UNIVERSIDADE PAULISTA
MAURÍCIO GOMES DE MATTOS
RETRATOS DE UMA COMUNIDADE:
A FIEL CORINTIANA E OS VÍNCULOS COMUNICACIONAIS
São Paulo
2014
MAURÍCIO GOMES DE MATTOS
RETRATOS DE UMA COMUNIDADE:
A FIEL CORINTIANA E OS VÍNCULOS COMUNICACIONAIS
Dissertação apresentada ao Programa
de Mestrado em Comunicação da
Universidade Paulista – UNIP, para
obtenção do título de Mestre em
Comunicação.
Orientador: Prof. Dr. Jorge Miklos
São Paulo
2014
Mattos, Mauricio Gomes de.
Retratos de uma comunidade: a fiel corintiana e os vínculos comunicacionais /
Mauricio Gomes de Mattos - 2014.
87 f. il; color.
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em
Comunicação da Universidade Paulista, São Paulo, 2014.
Área de Concentração: Comunicação.
Orientador: Prof. Jorge Miklos.
1. Comunicação. Vínculo. 2. Identidade. 3. Comunidades. 4. Corinthians. I. Título.
II. Miklos, Jorge (orientador).
_____.
MAURÍCIO MATTOS
RETRATOS DE UMA COMUNIDADE:
A FIEL CORINTIANA E OS VÍNCULOS COMUNICACIONAIS
Dissertação apresentada ao Programa de
Mestrado em Comunicação da Universidade
Paulista – UNIP, para obtenção do título de
Mestre em Comunicação.
Aprovado em: ____/____/________
BANCA EXAMINADORA
_______________________________/____/_____
Prof. Dr. Jorge Miklos - Orientador
UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP
_______________________________/____/_____
Prof. Dr. Maurício Ribeiro da Silva
UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP
_______________________________/____/_____
Profª. Dra. Viviane Panelli Sarraf
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
DEDICATÓRIA
Sem nos darmos conta, pessoas entram e saem de nossas vidas, contribuindo para
a construção do nosso caminho. E, algumas delas, são marcantes nesta empreitada,
neste trabalho e na minha vida, as pessoas que aqui forem citadas são hoje minha
sustentação e me ajudaram para que este projeto ganhasse vida.
Então, primeiramente, eu dedico este trabalho à minha mãe, Maria Alice Gomes de
Mattos, que é a pessoa que sempre me deu incentivo e apoio e a quem amo muito.
Depois, a meu pai, Jonas Dias de Mattos e a meus irmãos, Marcelo e Marcio Gomes
de Mattos, que me ajudaram a construir o caráter e a moral que tenho hoje. A minha
família é, e sempre será, meu porto seguro.
Depois dedico a duas pessoas que, neste momento importante, me trouxeram paz e
amor, quando tudo parecia obscuro na minha vida. E, mesmo distantes, me fazem
feliz e me enchem de esperança de que um dia estaremos juntos. Yulieth Preciado e
Antonella Preciado, os meus anjos, eu as amo.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a meu orientador, Prof. Dr. Jorge Miklos, que um dia foi meu colega de
trabalho e hoje é um irmão/pai/amigo, e sabe que pode contar comigo sempre. Sem
você este estudo não teria saído.
Outra pessoa que não posso esquecer é Fulvia Morilhas, porque também sem suas
intervenções divinas este trabalho não aconteceria, obrigado.
Também agradeço a todos os meus amigos que, de alguma forma, me apoiaram na
realização deste trabalho: Cintia Dal Bello, Rafael Tosi, Domingos Sávio, Alessandro
Oliveira, Cristina Munhão, Juan Droghet, Karolina Kogue, Mario Finotti, Marcio
Carbaca, Antônio Junior, Patrícia Romenia, Luciana Melo, e a todos que
participaram do meu caminho até aqui, amo todos vocês.
Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade
Paulista, em particular a Profª Dra. Malena Segura Contrera pelos conhecimentos
transmitidos e pela convivência em sala de aula constituiu um fator motivacional
indispensável. Também sou grato aos Professores Doutores Mauricio Ribeiro da
Silva e Viviane Panelli Sarraf pelas valiosas contribuições que fizeram à pesquisa no
momento da qualificação.
Não poderia deixar de prestar aqui uma homenagem ao Professor Dr. Eduardo
Peñuela Cañizal que partiu deste mundo deixando um imenso vazio. Além de um
grande mestre, uma pessoa generosa e acolhedora. Deixou um testemunho de vida
dedicada à pesquisa e ao saber. Um santista inveterado que amava o seu time.
Saudades....
Por fim, agradeço a Deus porque mesmo com todas as dificuldades que eu tive pelo
caminho na realização desta pesquisa, Ele me deu forças para seguir, colocando
pessoas abençoadas em meu caminho para que eu não abaixasse a cabeça.
“Todos
os
times
têm
uma
torcida.
O
Corinthians é uma torcida que tem um time.”
(José Roberto de Aquino, jornalista)
RESUMO
A pesquisa visa compreender a relevância dos vínculos comunicacionais para a
constituição das comunidades tomando como referencial a torcida corintiana.
Adotou-se como hipótese que a comunicação quando entendida na sua dimensão
antropológica e cultural exerce grande influência para a interação entre grupos
sociais. Os fenômenos comunicacionais presentes nos cenários futebolísticos são
amplos e os desdobramentos na constituição de vínculos, identidades e
comunidades são, em particular, o foco deste trabalho. A fiel torcida corintiana e a
relação constituída com o clube e os aspectos comunicacionais que fomentam e
idealizam a ideia de comunidade imaginada, criando ritos, símbolos e signos de
identidade é o corpus deste estudo. Para investigar a questão, percorremos dois
momentos teóricos. O primeiro passo da pesquisa consiste na análise dos conceitos
de comunicação, cultura e vínculo e suas imbricações com as raízes antropológicas
do esporte, conforme o enfoque de Contrera (2010), Huizinga (2000), Gerbauer
(2000), Hillman (1999) e Franco Jr (2007). Em um segundo momento, à luz das
teorias de Todorov (1996) e Anderson (2008), avaliaremos a construção do sentido
do significado do vínculo comunitário e sua relação com a torcida corintiana.
Avaliaremos a relevância dos vínculos comunicacionais que alimentam o sentimento
de pertencimento na fiel torcida corintiana.
Palavras-chave: Comunicação; Vínculo Identidade; Comunidade; Corinthians.
ABSTRACT
The research aims to understand the significance of the communicational bonds for
the constitution of communities taking as reference the supporters of Sport Club
Corinthians. In this study we adopted the hypothesis that communication, understood
in its anthropological and cultural dimension, has a great influence in the interaction
among social groups. The phenomena of communication that are present in the
soccer sceneries are vast and their results in the constitution of bonds, identities and
communities are in particular the focus of this study. The supporters of Corinthians,
known as “fiel torcida” (the loyal supporters), and the relation constituted with the
club and the communicational aspects that improve and idealize the idea of an
imagined community by creating rites, symbols and signs are the corpus of this
study. To investigate the question, we examined two theoretical moments. The first
one consists in the analysis of the concepts of communication, culture and bond and
their relations established with the anthropological roots of the sport, according to the
point of view of Contrera (2010), Huizinga (2000), Gerbauer (2000), Hillman (1999)
and Franco Jr (2007). In a second moment, in the light of Todorov (1996) and
Anderson (2008) theories, we will evaluate the construction of the meaning sense of
the community bonds and its relation with the Corinthians supporters. We will
evaluate the significance of the communicational bonds that improve the feeling of
belonging in the “loyal” supporters of Corinthians.
Key words: Comunication, Bond. Identity. Community. Corinthians.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 9
1. COMUNICAÇÃO, CULTURA, VÍNCULO E AS RAÍZES ANTROPOLÓGICAS DO
ESPORTE ................................................................................................................. 14
1.1. O Ambiente Social da Comunicação .................................................................. 15
1.2. Cultura no Cenário Antropológico ...................................................................... 17
1.3. O HomoLudens .................................................................................................. 19
1.4. A Antropologia Histórica dos Gestos Esportivos ................................................ 22
1.5. Guerreando em Campo: Esporte e Violência ..................................................... 24
2. A NAÇÃO E O SEU TIME: O SIMBOLISMO DA TORCIDA E A COMUNIDADE
IMAGINADA.............................................................................................................. 31
2.1. O Futebol, a História e o Time do Povo ............................................................. 33
2.2. A Nação e seu Time: O Simbolismo da Torcida e a Comunidade Imaginada .... 40
3. RELEVÂNCIA DOS VÍNCULOS COMUNICACIONAIS PARA A CONSTITUIÇÃO
DAS COMUNIDADES ............................................................................................... 49
3.1. Corinthians, Vínculo e Comunicação de Fé ....................................................... 49
3.2. Corinthians: Comunidade e Violência, o Desumano e o Humano ...................... 55
3.3. Todo Time tem uma Torcida. O Corinthians é uma torcida que tem um Time. 59
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 74
9
INTRODUÇÃO
Por que o futebol suscita paixões? Existem inúmeras respostas possíveis,
desde as que se ouvem nas mais frívolas conversas de bar ou cantos de uma
arquibancada até aquelas mais embasadas pelos estudos científicos em diferentes
áreas do conhecimento. O fato é que a relação constituída entre o esporte bretão e
os seus adeptos vai além das quatro linhas do gramado. Diversos cenários
incorporam, exploram, agregam e, fundamentalmente, identificam grupos de
pessoas que veem no futebol a sua identidade moldada por inúmeros signos
culturais.
O campo da problematização acadêmica acerca do futebol se expande devido
à complexidade que o esporte apresenta, já que ele não apenas mobiliza paixões,
mas também - em decorrência de sua adesão por milhares de pessoas - reflete
inúmeros fenômenos socioculturais contemporâneos. A presença das torcidas
organizadas é um exemplo elucidativo de que a esfera do futebol não se restringe
apenas aos aspectos técnicos, porém opera como um aspecto catalisador das
raízes arcaicas da cultura que irriga vínculos e interações sociais.
De maneira particular, a esfera do futebol constitui relações coletivas como na
política e na religião e torna-se quase uma linguagem universal, a linguagem da
bola. Porém, ainda assim, constitui espaços de resistência de culturas locais
embora, cada vez mais, moldados pela mercantilização propiciada pela globalização
neoliberal.
Mesmo que o futebol fale uma só linguagem, a da bola, contornando assim
uma comunidade única em torno da esfera que rola em gramados verdes, move
também o espaço para seus dialetos próprios que reafirmam os laços locais.
Essa ambivalência não é característica única do futebol, mas nos faz refletir
sobre como, ao mesmo tempo, a linguagem pode ser abrangente - envolvendo todo
mundo em torno dela - e, por outro lado, manter o espírito comunitário local. Eric
Hobsbawm (2007) observou que, apesar da influência globalizante do consumismo,
até o futebol sustenta-se com grande força na regionalização, tendo uma forte
demanda de peso pelos campeonatos locais como o brasileiro e o argentino, devido
à forte representação de identidade nacionalista que o futebol carrega consigo.
10
O tema se torna relevante, uma vez que o futebol tornou-se objeto de estudo
e análise por parte de diversos campos do conhecimento. Somente em anos
recentes, o Brasil começou a gerar uma produção intelectual consistente que tem
contribuído para que o esporte seja pensado para além dos temas propostos pelas
mesas-redondas transmitidas pelas emissoras de televisão.
Na década de 1980, falar de futebol no ambiente acadêmico era uma heresia,
com algumas exceções. Muitos intelectuais identificados com um ideário esquerdista
consideravam o futebol como alienação e o segundo ópio do povo.
Esse olhar restrito anteriormente tem sido ampliado na atualidade. No Brasil,
tem-se escrito cada vez mais sobre futebol. O livro de Mário Filho O Negro no
Futebol Brasileiro, editado pela primeira vez em 1947, é um clássico que, mais tarde,
devido ao seu pioneirismo, evocou os ideais da construção de uma nação brasileira.
O autor tenta mostrar que a incorporação dos negros ao esporte teria configurado
um jeito muito particular de jogar, que misturava a disciplina europeia dos brancos
com a ginga e a malandragem dos negros brasileiros “na constituição de um modelo
verdadeiramente brasileiro de lidar com a bola.” 1.
Há também o livro de Nélson Rodrigues, O Berro Impresso das Manchetes,
composto pelas crônicas escritas por ele na Manchete Esportiva, entre os anos de
1955 e 1959, período em que durou a revista. O futebol, para Nelson Rodrigues, não
era um esporte comum em que 11 jogadores de cada lado tentam fazer um gol. Para
ele, tratava-se de um épico, uma luta heroica não pela vitória, mas “pela vida entre
gladiadores uniformizados e cercados por torcidas delirantes.” 2.
O antropólogo Roberto Da Matta ofereceu sua contribuição em A bola corre
mais que os homens, uma coletânea que reúne uma série de textos produzidos para
a imprensa, em especial, para os jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde,
por ocasião da cobertura das Copas de 1994 e 1998. Além desses, a obra apresenta
ensaios produzidos para publicações acadêmicas.
1
2
FILHO, Mário. O Negro no Futebol Brasileiro, 2003, p. 37.
RODRIGUES, Nélson. O Berro Impresso nas Manchetes, 2007, p. 15.
11
Há também o estudo acadêmico produzido pelo historiador Hilário Franco
Junior A dança dos deuses: futebol, cultura, sociedade. Na segunda parte do livro,
Futebol, metáfora do mundo contemporâneo, recorrendo a Albert Camus, em sua
frase testemunho “a maior parte daquilo que sei da vida aprendi jogando futebol”, o
historiador aponta o futebol como um fenômeno simbólico totalizante da experiência
humana. Segundo o autor, o “futebol é metáfora de cada um dos planos essenciais
do viver humano nas condições históricas e existenciais das últimas décadas.” 3.
Apesar do grande número de obras acadêmicas dedicadas ao futebol, no
campo das Ciências Sociais, diagnosticamos (com exceção dos relatos jornalísticos)
uma carência do tema nas Ciências da Comunicação. Por essa razão, não
encontramos uma grande gama de trabalhos e/ ou artigos acadêmicos que analisem
o futebol sob o prisma das Ciências da Comunicação. Exceção feita à pesquisa de
Tarcyanie Cajueiro Santos: Dos Espetáculos De Massas Às Torcidas Organizadas,
estudo em que a autora identifica que as torcidas organizadas “ao incorporarem
novos padrões éticos e estéticos recriam novas redes de sociabilidades, novos
padrões de violência, demonstrando a desumanização do adversário e a
performance de jovens excluídos.” (2004).4
A escassez de estudos que abordem o futebol do ponto de vista
comunicacional, somado ao nosso interesse pessoal, moveu-nos em tentar “driblar”
esse silêncio e essa lacuna, pois o futebol é a maneira como representamos o Brasil
ou, nas palavras de José Miguel Wisnik, “é um rito através do qual o País se
enxerga.” (2008). Em seu livro, Veneno Remédio, Wisnik tenta decifrar a medida da
importância que o futebol tem para nós.
Fundamentados nesse terreno já pavimentado, procuramos constituir um
esforço acadêmico para compreender, a partir do prisma comunicacional, o papel do
vínculo comunicativo para a integração de grupos sociais. Inerente aos fenômenos
culturais e, por isso, também ao futebol, o vínculo comunicacional conduz a um
sentindo de pertencimento e engendra um cenário propício para o os estudos dos
3
FRANCO Jr., Hilário. A Dança dos Deuses: futebol, cultura, sociedade, Companhia das Letras, São
Paulo 2007, p. 60
4
SANTOS, Tarcyanie Cajueiro. Dos Espetáculos De Massas Às Torcidas Organizadas, Anna Blume,
São Paulo. 2004, p. 12
12
fenômenos sociais, culturais e políticos que o esporte propicia. Ademais, o mundo
social não pode ser entendido sem a comunicação, uma vez que essa é a base
estruturadora da vida social.
Trata-se de um recorte culturalista da comunicação, em que se sustenta a
ideia de pensar a comunicação como cultura, como cultivo, já que o sentido
etimológico do termo remete à ação de cultivar. Cultivar vínculos.
A linha de problematização assenta-se na pergunta: o futebol - visto aqui
como um texto da cultura - permite a constituição de vínculos comunicacionais que
nutrem a integração de grupos sociais?
O corpus observado é o das torcidas, em particular, a torcida do Sport Club
Corinthians Paulista. A torcida corintiana é reconhecida pela sua devoção ao time e
caracteriza-se por sua força, com mais de 30 milhões de torcedores apaixonados,
chamados de Fiel Torcida. Os atletas do time costumam dizer em entrevistas que a
torcida é o décimo segundo jogador em campo, pois é ela que motiva e compartilha
energia com os jogadores em campo.
A metodologia adotada é de caráter bibliográfico exploratório. Recorreu-se a
um espectro teórico interdisciplinar para analisar como são tratados os diferentes
aspectos referentes à questão do futebol como laço identitário e comunitário. Além
disso, a intenção é identificar as raízes simbólicas do esporte, em particular do
futebol, verificando as influências das diversas relações que esse simbolismo tem na
percepção e na relação comunicacional entre os ufanistas do futebol, em especial os
torcedores do S.C. Corinthians Paulista, a fim de analisar os vínculos instituídos
entre clube, torcida e identidade.
A apresentação de como o esporte bretão adentrou em nossa cultura e
enraizou suas gramas na identidade nacional brasileira é de fundamental
importância para que possamos verificar o caráter socializante que o esporte
apresenta e como ele se torna um veículo de vínculo interpessoal e,
fundamentalmente, comunicacional. A relação mais amplamente explorada foi a
relação entre a torcida corintiana e o seu clube para que o universo pesquisado não
se tornasse muito amplo, impossibilitando uma perspectiva mais profunda acerca do
tema, e por causa da necessidade de compreensão das relações intimistas entre o
13
clube e seus adeptos, que possibilitaria mostrar as relações identitárias dos
torcedores corintianos com o Sport Club Corinthians Paulista - que compreende não
somente a estrutura física -, mas o simbolismo comunitário que carrega consigo.
Também é importante afirmar que o estudo não faz ou sequer tenta traçar um
diagnóstico sobre qualquer relação ou análise a respeito dos aspectos pertinentes a
outras esferas do conhecimento como a origem da violência no esporte ou a questão
dos credos e crenças religiosas. Em ambos os casos, as reflexões feitas têm como
proposta auxiliar a compreensão dos simbolismos que circundam a complexa
atmosfera do futebol.
Para atingir os objetivos apontados, a estrutura deste estudo compreende
uma abordagem que, além da introdução e das considerações finais, inclui três
capítulos. O primeiro, “Comunicação, Vínculo e Interação Social”, apresenta, a partir
de um paradigma da complexidade, o papel da Comunicação para a construção de
vínculos sociais. O segundo capítulo, intitulado “A Nação e o seu Time: O
Simbolismo da Torcida e a Comunidade Imaginada”, expõe alguns dos fatos mais
marcantes da história do futebol no Brasil e destaca, a partir da reflexão feita por
Todorov (1996) e Benedict Anderson (2008), o conceito de comunidade e a noção
de reconhecimento e pertencimento que esse esporte cria. No capítulo três, a
abordagem fotográfica permite a identificação e ilustração de alguns aspectos
comunicacionais destacados nos capítulos anteriores.
No desenvolvimento dos capítulos são dados os passos iniciais na tentativa
de compreender a dimensão da centralidade da comunicação para a construção de
identidades e vínculos. Isso implica considerar também a dimensão visual e o papel
central dos meios de comunicação e da cultura das imagens.
Assim apresentado, o esporte - que conquistou o coração de quase todo
mundo - caracteriza-se pela ambivalência de uma comunidade gigante global para
pequena regional, indo do público para o privado e vice-versa da mesma forma que
ha bola rola de um lado a outro de campo, criando espaços propícios para o estudo
dos cenários comunicacionais que o envolvem. Então deixemos a bola rolar para,
como em uma mesa redonda, debatermos os lances e nuances deste jogo.
14
1. COMUNICAÇÃO, CULTURA, VÍNCULO E AS RAÍZES ANTROPOLÓGICAS DO
ESPORTE
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Dois de Dezembro de 2007.
Corinthians e Grêmio. Jogo decisivo no estádio do Olímpico pelo Campeonato
Brasileiro. Ao fundo, os gritos de milhares de torcedores levam o caloroso apoio aos
jogadores, misturando-se com o som dos tambores, rojões e foguetes. Agitam-se as
bandeiras
multicoloridas
nas
arquibancadas.
Os
alto-falantes
informam
a
composição dos times e as eventuais substituições. Emissoras de Rádio e Televisão
e os próprios torcedores, por meio das redes sociais, levam as emoções da festa
popular a milhões de pessoas no país inteiro.
A despeito da emoção festiva, o maior pesadelo da fiel torcida corintiana virou
uma triste realidade naquele domingo. Durante os 90 minutos, as combinações de
resultados deixaram o Corinthians na segunda divisão. O placar de 1 a 1, aliado à
vitória do Goiás sobre o Internacional (2 a 1 no Serra Dourada), mandou o
Corinthians para a Série B do Brasileirão.
O Timão, como é chamado carinhosamente pelos fiéis torcedores, em 97
anos de história, foi para Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. A despeito da
derrota e do rebaixamento, a torcida, sempre fiel, gritava: "Eu nunca vou te
abandonar, porque eu te amo!”.
No ano seguinte, a segunda divisão tem um efeito na autoestima do torcedor
e o Corinthians alcançou seu melhor resultado. Os corintianos não pararam de lotar
os estádios e a média de público dos jogos do Corinthians foi superior à de seus
principais rivais que disputavam a Primeira Divisão.
A segunda divisão trouxe enormes benefícios para a torcida, para o clube e
para a mídia, graças aos investimentos em campanhas de marketing.
A
maior
emissora do Brasil, a Rede Globo, transmitiu os jogos do Corinthians na segunda
divisão e se beneficiou muito com a audiência das partidas. Os jogos, mesmo sendo
contra times pequenos, lotavam os estádios. Bom também para os times pequenos
que ganharam mais visibilidade. A torcida, já conhecida como fiel, tornou-se ainda
mais fiel e apaixonada pelo time. O rebaixamento despertou nos torcedores um
sentimento de união com o time e orgulho do clube, mesmo em um momento difícil.
15
As pessoas em geral, torcedores ou não de futebol, sensibilizaram-se com o
rebaixamento e se emocionaram com a força da torcida. Talvez o clube não tenha
conquistado novos torcedores, mas, com certeza, muitos que já simpatizavam com o
time, tornaram-se torcedores apaixonados.
Nesta pesquisa, busca-se apresentar a torcida corintiana no contexto das
comunidades contemporâneas. O estudo visa ressaltar a relevância dos vínculos
comunicacionais para a constituição das comunidades, ou em outras palavras,
demonstrar as contribuições da comunicação para a interação entre grupos sociais,
no caso, a torcida corintiana. Estamos tratando de comunicação, da sua centralidade
e da ampliação das opções para o estabelecimento de vínculos comunicativos. Mas
qual a relação entre a comunicação e o pertencimento comunitário?
Neste primeiro capítulo, procura-se destacar o papel representado pela
Comunicação na construção dos vínculos sociais.
1.1. O Ambiente Social da Comunicação
Parece nunca ser demais ressaltar a natureza social do ser humano, que
determina uma necessidade de se comunicar, de trocar sentimentos, de
compartilhar sensações. O ser humano tem condições de estabelecer vínculos, de
pensar em termos do cultivo do outro igual, do seu semelhante, já que parece claro
que o mundo social não pode ser entendido sem a comunicação com o outro.
A comunicação parece ser mesmo fundamental em todo esse processo de
transformação social. Através da comunicação, a humanidade parece ter hoje
maiores condições de explorar, aprender e descobrir o próprio mundo. Povos e
indivíduos podem vir a compreender uns aos outros e fortalecer vínculos, laços
sociais. A comunicação permeia todos os aspectos do nosso viver.
Acerca do sentido da comunicação Ciro Marcondes Filho esclarece que:
Comunicação não se confunde com sinalização nem com informação. Na
natureza e na sociedade, nas relações subjetivas tudo sinaliza. Animais,
seres humanos, acontecimentos, sensações, emanações difusas do outro.
Qualquer coisa ao nosso redor produz sinais que podem ou não ser
convertidos em componentes do processo comunicacional. Todos somos,
em princípio emissores. O tempo todo estamos emitindo sinais. Os
pesquisadores da Faculdade Invisível, em torno de Gregory Bateson,
16
chamam a isso de comunicar, “tudo comunica, não dá para não comunicar”.
[...] A comunicação realiza-se no plano da interação entre duas pessoas,
nos diálogos coletivos onde esse novo tem chance de aparecer, onde o
acontecimento provoca o pensamento, força-o, onde a incomunicação é
rompida e criam-se espaços de interpenetração. (MARCONDES FILHO,
2010, p. 64).
Esse argumento corrobora o conceito que norteia a reflexão desta pesquisa,
na qual a comunicação não se constitui apenas na produção e distribuição de
informação, mas, sobretudo, no dever de ter abertura para o sensível, para as
condições em que o receptor, num processo de troca, recebe, aceita, recusa,
remodela mensagens, informações, de acordo com suas convicções filosóficas,
políticas e culturais. Afirma-se, assim, a natureza relacional da comunicação, a
importância do “outro”, da alteridade na comunicação. Comunicação, então,
constitui-se em razão do estabelecimento de laços sociais, de vínculos.
No entendimento da comunicação como interatividade, a criação de vínculos
se consolida. E, se estamos tratando de meios de comunicação, de mídia, dentro do
contexto em que se observa uma centralidade da comunicação, certamente, como
ponto determinante, fica afirmado que “os mundos da mídia são fenômenos do
relacional” (ZIELINSKI, 2006, p. 50). Os mundos da mídia com suas convenções,
linguagens, códigos determinantes de indicadores consolidam ideias, atitudes a
vínculos comunicacionais, como sugere Malena Contrera:
Considerando o vínculo "a base primeira para a comunicação", esses
vínculos passam a ser uma das questões centrais dos estudos sobre a
comunicação humana, ainda que não tenham sido devidamente
considerados até o presente momento. Nesse sentido, é importante que
façamos uma ressalva acerca do fato de que é a desconsideração do papel
do vínculo para a comunicação que colabora para a manutenção de uma
visão empobrecida sobre o processo comunicativo, muitas vezes conferindo
às trocas de informação seu aspecto central. Ainda vemos, nos estudos da
comunicação, uma confusão entre teorias da informação e teorias da
comunicação, sendo que as primeiras se ocupam normalmente de aspectos
funcionais e instrumentais das trocas informativas, alinhando-se muitas
vezes aos estudos da cibernética, enquanto a segunda deveria se ocupar
dessa dimensão complexa da constituição e dinâmica dos vínculos
comunicativos. Isso estabeleceria uma clara distinção entre os papéis de
informar e comunicar, hoje usualmente confundidos. Ao considerarmos os
processos de vinculação, lançamos um novo sentido às relações
comunicativas, evitando uma concepção de que trocas comunicativas se
assemelham a meras relações comerciais e instrumentais, e chamando a
atenção para a importância dos processos de significação constituídos
nessas relações. Nesse sentido também podemos considerar a contribuição
do estudo dos vínculos comunicativos para um alargamento da
compreensão sobre os meios de comunicação, entendendo-os como
espaços (físicos ou simbólicos) nos quais essa rede de vinculação deve
17
operar numa escala socialmente maior do que a da comunicação
interpessoal, e refletindo sobre se esses meios têm ou não, de fato,
desempenhado esse papel, ou se se tornaram meros espaços funcionais
por onde transitam informações assépticas e vazias de sentido, apenas
quantitativa e mercadologicamente consideradas. (CONTRERA, 2010, p.
354).
No jogo de futebol, a comunicação vinculativa aparece nos gritos, nos gestos,
nos corpos tatuados da torcida, nas faixas, nas cores das bandeiras, nas camisetas
dos jogadores, nos apitos e cartões do juiz e dos bandeirinhas, no placar eletrônico,
nos alto-falantes, nos celulares, nas redes sociais e nos insultos e nas canções dos
torcedores. O próprio jogo é um ato de comunicação que se dá num ambiente
cultural.
1.2. Cultura no Cenário Antropológico
Para analisar quais são as raízes da cultura do esporte, é fundamental
realizar uma reflexão sobre o que é a antropologia e discutir a ideia de cultura sob o
ponto de vista antropológico.
Laplantine5 (1988) afirma que a “reflexão do homem sobre o homem e sua
sociedade, e a elaboração de um saber são [...] tão antigos quanto a humanidade”,
mas que “o projeto de fundar uma ciência do homem – uma antropologia – é, ao
contrário muito recente.” Na verdade, é somente a partir do século XVIII que
“começa a se constituir um saber científico (ou pretensamente científico) que toma o
homem como objeto do conhecimento, e não mais a natureza [...]”, nesse momento,
aplica-se pela primeira vez “ao próprio homem os métodos até então utilizados na
área física ou da biologia.”6 . Ainda de acordo com o antropólogo, “o pensamento do
homem sobre o homem” tinha sido “mitológico, artístico, teológico, filosófico, mas
nunca científico (...)”7 , até aquele momento. Assim, o que define a antropologia é o
fato de ela considerar todas as dimensões do homem na sociedade e estudar todas
as sociedades humanas, isto é, realizar o estudo “das culturas da humanidade como
um todo em suas diversidades históricas e geográficas”8.
5
LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988, p. 13.
Ibidem.
7
Ibid., p. 14.
8
Ibid., p. 20.
6
18
O autor ainda afirma que a antropologia é marcada pelo pluralismo, resultado
das diferentes dosagens e combinações que são conseguidas “entre uma
compreensão ‘por dentro’ e uma compreensão ‘por fora’, entre a alteridade e a
identidade, a diferença e a unidade, a subjetividade e a objetividade (mas também a
sincronia e a diacronia, a estrutura e o evento).”9.
Esse pluralismo, que também é representado pelos diferentes pontos de vista
defendidos pelos antropólogos, está presente na ideia de cultura.
Para realizar uma reflexão sobre o conceito de cultura, um bom ponto de
partida é pensar na origem da própria palavra, como aponta Bosi (1992): “Começar
pelas palavras talvez não seja coisa vã. As relações entre os fenômenos deixam
marcas no corpo da linguagem.”10. O autor afirma que as “palavras cultura, culto e
colonização derivam do mesmo verbo latino colo, cujo particípio passado é cultus e
o particípio futuro é culturus.”11. Bosi continua: “Colo significou, na língua de Roma,
eu moro, eu ocupo a terra, e, por extensão, eu trabalho, eu cultivo o campo.” 12.
Klein (1999, p. 9) também destaca essa relação da palavra com o universo
agrícola, afirmando que ela designava o cultivo da terra assim como todo
instrumental técnico desenvolvido pelo homem com a finalidade de plantio. Quando
a atenção se desloca do universo agrícola e passa para o homem, o termo refere-se
às criações do espírito humano. “Assim já em sua etimologia a palavra cultura
aponta para duas importantes facetas de sua manifestação: quando o objeto do
cultivo está fora do cultivador. Está na esfera do mundo externo. Quando o objeto do
cultivo é o próprio sujeito cultivador.” (BAITELLO JR. 1997, p. 25).
De maneira geral, no universo acadêmico, o termo cultura é pontuado como
oposição ao natural; descreve-se, de maneira subjetiva, que tudo que passa a se
integrar com o espírito de sociedade e seu aparato técnico - pertencente à
realização ou interferência do homem - passa a ser considerado cultura. Em
contrapartida, o que não foi tocado ou sofreu interferência do homem não é
considerado cultura. Tal ideia torna o conceito muito amplo e vago, à medida que
9
Ibid., p. 199-200.
BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 11.
11
Ibidem.
12
Ibidem.
10
19
cabem dentro dele tanto a técnica e seus instrumentos quanto o imaginário e o
ideológico, entre outras inúmeras coisas do aspecto humano.
A noção dimensional do conceito de cultura é bem ampla, como aponta o
aspecto antropológico, abrange um largo espectro conceitual e multidisciplinar.
O estudo das relações entre comunicação, cultura e esporte nos ajuda a
compreender a formação da identificação de grupos sociais em torno de objetivos
em comum, a exemplo de religiões, torcidas de futebol, grupos musicais, fã clubes
etc.
1.3. O HomoLudens
A ideia de competição em jogos é inerente ao homem, segundo Johan
Huizinga (2000), não sendo, então, somente um fenômeno cultural, já que sua
ambientação é, de fato, mais remota que a própria cultura. Outros animais mantêm
ritos semelhantes com as atividades lúdicas que não têm, necessariamente,
qualquer relação com as formas constituídas de cultura. Por exemplo, um cachorro
ao competir com outro por um pedaço de pano demonstra claramente o aspecto
lúdico da competição, pois não se observam quaisquer benefícios, a não ser a
brincadeira exercida por ambos. Entretanto, mesmo que de maneira rudimentar,
existem regras que são instituídas nos jogos.
Desde já encontramos aqui um aspecto muito importante: mesmo em suas
formas mais simples, ao nível animal, o jogo é mais do que um fenômeno
fisiológico ou um reflexo psicológico. Ultrapassa os limites da atividade
puramente física ou biológica. É uma função significante, isto é, encerra um
determinado sentido. (HUIZINGA, 2000, p. 5).
O próprio Huizinga indica que existem diversas teorias que apontam
caminhos distintos sobre a significação do jogo, o fato comum em todas essas
hipóteses é que elas partem do pressuposto de o jogo estar ligado a algo que não
seja o próprio jogo e que nele deve haver alguma espécie de finalidade biológica.
As diversas hipóteses tendem mais a completar-se do que a excluir-se. Seria
plausível aceitar quase todas, sem que o resultado fosse contraditório ou conflituoso,
mas, nem por isso, Huizinga (2000, p. 6) afirma que nos aproximaríamos de uma
verdadeira compreensão do conceito de jogo; dessa forma, todas as respostas não
passam de soluções parciais do problema.
20
Nesse cenário, o autor ressalta que as reflexões e teorias criadas em torno do
jogo são superficiais, à medida que se preocupam com ciências quantitativas sem
levar em consideração as perspectivas estéticas do jogo.
Está tudo muito bem, mas o que há de realmente divertido no jogo? Por que
razão o bebê grita de prazer? Por que motivo o jogador se deixa absorver
inteiramente por sua paixão? Por que uma multidão imensa pode ser levada
até ao delírio por um jogo de futebol? A intensidade do jogo e seu poder de
fascinação não podem ser explicados por análises biológicas. E, contudo, é
nessa intensidade, nessa fascinação, nessa capacidade de excitar que
reside a própria essência e a característica primordial do jogo. O mais
simples raciocínio nos indica que a natureza poderia igualmente ter
oferecido a suas criaturas todas essas úteis funções de descarga de
energia excessiva, de distensão após um esforço, de preparação para as
exigências da vida, de compensação de desejos insatisfeitos etc., sob a
forma de exercícios e reações puramente mecânicos. Mas não, ela nos deu
a tensão, a alegria e o divertimento do jogo. (HUIZINGA, 2000, p. 6.).
O último elemento exposto, a diversão, reflete o pensamento de Huizinga
(2000) em relação à natureza do jogo: é uma fonte única e incontestável, pois é o
elemento que foge do padrão da racionalidade e cai na irracionalidade, as regras
existentes – mesmo que rudimentares – não interferem na ideia original de que o
jogo nada mais é do que um passatempo, uma “distração”, que não tem benefícios
lógicos. A realidade do jogo ultrapassa a esfera da vida humana, é impossível que
tenha seu fundamento em qualquer elemento racional, pois, caso isso ocorresse, o
jogo se limitaria aos seres humanos, sua civilização e benefícios práticos, mas isso
não ocorre de maneira direta ou objetiva.
Todo ser pensante é capaz de entender à primeira vista que o jogo possui
uma realidade autônoma, A existência do jogo é inegável. É possível negar,
se quiser quase todas as abstrações: a justiça, a beleza, a verdade, o bem,
Deus. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo. (HUIZINGA, 2000,
p. 7.)
Reconhecer o jogo é reconhecer o espírito, porque o jogo tem sua essência
não na materialidade, mas sim na diversão, ultrapassando o mundo animal e os
limites físicos. Partindo do ponto de vista da concepção determinista, o jogo seria
supérfluo, no entanto, ele se torna compreensível quando o espírito substitui o
determinismo absoluto e a racionalidade é deixada de lado em prol da diversão. A
existência do jogo é a confirmação da natureza supralógica da situação humana. Se
os animais brincam é porque são mais do que simples seres mecânicos e se
21
jogamos e temos consciência da sua condição supérflua significa que não somos
simples seres racionais, pois o jogo é irracional.
Encontramos o jogo na cultura, como um elemento dado existente antes da
própria cultura, acompanhando-a e marcando-a desde as mais distantes
origens até a fase de civilização em que agora nos encontramos. Em toda a
parte encontramos presente o jogo, como uma qualidade de ação bem
determinada e distinta da vida "comum". (HUIZINGA, 2000, p. 7)
O tema se mostra amplo em relação à discussão; em distintos campos do
conhecimento poderíamos discorrer sobre as diferentes variações e hipóteses
levantadas em relação ao jogo, como propõe o próprio Huizinga, mas o fato é que
esse não é o propósito deste estudo, cujo objetivo é realizar uma reflexão sobre os
aspectos sociais que circundam o jogo e como ele está presente dentro da cultura,
mas, fundamentalmente, não se acaba dentro dela.
Mas o fato de ser necessário, de ser culturalmente útil e, até, de se tornar
cultura diminuirá em alguma coisa o caráter desinteressado do jogo? Não,
porque a finalidade a que obedece é exterior aos interesses materiais
imediatos e à satisfação individual das necessidades biológicas. Em sua
qualidade de atividade sagrada, o jogo naturalmente contribui para a
prosperidade do grupo social, mas de outro modo e através de meios
totalmente diferentes da aquisição de elementos de subsistência.
(HUIZINGA, 2000, p.11).
Portanto, o caráter de atividade lúdica contribui para a prosperidade do grupo
social, mostrando assim as características de aproximação com o outro, sem que
haja interesses materiais ou distanciamento em decorrência disso. O fato é que o
jogo aglutina grupos sociais em prol do ócio e da distração, contrariando a premissa
produtiva social, o que não reflete diretamente a materialidade das relações e das
atividades sociais como o estádio de futebol, suas torcidas e os amigos de bairro
que, mesmo depois do jogo, discutem por horas aquele lance da partida.
Se acompanharmos Johan Huizinga, para quem a guerra tem um caráter
lúdico, e Roger Caillois, que vê muitos pontos comuns entre a guerra e festa
(desperdício, suspensão das normas morais, exaltação coletiva, redução da
sensibilidade física), e aceitarmos que o futebol é a representação da
guerra, a conclusão lógica é que futebol é festa. Não uma festa qualquer,
festa arcaica, profundamente ritualizada, festa que envolve toda a
sociedade, que cumpre papel exultório para suas disfunções internas e
externas. (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 246).
O jogo também sempre carrega consigo a individualidade tensional, a gana
de vencer, de conquistar ou superar limites, esses elementos vêm com a tensão
22
criada pelo jogo, a incerteza do resultado leva à busca insaciável pelo fim da
angústia criada. Diferentemente de outros aspectos sociais, o jogo cria suas próprias
regras, com início, meio e fim. As regras do jogo são fundamentais para o
desenvolvimento desse mundo temporário, elas determinam desde o modus
operandi dos participantes até a validade das ações, pois coloca em cheque a
lealdade e a vontade de vencer.
Por sua vez, estas regras são um fator muito importante para o conceito de
jogo. Todo jogo tem suas regras. São estas que determinam aquilo que
"vale" dentro do mundo temporário por ele circunscrito. As regras de todos
os jogos são absolutas e não permitem discussão. Uma vez, de passagem,
Paul Valéry exprimiu uma ideia das mais importantes: "No que diz respeito
às regras de um jogo, nenhum ceticismo é possível, pois o princípio no qual
elas assentam é uma verdade apresentada como inabalável". E não há
dúvida de que a desobediência às regras implica a derrocada do mundo do
jogo. O jogo acaba: O apito do árbitro quebra o feitiço e a vida "real"
recomeça. (HUIZINGA, 2000, p.12).
Apesar disso, há aqueles que se opõem às regras do jogo ou as transgridem,
o que os torna expurgáveis, pois quebram a magia criada em torno dos players,
trazendo-os para a realidade natural fazendo com que o universo imaginário se vá.
Esse “desmancha prazeres” que ignora e desrespeita as regras é expurgado do
jogo, nada parecido com o que ocorre com o trapaceiro que finge estar jogando
seriamente, aparentando reconhecimento com o círculo mágico criado, em relação a
ele, os demais jogadores são mais permissíveis e indulgentes, pois, mesmo que a
regra tenha sido infringida, o ambiente mágico não foi quebrado.
O fascínio criado em redor dos esportes nos remete às influências que esses
tiveram na formação cultural e social da humanidade, objeto de estudo do próximo
subcapítulo.
1.4. A Antropologia Histórica dos Gestos Esportivos
A dança e o esporte têm aspectos muito semelhantes, ambos são o produto
de um conjunto de movimentos executados individualmente ou em grupo, no
entanto, esses movimentos não são o resultado apenas da prática ou das emoções
que acompanham cada gesto, como aponta Gebauer:
Podemos reconhecer que nos movimentos da dança e do esporte não são
realizadas apenas técnicas corporais e emoções, mas também uma
23
abundância de gestos representados por imagens. A maioria desses
movimentos vem do passado, especialmente da antiguidade grega. Por se
tratarem de gestos formados culturalmente, não é difícil reconhecê-los
porque se tornaram tão óbvios em nossa cultura quanto comer com garfo e
faca. (2000, p. 26)
Diferentemente do culto em torno dos Jogos Antigos, os Jogos Modernos
criam outros simbolismos:
Nos jogos modernos, não encontramos nenhuma esfera de culto como nos
jogos antigos, mas os jogos incorporaram um significado sacro, por desejo
de seu re-fundador, como festividade de um religio athletae. Com esse
culto, que não é mais nenhuma crença divina, mas uma veneração ao
individuo extraordinário e à sua nação. (GEBAUER, 2000, p. 28).
Dentro da esfera dos esportes modernos, a ideia de jogo coletivo surge à
medida que a esfera sagrada do indivíduo, comparado com Deus, sai de cena e a
veneração do indivíduo, como pertencente à nação, ganha força. O surgimento de
esportes coletivos, cujos objetivos reproduzem os arquétipos sociais de colaboração
para a produção, assim como na indústria, refletem uma forma de imagem social
através do aspecto lúdico do esporte. A replicação da interdependência do outro
para o sucesso da equipe nada mais é do que a reprodução da imagem fabril das
empresas.
Dentre os esportes coletivos criados pós-jogos modernos, um se destaca pelo
fascínio que exerce sobre várias nações tornando-se, muito rapidamente, o esporte
mais popular do mundo: o futebol. Esse esporte que se move de maneira
diferenciada, cria uma fantástica comoção junto ao seu público.
Sempre que vemos ou jogamos futebol, uma vida imaginária irrompe de
nossa fantasia. Quanto mais fortemente ele nos move, menos sabemos
dele em nossa língua, raramente se infiltra sobre a onda de nossa reflexão.
Sabemos muito sobre o jogo de futebol, conhecemos suas coisas: o pé, a
bola, o gol; sabemos também que algo nos faz amar o jogo. Mas não
sabemos o que é. Por trás desta coisa não há nada; o jogo de futebol não
são representações; tudo está na superfície. (GEBAUER, 2000, p. 30).
O esporte bretão, diferente de outros esportes, não busca a superação do
homem e de sua natureza, suas origens estão mais no anterior à linguagem, no
primitivo, no que é anterior à cultura, como o próprio Gebauer afirma: “O que se
torna visível na superfície do jogo de futebol são sua obstinação e seu caráter, isto é
posto em oposição a todas as realizações de nossa cultura.” (2000, p. 30).
24
Embora o futebol seja coletivo e carregue consigo a característica da
economia burguesa - a associação e a construção conjunta dos processos fabris -,
ele transcende os aspectos culturais, pois não se utiliza do elemento básico da
modelagem do homem, a mão, que é desprezada no contexto desse esporte, em
que tudo parece ser rasteiro, primitivo, pois os pés são o principal elemento do jogo.
Assim a semelhança do esporte na questão da imagem está mais para a dança do
que, necessariamente, para o vigor ou a superação do homem. Aos pés cabe a
habilidade de tocar, em um terreno disforme, uma esfera que ao menor toque se
torna sensível e arisca. Esse esporte se traduz em uma incessante dança de
tentativa de domínio que jamais se concretizará por completo, uma vez que não é
possível, como seria com as mãos, segurar a bola dominando-a por completo.
Sua fantasia torna os amantes do futebol sensíveis pelas coisas simples do
jogo eles reagem mediante aos segredos da superfície. O jogo dos pés
salta por sobre seus corpos; de uma vez os pés se tornam vivos e de fina
sensibilidade. Na dança conhecem-se novamente os pés; eles se tornam
musicais, acompanham o ritmo da musica, sentem o movimento do
parceiro. Assim acontece no futebol, mas neste caso eles não tomam
apenas sua própria forma, mas inventam sempre novas figuras com a bola.
(GEBAUER, 2000, p.30).
E é justamente devido ao não controle total, que se expressa no futebol uma
contracultura, diferentemente de outros esportes nos quais o mais preparado, o mais
atlético, o mais forte sempre vence, a falta desse controle total dos pés faz com que
nem sempre o superior atleticamente, desportivamente vença. O imponderado,
assim como na dança, fascina e prende a atenção do espectador, e a quem joga, a
busca pelo domínio - que em um único momento é rompido pela violência do chute se vê à mercê de um objeto que, ao acaso, pode pregar-lhe uma peça.
Entre os vários aspectos que circundam a atmosfera do esporte, um chama a
atenção: a violência, tópico a ser discutido no subcapítulo seguinte.
1.5. Guerreando em Campo: Esporte e Violência
A violência é a esfera arquetípica dos esportes, desde o seu princípio, como
aponta Hillman (1999). Segundo o autor, o acirramento pertencente à origem do
esporte está mais para o âmbito político e a disputa por poder do que
necessariamente para os aspectos salutares de harmonização.
25
Com a perspectiva de glorificação ou de demonização, a disputa na prática
dos jogos esportivos faz com que as pessoas envolvidas tenham uma
passionalidade pelo poder em disputa, sejam ricas ou pobres. Quando as pessoas
adentram na atmosfera do jogo, deixam de lado sua condição econômica e passam
a ser competidoras, mesmo aqueles que não estão presentes na prática ou na
disputa propriamente dita, revelam-se competitivos à medida que invocam suas
frustrações e mazelas das doenças sociais, descarregando-as nas figuras que os
representam na disputa. O próprio Hillman afirma que:
[...] nos esportes competitivos constelam incursões de marte há muito já se
sabe. Até mesmo as corridas de cavalos! Já nos idos 1822, o jornal
britânico The Annals of Sporting sugeria que os torcedores fossem armados
a Epson Ascot, já que a violência poderia irromper a qualquer momento
como, por exemplo, quando um jockey favorito, tendo desapontado seus
torcedores, apanhava da multidão e era açoitado. (1999, p. 67).
Ainda segundo o autor, embora tenhamos deixado de lado alguns ritos e
cultos voltados aos deuses antigos, ainda estamos sujeitos à possessão arquetípica
deles, no caso dos esportes, submetemo-nos a um deus, em especifico: Marte,
responsável por reger as características da alma violenta e da passionalidade.
Embora o tempo tenha passado e as crenças se modificado, a alma do homem
carrega consigo tal possessão que, nos dias de hoje, é vista, ainda de acordo com
Hilman, como doença psicológica no corpo político e na alma da cidade (1999, p.
68).
Ainda sobre o arquétipo de Marte, a mítica em torno da violência anda de
mãos dadas com a passionalidade:
O fato mítico de Marte estar sempre apaixonado por Vênus fala-nos de seu
componente venusiano, seu outro lado venusiano que ama a beleza tanto
quanto a batalha. Isso Giovanni de Bardi e seus esportistas florentinos
estimavam e exibiam. Pense por um momento sobre os veludos e as sedas,
brocados e armaduras, os estandartes e as flâmulas, os vermelhos, os
escarlates, as mangas purpúreas usadas pelas crianças de Marte seja na
Renascença, seja em qualquer evento esportivo. (HILLMAN, 1999, p. 68).
O fato de flâmulas, estandartes e insígnias estarem presentes no esporte nos
recorda de que a competição tem um caráter violento, de conquista sobre o outro,
hoje, os escudos e bandeiras utilizadas trazem consigo, ao mesmo tempo, a paixão
e o amor na identificação do esporte tal qual trazem a violência e a competitividade
em relação aos não identificáveis.
26
A linha de reflexão proposta por Hilman (1999) que envolve política, violência
e, claro, esporte, encontra no futebol diversas fontes de comprovação, pois, clubes e
torcidas se identificam na paixão ou no ódio e, às vezes, nos dois juntos (quando as
torcidas atacam seu próprio time). As relações de amor, ódio, violência e política têm
alguns aspectos peculiares que permitem a identificação entre grupos de pessoas
em prol de um objetivo em comum. O Barcelona FC, clube catalão, insere-se nessa
situação, pois, para seus torcedores, o time não é pura e simplesmente uma equipe
de futebol, é o bastião de algo maior, o grito de liberdade da província da Catalunha
em relação à Espanha.
Dessa maneira, “A violência nos esportes urbanos é um potencial inato e
natural, que pertence arquetipicamente ao ser humano, como um animal político, e à
cidade, como domicílio desse animal político.” (HILLMAN, 1999, p. 76).
Violação remete naturalmente a violência, e de fato festa, no sentido
antropológico, tem sempre um componente violento. Sobretudo se for
sagrada, como mostra autoflagelação de certas procissões cristãs e as
frequentes mortes acidentais durante peregrinações de várias religiões. Ou
se for festa que metaforiza a guerra como é o futebol. Na copa de 1970, a
vitória da Itália sobre a Alemanha na semifinal foi acompanhada por 18
milhões de italianos, portanto um em cada três, e seguida em muitas
cidades do país por agressões a alemães e destruição de automóveis e
vitrines. (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 247).
No Brasil, os aspectos que demonstram essa predisposição ao amor e à
guerra, não estão ligados necessariamente aos times de futebol e suas origens,
embora em alguns casos possamos identificar isso também, mas essa vocação
entre violência e paixão está mais ligada à esfera passional da história, ou seja, aos
seus torcedores, as torcidas organizadas dão um ar bélico a personagens e
símbolos de identidade com o clube. Mesmo os torcedores comuns que sentem
apenas o desejo de pertencimento ou identificação com o clube acabam sendo
cooptados por essa esfera à medida que os cânticos e símbolos de violência
passam a identificá-lo como sendo alguém apaixonado pelo time.
A violência existe dentro e fora dos estádios e, quase sempre, está associada
às torcidas organizadas dos principais times brasileiros. Essas torcidas trazem em
seus escudos os símbolos de amor aos seus clubes e ódio aos seus rivais.
27
Figura 1 – Gaviões da Fiel13
Figura 2 – Torcida Independente14
Figura 3 – Torcida Jovem Flamengo15
Figura 4 – Torcida Jovem Santos16
Figura 5 - TUP17
Figura 7 – Máfia Azul19
13
Figura 6 - Fanáticos18
Figura 8 - Inferno Coral20
Escudo:
Torcida
Gaviões
da
Fiel
do
Corinthians.
Disponível
em:
<http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014.
14
Escudo: Torcida Independente do São Paulo: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>.
Acesso em: 14 mar. 2014.
15
Escudo: Torcida Jovem do Flamengo: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso
em: 14 mar. 2014.
16
Escudo: Torcida Jovem do Santos: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso
em: 14 mar. 2014.
17
Escudo: Torcida TUP do Palmeiras: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso
em: 14 mar. 2014.
18
Escudo:
Torcida
Fanáticos
do
Atlético
Paranaense:
Disponível
em:
<http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014.
19
Escudo: Torcida Mafia Azul Cruzeiro: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso
em: 14 mar. 2014.
20
Escudo: Torcida Inferno Coral do Santa Cruz de Pernanmbuco: Disponível em:
<http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014.
28
Estandartes da violência são ostentados com orgulho como símbolos de amor
e ódio. Hillman (1999, p. 69) define esses grupos como “gangues urbanas” que
fazem parte de uma busca por dominação. O autor, no entanto, vai além ao afirmar
que é uma espécie de psicose coletiva, causada pela falta de equilíbrio entre
hierarquias, essas pessoas que recorrem à violência, no rompante da competição,
fazem-no em decorrência da busca por uma hierarquia equilibrada, a seu gosto, elas
são motivadas pela explosão hormonal da testosterona presente nos jovens que, em
geral, são a maioria nos estádios.
Os estudos sempre repetem que a audiência dos jogos de futebol urbanos é
composta principalmente de adolescentes. Isso é particularmente
verdadeiro com relação aos países do terceiro mundo onde a média de
idade da população é mais baixa que na Europa ocidental, mas, mesmo
colônia, as pesquisas mostram que mais da metade dos espectadores dos
jogos tem menos de 21 anos e, claro, 88% são homens. Os tumultos nos
estádios têm sido chamados de “crises tardias de puberdade” e encarados
como “jovens do sexo masculino em busca de um rito de iniciação através
do risco físico”. (HILLMAN, 1999, p. 70)
Ainda segundo Hilman (1999), existem 5 fatores que aumentam ou diminuem
a testosterona. O primeiro deles é a disputa; o segundo, a competição e o sucesso;
o terceiro, o aumento do status; o quarto é o encontro sexual e o quinto, cujo papel é
fundamental, está ligado diretamente à violência: a raiva.
Portanto, não é inesperado que uma arbitragem percebida como injusta ou
uma falta não notada que inspire raiva na multidão puxem o gatilho de uma
escalada de fúria devido a níveis de testosterona aumentados. E não é
surpreendente que já antes de um evento esportivo sua antecipação
prepare um tumulto na corrente sanguínea. Também não deve ser
surpreendente que quando o jogo acabe não diminua a excitação e que
depois de uma vitória haja um potencial ainda mais alto de confusões.
(HILLMAN, 1999, p.71).
Então, a mesma testosterona presente no rompante da violência serve como
rejuvenescedor e agregador, à medida que ali se identifica a juventude e a
desordem típicas da puberdade. Quando um grupo de idosos se reúne para assistir
a um grupo de garotos jogando, esses indivíduos buscam o reconhecimento ou o
espelhamento daquilo que já foram um dia. A diversão ali expressa representa os
sonhos e desejos de conquista, realizados ou não. Da mesma forma, durante um
jogo, as emoções da plateia aumentam ou diminuem proporcionalmente ao
desempenho do seu time que, quando joga bem, leva seus torcedores a entrarem
em um ritmo crescente de euforia e excitação que se esvaem, quando o oposto
29
ocorre. Isso acontece devido à maior presença e carga de testosterona no sangue,
pois a derrota, a humilhação, a negação do ato sexual e o isolamento são fatores
que servem para a diminuição desse hormônio.
Percebe-se sob a ótica de Hillman (1999), a não distinção entre atletas e
torcedores, pois, para ele, ambos passam pelos mesmos cenários, angústias e
alegrias, em qualquer esporte. O que um jogador sente ao marcar um gol, em uma
final de campeonato, é semelhante ao que milhares de outras pessoas identificadas
com aquele time vão sentir, criando assim uma unidade, uma comunidade em torno
da atividade ali representada pelo esporte. Então, tanto o homem que assiste,
confortavelmente, ao jogo da final do campeonato, em casa, pela sua TV quanto o
jogador que vai bater o pênalti e está diante do goleiro, nesse mesmo jogo, criam
uma atmosfera parecida, uma identificação com a situação, uma identidade, seja ela
pela marcação do gol ou pela perda dele.
Assim, pode-se constatar a existência de alguns elementos que são
fundamentais para a compreensão da relação entre violência e esporte. O esporte
está ligado aos ritos de passagem da adolescência, não só por causa dos
hormônios,
mas,
fundamentalmente,
devido
à
ideia
de
pertencimento
e
reconhecimento da transposição para a fase adulta. A ideia de pertencer a um lugar
- aspecto que será abordado mais detalhadamente em outro capitulo – permite que
se crie uma energia de companheirismo e, ao mesmo tempo, de rivalidade, de amor
e de ódio. Esses fatores somados a alguns elementos como a visão magnífica de
um estádio lotado, cantando - como em um culto - músicas de incentivo ao seu time,
podem desencadear a bestialidade que será a brutalidade e violência em nome dele
também.
A violência é apenas um dos muitos aspectos que circundam o universo do
futebol, provavelmente é o mais controverso e perverso elemento desse esporte
que, ao longo dos anos, tem se mostrado, um campo muito produtivo para
discussões multidisciplinares. O próximo capítulo deste estudo tem como objetivo
discutir algumas dessas questões em torno do futebol e resgatar os acontecimentos
mais marcantes da história desse esporte no Brasil, assim como, busca resgatar
30
também eventos da história do clube que, atualmente, possui a segunda maior
torcida do país: o Sport Club Corinthians Paulista.
31
2. A NAÇÃO E O SEU TIME: O SIMBOLISMO DA TORCIDA E A COMUNIDADE
IMAGINADA
Os elos de identificação entre torcida, time e jogadores são construídos
segundo características peculiares, particulares e de caráter subjetivo e vão muito
além de uma partida. De acordo com Damo (2002), o sentimento de pertencimento é
o de lealdade, no qual os outros clubes - uns mais que outros - são considerados
adversários do equilíbrio entre o sentimento positivo e o negativo de comunhão entre
time e torcida. A relação construída vai além do tempo e do espaço e, na história do
Sport Club Corinthians Paulista, não faltam exemplos desse vínculo.
No dia 5 de dezembro de 1976, Corinthians e Fluminense se enfrentariam em
um único jogo a ser disputado pela semifinal do campeonato brasileiro. O
Corinthians tinha a oportunidade de chegar à final do torneio, caso ganhasse do
Fluminense, favorito na disputa. Setenta mil corintianos ocuparam o estádio do
Maracanã, no episódio que ficou conhecido como ‘a invasão corintiana no
Maracanã’.
Os números impressionam: oficialmente, só da Gaviões, 300 ônibus saíram
de São Paulo ao Rio. Em dados não oficiais, falam em cerca de 1000
ônibus corintianos lotando a Via Dutra, o que exigiu do Detran uma
operação inédita para permitir o fluxo na rodovia, chamada de “Operação
Corinthians”, quando houve recorde de tráfego.
Embora o espetáculo, a chuva, a garra dos jogadores em campo fossem por
si só memoráveis para a história do clube, naquele dia, o Corinthians era
mais. Eram 12 em campo, com uma torcida incrível e apaixonada que jogou
com o time cada segundo da partida.
Naquele dia, a Fiel estava lá, mais forte do nunca, não mais como
coadjuvante, mas como protagonista de uma das histórias mais bonitas do
time do povo.
Para as finais, o Internacional, com medo de uma segunda invasão, não
disponibilizou ingressos para o Corinthians, e as estradas foram bloqueadas
pela polícia gaúcha. O jogo da final terminou com uma vitória de 2x0 para o
21
Internacional. .
Em 2012, uma nova invasão - dessa vez em solo japonês - deu resultado e o
Corinthians tornou-se campeão mundial pela segunda vez, após enfrentar o time
inglês do Chelsea. A manchete da revista VEJA resume bem o acontecimento: “A
21
Disponível em: < http://www.meutimao.com.br/historia-do-corinthians/fatos-marcantes/a_invasao_
Corinthiana_no_marcana>. Acesso em: 4 ago 2013.
32
invasão corintiana em solo japonês funcionou – e com um desfecho do jeito que seu
torcedor adora: com sofrimento, suspense e gol de raça.”22.
Figura 9 - República Popular do Corinthians23
Para tentar entender a força das relações de identidade que os torcedores
têm com os clubes, em especial, as que ligam os torcedores corintianos ao
Corinthians, e tentar explicar como o futebol, um esporte que nasceu da elite,
tornou-se tão popular no Brasil, vamos resgatar, neste capítulo, alguns aspectos da
história do futebol no país e da história do próprio Corinthians. Além da abordagem
histórica, busca-se analisar também como a elaboração simbólica do futebol no
Brasil acontece a partir da percepção da imagem de nação ideal, em que as torcidas
podem ser entendidas como uma comunidade imaginada 24 , conceito que parece
descrever bem o cenário do futebol no Brasil.
Tal ideia aponta para um aspecto fundamental na compreensão da
necessidade de reconhecimento e do sentido de pertença que o torcedor tem ao se
22
Disponível em: < http://veja.abril.com.br/noticia/esporte/guerrero-decide-corinthians-vence-econquista-mundial-de-clubes>. Acesso em: 4 ago 2013.
23
Disponível em: < http://republica.corinthians.com.br/>. Acesso em: 8 ago 2103.
24
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do
nacionalismo. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
33
tornar um seguidor de um determinado clube: ele passa a reconhecer, mas,
principalmente, passa a ser reconhecido, transmitindo e assimilando as ideologias
daquele grupo, ele se integra e se identifica.
2.1. O Futebol, a História e o Time do Povo
O historiador Hilário Franco Junior (2007) descreve a chegada do futebol ao
Brasil assim:
O pontapé inicial no esporte que se tornaria a paixão nacional faz parte de
uma história oficial pontilhada de características quase míticas. Da mesma
forma que na Inglaterra, onde a elite se apresentou como a criadora e
organizadora do futebol, no Brasil sua introdução foi atribuída ao jovem
paulistano Charles Willian Miller, filho de um engenheiro escocês aqui
radicado. Enviado a Inglaterra com nove anos para completar seus estudos,
Miller retornou em 1894 trazendo em sua bagagem um verdadeiro arsenal
litúrgico: dois uniformes, um par de chuteiras, duas bolas, uma bomba de ar,
um livro de regras e o desejo quase apostólico de desenvolver o esporte
entre seus pares... (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 60).
Dessa forma, o futebol brasileiro teve origem na elite, assim como os
primeiros clubes que surgiram no país. O primeiro deles foi o São Paulo Athletic
Club (SPAC)25, fundado em 13 de maio de 1888 pelos trabalhadores e engenheiros
ingleses que construíam a primeira ferrovia paulista, a São Paulo Railway.
O
objetivo era criar o primeiro clube esportivo de São Paulo para a prática do críquete,
esporte britânico.
No entanto, quando Charles Miller voltou da Inglaterra, trouxe consigo a ideia
da prática de outros dois esportes: o rúgbi e o futebol. Como era um associado
bastante conhecido do SPAC, tornou-se responsável por reunir tanto os ingleses
quanto os paulistas, que faziam parte do clube, em torno desses esportes. Os
associados aderiram ao futebol e o rúgbi foi esquecido, como é possível constatar e,
atualmente, o SPAC não conta mais com um time de futebol profissional, embora
exista até hoje com o nome de Clube Atlético São Paulo.
O primeiro jogo oficial do Brasil só ocorreu em 1895 entre o São Paulo
Railway (SPR) - time formado com os jogadores amadores do SPAC e os
25
Disponível em:< http://spac.org.br/>. Acesso em: 11 jul 2013.
34
engenheiros britânicos, contratados para a construção da São Paulo Railway versus a The Gas Co, a companhia de gás de São Paulo, vigente à época. O
resultado foi 4x2 para o SPR, com dois gols de Charles Miller26.
Figura 10 – Primeira Partida Oficial no Brasil27
Pouco tempo depois, outros clubes surgiram, aderindo ao esporte, até então,
elitizado, entre eles: o Sport Clube Rio Grande, em 1900; a Ponte Preta, em 1900; o
Vitória de Salvador, em 1901; o Fluminense, em 1902, que permanecem até, no
entanto, muitos clubes criados à época acabaram sendo extintos ou deixando o
futebol para focar em outras atividades, como é o caso do Athletic Club Paulistano, o
Clube Pinheiros (antigo Germânia) e a Associação Atlética Mackenzie College, que
pertencia ao Colégio Mackenzie.28
Esporte de Bacharéis num país caracterizado por gigantesca desigualdade
social, esporte de brancos em uma sociedade com marcas ainda expostas
do escravismo, esporte associado a ícones do progresso e da
industrialização numa economia ainda essencialmente agrária, o futebol,
tornou-se desde o inicio um dos ingredientes mais importantes dos debates
acerca da modernização do Brasil e da construção da identidade nacional.
(FRANCO JUNIOR, 2007, p. 61).
26
Disponível em:
<http://virgula.uol.com.br/esporte/futebol/primeira-partida-de-futebol-oficial-nobrasil-completa-114-anos>. Acesso em: 11 jul 2013.
27
Disponível em: < http://virgula.uol.com.br>. Acesso em: 5 abr 2013.
28
Idem.
35
Para entender como um esporte elitista transformou-se em um fenômeno das
massas, Hilário Franco Júnior (2007, p. 62) apresenta alguns cenários possíveis de
contato das massas com o futebol. O autor cita como exemplo, o jogo ballon anglais,
muito similar ao futebol que já era praticado pelos padres jesuítas em 1880. O autor
destaca também notícias do mesmo ano que mencionavam o fato de marinheiros
ingleses jogarem partidas de futebol nas praias cariocas, em dias de folga e, por fim,
ainda segundo Franco Jr. (2007, p. 62), há registros de uma partida realizada em
1878, que teria sido disputada em frente à residência da Princesa Isabel.
Entretanto, ainda que não se possa afirmar com certeza qual tenha sido a
origem do contato das massas com o futebol, em pouco tempo, a ideia de identidade
nacional começou a surgir para ajudar na popularização do esporte. Em 1919, o
Brasil recebeu o campeonato sul-americano 29 e, embora tivesse uma cobertura
tímida da mídia, o esporte já demonstrava contornos patrióticos, conforme trechos
de matéria publicada no Jornal o Estado de São Paulo de 29 de maio de 1919, dia
do jogo entre Brasil e Uruguai.
No círculo dos jovens, considera-se impatriótico o desinteresse do desfecho
do certâmen continental, declarado que seja por um brasileiro! … e nas
rodas mundanas, não se admite nem por esnobismo, uma afirmativa desta
30
natureza. (O Estado de São Paulo – Quinta Feira 29 de Maio de 1919)
Figura 11 – Jornal O Estado de São Paulo de 29/05/1919 31
29
Atualmente o campeonato sul-americano de futebol é disputado com o nome de Copa América.
Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19190529-14756-nac-0005-999-5-not.>, p.
5.
Acesso em: 15 jul 2013.
31
Idem.
30
36
Fonte: http://acervo.estadao.com.br
Ao mesmo tempo em que esse sentimento de identidade patriótica envolvia o
esporte e ajudava a popularizá-lo, fazendo com que alcançasse as camadas mais
baixas da sociedade, outro acontecimento contribuía ainda mais para que isso
ocorresse.
Algumas fábricas utilizavam a prática do esporte entre os operários como
processo de recreação. À medida que as equipes formadas nas fábricas obtinham
sucesso, os diretores percebiam que tinham, através do esporte, uma grande
ferramenta de divulgação dos seus produtos e, assim, ofereciam alguns benefícios
aos operários que jogassem melhor: “Operário que jogasse bem futebol, que
garantisse um lugar no primeiro time, ia logo para a sala do pano.” 32. (FILHO, 2003,
p. 84). Nesse período, teve início também, ainda que de maneira tímida, a
remuneração de jogadores através do chamado bicho 33.
Entre os anos 1920 e 1940, o futebol já era considerado um “fenômeno
popular de massa”, como aponta Lívia Magalhães (p.18) 34. Prova disso é que a
maior parte dos clubes que têm grandes torcidas e ainda jogam profissionalmente,
nos dias de hoje, foram fundados no Brasil entre 1900 e 1940.
Apesar dessa popularização, nesse período, os grandes clubes patrocinados
instituíram ligas com altas taxas de adesão, mas com uma série de requisitos a
custos onerosos que só os grandes clubes e os que pertenciam às empresas
podiam suportar. Os ingressos para acompanhar as partidas também passaram a
ser cobrados, com valores elevados, tais medidas visavam excluir as camadas
sociais mais baixas35.
Mesmo com os esforços da elite na segregação dos participantes do esporte,
outros grupos sociais excluídos e desfavorecidos começaram a jogar partidas de
futebol em campos improvisados nas regiões periféricas de todo o país, criando ligas
32
Sala do pano: termo usado para distinção de um trabalho mais leve e tranquilo.
Pagamento de bicho: pagamento por fora, pagamento de valores sem contabilização ou vínculo.
34
MAGALHÃES, Lívia Gonçalves. Ensino e Memória: Histórias do Futebol. Arquivo Público do Estado
de São Paulo, 2004, p.16.
35
STREAPCO. João Paulo França, “Cego é Aquele que só Vê a Bola” o Futebol em São Paulo e a
Formação das Principais Equipes Paulistanas. Dissertação do curso de pós-graduação em História
Social, da Universidade de São Paulo, 2011, p. 35.
33
37
locais e campeonatos de várzea, formando assim as comunidades da bola. Assim, o
espaço antes dominado pela elite, aos poucos, foi invadido por essas comunidades
e o futebol transformou-se em uma massa heterogênea com características
semelhantes à da sociedade brasileira36.
Times de futebol, antes criados por oligarcas, passaram a ser fundados
também por comunidades, operários, etnias etc. Dessa maneira, foram instituídos
espaços para a ideia de identificação, vínculo e comunidade. Nesse período, surgem
clubes que corroboram com a ideia de popularização do esporte, como é o caso do
Internacional de Porto Alegre, fundado em 1909, inspirado no extinto Internacional
de São Paulo, cuja principal característica era aceitar a presença de imigrantes,
migrantes e negros, impondo claramente sua política a outros clubes da cidade que
não aceitavam tais condições, devido à sua formação elitista, caso do Grêmio FootBall Porto Alegrense37.
Seguindo a mesma linha do Internacional, o Sport Club Corinthians Paulista
foi fundado no dia 1º de setembro de 1910, por um grupo de operários que residiam
e trabalhavam na região do Bom Retiro. A escolha do nome foi uma homenagem a
um clube amador londrino, também de origem operária, que excursionara pelo Brasil
no mesmo ano de sua fundação e derrotara todos os clubes de elite do futebol
nacional38. Assim, “sob a luz do lampião” nascia ali uma paixão.
Às 20h30 do dia 1º de setembro, à luz de um lampião, na esquina das ruas
José Paulino e Cônego Martins, no bairro do Bom Retiro, o grupo de
operários formado por Anselmo Corrêa, Antônio Pereira, Carlos Silva,
Joaquim Ambrósio e Raphael Perrone fundaram o Sport Club Corinthians
Paulista. Com mais oito rapazes, foi formada a reunião dos primeiros
integrantes e sócio-fundadores [...] teve seu nome inspirado na equipe
inglesa Corinthians-Casuals Football Club, que fazia excursão pelo Brasil
[...] O presidente escolhido por eles foi o alfaiate Miguel Battaglia, que, já no
primeiro momento, afirmou: "O Corinthians vai ser o time do povo e o povo é
39
quem vai fazer o time.".
36
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/campeonato_paulista-historia.shtml>.
Acesso em: 11 jul 2013.
37
Disponível
em:
<http://www.internacional.com.br/pagina.
php?Modulo=1&setor=1&secao=1&subsecao=>. Acesso em: 25 jul 2013.
38
Disponível em: <http://www.corinthians.com.br/site/clube/historia/>. Acesso em: 25 jul 2013.
39
Disponível em: < http://corinthians.com.br/site/clube/historia/>. Acesso em: 15 jul 2013.
38
Na primeira década do século XX, o bairro do Bom Retiro era o reduto de
todos os imigrantes e pobres de São Paulo, em um período em que o preconceito
vigorava e as relações entre imigrantes, etnias e classes sociais eram conturbadas.
Em 1910, São Paulo era uma cidade de crescimento e oportunidades, mas
também de preconceitos e exclusões. Os italianos, os espanhóis, os síriolibaneses, os afro-descendentes e os primeiros imigrantes japoneses eram
considerados “gente de fora”, bárbaros que vinham servir de mão de obra
barata e, como efeito colateral, perturbar a tranquilidade quatrocentona. O
Bom Retiro era o principal reduto dessa magnífica diversidade, uma babel
de inúmeras línguas e dialetos. Ali, fervia a luta dos anarquistas, inspirados
40
principalmente por Bakunin e Malatesta. (FALCETA JR. 2009) .
O pensamento politico-anarquista presente no bairro não via com bons olhos
o futebol por enxergar ali um esporte elitista e um instrumento de alienação, embora
não negasse a capacidade de mobilização que o esporte trazia consigo:
Nas altas esferas do movimento, o futebol era tido como esporte das elites.
Muitos o consideravam um fator de alienação política. No entanto, os
agitadores ensinavam em seus discursos: “se for para praticar esse jogo de
bola, organizem-se autonomamente, façam e dirijam seus próprios clubes”.
41
O Corinthians nasceu da obediência a essa regra. O Battaglia Michelle
havia ouvido falar desse novo pensamento em seus contatos com os
operários da Light. Por isso, ao definir o novo clube, resolveu adaptar uma
frase do italiano Errico Malatesta. O ativista repetia sempre: “não queremos
emancipar o povo, mas dar condições para que o próprio povo se
emancipe.” Michelle, homem inteligente, determinou: “o Corinthians é o time
42
do povo, e é o povo que vai fazer o time.”. (FALCETA JR., 2009)
Assim, nascia ali o time do povo, como o Corinthians é conhecido até hoje.
Não demorou muito tempo para que o time começasse a chamar atenção nos
campeonatos de várzea, que ocorriam em paralelo à Liga Paulista, formada pelos
clubes da elite. Como já havia uma crescente demanda popular pelo clube e
também por jogadores, a liga convidou o Corinthians para participar do campeonato
em 1913. E já em 1914, sagrou-se campeão paulista, fato que se repetiria 27 vezes,
o que torna o Sport Corinthians Paulista o maior campeão paulista em títulos totais.
40
FALCETA JR. Walter. Salvatore Battaglia: O Povo Em Primeiro Lugar, 2009. Disponível em:
<http://republica.corinthians.com.br/page/artigos>. Acesso em: 16 jul 2013.
41
Battaglia Michelle foi um dos fundadores do Sport Club Corinthians Paulista. Disponível em:
< http://corinthians.com.br/site/clube/historia/>. Acesso em: 15 jul 2013.
42
FALCETA JR. Walter. Salvatore Battaglia: O Povo Em Primeiro Lugar, 2009. Disponível em:
<http://republica.corinthians.com.br/page/artigos>. Acesso em: 16 jul 2013.
39
Mas o fenômeno de popularidade do Corinthians, embora venha desde sua
origem, ocorre no mais improvável dos cenários, entre 1954 e 1977, anos em que o
Corinthians amargou um jejum de 23 anos sem conquistas de títulos importantes,
período em que a torcida ganhou a denominação de “Fiel Torcida”, por nunca deixar
de acreditar no time.
Hoje, segundo pesquisa realizada pela Pluri Consultoria 43 , divulgada em
março de 2013, estima-se que o Corinthians tenha entre 25 e 30 milhões de
torcedores por todo o país, o que dá a segunda colocação ao time que só perde
para o Flamengo.
Em seus 103 anos, o Sport Club Corinthians Paulista construiu uma história
que se confunde com a história do futebol brasileiro.
A profissionalização dos times brasileiros só ocorreu em 1941 e o esporte
contou com os esforços do regime de Getúlio Vargas para tornar-se, efetivamente, o
esporte nacional.
Na mesma lógica que orientava as medidas corporativistas do Estado Novo,
em 1941 foi criado o Conselho Nacional dos Desportos (...) e tinha o poder
de fiscalização, normatização e organização de todas as modalidades
esportivas no país. Seus objetivos eram a modernização desportiva e sua
utilização para legitimidade do regime. (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 81).
Durante a Segunda Grande Guerra, tais esforços foram interrompidos, mas o
governo de Getúlio Vargas tinha interesse político de que houvesse uma maior
difusão do esporte, em especial do futebol e, para isso, os meios de comunicação
foram fundamentais.
Nesse período, segundo Franco Júnior (2007), a imagem do futebol brasileiro
que era “vendida” era a da noção de civismo que o esquete canarinho carregava,
criando assim uma unidade, uma representação de orgulho patriótico, embora a
maioria dos jogadores fosse de clubes cariocas, excluindo o resto da nação. A
terceira colocação obtida no mundial de 1938, na França - ocasião na qual Leônidas
da Silva sagrar-se-ia como artilheiro da competição - fez com que eclodisse no país
um carinho especial pelo esporte, mais um passo importante dado em direção à
construção da identidade nacional.
43
Pluri Consultoria Marketing e Gestão Esportiva
40
A respeito da questão da identidade nacional, Bauman afirma que:
A identidade nacional [...] nunca foi como as outras identidades.
Diferentemente delas, que não exigiam adesão inequívoca e fidelidade
exclusiva, a identidade nacional não reconhecia competidores, muito menos
opositores. Cuidadosamente construída pelo Estado e suas forças [...] A
identidade nacional objetivava o direito monopolista de traçar a fronteira
entre “nós” e “eles”. À falta do monopólio, os Estados tentaram assumir a
incontestável posição de supremas cortes passando sentenças vinculantes
sem apelação sobre as reivindicações de identidades litigantes. (BAUMAN,
2005, p.28)
Nessa construção, o futebol exerceu um papel muito importante, as origens
multirraciais brasileiras deixaram de ser observadas de maneira depreciativa e
passaram a caracterizar a identidade brasileira.
As origens negras e indígenas deixam de ser a vergonha nacional e passam
a se transformar na principal característica do povo – é a “brasilidade”, a
grande miscigenação, que acaba por definir um estilo próprio de futebol, o
chamado “futebol arte”, caracterizado pela ginga, ligeireza e criatividade
própria do povo brasileiro (RIBEIRO, 2003, p.3.).
2.2. A Nação e seu Time: O Simbolismo da Torcida e a Comunidade Imaginada
A elaboração simbólica do futebol no Brasil ocorre a partir da percepção da
imagem de nação ideal. Dessa forma, as torcidas podem ser compreendidas como
uma comunidade imaginada 44 , conceito elaborado por Benedict Anderson (2008)
que parece descrever bem o cenário do futebol no Brasil.
Quando o autor criou essa teoria, estava pensando na formação de grupos
sociais que se ligavam por um sentimento de pertença, fosse religioso, emocional,
ideológico, cultural ou político. Embora Anderson tivesse como fonte de observação
a sociedade britânica, as características que definem “as comunidades imagináveis”
podem ser aplicadas em diferentes cenários, caso do ambiente do futebol, já que
não há como negar os vínculos e elos de pertença que são criados entre torcedores
e equipes, onde se originam instituições e simbolismos.
44
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do
nacionalismo. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
41
Para Benedict Anderson (2008, p. 29), as culturas nacionais não são
formadas apenas por instituições culturais, mas também por esses símbolos e
representações, pois, de acordo com o autor, as culturas nacionais nada mais
são do que discursos que se apropriam e propõem novos elementos na
construção da unidade social, uma forma de construir sentidos que influenciam e
organizam as nossas ações e fomentam a concepção que temos de nós
mesmos, criando “produtos” modulados que podem ser criados e transpostos de
um a outro como os preceitos que cercam a imagem dos torcedores corintianos:
maloqueiros e sofredores. Ideia concebida por um indivíduo e transposta a
outros, não só pelo conceito, mas também pelo simbolismo.
Depois de criados, esses produtos se tornaram “modulares”, capazes de
serem transplantados com diversos graus de autoconsciência para uma
grande variedade de terrenos sociais, para se incorporarem e serem
incorporados a uma variedade igualmente grande de constelações políticas
e ideológicas. (ANDERSON, 2008, p. 30).
No Brasil, as relações de identidade com os clubes de futebol constituem-se
em um vínculo tão forte quanto os laços familiares e os religiosos. Com base em
Benedict Anderson (2008, p. 30), a percepção aponta que o pensamento é “livre” na
escolha entre este ou aquele clube, porém o paradoxo é que essas escolhas não
estão tão libertas como se pressupõe, elas dependem de uma série de fatores como
família, amigos e rede sociais. Assim, o futebol transmite seus valores e os clubes
arrebanham seus adeptos que, por sua vez, assimilam e criam simbolismos
relacionados à identificação com determinado grupo, formando uma comunidade
sem espaço físico pré-determinado, mas ligada pelos pensamentos imaginativos de
desejos, angústias, alegrias, raiva, solidariedade etc. Tudo que a “nação” criada
proporciona.
Embora a palavra nação tenha um simbolismo territorial e traga em sua
essência a ideologia política, “as comunidades imaginadas” nada mais são do que o
simbolismo de uma nação ideal, como afirma Benedict Anderson (2008, p. 30). É
interessante destacar que a palavra nação é utilizada para designar as torcidas
brasileiras: “nação corintiana”, “nação rubro-negra”, “nação alviverde”, “nação
tricolor” etc., e que tal uso não se restringe aos veículos midiáticos. O fato é que
essa “nação” sempre estará presente na imaginação, não de forma física, real, mas
42
nos elementos que propiciam a junção de pessoas, ou seja, única e exclusivamente
no campo das relações interpessoais.
Assim, dentro da identidade do futebol - a grande comunidade imaginada muitas outras seriam criadas: as das seleções, dos clubes e até as das torcidas
dentro de torcidas, como é o caso das torcidas organizadas, que são muitas dentro
de uma única. É óbvio que a maior identificação é com o clube, porém os laços
identitários podem fazer surgir várias comunidades dentro de uma comunidade. Por
exemplo, o Corinthians tem dentro de sua torcida, grupos como Gaviões da Fiel,
Camisa 12, Pavilhão Nove, Coringão Chopp, Beco Alvinegro, entre outras de menor
expressão. O mesmo acontece com outros clubes, ou seja, embora todas as
torcidas tenham em comum a paixão pelo time, têm posicionamentos políticos e
simbolismos diferentes, o que, às vezes, gera confrontos entre torcidas de um
mesmo clube.
Um exemplo que pode ser citado dessa rivalidade é o das duas principais
torcidas do Santos Futebol Clube, a Torcida Jovem e a Sangue Jovem, que embora
partilhem o mesmo interesse pelo clube, são tão rivais nas arquibancadas que são
colocadas em cantos distantes no estádio para que não entrem em confronto45.
Na verdade, as torcidas são imaginadas como um todo, pois os indivíduos
não se encontram, não se ouvem ou interagem, seja com os outros membros da
torcida da qual fazem parte, seja com os integrantes da equipe de sua preferência.
O torcedor imagina-se e imagina os outros como membros que pertencem a uma
mesma coletividade, a uma mesma comunhão.
O futebol carrega consigo valores sociais que fazem com que o esporte
arrebanhe diversos públicos, de classes sociais mais altas ou mais baixas. Trata-se
de um fenômeno social que boa parte do mundo pratica ou acompanha, com certa
regularidade.
No Brasil, para confirmar a assimilação do esporte bretão, os meios de
comunicação privilegiam as suas transmissões em detrimento de outras práticas
45
Disponível em: < http://www.gazetaesportiva.net/noticia/2011/09/santos/por-briga-organizadas-dosantos-sao-proibidas-de-irem-aos-estadios.html>. Acesso em: 30 mar 2014.
43
esportivas e conteúdos culturais, reforçando a ideia do futebol como uma das
principais manifestações coletivas do país, fomentando ainda mais o sentido de
nação, de comunidade imaginada, onde a seleção brasileira - detentora de 5
conquistas mundiais – torna-se o principal ícone de orgulho nacional e aglutinadora
da imaginação coletiva. A perspectiva que Benedict Anderson (2008) destaca como
a ideia de nacionalismo e comunidade imaginada se enquadra perfeitamente com as
relações instituídas e a identificação e necessidade de pertença dos torcedores com
o esporte.
Como forma de ilustrar as reflexões dos diferentes pensadores a respeito
dessa ideia de identificação e necessidade de pertença dos indivíduos, recorremos a
Todorov (1996) que discorre sobre a vida comum, as relações sociais do homem e
os seus interesses. O ponto de partida para a reflexão é a análise das diferentes
correntes sociais, Todorov apresenta a visão dos pensadores que ele denomina
como “os grandes moralistas” 46 que, ao se dedicarem à análise dos costumes e dos
hábitos da sociedade, viam o ser humano como um prisioneiro nas redes das
relações sociais. Segundo esse raciocínio, o homem é refém das relações por
fraqueza, pois busca no outro uma relação de aprovação e aceitação.
Ainda de acordo com Todorov, pensadores como Montaigne e La
Rochefoucauld partilhavam essa ideia, para eles, os laços estabelecidos com o outro
deveriam ser dispensados, porque o homem deveria ser autossuficiente e, assim,
não ter necessidade dessas amarras sociais.
Quando Montaigne quer dar um conselho a seus semelhantes, assim se
exprime: “façamos com que nosso contentamento dependa de nós mesmos,
desfaçamos todos os laços que nos ligam aos outros, obtenhamos o poder
de viver conscientemente e assim viver à vontade.” “Deixar de lado
juntamente com as outras veleidades aquela que vem da aprovação dos
outros”. Portanto, é possível e ao mesmo tempo louvável libertar-se das
relações com os outros seres humanos e especialmente do pedido de
aprovação que dirigimos. (TODOROV, 1996, p. 14).
Outros autores como Pascal apesar de realizarem uma reflexão semelhante a
respeito da necessidade que o ser humano tem do outro, possuíam uma ótica
46
Pensadores que seguem uma linha de condenação da vida em sociedade. TODOROV, Tzvetan. A
vida em comum: Ensaio de antropologia geral. São Paulo: Papirus, 1996, p. 24.
44
diferente: “Não nos contentamos com a vida que temos em nós e em nosso ser:
queremos viver na ideia dos outros, uma vida imaginária e assim nos esforçamos
para que assim pareça.” (PASCAL apud TODOROV, 1996, p. 14). Seguindo a linha
de Pascal, Todorov apresenta a primeira grande versão da concepção individualista
em que o homem não sabe ser autossuficiente e, por isso, entrega-se à fugacidade
da socialização, à qual denomina de real, e constata que o ideal é a solidão.
Porém, a versão predominante da oposição entre o ideal e o real, da
sociabilidade e da solidão é, geralmente, de outra natureza: desde a Renascença,
deixa-se de associar a “natureza” ao “ideal”, passando-se a enxergá-la no que de
chamará de real. Essa mudança se opera simultaneamente nas teorias políticas e
na psicologia. Maquiavel e Hobbes tornaram-se símbolos desse pensamento como
assevera Todorov (1996, p.15).
O homem ocupa-se dos outros apenas na aparência e para atender às
exigências da moral oficial. Na realidade ele é um ser puramente egoísta e
interesseiro, para quem os outros não passam de rivais ou obstáculos. Se
não estivesse sujeito a poderosas imposições da sociedade e da moral, o
homem, ser essencialmente solitário, viveria em guerra perpétua com os
seus semelhantes em uma busca desenfreada pelo poder. (TODOROV,
1996, p. 15).
Ainda para Todorov, nessa concepção filosófica, a dependência social que o
homem sente do outro é vista como uma fraqueza, que contraria a sua própria
natureza solitária, porque a sociabilidade faz com que o homem desenvolva
personas que não são, necessariamente, o ideal de si, mas simulacros de um real
submetido aos interesses egoístas de aceitação e poder, pois tal aceitação social
implica em uma busca do homem pelo poder: a busca de pertença em um grupo
social, em qualquer esfera social que seja.
Nas torcidas organizadas, no entanto, a necessidade de pertença acaba, por
sua vez, fazendo com que o indivíduo crie uma persona que seja aceita pelo grupo
ao qual quer pertencer, contrariando e subjugando, até mesmo, outros graus de
identificação que esse indivíduo possa ter, porém essa abnegação só acontecerá à
medida que for saciada a busca pela pertença e pelo sentimento de poder.
Kant, outro filósofo citado por Todorov, descreve a paixão humana central que
leva cada um a buscar se apropriar do poder para ter ascendência sobre os outros.
45
Ele subdivide essa paixão em 3 partes: sede de honrarias, sede de dominação e
sede de bens. A primeira apresenta-se pela necessidade de reconhecimento ou
honrarias que devem ser outorgados pelo outro, a segunda pela busca da
submissão do outro e última pelo caráter cumulativo de materialidade. (TODOROV,
1996, p. 18).
Assim, devido à incompletude humana originária das necessidades de
pertencimento, reconhecimento e busca pela subjugação do outro, fica clara a prédisposição para a sociabilidade. No esporte, a busca pela vitória, que significa a
subjugação do outro, ou a frustração com a derrota, isto é, a ideia de ser subjugado,
enquadra-se nessa definição.
Segundo a concepção freudiana das relações humanas, o indivíduo é provido
de diversas pulsões biológicas que exigem serem satisfeitas e, para que isso ocorra,
existe a necessidade - em maior ou menor grau - da relação com o outro, ou seja, a
interação com o “objeto” a fim de satisfazer tais pulsões. Dessa maneira, os outros
são um meio para o indivíduo alcançar seus próprios fins, na busca da satisfação
dos seus instintos que nascem com ele, antes mesmo que ele tenha contato com
outras pessoas. Nesse caso, os instintos do lúdico, dos jogos, da violência como
arquétipos históricos nos levam também a algumas pulsões pela memória primitiva.
(TODOROV, 1996, p. 69)
Partindo das teorias das pulsões humanas reportadas por Freud no livro As
Pulsões de Morte e de Vida, Todorov (1996, p. 69) propõe uma tríade entre ser,
viver e existir. A pulsão “ser” é identificada com toda a matéria, a pulsão “viver” seria
partilhada por todos os seres viventes e, por fim, a pulsão de “existir”,
especificamente humana, embora Freud admita que essa pulsão também possa ser
reconhecida, mesmo que minimamente, em outros seres como no caso da troca de
olhares e na emissão de sons entre os animais, quando fazem a corte.
A pulsão “ser” é compartilhada no que se refere à materialidade, algo inerente
ao estado físico da matéria, a pulsão do vazio, da inércia do homem perante si e
tudo ou a pulsão da repetição frenética de atividades rotineiras – que é identificada,
em casos extremados, com a depressão e a ausência de si - ou ainda a atividade
em excesso condensada no mesmo fazer. Já a pulsão “viver” - inerente a todo o ser
46
vivente - refere-se à necessidade de sobrevivência, a fome e a sede são exemplos
dessa pulsão. Em ambos os casos o homem divide tais pulsões com outros seres,
quase que igualitariamente, diferentemente do que o que ocorre com a pulsão
“existir”. Isso por que existir se dá através do reconhecimento do outro, ou seja, é a
busca por interação e a percepção de existência através da interação. “O homem
vive talvez inicialmente em sua pele, mas começa a existir apenas a partir do olhar
dos outros.”. (TODOROV, 1996, p. 67)
Todorov reconhece que as pulsões de “ser”, “viver” e “existir” podem ser
complementares, mas também podem estar de lados opostos:
Não é seguro, como parece crer Schopenhauer, que preferimos viver a
existir. Com frequência renuncia-se aos prazeres sensuais, a comida, e o
gozo sexual, para buscar prazeres “simbólicos”, a aprovação dos outros ou
a aquiescência de parte de nossa própria consciência. (TODOROV, 1996, p.
68).
Ainda segundo Todorov, a necessidade desse reconhecimento no outro,
presente na pulsão “existir”, nasce e morre com o indivíduo, acompanhando-o desde
a tenra idade até o leito de morte. E, assim como ocorre no transcorrer da vida, essa
pulsão cresce no início e diminui no final, o aumento da solidão e do isolamento do
idoso faz com que ocorra a diminuição de sua existência.
Mais do que qualquer outra ação, o reconhecimento é fundamental para a
condição da existência humana, porém ele “apresenta também uma singularidade
estrutural: aparece, em certo sentido, como o duplo obrigatório de todas as outras
ações.” (TODOROV, 1996, p. 89). Um exemplo da afirmação do autor pode ser
observado ao se acompanhar o desenvolvimento de uma criança: ela recebe a
confirmação de sua existência pelo fato de o outro interagir com ela - seja através de
uma linguagem gestual ou oral - e nas brincadeiras, a cooperação entre os
participantes tem na imitação das figuras materna e paterna o referencial e o modelo
de reconhecimento.
O reconhecimento engloba inúmeras possibilidades e diversos aspectos a
serem ponderados, pois ele passa pelo crivo daquele que o reconhece e esse, por
sua vez, é suscetível a diversas particularidades que irão afetar a condição do
47
reconhecer. Todorov aponta diversos fatores que dão a noção da abrangência do
processo de reconhecimento:
Poderíamos para começar, enumerar algumas fontes da diversidade,
externas a noção em si. O reconhecimento pode ser Material ou Imaterial,
da riqueza ou das honrarias, Implicando ou não exercício do poder ser
consciente ou inconsciente, acionando mecanismos racionais ou irracionais.
(TODOROV, 1996, p. 90).
O homem está e é suscetível à percepção espelhada com base no seu duplo,
o reconhecimento se dá por diversos fatores, mas retornando ao princípio das visões
do homem egoísta, percebe-se uma predileção pelos interesses individuais para a
formação do coletivo, por exemplo: um grupo social online, reunido em um fórum
sobre futebol, terá reconhecimento positivo junto aos torcedores do mesmo time, em
contrapartida, o reconhecimento dos torcedores de outras equipes ocorrerá de
maneira depreciativa, em ambos os casos - seja como aliado ou rival - há o
reconhecimento.
A respeito do reconhecimento “depreciativo”, Todorov (1996, p. 94) citando La
Rochefoucauld, escreve: “É preferível que falem mal de mim a que não falem nada.”
Essa afirmação demonstra a necessidade contida no reconhecimento do outro, é a
partir dela que ocorrem a noção e a necessidade do homem na condição de “existir”.
Assim, as teorias e reflexões apresentadas por Todorov (1996) demonstram a
dependência do homem em relação ao reconhecimento do outro e a necessidade do
social como forma de preenchimento da pulsão da existência, além disso,
evidenciam a incompletude do homem em relação à sua autossuficiência e expõem,
fundamentalmente, a importância das relações constituídas e a interação com o
outro para o reconhecimento e a validação de sua existência.
Quando um torcedor fala “eu sou corintiano”, faz uma afirmação de identidade
muito mais do que uma afirmação sobre sua preferência por determinado clube.
Essas declarações carregam consigo uma série de simbolismos, dogmas e trazem
em si, fundamentalmente, a necessidade de reconhecimento para a sustentação do
seu “eu”. As torcidas de futebol só se tornam possíveis através do reconhecimento
do outro, à medida que o “eu” passa a ser visto e não seja mais uma esfera
particular.
48
Todorov
(1996)
afirma
que
o
homem
parte
da
necessidade
de
reconhecimento do outro para outorgar ou validar a sua ação, sem tal
reconhecimento não se constitui uma relação de interação e a realização da ação se
torna inexistente.
Com base nas reflexões expostas, verifica-se como a necessidade de
reconhecimento e identidade faz com que o indivíduo, partindo de seus próprios
interesses e da sua necessidade de ser percebido, construa suas relações em
grupos sociais para obter nele o reconhecimento da sua existência - caso das
torcidas. O futebol e todas as nuances que cercam o esporte são propícias à
aglutinação e ao desenvolvimento dessas relações de pertença. Assim, o
reconhecimento não é meramente um reconhecimento superficial, mas sim um
reconhecimento simbólico, em que mesmo os menos aficionados estampam em si o
simbolismo e a relação de vínculo criada com o clube.
Assim, “em um mundo em que tudo o mais se desloca e muda e em que nada
é certo”, “homens e mulheres procuram grupos de que possam fazer parte, com
certeza e para sempre”, ideia que, indiscutivelmente, ajusta-se com perfeição à Fiel
Torcida Corintiana.47.
47
HOBSBAWM, Eric apud BAUMAN, 2001, p. 196.
49
3. RELEVÂNCIA DOS VÍNCULOS COMUNICACIONAIS PARA A CONSTITUIÇÃO
DAS COMUNIDADES
As imagens são representações visíveis que cercam os indivíduos. São
instantes únicos, marcados em um tempo e espaço precisos que, quando
capturados, descrevem fatos e contam histórias, para além das palavras. As
imagens que cercam os jogos de futebol surgem carregadas de simbolismos e ritos
tão significativos quanto aqueles que os times trazem quando entram em campo.
Neste capítulo, o objetivo é demonstrar, através das imagens, o vínculo
comunicacional criado entre a torcida corintiana e o seu clube, assim como a
instituição de uma identidade comunitária corintiana.
3.1. Corinthians, Vínculo e Comunicação de Fé
Não há como negar a presença ritualística no futebol e o fato de ele ser
comparado à religião por muitos, o que não chega a ser uma heresia, já que os
estádios se tornam templos de orações, rezas e flagelações. Demonstra-se ali uma
pré-disposição do esporte para ser um ritual carregado de dogmas.
Aceitando o futebol enquanto forma religiosa, os dogmas evidentemente
são as regras que regem sua prática. Da mesma forma que não há judeu
48
sem circuncisão, ou cristão sem batismo, ou muçulmano sem Shahada ,
não há futebol oficial sem as dezessete regras aceitas pela FIFA, espécie
de igreja que encabeça toda a hierarquia de arcebispos (Confederações),
dioceses (federações), paróquias (federações locais), inquisidores (juízes),
e clérigos (jogadores). (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 281)
O reconhecimento dos graus hierárquicos no futebol aponta para a existência
de uma estrutura muito similar à de diversas religiões, cujo objetivo é fazer com que
seu “rebanho” siga seus dogmas de maneira plena. Tais dogmas e ritos presentes
na atmosfera que envolve o futebol vão desde a fé religiosa, propriamente dita, até a
influência de ritos pagãos na construção comunicacional da identidade.
Em uma atmosfera que mistura o sagrado e o profano, torcedores rezam
pelos seus times em campo ou em territórios sagrados, como as igrejas. E, assim, a
torcida corintiana mostra sua fé:
48
Shahada - Profissão da fé
50
Figura 12 – Peregrinação da torcida organizada do Corinthians até a cidade de
Nossa Senhora de Aparecida em comemoração ao aniversário do clube49
Figura 13 – Crianças corintianas dentro da Basílica de Nossa Senhora
Aparecida50
49
Disponível em: < http://globoesporte.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/201401/torcidacanta-hino-do-corinthians-em-missa-na-basilica-de-aparecida-video.html >. Acesso em: 4 abr 2014.
50
Idem.
51
Observamos nas imagens, a relação de vínculo comunicacional e comunitário
através da fé. A comemoração, dentro da Catedral de Nossa Senhora Aparecida,
com os cânticos entoados nos estádios, tinha um caráter simbólico de
agradecimento pelos triunfos recentes do time, mas também tinha como finalidade
amenizar o impacto negativo causado sobre a imagem das torcidas organizadas do
time, principalmente, em razão do incidente que causou a morte de um menino
boliviano em uma partida pelo torneio continental Libertadores da América.51.
Figura 14 – Torcedora do Corinthians rezando para o time vencer e espantar a
ameaça de rebaixamento em 2013 52
51
Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/201401/torcidacanta-hino-do-corinthians-em-missa-na-basilica-de-aparecida-video.html>. Acesso em: 4 abr 2014.
52
Disponível em: < http://esporte.uol.com.br/album/futebol2/0111128/sofrimento-corintian.htm>.
Acesso em: 4 abr 2014.
52
Figura 15 – Torcedor do Corinthians agradece a conquista da Libertadores53
Figura 16 – Torcida de Maringá mostra a imagem de São Jorge como
reverência de fé, antes do jogo do Corinthians no Mundial de Clubes de 2012 54
53
Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/pbnoticia/201207torcida-da-fiel-em-joao-pessoacomemora-titulo-inedito-do-timao.html>. Acesso em: 4 abr 2014.
54
Disponível em: <http://blogdotarso.com/20121216/datafolha-corinthians-e-a-maior-torcida-dobrasil.html> . Acesso em: 4 abr 2014.
53
Figura 17 – Imagem de São Jorge símbolo de fé e proteção na sede do clube55
A devoção à figura de São Jorge, um santo pagão, também caracteriza a
identidade da torcida corintiana, é um forte simbolismo religioso presente dentro da
comunidade imaginada. Não é por acaso que a torcida corintiana é conhecida como
a “fiel torcida”, pois, fiel é aquele que segue, reverencia, na felicidade ou agrura, tal
qual prega um dogma religioso.
Os fatores que corroboram para a comparação do futebol com a religião são
muitos e o simbolismo comunicacional reforça essa ideia de maneira clara na
percepção imagética, seja através de um recorte fotográfico ou da percepção real da
atmosfera do estádio. Os cânticos de louvor e crença, os estandartes simbólicos,
todos têm como raiz, em sua essência, os ritos religiosos.
O próprio clube se aproveita disso para criar mais elos comunicacionais, a fim
de incentivar tais simbolismos como estratégias de marketing, a Catedral de São
Jorge 56, criada virtualmente é um exemplo. Ao acessar o site do Corinthians, os
corintianos mais devotos podiam acender velas virtuais, endereçar súplicas e preces
ao Santo padroeiro do clube, na Catedral de São Jorge, ao mesmo tempo, em que o
clube lançava mão de um estandarte simbólico poderoso para alavancar ações
55
Disponível em: < http://libertosdoopressor.blogspot.com.br/201107/corinthians-lanca-site-deoracao.html>. Acesso em: 4 abr 2014.
56
Disponível em: <http://bagarai.com.br/catedral-de-sao-jorge-no-site-do-corinthians.html>. Acesso
em: 4 abr 2014.
54
mercadológicas, no caso, a camisa do Corinthians, em que aparece a imagem do
Santo Guerreiro.
Figura 18 – Site do Corinthians - Catedral de São Jorge, virtual 57
Figura 19 – Camisa do Corinthians com a imagem de São Jorge
(Catedral virtual de São Jorge) 58
57
Disponível em: < http://bagarai.com.br/catedral-de-sao-jorge-no-site-do-corinthians.html >. Acesso
em: 4 abr 2014.
58
Disponível em: < http://futcamisas.blogspot.com.br/2011/05/camisa-nike-corinthians-3-2011.html >.
Acesso em: 4 abr 2014.
55
3.2. Corinthians: Comunidade e Violência, o Desumano e o Humano
Assim como os ritos antigos e as origens lúdicas do esporte remontam
arquétipos
primitivos
o
futebol
se
apropria
destes
simbolismos
para
o
desenvolvimento do vinculo e criação das comunidades imaginadas dentro do
esporte, mas assim como origem lúdica do esporte é absorvida outros arquétipos
como o da competição, guerra e violência estão presentes dentro desta cancha
chamada futebol.
Como o esporte bretão tem, em sua essência, a perspectiva passional regida
por Marte - como já descrevemos anteriormente - com ela vem também o lado
obscuro e violento do imaginário humano. Quando há a explosão de emoção pela
vitória ou pela derrota, os sinais de identificação e doutrinamento coletivo entre os
torcedores (principalmente, das torcidas organizadas), podem ser resumidos na
célebre frase dos três mosqueteiros: Um por todos e todos por um! (Frase, bem
propícia, a propósito, já que o mosqueteiro é o mascote do Corinthians.). No entanto,
tal vocação para a união converge para a violência entre torcedores de times
diferentes e, até, entre torcedores de um mesmo clube.
Figura 20 – Torcedores do Corinthians brigando entre si59
59
Disponível em: < http://esportes.r7.com/futebol/noticias/lula-sanciona-e-estatudo-do-torcedor-ganhaversao-mais-dura-contra-xingamentos-e-violencia-em-estadios-20100727.html>. Acesso em: 4 abr
2014.
56
Figura 21 – Enfrentamento entre torcedores corintianos e polícia
60
Figura 22 – Torcedores organizados invadem o CT do Corinthians após
eliminação em 2014 61
60
Disponível em: <http://sportv.globo.com/site/programas/redacao-sportvnoticia/201402/menina-ficano-meio-da-confusao-entre-torcedores-e-pms-no-pacaembu.html >. Acesso em: 4 abr 2014.
61
Disponível em: < http://topicos.estadao.com.br/fotos-sobre-violenciatorcedores-chutam-o-portao-doct-joaquim-grava-do-corinthians-em-protesto-violento-por-eliminacao,54F4A941-BCD1-42DC-A4B7ED7C2E74E1A7 >. Acesso em: 4 abr 2014.
57
Figura 23 – Torcedores organizados invadem o CT do Corinthians após
eliminação em 2009 62
Figura 24 – Confronto entre torcedores de Corinthians e Vasco em Brasília63
62
Disponível em: < http://jpfox8.blogspot.com.br/201109/indignacao-as-avessas.html> . Acesso em: 4
abr 2014.
63
Disponível em: < http://www.diariodolitoral.com.br/conteudo/17499-torcedores-da-gavioes-da-fielestao-proibidos-de-entrar-em-estadios-no-rj >. Acesso em: 4 abr 2014.
58
Figura 25 – Torcida do Corinthians dispara sinalizador que leva um torcedor
boliviano à morte em 2013 64
O caso ocorrido em Oruru, na Bolívia, que ocasionou a morte do garoto Kevin
Espada 65 é emblemático no sentido do vínculo da comunidade imaginada. Uma
sequência de reações por parte dos torcedores, da opinião pública em geral e das
diferentes mídias pôde ser observada.
Em um primeiro momento, a comoção provocada pela cobertura do fato, a
condenação da entidade Corinthians pelos veículos midiáticos, a posterior defesa e
a “patriotada” comunitária na defesa dos torcedores corintianos presos em Oruru.
Enquanto, muitos atacavam a instituição Corinthians – as diferentes mídias, os
torcedores rivais ou não -, vários membros das torcidas organizadas do clube se
mobilizavam para tentar libertar os presos na Bolívia, mostrando o vínculo identitário
existente entre torcedores de um mesmo clube, mesmo quando, o foco é a violência.
Poucos torcedores se solidarizaram com a família do garoto.
64
Disponível em: < http://robertoblogdo.blogspot.com.br/2013_02_01_archive.html >. Acesso em: 04
abr 2014.
65
Mais em: <http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/tag/kevin-espada/>. Acesso em 18 abr 2014.
59
Figura 26 – torcedores presos em Oruro, Bolívia 2013 66
3.3. Todo Time tem uma Torcida. O Corinthians é uma torcida que tem um
Time. 67
Os vínculos criados pela torcida corintiana e seu clube vão muito além da
simples relação de estádio, o sentido de ser corintiano para o seu torcedor é uma
identidade que carrega consigo diversos aspectos simbólicos e identitários que
fazem desta condição algo único e exclusivo desta comunidade imaginada.
Os aspectos de unidade em torno da lealdade para com o time são visíveis
fora e dentro do estádio. Como se autointitula a Fiel torcida corintiana cria uma
relação de fidelidade e amor ao clube e seus adeptos, fazendo com que os
distanciamentos sociais, políticos, raciais, ecumênicos etc. que permeiam a esfera
social sejam transpostos quando esta comuna se encontra em um espaço de
reconhecimento do corintianismo. Por mais rico ou por mais pobre que seja o
corintiano se transveste figurativamente de “maloqueiro e sofredor” e como tal,
incorpora aspectos identitários desta condição seja através de ritos, cânticos,
66
Disponível
em:
<
http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/como-o-campeao-do-mundodecepcionou-sua-torcida-e-apenas-dez-meses-depois-esta-ameacado-de-rebaixamento-os-setepecados-capitais-do-corinthians-em-2013 > - Acesso em: 4 abr 2014.
67
Frase
do
jornalista
José
Roberto
Aquino.
Disponível
em:
<www.corinthians.com.br/site/clube/identidade>. Acesso em: 15 abr 2014.
60
estandartes ou até mesmo no abraço fraterno ao desconhecido social, mas
conhecido irmão de torcida.
Figura 27 – Torcedor do Corinthians no jogo final da Libertadores em 2012 68
Figura 28 – Torcedor do Corinthians em frente ao estádio do Pacaembu69
68
Disponível em: < blogdomiltonneves.bol.uol.com.br>. Acesso em: 4 abr 2014.
Disponível em: < http://culturadigital.br/blogdofutebol/corinthians-para-o-brasileirao-2013>. Acesso
em: 4 abr 2014.
69
61
Figura 29 – Mosaico Corinthians final libertadores 2012 70
Mas a ideia de vinculo e identidade comunitária não se reflete só na
comunicação alegre e espontânea da vitória, da conquista não é a principal relação
identitária. A queda para segunda divisão, como já exposto no capítulo 1,
demonstrou uma unidade simbólica e comunicacional junto aos corintianos que
mesmo humilhados pelo ocorrido, transformaram um momento de tristeza e
sofrimento, em um momento de redenção, tal qual já ocorrera quando por 23 anos o
Corinthians ficara sem ganhar um título 71 , a torcida incumbida deste estigma de
sofredora acolhe o time e o empurra, fazendo os números crescerem em todos os
níveis econômicos e em volume de adeptos, fato também já exposto. O corintiano
tem a capacidade de comoção e solidariedade para com o outro sempre invocando
o estigma sofredor e humilde enraizado dentro dos dogmas da comunidade. Como
exemplo, um dos cânticos mais tradicionais da torcida do Corinthians. “ô, ô, Ô, ô,
Corintiano, maloqueiro e sofredor, Graças a Deus!72”.
70
Disponível em: < http://esportes.terra.com.br/corinthians/mosaico-quotvai-corinthiansquot-emontado-para-decisao-no-pacaembu,77fbe534bbb9a310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD>.
Acesso
em: 4 abr 2014.
71
Mais
sobre
em:
http://www.meutimao.com.br/historia-do-corinthians/fatosmarcantes/o_jejum_de_23_anos. Acesso em: 05/04/2014.
72
Mais sobre em: http://www.gavioes.com.br/p/letras_de_musicas acesso em: 18/04/2014.
62
Figura 31 – Corintianos choram após a queda para a 2ª divisão em 2007
73
Figura 32 – Corintianos chorando, em 2007, após a queda para a 2ª divisão74
Como já exposto, o rebaixamento fez com que os torcedores se unissem em
prol do time, a adversidade é algo que caracteriza a torcida do Corinthians.
Figura 33 – Corinthians vs CRB Primeiro jogo da segunda divisão 2007 75
73
Disponível em: < http://topicos.estadao.com.br/fotos-sobre-rebaixamento/corinthians-vai-para-asegunda-divisao,7B899214-F06F-455D-A3DF-8DFAC8F693ED >. Acesso em: 4 abr 2014.
74
Disponível em: < http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/e-impossivel-para-o-corinthians-sonhartendo-julio-cesar-no-gol-a-diretoria-e-tite-brincaram-com-a-sorte-e-o-time-pagou-com-mais-umpaulista-perdido-e-agora-nos-mata-matas-da-libertadores-22042012/ >. Acesso em: 4 abr 2014.
63
Figura 34 – Frase que virou hino da torcida na segunda divisão76
75
Disponível em:
<httpbrasileconomico.ig.com.brultimas-noticiascorinthians-e-unico-time-do-paiscom-valor-acima-de-r-1-bi_132069.html (2)>. Acesso em: 4 abr 2014.
76
Disponível em: < http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/barcos-e-felipe-entraram-para-a-historiaconseguiram-o-milagre-de-ganhar-um-grande-aumento-mesmo-com-o-rebaixamento-dos-seus-timespalmeiras-e-corinthians-alcancaram-essa-facanha-09012013/>. - Acesso em: 4 abr 2014.
64
Figura 35 – Felipe, goleiro do Corinthians, pula para a arquibancada para
comemorar o acesso em 2008 77
A invasão de 1976, no Rio de Janeiro, mostrou a ideia de união entre torcida
e equipe, a semifinal do campeonato brasileiro serviu como impulso para a redenção
e a conquista do título paulista em 1977, quebrando o jejum de 23 anos, mesmo
após a derrota para o Internacional de Porto Alegre.
Figura 36 – Invasão corintiana no Rio de Janeiro em 1976 78
77
Disponível em: < http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/o-corinthians-e-o-clube-mais-punido-dobrasil-por-causa-de-suas-organizadas-so-deve-jogar-no-pacaembu-em-novembro-que-fidelidade-eessa-25092013/>. Acesso em: 4 abr 2014.
78
Disponível em: <http://www.omanicomio.com.br/a-invasao-corinthiana/> . Acesso em: 4 abr 2014.
65
Figura 37 – Invasão Corintiana ao Rio de Janeiro 1976 79
Figura 38 – Invasão Corintiana ao Rio de Janeiro 1976 80
Muitos anos após a invasão corintiana de 1976, um novo deslocamento em
massa da torcida ocorre e o mundo passa a conhecer - como se autointitularam os
torcedores no período - um bando de loucos, invade o Japão para a disputa do
mundial interclubes, que consagraria o time, ou melhor, a torcida, como bicampeã
79
Disponível
em:
<http://casacorintiana.blogspot.com.br/2011/01/1976-nelson-rodrigues-einvasao.html->. Acesso em: 04 abr 2014.
80
Disponível em:
<http://pretoebranco.futblog.com.br/48223/INVASAO-DE-1976-NINGUEMCONSEGUIRA-IGUALAR/>.- Acesso em: 04 abr 2014.
66
mundial. O mundo fica intrigado com o fenômeno do deslocamento de brasileiro ao
Japão, até o presidente da FIFA na época, Joseph Blatter, surpreende-se com a
torcida do Corinthians e se diz impressionado com a paixão dos torcedores pelo
clube.81
Figura 39 – Invasão Corintiana em Tóquio 2012 82
Figura 40 – Invasão Corintiana em Tóquio 2012 83
81
Mais
em:
http://www.lancenet.com.br/corinthians/Joseph_Blatter-Fifa-CorinthiansMundial_de_Clubes-Fiel_0_853114745.html acesso em: 18/04/2014
82
Disponível em: <http://calabarescreve.blogspot.com.br/2012/12/corinthians-historias-da-invasaodos.html>. Acesso em: 18 abr 2014.
83
Idem.
67
Figura 41 – Invasão Corintiana em Tóquio 2012 84
Figura 42 – Aeroporto de Guarulhos embarque do time para o mundial 2012
84
85
Fonte em: < http://calabarescreve.blogspot.com.br/2012/12/corinthians-historias-da-invasaodos.html>. Acesso em: 18 abr 2014
85
Idem
68
Figura 43 – Bandeira da camisa 12 que representa o 12º jogador 86
Figura 45 – Torcedor do Corinthians demonstra seu amor marcando a pele 87
Figura 46 – Sócrates comemora o gol sobre o São Paulo em 1982 88
86
Disponível em: < http://footballinflu.blog.fc2.com/blog-entry-91.html>. Acesso em: 18 abr 2014.
Disponível em: < http://portalradar.com.br/natal-da-fiel-torcida/>. Acesso em 18 abr 2014.
88
Disponível em: <http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tag/campeao-brasileiro/>. Acesso em: 18
abr 2014.
87
69
Figura 47 – Torcida em homenagem a Sócrates pós-morte. 201189
As relações de identificação entre a torcida corintiana e seu clube tornam
esse grupo uma comunidade imaginada, à medida que os vínculos dentro dela
partem da ideia de reconhecimento e pertencimento. Um corintiano se comunica
com outro pelos signos, símbolos e ritos que, de uma maneira ou de outra, criam
padrões para o
indivíduo e o coletivo corintiano. A torcida organizada
Camisa 12 resume esses padrões em três princípios a serem seguidos não apenas
89
Disponível em: <http://futrico.net/2011/12/08/a-paixao-pela-bola/>. Acesso em: 18 abr 2014.
70
pelos torcedores corintianos, mas também pelos jogadores: “Lealdade, Humildade e
Procedimento” 90.
90
Disponível em:
<http://www.meutimao.com.br/forum-do-corinthians/bate-papo-datorcida/8473/lealdade_humildade_procedimento__para_torcida_ou_para_o_time>. Acesso em: 18 abr
2014.
71
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não se pode negar a relação de vínculo e pertencimento existente dentro do
futebol,
ainda
que
esse
esporte
tenha
sido
apropriado
por
estratégias
mercadológicas e seja um espetáculo excludente do ponto de vista social.
Definir o que é o futebol e por que é tão apaixonante, seria, no mínimo,
imprudente, apesar de todo o estudo feito para analisar os diferentes cenários que
compuseram esta pesquisa. Entretanto, uma palavra parece ser a mais forte de
todas: ambivalente. Por que essa palavra? Simplesmente porque o futebol é
contraditório e talvez seja o único, entre os vários esportes, em que o favorito nem
sempre vence. Não é uma contradição?
Na verdade, o futebol é repleto de contradições, ao mesmo tempo em que
envolve paixão, envolve ódio; é cético, mas é cercado de fé. Afinal, o homem é
contraditório em sua essência, assim como é a ideia de pertencimento e de
existência explicitada por Todorov, ao afirmar que: “O homem busca sua existência
no olhar do outro” (TODOROV, 1996, p. 67).
O esporte está enraizado em nossa sociedade, os jogos são praticados há
milhares de anos, despertando o lado lúdico do ser humano e trazendo consigo uma
série de valores e simbolismos que permitem o agrupamento e o vínculo relacional
como aponta Huizinga.
Tais vínculos, que remontam às origens do homem, revelam também outro
aspecto primitivo da natureza humana: a violência, presente nas batalhas travadas
entre as torcidas – rivais ou não. Outros componentes dos primórdios da civilização
vão se anexando à ideia original e elementos simbólicos do primitivo incorporam
elementos sociais, fundamentalmente, burgueses. No entanto, a origem permanece
intocada, pois, o vínculo relacional constituído não é mera frivolidade da indústria
cultural, mas sim algo de raízes profundas que nos remete a ritos antigos e ao
reconhecimento do grupo. Dogmas e entrelaces do esporte com a fé demonstram
tais raízes, desde a recompensa da divindade olímpica nos tempos gregos, até a fé,
manifesta em orações e promessas pela vitória do time.
72
Nesse cenário, a comunicação é fundamental na propagação desses
simbolismos e signos identitários de uma torcida, exemplo observado na torcida
corintiana, foco desta pesquisa.
Os vínculos comunicacionais, criados através de símbolos, identificam a
torcida do Corinthians: o estereótipo do maloqueiro, a relação de lealdade para com
o clube (a ideia do fiel torcedor), a mitificação do Santo Guerreiro, os inúmeros
estandartes e cânticos de arquibancada. Todos esses elementos - difundidos pelos
próprios torcedores e pelos veículos midiáticos - demonstram e reforçam a
comunicação na construção e na formação da comunidade corintiana e da sua
identidade.
O futebol, como já dizia o jornalista Mario Filho “é uma caixinha de
surpresas”,
porque
nele
são
acrescentados
todos
os
elementos
sociais
mobilizadores - do ponto de vista de agrupamento, identificação e comunidade. No
futebol cabem inúmeros elementos que tanto se fundem quanto destoam da
normalidade ou da racionalidade. É, no mínimo, intrigante e contraditório entender
como um torcedor - que se diz reconhecidamente evangélico - recorre a um santo
(que não é reconhecido pela Igreja Católica) pedindo que o seu time ganhe.
As reflexões sobre a ideia de pertencimento e vínculo comunitário estão
enraizadas no esporte, mesmo que ações mercantilistas e imagéticas vislumbrem
somente o lucro. Ao redor de todo mundo, vemos garotos jogando futebol, não
importam as condições financeiras, seja com uma bola de meia ou com uma bola
oficial. Nesse caso, a relação com o esporte é verdadeira.
As relações constituídas no futebol, em especial as estabelecidas pela torcida
do Corinthians, são reflexo do vínculo e da ideia de reconhecimento no outro. A
identificação com os simbolismos alvinegros fazem do corintiano um indivíduo que
pertence à massa, à comunidade e se identifique como maloqueiro, sofredor e louco,
abençoado por São Jorge, independente de suas crenças, classe social ou condição
cultural. Esses aspectos são arquétipos propagados pela comunicação.
Assim, pode-se afirmar que o futebol carrega consigo a capacidade de
realizar a busca do homem por reconhecimento e, fundamentalmente, satisfazer a
necessidade de se sentir pertencente a um lugar, mesmo que esse não seja um
lugar físico, mas uma comunidade imaginada.
73
A torcida corintiana, como qualquer outra, utiliza-se dessas relações
constituídas da ideia de vínculo e reconhecimento que se estabelecem, através da
comunicação, criando uma comunidade sem pátria, ou melhor, uma pátria
imaginária chamada Corinthians, onde todos se reconhecem e são reconhecidos
como tal.
Mas como esse trabalho não tem como intenção uma definição, sintam-se à
vontade para um debate, como ocorre ao fim de um jogo e prolonguem a partida
com mais uma contradição em relação ao futebol. Porque, na verdade, o jogo nunca
termina, ele só muda de campo.
74
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