia seguinte nos encontramos todos no teatro para a tão aguardada estréia. Mas isto já é assunto para o terceiro ato. Tentei de forma sucinta relatar como foi a poética - o percurso da criação do espetáculo teatral. No próximo item farei uma síntese do roteiro final da peça, citando poucas falas, descrevendo algumas cenas. 3.6 – Uma síntese da peça: textos e contextos A peça se iniciava com a fala de um Aluno da Escola Estadual, que entrava no palco vazio e dizia um texto que ele mesmo escolheu: LEONARDO: O tema da peça é infinita diversidade combinações, ou seja, tudo é possível. em infinitas Vale à pena observar os temas abordados na peça: uma personagem fala sobre sexo em um seminário de ciências na escola; amigas falam sobre gravidez na adolescência; drogas; guerras; amor; anorexia; bulimia; alcoolismo; política; história... E tantos outros temas presentes na peça. Adiante falarei sobre como o teatro é transdisciplinar; e o Leonardo já tinha percebido isso... Depois do texto dito pelo Leonardo entrava a música e a coreografia de Abertura: 186 Me chamo vento / Me chamo vento / Passeando pela cidade destruída / Bombas foram lançadas e tudo reduzido a pó / Na praça aberta sou um colar de livres pensamentos / [...] Uns trabalham por dinheiro / Outros por livre e espontânea vontade / Eu trabalho para o nada espalhado pelo chão / Sou solidão a dançar com a língua no formigueiro / Ando, ando, ando, ando sem parar / Na poeira dos fatos nas transparências / Viver é furia e folia, rumo ao mágico! / Viver é furia e folia, rumo ao mágico! (MÚSICA: Fúria e folia - Barão Vermelho) Cinco alunas entravam, duas pela platéia e três pelo palco, agitando bandeiras (duas brancas, duas azuis claras e uma prata), fazendo uma coreografia simples. Todo elenco também entrava em cena. A primeira música falava sobre bombas e sobre a cidade destruída. Incluímos na seqüência uma cena onde dramatizamos o poema humorístico A Última Flor, do norte-americano James Thurber. Nesta cena algumas alunas falavam o texto enquanto os atores encenavam o que era narrado, a maioria como povo, dois como militares, um moço e uma moça como o casal principal. Interessante notar que é um texto com linguagem coloquial, texto crítico e satírico, porém com um final poético e lírico. Crítica, humor e poesia, sensibilidade e inteligência como em muitas obras de Chaplin. A Última Flor relata uma guerra mundial que destrói o planeta, porém restam um homem, uma mulher e uma flor que repovoam a Terra. Todos vivem em harmonia até que a ganância de alguns coloca o mundo novamente em guerra, desta vez a destruição é tão completa que nada resta do mundo, senão… um homem, uma mulher e uma flor. No final da cena alunos das duas escolas entregaram flores para o público enquanto tocava a música Amor pra recomeçar, do Frejat. Foi mais uma forma de quebrar o gelo entre palco e platéia e tirar o “medo do público” que os alunos tinham. Eu te desejo / Não parar tão cedo / Pois toda idade tem / Prazer e medo... / E com os que erram / Feio e bastante / Que você consiga / Ser tolerante... / Quando você ficar triste / Que seja por um dia / E não o ano inteiro / E que você descubra / Que rir é bom / Mas que rir de tudo / É desespero... / Desejo! / Que você tenha a quem amar / E quando estiver bem cansado / Ainda, exista amor / Prá recomeçar / Prá recomeçar... 187 (MÚSICA: Amor pra recomeçar - Composição: Frejat / Mauricio Barros / Mauro Sta. Cecília) Depois que o elenco entregava as flores para o público e ia para as coxias, o Vinicius do Colégio Básico falava um texto de sua autoria: VINICIUS: Muitas vezes na vida poderemos e tentaremos recomeçar. Você pensa que caminhar é fácil? Porém o caminho nos confunde a cada passo. Cada passo é como uma semente que plantamos para um dia colher os frutos, belos ou não. Estamos tentando descobrir como é andar com nossos próprios pés para acharmos nossos rumos. Em meio a essa longa jornada encontramos grãos ou até pedras que podem nos desviar da rota. Mas se tropeçarmos em um desses obstáculos a quem devemos recorrer? Aos fracos ramos ou aos mais maduros que estão no topo das árvores? Podemos também nos deparar com lindas rosas ou cravos, mas será que só isso é importante? Ou talvez o importante seja o seu próprio pólen interior. De vez em quando é bom parar com tudo. E recomeçar. Recomeçar era a palavra-chave. Era encenada então a Cena dos Dorminhocos. É uma cena onde pessoas dormem, acordam, voltam a dormir, acordam, voltam a dormir... Enfim, a cena está descrita no texto (anexo XXXX) e vale à pena assisti-la no DVD da peça (anexo xxxx). A seguir colocamos a cena sobre adolescência, com as falas obtidas com os questionários. Vários jovens disseram que os adultos não “vivem a vida”, por isto no final desta cena colocamos a música Epitáfio, dos Titãs: Devia ter amado mais / Ter chorado mais / Ter visto o sol nascer / Devia ter arriscado mais / E até errado mais / Ter feito o que eu queria fazer... / Queria ter aceitado / As pessoas como elas são / Cada um sabe alegria / E a dor que traz no coração... [...] / Devia ter complicado menos / Trabalhado menos / Ter visto o sol se pôr / Devia ter me importado menos / Com problemas pequenos / Ter morrido de amor... / Queria ter aceitado / A vida como ela é / A cada um cabe alegrias / E a tristeza que vier... / O acaso vai me proteger / Enquanto eu andar distraído (Composição: Sérgio Britto) Vieram a seguir as cenas entrecortadas: Cena sobre drogas – dois amigos pichadores, um deles é usuário de drogas; Foco A: duas amigas, uma tem pai alcoólatra, a outra é militante política; Foco 188 B – duas amigas, uma fala com a outra sobre medo e vergonha de apresentar um seminário de ciências, sobre sexo, na escola; Foco C – duas amigas, uma pode estar grávida e irá falar com o namorado; Cena no restaurante – cena mostra casos de diabetes em adolescentes e de anorexia. Finalmente era encenada a Pantomima de três garotos sobre Violência e Futebol; depois vinha a Cena das Amigas sobre Amor e traição. Na seqüência apresentamos a cena “O amor através dos tempos”, uma pantomima com pouquíssimas falas. A pantomima era dividida em três partes: O Amor de Outrora (músicas dos anos 50), O Amor nos Anos 60 (rock’n roll) e O Amor hoje (música eletrônica); estava pronto o cenário para a última seqüência de cenas da peça, as “cenas da boite”, com diálogos de personagens interpretadas pelos alunos do Colégio Básico, mas alunos das duas escolas dançavam e interagiam. A última cena da “Boite” e da peça terminava assim: ATOR________: E toda balada tem um fim. Então chega a hora de voltar pra casa.Tudo acaba. Ou recomeça. A vida é assim. A nossa peça também. MÚSICA: Fúria e folia - Barão Vermelho COREOGRAFIA FINAL. APLAUSOS. -FIM- A peça terminava com a mesma música do começo, ou seja, estávamos prontos para recomeçar. 189 Humor e poesia. Uma criação coletiva. Um rito de passagem. Uma peça teatral. Viver é fúria e folia, rumo ao mágico! Direção e Dramaturgia: Helvécio Alves Junior Elenco: (um encontro entre sétimas séries (oitavo ano) da EE Julio Mesquita e do Colégio Básico) - Aline Bueno - Amanda Souza – Bianca Rodrigues - Bruna Thais – Bruno Galerani - Caio Rocha - Eric Souza – Fernanda Ferreira - Giovana Tancler - Guilherme Carvalho – Guilherme Antonialli - Guilherme Souza - Jéssica Damiana - Johny Regis – Júlia Boscolo - Juliana Lima – Júlio Marques - Leonardo Mancini - Leone Henrique - Ludmila Jalkauskas - Paula Conde - Rafael Garcia – Rebeca Oliveira - Renan Fussi - Rodrigo Tambellini – - Sergio Antonio - Sergio Goulart - Stella Mariotto - Thaís Lemes - Thaís Montanari - Thamires de Cairos – Thiago de Almeida - Victor Luis – Vinicius Nascimento - DATA: Sexta-feira – 07.11.2008 HORA: 16:00h LOCAL: TEATRO CULTO À CIÊNCIA – Campinas/SP Rua Delfino Cintra – próximo Av. Barão de Itapura - ENTRADA FRANCA - Ilustração 7: cartaz da peça 190 3.7 - Abrindo as cortinas: vivenciando o transdisciplinar, reencontrando o humano Chegou a hora de dissertar sobre a apresentação do “Adolê Sendo”. Chegou a hora de abrir as cortinas. De descobrir se todo o trabalho feito valeu à pena. Se existe coerência entre a teoria e a prática. Se os objetivos foram atingidos ou não. Quem faz teatro sabe que esta é a hora em que o trabalho se completa, a obra encontra seu público e sua razão de existir. E o público reage, interfere, dialoga com a obra. Para meus alunos chegou a hora de descobrir o sentido maior do fazer teatral. Que impactos esta experiência teve em suas vidas? O que o teatro revelou para eles e para o público? O conhecer, o desvelar, o descortinar teatral. Uma vez revelado, impossível ser recoberto, negado, escondido. Por incrível que pareça o descortinar teatral revela e, ao mesmo tempo, esconde. O mistério continua. Necessitamos das imagens, das metáforas, da poesia... Que, metaforicamente, se abram as cortinas! Neste item relatarei o que aconteceu no teatro antes, durante e após a apresentação da peça “Adolê Sendo”. E o que permanece além do teatro, ainda hoje. Dentre minhas reflexões e diversos depoimentos, destaco as vozes dos alunos-atores sobre o que significou para eles terem participado da peça, se aprenderam algo, de que não se esquecerão... Baseado nas respostas dos alunos, pretendo demonstrar que o teatro é um importante aliado na busca de uma educação significativa e prazerosa; além de o teatro ser um expressivo exemplo de conhecimento transdisciplinar. Encerrarei com algumas considerações sobre o riso e o humano, mostrando que os alunos – mais uma vez – tinham razão quando escolheram montar uma peça cômica. A peça “Adolê Sendo” foi apresentada em Campinas/SP, no dia 07 de novembro de 2008, no teatro da EE Culto à Ciência, para familiares e colegas dos alunos das duas escolas - EE Julio Mesquita e Colégio Básico - e também para alunos de uma terceira escola convidada, a EE Benedito Sampaio. 191 No dia da apresentação, antes do ensaio geral no teatro, fiz uma “corrente” com os alunos no palco. No teatro a corrente, um círculo onde todos dão as mãos, é como um ritual antes das apresentações, e não tem nada a ver com alguma religião. Fizemos a “corrente” duas vezes, uma no início do ensaio e outra antes do público entrar. Defendo a idéia de uma educação laica, porém defendo o respeito à religiosidade e a fé, seja ela qual for. No momento da corrente os alunos estavam nervosos e perguntei se queriam orar. Disseram que sim. Perguntei se eram cristãos ou não. Todos eram cristãos, de diferentes religiões. Propus que rezássemos o Pai Nosso, oração comum à diversas religiões cristãs. Assim fizemos. E pedimos à Deus que nos iluminasse. Tomo muito cuidado ao trazer este tema – religião - aos alunos, mas quando sinto que devo não o evito. Durante a corrente entreguei aos alunos uma mensagem para que lessem depois. Na mensagem constava um poema de Maiakóvski em que ele dialoga com o astro Sol sobre o papel do artista em nossa sociedade e o Sol lhe diz: ‘[...] E eu? Você pensa que brilhar é fácil? Prove, pra ver! Mas quando se começa é preciso prosseguir e a gente vai e brilha pra valer! [...] Vamos, poeta, cantar, luzir no lixo cinza do universo. Eu verterei o meu sol e você o seu com seus versos.’ E Maiakóvski conclui assim o poema: Brilhar para sempre, brilhar como um farol, brilhar com brilho eterno, Gente é pra brilhar que tudo o mais vá pro inferno, este é o meu slogan e o do sol. (MAIAKÓVSKI, 1982, p. 89-90) 192 A mensagem e o poema na íntegra estão no anexo 07. Após a corrente, fizemos aquecimento vocal, reconhecemos o espaço cênico e ensaiamos a partir da cena em que havíamos parado no ensaio da véspera até quase o final da peça. Tive que ensaiar rapidamente a cena da boite, porque o público já estava aguardando para entrar no teatro, resolvemos como o elenco iria receber os aplausos e só depois ensaiamos o começo da peça. Já estava na hora de abrir as portas para o público entrar e também era a hora de os atores trocarem de roupas. Tudo foi rápido e intenso. Trinta e dois alunos dividindo o mesmo palco. Só eles, nenhum adulto “tomando conta”. Eu estava na platéia, operando o equipamento de som. Relatarei como foi a apresentação segundo minhas percepções e alguns relatos de pais, de alunos e do público em geral. Estava preocupado, pois os alunos convidados da Escola Estadual Benedito Sampaio, escola vizinha do teatro, entraram no teatro fazendo brincadeiras e falando alto, comportamento bastante comum entre adolescentes, independente de que escola for. Antes da peça começar, em breves palavras, agradeci a presença de todos e expliquei ao público o que iriam assistir, pedi que desligassem os aparelhos eletrônicos e que fizessem silêncio, pois seria difícil ouvir os alunosatores se houvesse barulho na platéia ou nas coxias e disse que quem não estivesse gostando da peça poderia se retirar, ninguém estava ali obrigado. Pedi para fazermos um trato, se houvesse algum tipo de bagunça ou interferência eu pararia a peça, pedi para que os que estivessem de acordo levantassem a mão e toda a platéia ergueu os braços, contrato feito, o combinado não sairia caro, podíamos começar a peça. Os alunos-atores conseguiram manter o ritmo do espetáculo, seguindo o roteiro do espetáculo, improvisando quando necessário, vencendo os medos, procurando fazer o melhor possível. Alguns falaram com voz baixa, outros esqueceram de mudar os móveis do cenário - em uma cena eu mesmo entrei e mudei os móveis - em outro momento os próprios atores mudaram os móveis no início da cena deles, pois estavam em posições erradas, porém em todas as outras mudanças de cenário eles fizeram como tinha sido ensaiado. 193 No início da cena da boite mudaram o texto e alguns alunos não sabiam quem iria falar, finalmente um casal começou seu diálogo e os demais saíram de cena, e não era para saírem. Na coxia começaram a falar e como eu estava na frente do palco, em uma parte mais baixa, como em um fosso de orquestra, ouvia mais o barulho vindo das coxias do que as vozes do casal de atores em cena. Como combinei, no início da peça, que não deveria haver barulho na platéia nem nas coxias porque eu poderia interromper a peça e só iria continuála quando houvesse silêncio, não pensei muito e pedi para o casal parar a cena, pedi silêncio nas coxias, pedido prontamente atendido, e pedi para o casal recomeçar a cena deles. A peça continuou até o final sem nenhum outro incidente. Os alunos não se incomodaram com a minha interrupção, o público achou desnecessária porque estavam ouvindo o casal e o barulho da coxia não ia tanto para a platéia, mas compreenderam meu ato. Parei para refletir se foi um ato exagerado. Jamais quero abusar da minha autoridade, porém sei que preciso exercer meu papel de educador que coloca limites quando necessários. De onde eu estava eu ouvia muito barulho vindo da coxia, os alunos me disseram depois que pediam silêncio entre eles, mas que não adiantava; a peça ainda teria alguns minutos e fiquei com medo de aquela excitação normal para aquele momento estragasse o final, então coloquei um limite, conforme combinado. Se deixasse para conversar com eles depois, a peça já teria sido. E talvez eles não percebessem que fazer barulho nas coxias é uma falta de respeito com o colega que está em cena e com a platéia. Sabia que os alunos não tiveram ensaios nem outras experiências no palco de um teatro, sabe-se lá quando terão novamente, precisavam saber que silêncio nas coxias é algo sagrado, disciplina necessária aos artistas cênicos (de teatro, dança, música e circo). O público sabia que eram alunos se apresentando, eu ali era um professor, e que a apresentação era parte de um processo, uma aula especial. Faltou um ensaio geral com mais tempo, com duas passagens inteiras pelo menos. Para que nos ensaios eu pudesse corrigir os alunos e não diante do público. Enfim, fiz o que achava certo, sem ofensas, com um amor exigente, exigente em respeito aos colegas de cena, ao público e ao teatro. Certamente a “bronca” doeu mais em mim. Da próxima vez pensarei bem antes de falar ou de interromper, mas se for necessário, interromperei. 194 O que pude perceber é que os alunos e o público ficaram extremamente felizes com o resultado apresentado. Fizemos um “bate-papo” com o público logo após os aplausos. Ilustração 8: elenco da peça “Adolê Sendo” “Superou as expectativas” disse Helen, a diretora da escola estadual. Vários pais e mães disseram que foi uma “aula” especial, que os seus filhos seriam outras pessoas após essa experiência. Stela, diretora da escola particular, parabenizou todos pelo desempenho, achou uma experiência ímpar. E parece que assim foi. A emoção tomou conta de todo o elenco e de muitas pessoas na platéia. Uma mãe escreveu, no verso de um papel já utilizado, o que ela pensava naquele momento sobre essa montagem e o impacto que teve na vida de sua filha (Anexo 08). Ela pediu para que eu lesse em voz alta: Caro Helvécio, (com desculpas pelo papel) Na educação, tem gente que faz e tem gente que... tanto faz. Você faz. Por isso, erra. Por isso, mostra imperfeições. Por isso, às vezes, dá errado. Você faz. Por isso, faz diferença. Por isso, acerta. Por isso, constrói. E quem faz diferença na Educação, edifica caráter. Aprimora o ser humano. Este, depois de você ou junto com você, não volta para casa o mesmo. Volta e vê-se melhor. Quem faz, enquanto faz, pergunta-se se está valendo a pena, afinal, as circunstâncias... Pois, não duvide, vale a pena sempre! Parabéns pelo maravilhoso trabalho. Alegro-me pela Ludmila, sua aluna, que irá, no decorrer da vida, refletir um pouco de você! Que Deus o abençoe. Martha -7/nov/08. 195 Foi difícil ler o texto até o fim. Este foi um dos mais belos presentes que recebi como educador e mostrou-me que realmente vale à pena. Controlei minha emoção e abri espaço para o debate, ou melhor, para o “bate-papo” com o público. Os jovens responderam perguntas da platéia. Disseram que superaram seus medos, venceram obstáculos, uma ex-aluna, que fez o papel de mãe na cena da pantomima, disse que eles fizeram o melhor que puderam principalmente por respeito a mim e a paciência gigantesca que eu tive com eles, vários reiteraram falando ao mesmo tempo: “muita paciência”. Várias mães disseram que era incrível o que eu havia feito sozinho, sem apoio de outros adultos, com 32 jovens em cena. Eu respondi que não estava sozinho. Estava com 32 jovens. E que meu objetivo é que eles caminhassem com suas próprias pernas. E, apesar de alguns erros e dos únicos dois ensaios com todo elenco reunido, eles se saíram muito bem. Os alunos improvisaram uma homenagem para mim na hora e terminaram todos me abraçando num grande “bolo” humano. Extremamente humano. Não tenho como quantificar o impacto desta montagem no aprendizado e na vida de meus alunos, mas posso assegurar que todos nós aprendemos muito. Como escreveu a mãe, valeu a pena. Muito. Quando a ex-aluna disse que superaram seus medos e fizeram o melhor em cena porque pensaram em mim, porque viram o meu esforço e minha paciência, não senti algo como dívida ou medo de uma possível bronca após a peça. Não estabeleço com eles essa relação de punição, pelo contrário, sempre mostro que errar faz parte do processo, da vida. Senti mais como reciprocidade, gratidão, respeito, afeto por alguém que lhes respeita, que quer a felicidade e o desenvolvimento deles, que tenta propiciar as melhores condições possíveis para isso. Alguém que não pode fazer tudo sozinho, que precisa da participação, contribuição e do desejo deles. Creio que esse espírito de pertencimento, de co-responsabilidade, de afeto verdadeiro possibilitou essa postura generosa dos alunos. 196 Peço aos meus elencos que sejam atores generosos, que ajudem aqueles que mais precisem, que se ajudem uns aos outros. E, pelo visto no dia da apresentação, eles se ajudaram mutuamente, e muito. Os relatos após a peça, sobre tudo que aconteceu nas coxias durante a apresentação, mostram que foi uma experiência de como ser responsável por si mesmo, pelos companheiros de palco, pela peça toda. As ajudas nas trocas de roupa, as palavras tranqüilizantes e de encorajamento, as palavras amigas... Palavras, gestos, silêncios, encontros, diálogos no palco e nas coxias. Experiências únicas e significativas. Os relatos escritos pelos alunos-atores após a apresentação da peça “Adolê Sendo” expressam que todos gostaram muito da experiência, destacarei algumas passagens que falam como esta foi uma experiência educativa, significativa, prazerosa e ímpar em suas vidas. Os alunos falam sobre crescimento pessoal, superação de dificuldades e medos, como encarar o erro e sobre os sentimentos vividos na apresentação. Falam também como não esquecerão tudo que aprenderam, aprendizado divertido e emocionante – um aluno compara o “fazer teatro” com o “jogar futebol”, a coisa que ele mais gosta de fazer. Falam muito sobre a importância das amizades e do respeito às pessoas, o companheirismo – mesmo entre pessoas que mal se conheciam - e a disciplina teatral; vale ressaltar o humor, a sinceridade e a espontaneidade dos alunos. Vale ressaltar também que nunca algum aluno meu usou “palavrões” ou faltou com o respeito comigo ou com os colegas, eles sabem os limites e a diferença entre liberdade e libertinagem. Fico feliz com a confiança que eles têm em poder dizer o que sentem e pensam, sem hipocrisias, porque eles sabem que eu acredito na importância da liberdade de expressão. Descortino neste momento uma constelação de significativas falas, vozes próprias dos alunos-atores: LEONARDO - “Significou muito pra mim participar dessa peça porque me ensinou muito [...] eu lembro de tudo desde o comecinho então eu não vou colocar no papel, mas eu lembro de tudo [...] vai ser muito importante na minha vida” 197 THAMIRES C. – “Aprendi a falar mais alto, perder um pouco a vergonha. Ah eu não vou esquecer do nervoso, ansiedade, correria atrás do palco, senti coisa que eu nunca tinha sentido na vida”. JÚLIA B. – “Aprendi a falar mais alto, colocar entonação nas frases e até perdi um pouco da vergonha. Eu nunca esquecerei dos ensaios do teatro pois eu aprendi muitas coisas e eles foram muito divertidos”. LUDMILA – “Ah! Vai ser muito bom contar como foi para nossos filhos” THAIS M. – “Foi uma experiência MARAVILHOSA, eu adorei” RAFAEL G. – “Uma experiência única na minha vida, inexplicável.” JÉSSICA D. – “Aprendi a me expressar melhor. Não vou esquecer das pessoas que conheci e das coisas que aprendi lá (no teatro).” RENAN F. – “Aprendi a me concentrar no que eu quero e levar as coisas mais a sério”. SÉRGIO – “Eu aprendi muitas coisas sobre a adolescência, tinha coisas que eu nem sabia o que era [...] Eu acho que eu nunca vou esquecer é da minha cena, eu gostei muito (Cena do Futebol e Violência; sobre estar no palco ele diz:) É normal, é como entrar no campo e jogar bola, porque é coisa que eu mais gosto que é jogar bola, eu entrei no palco e eu dei o melhor de mim.” REBECCA – “Foi literalmente uma experiência ‘sem vergonha’ porque apesar de não parecer eu sou tímida demais. [...] Aprender não é uma coisa que eu faço com tanta facilidade, mais o que eu aprendi foi: seja sem vergonha no palco, porque só assim sua mãe vai descobrir o que você realmente é. [...] Dependendo da personagem, acho que no palco a gente pode mostrar o que realmente somos e fazermos tudo o que sonhamos” 198 VINICIUS - “Gostei muito porque é muito divertido você apresentar uma coisa que você se dedicou aos outros” RODRIGO T. - “Foi importante (participar da peça), pois eu tinha que fazer a minha parte, isso foi bastante importante para mim. [...] O que aprendi e nunca vou esquecer foi como não ter medo de público, na hora eu tava cagando de medo, eu tava com dor de barriga”. FERNANDA - “Aprendi como é difícil organizar uma peça e o tempo que leva. Nunca vou me esquecer [...] a alegria que dá depois que acaba, você sente um alívio de deu ‘tudo bem’, que bom, consegui” JULIANA – “Aprendi que quando uma pessoa ta falando eu tenho que respeitar e ouvir” GUILHERME A. – “Aprendi que temos que conhecer as pessoas, para depois julgá-las. Não dar opinião sem antes conhecê-la”. BRUNO G. – “Aprendi algumas lições de moral que a peça nos mostra, também vi a paciência que temos que ter para fazer uma peça. [...] Nunca irei esquecer as amizades que fiz e as dificuldades que superei. Nunca vou esquecer essa minha primeira peça teatral [...] você percebe que todo seu trabalho valeu à pena”. THAIS M. – “Eu aprendi um monte de coisas, em cada ensaio uma coisa diferente, o professor sempre falava pra prestar atenção que (a gente aprende) com os erros dos outros, e não é que isso é verdade” LUDMILA – “Você não pode esquecer que eles (o público) também são pessoas e que erram, não tem porque ficar nervoso.” 199 Muitos alunos deixaram mensagens agradecendo ao professor, dizendo que querem fazer mais teatro e teve um recado que fez menção ao poema de Maiakóvski e o Sol, sobre o papel do artista na sociedade: ALINE B. – “Professor: Obrigada por ter tentado ensinar a todos nós como se brilha! Beijão.” Destaco a percepção dos alunos de que “fazer junto” é muito prazeroso, e requer confiança no outro: TAMIRES S.- “Uma das coisas que eu nunca vou me esquecer são das amizades que fiz e da peça em geral, mas, principalmente de que pra conseguirmos alcançar algum objetivo ou meta precisamos ser persistentes, ter determinação e trabalho em grupo. [...] OBS.: Professor, obrigada por tudo mesmo, fiquei muito feliz de ter participado da peça, obrigada por ter confiança em mim.” PAULA - “Sim (aprendi). (Não esquecerei) do companheirismo das pessoas, um ajudando o outro, apesar de não nos conhecermos muito bem”. FERNANDA - “Significou muito, pois eu pude ter um conhecimento maior sobre teatro, o que é fazer teatro, pude trabalhar em equipe” REBECCA - “Eu gostei porque eu conheci o pessoal da outra escola que fazia parte da mesma peça. [...] Eu não vou esquecer do pessoal da outra escola” 200 Ilustração 9: Algumas fotos da peça... Entrada das bandeiras / coreografia de abertura Cena do dormir e acordar Final da cena sobre futebol e violência 201 Cena da boite Boite: cena no banheiro feminino Debate após a peça 202 Pelo que escuto ainda hoje, junho de 2009, o encontro deles ficou marcado em suas memórias de vida e eles me pedem para que reapresentem a peça porque foi muito legal e porque estão com saudades dos colegas da “outra” escola. Quem sabe essa “outra escola” não seja a grande escola da vida... e da arte. Os alunos das duas escolas têm se falado e jogado vôlei juntos, a amizade deles foi além do teatro... Na escola estadual, ministro aulas nos períodos da tarde e da noite, as sétimas séries estudam à tarde; os alunos da sétima D passaram para a oitava série que tem aulas pela manhã, em junho fui visitá-los e eles lamentaram não terem mais aulas comigo... Os alunos do Colégio Básico ainda têm aulas comigo e planejam montar uma nova peça para este ano. Lamento a não continuidade na escola estadual de um projeto deste tipo, mas os horários inviabilizam que monte uma nova peça com meus ex-alunos, por enquanto. Temos esperança de nos reencontrarmos em um novo projeto teatral. Pessoas que assistiram à peça – alunos das escolas e adultos; e também os próprios alunos-atores, a começar pela primeira fala do aluno Leonardo sobre “infinita diversidade em infinitas combinações” - destacaram quantos assuntos a peça tratou; pode-se observar no texto e no DVD da peça (anexos 13 e 14) e serão vistas todas as disciplinas escolares presentes em nossa montagem. E, mais do que isso, temas que perpassam todas as disciplinas e a própria vida; por isto afirmo que o teatro é conhecimento transdisciplinar. Severino em seu livro Educação e Transdisciplinaridade nos ilumina com as palavras de Nicolescu e seu Manifesto da Transdisciplinaridade: A necessidade indispensável de laços entre as diferentes disciplinas traduziu-se pelo surgimento, na metade do século XX, da pluridisciplinaridade e da interdisciplinaridade. A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma mesma e única disciplina por várias disciplinas ao mesmo tempo. [...] A interdisciplinaridade tem uma ambição diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela diz respeito à transferência de métodos de uma disciplina para outra. [...] A transdisciplinaridade, como o prefixo “trans” indica, diz respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer 203 disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento. (NICOLESCU apud ANTONIO, 2002, p. 61) Severino observa que a “transdisciplinaridade, como também o pensamento complexo, fecundam nossos dias.” (ANTONIO, 2002, p. 61) Entre outros temas já abordados – Morin e a complexidade, a necessidade da poesia e do lúdico na educação, as questões da linguagem para os seres humanos – fico feliz em perceber que este trabalho possibilitou aos alunos um encontro breve, porém intenso, com o transdisciplinar, o complexo, o lúdico e o poético... Pude verificar na prática que é possível e necessária uma educação integral, prazerosa e significativa, baseada nos fundamentos teóricos abordados nesta dissertação. E o que aprendi com meus alunos? Aprendi que devo ouvi-los cada vez mais. Saber escutar não é tarefa simples... Ouvir as entrelinhas, os silêncios, os risos, os olhos, os corpos que se agitam ou se estagnam. Os corpos falam! Aprendi também que a procura e a expressão da “voz própria” requer coragem de expor não só os pensamentos, mas, principalmente, os sentimentos. E não estamos acostumados a nos expor tão inteiramente... É preciso ter coragem para escutar e manifestar os medos, os afetos e desafetos. É preciso ter um ambiente de confiança e de abertura para o diálogo, para se mostrar como realmente se é, sem medo de julgamentos. Aprendi que mesmo os alunos mais “frios” e “rudes” são capazes de expressar seus afetos, sonhos e fraquezas, por perceberam que esses são sentimentos comuns a todos os humanos... E afeto é coisa que se aprende, se cultiva, se pratica... Aprendi que vale à pena ser afetuoso! E que a educação integral deve educar também os sentimentos. Falarei agora sobre como tudo isto - educação, sentimentos, valores humanos – está relacionado ao riso, ao cômico. De acordo com Bérgson, o riso é provocado quando observamos em uma pessoa um aspecto involuntário, um tombo, por exemplo; ou algo rígido, repetitivo e não flexível, como um tique nervoso, uma expressão fisionômica cristalizada ou expressões e palavras muito repetidas que viram “bordões” – aquelas repetições que os humoristas costumam utilizar; enfim tudo que é 204 mecânico ou que expressa uma rigidez física ou moral; tais características podem nos afastar do “humano” e nos tornar cômicos – sendo o riso uma espécie de punição social, uma crítica ao que é indesejável nas sociedades humanas; segundo Bergson: O riso deve ser [...] uma espécie de gesto social. Pelo medo que inspira, o riso reprime as excentricidades, mantém constantemente vigilantes e em contato recíproco certas atividades de ordem acessória que correriam o risco de isolarse e adormecer; flexibiliza enfim tudo o que pode restar de rigidez mecânica na superfície do corpo social. O riso, portanto, não é da alçada da estética pura, pois persegue (de modo inconsciente e até imoral em muitos casos particulares) um objetivo útil de aperfeiçoamento geral. Tem algo de estético, todavia, visto que a comicidade nasce no momento preciso em que a sociedade e a pessoa, libertas do zelo da conservação, começam a tratar-se como obras de arte. Em suma, se traçarmos um círculo em torno das ações e disposições que comprometem a vida individual ou social e que punem a si mesmas através de suas conseqüências naturais, fica fora desse terreno de emoção e de luta, numa zona neutra em que o homem serve simplesmente de espetáculo ao homem, uma certa rigidez do corpo, do espírito e do caráter, que a sociedade gostaria ainda de eliminar para obter de seus membros a maior elasticidade e a mais elevada sociabilidade possíveis. Essa rigidez é a comicidade, e o riso é seu castigo. (BERGSON, 2007, p.15) Espera-se que os seres humanos, segundo Bergson, reajam espontânea e humanamente, com flexibilidade e interação, ao fenômenos no momento em que ocorrem, no aqui e agora. Interessante notar que Stanislavski, Spolin e outros pensadores também valorizam a espontaneidade dos atores e alunos; esta capacidade humana de agir, reagir e interagir com o meio e com outros seres humanos. Observando o que provoca o riso na peça “Adolê Sendo” destaco a cena do dormir e acordar, pela repetição das ações; a cena do futebol e violência, pelas expressões fisionômicas e todo trabalho gestual dos alunos; os diálogos da boite e outras passagens da peça que provocam o riso por colocar as personagens em situações surpreendentes e involuntárias e, em muitas delas, havia uma crítica a julgamentos e padrões de comportamento socialmente indesejáveis. Algumas cenas da peça foram elaboradas a partir dos lazzi: 205 Quando Chaplin come os cordões do sapato ao invés do macarrão, ou quando, no teatro infantil, vemos dois atores numa cena de perseguição – um de costas para o outro, dando voltas pelo palco sem jamais se encontrarem -, estamos assistindo a velhos lazzi, capazes de tirar risos da platéia dependendo da maestria com que são executados. Os lazzi estão na base das gags de palhaço, especialmente nas chamadas gags físicas. Todas as cenas de pé na bunda, tapas, trambolhões, perseguições e escondeesconde que encontramos nos picadeiros e palcos de hoje têm sua origem em tempos imemoriais, e foram reelaboradas e transformadas com apuro técnico e maestria, durante os séculos XVI, XVII e XVIII, pelos Mestres dell’Arte. (CASTRO, 2005, p.44) Quando perguntei aos alunos o que provocava o riso, alguns disseram: CAIO – “É engraçado ver uma pessoa que se acha o máximo se estrepar uma hora” VINICIUS E BIANCA: “Personagens diferentes, com modos estranhos” Além de tombos, caretas, maneiras diferentes de falar, palavrões, sons engraçados, brigas verbais bobas entre homem e mulher ou entre “tribos” diferentes (emos, punks, patricinhas etc.); observa-se que Bergson tinha razão quanto ao que provoca o riso e a função social dele... E, melhor do que “sermões” ou discursos moralistas, pudemos usar a comédia para mostrar a adolescência sob a ótica dos próprios adolescentes. Afinal os palhaços, atores cômicos e bobos da corte tiveram privilégios históricos de dizer tudo que pensavam – mostrar as verdades de suas sociedades, inclusive de reis e rainhas - sem sofrerem punições por isto. O belo livro de Alice Viveiros de Castro, O Elogio da Bobagem, mostra como todas as fraquezas humanas foram – e são –retratadas por artistas cômicos desde tempo imemoriáveis. Personagens pernósticos com seu linguajar pedante e de difícil entendimento nos lembram alguns homens públicos ainda hoje... Precisamos sim, do riso, da crítica, como também da poesia... Precisamos refletir sobre estas personagens e situações todas; como fizemos em nossa montagem, principalmente na crítica sobre a violência no 206 futebol e sobre os esteriótipos na cena da boite – cena em que a Sexy era virgem e a Moralista estava cheia “de amor pra dar”... Claro que os alunos pensaram na vida real, nas hipocrisias de nossa sociedade, e, quem sabe, não busquem uma forma de viver mais sincera, autêntica, espontânea, ética – humana. Desejo que cada educando encontre não apenas sua “voz própria”, mas seu próprio estilo de ser e de viver, respeitando a si mesmo, ao seu corpo, aos seus próprios sentimentos, desejos e sonhos; sabendo distinguir os desejos e as falsas necessidades estimuladas pela mídia, os sonhos de seus pais que não são os seus próprios e que cada um encontre o difícil equilíbrio entre pensar em si e pensar nos outros, para se viver em harmonia, buscando uma sociedade mais justa e melhor para todos. Desejo que, não sendo mais crianças, adolescendo que estão, tornemse adultos felizes – que não se esqueçam da necessidade vital e da seriedade do jogo (do teatro) e da poesia – por toda a vida... 207 Último Ato - Considerações Finais [...] é costume ouvir-se que a comédia Corrige divertindo; uma platéia pede-a Não só para sorrir de máscaras fingidas Que moram noutro mundo e mostram outras vidas Mas para descobrir, atrás das fantasias, A verdade que roça em nós todos os dias. Cada fala de ator é censura e conselho: Quando vos sentais lá, estais diante do espelho [...] Trecho do Prólogo do Tartufo de Molière, tradução de Guilherme Figueiredo) (FIGUEIREDO, 1980, p.21) Quando olhamos para um palco vazio, não imaginamos quanta magia há nele; quantas alegrias, companheirismo, tristezas, aflições, conquistas e superações temos e sentimos lá. [...] Em todo lugar deveria ter arte, falar da arte e vivê-la, pois nos faz melhor, faz com que o medo pela vida não exista. [...] Na escola, por exemplo, deveria ter aulas de teatro [...] perderíamos a timidez e haveria mais participação dos alunos nas aulas. [...] Na minha vida, particularmente, o teatro faz parte de mim, em tudo vejo coreografia e o script sai como se fosse água de nascente, naturalmente, como se todas as palavras estivessem dentro de mim. Liliane Bianchini, aluna da EE Julio Mesquita, fez aulas de teatro com o Prof. Helvécio em 2005. (ANEXO xxx) 208 (Autor entra em cena com uma vela acesa nas mãos. A mesma vela do Prólogo. Agora uma vela já gasta, com a cera derretida e escorrida ao seu redor. Cera que, ao se derreter, foi criando formas belas, estranhas, complexas. Agora se vê apenas um toco de vela que, literalmente, está por um fio, um curto pavio. Um final de existência. Uma vela que cumpriu o objetivo de iluminar, durante um determinado tempo, um determinado lugar.) AUTOR: Caminhamos para o fim, inevitavelmente. Tudo uma hora se acaba, ou não? Acaba-se um dia. Acaba-se um caderno. Acaba-se uma história de amor. Porém não se acabam os dias, os cadernos, as histórias... Alguma coisa sempre fica. Seja um resquício, um indício, uma lembrança... Seja o resto da cera de uma vela que se queima. Sobra de cera que poderá ser somada a ceras novas e novamente transformada em vela. Ou não. Vela que se queima produzindo luz, gazes, energia, cera derretida. Cera que se decomporá, voltará a ser pó, poeira de estrelas... (pausa) AUTOR: Assim também esta dissertação chega ao seu fim. Como esta vela que trago em mãos. Porém existe uma diferença, a vela se apaga mais rapidamente do que o texto que permanece vivo um tempo maior. Ainda assim, inevitavelmente, com o passar dos dias o que foi escrito deverá ser repensado, novas descobertas virão, novas verdades científicas, novos textos. E este será um texto que cumpriu seu papel em um determinado lugar, em uma determinada época, em um determinado contexto. Texto(s) e contexto(s). Outros textos virão. Outras luzes. Trevas e luzes complementando-se. Acredito que sempre é possível acender uma nova vela no fogo da vela que se extingue e, assim garantir que a luz continue a brilhar. (pega uma nova vela e a acende na chama da primeira vela). Assim penso o conhecimento e a educação. Assim agora, de meus considerações finais. pensamentos e sentimentos, apresento algumas 209 AUTOR: (respira fundo e vai enumerando-as) É possível e necessário manter a chama do conhecimento acesa. De um conhecimento vivo e significativo. Cabe ao professor manter primeiramente a sua chama acesa e transmitir esse interesse mágico e luminoso aos alunos. Cabe aos alunos auxiliar na manutenção da luminosa energia do conhecimento. A chama do conhecimento se alimenta não apenas de pensamentos ou de sentimentos. Razão e emoção se complementam. Uma educação significativa amplia as percepções e entendimentos, combatendo concepções que dicotomizam categorias que não são excludentes e sim complementares: razão e emoção, corpo e mente, ciência e arte, prazer e seriedade, jogo e trabalho, homem e mundo, material e espiritual, visível e invisível. Uma educação significativa é feita com liberdade, prazer e limites – como num jogo. Baseio-me em Freire, Huizinga e Read. Educa-se as emoções, as sensações, os pensamentos e os sentimentos. O lúdico faz parte da existência. E qual disciplina escolar pode trabalhar melhor tudo isto? A arte. E a arte, como já dito, pode estar junto à matemática, à ciência, aos idiomas, à educação física e tudo mais. Como a educação ainda privilegia aspectos muito racionais e as disciplinas ainda mantém os conhecimentos estanques é necessária uma educação por meio da arte como nos fala Read. Uma educação para autonomia e transformações sociais como nos fala Freire. Uma educação significante, pertinente, relevante, referente, provocante e suficiente, como nos fala o estilo de filosofar da fenomenologia, segundo Rezende. Uma educação que abarque a complexidade de que nos fala Morin. Uma educação significativa se faz educando-se o corpo, a mente e os sentidos: os cinco sentidos corporais; o sentido inteligível do significado dos signos; o sentido – o rumo, a direção – da existência, da história, dos passos de cada um. A compreensão dos sentidos da existência. Uma educação significativa ressignifica a linguagem. Ressignifica o papel da linguagem em nossas vidas. Utilizamos a linguagem ao pensar. Utilizamos a linguagem ao comunicarmos e expressarmos o que sentimos e 210 o que pensamos. Utilizamos a linguagem para fazer ciência, para fazer arte, para nos encontrarmos uns com os outros. Utilizamos a linguagem para encontrarmos o sentido e os sentidos que fazem parte de nossas existências. A educação utiliza a linguagem. A linguagem utiliza signos. Somente os seres humanos criam e compreendem signos. A linguagem é criação exclusivamente humana e humanizante. É necessário re-trabalhar os signos, a linguagem. Redescobrir o prazer e a importância da linguagem. Redescobrir os laços que nos unem aos semelhantes humanos, por mais diferentes que estes sejam de nós mesmos. Redescobrir a linguagem que se faz práxis – ação coerente que comporta teoria e prática - visando transformações do mundo nosso que é preciso melhorar. Re-signos-ficar. Ressignificar. Estas idéias se complementam e vislumbro uma educação em que cada educador e educando encontre os seus sentidos, percebendo sempre que há sentido. E que há sentidos diferentes dos nossos próprios sentidos na existência humana. E que educação se faz com seriedade e ludicidade, trabalho e prazer. Educação se faz no diálogo, no encontro, no respeito, na tomada de posições, na busca de voz e atitudes próprias. Educação se faz com filosofia, linguagem e arte. Educação se faz com ética e estética, porque é preciso reencontrar a boniteza de que nos fala freire: “ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.” (FREIRE,1996 p.142) AUTOR: Esta poética teatral - trabalhando a linguagem do teatro por meio de jogos, criando e montando um espetáculo - foi mais que uma experiência estética, foi também uma vivência ética. Percebi isto: - ao ouvir um aluno falando, após uma improvisação, sobre como se colocar no lugar do outro e não fazer pré-julgamentos; - ao exercitarmos todos nós o respeito à opinião e ao desejo da maioria – tudo foi decidido coletivamente; - ao perceber e ouvir os depoimentos sobre a união e a cooperação do grupo; - entre outros aspectos éticos que foram observados, tais como: sinceridade, honestidade, respeito, bondade. 211 AUTOR: Os jogos e as improvisações teatrais, a criação e a montagem da peça possibilitaram mais que prazer, toda atividade era acompanhada de reflexões. Não somente reflexões sobre a linguagem teatral, mas também sobre valores humanos. Neste sentido é possível trabalhar psicologia e não-psicologia, Stanislavski e Spolin, razão e corporeidade, emoção e intelecto, estética e ética. Categorias que se complementaram. Este trabalho é o resultado desta concepção de educação integral, baseada em Rezende, Freire e Morin. AUTOR: Para encerrar esta dissertação retomo a questão fundamental: - Quão educativa e significativa poderia ser uma montagem teatral feita por adolescentes no ambiente escolar? Este trabalho me possibilitou constatar que, através de uma montagem teatral dentro da escola, é possível sim promover uma educação significativa e prazerosa. UMA VOZ: - O que está montagem teatral teve de educativa? AUTOR: Por meio do teatro pudemos integrar e relacionar conhecimentos que ainda hoje se encontram divididos em disciplinas escolares (história, geografia, línguas, matemática, biologia etc.). Pudemos utilizar diversas linguagens, desde diferentes gêneros textuais (poesia, prosa, textos teatrais), além de imagens e músicas. Trabalhamos diversas habilidades do corpo e da mente. Buscamos os diversos sentidos da palavra sentido. A educação dos cinco sentidos; a busca da compreensão do(s) sentido(s) das palavras; a procura de novo(s) sentido(s) para nossa sociedade e, quem sabe, para nossas próprias vidas. Por meio do teatro procuramos conhecer, comunicar e expressar o que pensamos e o que sentimos. E esta expressão pessoal é por demais importante, visto que muitas vezes os alunos não têm voz própria nas salas de aula, ora porque a timidez e 212 o medo do julgamento dos colegas ou do professor os faça calar, ora porque o tempo de aula é pouco para se trabalhar os conteúdos propostos e o número de alunos por sala não possibilita que todos sejam ouvidos. OUTRA VOZ: - O que teve de prazeroso e significativo neste projeto? AUTOR: Ao proporcionar aos jovens de duas escolas a oportunidade de dizerem o que pensavam e o que sentiam, através do teatro, este projeto já garantiu aos alunos uma prazerosa e significativa sensação de liberdade e de poder transformador, a começar pela transformação deles próprios que saíram desta vivência mais fortalecidos e confiantes, conforme observamos em suas falas e gestos. Vivenciaram um aprendizado para a vida – como foi dito por muitos, aprendizado lúdico, repleto de significados em um mundo onde a vida e a educação cada vez mais carecem de sentido. Sentido(s) vivenciado(s) através de jogos, ensaios, e, finalmente com a apresentação. Completou-se no palco esta poética teatral, esta vivência estética, esta intervenção educativa que proporcionou, dentro do horário e ambiente escolar, uma experiência ímpar, divertida, diferente das rotinas escolares, porém não menos educativa. Como já foi dito no Ato II, foram muitos encontros. Encontros lúdicos, prazerosos, trabalhosos, educativos e, sabendose que não serão esquecidos, posso afirmar que foram para educador e educandos, encontros muito significativos. PROF. JOSÉ GERALDO: O que você aprendeu com seus alunos? AUTOR: Aprendi que devo ouvi-los mais. Aprendi que quando construímos juntos, em um ambiente de confiança e de contato humano verdadeiro, encontramos a honestidade e a beleza de cada um, revelada em palavras, em silêncios, em gestos, mas revelada. Seja qual for o aluno traz em si – uns mais outros menos - lampejos de afeto, de sonhos, de poesia, de ética, de cooperação, de 213 humanidade. A arte pode ampliar estes lampejos. Afeto, beleza, ética, estética e alegria se aprende, se compartilha. (pausa) AUTOR: Aprendi no diálogo com os professores que acompanharam e orientaram a escrita deste trabalho. Com o Prof. José Geraldo, aprendi que a beleza pode não estar no texto dos alunos, mas pode estar em outros lugares, como na relação entre alunos e educador, no exercício mútuo da escuta e da democracia - no melhor sentido da palavra. Com o Prof. Groppo, descobri entre outros aprendizados, a importância da auto-reflexão sobre adolescência que este trabalho possibilitou e o impacto destas reflexões na vida dos alunos. Meu orientador, Prof. Severino, mostrou-me como fazer uma escuta poética da educação... Como dar voz aos alunos, incentivar a busca de estilo e pensamentos próprios, promover trocas humanas e humanizantes por meio do diálogo; além de me despertar o gosto pelos conhecimentos teóricos e pela linguagem; e me fazer compreender melhor a profundidade e a beleza dos poemas, tudo isto refletiu em meu trabalho com os alunos. Esta dissertação é o resultado destes aprendizados todos. AUTOR: (observa a chama das velas, a que quase se extingue e a recém acesa) Ainda sobre prazer e significação posso fazer outras considerações. Posso dizer que a peça alcançou um bom resultado, uma boa qualidade artística, superando as expectativas de pessoas que foram assisti-la. Assim um rico processo culminou numa apresentação que correspondeu aos anseios e aos investimentos de tempo, sonhos e energia de todos os envolvidos. Logo no início do projeto, quando os alunos foram questionados sobre o tema da peça que gostariam de apresentar, a resposta foi unânime: queriam falar sobre a adolescência e de forma cômica. Questionados sobre o que pensavam sobre essa fase da vida, muitos responderam que era uma fase boa, em que ainda podiam se divertir, diferente da fase adulta, fase sobre a qual 214 eles só ouviam queixas e reclamações de pessoas estressadas e sem tempo para nada, sem tempo para viver. Que tristeza contrapor adulto/seriedade/frustrações à juventude/alegria/prazer. Como se no mundo adulto não tivesse espaço para o prazer lúdico e como se brincar não fosse algo sério e vital, aspectos tão bem abordados na obra de Huizinga, na qual o autor demonstra que antes de seres racionais ou econômicos somos seres que jogamos a vida toda. Brincamos e jogamos para aprender, para sobreviver, para sermos felizes; somos antes de tudo Homo Ludens. (faz uma pequena pausa) Ainda sobre aspectos educativos desta montagem teatral posso citar que se falou durante o processo de montagem sobre ética e cidadania; sobre o que era o belo e a poesia; entre outros temas. Esse projeto quis proporcionar aos alunos uma valorização e ressignificação da vida, resgatando valores humanos, apresentando novos signos, novas possibilidades para se viver com ética, com prazer e poesia. Durante a apresentação da peça houve total integração entre os alunos das duas escolas, para o público não havia como identificar qual aluno era desta ou daquela escola; a apresentação foi bem sucedida, os alunos souberem desempenhar bem suas funções e papéis na peça; os depoimentos durante o processo e após a apresentação relatam que foi uma experiência única para os alunos e, pelas questões aqui relacionadas, podemos afirmar que se tratou de um processo altamente educativo e muito prazeroso para todos: alunos e arte-educador. Pelo que se escuta ainda hoje, fevereiro de 2009, essa montagem ficou marcada nas memórias de vida dos alunos, os quais pedem para reapresentar a peça porque foi “muito legal” e porque estão com saudades dos colegas da “outra” escola. Quem sabe essa “outra escola” não seja a grande escola da vida. Desejo que meus alunos-atores, desde o adolescendo que estão à maturidade que viverão, não percam a alegria de viver – jogar, compartilhar, trabalhar, aprender-ensinar, dialogar... – e que vislumbrem sempre a 215 possibilidade real e necessária de, como disse Maiakovski, brilhar e poetizar a existência. (faz uma última pausa) Entre outras possíveis considerações finais, cito mais uma. Vale à pena trabalhar por uma educação significativa e prazerosa que desperte o gosto pela busca e pela arte de conhecer, compreender e viver. Porque em tudo há sentido(s). Ou deveria haver. Porque viver sem esperanças – sem utopias – é ter perdido a dimensão – humana – do jogo que transforma palavras em poesia, poesia em vida, vida em arte. E transforma a existência em uma grandiosa obra, literalmente, humana. (Autor segura uma lágrima, de satisfação. Fim do último ato desta peça. Que venham outras!) 216 Referências Bibliográficas ADLER,Stella.Técnica da Representação Teatral. 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JOGOS / ATIVIDADES Descrição Livro: Fichário nesta SPOLIN SPOLIN 1987 2006–Ficha: Dissertação: o Outros Livros - página N . o - ANEXO N . JOGOS INTRODUTÓRIOS (Foco; Mostrar = Ações Físicas; tornar real, não fingir; Objetos Imaginários; improvisações; Onde; O que) Jogo Exposição (2 grupos / Foco) p. 47 A1 Jogo da Cadeira (Individual) p. 167 (Objetivo / Foco / Mostrar) O que está além? (Individual) p. 91 p. 168 (de Onde Vem / para Onde vai) Jogo do Onde (Grupo) p. 91 B9; ver B1 p. 169 a B8 Mais pesado quando cheio p. 65 A38 (Grupo - Mostrar) Cabo-de-guerra (Grupo – Mostrar) p. 56 A12 Jogo da Bola p. 57 A9 / A10 Parte de um todo p. 66 A25 (Ex: Engrenagens de uma máquina com movimentos e sons) Dificuldade com Peças de Roupa p. 61 A39 e/ou Objetos Ações complementares (O Que) p. 56 A26 p. 174 Jogo de Orientação N o. 1 Ações complementares (O Que / p. 60 A67 Quem) Jogo de Orientação No. 2 ATIVIDADES DE AQUECIMENTO / INTEGRAÇÃO / VARIADAS Corrente p. 170 Dinâmicas de Integração p. 170 Jogo: Condução de cego p. 171 (Duplas – Confiança mútua) Jogos cooperativos p. 171 Música e ritmo Jogos da Bandeja (memória) Jogo 1 a 10 (memória) Jogos de Atenção/Concentração (com Bastões e Corda de pular) BROTTO, 1997. p. 172 p. 57 EXPRESSÃO CORPORAL - JOGOS E ATIVIDADES Aquecimento / Alongamento físico Consciência corporal; eixos, direções e planos espaciais; formas fechadas e formas abertas; preenchimento do espaço em duplas; diálogo de movimentos; fatores do movimento (Laban) etc. Jogo do espelho p. 55 A15 / A16 p. 60 p. 173 p. 173 BEUTTEN MÜLLER, 1989. ________ LABAN, 1978 e 1990 222 Substância do espaço Transformação do Objeto (todos em círculo) Ora pessoa, ora objeto (Jogo de improvisação) p. 73 a A33 / A34 77 p. 193 A35 p. 174 EXPRESSÃO VOCAL / JOGOS E ATIVIDADES PARA ORALIDADE Jogo do Telefone p. 175 Técnica vocal (aquecimento e ANEXO 02 BEUTTEN MÜLLER, tônus muscular, respiração, 1989. ressonância, dicção, colorido e expressão vocal Blablação p.110 A85 a A88 e 111 Estória continuada p. 162 A76 Dublagem p. 205 C39 p. 176 Leitura e interpretação de Poemas p. 176 e de outros gêneros (cartas, notícias de jornais etc.) Pequenas cenas de teatro p. 176 (esquetes teatrais) Novela e Programas de Rádio p. 179 C34 / C35 p. 176 a 185 Cenas com pequenos diálogos p. 177 realistas e não-realistas (Exemplo: “Vem ou não vem”) Um ator narra, outros atores atuam Duas Cenas A, B e C p.112 e p.144 Dar e Tomar p.145 a B6 p. 218 (Focos A, B e C ) 147 OUTROS JOGOS COM AÇÕES E FALAS (Onde, Quem, O que) Quantos anos eu tenho? p. 61 A61 p. 177 (mostrar a Idade no ponto de ônibus - Individual e grupo ) Jogo do Elevador p. 178 Improvisação com Personagens p. 181 Dadas ESTUDOS DE PERSONAGEM (Quem) E TEXTOS TEATRAIS Jogo do Quem p. 98 B21 Jogo da Festa p. 181 (Personagens dados na hora) Jogo Personagem em p. 179 Circunstâncias Dadas - “Se” Jogo do Envelope/Carta p. 180 Gênese de Personagem p. 179 Noções Básicas de Dramaturgia p. 180 ANEXO 03 Continue o diálogo (dois exemplos p. 208 - exercícios para escrita teatral) p. 211 223 Agilidade de Personagem (para Composição de Personagem) Estudo do Texto Teatral p. 243 p. 180 OUTROS ESTUDOS Noções Básicas de Cenografia, Indumentária, Iluminação, Sonoplastia, Divulgação e Produção Teatral. SPOLIN, 1987 – Capítulos 16 e 17. Destaco agora uma pequena lista, com alguns livros de jogos teatrais que podem ser de grande valia, relaciono também livros de Stanislavski e sobre linguagem, história e teoria teatral para quem se interessar: JOGOS TEATRAIS (TEORIA E PROPOSTAS PRÁTICAS): ADLER,Stella.Técnica da Representação Teatral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. BOAL, Augusto. Jogos para atores e não-atores. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. BROTTO, Fábio Otuzzi. Jogos Cooperativos: se o importante é competir, o fundamental é cooperar. Santos: Re-novada,1997. COURTNEY, Richard. Jogo, Teatro e Pensamento. São Paulo: Perspectiva, 1980. JAPIASSU, Ricardo Ottoni Vaz. Metodologia do Ensino de Teatro. Campinas,SP: Papirus,2006. 224p. KOUDELA, Ingrid D. Jogos teatrais. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. REVERBEL,Olga. Teatro na Sala de Aula. Rio de Janeiro: J. Olympio,1978. ______________. Jogos teatrais na escola. São Paulo: Scipione, 2003. SPOLIN, Viola. Improvisação para o Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1987. ___________. Jogos teatrais: o fichário de Viola Spolin. São Paulo: Perspectiva, 2006. LINGUAGEM, HISTÓRIA E TEORIA TEATRAL: BERTHOLD, Margot – História Mundial do Teatro - São Paulo: Perspectiva, 2006. BEUTTENMÜLLER, Maria da Glória. Expressão vocal e expressão corporal. Rio de Janeiro: Enelivros, 1989. GASSNER, Jonh. Mestres do Teatro – Vol. 1 e 2. São Paulo: Perspectiva, 1980. KUSNET, Eugênio. Ator e método. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de teatro, 1975. LABAN, Rudolf. Dança educativa moderna. Lisa Ullmann (org.). São Paulo:Ícone,1990. _______. Domínio do Movimento. Lisa Ullmann (org.). São Paulo: Summus, 1978. MAGALDI, Sábato. Iniciação ao teatro. São Paulo: Ática, 1986. 126 p. PEIXOTO, Fernando - O que é teatro – São Paulo: Brasiliense, 1985. ROUBINE,Jean-Jacques.A Arte do Ator. Rio de Janeiro:Zahar,1987. _______.A Linguagem da Encenação Teatral (1880-1980). Rio de Janeiro:Zahar,1982 SLADE, Peter. O Jogo dramático Infantil. São Paulo: Summus, 1978. STANISLAVSKY, Constantin. ______. A Preparação do Ator. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988. ______. A Construção da Personagem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986. ______. Manual do Ator. São Paulo: Martins Fontes, 1997. 224 ANEXO 02 – Expressão Vocal. 225 ANEXO 03 – Dramaturgia. ELEMENTOS DE ROTEIRIZAÇÃO E DA LINGUAGEM DRAMATÚRGICA ESTRUTURA DRAMÁTICA CLÁSSICA ATO I ATO II ATO III APRESENTAÇÃO DESENVOLVIMENTO/CONFRONTAÇÃO RESOLUÇÃO -introduz personagens -obstáculos e conflitos precisam ser resolvidos -solução dos -premissa dramática -cria a situação -expõe o contexto -possibilidades expansão da história -conflito emerge -realizar necessidade dramática -crise conflitos -clímax -término da história de OBSERVAÇÃO: esta estrutura baseia-se na lógica cartesiana, clássica, tem seqüência: começo-meio-fim. O espaço, o tempo e os personagens seguem a lógica clássica. Modernamente tudo é possível, podemos começar pelo fim, abandona-se esta estrutura clássica, porém todo texto deve ser verossímel. ALGUMAS PALAVRAS SOBRE... ATO: divisão da peça em grandes blocos, cada ato normalmente abrange uma época ou um cenário diferente. O intervalo entre os atos possibilita trocas de cenários, maquiagens e figurinos. CENA: menor divisão de um texto teatral. Cada cena é uma unidade de tema (assunto), cenário, tempo ou de ação que integra as mesmas personagens. Cada vez que entram ou saem personagens, mudando o assunto, ou mudando-se o tempo ou o cenário, inicia-se uma nova cena. Um pouco mais sobre Personagem... PERSONAGEM INTERIOR Forma o personagem -caráter -personalidade -alma EXTERIOR Revela o personagem AÇÕES Define a necessidade, o desejo PROFISSIONAL Trabalho Caráter PESSOAL Conjugal Familiar Social PRIVADO Mundo íntimo Particular GÊNESE DA PERSONAGEM: como já vimos, fazemos a biografia, do nascimento até o presente. 226 QUATRO ELEMENTOS BÁSICOS DA PERSONAGEM: 1- objetivo 2- como vê o mundo 3- mudança ou evolução na trama 4- atitudes / polarização: + ou PERSONAGENS INTERAGEM COM: - forças sociais (por antagonismo / afinidades) - forças intrínsecas (consigo mesmo) - forças da natureza (mar, vento, fogo, etc) PARA “DAR VIDA” À PERSONAGEM: - cria-se um processo (vide esquema acima), criando contexto, objetivo e evolução do personagem - estabelece-se o “como” (a trama, o percurso da ação, o enredo) - deve-se conhecer bem o personagem, identificá-lo com alguém bem conhecido. ELEMENTOS TÍPICOS NOS ROTEIROS: - par romântico - antagonista X protagonista - personagens ajudantes ou “escadas” (ex: Robin) OUTRAS OBSERVAÇÕES... - o diálogo esclarece, comenta, adianta, empurra, resolve a trama; - use sempre uma linguagem coloquial, a maneira como falamos é diferente de como escrevemos. Saiba usar gírias, expressões típicas ou palavras eruditas. Português errado ou correto. Cada personagem (e/ou obra) tem seu estilo, seu vocabulário... - o argumento deve conter: temporalidade (quando), localização (onde), perfil dos personagens principais e o percurso da ação dramática (sem divisão por seqüências ou cenas) - busca-se em todo roteiro ou texto teatral o envolvimento do público com o personagem, primeiro pelo emocional e depois pelo racional: simpatia, solidariedade, antipatia, sempre com identificação e verossimilhança; - conheça vários gêneros de peças ou de filmes (romance, policial, musical, drama, comédia, tragédia, farsa, suspense, terror, etc). Observe as diferenças de estilos. ETAPAS DE UM ROTEIRO IDÉIA Tema PALAVRA ARGUMENTO “story-line” - tempo/espaço (enredo) - perfil das personagens 1- apresentação - percurso da ação do problema - começo-meio-fim 2- escolha/desenvolvimento do caminho/confrontação 3- solução/desfecho ESTRUTURA - fragmentação em seqüências ou cenas - arcabouço - estrutura BIBLIOGRAFIA INDICADA: Comparato, Doc. “Roteiro”- Editorial Nórdica, 1983. _________. “Da criação ao roteiro” - Editora Rocco. Pallottini, Renata. “Introdução a Dramaturgia” Aristóteles. “A Poética”. o 1 .TRATAMENTO - desenvolvimento - trama - diálogos 227 ANEXO 04 – Escrita de cena A e B 228 ANEXO 05 – Sobre amores reais... Textos de Helvécio Alves Junior para serem lidos aos alunos. Neste ano de 2008 conversava com a merendeira da escola, ela me dizia de como os namoros mudaram da juventude dela para hoje. Quando ela conheceu seu atual marido os dois eram proibidos de namorarem. A primeira vez que ele pegou na mão dela os dois quase “explodiram” de tanta emoção, ela disse que ficou corada, o sangue fervia, “desculpe professor falar assim, mas era desse jeito mesmo...” A mãe dela ficou sabendo desse pegar nas mãos e quase bateu nela. Foram meses, anos de namoro sem contato físico, o que ela achou ótimo, porque eles puderam se conhecer, tornaram-se cúmplices, entendiam-se só pelos olhares e criaram vínculos que até hoje os mantém juntos. Ela (e eu também!) acredita que só atrações e prazeres físicos não mantém uma relação entre homem e mulher. Hoje em dia mal se conhecem já vão para a cama e mais rápido ainda se separam, trocam de parceiros sem aos menos permitirem se conhecerem, não criam vínculos, tudo é descartável. Nem todos são assim, mas infelizmente é uma grande maioria. _______________________________________________________________________ No lançamento do livro de poemas do professor Severino, dia 06/08/2008 em Campinas, ele contou sobre um casal de idosos: toda vez que a senhora se encontrava triste o marido colocava água na palma da mão e soprava essa água na direção do rosto da sua esposa. Os filhos não entendiam, mas logo a esposa do velhinho abria um sorriso e deixava a tristeza de lado. Só o casal entendia o porquê, era um segredo deles, das suas histórias de vida, histórias vividas, da cumplicidade construída durante tantos anos. Do amor que os unia. Um dia o pai revelou de onde veio esse sopro de água. Quando eles eram ainda adolescentes, moravam em sítios vizinhos e estavam enamorados um pelo outro. Como nessa época não podiam ficar juntos, as famílias não permitiam contatos físicos nem que um homem e uma mulher namorassem sozinhos, eles se encontravam nas margens do rio que separava os dois sítios, um de cada lado do rio e então o jovem pegava água do rio e soprava na direção de sua amada como se lhe mandasse um beijo. Ela recebia e retribuía o beijo – o sopro de água. A partir daí essa declaração poética de amor tornou-se um código, um segredo só deles, esse rio de amor, esse rio de comunhão, esse beijo de água soprada. Códigos, metáforas, linguagens, poesias. A vida está repleta disso tudo, mas tem gente que não percebe e não vive essa poesia da vida. _______________________________________________________________________ “Causo” contado pelo Prof. Régis de Morais, dia 26/09/2008, em evento na Livraria Saraiva de Campinas, tentarei ser o mais fiel possível ao que eu ouvi: O professor contou sobre um rapaz de família rica que decidiu ser pianista numa época em que piano era coisa para mulheres. O piano, a música era sua vida, sua paixão. Então encarou todos os desafios e obstáculos e tornou-se um ótimo pianista. Casou-se, porém havia uma dúvida que o acompanhava há tempos. Ele amava sua mulher e também amava a música. Amores diferentes, mas qual delas ele amava mais? Um dia sentou-se ao piano e resolveu tocar todas as músicas do repertório de Chopin que ele soubesse de memória, ou décor – de coração. Tocou interruptamente durante um longo tempo. Tocou emocionado e prazerosamente. Tocou como nunca. Com técnica e emoção. Com corpo e alma. Quando por fim parou de tocar percebeu a presença de sua esposa sentada na sala contígua. Ela chorava copiosamente. Ele questionou porque ela chorava tanto e sua esposa disse que era porque ela estava ficando surda e que não poderia mais ouvi-lo tocar suas belas músicas. Ele foi até o piano e o fechou. Desde então nunca mais tocou. Estava definitivamente resolvida a dúvida de qual delas – da música ou da esposa - ele amava mais. Haveria mais bela prova de amor? Sugestão de pantomimas – cenas mudas com músicas: o amor de outrora; o amor dos anos 60 e o amor de hoje. VIDE AS PANTOMIMAS NO TEXTO DA PEÇA “ADOLÊ SENDO” 229 ANEXO 06 – Desenhos de alunos sobre “ser adolescente / adolescência”. 230 ANEXO 07 – Mensagem aos alunos e Poema de Maiakovski 231 ANEXO 08 – Carta escrita pela Martha, mãe da aluna Ludmila, logo após o final da peça e lida pelo diretor Helvécio Junior, em voz alta, a pedido da mãe, durante o “bate-papo” com o público após o espetáculo. 232 ANEXO 09 – Texto de Liliane, aluna do 3º. Ano do Ensino Médio, da EE Julio Mesquita. Ela fez aulas de teatro com Helvécio Junior na sétima série - na mesma escola estadual - e em 2009 escreveu o que pensava sobre o “teatro na escola”. 233 234 ANEXO 10 – Modelo de Autorização para os Alunos participarem deste projeto. AUTORIZAÇÃO Eu, (nome completo) ____________________________________________________ , RG ___________________, CPF __________________, Responsável pelo(a) Menor de Idade (nome completo) _________________________________________________, nascido(a) em _____ / _____ / _____ , RG (se houver) __________________ Autorizo sua participação nas aulas de teatro, como parte da pesquisa de Mestrado em Educação, do professor Helvécio Alves Junior. Autorizo também a utilização de seu nome e de suas imagens em vídeos e em fotografias que integrarão a Dissertação de Mestrado e posteriores publicações em livros ou em materiais de divulgação de eventos científicos, educativos ou culturais. Campinas, _______ / _______ / 2008. ___________________________ Assinatura do Responsável As autorizações assinadas pelos respectivos responsáveis encontram-se arquivadas pelo professor Helvécio. 235 ANEXO 11 – Modelo resumido de “Check List”. Lista utilizada para conferência de todo material utilizado na peça, conferidos item por item na hora de levá-los ao teatro e após a peça. Esta lista para checagem é muito útil para se evitar esquecimentos, principalmente quando se têm tantos elementos presentes nas montagens teatrais. Material da peça “Adolê Sendo” Itens Item conferido = OK Material elétrico / eletrônico: CDs com trilha musical da peça 2 caixas de som / 1 aparelho amplificador de som 1 CD Player / Cabos 1 extensão elétrica 4 refletores com pedestais 1 mesa de luz Cenário: 4 canos PVC verticais 2 canos PVC horizontais 2 TNTs pretos para coxias 4 bancos altos 2 painéis de PVC 1 arara branca com rodas 2 mesas brancas Material de Cena: Flores brancas 1 Regador / 1 Vaso 6 sprays Materiais de Apoio: fita crepe, durex largo, alfinetes de proteção, arame, alicate, fio de nylon, grampeador de pressão, grampos, cola quente, refil de cola quente, tesouras Figurinos: Cada ator é responsável por suas roupas, adereços e maquiagem; deve fazer sua lista para checagem. 236 ANEXO 12 – Pequeno Glossário de Cenografia entregue aos alunos. PEQUENO GLOSSÁRIO DE CENOGRAFIA E CENOTÉCNICA CAMARIM: Recinto da caixa dos teatros onde os atores se vestem e se maquiam. CAIXA CÊNICA: Volume do palco. A caixa onde se situam todas as estruturas do palco e os maquinismos cênicos. CENÁRIO: Conjunto dos diversos materiais e efeitos cênicos(telões, bambolinas, bastidores, móveis, adereços, efeitos luminosos, projeções etc.) que serve para criar a realidade visual ou a atmosfera dos espaços onde decorre a ação dramática; cena, dispositivo cênico. CENOGRAFIA: Arte e técnica de criar, projetar e dirigir a execução de cenários para espetáculos de teatro, de cinema, de televisão, de shows etc. CENÓGRAFO: Aquele que faz cenários, idealiza o espaço cênico. Cria, desenha, acompanha e orienta' a montagem do projeto cenográfico. CENOTÉCNICO: Aquele que domina a técnica de executar e fazer funcionar cenários e demais dispositivos cênicos para espetáculos teatrais. CICLORAMA: Grande tela semicircular, geralmente em cor clara, situada no fundo da cena e sobre a qual se lançam as tonalidades luminosas de céu ou de infinito, que se deseja obter. Nele também podem ser projetados diapositivos ou filmes que se desenvolvem alternada ou paralelamente à ação física dos atores. Ciclorama ou infinito, fundo infinito, cúpula de horizonte. Hoje, mais usual em televisão que em teatro, e muito utilizado em ópera. ESPAÇO CÊNICO: Espaço onde se dá a cena. Em teatros tradicionais coincide com o palco; em espaços alternativos pode chegar a abranger toda a sala. FIGURINO: Vestimenta utilizada pelos atores para caracterização de seus personagens de acordo com sua natureza, e identifica, geralmente, a época e o local da ação. Traje de cena. FIGURINISTA: Aquele que cria, orienta e acompanha a feitura dos trajes para um espetáculo teatral. Deve possuir conhecimentos básicos de desenho, moda, estilo e costura. FOSSO DE ORQUESTRA: Espaço localizado à frente do palco, em nível mais baixo, destinado ao posicionamento da orquestra. Muito c omum em teatros que abrigam óperas ou grandes musicais. Poucos teatros brasileiros o possuem. GELATINA: Folha de material transparente, geralmente de poliester ou policarbonato, posicionada em frente aos refletores para colorir ou filtrar luzes. Encontram-se disponíveis no mercado gelatinas de inúmeras cores, em diversos tons. Fundamental quando se deseja utilizar cor para desenhar a cenografia. ILUMINADOR: Aquele que “faz a luz” para um espetáculo de teatro. Diferente do eletricista. O iluminador cria efeitos de luz, próprios e necessários à atmosfera do espetáculo, determina as cores, intensidades, afinação e sequência de acendimento dos refletores, além de geralmente programar a mesa de controle. Muitas vezes, o iluminador trabalha próximo do cenógrafo. LUZ DE SERVIÇO: Luz que é usada quando se está montando um cenário ou trabalhando no palco fora do horário de espetáculo. MAQUETE: Também maqueta. Em teatro, é o cenário numa escala reduzida, tal qual vai aparecer no palco quando da encenação. Muito útil para a visualização do projeto e para as marcações que serão feitas pelo diretor. 237 PALCO: Em teatro é o espaço destinado às representações; em geral são tablados ou estrados de madeira que podem ser fixos, giratórios ou transportáveis. Os palcos assumem as mais variadas formas e localizações em função da platéia, que pode situar-se à frente dele ou circundá-lo por dois ou mais lados. PALCO ALTO: Palco com altura acima do normal (a média é 90 cm) em que o espectador, sentado, tem o ângulo de visão prejudicado. Normalmente as primeiras fileiras são as mais afetadas. PALCO BAIXO: Palco com altura abaixo do normal em que o espectador sentado tem o ângulo de visão em declive. PALCO ELIZABETANO: Também chamado de Palco Isabelino, é aquele que tem o proscênio prolongado, com um segundo plano (muitas vezes coberto) onde existem algumas aberturas, tais como janelas. Apareceu na Inglaterra no período de Shakespeare, por isso também é chamado de Palco à Inglesa. PALCO GIRATÓRIO: Palco cujo madeiramento não é fixo, mas sim movido por mecanismos que permitem inúmeros e rápidos movimentos de cenários e vários outros movimentos cênicos. Palco raro no Brasil. PALCO ITALIANO: Palco retangular, em forma de caixa aberta na parte anterior, situado frontalmente em relação à platéia, provido de moldura (boca-de-cena) e, geralmente, de bastidores laterais, bambolinas e cortina ou pano-de-boca, além de um espaço à frente da boca de cena, chamado de proscênio. É o mais conhecido e utilizado dos palcos existentes no Brasil. PALCO TIPO ARENA: Área central de forma circular, onde acontecem espetáculos teatrais. Palco do teatro grego. Área central coberta de areia, nos antigos circos romanos. Arena (picadeiro): o espaço central do circo onde se exibem os artistas da companhia. PLATÉIA: Até o início desse século era, na grande maioria dos edifícios teatrais, o pavimento entre a orquestra ou o palco e os camarotes. Nos teatros de hoje, é a parte destinada a receber o público, que se acomoda em poltronas, cadeiras, bancos ou arquibancadas. PRATICÁVEL: Estrutura, usualmente em madeira, com tampo firme, usada nas composições dos níveis dos cenários. É construído em diversas dimensões e formatos e é normalmente modulado para facilitar as composições. REFLETORES: Equipamentos para iluminação cênica, montados em varas, tripés ou posicionados no chão. Existem diversos tipos de refletores. Cada um serve a um propósito específico e apresenta características diferenciadas de facho, intensidade, definição de borda e alcance. Exemplos: PC, Fresnel, Elipsoidal, Par etc. RIBALTA: parte anterior do proscênio, limite do palco e platéia. Luzes da ribalta são aquelas dispostas nessa área ocultas do público por um anteparo horizontal. TABLADO: Espécie de palco improvisado a partir de uma estrutura de apoio, com tábuas criando o piso. Muitas vezes são utilizadas também chapas de madeira compensada. URDIMENTO: Armação de madeira ou ferro, construída ao longo do teto do palco, para permitir o funcionamento de máquinas e dispositivos cênicos. Na realidade, é o esqueleto do palco; a ‘alma’ da caixa de mágicas em que ele às vezes se converte. BOCA DE CENA: Abertura frontal do palco que delimita horizontal e verticalmente o espaço visual da cena. Recorte na parede frontal do palco, pode ser ILUSTRAÇÃO: PALCO TIPO ITALIANO TEATRO GREGO 238 TEATRO ITALIANO TEATRO TIPO ARENA TEATRO ELISABETANO ESPAÇO CÊNICO ADAPTÁVEL 239 ANEXO 13 – Texto da peça “Adolê Sendo” ADOLÊ SENDO PEÇA TEATRAL CRIAÇÃO COLETIVA - DRAMATURGIA: HELVÉCIO A. JR. COREOGRAFIA DE ABERTURA Música entra. Alguns atores fazem coreografia com bandeiras e tecidos. MÚSICA: Fúria e folia - Barão Vermelho Me chamo vento / Me chamo vento / Passeando pela cidade destruída / Bombas foram lançadas e tudo reduzido a pó / Na praça aberta sou um colar de livres pensamentos / Quem quer comprar o jornal de ontem com notícias de anteontem? / Me chamo vento / Me chamo vento/ Me chamo vento/ Me chamo vento / Nada sei apenas vivo a perambular / Uns trabalham por dinheiro / Outros por livre e espontânea vontade / Eu trabalho para o nada espalhado pelo chão / Sou solidão a dançar com a língua no formigueiro / Ando, ando, ando, ando sem parar / Na poeira dos fatos nas transparências / Viver é furia e folia, rumo ao mágico! / Viver é furia e folia, rumo ao mágico! / (instrumental) Me chamo vento / Me chamo vento / Passeando pela cidade destruída / Bombas foram lançadas e tudo reduzido a pó / Na praça aberta sou um colar de livres pensamentos / Sou solidão a dançar com a língua no formigueiro / Viver é furia e folia, rumo ao mágico! / Viver é furia e folia, rumo ao mágico! CENA: A ÚLTIMA FLOR Texto de James Thurber. Atores encenam e falam o texto, a maioria como povo, dois como militares, um moço e uma moça. ATOR__________: A décima segunda Guerra Mundial, como todos sabem, trouxe o colapso da civilização. Vilas, aldeias e cidades desapareceram da Terra. Todos os jardins e todas as florestas foram destruídas. E todas as obras de arte. ATOR__________: Homens, mulheres e crianças tornaram-se inferiores aos animais mais inferiores. Desanimados e desiludidos, os cães abandonaram os donos decaídos. Encorajados pela pesarosa condição dos antigos senhores do mundo, os coelhos caíram sobre eles. ATOR__________: Livros, pinturas e música desapareceram da Terra e os seres humanos ficavam sem fazer nada, olhando no vazio. 240 ATOR__________: Anos e anos se passaram. Os poucos sobreviventes militares tinham esquecido o que a última guerra havia decidido. ATOR__________:Os rapazes e as moças apenas se olhavam indiferentemente, pois o amor abandonara a Terra. ATOR__________: Um dia uma jovem, que nunca havia visto uma flor, encontrou por acaso a última flor que havia no mundo. Ela contou aos outros seres humanos que a última flor estava morrendo. O único que prestou atenção foi um rapaz que ela encontrou andando por ali. Juntos, os dois alimentaram a flor e ela começou a viver novamente. ATOR__________: Um dia uma abelha visitou a flor. E um colibri. E logo havia duas flores, e logo quatro, e logo uma porção de flores.Os jardins e florestas cresceram novamente. ATOR__________: A moça começou a se interessar pela própria aparência. O rapaz descobriu o quanto era bom tocar a moça.E o amor renasceu para o mundo. ATOR__________: Os seus filhos cresceram saudáveis e fortes e aprenderam a rir e brincar. Os cães retornaram do exílio. ATOR__________: Colocando uma pedra sobre outra pedra, o jovem descobriu como fazer um abrigo. E imediatamente todos começaram a construir abrigos. Vilas, aldeias e cidades urgiram em toda parte. E a Canção voltou para o mundo. ATOR__________: Surgiram trovadores e malabaristas. ATOR__________: Alfaiates e sapateiros ATOR__________: Pintores e poetas ATOR__________: Escultores e ferreiros ATOR__________: E soldados ATOR__________: E soldados ATOR__________: E soldados ATOR__________: E tenentes e capitães ATOR__________: E coronéis e generais ATOR__________: E líderes! ATOR__________: Algumas pessoas tinham ido viver num lugar, outras em outro. Mas logo as que tinham ido viver na planície desejavam ter ido viver na montanha. E os que tinham escolhido a montanha preferiam a planície. ATOR__________: Os líderes, sob a inspiração de Deus, puseram fogo ao descontentamento. E assim o mundo estava novamente em Guerra. ATOR__________: Desta vez a destruição foi tão completa que absolutamente nada restou no mundo. ATOR__________: Exceto um homem, uma mulher, e uma flor. 241 ELENCO ENTREGA FLORES PARA O PÚBLICO. MÚSICA: Amor pra recomeçar / Frejat Composição: Frejat/Mauricio Barros/Mauro Sta. Cecília Eu te desejo / Não parar tão cedo / Pois toda idade tem / Prazer e medo... / E com os que erram / Feio e bastante / Que você consiga / Ser tolerante... / Quando você ficar triste Que seja por um dia / E não o ano inteiro / E que você descubra / Que rir é bom / Mas que rir de tudo / É desespero... / Desejo! / Que você tenha a quem amar / E quando estiver bem cansado / Ainda, exista amor / Prá recomeçar / Prá recomeçar... / Eu te desejo muitos amigos / Mas que em um / Você possa confiar / E que tenha até / Inimigos / Prá você não deixar / De duvidar... / Quando você ficar triste / Que seja por um dia / E não o ano inteiro / E que você descubra / Que rir é bom / Mas que rir de tudo / É desespero... / Desejo! / Que você tenha a quem amar / E quando estiver bem cansado / Ainda, exista amor / Prá recomeçar / Prá recomeçar... / Eu desejo! / Que você ganhe dinheiro / Pois é preciso / Viver também / E que você diga a ele / Pelo menos uma vez / Quem é mesmo / O dono de quem... / Desejo! / Que você tenha a quem amar / E quando estiver bem cansado / Ainda, exista amor / Prá recomeçar... / Eu desejo! / Que você tenha a quem amar / E quando estiver bem cansado / Ainda, exista amor / Prá recomeçar / Prá recomeçar / Prá recomeçar... TEXTO SOBRE ADOLESCÊNCIA (VINICIUS - CB) Muitas vezes na vida poderemos e tentaremos recomeçar. Você pensa que caminhar é fácil? Porém o caminho nos confunde a cada passo. Cada passo é como uma semente que plantamos para um dia colher os frutos, belos ou não. Estamos tentando descobrir como é andar com nossos próprios pés para acharmos nossos rumos. Em meio a essa longa jornada encontramos grãos ou até pedras que podem nos desviar da rota. Mas se tropeçarmos em um desses obstáculos a quem devemos recorrer? Aos fracos ramos ou aos mais maduros que estão no topo das árvores? Podemos também nos deparar com lindas rosas ou cravos, mas será que só isso é importante? Ou talvez o importante seja o seu próprio pólen interior. De vez em quando é bom parar com tudo. E recomeçar. CENA: TÁ NA HORA? Atores arrumam seis cadeiras, uma ao lado da outra, ajeitam-se nelas e dormem. O primeiro ator acorda assustado, vira para o lado e acorda o segundo ator. O 2º. acorda o 3º. E assim por diante. O sexto e último olha um relógio e faz gesto de “não” com a mão para o quinto ator. O 5º. ator faz gesto de “não” com a mão para o quarto ator. E assim por diante até chegar ao 1º. ator. Todos voltam a dormir. O primeiro ator acorda novamente assustado, acordando o segundo ator. Repete-se a mesma seqüência. Voltam a dormir. Pela terceira vez o primeiro ator acorda assustado e um vai acordando o 242 seguinte até que o sexto ator olha no relógio e faz sinal de “positivo” com o polegar. O quinto ator faz “positivo” para o quarto ator e assim sucessivamente até chegar ao primeiro ator. Então todos se levantam, viram para o lado oposto em que estavam, ajeitam-se nas cadeiras e dormem novamente. Depois de 10 segundos toca-se um despertador, todos se levantam assustados e saem atrapalhados. CENA SOBRE SER ADOLESCENTE (COLÉGIO BÁSICO e EE JULIO MESQUITA) COLÉGIO BÁSICO BIANCA- Adolescência?!... Adolescência é a melhor fase da vida! Em que você se aventura com facilidade, se alegra com qualquer coisa, e se aborrece da mesma forma! REBECCA – Precisamos aprender a conviver com as mudanças... Pelos que nascem, espinhas, menstruação e tudo mais! GUILHERME– A questão da imagem é complicada: “o que pensam de mim”? RODRIGO – Fase de ainda não ser responsável pelos seus atos, de morar com os pais... CAIO – De sempre ter um adulto falando o que a gente tem ou não que fazer. JÚLIA – Fase em que você fica meio “retardado”, pois seu corpo e sua mente entram numa espécie de colapso, onde você pensa muitas coisas e seu corpo muda. GUILHERME– Fase de curtir com responsabilidade! Qualquer vacilo hoje pode levar conseqüências pro resto da vida... THIAGO – O maior medo é seguir o caminho de alguns colegas, até de irmãos... O caminho errado e se perder... O caminho das drogas. GIOVANA- Fase que a gente começa a sofrer por amor... BIANCA- O duro é quando eles falam que vão ligar e não ligam... FERNANDA- Garotas sonham com amor. Garotos só pensam em sexo... JÚLIA- Até hoje só um menino mostrou ter respeito por mim, ele era romântico, foi a melhor pessoa que já passou pela minha vida e eu perdi ele... (faz carinha triste) VINICIUS – Os garotos pensam mais em “corpo”. Ta entendendo?! Por outro lado as garotas pensam mais no amor, felicidade, blábláblá... Mais parece que isso está se equilibrando hoje em dia, as meninas estão deixando esse lado “emocional” e pensando mais como os meninos... (risos) REBECCA – É uma fase que a gente tem que tomar decisões complicadas... 243 BRUNO – A gente escuta o tempo todo: TODOS: “Adolescente (pausa) só faz coisa errada!” EE JULIO MESQUITA JULIANA – Tudo que acontece cai nas minhas costas... THAMIRES – Fase da vida de querer ser mais livre e não poder... PAULA – A gente tem que ouvir e obedecer aos pais, mesmo contra a nossa vontade... AMANDA – É uma fase de maior liberdade, meus pais querem que eu aprenda a me virar sozinho... THAIS M. – Não te tratam mais como criancinha... Mas não deixam você fazer o que quer! ERIC – Ser adolescente é a maior curtição!... RENAN – Mas só os adultos podem sair quando tem vontade, podem fazer o que quiser... JOHNY - A vida adulta é muito chata, um tédio! JÉSSICA - A maioria dos adultos não tem vida, ou melhor, não vive a vida... JULIO – Os adultos gostariam de voltar a ser adolescentes... BRUNA – Se os adultos ouvissem mais os jovens eles iriam se surpreender, iriam aprender muita coisa com a gente... SÉRGIO A. – O professor se surpreendeu com as minhas respostas... Pensou que eu fosse um “crianção”, sem nada na cabeça... Eu sou assim... Eu só quero é ser feliz! LÉO– Você quer saber se os jovens de hoje tem sonhos? RAFAEL – Só sonho quando estou dormindo... Nem lembro... SÉRGIO L. – Os sonhos mudam... KARINA – Antes eu sonhava com a Disneylândia... ALINE– Agora sonho com um futuro melhor... GUILHERME– Lutar sempre, cair talvez, desistir jamais! 244 LUDMILA– Se eu quero ser maior de idade logo? Não! (pausa, escuta e responde) Por que? Porque quero curtir cada fase da minha vida sem pressa. Tudo tem seu tempo e sua hora... Não tenho pressa, eu espero, e vou curtindo... Porque ser adolescente... TODOS – É ótimo! LUDMILA – Já imaginaram se um dia, já adultos, a gente olhasse pro passado e pensasse assim?!... MÚSICA: Epitáfio – Titãs Composição: Sérgio Britto Devia ter amado mais / Ter chorado mais / Ter visto o sol nascer / Devia ter arriscado mais / E até errado mais / Ter feito o que eu queria fazer... / Queria ter aceitado / As pessoas como elas são / Cada um sabe alegria / E a dor que traz no coração... / O acaso vai me proteger / Enquanto eu andar distraído / O acaso vai me proteger / Enquanto eu andar... / Devia ter complicado menos / Trabalhado menos / Ter visto o sol se pôr / Devia ter me importado menos / Com problemas pequenos / Ter morrido de amor... / Queria ter aceitado / A vida como ela é / A cada um cabe alegrias / E a tristeza que vier... / O acaso vai me proteger (... - 2X) / Devia ter complicado menos / Trabalhado menos / Ter visto o sol se pôr... LUDMILA – E você pensa que caminhar é fácil? CENA FOCOS CENA SOBRE DROGAS - PARTE 1 RAFAEL convida SÉRGIO para usarem drogas. SÉRGIO não topa. RAFAEL- insiste três vezes. SÉRGIO – não aceita, e pergunta como RAFAEL vai na escola. RAFAEL - não to mais preocupado...já to bombando. SÉRGIO – não a escola é a sua vida, sem estudo você não vai a lugar algum. RAFAEL- que nada,depois eu recupero... SÉRGIO –olha eu já vou... mais pensa no que eu te falei. RAFAEL- ah “ TO VAZANUH “ FOCO A: AMANDA- Adorei a aula de história! Acho muito legal quando o professor organiza esses debates com a gente... MÔNICA- Bem, você é chegada nesses papos de filosofia, política, justiça... Eu acho isso tudo um saco! AMANDA- E por que você acha (imitando-a) “um saco”?! MÔNICA- Por que eu já tenho meus próprios problemas e não quero perder tempo me preocupando com problemas dos outros... AMANDA- Problemas dos outros?! O que o prefeito faz - ou deixa de fazer - na 245 nossa cidade não afeta você, sua família, todas nós? MÔNICA- Amanda, deixa de ser chata! Política, religião e futebol não se discute! AMANDA- Eu não quero discutir! Eu quero conversar, debater, trocar opiniões diferentes... MÔNICA- É isso aí! Cada um tem a sua opinião e não se discute! AMANDA- Ô Cristo!!! Se a gente não ouvir os outros, não souber como os outros pensam, a gente nunca vai se entender... Tem muita coisa errada nesse mundo e se a gente não pode consertar tudo, trocando conhecimentos e experiências a gente pode mudar alguma coisa... MÔNICA- Ai! Como você é sonhadora... A gente não consegue mudar nada! Esses empresários e políticos nem dão bola pra gente... Eu quero começar mudando a minha própria vida, que tá uma porcaria, ta legal? AMANDA- (pausa) Desculpa. Você quer conversar sobre os seus problemas? MÔNICA- Conversar pra que? Não vai resolver nada... AMANDA- Conversando você desabafa, organiza as idéias... MÔNICA- Pode ser... AMANDA- O problema é com você, com tua família, com o namorado?... MÔNICA- O problema é o meu pai. Ele é alcoólatra e ta bebendo dia sim e dia também... AMANDA- Poxa, porque vocês não falam pra ele ir no AA, a prefeitura também tem um tipo de terapia de grupo, eu conheço um rapaz que... MÔNICA- Meu pai já foi... Não resolveu nada. E agora todo dia é minha mãe brigando com ele, o clima lá é casa ta horroroso... AMANDA- É... Difícil! Se você quiser passar uns dias lá em casa... MÔNICA- Não adianta mudar de endereço, os problemas vão junto, não é assim que se fala? AMANDA- Ah! Eu vi uma palestra sobre alcoolismo, tem reuniões de apoio pra família de alcoólatras, de repente pode te ajudar... MÔNICA- Você sabe onde tem? AMANDA- Não sei agora, mas eu descubro! Eu tô indo pra Prefeitura, lá eu me informo. MÔNICA- Poxa, valeu. (cumprimentam-se com toque de mãos) Mas o que você vai fazer na Prefeitura? AMANDA- Vai ter um protesto de estudantes daqui a pouco e eu vou lá participar, você sabe, eu não consigo ficar de braços cruzados vendo injustiças acontecerem... MÔNICA- Então vá a luta! AMANDA- Vamos à luta! Cada uma tem as suas batalhas... Quem sabe um dia a gente possa unir as forças para lutarmos juntas... MÔNICA- Te adoro! Valeu... Por tudo! (outro tom) Ah! Toma cuidado, outro dia teve uma manifestação e saiu paulada, pedrada, a polícia jogou gáz, água... AMANDA- Lembra que a gente estudou sobre o Gandhi? Eu quero manifestações de paz, pela paz... FOCO B: ANALÚ- Eu não vou apresentar o seminário de ciências! CLAUDIA- Se você não apresentar vai ficar com zero... ANALÚ- Fico... 246 CLAUDIA- Por que você tem tanto medo de falar em público? ANALÚ- Ah, tenho vergonha... O que os outros vão pensar de mim?!... CLAUDIA- Isso é bobagem, assim que você começar a falar, vai passar. ANALÚ- Pra você, comigo é diferente. CLAUDIA- Não custa nada tentar. ANALÚ- O pior não é falar... É falar sobre métodos “an-ti-con-ce-pi-ci-o-nais”, até a palavra já é chata de falar e a classe então? Vão todos rir da minha cara! Imagina eu falando: “ Gente, eu trouxe um preservativo pra vocês verem e agora vou demonstrar como se coloca num pepino médio...” CLAUDIA- Não é a primeira vez que eles têm uma palestra sobre esse assunto... ANALÚ- É... Mas você sabe como são os meninos da classe... CLAUDIA- Eles já tem idade suficiente pra entender! ANALÚ- Mas você sabe! Podem ser grandes, mas a mentalidade é de criança. CLAUDIA- Não ligue para o que os outros vão pensar de você... Confie em si mesma! ANALÚ- É Claudia... você me convenceu... CLAUDIA- Se quiser posso te dar algumas dicas... ANALÚ- Mesmo?! (As duas conversam sem ouvirmos o que falam porque o foco vai para FOCO C) FOCO C: RÔ – E aí Cris, fez o teste? CRIS - Fiz. Já era o que eu tava imaginando deu positivo .Ai liguei pro Felipe e ele ta achando que é mentira , e desligo na minha cara! RÔ - Nossa! O Cris desculpa a sinceridade, mas você merece coisa melhor... O Felipe não é cara pra você... CRIS – Ta mais acontece que eu estou grávida dele esqueceu? E o pior eu ainda gosto dele. RÔ – Mas vocês em! Porque não se preveniram. Hoje em dia só se fala nisso, e vocês não se cuidarão! CRIS – Quem fala que eu não me cuidei? Cuidei-me sim. Mas sei acho que a camisinha estouro. RÔ – Olha o Felipe ali, vou lá falar com ele. (RÔ vai falar com Felipe, foco em B) VOLTA FOCO B: CLAUDIA - Ta legal! Eu vou tentar apresentar... Seja o que Deus quiser! (As duas se cumprimentam e saem de cena) VOLTA FOCO C: FELIPE - Oi Cris e ai você está grávida mesmo ? CRIS - Nossa você acha que eu ia brincar com isso Felipe? FELIPE – Sabe Cris desculpa. Mas eu to muito novo pra ter uma responsabilidade tão grande. Acho melhor a gente terminar. CRIS – A e você acha que eu to velha?E a responsabilidade maior está comigo não com você! 247 FELIPE – Desculpa Cris mais não rola. Se você precisar de alguma coisa te ajudo. Mas assumir não dá. tchau CRIS – Então ta... (Ro volta) RÔ - Nossa Cris pela sua cara. Alem de tudo de tudo ele é um covarde? CRIS – È, mas eu não vou ser covarde vou dar um jeito. RÔ – olha relações humanas não são fáceis... CRIS – È eu que sei. Agora vou ter que enfrentar minha família . eu sei que a minha mãe vai falar um monte mas no final ela vai me dar apoio.eu sei que com ela eu posso contar. Já o Felipe... RÔ- O Felipe não será o primeiro e não será o último..virão outros amores,outras decepções,outras alegrias... CRIS- Outras dores e outros amores ... RÔ- E ai? Tá pronta pra outro amor ? Mais outro filho ainda não ! CRIS- Olha amar pode até doer , mas eu acho que ninguém consegue viver sem amor ! RÔ- Tá certo!Amor é tudo na vida. Tem que acreditar. Tem que sonhar... Se não a vida perde o sentido e não tem mais graça. CENA SOBRE DROGAS - PARTE 2 SÉRGIO está chateado porque brigou com sua mãe, RAFAEL o convence a irem para uma festa. RAFAEL- e ai o que aconteceu ?? porque que você ta com essa cara triste ?? SÉRGIO – ah “mano” briguei com a minha mãe. RAFAEL - viu se você tivesse “ido” na minha casa aquele dia não teria acontecido isso. SÉRGIO –ah não to de boa! RAFAEL- olha vai ter uma festinha lá na casa de um amigo meu vamos ?? SÉRGIO –ah não vo pra casa estuda. RAFAEL- ah não vamos lá assim você esqueci dos problemas. SÉRGIO – ah não sei... RAFAEL- vamos ai eu já te apresento as “minas”. SÉRGIO – ah ta bom eu vou. FOCO B – PARTE FINAL: CLAUDIA- Bem pessoal. O assunto do meu seminário é... (pausa, hesita, toma coragem e fala) É um assunto que todos aqui conhecem, ou pensam que conhecem, porque todo ano tem pelo menos uma adolescente que fica grávida aqui na escola... E cada pessoa tem que procurar se conhecer... (Entram estudantes em passeata pelo fundo da platéia) FOCO A – PARTE FINAL: (Alunos aglomerados segurando cartazes e faixas. Amanda destacada do grupo fala:) AMANDA- A polícia ta chegando, mas a gente não pode amarelar... Muito menos atacar, nem ofender... Eles também são trabalhadores, de repente até concordam com a gente, mas não podem nos apoiar. A gente tem que mostrar pra eles e pra toda sociedade que violência não ta com nada e que o nosso protesto é pro bem de todos... Sabe aquele papo de que sonho que se sonha 248 só e só um sonho e que sonho que se sonha junto pode ser realizado?! A gente precisa resgatar nos outros a capacidade de sonhar e de realizar! Vocês concordam? (Grupo se manifesta apoiando Amanda e saem pelo fundo) CENA SOBRE DROGAS - PARTE 3 Os dois picham “3 meses depois” e ouvem a sirene da policia SÉRGIO se esconde atrás da mesa. RAFAEL- calma “cara” já passa... SÉRGIO – ainda bem... RAFAEL- suave “ PIXA É ARTE,CORRE FAIZ PARTE “. SÉRGIO – néh...( Os 2 começam a curti um back ) LEONE entra e tenta convencer SÉRGIO a ir com ele numa reunião do N.A. LEONE – hei SÉRGIO,porque você saio da escola ? SÉRGIO – que escola que nada,só to na curti são... RAFAEL- E ai moleque vai um ai ? LEONE – não...eu já fui dessa vida,e graças ao N.A. eu sai dela... SÉRGIO – Ó lá... ELE saiu do “ PARAISO ” RAFAEL- Nossa... LEONE sai para um lado, SÉRGIO e RAFAEL saem para o outro lado. Entra um rock. Sérgio volta pra cena e picha: “ 6 meses depois”. Sérgio deita no chão. CENA SOBRE DROGAS - PARTE 4 SÉRGIO está deitado e RAFAEL entra, RAFAEL parou de usar drogas. RAFAEL- E ai cara,eu falei pra você usa não abusa... SÉRGIO – da nada,pó veio você sumiu... RAFAEL- é voltei a fala com a minha mãe e ela me arrumo um trabalho... SÉRGIO – i volto a se marikinha LEONE – ou onde vocês estão indo ? RAFAEL – vo i para uma quebrada com o SÉRGIO... SÉRGIO – isso ai...vamo lá... LEONE – não você não quer ir comigo em uma reunião do N.A. ? RAFAEL- a sei lá em... SÉRGIO – a não vamo lá comigo,vai ta cheio de “MINA” RAFAEL- a melhor eu ir com ele para o N.A. porque eu quero muda... SÉRGIO sai para um lado, LEONE e RAFAEL saem para o outro lado. Entra a música “Comida” do Titãs. CENA NO RESTAURANTE Garçonete – Vocês vão querer sobremesa? Lucas – Acho que não! Paola – também não! Nichole – Açúcar doce...não mas sou diabética! Evandra – Tô gorda! Garçonete – Ta bom!(e sai) Lucas – Nichole , não sabia que você era diabética! 249 Paola – Dá pra para de falar palavrão? Lucas – Diabete é uma doença! Paola – ah (espera) que isso! Evandra – to gorda! Nichole – Diabete é o distúrbio no metabolismo da glicose no organismo! Paola – ã? Lucas – É quando se tem muito açúcar no sangue e ele é mal distribuído pelo corpo! Paola – ah! Evandra – Tô gorda! Nichole – Aff...voçê é anoréxica! Paola – ã! Lucas – Ela acha que está gorda, sendo que ta mega magra e quanto mais magra, se acha mais gorda! Paola – tendi! Lucas – como é ter diabete? Nichole – ah, se sabe né? Não pode comer açúcar tem que substituir todas as bebidas por adoçantes , são ¨tratamentos¨ a toda hora, entendem? Paola – Nossa... deve ser ruim. Lucas – Claro que é ruim né ,Paola. Nichole – você se acaba se acostumando! Paola – E né! Evandra – tô gorda! Lucas – Fala serio(e sai) (Evandra vomita Paola e Nichole saem , Evandra vê que não tem ninguem e sai correndo) ATOR___________: Podemos sim modificar a história! Nem que sejam as nossas próprias histórias... CENA VIOLÊNCIA E RISO Dois Corinthianos - um forte (FORTE) e um fraco (FRACO) – E um São-Paulino (SP). FRACO anda por uma rua quando dá de encontro com SP, empurrando-o e ofendendo-o dando a entender que SP usa “pó de arroz” e que é “gay” . SP ignora o “pirralho”, dando a entender que “o que vem de baixo não me atinge”. FRACO dá um pisão forte no pé de SP. SP pede um tempo, ele e FRACO e colocam narizes vermelhos, de palhaços. SP furioso vai atacar FRACO, mas FRACO pede novamente um tempo e pega um tecido vermelho provocando SP para uma “tourada”. SP entra no jogo como um touro e depois de levar dois “olés” de FRACO, acaba encurralando-o, pega o tecido das mãos do FRACO e quando ia bater nele escuta a música, um tango, SP mostra-se romântico, SP e FRACO dançam alguns passos de tango até SP cair em si e empurrar FRACO, usando o tecido para quase enforcá-lo. FRACO então aponta para algo atrás de SP. SP ignora. FRACO aponta novamente. SP resolve olhar e dá de cara com FORTE que veio socorrer o FRACO. SP solta o FRACO e usa o tecido para fazer um laço na cabeça de FRACO. Depois tenta fugir com movimentos tipo câmera lenta, mas FRACO o segura e FORTE dá-lhe alguns socos. FORTE e FRACO dão uma surra - em câmera lenta – em SP. Depois de algumas “porradas” SP cai e é carregado pelos dois, FORTE e FRACO percebem que SP está desmaiado, corpo mole, fazem graça tirando sarro de SP. FRACO pega um jornal e lê a notícia de forma bem engraçada: 250 FRACO - “Corinthianos espancam São-Paulino até a morte” (Os dois riem muito, FRACO continua lendo o jornal:) “A polícia já tem pistas de quem são os espancadores...” FORTE e FRACO olham-se assustados. Tentam fugir correndo, mas não sabem para que lado. FRACO para e tem uma idéia, brincando começa a cobrir o corpo de SP com o jornal, mas SP está com as pernas abertas, FRACO une as pernas mas elas se abrem novamente, faz isso três vezes, até que todo atrapalhado segura as pernas e cobre o corpo. FORTE e FRACO se divertem rindo. FRACO ri: “há, há, há”, FORTE ri: “hé, hé, hé”, FRACO ri: “hi, hi, hi”, FORTE ri: “hó, hó, hó”, SP se levanta fazendo um: “uh, uh, uh!” FRACO pula no colo de FORTE. SP abraça os dois rindo e fala: “Rir é bom...” SP fica sério e fala: “mas rir de tudo?!... É desespero”. Entra a música “Amor pra recomeçar”. SP vai saindo de cena. Um quarto ator tenta fazer com que SP fique e perdoe os outros dois. SP não quer, FRACO e FORTE caem em si arrependidos e estendem as mãos para SP. SP lentamente aceita as desculpas e aperta as mãos de FRACO e FORTE. FRACO e SP trocam as camisas dos times e os três saem abraçados. MÚSICA: MÚSICA: Amor pra recomeçar / Frejat Composição: Frejat/Mauricio Barros/Mauro Sta. Cecília Eu te desejo / Não parar tão cedo / Pois toda idade tem / Prazer e medo... / E com os que erram / Feio e bastante / Que você consiga / Ser tolerante... / Quando você ficar triste Que seja por um dia / E não o ano inteiro / E que você descubra / Que rir é bom / Mas que rir de tudo / É desespero... / Desejo! / Que você tenha a quem amar / E quando estiver bem cansado / Ainda, exista amor / Prá recomeçar / Prá recomeçar... ATOR___________: Podemos sim recomeçar! Podemos esquecer o maior amor da nossa vida e encontrar um novo amor, pra recomeçar... CENA DAS AMIGAS – SOBRE NAMORADOS E AMOR (Aline e Rafael batem palma) AMANDA- Entra! ALINE- oi amanda tudo bem?esse é o Rafael, Rafael essa é a Amanda RAFAEL-oi,tudo bem? BRUNA-Oi miga! ALINE-oi miga esse é o Rafael! RAFAEL-oi,tudo bem? BRUNA-oi RAFAEL-com licença ALINE-Bruna o que você esta fazendo aqui? BRUNA-eu vim buscar um livro de ciências,para estudar para a prova! ALINE-você esta triste,feliz? BRUNA-Ah,eu tó meio triste! ALINE-porque? BRUNA-adivinha? ALINE-seus pais brigaram de novo? BRUNA-é! ALINE-porque? 251 BRUNA-pelo mesmo motivo da semana passada. ALINE-não vou nem comentar!rsrsrsrsrsrsrs.E você Amanda?como foi seu final de semana? AMANDA-Foi ótimo,eu conheci o Luís ele é lindo! ALINE-como que ele é? AMANDA-moreno,alto e olhos castanhos,muito lindo! BRUNA-Eu quero conhecer ele! ALINE-eu também,como amigo claro!e a Stella? BRUNA-deve tá chegando,ela ligou e falou que já estava chegando! (stella bate palma) AMANDA-deve ser ela! ALINE-só pode né! BRUNA-falando no cão! (abre a porta) AMANDA-oi Stella tudo bem? STELLA-Tudo bem!oi Bruna? BRUNA-Oi Stella! ALINE-oi Stella!esse é o Rafael,Rafael essa é a Stella! RAFAEL-oi tudo bem! BRUNA-porque você demorou Stella? STELLA-eu estava no msn com um menino que eu conheci ontem na Red! ALINE-como ele é ? STELLA-moreno,olhos castanhos e alto BRUNA-o menino que a Amanda conheceu é igualzinho ALINE-será que não é o mesmo? AMANDA-não o meu é LUIS STELLA-e o meu é ALGUSTO ALINE-pode ser o mesmo?LUIS ALGUSTO STELLA- eu marquei de encontra ele lé na praça daqui a uns dez minutos (BRUNA,ALINE RAFAEL)e você esta esperando o que? (todos vão para a praça encontrar o tal ''LUIS ALGUSTO'') STELLA- Oi Augusto ALGUSTO-Oi Stella,tudo bem? AMANDA-oi Luis LUIS ALGUSTO- ham,oi Amanda (BRUNA entra em cena) BRUNA-você conhece elas? LUIS ALGUSTO- ham,conheço,porque? ALINE-você ficou com as duas ? LUIS ALGUSTO(L-A)-é depende,tem dia que eu fico com mais! RAFAEL-tá certo moleque(os dois dão um aperto de mão) ALINE-como assim? RAFAEL-brincadeira,rsrsrsrsrsrsrsrs! ALINE-bom mesmo! BRUNA-com qual das duas você vai ficar? LUÍS AUGUSTO-ah se as duas quiserem eu fico com as duas! STELLA-ah,você quer ficar com as duas é?espera um minuto!(STELLA E AMANDA VÃO CONVERSAR) STELLA E AMANDA-agente aceita,aceita matar você! (Stella e Amanda correm atrás do Luís augusto batendo nele) 252 ALINE-vai atrás delas Bruna! (Bruna sai correndo atrás dele,depois o Rafael e a Aline correm atrás deles também,a gente da a volta duas vezes no palco,aí o Luís augusto volta sozinho no palco todo arranhado para pegar o boné,aí ele sai do palco) ATOR___________: Mas teria o amor mudado através dos tempo? CENA: O AMOR ATRAVÉS DOS TEMPOS – UM SALÃO DE BAILE -ANOS 1950, 1960 E 2008. MÚSICA “Fascinação” tocada ao vivo. BIANCA: Queria ser poeta / mas poeta não posso ser / porque poeta pensa muito / e eu só penso em você. O Amor de Outrora Música “Fascinação” tocada pelos alunos em violinos. Depois a valsa “Danúbio Azul”. Rapaz / Moça / Mãe da moça / Outros casais Rapazes e moças paqueram-se, valsam e um dos casais para mais à frente no centro do palco. Pegam nas mãos, trocam olhares, de repente a Moça olha para a coxia e grita: “- Minha Mãe!” E empurra o Rapaz, ficando de costas para ele. A Mãe entra em cena desconfiada, olha brava para o Rapaz e puxa a Moça pelo braço para fora do palco. O Amor nos Anos 60 Música Rock anos 60. Rapaz / Moça / Mãe da moça / Outros casais Casais dançam com mais liberdade. Alguns motoqueiros, moças com vestidos de bolinhas. Rapaz e moça dançam juntos. Moça olha pra coxia e grita: “- Minha Mãe! Putz grila! Que mico...” Moça fica brava. Mãe “hipponga” se aproxima e faz gesto de paz e amor, dando uma margarida para a filha e outra pro Rapaz. A filha e seu namorado saem de cena, os outros jovens também saem reclamando que festa com “mãe” não dá.Mãe estranha as reações não condizentes com a “paz e amor”e também sai de cena. O Amor hoje Música eletrônica. Rapaz / Moça / Mãe da moça / Outros casais Todos dançam música eletrônica. Rapaz dança com a Moça. Moça olha pra coxia e grita: “- Não acredito!!! Minha Mãe!...” Mãe entra e se aproxima toda sensual e sorridente, vestida como uma adolescente, paquera abertamente o namorada da filha. Rapaz fica sem saber o que fazer. Moça sai de cena irritada, Rapaz sai atrás dela. Mãe fala: “- Que “stress”... Juventude careta...” Mãe interage dançando com todos. CENÁRIO DE PISTA DA BOITE TRANSFORMA-SE EM CENÁRIO DOS BANHEIROS DA BOITE. CENAS NA BOITE BANHEIRO MASCULINO GOSTOSÃO - (fazendo xixi) Sobre o que as mulheres falam quando elas vão ao banheiro? 253 QUIETO - (fazendo xixi) Acho que elas falam sobre roupa, cabelo e outras “coisas de mulher”... GOSTOSÃO - Que coisas? QUIETO - Sei lá. Menstruação, coisas de beleza e, é claro, falam mal de outras mulheres... GOSTOSÃO - Isso sem dúvida. Além de falar sobre o melhor assunto para elas: sobre nós, homens! QUIETO - Ah! Saco! GOSTOSÃO - O que foi? QUIETO - Eu tomo o maior cuidado, mas a última gota sempre pinga na cueca... BANHEIRO FEMININO SEXY - O que será que os garotos fazem quando vão ao banheiro? FRESCA - Aqui na boite eu não sei, mas lá em casa quando meu irmão demora muito... MORALISTA - Ele leva revista pro banheiro? FRESCA – Por que ? Ta interessada? MORALISTA - Nem um pouco! Eu acho uma pouca vergonha! INGÊNUA - Mas tem muita gente que lê quando vai ao banheiro SEXY - Só que eles vão fazer outra coisa... INGÊNUA - O que? MORALISTA - Vamos mudar de assunto? SEXY - No banheiro aqui da boite com certeza eles falam sobre mulheres... INGÊNUA - Ou será que eles ficam se arrumando, se olhando no espelho? MORALISTA - Se for frutinha ... FRESCA - Que nada! Machão também é vaidoso. Eles fazem tudo pra impressionar a gente... 254 BANHEIRO MASCULINO PUNK SE ARRUMA, OLHANDO-SE NO ESPELHO. CHATO E REVOLTADO CONVERSAM E ALGUMAS VEZES APONTAM O PUNK. CHATO - Pra mim mulher vai no banheiro só pra retocar a maquiagem e deixar a gente esperando, faz parte do “charminho” delas. REVOLTADO - Pode ser. Minha irmã quando se arruma no banheiro demora uma hora, no mínimo! PUNK – Algum problema?! CHATO E REVOLTADO – Não!! Nenhum... PUNK – Assim ta melhor. Problema é punk! (bate em algo, fazendo barulho) PUNK SAI. DONO DA FESTA ENTRA. DONO - Que barulho foi esse? CHATO – Barulho? Ah, o cara que saiu... Tropeçou no lixo... DONO - Tem alguém passando mal? GOSTOSÃO – Não! Ta tudo beleza... DONO – Sempre tem alguém que traz bebida em garrafinha, traz até coisa pior... GOSTOSÃO – Fica tranqüilo. Ta tudo limpeza... Aqui ninguém é chegado... DONO – Mas como eu sou responsável tenho que ficar de olho, colaborem... Nada de brigas... QUIETO - Todo mundo aqui é da paz! DONO – Acho bom! Mas é melhor não fazer “reunião” no banheiro... Eu não quero ter problemas... GOSTOSÃO – A gente já vai sair... DONO – Então ta! Aproveitem a festa! E cuidado, os seguranças também estão de olho... (sai) REVOLTADO – Cara chato! Parece que a gente é um bando de marginal... QUIETO – Não liga. É o papel dele, tem gente de todo tipo nas baladas... 255 GOSTOSO – Realmente, tem cada tipo! (olha pro chato, brincando e provocando-o) BANHEIRO FEMININO INGÊNUA - Alguém me empresta um brilho pros lábios? Esqueci o meu... SEXY - Toma! Eu nunca esqueço. FRESCA - Ela sempre está com tudo, sempre certinha. SEXY - Nem sempre, as vezes eu saio com você... MARIA - Nossa! Que fora... SEXY – Ela mereceu... (muda o tom) O que vocês estão achando da boite? Tem cada gato! MORALISTA - Mais ou menos. Tem uns malucos que não fazem meu tipo. SEXY - Ai freirinha! Você devia ir para um convento! MARIA - Sem querer abusar, alguém trouxe perfume? SEXY - Pega na minha bolsa. Eu nunca esqueço... MARIA - Nossa! Olha o que eu achei... TODAS (MENOS INGÊNUA) - O que?! SEXY - Pode olhar. Mas não pode babar... BANHEIRO MASCULINO QUIETO - O que você olha tanto no espelho? GOSTOSÃO - O meu cabelo. O corte ficou legal? (ou ficou legal com gel?) QUIETO - Ah! Sei lá. Não mudou muita coisa... GOSTOSÃO - Tudo bem! Nem precisa. Eu sou gostoso de qualquer jeito... QUIETO - Quem vê pensa! GOSTOSÃO - E você nanico? Tá de olho em alguma gatinha? REVOLTADO - Nanico é a vovozinha! E você não tem nada a ver com a minha vida, tá legal? 256 CHATO - Calma pessoal! É que o garotinho aqui não tem iniciativa, não sabe como chegar numa garota... GOSTOSÃO - E você sabe? CHATO - Bem, as garotas não tem reclamado... GOSTOSÃO - Claro! As garotas passam longe de você... CHATO - Qualé? Você ta com dor de cotovelo, eu to sempre cercado de garotas... GOSTOSÂO - Não é bem assim. Você está sempre cercando as garotas. Mas nunca ganha nenhuma... CHATO - Prefiro ficar com todas! GOSTOSÂO - Coitado! Você é do tipo grudento, um verdadeiro mala sem alça! As garotas não conseguem se livrar de ti. Você é pior que praga! QUIETO - Que papo mais besta! Os dois dão em cima das garotas, se acham o máximo, mas se esquecem que não são vocês que “ganham” as garotas. Mulher não é troféu... Aliás, são as garotas que escolhem quem elas querem... GOSTOSÃO - E com certeza elas acabam escolhendo você?! QUIETO - Se for uma garota inteligente... CHATO - Ah! Chegou o gostosão... QUIETO - Esse papel já tem dono... E eu não preciso ficar botando banca. Quem é, faz, não fica contando vantagem. GOSTOSÃO - E você nanico? Continua calado, por quê? REVOLTADO - Melhor do que falar bobagem! E mexeu comigo, não tem bate boca não, parto logo pra porrada... GOSTOSÃO - Ai que medo! CHATO - Fala a verdade, você nunca chegou numa garota? REVOLTADO - Não é da sua conta! CHATO - Tão vendo? Ele não tem lábia... REVOLTADO - E se você tem tanta lábia, mostra pra gente como é que se chega... Faz de conta que a garota ta ali... (Quieto representa a garota, de brincadeira) 257 CHATO - Bem, eu dou umas olhadas. Dou uma piscadinha assim, um sorriso, dou mais umas olhadas e daí vou me aproximando... GOSTOSÃO - Parou por quê? Continua! CHATO - E aí? A gente não se conhece? Você não é a Regina? QUIETO - (muda a voz, feminina) Não! CHATO - Nossa! Você tem cara de Regina... QUIETO - (voz feminina) E você tem cara de... (voz normal) babaca!!! Que cantada ridícula, meu!!! REVOLTADO - Depois eu que não sei de nada... GOSTOSÃO - (para o chato) Cara, assim você não ganha nem filhote de cruz credo! QUIETO - Então agora é a sua vez de mostrar como se chega (faz voz e pose femininas) numa garota... Assim, toda sensual... PUNK – (entra e quase tromba com o Quieto) Oh loco! Vou fazê xixi na calçada... To fora! QUIETO – Péra ai! Você não ta entendendo... É só uma brincadeirinha... PUNK – To fora dessas brincadeirinhas... Fuí! GOSTOSÃO – Ta vendo?! Eu não vou pagar esse mico aqui no banheiro. Vamos pra pista que eu mostro na prática... BANHEIRO FEMININO INGÊNUA - O que vocês estão vendo de tão interessante? MARIA - Uma revista... INGÊNUA - Tem horóscopo?! Deixa eu ver? SEXY - Depende, se você for Virgem, melhor nem ver... INGÊNUA - Por que? A previsão ta ruim? SEXY - Nem um pouco, mas pra quem não conhece, assusta... INGÊNUA - Ah! Me dá logo essa revis... Ai o que é isso?! SEXY - Tadinha...Eu não falei que assustava?... 258 INGÊNUA - Mas o cara ta peladão, mostrando tudo! Onde vocês arrumaram isso? MORALISTA - Vocês, “vírgula”! Eu não tenho nada a ver com essa pouca vergonha... FRESCA - Nem eu! Se fosse pra ver um cara nu eu escolhia um ator americano rico e bonito, não esse... “jogadorzinho” de futebol... MARIA - Eu também não tenho nada a ver com isso! SEXY - Calma! A revista é minha. O cara não é bonito, mas é muito gostoso! Ou você não acha? MARIA - Eu?! Não sei, acho que sim... FRESCA - Credo! Gostoso? Ele é muito feio... Você acha ele bonito? MARIA – (para a Fresca) Não. Ele é feio... (olha pra Sexy) Mas é gostoso... (olha pra frente) Sei lá! INGÊNUA - Credo... Eu não sabia que era... assim... MORALISTA - Vamos parar com isso. Esse não é um assunto pra moças sérias como a gente. SEXY - Quem é séria aqui? MORALISTA - Todas nós, menos você é claro! SEXY - Ah! Assim está melhor... Mas não vão me dizer que vocês não gostam da fruta... INGÊNUA - Que fruta? Já mudou de assunto? SEXY - Você é mesmo tapada. Preciso te dar umas aulas... MORALISTA - Nem pensar. Não vai desvirtuar a garota! FRESCA - Não liga queridinha. Os homens adoram mulher burra. Quer dizer, mulher bonita e burra. INGÊNUA - Ta me chamando de burra? FRESCA - Não. Só um pouco ingênua, desligada... MARIA - É verdade, você não é burra, só um pouco desligada. INGÊNUA - Então me passa a revista que eu quero me ligar! 259 SEXY - Isso garota! É assim que se fala... TODAS OLHAM A REVISTA E DÃO RISADAS SEXY - Vocês parecem crianças deslumbradas quando ganham um brinquedo novo. Só que isso aí não é ”brinquedo para criança”. Vocês ainda têm que crescer muito! INGÊNUA - Eu to fazendo tratamento. Vou crescer mais três centímetros... FRESCA - Não adianta querida. Por mais que a gente cresça nunca vamos chegar aos pés da nossa amiga... SEXY - Não generalize “querida”. Exceto você (“joga o cabelo”) todas as outras aqui são inteligentes... FRESCA - Eu não ouvi isso! SEXY - Claro que não! Tem gente que também é surda. Só escuta o som do dinheiro ou de chave de carro importado, é claro! MORALISTA - Eu vou sair porque o nível ta baixando... Não vi nada. Não ouvi nada, não sei de nada. (sai) SEXY - Pior cego é aquele que não quer ver! Ela censura, mas tenho certeza que ficou morrendo de curiosidade! Além do que ela não pode ver homem que passa mal... INGÊNUA - Como assim? SEXY - Se um garoto, um colega, cumprimenta ela, pega só na mão dela, ela fica vermelhinha... E se o rapaz der um beijo no rosto dela, nossa! Ela explode... É falta! FRESCA - Odeio esse moralismo hipócrita! SEXY- Eu sou mais eu! MARIA - To contigo e não abro! FRESCA - Cuidado! Essa aí é fogo... MARIA - Pode deixar. Eu tenho opinião própria, as vezes... TODOS NA PISTA DA BOITE GOSTOSÃO - (CHEGA NA MORALISTA) De todas as garotas aqui você é a que mais chamou minha atenção... MORALISTA - Como você fala assim comigo? Nem te conheço... 260 GOSTOSÃO - Mas bem que vi os olhares que você deu pra mim... MORALISTA - Eu?!... GOSTOSÃO - É, você! Olhava e disfarçava, tímida, mas louca pra me conhecer... MORALISTA - Imagine! Eu nem tinha te visto antes. GOSTOSÃO - Agora me esnoba? Quem desdenha quer comprar... MORALISTA - Me deixe em paz! Senão eu chamo o segurança! GOSTOSÃO - Calma! Eu não vou te fazer nada. Nada que você não queira... MORALISTA - Por favor, vá embora... GOSTOSÃO - Não consigo. Minha vontade é ficar a noite toda contigo... Você tem uma boca linda! MORALISTA - (cobre a boca) Ai meu Deus! GOSTOSÃO - Você é uma garota tão especial... Queria te conhecer melhor. MORALISTA - Hoje não vai dar. GOSTOSÃO - Por que não? MORALISTA - Preciso ir. GOSTOSÃO - Posso te pedir só uma coisa? MORALISTA - (assustada) O que? GOSTOSÃO - Isso! (rouba-lhe um beijo na boca) MORALISTA - Ai meu Deus! (empurra ele) Preciso ir. Adeus! GOSTOSÃO - (segurando-a) Não vá! Só mais um beijo, você beija tão bem... MORALISTA - Não! Nãããooo... (ela vai negando-o e ele vai enchendo-a de beijinhos) GOSTOSÃO - Vem comigo! MORALISTA - Pra onde? GOSTOSÃO - Você vai ver... MORALISTA - Imagine. Nem te conheço. Não... O que vão pensar de mim? 261 GOSTOSÃO - Não se importe com os outros. Eu quero você, vem! MORALISTA - Não. Eu sou uma moça séria... GOSTOSÃO - Eu também sou um rapaz sério! Você não confia em mim? MORALISTA - Eu confio em você (a parte) Eu não confio é em mim... Ai meu Deus, me ajude! GOSTOSÃO - É pegar ou largar... MORALISTA - (pausa, olha pros lados) Ai! Eu pego! (saem abraçados) (MARIA CONVERSA COM INGÊNUA) MARIA – As garotas sumiram... Cadê elas? INGÊNUA – Sei lá! Devem estar paquerando por ai... MARIA – E você? Ta de olho em algum gatinho?!... INGÊNUA – Pra dizer a verdade esses assuntos não me interessam, ainda. Acho que eu tenho muito tempo pela frente, pra que ficar pensando nessas coisas agora? Você não acha? MARIA – Eu?! Bem, eu entendo o teu ponto de vista... E eu entendo as garotas também! INGÊNUA – E o teu ponto de vista? O que você pensa sobre paquerar, ficar, essas coisas? MARIA – Eu... Pra falar a verdade, eu não tenho uma opinião formada sobre essas coisas... INGÊNUA – Eu posso ser um pouco bobinha... Sei que tem um monte de coisa que eu não conheço, sei que eu dou uns foras, pago uns micos, mas quer saber, eu não vou fazer o que os outros querem que eu faça! MARIA – Você ta certa! INGÊNUA – Eu levo tudo numa boa, mas sinceramente, tem hora que cansa as brincadeiras do tipo: “você é bvl?” E eu nem sabia que BVL era “boca virgem de língua”. MARIA – Mas você é ou não é? INGÊNUA – E qual o problema? As amigas ficam pressionando que eu tenho que ficar, tenho que beijar... E se eu não quiser?! MARIA – Mas você quer ou não quer? 262 INGÊNUA – Não sei... Acho que ainda não chegou a hora. Não to preocupada com essas coisas, mas o pessoal fica tirando sarro... MARIA – Eu sei como é... Mas você não quer ser aceita pelos amigos? Você não tem medo de parecer um ET? De ser muito diferente, de ficar isolada, sozinha?!... INGÊNUA – Eu converso muito com a minha mãe, ela é bem legal, me escuta, dá conselhos... Ela fala pra eu ficar na minha, quem gostar de mim vai gostar do jeito que eu sou, não dá pra gente ser o que não é... E você? A sua mãe é legal? MARIA – (mentindo) Muuito! Mas ela trabalha demais, então a gente se fala pouco... O meu pai é o máximo! Vive me dando presentes, ontem mesmo ele me deu um laptop lindo! INGÊNUA – Que bom! Meu pai é tipo paizão, não me dá muitos presentes, mas é brincalhão, quer saber como eu to na escola, se eu to namorando... Até ele! E eu morro de vergonha! Essa fase da vida até que é legal, mas de repente começa a ter muita mudança, e muda tudo de uma vez... Se fosse uma coisa por vez seria mais simples... MARIA – Viver não é nada simples... INGÊNUA – Realmente! São muitas cobranças... Escola, família, amigos... Todo mundo cobrando que a gente mude! Dá um tempo! Sabe que eu tenho saudades do tempo que eu só brincava? Era mais divertido... Não era? MARIA – (sem graça) Era... (outro tom) E as garotas? Acho que vou procurálas? Você também vem? INGÊNUA – Agora não, to com a cabeça meio confusa, você me entende? MARIA – Eu entendo... Bem, até daqui a pouco! INGÊNUA – Até! Será que ela entendeu o que eu falei? Será que minhas amigas me entendem? Tem hora que eu acho que ninguém me entende! Nem eu mesma... (QUIETO CHEGA NA SEXY) QUIETO – Oi! SEXY - Oi bonitão. Finalmente você chegou. Tava quase... QUIETO - Desistindo? SEXY - Não! Eu nunca desisto... Tava quase chegando em você. 263 QUIETO - Calma! Pra que pressa? Quem é apressado come cru e quente! (abraça-a) Primeiro a gente olha, sente o cheiro, fica com muita vontade e depois... SEXY - E depois? QUIETO - (soltando-a) Depois vê se vale mesmo a pena... SEXY - (surpresa e ofendida) O que?! QUIETO - Calma! Você vale mil vezes a pena... (ela sorri) QUIETO - Eu to sozinho em casa, meus pais estão viajando... SEXY - E o que você propõe?... QUIETO - Vem passar a noite comigo? SEXY - (atônita, nervosa, disfarça) Eu adoraria, mas é que hoje... QUIETO - O que foi? Não sai na primeira noite, não gostou de mim? SEXY - Eu gostei muito de você. Mas é que eu acho que não seria legal... QUIETO - É algo comigo? Ou, sei lá, por que não seria legal? (pausa) Você ta naqueles dias? SEXY - Nada disso. Você é muito legal. Até demais... QUIETO - Então não to entendendo. Por que você não vem comigo? SEXY - Por que não. E é só. Não me pergunte mais nada. QUIETO - Como assim? Você ta se fazendo de difícil, é só charme, é? Não tenho paciência! Pensei que você fosse mais moderna, resolvida... Bem, valeu. A gente se esbarra por ai. SEXY - Mas você vai me deixar assim? QUIETO - E o que você queria? Eu pensei que você tivesse a fim de... SEXY - Eu to muito a fim! Mas... QUIETO - Mas, o que? SEXY - Nada. Pode ir. É melhor mesmo... QUIETO - Não. Agora fala. Se não é charme, se você ta a fim, se você é liberada, por que não vem comigo? 264 SEXY - Você não vai acreditar... QUIETO - Péra ai! (pausa, irônico) Você é virgem?! SEXY - Não é da sua conta! (sai) QUIETO - Quem diria! As aparências enganam... Espera! Vamos conversar... (sai atrás dela) (DONO CHEGA NA FRESCA) DONO – Oi! Tudo bem? FRESCA – Tudo! DONO – Não tinha te visto ainda... Faz tempo que você chegou? FRESCA – Um tempinho... A festa ta ótima! DONO – Que bom que você ta gostando... Depois vai lá no camarote, é só falar com o segurança... FRESCA – Valeu! Eu vou sim... DONO – Fazia um tempo que a gente não se via... FRESCA – É, eu tenho saído pouco... E faz tempo que você não organiza uma festa... DONO – Faz seis meses... Eu tava em Londres. FRESCA – Intercâmbio? DONO – É. FRESCA – Tava legal? DONO – Muito! Aproveitei e trouxe um monte de novidades... FRESCA – Ah! Eu quero ver... DONO – Outro dia eu te mostro... FRESCA – Legal... DONO – Dá licença, tenho que dar uma volta, falar com as pessoas... Te ligo. FRESCA – Ta legal. Anota meu novo celular! DONO – Ah! Depois eu anoto... (sai) 265 FRESCA – Depois... Sei. Ele se acha! Mas pior é que ele pode, não que ele seja bonito, mas é rico! E as garotas dão em cima... Bem, vou dar uma volta também... NARRADOR - E assim vai! A Ingênua fala sobre uma amiga que ficou grávida. INGÊNUA – Não entendi exatamente, mas ouvi dizer que a Bia engravidou de propósito, para segurar o namorado... Ficou sem o namorado, com um filho e sem liberdade. Já com a Lívia parece que foi acidental... Já imaginou?! Uma criança nascer por... a-ci-den-te... Você ri? É sério... (muda o tom) Nascer sem amor,... PUNK – Gravidez é punk! NARRADOR - A fresca acha que poderia ser pior, porque tem gente que se contamina, pega AIDS ou doenças venérias... FRESCA - Que nojo! PUNK – Doença venérea é punk! NARRADOR - A Maria vai com as outras e no embalo quer experimentar umas “drogas”. Coitada! Está deslumbrada... MARIA - Você me arruma? Amanhã eu te pago... PUNK – Demorô, vamô nessa! NARRADOR - A ingênua? Acredita no amor! INGÊNUA – Eu sei que um dia meu príncipe vai chegar! Nem que seja de pangaré, mas vai chegar... NARRADOR - O mala sem alça chegou em dez garotas, levou dez foras, mas ainda não entendeu. Vai chegar nas garotas de novo... CHATO - Você não é a Regina? Ah! Claro que não, você é a Paula, e aí? NARRADOR - O revoltado não chega em ninguém com medo de levar um fora e se consola dizendo que ninguém vale a pena. Detona tudo e todos! REVOLTADO - Vamos embora? Isso aqui ta uma droga! NARRADOR – Falando em drogas... PUNK – Pô, a garota ta vomitando... Alguém dá um help lá... Eu To vazando... Vomitar é muito punk! Fui! ATOR___________: Bem, as vezes as coisas não terminam bem... (faz gesto de que vai vomitar) 266 ATOR___________: E toda balada tem um fim. Então chega a hora de voltar pra casa.Tudo acaba. Ou recomeça. A vida é assim. A nossa peça também. MÚSICA: Fúria e folia - Barão Vermelho COREOGRAFIA FINAL. APLAUSOS. -FIM- 267 ANEXO 14 – DVD da peça “Adolê Sendo” O filme encontra-se no envelope (porta-DVD) fixado na contra-capa. Trata-se de um DVD, sem cortes ou edições, com o registro do dia da apresentação teatral, desde a fala inicial do professor Helvécio antes da peça até o debate com o público após o espetáculo.