Do que não se pode falar, deve ser calado?
Autora: Adriana Yankelevich
De que matéria esta feita a transferência? De palavras? A transferência é um ato instintivo. Dáse no encontro do aqui e agora entre duas mentes-corpos ou corpos-mentes. Entra em jogo
quando a história instintivamente viva das fantasias inconsciente do paciente se mistura com a
disponibilidade do analista. O corpo do analista atua como suporte e ao mesmo tempo como
limite para as fantasias do paciente (Yankelevich, 2007)
Vou me centralizar neste trabalho, nos relatos não verbais que constituem a materia prima
com que se constrói a transferência.
Somos analistas em uma época em que as pessoas entram em contato mais por intermédio de
suportes tecnológicos que corpo a corpo. O impacto deste fato em nossa prática é de suma
importância. A relação das pessoas com seu ser corpos y ser biológico vêm sofrendo muitas
transformações. O corpo tem sido objeto, nos últimos anos, de uma série de estudos y
atenções que complicaram e multiplicaram o conhecimento que surgia sobre ele, desde a
antropologia, a sociologia, a política e a filosofia. Este fato convive com certa tendência dentro
da psicanálise, de uma tradição hermenêutica radical, que supõe a ontologia humana ligada a
linguagem e considera que nada humano pode ser encontrado fora da significação linguística,
e que, portanto, qualquer dado clínico que se refira ao biológico, resulta fora da área de
interesse da psicanálise.
Não é viável considerar uma limitação de atenção flutuante a uma equiparação de atenção
com escuta. Seria a redução do paciente ao seu discurso? Não estão inseridos dentro da
atenção flutuante o olhar, o olfato e o tato? Da mesma forma que em uma sintonia, os
diversos instrumentos se encaixam e se complementam, sublinham e corrigem dessa forma os
sentidos e aportam dados que se enriquecem entre si, dá-se lugar a esse acontecimento
complexo que é a contratransferência.
A transferência é um dado instintivo em que a sexualidade infantil do paciente se dirige ao
analista e o reclama. O analista recebe o impacto dessa transferência, que é logos – palavra e
carne – corpo, em seu próprio corpo – mente. O que se recebe é um relato, que se podem
expressar com palavras, gestos, movimentos, modificações fisiológicas e objetos concretos. O
meio em que o relato se expressa não é uma escolha simplesmente de código, é neste caso,
parte da mensagem e às vezes, como veremos mais adiante, é o essencial da comunicação.
Escutar o relato complexo, polifônico, verbal, corporal, gestual e atuado do paciente, é a parte
mais importante de nossa tarefa. Desde onde escutamos? É o que normalmente nos
perguntamos.
A pergunta abraça uma metáfora, que como diria Ella Sharpe, combina ideias e experiências
emocionais. Escutamos desde nossa mente nossas teorias? Desde um lugar que se supõe
saber? Desde um superego benigno? Desde de uma empatia?
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Em qualquer uma dessas formas, nosso escutar influi na associação livre, dá forma ao relato do
paciente. Nesse diálogo amoroso, não existe associação livre sem escuta. Nossa escuta não é
somente ativa é também formativa.
Mas também é possível se perguntar se nós analistas, fazemos apenas isso, escutar. Com a
exceção do território de análises de crianças, as atividades que consistem em olhar o paciente
e descrevê-lo, podem parecer tarefas más associadas aos semiologistas ou fenômenologistas,
como se não fosse possível encontrar o inconsciente, mais que no relato linguístico.
A comunicação de inconsciente a inconsciente não é metafísica, é material, e suas partes estão
construídas por diversos elementos perceptivos que compõe um objeto complexo: um relato
composto de palavras e tons, cheiros, gestos e dados fisiológicos, um todo expressado sob a
forma de idioma pessoal do paciente, que fala uma língua que desconhece.
Nosso desafio é aprender essa língua. E apresentar nossa versão do conteúdo antigo de este
código de expressão diversa, em palavras simples, que permitam aliviar um mal estar
repetitivo. Aliviar a dor do sem sentido. Sendo assim, o relato polifónico do paciente, teatral,
expressivo, para-verbal, aromático e cromático, é contido em nossa mente, que da mesma
forma, desconhece em grande parte, quantos vetores a impactam. O que acontece e o que
transforma essas percepções diversas em significado, em termos de fantasias inconscientes, é
um processo complexo ao qual não irei tratar agora. O certo é que, em contato com uma
maquinaria hermenéutica singular (nossas próprias fantasias inconsciente, nossa
contratransferência) ese objeto relato recebido é transformado, traduzido e expressado, em
boa medida, em forma de interpretação. Mas não somente. Assim como nossos pacientes são
de carne e osso, nós os analistas também possuímos corpos. Os que se deitam nos nossos
divãs, conhecem o cheiro dos nossos medos, conhecem nossos gestos de dor. Os relatos não
são de nenhuma forma um encontro humano, somente verbal.
Neste caso não seria, nem espelho nem eco, nossa presença, nosso silêncio osmótico, opera
uma transformação que complica o relato multissensorial e o aproxima a verdade das fantasias
inconscientes do paciente, expressadas como verbo e expressão por ele mesmo. Nossa tarefa
é encontrar o relato que toque o coração, buscar o que toca nosso coração do relato.
A transferência é corpo, fantasia e sentimento. O que se transmite em forma de linguagem é
uma pequena parte. O mais inicial, aquilo que não se contrai com expressão linguística, se
expressa durante a sessão de um modo não verbal, em uma série de eventos que vão desde a
fisiologia como expressão emocional direta, até a gestualidade mais refinada, passando por
diversos modos de simbolismo. O corpo codifica e simboliza o corpo constantemente. Luisa A.
de Toledo afirma que o falar é um fato que “suplementa, substitui e realiza o ato de falar como
primeira forma de contato com o objeto” (Álvarez de Toledo, 1954).
A gestualidade, que inclusive modela a fisionomia, é um relato comprimido. As fantasias
estáveis, os modos de impulsos, vão desenhando uma anatomia significante além da estrutura
biológica genética. Ler o corpo não corresponde somente à psicossomática, no momento em
que o corpo entra clinicamente como síntoma principal ou ocupa o discurso do paciente,
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inevitavelmente fazemos semiologia no encontro com o outro. A tarefa do analista é
compreender a história que é presente, esta história não se encontra somente disposta no
discurso. A tarefa de transformar o silêncio corporal em um silêncio simbólico capaz de ser
sonhado,implica como primeiro passo, o reconhecimento de que o corpo é fonte de dados
clínicos com direito próprio e não um cidadão de segunda importância dentro do discursivo.
Muitas vezes a construção de uma interpretação, se encontra baseada na recompilação e
organização inconsciente de uma infinita rede de dados perceptíveis que não foram
simbolizados. Utilizo aqui o termo simbolização no sentido de unidade de fantasia. A fantasia
tem uma unidade mínima de existência que é: “algo ... faz ...a algo”. Sendo “algo” partes do
próprio corpo, partes do corpo do outro, o próprio, o outro e um terceiro e “faz” pode ser
substituído por qualquer proposta de Freud em impulsos e destinos do impulso.
Esta unidade narrativa mínima se encontra na base de toda linguística e se existem algumas
exceções, não as discutirei neste trabalho. Denomino fantasia, a tudo aquilo que cumpra com
a premissa de poder se referir a este esquema lógico narrativo, não importa o modo da
representação, o meio por qual se expresse ou o nível de complexidade do mesmo.
Esta mínima unidade que conforma uma fantasia, pode ser expressa de modo lógico narrativo
em linguagem oral. É o que costumamos fazer quando interpretamos, é possível se condensar
e se transformar em imagens. É o que costumamos também fazer quando sonhamos e
também quando pintamos. É possível se condensar, se deformar, se projetar e se transformar
em ação. Estamos frente a um acting, um enactment ou uma ação.
Uma fantasia que persiste como fundadora, sem grandes modificações, por um tempo na vida
de alguém, pode se condensar e se transformar em uma ação que seja visível como uma
modificação estrutural no próprio rosto.
Gostaria de mencionar que, o aspecto de uma pessoa, a temperatura do seu corpo, sua
fisionomia, a velocidade de seus movimentos, sua roupa, seu olhar; são dados clínicos de
pleno direito. As fantasias primitivas, originais, se expressam constantemente na vida das
pessoas, através de diversos canais, linguagens ou sistemas simbólico-representativos. As
imagens oníricas (relacionados ao sonho) são exemplos que melhor conhecemos e temos
estudado. Essas imagens tem estreita ligação com os impulsos, e seu universo representativo,
esta mais próximo das vivências infantis. O modo de representação é através de imagens.
Na escolha de uma prenda ou uma cor, podem existir condensadas, histórias de identificações,
amores e ciúmes. Não todas essas histórias, contadas de modos tão diferentes, são
interpretadas, não são todas que conseguem ser captadas pela atenção flutuante e aquelas
que de algum modo são registradas pelo inconsciente do analista, não todas conseguem ser
compreendidas, significadas e poucas conseguem adquirir a forma da interpretação. No
entanto, todas essas pequenas peças de simbolização pessoal, que sem saber, nos entrega os
pacientes, enriquecem o contato entre o analista e o paciente, dão corpo a relação, são as
diversas linhas com as quais estão costuradas o vínculo analítico.
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As interpretações são construções linguísticas. Não obstante, o material com o qual estão
construídas, é muito mais que só palavra. Se reduzirmos o paciente ao seu discurso, a relação
se empobrece, as emoções se perdem e a compreensão do material se reduz.
Se reduzirmos a análise ao escutar, uma enorme quantidade de vetores que alimentam a vida
afetiva humana, que conformam a constituição de vínculos de lembranças de contatos
passados, inevitavelmente se perde. Ao mesmo tempo em que o corpo se usa para simbolizar
o corpo, o gesto em si, no movimento, no uso das cordas vocais, na gestualidade, mostra uma
descarga de libido. Quero dizer, existe um encontro reacionado à libido, mesmo que
mínimo,na dinâmica de transferência-contratransferência. A sexualidade esta presente nas
sensações: sem os demônios do Averno não existe motor para a Cura.
Creio que é importante aprender a falar essas diversas línguas, começando por compreender
qual linguagem escolhe cada paciente, momento a momento, para contar-nos sua história.
Muitas vezes os modos de representar (uma palavra que é ao mesmo tempo, voltar a
apresentar e colocar em cena) de narrar, de colocar em cena, de dar alguma forma a uma
velha história de conflito impulsionada, sexual ou de sobrevivência, não são verbais.
As vezes os pacientes escolhem um modo de comunicação não verbal dentro da sessão. Em
algumas ocasiões estes modos de comunicação nos permite ter contato a um material que não
poderia ser nomeado pelo paciente em termos lingüísticos neste momento, é possível que
consiga concretizar um tempo depois, as vezes não consegue colocar em palavras figuras
traçada sobre o divã, figuras cujo desenho pode ser visto, mas não nomeado. É possível que
todos nós recordemos alguns momentos de intensa comunicação em que a compreensão não
foi alterada com o silêncio.
Ocasionalmente, os meios para narrar o que ainda se sofre, são objetos concretos e criações
simbólicas pessoais. Sem chegar a serem objetos artísticos, podem alcançar uma unidade
estética. Poucas vezes nos encontramos com verdadeiras peças de arte, capazes de nos guiar
por um caminho que ajude em uma elaboração interpretativa, mas também de nos comover e
de nos assustar, uma vez mais diante da capacidade do ser humano para produzir beleza,
inclusive partindo da dor e da confusão.
Apresento dois recortes clínicos em que em determinado momento do proceso analítico, por
diversas razões, a expressão simbólica não verbal, ocupou o centro do trabalho.
Tentativa de narrar por outros meios.
Uma paciente de 30 anos, durante o primeiro ano de tratamento trabalhou os conflitos entre
casais. Com muita dificuldade me dá uma informação de que há seis anos, ela lhe cedeu o seu
quarto ao seu pai que a poucos dias havia passado por uma cirurgia e a partir de então,
compartilhava o quarto e a cama com sua mãe. A situação de “cama familiar” foi naturalizada
pela paciente e sua família.
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Nas seguintes sessões, ela não pode falar nem pensar. Coincidentemente com essa situação,
começa a trabalhar em uma oficina artesanal de cerâmica. As peças que resultavam ou que ela
considerava “produtos da análise” são modos de trabalhar os conteúdos mentais que não
podem ser verbalizado. Por que não podem ser verbalizados?
Porque se referem a conteúdos mentais, fantasias, lembranças que pertencem a etapas do
desenvolvimento, prévias a aquisição de linguagem. Porque a linguagem do paciente, seu
domínio sobre ela, seu vocabulário e sintaxe, são insuficientes ou inadequadas para suas
formas expressivas que esses protopensamentos requerem.
Porque na realização das peças, o resultado é suficientemente ambíguo como para contemplar
a necessidade expressiva, simbólico-comunicativa e de repressão, realizando com as suas
mãos sobre a argila um trabalho semelhante ao trabalho do sonho sobre as ideias
inconscientes.
Escolheu a argila: um elemento informe e plenamente ambíguo. Da forma a uma bonequinha
com um menininho nos braços. Uma mulher abraça a bonequinha por detrás, estão também
alguns pacotes de farinha e um armado de lenha, o tom da peça é cálido, um pouco naif, desde
o nome já se transmite maternidade, ternura, vitalidade e alegria. Mas ao dar a volta na peça,
se vê uma velha que aparece de frente abraçando protetoramente a bonequinha e que toca
uma espécie de rabo de um homem que esta metido da cabeça até a cintura dentro da
bonequinha.
Esta parte de trás podia ser a representação do lado escuro de sua mãe e dela mesma, o
oculto e incestuoso, do vínculo entre ambas. Ao ver a imagem da peça em sessão, percebemos
de forma muito mais clara que quando contado verbalmente, a paciente esteve dormindo com
sua mãe e mostrou tudo o que isso acarretou: a aproximação dos corpos, o cheiro e a
intimidade. Pela primeira vez sentia vergonha.
Seguimos trabalhando e os resultados das analises podem ser notados também na família.
Aparecem vários segredos familiares como por exemplo, um irmão da mãe é denunciado por
ter abusado de várias crianças da família. Partindo da ideia que a família funciona como um
clã, a notícia é uma bomba. A mãe da paciente aconselha “calar e deixar passar”. A paciente
faz outra peça. Realiza e conta como em um transe. A peça é esquisita e grotesca. Tem sem
dúvidas um enraizamento orgânico: uma boca enorme, uma orelha, alguma coisa como um
pênis ou um nariz misturado, saindo da matéria, chegando apenas a uma forma que é
exagerada e fugaz.
É sem dúvida entre outras coisas, uma representação do que preferiria denominar, em lugar
de um esquema, como algo que tem por fim enfatizar o aspecto dinâmico, em construção e de
mudança constante da situação corporal inconsciente. Envolve partes do corpo e partes do
objeto, se refere à diferença entre ambos (Bleger, 1967)
É uma representação simbólica de lento e complexo processo de diferenciação, que a paciente
leva adiante durante a análise. As partes ainda não podem ser situadas no interior ou exterior
do seu mundo mental, no interior ou exterior do seu corpo, no sujeito ou objeto e claro, não
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podem ser nomeadas. No entanto, podem ser representadas. A enorme boca junto a orelha se
entende enquanto se vê a peça, como uma resposta a sua mãe, que pede silêncio e também
ao analista, que com a sua orelha e sua boca, a deixa desconcertada: sou como sua mãe e vou
me meter com ela no divã? Sou como seu pai, silencioso e quieto, sem pedir nem dar nada,
impotente testemunha dos abusos e incestos que abundam na família? O que eu quero dela?
Ela tem que se transformar para ganhar meu amor, a heroína que denúncia a hipocrisia e a
perversão? Uma e outra vez, respondo em geral de um modo tácito, mas claro; somente
espero dela uma coisa: que siga associando.
Um fato de sangue
Uma mulher que vejo por primeira vez parece querer me explicar o que sente, mas as palavras
não saem, nada pode passar por sua garganta. Seu marido me explica que já por alguns dias
que ela não fala e que quase não come, que diagnosticaram certo tipo de esquizofrenia
catatônica e que se segue assim, seria necessário interna-la. Ela parece assustada. Digo pra ela
que penso que ela tem medo que as coisas entrem e saiam do seu corpo, que ainda não sei
por que, mas para ela as coisas que come ou as palavras que diz podem ser perigosas.
Diante do seu silêncio e imobilidade adiciono que, se segue escutando e respirando um pouco
mais tranquila, o perigo não afetará os orifícios corporais e medos de comunicação. Pergunto
se quer escrever ou desenhar, diz que sim com a cabeça e aponta o ponto inicial do espiral.
Deve se sentir muito fechada aí, digo a ela. Ela diz que sim, por primeira em vários dias. É uma
versão do desenho anterior, creio que o desenho é uma resposta a minha pergunta, onde você
esta? “Aqui estou eu”, me parece dizer, ” estou literalmente, em corpo e alma, com meu
próprio sangue, diz, presa em uma parte de mim aqui para sempre, nesta folha, vamos ver se
você me entende agora”.
Ela necessitou desenhar com seu sangue, deixar que seu interior se tornasse violento e
doloroso no ato de tentar dar forma ao seu terror sem nome que a tinha levado a um estado
catatônico. Me fez lembrar desses meninos, que quando pedimos um beijo, resistem e depois
apertam com força brutal os lábios contra nossa bochecha. O sangue dela é o único válido. Ela
sente que cada vez que algo sai dela mesma, uma palavra, um sorriso, um olhar, é como se
fosse uma hemorragia, morre um pouco cada vez que fala e perde seu “eu” em cada contato.
Infiro que a pele desta mulher é demasiada fina para representar fantasticamente e para ter e
conter seu “eu” sem perigo de romper sua função continente, com a consequente ameaça de
hemorragia.(Bick, Esther, 1968 (1970)).
O primeiro desenho me diz não se entende e por isso me trouxe o segundo. No segundo
desenho eu posso entender melhor como se sente, as posições que a realidade do mundo
exterior é mostrada para ela, como resulta impossível deixar sair algo sem derramar algo e
como o que entra interrompe, desvia, coloniza e invade sua frágil sensação de ser. Ela talvez
tenha entendido minha pergunta como uma acusação de falta de autenticidade, existe algo de
você de verdade nisso?
Sua resposta apagou as mediações, se dispôs a expressar seu ponto de vista sem transição. No
desenho tinha simbolização: o espiral simboliza um estado mental que podemos imaginar
confuso e com tendência expansiva. O que cresce em seu interior e o que irá aos poucos
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relatando, é um terror e uma ansiedade sem limites, referências a fatos traumáticos do
passado que nunca foram colocados em palavras.
Sua mãe a deixou quando ela tinha apenas dois anos, seus avós a criaram em um pequeno
povoado do interior. Ela foi estuprada e torturada diariamente por seus primos mais velhos e
seu tio. O avô - pensa ela-, nunca soube o que se passava. Se apegou então a essa ideia de que
seu avô não deveria saber, e sobre o modelo dessa relação construiu seu matrimônio; seu
marido a salvou de uma tentativa de suicídio, e ela durante vários anos pode fazer com que ele
acreditasse que tudo estava bem.
Existe simbolização no desenho, se poderia pensar que não, na escolha do meio de expressão
que ela sentiu mais adequado: ela mesma é o meio com o qual esta pintando essa mensagem,
mas não é qualquer parte dela mesma, não é movimiento do corpo como o drama da dança, é
uma parte concreta e literal que fala da morte, da dor, dos laços de sangue, que exterioriza e o
que deve ficar dentro, dando ao desenho algo de obsceno.
O mais íntimo foi transformado em meio de expressividade, este gesto, esta decisão, deve ser
lida no sentido que apontava Mc Luhan nos anos 60: o meio é a mensagem. Todo o resto é
simulação. A verdade para essa paciente somente poderia ser desenhada com sangue. “Vamos
ver se você me entende”, me disse a paciente um tempo depois, “isso implicava um pacto de
sangue entre nós”. Em sua fantasia passava, que eu, aceitando o seu desenho, me
transformaria em sua mãe; a partir desse momento eu teria uma parte dela sempre comigo.
Era responsável sobre a vontade dela de seguir vivendo. O diálogo começou quase sem
palavras, mas cheio de significados desde sua pré-história pessoal até o futuro indeterminado
do vínculo entre ambas.
Conclusões
As fantasias inconscientes que a transferência atualiza, encontram diferentes modos de
expressão, desde a equação simbólica até as fantasias verbais misturadas em um processo
secundário.
Quanto mais primário o fenômeno transferência, menos próximo é da linguagem e mais é
“ligado com as sensações corporais e afetivas” (Isaac, Susan, 1936). Mas perto do instintivocorporal. Muitas barreiras no processo são somente dificuldades para expressar verbalmente;
a associação livre continua, ainda que o analista esteja momentaneamente surdo para o
código em que se expressa o paciente. É como dizer que alguém não sabe falar porque se
dirige em outra língua.
Basta prestar atenção a outros modos de simbolização ou inclusive proporcionar elementos
simples, como as caixas de jogos das análises de crianças, para que o material encontre seu
meio expressivo e a dinâmica do processo volte a fluir. Isso é especialmente o interessante nos
tempos atuais, em que o apego à tecnologia e o contato virtual, tendem a apagar a força
impulsiva e emocional dos vínculos.
Ao ser o inconsciente um organismo vivo que cresce e se desenvolve, aberto ao exterior do
mundo e do corpo, assim como os contatos com a consciência, o paciente falará diversas
“línguas” que foi aprendendo desde a infância mais primária. Sua capacidade de representação
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e expressão, como suas estruturas, portanto mais complexas e diversas que as da linguagem,
podem supor que exista vários sistemas simbólicos diferentes sendo operados, com
independência uns dos outros em alguns casos e com diversas relações entre si.
Ludwig Wittgenstein, (1922) referindo-se a necessidade de precisão da linguagem assim como
suas limitações expressivas, escreveu em seu Tratatus, a célebre frase: “Do que não se pode
falar, calemos”. Quando não se pode falar, adicionaría que além de calar, é possível mover os
olhos, ficar vermelho, chorar, mover as mãos, desenhar ou modelar. Nem tudo pode ser dito
em palavras, mas muitas vezes é possível encontrar como falar, sem elas.
(Anexo arquivo com fotos das obras citadas)
Bibliografia
Álvarez de Toledo, L. (1954). El análisis del "asociar", del interpretar" y de "las
palabras". Revista de Psicoanálisis , 267-313.
Freud, S. ( (1911-1915 )1980). Trabajos sobre técnica psicoanalítica. Buenos Aires:
Amorrortu.
Isaacs, S. (2000). Naturaleza y función de la fantasía. En P. I. Heimann, Desarrollos en
psicoanálisis (págs. 69-111). Buenos Aires: Hormé.
Pankow, Gisela (1969) El hombre y su psicosis. Amorrortu Editores, Buenos Aires.
Yankelevich, A. (2007). La presencia corporal del analista. XXVII Congreso
Latinoamericano FEPAL, Santiago de Chile.
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1 Do que não se pode falar, deve ser calado? Autora: Adriana