SAUDADES DO CERNE POESIAS GILBERTO BRAZ ALMEIDA 1 SAUDADES DO CERNE Oh! Que saudades das paineiras, da varanda hospitaleira, do casarão da vovó era eu, o Luiz e o Zé no terreirão de café ninguém ficava só. Oh! Que saudades do cafezal florido. Dos milhares de sonhos coloridos e do sino da capela a tocar. Era o enigmático sacristão chamando o povo para rezar. OH! Que saudades do caminho da roça, das pedras e da carroça, das mangas rosa e espada. Da escolinha amarela, tão pequena e tão bela bem na beira da estrada. OH! Que saudades do morro do Gabriel, das goiabas doces como mel e do pão caseiro da tia Piedade. O tio Manuel historiava, o tio Américo rezava, ambos já partiram para a eternidade. 2 À MINHA MÃE (Beatriz da Conceição Almeida) Na plenitude de uma mulher, um misto de flor e de fruta... Um semblante encantador, estrela magistral!... Purificada rosa, abençoada maçã!... Em campos cobertos de lírios... Tuas dores, teus delírios são preces. São ensinamentos registrados em cada fio de cabelo prateado. Eu, o fruto primogênito, do teu ventre universal, ainda ouço tua cantiga de ninar... 3 AO MEU PAI (João Batista Almeida) Meu pai, meu pai. Quantas recordações acumularam-se em minha cabeça! Éramos como duas crianças felizes pelos caminhos orvalhados da roça. Tu ias à frente e eu atrás. Tu abrias as porteiras de arame farpado e juntos passávamos como dois andarilhos... Meu pai, meu pai. Era mais um dia de trabalho, os nossos corpos cansados, as nossas calças enegrecidas de picão, como fadigavam as nossas pernas!... Retornávamos a casa ao entardecer. Tu carregavas um pau de lenha sobre os ombros e eu um saco de milho as costas. A cada passo que andávamos a carga ficava mais pesada. Ainda bem meu pai que as sombras de frondosas mangueiras descansávamos!... 4 Meu pai, meu pai. Sob a luz da lamparina eu era saciado pelas histórias de tua vida. Meu pai, meu pai. Um novo dia amanhecia e lá retornávamos nos pelos caminhos abençoados da roça... Que saudade meu pai do cafezal florido, do milharal embonecado, do arrozal cacheado, dos pés de laranja lima, do ranchinho de sapé, da mina d’água lá no grotão daquela enorme figueira onde os pássaros cantavam... Cantavam meu pai. Hoje não cantam mais. Meu pai, meu pai. Lá bem distante onde era o nosso roçado, ainda se planta saudade. 5 AO MEU AVÔ PATERNO (José Manuel Almeida) Eis o retrato do avô que não conheci!... Fico pasmo a contemplar tão ilustre figura. Traços delineados, elegantes, bigode cerrado... Uma aureola de intelectual, um homem importante pra morrer tão cedo. Para sempre ser lembrado num álbum de fotografia. Contam que era funcionário público em Portugal. Ferroviário, Monarquista... Vítima da revolução republicana, frustrados nos seus ideais, fugiu para o Brasil. Eis o retrato do avô que não conheci!... Imigrante por circunstâncias políticas. Um herói sem medalhas, um desbravador de três sertões no Brasil, um guerreiro do machado e da enxada. Em vida sempre foi um lutador: De funcionário público a professor, de servente de pedreiro a condutor de bondes... 6 Empreiteiro nos cafezais paulista; sitiante próspero em terras paranaense. Um homem de refinada cultura, de extrema vocação artística. Um músico instrumentista impecável, amante do fado e dos livros. Marido fiel de Aurora... Pai exemplar de numerosa prole. Eis o retrato do avô que não conheci!... No amarelecido papel de quase um século. Uma relíquia histórica, um semblante sério, sem sorriso!... Com o olhar fixo no meu olhar, sinto-me herdeiro da mesma luta, com as mesmas armas, numa batalha que ainda mal começou. 7 À MINHA PRIMEIRA PROFESSORA (Maria Perpétua Fernandes) Ave Maria, Maria perpétua, Perpetua Maria... Ave infinita, ave eterna. Maria Perpétua Perpétua Maria. Ave Maria, Maria eterna, Perpétua de paz. Ave Maria. Caminho de luz, cascata de amor, fonte de energia, de o verbo saber... Muito do que eu sei, contigo aprendi, Maria Perpétua. Eterna até no nome!... 8 AO POETA MAIOR DO CERNE (MARIO BRAZ ALMEIDA) I Tarde de domingo, sol quente, quase verão, uma multidão silenciosa subiu o Morro da Poesia Eterna: Na crista do morro primeiro, onde um renque de árvores completa a paisagem... Bem no dorso da pedra nua e hospitaleira ficou para sempre gravado uma mensagem... Onde o poeta menino ficava, de costas voltadas para o espigão... Como um príncipe contemplava todo o Vale do Cerne, cada curva do ribeirão... Onde o menino magricela de outrora, despediu-se da mãe Aurora para ser doutor, longe do sertão... Com a morte retornaram as cinzas prateadas, pelas mãos da esposa armada, como quem semeia poesia, 9 foram lançadas no alto do Morro, em frente o Casarão... 10 AO POETA DA ROÇA (Anônimo) Filho do sertão, poeta da natureza... uma gota de orvalho. O último grito da roça, um órfão da enxada... 11 REGRESSO Como se fosse uma ponte divisor de dois tempos; numa das margens, o poeta maduro, na outra, o poeta menino... Ao atravessar a ponte no sentido contrário ao relógio... Os dois poetas se encontram. Morre o poeta adulto, sobrevive o poeta menino... 12 O CANTO DA PASSARADA Cantava a juriti, cantava a saracura. As águas do riacho murmuravam por entre pedras que dormiam. Cantava o pintassilgo, cantava o sanhaço... As paineiras se alvejavam quando as painas se abriam. Cantava o inhambu, cantava a sabiá... Nas árvores os frutos sobravam, mais da metade apodrecia. Cantava o tico-tico, cantava a rolinha... No roça a festa começava, quando o sol surgia. 13 GUARDIÕES DO ARROZAL Moleques de pés no chão, moleques só de calção... Cada moleque com sua lata velha batendo, batendo sem parar. Espantando pássaros pretos, no arrozal em plena germinação... Moleques de pés no chão, moleques só de calção... Faziam tanta algazarra; ao redor a passarada, uma orquestra afinada, nos arbustos do grotão. Moleques de pés no chão, moleques só de calção... Quando o sol esquentava a várzea ficava deserta, nenhuma batida de lata se ouvia, a malta atrevida urgia nas águas mornas do ribeirão. Moleques de pés no chão, moleques só de calção... 14 Às sombras das jabuticabeiras, Árvores silvestres e fagueiras, ficaram as pegadas no chão: do Mário, do Charuto, do Tião... 15 RASTRO DE UMA ROLINHA Há uma correnteza de sonhos confundindo minha mente enfeitada de janeiros... São sonhos indefinidos, estampados em preto e branco que me levam adormecido, às sombras de majestosa mangueira. Onde em bancos de pedras amontoadas, na poeira de infinitas lembranças ficaram os rastros de uma rolinha. 16 MENINO DA ROÇA Menino de estilingue no pescoço, no mato as arapucas, na cabeça o ribeirão... Menino da roça!... voaram pra longe os passarinhos, era primavera, quase verão. Ficaram os morros desbotados, desnudos, maltratados e no redemoinho do vento foram-se as ilusões. Menino da roça!... Maltrataram a tua estrada, alongaram teu destino. Foi o pó da saudade que cicatrizou tuas feridas. Foi a brisa da madrugada que te fez poeta na cidade. 17 CASINHA PEQUENA Casinha pequena, casinha pequena. Ao lado da bica d’água, perto de um riacho onde as saracuras cantavam: Quebrei três potes!... Quebrei três potes!... Quantos potes as saracuras teriam quebrado na cabecinha tenra do menino poeta? Casinha pequena, casinha pequena. Ladeada pelo paiol de milho e o forno caipira, onde um pão caseiro fumegava... Que gostosura!... Quanta fartura!... Casinha pequena, casinha pequena. A última da colônia. Jamais me esquecerei do fogão de lenha, do banco de madeira, das lamparinas e do colchão de palha. 18 Casinha pequena, casinha pequena. Os porcos grunhiam no chiqueiro, as galinhas cacarejavam no terreiro, as vacas mugiam no curral e o vento soprava nos galhos da paineira. Casinha pequena, casinha pequena. Tão aconchegante, tão modesta... Do tamanho do mundo hoje é a minha saudade. Casinha pequena, casinha pequena. Os ingratos que te levaram ao chão destruíram sem piedade o abrigo modesto e simples onde nasceu o poeta. 19 A JANELA No quarto onde dormia havia uma janela que era trancada por uma tramela, se alguém relasse a mão nela, a janela se abria... Eu tinha gratuitamente, diante dos meus olhos, um horizonte lindo pra sonhar... 20 MORRO DO GABRIEL No verde, tão verde das árvores rasteiras, das benquistas goiabeiras escondias um verde, mais verde ainda... Era o verde dos musgos umedecidos sobre pedras adormecidas... Morro do Gabriel palco dos pássaros que cantavam, das borboletas que bailavam diante das flores silvestres!... Morro do Gabriel, dono de uma luz misteriosa que vagava sobre os arvoredos nas noites sem luar. Era uma luz confusa que roubava meu sono de criança, quase em pranto, fechava os olhos e a luz não se apagava. 21 MINA D`ÁGUA “Mina d’água, mina d’água, lá no fundo do grotão corria manso o ribeirão. Mina d’água, mina d’água, dos arvoredos ao lado dos sabiás e das rolinhas da passagem escorregadia, de tantos rastros cansados. Mina d’água, mina d’água. em teu barranco enfeitado de samambaias de avencas e de musgos em tua bica murmurante quantas vezes matei a minha sede”? 22 BATALHÃO DE MENINOS Naquele reino encantado, ninguém era filho de empregado, ninguém era filho de patrão. Éramos todos iguais!... Todos iguais!... De tantos meninos que éramos formávamos um imenso batalhão a correr pelos campos, a brincar com bolas de meias. Éramos tão felizes!... Tão felizes!... Naquele fantástico paraíso ninguém cheirava cola, ninguém era trombadinha. Éramos menores abençoados!... Menores abençoados!... Quase imortais. 23 VAGA-LUMES Nas noites não enluaradas, lá estávamos nós... Um exército de meninos, armados de vassouras e de lamparinas disputando cada bichinho que vinha luzindo, luzindo em nossa direção. “Vaga-lume tem, tem... Teu pai está aqui e atua mãe também...” E foi caçando vaga-lumes que descobri milhões de estrelinhas no céu... “Vaga-lume tem, tem...” E como tinha vaga-lumes naquelas noites fagueiras, sem luar!... “Vaga-lume tem, tem...” E as noites de vaga-lumes tinham a doce magia 24 da ingênua poesia... 25 FILHO ABENÇOADO Bença pai, bença mãe!... Eram ditas como frases decoradas, como um hino angelical saindo dos meus lábios pueris e já se ouvia vozes fortes de guerreiros: _ Deus te abençoe meu filho!... E no frenesi contagiante da passarada um novo dia amanhecia no vale abençoado da poesia... Bença pai, bença mãe!... _ Deus te abençoe meu filho!... Como um vento varando teimoso pelos trilhos enfeitados da primavera, cortando atalho nas curvas do tempo, eu e um beija-flor chegávamos juntos à escola. O beija-flor buscava o néctar da vida e eu buscava sabedoria para ser poeta. Bença pai, bença mãe!... Já no apagar das lamparinas, com o corpo leve como paina sonhava no colchão de palha. Com sempre, um anjo derramado do céu escrevia num quadro dourado, as últimas palavras de meus pais: _ Deus te abençoe meu filho!... 26 BANHO DE BACIA Os sábados de minha infância, eram dias especiais!... Não por ser o último dia da semana, é que se tomava banho de bacia. Arre!... Que sacrifício danado para se tirarem as roupas!... Eta, sabão fedorento!... A água escorria pelo corpo, ainda bem que era morna e gostosa!... Mas, a tranqüilidade tinha seu tempo limitado... Lá da cozinha vinha à bronca sonora da mamãe: _ Vê se lava depressa, menino!... Esfrega o cascão com a bucha!... Senão, quem vai te arrancar, a sujeira com sangue sou eu!... Depois de meia hora de molho e folia... Imaginem o triste destino da pobre toalha?... É claro!... Outro banho acontecia e de nada adiantava chorar, espernear, gritar com a soda do sabão queimando nos olhos!... 27 NOITES NA CAPELA Aos sábados e domingos lá na roça quando céu se enfeitava de estrelas tocava o sino da capela. Em seguida, entrava no ar o serviço de alto-falante da capela de Nossa Senhora de Fátima apresentando aos ouvintes uma programação de músicas variadas. Como sempre era mais uma melodia que ondulava melancolicamente pelas quebradas dos morros. No repique da viola a música contava uma história de um amor fracassado ou de um amor traído. No frenesi contagiante da roça ajuntava num segundo um imenso povaréu. _”Esta música que vamos ouvir fulano oferece para cicrana com provas de muito amor e carinho...” Enquanto a música tocava os jovens se assanhavam no vai e vem das mocinhas. 28 Os rapazes formavam duas fileiras e as prendas preciosas desfilavam no meio. Os mais atirados faziam gracejos tentando chamar atenção da morena que tinha um corpo de violão que passava toda faceira... Pela segunda vez o sino da capela tocava... A multidão aumentava. os moleques safados atiravam carrapichos nas saias das donzelas. As mulheres fofocavam pelos cantos da capela. Os homens contavam causos nos bancos da barraca. Os namorados disputavam os lugares escuros e lá trocavam juras de amor. O sino da capela pela terceira vez tocava... Neste momento sai do ar o serviço de alto-falante da Capela de nossa Senhora de Fátima prometendo voltar, assim que a reza terminar... 29 Por alguns segundo, o silencio era total. Cada um tinha o seu lugar certo no sagrado templo acanhado. Os velhos ocupavam os bancos da frente, os jovens ficavam pelos fundos... O mais engraçado é que se conhecia a tosse de cada um. As roupas eram sempre as domingueiras. Para variar, antes da reza do terço começar, o pobre sacristão ficava as turras com os cachorros vira-latas. Que arreganhavam os dentes, ameaçavam morder... Arre, que trabalho danado, para expulsar a matilha pulguenta do templo! O terço era uma eterna rotina. ficava fervoroso na ladainha e no canto final... A fé dos fiéis se agigantava, como cantavam as Filhas de Maria!... Como cantavam os Congregados Marianos!... Depois em menos de um segundo a capela ficava vazia... _ Retorna ao ar o serviço de alto-falante da Capela de Nossa Senhora de Fátima dando continuidade a uma programação variada. 30 Novamente a poeira levantava, era festa na roça... O tio Manecão, o velhote e fanfarrão agitava a criançada. O amalucado Pipa suava em bica, correndo atrás do Indé... Lá pelas tantas, antes da meia noite, compadres e comadres se despediam, entre abraços e apertos de mãos, a última canção tocava. Neste momento, sai do ar o serviço de alto-falante da Capela de Nossa Senhora de Fátima prometendo voltar no sábado que vem. 31 JOGO DE BOLA Nas manhãs domingueiras, de minha terra hospitaleira, toda a criançada jogava bola. Era um jogador para cada lado, no campinho esburacado, o sol queimava na cachola. Como se fosse um formigueiro todos corriam o campo inteiro. atrás da bola formava um batalhão. Quando alguém tropeçava a confusão aumentava com tantos corpos caídos no chão, Era só um tremendo alarido, cada moleque tinha seu apelido: Pé de Boi, Sabugo, Cabeça de Balaio, Cidola... A partida durava o dia inteiro, todos eram atacantes, ninguém era o goleiro. O pior é que faltava espaço para a danada da bola. 32 CAMINHO DA ROÇA Havia muito cascalho espalhado pelo caminho da roça, da roça que tinha um caminho estreito, tão estreito que mal cabia uma carroça. Sentia-se ao longe o azedume das frutas, as mangas apodreciam aos montes, as laranjas apodreciam aos montes, montes que enchiam carroças. Oh! Curvas fechadas na minha eterna saudade do caminho estreito da roça! por lá hei de voltar algum dia feito criança feliz num passeio de carroça. 33 MEU RIBEIRÃO Meu ribeirão, meu ribeirão. Como se fosse um lago encantado onde as crianças nadavam, brincavam de pega, pega pega ladrão... Só que ladrão ninguém era não. Meu ribeirão, meu ribeirão. As crianças cresceram ganharam o mundo e tu ficaste com tuas pedras, tuas corredeiras, teus peixinhos, prisioneiros, abandonados em tua melancólica rotina. Meu ribeirão, meu ribeirão. Ingrata geografia que ignora tua poesia!... 34 PASTO VERDE No pasto verde as vacas ruminavam o capim do tempo. Os coqueirais brincavam com a minha cabeça e tudo tinha asas. Luzes misteriosas voavam sobre os morros e as lamparinas eram estrelinhas aladas caídas do céu No pasto verde as vacas dormiam enquanto os tios contavam histórias. Na minha cabeça tudo tinha asas... O homem pisou na lua e o mundo não acabou. Do pasto verde as vacas sumiram. Caíram por terra as profecias da vovó. 35 O CÉU DE MINHA JANELA No céu de minha janela os pássaros eram como se fossem plumas flutuantes. à noite os vaga-lumes eram como se fossem diamantes... No céu de minha janela também havia nuvens carneirinhos que pastavam nuvens de algodão... 36 PEDREIRA Picaretas, carriolas, ponteiros... Crateras por todos os lados. Nortistas, paulistas, mineiros... Paralelepípedos amontoados Sol a pino, roupas empoeiradas, Sinfonia de aço, morro sangrando. Pedras brutas, pedras lascadas. Cascalho na ribanceira rolando. Corpos atletas. Marretas agressivas. Meticulosa e grosseira profissão. Moldavam-se a pedra bruta. Como se cortasse sabão. 37 ESPANTALHO Espantei borboletas avoantes nos jardins primaveris. Espantei cigarras estridentes nas árvores centenárias. Espantei grilos seresteiros no canto escuro do quarto. Espantei fantasmas tenebrosos no labirinto do eterno medo. Espantei sonhos pueris, agora faço uma viagem adulta. 38 GUERRA FRIA Como as pombas que retornam ao pombal. Como as cigarras que cantam até morrer. Assim era minha palpitante rotina e meus mimosos anos bailavam maneiros desdenhosos, como altivos verões, no céu de mansas andorinhas. Nem sabia, mal podia imaginar que nos bastidores da política universal traçavam-se os destinos da humanidade. Era eu e os que comigo conviviam espécies singelas de rara inocência. amávamos com ninguém o nosso rincão. Até que, transfiguraram-se os crepúsculos, das minhas tardes matreiras e pueris. Em tudo se liam os rumores de novos tempos funestos. Até nos lábios dos tios preferidos desenhavam-se as ruínas e os horrores da Terceira guerra Mundial, que seria o fim da humanidade. 39 Lá eu queria saber sobre: capitalismo, socialismo, satélites artificiais, bombas nucleares... Lá eu queria saber se Estados Unidos e União Soviética eram inimigos mortais... Se no meu Cerne, éramos todos iguais... Lá eu queria saber sobre: Subdesenvolvimento, alta tecnologia, alta produtividade, industria de ponta, era da informática, em que onda andava o mundo, pois o meu Cerne era tão belo revestido pelo verde dos cafezais... Ah! Como tinha rima e poesia naquelas noites estreladas. Da relva mística orvalhada decolavam-se para os sonhos marotos milhares de pirilampos atrevidos. Ao som de um violão plangente, um caboclo mal amado, lamentava as suas mágoas diante do sorrateiro luar prateado... 40 Jamais poderia aceitar que os monstros do capitalismo e do socialismo tivessem a ousadia de mudar a paisagem de minha terra. Todo o meu Cerne era uma preciosidade Divina. Era o meu berço, meu encanto, meu lar... As riquezas brotavam dos morros arredondados. Das mãos calejadas dos roceiros comia-se o maná da vida. Não!... Eu não era a única criança a desfrutar daquele paraíso, havia um exército de meninos, todos armados de estilingues nos pescoços, estávamos prontos para a guerra... Mais que guerreiros eram nossos céus e terras encurralados naquele acanhado horizonte que morria com desdém nas cristas dos morros. Na mira de olhares inocentes os nossos asseios era de perpetuar os sonhos. Também aprendi nos meus mimosos anos 41 que sem Deus, sem religião, sem pátria, sem família torna-se o homem o pior dos animais. No meu Cerne abençoado a vida jorrava em abundância. Uma alegria contagiante misturava-se com bandos de borboletas coloridas... Se as borboletas buscavam nas flores uma doce vida... Eu buscava no meu bairrismo uma razão para não acreditar no poder destruidor das malditas aramas nucleares!... 42 FRUTOS DO MATO Benditos sejam os frutos do mato! Os mais nobres alimentos dos pássaros. A gula de uma caterva de moleques da roça. A malta estava sempre pronta para a coleta. Éramos como se fôssemos um bando de macacos selvagens. Encontrávamos na mata milhares de delícias silvestres. Descia pela goela abaixo: A pitanga, o jaracatiá, a gabiroba, o ingá, a amora o jatobá... Ah! Se voltasse a pré-história! Não a dos homens primitivos A da minha infância... 43 JARDINS DAS TIAS Nos jardins das tias reinavam os lírios, as rosas. os cravos, as hortênsias, as margaridas, as dálias... Eram tantas as flores! Flores do campo, flores do mato... Nos jardins das tias as borboletas bailavam na sinfonia do vento... Nos jardins das tias os beija-flores beijavam com suave doçura, a virginal inocência escondida no Planeta Terra... 44 COLÔNIA LUSITANA Terra querida! de encantos resplandecentes; ora radiante na florada dos cafezais; ora melancólica após as geadas. Com garra e esperança, fé e confiança, nada derrotava tua gente. Terra amada! Que saudade gostosa do teu povo lusitano! O respeito mútuo era como religião. Pais e filhos, empregados e patrões eram com se fossem irmãos. 45 ERA TÃO VERDE A MINHA TERRA Tudo era verde na minha terra. os trovões eram como carrosséis trepidando nos morros. as enxadas degradavam ruidosamente arredondadas pedras milenares. Os brados dos roceiros varavam pesadas nuvens no céu e as chuvas abençoadas anunciavam felpudas contas bancárias. Tudo era verde na minha terra. As minas d’água borbulhavam nas fraldas das ribanceiras. Os matagais não paravam de crescer no cafezal, os seleiros se abarrotavam até o teto de imensa fartura. Tudo era verde na minha terra. As saracuras brejeiras Anunciavam dias e noites chuvosas. Os riachos bufavam com as cheias e a vida se perpetuava no meu rincão. 46 ROTINA Oh, quanto foi bela a minha infância! Oh, saudade infinita, dos brinquedos que eram tantos, todos ao alcance da fantasia. Eram como se fossem eternos, nada era comprado. Oh, aventuras! que eram tantas, que o circo se fechava pegava fogo de verdade com as chineladas da mamãe. 47 PRATO CHEIO Prato cheio que ia, prato cheio que voltava... Na trajetória do prato cheio os laços de amizades aumentavam. Prato cheio que ia, prato cheio que voltava... Nas delícias do prato cheio minha doce alma regalava. Prato cheio que ia, prato cheio que voltava... Nas andanças do prato cheio as máximas de meus mestres na minha mente ficaram. 48 IRMÃOS DA ROÇA Sou do tempo em que as lamparinas cheiravam a cabelos de crianças chamuscados. Sou do tempo em que as noites de pirilampos ofuscavam o brilho das estrelas e a relva orvalhada era uma divindade matinal. Sou do tempo em que as romarias de maio, eram peregrinações calorosas. Santa Maria!... Quanta ladainha!... Muitos dos que oravam fervorosamente hoje rezam em paz no céu. Quanto tempo já se passou. Para onde foram: Os macacos, as maritacas, as jandaias, os guaches...? Só restou o sabiá que ainda canta no galho torto da última paineira. 49 Que saudade da roça! A chuva jorrava nos milharais que cheiravam a melancia. Os roceiros se agrupavam no ranchinho de sapé a beira do carreadouro e no ritmo da chuva bailava a prosa caipira. As espigas de milho, bonecas douradas, também bailarinas eram acariciadas pelo vento. Os trovões estremeciam os morros e a chuva caia suavemente. Trinta anos já se passaram. o caminho do morro não leva mais ao cafezal. Da laranja rosa mais doce que o mel não se plantou a última semente. O sino da capela nunca mais tocou, ficou mudo o alto-falante... Meu Deus! Trinta anos já se passaram. Ainda sonho com as flores silvestres, ainda rolo pedras no caminho. O que foi feito: da enxada, do machado, da foice...? 50 As máquinas invadiram os campos, os minifúndios desapareceram e os irmãos da roça que eram tão felizes... Hoje, são miseráveis bóias-frias. 51 CHEIROS DA NATUREZA Ainda sinto o cheiro da relva orvalhada, da terra fértil molhada pelas chuvas de janeiro. Ainda sinto o cheiro dos cravos e das rosas, dos currais e dos galinheiros. Ainda sinto o cheiro do cafezal florido, dos humos pútridos e das velas queimando na capela. Ainda sinto o cheiro do capim gordura, ao vento bailando, das cabras e dos bodes pastando diante da minha janela. Ainda sinto o cheiro dos paus de fumos perfilados ao sol, das espigas de milho no paiol e do café secando no terreirão. Ainda sinto o cheiro dos araticuns floridos, dos arreios velhos esquecidos nas paredes do galpão. Ainda sinto o cheiro do moinho de fubá, 52 de um pobre gambá no tronco oco da goiabeira. Ainda sinto o cheiro das uvas maduras no parreiral, das roupas secando no varal e do perfume da cabocla namoradeira. 53 DESTALA DE FUMO Como eram úmidas e frias as noites de”destala” de fumo! Homens, mulheres e crianças, como se fosse um mutirão, os talos eram separados das folhas secas sob a luz sonolenta do lampião. Na sala a balbúrdia aumentava, com o café fumegante servido no salão. No malfadado banco de madeira Acomodava-se o mestre “cochador” Como um maestro comandava, O “cambiteiro” no salão as folhas de fumo eram enroladas com destreza, muita perfeição. Mais uma garrafa de cachaça se abria, a danada bailava de mão em mão. A cada gole que se bebia esquentava-se ainda mais o salão. Dentro da noite fria o amontoado de talos crescia a teimosa da “vaca” aos poucos sumia... Os cães latiam no terreiro, os galos cantavam no poleiro... Lá fora a relva orvalhada, anunciava a piada derradeira. Para finalizar, como não podia faltar, depois de se lavar as mãos 54 na bacia d’água morna com sabão, aquele chocolate quentinho acompanhado de deliciosas fatias de pão. Arre! Quanta fartura!... Quanta união!... 55 LEMBRANÇAS BUCÓLOCAS Ainda me lembro do velho carro de bois, do rangido sonoro das rodas como um violino desafinado por estradas pedregosas. Era um choro chorado. Era um trabalho penoso. Lá iam os bois perfilados: _ Oi Canário!... Vamos Dengoso!... _ Era a voz harmoniosa do carreiro. Ainda me lembro do moinho de fubá, da paisagem bucólica entre o riacho e o rochedo, na grota d’água arborizada, em meio ao verde dos musgos umedecidos reinava a roda d’água preguiçosa. Era um recanto paradisíaco, era o reino sagrado dos tico-ticos, antigos fregueses do fubá. Ainda me lembro do engenho de cana, de rudes formas bizarras. Os burros sempre atrelados giravam, giravam em círculo, formava-se uma cascata 56 de garapa cheirosa diretamente para o mundo das guloseimas. Ainda me lembro do solitário monjolo, das batidas compassadas, ora socando café, ora descascando arroz, num tempo sem fim. Puf... Puf... Puf... Como as batidas do meu coração. 57 MANGUEIRA MAJESTOSA Manga, mangueira, Dadivosa, florida... Há quanto tempo És árvore mãe completa?... Nos galhos rudes e tortuosos gerações de crianças malabaristas brincaram, ainda brincam... Por quanto tempo hão de brincar? Eras abrigo de pássaros cantores. Nas folhas verdes a canção do vento quebra a monotonia do tempo. Há quase um século roubaste um espaço, tornaste rainha absoluta, nos tempos áureos da moto-serra. Manga, mangueira. Manga doce mel... De bigodes amarelos Eu, poeta menino, sob o frescor sombrio, de teus galhos frondosos, quase dormia. 58 O CERNE DE TRÊS GERÇÕES O Cerne dos meus avôs era uma floresta milenar, de morros solitários e hospitaleiros. O Cerne dos meus pais foi um ninho de aventuras, de eternas conquistas e de muita prosperidade. O Cerne do meu alvorecer não era apenas um rio, era o paraíso celestial onde a natureza era divina. O Cerne de minhas saudades também canta o sabiá, tem palmeiras centenárias Onde os guaches fazem seus ninhos. 59 FOGÃO DE LENHA Fogão de lenha, fumaça branca na chaminé. Na chaleira preta de ferro fervia a água do café. Fogão de lenha, recanto da alegria. O almoço nunca tardava. jantava-se enquanto era dia. 60 PÉ DE JACA Nos belos tempos dos sonhos coloridos, ao lado de toco de canela plantei uma semente de jaca. Tudo na natureza está previsto. Veio à chuva, veio o sol... Passaram-se alguns dias, depois, duas folhinhas romperam a terra fofa no silêncio da madrugada. Surpresos ficaram meus olhos quando viram na mais pura ingenuidade infantil, que nascera um pé de jaca a mais no Brasil!... 61 BOIADA Tempos de estrada de chão. Tempos de lama e poeira. Lá ia a boiada a passos lentos sem ter dia e nem hora para chegar. Na frente folgava o berranteiro. Pelos flancos, cavalgavam os boiadeiros, vestidos a rigor: Botas, bombachas, esporas, chapéu de couro... A monotonia só era quebrada quando a boiada estourava. Era um Deus nos acuda. Travava-se uma luta de gigantes: Bois em disparada, gritos, estalos de chicotes, cavalos galopando, o berrante repicando... Logo tudo voltava à calmaria e a boiada seguia pro seu destino final. 62 MEU CÉU AQUI NA TERRA Juro que nasci num recanto abençoado onde a simplicidade brotava do sorriso do povo e a sinceridade nortearam os meus passos pelos caminhos da inocência. Lá fui um menino parceiro da natureza. Amo a minha terra como quem cultiva flores perfumadas nos jardins dos sonhos. Desfrutei de cada riacho, de cada morro, de cada pedra, de cada árvore... Era como se fosse um pássaro cantor bicando com suave doçura deliciosos frutos silvestres. O horizonte era o meu limite. Cada tio, um professor. Cada idoso, um livro de sabedoria. Nessa escola da felicidade 63 aprendi a ser poeta. 64 POETA DA ROÇA Sou poeta da roça dos tempos em que os guerreiros da enxada lavravam a terra com alegria, cada crepúsculo era mais um dia de trabalho, de felicidade e de oração. Sou um poeta da roça dos tempos dos verdes cafezais em que as estradas eram empoeiradas nelas passavam: Charretes, carroças, cavaleiros e boiadas. E nos campos se concentravam a população. Sou um poeta da roça, vítima da metamorfose política que varreu do campo o lavrador. Pobre enxada! Imponente e agressivo trator! Que tirou da boca do roceiro o último pedaço de pão. 65 ENXADA DE BRONZE, CANETA DE OURO... Aos oito anos de idade, no dia do meu aniversário ganhei do meu pai uma enxadinha de presente. Era uma ferramenta impar, jeitosa, novinha em folha, cheirando a tinta. Orgulhosamente mostrava a todos aquela ferramenta meio de brinquedo, meio de verdade. A minha amiga era uma relíquia rara. Às vezes em pleno feriado escolar ensaiava ao lado de meu pai a arte milenar de capinar. Gostava tanto da minha enxadinha! Ninguém podia relar a mão nela. Ai daquele que colocasse mão no cabo dela já arrumava uma tremenda confusão. Antes do anoitecer, lá estava eu e a enxadinha trocando confidências. Éramos tão amigos!... Tínhamos lá os nossos segredos. 66 Não via à hora de crescer e de me tornar rei da enxada. A minha amiga demonstrava ter pena de mim. Era como se ela me aconselhasse a levar a sério os estudos, ser alguém na vida: Um doutor, um professor e por quê não um poeta? A minha amiga estava certa, mas eu era teimoso! O que eu mais queria era ser um lavrador de mãos calejadas, um puxador de cabo de enxada Igualzinho o meu pai. Era como se ela me dissesse: _ Pobre menino!... Isso não dá futuro, larga de ser tolo!... A vida de lavrador é muita luta, muito suor e pouco pão. Aos doze anos de idade, também no dia 67 do meu aniversario ganhei pela segunda vez do meu pai uma enxada de verdade... Adeus escola!... Adeus professora!... Adeus colegas estudantes!... Troquei o caminho da escola pelo caminho da roça. O sol queimava a minha cabeça, o suor molhava as minhas roupas. As minhas mãos foram ficando grossas de calo. O matagal não parava de crescer no cafezal. No eito, só mato que tombava, eu era o rei da enxada. Aos poucos fui me esquecendo do que aprendi na escola. Aquela vida de lavrador era osso duro de roer. Aos dezoito anos de idade dei meu grito de liberdade. Chutei pro alto todas as enxadas do mundo. Peguei carona no êxodo rural 68 vim para a cidade... Retomei o caminho da escola que foi a minha salvação. 69 A GUAJUVIRA A guajuvira de minha infância era uma árvore centenária de galhos passarinhos e de um tronco de mel... Onde, abelhas e passarinhos Contavam os dias de glórias ao lado do riozinho airoso. Num dia de chuva fina, aventureiros do mel Jogaram por terra a árvore passarinho. 70 BONS TEMPOS Tempo fantástico!... Dias e noites contados nos dedos, como quem dedilha no rosário uma prece pueril... Tempos de morros-verdes-cafezais, das chuvas de janeiros, das águas cantantes na cachoeira… Tempos de férias estudantis, de frutas maduras no pomar e de se fazer arco-íris de sonhos... 71 ALMA CAMPESTRE Cresci no cabo da enxada, Inalando o aroma do campo, um misto de mato e de mel... Era eu uma alma campestre, já orvalhada de poesia. 72 ERA UMA VEZ... Era uma vez um vale lusitano, com seus encantos, suas magias, suas tradições... Era uma vez um povo lusitano, de rude palavreado, trabalhadores destemidos, parceiros como irmãos... Era uma vez um povo folclórico, desbravadores incansáveis, as sombras dos cafezais, deixaram suas pegadas no chão... 73 ESTRADA DO CERNE Pela estrada do Cerne passaram: a carroça do Zeca Pitota, outras carroças também passaram carregadas de mudanças, de porcos cevados, de café, de milho, de lenha... Carroças carregadas de sonhos. Pela estrada do Cerne passaram: as jardineiras do tio Felizardo, o carro de boi do Juca Mineiro, o primeiro Ford do Antonio Abilho, a charrete do Geraldão... Pela estrada do Cerne passaram: noivos montados em lombos de cavalos, cachorros loucos enfurecidos, boiadas agitadas, bêbados inveterados, folias de reis e casais de namorados... Na estrada do Cerne, nas chuvas de aguaceiros, rodavam as pontes, rodavam os bueiros, só não rodavam as ilusões... 74 A estrada do Cerne Sempre foi uma porta aberta para o mundo. Ficou melancolicamente marcada pelos cortejos fúnebres dos saudosos pioneiros... 75 AO ULTIMO ALMEIDA DO CERNE (LUIZ AMÉRICO ALMEIDA) Meu caro primo Luiz!... Como deve ser dolorido, nos dias de hoje, a contemplar tantos morros desnudos, sem o verde dos cafezais! Como deve ser amargo, nas tardes de agora, a morrer de saudade, enquanto finda o crepúsculo de verão! Como deve ser angustiante imaginar: aqui era a colônia dos empregados, lá, antiga Capela de São Sebastião, ali reinava a Escola Campos Sales... A lavoura de soja acabou com tudo... As noites não são mais as mesmas no Cerne, não se conversa mais nos bancos de madeira. A televisão matou a prosa lusitana, a energia elétrica desencantou as noites de luar... A estrada que era feita de pó e lama, hoje, modernamente asfaltada, num tempo em que nos campos são minguados os lavradores..... 76 Não se ouve mais o estalar estridente das enxadas nas pedras; somente os roncos agressivos dos imponentes tratores... O ribeirão do Cerne... Pobre ribeirão!... Foram-se os peixes e os pescadores... A erosão aos poucos consome o rio... Os pássaros e as borboletas também migraram... Ou será que foram tragados pelas avalanches dos inseticidas?... Pouco se fala no Luso Brasileiro Futebol Clube... O campo ainda bem gramado é uma relíquia histórica à beira da estrada, com certeza ainda guarda as marcas de tantos craques. Meu caro primo Luiz, és como uma rocha diante de tantas mutações... És sem dívida: o último Almeida, A desfrutar desse pedacinho abençoado de chão... 77 O MORRO DA POESIA ETERNA HOMENAGEM ESPECIA AO POETA MAIOR DE SERTANÓPOLIS MARIO BRAZ ALMEIDA I Encontrava-se o Dr. Mario Braz Almeida às portas da aposentadoria. Médico renomado. O primeiro filho de Sertanópolis a fazer um curso superior. Escolheu a cidade de Curitiba para estudar medicina... Por lá, casou-se e criou seus filhos... Exerceu a profissão na área de pediatria... Fez nome e fama, tanto como médico como professor na Universidade Federal de Curitiba. Era também escritor e poeta. Autor de belas poesias e alguns romances ainda inéditos... Uma vez aposentado iria mergulhar de corpo e alma nos seus projetos literários engavetados. A cada final de ano, com sempre se repetia, ao lado da esposa amada, nada mais justo que as férias merecidas... Em plena sinfonia dos pássaros e das cigarras desfrutavam do aroma campestre... Tudo de bom acontecia na Casa Grande do Cerne. Ainda é uma moradia histórica da família Almeida, a Casa Grande do Cerne. Foi construída no Vale da querência amada, na década de 1930... Lembrase do tio carpinteiro, de serrote e martelo... A construção imponente foi aos poucos ganhando porte de um majestoso casarão. Casa Grande do Cerne, no esplendor do ciclo do café, em cada cômodo aconchegante, ainda guarda mil segredos. Ao seu redor, árvores frondosas, espalham sombras acolhedoras... No telhado, sob o um céu azul é sempre festa 78 das pombas e das andorinhas. No curral, ao mugir das vacas, de rudes mãos calejadas do retireiro, entre dedos qualificados, escorre o leite da vida. Entre o rio e o espigão, o Dr. Poeta conhecia a dedo cada palmo de chão. Cada canto daquele paraíso era um santuário; cada pedra, um monumento; cada árvore, um abrigo; cada trilha, um caminho... Havia um lugar mágico, que lhe roubava horas infinitas em profundas meditações... Um morro solitário como tantos outros, numa vasta região do Cerne... Lá sempre se abastecia de uma inspiração única, verdadeira... Revelada timidamente no desabrochar da infância nas aulas da professora Maria de Lourdes Fernandes. Com ela aprendeu o gosto pela poesia. Aquele morro ainda sem nome era lhe como se fosse sagrado, onde aquela alma introspectiva passava horas infinitas contemplando a natureza. Escolheu a crista do morro e sobre uma pedra avantajada, às sombras dos arvoredos fez seu eterno mirante. Doravante esse acidente geográfico passa a ser denominado “O Morro da Poesia Eterna”, Os motivos, bem... Melhor deixar acontecer naturalmente. Lá qualquer hora do dia ou da noite, sopra um vento agradável. Passar horas no Morro da Poesia Eterna é como fazer uma viagem transcendental. É renovar-se de energia vital. Abastecer-se de inspiração Divina, encontrar o verdadeiro sentido da natureza... É reconhecer que há um Deus criador de tudo, que por amor à humanidade, enviou seu filho amado, Jesus Cristo, para ser crucificado num morro... O mesmo Cristo que escolhia os morros para orar, jejuar, meditar e pregar sermões às multidões. O Morro da Poesia Eterna não é o Monte Sinai, nem o Morro das Oliveiras; apenas, um morro do Cerne. O morro eleito e preferido do Doutor Poeta. O Morro da Poesia Eterna nunca será um lugar de milagres... Mas um lugar de meditações, contemplações das coisas Divinas, onde se pode falar com Deus em orações... Onde o Doutor. Poeta em devaneios solitários traçou planos de vida e da própria morte. 79 II O Doutor Poeta nasceu num racho de palmitos, abaixo do Morro da Poesia Eterna. Conheceu o paraíso aqui na terra. Era o xodó de dezenas de “tios lusitanos”, Cada idoso era um tio... Certamente teriam bigodes, certamente falavam um português carregado de verbetes engraçados... Conta-se que eram figuras folclóricas. Aquele recanto de mundo era-lhe como se um pedaço de Portugal tivesse desgarrado da Península Ibérica e caído naquele Vale abençoado. III Amava a natureza, os cafezais... Defensor de toda fauna e toda aflora. Tinha o olhar fixo no horizonte. Sendo paparicado por todos já se sabia que o caçula seria o orgulho da família. A mãe Aurora, santa criatura!... Guardava um segredo no profundo d’alma; havia prometido a Deus que filho caçula seria padre. No seu rosto pueril, resplandecia felicidade, vivia como um príncipe. Davase ao luxo de acordar com o gorjeio dos pássaros no pomar. Ao abrir a janela da Casa Grande do Cerne deparava-se com o Morro da Poesia Eterna, todo revestido pelo verde dos cafezais. Logo pela manhã já ouvia o estalar das enxadas nas roliças pedras como se fossem melancias... Eram o pai e os irmãos na batalha de cada dia. Na cozinha, a mãe e as irmãs, davam entrada às panelas, no fogão de lenha, uma comida caseira, apetitosa, cheirosa... O aroma recendia por toda a casa. Breve chegaria a hora sagrada de levar o almoço à roça. 80 IV Não conhecia a riqueza medida em dinheiro. Conhecia outros valores: O da mesa farta na hora da ceia, da união familiar, do respeito para com o próximo, do amor pela Pátria, do temor a Deus. Nos seus mimosos anos o mundo girava-lhe radiante: Belo, como as paineiras alvejantes; perfumado, como as floradas nos cafezais; angelical, como as cantigas de ninar da Marica, a irmã preferida. À noite, milhões de vaga-lumes luziam sobre a relva. Trilhões de estrelinhas bordavam o céu. Quando a lua cheia despontava no horizonte, tudo a paisagem ficava prateada. O pai, José Manuel Almeida era um músico exemplar, guitarrista impecável... Um dos irmãos, o Carlos herdou do pai o gosto pela música; tocava violão como um artista renomado. Ao anoitecer, logo nas primeiras horas, com o crepúsculo vermelhado, na varanda hospitaleira cantavam, dançavam ao som da guitarra e do violão... Eram os saudosos fados imortais, lá da santa terrinha... “Era uma casa portuguesa com certeza”. V Assistiu as primeiras colheitas do café; sentia-se inebriado com o aroma dos frutos maduros... O que mais lhe chamava atenção era o vai e vem da carroça carregada dos frutos maduros, os sonhos de riqueza. O carroceiro era o seu irmão mais velho, o Daniel. No cafezal, o ritmo da colheita passava pela derriça, varreção e abanação. À beira do carreadouro empilhavam-se os sacos cheios de café em coco. No terreirão, mulheres, crianças e idosos, ora espalhavam o café ao sol, ora 81 amontoavam... Passavam os frutos por uma lavagem... Quando secos, eram armazenados na tulha. Lá ficavam até a hora da venda. VI O caminho das flores passa pelos caminhos das pedras... Cada momento da vida é uma nova realidade. De um lado as experiências acumuladas... Do outro lado os labirintos de cada época, de cada geração e de cada ser humano. Um estigma turbou-lhe a mente, adiando-lhe os sonhos... No rosto em que brotavam risos, ficaram as marcas da tristeza, das lágrimas, da solidão... Foi arrastado por torrentes tempestivas... Experimentou o caos, quase sucumbiu. Na Casa Grande do Cerne, até então um castelo de fantasia, passou a ser um lugar de pranto, lamentações... Com seguidas mortes de entes queridos. O Morro da Poesia Eterna perdeu a magia, voltou a ser apenas um morro. Com a varanda sem música. O reino do riso, do canto e da dança vestiu-se de luto. Não!... Chega de tantas mortes! Já era tempo de retornar ao caminho das flores. Estava cansado do caminho das pedras. VII Até ali, o pouco que aprendeu foi numa escolinha rural e em seguida concluiu a quarta série primária no Grupo Escolar de Sertanópolis... Continuaria os estudos a qualquer preço, a qualquer sacrifício... Onde?... Como?... Quando?... A mãe, os irmãos mais velhos e o padre Chico encontraram a solução. 82 Mas, no fundo da alma, já amargava a separação da família. Era como um beija-flor, gora tinha que ser como águia, voar alto, pra bem longe... Conhecer novos horizontes, terras distantes, e depois pousar serenamente, como uma pomba mansa, indefesa atrás dos muros de um colégio de internato, na cidade de São Paulo. Era uma realidade dolorida, amarga, solitária... Voltar atrás, impossível. Com o destino traçado, dividido entre a liberdade do campo e a prisão de um colégio desconhecido... Fazer o quê? Se até a data da partida já estava definido... Restava-lhe contar os dias, aproveitar cada minuto restante... Fazer de tudo, sumir pelas trilhas das matas, contemplar cada árvore, ouvir o canto dos pássaros, o zunir das cigarras, o murmurar das águas do Ribeirão do Cerne. Quando não, pegar as varas de pescar, encher o bornal de peixes, retornar à asa Grande ao findar da tarde. Depois do jantar, no aconchego da varanda... Despedir-se de cada estrela, de cada vaga-lume... Deitar-se na cama de colchão de palha, dormir como um anjo e sonhar até o dia amanhecer. Acordar com a sinfonia dos pássaros, com as galinhas cacarejando no terreiro, com as vacas mugindo no curral, com os cavalos relinchando no piquete. Foram tristes os últimos dias na Casa Grande do Cerne. Ali, durão, como uma estátua de pedra, como se nada tivesse a ver com o que estava acontecendo... Somente Deus é que sabia o quanto estava dolorida aquela alma tenra, ainda mal desabrochada. VIII Finalmente o dia da partida... Dia cinzento, chuvoso, melancólico... Os pneus da “baratinha” do “Camacho” logo na saída patinaram na lamacenta estrada escorregadia do mato. A visão da Casa Grande do Cerne, o castelo dos sonhos e 83 pesadelos, desapareceu na primeira curva da estrada... O Morro da Poesia Eterna foi ficando distante, até se perder na linha do horizonte... Seguiu a viajaram de trem na companhia da mãe Aurora e de dois irmãos: O Américo e o Francisco Manuel... Dominado pelo cansaço, dormiu. Ao amanhecer, o trem se arrastava como serpente, soltando fumaça. Era outro mundo, casas de argamassa, brancas... Reflorestamento de eucaliptos, centenas de morros arredondados, nenhum deles era mais belo, tão mágico quanto o Morro da Poesia Eterna. O trem corria soltando fumaça... A cidade de São Paulo foi surgindo, a São Paulo desconhecida: Prédios, carros, bondes... Um formigueiro de gente: Nortistas, italianos, portugueses, japoneses, negros, brancos, mulatos... Homens e mulheres correndo atrás do tempo, escravos do relógio, tudo tão diferente do mundo da roça. IX No dia da matrícula, no Colégio Liceu Sagrado Coração de Jesus sentiu uma punhalada no coração... Tão acostumado à grandeza do mundo, um mundo sem limites... Viu-se ali, naquele Colégio imenso, murado como se fosse uma penitenciária, o fim de toda liberdade campesina. Antes do início das aulas ocupou-se em marcar as roupas, com o número 286. Deixava de ser uma criança mimada, paparicada, pra ser apenas um número. A grande tristeza aconteceu com as despedidas da mãe e dos irmãos... Pôs-se a chorar convulsivamente, um choro do fundo da alma, tantas vezes reprimido... Tinha a impressão de perda definitiva do que ainda lhe restava de 84 família... Voltou a casa onde se encontrava hospedado, com o coração dolorido, amargurado, já morrendo de saudade da terra onde nasceu. Veio-lhe como já era esperado o golpe final... Numa triste manhã esfumaçada, da São Paulo da garoa foi levado com os pertences para o internato do Colégio Liceu Coração de Jesus... Na portaria, despediu-se dos parentes que o acomodava. Cabisbaixo, viu-se diante de um salão imenso repleto de crianças estranhas. Foi apresentado ao assistente da turma... Sentiu-se angustiado, com vontade de chorar, correr, sumir, vomitar... Mas conteve-se, encontrou forças até então desconhecidas... Afinal, tinha que ser forte, um guerreiro, um vencedor, um bravo filho do Cerne!... Assim venceu com muitas lágrimas as primeiras batalhas. X Nos primeiros dias de aulas, o caipira do mato, sotaque português tentou superar os problemas de convivência... Meditava mais do que falava... Aquele silêncio premeditado rendeu-lhe status de bom comportamento. Superada a crise inicial, entregou-se aos estudos... Logo era o melhor aluno da turma, alcançando com méritos o prêmio especial... Na festa de encerramento daquele ano letivo; tantas vezes foi chamado ao palco... Era a figura mais importante da cerimônia, aplaudido e admirado por todos. A mãe Aurora ali presente, abobalhada, não cabia em si de tanto contentamento, chorava de alegria. Era o filho amado, a caçula da família, o guri do Cerne, que se impunha perante todos na cidade grande, longe, muito longe do Morro da Poesia Eterna. 85 XI Findou também o segundo ano de internato... Repetiram-se as homenagens e as medalhas, já era a estrela maior do Colégio... Aos domingos recebia visitas... Além dos beijos e abraços: peras, maçãs, biscoitos... Tudo lhe era doce como mel, porém as despedidas eram-lhe amargas como fel... Nos outros dias da semana: aulas, atividades religiosas, o coral, os passeios das quintas-feiras na chácara do Colégio em Santana... Uma eterna rotina, com muita disciplina. XII Finalmente retornou à Casa Grande do Cerne... Já havia perdido o sotaque da roça... Falava sem embaraço sobre: Política, cultura, economia, esporte e diversões. As férias passaram num piscar de olhos... Enquanto retornava aos solavancos do trem, numa longa noite sem dormir, lembrava-se da festa na capela do bairro... Lá estava ele com os uniformes de gala do Colégio: cortejado, paparicado, cobiçado pelas donzelas, o orgulho da mãe Aurora. 86 XIII Completou o Ensino Fundamental e Médio no Colégio Liceu Coração de Jesus, sempre com as melhores notas. Ser padre, isso era lá com a mãe Aurora. Ser engenheiro, não gostava de desenhos. Ser advogado, não tinha vocação. Agrônomo, veterinário, dentista, também estavam fora de cogitação. Ser escritor e poeta era a sua grande paixão... Acabou optando pela medicina. Nessa profissão honrada fez nome longe da querência amada, em terras curitibanas. XIV Passaram-se longos anos, como sempre, durante as férias retornava à Casa Grande Do Cerne. Desta vez, tem na alma a certeza de que aquela viagem mudaria por completo sua história. Com toda certeza buscou no Morro da Poesia Eterna, as repostas dos sonhos que ainda desejava realizar... Meditou profundamente sobre o futuro, era um homem intelectual, médico, escritor, poeta... Enquanto médico foi fiel a medicina... Faltava-lhe a consagração como homem das letras. Do alto do Morro da Poesia Eterna deve ter contemplado o Vale do Cerne, o mesmo Vale que outrora era uma vasta floresta: terra dos papagaios, das onças pintadas, das antas... Que já foi berço dos cafezais nos tempos do seu Salvino, do Djalma, do Natalino... Dá até pra imaginar que era como se ele tivesse vendo o Jair soltando foguetes. O velho Pedro Inácio ponteando a viola afinada. O Ameriquinho jogando bola. O Atilho bêbado feito gambá. O Manduca dando aulas. O irmão Américo rezando o terço. O Horácio David pescando os últimos peixes do 87 Cerne. O João Patrício contando causo dos tempos do sertão. O Florentino com seu farolete iluminando os atalhos da vida nas noites escuras que se perderam no tempo. Do alto do Morro da Poesia Eterna, não paira nenhuma dúvida que contemplou também, as lavouras de soja, milho, algodão, pastagens... Com certeza deve ter-lhe turbado a mente, uma forte nostalgia e até de revolta com tamanha mudança em toda a paisagem. Não dá pra negar que não tivesse pensado: por onde andam os filhos do Cerne, os netos do Cerne, os bisnetos do Cerne, os tataranetos do Cerne?... Certamente deve ter planejado o lançamento do seu primeiro livro. Reunir os antigos moradores do Cerne ainda vivos numa grandiosa festa. Dá até pra imaginar que as nuvens cobriam o sol. Que ventava como sempre venta, no Morro da Poesia Eterna. Arriscar sem medo de errar que um trinca ferro cantava o canto boiadeiro nos galhos do timbó. E que toda a natureza estava em paz e receptiva dando as boas vindas àquela alma contemplativa. XV No tempo previsto, a festa aconteceu... Dia de domingo, domingo de sol, poucas nuvens no céu... Veio gente de muitas cidades, dos quatro cantos do Brasil, até de Portugal... Em meio à multidão... Ele, o Doutor Mario, entre sorrisos, apertos de mãos e abraços era filmado, fotografado, enquanto autografava o livro: “A Família Almeida, O Cerne”. No burburinho da festa: _ Eu sou fulano de tal e tu quem és? _ Sou filho do Morgado... 88 _ Por onde anda o Chico Barrecas...? _ Sumiu no mundo!... _ O João Valente deve estar bem velhinho!... _ Que pena não ter vindo à festa!... _ Os convidados que não vieram, não sabem o que perderam!... XVI Foi tudo com num conto de fadas... Trinta dias depois, ainda com o ego massageado, realizado... Adoeceu gravemente. Submeteu-se a uma delicada cirurgia... Recuperado aparentemente, ainda voltou à vida normal... Mas, o Deus todo poderoso, pai de toda poesia universal levou o Doutor Poeta, para fazer parte da Academia Celestial. XVII Nem velório, nem caixão, nem enterro... Para os filhos do Cerne o Doutor Poeta não morreu; viajou sem um previsto regresso. Passaram-se alguns dias, numa tarde de domingo, uma multidão silenciosa subiu o Morro da Poesia Eterna. Em meio às emoções de já saudosas homenagens... Das mãos da esposa Sueli, como quem semeia poesia, as suas cinzas prateadas foram lançadas na relva verde, campo santo de sua última morada. 89 Ficou na pedra, no alto do Morro da Poesia Eterna, numa placa de bronze, o seu último desejo gravado... Os ventos que sopram o ano inteiro e as chuvas abençoadas encarregaram-se em espalhar as cinzas por todo o Vale... Ficaram as árvores mais verdes, As frutas mais doces, e o céu mais estrelado... Por todo o Vale do Cerne a natureza se confunde com a sua poesia. 90