(RE)SIGNIFICANDO O CONCEITO DE DOCÊNCIA Ana Teresa Silva Sousa Prof. Dra. Maria Salonilde Ferreira - UFRN Resumo: artigo discute formação e (re)elaboração do conceito de docência na perspectiva da elaboração conceitual. Como procedimento metodológico, usamos os Ciclos de Estudos Reflexivos, baseando-nos nas categorias de elaboração conceitual (Ferreira, 2007) - uma combinação da abordagem sócio-histórica com a formulação dos conceitos. Seu objetivo é desenvolver processo reflexivo, relativo ao domínio do conceito de docência, diagnosticar os conhecimentos prévios acerca desse conceito e identificar o estágio de seu desenvolvimento. O estudo foi desenvolvido com três professoras do ensino fundamental de escolas Públicas de Natal/RN, e uma professora da Universidade Federal do Piauí. Utiliza o referencial teórico metodológico da abordagem sócio-histórica e da pesquisa colaborativa, por compreendê-las como modalidades adequadas à problemática. As análises apontam que em relação à (re) elaboração dos conceitos prévios, as partícipes avançaram – uma, mais que outras - nos seus enunciados. Nessa perspectiva, ressaltamos a importância da reflexão crítica sistemática em colaboração e da metodologia da elaboração conceitual como processos mediadores imprescindíveis à formação e desenvolvimento de conceitos na educação. Palavras-chave: Formação. Ciclo de Estudo Reflexivo. Docência. Pesquisa Colaborativa. (RE) SIGNIFIANT LE CONCEPT D’ENSEIGNEMENT Résumé: L’article parle de la formation et de la nouvelle élaboration du concept d’enseignement sous le point de vue de l’élaboration conceptuelle. Nous utilisons comme procédé méthodologique les Cycles d’Études Réflexifs, nous fondant sur les catégories de l’élaboration conceptuelle (Ferreira, 2007) – une combinaison entre l’abordage socio-historique et la formulation des concepts. L’objectif est de développer un processus réflexif en ce qui concerne le domaine du concept d’enseignement, diagnostiquer les connaissances précédentes sur ce concept et identifier son stage de développement. L’étude a été faite avec trois institutrices du premier degré d’écoles publiques de Natal/RN, et une professeur de l’Université Fédérale du Piauí. Elle utilise la référence théorique et méthodologique de l’abordage socio-historique et de la recherche collaborative pour les concevoir comme des modalités appropriées à la problématique. Les analyses montrent que par rapport à la nouvelle élaboration des concepts précédents, les participantes avançaient – une, plus que les autres – dans leurs exposés. De cette perspective nous renforçons l’importance de la réflexion critique systématique en collaboration, et de la méthodologie de l’élaboration conceptuel comme opérations d'intermédiation indispensables à la formation et au développement des concepts dans l’éducation. Mots-clés: Formation; Cycle d’Études, Réflexifs; Enseignement; Recherche Collaborative. 2 (RE)SIGNIFICANDO O CONCEITO DE DOCÊNCIA O desafio de iniciar um processo de estudo, com profissionais docentes interessadas em prosseguir com a formação continuada, possibilitará refletir e trocar informações com as professoras envolvidas, como momentos significativos no processo de construção do conhecimento e no desenvolvimento de uma prática docente mais autônoma e mais criativa no âmbito da instituição escolar. Reconhecer os professores como sujeitos e produtores de saberes, valorizando a sua subjetividade e os conhecimentos internalizados a partir do que esses sujeitos são, fazem e sabem, constituiu-se a base para o trabalho sobre a elaboração conceitual do conceito de “docência”. Assim, o caminho investigativo que buscamos se enquadra em um estudo colaborativo, tendo como referencial teórico-metodológico a abordagem sóciohistórica e, como método de estudo, o materialismo histórico dialético. Em suas diferentes manifestações, a abordagem dialética considera o fenômeno em constante mudança e movimento e, como um dos seus princípios, a unidade entre o singular, o particular e o geral. O geral, processo investigativo, é a lei da existência e do movimento dos fenômenos expressa no particular e no singular. Dessa forma, o modo como percebemos o objeto de estudo, considera que o fenômeno deverá ser entendido nas suas determinações e transformações dadas pelos sujeitos, em que estes, além de refletir o social, (re)elaboram o conhecimento em concepção de unidade objetividade/subjetividade perpassadas pelas inter-relações entre as singularidades e a universalidade social e histórica. Por sua vez, as atividades realizadas pelos homens são o resultado das relações estabelecidas com um mundo material e respondem às necessidades particulares de cada ser singular. A atividade responde á ordem das relações que são mantidas pelo indivíduo em sociedade, fora delas não existe nenhuma atividade humana. Por atividade, designamos os processos psicologicamente caracterizados por aquilo a que o processo, como o todo, se dirige (seu objeto), coincidindo sempre com o objetivo que estimula o sujeito a executar esta atividade, isto é, o motivo (LEONTIEV, 2001, p. 68). 3 O conceito de atividade na perspectiva do autor supracitado é excepcionalmente importante, pois, ao considerar as interações dos humanos com o meio social, o indivíduo dirige as suas ações para a satisfação de suas necessidades e, nesse processo, ele transforma-se e transforma o seu ambiente. Podemos compreender, portanto, que, existindo uma relação entre atividade e ação, a atividade prática dos homens, no que se refere à construção conhecimento, deverá fazer parte da atividade do sujeito e surgir como objetivo em sua relação com o motivo da atividade da qual ele faz parte. Nessa direção, para o aprendiz, o estudo dos conceitos deve ser a atividade principal, no sentido de fazer o percurso proposto por Vigotsky (2000), iniciando pelo movimento ascendente/descendente, ou seja, descendendo ao concreto, ao fenômeno, e ascendendo para as generalizações. Para ocorrer a sistematização, elaboração do conceito científico no contexto escolar, é necessário que sejam criadas condições do ensino de elaboração conceitual, que vão, desde a escolha das diferentes áreas do conhecimento científico, até o amadurecimento das funções psicológicas do escolar. Esse processo constitui uma das formas mais originais que o movimento do pensamento faz, por isso, o professor deve ser o colaborador responsável para mediá-lo, nessa longa e complexa caminhada. Em conformidade com essa orientação, A formação do conceito é o resultado de um processo longo de conhecimento, o resumo de determinada etapa do conhecimento, a expressão concentrada de um conhecimento anteriormente adquirido (KOPNIN, 1978, p. 203). Mas esse resultado não encerra na atividade prática dos homens, apresentase entre nós como somatório de um processo de desenvolvimento de um mundo objetivo, real, em que os conceitos incorporam o seu conteúdo, aproximando-se constantemente da realidade, sem nunca coincidirem. Os fenômenos estão relacionados às condições materiais e objetivas de evolução da sociedade, constituindo, assim, um caminho inverso no processo de elaboração do conhecimento, pois os conceitos, como adverte Ferreira (No prelo), têm origem na atividade prática sensorial dos seres humanos. 4 Ao considerar essas questões, como vem sendo conceituada a docência como uma profissão histórica, legitimamente constituída como categoria formalizada no sistema educacional? O Conceito de Docência Para caminhar na busca da arqueologia do conceito de docência, dialogamos com alguns autores que, tem produzido acerca da profissão docente. “No sentido etimológico, docência tem suas raízes no latim- docere- que significa ensinar, instruir, mostrar, indicar, dar a entender” (VEIGA, 2006, p.468). A autora ressalta, com base em Araújo (2004), que a apropriação do termo apesar de constituir algo novo no sistema educacional, o seu registro na Língua Portuguesa data de 1916. Percorrendo o movimento na busca desse conceito, encontramos a docência, em Pasquay e Wagner (2001), como uma atividade especializada, baseada em um saber científico, construído com base em paradigmas e transmitida pelas gerações. Tardif e Gauthier (2001) veem a docência em uma perspectiva mais prática, pois consideram que o saber dos professores está assentado em uma racionalidade técnica da profissão. Consideram os professores capazes de agir, falar e de pensar, pois, como são dotados de racionalidade, encontram formas para orientar a sua prática. Para Gómez Pérez (1997, p. 112), a docência é considerada como prática baseada na reflexão na e sobre a ação por desencadear reflexão sobre um conjunto de questões educativas. Um processo de investigação na ação, mediante o qual o professor submerge no mundo complexo da aula para compreendê-la de forma crítica e vital, implicando-se afectiva e cognitivamente nas interacções da situação real, questionando as suas próprias crenças e explicações, propondo e experimentando alternativas, participando na reconstrução permanente da realidade escolar. Por outro lado, Altet (2001), destaca que os ofícios relacionados ao ensino sempre existiu, como bem lembra Perrenoud (1993): que os professores são e sempre foram pessoas que exercem esse ofício profissional. Esse fato faz com que atualmente existam vários modelos de profissionalismo ligados ao ensino, que concorre para a passagem do ofício artesanal, de uma prática baseada em técnicas e regras pré- 5 estabelecidas, para uma profissão com estratégias orientadas por objetivos e por uma ética. Diante das várias abordagens conceituais discutidas pelos autores supracitados, uma outra forma de conceituar a docência, base para nossa análise, é que, A docência é a atividade em que o professor mobiliza e articula as atitudes de colaboração, reflexão, pesquisa e crítica em contextos formativos, com motivo e objetivo de mediar aprendizagens (IBIAPINA, 2004, p. 332). A rede conceitual de docência encontra-se no anexo 1. Definir o contexto onde o estudo vai se desenvolver é condição importante em qualquer pesquisa científica. Assim, passaremos a descrever o campo empírico de referência deste trabalho. Contexto do Estudo O nosso campo empírico de pesquisa-formação é constituído de um grupo de 03 (Três) professoras do Ensino Fundamental que atuam em Escolas Públicas da cidade de Natal, e 01 (uma) professora da Universidade Federal do Piauí. Dessa forma, o contexto de desenvolvimento da investigação são as escolas: Escola Municipal Professor Zuza, localizada a Rua Miguel Castro S/N no Bairro de Nazaré, Escola Municipal Professor Ulisses de Góis, localizada a Rua Raimundo Brasil S/N e Escola Municipal Professor Arnaldo Monteiro, localizada a Rua Araciúba S/N no conjunto Pirangi. Com base nos pressupostos apresentados, nós nos reunimos para discutir a cerca de como seria a nossa identificação, como deveríamos nos chamar. Preservaríamos o nosso nome ou manteríamos o anonimato? Então, em comum acordo, optamos por ser identificadas pelo nome de um ser marítimo. Essa escolha implicou em uma justificativa que expressasse o porque e os aspectos de identificação com esses seres. Assim, passaríamos a nos chamar pelos pseudôminos: Estrela do Mar, Alga Marinha, Sereia do Mar, Água Viva. O trabalho que tem como base a elaboração conceitual, propicia as condições necessárias para que os professores ampliem os conhecimentos, ao 6 desenvolverem a capacidade de refletir criticamente por meio de estudos sistematizados acerca de temas de sua área de interesse. Para consecução desse propósito, objetivamos desenvolver processo reflexivo relativo ao domínio do conceito de docência. Nessa direção, propomos-nos especificamente a diagnosticar os conhecimentos prévios acerca do conceito de docência, desencadear processo de formação contínua relativo ao domínio desse conceito e identificar o nível de seu desenvolvimento conforme as categorias para elaboração conceitual. O Caminho Metodológico Criar espaços de estudos, seja no ambiente escolar ou em outros contextos, resulta em processo de compartilhar aprendizagens que possibilite o avanço do conhecimento. Implica uma compreensão de ensino e de aprendizagem no sentido de orientar o sujeito para tal finalidade. O procedimento definido para esta investigação tem como referência os princípios norteadores da pesquisa colaborativa. Nesse estudo optamos pelos Ciclos de Estudos Reflexivos. O uso de Ciclos de Estudos Reflexivos como procedimento de pesquisa e formação do professor objetiva a sistematização de saberes pertinentes ao professor, pois “[...] desencadeiam processos formativos que servem de referencial para o aprendizado profissional e o desenvolvimento do conhecimento científico” (IBIAPINA, 2008, p. 72). O planejamento e organização de Ciclos de Estudos Reflexivos objetivam, em geral, a sistematização de saberes pertinente à atuação do professor. Neste estudo, eles serão usados para sistematizar os conceitos internalizados pelas partícipes acerca do conceito de docência, além do movimento ascendente/descendente no processo de desenvolvimento dos conceitos. Os processos formativos, desencadeado pelos Ciclos de Estudos Reflexivos sobre temas educacionais, permitem ao professor olhar a realidade que atua de forma mais autônoma e consciente, para além de conceitos espontâneos, o que demanda estudo, proposição e reflexão acerca da teoria e da prática de ensinar, refazendo-as. Os Ciclos de Estudos Reflexivos, em uma pesquisa colaborativa, é uma ferramenta alternativa de formação para os professores, 7 [...] uma vez que as análises e discussões neles vivenciadas oportunizam, além da reconstrução de saberes, a reconsideração de valores, crenças e objetivos de ação, propiciando a opção por alternativas mais eficazes à solução dos problemas vivenciados no cotidiano da prática pedagógica (AGUIAR e FERREIRA, 2007, p.76). Assim, para incluir esse procedimento nesta pesquisa, ancoramo-nos na concepção das autoras supracitada quando diz que é necessário seguir algumas etapas que essa modalidade de formação comporta, desde a sondagem das necessidades formativas e dos conceitos que se deseja aprofundar, apropriação de novos pressupostos teóricos conceituais bem como a reelaboração dos conceitos significados na prática. Dessa maneira, existem diferentes estratégias que os professores podem usar para diagnosticar os conhecimentos internalizados, sejam eles espontâneos ou científicos. Nesta pesquisa, registramos esses conhecimentos sob a forma da linguagem escrita. Assim, cada uma das partícipes elaborou um significado referente ao conceito anteriormente mencionado. Para continuarmos os estudos, providenciamos textos que propiciassem o acesso aos conhecimentos sistematizados acerca de docência. A forma de abordagem orientou-se pelo princípio da negociação e dialogicidade, conforme acordado pelas partícipes, uma vez que, os Ciclos de Estudos Reflexivos na pesquisa colaborativa estimulam o uso da linguagem a partir de ações sistematizadas de reflexividade que auxiliem os professores a mudar a compreensão das idéias construídas socialmente. Nessa perspectiva, apresentamos dois dos quatros textos selecionados para o estudo: AZZI, Sandra. Trabalho docente: autonomia didática e construção do saber pedagógico. In: PIMENTA, Selma. Garrido. (org.). Saberes pedagógicos e atividade docente. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2005. p. 35-60. GRILLO, Marlene. O sentido de totalidade da docência. In: O Professor e a Docência: O encontro com o Aluno. GRILLO, Marlene. O sentido da totalidade da docência. In: ENRICONE, Delcia. (Org.). Ser professor. 2. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001. Os textos foram distribuídos com antecedência para que fosse feito à leitura e a síntese das idéias gerais. Cada uma das partícipes ficou responsável para conduzir a discussão de um texto em cada encontro. 8 A seguir, fazíamos à análise e a comparação dos significados dos conceitos contidos nos textos, para elencar as propriedades ou os atributos múltiplos do conceito e apreender aquelas propriedades essenciais, necessárias e distintivas à sua elaboração. O passo seguinte consistia na precisão dos elementos apreendidos que expressem as relações e os nexos contidos naqueles significados. Evidenciado os atributos/propriedades essenciais, distintivo do conceito e estabelecidas as relações de particularidade, singularidade e generalidade, mantendo-se a unidade dialética contida nos significados dos conceitos, passamos a (re) elaborá-los de forma individual e coletiva. Para prosseguir os estudos, desencadeamos processo de reflexão intrasubjetivo, abrangendo a análise do próprio processo de elaboração do conceito, cuja finalidade foi detectar os avanços e recuos em relação ao significado anteriormente elaborado. Os estudos foram realizados na Sala de Estudos dos pós-graduandos do bloco “D”, do setor de aula 05, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, cada Ciclo de Estudos perfazendo um total de 03 (três) encontros. A análise da elaboração conceitual se efetivou com base nas categorias para análise de elaboração (FERREIRA, 2007), acrescida de uma combinação dos pressupostos do referencial teórico da abordagem sóciohistórica, referente à formulação conceitual, (VIGOTSKY, 2000; GUETMANOVA, 1989; KOPNIN, 1978; FERREIRA, 2007 e outros). Nesse sentido, o processo de análise adotado na elaboração conceitual requer categorias que abranjam o processo em sua totalidade; características dos diferentes estágios de formação desses conceitos; a conexão interna da conceituação; bem como a variedade e a complexidade de seu inter-relacionamento. As categorias de referências que subsidiará a análise são as seguintes: A DESCRIÇÃO - A ação descritiva torna-se evidente com a enumeração dos atributos ou propriedades externas ao fenômeno, a fim de distingui-los. São incluídos todos os atributos do fenômeno sem que haja abstração entre os essenciais e os secundários. Estabelece vínculos factuais que se revelam na experiência imediata. Há uma predominância do conteúdo em relação ao volume. Seu objetivo é descrever o melhor possível, com maior plenitude e exatidão, os atributos dos fenômenos, transmitindo uma imagem sensório-perceptiva do fenômeno mediante uma representação criadora ou reprodutiva. A CARACTERIZAÇÃO - Na ação de caracterizar usa-se também o procedimento lógico da enumeração, a partir da abstração de alguns atributos ou propriedades essenciais que distingue os fenômenos. As abstrações desprendem-se dos elementos perceptivos, porém seu volume apresenta um grau de generalidade restrito às singularidades. 9 A DEFINIÇÃO - A ação de definir consiste em um procedimento lógico através do qual se revela o conteúdo do conceito ou se estabelece o significado do termo. É abstrair os atributos ou propriedades essenciais e necessárias para distinguir um fenômeno dos demais, sem esgotar todas as suas propriedades, aspectos e relações. A CONCEITUAÇÃO - A ação compreende o universal, essencial e necessário no fenômeno. Abrange os atributos ou propriedades essenciais e necessárias, os nexos e relações que constituem a essência dos fenômenos, contendo, ao mesmo tempo, a singularidade, a particularidade e a universalidade, isto é, conteúdo e volume. Além dessas categorias, tomaremos como referência de análise a teoria acerca da formação e desenvolvimento de conceitos e a arqueologia dos conceitos em estudo – docência. As Partícipes e seus Conceitos Considerando que a teoria de elaboração de conceito propicia em seus diferentes aspectos o crescimento social e cultural dos indivíduos, iniciamos como dito anteriormente, com a sondagem dos conceitos prévios de docência, emitindo seu significado a partir da questão: Elabore um conceito de docência? Sereia do Mar - Agora vamos elaborar um conceito de docência, vocês me entregam eu também vou elaborar o meu aqui na folinha junto com vocês ta. Vamos pensar, [...] o que nós entendemos por docência, qual é o nosso conceito de docência. Estrela do Mar - Mas você vai receber. Sereia do Mar - Eu vou receber hoje esse conceito, e eu já gostaria antes da gente parar pra elaborar... (interrompida). Alga Marinha - Docência é um conceito, professor é um ser? Estrela do Mar - Não, mas ela não quer que discuta não. Alga Marinha - Eu tava só pensando nesta questão porque pode ser docente? Sereia do Mar - Docência, agente vai elaborar o que agente entende o que é que agente entende por docência? Água Viva - Eu tava querendo folha. Sereia do Mar - Não, eu tenho folha aqui (...). Água Viva - Isso agente vai entregar? Sereia do Mar - Sim. A partir da discussão para elaboração do conceito de docência, apresentamos, a seguir, os conceitos prévios das partícipes relativos a esse conceito, expressos na linguagem escrita: Água Viva - Docência. Ato de ensinar. Buscar através de estudos e da pesquisa novos conhecimentos e conceitos e aplicá-los. É possível perceber que a partícipe faz uma caracterização, a partir da abstração do atributo “ensinar e pesquisa” que são essenciais para distinguir de outros 10 conceitos. Isso revela que seu entendimento de docência se aproxima da discussão atual de que a docência exige do professor conhecimentos e pesquisa. Em sua elaboração, o volume do conceito apresenta um grau de generalidade restrito às singularidades. Alga Marinha faz uma caracterização de docência, enumerando alguns atributos que são essenciais para distingui-la dos demais (ensino, aprendizagem, professor), abstrai propriedades que são distintivas, mas não suficiente, para conceituálo em termos científicos. A docência é o conjunto de competências e habilidades que permeiam o fazer pedagógico de um professor. É um conceito mais amplo que intermédia professor-aluno-escola-ensinoaprendizagem. (Alga Marinha). Apesar de ser grande o volume de informações contido no conceito de docência, o enunciado de Alga Marinha apresenta restrições em grau de generalidade e singularidade. O significado do conceito apresentado, ao fazer referência “ao conjunto de competências e habilidades” reporta a docência à racionalidade técnica dos anos 60, que burocratiza o trabalho do professor, pois este perde o controle sobre o resultado, sobre os meios e sobre o processo de seu trabalho (ALTET, 2001). As competências são de ordem técnica para exercer sua função com eficiência, limitando-se ao espaço da sala de aula. Sereia do Mar - Docência. É a atividade do professor no ambiente da sala de aula com propósito de mediar, colaborar nas aprendizagens. Sereia do Mar faz uma caracterização mais ampla, ao incluir no conceito de docência atributos como (atividade, professor, aprendizagens). O seu significado de docência expressa as propriedades essenciais e necessários que a distinguem das demais profissões, pois o cerne da docência está na atividade do professor que medeia a aprendizagem do aluno. O seu conceito demonstra o movimento da dialética representado no atributo geral (atividade), particular e singular. Nessa concepção, o geral seria a atividade do professor, o particular está implícito no ensino como conseqüência da atividade de quem ensina e o singular que é mediar aprendizagem. Observa-se, na construção do conceito de docência, uma proximidade com a literatura acerca do tema, já no final dos anos de 1990 e inicio desta década, quando a 11 docência é constituída como trabalho e profissão do professor, que tem por finalidade colaborar, refletir, pesquisar, para mediar aprendizagens, conforme ressalta Ibiapina (2004), faltando, no entanto, os atributos pesquisa, reflexão crítica. O significado de docência expresso por Estrela Mar Docência é ato de ensinar. É exercício da profissão de professor. (Estrela Mar). Como podemos observar, o significado elaborado por Estrela do Mar é uma definição, pois restringe-se apenas a uma das propriedades singulares (ensinar). O segundo enunciado é uma definição nominal, explicando o significado da docência. A enumeração desses atributos, não permite, em grau de generalidade e singularidade, assumir a condição de conceito. Assim, as partícipes Água Viva, Sereia do Mar, Alga Marinha emitiram significados em termos de caracterização, uma vez que, apresentaram alguns atributos essenciais e necessários, sem, contudo, serem suficientes para elaborar um enunciado no estágio da conceituação. É importante destacar que, apesar de se encontrar nessa mesma categoria conceitual, Sereia do Mar apresenta avanços em relação às outras partícipes na medida que o seu enunciado possibilita estabelecer as relações próprias do conhecimento conceitual. O conceito de docência ligado apenas ao ensino sempre existiu, como externalizado pela particípe “Estrela do Mar”. Embora reconheça a docência como profissão do professor, os atributos elencados não contemplam, a totalidade, a essência com seus nexos e relações que atribuam à docência um significado científico. Os Ciclos de Estudos Reflexivos para o estudo do conceito de docência permitiram elucidar as seguintes enunciações para a (re)eleboração dos conceitos prévios conforme a mediação, conduzida a partir do estudo dos textos. A seguir apresentaremos a título de ilustração o processo desencadeado com um dos textos: Sereia do Mar - Boa tarde. E hoje como ficou combinado no nosso último encontro, no dia... em março, né? [...] agora, com base no estudo de hoje acerca do trabalho docente e o sentido da totalidade da docência, que são esses dois textos: “Trabalho docente, autonomia didática e construção do saber pedagógico” “sentido da totalidade da docência”, o primeiro texto de Sandra Azi e o segundo de Marlene Grilo, né? Nós vamos fazer uma síntese geral, né? Acerca do nosso entendimento sobre o que a autora está tratando sobre docência e em seguida, após essa síntese discursiva, nós vamos retirar do estudo... da síntese desses dois textos as características, propriedades ou atributos múltiplos do conceito de docência apontados pelas autoras, no primeiro e no segundo texto, certo? Após a gente retirar todas as características que a gente acha que dá sentido que conceitua a docência, geral, de uma forma geral, a gente vai também fazer no mesmo processo 12 retirar os atributos essenciais e necessários do conceito de docência [...] Quais são os atributos essenciais e necessários que a gente chegue realmente a um conceito de docência? Hoje a nossa tarefa vai ser essa. Alga Marinha: Tarefa árdua!Demanda saber, conhecimento e prática. Sereia do Mar - Mas a gente vai... como nós somos um grupo a gente vai contribuir uma com a outra, né? A gente vai discutir. Quem ficou com o texto Trabalho Docente? Alga Marinha – Eu boa tarde, eu fiquei responsável de partilhar com vocês o texto de Sandra Azzi, Trabalho docente, autonomia didática e construção do saber pedagógico. [...] mas eu quero também pedir ajuda pra também vocês partilharem comigo alguma coisa que porventura eu não possa dar conta, né? Afinal, nós somos uma equipe colaborativa. Água Viva - Fazer pedagógico. Trabalho docente viu? Alga Marinha - Ensinar, pesquisa, profissionalização, autonomia. Alga Marinha - Construção do processo educacional. Sereia do Mar - Tem processo ensino aprendizagem. Estrela do Mar - É esse é essencial. Sereia do Mar - Já. Já? Já. Pronto. Eu acho que já contemplamos [...]. os atributos gerais que contêm nesse conceito. [...] qual que a gente selecionaria e colocaria como sendo o essencial, o necessário e o distintivo pra gente conceituar realmente o que é docência?[...] Sempre procurando responder o que é o fenômeno. E assim, desencadeamos um processo de reflexão com o objetivo de (re) elaborar individualmente esse conceito, na medida que foi necessário, resultando nas seguintes significações: ÁGUA VIVA - É uma atividade especializada, vivenciada no contexto escolar mediando o processo ensino-aprendizagem através da pesquisa e da reflexão crítica dos conteúdos nas suas diversas esferas, que utiliza o planejamento e o conhecimento científico como ferramentas. ALGA MARINHA - A docência é uma atividade profissional especializada no processo de ensino e aprendizagem dentro de um contexto formativo que necessita de planejamento, reflexão, ação, pesquisa, conhecimento científico e uma prática pedagógica embasada na sistematização do saber e do conhecimento científico, de forma crítica, colaborativa, responsável pela mediação do processo do trabalho escolar. ESTRELA DO MAR - Docência é uma atividade especializada do professor que tem como objetivo sistematizar o conhecimento científico, construir saberes e valores, incentivar a pesquisa através de uma ação contínua, dentro de um processo de mediação e reflexão crítica para melhoria do ensino aprendizagem no contexto escolar. SEREIA DO MAR - Docência é uma atividade especializada de ensino exercida pelo professor resultante de planejamento, pesquisa, reflexão crítica com objetivo de mediar o processo de aprendizagem em contexto formativo. Neste trabalho, o estudo dos textos, a que recorremos para a elaboração do conceito de docência, resultou de uma atividade complexa, mas singular e particular de um grupo de professoras envolvidas em uma pesquisa colaborativa. Em relação à (re)elaboração dos conceitos prévios, as partícipes avançaram - uma, mais que outras - nos seus enunciados. Isso se evidencia, quando todas incluíram o atributo atividade que expressa a relação dialética geral/particular/singular. O exemplo mais significativo é de Estrela do Mar, que elabora um enunciado contemplando os atributos essenciais, necessários e distintivos, peculiares ao estágio da conceituação. 13 Nessa perspectiva, ressaltamos a importância da reflexão crítica, sistemática em colaboração, assim como a metodologia da elaboração conceitual como processos mediadores, imprescindíveis à formação e desenvolvimento de conceitos. Como exemplo, apresentamos em anexo, o significado de docência internalizado e (re)elaborado pela partícipe Sereia do Mar, visualizado na Rede Conceitual. Nessa rede, podemos constatar o significado de docência que permite compreender as interconexões existentes no conceito, seu conteúdo, extensão sem uma hierarquização, linearidade e fragmentação, bem como as relações entre o geral, o particular e o singular inerentes ao conhecimento conceitual. O estudo que apresentamos é apenas o começo de um longo processo de (re)elaboração conceitual que permitiu evidenciar um trabalho sistematizado com essa finalidade, bem como emitir enunciados conceituais em estágios mais avançados de abstração e generalização. REFERÊNCIAS AGUIAR, Olivette. Rufino. Borges. Prado; FERREIRA, Maria. Salonilde. Ciclo de estudos reflexivos: uma estratégia de desenvolvimento profissional docente. In: IBIAPINA, Ivana. Melo. Lopes. De Melo. et. All. Pesquisa em educação: múltiplos olhares. Brasília: Liber Livro Editora, 2007, p. 73-95. ALTET, Marguerite. As competências do professor profissional: entre conhecimentos, esquemas de ação e adaptação, saber analisar. In: PERRENOUD, Philippe. Formando professores profissionais: quais estratégias? Quais competências? Porto Alegre: Artmed, 2001, p. 23-35. FERREIRA, Maria. Salonilde. Pelos caminhos do conhecer: uma metodologia de análise da elaboração conceitual. In: IBIAPINA, Ivana. Maria. Lopes. De Melo. et. All. 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S TO ENOS IM IC EC ÍF NH EC CO SP E E é uma DOCÊNCIA ATIVIDADE ESPECIALIZADA de S AI ER G ENSINO exe rcid o pe lo PROFESSOR do com o O Ã Ç IA ED M CRÍT IC A EX ÃO REFL PL AN EJ A M EN TO de me dia r o O B JE TI V O A UIS SQ PE e te d ltan resu qu ea tua na m co é um AL N IO SS I F O PR PR OC ESS O Partícipe Sereia do Mar – 2009 em CONTEXTO FORMATIVO de E N SI N OA PR E N D IZ A G E M