UNIVERSIDADE PAULISTA MAURÍCIO GOMES DE MATTOS RETRATOS DE UMA COMUNIDADE: A FIEL CORINTIANA E OS VÍNCULOS COMUNICACIONAIS São Paulo 2014 MAURÍCIO GOMES DE MATTOS RETRATOS DE UMA COMUNIDADE: A FIEL CORINTIANA E OS VÍNCULOS COMUNICACIONAIS Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Comunicação da Universidade Paulista – UNIP, para obtenção do título de Mestre em Comunicação. Orientador: Prof. Dr. Jorge Miklos São Paulo 2014 Mattos, Mauricio Gomes de. Retratos de uma comunidade: a fiel corintiana e os vínculos comunicacionais / Mauricio Gomes de Mattos - 2014. 87 f. il; color. Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista, São Paulo, 2014. Área de Concentração: Comunicação. Orientador: Prof. Jorge Miklos. 1. Comunicação. Vínculo. 2. Identidade. 3. Comunidades. 4. Corinthians. I. Título. II. Miklos, Jorge (orientador). _____. MAURÍCIO MATTOS RETRATOS DE UMA COMUNIDADE: A FIEL CORINTIANA E OS VÍNCULOS COMUNICACIONAIS Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Comunicação da Universidade Paulista – UNIP, para obtenção do título de Mestre em Comunicação. Aprovado em: ____/____/________ BANCA EXAMINADORA _______________________________/____/_____ Prof. Dr. Jorge Miklos - Orientador UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP _______________________________/____/_____ Prof. Dr. Maurício Ribeiro da Silva UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP _______________________________/____/_____ Profª. Dra. Viviane Panelli Sarraf UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO DEDICATÓRIA Sem nos darmos conta, pessoas entram e saem de nossas vidas, contribuindo para a construção do nosso caminho. E, algumas delas, são marcantes nesta empreitada, neste trabalho e na minha vida, as pessoas que aqui forem citadas são hoje minha sustentação e me ajudaram para que este projeto ganhasse vida. Então, primeiramente, eu dedico este trabalho à minha mãe, Maria Alice Gomes de Mattos, que é a pessoa que sempre me deu incentivo e apoio e a quem amo muito. Depois, a meu pai, Jonas Dias de Mattos e a meus irmãos, Marcelo e Marcio Gomes de Mattos, que me ajudaram a construir o caráter e a moral que tenho hoje. A minha família é, e sempre será, meu porto seguro. Depois dedico a duas pessoas que, neste momento importante, me trouxeram paz e amor, quando tudo parecia obscuro na minha vida. E, mesmo distantes, me fazem feliz e me enchem de esperança de que um dia estaremos juntos. Yulieth Preciado e Antonella Preciado, os meus anjos, eu as amo. AGRADECIMENTOS Agradeço a meu orientador, Prof. Dr. Jorge Miklos, que um dia foi meu colega de trabalho e hoje é um irmão/pai/amigo, e sabe que pode contar comigo sempre. Sem você este estudo não teria saído. Outra pessoa que não posso esquecer é Fulvia Morilhas, porque também sem suas intervenções divinas este trabalho não aconteceria, obrigado. Também agradeço a todos os meus amigos que, de alguma forma, me apoiaram na realização deste trabalho: Cintia Dal Bello, Rafael Tosi, Domingos Sávio, Alessandro Oliveira, Cristina Munhão, Juan Droghet, Karolina Kogue, Mario Finotti, Marcio Carbaca, Antônio Junior, Patrícia Romenia, Luciana Melo, e a todos que participaram do meu caminho até aqui, amo todos vocês. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista, em particular a Profª Dra. Malena Segura Contrera pelos conhecimentos transmitidos e pela convivência em sala de aula constituiu um fator motivacional indispensável. Também sou grato aos Professores Doutores Mauricio Ribeiro da Silva e Viviane Panelli Sarraf pelas valiosas contribuições que fizeram à pesquisa no momento da qualificação. Não poderia deixar de prestar aqui uma homenagem ao Professor Dr. Eduardo Peñuela Cañizal que partiu deste mundo deixando um imenso vazio. Além de um grande mestre, uma pessoa generosa e acolhedora. Deixou um testemunho de vida dedicada à pesquisa e ao saber. Um santista inveterado que amava o seu time. Saudades.... Por fim, agradeço a Deus porque mesmo com todas as dificuldades que eu tive pelo caminho na realização desta pesquisa, Ele me deu forças para seguir, colocando pessoas abençoadas em meu caminho para que eu não abaixasse a cabeça. “Todos os times têm uma torcida. O Corinthians é uma torcida que tem um time.” (José Roberto de Aquino, jornalista) RESUMO A pesquisa visa compreender a relevância dos vínculos comunicacionais para a constituição das comunidades tomando como referencial a torcida corintiana. Adotou-se como hipótese que a comunicação quando entendida na sua dimensão antropológica e cultural exerce grande influência para a interação entre grupos sociais. Os fenômenos comunicacionais presentes nos cenários futebolísticos são amplos e os desdobramentos na constituição de vínculos, identidades e comunidades são, em particular, o foco deste trabalho. A fiel torcida corintiana e a relação constituída com o clube e os aspectos comunicacionais que fomentam e idealizam a ideia de comunidade imaginada, criando ritos, símbolos e signos de identidade é o corpus deste estudo. Para investigar a questão, percorremos dois momentos teóricos. O primeiro passo da pesquisa consiste na análise dos conceitos de comunicação, cultura e vínculo e suas imbricações com as raízes antropológicas do esporte, conforme o enfoque de Contrera (2010), Huizinga (2000), Gerbauer (2000), Hillman (1999) e Franco Jr (2007). Em um segundo momento, à luz das teorias de Todorov (1996) e Anderson (2008), avaliaremos a construção do sentido do significado do vínculo comunitário e sua relação com a torcida corintiana. Avaliaremos a relevância dos vínculos comunicacionais que alimentam o sentimento de pertencimento na fiel torcida corintiana. Palavras-chave: Comunicação; Vínculo Identidade; Comunidade; Corinthians. ABSTRACT The research aims to understand the significance of the communicational bonds for the constitution of communities taking as reference the supporters of Sport Club Corinthians. In this study we adopted the hypothesis that communication, understood in its anthropological and cultural dimension, has a great influence in the interaction among social groups. The phenomena of communication that are present in the soccer sceneries are vast and their results in the constitution of bonds, identities and communities are in particular the focus of this study. The supporters of Corinthians, known as “fiel torcida” (the loyal supporters), and the relation constituted with the club and the communicational aspects that improve and idealize the idea of an imagined community by creating rites, symbols and signs are the corpus of this study. To investigate the question, we examined two theoretical moments. The first one consists in the analysis of the concepts of communication, culture and bond and their relations established with the anthropological roots of the sport, according to the point of view of Contrera (2010), Huizinga (2000), Gerbauer (2000), Hillman (1999) and Franco Jr (2007). In a second moment, in the light of Todorov (1996) and Anderson (2008) theories, we will evaluate the construction of the meaning sense of the community bonds and its relation with the Corinthians supporters. We will evaluate the significance of the communicational bonds that improve the feeling of belonging in the “loyal” supporters of Corinthians. Key words: Comunication, Bond. Identity. Community. Corinthians. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 9 1. COMUNICAÇÃO, CULTURA, VÍNCULO E AS RAÍZES ANTROPOLÓGICAS DO ESPORTE ................................................................................................................. 14 1.1. O Ambiente Social da Comunicação .................................................................. 15 1.2. Cultura no Cenário Antropológico ...................................................................... 17 1.3. O HomoLudens .................................................................................................. 19 1.4. A Antropologia Histórica dos Gestos Esportivos ................................................ 22 1.5. Guerreando em Campo: Esporte e Violência ..................................................... 24 2. A NAÇÃO E O SEU TIME: O SIMBOLISMO DA TORCIDA E A COMUNIDADE IMAGINADA.............................................................................................................. 31 2.1. O Futebol, a História e o Time do Povo ............................................................. 33 2.2. A Nação e seu Time: O Simbolismo da Torcida e a Comunidade Imaginada .... 40 3. RELEVÂNCIA DOS VÍNCULOS COMUNICACIONAIS PARA A CONSTITUIÇÃO DAS COMUNIDADES ............................................................................................... 49 3.1. Corinthians, Vínculo e Comunicação de Fé ....................................................... 49 3.2. Corinthians: Comunidade e Violência, o Desumano e o Humano ...................... 55 3.3. Todo Time tem uma Torcida. O Corinthians é uma torcida que tem um Time. 59 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 74 9 INTRODUÇÃO Por que o futebol suscita paixões? Existem inúmeras respostas possíveis, desde as que se ouvem nas mais frívolas conversas de bar ou cantos de uma arquibancada até aquelas mais embasadas pelos estudos científicos em diferentes áreas do conhecimento. O fato é que a relação constituída entre o esporte bretão e os seus adeptos vai além das quatro linhas do gramado. Diversos cenários incorporam, exploram, agregam e, fundamentalmente, identificam grupos de pessoas que veem no futebol a sua identidade moldada por inúmeros signos culturais. O campo da problematização acadêmica acerca do futebol se expande devido à complexidade que o esporte apresenta, já que ele não apenas mobiliza paixões, mas também - em decorrência de sua adesão por milhares de pessoas - reflete inúmeros fenômenos socioculturais contemporâneos. A presença das torcidas organizadas é um exemplo elucidativo de que a esfera do futebol não se restringe apenas aos aspectos técnicos, porém opera como um aspecto catalisador das raízes arcaicas da cultura que irriga vínculos e interações sociais. De maneira particular, a esfera do futebol constitui relações coletivas como na política e na religião e torna-se quase uma linguagem universal, a linguagem da bola. Porém, ainda assim, constitui espaços de resistência de culturas locais embora, cada vez mais, moldados pela mercantilização propiciada pela globalização neoliberal. Mesmo que o futebol fale uma só linguagem, a da bola, contornando assim uma comunidade única em torno da esfera que rola em gramados verdes, move também o espaço para seus dialetos próprios que reafirmam os laços locais. Essa ambivalência não é característica única do futebol, mas nos faz refletir sobre como, ao mesmo tempo, a linguagem pode ser abrangente - envolvendo todo mundo em torno dela - e, por outro lado, manter o espírito comunitário local. Eric Hobsbawm (2007) observou que, apesar da influência globalizante do consumismo, até o futebol sustenta-se com grande força na regionalização, tendo uma forte demanda de peso pelos campeonatos locais como o brasileiro e o argentino, devido à forte representação de identidade nacionalista que o futebol carrega consigo. 10 O tema se torna relevante, uma vez que o futebol tornou-se objeto de estudo e análise por parte de diversos campos do conhecimento. Somente em anos recentes, o Brasil começou a gerar uma produção intelectual consistente que tem contribuído para que o esporte seja pensado para além dos temas propostos pelas mesas-redondas transmitidas pelas emissoras de televisão. Na década de 1980, falar de futebol no ambiente acadêmico era uma heresia, com algumas exceções. Muitos intelectuais identificados com um ideário esquerdista consideravam o futebol como alienação e o segundo ópio do povo. Esse olhar restrito anteriormente tem sido ampliado na atualidade. No Brasil, tem-se escrito cada vez mais sobre futebol. O livro de Mário Filho O Negro no Futebol Brasileiro, editado pela primeira vez em 1947, é um clássico que, mais tarde, devido ao seu pioneirismo, evocou os ideais da construção de uma nação brasileira. O autor tenta mostrar que a incorporação dos negros ao esporte teria configurado um jeito muito particular de jogar, que misturava a disciplina europeia dos brancos com a ginga e a malandragem dos negros brasileiros “na constituição de um modelo verdadeiramente brasileiro de lidar com a bola.” 1. Há também o livro de Nélson Rodrigues, O Berro Impresso das Manchetes, composto pelas crônicas escritas por ele na Manchete Esportiva, entre os anos de 1955 e 1959, período em que durou a revista. O futebol, para Nelson Rodrigues, não era um esporte comum em que 11 jogadores de cada lado tentam fazer um gol. Para ele, tratava-se de um épico, uma luta heroica não pela vitória, mas “pela vida entre gladiadores uniformizados e cercados por torcidas delirantes.” 2. O antropólogo Roberto Da Matta ofereceu sua contribuição em A bola corre mais que os homens, uma coletânea que reúne uma série de textos produzidos para a imprensa, em especial, para os jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, por ocasião da cobertura das Copas de 1994 e 1998. Além desses, a obra apresenta ensaios produzidos para publicações acadêmicas. 1 2 FILHO, Mário. O Negro no Futebol Brasileiro, 2003, p. 37. RODRIGUES, Nélson. O Berro Impresso nas Manchetes, 2007, p. 15. 11 Há também o estudo acadêmico produzido pelo historiador Hilário Franco Junior A dança dos deuses: futebol, cultura, sociedade. Na segunda parte do livro, Futebol, metáfora do mundo contemporâneo, recorrendo a Albert Camus, em sua frase testemunho “a maior parte daquilo que sei da vida aprendi jogando futebol”, o historiador aponta o futebol como um fenômeno simbólico totalizante da experiência humana. Segundo o autor, o “futebol é metáfora de cada um dos planos essenciais do viver humano nas condições históricas e existenciais das últimas décadas.” 3. Apesar do grande número de obras acadêmicas dedicadas ao futebol, no campo das Ciências Sociais, diagnosticamos (com exceção dos relatos jornalísticos) uma carência do tema nas Ciências da Comunicação. Por essa razão, não encontramos uma grande gama de trabalhos e/ ou artigos acadêmicos que analisem o futebol sob o prisma das Ciências da Comunicação. Exceção feita à pesquisa de Tarcyanie Cajueiro Santos: Dos Espetáculos De Massas Às Torcidas Organizadas, estudo em que a autora identifica que as torcidas organizadas “ao incorporarem novos padrões éticos e estéticos recriam novas redes de sociabilidades, novos padrões de violência, demonstrando a desumanização do adversário e a performance de jovens excluídos.” (2004).4 A escassez de estudos que abordem o futebol do ponto de vista comunicacional, somado ao nosso interesse pessoal, moveu-nos em tentar “driblar” esse silêncio e essa lacuna, pois o futebol é a maneira como representamos o Brasil ou, nas palavras de José Miguel Wisnik, “é um rito através do qual o País se enxerga.” (2008). Em seu livro, Veneno Remédio, Wisnik tenta decifrar a medida da importância que o futebol tem para nós. Fundamentados nesse terreno já pavimentado, procuramos constituir um esforço acadêmico para compreender, a partir do prisma comunicacional, o papel do vínculo comunicativo para a integração de grupos sociais. Inerente aos fenômenos culturais e, por isso, também ao futebol, o vínculo comunicacional conduz a um sentindo de pertencimento e engendra um cenário propício para o os estudos dos 3 FRANCO Jr., Hilário. A Dança dos Deuses: futebol, cultura, sociedade, Companhia das Letras, São Paulo 2007, p. 60 4 SANTOS, Tarcyanie Cajueiro. Dos Espetáculos De Massas Às Torcidas Organizadas, Anna Blume, São Paulo. 2004, p. 12 12 fenômenos sociais, culturais e políticos que o esporte propicia. Ademais, o mundo social não pode ser entendido sem a comunicação, uma vez que essa é a base estruturadora da vida social. Trata-se de um recorte culturalista da comunicação, em que se sustenta a ideia de pensar a comunicação como cultura, como cultivo, já que o sentido etimológico do termo remete à ação de cultivar. Cultivar vínculos. A linha de problematização assenta-se na pergunta: o futebol - visto aqui como um texto da cultura - permite a constituição de vínculos comunicacionais que nutrem a integração de grupos sociais? O corpus observado é o das torcidas, em particular, a torcida do Sport Club Corinthians Paulista. A torcida corintiana é reconhecida pela sua devoção ao time e caracteriza-se por sua força, com mais de 30 milhões de torcedores apaixonados, chamados de Fiel Torcida. Os atletas do time costumam dizer em entrevistas que a torcida é o décimo segundo jogador em campo, pois é ela que motiva e compartilha energia com os jogadores em campo. A metodologia adotada é de caráter bibliográfico exploratório. Recorreu-se a um espectro teórico interdisciplinar para analisar como são tratados os diferentes aspectos referentes à questão do futebol como laço identitário e comunitário. Além disso, a intenção é identificar as raízes simbólicas do esporte, em particular do futebol, verificando as influências das diversas relações que esse simbolismo tem na percepção e na relação comunicacional entre os ufanistas do futebol, em especial os torcedores do S.C. Corinthians Paulista, a fim de analisar os vínculos instituídos entre clube, torcida e identidade. A apresentação de como o esporte bretão adentrou em nossa cultura e enraizou suas gramas na identidade nacional brasileira é de fundamental importância para que possamos verificar o caráter socializante que o esporte apresenta e como ele se torna um veículo de vínculo interpessoal e, fundamentalmente, comunicacional. A relação mais amplamente explorada foi a relação entre a torcida corintiana e o seu clube para que o universo pesquisado não se tornasse muito amplo, impossibilitando uma perspectiva mais profunda acerca do tema, e por causa da necessidade de compreensão das relações intimistas entre o 13 clube e seus adeptos, que possibilitaria mostrar as relações identitárias dos torcedores corintianos com o Sport Club Corinthians Paulista - que compreende não somente a estrutura física -, mas o simbolismo comunitário que carrega consigo. Também é importante afirmar que o estudo não faz ou sequer tenta traçar um diagnóstico sobre qualquer relação ou análise a respeito dos aspectos pertinentes a outras esferas do conhecimento como a origem da violência no esporte ou a questão dos credos e crenças religiosas. Em ambos os casos, as reflexões feitas têm como proposta auxiliar a compreensão dos simbolismos que circundam a complexa atmosfera do futebol. Para atingir os objetivos apontados, a estrutura deste estudo compreende uma abordagem que, além da introdução e das considerações finais, inclui três capítulos. O primeiro, “Comunicação, Vínculo e Interação Social”, apresenta, a partir de um paradigma da complexidade, o papel da Comunicação para a construção de vínculos sociais. O segundo capítulo, intitulado “A Nação e o seu Time: O Simbolismo da Torcida e a Comunidade Imaginada”, expõe alguns dos fatos mais marcantes da história do futebol no Brasil e destaca, a partir da reflexão feita por Todorov (1996) e Benedict Anderson (2008), o conceito de comunidade e a noção de reconhecimento e pertencimento que esse esporte cria. No capítulo três, a abordagem fotográfica permite a identificação e ilustração de alguns aspectos comunicacionais destacados nos capítulos anteriores. No desenvolvimento dos capítulos são dados os passos iniciais na tentativa de compreender a dimensão da centralidade da comunicação para a construção de identidades e vínculos. Isso implica considerar também a dimensão visual e o papel central dos meios de comunicação e da cultura das imagens. Assim apresentado, o esporte - que conquistou o coração de quase todo mundo - caracteriza-se pela ambivalência de uma comunidade gigante global para pequena regional, indo do público para o privado e vice-versa da mesma forma que ha bola rola de um lado a outro de campo, criando espaços propícios para o estudo dos cenários comunicacionais que o envolvem. Então deixemos a bola rolar para, como em uma mesa redonda, debatermos os lances e nuances deste jogo. 14 1. COMUNICAÇÃO, CULTURA, VÍNCULO E AS RAÍZES ANTROPOLÓGICAS DO ESPORTE Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Dois de Dezembro de 2007. Corinthians e Grêmio. Jogo decisivo no estádio do Olímpico pelo Campeonato Brasileiro. Ao fundo, os gritos de milhares de torcedores levam o caloroso apoio aos jogadores, misturando-se com o som dos tambores, rojões e foguetes. Agitam-se as bandeiras multicoloridas nas arquibancadas. Os alto-falantes informam a composição dos times e as eventuais substituições. Emissoras de Rádio e Televisão e os próprios torcedores, por meio das redes sociais, levam as emoções da festa popular a milhões de pessoas no país inteiro. A despeito da emoção festiva, o maior pesadelo da fiel torcida corintiana virou uma triste realidade naquele domingo. Durante os 90 minutos, as combinações de resultados deixaram o Corinthians na segunda divisão. O placar de 1 a 1, aliado à vitória do Goiás sobre o Internacional (2 a 1 no Serra Dourada), mandou o Corinthians para a Série B do Brasileirão. O Timão, como é chamado carinhosamente pelos fiéis torcedores, em 97 anos de história, foi para Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. A despeito da derrota e do rebaixamento, a torcida, sempre fiel, gritava: "Eu nunca vou te abandonar, porque eu te amo!”. No ano seguinte, a segunda divisão tem um efeito na autoestima do torcedor e o Corinthians alcançou seu melhor resultado. Os corintianos não pararam de lotar os estádios e a média de público dos jogos do Corinthians foi superior à de seus principais rivais que disputavam a Primeira Divisão. A segunda divisão trouxe enormes benefícios para a torcida, para o clube e para a mídia, graças aos investimentos em campanhas de marketing. A maior emissora do Brasil, a Rede Globo, transmitiu os jogos do Corinthians na segunda divisão e se beneficiou muito com a audiência das partidas. Os jogos, mesmo sendo contra times pequenos, lotavam os estádios. Bom também para os times pequenos que ganharam mais visibilidade. A torcida, já conhecida como fiel, tornou-se ainda mais fiel e apaixonada pelo time. O rebaixamento despertou nos torcedores um sentimento de união com o time e orgulho do clube, mesmo em um momento difícil. 15 As pessoas em geral, torcedores ou não de futebol, sensibilizaram-se com o rebaixamento e se emocionaram com a força da torcida. Talvez o clube não tenha conquistado novos torcedores, mas, com certeza, muitos que já simpatizavam com o time, tornaram-se torcedores apaixonados. Nesta pesquisa, busca-se apresentar a torcida corintiana no contexto das comunidades contemporâneas. O estudo visa ressaltar a relevância dos vínculos comunicacionais para a constituição das comunidades, ou em outras palavras, demonstrar as contribuições da comunicação para a interação entre grupos sociais, no caso, a torcida corintiana. Estamos tratando de comunicação, da sua centralidade e da ampliação das opções para o estabelecimento de vínculos comunicativos. Mas qual a relação entre a comunicação e o pertencimento comunitário? Neste primeiro capítulo, procura-se destacar o papel representado pela Comunicação na construção dos vínculos sociais. 1.1. O Ambiente Social da Comunicação Parece nunca ser demais ressaltar a natureza social do ser humano, que determina uma necessidade de se comunicar, de trocar sentimentos, de compartilhar sensações. O ser humano tem condições de estabelecer vínculos, de pensar em termos do cultivo do outro igual, do seu semelhante, já que parece claro que o mundo social não pode ser entendido sem a comunicação com o outro. A comunicação parece ser mesmo fundamental em todo esse processo de transformação social. Através da comunicação, a humanidade parece ter hoje maiores condições de explorar, aprender e descobrir o próprio mundo. Povos e indivíduos podem vir a compreender uns aos outros e fortalecer vínculos, laços sociais. A comunicação permeia todos os aspectos do nosso viver. Acerca do sentido da comunicação Ciro Marcondes Filho esclarece que: Comunicação não se confunde com sinalização nem com informação. Na natureza e na sociedade, nas relações subjetivas tudo sinaliza. Animais, seres humanos, acontecimentos, sensações, emanações difusas do outro. Qualquer coisa ao nosso redor produz sinais que podem ou não ser convertidos em componentes do processo comunicacional. Todos somos, em princípio emissores. O tempo todo estamos emitindo sinais. Os pesquisadores da Faculdade Invisível, em torno de Gregory Bateson, 16 chamam a isso de comunicar, “tudo comunica, não dá para não comunicar”. [...] A comunicação realiza-se no plano da interação entre duas pessoas, nos diálogos coletivos onde esse novo tem chance de aparecer, onde o acontecimento provoca o pensamento, força-o, onde a incomunicação é rompida e criam-se espaços de interpenetração. (MARCONDES FILHO, 2010, p. 64). Esse argumento corrobora o conceito que norteia a reflexão desta pesquisa, na qual a comunicação não se constitui apenas na produção e distribuição de informação, mas, sobretudo, no dever de ter abertura para o sensível, para as condições em que o receptor, num processo de troca, recebe, aceita, recusa, remodela mensagens, informações, de acordo com suas convicções filosóficas, políticas e culturais. Afirma-se, assim, a natureza relacional da comunicação, a importância do “outro”, da alteridade na comunicação. Comunicação, então, constitui-se em razão do estabelecimento de laços sociais, de vínculos. No entendimento da comunicação como interatividade, a criação de vínculos se consolida. E, se estamos tratando de meios de comunicação, de mídia, dentro do contexto em que se observa uma centralidade da comunicação, certamente, como ponto determinante, fica afirmado que “os mundos da mídia são fenômenos do relacional” (ZIELINSKI, 2006, p. 50). Os mundos da mídia com suas convenções, linguagens, códigos determinantes de indicadores consolidam ideias, atitudes a vínculos comunicacionais, como sugere Malena Contrera: Considerando o vínculo "a base primeira para a comunicação", esses vínculos passam a ser uma das questões centrais dos estudos sobre a comunicação humana, ainda que não tenham sido devidamente considerados até o presente momento. Nesse sentido, é importante que façamos uma ressalva acerca do fato de que é a desconsideração do papel do vínculo para a comunicação que colabora para a manutenção de uma visão empobrecida sobre o processo comunicativo, muitas vezes conferindo às trocas de informação seu aspecto central. Ainda vemos, nos estudos da comunicação, uma confusão entre teorias da informação e teorias da comunicação, sendo que as primeiras se ocupam normalmente de aspectos funcionais e instrumentais das trocas informativas, alinhando-se muitas vezes aos estudos da cibernética, enquanto a segunda deveria se ocupar dessa dimensão complexa da constituição e dinâmica dos vínculos comunicativos. Isso estabeleceria uma clara distinção entre os papéis de informar e comunicar, hoje usualmente confundidos. Ao considerarmos os processos de vinculação, lançamos um novo sentido às relações comunicativas, evitando uma concepção de que trocas comunicativas se assemelham a meras relações comerciais e instrumentais, e chamando a atenção para a importância dos processos de significação constituídos nessas relações. Nesse sentido também podemos considerar a contribuição do estudo dos vínculos comunicativos para um alargamento da compreensão sobre os meios de comunicação, entendendo-os como espaços (físicos ou simbólicos) nos quais essa rede de vinculação deve 17 operar numa escala socialmente maior do que a da comunicação interpessoal, e refletindo sobre se esses meios têm ou não, de fato, desempenhado esse papel, ou se se tornaram meros espaços funcionais por onde transitam informações assépticas e vazias de sentido, apenas quantitativa e mercadologicamente consideradas. (CONTRERA, 2010, p. 354). No jogo de futebol, a comunicação vinculativa aparece nos gritos, nos gestos, nos corpos tatuados da torcida, nas faixas, nas cores das bandeiras, nas camisetas dos jogadores, nos apitos e cartões do juiz e dos bandeirinhas, no placar eletrônico, nos alto-falantes, nos celulares, nas redes sociais e nos insultos e nas canções dos torcedores. O próprio jogo é um ato de comunicação que se dá num ambiente cultural. 1.2. Cultura no Cenário Antropológico Para analisar quais são as raízes da cultura do esporte, é fundamental realizar uma reflexão sobre o que é a antropologia e discutir a ideia de cultura sob o ponto de vista antropológico. Laplantine5 (1988) afirma que a “reflexão do homem sobre o homem e sua sociedade, e a elaboração de um saber são [...] tão antigos quanto a humanidade”, mas que “o projeto de fundar uma ciência do homem – uma antropologia – é, ao contrário muito recente.” Na verdade, é somente a partir do século XVIII que “começa a se constituir um saber científico (ou pretensamente científico) que toma o homem como objeto do conhecimento, e não mais a natureza [...]”, nesse momento, aplica-se pela primeira vez “ao próprio homem os métodos até então utilizados na área física ou da biologia.”6 . Ainda de acordo com o antropólogo, “o pensamento do homem sobre o homem” tinha sido “mitológico, artístico, teológico, filosófico, mas nunca científico (...)”7 , até aquele momento. Assim, o que define a antropologia é o fato de ela considerar todas as dimensões do homem na sociedade e estudar todas as sociedades humanas, isto é, realizar o estudo “das culturas da humanidade como um todo em suas diversidades históricas e geográficas”8. 5 LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988, p. 13. Ibidem. 7 Ibid., p. 14. 8 Ibid., p. 20. 6 18 O autor ainda afirma que a antropologia é marcada pelo pluralismo, resultado das diferentes dosagens e combinações que são conseguidas “entre uma compreensão ‘por dentro’ e uma compreensão ‘por fora’, entre a alteridade e a identidade, a diferença e a unidade, a subjetividade e a objetividade (mas também a sincronia e a diacronia, a estrutura e o evento).”9. Esse pluralismo, que também é representado pelos diferentes pontos de vista defendidos pelos antropólogos, está presente na ideia de cultura. Para realizar uma reflexão sobre o conceito de cultura, um bom ponto de partida é pensar na origem da própria palavra, como aponta Bosi (1992): “Começar pelas palavras talvez não seja coisa vã. As relações entre os fenômenos deixam marcas no corpo da linguagem.”10. O autor afirma que as “palavras cultura, culto e colonização derivam do mesmo verbo latino colo, cujo particípio passado é cultus e o particípio futuro é culturus.”11. Bosi continua: “Colo significou, na língua de Roma, eu moro, eu ocupo a terra, e, por extensão, eu trabalho, eu cultivo o campo.” 12. Klein (1999, p. 9) também destaca essa relação da palavra com o universo agrícola, afirmando que ela designava o cultivo da terra assim como todo instrumental técnico desenvolvido pelo homem com a finalidade de plantio. Quando a atenção se desloca do universo agrícola e passa para o homem, o termo refere-se às criações do espírito humano. “Assim já em sua etimologia a palavra cultura aponta para duas importantes facetas de sua manifestação: quando o objeto do cultivo está fora do cultivador. Está na esfera do mundo externo. Quando o objeto do cultivo é o próprio sujeito cultivador.” (BAITELLO JR. 1997, p. 25). De maneira geral, no universo acadêmico, o termo cultura é pontuado como oposição ao natural; descreve-se, de maneira subjetiva, que tudo que passa a se integrar com o espírito de sociedade e seu aparato técnico - pertencente à realização ou interferência do homem - passa a ser considerado cultura. Em contrapartida, o que não foi tocado ou sofreu interferência do homem não é considerado cultura. Tal ideia torna o conceito muito amplo e vago, à medida que 9 Ibid., p. 199-200. BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 11. 11 Ibidem. 12 Ibidem. 10 19 cabem dentro dele tanto a técnica e seus instrumentos quanto o imaginário e o ideológico, entre outras inúmeras coisas do aspecto humano. A noção dimensional do conceito de cultura é bem ampla, como aponta o aspecto antropológico, abrange um largo espectro conceitual e multidisciplinar. O estudo das relações entre comunicação, cultura e esporte nos ajuda a compreender a formação da identificação de grupos sociais em torno de objetivos em comum, a exemplo de religiões, torcidas de futebol, grupos musicais, fã clubes etc. 1.3. O HomoLudens A ideia de competição em jogos é inerente ao homem, segundo Johan Huizinga (2000), não sendo, então, somente um fenômeno cultural, já que sua ambientação é, de fato, mais remota que a própria cultura. Outros animais mantêm ritos semelhantes com as atividades lúdicas que não têm, necessariamente, qualquer relação com as formas constituídas de cultura. Por exemplo, um cachorro ao competir com outro por um pedaço de pano demonstra claramente o aspecto lúdico da competição, pois não se observam quaisquer benefícios, a não ser a brincadeira exercida por ambos. Entretanto, mesmo que de maneira rudimentar, existem regras que são instituídas nos jogos. Desde já encontramos aqui um aspecto muito importante: mesmo em suas formas mais simples, ao nível animal, o jogo é mais do que um fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico. Ultrapassa os limites da atividade puramente física ou biológica. É uma função significante, isto é, encerra um determinado sentido. (HUIZINGA, 2000, p. 5). O próprio Huizinga indica que existem diversas teorias que apontam caminhos distintos sobre a significação do jogo, o fato comum em todas essas hipóteses é que elas partem do pressuposto de o jogo estar ligado a algo que não seja o próprio jogo e que nele deve haver alguma espécie de finalidade biológica. As diversas hipóteses tendem mais a completar-se do que a excluir-se. Seria plausível aceitar quase todas, sem que o resultado fosse contraditório ou conflituoso, mas, nem por isso, Huizinga (2000, p. 6) afirma que nos aproximaríamos de uma verdadeira compreensão do conceito de jogo; dessa forma, todas as respostas não passam de soluções parciais do problema. 20 Nesse cenário, o autor ressalta que as reflexões e teorias criadas em torno do jogo são superficiais, à medida que se preocupam com ciências quantitativas sem levar em consideração as perspectivas estéticas do jogo. Está tudo muito bem, mas o que há de realmente divertido no jogo? Por que razão o bebê grita de prazer? Por que motivo o jogador se deixa absorver inteiramente por sua paixão? Por que uma multidão imensa pode ser levada até ao delírio por um jogo de futebol? A intensidade do jogo e seu poder de fascinação não podem ser explicados por análises biológicas. E, contudo, é nessa intensidade, nessa fascinação, nessa capacidade de excitar que reside a própria essência e a característica primordial do jogo. O mais simples raciocínio nos indica que a natureza poderia igualmente ter oferecido a suas criaturas todas essas úteis funções de descarga de energia excessiva, de distensão após um esforço, de preparação para as exigências da vida, de compensação de desejos insatisfeitos etc., sob a forma de exercícios e reações puramente mecânicos. Mas não, ela nos deu a tensão, a alegria e o divertimento do jogo. (HUIZINGA, 2000, p. 6.). O último elemento exposto, a diversão, reflete o pensamento de Huizinga (2000) em relação à natureza do jogo: é uma fonte única e incontestável, pois é o elemento que foge do padrão da racionalidade e cai na irracionalidade, as regras existentes – mesmo que rudimentares – não interferem na ideia original de que o jogo nada mais é do que um passatempo, uma “distração”, que não tem benefícios lógicos. A realidade do jogo ultrapassa a esfera da vida humana, é impossível que tenha seu fundamento em qualquer elemento racional, pois, caso isso ocorresse, o jogo se limitaria aos seres humanos, sua civilização e benefícios práticos, mas isso não ocorre de maneira direta ou objetiva. Todo ser pensante é capaz de entender à primeira vista que o jogo possui uma realidade autônoma, A existência do jogo é inegável. É possível negar, se quiser quase todas as abstrações: a justiça, a beleza, a verdade, o bem, Deus. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo. (HUIZINGA, 2000, p. 7.) Reconhecer o jogo é reconhecer o espírito, porque o jogo tem sua essência não na materialidade, mas sim na diversão, ultrapassando o mundo animal e os limites físicos. Partindo do ponto de vista da concepção determinista, o jogo seria supérfluo, no entanto, ele se torna compreensível quando o espírito substitui o determinismo absoluto e a racionalidade é deixada de lado em prol da diversão. A existência do jogo é a confirmação da natureza supralógica da situação humana. Se os animais brincam é porque são mais do que simples seres mecânicos e se 21 jogamos e temos consciência da sua condição supérflua significa que não somos simples seres racionais, pois o jogo é irracional. Encontramos o jogo na cultura, como um elemento dado existente antes da própria cultura, acompanhando-a e marcando-a desde as mais distantes origens até a fase de civilização em que agora nos encontramos. Em toda a parte encontramos presente o jogo, como uma qualidade de ação bem determinada e distinta da vida "comum". (HUIZINGA, 2000, p. 7) O tema se mostra amplo em relação à discussão; em distintos campos do conhecimento poderíamos discorrer sobre as diferentes variações e hipóteses levantadas em relação ao jogo, como propõe o próprio Huizinga, mas o fato é que esse não é o propósito deste estudo, cujo objetivo é realizar uma reflexão sobre os aspectos sociais que circundam o jogo e como ele está presente dentro da cultura, mas, fundamentalmente, não se acaba dentro dela. Mas o fato de ser necessário, de ser culturalmente útil e, até, de se tornar cultura diminuirá em alguma coisa o caráter desinteressado do jogo? Não, porque a finalidade a que obedece é exterior aos interesses materiais imediatos e à satisfação individual das necessidades biológicas. Em sua qualidade de atividade sagrada, o jogo naturalmente contribui para a prosperidade do grupo social, mas de outro modo e através de meios totalmente diferentes da aquisição de elementos de subsistência. (HUIZINGA, 2000, p.11). Portanto, o caráter de atividade lúdica contribui para a prosperidade do grupo social, mostrando assim as características de aproximação com o outro, sem que haja interesses materiais ou distanciamento em decorrência disso. O fato é que o jogo aglutina grupos sociais em prol do ócio e da distração, contrariando a premissa produtiva social, o que não reflete diretamente a materialidade das relações e das atividades sociais como o estádio de futebol, suas torcidas e os amigos de bairro que, mesmo depois do jogo, discutem por horas aquele lance da partida. Se acompanharmos Johan Huizinga, para quem a guerra tem um caráter lúdico, e Roger Caillois, que vê muitos pontos comuns entre a guerra e festa (desperdício, suspensão das normas morais, exaltação coletiva, redução da sensibilidade física), e aceitarmos que o futebol é a representação da guerra, a conclusão lógica é que futebol é festa. Não uma festa qualquer, festa arcaica, profundamente ritualizada, festa que envolve toda a sociedade, que cumpre papel exultório para suas disfunções internas e externas. (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 246). O jogo também sempre carrega consigo a individualidade tensional, a gana de vencer, de conquistar ou superar limites, esses elementos vêm com a tensão 22 criada pelo jogo, a incerteza do resultado leva à busca insaciável pelo fim da angústia criada. Diferentemente de outros aspectos sociais, o jogo cria suas próprias regras, com início, meio e fim. As regras do jogo são fundamentais para o desenvolvimento desse mundo temporário, elas determinam desde o modus operandi dos participantes até a validade das ações, pois coloca em cheque a lealdade e a vontade de vencer. Por sua vez, estas regras são um fator muito importante para o conceito de jogo. Todo jogo tem suas regras. São estas que determinam aquilo que "vale" dentro do mundo temporário por ele circunscrito. As regras de todos os jogos são absolutas e não permitem discussão. Uma vez, de passagem, Paul Valéry exprimiu uma ideia das mais importantes: "No que diz respeito às regras de um jogo, nenhum ceticismo é possível, pois o princípio no qual elas assentam é uma verdade apresentada como inabalável". E não há dúvida de que a desobediência às regras implica a derrocada do mundo do jogo. O jogo acaba: O apito do árbitro quebra o feitiço e a vida "real" recomeça. (HUIZINGA, 2000, p.12). Apesar disso, há aqueles que se opõem às regras do jogo ou as transgridem, o que os torna expurgáveis, pois quebram a magia criada em torno dos players, trazendo-os para a realidade natural fazendo com que o universo imaginário se vá. Esse “desmancha prazeres” que ignora e desrespeita as regras é expurgado do jogo, nada parecido com o que ocorre com o trapaceiro que finge estar jogando seriamente, aparentando reconhecimento com o círculo mágico criado, em relação a ele, os demais jogadores são mais permissíveis e indulgentes, pois, mesmo que a regra tenha sido infringida, o ambiente mágico não foi quebrado. O fascínio criado em redor dos esportes nos remete às influências que esses tiveram na formação cultural e social da humanidade, objeto de estudo do próximo subcapítulo. 1.4. A Antropologia Histórica dos Gestos Esportivos A dança e o esporte têm aspectos muito semelhantes, ambos são o produto de um conjunto de movimentos executados individualmente ou em grupo, no entanto, esses movimentos não são o resultado apenas da prática ou das emoções que acompanham cada gesto, como aponta Gebauer: Podemos reconhecer que nos movimentos da dança e do esporte não são realizadas apenas técnicas corporais e emoções, mas também uma 23 abundância de gestos representados por imagens. A maioria desses movimentos vem do passado, especialmente da antiguidade grega. Por se tratarem de gestos formados culturalmente, não é difícil reconhecê-los porque se tornaram tão óbvios em nossa cultura quanto comer com garfo e faca. (2000, p. 26) Diferentemente do culto em torno dos Jogos Antigos, os Jogos Modernos criam outros simbolismos: Nos jogos modernos, não encontramos nenhuma esfera de culto como nos jogos antigos, mas os jogos incorporaram um significado sacro, por desejo de seu re-fundador, como festividade de um religio athletae. Com esse culto, que não é mais nenhuma crença divina, mas uma veneração ao individuo extraordinário e à sua nação. (GEBAUER, 2000, p. 28). Dentro da esfera dos esportes modernos, a ideia de jogo coletivo surge à medida que a esfera sagrada do indivíduo, comparado com Deus, sai de cena e a veneração do indivíduo, como pertencente à nação, ganha força. O surgimento de esportes coletivos, cujos objetivos reproduzem os arquétipos sociais de colaboração para a produção, assim como na indústria, refletem uma forma de imagem social através do aspecto lúdico do esporte. A replicação da interdependência do outro para o sucesso da equipe nada mais é do que a reprodução da imagem fabril das empresas. Dentre os esportes coletivos criados pós-jogos modernos, um se destaca pelo fascínio que exerce sobre várias nações tornando-se, muito rapidamente, o esporte mais popular do mundo: o futebol. Esse esporte que se move de maneira diferenciada, cria uma fantástica comoção junto ao seu público. Sempre que vemos ou jogamos futebol, uma vida imaginária irrompe de nossa fantasia. Quanto mais fortemente ele nos move, menos sabemos dele em nossa língua, raramente se infiltra sobre a onda de nossa reflexão. Sabemos muito sobre o jogo de futebol, conhecemos suas coisas: o pé, a bola, o gol; sabemos também que algo nos faz amar o jogo. Mas não sabemos o que é. Por trás desta coisa não há nada; o jogo de futebol não são representações; tudo está na superfície. (GEBAUER, 2000, p. 30). O esporte bretão, diferente de outros esportes, não busca a superação do homem e de sua natureza, suas origens estão mais no anterior à linguagem, no primitivo, no que é anterior à cultura, como o próprio Gebauer afirma: “O que se torna visível na superfície do jogo de futebol são sua obstinação e seu caráter, isto é posto em oposição a todas as realizações de nossa cultura.” (2000, p. 30). 24 Embora o futebol seja coletivo e carregue consigo a característica da economia burguesa - a associação e a construção conjunta dos processos fabris -, ele transcende os aspectos culturais, pois não se utiliza do elemento básico da modelagem do homem, a mão, que é desprezada no contexto desse esporte, em que tudo parece ser rasteiro, primitivo, pois os pés são o principal elemento do jogo. Assim a semelhança do esporte na questão da imagem está mais para a dança do que, necessariamente, para o vigor ou a superação do homem. Aos pés cabe a habilidade de tocar, em um terreno disforme, uma esfera que ao menor toque se torna sensível e arisca. Esse esporte se traduz em uma incessante dança de tentativa de domínio que jamais se concretizará por completo, uma vez que não é possível, como seria com as mãos, segurar a bola dominando-a por completo. Sua fantasia torna os amantes do futebol sensíveis pelas coisas simples do jogo eles reagem mediante aos segredos da superfície. O jogo dos pés salta por sobre seus corpos; de uma vez os pés se tornam vivos e de fina sensibilidade. Na dança conhecem-se novamente os pés; eles se tornam musicais, acompanham o ritmo da musica, sentem o movimento do parceiro. Assim acontece no futebol, mas neste caso eles não tomam apenas sua própria forma, mas inventam sempre novas figuras com a bola. (GEBAUER, 2000, p.30). E é justamente devido ao não controle total, que se expressa no futebol uma contracultura, diferentemente de outros esportes nos quais o mais preparado, o mais atlético, o mais forte sempre vence, a falta desse controle total dos pés faz com que nem sempre o superior atleticamente, desportivamente vença. O imponderado, assim como na dança, fascina e prende a atenção do espectador, e a quem joga, a busca pelo domínio - que em um único momento é rompido pela violência do chute se vê à mercê de um objeto que, ao acaso, pode pregar-lhe uma peça. Entre os vários aspectos que circundam a atmosfera do esporte, um chama a atenção: a violência, tópico a ser discutido no subcapítulo seguinte. 1.5. Guerreando em Campo: Esporte e Violência A violência é a esfera arquetípica dos esportes, desde o seu princípio, como aponta Hillman (1999). Segundo o autor, o acirramento pertencente à origem do esporte está mais para o âmbito político e a disputa por poder do que necessariamente para os aspectos salutares de harmonização. 25 Com a perspectiva de glorificação ou de demonização, a disputa na prática dos jogos esportivos faz com que as pessoas envolvidas tenham uma passionalidade pelo poder em disputa, sejam ricas ou pobres. Quando as pessoas adentram na atmosfera do jogo, deixam de lado sua condição econômica e passam a ser competidoras, mesmo aqueles que não estão presentes na prática ou na disputa propriamente dita, revelam-se competitivos à medida que invocam suas frustrações e mazelas das doenças sociais, descarregando-as nas figuras que os representam na disputa. O próprio Hillman afirma que: [...] nos esportes competitivos constelam incursões de marte há muito já se sabe. Até mesmo as corridas de cavalos! Já nos idos 1822, o jornal britânico The Annals of Sporting sugeria que os torcedores fossem armados a Epson Ascot, já que a violência poderia irromper a qualquer momento como, por exemplo, quando um jockey favorito, tendo desapontado seus torcedores, apanhava da multidão e era açoitado. (1999, p. 67). Ainda segundo o autor, embora tenhamos deixado de lado alguns ritos e cultos voltados aos deuses antigos, ainda estamos sujeitos à possessão arquetípica deles, no caso dos esportes, submetemo-nos a um deus, em especifico: Marte, responsável por reger as características da alma violenta e da passionalidade. Embora o tempo tenha passado e as crenças se modificado, a alma do homem carrega consigo tal possessão que, nos dias de hoje, é vista, ainda de acordo com Hilman, como doença psicológica no corpo político e na alma da cidade (1999, p. 68). Ainda sobre o arquétipo de Marte, a mítica em torno da violência anda de mãos dadas com a passionalidade: O fato mítico de Marte estar sempre apaixonado por Vênus fala-nos de seu componente venusiano, seu outro lado venusiano que ama a beleza tanto quanto a batalha. Isso Giovanni de Bardi e seus esportistas florentinos estimavam e exibiam. Pense por um momento sobre os veludos e as sedas, brocados e armaduras, os estandartes e as flâmulas, os vermelhos, os escarlates, as mangas purpúreas usadas pelas crianças de Marte seja na Renascença, seja em qualquer evento esportivo. (HILLMAN, 1999, p. 68). O fato de flâmulas, estandartes e insígnias estarem presentes no esporte nos recorda de que a competição tem um caráter violento, de conquista sobre o outro, hoje, os escudos e bandeiras utilizadas trazem consigo, ao mesmo tempo, a paixão e o amor na identificação do esporte tal qual trazem a violência e a competitividade em relação aos não identificáveis. 26 A linha de reflexão proposta por Hilman (1999) que envolve política, violência e, claro, esporte, encontra no futebol diversas fontes de comprovação, pois, clubes e torcidas se identificam na paixão ou no ódio e, às vezes, nos dois juntos (quando as torcidas atacam seu próprio time). As relações de amor, ódio, violência e política têm alguns aspectos peculiares que permitem a identificação entre grupos de pessoas em prol de um objetivo em comum. O Barcelona FC, clube catalão, insere-se nessa situação, pois, para seus torcedores, o time não é pura e simplesmente uma equipe de futebol, é o bastião de algo maior, o grito de liberdade da província da Catalunha em relação à Espanha. Dessa maneira, “A violência nos esportes urbanos é um potencial inato e natural, que pertence arquetipicamente ao ser humano, como um animal político, e à cidade, como domicílio desse animal político.” (HILLMAN, 1999, p. 76). Violação remete naturalmente a violência, e de fato festa, no sentido antropológico, tem sempre um componente violento. Sobretudo se for sagrada, como mostra autoflagelação de certas procissões cristãs e as frequentes mortes acidentais durante peregrinações de várias religiões. Ou se for festa que metaforiza a guerra como é o futebol. Na copa de 1970, a vitória da Itália sobre a Alemanha na semifinal foi acompanhada por 18 milhões de italianos, portanto um em cada três, e seguida em muitas cidades do país por agressões a alemães e destruição de automóveis e vitrines. (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 247). No Brasil, os aspectos que demonstram essa predisposição ao amor e à guerra, não estão ligados necessariamente aos times de futebol e suas origens, embora em alguns casos possamos identificar isso também, mas essa vocação entre violência e paixão está mais ligada à esfera passional da história, ou seja, aos seus torcedores, as torcidas organizadas dão um ar bélico a personagens e símbolos de identidade com o clube. Mesmo os torcedores comuns que sentem apenas o desejo de pertencimento ou identificação com o clube acabam sendo cooptados por essa esfera à medida que os cânticos e símbolos de violência passam a identificá-lo como sendo alguém apaixonado pelo time. A violência existe dentro e fora dos estádios e, quase sempre, está associada às torcidas organizadas dos principais times brasileiros. Essas torcidas trazem em seus escudos os símbolos de amor aos seus clubes e ódio aos seus rivais. 27 Figura 1 – Gaviões da Fiel13 Figura 2 – Torcida Independente14 Figura 3 – Torcida Jovem Flamengo15 Figura 4 – Torcida Jovem Santos16 Figura 5 - TUP17 Figura 7 – Máfia Azul19 13 Figura 6 - Fanáticos18 Figura 8 - Inferno Coral20 Escudo: Torcida Gaviões da Fiel do Corinthians. Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014. 14 Escudo: Torcida Independente do São Paulo: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014. 15 Escudo: Torcida Jovem do Flamengo: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014. 16 Escudo: Torcida Jovem do Santos: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014. 17 Escudo: Torcida TUP do Palmeiras: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014. 18 Escudo: Torcida Fanáticos do Atlético Paranaense: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014. 19 Escudo: Torcida Mafia Azul Cruzeiro: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014. 20 Escudo: Torcida Inferno Coral do Santa Cruz de Pernanmbuco: Disponível em: <http://www.organizadasbrasil.com/>. Acesso em: 14 mar. 2014. 28 Estandartes da violência são ostentados com orgulho como símbolos de amor e ódio. Hillman (1999, p. 69) define esses grupos como “gangues urbanas” que fazem parte de uma busca por dominação. O autor, no entanto, vai além ao afirmar que é uma espécie de psicose coletiva, causada pela falta de equilíbrio entre hierarquias, essas pessoas que recorrem à violência, no rompante da competição, fazem-no em decorrência da busca por uma hierarquia equilibrada, a seu gosto, elas são motivadas pela explosão hormonal da testosterona presente nos jovens que, em geral, são a maioria nos estádios. Os estudos sempre repetem que a audiência dos jogos de futebol urbanos é composta principalmente de adolescentes. Isso é particularmente verdadeiro com relação aos países do terceiro mundo onde a média de idade da população é mais baixa que na Europa ocidental, mas, mesmo colônia, as pesquisas mostram que mais da metade dos espectadores dos jogos tem menos de 21 anos e, claro, 88% são homens. Os tumultos nos estádios têm sido chamados de “crises tardias de puberdade” e encarados como “jovens do sexo masculino em busca de um rito de iniciação através do risco físico”. (HILLMAN, 1999, p. 70) Ainda segundo Hilman (1999), existem 5 fatores que aumentam ou diminuem a testosterona. O primeiro deles é a disputa; o segundo, a competição e o sucesso; o terceiro, o aumento do status; o quarto é o encontro sexual e o quinto, cujo papel é fundamental, está ligado diretamente à violência: a raiva. Portanto, não é inesperado que uma arbitragem percebida como injusta ou uma falta não notada que inspire raiva na multidão puxem o gatilho de uma escalada de fúria devido a níveis de testosterona aumentados. E não é surpreendente que já antes de um evento esportivo sua antecipação prepare um tumulto na corrente sanguínea. Também não deve ser surpreendente que quando o jogo acabe não diminua a excitação e que depois de uma vitória haja um potencial ainda mais alto de confusões. (HILLMAN, 1999, p.71). Então, a mesma testosterona presente no rompante da violência serve como rejuvenescedor e agregador, à medida que ali se identifica a juventude e a desordem típicas da puberdade. Quando um grupo de idosos se reúne para assistir a um grupo de garotos jogando, esses indivíduos buscam o reconhecimento ou o espelhamento daquilo que já foram um dia. A diversão ali expressa representa os sonhos e desejos de conquista, realizados ou não. Da mesma forma, durante um jogo, as emoções da plateia aumentam ou diminuem proporcionalmente ao desempenho do seu time que, quando joga bem, leva seus torcedores a entrarem em um ritmo crescente de euforia e excitação que se esvaem, quando o oposto 29 ocorre. Isso acontece devido à maior presença e carga de testosterona no sangue, pois a derrota, a humilhação, a negação do ato sexual e o isolamento são fatores que servem para a diminuição desse hormônio. Percebe-se sob a ótica de Hillman (1999), a não distinção entre atletas e torcedores, pois, para ele, ambos passam pelos mesmos cenários, angústias e alegrias, em qualquer esporte. O que um jogador sente ao marcar um gol, em uma final de campeonato, é semelhante ao que milhares de outras pessoas identificadas com aquele time vão sentir, criando assim uma unidade, uma comunidade em torno da atividade ali representada pelo esporte. Então, tanto o homem que assiste, confortavelmente, ao jogo da final do campeonato, em casa, pela sua TV quanto o jogador que vai bater o pênalti e está diante do goleiro, nesse mesmo jogo, criam uma atmosfera parecida, uma identificação com a situação, uma identidade, seja ela pela marcação do gol ou pela perda dele. Assim, pode-se constatar a existência de alguns elementos que são fundamentais para a compreensão da relação entre violência e esporte. O esporte está ligado aos ritos de passagem da adolescência, não só por causa dos hormônios, mas, fundamentalmente, devido à ideia de pertencimento e reconhecimento da transposição para a fase adulta. A ideia de pertencer a um lugar - aspecto que será abordado mais detalhadamente em outro capitulo – permite que se crie uma energia de companheirismo e, ao mesmo tempo, de rivalidade, de amor e de ódio. Esses fatores somados a alguns elementos como a visão magnífica de um estádio lotado, cantando - como em um culto - músicas de incentivo ao seu time, podem desencadear a bestialidade que será a brutalidade e violência em nome dele também. A violência é apenas um dos muitos aspectos que circundam o universo do futebol, provavelmente é o mais controverso e perverso elemento desse esporte que, ao longo dos anos, tem se mostrado, um campo muito produtivo para discussões multidisciplinares. O próximo capítulo deste estudo tem como objetivo discutir algumas dessas questões em torno do futebol e resgatar os acontecimentos mais marcantes da história desse esporte no Brasil, assim como, busca resgatar 30 também eventos da história do clube que, atualmente, possui a segunda maior torcida do país: o Sport Club Corinthians Paulista. 31 2. A NAÇÃO E O SEU TIME: O SIMBOLISMO DA TORCIDA E A COMUNIDADE IMAGINADA Os elos de identificação entre torcida, time e jogadores são construídos segundo características peculiares, particulares e de caráter subjetivo e vão muito além de uma partida. De acordo com Damo (2002), o sentimento de pertencimento é o de lealdade, no qual os outros clubes - uns mais que outros - são considerados adversários do equilíbrio entre o sentimento positivo e o negativo de comunhão entre time e torcida. A relação construída vai além do tempo e do espaço e, na história do Sport Club Corinthians Paulista, não faltam exemplos desse vínculo. No dia 5 de dezembro de 1976, Corinthians e Fluminense se enfrentariam em um único jogo a ser disputado pela semifinal do campeonato brasileiro. O Corinthians tinha a oportunidade de chegar à final do torneio, caso ganhasse do Fluminense, favorito na disputa. Setenta mil corintianos ocuparam o estádio do Maracanã, no episódio que ficou conhecido como ‘a invasão corintiana no Maracanã’. Os números impressionam: oficialmente, só da Gaviões, 300 ônibus saíram de São Paulo ao Rio. Em dados não oficiais, falam em cerca de 1000 ônibus corintianos lotando a Via Dutra, o que exigiu do Detran uma operação inédita para permitir o fluxo na rodovia, chamada de “Operação Corinthians”, quando houve recorde de tráfego. Embora o espetáculo, a chuva, a garra dos jogadores em campo fossem por si só memoráveis para a história do clube, naquele dia, o Corinthians era mais. Eram 12 em campo, com uma torcida incrível e apaixonada que jogou com o time cada segundo da partida. Naquele dia, a Fiel estava lá, mais forte do nunca, não mais como coadjuvante, mas como protagonista de uma das histórias mais bonitas do time do povo. Para as finais, o Internacional, com medo de uma segunda invasão, não disponibilizou ingressos para o Corinthians, e as estradas foram bloqueadas pela polícia gaúcha. O jogo da final terminou com uma vitória de 2x0 para o 21 Internacional. . Em 2012, uma nova invasão - dessa vez em solo japonês - deu resultado e o Corinthians tornou-se campeão mundial pela segunda vez, após enfrentar o time inglês do Chelsea. A manchete da revista VEJA resume bem o acontecimento: “A 21 Disponível em: < http://www.meutimao.com.br/historia-do-corinthians/fatos-marcantes/a_invasao_ Corinthiana_no_marcana>. Acesso em: 4 ago 2013. 32 invasão corintiana em solo japonês funcionou – e com um desfecho do jeito que seu torcedor adora: com sofrimento, suspense e gol de raça.”22. Figura 9 - República Popular do Corinthians23 Para tentar entender a força das relações de identidade que os torcedores têm com os clubes, em especial, as que ligam os torcedores corintianos ao Corinthians, e tentar explicar como o futebol, um esporte que nasceu da elite, tornou-se tão popular no Brasil, vamos resgatar, neste capítulo, alguns aspectos da história do futebol no país e da história do próprio Corinthians. Além da abordagem histórica, busca-se analisar também como a elaboração simbólica do futebol no Brasil acontece a partir da percepção da imagem de nação ideal, em que as torcidas podem ser entendidas como uma comunidade imaginada 24 , conceito que parece descrever bem o cenário do futebol no Brasil. Tal ideia aponta para um aspecto fundamental na compreensão da necessidade de reconhecimento e do sentido de pertença que o torcedor tem ao se 22 Disponível em: < http://veja.abril.com.br/noticia/esporte/guerrero-decide-corinthians-vence-econquista-mundial-de-clubes>. Acesso em: 4 ago 2013. 23 Disponível em: < http://republica.corinthians.com.br/>. Acesso em: 8 ago 2103. 24 ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 33 tornar um seguidor de um determinado clube: ele passa a reconhecer, mas, principalmente, passa a ser reconhecido, transmitindo e assimilando as ideologias daquele grupo, ele se integra e se identifica. 2.1. O Futebol, a História e o Time do Povo O historiador Hilário Franco Junior (2007) descreve a chegada do futebol ao Brasil assim: O pontapé inicial no esporte que se tornaria a paixão nacional faz parte de uma história oficial pontilhada de características quase míticas. Da mesma forma que na Inglaterra, onde a elite se apresentou como a criadora e organizadora do futebol, no Brasil sua introdução foi atribuída ao jovem paulistano Charles Willian Miller, filho de um engenheiro escocês aqui radicado. Enviado a Inglaterra com nove anos para completar seus estudos, Miller retornou em 1894 trazendo em sua bagagem um verdadeiro arsenal litúrgico: dois uniformes, um par de chuteiras, duas bolas, uma bomba de ar, um livro de regras e o desejo quase apostólico de desenvolver o esporte entre seus pares... (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 60). Dessa forma, o futebol brasileiro teve origem na elite, assim como os primeiros clubes que surgiram no país. O primeiro deles foi o São Paulo Athletic Club (SPAC)25, fundado em 13 de maio de 1888 pelos trabalhadores e engenheiros ingleses que construíam a primeira ferrovia paulista, a São Paulo Railway. O objetivo era criar o primeiro clube esportivo de São Paulo para a prática do críquete, esporte britânico. No entanto, quando Charles Miller voltou da Inglaterra, trouxe consigo a ideia da prática de outros dois esportes: o rúgbi e o futebol. Como era um associado bastante conhecido do SPAC, tornou-se responsável por reunir tanto os ingleses quanto os paulistas, que faziam parte do clube, em torno desses esportes. Os associados aderiram ao futebol e o rúgbi foi esquecido, como é possível constatar e, atualmente, o SPAC não conta mais com um time de futebol profissional, embora exista até hoje com o nome de Clube Atlético São Paulo. O primeiro jogo oficial do Brasil só ocorreu em 1895 entre o São Paulo Railway (SPR) - time formado com os jogadores amadores do SPAC e os 25 Disponível em:< http://spac.org.br/>. Acesso em: 11 jul 2013. 34 engenheiros britânicos, contratados para a construção da São Paulo Railway versus a The Gas Co, a companhia de gás de São Paulo, vigente à época. O resultado foi 4x2 para o SPR, com dois gols de Charles Miller26. Figura 10 – Primeira Partida Oficial no Brasil27 Pouco tempo depois, outros clubes surgiram, aderindo ao esporte, até então, elitizado, entre eles: o Sport Clube Rio Grande, em 1900; a Ponte Preta, em 1900; o Vitória de Salvador, em 1901; o Fluminense, em 1902, que permanecem até, no entanto, muitos clubes criados à época acabaram sendo extintos ou deixando o futebol para focar em outras atividades, como é o caso do Athletic Club Paulistano, o Clube Pinheiros (antigo Germânia) e a Associação Atlética Mackenzie College, que pertencia ao Colégio Mackenzie.28 Esporte de Bacharéis num país caracterizado por gigantesca desigualdade social, esporte de brancos em uma sociedade com marcas ainda expostas do escravismo, esporte associado a ícones do progresso e da industrialização numa economia ainda essencialmente agrária, o futebol, tornou-se desde o inicio um dos ingredientes mais importantes dos debates acerca da modernização do Brasil e da construção da identidade nacional. (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 61). 26 Disponível em: <http://virgula.uol.com.br/esporte/futebol/primeira-partida-de-futebol-oficial-nobrasil-completa-114-anos>. Acesso em: 11 jul 2013. 27 Disponível em: < http://virgula.uol.com.br>. Acesso em: 5 abr 2013. 28 Idem. 35 Para entender como um esporte elitista transformou-se em um fenômeno das massas, Hilário Franco Júnior (2007, p. 62) apresenta alguns cenários possíveis de contato das massas com o futebol. O autor cita como exemplo, o jogo ballon anglais, muito similar ao futebol que já era praticado pelos padres jesuítas em 1880. O autor destaca também notícias do mesmo ano que mencionavam o fato de marinheiros ingleses jogarem partidas de futebol nas praias cariocas, em dias de folga e, por fim, ainda segundo Franco Jr. (2007, p. 62), há registros de uma partida realizada em 1878, que teria sido disputada em frente à residência da Princesa Isabel. Entretanto, ainda que não se possa afirmar com certeza qual tenha sido a origem do contato das massas com o futebol, em pouco tempo, a ideia de identidade nacional começou a surgir para ajudar na popularização do esporte. Em 1919, o Brasil recebeu o campeonato sul-americano 29 e, embora tivesse uma cobertura tímida da mídia, o esporte já demonstrava contornos patrióticos, conforme trechos de matéria publicada no Jornal o Estado de São Paulo de 29 de maio de 1919, dia do jogo entre Brasil e Uruguai. No círculo dos jovens, considera-se impatriótico o desinteresse do desfecho do certâmen continental, declarado que seja por um brasileiro! … e nas rodas mundanas, não se admite nem por esnobismo, uma afirmativa desta 30 natureza. (O Estado de São Paulo – Quinta Feira 29 de Maio de 1919) Figura 11 – Jornal O Estado de São Paulo de 29/05/1919 31 29 Atualmente o campeonato sul-americano de futebol é disputado com o nome de Copa América. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19190529-14756-nac-0005-999-5-not.>, p. 5. Acesso em: 15 jul 2013. 31 Idem. 30 36 Fonte: http://acervo.estadao.com.br Ao mesmo tempo em que esse sentimento de identidade patriótica envolvia o esporte e ajudava a popularizá-lo, fazendo com que alcançasse as camadas mais baixas da sociedade, outro acontecimento contribuía ainda mais para que isso ocorresse. Algumas fábricas utilizavam a prática do esporte entre os operários como processo de recreação. À medida que as equipes formadas nas fábricas obtinham sucesso, os diretores percebiam que tinham, através do esporte, uma grande ferramenta de divulgação dos seus produtos e, assim, ofereciam alguns benefícios aos operários que jogassem melhor: “Operário que jogasse bem futebol, que garantisse um lugar no primeiro time, ia logo para a sala do pano.” 32. (FILHO, 2003, p. 84). Nesse período, teve início também, ainda que de maneira tímida, a remuneração de jogadores através do chamado bicho 33. Entre os anos 1920 e 1940, o futebol já era considerado um “fenômeno popular de massa”, como aponta Lívia Magalhães (p.18) 34. Prova disso é que a maior parte dos clubes que têm grandes torcidas e ainda jogam profissionalmente, nos dias de hoje, foram fundados no Brasil entre 1900 e 1940. Apesar dessa popularização, nesse período, os grandes clubes patrocinados instituíram ligas com altas taxas de adesão, mas com uma série de requisitos a custos onerosos que só os grandes clubes e os que pertenciam às empresas podiam suportar. Os ingressos para acompanhar as partidas também passaram a ser cobrados, com valores elevados, tais medidas visavam excluir as camadas sociais mais baixas35. Mesmo com os esforços da elite na segregação dos participantes do esporte, outros grupos sociais excluídos e desfavorecidos começaram a jogar partidas de futebol em campos improvisados nas regiões periféricas de todo o país, criando ligas 32 Sala do pano: termo usado para distinção de um trabalho mais leve e tranquilo. Pagamento de bicho: pagamento por fora, pagamento de valores sem contabilização ou vínculo. 34 MAGALHÃES, Lívia Gonçalves. Ensino e Memória: Histórias do Futebol. Arquivo Público do Estado de São Paulo, 2004, p.16. 35 STREAPCO. João Paulo França, “Cego é Aquele que só Vê a Bola” o Futebol em São Paulo e a Formação das Principais Equipes Paulistanas. Dissertação do curso de pós-graduação em História Social, da Universidade de São Paulo, 2011, p. 35. 33 37 locais e campeonatos de várzea, formando assim as comunidades da bola. Assim, o espaço antes dominado pela elite, aos poucos, foi invadido por essas comunidades e o futebol transformou-se em uma massa heterogênea com características semelhantes à da sociedade brasileira36. Times de futebol, antes criados por oligarcas, passaram a ser fundados também por comunidades, operários, etnias etc. Dessa maneira, foram instituídos espaços para a ideia de identificação, vínculo e comunidade. Nesse período, surgem clubes que corroboram com a ideia de popularização do esporte, como é o caso do Internacional de Porto Alegre, fundado em 1909, inspirado no extinto Internacional de São Paulo, cuja principal característica era aceitar a presença de imigrantes, migrantes e negros, impondo claramente sua política a outros clubes da cidade que não aceitavam tais condições, devido à sua formação elitista, caso do Grêmio FootBall Porto Alegrense37. Seguindo a mesma linha do Internacional, o Sport Club Corinthians Paulista foi fundado no dia 1º de setembro de 1910, por um grupo de operários que residiam e trabalhavam na região do Bom Retiro. A escolha do nome foi uma homenagem a um clube amador londrino, também de origem operária, que excursionara pelo Brasil no mesmo ano de sua fundação e derrotara todos os clubes de elite do futebol nacional38. Assim, “sob a luz do lampião” nascia ali uma paixão. Às 20h30 do dia 1º de setembro, à luz de um lampião, na esquina das ruas José Paulino e Cônego Martins, no bairro do Bom Retiro, o grupo de operários formado por Anselmo Corrêa, Antônio Pereira, Carlos Silva, Joaquim Ambrósio e Raphael Perrone fundaram o Sport Club Corinthians Paulista. Com mais oito rapazes, foi formada a reunião dos primeiros integrantes e sócio-fundadores [...] teve seu nome inspirado na equipe inglesa Corinthians-Casuals Football Club, que fazia excursão pelo Brasil [...] O presidente escolhido por eles foi o alfaiate Miguel Battaglia, que, já no primeiro momento, afirmou: "O Corinthians vai ser o time do povo e o povo é 39 quem vai fazer o time.". 36 Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/campeonato_paulista-historia.shtml>. Acesso em: 11 jul 2013. 37 Disponível em: <http://www.internacional.com.br/pagina. php?Modulo=1&setor=1&secao=1&subsecao=>. Acesso em: 25 jul 2013. 38 Disponível em: <http://www.corinthians.com.br/site/clube/historia/>. Acesso em: 25 jul 2013. 39 Disponível em: < http://corinthians.com.br/site/clube/historia/>. Acesso em: 15 jul 2013. 38 Na primeira década do século XX, o bairro do Bom Retiro era o reduto de todos os imigrantes e pobres de São Paulo, em um período em que o preconceito vigorava e as relações entre imigrantes, etnias e classes sociais eram conturbadas. Em 1910, São Paulo era uma cidade de crescimento e oportunidades, mas também de preconceitos e exclusões. Os italianos, os espanhóis, os síriolibaneses, os afro-descendentes e os primeiros imigrantes japoneses eram considerados “gente de fora”, bárbaros que vinham servir de mão de obra barata e, como efeito colateral, perturbar a tranquilidade quatrocentona. O Bom Retiro era o principal reduto dessa magnífica diversidade, uma babel de inúmeras línguas e dialetos. Ali, fervia a luta dos anarquistas, inspirados 40 principalmente por Bakunin e Malatesta. (FALCETA JR. 2009) . O pensamento politico-anarquista presente no bairro não via com bons olhos o futebol por enxergar ali um esporte elitista e um instrumento de alienação, embora não negasse a capacidade de mobilização que o esporte trazia consigo: Nas altas esferas do movimento, o futebol era tido como esporte das elites. Muitos o consideravam um fator de alienação política. No entanto, os agitadores ensinavam em seus discursos: “se for para praticar esse jogo de bola, organizem-se autonomamente, façam e dirijam seus próprios clubes”. 41 O Corinthians nasceu da obediência a essa regra. O Battaglia Michelle havia ouvido falar desse novo pensamento em seus contatos com os operários da Light. Por isso, ao definir o novo clube, resolveu adaptar uma frase do italiano Errico Malatesta. O ativista repetia sempre: “não queremos emancipar o povo, mas dar condições para que o próprio povo se emancipe.” Michelle, homem inteligente, determinou: “o Corinthians é o time 42 do povo, e é o povo que vai fazer o time.”. (FALCETA JR., 2009) Assim, nascia ali o time do povo, como o Corinthians é conhecido até hoje. Não demorou muito tempo para que o time começasse a chamar atenção nos campeonatos de várzea, que ocorriam em paralelo à Liga Paulista, formada pelos clubes da elite. Como já havia uma crescente demanda popular pelo clube e também por jogadores, a liga convidou o Corinthians para participar do campeonato em 1913. E já em 1914, sagrou-se campeão paulista, fato que se repetiria 27 vezes, o que torna o Sport Corinthians Paulista o maior campeão paulista em títulos totais. 40 FALCETA JR. Walter. Salvatore Battaglia: O Povo Em Primeiro Lugar, 2009. Disponível em: <http://republica.corinthians.com.br/page/artigos>. Acesso em: 16 jul 2013. 41 Battaglia Michelle foi um dos fundadores do Sport Club Corinthians Paulista. Disponível em: < http://corinthians.com.br/site/clube/historia/>. Acesso em: 15 jul 2013. 42 FALCETA JR. Walter. Salvatore Battaglia: O Povo Em Primeiro Lugar, 2009. Disponível em: <http://republica.corinthians.com.br/page/artigos>. Acesso em: 16 jul 2013. 39 Mas o fenômeno de popularidade do Corinthians, embora venha desde sua origem, ocorre no mais improvável dos cenários, entre 1954 e 1977, anos em que o Corinthians amargou um jejum de 23 anos sem conquistas de títulos importantes, período em que a torcida ganhou a denominação de “Fiel Torcida”, por nunca deixar de acreditar no time. Hoje, segundo pesquisa realizada pela Pluri Consultoria 43 , divulgada em março de 2013, estima-se que o Corinthians tenha entre 25 e 30 milhões de torcedores por todo o país, o que dá a segunda colocação ao time que só perde para o Flamengo. Em seus 103 anos, o Sport Club Corinthians Paulista construiu uma história que se confunde com a história do futebol brasileiro. A profissionalização dos times brasileiros só ocorreu em 1941 e o esporte contou com os esforços do regime de Getúlio Vargas para tornar-se, efetivamente, o esporte nacional. Na mesma lógica que orientava as medidas corporativistas do Estado Novo, em 1941 foi criado o Conselho Nacional dos Desportos (...) e tinha o poder de fiscalização, normatização e organização de todas as modalidades esportivas no país. Seus objetivos eram a modernização desportiva e sua utilização para legitimidade do regime. (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 81). Durante a Segunda Grande Guerra, tais esforços foram interrompidos, mas o governo de Getúlio Vargas tinha interesse político de que houvesse uma maior difusão do esporte, em especial do futebol e, para isso, os meios de comunicação foram fundamentais. Nesse período, segundo Franco Júnior (2007), a imagem do futebol brasileiro que era “vendida” era a da noção de civismo que o esquete canarinho carregava, criando assim uma unidade, uma representação de orgulho patriótico, embora a maioria dos jogadores fosse de clubes cariocas, excluindo o resto da nação. A terceira colocação obtida no mundial de 1938, na França - ocasião na qual Leônidas da Silva sagrar-se-ia como artilheiro da competição - fez com que eclodisse no país um carinho especial pelo esporte, mais um passo importante dado em direção à construção da identidade nacional. 43 Pluri Consultoria Marketing e Gestão Esportiva 40 A respeito da questão da identidade nacional, Bauman afirma que: A identidade nacional [...] nunca foi como as outras identidades. Diferentemente delas, que não exigiam adesão inequívoca e fidelidade exclusiva, a identidade nacional não reconhecia competidores, muito menos opositores. Cuidadosamente construída pelo Estado e suas forças [...] A identidade nacional objetivava o direito monopolista de traçar a fronteira entre “nós” e “eles”. À falta do monopólio, os Estados tentaram assumir a incontestável posição de supremas cortes passando sentenças vinculantes sem apelação sobre as reivindicações de identidades litigantes. (BAUMAN, 2005, p.28) Nessa construção, o futebol exerceu um papel muito importante, as origens multirraciais brasileiras deixaram de ser observadas de maneira depreciativa e passaram a caracterizar a identidade brasileira. As origens negras e indígenas deixam de ser a vergonha nacional e passam a se transformar na principal característica do povo – é a “brasilidade”, a grande miscigenação, que acaba por definir um estilo próprio de futebol, o chamado “futebol arte”, caracterizado pela ginga, ligeireza e criatividade própria do povo brasileiro (RIBEIRO, 2003, p.3.). 2.2. A Nação e seu Time: O Simbolismo da Torcida e a Comunidade Imaginada A elaboração simbólica do futebol no Brasil ocorre a partir da percepção da imagem de nação ideal. Dessa forma, as torcidas podem ser compreendidas como uma comunidade imaginada 44 , conceito elaborado por Benedict Anderson (2008) que parece descrever bem o cenário do futebol no Brasil. Quando o autor criou essa teoria, estava pensando na formação de grupos sociais que se ligavam por um sentimento de pertença, fosse religioso, emocional, ideológico, cultural ou político. Embora Anderson tivesse como fonte de observação a sociedade britânica, as características que definem “as comunidades imagináveis” podem ser aplicadas em diferentes cenários, caso do ambiente do futebol, já que não há como negar os vínculos e elos de pertença que são criados entre torcedores e equipes, onde se originam instituições e simbolismos. 44 ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 41 Para Benedict Anderson (2008, p. 29), as culturas nacionais não são formadas apenas por instituições culturais, mas também por esses símbolos e representações, pois, de acordo com o autor, as culturas nacionais nada mais são do que discursos que se apropriam e propõem novos elementos na construção da unidade social, uma forma de construir sentidos que influenciam e organizam as nossas ações e fomentam a concepção que temos de nós mesmos, criando “produtos” modulados que podem ser criados e transpostos de um a outro como os preceitos que cercam a imagem dos torcedores corintianos: maloqueiros e sofredores. Ideia concebida por um indivíduo e transposta a outros, não só pelo conceito, mas também pelo simbolismo. Depois de criados, esses produtos se tornaram “modulares”, capazes de serem transplantados com diversos graus de autoconsciência para uma grande variedade de terrenos sociais, para se incorporarem e serem incorporados a uma variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas. (ANDERSON, 2008, p. 30). No Brasil, as relações de identidade com os clubes de futebol constituem-se em um vínculo tão forte quanto os laços familiares e os religiosos. Com base em Benedict Anderson (2008, p. 30), a percepção aponta que o pensamento é “livre” na escolha entre este ou aquele clube, porém o paradoxo é que essas escolhas não estão tão libertas como se pressupõe, elas dependem de uma série de fatores como família, amigos e rede sociais. Assim, o futebol transmite seus valores e os clubes arrebanham seus adeptos que, por sua vez, assimilam e criam simbolismos relacionados à identificação com determinado grupo, formando uma comunidade sem espaço físico pré-determinado, mas ligada pelos pensamentos imaginativos de desejos, angústias, alegrias, raiva, solidariedade etc. Tudo que a “nação” criada proporciona. Embora a palavra nação tenha um simbolismo territorial e traga em sua essência a ideologia política, “as comunidades imaginadas” nada mais são do que o simbolismo de uma nação ideal, como afirma Benedict Anderson (2008, p. 30). É interessante destacar que a palavra nação é utilizada para designar as torcidas brasileiras: “nação corintiana”, “nação rubro-negra”, “nação alviverde”, “nação tricolor” etc., e que tal uso não se restringe aos veículos midiáticos. O fato é que essa “nação” sempre estará presente na imaginação, não de forma física, real, mas 42 nos elementos que propiciam a junção de pessoas, ou seja, única e exclusivamente no campo das relações interpessoais. Assim, dentro da identidade do futebol - a grande comunidade imaginada muitas outras seriam criadas: as das seleções, dos clubes e até as das torcidas dentro de torcidas, como é o caso das torcidas organizadas, que são muitas dentro de uma única. É óbvio que a maior identificação é com o clube, porém os laços identitários podem fazer surgir várias comunidades dentro de uma comunidade. Por exemplo, o Corinthians tem dentro de sua torcida, grupos como Gaviões da Fiel, Camisa 12, Pavilhão Nove, Coringão Chopp, Beco Alvinegro, entre outras de menor expressão. O mesmo acontece com outros clubes, ou seja, embora todas as torcidas tenham em comum a paixão pelo time, têm posicionamentos políticos e simbolismos diferentes, o que, às vezes, gera confrontos entre torcidas de um mesmo clube. Um exemplo que pode ser citado dessa rivalidade é o das duas principais torcidas do Santos Futebol Clube, a Torcida Jovem e a Sangue Jovem, que embora partilhem o mesmo interesse pelo clube, são tão rivais nas arquibancadas que são colocadas em cantos distantes no estádio para que não entrem em confronto45. Na verdade, as torcidas são imaginadas como um todo, pois os indivíduos não se encontram, não se ouvem ou interagem, seja com os outros membros da torcida da qual fazem parte, seja com os integrantes da equipe de sua preferência. O torcedor imagina-se e imagina os outros como membros que pertencem a uma mesma coletividade, a uma mesma comunhão. O futebol carrega consigo valores sociais que fazem com que o esporte arrebanhe diversos públicos, de classes sociais mais altas ou mais baixas. Trata-se de um fenômeno social que boa parte do mundo pratica ou acompanha, com certa regularidade. No Brasil, para confirmar a assimilação do esporte bretão, os meios de comunicação privilegiam as suas transmissões em detrimento de outras práticas 45 Disponível em: < http://www.gazetaesportiva.net/noticia/2011/09/santos/por-briga-organizadas-dosantos-sao-proibidas-de-irem-aos-estadios.html>. Acesso em: 30 mar 2014. 43 esportivas e conteúdos culturais, reforçando a ideia do futebol como uma das principais manifestações coletivas do país, fomentando ainda mais o sentido de nação, de comunidade imaginada, onde a seleção brasileira - detentora de 5 conquistas mundiais – torna-se o principal ícone de orgulho nacional e aglutinadora da imaginação coletiva. A perspectiva que Benedict Anderson (2008) destaca como a ideia de nacionalismo e comunidade imaginada se enquadra perfeitamente com as relações instituídas e a identificação e necessidade de pertença dos torcedores com o esporte. Como forma de ilustrar as reflexões dos diferentes pensadores a respeito dessa ideia de identificação e necessidade de pertença dos indivíduos, recorremos a Todorov (1996) que discorre sobre a vida comum, as relações sociais do homem e os seus interesses. O ponto de partida para a reflexão é a análise das diferentes correntes sociais, Todorov apresenta a visão dos pensadores que ele denomina como “os grandes moralistas” 46 que, ao se dedicarem à análise dos costumes e dos hábitos da sociedade, viam o ser humano como um prisioneiro nas redes das relações sociais. Segundo esse raciocínio, o homem é refém das relações por fraqueza, pois busca no outro uma relação de aprovação e aceitação. Ainda de acordo com Todorov, pensadores como Montaigne e La Rochefoucauld partilhavam essa ideia, para eles, os laços estabelecidos com o outro deveriam ser dispensados, porque o homem deveria ser autossuficiente e, assim, não ter necessidade dessas amarras sociais. Quando Montaigne quer dar um conselho a seus semelhantes, assim se exprime: “façamos com que nosso contentamento dependa de nós mesmos, desfaçamos todos os laços que nos ligam aos outros, obtenhamos o poder de viver conscientemente e assim viver à vontade.” “Deixar de lado juntamente com as outras veleidades aquela que vem da aprovação dos outros”. Portanto, é possível e ao mesmo tempo louvável libertar-se das relações com os outros seres humanos e especialmente do pedido de aprovação que dirigimos. (TODOROV, 1996, p. 14). Outros autores como Pascal apesar de realizarem uma reflexão semelhante a respeito da necessidade que o ser humano tem do outro, possuíam uma ótica 46 Pensadores que seguem uma linha de condenação da vida em sociedade. TODOROV, Tzvetan. A vida em comum: Ensaio de antropologia geral. São Paulo: Papirus, 1996, p. 24. 44 diferente: “Não nos contentamos com a vida que temos em nós e em nosso ser: queremos viver na ideia dos outros, uma vida imaginária e assim nos esforçamos para que assim pareça.” (PASCAL apud TODOROV, 1996, p. 14). Seguindo a linha de Pascal, Todorov apresenta a primeira grande versão da concepção individualista em que o homem não sabe ser autossuficiente e, por isso, entrega-se à fugacidade da socialização, à qual denomina de real, e constata que o ideal é a solidão. Porém, a versão predominante da oposição entre o ideal e o real, da sociabilidade e da solidão é, geralmente, de outra natureza: desde a Renascença, deixa-se de associar a “natureza” ao “ideal”, passando-se a enxergá-la no que de chamará de real. Essa mudança se opera simultaneamente nas teorias políticas e na psicologia. Maquiavel e Hobbes tornaram-se símbolos desse pensamento como assevera Todorov (1996, p.15). O homem ocupa-se dos outros apenas na aparência e para atender às exigências da moral oficial. Na realidade ele é um ser puramente egoísta e interesseiro, para quem os outros não passam de rivais ou obstáculos. Se não estivesse sujeito a poderosas imposições da sociedade e da moral, o homem, ser essencialmente solitário, viveria em guerra perpétua com os seus semelhantes em uma busca desenfreada pelo poder. (TODOROV, 1996, p. 15). Ainda para Todorov, nessa concepção filosófica, a dependência social que o homem sente do outro é vista como uma fraqueza, que contraria a sua própria natureza solitária, porque a sociabilidade faz com que o homem desenvolva personas que não são, necessariamente, o ideal de si, mas simulacros de um real submetido aos interesses egoístas de aceitação e poder, pois tal aceitação social implica em uma busca do homem pelo poder: a busca de pertença em um grupo social, em qualquer esfera social que seja. Nas torcidas organizadas, no entanto, a necessidade de pertença acaba, por sua vez, fazendo com que o indivíduo crie uma persona que seja aceita pelo grupo ao qual quer pertencer, contrariando e subjugando, até mesmo, outros graus de identificação que esse indivíduo possa ter, porém essa abnegação só acontecerá à medida que for saciada a busca pela pertença e pelo sentimento de poder. Kant, outro filósofo citado por Todorov, descreve a paixão humana central que leva cada um a buscar se apropriar do poder para ter ascendência sobre os outros. 45 Ele subdivide essa paixão em 3 partes: sede de honrarias, sede de dominação e sede de bens. A primeira apresenta-se pela necessidade de reconhecimento ou honrarias que devem ser outorgados pelo outro, a segunda pela busca da submissão do outro e última pelo caráter cumulativo de materialidade. (TODOROV, 1996, p. 18). Assim, devido à incompletude humana originária das necessidades de pertencimento, reconhecimento e busca pela subjugação do outro, fica clara a prédisposição para a sociabilidade. No esporte, a busca pela vitória, que significa a subjugação do outro, ou a frustração com a derrota, isto é, a ideia de ser subjugado, enquadra-se nessa definição. Segundo a concepção freudiana das relações humanas, o indivíduo é provido de diversas pulsões biológicas que exigem serem satisfeitas e, para que isso ocorra, existe a necessidade - em maior ou menor grau - da relação com o outro, ou seja, a interação com o “objeto” a fim de satisfazer tais pulsões. Dessa maneira, os outros são um meio para o indivíduo alcançar seus próprios fins, na busca da satisfação dos seus instintos que nascem com ele, antes mesmo que ele tenha contato com outras pessoas. Nesse caso, os instintos do lúdico, dos jogos, da violência como arquétipos históricos nos levam também a algumas pulsões pela memória primitiva. (TODOROV, 1996, p. 69) Partindo das teorias das pulsões humanas reportadas por Freud no livro As Pulsões de Morte e de Vida, Todorov (1996, p. 69) propõe uma tríade entre ser, viver e existir. A pulsão “ser” é identificada com toda a matéria, a pulsão “viver” seria partilhada por todos os seres viventes e, por fim, a pulsão de “existir”, especificamente humana, embora Freud admita que essa pulsão também possa ser reconhecida, mesmo que minimamente, em outros seres como no caso da troca de olhares e na emissão de sons entre os animais, quando fazem a corte. A pulsão “ser” é compartilhada no que se refere à materialidade, algo inerente ao estado físico da matéria, a pulsão do vazio, da inércia do homem perante si e tudo ou a pulsão da repetição frenética de atividades rotineiras – que é identificada, em casos extremados, com a depressão e a ausência de si - ou ainda a atividade em excesso condensada no mesmo fazer. Já a pulsão “viver” - inerente a todo o ser 46 vivente - refere-se à necessidade de sobrevivência, a fome e a sede são exemplos dessa pulsão. Em ambos os casos o homem divide tais pulsões com outros seres, quase que igualitariamente, diferentemente do que o que ocorre com a pulsão “existir”. Isso por que existir se dá através do reconhecimento do outro, ou seja, é a busca por interação e a percepção de existência através da interação. “O homem vive talvez inicialmente em sua pele, mas começa a existir apenas a partir do olhar dos outros.”. (TODOROV, 1996, p. 67) Todorov reconhece que as pulsões de “ser”, “viver” e “existir” podem ser complementares, mas também podem estar de lados opostos: Não é seguro, como parece crer Schopenhauer, que preferimos viver a existir. Com frequência renuncia-se aos prazeres sensuais, a comida, e o gozo sexual, para buscar prazeres “simbólicos”, a aprovação dos outros ou a aquiescência de parte de nossa própria consciência. (TODOROV, 1996, p. 68). Ainda segundo Todorov, a necessidade desse reconhecimento no outro, presente na pulsão “existir”, nasce e morre com o indivíduo, acompanhando-o desde a tenra idade até o leito de morte. E, assim como ocorre no transcorrer da vida, essa pulsão cresce no início e diminui no final, o aumento da solidão e do isolamento do idoso faz com que ocorra a diminuição de sua existência. Mais do que qualquer outra ação, o reconhecimento é fundamental para a condição da existência humana, porém ele “apresenta também uma singularidade estrutural: aparece, em certo sentido, como o duplo obrigatório de todas as outras ações.” (TODOROV, 1996, p. 89). Um exemplo da afirmação do autor pode ser observado ao se acompanhar o desenvolvimento de uma criança: ela recebe a confirmação de sua existência pelo fato de o outro interagir com ela - seja através de uma linguagem gestual ou oral - e nas brincadeiras, a cooperação entre os participantes tem na imitação das figuras materna e paterna o referencial e o modelo de reconhecimento. O reconhecimento engloba inúmeras possibilidades e diversos aspectos a serem ponderados, pois ele passa pelo crivo daquele que o reconhece e esse, por sua vez, é suscetível a diversas particularidades que irão afetar a condição do 47 reconhecer. Todorov aponta diversos fatores que dão a noção da abrangência do processo de reconhecimento: Poderíamos para começar, enumerar algumas fontes da diversidade, externas a noção em si. O reconhecimento pode ser Material ou Imaterial, da riqueza ou das honrarias, Implicando ou não exercício do poder ser consciente ou inconsciente, acionando mecanismos racionais ou irracionais. (TODOROV, 1996, p. 90). O homem está e é suscetível à percepção espelhada com base no seu duplo, o reconhecimento se dá por diversos fatores, mas retornando ao princípio das visões do homem egoísta, percebe-se uma predileção pelos interesses individuais para a formação do coletivo, por exemplo: um grupo social online, reunido em um fórum sobre futebol, terá reconhecimento positivo junto aos torcedores do mesmo time, em contrapartida, o reconhecimento dos torcedores de outras equipes ocorrerá de maneira depreciativa, em ambos os casos - seja como aliado ou rival - há o reconhecimento. A respeito do reconhecimento “depreciativo”, Todorov (1996, p. 94) citando La Rochefoucauld, escreve: “É preferível que falem mal de mim a que não falem nada.” Essa afirmação demonstra a necessidade contida no reconhecimento do outro, é a partir dela que ocorrem a noção e a necessidade do homem na condição de “existir”. Assim, as teorias e reflexões apresentadas por Todorov (1996) demonstram a dependência do homem em relação ao reconhecimento do outro e a necessidade do social como forma de preenchimento da pulsão da existência, além disso, evidenciam a incompletude do homem em relação à sua autossuficiência e expõem, fundamentalmente, a importância das relações constituídas e a interação com o outro para o reconhecimento e a validação de sua existência. Quando um torcedor fala “eu sou corintiano”, faz uma afirmação de identidade muito mais do que uma afirmação sobre sua preferência por determinado clube. Essas declarações carregam consigo uma série de simbolismos, dogmas e trazem em si, fundamentalmente, a necessidade de reconhecimento para a sustentação do seu “eu”. As torcidas de futebol só se tornam possíveis através do reconhecimento do outro, à medida que o “eu” passa a ser visto e não seja mais uma esfera particular. 48 Todorov (1996) afirma que o homem parte da necessidade de reconhecimento do outro para outorgar ou validar a sua ação, sem tal reconhecimento não se constitui uma relação de interação e a realização da ação se torna inexistente. Com base nas reflexões expostas, verifica-se como a necessidade de reconhecimento e identidade faz com que o indivíduo, partindo de seus próprios interesses e da sua necessidade de ser percebido, construa suas relações em grupos sociais para obter nele o reconhecimento da sua existência - caso das torcidas. O futebol e todas as nuances que cercam o esporte são propícias à aglutinação e ao desenvolvimento dessas relações de pertença. Assim, o reconhecimento não é meramente um reconhecimento superficial, mas sim um reconhecimento simbólico, em que mesmo os menos aficionados estampam em si o simbolismo e a relação de vínculo criada com o clube. Assim, “em um mundo em que tudo o mais se desloca e muda e em que nada é certo”, “homens e mulheres procuram grupos de que possam fazer parte, com certeza e para sempre”, ideia que, indiscutivelmente, ajusta-se com perfeição à Fiel Torcida Corintiana.47. 47 HOBSBAWM, Eric apud BAUMAN, 2001, p. 196. 49 3. RELEVÂNCIA DOS VÍNCULOS COMUNICACIONAIS PARA A CONSTITUIÇÃO DAS COMUNIDADES As imagens são representações visíveis que cercam os indivíduos. São instantes únicos, marcados em um tempo e espaço precisos que, quando capturados, descrevem fatos e contam histórias, para além das palavras. As imagens que cercam os jogos de futebol surgem carregadas de simbolismos e ritos tão significativos quanto aqueles que os times trazem quando entram em campo. Neste capítulo, o objetivo é demonstrar, através das imagens, o vínculo comunicacional criado entre a torcida corintiana e o seu clube, assim como a instituição de uma identidade comunitária corintiana. 3.1. Corinthians, Vínculo e Comunicação de Fé Não há como negar a presença ritualística no futebol e o fato de ele ser comparado à religião por muitos, o que não chega a ser uma heresia, já que os estádios se tornam templos de orações, rezas e flagelações. Demonstra-se ali uma pré-disposição do esporte para ser um ritual carregado de dogmas. Aceitando o futebol enquanto forma religiosa, os dogmas evidentemente são as regras que regem sua prática. Da mesma forma que não há judeu 48 sem circuncisão, ou cristão sem batismo, ou muçulmano sem Shahada , não há futebol oficial sem as dezessete regras aceitas pela FIFA, espécie de igreja que encabeça toda a hierarquia de arcebispos (Confederações), dioceses (federações), paróquias (federações locais), inquisidores (juízes), e clérigos (jogadores). (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 281) O reconhecimento dos graus hierárquicos no futebol aponta para a existência de uma estrutura muito similar à de diversas religiões, cujo objetivo é fazer com que seu “rebanho” siga seus dogmas de maneira plena. Tais dogmas e ritos presentes na atmosfera que envolve o futebol vão desde a fé religiosa, propriamente dita, até a influência de ritos pagãos na construção comunicacional da identidade. Em uma atmosfera que mistura o sagrado e o profano, torcedores rezam pelos seus times em campo ou em territórios sagrados, como as igrejas. E, assim, a torcida corintiana mostra sua fé: 48 Shahada - Profissão da fé 50 Figura 12 – Peregrinação da torcida organizada do Corinthians até a cidade de Nossa Senhora de Aparecida em comemoração ao aniversário do clube49 Figura 13 – Crianças corintianas dentro da Basílica de Nossa Senhora Aparecida50 49 Disponível em: < http://globoesporte.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/201401/torcidacanta-hino-do-corinthians-em-missa-na-basilica-de-aparecida-video.html >. Acesso em: 4 abr 2014. 50 Idem. 51 Observamos nas imagens, a relação de vínculo comunicacional e comunitário através da fé. A comemoração, dentro da Catedral de Nossa Senhora Aparecida, com os cânticos entoados nos estádios, tinha um caráter simbólico de agradecimento pelos triunfos recentes do time, mas também tinha como finalidade amenizar o impacto negativo causado sobre a imagem das torcidas organizadas do time, principalmente, em razão do incidente que causou a morte de um menino boliviano em uma partida pelo torneio continental Libertadores da América.51. Figura 14 – Torcedora do Corinthians rezando para o time vencer e espantar a ameaça de rebaixamento em 2013 52 51 Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/201401/torcidacanta-hino-do-corinthians-em-missa-na-basilica-de-aparecida-video.html>. Acesso em: 4 abr 2014. 52 Disponível em: < http://esporte.uol.com.br/album/futebol2/0111128/sofrimento-corintian.htm>. Acesso em: 4 abr 2014. 52 Figura 15 – Torcedor do Corinthians agradece a conquista da Libertadores53 Figura 16 – Torcida de Maringá mostra a imagem de São Jorge como reverência de fé, antes do jogo do Corinthians no Mundial de Clubes de 2012 54 53 Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/pbnoticia/201207torcida-da-fiel-em-joao-pessoacomemora-titulo-inedito-do-timao.html>. Acesso em: 4 abr 2014. 54 Disponível em: <http://blogdotarso.com/20121216/datafolha-corinthians-e-a-maior-torcida-dobrasil.html> . Acesso em: 4 abr 2014. 53 Figura 17 – Imagem de São Jorge símbolo de fé e proteção na sede do clube55 A devoção à figura de São Jorge, um santo pagão, também caracteriza a identidade da torcida corintiana, é um forte simbolismo religioso presente dentro da comunidade imaginada. Não é por acaso que a torcida corintiana é conhecida como a “fiel torcida”, pois, fiel é aquele que segue, reverencia, na felicidade ou agrura, tal qual prega um dogma religioso. Os fatores que corroboram para a comparação do futebol com a religião são muitos e o simbolismo comunicacional reforça essa ideia de maneira clara na percepção imagética, seja através de um recorte fotográfico ou da percepção real da atmosfera do estádio. Os cânticos de louvor e crença, os estandartes simbólicos, todos têm como raiz, em sua essência, os ritos religiosos. O próprio clube se aproveita disso para criar mais elos comunicacionais, a fim de incentivar tais simbolismos como estratégias de marketing, a Catedral de São Jorge 56, criada virtualmente é um exemplo. Ao acessar o site do Corinthians, os corintianos mais devotos podiam acender velas virtuais, endereçar súplicas e preces ao Santo padroeiro do clube, na Catedral de São Jorge, ao mesmo tempo, em que o clube lançava mão de um estandarte simbólico poderoso para alavancar ações 55 Disponível em: < http://libertosdoopressor.blogspot.com.br/201107/corinthians-lanca-site-deoracao.html>. Acesso em: 4 abr 2014. 56 Disponível em: <http://bagarai.com.br/catedral-de-sao-jorge-no-site-do-corinthians.html>. Acesso em: 4 abr 2014. 54 mercadológicas, no caso, a camisa do Corinthians, em que aparece a imagem do Santo Guerreiro. Figura 18 – Site do Corinthians - Catedral de São Jorge, virtual 57 Figura 19 – Camisa do Corinthians com a imagem de São Jorge (Catedral virtual de São Jorge) 58 57 Disponível em: < http://bagarai.com.br/catedral-de-sao-jorge-no-site-do-corinthians.html >. Acesso em: 4 abr 2014. 58 Disponível em: < http://futcamisas.blogspot.com.br/2011/05/camisa-nike-corinthians-3-2011.html >. Acesso em: 4 abr 2014. 55 3.2. Corinthians: Comunidade e Violência, o Desumano e o Humano Assim como os ritos antigos e as origens lúdicas do esporte remontam arquétipos primitivos o futebol se apropria destes simbolismos para o desenvolvimento do vinculo e criação das comunidades imaginadas dentro do esporte, mas assim como origem lúdica do esporte é absorvida outros arquétipos como o da competição, guerra e violência estão presentes dentro desta cancha chamada futebol. Como o esporte bretão tem, em sua essência, a perspectiva passional regida por Marte - como já descrevemos anteriormente - com ela vem também o lado obscuro e violento do imaginário humano. Quando há a explosão de emoção pela vitória ou pela derrota, os sinais de identificação e doutrinamento coletivo entre os torcedores (principalmente, das torcidas organizadas), podem ser resumidos na célebre frase dos três mosqueteiros: Um por todos e todos por um! (Frase, bem propícia, a propósito, já que o mosqueteiro é o mascote do Corinthians.). No entanto, tal vocação para a união converge para a violência entre torcedores de times diferentes e, até, entre torcedores de um mesmo clube. Figura 20 – Torcedores do Corinthians brigando entre si59 59 Disponível em: < http://esportes.r7.com/futebol/noticias/lula-sanciona-e-estatudo-do-torcedor-ganhaversao-mais-dura-contra-xingamentos-e-violencia-em-estadios-20100727.html>. Acesso em: 4 abr 2014. 56 Figura 21 – Enfrentamento entre torcedores corintianos e polícia 60 Figura 22 – Torcedores organizados invadem o CT do Corinthians após eliminação em 2014 61 60 Disponível em: <http://sportv.globo.com/site/programas/redacao-sportvnoticia/201402/menina-ficano-meio-da-confusao-entre-torcedores-e-pms-no-pacaembu.html >. Acesso em: 4 abr 2014. 61 Disponível em: < http://topicos.estadao.com.br/fotos-sobre-violenciatorcedores-chutam-o-portao-doct-joaquim-grava-do-corinthians-em-protesto-violento-por-eliminacao,54F4A941-BCD1-42DC-A4B7ED7C2E74E1A7 >. Acesso em: 4 abr 2014. 57 Figura 23 – Torcedores organizados invadem o CT do Corinthians após eliminação em 2009 62 Figura 24 – Confronto entre torcedores de Corinthians e Vasco em Brasília63 62 Disponível em: < http://jpfox8.blogspot.com.br/201109/indignacao-as-avessas.html> . Acesso em: 4 abr 2014. 63 Disponível em: < http://www.diariodolitoral.com.br/conteudo/17499-torcedores-da-gavioes-da-fielestao-proibidos-de-entrar-em-estadios-no-rj >. Acesso em: 4 abr 2014. 58 Figura 25 – Torcida do Corinthians dispara sinalizador que leva um torcedor boliviano à morte em 2013 64 O caso ocorrido em Oruru, na Bolívia, que ocasionou a morte do garoto Kevin Espada 65 é emblemático no sentido do vínculo da comunidade imaginada. Uma sequência de reações por parte dos torcedores, da opinião pública em geral e das diferentes mídias pôde ser observada. Em um primeiro momento, a comoção provocada pela cobertura do fato, a condenação da entidade Corinthians pelos veículos midiáticos, a posterior defesa e a “patriotada” comunitária na defesa dos torcedores corintianos presos em Oruru. Enquanto, muitos atacavam a instituição Corinthians – as diferentes mídias, os torcedores rivais ou não -, vários membros das torcidas organizadas do clube se mobilizavam para tentar libertar os presos na Bolívia, mostrando o vínculo identitário existente entre torcedores de um mesmo clube, mesmo quando, o foco é a violência. Poucos torcedores se solidarizaram com a família do garoto. 64 Disponível em: < http://robertoblogdo.blogspot.com.br/2013_02_01_archive.html >. Acesso em: 04 abr 2014. 65 Mais em: <http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/tag/kevin-espada/>. Acesso em 18 abr 2014. 59 Figura 26 – torcedores presos em Oruro, Bolívia 2013 66 3.3. Todo Time tem uma Torcida. O Corinthians é uma torcida que tem um Time. 67 Os vínculos criados pela torcida corintiana e seu clube vão muito além da simples relação de estádio, o sentido de ser corintiano para o seu torcedor é uma identidade que carrega consigo diversos aspectos simbólicos e identitários que fazem desta condição algo único e exclusivo desta comunidade imaginada. Os aspectos de unidade em torno da lealdade para com o time são visíveis fora e dentro do estádio. Como se autointitula a Fiel torcida corintiana cria uma relação de fidelidade e amor ao clube e seus adeptos, fazendo com que os distanciamentos sociais, políticos, raciais, ecumênicos etc. que permeiam a esfera social sejam transpostos quando esta comuna se encontra em um espaço de reconhecimento do corintianismo. Por mais rico ou por mais pobre que seja o corintiano se transveste figurativamente de “maloqueiro e sofredor” e como tal, incorpora aspectos identitários desta condição seja através de ritos, cânticos, 66 Disponível em: < http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/como-o-campeao-do-mundodecepcionou-sua-torcida-e-apenas-dez-meses-depois-esta-ameacado-de-rebaixamento-os-setepecados-capitais-do-corinthians-em-2013 > - Acesso em: 4 abr 2014. 67 Frase do jornalista José Roberto Aquino. Disponível em: <www.corinthians.com.br/site/clube/identidade>. Acesso em: 15 abr 2014. 60 estandartes ou até mesmo no abraço fraterno ao desconhecido social, mas conhecido irmão de torcida. Figura 27 – Torcedor do Corinthians no jogo final da Libertadores em 2012 68 Figura 28 – Torcedor do Corinthians em frente ao estádio do Pacaembu69 68 Disponível em: < blogdomiltonneves.bol.uol.com.br>. Acesso em: 4 abr 2014. Disponível em: < http://culturadigital.br/blogdofutebol/corinthians-para-o-brasileirao-2013>. Acesso em: 4 abr 2014. 69 61 Figura 29 – Mosaico Corinthians final libertadores 2012 70 Mas a ideia de vinculo e identidade comunitária não se reflete só na comunicação alegre e espontânea da vitória, da conquista não é a principal relação identitária. A queda para segunda divisão, como já exposto no capítulo 1, demonstrou uma unidade simbólica e comunicacional junto aos corintianos que mesmo humilhados pelo ocorrido, transformaram um momento de tristeza e sofrimento, em um momento de redenção, tal qual já ocorrera quando por 23 anos o Corinthians ficara sem ganhar um título 71 , a torcida incumbida deste estigma de sofredora acolhe o time e o empurra, fazendo os números crescerem em todos os níveis econômicos e em volume de adeptos, fato também já exposto. O corintiano tem a capacidade de comoção e solidariedade para com o outro sempre invocando o estigma sofredor e humilde enraizado dentro dos dogmas da comunidade. Como exemplo, um dos cânticos mais tradicionais da torcida do Corinthians. “ô, ô, Ô, ô, Corintiano, maloqueiro e sofredor, Graças a Deus!72”. 70 Disponível em: < http://esportes.terra.com.br/corinthians/mosaico-quotvai-corinthiansquot-emontado-para-decisao-no-pacaembu,77fbe534bbb9a310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD>. Acesso em: 4 abr 2014. 71 Mais sobre em: http://www.meutimao.com.br/historia-do-corinthians/fatosmarcantes/o_jejum_de_23_anos. Acesso em: 05/04/2014. 72 Mais sobre em: http://www.gavioes.com.br/p/letras_de_musicas acesso em: 18/04/2014. 62 Figura 31 – Corintianos choram após a queda para a 2ª divisão em 2007 73 Figura 32 – Corintianos chorando, em 2007, após a queda para a 2ª divisão74 Como já exposto, o rebaixamento fez com que os torcedores se unissem em prol do time, a adversidade é algo que caracteriza a torcida do Corinthians. Figura 33 – Corinthians vs CRB Primeiro jogo da segunda divisão 2007 75 73 Disponível em: < http://topicos.estadao.com.br/fotos-sobre-rebaixamento/corinthians-vai-para-asegunda-divisao,7B899214-F06F-455D-A3DF-8DFAC8F693ED >. Acesso em: 4 abr 2014. 74 Disponível em: < http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/e-impossivel-para-o-corinthians-sonhartendo-julio-cesar-no-gol-a-diretoria-e-tite-brincaram-com-a-sorte-e-o-time-pagou-com-mais-umpaulista-perdido-e-agora-nos-mata-matas-da-libertadores-22042012/ >. Acesso em: 4 abr 2014. 63 Figura 34 – Frase que virou hino da torcida na segunda divisão76 75 Disponível em: <httpbrasileconomico.ig.com.brultimas-noticiascorinthians-e-unico-time-do-paiscom-valor-acima-de-r-1-bi_132069.html (2)>. Acesso em: 4 abr 2014. 76 Disponível em: < http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/barcos-e-felipe-entraram-para-a-historiaconseguiram-o-milagre-de-ganhar-um-grande-aumento-mesmo-com-o-rebaixamento-dos-seus-timespalmeiras-e-corinthians-alcancaram-essa-facanha-09012013/>. - Acesso em: 4 abr 2014. 64 Figura 35 – Felipe, goleiro do Corinthians, pula para a arquibancada para comemorar o acesso em 2008 77 A invasão de 1976, no Rio de Janeiro, mostrou a ideia de união entre torcida e equipe, a semifinal do campeonato brasileiro serviu como impulso para a redenção e a conquista do título paulista em 1977, quebrando o jejum de 23 anos, mesmo após a derrota para o Internacional de Porto Alegre. Figura 36 – Invasão corintiana no Rio de Janeiro em 1976 78 77 Disponível em: < http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/o-corinthians-e-o-clube-mais-punido-dobrasil-por-causa-de-suas-organizadas-so-deve-jogar-no-pacaembu-em-novembro-que-fidelidade-eessa-25092013/>. Acesso em: 4 abr 2014. 78 Disponível em: <http://www.omanicomio.com.br/a-invasao-corinthiana/> . Acesso em: 4 abr 2014. 65 Figura 37 – Invasão Corintiana ao Rio de Janeiro 1976 79 Figura 38 – Invasão Corintiana ao Rio de Janeiro 1976 80 Muitos anos após a invasão corintiana de 1976, um novo deslocamento em massa da torcida ocorre e o mundo passa a conhecer - como se autointitularam os torcedores no período - um bando de loucos, invade o Japão para a disputa do mundial interclubes, que consagraria o time, ou melhor, a torcida, como bicampeã 79 Disponível em: <http://casacorintiana.blogspot.com.br/2011/01/1976-nelson-rodrigues-einvasao.html->. Acesso em: 04 abr 2014. 80 Disponível em: <http://pretoebranco.futblog.com.br/48223/INVASAO-DE-1976-NINGUEMCONSEGUIRA-IGUALAR/>.- Acesso em: 04 abr 2014. 66 mundial. O mundo fica intrigado com o fenômeno do deslocamento de brasileiro ao Japão, até o presidente da FIFA na época, Joseph Blatter, surpreende-se com a torcida do Corinthians e se diz impressionado com a paixão dos torcedores pelo clube.81 Figura 39 – Invasão Corintiana em Tóquio 2012 82 Figura 40 – Invasão Corintiana em Tóquio 2012 83 81 Mais em: http://www.lancenet.com.br/corinthians/Joseph_Blatter-Fifa-CorinthiansMundial_de_Clubes-Fiel_0_853114745.html acesso em: 18/04/2014 82 Disponível em: <http://calabarescreve.blogspot.com.br/2012/12/corinthians-historias-da-invasaodos.html>. Acesso em: 18 abr 2014. 83 Idem. 67 Figura 41 – Invasão Corintiana em Tóquio 2012 84 Figura 42 – Aeroporto de Guarulhos embarque do time para o mundial 2012 84 85 Fonte em: < http://calabarescreve.blogspot.com.br/2012/12/corinthians-historias-da-invasaodos.html>. Acesso em: 18 abr 2014 85 Idem 68 Figura 43 – Bandeira da camisa 12 que representa o 12º jogador 86 Figura 45 – Torcedor do Corinthians demonstra seu amor marcando a pele 87 Figura 46 – Sócrates comemora o gol sobre o São Paulo em 1982 88 86 Disponível em: < http://footballinflu.blog.fc2.com/blog-entry-91.html>. Acesso em: 18 abr 2014. Disponível em: < http://portalradar.com.br/natal-da-fiel-torcida/>. Acesso em 18 abr 2014. 88 Disponível em: <http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tag/campeao-brasileiro/>. Acesso em: 18 abr 2014. 87 69 Figura 47 – Torcida em homenagem a Sócrates pós-morte. 201189 As relações de identificação entre a torcida corintiana e seu clube tornam esse grupo uma comunidade imaginada, à medida que os vínculos dentro dela partem da ideia de reconhecimento e pertencimento. Um corintiano se comunica com outro pelos signos, símbolos e ritos que, de uma maneira ou de outra, criam padrões para o indivíduo e o coletivo corintiano. A torcida organizada Camisa 12 resume esses padrões em três princípios a serem seguidos não apenas 89 Disponível em: <http://futrico.net/2011/12/08/a-paixao-pela-bola/>. Acesso em: 18 abr 2014. 70 pelos torcedores corintianos, mas também pelos jogadores: “Lealdade, Humildade e Procedimento” 90. 90 Disponível em: <http://www.meutimao.com.br/forum-do-corinthians/bate-papo-datorcida/8473/lealdade_humildade_procedimento__para_torcida_ou_para_o_time>. Acesso em: 18 abr 2014. 71 CONSIDERAÇÕES FINAIS Não se pode negar a relação de vínculo e pertencimento existente dentro do futebol, ainda que esse esporte tenha sido apropriado por estratégias mercadológicas e seja um espetáculo excludente do ponto de vista social. Definir o que é o futebol e por que é tão apaixonante, seria, no mínimo, imprudente, apesar de todo o estudo feito para analisar os diferentes cenários que compuseram esta pesquisa. Entretanto, uma palavra parece ser a mais forte de todas: ambivalente. Por que essa palavra? Simplesmente porque o futebol é contraditório e talvez seja o único, entre os vários esportes, em que o favorito nem sempre vence. Não é uma contradição? Na verdade, o futebol é repleto de contradições, ao mesmo tempo em que envolve paixão, envolve ódio; é cético, mas é cercado de fé. Afinal, o homem é contraditório em sua essência, assim como é a ideia de pertencimento e de existência explicitada por Todorov, ao afirmar que: “O homem busca sua existência no olhar do outro” (TODOROV, 1996, p. 67). O esporte está enraizado em nossa sociedade, os jogos são praticados há milhares de anos, despertando o lado lúdico do ser humano e trazendo consigo uma série de valores e simbolismos que permitem o agrupamento e o vínculo relacional como aponta Huizinga. Tais vínculos, que remontam às origens do homem, revelam também outro aspecto primitivo da natureza humana: a violência, presente nas batalhas travadas entre as torcidas – rivais ou não. Outros componentes dos primórdios da civilização vão se anexando à ideia original e elementos simbólicos do primitivo incorporam elementos sociais, fundamentalmente, burgueses. No entanto, a origem permanece intocada, pois, o vínculo relacional constituído não é mera frivolidade da indústria cultural, mas sim algo de raízes profundas que nos remete a ritos antigos e ao reconhecimento do grupo. Dogmas e entrelaces do esporte com a fé demonstram tais raízes, desde a recompensa da divindade olímpica nos tempos gregos, até a fé, manifesta em orações e promessas pela vitória do time. 72 Nesse cenário, a comunicação é fundamental na propagação desses simbolismos e signos identitários de uma torcida, exemplo observado na torcida corintiana, foco desta pesquisa. Os vínculos comunicacionais, criados através de símbolos, identificam a torcida do Corinthians: o estereótipo do maloqueiro, a relação de lealdade para com o clube (a ideia do fiel torcedor), a mitificação do Santo Guerreiro, os inúmeros estandartes e cânticos de arquibancada. Todos esses elementos - difundidos pelos próprios torcedores e pelos veículos midiáticos - demonstram e reforçam a comunicação na construção e na formação da comunidade corintiana e da sua identidade. O futebol, como já dizia o jornalista Mario Filho “é uma caixinha de surpresas”, porque nele são acrescentados todos os elementos sociais mobilizadores - do ponto de vista de agrupamento, identificação e comunidade. No futebol cabem inúmeros elementos que tanto se fundem quanto destoam da normalidade ou da racionalidade. É, no mínimo, intrigante e contraditório entender como um torcedor - que se diz reconhecidamente evangélico - recorre a um santo (que não é reconhecido pela Igreja Católica) pedindo que o seu time ganhe. As reflexões sobre a ideia de pertencimento e vínculo comunitário estão enraizadas no esporte, mesmo que ações mercantilistas e imagéticas vislumbrem somente o lucro. Ao redor de todo mundo, vemos garotos jogando futebol, não importam as condições financeiras, seja com uma bola de meia ou com uma bola oficial. Nesse caso, a relação com o esporte é verdadeira. As relações constituídas no futebol, em especial as estabelecidas pela torcida do Corinthians, são reflexo do vínculo e da ideia de reconhecimento no outro. A identificação com os simbolismos alvinegros fazem do corintiano um indivíduo que pertence à massa, à comunidade e se identifique como maloqueiro, sofredor e louco, abençoado por São Jorge, independente de suas crenças, classe social ou condição cultural. Esses aspectos são arquétipos propagados pela comunicação. Assim, pode-se afirmar que o futebol carrega consigo a capacidade de realizar a busca do homem por reconhecimento e, fundamentalmente, satisfazer a necessidade de se sentir pertencente a um lugar, mesmo que esse não seja um lugar físico, mas uma comunidade imaginada. 73 A torcida corintiana, como qualquer outra, utiliza-se dessas relações constituídas da ideia de vínculo e reconhecimento que se estabelecem, através da comunicação, criando uma comunidade sem pátria, ou melhor, uma pátria imaginária chamada Corinthians, onde todos se reconhecem e são reconhecidos como tal. Mas como esse trabalho não tem como intenção uma definição, sintam-se à vontade para um debate, como ocorre ao fim de um jogo e prolonguem a partida com mais uma contradição em relação ao futebol. Porque, na verdade, o jogo nunca termina, ele só muda de campo. 74 REFERÊNCIAS AGAMBEN, G. A Comunidade Que Vem. Lisboa: Presença,1990. ANDERSON, Benedict. 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