MUSEU ACIO AL
DE HISTÓRIA NATURAL
MUSEU E LABORAIORIO ZOOLOGICO E ,\r<mOPOLOGICO
MUSr\J BOCAGE)
BOSQUEJO HISTORICO DA ZOOLOWA
EM PORTUOAL
por
CARl.DS ALMAÇA
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MUSEU NACIONAL DE HISTÓRIA NATURAL MUSEU E LABORATÓRI O ZOOLÓGICO E ANTROPO LÓGIC O
(MUSEU BOCAGE)
BOSQUEJO HISTÓRICO DA ZOOLOGIA EM PORTUGAL por
CARLOS ALMAÇA
Munu Boell", O.tH\rl ..... olo d .. Zoolosi. ~ Ant , o"" loKla, Ce nt ro de Fau na Porlu guen (lNIe) Faculdade de Ci~ociu, R ua' da &<:01. POliLkn ln , 1200 L isboa LISBOA 1 9 9 3 Le publie de ce pays ... n'est pas le même
que le publie d'Europe. Jl n'y a point, aux Etats
Unis, une classe de lettrés séparée et distincle
du reste de la nation. Au contraire, le desir de
l'inslruction y est si général que je dois m 'attendre a êlre lu par des ouvriers, par des péeheurs,
par des laboreurs, auiant que pa r des éludiants
ou des naturalistes de profession. Le langage
scientifique doit done y revüir une forme acces·
sible a tous.
(L. Agassiz. De l'espece et de la c1assificatioll
en Zoologie. G. Bailliere, Paris. 1869)
NOTA PRIÔVIA
o apaixonante .domínio que é o da hist6ria do pensamento científico não tem sido particularmente tratado entre n6s, talvez porque
os condicionalismos cul turais e sociais nunca foram de molde a
encorajar as realizações científicas e interligações que elas suscitam.
Fomos sempre poucos e, como todos os povos de cultura e tradição
antigas, hipercríticos e mais demolidores que aglutinadores, Por isso,
nunca se constituiu um meio científico português, única forma, creio
eu, de qualquer país impo r a sua ciência internacionalmente. A história da Zoologia portuguesa, que a seguir se procura relatar, é disto
prova evidente. Por mais de uma vez estivemos quase a conquistar
um lugar de preponderância e, por uma ou outra razão, mas também
sempre por carência ,d e um meio científico interno, nunca o conseguimos.
Mas, há realizações, e mais, há linhas que revelam um pensamento emergente, percorrendo os tempos e, naturalmente, moldando-se às circunstâncias geográficas e históricas. Como se verá, duas
linhas, essencialmente, parecem ter justificado o estudo e investigação zoológica, ati histórico-natural em geral, entre nós. Em primeiro lugar, a justificação da utilidade e aplicação imediata, critério
que já se anunciava nos primórdios da Zoologia em Portugal. Em
segundo lugar, um estudo sem a preocupação da utilidade imediata
- aplicado "à demonstração dos atribu tos de Deus~, na expressão
usada por Frei Jose Maine~, que parece emergir no século XVIII
e se relaciona, provavelmente, com o desenvolvimento da Teologia
natural nesse século. «Unir o útil ao <l.eleitáve1», conforme disse
Alexandre Rodrigues Ferreira , seria fundir as duas orientações, dando
lugar à versão moderna e não economicista da ciência, aquela a que,
afinal, se deve tanto do progresso de -que usufruimos.
Duas ou três intenções. básicas orientam o estudo que, agora,
apresento. Almejei uma versão sintética da história da Zoologia por·
tuguesa, na vertente histórico-natural, que é. de resto, quase exclusiva no período a que me refiro, que apenas se estende aos funda·
dores. Para além disso, e ainda por respeito ao sintetismo, decidi
aligeirar aspectos sem dúvida importantes - como, por exemplo, a
expedição filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira -, mas que
têm sido repisados na bibliografia. Nestes casos, encontrar-se-á em
Notas o que me pareceu fundamental em comentários ou referências. Procurei valorizar, pelo contrário, elementos originais ou menos
conhecidos, designadamente os que têm a sua comprovação no exce·
lente e cuidado arquivo histórico do Museu Bocage.
INTRODUÇÃO
A instituição de estudos zoológicos regulares em Portugal foi
um processo tardio relativamente a outros países europeus. Isso se
deveu, com certeza, a várias causas q.ue afectaram o nosso progresso
científico em geral. Mas uma, parece sobrelevar todas as Qutras: a
luta constante pela independência e sobrevivência política que con-
sumiu o país, impedinclo-o de, nos momentos decisivos. enveredar
pelos caminhos da E uropa culta. O século XVII, por exemplo, que foí
crucial no desenvolvimento científico da Europa central e setentrional devido a um crescimento acentuado da literaticidade, criação de
sociedades e academias científicas que reagiram contra as universidades esçolásticas, aparecimento da imprensa periódica, divulgação
de metodologias investigativas, passou-o Portugal lu tando pela persistência da nação e do seu império.
Nestas condições, a regularidade do estudo e investigação levou
tempo a afirmar-se, se bem que esforços isolados e sem continuidade
se manifestassem por mais de uma vez. É um relato hreve dos acontecimentos mais r eleva ntes do 'Ponto de vista zoológico que aqui se
apresentará. Tal relato será restrito à vertente histórico-natural da
Zoologia e não ultrapassará a primeira metade do século xx por
razões de profundidade científica 1~ -perspectivação histórica 1.
10
Cm-los A/maça
OS PRIMÓRDIOS
Bem inserida na trad ição utilitária da ciência que predominou
na Europa medieval, a produção zoológica portuguesa desta época
cingiu-se aos animais de interesse cinegético e àqueles que se utilizavam na prática venalÓria. A cetraria atingiu no r einado de D. Fernando (1367-1383) grande desenvolv imento. Pê ro Men ino, um dos
seus falcoeiros, foi encarregado de escrever um tratado de cetraria,
o Livro de Falcoaria, que ficou famoso z. Com efeito, este tratado
foi traduzido na sua quase totalidade por Pero Lopez de Ayala,
falcoeiro castelhano, quando este, na sequência da batalha de Aljubarrota, permaneceu em óbidos como prisioneiro de guerra. Lopez
Ayala incorporou a obra de Pêro ~Mlenino no seu Libra de Caça de
las Aves, Tedigido em 1386, livro que atingiu grande nomeada na
literatura cet reira 3. Seria ainda nesta linha que se produziriam outras
obras .de vulto em Portugal, também relacionadas com temas zoológicos. 1:: o caso, por exemplo, de Arte de Caça de Altaneria, de Diogo
Fernandes Ferreira, publicada em 1616 '.
Os cetreiros elaboraram um completo sistema -de reconhecimento das variantes de aves utilizadas na caça que permite aquilatar da minúcia com que as obsenravam. Assim , em Falco peregrinus, por exemplo, sabiam distinguir .as Ipopulações setentrionais
(falcões-ncbris) das mediterrâneas (falcões-bafaris) e africanas (falcões-tagarotes). E, entre estas, reconheciam variantes de plumagem
como os falcões-de-damas, ou donzéis, falcões-nebris que «_._ 1.em o
branco muito alvo no peito e o demais preto ... », ou os coroados,
« ... que tem a plumagem parda e a cabeça pintada ... ». Este sistema
nomenclatural pré-Uneano persistiu na literatura cetreira, sendo utilizado para as espécies e vari antes geográficas, sazonais e etárias
com que lidam os falcoeiros 5_
A caça .foi ainda tema de outras interessantes obras portuguesas
como, por exemplo, o Livro da Montaria, escrito entre 1415 e 1433
por D. João 1. Devotada essencialmente ao javali e arte de caç.á-Io,
esta obra ocupa-se também, ainda que superficialm en te, do urso
e do veado 6.
Bosquejo histórico da Zoologia em Poriugal
II
OS DESCOBRIMENTOS
À medida que os portugueses foram descobrindo novas terras
seguiram para elas, entre os colonizadores, missionários e humanistas. Alguns foram sensibilizados pela natureza e diversidade com
que -depararam, descrevendo e figurando as formas animais aí existen tes. Persistiu, nes tes natural is tas pioneiros, a preocupação utilitária herdada da época medieval. E assim , os animais comest íveis
ou úteis a qualquer títu lo ou, por oposição, os venenosos ou de
alguma forma prejudiciais tiveram a primazia nas observações e
descrições. Com elas enriqueceram o conhecimento dos seus superiores e instituições consagradas à colonização, mas não o m undo
científico, .de que Portugal estava apartado e ao qual não foram
acessíveis em tempo útil os relatos dos nossos naturalistas.
António GaIvão, na Asia, e José de Anchieta, Fernão Cardim,
Gaspar Afonso, Gabriel Soares de Sousa, Pêro de Magalhães de
Gândavo e Frei Cristóvâo de Lisboa, no Brasil, incluem-se no grupo
de naturalistas que nos sécu los XVI e XVII es tu daram faunas tropicais e consignaram as suas observações em cartas, memórias manuscritas ou livros 1. Muitas das descrições efec tuadas por eles referem-se a espécies observadas pela primeira vez por europeus e a que
apenas pela ausência de divulgação dos seu s escritos se nâo encontram associa-dos.
São muito interessantes, por exemplo, as observações de Frei
João dos Santos, registadas em Ethiopia Oriental (1 609) s, sobre o
porco·formigueiro, ou in hazara (Orycteropus aler), o hipopótamo,
ZOvo, ou zood (Hippopotamus amphibius) e os elefantes (Elephas
maximus e LoxodOllla africana). São igualmente relevantes, e em
muitos casos certamente as primeiras, as descrições de Anchieta e
Frei Cristóvão de Lisboa do manatim, ou iguaragua (Trichechus
manatus), ,da capibara (Hydrochaeris hydrochaeris), do tamanduá
(Mynnecophaga tridactyla), do tapir (Tapirus terrestris), da preguiça,
ou aig (Bradypus sp.), da sarigueia, ou tambu (Didelphis marsupialis),
do vampiro, ou amdura (Desmodus rotundtls), do tatu (Dasypus
11OvemcinclLls), do coati, ou quasini (Nasua I1aSua), da paca (Agouti
paca), etc. O manuscrito de Frei Cristóvão de Lisboa e, completado
em 1627, mas só publicado em 1967, é particularmente valioso por
inserit1 figuras dos animais descritos. o que permite uma identifi-
12
Carlos Almaça
cação mais exacta das espécies observadas pelo naturalista. Antecede,
além disso, em duas dezenas de anos a obra de Marcgrav, Historia_
Rerum Naturalium Brasiliae (1648), considerada como pioneir a da
história natural brasileira.
A carência de um meio científico português, ou, se assim quiser-
mos, da extensão do meio científico da época - o europeu central e
setentrional-, também para Portugal, impediu que tão interessantes contribuições sobre a diversi.dade tropical fossem d ivulgadas
logo a partir do século dos Descobrimentos e remeteu para o anonimato alguns importantes naturalistas portugueses dos séculos XVI
(;: XVII III,
A REFORMA POMBALINA DA UNIVERSIDADE
Em 1772, 'por iniciativa do Marquês de Pombal, foi reformada
a Universidade de Coimbra. Tentou-se, com esta Reforma, transformar uma universidade que, à semelhança de outras congéneres europeias, permanecera de costas voltadas para o progresso científico li,
Com a Reforma da Universidade foram criadas as Faculdades de
Matemática e de Filosofia, professando-se nesta um Curso de Filosofia natural, que correspondia às ciências físicas e naturais . I ntegrou-se na Universidade o Colégio dos Jesuítas, para aí estabelecer
anexos científicos como, por exemplo, os gabinetes de Hi stória natural e de Física experimental 1'2. In corporaram-se professores estrangeiros e, entre estes, Domingos Vandelli (c. 1730-1 816), que viera
para Portugal cerca de 1764 para diriglr o Laboratório de Química
da Universidade. Este naturalista italiano foi encarregado da disciplina de Zoologia e Mineralogia, exercendo esta função até 1791.
O ensino da Zoologia era, então, essencialmente taxonómico e
aplicado, tendo como fundamento bibliográfico uma tradução de
Systema Izaturae, de Lineu, ampliado por Gmelin, a que ,s e juntavam
algumas obras de Buffon e Cuvier e o Dictionaire d'histoire lIaturelle
apliquee aLlX arts 1 3. Mas houve tam'bém uma produção -bibliográfica
portuguesa, que, certamente, acompanhou os alunos de Filosofia
natural. Assim, Vandelli publicou em 1788, o Diccionario dos termos
techl1icos de Historia Natural, que se destinava a facilitar a compreensão dos termos utilizados por Lineu . Trata·se de uma obra
Bosquejo histórico da Zoologia em Poriugal
13
composta e: impressa em Coimbra, na Real Officina da Universidade,
com estampas excelentes e em que a terminologia usada em Ciências
Naturais é adequadamente explicitada.
Muito fie l à abordagem lineana do estudo da diversidade, que
fazia autof'idade na Europa do século XVIII , Vandelli procurou com
o seu Dicci'ol1ario tornar mais explícita a consulta de Sysre.ma naturae, como, de resto, esclarece na introdução: «Pelo que sendo este
estudo tão útil, e necessário, e digno que muitas pessoa se appliquem
a elle, e consistindo huma das suas maiores difficuldades na inteligencia dos termos, de que os Naturalistas, e principalmente o CeI.
Linneo fazem uso; por isso me determinei com a maior dareza pos·
sivel, a tradusilos na nossa lingua ... » H. A ideia de Vandelli sobre o
ensino da Zoologia ia muito mais longe do que a simples enumeração
e ordenação das espécies: era uma verdadeira disciplina de Zoologia
aplicada, ao nível da épOCLl evidentemente. Assim, definia a sua intenção da seguinte forma: .. o estudo da Zoolggia não cons iste em hum
simples conh ecimento dos nomes de cada animal; mas he necessario
saber quanto for passivei a sua anatomia, seu modo de viver, e multiplicar; e saber aumentar, e cura r, e sustentar os que são necessarios na economia; procurar descubrir os usos daquelles que ainda
não · conhecemos immedi atamente, ou e.xtinguil-los se são nocivos,
ou defender-se delles.» U
Alguns anos mais tar de, Francisco António Ribeiro de Paiva
(?- 1831), que foi lente de Zoologia e Mineralogia após a exoneração
de Vandelli em 1791, publicou l /Uroductiones Zoologicae (1794) le ,
livro em que a fide lidade à sistemâticade Lineu já não é excl usiva.
Com efeito, Ribeiro de Paiva mostrou abertura a outros sistemas de
classificação dos animais, nomeadamente de Buf.fon, Lacépede e
Brisson. Porém, a sua concepção da Zoologia permaneceu, essencia lmente, tax-onóm ica.
Nesta mesma linha, publicou-se em 1799 a He.lmimhologia portugueza l1, tradu ção de um li vro de Jaques Barbut efectuada por Frei
José Mariano da Conceição Velloso 'Cc. 1740-1811)18. A Helminthologia
ocupa·sedas duas primeiras ordens, Intestinos e Moluscos, da sexta
classe de Lineu, Vermes. Nos Intestinos (Vermes perfurantes) eram
incluídos Anelídeos. Trematódeos, Nematomorfos, Nematódeos e até
as mixinas. Nos Moluscos (Vermes moles) incluiam-se Cifozoários,
Antozoários, Anelídeos, Copépodes, Gasterópodes, Cefalópodes e
14
Carlos Almaça
Equinodermes. Uma curiosa particularidade da tradução de Frei
José Mariano é a inclusão de nomes portugueses, eruditos é certo,
para todas as espécies descritas.
A fidelidade ao sistema '!ineado só lenta e tard iamente se desvaneceria da prod ução literária portuguesa respeitante à Zoologia.
Assi m, em 1815, surgiu a tradução de uma obra de Cuvier (Fig. 1),
Quadro elementar da Historia Natural dos animaes lO, efectuada por
António d'Almeida, cir urgião que esteve exilado em Londres entre
1810 e 1814 por suspeitas de fran cesismo. Felix de Avelar B:rotero
encarregou-se da nomenclatura portuguesa, usando nomes eruditos
para as espécies referidas no livro. Já se segue nesta obra uma classificação mais confonue com as i<leia s de Cuvier, embora ainda não
seja explfcita a sua concepção sobre a organização do Reino An imal
segundo quatro planos independentes - Vertebrados , Articu.lados,
Moluscos e Radi ados.
E m 1840, foi publicada outra obra, de autor anónimo, que apre·
senta várias afinidades com a anterior e se intit ula Elementos da
Historia Natural dos Animaes ~o, provavelmente destinada a servir
como sinopse aos alunos de Zoo logia. Este livro termina, tal como a
tr adução de Antônio d 'Almeida, por um vocabulário franco-português
de nomes de ani mais, da autoria de Brotero.
Este conjun to de ob ras terá constituído o essencial do que, no
plano didáctico, se produzi u em P ortugal relativo à Zoologia nas
primeiras décadas da Universidade Reformada. No que respeita à
produção científica, ela foi ainda mais escassa , Há, no entan to, a referir o manuscrito de Joaquim Vicente Perei ra Araújo, Diário filosófico
da viagem ao Gerês ~1 , viagem encomendada por D. Gaspar, ar cebispo de Braga, em 1782. Várias espécies animais da Serra do Gerês
e usos 'q ue delas faziam os povos serranos são refer idos no Diário.
f. muito interessante e revelador do pensamento dos por tugueses
cultos da época o que escreve o autor do manuscrito: "Trad ição é
muito antiga que nas estendidas serranias, e altos -picos do Gerês
mostra, e esconde a natw-eza raras produções necessárias, úteis e
agradáveis ·à vida -h umana , seja no reino anima l, seja no vegetal, ou
no mineral. Tradição é esta tão desautori zada, e pouco averiguada,
como antiga: porque não consta haverem por aquelas veredas, e
passos temerosos andado observadores da natureza, a quem cum·
QUADRO ELF.MENTAR DA HISTORIA
NAT U RAL
DOS
A N I l\'I A E S.
.
POR ]lh . CUVI EH.
TRADUZIDO
E lIf
PORTUGUEZ
OFFEREClDO A S. A. R. O PRI NCIPE B. N. S.
•
POR ANTONIO D'ALME IDA,
1;,\ ' 0.\ LLE t RO D A
onn e)!
Dt CII R ISTO, C I RU n(: I ,\O~ 0.-\ n
r.AL C.\;\f ... nlt, I. Et.' Tl: D' o P t nAç OE~'-" N O U O!lI'IT ,\L RF.,I L D r .... J O Z E
DI; L I Sll OII ,
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D O 1<1'. . \L CIIl u nC:Jo e N6 DE LONUIl f'.l; . TOMO II.
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.. o r O R n. EJtVf.n, nnlD GI: !: TRrrT
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DI. .·ICKI'HI.\LlS. Amw
1 ~ 1 5.
Fig. 1 - As ideias de Cuvier sobre classificação do Reino Animal
foram introduzidas em Portugal at ravés desta tradução efectuada
por An tónio d 'Almeida
Bosquejo histórico da Zoologia em. Poritlgal
15
prisse sistemati camente reduzir a escri tura a verdade do que exage~
rada, e variamente se conta. Repreensível porém seria no corren te
:século, em que à boa filosofia seu primitivo império foi restituído,
criando e levantando tanto zelo de investigar, e verificar-se das coisas ,
estas adormecidas se deixassem na sepultura do esquecimento ... »
Também é de assi nalar a curiosa monografia de Manoel Dias
Baptista, aluno de Vandell i, Ellsaio de huma descripção, fiúca, e
eCOllomica de Coimbra, e seus arredores (1789), que inclui lima
secção, FaLma COllimbrice/1sis Rudimelltum, em que a fauna de: Coimbra e seus arredores é referida n . Esta monografia tem vánas parti~
cularidades interessantes. Uma é a de ser o primeiro trabalho por~
tuguês em que a nomenclatura bi nominal lineana é aplicada à fauna.
Outra, a de referir espécies, como o lobo, hoje reduzidíssirnas na
sua área de distribuição em Portugal, que, em fins do sécu lo XVIII,
viviam nos arredores ,d e Coimbra. Outra ainda, a de incluir uma espécie de Vandelli, Blanus cinereus (VandeUi, 1797) [::;;: Amphisbaena
Cil'lerea], cuja descriçâo original só seria publicada alguns anos mais
tarde.
Com efeito, VandeUi, em 1797, publicou uma longa lista de plantas e animais existentes em Portugal, Florae, el Faullae Lusilanicae
specilnen 'J', em que descreve Amphisbaena Cil1erea. I nclui nesta lista
as espécies conhecidas à data em Portugal e também espécies exóticas, nomeadamente brasileiras. A despei to das imprecisões que contém, a lista de Vandelli constitui o trabalho pioneiro da ZoologEa cient ífica em Portugal.
Há ainda a 'r eferir, entre outras, as publicações sobre conchiolo·
gia de Emanuel Mendes da Costa, português radicado em Inglaterra 2i,
e um interessante trabalho de autor anónimo, Observações sobre
algwls peixes do mar e rios do Algarve 'l3, que apareceu em 18:18.
Na Universidade, Vandelli iniciou a preparaçâo dos prime iros
naturalistas profissionais. I nteressou-se por alguns deles, cl~iando­
-lhes oportunidades de trabalho, como mostra, por exemplo, a publicação de Manoel Dias Baptista. Mas, o seu principal desempenho
nesta área passar-se-ia em Lisboa, noutra instituição, fundelda no
ano da Reforma da Universidade.
Carlos Almaça
16
o
REAL MUSE U E JARDIM BOTÂNICO DA AJUDA
Tam bém em Lisboa, com a principal função de participar naeducação científica dos príncipes, que o Marquês de Pombal desejava
cientificamente preparados, foi promovida a criação de um gabinete
de H istória natural e um jardim botânico ~~ . Esta in iciativa do Marquês de Pombal apenas viria a ser concluída no início do r einado de
D. Maria L Domingos Vandelli, que seria o primeiro director desta
instituição, até 1810, data em que foi afastado por acusações de
francesi smo, tornou ~a um centro de profissionalização dos naturalistas recrutados entre os graduados da Universidade reformada.
Em 1778 iniciou-se o recrutamento, sendo os naturalistas encarregados de «examinar, reduzir e descrever os produtos naturais do
Real Museu da Ajuda", 2 7, Com a sua influência na Universidade e na
Corte e crédito que certamente lhe era conferido por Martinho de
Meto e Castro , Ministro c Secretário de Estado dos Negócios do
Ultramar, Vandelli empreendeu a formação prática dos naturalistas
com o objectivo de que, uma vez enviados para as colón ias portuguesas, dessem conhecimento adequado dos «produtos naturais» ai
existentes. Todas as tarefas de organização e preparação das «expedições fi los6~icas» em que esses natu.ralis tas seriam in tegrados recaiu
sobre Vandelli 28 .
Conforme denuncia a expressão «produtos naturais», a actividade
científica do Real Museu da Ajuda orientou-se, fundamenta lmente,
para os aproveitamentos -que poderiam retirar-se das espécies na turais. Com esta ênfase e atitude se relaciona um curioso manuscrito
de Alexandre Rodrigues Ferreira, Abuzo da Conchyologia em Lisboa.
Para servir de Introdução a minha Theologia dos Vermes, base de
uma comunicação que apresentou em 21 de Novembro de 1781 à
Academia das Ciências de Lisboa 20 .
Criticando os que se dedicam ao estudo da natureza sem a preocupação do útil, e por isso envolvendo na sua crítica os amadores
de conchiologia, A. R. Ferreira, em estilo muito rebuscado, reconhece,
no entanto, que todos os seres devem «o espirito ao Creador». Daí,
elevarem o nosso pr óprio espírito pela sua contemplação e estudo
e justifi car-se o nome, «Theologja dos Vermes», com que. intitula o
~III
I
Fig. 2 - Manuscrito da autoria dos naturalistas do Real Museu
da Ajuda. Museu Bocage
Fig. 3 - Material de colheita e conservação de exemplares
zoológicos. Em cima, à esquerda: pinça para colheita de ofídios.
Em cima, à direita: rede para a. colheita de conchas. Em baixo,
à esquerda: caixa para a conservação de insectos. Em baixo.
à direita: caixa para a conservação e transporte de colecções de
insec(os. Desenhos de Codina integrados no manuscrito da Fig. 1
Fig. 4 - Em cima, à esquerda: concha univalve. Em cima, A direita:
concha bivalve. A meio: 1i16fito. Em bai xo: pinça-rede para a colheita
de insectos. Desenhos de Codina integrados no manuscrito da Fig. I
Fig. 5 - Primeira fase de preparação da pele de um mamífero. Desenho de Donati integrado no manuscrito da Fig. I Fig. 6 - Fase de prepa ração da pele de uma ave. Desenho de Donati
integrado no manuscrito da Fig. I
Fig. 8 - Primeira fase de preparação da pele de um peixe. Note-se a incisão ventral
do corpo do peixe. Desenho de Donati integ rado no manuscrito da Fig. 1
Bosqaejo histórico da Zoologia em Poriugal
17
seu trabalho 30 . Mas, segundo A. R. Ferreira, o naturalista deve orientar os seus estudos para servir a economia do país e não se consumir
em tarefas de identificação que a nada aproveitem 3\. Sintetiza muito
bem o seu ponto de vista no parágrafo 7 da comunicação:
«Desenganaraõ-se os homens, porque os ensinou a experiencia, que a Arte era longa, e a vida breve. Em consequencia do
seu desengano, o melhor expediente q tomaraõ, foi o de estudarem primeiro o util, depois -delle o curioso e deleitavel. .. Este o
fim que se propuseraõ na Europa as mais doutas Academias,
segundo a Historia da sua instituição. Esta a letra de Fedro,
que sobre o mesmo plano adoptou a Academia das Scíencías
de Lisboa ... E este para o dizer de huma vez , o meio mais efficaz
de obrigar a confessarem Sabios e ignorantes, que sobre todas
merece ser estudada, e pro tegida hurna Sciencia, q sabe unir o
util ao deleitavel.»
o interesse no conhecimento dos «produtos naturais_ desencadeou a realização de textos destinados a orientar a formação de
colecções daqueles produtos. Assim, em 1781, os naturalistas do Real
Museu redigiram um manuscrito (Figs. 2-8), Methodo de Recolher,
Preparar, R emeter, e Conservar os Productos Naturais. Segundo o
Plm1O, que tem cOl1cebido, e publicado alguns Naturalistas , para o
lIZO dos Curiozos que visitaõ os Certoil1s, e Costas do Mar $'2.
Este manuscrito é -da autoria, pelo menos parcial, de A. R. Ferreira pois as correcções e outros pormenores nele inseridos são escri·
tos pela sua letra. Além disso, toda a parte relativa aos Vermes e
sua colheita é exactamente igual à da I ntroduçãO' da comunicação
de Ferreira, Abuzo da COl1chyologia, já referida .
A iniciativa da sua efectivação pertenceu a Martinho ·de Melo e
Castro, cOJIfonne prova o texto da página 2 de Melhodo de R ecolher,
1871:
«Ao Ill.mo e 'Exm.o Snr. Martinho de Mell o e Castro. Ministro
e Secretario de Estado dos Negocios de Ultramar.
Carlos Almaça
18
m.
rno
e Exm,O Snr.
Mandou-nos V.Ex. a q. dizendo empouco o q. setem pensado
sobre o Methodo de Recolher, Preparar, Remeter, e Conservar os
Productos Naturais, dessemos aler aos Curiozos, o q. ha nesta
parte de util somente, e necessario para as provisoins, q. deles
pode esperar o Gabinete Nacional. Em cumprimento das ordens
de V.Ex,- oq. julgamos digno .de escrever-se, he o q. pomos nas
suas maons . Como distingue particularm a a lma de V _Ex.~ o
conhecimento das relaçoins q. tem com a felicidade publica,
estes productos, quando os trata, como deve ser, a l ndustria Popular, digne-se V.Ex,a continuar na Protcçaõ de huns Estudos.
q nos temos de profissaõ estudar, e V.Ex.a proteger. DE V.Ex.~
H umildes Criados. Os Naturalistas.»
A intenção do Methodo de Recolher era, pois, fundamentalmente,
a de proporcionar aos curiosos o conhecimento de processos que
lhes permitissem enriquecer as colecções do Real Museu . Isso j ustifica que, neste manuscrito, já se não ponha tanta ênfase na utili·
dade, como A. R. Ferreira fez em Abw:o da COl1chyologia. Com efeito,
ao tratar de colheitas, escreve-se no manuscrito (Methodo de Recolher, p. 3): «Suppomos ... q . tudo quanto he creado he digno de
observar·se, oucas de sentido por consequencia as palavras sevandija,
abjecto, desprezivel, q. se applicaõ a alguns corpos naturais.»
O manuscrito consta de quatro partes que tratam, respectivamente, da colheita, preparação, remessa e conservação dos «produtos
naturais». Termina com seis magníficas estampas, as duas primeiras,
que representam aparelhos ,d e colheita e acondicionamento de ani·
mais e figuras de Testáceos e Zoófitos, da autoria de Codina, e as
quatro últimas representando fases da preparação de mamíferos,
aves, répteis e peixes, da autoria de Dona ti.
Methodo de Recolher está certamente relacionado, pelo menos
no conteúdo, com Breves Instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos productos, e
noticias pertencentes a Historia da Natureza, para formar lU/nI Museo
NadO/tal, 1781 31, obra anónima, mas cuja autoria é, possivelmente,
dos naturalistas do Real Museu da Ajuda 8 4 . Esta publicação será,
posteriormente, considerada mais detidamente .
Bosqw~jo
histórico da Zoologia em Portugal
19
Grande parte da actividade do Real Museu da Ajuda foi consumida na preparação das lIexpedições filosóficas», que se iniciaram
em 1783. Não houve, pois, produção científica dos natura-listas da
instituição; ao que parece, aguarda.vam-se os resultados das suas
colheitas e observações no Ultramar para a iniciar.
Com efeito, em 1783, os naturalistas Alexandre Rodrigues Ferreira, Manuel GaIvão da Silva, Joaqu:im José da Silva e João da Silva
Feijó partiram para o Brasil, Moçambique , Ango1a e Cabo Verde,
respectivamente, começando o seu trabalho de prospecção e colecção. Foi notável a expedição de Ferreira, que, durante mais de nove
anos, coligiu e fez observações na Amazónia &\ remetendo os materiais para o Real ·Museu.
Foram diversos e importantes os resultados das «expediçôes
filosóficas»: colecções de história nattural, monografias manuscritas,
correspondência com entidades oficiais de Lisboa e aguarelas documentando as viagens de exploraçiio.
As colecções pennitiram reunir' no Real Museu uma vasta documentação da história natural do Ultramar português, em particular
da Amazónia 34 . A. R. Ferreira estava. em 1804, encarregado de redigir
a História natural do Pará e, nessa intenção certamente, foram gravadas muitas chapas de cobre com motivos recolhidos durante a
sua expedição 3 • • Este trabalho nunca foi concluído, em parte pelo
menos, devido à cobiça pelas colecções do Brasil que atraíra o Museu
de História Natural de Paris.
No conjunto de monografias redigidas pelos naturali stas do
Real Museu realça, igualmente, a actividade de Ferreira. Foi autor
de muitas dezenas de monografias :iobre os mais diversos assuntos
que atrairam a sua atenção <C!urante a expedição ao Brasil. Entre as
de maior interesse zoológico, referir··se-ão as seguintes 38:
«Descripção da tartaruga Matamata, 1784»
«Memoria sobre as tartarugas, denominadas pelos Indios do
Para Yuraras-retes, 178-6>1
«Descripção do Peixe Piraurucu, 1787))
«Descripção do Peixe Arananão, 1787»
«Descripção do raconete - Ursus Lotar - de Linneo, 1795»
20
Carlos Almaça
«Descripção do macaco-Sirnia Mannon-de Linneo, 1801»
«Memoria sobre o Alicorne do ma r, 1804»
«Memoria sobre o Peixe-Boy; e do uso que lhe dão no Estado do Pará»
«Memoria sobre as Tartarugas, que ha no Estado do Pará »
«Memoria sobre as variedades de Tartarugas que ha no Estado do Pará, e do uso que lhes dão»
«Observações gemes e part iculares sobre a classe dos
Mammaes observados nos territórios dos tres rios das
Amazonas, Negro e da Madeira; com as descripções circunstanciadas que de quasi todos clles deram os antigos
e modernos Naturalistas, e principalmente com as dos
Tapuyas».
Na correspondência enviada pelos naturalistas a entidades em
Lisboa mencionam-se, também, elementos de valor para o conhecimento da forma como iam decorrendo os trabalhos , se bem que,
grande parte seja consumida em queixas contra as condições de
clima e da actividade científica 39 .
As aguarelas serão o que de mais precioso nos restou documen·
tando aquilo que foi o Real Museu da Ajuda e a actividade dos seus
naturalistas. E ncadernadas sob títulos sugestivos como Riscos de
alg1lns Mammaes, Aves e Vermes do Real Mllseu de Nossa Senhora
d'Ajuda, Riscos de 1/arios animaes raros de Mo çambique, com aigllrtS
prospectos, e retratos e Desenhos de Gentios, Animaes Quadrupedes,
Aves, Amphibios, Pei..;tes, e Insecto s. Da Expedição Philosophica do
Pará, Rio Negro, Mato Grosso, e Cuyabá tO, para não referir senão as
que têm interesse zoológico, estas aguarelas representam centenas de
espécies, sobretudo br asileiras.
Mas, não resultaram de toda esta actividade exploratória e cien·
tífica publicações que fossem divulgadas e consagrassem os natura listas portugueses. Isso se deveu, em parte, à incipiência do meio
cien tífico português da época, mas sobretudo ao saque das colecções
efectuado por Geoffroy Saint-H ilaire, em 1808, quando da primeira
invasão francesa. Este assunto tem sido muito debatido e é difícil,
hoje, ter-se uma visão exacta da importância relativa dos acontecimentos que fnlstraram a reali zação científica dos nossos naturalistas 11 , Seja como for, e é isso que mais interessa aqui, não se verifi~
Bosquejo histórico da Zoologia em Portugal
21
caram rcsultados imperecíveis c convenientemente divulgados do
trabalho dDs naturalistas do Real Museu da Ajuda. E a Zoologia portuguesa seeia, mais uma vez adiada.
o
MUSEU NACIONAL DA ACADEMIA DAS CIl'.NCIAS
Após o saque de Saint-Hilaire o Real Museu desorganizou-se.
Vandelli foi afastado cm 1810, por acusação de francesismo, e substituído na direcção por Félix de Avelar Brotero ~':l . Alexandrc Rodri.
gues Ferreira, progressivamente diminuído, acabaria por falecer em
1815 , Com o desaparecimento de Brotero, em 1828, a degradação do
Real Museu acelerou·se progressivamente, A tal ponto, que um
decreto de D, A'l aria II , de 27 de Agosto de 1836, «Tomando em consideração () estado tão incompleto como irregular em que se acha o
Museu e Horto Botanico da Ajuda ... )) o incorporou na Academia
das Ciências « ... para que sirva de auxiliar as prelecções da Aula da
Anatomia comparada e Zoologia que se aeha estabelecida na Academia e tambem para que patente ao publico no centro da capital
ofereça aos estudiosos meios faceis d'applicação».
A Academia Real das Ciências de Lisboa , concebida cm 1778,
fora criada por Aviso Régio de 24 de Dezembro de 1779. Destinava-se,
como as suas congéneres europeias, algumas anteriores em mais de
um século, a congregar a intelectualidade portuguesa e a produzir,
apresentar, discutir e publicar trabalho criativo e impulsionador
do desenvolvimento português. Dispunha de tipografia privativa, que
manteve até 1910. Projectou, em 1781, a formação de um Museu
Nacional e, nessa intenção, fez publicar Breves instrucções (1781), a
que já se aludiu neste trabalho. A intenção da publicação era a de
orientar os correspondentes no envio de colecções e notícias respeitantes à história da natureza, sendo muito interessante o seu con·
teúdo e, particularmente, o relacionamento com as notícias (parágrafo IV), que é significativo do conceito alargado que tinha a História na tural.
Com efeito, para além de todas as notas possíveis referentes às
espécies biológicas e mineralógicas expedidas e suas aplicações no
22
Carlos Almaça
país de origem, tudo o resto devia ser registado: « ... e corno nãO
interessa menos conhecer o paiz que os produz [os exemplares] ,
recommenda-se aos Correspondentes , que mandem tambem hum a
descripção Geografica delle, que comprehenda com a e.xacçiio possivel tudo o que tiverem observado, e lhes parecer mais digno da
attenção de hum Filosofo. » U E enumeram-se seguidamente os traços
geográficos a reter, bem como as caracterís ticas biológicas dos povos
que o habitam, a sua religião , política, economia, artes e tra.dições.
E termina dizendo: «Finalmente dar-se·ha huroa idéa do melho:r modo
possivel dos costumes dos Póves, cuja noticia possa influir de ;algu ma
sorte no Bem da Sociedade.» U
O guarda-mar do Museu Nacional, nomeado na década de 1790.
cuidava do arranjo e razia demonstrações de História natural e
Física experimental ~'. Carenciada de verbas, particularmente a partir da década de 1820, nunca pôde a Academia desenvolver o seu
Museu. No entanto, comprou algumas colecções, como por exemplo.
uma de conchas com mais de 1700 exemplares em 1818, e subsidiou,
em 1820, colheitas de animais marinhos entre o Cabo da Roca e Setúbal. Mas, com a redução das dotações teve de pôr termo, em 1823, à
preparação da sua colecção de peixes, então reduzida a 200 exemplares pertencentes a 70 espécies 40 .
Na Academia professava-se uma cadeira de Zoologia e noç~ões de
Anatomia comparada de cuja regência era encarregado o Dr. Francisco de Assis de Carvalho. No Ano lectivo de 1837/1838 as aulas
começaram em 3 de Novembro e terminaram em 18 de Junho, tendo
luga1- às segundas, quartas e sextas-feiras e, quando havia repetições,
também aos sábados. A duração de cada urna era -de hora ~~ meia.
Matricularam-se 84 estudantes, dos quais 57 obtiveram certificado,
após os exames, que decorreram em Junho e Julho. Os alunos excepcionais eram premiados com Uvros. No Ano lectivo de 1838/ 1839, a
dissertação de prémio intitulou-se «Da importância que tem 0$ caracteres tirados do apparelho da dentição no Estudo da Mammalogia ~ .?
Estes elementos mostram que, no período que sucedeu a.o Real
Museu da Ajuda, e independentemente da agitação social em que
viveu o pais, houve, se não investigação, pelo menos ensino de Zoologia em Lisboa . E mais , a avantajada carga horária da cadeira de
Bosquejo histórico da Zoologia em Porlugal
23
Zoologia, sugere que tal ensino teria bastante profundi dade. A inclu·
são, nesta cadeira, de noções de Anatomia comparada denuncia, além
disso, a preocupação de actualização, pois o assunto era relativa·
mente recente, estando ainda fresco o célebre debate público de 1830
entre Cuvier e Geoffroy Saint-Hilaire sobre a unidade de composição
orgânica t8 .
Fra ncisco de Assis de Carvalho preocupou·se, igualmente, com a
orgémização do Museu. Assim, pediu pessoal, tendo-lhe sido comunicado em Outubro de 1836 que chamasse do Real Museu dois preparadores, um desenhador zoológico e um escrevente t9_ Foram, na realidade, cedidos mais funcionários do Real Museu, provavelmente
devido ao Facto de o Museu Nacional se ocupar também da Mineralogia. Com efeito, ainda em Outubro de 1836, e sob a responsabili·
dade de F. A. de Carvalho, figuram na folha de pagamentos do
Museu Nacional um escrevente, um desenhador, um praticante de
desenho, um fiel, um mestre preparador, dois preparadores e um
servente ~o . Não existia, porém, um director e isso levou o lente de
Zoologia a pedi-lo em 23 de Julho de 1838 ~ l. A partir de Setembro de
1839 e até à extinção do lugar pela portaria de 10 de Junho de 1842
houve, de facto, um director do Museu Nacional, que foi o Dr. Fran·
cisco de Ass is de Carvalho ' 2.
Foi Carvalho que recebeu as colecções do Real Museu quando
transferidas para o Museu Nacional conforme sugerem alguns
documentos de 1836 .~. Parece também ter sido ele que recebeu o
legado de Frei José de Jesus Maine (1723-1792) ~ '. Frei José Maine
criou no se.u convento um museu e uma cadeira de História natural
«aplicada á -demonstração dos atributos de DeLIs». Quando da extinção das Ordens religiosas, em 1834, esta fundação cultural, designada
por I nstituto Mainense, foi confiada à Academia das Ciências, formalizando·se o desejo do seu fundador. Em 1855, a Academia fez
construir um anfiteatro para o elevado número de alunos que frequentava a.queIa cadeira, agora intitulada «Introdução à História
natural». A. cadeira de Zoologia e noçõe s de Anatomia comparada
fora suprimida em 1847/1848 e a ·disciplina do I nstituto Mainense
era, então, a única professada na Academia, substituindo ensino análogo, que havia sido ministrado na Escola Politécnica até 1854.
24
Carlos Almaça
Carvalho procedeu, igualmente, à organ ização das colecções de
zoologia do Museu Nacional. Assim, em 1836, ordenou a colecção de
vertebrados &5, seguindo, para os Mamíferos, a classificação de Cuvier
aperfeiçoada por DesOlarest, para as Aves, as de Cuvier, Temminck
e Vieillot compostas por Drapier e, para os Répteis e Anfíbios, a de
Cuvier. Os Peixes não foram classificados por se aguardar para esse
fim bibliografia que viria do Real Museu. De qualquer forma, havia
uma colecção interessante de Peixes: 253 em pasta, 294 preparados a
seco e 366 em líquido. Através do catálogo sabe-se que a colecção de
aves ocupava 25 armários e a de hcrpetologia 5 armários.
Preocupado com a falta de colecções de Portugal, Francisco de
Assis de Carvalho pediu à Academia, em 1 de Fevereiro de 1837, um
orçamento para o Museu que lhe permitisse adquiri-las e a formação
de um gabinete adicional de Zoologia e Mineralogia portuguesa '6.
Em 21 de Maio de 1838, comunicou ao secretário da Academia que
já reformara a classificação do Museu, devendo, por isso, patentear-se ao público as suas colecções $7.
Ao contrário do que se tem afirmado, o Museu Nacional teve
certa activida·de, registando-se a entrada de exemplares e col ecções,
sua preparação para exibição, permutas com instituições congéneres ,
etc. )8 . Os seus correspondentes remeteram-lhe colecções zoológicas
de proveniências 'Variadas. Assim, referem-se a título de exemplo os
envios de colecções de Goa, entre 1840 e 1849, por Cláudio Lagrange·~
e Francisco Maria da Silva Torres 60 , de Cabo Verde e Guiné, em 1840,
por João de Fontes Pereira de MeloU, de Moçambique (peixes) por
Petel's G'2 .
Qualquer museu exige cuidados constantes e as colecções de
exemplares zoológicos são particularmente vulneráveis ao abandono.
Parece que a supressão do lugar de director do Museu Nacional, em
1842, votou ao esquecimento e deterioração as suas colecções. A despe ito de, em 30 de Outubro de 1845, se ter criado o lugar de classificador do Museu el , a decadência não foi sustida. Primeiramente, foi
nomeado Francisco Tomaz da Silveira Franco, que faleceu em 1849,
e, depois, Pereira da Costa, que resignou. Na sua curta vigência como
classificador, Silveira Franco ainda fez a revisão das colecções de
aves e de conchiologia 0'.
Bosquejo hisrórico da Zoologia em Portugal
2S
A ESCOLA POLITllCNICA E O MUSEU NACIONAL DE LISBOA
Graças à acção do Museu da Academia das Ciências o ensin o e
a museografia da Zoologia em Lisboa não se extinguj~am . O seu
papel no domínio da investigação zoológica foi, porém, nulo ou quase.
A investigação zoológica só seria empreendida em profundidade e
com continuidade na Escola Politécnica.
Na realidade, em 1837 foi Fundada 6~ a Escola Politécnica «com
o fim principal de habiUtar alunos com os conhecimentos necessarios
para seguirem os diferentes cursos das Escolas de aplicação do Exercito e .da Marinha11 . Na Escola Politécnica ministravam-se cinco cursos, um, o Curso Geral, ou 5.° Curso, e mais quatro, preparatórios,
para oficiais do exército e da marin.ha e engenharia. No 1.° ano dos
cursos preparatórios professava-se uma disciplina de «I ntrodução à
História Natural » que, conforme vimos , foi substituída, a partir de
1854, pela sua congénere do Instituto Mainense. No Ano lectivo de
1864/ 1865 funcionavam na Escola Politécnica dez cadeiras, mais uma
de QuImica Orgânica e um Curso de Geometria descritiva, entre as
quais a 8.- cadeira , Anatomia c Fi siologia comparadas e Zoologia 66.
Vários incidentes impediram o pleno fu ncionamento da 8."
cadeira até 185 1 61 • A despeito disso, desde 1838 que o Conselho da
Escola Politécnica reivindicOu a anexação do Museu Nacional da Academia das Ciências e do Jardim Botânico, considerados indispensáveis para apoio do ensino das cadeiras histórico-naturais ~ 8. S6 vinte
anos depois, o Museu da Academia seria, de facto, incorporado na
Escola Politécnica Ci. Já então era },ente prop ri etário da 8." cadeira,
desde 1851 , o Dr. José Vicente Barbosa du Bocage (Fig. 9), a quem
coube a direcção da Secção zoológica do Museu.
Em sessão da Academia das Ciências de 8 de Maio de 1858,
sendo Barbosa du Bocage representante da Escola Politécnica, o
Museu Nacional de Lisboa - designação utilizada para o Museu
anexo à Escola Politécnica, só oficializada em 1862 10 - , tomou
posse das colecções, bibliografia e manuscritos depositados no Museu
da Academia das Ciências. Nesse auto de posse se declara nâo serem
transmi tidos os or iginais da expedi~;ão de Alexandre Rodrigues Ferreira em virtude destes haverem sido en tregues, em 1842 11 , ao minis-tro do Brasil em Portugal. Barbosa du Bocage deu notícia , em 1862,
26
Carlos A/maça
das colecções zoológicas que transitaram da Academia para a Escola
Politécnica 7'!. .
Começou, então, a actividade docente, museográfica e científica,
extraordinária a vários títulos, de Barbosa du Bocage. A cadeira de
sua propriedade era constituída por duas partes 13, Na primeira
- Anatomia e Fisiologia comparadas - , estudavam-se comparativamente os animais, tomando como referência o homem e orientando
a comparação através das funçõe s e respectivos sistemas estruturais.
A segunda parte - Zoologia - , tinha orientação, essencialmente,
taxanómica e aplicada. Concebida segundo os quatro planos de organização do Reino Animal reconhecidos por Cuvier - Vertebrados.
Articulados, Moluscos e Radiados -, era pormenorizada no que respeita aos dois primeiros e resumida no tocante aos dois últimos.
A utilidade ou nocividade das espécies de cada grupo era particularmente estudada. A cultura de espécies de valor alimentar já era
cuidadosamente tratada.
Deslocando-se a Paris em 1859 e 1860, Bocage obteve, no Muséum
national d'Histoire naturelle, colecções para o Museu de Lisboa como
compensação pelas que, em 1808, Etienne Geoffroy Saint-Hilaire havia
saqueado no Real Museu da Ajuda. Entretanto, procurou cativar correspondentes para o Museu, dedicando-lhes a publicação de Ins trucções práticas ri , em que se indicam as formas de colher, preparar e
enviar colecções zoológicas para o Museu de Lisboa. Conseguiu-o,
de facto, e, ao longo da sua carreira, dispôs sempre de excelentes
colectores, sobretudo no Ultramar, entre os quais se destacou José
de Anchieta, que contribuiu significativamente para a obra científica
de Barbosa du Bocage 7~ . Mas, para além deste, outros colectores
como Bayão, Welwitsch, Serpa Pinto, Capelo, Ivens e Newton, assim
como residentes no Ultramar >6, enviaram exemplares zoológicos para
Lisboa, proporcionando o progressivo enri'q uecimento das colecções
do Museu Nacional. E assim, durante meio século, Barbosa du Bocage
es tudou a fauna de Portugal e do Ultramar português, sobretudo de
Angola, publicando cerca de 200 trabalhos taxonómicos sobre Vertebrados e Espongiários e descrevendo muitas dezenas de espécies.
Em 1863, D. Luiz ofereceu ao Museu de Lisboa uma valiosa colecção de aves e conchas que o irmão, D. Pedro V, adquirira ao longo da
sua curta vida. Na realidade, este monarca constituira 'u m verdadeiro
museu de História natural, designado por Museu Real, sobretudo
Fig. 9 - José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907)
Bosqu.ejo histórico da Zoologia em Poriugal
27
por comp ra de colecções em França e Inglaterra 77. O Museu Rea l
estava instalado no Palácio das Necessidades, dispunha de naturalistas, biblioteca e mobiliário adequado, sendo as suas colecções franqueadas para estudo aos investigadores. Nas próprias palavras de
Barbosa du Bocage, a oferta das colecções de D . Pedro V veio colocar o Museu de Lisboa "na vanguarda dos museus de segunda ordem,
pe lo que respei ta a ornithologia e a conchyliologia». Com efeito, a
colecção de aves era constituída por mais de 4000 exemplares, representando cerca de 3200 espécies e a de conchas por cerca de 4500
espécies e muitos mais exemplares 18 . O catâlogo da colecção d.e Aves
do Museu Nacional de Lisboa começou a ser publicado em 1869,
dando já con ta das espécies ofereci das por D. Pedro V 19.
Barbosa du Bocage soube escolher dedicados colaboradore:s , q ue,
para além de taxonomistas conceituados, o admiraram e re:speitaram até ao fim. Entre esses colaboradores figuram, numa primeira
fase, Félix de Brito Capelo (1828-1879), Francisco Arruda Furtado
(18541887) e José Augu sto de Sousa (?-1889) e, numa segu nda fase,
Baltasar Osório, (1855-1926), Bettencou rt Ferreira (1866-1950), Carlos
França (1877-1926) e Antero de Seabra (1874-1952) .
Com a sua magnífica obra, Barbosa du Bocage iniciou a. tradição <.la Sistemática zoológica entre nós, cons truindo a partir de pouco
um museu que atingiu renome internaciona1. Por isso, em 1905, ainda
em sua vida, a Secção zoológica do Museu Naciona l de Lisboa passou
a denominar-se, por proposta .do Conselho da Escola Poli técnica,
Museu José Vicente Barbosa du Bocage SQ, que o uso consagrou,
mesmo oficia lmente, sob a forma abreviada de Museu Bocage. Como
a este museu foi oferecida, em 1907, a excelente colecção antropológica de Ferraz de Macedo, o Museu Bocage passaria a constituir a
Secção zoológica e antropológica do Museu Nacional de História
Natural SI.
BARBOSA DU BOCAGE E A INVESTIGAÇÃO TAXONÚMICA
Como frequentemente aconteceu com muitos naturalistas~locais,
Barbosa du Bocage expandiu o seu talento de taxonomista em apreciável diversidade de grupos zoológicos, que estudou, qualquer deles
com muita Oliginalidade. E, assim, na primeira dúzia das suas publi·
28
Carlos A/maça
cações científicas já se encontram abertas todas as linhas que exploraria até ao fim da vida: esponjas, esqualos . anfíbios, répteis, aves
e mamíferos. Estudou também, embora episodicamente, moluscos da
Madeil'a !l".! , Começando as suas investigações pela fauna de Portugal,
cedo as estendeu à ultramarina, sobretudo angolana, que correspondentes, exploradores e colectores faz.iam representar no Museu Nacional de Lisboa.
A série de trabalhos que publicou sobre a fauna portuguesa,
em sete anos apenas, é verdadeiramente notável 8a , Principiou-a com
uma primorosa descrição da cabra do Gerez, Capra pyrenaica /usitalüca Schlegel, 1872, raça geográfica do norte de Portugal e Galiza,
que, inicia lmente, pensou tTatar~se de uma espécie nova, mas, no
decurso do seu trabalho, acabou por considerar como já descrita M.
Apresentou uma lista, bastante completa nalgumas ordens , de mamíferos, répteis e anfíbios de PortugaJ 85 _ Recorda-se que em Instrucções práticas, 1862, havia publicado uma lista das aves até então
observadas em Portugal. Descreveu. um novo microtíneo, Arvicola
roúanus Bocage, 1865, talvez uma raça geográfica pr6pria ao centro
e norte de Portugal e Galiza 5G . Descobriu e descreveu uma espécie
nova de esponja de pr ofundidade, o chicote-da-mar. Hyalonema [lIsitanica Bocage, 1864, sobre a qual manteve uma polémica com Ehrenberg, que não acreditava na existência de esponj as do género Hyalo/lema nos mares portugueses 81 . Descreveu, ainda, uma nova espécie
de urodelo, Chioglossa lusitanica Bocage, 1864, e, em colaboração
com Félix de Brito Capello, quatro novas espécies de esqualos dos
mares portugueses, Celltrophorus lusitanicus Bocage & Capello, 1864,
Centroscymnus crepidater Bocage & CapeUo, 1864, Centroscyml1Us
coelolepis Bocage & CapeUo, 1864 e Symnodon ringerls Bocage &
Capello, 1864.
A -fase seguinte, muito mais longa, pois durou até ao fim da vida
de Barbosa d u Bocage, foi sobretudo dedicada ao estudos dos vertebrados terrestres ultramarinos. Em cerca de 150 publicações , Barbosa du Bocage ocupou-se, fundamenta-lmente, da fauna de Angola,
descrevendo mais de 20 espécies nominais de mamíferos, mais de 70
de aves e ma is de 80 de répteis e anfíbios. A maioria das suas espécies nominais revelou-se, em estudos: posteriores, como boas espécies
biológicas. Consagrou o seu t rabalho taxonómico em duas p ublica~
ções de conjunto sobre Ornitologia de Angola as e Herpetologia de
Bosquejo histórico da Zoologia em Portugal
29
Angola e do Congo 8 9 . Estes seus trabalhos podem considerar-se como
clássicos para o estudo da fauna angolana .
Espírito concreto e ligado ao fa ctual, Barbosa du Bocage não
parece ter sido grande admirador da teorização. Com efeito, no programa da sua cadeira da Escola Politécnica, nâo há uma só referência
a qualquer tema do que, na época, se entendia por Filosofia zoológica. Baltasar Osório, que foi seu colaborador, chama a atenção para
vários casos em que inten'eio Barbosa du Bocage, convidando a
especulações de pendor evolucionist.a ou hipóteses de biogeografia
causal. Mas não, permaneceu sempre , segundo Osório, alheio a todo
o tipo de conjecturas ~ o .
Pessoalmente, não perfilho a opinião de Baltasar Osório. O que
me parece é que Barbosa du Bocage foi um criacionista convicto,
muito próximo e influenciado por Agassiz, não aceitando, por isso,
o evolucionismo c evitando as hipóteses biogeográficas, que constituem um dos pontos mais fracos do criac.ionismo. Na reaJidade, na
sua publicação sobre o género Bayonia ~ t, man ifes ta as opiniões - a
meu ver contraditórias relativamente à própria versão criacionista - ,
que caracterizaram a defesa dessa versão protagonizada por
Agassiz ~ .
Assim, a propósito da morfologia de Potamogala velox diz
Bocage u : «O aspecto exterior, a fa:cies d'este animal recorda até
certo ponto a nossa lontra e 'seus congeneres exoticos, e induz a crel-o
do gr ande grupo dos carnivoros. 1:: este mais um exemplo de quanto
se precisa saber descriminar os caractéres que apenas exprimem
analogias biologicas d'aquelles por onde se devem interpretar as
verdadeiras affinidades naturaes .» E continua: «... e nos (membros)
posteriores o 2.° e 3.° dedos acham-se inteiramente unidos pela pelle
até á base da ultima phalange, disposição que lhe é comum com
varios marsupiaes, e que s6 parece destinada aqui a exprimir uma
simples relação de parallelismo com um grupo mui distincto e affastado de mamiferos. » f: muito difícil aceitar os conteúdos de expressões como «affinidades natura'es» e «parallelismo » numa perspectiva criacionista. Mas essas expl-essões têm, aqui, prec isamente o
mesmo significado que lhes conferiu Agassiz.
A contradição, ainda decalcada do pensamento de Agassiz, continua, porém, quando Bocage analisa uma classificação de Peters
para os I nsectívoros u: « ... é força confessar que os esforços até
,
30
Carlos Almaça
aqui empregados para se conseguir uma classificação natural d'estes
animais (Mamíferos) ni'i.O teem sido coroados d' um exito completo.
N'algumas or<Íens reina ainda a mais deploravel anarema : se uma
ou outra familia -apparece formada de generos e especies em que
parecem dar-se as mais intimas relaç;ões de parentesco, a maior parte
das vezes encontram-se agrupados typos d'organização manifestamente discordantes e heterogenea .. . e quanto aos insectívoros ", . nem
por isso se conseguira distribuil-os e agrupaI-os em conformidade
com os principios do methodo na tura!.» Note-se o apego à classificação natural baseada nas relações de parentesco , que, dir-se-ia r eti·
rada do escrito de um evolucionista. E Bocage reafirma o seu ponto
de vis ta 9~: <'< ... a classificação do àr.Perers, tem dotes que muito a
r ecommendam, quaes são: procurar satisfazer aos principias por que
se regem as claSSificações natu raes , acabar de um golpe com m uitas
das approximações arbitrar·ias e violentas das classificações anteriores, pôr em evidencia o parentesco c~streito de generos que andavam
dispersos ... ». Esbate, porém, qu alqu er suspeita de uma interpretação
evolucion ista ao terminar manifes tando a sua visão criacionis ta da
diversidade zoológica: <'<A descoberta do genero Bayonia veiu provar
quão longe es tamos ainda ... de poder interpretar com alguma
segurança o plano fundamental da creação no reino animal.»
Alguns autores pouco preparados ou menos actualizados correlacionaram o gran de talento analitico de Barbosa du Bocage com
certa incapacidade para a teorização em Biologia. Nào é o caso,
conforme as linhas anteriores demonstram. O que Bocage, com o
outros grandes naturalistas da sua época, revela é uma convicção
essencial no criacionismo , à qual nem o célebre Agassiz escapou a
despeito da sua profunda cultura zoológica e originalidade.
AUGUSTO NOBRE, A MALACOLOGIA E A FAUNA MARINHA
Outro notável natu ralista-local português, ain da mais di versifi cado nos seus interesses taxonóm1cos e aplicações da Zoologia que
Barbosa du Bucage e, por isso, naturalmente menos profundo, foi
Augusto Nobre (Fig. 10) . Malacolog;ista amado r desde a j uventude ,
iniciou na idade própria os seus estudos na Universidade de Coim bra ,
depois na Academia Poli técnica do Porto e, finalmente , em França
Fig. !O - Augusto Pereira Nobre (1865-1946)
Bosql~ ejo
histórico da Zoologia em Portugal
31
(1887-1&90), no Laboratório .de Altos Estudos dirigido por Edmond
Perrier, Museu de História Natural de Paris e Estação de Zoologia
de Sete. Este contacto com grandes centros de investigação zoológica,
como eram, na época, os franceses, .a briu-lhe interessantes perspectivas em taxon omia e anatomia animal, que pôde desenvolver, a partir
de 1891, na Academia Politécnica do Porto.
Desde logo se fez notar a sua acção didáctica com a introdução
de trabalhos práticos na cade ira de Zoologia, como diz na introdução
da sua Zootomia u; «Foram os resultados obtidos nos ensaios de
organisação d'um curso de Anatomia comparada adjunto a cadeira
de Zoologia na Academia Polytechnica do Porto, que me animaram
ao empreendimento d'este trabalho. x, Inspirado pelas ideias evolucionistas, que então se reanimavam em França, Nobre considerava os
estudos anatómicos como essenciais para a avaliação do parentesco
entre as espécies RS : «". não bastando o estudo dos caracteres externos para estabelecer a relacionação e filiação das especies , será ainda
a anatomia comparativa, que, auxiliada pela embryologia, virá, em
face dos elementos faunicos actuaes, reunir factos e estabelecer leis
que farão mais ou menos luz sobre as modificações lentas e suaves
do mundo orgânico.»
Seguiu a mesma linha na sua investigação malacológica, pro·
curando o parentesco através dos caracteres anatómicos u ; «. . _ não
estão ainda exactamente estabelecidas as affinidades zoológicas de
alguns dos grupos dos pulmonados terrestres ... os anatomistas,
porem, teem pouco a pouco mostrado a insufficiencia de tal processo
[o estudo do aparelho dentaria] e provado que, não se deve concluir
a affinidade das especies pela sim.ilhança do apparelho dentaria,
quando tomado isoladamente.» Nobre era de opinião que deve usar-se
a concha, a rádula, maxila e anatomia interna na classificação, mas
que 10G «... o sys tema nervoso [deve. ser tomado] como a base mais
importante da classificação natural, conforme foi,desde ha muito,
considerada ... a partir de Cuvier ... » Por isso, propõe-se provar que a
classificação baseada na concha, maxila e rádula não pode considerar-se definitiva, estudando comparativamente o sistema nervoso de
vários pulmonados. Até ao fim da sua vida manteria a convicção da
importância da anatomia para a classificação, fazendo preceder todos
os seus trabalhos faunísticos de conjunto por introduções à anatomia dos respectivos grupos zoológicos.
32
Carlos Alnwça
Fo i-se desvanecendo, no entanto, com o tempo a inspiração evolucionista da juventude. Tornando-se um taxonomista estrito, acabou
por adoptar uma visão essencialista e tipologista da espécie, visão
que acompanhou do não-dimensionamento característico dos naturalistas-locais 101 ; «Sendo a espécie uma forma convencional, não
vejo vantagens algumas em estabelecer a confusão pela dominação
de caracteres individuais resultantf:5 de influências locais ou de
outros factores» [ o itálico é meu]. Embora a conclusão seja correcta
- Nobre opunha-se à pulverização da espécie seguida pela escola de
Bourguinat-, pois todos os ecofenótipos eram designados por aI·
guns dos malacologlstas do tempo , a atribuição <le convencionalismo a uma categoria real, objectiva e variável é denunciadora do
esquecimento da p lasticidade evolutiva das espécies.
A maior parte da actividade taxonómica de Augusto Nobre foi
consagrada aos Moluscos, quase sempre em associação com os Bra·
quiopódes l <l'2 . Em sucessivas edições e actualizações, Nobre publicou
trabalhos de conjunto sobre os m olu scos marinhos e das águas salobras, terrestres e fluviais de Portugal m , bem como contribuições
sobre as ilhas adjacentes e territórios ultramarinos portugueses. Os
seus trabalhos são tidos em grande apreço por malacologistas conceituados pela minuciosidade das descrições da concha e localização
rigorosa das colheitas l0'.
Colaborou em apreciável número de revistas científicas ou culturais e editou, ele próprio, Almaes de Sciel1cias Naturaes, publicados
de 1894 a 1906 e de que apareceram dez volumes. Para além de avultada colaboração científica que inseriu em Al1l1aes, foi um verdadeiro
animador desta revista, conci tando a colaboração de outros e publicando nela notas faunísticas e de biologia pesqueira, críticas, notícias
necrológicas e outras, etc.
Cedo se interessou, igualmente, pelo estudo da fauna dulciaquícola e problemas de piscicuJtura, publicando trabalhos sobre rios
portugueses IOJ, fauna du1ciaquícola ~()6 e aquicultura e piscicultura.
Em notícia necrológica UT, dá a conhecer que, nos anos de 1860,
Abel da Silva Ribeiro praticara, em Vila Nova de Milfontes, a reprodução artificial de robalo, tainha, dourada e linguado. A e~periên­
cia e interesse manifes tado nes te domínio, levaram-no à direcção da
Estação Aquícola do Rio Ave 108 , criada em 1893, que tem, ao longo
Bosquejo histórico da Zoologia em porlugal
33
deste século, desempenhado um importante papel no -r epovoamento
das águas interiores.
Desde muito cedo, também, se preocupou com a criação de
uma estação marítima, mantendo, inclusi'Vamente, a custas próprias, um pequeno laborat6rio em Leça da Palmeira lCl\l. Mais tarde,
já professor da Univel'sidade do Porto, pôde então criar a Estação
de Zoologia Marítima da Foz, anexa ao Instituto de Zoologia, também por ele fundado, em cujas instalações reaUzou parte significativa
da sua obra sobre fauna marinha. loidada a construção em 1914
foi o seu aquário aberto ao público em 1927. Os estudos realizados
em Sete haviam convencido A. Nobre da grande importância deste
tipo de estações no ensino e investigação em Zoologia, tornando-o,
entre n6s, pOl'ta-voz entusiasta da sua criação no.
Outra das preocupações de Augusto Nobre desde a sua admissão no quadro da Academia Politécnica foi a criação de um museu
de Zoologia que acompanhasse o ensino e servisse de reposit6Tlo
aos trabalhos faunísticos realizados no âmbito da Academia.
POr compra, oferta e colheita de exemplares esse museu foi-se
recheando de colecções, sempre com dificu ldades financeiras e de
espaço como é uso em estabelecimentos análogos. Em sucessivos
catálogos, A. Nobre vai dando notícia do progressivo enriquecimento
do Museu de Zoologia de que foi fundador e director a partir de
1912.
Para além de todas estas actividades e do seu trabalho específico em matéria científica, Augusto Nobre colheu e estudou anatomica mente e taxonomicamente parte significativa da fauna marinha
portuguesa. Em sucessivas edições, sempre acrescentadas em novidades, legou-nos trabalhos de conjunto sobre Celenterados 111, Crustáceos Decápodes e ,E stomatópodes "112, Braqui6podes 113, Equinodermes 114 e Vertebrados marinhos 1.1~ de Portugal. Ainda hoje, estas são
obras de referência fundamentais para o estudo da fauna marinha
portuguesa. Já publicadas as últimas edições da maioria das abras
de conjunto, inseriu em dois aditamentos 1I ~ mais espécies marinhas
e novidades para Portugal 111.
Toda a sua experiência em matéria de ZoO'logia fizeram de
Augusto Nobre interlocu tor privilegiado da Administração. Assim,
desempenhou vários cargos consultivos nos domínios da piscicultura.
pescas e oceanografia. Durante a sua longa vida de professor e inves-
34
Carlos Almaça -
tigador apoiou outros zoólogos, entre os quais se destacam seu filho,
Augusto Ferreira Nobre, autor da única obra de conjunto. sobre
animais ve:nenosos de Portugal lU e José Maria 'Braga, conceituado
taxonomista de Is6podes dulciaquícolas e Foraminíferos.
A ENTOMOLOGIA E ANTERO DE SEABRA
Durante o -s éculo XVI II e grande parte do século XIX pouco há
a referir sobre estudos de entomologia em Portugal, se exceptuarmos
as memórias pioneiras de Manuel Dias Baptista e Domingos VandeJli m . Com efeito, só a partir do último quartel do século XIX
começaram a surgir com regularidade publicações entomológicas da
autoria de investigadores portugueses. Manuel Paulino de Oliveira
(1837-1899), professor da Universidade de Coimbra, inaugurou, por
assim dizer, a entomologia em .Portugal com o estudo das colecções
que Welwitsch fizera em Angola 110. Depois disso, publicou importantes mem6rias sobre Cole6pteros H1 e Heterópteros l?2 de Portugal.
Após Paulino de Oliveira outros entomo1ogistas houve, alguns
amadores de bom nível. Mas, é sem dúvida a Antero de Seabra
(Fig. 11) que se deve a síntese dos conhecimentos sobre a entomofauna e corporização da taxonomia entomol6gica e aplicações no
nosso país. Descoberto e acarinhado por Barbosa du Bocage, Antero
de Seabra entrou ao serviço do \Museu Nacional de Lisboa em 1887,
com apenas 13 anos. Aí ocupou, sucessivamente, os cargos de preparador auxiliar, naturalista coadjuvante e conservador e, mais tarde,
naturalista (até 1922) do já então Museu Bocage. Entre 1892 e 1897
estudou em França, seguindo um percurso muito idêntico ao de
Augusto Nobre e aí concluindo um bacherelato em Ciências Naturais.
Coube·lhe uma tese, que nunca concluiu, sobre o corpo vermelho
dos TeI6st€:os. Publicou, no entanto, alguns dos seus resultados acerca
da estrutura histológica daquele órgão em diversos peixes - congro,
enguia, badejo, ruivo, lúcio, bica. e agulha-, concluindo que deve
considerar-se como essencialmente constitufdo pelo exagerado desenvolvimento de certas partes do sistema vascular da membrana .interna
da bexiga natatória m,
No Museu de Li'Sboa foi encarregado de estudar mamíferos, em
particular quirópteros, assunto sobre o qual publicou vários traba-
Fig. ll- Antero Frederico de Seabra (1874.1952)
Bosquejo histórico da Zoologia em Portugal
35
lhos, sendo inclusivamente, autor de diversás espécies como, por
exemplo, Plerotes auchietai Seabra, 1900, Pipistrelll/s al1chietai Seabra, 1900 e Epiesicus flavescel1.s Seabra, 1900, todas de Angola.
Embora cedo tenha interrompido a continuidade desta linha de trabalho, foi autor de publicações mamalógicas até 1924. Efectuou , em
especial, a actualização taxonómica e nomenclatural das espécies
portuguesas suger<ida pelas obras de Miller l : i e Cabrera lU .
Dedicou-se ainda a estudos de ictiologia e vertebrados em geral,
produzindo publicações sobre estes temas. Os variados interesses
cientIficos de Antero de Seabra permitiram-lhe que ocupasse cumulativamente, em fases diversas da sua vida, cargos técnicos ou docentes . Em todos deixou obra apreciável. Assim, entre 1912 e 1917, foi
assistente de Zoologia na Faculdade de Ciências da Universidade de
Lisboa e, de 1918 a 1920, no Instituto Superior de Agronomia. Aqui,
dedicou-se a piscicultura, organizando os respectivos trabalhos práticos. Entre 1909 e 19 14 dirigiu o Aquário Vasco da Gama, efectuando
trabalhos ~~xperimentais sobre reprodução de peixes, de que publicou
os resultados.
A partir de 1916 a sua dedicação à Entomologia foi, porém, quase
exclusiva, com significativa ênfase nas aplicações à agricultura e
florestas. Oe 1906 a 1922 .dirigiu a Secção Entomológica do Laboratório de Patologia Vegetal de Lisboa e, a partir de 1915, também a
Secção Entomológica do Laboratório de Biologia Florestal. Nestes
serviços organizou laboratórios, colecções e bibliotecas especializadas. Estud.ou detidamente as pragas do cacaueiro e da oliveira, para
além de outros insectos parasitas de espécies vegetais.
A par disso dedicou-se à taxonomia entomológica geral e particularmente aos H eterópteros, de que foi um conceituado especialista.
Parte importante da sua obra entomológica foi realizada no Museu
de Coimbra, para onde transitou como naturalista em .1922. Sintetizou conhecimentos dispersos sobre a entomofauna portuguesa, adicionando m uitas novidades a essa fauna m . Teve, igualmente, papel
essencial na organização das colecções entomológicas do Museu Zoológico da Universidade de Coimbra e na edição das publicações deste
Museu. A sua presença em Coimbra parece ter sido, além do mais,
importante no despontar de vocações para a Entomologia, pois atê
hoje não CI~SSOU a formação de entomologistas no Museu Zoológico 121.
36
Carlos Almaça
AGRADECIMENTOS
Várias pessoas forneceram elementos bibliográficos ou iconográficos importantes para a realização deste trabalho. Desejo, por isso,
manifestar o meu reconhecimento pela disponibili dade e empenha-
mento com que satisfizeram os meus pedidos aos Professores F.
Ferrand d'Almeida (Universidade de Coimbra) e Jorge Costa Eiras
(Universidade do Porto), Dr. Fernando de Avila Pires (Fundação
Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro) e D. Maria José Braga (Porto). Ao
Senhor José Fernando Pereira, encarregado do arquivo histórico do
Museu Bocage, devo permanente atenção e eficiência na procura de
documentos pertinentes a esta publicação.
RESUMO
Este trabalho pretende dar uma visão globalizanre e sintética da história
da Zoologia descritiva em Portugal até meados do século XX. Por isso, se
referem apenas as fases e personalidades consideradas fundamentais para o
desenvolvim,:;:nto da Zoologia entre nós.
A Zoologia em Portugal é tão antiga como a nacionalidade portuguesa.
Começando com a visão utilitária que lhe foi imprimida pelo Cristianismo,
assumiu, inicialmente, certo relevo em obras de cinegética e na protecção legislativa dos amimais de caça e pesca. Os Descobrimentos acentuaram esse pendor utilitári'J da Zoologia, sendo as qualidades dietéticas ou outras, ou, pelo
contrário, a nocividade ou perigosidade dos animais que maior curiosidade
despertaram nos missionários e humanistas que primeiro contactaram com as
faunas tropicais. Entre estes, é de particular relevo a obra realizada por Frei
Cristóvão de Lisboa, obra pioneira no conhecimento da fauna tropical.
Estudos científicos modernos sobre Zoologia apenas se iniciaram cm
Portugal nos fins do século XVIII com a Reforma da Universidade c criação
do Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda. Foi a época das primeiras explorações das colónias portuguesas realizadas por naturalistas profissionais e,
nessas explorações, assumiu especial relevo Alexandre Rodrigues Ferreira,
que cstudou a Amazónia durante cerca de nove anos. Infelizmente, o trabalho
realizado po.r A. R. Ferreira, bem -como a publicação dos resultados científicos
da sua expedição, foram comprometidos pelo saque de Geoffroy Saint-Hilairc,
que desviou para o Muséum de Paris tudo o que de original existia no Real
Museu.
A transferência das colecções restantes do Real Museu para o Museu da
Academia das Ciências não parece ter tldo apenas o significado negativo que
se tem prett:ndido. Na Academia das Ciências propiciou·se o ensino da Zoologia e Anatomia comparada em Lisboa, receberam-se colecções, permutaram·se
38
Carlos Almaça
com oulras instituições, redigiram·se catâlogos, etc. Não houve, é certo, investigação zoológica nesse período.
A investigaç50 só começou com Barbosa du Bocage no Museu Nacional
de Lisboa, na Escola Politécnica. Incansãvel museógrafo e investigador, Barbosa
du Bocage instituiu o estudo zoológico da fauna africana, particularmente
angolana, de vertebr ados, sendo ainda relevante a sua acção no conhecimento
dos vertebrados e espongiârios de Portugal. Apoiou numerosos discípulos, que,
por seu lado, inici,uam outros linhas de investigação em Zoologia.
Na Academia Politécnica do Porto, Augusto Nobre deixou obra de mérito
nos domlnios da Malacologia e fauna marinha de Portugal. Deve·se·lhe a
criação do Museu de Zoologia do Porto e da Estação de Zoologia marítima da
Foz. Dirigiu, também, a Estação AquícoJa do Rio Ave, responsável em Portugal
por muitos trabalhos de piscicultura e repovoamento.
A entomologia só foi, verdadeiramente, corporizada nos seus aspectos
básicos c aplicados por Antero de Seabra, discipulo de Barbosa du Bocage,
naturalista do Museu Bocage e, depois, do Museu Zoológico da Universidade
de Coimbra. As suas realizações neste domínio permitiram. de facto, sintetizar
c reunir conhecimentos entomológicos dispersos e constitui ram ponto de partida para toda a investigação entomológica subsequente cm Portugal.
I
,
SUMMARY
The main facts and individualities connected witb the differcntiation and
devclopment of descriptive zoo!ogy in Portugal are rcfcrrcd to.
Since the beginning of the Portuguese nationality zoology bas beco present
under lhe utilitarian view impressed by the Ch ristian thought. Manuscripts on
game animais and falconry have beeo written from lhe 14th century 00 and
conservationist laws on game and inland fisheries have been proc1aimed from
lhe 12th cen1ury onwards. Discoveries led to ao increasing of lhat utilitarian
propension. Dietetic qualities of tropical animais described by lhe colonisers
ar, 00 lhe con trary, the hannfullness or dangerous behaviour of these animais
were emphasiscd by missionaries and humanists, travelling in the ne\yly
discovered countries. SeveraJ manuscripts and books on tropical animais have
been written. The most famous is Frei Cristovão de Lisboa's manuscript
(1627), printed ín 1967, which includes many drawings of Brasílian animais
and trees.
Modem scien tific sludies started only in late 18th century. l n 1772, the
University was refonned and lhe Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda was
created . Expedit ions to Porluguese colonies directed by lhe firsl professional
naturalis ts sta,rted ln 1783. The most famous one was the e.'l:pedition to Amazonia leaded by Alexandre Rodrigues Ferreira. During nearly nine years Ferreira travelled through the Amazonas basin, observing, collccting, and writing
memories on Amazonian zoology, anlhropoJogy, botany, geoJogy, geography,
hislDry, etc. Collections assembleCl by Ferreira and his team carne lO lhe Real
Museu. Unforlunately, he had no opportunity to publish his results in the
years following I'he expedition. He started in 1804 to prepare his great work
on Amazonian Natural history, but, in 1808, durin g a napoleonic invasion,
Geoffroy Saint-Hillaire from lhe Museum of Paris plundered the Amazonian
collections.
ln 1836, lhe remnant collections were removed from lhe Real Museu to
lhe Museum of the Academy of Sciences. Here, lhe collections supporled the
40
Carlos Almaça
teaching Df Compara tive anatomy and Zoology. The Museum of lhe Academy
gOI othcr collections, mainly from Goa, Portugucsc Guinea, Mozambiqu e, and
Cape Vert Islands. Exchange of collections with similar institu tions and
preparatian Df catalogues were accompli"shed. BUI, no research has beco done.
Zoological research, indeed, started ooly by lhe middle af lhe 19th century
protagonised by Barbosa cl.u Bocage. Director af the National Museum af
Lisbon, in lhe Polytechnic School, he obtained lhe removing of lhe collections
af the Academy af Sciences. Barbosa <lu Bocage interested many collectors
in lhe success af the Museum of Lisbon anel st>arted an outstanding career of
taxonomist, studying vertebrates and sponges from Portugal and Iheo Mammais, Birds, Rcptiles, and Amphibians forom Portuguese eolonies, mainly f·rom
Angola. Bal~bosa du Bocage described nearly two hundred nominal species.
Augusto Nobre, .foundeI" of lhe Museum of Porto, has been a well known
mal<lcologist, He <lIso studied the Portuguese marine fauna in general and
specially Coelentera tes, Decapod and Stomatopod Crustacea, Brnchiopods,
EchinodClrms, and Fishes.
Antero de Seabra, a disciple o f Ba rbosa du Bocage, accomplished a
remarkable entomological career in the Museums of Lisbon and Coimbra.
NOTAS
S
~
Outras publicações abordando a história da Zoologia portuguesa cm
geral são: 1. Vilhena Barbosa, ApontamentQS para a Ilis.tÓria das colecções
e dos estudos de Zoologia em Portugal. Sociedade do J ardim Zoológico
c de acclimação em PortugaL Lisboa, 1885; V. Ribeiro, Breve l10tfcia
âcerca dos estudos zoológicos em Portugal. Empreza da História de Portugal, Lisboa, 1904; A. Pires de Lima, Por/ugal. A Borti/fica e a Zoologia .
E;o;posição Portuguesa em Sevilha, 1929: G. F. Sacarrão, As Origens dos
cstudos zoológicos portugueses. Nawralia, 4 (1): 34-51. (2) : 78-99, Lisboa,
1953; A. M. Matcus. Un ahrégé de l'histoire de la Zoologic au Portugal.
Trav. Mus, Hist. nal. «Grigore Alltipa», 22: 627-636. Para uma compreensão
do desenvolvimento da Zoologia portuguesa integrado nas sucessivas fases
da Sistemática, ver C. Mmaça, Museus de Zoologia e estratégia da investigação zoológica. l n: Acta Colóquio APOM 75, Museus para quê?, pp. 61-72;
id., Museus de ZOOlogia e investigação científica Cadernos de Museologia,
2, APOM, Lisboa, 1985.
O manuscrito de Pêro Menino é reproduzido por Rodrigues Lapa, Livro de Falcoaria de Pêro Menino. l mprensa da Universidade, Coimbra, 1931. Ver J. G. Cummins, Libl"O de caço. de las alies, de Pero Lopez d'e Aya1a. Tamesis Books, London, 1986. Esta obra foi reeditada por Biblioteca de Clâssicos Portugueses, Lisboa, 1899. Ver C. Almaça, Ce traria e Zoologia. ln: A Fauna, fase. 91 a 93. Publicações Alfa, Lisboa, 1972. O manuscrito de D. J oão I é reproduzido por F. M. E. Pereira, Livro da Montaria feito por D. João I , rei de Portugal. Imprensa cra Universidade, Coimbra, 1918. Ver, entre outros, A. Gaivão, Tratado que compôs o /lObre e no/aliei capitão A/ltonio Galllão, dos dillersos e desvairados caminhos ... Ioan da Barreira, Lisboa, 1563; uma edição actual desta obra, a 4.', Tratado dos Descobri·
42
Carlos Almaça
•
•
"
"
"
"
"
"
mel'ltos, Livraria Civilização, Porlo, 1987; J. de Anchie la, Ao Pad re Geral,
de São Vicen te, ao último de Maio de 1560. I/!: Cartas Jesuiticas IIl,
pp. 103·J24. Civ ilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1933; id., In formação
da provinda d'o Brasil para o nosso Padre. Ibid., pp. 409-447; Pêro de
Magalhães de Gândavo, HiSfória da Província de Santa Cruz, a que vul·
ga rmente chamamos Brasil (1576). Rev. Insl. Hist. Geogr. Bmsile.iro, 21:
329-388, 1858.
Reeditado pOr .Biblioteca de Clássicos Portugueses, Lisboa , 189 1.
História dos Al1im aes e Arvores do Maranllão. Arquivo H istórico Ultra .
marina, IlCT, Lisboa, 1967. Para alêm dos comentários d'e J. Walter,
inseridos nesta publicação, o manuscrito de Frei Cr istóvão foi comentado
por F. Frade, Comentário zoológico relativo a História dos Animais c
Arvores do Maranhão (1625·1631), de Frei Cristóvão de Lisboa. I. Mamí·
feros. Garcia de Ol'la, 14 (3): 343·350, 1966; id" id., li. Aves. Ibid. Serie
Zoológica, 11 (1-2): 5-20, 1983·84. Ver ainda C. Almaça, Os portugueses do
Brasil e a Zoologia pré-lincana, em publicação.
Acerca dos portugueses dos sécu los XVI e XVII no Brasil, ver C. IFrança,
Os portugueses do século XVI e a fauna brasnica. Mem . Es1. Mus. Zool.
Univ. Coimbra, Serie I, 9: 7·33, 1926; id., Os portugueses do sécul.o XVI
e a Histór,ia Natural do B rasil. R ev. Hist., 15: 35-166, 1926; C. A.lmaça,
Os portugueses e o conhecimento das faunas exóticas. Decanos, 6: 52·63,
1991 ; id., The begirming of lhe Portugtlese mamma/ogy. Museu Nacional
de História Natural, Museu Bocage, Lisboa, 1991; id., Os portugue~ses do
Brasil e a Zoologia pré·lin eana, em publicação.
Sobre a Univcrsidade portuguesa, ver J. Silvestre Ribeiro, História dos
estabelecimentos scietllíficos, lit tcmrios e artísticos de Porulga/ /'lOS Stl cessivos rei nados da monarchia, Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1872;
Theophi lo Braga, História da Un iversidade de Coimbra nas suas rdações
com a instru.cção pública portu.guesa. Ibid" 1902; J . de Carvalho, Institui_
ções de Cultura. 111: História de Portugal, 2: 599·615, 1929, 4: 24 1-277, 1932 ;
J. Veríssimo Serrão, História das UIt1vers idades, Lello & Innão, ParlO, 1983.
VCJ' Teophilo Braga, Hist ôrla da Universidade de Coimbra, 1902.
Ver A. Balbi, Essai starislique sur le Royawl1c de Portugal el d'Algarve,
comparé aux atares états de I'Europe. Rey et Gravier, Paris, 1822.
D. Vandelli, Dicciotla rlo, 1788, p. IV.
Id., ibid ., p. II.
F. A. Ribeiro de Paiva, Jn lroductiones Zoologicae, Typis Acadcmicis, Coimbra, 1794. Este livro consta de duas parles em que se apresentam sistemas
de classificação um pouco diferentes. Na primeira, com 206 págimls, são
In.ltadas as seis classes do sis tema de üneu. Na segu nda, Tabu/ae Zoo/oglcae Systemlllictle, com 98 p áginas consideram-se Oilo classes, por
desdobramcnto dos Mamíferos em Quadlúpedes vivíparos e Cetáceos,
e dos Répteis cm Quadrúpedes ovíparos e Serpentes. Também a c.1assificação dos Vermes é ampliada, pois os Equinodermes, por exemplo, jâ
são refcridos como ordem independente dos Moluscos.
Bosquejo histórico da Zoologia em Poriugal
g 18
IV
20 43
O título completo desta obra é Helmil'llf101ogia porlUgueza, e,.n que se
descrevem aIgwIs géneros das duas primeiras ordens, hlfeslinaes, e Mo!LI$COS da C/asse sexla do Reino AlIimal, Vermes, e se exemplificô'o com
varias amostras de SI/as espécies, segwldo o syslema do cllva/heiro Carlos
Linlle. Foi impressa em Li sboa, na officina de João Procopio Correa da
Silva. Em palavras dirigidas ao Príncipe Regente, que iniciam a Helmilllhologia., Frei J osé Mariano promete continuar a publicação das ordens
de Vermes - Testáceos, Zoófitos e l nfusórios - , não contempladas nesta
tradução e seguindo outros autores (sexta página, não numerada). Ignoro
se, de facto, houve outras publicações nesta linha.
Conceição Veltoso nasceu na capi tania de Minas Ge rais e morreu no Rio
de Janeiro. Frade franciscano, dedicou-se à História natural do Brasil,
sendo au tor de várias publicações sobre este assunto. Foi sócio da Academia das Ciências de Lisboa e director da Tipografia do Arco do Cego,
criada cm 1800.
Obra em dois volumes impressa e publicada em Londres.
O título completo é Elemen tos da H istoria Nalum! dos Al'limaes, seguidos
de t1111 Vocabulario Fr{!11coLt.silal1o, segundo a l1omel1c!all/ra do Doutor
Brotem. Foi impresso na lmprensa da Universidade, Coimbra . Na Introdução (pp . 3--6) é apresentada uma breve história da H istória natural e
~\
~2
~:
~4 do seu ensino na Universidade de Coimbra. Na classificação dos animais
citam-se os sistemas de Lineu e de Cuvier. Uma particularidade interessante deste livro é a de considerar duas espécies humanas actuais,
não denominadas, e que se distinguiriam pela cor da pele, cabelos c
ângulo facial (8S' na primeir a e 75-80' na scgunda)_ A primeira espécie
incluiria as raças branca, amarela, cor de cobre e escura carregada. A segunda, as raças negra e anegrada. Há nisto um claro retrocesso em
relação a Lineu, para quem todas as raças humanas actuais se incluiam
numa única espécie.
Este manu scrito foi anotado e publicado por Celestino Maia, Diário filosófico da viagem ao Gerês, Livraria Figueirinhas, Porto, 1949.
Publicada cm Memórias ecol1ómica5 da Academia Real das Sciencias de
Lisboa, 1: 254·298. Amphisbael!a CÍllcretl é, aqui, um 110ll!e1t III/dum, s6
tomando, de acordo com as disposições do Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, autor e data a partir do momento em que foi
publicada a sua descrição original. A parte zoológica de Ensaio foi comentada por F. Frade, Anotações a «Faunae Conimbricensis Rudimentum.
de Manuel Dias Baptista (séc. XV I Ir) . Bulf. Soc. ParI. Sc. Na! ., 12 (29):
251-258, 1937.
Publicado em M emórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1:
37-79.
Emanuc1 Mendes d a Costa, como o nome sugere e Cuvier confirmou
[«Acosta, ou plutõt Mendez da Cos ta (Emanuel), naturaliste portugais,
etabli a Londres .. , G. Cuvier, Regne Animal, vol. 4. p. 96, 1817) era português e não britânico como refere N. C. Gillespie, Preparing for Darwin:
Carlos Almaç(L
"
"
.""
"
Conchology and Natui'"al Theology in Anglo-American Natural History.
Studies in History of Bi%gy, 7; 93.145, 1984 [ .. According to British concllologist Emanuel Mendes da Cos ta, shell collecling was particularly liable
to excite public contempt», p. 97]. Mendes da Costa foi autor de obras
como Elements o{ Conchology, 1776; H istoria Natura/is Testaaerum BriUlI1niae; ou Tlle British CO'lchology, 1778, de acordo com Gillespie (1984).
Publicado em Memórias da Academia das Scie ncias de Lisboa, 48 pp.
Ver, entre outros, J. Vilhena Barbosa, Apontamentos, 1885; J. Bcthencourt
Ferreira. O Museu de História Natural de Lisboa . Rev. Educ. Ens. , VII
Ano, 1892; ibid., VIU Ano, 1893; W. J. Simon, Scielltifl.·c expeditim15 in lhe
Por/uguese overseas terrilories (1783·1808). Centro de Estudos de Carta·
grafia Antiga. UCT, Lisboa. 1983.
Ver J. Silvestre Ribeiro, História dos estabelecimentos scientificos, l872.
Um estudo excelente sobre o Real Museu da Ajuda, seus naturalistas e
",expedições filosóficas» é o de W. J. Simon, Scientific expeditions, 1983 .
Este manuscrito fez parte do espólio da A. R. Ferreira que foi entregue,
em 1842, ao min istro do Brasil em Lisboa. Está hoje integr ado na Biblioteca do Museu Nacional. Rio de Janeiro (doe. n. VI, 21, 2, 2) .
Na sistemática de Lineu, segu ida ,por A. R. Ferreira, os Moluscos c os Tes·
táccos consütuiam ordens da classe dos Vermes.
É muito elucidativo do pensamento de A, R. Ferreira sobre a conchiologia o parágrafo 8 de Abuzo da Cot'lcllyologia, 1781: "Penso que a não haver
outro fundo de Sciencia, bem pouco importa a Academia, que a certa con·
cha pela sua figura , chame o Sistema o Martello. cabo de navalha a outra,
e assim por d iante o Papel de Solfa, os punhos de NeptLmo, a orelha do
mar. A Medicina, a Agricultura, a Economia, o Commercio, e as Artes,
perdem com damno incrivel o tempo li. se consome em folhearem·se estes
baptis terios.,.
Manuscrito do arquivo histórico do -Museu Bocage. Impressa na Regia Officina Typograiica. Lisboa. Segundo W. J. Simon, Scient ific expeditim1s, 1983, p. 15 . Há uma bibliografia copiosa scbre Alexandre ROd r igues Ferreira e a sua expedição. W. J . Simon, ScielHifi c expedi/lons, 1983, dã conta dessa bibliografia e relata pormenorizadamente a vida e a obra do grande natura lista.
Algumas ,p ublicações recentes sob re Fer·r eira e a expedição ao B rasil são,
por exemplo, as de C. Almaça, Alexandre Rodrigues Ferrei ra e a explora·
ção histórico-natural do Brasil. Oceanos, 9: 54·57, 1992; id., A expedição
filosófica d e Alexandre Rodr igues Ferreira no contexto histÓric.o-natural
da sua época, Academia de Marinha, em publicação; A. Domingues, As
remessas das expedições científicas no norte bras ileiro na segunda metade
do século XVIII. ln: Nas vésperas do mundo moderno. Brasil, pp.87-93.
CNCDP. Lisboa, 1992.
Ver, entre outros, W. J. Simon, Scient ific expeditions, 1983 ; C. Almaça, The
begilllling of Portuguese mammalogy, 1991; id., Alexandre Rodrigues Fer·
reira e a e>.-plo ração his tórico-natural do Brasil, 1992.
Bosquejo histórico da Zoologia em Portugal
.
.
45
Ver C. Almaça, A eltpedição lfilosófica de Alexandre Rodrigues Fcrreira,
em publicação.
Segundo .. Catalogo dos Manuscriptos do Dr.Alexandre Rodrigues Ferreira
pertencentes a sua viagem do Pará, Rio Negro. Mato Grosso, e Cuyabá;
os quaes farão entregues pela Viuva do dito Dr.Alexandre, D.Germana
Pe reira de Queiroz Ferreira, em 5 de Julho de 181S .. (Arquivo histórico do
Museu Bocage, ARF-23). Os manuscritos referidos no texto foram entregues, em 1842, ao m inistro do Brasil cm Lisboa.
No arquivo histórico do Museu Bocage conserva-se muita correspondência
enviada pelos naturalistas do Real Museu da Ajuda quando das suas expedições ao Ultramar português.
Só uma pequena parte destas aguarelas -foi, até hoje, estudada e publicada. Ver G. Almaça, WalercoloJ/l"s of Atlamic /is'les of Joaquim jose
da Silva's expediliol1 lo Angola (1783·1808). Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, 1990; id., The begirmil1E of Por/lIEl/eSC mamlllalog)', 1991.
Sempre ficou envolto em mistério o frncasso de A. R. Ferreira cm completar a sua obra científica, depoiS do grande esforço que, obviamente,
significou a exploração da Amazónia. Compreende·se mal, de facto, como
um homem de tanta energia e resistência, desanimou e <:doeceu, p reci samente, ao findar a mais ingrata e dificil tarefa da sua vida, mantendo-se
cientificamente inaclÍvo durante mais de vinte anos. Por isso, se aventaram muitas hipóteses, quase todas xenófobas, que, naturalmeote, temos
hoje muita dificuldade em verificar. Sou de opinião. mais uma vez, que
W. J. Simon, Scienli/ic expeditions, 1983, apresenta uma visão cuidada e muito equilibrado do problema. Também não tenho dúvidas de que. sem colecções, são impossíveis os estudos histórico-naturais, pelO que, sou igualmente de opinião que o saque de Etionne Gcoffroy Saint-Hilaire, cm 1808, foi fatal para a consumação do t rabalho sobre História natural do Pará de que A. R. Ferreira estava encarregado, ·peJo menos desde 1804 (ver C. Almaça, A expedição fi losófica de Alexandre Rodrigues Ferreira, em publicação). Que o Museu de Paris procurou compensar o Museu de Lisboa cm mea- dos do século XIX é um facto histórico, que não poderá ser escamoteado. Mas, também o é a responsabilidade imediata de EticlUlc Geoffroy pelo atraso da Zoologia portuguesa. Fazendo O que fez Barbosa du Bocage com o pouco que tinha ao seu alcance, imagine-se o que teria feito com as colecções saqueadas por Etienne Geoffroy. A doce e filial narrativa de Isidore Geofroy Saint,Hilaire sobre a acção desprezível ·de um cientista com a. craveira intelectual de seu pai, Etienne Geoffroy [ver L G. Saint-Hilaire, Vie, lravaux el doctrille scieflfi- fique d'Elielllle Geoffroy Saitlf-Hilaire. P. Bertrand, Paris, 1847; v. em particular o capítulo VI, Voyage en Espagne et en Por tugal, pp. 169-189) só convence qucm quiser ser convencido. Com efeito, nenhum naturalista experiente deixará, pelo menos, de sotTir quando lê que o saque de cen- tenas de exemplares, muitos dos quais pertencentes a espécies ainda não 46
Carios Almaça
descritas. foi a compensação pelo trabalho de ordenação de parle das
colecções do Real Museu e cedência de amostras de minerais já bem
conhecidos, que Eticnne Gcoffroy teria trazido de Paris. Nesta linha se
publicou recentemente uma obra, de resto muito bem documentada (ver
J. DagcI el L. Saldanha, Histoires naturclles franco-portugaiscs dl! XIX siccle. Publicações Avulsas lNlP, IS, 1989]. 4~
No arquivo histórico do Museu Bocage há variada correspondência rela· danada com o Real Museu e Ja rdim Botânico da Ajuda enviada, a partir de 1811, a Félix de Avclar Brotero por diversas entidades oficiais. Ver eN/C. 109 c 110, eN/M. 65 a 70, eNIO. 50 e 51. U
Breves instrLlcções, 1781 , p. 40. .. Id., 1781, p . 45 . • ~ J. Silvestre Ri beiro, História dos estabelecimentos scietltíficos, 1872.
·u Id., ibid., 1872.
" õ
Museu Bocage, Div. 23.
• s 1. G. Saint-Hila ire, Vie, tmvaux et doclrille scienlifiqlle, 1847.
Museu Bocage, Di". 23 .
d., Div. 22.
" lId.,
ibid.
Id., ibid.
Designadamente urna relação de exemplares, modelos ana tómicos, uten·
sílios, etc., com auto de entrega a Francisco de Assis de Carvalho e anatada com a letra de Barbosa du Bocage (Museu Bocage, Rem. 446).
Museu Bocage, Div. 39 e 40.
Museu Bocage, Rem. 437, ~Catalogos rns. das collecções de Vertebrados do Museu da Academia das Scieneias de Lx.» "" ,Museu Bocage, Div. 23. ~1
I d., ibid., p. 28.
~&
Id ., Rem. 82, Div. 23, p. 38.
~9
Id., Rem. 390 e 445 .
Id., Rem. 391, 391a, 392a .
Id., Rem. 444.
Id., Rem. 291. Id .. Div. 53. G. F. Sacarrão, As origens dos estudos zoológicos ponugueses, 1953.
Decreto de D. Maria II , de II de J aneiro de 1837.
Programmas das cadeiras da Escola Polytech~lica. Armo lectivo de 1864-1865,
Imprensa Nacional, Lisboa, 1864.
Ver G. F. Sacarrao, As origens dos estudos ZOOlógicos portugueses, 1953.
Consulta da Escola de 12 de Novembro de 1838 .
Carta de lei de D. Ped ro V, de 9 de Ma.-ço de 1858.
Decreto
de 13 d e J anciro de 1862 .
"
do Minis tério do Reino de 6 de J ulho de J842.
Portaria
"
.
.
"'
..
..".
Bosquejo histórico da Zoologia em Porttlgal
"
"
"
47
J. V. Barbosa du Bocage, I nstrucções praticas sobre o modo de cOl/jgir ,
preparar e remelter produc/os zoologicos para o Museu de Lisboa. 1m·
prensa Nacional, Lisboa, 1862.
Ver Programmas, 1864.
Ver J. V. Barbosa du Bocage, hls/rIlcções praticas, 1862. Nas páginas 70-71
desta pUblicação Bocage dá conta das colecções que obteve, por compen·
sação, no Muséum de Pa ris.
Ver A. A. Banha de Andrade, O Ilaturalista Jose de Alzchieta. U GT, Lisboa,
1985.
No arquivo histórico do Museu Bocage conscrva·se vultuosa correspon·
dência enviada a Barbosa du Boca ge pelos colectores e correspondentes.
Existem, no arquivo histórico do Museu Bocage, numerosos documentos
comprovando as compras de colecçóes zoológicas efectuadas por D. Pe·
dro V para o Museu Real. Ver, também. C. Almaça, As colecçôes de conchas
em gabinetes e museus ode História natural portugueses. Açoreana, 1989, 7
(1): 17·24.
J. V. BarbOsa du Bocage, Relatario âcerca da situação e necessidade da
Secção zoologica do M useu de Lisboa. Imprensa Nacional, Lisboa, 1865.
Museu Nacional de Lisboa, Catalogo das collecções omi /hologicas. Psifaci.
Accipitres. Imprensa Nacional. Lisboa, 1869.
Decreto dc 10 de Abri.1 d e 19{)5.
"
"
Decreto 5689, de 10 de Maio de 1919.
Trata·se da primeira publicação cientirica de Barbosa du Bocage: Noticia
sobre uma colecção de conchas das ilhas da Madeira e Porto·Santo, offe·
reddas ao Museu de Lisboa pelo sr. J oão d'Andrade Corvo . .4Jm.Sc.Letl.,
1: 204·211, 1857.
Para um conhecimento bastante completo da obra cientifica de Barbosa
du Bocage ver Publicações scientificas de J. V. Barbosa du Bocage. Aca·
demia Real das Sciencias, Lisboa, 1901.
J. V. Barbosa du Bocage, Memoria sobre uma especie nova do género
Capra. A cabra-montez da Serra do Gerez, em Portugal. M em. Acad. Sc.
Lisboa, 2 (1), n.O 4: 3·19, 1857. Ver também C. Almaça, Notes on Capra
pyrenaica lusitmzica Schlegel, 1872. M ammalia, 56: 121-124, 1992.
J. V. Barboza d'u Bocage, Liste des mammife res et Reptiles observés en
Portugal. Rev. M ag. Zool., 1863, pp. 329·333.
Id., Noticia ácerca dos arvicolas de Portugal. Me/J1. Acad. Sc. L isboa, 3 (2),
n." 5, 11 pp., 1865.
J. V. Barboza du Bocage, Note sur la découverte d'ull zoophyte de la
f"amiIle HyalochaeUdes sur la côte du Portugal. Proc. Zool. Soco LOlldOJ1,
1864, pp. 265·269; id., Noticia ácerca da descoberta nas cosias de Portugal
d'um zoophyto da familia Hyalochaetides Brandt (Hyalollema lusirallica,
nob.). M ern. Acad. Sc. Lisboa, 3 (2), n." 6, 8 pp., 1865. Sobre a polémica
com Ehrenberg, ver L. Saldanha, The Forbes' azoic theory and the Por·
48
8.~
M
"
'2
..
..
,.,
,
..
Carlos A/maça
tuguese zoologists of the 19th century. IIt: Ocean Sciences. Their history
and relations to mano W. Lenz & M. Deacon eds., pp. 166-173, 1987.
J. V. Barbosa du Bocage. Omithologie d'Al/gola, MMC, Lisboa, 1877-1881.
l d., Herpétologie d'Angola et ruI C OligO, MMC, Lis.boa, 1895.
Balthazar Osorio, Elogio llistorico do illustre naturalista e professor J. V.
Barbosa du Bocage. Mem. Mus . Boc., 1: I-XLlJ , 1909.
J. V. Barbosa du Bocage, Notícia áoerca dos car<lctéres e affinidades
naturaes de um novo género de Mamíferos I nsectívoros da Africa Oceidental Bayonia velox (PolallwgaJe velox, du Challloll). Alem. Acad. Se.
Lisboa, 4: 1-1 9,1867. Embora Ba}'onü, seja sinónimo jUnior de Potamogale,
foi Bocage que demonstrou tratar-se de um insectívoro e não carnfvoro
Ou roedor como tinha, até então, sido considerado.
Ver L. Agassiz, De l'espêce et de la classificatiml, G. Bailliere, Paris, 1869.
Trata--se de uma tradução, ampliada e revista pelo p róprio autor, da
Introdução de Contribufions to IlIe natural hislory Df the Ul1ifed States,
publicada cm 18S7.
Vcr J . V. Barbosa du Bocage, Notícia ácerca dos car-actéres, 1867. 'p p. 3 e 4.
Id., ibid., p . 14 .
Id., ibid., p. 16.
Para o conhecimento da obra de Barbosa du Bocage ver, também, c.
França, Le professeu r Barbosa du Bocage (1823-1907). Eloge historiqlle
pl'Ononcé â la séance solennelle du 2 mai 1908. Bu/l. Soe. Por/ o Se. Nat .,
2: 144·194, 1908; G. F. Sacarri'io, A obra do Dr. Barbola du Bocage c a
Zoologia em Lisboa anteriormente à fund'ação -da Sociedade Portuguesa
de Ciências Naturais. Bolm Soe. Porto Cién. Nat., 12: 1-16, 1968.
A. Nobre, Estudos de. Zootomia , Tip, Occídental, .Porlo, 1892, p , 8.
Id., ibid., p. 8.
Id ., Observações sobre o systema nervoso e affinidades zoologicas de
alguns -p ulmonados terrestrcs. Aml. Sc. Nat. , 1: 17-20, 75-78, 197-20. , 1894.
V, pp. 17-18.
Id., ibid., p. 19.
ld .. Fauna malaco16gica de Portugal. II. Moluscos terrest'res e fluviais .
Mem. Est, Mus. Zool. Ulliv. Coimbra, 124, 1941, p. 7.
Durante quase todo o século XIX c na sequência da classificação preposta por Cuvier em Le Regne Animal dist "ibué d'aprês sorz orgallisatio,z,
pour servir de base a I'HistQire nalll relle des animaux et d'introductiol'l
d l'Ana/onue comparée, 4 volumes, Deterville, Paris, t8P, os B raquiõpodes
foram consid'erados como uma classe dos Moluscos. Ver L. H. Hyman,
The lnvertebrates: Pro(ol,oa through Crenopllora. McGraw·Hill, New York.
1940, capítulo II; C. Almaça. As classificações too16gicas. Aspectos históricos. Museu Nacional de História Natural, Lisboa, .1 99 1.
As edições .mais recentes da Fauna malacol6gica de Portugal são: A.
Nobre, Moluscos marinhos e das dgLlas salobras de Portugal. Campo Ed.
Minho, Barcelos, 1940; id., Moluscos terrestres e fluviais, 1941.
Bosquejo histórico da Zoologia em Portugal
.
,
1'1$
1 ~~
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49
Ver, por exemplo, E. Fischer-Piette, Sue I'écologie intercotidale Ouestibérique. C. r. Acad. Se. Paris, 24.6; 1301-1303, 1958. Este autor baseou uma
longa lista de trabalhos sobre biogeografia intcrüdal ibérica nas publicações de A. Nobre ·sobre -moluscos 'm arinhos. Para uma melhor avaliação
do papel de A. Nobre na Malacologia -por·tugucsa ver a bem documenladn
obra de L. P. Burnay e A. A. Monteiro, Histõria da malacologia em Por·
tuga.!. Publ. Ocas. Soe. Part. Malaca/agia, 12, 1988 .
Ver A. Nobre, Estudos sobre 'a fauna aquática dos rios do norte de Portugal. Am!. Se:. Nat., I: 15}-157, 1894.
Id .. Peili:es das águas doces de Portugal. Boint Min. Agric., 13 (2): 5-44, 1932.
Id., Abel da Silva Ribeiro. Arm. Se:. Nat., 2: 123·124, 1895.
Actualmente, Centro AquícoJa do Rio Ave.
A. Nobre, O laboratório marltimo de Leça da Palmeira. Aml. Se:. Nat.,
3: 121-11:7, 18%.
Id., As estaçõcs zoológicas. Bolm. Soe:. Geog,·. Lisboa, 6." série, 7: 426435;
Projecto de uma Estação Zoologica em Cascaes. A,m. Se. Nat., 1: 4748,
1894.
Id., Contribuições para o esl.Udo dos Coelenterados de Porrugal. Instituto
de Zoologia da Universidade do Porio, 1931.
Id., Crustdceos Decâpodes e Stomatopodes marinhos de Portligal, l.' cd .
Instituto de Zoologia da Universidade do Porto, 1931; Fauna marlllTIG de
Portugal. Crustáceos Decápodes e Stomatopodes. 2.a ed . Companhia Editora
do Minho, Barcelos, 1936.
Id ., Brac.hiopodes de Portugal. An. Fac. Cibl. Porto, 12, 1931.
Id .. EcJÚ110dermes a"e Portu.gal. 1." cd., Instituto de Zoologia da Universidade do Porto, 1931; id., 2." ed" Companhia E-ditora do Minho, Barcelos,
1938.
Id ., Fauna marinha de Portugal. r-Vertebrados: Mamíferos, Reptis e
AI/fíbios. Companhia Editora do Minho, Barcelos, 1935.
Id .. Fauna marinha de Portugal, L~ Aditamento. Mem . Est. Zool. Univ.
Coimbra, 99, 1937. Neste aditamento, A. Nobre refere espécies de Cnidãrios, Ct.enóforos, Anelí-cteos, S ipuneulideos, Briozoários, Moluscos, Equinodcrm,~, Tunicados, Peixes, Répteis c Mamíferos. Id., Fauna ma rinha
de Port"ugal, 2." Adita:nento. Ibiã., 108, 1938, No 2.' adi tamento, A. Nobre
cita espécies de Cnidários, Crustáceos, Moluscos, Equinodermes, Tunicados e Mamíferos.
Para um conhecimento mais r;profundado da vida e obra científica de
Augusto Nobre deve consultar·se A. Machado, Augusto Pereira Nobre,
Publ. Inst. 2001. Augusto Nobre, 1946; A. Mateus, O Prof. Doutor Augusto
Nobre (No centenário elo seu nascimento). Boim. Soe. Por/o Cién. Nf!t., II ;
1-14, 1966; id., O Prof. Doutor Augusto Nobre, malacologista. MS, 1979;
C. Almat.ça, PUblicações do Prof. Dr. ,Augusto Nobre sobre Oceanografia
biológica. Bolm. Soe. Porto Ciên. Nat., II : 15-25, 1966. As publicaçôt::s de
Machado e Almaça aqui indicadas inserem lis tas, ai nda que parciais, dos
trabalhos de Augusto Nobre.
50
Carlos A/maça
ua Augus to Ferreira Nobre, Animais venenosos de Portugal. Ins titu to de
Zoologia da Universidade do Porto, 1928.
Jl~ Ver notas 22 e 23.
Ver C. Almaça, Documen tos do arquivo histórico do Museu Bocage relativos à exploração histórico-natural angolana do Dr. Frederico Wehvi tsch
(Agosto de 1 8 53~ Dezembro de 1860). Arq. Mus . Bac. N. S. 1 (22) : 335-347,
1989.
M. Paulino de Oliveira, Catalogue des insectes du Po rfllgal. Coleopleres.
Coimbra, sem data .
Id .. Catalogllc des Hemipteres du Po rtugal (Heteropteres) . Coimbra, 1896.
A. F. de Seabra, Sur les corps rouges des Téléostêens. Bull. MI/S. Hisl.
".
Nat. PClris, 6: 217-220, 1897.
G. S. Miller, Calaloguf; of lh e Maml11als of Western E ll rope. B ritish
Museum, London.
l:~
l~~ ,~ , A. Cabrer a, Fauna Ibérica. Mamíferos. Museo de Ciencias Naturales,
Mad rid.
Ver , em particular, a série de trabalhos de A. F. de Seabra subordinados
ao titulo gera ! de . Contribuições para o inventário da fauna lusitânica.
I nsec ta", publicada em Mem. Est. Mm. Zoo!. Univ. Coimbra, em 1941-1942.
Nesta série são incluídos Colcópteros" HomóPlcros, Heter6p leros, Ortõpteros, Odonatos, etc., de Portugal. Para outras publicações referentes
à entomofauna po rtuguesa ver nota 127.
Um e.xcelente es tudo sobre a vida e a obra de Antero de Seabra foi
publicado por R. T. Palhinha, Antero de Seabra. Estudo crítico de uma
obra científica. Bolm Soe. Port. Cién. Nat., 19: V1 I-XXX, 1953. Este estudo
apresenta uma listl! das publicações de Antero de Seabra .
OUTROS TRABALHOS PUBLICADOS
A. A. SOARES
Técnicas de t ransporte de peixe vivo- l990
C. ALMAÇA
Recursos animais e sua conservação. As populações portuguesas
do lagosrim.de>-rio Astacus pallipes Lereboullet, 1858- 1990
T he begi nlli ng of lhe Portuguese m ammal og)' - 199 1
As class if icações zoo16gicas. Aspectos históricos - 1991
Edição do Museu Bocage
Rua Escola Politécnica, 58
1200 Lisboa
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MUSEU ACIO AL DE HISTÓRIA NATURAL - Projecto