SAUDADES
DO
CERNE
POESIAS
GILBERTO BRAZ ALMEIDA
1
SAUDADES DO CERNE
Oh! Que saudades das paineiras,
da varanda hospitaleira,
do casarão da vovó
era eu, o Luiz e o Zé
no terreirão de café
ninguém ficava só.
Oh! Que saudades do cafezal florido.
Dos milhares de sonhos coloridos
e do sino da capela a tocar.
Era o enigmático sacristão
chamando o povo para rezar.
OH! Que saudades do caminho da roça,
das pedras e da carroça,
das mangas rosa e espada.
Da escolinha amarela,
tão pequena e tão bela
bem na beira da estrada.
OH! Que saudades do morro do Gabriel,
das goiabas doces como mel
e do pão caseiro da tia Piedade.
O tio Manuel historiava,
o tio Américo rezava,
ambos já partiram para a eternidade.
2
À MINHA MÃE
(Beatriz da Conceição Almeida)
Na plenitude de uma mulher,
um misto de flor e de fruta...
Um semblante encantador,
estrela magistral!...
Purificada rosa,
abençoada maçã!...
Em campos
cobertos de lírios...
Tuas dores,
teus delírios
são preces.
São ensinamentos registrados
em cada fio de cabelo prateado.
Eu, o fruto primogênito,
do teu ventre universal,
ainda ouço tua cantiga de ninar...
3
AO MEU PAI
(João Batista Almeida)
Meu pai, meu pai.
Quantas recordações
acumularam-se em minha cabeça!
Éramos como duas crianças felizes
pelos caminhos orvalhados da roça.
Tu ias à frente
e eu atrás.
Tu abrias as porteiras
de arame farpado
e juntos passávamos
como dois andarilhos...
Meu pai, meu pai.
Era mais um dia de trabalho,
os nossos corpos cansados,
as nossas calças enegrecidas de picão,
como fadigavam as nossas pernas!...
Retornávamos a casa ao entardecer.
Tu carregavas um pau de lenha
sobre os ombros
e eu um saco de milho as costas.
A cada passo que andávamos
a carga ficava mais pesada.
Ainda bem meu pai que as sombras
de frondosas mangueiras descansávamos!...
4
Meu pai, meu pai.
Sob a luz da lamparina
eu era saciado
pelas histórias de tua vida.
Meu pai, meu pai.
Um novo dia amanhecia
e lá retornávamos nos
pelos caminhos
abençoados da roça...
Que saudade meu pai
do cafezal florido,
do milharal embonecado,
do arrozal cacheado,
dos pés de laranja lima,
do ranchinho de sapé,
da mina d’água lá no grotão
daquela enorme figueira
onde os pássaros cantavam...
Cantavam meu pai.
Hoje não cantam mais.
Meu pai, meu pai.
Lá bem distante
onde era o nosso roçado,
ainda se planta saudade.
5
AO MEU AVÔ PATERNO
(José Manuel Almeida)
Eis o retrato do avô que não conheci!...
Fico pasmo a contemplar tão ilustre figura.
Traços delineados, elegantes,
bigode cerrado...
Uma aureola de intelectual,
um homem importante
pra morrer tão cedo.
Para sempre ser lembrado
num álbum de fotografia.
Contam que era funcionário público
em Portugal.
Ferroviário,
Monarquista...
Vítima da revolução republicana,
frustrados nos seus ideais,
fugiu para o Brasil.
Eis o retrato do avô que não conheci!...
Imigrante por circunstâncias políticas.
Um herói sem medalhas,
um desbravador de três sertões no Brasil,
um guerreiro do machado e da enxada.
Em vida sempre foi um lutador:
De funcionário público a professor,
de servente de pedreiro a condutor de bondes...
6
Empreiteiro nos cafezais paulista;
sitiante próspero em terras paranaense.
Um homem de refinada cultura,
de extrema vocação artística.
Um músico instrumentista impecável,
amante do fado e dos livros.
Marido fiel de Aurora...
Pai exemplar de numerosa prole.
Eis o retrato do avô que não conheci!...
No amarelecido papel de quase um século.
Uma relíquia histórica,
um semblante sério, sem sorriso!...
Com o olhar fixo no meu olhar,
sinto-me herdeiro da mesma luta,
com as mesmas armas,
numa batalha que ainda mal começou.
7
À MINHA PRIMEIRA PROFESSORA
(Maria Perpétua Fernandes)
Ave Maria,
Maria perpétua,
Perpetua Maria...
Ave infinita,
ave eterna.
Maria Perpétua
Perpétua Maria.
Ave Maria,
Maria eterna,
Perpétua de paz.
Ave Maria.
Caminho de luz,
cascata de amor,
fonte de energia,
de o verbo saber...
Muito do que eu sei,
contigo aprendi,
Maria Perpétua.
Eterna até no nome!...
8
AO POETA MAIOR DO CERNE
(MARIO BRAZ ALMEIDA)
I
Tarde de domingo,
sol quente,
quase verão,
uma multidão silenciosa
subiu o Morro da Poesia Eterna:
Na crista do morro primeiro,
onde um renque de árvores
completa a paisagem...
Bem no dorso da pedra nua e hospitaleira
ficou para sempre gravado uma mensagem...
Onde o poeta menino ficava,
de costas voltadas para o espigão...
Como um príncipe contemplava
todo o Vale do Cerne,
cada curva do ribeirão...
Onde o menino magricela de outrora,
despediu-se da mãe Aurora
para ser doutor, longe do sertão...
Com a morte
retornaram as cinzas prateadas,
pelas mãos da esposa armada,
como quem semeia poesia,
9
foram lançadas
no alto do Morro,
em frente o Casarão...
10
AO POETA DA ROÇA
(Anônimo)
Filho do sertão,
poeta da natureza...
uma gota de orvalho.
O último grito da roça,
um órfão da enxada...
11
REGRESSO
Como se fosse uma ponte
divisor de dois tempos;
numa das margens,
o poeta maduro,
na outra,
o poeta menino...
Ao atravessar a ponte
no sentido contrário ao relógio...
Os dois poetas se encontram.
Morre o poeta adulto,
sobrevive o poeta menino...
12
O CANTO DA PASSARADA
Cantava a juriti,
cantava a saracura.
As águas do riacho murmuravam
por entre pedras que dormiam.
Cantava o pintassilgo,
cantava o sanhaço...
As paineiras se alvejavam
quando as painas se abriam.
Cantava o inhambu,
cantava a sabiá...
Nas árvores os frutos sobravam,
mais da metade apodrecia.
Cantava o tico-tico,
cantava a rolinha...
No roça a festa começava,
quando o sol surgia.
13
GUARDIÕES DO ARROZAL
Moleques de pés no chão,
moleques só de calção...
Cada moleque com sua lata velha
batendo, batendo sem parar.
Espantando pássaros pretos,
no arrozal em plena germinação...
Moleques de pés no chão,
moleques só de calção...
Faziam tanta algazarra;
ao redor a passarada,
uma orquestra afinada,
nos arbustos do grotão.
Moleques de pés no chão,
moleques só de calção...
Quando o sol esquentava
a várzea ficava deserta,
nenhuma batida de lata se ouvia,
a malta atrevida urgia
nas águas mornas do ribeirão.
Moleques de pés no chão,
moleques só de calção...
14
Às sombras das jabuticabeiras,
Árvores silvestres e fagueiras,
ficaram as pegadas no chão:
do Mário, do Charuto, do Tião...
15
RASTRO DE UMA ROLINHA
Há uma correnteza de sonhos
confundindo minha mente
enfeitada de janeiros...
São sonhos indefinidos,
estampados em preto e branco
que me levam adormecido,
às sombras de majestosa mangueira.
Onde em bancos de pedras amontoadas,
na poeira de infinitas lembranças
ficaram os rastros de uma rolinha.
16
MENINO DA ROÇA
Menino de estilingue no pescoço,
no mato as arapucas,
na cabeça o ribeirão...
Menino da roça!...
voaram pra longe os passarinhos,
era primavera,
quase verão.
Ficaram os morros desbotados,
desnudos,
maltratados
e no redemoinho do vento
foram-se as ilusões.
Menino da roça!...
Maltrataram a tua estrada,
alongaram teu destino.
Foi o pó da saudade
que cicatrizou tuas feridas.
Foi a brisa da madrugada
que te fez poeta na cidade.
17
CASINHA PEQUENA
Casinha pequena,
casinha pequena.
Ao lado da bica d’água,
perto de um riacho
onde as saracuras cantavam:
Quebrei três potes!...
Quebrei três potes!...
Quantos potes as saracuras
teriam quebrado
na cabecinha tenra
do menino poeta?
Casinha pequena,
casinha pequena.
Ladeada pelo paiol de milho
e o forno caipira,
onde um pão caseiro fumegava...
Que gostosura!...
Quanta fartura!...
Casinha pequena,
casinha pequena.
A última da colônia.
Jamais me esquecerei
do fogão de lenha,
do banco de madeira,
das lamparinas
e do colchão de palha.
18
Casinha pequena,
casinha pequena.
Os porcos grunhiam no chiqueiro,
as galinhas cacarejavam no terreiro,
as vacas mugiam no curral
e o vento soprava
nos galhos da paineira.
Casinha pequena,
casinha pequena.
Tão aconchegante,
tão modesta...
Do tamanho do mundo
hoje é a minha saudade.
Casinha pequena,
casinha pequena.
Os ingratos
que te levaram ao chão
destruíram sem piedade
o abrigo modesto e simples
onde nasceu o poeta.
19
A JANELA
No quarto onde dormia
havia uma janela
que era trancada
por uma tramela,
se alguém
relasse a mão nela,
a janela se abria...
Eu tinha gratuitamente,
diante dos meus olhos,
um horizonte lindo pra sonhar...
20
MORRO DO GABRIEL
No verde,
tão verde
das árvores rasteiras,
das benquistas goiabeiras
escondias um verde,
mais verde ainda...
Era o verde
dos musgos umedecidos
sobre pedras adormecidas...
Morro do Gabriel
palco dos pássaros que cantavam,
das borboletas que bailavam
diante das flores silvestres!...
Morro do Gabriel,
dono de uma luz misteriosa
que vagava sobre os arvoredos
nas noites sem luar.
Era uma luz confusa
que roubava meu sono de criança,
quase em pranto,
fechava os olhos
e a luz não se apagava.
21
MINA D`ÁGUA
“Mina d’água,
mina d’água,
lá no fundo do grotão
corria manso o ribeirão.
Mina d’água,
mina d’água,
dos arvoredos ao lado
dos sabiás e das rolinhas
da passagem escorregadia,
de tantos rastros cansados.
Mina d’água,
mina d’água.
em teu barranco enfeitado
de samambaias
de avencas
e de musgos
em tua bica murmurante
quantas vezes matei
a minha sede”?
22
BATALHÃO DE MENINOS
Naquele reino encantado,
ninguém era filho de empregado,
ninguém era filho de patrão.
Éramos todos iguais!...
Todos iguais!...
De tantos meninos que éramos
formávamos um imenso batalhão
a correr pelos campos,
a brincar com bolas de meias.
Éramos tão felizes!...
Tão felizes!...
Naquele fantástico paraíso
ninguém cheirava cola,
ninguém era trombadinha.
Éramos menores abençoados!...
Menores abençoados!...
Quase imortais.
23
VAGA-LUMES
Nas noites não enluaradas,
lá estávamos nós...
Um exército de meninos,
armados de vassouras
e de lamparinas
disputando cada bichinho
que vinha luzindo, luzindo
em nossa direção.
“Vaga-lume
tem, tem...
Teu pai está aqui
e atua mãe também...”
E foi caçando vaga-lumes
que descobri
milhões de estrelinhas no céu...
“Vaga-lume
tem, tem...”
E como tinha vaga-lumes
naquelas noites fagueiras,
sem luar!...
“Vaga-lume
tem, tem...”
E as noites de vaga-lumes
tinham a doce magia
24
da ingênua poesia...
25
FILHO ABENÇOADO
Bença pai, bença mãe!...
Eram ditas como frases decoradas,
como um hino angelical
saindo dos meus lábios pueris
e já se ouvia vozes fortes de guerreiros:
_ Deus te abençoe meu filho!...
E no frenesi contagiante da passarada
um novo dia amanhecia
no vale abençoado da poesia...
Bença pai, bença mãe!...
_ Deus te abençoe meu filho!...
Como um vento varando teimoso
pelos trilhos enfeitados da primavera,
cortando atalho nas curvas do tempo,
eu e um beija-flor
chegávamos juntos à escola.
O beija-flor buscava o néctar da vida
e eu buscava sabedoria para ser poeta.
Bença pai, bença mãe!...
Já no apagar das lamparinas,
com o corpo leve como paina
sonhava no colchão de palha.
Com sempre, um anjo derramado do céu
escrevia num quadro dourado,
as últimas palavras de meus pais:
_ Deus te abençoe meu filho!...
26
BANHO DE BACIA
Os sábados de minha infância,
eram dias especiais!...
Não por ser o último dia da semana,
é que se tomava banho de bacia.
Arre!...
Que sacrifício danado para se tirarem as roupas!...
Eta, sabão fedorento!...
A água escorria pelo corpo,
ainda bem que era morna e gostosa!...
Mas,
a tranqüilidade tinha
seu tempo limitado...
Lá da cozinha vinha à bronca
sonora da mamãe:
_ Vê se lava depressa, menino!...
Esfrega o cascão com a bucha!...
Senão, quem vai te arrancar,
a sujeira com sangue sou eu!...
Depois de meia hora
de molho e folia...
Imaginem o triste destino
da pobre toalha?...
É claro!... Outro banho acontecia
e de nada adiantava chorar, espernear, gritar
com a soda do sabão queimando nos olhos!...
27
NOITES NA CAPELA
Aos sábados e domingos lá na roça
quando céu se enfeitava de estrelas
tocava o sino da capela.
Em seguida,
entrava no ar
o serviço de alto-falante
da capela de Nossa Senhora de Fátima
apresentando aos ouvintes
uma programação de músicas variadas.
Como sempre
era mais uma melodia
que ondulava melancolicamente
pelas quebradas dos morros.
No repique da viola
a música contava uma história
de um amor fracassado
ou de um amor traído.
No frenesi contagiante da roça
ajuntava num segundo
um imenso povaréu.
_”Esta música que vamos ouvir
fulano oferece para cicrana
com provas de muito amor e carinho...”
Enquanto a música tocava
os jovens se assanhavam
no vai e vem das mocinhas.
28
Os rapazes formavam duas fileiras
e as prendas preciosas desfilavam no meio.
Os mais atirados faziam gracejos
tentando chamar atenção
da morena que tinha
um corpo de violão
que passava toda faceira...
Pela segunda vez
o sino da capela tocava...
A multidão aumentava.
os moleques safados
atiravam carrapichos
nas saias das donzelas.
As mulheres fofocavam
pelos cantos da capela.
Os homens contavam causos
nos bancos da barraca.
Os namorados disputavam
os lugares escuros
e lá trocavam juras de amor.
O sino da capela
pela terceira vez tocava...
Neste momento sai do ar
o serviço de alto-falante
da Capela de nossa Senhora de Fátima
prometendo voltar,
assim que a reza terminar...
29
Por alguns segundo,
o silencio era total.
Cada um tinha o seu lugar certo
no sagrado templo acanhado.
Os velhos ocupavam os bancos da frente,
os jovens ficavam pelos fundos...
O mais engraçado
é que se conhecia a tosse de cada um.
As roupas eram sempre as domingueiras.
Para variar,
antes da reza do terço começar,
o pobre sacristão
ficava as turras
com os cachorros vira-latas.
Que arreganhavam os dentes,
ameaçavam morder...
Arre, que trabalho danado,
para expulsar a matilha pulguenta do templo!
O terço era uma eterna rotina.
ficava fervoroso na ladainha e no canto final...
A fé dos fiéis se agigantava,
como cantavam as Filhas de Maria!...
Como cantavam os Congregados Marianos!...
Depois em menos de um segundo
a capela ficava vazia...
_ Retorna ao ar o serviço de alto-falante
da Capela de Nossa Senhora de Fátima
dando continuidade a uma programação variada.
30
Novamente a poeira levantava,
era festa na roça...
O tio Manecão,
o velhote e fanfarrão
agitava a criançada.
O amalucado Pipa
suava em bica,
correndo atrás do Indé...
Lá pelas tantas, antes da meia noite,
compadres e comadres se despediam,
entre abraços e apertos de mãos,
a última canção tocava.
Neste momento, sai do ar
o serviço de alto-falante
da Capela de Nossa Senhora de Fátima
prometendo voltar no sábado que vem.
31
JOGO DE BOLA
Nas manhãs domingueiras,
de minha terra hospitaleira,
toda a criançada jogava bola.
Era um jogador para cada lado,
no campinho esburacado,
o sol queimava na cachola.
Como se fosse um formigueiro
todos corriam o campo inteiro.
atrás da bola formava um batalhão.
Quando alguém tropeçava
a confusão aumentava
com tantos corpos caídos no chão,
Era só um tremendo alarido,
cada moleque tinha seu apelido:
Pé de Boi, Sabugo,
Cabeça de Balaio, Cidola...
A partida durava o dia inteiro,
todos eram atacantes,
ninguém era o goleiro.
O pior é que faltava espaço
para a danada da bola.
32
CAMINHO DA ROÇA
Havia muito cascalho
espalhado pelo caminho da roça,
da roça que tinha
um caminho estreito, tão estreito
que mal cabia uma carroça.
Sentia-se ao longe
o azedume das frutas,
as mangas apodreciam aos montes,
as laranjas apodreciam aos montes,
montes que enchiam carroças.
Oh! Curvas fechadas
na minha eterna saudade
do caminho estreito da roça!
por lá hei de voltar
algum dia feito criança feliz
num passeio de carroça.
33
MEU RIBEIRÃO
Meu ribeirão,
meu ribeirão.
Como se fosse
um lago encantado
onde as crianças
nadavam,
brincavam
de pega, pega
pega ladrão...
Só que ladrão
ninguém era não.
Meu ribeirão,
meu ribeirão.
As crianças cresceram
ganharam o mundo
e tu ficaste com tuas pedras,
tuas corredeiras,
teus peixinhos,
prisioneiros,
abandonados
em tua melancólica rotina.
Meu ribeirão,
meu ribeirão.
Ingrata geografia
que ignora tua poesia!...
34
PASTO VERDE
No pasto verde
as vacas ruminavam
o capim do tempo.
Os coqueirais brincavam
com a minha cabeça
e tudo tinha asas.
Luzes misteriosas
voavam sobre os morros
e as lamparinas
eram estrelinhas aladas
caídas do céu
No pasto verde
as vacas dormiam
enquanto os tios
contavam histórias.
Na minha cabeça
tudo tinha asas...
O homem pisou na lua
e o mundo não acabou.
Do pasto verde
as vacas sumiram.
Caíram por terra
as profecias da vovó.
35
O CÉU DE MINHA JANELA
No céu de minha janela
os pássaros eram
como se fossem plumas flutuantes.
à noite os vaga-lumes eram
como se fossem diamantes...
No céu de minha janela
também havia nuvens carneirinhos
que pastavam nuvens de algodão...
36
PEDREIRA
Picaretas, carriolas, ponteiros...
Crateras por todos os lados.
Nortistas, paulistas, mineiros...
Paralelepípedos amontoados
Sol a pino, roupas empoeiradas,
Sinfonia de aço, morro sangrando.
Pedras brutas, pedras lascadas.
Cascalho na ribanceira rolando.
Corpos atletas. Marretas agressivas.
Meticulosa e grosseira profissão.
Moldavam-se a pedra bruta.
Como se cortasse sabão.
37
ESPANTALHO
Espantei borboletas avoantes
nos jardins primaveris.
Espantei cigarras estridentes
nas árvores centenárias.
Espantei grilos seresteiros
no canto escuro do quarto.
Espantei fantasmas tenebrosos
no labirinto do eterno medo.
Espantei sonhos pueris,
agora faço uma viagem adulta.
38
GUERRA FRIA
Como as pombas
que retornam ao pombal.
Como as cigarras que cantam até morrer.
Assim era minha palpitante rotina
e meus mimosos anos bailavam maneiros
desdenhosos, como altivos verões,
no céu de mansas andorinhas.
Nem sabia,
mal podia imaginar
que nos bastidores
da política universal
traçavam-se os destinos
da humanidade.
Era eu e os que comigo conviviam
espécies singelas de rara inocência.
amávamos com ninguém o nosso rincão.
Até que, transfiguraram-se os crepúsculos,
das minhas tardes matreiras e pueris.
Em tudo se liam os rumores
de novos tempos funestos.
Até nos lábios dos tios preferidos
desenhavam-se as ruínas e os horrores
da Terceira guerra Mundial,
que seria o fim da humanidade.
39
Lá eu queria saber sobre:
capitalismo,
socialismo,
satélites artificiais,
bombas nucleares...
Lá eu queria saber
se Estados Unidos
e União Soviética
eram inimigos mortais...
Se no meu Cerne,
éramos todos iguais...
Lá eu queria saber sobre:
Subdesenvolvimento,
alta tecnologia,
alta produtividade,
industria de ponta,
era da informática,
em que onda andava o mundo,
pois o meu Cerne era tão belo
revestido pelo verde dos cafezais...
Ah! Como tinha rima e poesia
naquelas noites estreladas.
Da relva mística orvalhada
decolavam-se para os sonhos marotos
milhares de pirilampos atrevidos.
Ao som de um violão plangente,
um caboclo mal amado,
lamentava as suas mágoas
diante do sorrateiro luar prateado...
40
Jamais poderia aceitar
que os monstros do capitalismo
e do socialismo tivessem a ousadia
de mudar a paisagem de minha terra.
Todo o meu Cerne
era uma preciosidade Divina.
Era o meu berço,
meu encanto, meu lar...
As riquezas brotavam
dos morros arredondados.
Das mãos calejadas dos roceiros
comia-se o maná da vida.
Não!...
Eu não era a única criança
a desfrutar daquele paraíso,
havia um exército de meninos,
todos armados de estilingues nos pescoços,
estávamos prontos para a guerra...
Mais que guerreiros eram nossos
céus e terras encurralados
naquele acanhado horizonte
que morria com desdém
nas cristas dos morros.
Na mira de olhares inocentes
os nossos asseios
era de perpetuar os sonhos.
Também aprendi
nos meus mimosos anos
41
que sem Deus,
sem religião,
sem pátria,
sem família
torna-se o homem
o pior dos animais.
No meu Cerne abençoado
a vida jorrava em abundância.
Uma alegria contagiante
misturava-se com bandos
de borboletas coloridas...
Se as borboletas
buscavam nas flores uma doce vida...
Eu buscava no meu bairrismo
uma razão para não acreditar
no poder destruidor
das malditas aramas nucleares!...
42
FRUTOS DO MATO
Benditos sejam os frutos do mato!
Os mais nobres alimentos dos pássaros.
A gula de uma caterva de moleques da roça.
A malta estava sempre pronta para a coleta.
Éramos como se fôssemos
um bando de macacos selvagens.
Encontrávamos na mata
milhares de delícias silvestres.
Descia pela goela abaixo:
A pitanga,
o jaracatiá,
a gabiroba,
o ingá,
a amora
o jatobá...
Ah! Se voltasse
a pré-história!
Não a dos homens primitivos
A da minha infância...
43
JARDINS DAS TIAS
Nos jardins das tias
reinavam os lírios,
as rosas.
os cravos,
as hortênsias,
as margaridas,
as dálias...
Eram tantas as flores!
Flores do campo,
flores do mato...
Nos jardins das tias
as borboletas bailavam
na sinfonia do vento...
Nos jardins das tias
os beija-flores
beijavam com suave doçura,
a virginal inocência
escondida no Planeta Terra...
44
COLÔNIA LUSITANA
Terra querida!
de encantos resplandecentes;
ora radiante na florada dos cafezais;
ora melancólica após as geadas.
Com garra e esperança,
fé e confiança,
nada derrotava tua gente.
Terra amada!
Que saudade gostosa
do teu povo lusitano!
O respeito mútuo era como religião.
Pais e filhos,
empregados e patrões
eram com se fossem irmãos.
45
ERA TÃO VERDE A MINHA TERRA
Tudo era verde na minha terra.
os trovões eram como carrosséis
trepidando nos morros.
as enxadas degradavam ruidosamente
arredondadas pedras milenares.
Os brados dos roceiros varavam
pesadas nuvens no céu
e as chuvas abençoadas
anunciavam felpudas contas bancárias.
Tudo era verde na minha terra.
As minas d’água borbulhavam
nas fraldas das ribanceiras.
Os matagais não paravam
de crescer no cafezal,
os seleiros se abarrotavam
até o teto de imensa fartura.
Tudo era verde na minha terra.
As saracuras brejeiras
Anunciavam dias e noites chuvosas.
Os riachos bufavam com as cheias
e a vida se perpetuava no meu rincão.
46
ROTINA
Oh, quanto foi bela a minha infância!
Oh, saudade infinita,
dos brinquedos que eram tantos,
todos ao alcance da fantasia.
Eram como se fossem eternos,
nada era comprado.
Oh, aventuras!
que eram tantas,
que o circo se fechava
pegava fogo de verdade
com as chineladas da mamãe.
47
PRATO CHEIO
Prato cheio que ia,
prato cheio que voltava...
Na trajetória do prato cheio
os laços de amizades aumentavam.
Prato cheio que ia,
prato cheio que voltava...
Nas delícias do prato cheio
minha doce alma regalava.
Prato cheio que ia,
prato cheio que voltava...
Nas andanças do prato cheio
as máximas de meus mestres
na minha mente ficaram.
48
IRMÃOS DA ROÇA
Sou do tempo
em que as lamparinas
cheiravam a cabelos
de crianças chamuscados.
Sou do tempo
em que as noites de pirilampos
ofuscavam o brilho das estrelas
e a relva orvalhada
era uma divindade matinal.
Sou do tempo
em que as romarias de maio,
eram peregrinações calorosas.
Santa Maria!...
Quanta ladainha!...
Muitos dos que oravam fervorosamente
hoje rezam em paz no céu.
Quanto tempo já se passou.
Para onde foram:
Os macacos,
as maritacas,
as jandaias,
os guaches...?
Só restou o sabiá
que ainda canta no galho torto
da última paineira.
49
Que saudade da roça!
A chuva jorrava nos milharais
que cheiravam a melancia.
Os roceiros se agrupavam
no ranchinho de sapé
a beira do carreadouro
e no ritmo da chuva
bailava a prosa caipira.
As espigas de milho,
bonecas douradas,
também bailarinas
eram acariciadas pelo vento.
Os trovões estremeciam os morros
e a chuva caia suavemente.
Trinta anos já se passaram.
o caminho do morro
não leva mais ao cafezal.
Da laranja rosa mais doce que o mel
não se plantou a última semente.
O sino da capela nunca mais tocou,
ficou mudo o alto-falante...
Meu Deus!
Trinta anos já se passaram.
Ainda sonho com as flores silvestres,
ainda rolo pedras no caminho.
O que foi feito:
da enxada, do machado, da foice...?
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As máquinas invadiram os campos,
os minifúndios desapareceram
e os irmãos da roça que eram tão felizes...
Hoje, são miseráveis bóias-frias.
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CHEIROS DA NATUREZA
Ainda sinto o cheiro
da relva orvalhada,
da terra fértil molhada
pelas chuvas de janeiro.
Ainda sinto o cheiro
dos cravos e das rosas,
dos currais e dos galinheiros.
Ainda sinto o cheiro
do cafezal florido,
dos humos pútridos
e das velas queimando na capela.
Ainda sinto o cheiro
do capim gordura, ao vento bailando,
das cabras e dos bodes pastando
diante da minha janela.
Ainda sinto o cheiro
dos paus de fumos perfilados ao sol,
das espigas de milho no paiol
e do café secando no terreirão.
Ainda sinto o cheiro
dos araticuns floridos,
dos arreios velhos esquecidos
nas paredes do galpão.
Ainda sinto o cheiro
do moinho de fubá,
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de um pobre gambá
no tronco oco da goiabeira.
Ainda sinto o cheiro
das uvas maduras no parreiral,
das roupas secando no varal
e do perfume da cabocla namoradeira.
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DESTALA DE FUMO
Como eram úmidas e frias
as noites de”destala” de fumo!
Homens, mulheres e crianças,
como se fosse um mutirão,
os talos eram separados das folhas secas
sob a luz sonolenta do lampião.
Na sala a balbúrdia aumentava,
com o café fumegante servido no salão.
No malfadado banco de madeira
Acomodava-se o mestre “cochador”
Como um maestro comandava,
O “cambiteiro” no salão
as folhas de fumo eram enroladas
com destreza, muita perfeição.
Mais uma garrafa de cachaça se abria,
a danada bailava de mão em mão.
A cada gole que se bebia
esquentava-se ainda mais o salão.
Dentro da noite fria
o amontoado de talos crescia
a teimosa da “vaca” aos poucos sumia...
Os cães latiam no terreiro,
os galos cantavam no poleiro...
Lá fora a relva orvalhada,
anunciava a piada derradeira.
Para finalizar, como não podia faltar,
depois de se lavar as mãos
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na bacia d’água morna com sabão,
aquele chocolate quentinho
acompanhado de deliciosas fatias de pão.
Arre! Quanta fartura!... Quanta união!...
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LEMBRANÇAS BUCÓLOCAS
Ainda me lembro
do velho carro de bois,
do rangido sonoro das rodas
como um violino desafinado
por estradas pedregosas.
Era um choro chorado.
Era um trabalho penoso.
Lá iam os bois perfilados:
_ Oi Canário!... Vamos Dengoso!...
_ Era a voz harmoniosa do carreiro.
Ainda me lembro
do moinho de fubá,
da paisagem bucólica
entre o riacho e o rochedo,
na grota d’água arborizada,
em meio ao verde
dos musgos umedecidos
reinava a roda d’água preguiçosa.
Era um recanto paradisíaco,
era o reino sagrado dos tico-ticos,
antigos fregueses do fubá.
Ainda me lembro
do engenho de cana,
de rudes formas bizarras.
Os burros sempre atrelados
giravam, giravam em círculo,
formava-se uma cascata
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de garapa cheirosa
diretamente para o mundo
das guloseimas.
Ainda me lembro
do solitário monjolo,
das batidas compassadas,
ora socando café,
ora descascando arroz,
num tempo sem fim.
Puf... Puf... Puf...
Como as batidas
do meu coração.
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MANGUEIRA MAJESTOSA
Manga, mangueira,
Dadivosa, florida...
Há quanto tempo
És árvore mãe completa?...
Nos galhos rudes e tortuosos
gerações de crianças malabaristas
brincaram, ainda brincam...
Por quanto tempo hão de brincar?
Eras abrigo de pássaros cantores.
Nas folhas verdes a canção do vento
quebra a monotonia do tempo.
Há quase um século
roubaste um espaço,
tornaste rainha absoluta,
nos tempos áureos da moto-serra.
Manga, mangueira.
Manga doce mel...
De bigodes amarelos
Eu, poeta menino,
sob o frescor sombrio,
de teus galhos frondosos,
quase dormia.
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O CERNE DE TRÊS GERÇÕES
O Cerne dos meus avôs
era uma floresta milenar,
de morros solitários
e hospitaleiros.
O Cerne dos meus pais
foi um ninho de aventuras,
de eternas conquistas
e de muita prosperidade.
O Cerne do meu alvorecer
não era apenas um rio,
era o paraíso celestial
onde a natureza era divina.
O Cerne de minhas saudades
também canta o sabiá,
tem palmeiras centenárias
Onde os guaches fazem seus ninhos.
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FOGÃO DE LENHA
Fogão de lenha,
fumaça branca na chaminé.
Na chaleira preta de ferro
fervia a água do café.
Fogão de lenha,
recanto da alegria.
O almoço nunca tardava.
jantava-se enquanto era dia.
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PÉ DE JACA
Nos belos tempos
dos sonhos coloridos,
ao lado de toco de canela
plantei uma semente de jaca.
Tudo na natureza está previsto.
Veio à chuva, veio o sol...
Passaram-se alguns dias,
depois, duas folhinhas
romperam a terra fofa
no silêncio da madrugada.
Surpresos ficaram meus olhos
quando viram na mais pura
ingenuidade infantil,
que nascera um pé de jaca
a mais no Brasil!...
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BOIADA
Tempos de estrada de chão.
Tempos de lama e poeira.
Lá ia a boiada a passos lentos
sem ter dia e nem hora para chegar.
Na frente folgava o berranteiro.
Pelos flancos,
cavalgavam os boiadeiros,
vestidos a rigor:
Botas, bombachas,
esporas, chapéu de couro...
A monotonia só era quebrada
quando a boiada estourava.
Era um Deus nos acuda.
Travava-se uma luta de gigantes:
Bois em disparada,
gritos, estalos de chicotes,
cavalos galopando,
o berrante repicando...
Logo tudo voltava à calmaria
e a boiada seguia
pro seu destino final.
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MEU CÉU AQUI NA TERRA
Juro que nasci
num recanto abençoado
onde a simplicidade
brotava do sorriso do povo
e a sinceridade
nortearam os meus passos
pelos caminhos da inocência.
Lá fui um menino
parceiro da natureza.
Amo a minha terra
como quem cultiva
flores perfumadas
nos jardins dos sonhos.
Desfrutei de cada riacho,
de cada morro,
de cada pedra,
de cada árvore...
Era como se fosse
um pássaro cantor
bicando com suave doçura
deliciosos frutos silvestres.
O horizonte era o meu limite.
Cada tio, um professor.
Cada idoso, um livro de sabedoria.
Nessa escola da felicidade
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aprendi a ser poeta.
64
POETA DA ROÇA
Sou poeta da roça
dos tempos em que
os guerreiros da enxada
lavravam a terra com alegria,
cada crepúsculo era mais um dia
de trabalho, de felicidade e de oração.
Sou um poeta da roça
dos tempos dos verdes cafezais
em que as estradas eram empoeiradas
nelas passavam:
Charretes,
carroças,
cavaleiros
e boiadas.
E nos campos
se concentravam a população.
Sou um poeta da roça,
vítima da metamorfose política
que varreu do campo o lavrador.
Pobre enxada!
Imponente e agressivo trator!
Que tirou da boca do roceiro
o último pedaço de pão.
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ENXADA DE BRONZE, CANETA DE OURO...
Aos oito anos de idade,
no dia do meu aniversário
ganhei do meu pai
uma enxadinha de presente.
Era uma ferramenta impar,
jeitosa, novinha em folha,
cheirando a tinta.
Orgulhosamente mostrava a todos
aquela ferramenta
meio de brinquedo,
meio de verdade.
A minha amiga
era uma relíquia rara.
Às vezes em pleno
feriado escolar
ensaiava ao lado de meu pai
a arte milenar de capinar.
Gostava tanto da minha enxadinha!
Ninguém podia relar a mão nela.
Ai daquele que colocasse mão no cabo dela
já arrumava uma tremenda confusão.
Antes do anoitecer,
lá estava eu e a enxadinha
trocando confidências.
Éramos tão amigos!...
Tínhamos lá os nossos segredos.
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Não via à hora de crescer
e de me tornar rei da enxada.
A minha amiga demonstrava
ter pena de mim.
Era como se ela me aconselhasse
a levar a sério os estudos,
ser alguém na vida:
Um doutor,
um professor
e por quê não
um poeta?
A minha amiga estava certa,
mas eu era teimoso!
O que eu mais queria
era ser um lavrador
de mãos calejadas,
um puxador de cabo de enxada
Igualzinho o meu pai.
Era como se ela me dissesse:
_ Pobre menino!...
Isso não dá futuro,
larga de ser tolo!...
A vida de lavrador
é muita luta,
muito suor
e pouco pão.
Aos doze anos de idade,
também no dia
67
do meu aniversario
ganhei pela segunda vez do meu pai
uma enxada de verdade...
Adeus escola!...
Adeus professora!...
Adeus colegas estudantes!...
Troquei o caminho da escola
pelo caminho da roça.
O sol queimava
a minha cabeça,
o suor molhava
as minhas roupas.
As minhas mãos
foram ficando
grossas de calo.
O matagal não parava
de crescer no cafezal.
No eito, só mato que tombava,
eu era o rei da enxada.
Aos poucos fui me esquecendo
do que aprendi na escola.
Aquela vida de lavrador
era osso duro de roer.
Aos dezoito anos de idade
dei meu grito de liberdade.
Chutei pro alto
todas as enxadas do mundo.
Peguei carona no êxodo rural
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vim para a cidade...
Retomei o caminho da escola
que foi a minha salvação.
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A GUAJUVIRA
A guajuvira de minha infância
era uma árvore centenária
de galhos passarinhos
e de um tronco de mel...
Onde,
abelhas e passarinhos
Contavam os dias de glórias
ao lado do riozinho airoso.
Num dia de chuva fina,
aventureiros do mel
Jogaram por terra
a árvore passarinho.
70
BONS TEMPOS
Tempo fantástico!...
Dias e noites
contados nos dedos,
como quem dedilha no rosário
uma prece pueril...
Tempos de morros-verdes-cafezais,
das chuvas de janeiros,
das águas cantantes na cachoeira…
Tempos de férias estudantis,
de frutas maduras no pomar
e de se fazer arco-íris de sonhos...
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ALMA CAMPESTRE
Cresci no cabo da enxada,
Inalando o aroma do campo,
um misto de mato e de mel...
Era eu uma alma campestre,
já orvalhada de poesia.
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ERA UMA VEZ...
Era uma vez
um vale lusitano,
com seus encantos,
suas magias,
suas tradições...
Era uma vez
um povo lusitano,
de rude palavreado,
trabalhadores destemidos,
parceiros como irmãos...
Era uma vez
um povo folclórico,
desbravadores incansáveis,
as sombras dos cafezais,
deixaram suas pegadas no chão...
73
ESTRADA DO CERNE
Pela estrada do Cerne passaram:
a carroça do Zeca Pitota,
outras carroças também passaram
carregadas de mudanças,
de porcos cevados,
de café, de milho, de lenha...
Carroças carregadas de sonhos.
Pela estrada do Cerne passaram:
as jardineiras do tio Felizardo,
o carro de boi do Juca Mineiro,
o primeiro Ford do Antonio Abilho,
a charrete do Geraldão...
Pela estrada do Cerne passaram:
noivos montados em lombos de cavalos,
cachorros loucos enfurecidos,
boiadas agitadas,
bêbados inveterados,
folias de reis
e casais de namorados...
Na estrada do Cerne,
nas chuvas de aguaceiros,
rodavam as pontes,
rodavam os bueiros,
só não rodavam as ilusões...
74
A estrada do Cerne
Sempre foi uma porta aberta para o mundo.
Ficou melancolicamente marcada
pelos cortejos fúnebres dos saudosos pioneiros...
75
AO ULTIMO ALMEIDA DO CERNE
(LUIZ AMÉRICO ALMEIDA)
Meu caro primo Luiz!...
Como deve ser dolorido,
nos dias de hoje, a contemplar
tantos morros desnudos,
sem o verde dos cafezais!
Como deve ser amargo,
nas tardes de agora,
a morrer de saudade,
enquanto finda o crepúsculo de verão!
Como deve ser angustiante imaginar:
aqui era a colônia dos empregados,
lá, antiga Capela de São Sebastião,
ali reinava a Escola Campos Sales...
A lavoura de soja acabou com tudo...
As noites não são mais as mesmas no Cerne,
não se conversa mais nos bancos de madeira.
A televisão matou a prosa lusitana,
a energia elétrica desencantou as noites de luar...
A estrada que era feita de pó e lama,
hoje, modernamente asfaltada,
num tempo em que nos campos
são minguados os lavradores.....
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Não se ouve mais o estalar estridente
das enxadas nas pedras;
somente os roncos agressivos
dos imponentes tratores...
O ribeirão do Cerne...
Pobre ribeirão!...
Foram-se os peixes e os pescadores...
A erosão aos poucos consome o rio...
Os pássaros e as borboletas
também migraram...
Ou será que foram tragados
pelas avalanches dos inseticidas?...
Pouco se fala no Luso Brasileiro Futebol Clube...
O campo ainda bem gramado é uma relíquia histórica
à beira da estrada, com certeza
ainda guarda as marcas de tantos craques.
Meu caro primo Luiz,
és como uma rocha diante de tantas mutações...
És sem dívida: o último Almeida,
A desfrutar desse pedacinho abençoado de chão...
77
O MORRO DA POESIA ETERNA
HOMENAGEM ESPECIA AO POETA MAIOR DE SERTANÓPOLIS
MARIO BRAZ ALMEIDA
I
Encontrava-se o Dr. Mario Braz Almeida às portas da aposentadoria.
Médico renomado. O primeiro filho de Sertanópolis a fazer um curso superior.
Escolheu a cidade de Curitiba para estudar medicina... Por lá, casou-se e
criou seus filhos... Exerceu a profissão na área de pediatria... Fez nome e fama,
tanto como médico como professor na Universidade Federal de Curitiba.
Era também escritor e poeta. Autor de belas poesias e alguns romances
ainda inéditos... Uma vez aposentado iria mergulhar de corpo e alma nos seus
projetos literários engavetados.
A cada final de ano, com sempre se repetia, ao lado da esposa amada,
nada mais justo que as férias merecidas... Em plena sinfonia dos pássaros e das
cigarras desfrutavam do aroma campestre... Tudo de bom acontecia na Casa
Grande do Cerne.
Ainda é uma moradia histórica da família Almeida, a Casa Grande do
Cerne. Foi construída no Vale da querência amada, na década de 1930... Lembrase do tio carpinteiro, de serrote e martelo... A construção imponente foi aos
poucos ganhando porte de um majestoso casarão.
Casa Grande do Cerne, no esplendor do ciclo do café, em cada cômodo
aconchegante, ainda guarda mil segredos. Ao seu redor, árvores frondosas,
espalham sombras acolhedoras... No telhado, sob o um céu azul é sempre festa
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das pombas e das andorinhas. No curral, ao mugir das vacas, de rudes mãos
calejadas do retireiro, entre dedos qualificados, escorre o leite da vida.
Entre o rio e o espigão, o Dr. Poeta conhecia a dedo cada palmo de chão.
Cada canto daquele paraíso era um santuário; cada pedra, um monumento; cada
árvore, um abrigo; cada trilha, um caminho... Havia um lugar mágico, que lhe
roubava horas infinitas em profundas meditações...
Um morro solitário como
tantos outros, numa vasta região do Cerne... Lá sempre se abastecia de uma
inspiração única, verdadeira... Revelada timidamente no desabrochar da infância
nas aulas da professora Maria de Lourdes Fernandes. Com ela aprendeu o gosto
pela poesia.
Aquele morro ainda sem nome era lhe como se fosse sagrado, onde aquela
alma introspectiva passava horas infinitas contemplando a natureza. Escolheu a
crista do morro e sobre uma pedra avantajada, às sombras dos arvoredos fez seu
eterno mirante.
Doravante esse acidente geográfico passa a ser denominado “O Morro da
Poesia Eterna”, Os motivos, bem... Melhor deixar acontecer naturalmente.
Lá qualquer hora do dia ou da noite, sopra um vento agradável.
Passar
horas no Morro da Poesia Eterna é como fazer uma viagem transcendental. É
renovar-se de energia vital. Abastecer-se de inspiração Divina, encontrar o
verdadeiro sentido da natureza... É reconhecer que há um Deus criador de tudo,
que por amor à humanidade, enviou seu filho amado, Jesus Cristo, para ser
crucificado num morro... O mesmo Cristo que escolhia os morros para orar, jejuar,
meditar e pregar sermões às multidões.
O Morro da Poesia Eterna não é o Monte Sinai, nem o Morro das Oliveiras;
apenas, um morro do Cerne. O morro eleito e preferido do Doutor Poeta.
O Morro da Poesia Eterna nunca será um lugar de milagres... Mas um lugar
de meditações, contemplações das coisas Divinas, onde se pode falar com Deus
em orações... Onde o Doutor. Poeta em devaneios solitários traçou planos de vida
e da própria morte.
79
II
O Doutor Poeta nasceu num racho de palmitos, abaixo do Morro da Poesia
Eterna. Conheceu o paraíso aqui na terra. Era o xodó de dezenas de “tios
lusitanos”, Cada idoso era um tio... Certamente teriam bigodes, certamente
falavam um português carregado de verbetes engraçados... Conta-se que eram
figuras folclóricas.
Aquele recanto de mundo era-lhe como se um pedaço de Portugal tivesse
desgarrado da Península Ibérica e caído naquele Vale abençoado.
III
Amava a natureza, os cafezais... Defensor de toda fauna e toda aflora.
Tinha o olhar fixo no horizonte. Sendo paparicado por todos já se sabia que o
caçula seria o orgulho da família.
A mãe Aurora, santa criatura!... Guardava um segredo no profundo d’alma;
havia prometido a Deus que filho caçula seria padre.
No seu rosto pueril, resplandecia felicidade, vivia como um príncipe. Davase ao luxo de acordar com o gorjeio dos pássaros no pomar. Ao abrir a janela da
Casa Grande do Cerne deparava-se com o Morro da Poesia Eterna, todo
revestido pelo verde dos cafezais.
Logo pela manhã já ouvia o estalar das enxadas nas roliças pedras como
se fossem melancias... Eram o pai e os irmãos na batalha de cada dia.
Na
cozinha, a mãe e as irmãs, davam entrada às panelas, no fogão de lenha, uma
comida caseira, apetitosa, cheirosa... O aroma recendia por toda a casa. Breve
chegaria a hora sagrada de levar o almoço à roça.
80
IV
Não conhecia a riqueza medida em dinheiro. Conhecia outros valores: O da
mesa farta na hora da ceia, da união familiar, do respeito para com o próximo, do
amor pela Pátria, do temor a Deus.
Nos seus mimosos anos o mundo girava-lhe radiante: Belo, como as
paineiras alvejantes; perfumado, como as floradas nos cafezais; angelical, como
as cantigas de ninar da Marica, a irmã preferida.
À noite, milhões de vaga-lumes luziam sobre a relva. Trilhões de estrelinhas
bordavam o céu. Quando a lua cheia despontava no horizonte, tudo a paisagem
ficava prateada.
O pai, José Manuel Almeida era um músico exemplar, guitarrista
impecável... Um dos irmãos, o Carlos herdou do pai o gosto pela música; tocava
violão como um artista renomado. Ao anoitecer, logo nas primeiras horas, com o
crepúsculo vermelhado, na varanda hospitaleira cantavam, dançavam ao som da
guitarra e do violão... Eram os saudosos fados imortais, lá da santa terrinha... “Era
uma casa portuguesa com certeza”.
V
Assistiu as primeiras colheitas do café; sentia-se inebriado com o aroma
dos frutos maduros... O que mais lhe chamava atenção era o vai e vem da carroça
carregada dos frutos maduros, os sonhos de riqueza. O carroceiro era o seu irmão
mais velho, o Daniel.
No cafezal, o ritmo da colheita passava pela derriça, varreção e abanação.
À beira do carreadouro empilhavam-se os sacos cheios de café em coco. No
terreirão, mulheres, crianças e idosos, ora espalhavam o café ao sol, ora
81
amontoavam... Passavam os frutos por uma lavagem... Quando secos, eram
armazenados na tulha. Lá ficavam até a hora da venda.
VI
O caminho das flores passa pelos caminhos das pedras... Cada momento
da vida é uma nova realidade. De um lado as experiências acumuladas... Do outro
lado os labirintos de cada época, de cada geração e de cada ser humano.
Um estigma turbou-lhe a mente, adiando-lhe os sonhos... No rosto em que
brotavam risos, ficaram as marcas da tristeza, das lágrimas, da solidão... Foi
arrastado por torrentes tempestivas... Experimentou o caos, quase sucumbiu.
Na Casa Grande do Cerne, até então um castelo de fantasia, passou a ser
um lugar de pranto, lamentações... Com seguidas mortes de entes queridos. O
Morro da Poesia Eterna perdeu a magia, voltou a ser apenas um morro. Com a
varanda sem música. O reino do riso, do canto e da dança vestiu-se de luto.
Não!... Chega de tantas mortes! Já era tempo de retornar ao caminho das
flores. Estava cansado do caminho das pedras.
VII
Até ali, o pouco que aprendeu foi numa escolinha rural e em seguida
concluiu a quarta série primária no Grupo Escolar de Sertanópolis... Continuaria os
estudos a qualquer preço, a qualquer sacrifício... Onde?... Como?... Quando?... A
mãe, os irmãos mais velhos e o padre Chico encontraram a solução.
82
Mas, no fundo da alma, já amargava a separação da família. Era como um
beija-flor, gora tinha que ser como águia, voar alto, pra bem longe... Conhecer
novos horizontes, terras distantes, e depois pousar serenamente, como uma
pomba mansa, indefesa atrás dos muros de um colégio de internato, na cidade de
São Paulo.
Era uma realidade dolorida, amarga, solitária... Voltar atrás, impossível.
Com o destino traçado, dividido entre a liberdade do campo e a prisão de um
colégio desconhecido... Fazer o quê? Se até a data da partida já estava definido...
Restava-lhe contar os dias, aproveitar cada minuto restante... Fazer de tudo, sumir
pelas trilhas das matas, contemplar cada árvore, ouvir o canto dos pássaros, o
zunir das cigarras, o murmurar das águas do Ribeirão do Cerne.
Quando não, pegar as varas de pescar, encher o bornal de peixes, retornar
à asa Grande ao findar da tarde.
Depois do jantar, no aconchego da varanda... Despedir-se de cada estrela,
de cada vaga-lume... Deitar-se na cama de colchão de palha, dormir como um
anjo e sonhar até o dia amanhecer. Acordar com a sinfonia dos pássaros, com as
galinhas cacarejando no terreiro, com as vacas mugindo no curral, com os cavalos
relinchando no piquete.
Foram tristes os últimos dias na Casa Grande do Cerne. Ali, durão, como
uma estátua de pedra, como se nada tivesse a ver com o que estava
acontecendo... Somente Deus é que sabia o quanto estava dolorida aquela alma
tenra, ainda mal desabrochada.
VIII
Finalmente o dia da partida... Dia cinzento, chuvoso, melancólico... Os
pneus da “baratinha” do “Camacho” logo na saída patinaram na lamacenta estrada
escorregadia do mato. A visão da Casa Grande do Cerne, o castelo dos sonhos e
83
pesadelos, desapareceu na primeira curva da estrada... O Morro da Poesia Eterna
foi ficando distante, até se perder na linha do horizonte...
Seguiu a viajaram de trem na companhia da mãe Aurora e de dois irmãos:
O Américo e o Francisco Manuel... Dominado pelo cansaço, dormiu. Ao
amanhecer, o trem se arrastava como serpente, soltando fumaça. Era outro
mundo, casas de argamassa, brancas... Reflorestamento de eucaliptos, centenas
de morros arredondados, nenhum deles era mais belo, tão mágico quanto o Morro
da Poesia Eterna.
O trem corria soltando fumaça... A cidade de São Paulo foi surgindo, a São
Paulo desconhecida: Prédios, carros, bondes... Um formigueiro de gente:
Nortistas, italianos, portugueses, japoneses, negros, brancos, mulatos... Homens e
mulheres correndo atrás do tempo, escravos do relógio, tudo tão diferente do
mundo da roça.
IX
No dia da matrícula, no Colégio Liceu Sagrado Coração de Jesus sentiu
uma punhalada no coração... Tão acostumado à grandeza do mundo, um mundo
sem limites... Viu-se ali, naquele Colégio imenso, murado como se fosse uma
penitenciária, o fim de toda liberdade campesina.
Antes do início das aulas ocupou-se em marcar as roupas, com o número
286. Deixava de ser uma criança mimada, paparicada, pra ser apenas um número.
A grande tristeza aconteceu com as despedidas da mãe e dos irmãos...
Pôs-se a chorar convulsivamente, um choro do fundo da alma, tantas vezes
reprimido... Tinha a impressão de perda definitiva do que ainda lhe restava de
84
família... Voltou a casa onde se encontrava hospedado, com o coração dolorido,
amargurado, já morrendo de saudade da terra onde nasceu.
Veio-lhe como já era esperado o golpe final... Numa triste manhã
esfumaçada, da São Paulo da garoa foi levado com os pertences para o internato
do Colégio Liceu Coração de Jesus... Na portaria, despediu-se dos parentes que o
acomodava. Cabisbaixo, viu-se diante de um salão imenso repleto de crianças
estranhas.
Foi apresentado ao assistente da turma... Sentiu-se angustiado, com
vontade de chorar, correr, sumir, vomitar... Mas conteve-se, encontrou forças até
então desconhecidas... Afinal, tinha que ser forte, um guerreiro, um vencedor, um
bravo filho do Cerne!... Assim venceu com muitas lágrimas as primeiras batalhas.
X
Nos primeiros dias de aulas, o caipira do mato, sotaque português tentou
superar os problemas de convivência... Meditava mais do que falava... Aquele
silêncio premeditado rendeu-lhe status de bom comportamento. Superada a crise
inicial, entregou-se aos estudos... Logo era o melhor aluno da turma, alcançando
com méritos o prêmio especial... Na festa de encerramento daquele ano letivo;
tantas vezes foi chamado ao palco... Era a figura mais importante da cerimônia,
aplaudido e admirado por todos.
A mãe Aurora ali presente, abobalhada, não cabia em si de tanto
contentamento, chorava de alegria. Era o filho amado, a caçula da família, o guri
do Cerne, que se impunha perante todos na cidade grande, longe, muito longe do
Morro da Poesia Eterna.
85
XI
Findou
também
o
segundo
ano
de
internato...
Repetiram-se
as
homenagens e as medalhas, já era a estrela maior do Colégio...
Aos domingos recebia visitas... Além dos beijos e abraços: peras, maçãs,
biscoitos... Tudo lhe era doce como mel, porém as despedidas eram-lhe amargas
como fel... Nos outros dias da semana: aulas, atividades religiosas, o coral, os
passeios das quintas-feiras na chácara do Colégio em Santana... Uma eterna
rotina, com muita disciplina.
XII
Finalmente retornou à Casa Grande do Cerne... Já havia perdido o sotaque
da roça... Falava sem embaraço sobre: Política, cultura, economia, esporte e
diversões.
As férias passaram num piscar de olhos... Enquanto retornava aos
solavancos do trem, numa longa noite sem dormir, lembrava-se da festa na capela
do bairro... Lá estava ele com os uniformes de gala do Colégio: cortejado,
paparicado, cobiçado pelas donzelas, o orgulho da mãe Aurora.
86
XIII
Completou o Ensino Fundamental e Médio no Colégio Liceu Coração de
Jesus, sempre com as melhores notas.
Ser padre, isso era lá com a mãe Aurora. Ser engenheiro, não gostava de
desenhos. Ser advogado, não tinha vocação. Agrônomo, veterinário, dentista,
também estavam fora de cogitação. Ser escritor e poeta era a sua grande paixão...
Acabou optando pela medicina. Nessa profissão honrada fez nome longe da
querência amada, em terras curitibanas.
XIV
Passaram-se longos anos, como sempre, durante as férias retornava à
Casa Grande Do Cerne. Desta vez, tem na alma a certeza de que aquela viagem
mudaria por completo sua história.
Com toda certeza buscou no Morro da Poesia Eterna, as repostas dos
sonhos que ainda desejava realizar... Meditou profundamente sobre o futuro, era
um homem intelectual, médico, escritor, poeta... Enquanto médico foi fiel a
medicina... Faltava-lhe a consagração como homem das letras.
Do alto do Morro da Poesia Eterna deve ter contemplado o Vale do Cerne,
o mesmo Vale que outrora era uma vasta floresta: terra dos papagaios, das onças
pintadas, das antas... Que já foi berço dos cafezais nos tempos do seu Salvino, do
Djalma, do Natalino... Dá até pra imaginar que era como se ele tivesse vendo o
Jair soltando foguetes. O velho Pedro Inácio ponteando a viola afinada. O
Ameriquinho jogando bola. O Atilho bêbado feito gambá. O Manduca dando aulas.
O irmão Américo rezando o terço. O Horácio David pescando os últimos peixes do
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Cerne. O João Patrício contando causo dos tempos do sertão. O Florentino com
seu farolete iluminando os atalhos da vida nas noites escuras que se perderam no
tempo.
Do alto do Morro da Poesia Eterna, não paira nenhuma dúvida que
contemplou também, as lavouras de soja, milho, algodão, pastagens... Com
certeza deve ter-lhe turbado a mente, uma forte nostalgia e até de revolta com
tamanha mudança em toda a paisagem.
Não dá pra negar que não tivesse pensado: por onde andam os filhos do
Cerne, os netos do Cerne, os bisnetos do Cerne, os tataranetos do Cerne?...
Certamente deve ter planejado o lançamento do seu primeiro livro. Reunir
os antigos moradores do Cerne ainda vivos numa grandiosa festa.
Dá até pra imaginar que as nuvens cobriam o sol. Que ventava como
sempre venta, no Morro da Poesia Eterna. Arriscar sem medo de errar que um
trinca ferro cantava o canto boiadeiro nos galhos do timbó. E que toda a natureza
estava em paz e receptiva dando as boas vindas àquela alma contemplativa.
XV
No tempo previsto, a festa aconteceu... Dia de domingo, domingo de sol,
poucas nuvens no céu...
Veio gente de muitas cidades, dos quatro cantos do Brasil, até de
Portugal... Em meio à multidão... Ele, o Doutor Mario, entre sorrisos, apertos de
mãos e abraços era filmado, fotografado, enquanto autografava o livro: “A Família
Almeida, O Cerne”.
No burburinho da festa:
_ Eu sou fulano de tal e tu quem és?
_ Sou filho do Morgado...
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_ Por onde anda o Chico Barrecas...?
_ Sumiu no mundo!...
_ O João Valente deve estar bem velhinho!...
_ Que pena não ter vindo à festa!...
_ Os convidados que não vieram, não sabem o que perderam!...
XVI
Foi tudo com num conto de fadas... Trinta dias depois, ainda com o ego
massageado, realizado... Adoeceu gravemente.
Submeteu-se a uma delicada cirurgia... Recuperado aparentemente, ainda
voltou à vida normal...
Mas, o Deus todo poderoso, pai de toda poesia universal levou o Doutor
Poeta, para fazer parte da Academia Celestial.
XVII
Nem velório, nem caixão, nem enterro... Para os filhos do Cerne o Doutor
Poeta não morreu; viajou sem um previsto regresso.
Passaram-se alguns dias, numa tarde de domingo, uma multidão silenciosa
subiu o Morro da Poesia Eterna. Em meio às emoções de já saudosas
homenagens... Das mãos da esposa Sueli, como quem semeia poesia, as suas
cinzas prateadas foram lançadas na relva verde, campo santo de sua última
morada.
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Ficou na pedra, no alto do Morro da Poesia Eterna, numa placa de bronze,
o seu último desejo gravado...
Os ventos que sopram o ano inteiro e as chuvas abençoadas
encarregaram-se em espalhar as cinzas por todo o Vale...
Ficaram as árvores mais verdes, As frutas mais doces, e o céu mais
estrelado... Por todo o Vale do Cerne a natureza se confunde com a sua poesia.
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SAUDADES DO CERNE POESIAS