COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 1 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ O BULLYING SOB A PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA CORPORAL Vanessa Shigunov RESUMO O presente artigo abordará um assunto extremamente contemporâneo e de imensa relevância principalmente no âmbito educacional. O bullying, conhecido como um conjunto de comportamentos agressivos intencionais, físicos ou psicológicos que acontecem repetitivamente entre colegas sem motivação evidente, vem sendo um fenômeno muito presente nas escolas e outras instituições. Neste trabalho serão traçados os perfis tanto da vítima quanto do bullie (agressor), mencionando suas principais características. Para a compreensão de como se forma o caráter de uma pessoa, uma breve explicação sobre o assunto complementará o estudo. Em seguida, pontos chave como a depressão da vítima e a agressividade e a raiva encontradas no bullie direciona para a idéia de que ambos os sujeitos dividem um mesmo traço de caráter, o oral. Palavras-chave: Agressividade. Bullying. Depressão. Oralidade. Raiva. ..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..- ..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-.. O Bullying trata-se de um assunto bastante atual e de extrema repercussão na mídia. Sabe-se que a prática do bullying já existe há muito tempo, no entanto, começou a ser estudado nos anos 80 e hoje esse assunto ganha espaço nos meios de comunicação social, em pesquisas e literaturas diversas. O assunto recebe ainda mais relevância quando se fala de suicídio. Como se sabe, vítimas do bullying em estado grave de depressão podem chegar a cometer suicídio quando já não aguentam mais a situação de ameaça e agressão. Além disso, situações como assassinatos em massa foram causados por devido a ocorrência de bullying, neste caso, a própria vítima tomou a iniciativa de acabar com seu sofrimento tirando a vida de seus agressores. Além dessas situações extremas relacionadas ao bullying, temos ainda os problemas direcionados às questões de ensino aprendizagem na escola, pois a vítima geralmente é prejudicada nesse aspecto. ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected] COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 2 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ Nesse contexto, verifica-se a necessidade de se aprofundar em nível de conhecimento e pesquisas a respeito dessa temática, pois estudos e investigações podem contribuir para soluções mais precisas e reduzir casos da prática do bullying. Diante dessas informações este trabalho visa pontuar aspectos da Psicologia Corporal para explicar os traços de caráter encontrados na vítima e no agressor ampliando assim o conhecimento a respeito da temática abordada. 1 O QUE É O BULLYING? O bullying é caracterizado como um conjunto de comportamentos agressivos, físicos ou psicológicos, como: empurrar, chutar, apelidar, discriminar e excluir, que ocorrem entre colegas repetidas vezes, sem motivação evidente, sendo que um grupo de alunos ou um aluno com mais força, vitimiza um outro que não consegue encontrar um modo para se defender. Esses comportamentos são freqüentemente voltados para grupos com características físicas, sócio-econômicas, de etnia e orientação sexual, específicas (SMITH, 2002, apud ANTUNES & ZUIN, 2008). Trata-se de situações nas quais se verificam relações de poder assimétricas entre agente(s) e vítima(s), de modo que esta(s) apresentam dificuldade de se defender(em). Nas literaturas específicas, adota-se também o termo de vitimização. (MALTA et al, 2009). As situações mencionadas acima são bastante visíveis principalmente nas escolas e para muitos elas são consideradas normais, no entanto, para a vítima do bullying muito sofrimento é vivenciado com as agressões, essas por sua vez, podem ocorrer de diversas formas. Martins (2005 apud ANTUNES & ZUIN, 2008) classifica o bullying em três grandes tipos: diretos e físicos, que consiste em agressões físicas, roubar ou estragar objetos dos colegas, extorsão de dinheiro, forçar comportamentos sexuais, obrigar a realização de atividades servis, ou a ameaça desses itens; diretos e verbais, que incluem insultar, apelidar, "tirar sarro", fazer comentários racistas ou que digam respeito a qualquer diferença no outro; e indiretos que incluem a exclusão de uma pessoa, fofocas e boatos, ameaças de exclusão do ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected] COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 3 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ grupo com a finalidade de obter algum favorecimento, ou, de forma geral, manipular a vida social do colega. Existe também uma nova forma de bullying, conhecida como cyberbullying, esse, por sua vez, tem sido observado com uma freqüência cada vez maior no mundo e consiste no uso da tecnologia da informação e comunicação como e-mails, telefones celulares, mensagens por pagers ou celulares, fotos digitais, sites pessoais difamatórios, ações difamatórias online como recurso para a prática do bullying (SHROFF PENDLEY apud LOPES NETO, 2005). 1.1 PERFIL DA VÍTIMA De acordo com Dawkins (1995 apud LOPES NETO, 2005) o indivíduo que sofre do bullying pode passar a evitar a escola e o convívio social para prevenir-se contra novas agressões. Em situações extremas e raras, a vítima pode apresentar atitudes de autodestruição, intenções suicidas ou se sentir compelido e adotar medidas drásticas e severas como atos de vingança, reações violentas, portar armas ou cometer suicídio. Fatores como o tempo e a frequência das agressões influenciam diretamente para o agravamento dos efeitos. Além disso, o medo, a tensão e a preocupação com a imagem da vítima podem comprometer o desenvolvimento acadêmico, além de elevar a ansiedade, a insegurança e o conceito negativo de si próprio. Na literatura, muitos autores mencionam sobre a questão da pessoa que sofre o bullying não dispor de recursos, status ou habilidade para reagir ou cessar às agressões. A maioria das vítimas é pouco sociável, insegura e desesperançada quanto à possibilidade de adaptação ao grupo. Sua autoestima diminuída é agravada por críticas dos adultos a respeito de sua vida ou comportamento, dificultando ainda mais a possibilidade de ajuda. Além disso, tem poucos amigos, é passivo, retraído, infeliz e sofre com a vergonha, depressão, medo, e ansiedade. Sua auto-estima pode estar tão comprometida que acredita ser merecedor dos maus-tratos sofridos (LOPES NETO, 2005). ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected] COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 4 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ 1.2 PERFIL DO AGRESSOR Os agressores, por sua vez, captam os sentimentos de inadaptação e inferioridade de suas vítimas, percebendo assim sua fragilidade e tendo a certeza de que elas não terão forças para lutar contra suas agressões, exercendo, por fim, seu poder sobre as mesmas. De acordo com Neto & Saavedra (2004) existe o predomínio de agressores do sexo masculino, no entanto, não foram encontradas diferenças entre gêneros no papel de vítimas. A questão dos meninos se envolverem mais em atos de bullying não significa que estes sejam mais agressivos, apenas eles têm maior possibilidade de adotar esse tipo de comportamento. As meninas usam formais mais sutis de praticar o bullying. Lopes Neto (2005) cita diversos autores que descrevem o perfil do autor de bullying, segundo eles, o bullie é tipicamente popular e tende a se envolver em uma série de comportamentos anti-sociais; ele pode ainda mostrar-se agressivo inclusive com adultos e vê essa característica temperamental como uma qualidade própria; geralmente é impulsivo; tem opiniões positivas sobre si; comparado ao seu alvo é mais forte na maioria das vezes, sente prazer e satisfação em ter o domínio, o controle, o poder e causar danos e sofrimentos a outros. Outra característica trata-se da possibilidade da existência de um “componente benéfico” em sua conduta, como ganhos sociais e materiais. Ainda, são menos satisfeitos com a escola e a família, têm maiores tendências ao absenteísmo e a evasão escolar e a apresentarem comportamentos de risco (uso de tabaco, álcool ou outras drogas, portar armas, brigar, etc). Martins (2005 apud ANTUNES & ZUIN, 2008) defende que autores do bullying costumam agir com dois objetivos: para demonstrar poder, e para conseguir uma afiliação junto a outros colegas. 2 DA COURAÇA AO CARÁTER Podemos encontrar em todos os seres vivos a resposta de expansão e contração, de acordo com situações gratificantes e frustrantes. Sobre o caráter do nosso eu, afirma Navarro (1995) que “a reação neurovegetativa e a ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected] COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 5 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ muscular estão fundadas na necessidade de reprimir certos aspectos funcionais, certas necessidades pulsionais” (p. 26), e é por meio disso que a formação dos traços caracteriais são determinados. Dessa maneira, todo traço caracterial é uma solução que o sujeito encontrou para reprimir uma situação de conflito. A partir do momento que todas as situações provocam angústia, torna-se claro que o traço caracterial bloqueia quase sempre uma situação de angústia. Assim, nós a bloqueamos para evitá-la, criando, dessa maneira, uma estase que consiste em um bloqueio energético que corresponde àquela situação conflitante (NAVARRO, 1995). Dessa forma temos nossa história marcada em nosso no corpo desde o momento em que passamos a existir. Nossas angústias de alguma forma estão inscritas em nós. A formação do caráter é uma conseqüência histórica da modificação de certas pulsões pelo ambiente que cerca o recém-nascido. Em última análise, a formação caracterial decorre da necessidade do ser vivo de exprimir-se ou defender-se de certas situações que possam intervir seja do interior, situação intrapsíquica, seja do exterior, situação interpsiquica (NAVARRO, 1995, p.16) De acordo com Costa (1984), a repetição do bloqueio de um mesmo segmento, emocionalmente expressivo, faz com que aconteça a perda de sua funcionalidade. O bloqueio da angústia, realizado através de atitudes de contenção corporal, faz diminuir o sofrimento, porém, ao mesmo tempo, faz a sensação de vazio aumentar. Como conseqüência disso cresce a preguiça, a depressão, a falta de iniciativa, a insegurança, a impotência diante das situações da vida. O organismo fica cronicamente contraído e qualquer tentativa de movimento de expansão torna-se dolorosa. Na formação do caráter é importante ressaltar também as características no momento de formação da couraça. Dessa forma, é relevante verificar em que momento e situação de frustração ocorreu, também a qualidade e a intensidade da frustração e quem foi a pessoa que frustrou, se a mãe, o pai, irmãos, etc. (NAVARRO, 1995). ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected] COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 6 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ Assim, para Navarro (1995), o caráter final de um sujeito é determinado por aquilo que é a fixação da sua libido, dependendo do lugar que a energia foi bloqueada. Para Navarro (1995) “o caráter, na verdade, tornou-se a formação necessária para manter o equilíbrio psíquico e para defender-se das frustrações e da agressão do ambiente” (p.17). Afirma ainda que o caráter pode ser uma forma habitual da pessoa agir e reagir às situações e aos outros indivíduos. Segundo Reich (1995) o caráter se forma através dos bloqueios energéticos que ocorrem nas etapas do desenvolvimento psico-emocional desde a existência do indivíduo. O sofrimento em uma ou mais etapas será determinante sobre o tipo ou traço de caráter e funcionamento dessa pessoa diante das situações da vida. De acordo com as etapas do desenvolvimento estruturadas por Volpi e Volpi (2002 apud VOLPI; VOLPI, 2007), a primeira denomina-se etapa de sustentação e tem seu início na fecundação e término no nascimento. O primeiro lugar em que se encontra o bebê é o útero, neste o contato se dá com a mãe por meio de suas paredes e do cordão umbilical, que por sua vez irá sustentar e nutrir o bebê de forma fisiológica, emocional e energética. Se, durante a gestação, nenhum tipo de dano severo ocorrer, o recém-nascido terá consigo um sistema energético produtivo e adaptável. No entanto, um estresse sofrido no decorrer dessa etapa do desenvolvimento, será registrado em seu corpo e em seu psiquismo, formando assim uma estrutura de caráter denominada núcleo psicótico (NAVARRO, 1995 apud VOLPI ; VOLPI, 2007). A segunda etapa, denominada por Volpi e Volpi (2002 apud VOLPI; VOLPI, 2007) como etapa de incorporação inicia-se após o nascimento e estende-se até o término da amamentação. É nesta fase que o bebê sai do útero para se unir ao seio de sua mãe, introjetando tudo que lhe for atribuído do mundo externo, iniciando desde o bico do seio, pelo cheiro da mãe, pelo sabor do leite, pela ternura de sua mãe, suas carícias, seu contato verdadeiro com o bebê. ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected] COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 7 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ Segundo Reich (1983 apud VOLPI, 2004) o bebê tem a capacidade de regular suas próprias necessidades de fome, através do choro, balbucios e agitação, no entanto uma mãe agitada e ansiosa não é capaz de perceber e sentir as necessidades de sua criança. Logo, o desmame precoce, tardio ou brusco, ocasiona um estresse no bebê contribuindo assim para a formação da estrutura de caráter oral (LOWEN, 1977; REICH, 1995 apud VOLPI, 2004) ou borderline (NAVARRO, 1995 apud VOLPI, 2004). A etapa seguinte, de produção (VOLPI; VOLPI, 2002 apud VOLPI; VOLPI, 2007), se inicia com o desmame e estende-se até o final do terceiro ano de vida. Na etapa de produção, a energia da criança volta-se à construção de pensamentos, gestos, brincadeiras, jogos, etc. Ocorre também o desenvolvimento da autoconsciência, o que lhe permite aprimorar a capacidade de antecipar os acontecimentos, como, por exemplo, não se sentir abandonada pelos pais quando eles saem, por saber que eles voltarão. Nessa etapa a criança imita os pais em busca de modelos, tem curiosidade e procura descobrir o mundo à sua volta, exercitando também sua autonomia. As exigências dos adultos para que a criança contenha suas necessidades fisiológicas de excreção antes de completar 18 meses e o treino precoce ao toalete são fatores que contribuem para o bloqueio da energia nessa etapa do desenvolvimento. A frustração e o medo de ser punido inibem a espontaneidade da criança, deixando-a numa situação de submissão ao genitor que a frustra e confinada às rotinas diárias de seu dia-a-dia, favorecendo a formação de um traço de caráter masoquista. Preocupações excessivas com a ordem e/ou limpeza trazem o bloqueio nessa etapa e permite o surgimento de um traço de caráter obsessivo-compulsivo. Ambos os traços, masoquista e obsessivo-compulsivo, fazem parte da estrutura de caráter Psiconeurótico (NAVARRO, 1995 apud VOLPI; VOLPI, 2007). De acordo com Volpi e Volpi (2002 apud VOLPI; VOLPI, 2007) a partir do quarto ano de vida se inicia a quarta etapa denominada de identificação e estende-se até o final do quinto ano. Nessa etapa a energia se volta para a descoberta dos genitais, dessa forma a criança descobre a diferença entre os sexos e passa a ter uma idéia segura quanto ao que pertence. Com isso ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected] COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 8 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ surgem as primeiras perguntas sobre sexo e ocorrem também as primeiras masturbações, estas, por sua vez, devem ser encaradas com naturalidade e sem punições.. Aos poucos, a criança começa a sair do campo familiar e voltase cada vez mais para o campo social. A quinta e última etapa do desenvolvimento tem início ao final dos cinco anos de idade e se estende até a puberdade. De acordo com Reich (1987 apud VOLPI; VOLPI, 2007) nessa etapa se completa a formação da estrutura básica de caráter. Ocorre a identificação da criança com o genitor do mesmo sexo, e tendo a consciência disso passa posteriormente a assumir seu papel sexual. Os bloqueios nessa etapa trazem a formação dos traços de caráter fáliconarcisista e histérico que pertencem à estrutura de caráter neurótico (NAVARRO, 1995 apud VOLPI; VOLPI, 2007). Se conseguir chegar nessa etapa sem bloqueios ou fixações das fases anteriores, a criança poderá estruturar o chamado caráter genital, que segundo Reich (1995 apud VOLPI; VOLPI, 2007) é maduro, auto-regulado e equilibrado. 3 O CARÁTER ORAL COMO REFERÊNCIA ENTRE OS AGENTES DO BULLYING Analisando o perfil dos atores no cenário do bullying e capturando a tendência depressiva encontrada nas vítimas e a agressividade e a raiva do agressor como os fatores mais evidentes pode-se categorizar esse indivíduos com traços de um caráter oral ou borderline, de acordo com os parâmetros e conceitos da Psicologia Corporal. Para se compreender melhor a respeito da formação da estrutura de caráter oral, precisa-se voltar no tempo e se ater no período logo após o nascimento do bebê até o seu desmame (aproximadamente até o nono mês). Nessa fase a criança necessita do alimento ofertado pelo seio da mãe, e esta precisa estar disponível para saciar as necessidades do bebê. Dessa forma frustrações ou estresses ocorridos nesse período, como por exemplo, um desmame precoce, brusco ou mesmo tardio contribuem para a formação de uma estrutura de caráter oral. ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected] COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 9 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ Para Navarro (1995) os traços orais são caracterizados fundamentalmente pela dificuldade de contato, seja do tipo passivo (dependência) ou do tipo ativo (agressividade oral). O modo de reagir do oral, com a depressão ou com raiva, dois aspectos caracteriais orais são distinguidos: o oral insatisfeito e o oral reprimido. O primeiro é a pessoa que no fundo sempre oculta a situação depressiva, mas como, de fato, é plenamente consciente dela, procura compensá-la com o alimento, álcool, fumo ou qualquer substituto que possa dar-lhe satisfação no nível oral. O oral reprimido, por sua vez, não tem consciência desse aspecto depressivo e defende-se com um comportamento reativo raivoso. Desse modo, comportamentos característicos de uma pessoa com comprometimento nesse período são: dependência, medo da rejeição, depressividade, raiva, etc. Ainda, sobre a razão predomina-se a emoção, existe dificuldade de contato ou agressividade oral. A energia é concentrada na boca, por isso são raivosos e mordazes (VOLPI, 2008). Podemos encontrar essas características tanto na vítima do bullying quanto em seu agressor. Os comportamentos mais comuns encontrados na vítima são a tendência à depressão, a falta de energia e o medo da rejeição. De acordo com Oliveira (2010) a pessoa deprimida não possui abrangência de suas ações, pois nunca consegue se envolver inteiramente em alguma atividade por ser alienado de seu corpo e de seus sentimentos. O deprimido é infeliz e ainda se torna estático diante de seu progresso, ele é consciente a respeito de sua falta de energia e de seu cansaço frente às situações da vida. Na depressão o indivíduo perde suas forças para continuar lutando contra sua própria falta. Falta esta que se refere à falta de si mesmo, do contato com suas emoções, pois aquela criança que não teve suas necessidades satisfeitas não sabe do que precisa. Em relação à postura do agressor, verifica-se a raiva e a agressividade muito presentes em suas atitudes. Ainda, a agressão praticada pelo bullie é uma ferramenta utilizada como forma de poder para manter um grupo de amigos sempre próximo, evidenciando assim sua dependência pelos outros. ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected] COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 10 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ Sobre a raiva, sabe-se que por traz dela existe, no fundo, uma tristeza escondida. A raiva é uma reação secundária à depressão e traz uma tristeza encoberta. É uma forma mais ativa de tristeza, na qual o indivíduo retira energia do pescoço para a realização de seus objetos e para a remoção dos obstáculos. Podemos observar uma tristeza latente em indivíduos mordazes e tiranos (OLIVEIRA, 2010, p. 22). Ampliando o conceito da raiva, sob a visão da corporal, Lowen (1997) impressiona com sua afirmação: “a raiva é uma emoção importante na vida de todas as criaturas, posto que serve para manter e proteger a integridade física e psicológica do organismo. Sem a raiva, ficamos impotentes contra os ataques a que a vida nos sujeita” (pág. 85). Dessa forma, a raiva, que, no senso comum é vista como algo negativo, toma outra forma quando analisada integralmente. Sobre a agressão, o mesmo autor menciona: “a emoção da raiva é a parte da função mais ampla da agressão, que literalmente significa “mover-se na direção de”. Agressão é o oposto de regressão, que significa “mover-se para trás”. (pág.86). Diante de tais conceitos relacionados com a questão do bullying, podese dizer que o autor desse ato utiliza a raiva e a agressão como uma maneira de se proteger e de lutar por sua vida, pois desde seu nascimento até o período de amamentação essa defesa precisou ser engatilhada devido a comprometimentos nessa fase. Ainda, essa raiva expressa pelo agressor pode ser compreendida como um comportamento compensatório, sobre o qual o bullie cria uma situação de poder e controle de sua vítima a fim de alimentar sua autoestima, esta, por sua vez, é comprometida em resultado da impossibilidade de dar e receber amor de maneira saudável e equilibrada no início de sua infância. No entanto, a agressão do bullie é utilizada de modo equivocado, pois esse recurso defensivo (a raiva e a agressão) é usado para ferir e machucar alguém, sendo que poderia ser canalizado para algo realmente produtivo na vida desse indivíduo, como o estudo, o trabalho, o amor, etc. A raiva e a agressão podem e precisam ser expressas, de modo que não machuquem outros e sejam liberadas da maneira certa e lugar seguro e apropriado. Para Lowen (1997), no espaço terapêutico ou mesmo em casa a ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected] COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO 11 SHIGUNOV, Vanessa. O bullying sob a perspectiva da psicologia corporal. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ raiva pode ser expressa através de exercícios regulares de socar a cama, desse modo é possível recuperar a integridade e a sensação de bem-estar. Nesse contexto, torna-se relevante estudar a estrutura de caráter dos atores do bullying para a melhor compreensão das reações, comportamentos, pensamentos e intenções desses sujeitos e tomar medidas preventivas para que o bullying não aconteça. No entanto, vale ressaltar que a estrutura de caráter oral, relacionada com os atores do cenário do bullying não é unanime, ou seja, não significa que todas as vítimas e todos os agressores possuem esse traço de caráter, mas que se pode encontrar a maioria das características mencionadas nesses indivíduos. ..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..- ..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-.. REFERÊNCIAS ANTUNES, Deborah Christina and ZUIN, Antônio Álvaro Soares. Do bullying ao preconceito: os desafios da barbárie à educação. Psicol. Soc. [online]. 2008, vol.20, n.1 [cited 2011-01-03], pp. 33-41 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010271822008000100004&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0102-7182. doi: 10.1590/S0102-71822008000100004. COSTA, Romeu Alves. Sobre Reich: Sexualidade e Emoção. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984. LOPES, Neto AA. Bullying – comportamento agressivo entre estudantes. J Pediatr (Rio J). 2005; 81(5 Supl):S164-S172. LOWEN, Alexander. 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In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XVII, XII, 2012. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2012. [ISBN – 978-85-87691-22-4]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: ____/____/____. _________________________________ NETO AAL, SAAVEDRA LH. Diga NÃO para o Bullying. ABRAPIA. Rio de Janeiro 2004. REICH, W. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995. VOLPI, José Henrique. Somatização: a memória emocional ancorada no corpo. Curitiba: Centro Reichiano, 2004. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: 17/01/11. VOLPI, José Henrique. Caracterologia pós-reichiana. Curitiba: Centro Reichiano, 2008. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: 17/01/11. VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Vivenciando as etapas do desenvolvimento emocional e mapeando as emoções no corpo humano. Curitiba: Centro Reichiano, 2007. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos.htm. Acesso em: 03/03/11 ..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-..- ..-..-..-..-..-..-..-..-..-..-.. AUTORA Vanessa Shigunov/PR – é formada em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná e possui Especialização em Psicologia Corporal pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: [email protected] ____________________________________________________ CENTRO REICHIANO DE PSICOTERAPIA CORPORAL LTDA Av. Pref. Omar Sabbag, 628 – Jd. Botânico – Curitiba/PR – Brasil - CEP: 80210-000 (41) 3263-4895 - www.centroreichiano.com.br - [email protected]