PAINEL OS PROCESSOS DE REFLEXÃO EM ACESSIBILIDADE EM MUSEUS Orientadora: Prof° Dra Maria Christina de Souza Lima Rizzi Escola de Comunicação e Artes – ECA USP Autora: Marina Fenicio Soares Batista Graduação em Terapia Ocupacional – FMUSP Bolsa - Programa Aprender com Cultura e Extensão Universidade de São Paulo Resumo: O presente artigo tem por objetivo apresentar os processos de reflexão sobre atividades educativas na exposição Perceptum Mutantis de 02 a 05 de abril de 2011 no Museu da Imagem e do Som. Foi a partir da equipe de cinco educadores conjuntamente com a autora deste trabalho que, uma série de idéias foram planejadas em específico às pessoas com deficiência. Perceptum Mutantis é uma exposição que reuniu 11 obras cujo o conceito orbita ao redor de dispositivos fílmicos e maquínicos. Os artistas apresentam trabalhos com diferentes dispositivos de interatividade. Sistemas táteis, circuitos de conexão e projeções interativas, cinema panorâmico, videoprojeções e videoinstalações. Cada grupo tem sua particularidade, contudo as pessoas com deficiência são apenas mais um desses que possuem singularidades, inerentes das limitações que possuem. A partir de uma discussão coletiva sobre a Exposição Perceptum Mutantis o Educativo (2011) do Museu da Imagem e do Som delineou propostas de apoio ao atendimento de grupos com Pessoas com Deficiência em específico a deficiência visual. O acolhimento objetiva atividades como, situar espacialmente, reproduzir sensações táteis em uma pré atividade conceituando a exposição, entre outros. Contudo, algumas obras necessitaram uma produção mais específica, com o uso de materiais de apoio, como a obra de André Parente, Mariano Sardón e Katia Maciel nas instalações interativas. Portanto, a partir disso, demarcou-se uma necessidade de discutir mais profundamente este tema, as pessoas que seriam alvo dessas atividades, quais profissionais poderiam contribuir com esta formação e a importância destes, em específico para os Educativos em museus. Trabalhar com pessoas que tem deficiência não demarca uma divisão laboral de atividades, mas sim um cuidado em específico ao repertório diferenciado que ainda pode e deve ser criado no campo da arte e suas atividades em museus. PALAVRAS-CHAVE: Acessibilidade; Pessoas com Deficiência; Arte-Educação 1. Introdução Este trabalho tem por objetivo explicitar como foram criadas as propostas em arteeducação aos grupos de pessoas com deficiência. Uma equipe de 15 educadores foi formada, provenientes de diversas profissões – artes plásticas, artes cênicas, terapia ocupacional, letras, artes visuais-, para ampliar e intensificar o trabalho do Setor Educativo do Museu da Imagem e do Som na exposição Perceptum Mutantis (2011); assim foi possível trabalhar diferentes pontos de vista e possibilidades de intervenção cultural, ampliar repertórios práticos e transgredir barreiras de discussões às novas proposições de atividades que se referem a grupos com características diversas. Dentre estes educadores, cinco se interessaram em formular propostas educativas para pessoas com deficiência, atividades estas que partiam de um ponto em comum com as já programadas aos diversos grupos visitantes, porém, seu repertório se expandiria ao universo conceitual, sinestésico e dialógico. Adaptar, buscar sensibilizar e criar conjuntamente abrange um cercamento mínimo de conceituações e produções que superam as barreiras demarcadas pelas deficiências. Essas atividades são caracteristicamente diferenciadas em alguns pontos, contudo, a exploração de discussões simbólicas e artísticas podem e devem ser amplamente exploradas. Para a exposição, o que poderia e deveria ser mostrado seria de base o mesmo conteúdo trabalhado com os demais visitantes, contudo, novas referências e materiais extras poderiam ser incluídos na abordagem grupal de pessoas que possuem determinadas diferenças como a falta de visão, por exemplo. Haveria a necessidade de explorar outras simbologias que agregassem os discursos e as discussões sobre as obras, como elas são em sua concretude e o que poderiam sentir sobre, ou seja, sinetesicamente, teriam abordagens diferenciadas. Estas eram alguma das possibilidades de ampliar o encontro entre educadores e visitantes de pessoas com deficiência. 2. A exposição O Museu da Imagem e do Som criou parceria com a Fundação Telefônica para promover a exposição Perceptum Mutantis, com curadoria de Daniela Busso nos meses de abril a maio de 2011, onde quatro artistas argentinos e dois brasileiros construíram suas obras relacionadas aos trabalhos de arte multimídia e interatividade. Onze obras ocuparam o espaço do museu com uma programação conjunta de workshops, debates, e oficinas programadas pelo Educativo sobre reciclagem de equipamentos eletrônicos, comunicação social e rádio, e procedimentos robóticos e de vídeos em escolas e instituições parceiras da Fundação Telefônica no interior de São Paulo. Os trabalhos desenvolvidos permeavam conceitos diversos de interatividade, o cinema expandido, a imersividade, vídeos, a metalinguagem, o movimento, deslocamento, entre outros. Para a exposição, a idéia era permear os aspectos multimídias e o que estes despertam, movem e deslocam em sensações, lugares e idéias os visitantes do museu. Alguns dos artistas como André Parente, brasileiro, que buscou a sensação de movimento em sua obra Circuladô com o cinema expandido. Utilizou personagens de filmes brasileiros que giram em loops coordenados pelo visitante que interagir com o botão centralizado na obra. Sua segunda obra Trilhos Urbanos criado conjuntamente com Pedro Parente é regido pelo corpo do espectador que anda pela projeção, provocando o movimento das imagens de janelas de um trem, sonorizados por ondas de rádios quando em andamento. Já Kátia Maciel, também brasileira, que expôs dois trabalhos de instalações interativas, uma delas, À sombra consiste em cinco projeções: nas paredes, encontram-se imagens do jardim; no teto, o céu; e, no piso, areia, quando o visitante se senta no banco colocado perto de uma das paredes, sua presença, captada por sensores, gera uma sombra de uma árvore em movimento, em uma paisagem fixa. E o argentino Mariano Sardón apresenta a instalação interativa Libros de Arena com a instalação que relaciona o movimento das mãos sobre um cubo de areia, que aparecem trechos de textos de Jorge Luis Borges. O texto se move como um fluído e desaparece posteriormente em cores vermelhas em um cubo com movimentação mais rápida, e cores azuis no outro cubo, mais lentificadas. Estes foram os artistas que, a partir de suas obras, a equipe de educadores organizou atividades em específico para grupos de pessoas com deficiência. Um trabalho que requer o diálogo com a arte e a educação nas esferas multiculturais, que envolvem uma série de práticas transformadoras, interativas, a fim de conquistar novos públicos, propor novas formas de apropriação do conhecimento científico e técnico, meta esta inovadora para os museus que, após a revolução Industrial, instituições como esta sofreram uma modernização em suas práticas comunicativas, (Nascimento, 2005) compondo assim, o museu, um cenário sociológico, não apenas contemplativo, mas também educativo. Estes se transformaram em locais interativos, agentes de uma pedagogia transacional,ou seja, para o autor supracitado é propor novas formas de apropriação do conhecimento técnico, científico e artístico ao público. Esta pedagogia vem acompanhada da necessidade para uma prática educativa e um repertório técnico para este fim. As finalidades seriam responder às demandas diversas de públicos, permitir o crescimento das competências do visitante e disponibilizar a ciência e a tecnologia em um contexto social e cultural do visitante. O museu amplia seu papel transmissor do conhecimento exposto, surgindo um novo elemento museográfico, a interatividade. Esta, encaminhada nos museus pelo dispositivo, como um objeto museal, o que permite o visitante viver a exposição, chegando à análise e ao exame crítico, a uma prática educativa, de redes de elementos formativos que implicam a construção de conhecimento do próprio visitante. Ou seja, para Nascimento (2005), “A prática educativa do museu passa a constituir-se de avenidas possíveis as quais os visitantes, ator da construção de novos conhecimentos, traça seu próprio caminho.” Com isso, o museu entra como fundamento de composição desse aprendizado sociológico. Aprendizado este que envolve: “um processo sócio-histórico, mediado pela cultura, onde se atribui o papel de impulsionar o desenvolvimento cognitivo à interação entre o adulto e a criança, à ação da escola e as diversas práticas educativas pela sociedade.” (Nascimento, 2005) A museologia e a educação são condicionantes histórico-socialmente, assumindo em cada período características que é fruto das ações do homem no mundo, onde são consideradas possibilidades e não determinantes e por isso, “a necessidade de contextualizá-las, situando-as no espaço, compreendendo-as como ação social e cultural.” (Santos, 2001). E com isso, ensinar crítica em museus possibilita o desenvolvimento da percepção e compreensão da arte como expressão das crenças e valores da civilização, reflete os valores estéticos intrínsecos da obra de arte e as condições culturais da sociedade, (OTT, 1997). Ou seja, o ensino da arte em museus proporciona um registro da civilização por meio das abordagens artísticas de expressões, comunicações e imagens estéticas visuais. O museu passa a criar repertório próprio ao que condiz no estudo da arte e por isso a importância do ensino, dar continuidade ao que é e foi socialmente construído esteticamente, e quando mediado pelo arte-educador, este processo se potencializa, catalizado pelo estudo e ensino da crítica. “O ensino de crítica é realizado por intermédio das obras no original apresentadas nas galerias dos museus onde o poderoso impacto da própria obra torna a educação no museu uma experiência única” (Ott, 1997). 3. A Proposta A equipe de educadores do Museu da Imagem e do Som estava dividida entre os responsáveis aos atendimentos de grupo e os que organizavam as oficinas nas escolas do interior. Dentre os presentes no museu, cinco se interessaram em construir as atividades para pessoas com deficiência. A estagiária graduanda em Terapia Ocupacional – bolsista do Programa Aprender com Cultura e Extensão - coordenou a esquematização das reflexões e propostas, instigando o que poderia ser trabalhado, quais abordagens seriam condizentes a este público e em conjunto com os saberes e experiências dos educadores construíram um plano de atividades e materiais para o trabalho com grupos de pessoas com deficiência. Iniciaram este processo de reflexão com uma exploração inicial do espaço. Agregaram observações dos grupos já atendidos e quais eram as maiores dificuldades e dúvidas presentes. Com isso, a atividade foi delineada a partir de um novo repertório, produzido pelos educadores, permitindo um acesso a arte que revela em diferentes formas de expressão artística idéias mais amplas de cultura, através da produção simbólica do campo, museu e interação. As atividades para Pessoas com Deficiência são caracteristicamente diferenciadas em alguns pontos, contudo, a exploração de discussões simbólicas e artísticas podem e devem ser amplamente exploradas. Primeiramente, o acolhimento do grupo se baseia em abordar e situálos espacialmente (principalmente pessoas com deficiência visual) é essencial para a localização e segurança na circulação dos indivíduos num espaço novo e desconhecido. Falar diretamente com as pessoas, tirar dúvidas sobre suas condições diferenciadas e nomenclaturas podem ser explicitadas e diretamente esclarecidas para um diálogo de trocas e confiança num primeiro encontro. Para isso, uma conversa inicial e uma pré-atividade são essenciais para estabelecer um vínculo primário e instigar às novas sensações que estão por vir. A atividade inicial planejada tinha por objetivo as sensações táteis, a partir da experimentação de objetos não identificados previamente em sacos pequenos de TNT. Estes materiais estariam relacionados com as obras artísticas da exposição em específico, como exemplo, um saco com fios eletrônicos, folhas secas, negativos de filmes, etc. A partir disto, uma discussão sobre o que estaria por vir seria previamente incitada para diminuir ansiedades, esclarecer dúvidas, explorara conceitos, entre outros. Nas obras em específico, como na obra de André Parente (Circuladô 2007/2011) a instalação interativa requeria além das informações descritivas da obra, o caminhar pelo espaço e a proposta do grupo copiar corporalmente as mesmas imagens que apareciam na obra. Para pessoas com deficiência visual, o toque na cabeça por um vidente ao lado, indicaria a mesma velocidade e o mesmo sentido de rotação das imagens produzidas pelo trabalho. Para a obra de Katia Maciel, Á Sombra (2011), a instalação interativa de um jardim, a idéia foi simbolizar a sombra que surgia da árvore por detrás da pessoa com um TNT preto encobrindo a pessoa por inteiro, quando sentassem no banco em específico da Obra. Em um segundo momento, com uma corda, desenhar a silhueta da pessoa deitada no chão no próprio jardim, significando a discussão do que é uma sombra, sendo esta somente visual, como a imaginamos e a sentimos. Já com as pessoas na cadeira de rodas, a idéia era a imersão total, portanto, propor a saída da cadeira de rodas e se sentarem realmente no banco de madeira. Em Livros de Areia (2003/2004) de Mariano Sardón, foi proposto o toque na areia associado aos tecidos sobre as mãos que significariam o mesmo que as projeções em luz da obra. Para representar a cor azul, um tecido mais leve, como o cetim, já para a cor vermelho, o feltro, mediada pelo educador com diferentes velocidades e as palavras relatadas por ele. Os materiais e apoio de acordo com a proposta foram listados na compra cotidiana do próprio museu e alguns foram reaproveitados. Com isso, as atividades além de pré-planejadas, demandaram tempo, disponibilidade dos educadores, cooperação e incentivo da coordenação Educativa e institucional, para que pudessem gerar um campo de pensamentos simbólicos, criativos e concretos condizentes ao atendimento do público variado e que requer especificidades. 4. Conclusão Construir atividades para o público de pessoas com deficiência demanda tempo, dedicação, exploração do espaço, discussão teórica, práticas e trocas simbólicas e criativas sobre o assunto. Conceituar esta prática como uma simples rotina arte-educativa de um museu pode acarretar em dificuldades que no dia-a-dia da instituição, acabam por tornar processos reflexivos, não concretizáveis, como este processo em si. A dedicação, integral de profissionais em específico, referentes à área de acessibilidade do atendimento em arte-educação para pessoa com deficiência, deve ser meta característica deste setor nos museus. Pois, são atividades que devem ser minimamente coordenadas e planejadas para o acesso integral das diferenças, no museu como um todo, além do Setor Educativo. A instituição museu, além de contribuir com as atividades programadas, diferenciadas ao público com diferenças, deve se interar do que está sendo planejado, para que a acessibilidade não seja mera assistência cultural que se efetue apenas em situações específicas. Pois acessibilidade tem como objetivo proporcionar ganhos na autonomia mobilidade das pessoas com deficiência, para que essas possam usufruir dos espaços, das relações, das comunicações com mais segurança, confiança e comodidade, (Prado, 2003, p. 22 apud Bezerra, 2007, p. 278). Ter acesso requer exigências na equiparação de oportunidades, “Não existe a meiaacessibilidade, um espaço é ou não é acessível” (Bezerra, 2007, p.278). Ou seja, a luta pelo acesso está embutida na conquista dos direitos de qualquer cidadão em usufruir desta ação cultural, uma prática cidadã de responsabilidade de quem oferece serviços públicos e privados e de quem as recebe, uma possibilidade efetiva no cumprimento dos direitos e deveres de uma sociedade, constantemente em mudanças e diálogos, para tanger a arte em constante sintonia com a vida de qualquer ser humano em transformação. Portanto, criar espaços que proporcionem a discussão de meios e atividades acessíveis às pessoas com deficiência é uma pratica cidadã de todos os indivíduos envolvidos no contexto sócio cultural de atendimento ao público. Gerar propostas, viabilizar ações que transpõe barreiras físicas e atitudinais condizem ao processo de inclusão desta parcela da população, que isoladamente não são suficientes em suas reivindicações históricas. É necessária a atuação de muitos grupos sociais envolvidos, que além do Estado e suas Leis, agrupam os técnicos, profissionais de diversas áreas, as instituições que atendem ao público e a sociedade civil como um todo. Estudar novas técnicas e consultar constantemente esta população atendida contribui com o criar de novas abordagens e possibilidades de atendimentos às pessoas com deficiência em diversos locais de circulação da cidade, como as escolas, hospitais, praças, e entre elas, os museus. 5. Referências Bibliográficas BEZERRA, R. M. N.; A acessibilidade como condição de cidadania, p. 273 - 296 in: GUGEL, M. A.; FILHO, W. M. da C.; RIBEIRO, L. L. G. Deficiência no Brasil: uma abordagem integral dos direitos das pessoas com deficiência. Florianópolis, 2007. MEHRY, E. E.; Universalidade, equidade e acesso sim, mas não bastam; Campinas, 1995. NASCIMENTO, S. S. do; O desafio de construção de uma nova prática educativa para os museus, 2005, p. 221-238 in: FIGUEIREDO, B. G. &VIDAL, D. G. org.; Museus: dos Gabinetes de Curiosidades ao Museu Moderno, Ed. Fino Traco editorial – ME, 2005. OTT, R. W.; Ensinando crítica nos museus; p. 111- 137; in: BARBOSA, A. M. (org) Arte-educação: leitura no subsolo, São Paulo, Ed. Cortez, 1997. SANTOS, M. C. T. M; Encontros museuológicos – reflexões sobre a museologia, a educação e o museu. Texto para aula inaugural do curso de Especialização em museologia de Arqueologia e etionologia da USP, proferida na abertura do Simpósio Internacional “Museu e Educação: Conceitos e métodos”, realizado no período de 20 a 25 de agosto de 2001.p. 126-146. Sites http://mis-sp.org.br/