V Encontro Regional Sul de Ensino de Biologia (EREBIO-SUL)
IV Simpósio Latino Americano e Caribenho de Educação em Ciências do
International Council of Associations for Science Education (ICASE)
SAIBA MAIS: ENSINANDO CIÊNCIAS COM A TURMA DA MÔNICA
SAIBA MAIS: TEACHING SCIENCE WITH MONICA’S GANG
Autora: Adriana Couto Pereira Rocha ([email protected])
Instituto Federal do Paraná/IFPR
Co-autora: Vergínia Mello Perin Andriola ([email protected])
Instituto Federal do Paraná/IFPR
Resumo: Este artigo visa analisar e discutir o material da coleção “Saiba Mais”,
produzida pelos Estúdios Maurício de Souza, com foco em áreas de interesse
científico. A coleção “Saiba Mais” apresenta indiscutível potencial para uso
paradidático, pois aborda seus diversos temas usando uma linguagem de fácil
compreensão para o público de Ensino Fundamental, com personagens bem
conhecidos e identificados pelas crianças. Para o presente estudo realizou-se uma
análise crítica de parte da coleção, buscando localizar aspectos científicos discutidos
nas histórias e sua relevância para o ensino de ciências. Constituíram critérios para
a análise: roteiro, exatidão científica, adequação dos passatempos e atividades
centrais. Foram percebidos grandes acertos e contribuições ao ensino de ciências
para a faixa etária em questão, mas também foram encontrados equívocos em
conceitos científicos que poderiam ser evitados com a utilização de uma consultoria
técnica. Contudo, tais equívocos não foram considerados graves a ponto de
impossibilitar a recomendação da série como material paradidático. O estudo conclui
considerando o material adequado para o uso como recurso paradidático, e sugere
que o material passe por uma revisão mais cuidadosa de modo a aumentar sua
credibilidade e suas possibilidades de uso no ensino de ciências.
Palavras-chave: Ensino de Ciências; material paradidático; quadrinhos; Ensino
Fundamental.
Abstract: This paper proposes an analysis and discussion about the stories
displayed in the collection “Saiba Mais”, produced by Estúdios Maurício de Sousa
and focused on areas of scientific interest. The collection has unquestionable
paradidatic use potential, once it approaches its many themes using a very
comprehensible language for Junior High School, with characters well known and
identified by children. For the present study a critical analysis of part of the collection
was performed, looking for scientific aspects discussed throughout stories and its
relevance for science teaching. The material was analyzed based on script, scientific
accuracy, pastimes and central activities. It was realized several positive aspects for
science teaching to the Junior High School age bracket, but the analysis indicated
mistakes in scientific concepts that would be avoided by using a technical consulting.
However, those mistakes were not considered severe enough that would make
impossible to recommend the series. This study indicates the material as suitable for
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using as paradidatic material, with some qualification about those mistakes along the
stories. It was suggested that the material passes by a more carefully and technical
proofread, so it will increase its credibility and possibilities as valid material for using
in science teaching.
Keywords: Science teaching; paradidatic material; comics; Junior High School.
1 Introdução
Nos últimos anos, a importância dos quadrinhos como material (para)didático
tem sido amplamente discutida, tanto em relação ao aspecto pedagógico em si
quanto às diversas disciplinas que compõem a grade curricular da Educação Básica.
Contudo, dentre as diversas opções disponíveis, nem todas se mostram adequadas
a tal uso.
A coleção “Saiba Mais com a Turma da Mônica” foi desenvolvida pelos
Estúdios Maurício de Sousa (EMS). Inicialmente publicada pela Editora Globo com o
nome “Você Sabia?” e atualmente pela Editora Panini, essa coleção tem como
finalidade discutir com alguma profundidade diversos temas de interesse para
crianças e pré-adolescentes, como cinema, folclore, futebol, etc. (Vergueiro, 2005).
É um título produzido pelos EMS com a finalidade de abordar um único tema de
interesse das crianças e pré-adolescentes a cada número.
Trata-se de material com indiscutível potencial para uso paradidático, uma
vez que aborda os temas em uma linguagem de fácil compreensão para o público de
Ensino Fundamental, com personagens bem conhecidos e identificados pelas
crianças. A Editora Globo revelou suas pretensões educativas ao colocar na capa,
sob a logomarca dos Estúdios Maurício de Sousa, um pequeno aviso onde se pode
ler “Educativo – Recomendado para trabalhos escolares”, como pode ser observado
na figura 1.
Figura 1 – Capa da edição sobre Oswaldo Cruz, com selo de recomendação para
trabalhos escolares sob o selo dos Estúdios Maurício de Sousa.
Fonte: Revista “Você Sabia” 18, jul/2005.
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O presente estudo visa analisar criticamente os volumes da Coleção que
apresentem conteúdos potencialmente relevantes para o ensino de ciências,
verificando seus pontos positivos e as possíveis idiossincrasias apresentadas pelo
material.
2 Aporte teórico
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB
9.394/96), em seu artigo 3°, inciso I, um dos objetivos do ensino é assegurar a
igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. Desta forma, criar
mecanismos de ensino que estimulem o aluno e que o ajudem na aquisição de
conhecimentos, de forma que ele alcance resultados satisfatórios, é uma maneira de
garantir a sua permanência na escola, possibilitando a continuidade dos seus
estudos. Um dos mecanismos motivadores que podem vir a ser utilizados no
processo de ensino e aprendizagem são as histórias em quadrinhos.
Enquanto produto largamente difundido da indústria cultural, os quadrinhos
influenciam a formação e educação de pessoas de todas as idades (Iannone, 2000).
O uso de quadrinhos como componente de auxílio ao aprendizado tem sido
pesquisado e discutido amplamente nos últimos anos, em praticamente todas as
disciplinas que compõem a grade curricular tanto do Ensino Fundamental quanto do
Ensino Médio, em abordagens tão diferentes como o ensino de Matemática (Tonon,
2009), Física (Braz e Fernandes, 2009), História (Bonifácio, 2005) e Educação Física
(Lira Neto e Almeida, 2010).
Em relação ao ensino de Ciências, não poderia ser diferente. Nos últimos
anos, diversos estudos vêm apresentando propostas para unir os quadrinhos à
prática docente desenvolvida em sala de aula. O uso de quadrinhos nas aulas de
ciências vem sendo relatado em vários estudos, como um importante instrumento de
divulgação científica, servindo também, como ferramenta para a produção de textos
e roteiros, exercício do humor, sensibilização em relação à arte e trabalho grupal
(Santos e Aquino, 2010).
A presença de conceitos e informações dentro de narrativas quadrinizadas é
muito comum e oferece aos professores a oportunidade de utilizá-las como um
recurso pedagógico adicional e atrativo para o processo de ensino e aprendizagem
em ciências. Além disso, as histórias em quadrinhos podem ser consideradas como
um instrumento viável e prático, no sentido de poder conduzir os alunos a uma
melhor compreensão dos diferentes assuntos abordados nas aulas, bem como,
servindo com “estimulante” para a sensibilização dos mesmos quanto a questões
relacionadas ao meio social onde estão inseridos, como por exemplo, o desequilíbrio
ambiental, contribuindo para a construção do seu senso crítico e da sua postura
ética.
No entanto, convém lembrar que o professor tem um papel de suma
importância na análise, triagem e uso desse tipo de material, mecanismo
fundamental para que possíveis equívocos presentes, não passem despercebidos
pelos alunos, provocando uma visão estereotipada e equivocada da Ciência
(Pizarro, 2009), Ao serem usadas como material de divulgação de informações
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científicas, devem incorporar todas as características do comportamento científico
como, em especial, a objetividade, a fidelidade aos fatos e a imparcialidade.
A indústria nacional de quadrinhos sempre foi muito rica, mas as produções
da maioria dos quadrinhistas não perduraram no tempo, em função das políticas
editoriais e da concorrência desigual com os quadrinhos importados (Bibe-Luyten,
1993). Uma das exceções a esse quadro é Maurício de Sousa, o autor de
quadrinhos brasileiros de maior sucesso na atualidade. Seus primeiros personagens
foram criados no final da década de 50, Franjinha e Bidu. Depois vieram Cebolinha
(em 1960); Cascão, Horácio, Chico Bento e Astronauta (em 1963); Penadinho (em
1964) e Mônica (em 1965), para citar apenas alguns dos mais de cem personagens
da galeria do autor (Cirne apud Alves, 2001).
Publicadas até hoje, após algumas trocas de Editoras, as histórias da Turma
da Mônica abordam com frequência diversos temas como saúde, preservação
ambiental, hábitos alimentares e higiênicos. Tais conteúdos, fazendo parte do
currículo em Ciências, podem ser de grande valia para a prática docente (Pizarro,
2009). O próprio Maurício de Sousa admite que, embora não pretenda ser
“professoral ou didático” com seus personagens, esbarra em alguns assuntos
pertinentes à prática educativa (Rito, 2003). Sua principal intenção é “divertir,
entreter e, na medida do possível, transmitir às crianças mensagens de otimismo”
(Bibe-Luyten, 1987). Com esse enfoque, Maurício de Sousa obteve enorme resposta
popular no Brasil, e fortaleceu sua marca com o auxílio de merchandising, televisão,
cinema, publicidade e brinquedos, tornando-se um fenômeno conhecido pela quase
totalidade das crianças brasileiras (Moya, 1996).
Finalmente, em março de 2004 os EMS lançaram, pela Editora Globo, um
título dirigido à transmissão de informações sobre temas específicos. A coleção
recebeu o nome de “Você Sabia? Turma da Mônica” e enfocava mensalmente
assuntos ligados a áreas tão diversas como futebol, abolição da escravatura,
preservação do meio ambiente e imigração (Vergueiro, 2005). A coleção seguiu
sendo publicada pela Editora Globo até o número 30, em agosto de 2006, quando
perdeu os direitos de publicação dos títulos dos EMS para a Editora Panini.
Em julho de 2007, já na Editora Panini, os EMS retomaram o título voltado a
temas específicos, dessa vez sob o nome de “Saiba Mais com a Turma da Mônica.
O primeiro número falava do próprio Maurício de Sousa, transformado em
personagem. Atualmente, essa coleção está em seu número 45, mas muitos desses
números são reedições da coleção “Você Sabia?” contendo uma nova capa, que já
não apresenta o selo de recomendação para trabalhos escolares.
3 Materiais e Métodos
Para o presente estudo realizou-se uma análise crítica de alguns exemplares
das coleções “Você Sabia?” (VS) e “Saiba Mais com a Turma da Mônica” (SM),
buscando identificar aspectos científicos discutidos nas histórias bem como sua
relevância para o ensino de ciências. Foram selecionadas nove edições que
apresentam temas de cunho científico ou que possam ser relevantes para o ensino
de ciências, a saber: Oswaldo Cruz, água, Mata Atlântica, meio ambiente,
Amazônia, dinossauros, nutrição, Sistema Solar e corpo humano. Constituíram
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critérios para a análise: roteiro, exatidão científica, adequação dos passatempos e
atividades centrais.
4 Resultados e Discussão
Diversos personagens componentes de “turmas” diferentes (da Mônica, da
pré-história, da roça, da mata) aparecem ao longo do desenvolvimento das histórias
analisadas. Quase todos os volumes utilizaram-se do recurso narrativo onde um
personagem descreve a situação aos outros, de forma didática, muitas vezes
expondo problemas e possíveis soluções. Um único volume não apresenta esse
recurso (SM 32), mas sim um narrador onisciente e onipresente que explica sobre o
tema em tom professoral. Não se tem aqui a pretensão de avaliar se o recurso
narrativo exerce alguma influência sobre a compreensão do texto pelos alunos, mas
algumas considerações podem ser feitas a respeito.
Em todos os volumes apareceram diversos quadrinhos com licenças poéticas
(Figura 2) e uso de metalinguagem (Figura 3). O uso desses recursos parece
diminuir o tom de excessiva seriedade da história, aproximando o jovem leitor
daquilo que está sendo narrado.
Figura 2: Exemplo de licença poética Figura 3: Exemplo de metalinguagem
com gotas d’água paraquedistas.
com participação especial do desenhista.
Fonte: “Saiba Mais” 30, fev/2010.
Fonte: “Saiba Mais 32, abr/2010.
Todos os volumes apresentam passatempos, entre 10 e 14 páginas, e tais
passatempos estão relacionados com o conteúdo abordado no volume. Esses
passatempos podem ser usados em sala de aula como um recurso para a fixação do
conteúdo, pois algumas das respostas estão presentes no texto da história (Figura
4A). Outras atividades são menos relativas ao conteúdo, contendo apenas uma
apresentação estética relacionada ao assunto (Figura 4B). Não se considerou
adequado o uso dos passatempos como atividade de avaliação para alunos das
séries finais do Ensino Fundamental devido a seu nível de dificuldade relativamente
baixo.
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A)
B)
Figura 4: Exemplos dos passatempos. A) Passatempo orientado para o assunto. B)
Passatempo com simples menção estética do assunto.
Fontes: A) “Saiba Mais” 41, jan/11. B) “Saiba Mais” 30, fev/2010.
Os volumes da coleção “Saiba Mais” também apresentam, nas páginas
centrais, uma atividade diferenciada para ser desenvolvida pela criança, propondose um jogo ou a montagem de algo relacionado ao assunto (figura 5). Contudo,
diferentemente dos passatempos, essas atividades apresentam uma relação muito
superficial com o conteúdo abordado pelo volume, sendo essa relação geralmente
ocasional, sem auxiliar na fixação de conceitos ou na compreensão de processos.
Figura 5: Exemplo de atividade central.
Fonte: “Saiba Mais” 38, out/2010.
VS 18 – Oswaldo Cruz: Apresenta excelente ambientação histórica, incluindo os
aspectos sociais como esclarecimentos sobre a moeda e sobre hábitos correntes da
época. Uma página compõe a Galeria de Personagens, com desenhos de cinco
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cientistas famosos, sendo quatro brasileiros (Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Adolfo
Lutz e Emílio Ribas) e um francês (Louis Pasteur), além de pequenas biografias de
Chagas, Lutz e Ribas. Neste e em alguns outros volumes foi percebida a escrita
inadequada de nomes científicos. Entendemos que o uso de letras em caixa alta
seja característico do material desenvolvido pelos EMS, porém a nomenclatura
científica é regida por normas internacionais e poderia facilmente ser adequada.
Este volume não apresentou atividade central.
SM 30 – Água: Um tema talvez difícil de ser trabalhado, pela vastidão de aspectos
relevantes ao estudo, foi contemplado com uma edição bastante abrangente e
completa. A gota de água entrevistada descreve a importância da água para o
planeta e a revista apresenta diversas ilustrações muito importantes para a
compreensão do conteúdo, com destaque para o ciclo biogeoquímico da água. A
idéia de que a água potável pode “acabar” soa um pouco discutível, o que pode
proporcionar um interessante debate em sala de aula. No final da revista, há um
quadro de página inteira apresentando uma casa com seus diversos ambientes e
dicas para o uso consciente da água, o que tem um viés prático e concreto essencial
para a faixa etária a que se destina a leitura.
SM 34 – Meio Ambiente: Esta é a única história que não é narrada por um
personagem, embora eles apareçam durante seu desenvolvimento. Como na edição
analisada anteriormente, há um grande escopo de problemas a serem abordados
em uma única revista, o que pode provocar confusão na cabeça do jovem leitor. A
história é dividida em duas partes durante seu desenvolvimento: a parte I aborda os
problemas ambientais e a parte II aborda suas possíveis soluções. Essa divisão
mostrou-se adequada e deve ser bem explorada ao se trabalhar com este volume.
As informações passadas ao longo da obra mostraram-se corretas e adequadas
para o nível de entendimento do aluno de ensino fundamental.
SM 36 – Amazônia: Para conduzir a narrativa desta história, a Mãe Natureza se
manifesta como uma mulher de pele verde e cabelos azuis para o Chico Bento, que
está envolvido com um trabalho escolar sobre a Amazônia. Ambos voam então até a
floresta amazônica, onde a Mãe Natureza apresenta suas características e
particularidades. Vale a pena utilizar a história para discutir, além dos temas
pertinentes ao ensino de Ciências, a contextualização histórica da ocupação
humana na região e a validação do modo popular de falar, apresentado pelo caipira
Chico Bento, em comparação com a linguagem mais elaborada do discurso da Mãe
Natureza. A biodiversidade da região é bem explorada e serve como um bom tema
para discussão ao se comparar com a biodiversidade da região onde vive o aluno.
No final do volume há uma página com árvores em extinção que apresenta seis
espécies de diversos biomas brasileiros; cabe à professora esclarecer que nem
todas são encontradas na Amazônia.
SM 38 – Dinossauros: Esta história é conduzida pelo “cientista” da turma, o
Franjinha, e se inicia durante uma apresentação do filme “Jurassic Park” no cinema.
Após o filme, Franjinha destaca vários aspectos sobre os dinossauros, tanto
morfofisiológicos quanto evolutivos e ecológicos. Uma grande falha científica deste
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volume consiste no diálogo em que o Franjinha explica que “os braços pequenos
[dos tiranossauros] poderiam ter ficado assim, atrofiados, pela falta de uso”. Esse
tipo de discurso está contaminado com idéias trazidas da teoria evolutiva
lamarquista, há muito suplantada por novas teorias evolutivas mais consistentes. A
idéia de que “aquilo que não se usa, atrofia” é muito freqüente no imaginário
estudantil, que relaciona esse conceito inclusive a características humanas, como o
3º molar (dente do siso) e o apêndice cecal. Embora popular e frequentemente
citada, é uma idéia incorreta que deve ser devidamente esclarecida pelos
professores.
SM 40 – Nutrição: Como não poderia deixar de ser, a Magali é a responsável por
conduzir esta história, explicando ao seu amigo Dudu o que é e como ter uma
alimentação saudável. E ela inicia a explicação esclarecendo que está lendo um
Saiba Mais sobre Nutrição, em mais um exemplo de metalinguagem. Dessa forma, a
história pôde ser conduzida de forma ligeiramente impessoal, como aquela do SM
34, contudo com um narrador onisciente conhecido do leitor. A primeira parte traz
uma contextualização histórico-evolutiva da nutrição biológica, e em seguida expõe
os hábitos nutricionais do ser humano ao longo da história. A segunda parte da
história se encarrega das explicações “técnicas” a respeito de uma alimentação
saudável e balanceada, apresentando os nutrientes e suas funções, além de um
modelo de pirâmide alimentar. A história não menciona em momento algum dietas
especiais, como a vegetariana ou a vegana, o que pode ser excludente para alunos
que sigam esse tipo de regime alimentar.
SM 41 – Sistema Solar: Novamente o Franjinha aparece no início da história,
contudo o verdadeiro condutor é o Astronauta, que leva os demais personagens
(Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali) para passear em sua nave através do
Sistema Solar. Após discorrer sobre as características de todos os planetas
(inclusive de Plutão, descrito corretamente pelo Franjinha como sendo um planetaanão), o grupo para na Lua e conclui a história com uma reflexão sobre respeitar o
universo em que vivemos. A atividade central desta revista consiste na montagem
de um móbile do Sistema Solar, tendo o Sol como centro e os demais planetas (e a
Lua) ao redor. Essa atividade foi entendida como adequada, contudo poderia
apresentar os nomes dos corpos celestes sob cada um deles, para ajudar o aluno a
identificar e memorizar a sequência correta da montagem.
SM 43 – Corpo humano: No mais recente volume com interesse para o ensino de
Ciências, o personagem Frank, da turma do Penadinho, explica para a Mônica e o
Cebolinha conceitos sobre anatomia e fisiologia humana. Sua explicação abrange
desde conceitos de biologia celular até órgãos e sistemas. Ao mencionar a
musculatura esquelética, Frank informa erroneamente que o bíceps é o músculo
mais potente do corpo. Ao comparar o sangue arterial com o venoso, o texto indica a
diferença de coloração entre ambos; contudo, na ilustração, as duas gotas de
sangue apresentam a mesma cor. Ainda sobre as ilustrações, em diversos pontos os
desenhos não apresentam precisão anatômica, principalmente do esqueleto e do
cérebro. Entendemos que a licença poética possa ser estendida às ilustrações, e
deve-se ressaltar que, apesar da falta de precisão de alguns quadrinhos, há outros
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em que órgãos são representados de forma mais realista (como o coração,
representado de ambas as formas, o ouvido e a pele). O docente que se dispuser a
trabalhar com esse material pode ressaltar esse ponto para os alunos, como forma
de estimular a pesquisa anatômica sobre os órgãos em discussão.
5 Considerações finais
De modo geral, há grandes acertos e indiscutível contribuição ao ensino de
ciências para a faixa etária em questão, como nas ilustrações de processos
evolutivos e contextualização histórica. O aspecto visual da obra foi considerado
muito bom e adequado para uso em sala de aula, bem como a linguagem utilizada e
o roteiro desenvolvido pelas histórias.
Por outro lado, o resultado das análises indicou alguns equívocos em
conceitos científicos, conforme descrito anteriormente. Contudo, tais equívocos não
foram considerados graves a ponto de impossibilitar a recomendação da série como
material paradidático. A série não pode, e nem tem a pretensão de, substituir o livro
didático no desenvolvimento dos temas em questão. Ela pode atuar apenas como
mais um recurso para complementar a explicação, ou como um ponto de partida
para debates, experimentos ou outras atividades que o(a) professor(a) queira
desenvolver em sua abordagem do conteúdo.
O presente estudo conclui considerando o material adequado para o uso
como recurso paradidático, com algumas ressalvas a respeito dos referidos
equívocos presentes ao longo das histórias, aos quais o professor deve permanecer
alerta ao trabalhar com as revistas em sala de aula. Além disso, o estudo sugere
que o material passe por uma revisão mais cuidadosa de modo a aumentar sua
credibilidade e suas possibilidades de adoção no ensino de ciências. Esse tipo de
material apresenta muitas vantagens por sua proximidade com o aluno-leitor e,
sendo bem explorado, traria enormes ganhos para o processo ensino-aprendizagem
de ciências no Ensino Fundamental.
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