RPCV (2010) 105 (573-576) 53-61 R E V I S TA P O R T U G U E S A DE CIÊNCIAS VETERINÁRIAS Diversidade forrageira na Região Semiárida do Ceará, Brasil: componentes estruturais Forage diversity in the Ceará Semi-arid Region (Brazil): structural components Déa de Lima Vidal Laboratório de Estudos em Sistemas Semiáridos (LESISA), Faculdade de Veterinária da Universidade Estadual do Ceará (UECE) Resumo: A maior parte do Nordeste do Brasil está sob condições de semiaridez e a produção animal se baseia em sistemas tradicionais cujo forrageamento depende muito da Floresta Tropical Seca Caatinga. Esses sistemas forrageiros (SFs) do semiárido nordestino têm recebido pouquíssima atenção acadêmica, principalmente no que tange à sua estratégia estrutural, ou seja, a disponibilidade de seus componentes produtivos per se e suas relações. Esse estudo examina a importância dos fatores estruturais do sistema forrageiro em 97 Unidades de Produção rurais distribuídas em 6 comunidades semiáridas no Ceará (Brasil) através de ACP e ANOVA. Os dados originais foram coletados in situ de 2006 a 2007. Os fatores estatísticos mais importantes na diferenciação da estrutura forrageira nas Unidades de Produção estudadas estão relacionados à importância da disponibilidade de terra agriculturável e das forrageiras específicas de sequeiro adaptadas ao bioma da floresta Caatinga. Esses fatores explicam as principais estratégias estruturais adaptativas desses SFs e permitem sua priorização na elaboração de políticas públicas específicas. Apesar da alta importância desses fatores na caracterização dos SFs, foi observado que em todas as comunidades rurais as disponibilidades de superfícies absolutas são extremamente baixas. Apenas a superfície de Caatinga independe da disponibilidade de terra, o que evidencia um padrão estrutural adequadamente vinculado à floresta natural semiárida. As forrageiras de sequeiro, responsáveis por significativa parte da estrutura produtiva devem ser priorizadas em termos de área disponível em relação à Superfície Agrária Útil em todas as comunidades, pois suas respectivas incidências porcentuais são demasiado baixas. A presença fundamental do fator trabalho de tipo familiar e da Caatinga em todas as comunidades associado a baixos índices de mecanização, provavelmente são os elementos que permitem a reprodução desses SFs ao nível estrutural. Summary: The northeastern region of Brazil is mostly characterized by semi-aridity conditions and its animal production is based on traditional systems with forage derived from the Caatinga Dry Tropical Forest. Only scanty attention has been given to the forage systems (FSs) of the northeastern semi-arid region, especially with regard to its structural strategy, or rather, the availability of its productive components and their relation- Correspondência: [email protected], [email protected] Fax: +55 85 31019932 ships. The importance of the forage system’s structural factors in 97 rural production units distributed in six semi-arid settlements in the state of Ceará, Brazil, are investigated by ACP and ANOVA. Original data were collected in situ between 2006 and 2007 and the most relevant statistical factors in the differentiation of forage structure in the production units under analysis have been related to the importance of agriculture land available and of specific arid land forages adapted to the Caatinga forest biome. These factors explain the main adaptive structural strategies of the FSs and shall be given priority in the elaboration of specific public policies. Availability of entire surfaces is extremely low in all rural settlements in spite of the factors’ high importance in FSs characterization. Since only the Caatinga surface does not depend on land availability, a structural standard, adequately linked to the natural semi-arid forest, is verified. Arid forages which cause most productive structure should be given priority with regard to land availability related to Useful Agrarian Surface in all settlements. This is due to the fact that their percentages are extremely low. Familiar labor and Caatinga in all settlements, foregrounded on low mechanization rates, are probably the factors that permit the reproduction of FSs at the structural level. Introdução Aproximadamente 40% da superfície do planeta estão ameaçadas pelo risco da desertificação e consequente perda de produtividade do solo. Esse processo de desertificação é causado fundamentalmente por mudanças nos sistemas tradicionais de produção animal e vegetal e pela ação antrópica equivocada. Ademais, a desertificação em suas últimas consequências, ameaça o potencial agrário do solo para proporcionar alimentos por meio da produção agropecuária (EEA-UE, Agência Europeia de Ambiente, 2009). A Convenção Internacional de Luta contra a Desertificação nos países afetados pela seca grave ou desertificação é o resultado de debates realizados na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1991 e que pela 53 Vidal DL relevância do tema, garantiu sua continuidade por meio da 2ª Conferência Internacional sobre Clima, Sustentabilidade e Desenvolvimento em Regiões Semiáridas, realizada no Nordeste do Brasil, especificamente no Estado do Ceará em 2010 (ONU-CCD, Organização das Nações Unidas, Convenção Contra a Desertificação, 2006). Grande parte da Região Nordeste do Brasil, que representa 10% da superfície da América do Sul, está em condições climáticas semiáridas. A produção animal nessa região inclui predominantemente sistemas tradicionais cujo forrageamento, baseia-se quase exclusivamente em pastagens de plantas nativas da vegetação da Caatinga, rica floresta tropical seca, espinhosa, de altura baixa (Prado, 2005) e que sustenta mais de 90 e 35% da produção de cabras e ovelhas, respectivamente (Araújo Filho et al., 2002). Considerando essas evidências sobre a importância das florestas nativas que compõem o forrageamento animal, novas questões de pesquisa têm emergido sobre o manejo da diversidade de recursos internos de sistemas de produção de regiões menos favorecidas, como as semiáridas (Van Keulen, 2006). Nesses sistemas, a família rural maneja o "sistema forrageiro", ou seja, o conjunto de meios e técnicas que procuram vincular produção de cultivos à produção pecuária (Duru e Hubert, 2003), a fim de buscar o equilíbrio entre recursos forrageiros e necessidades dos animais. Os sistemas forrageiros de regiões semiáridas mediterrâneas na Europa são descritos há várias décadas e suas características ligadas às condições estruturais e recursos físicos discutidos. Em Portugal, por exemplo, Fernandes e Dias (1991) analisaram 25 freguesias da Zona Agrária de Évora, cuja disponibilidade de Superfície Agrária Útil variava entre 200 e 500 hectares. Esses autores portugueses evidenciaram que a maior diferença entre as freguesias estava relacionada à carga animal por hectare, estando o aumento da área forrageira associado à diminuição do encabeçamento. No Vale Médio do Rio Ebro, Espanha, Olaizola et al. (1999) concluíram que as variáveis que mais diferenciaram a estrutura do sistema forrageiro em 99 fazendas ovinas foram a área irrigada e a área de cultivos forrageiros irrigados para pastoreio de ovinos. Usai et al. (2006), ao analisarem 151 fazendas caprinas, situadas na Sardenha, identificaram cinco grupos onde predominava pequena infraestrutura associada à baixa intensidade de manejo. Gaspar et al. (2007), para 49 fazendas mistas, incluindo ruminantes e suínos na Dehesa espanhola, relatam a disponibilidade de rebanho relacionada às cargas animais e evidenciam que a intensificação da produção está relacionada aos requerimentos do fator trabalho. No entanto, poucas iniciativas foram feitas para explicar as estratégias estruturais de sistemas forrageiros em regiões semiáridas brasileiras. O conhecimento sobre a disponibilidade e diversidade de fatores produtivos estruturais é um pré-requisito para 54 RPCV (2010) 105 (573-576) 53-61 compreender os sistemas forrageiros, pelo que sua estrutura faz referência à organização espacial dos componentes do sistema. Ademais, o manejo da terra e a tomada de decisões importantes, como sua manutenção, melhoramento e criação de condições equitativas para diferentes tipos de agricultura e pecuária, são também determinadas pela disponibilidade de fatores estruturais (Chatellier et al., 2008), principalmente para regiões frágeis como as semiáridas (Mrabet et al., 2001). Nesse sentido, esse estudo examina a importância da relação dos fatores estruturais de sistemas forrageiros em comunidades rurais do semiárido do Estado do Ceará, Brasil. Para tal, se objetiva especificamente: (i) determinar os fatores estatísticos diferenciadores da estrutura forrageira e (ii) caracterizar seis comunidades rurais, segundo sua distribuição de superfícies, fator trabalho e índice de mecanização. Material e métodos Utilizou-se informação sobre características estruturais de sistemas forrageiros obtidas mediante aplicação in situ de questionário a todas as Unidades de Produção Agrária (UP) que se incluíam no Projeto de Pesquisa "Autossustentação econômico-social de comunidades rurais através de cabras leiteiras naturalizadas em região semiárida dos Inhamuns, Ceará", financiado pelo Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento - CNPq - do Ministério de Ciência e Tecnologia, Governo Lula (Edital nº19/05). As UPs analisadas estão situadas na região semiárida do Nordeste do Brasil e especificamente no Distrito do Baixo Trici do município de Tauá (Ceará) (Figura 1, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, 2000). As mesmas se distribuem em seis Comunidades Rurais, a saber: Junco (n=22), Lustal 1 (n=19), Lustal 2 (n=8), Queimadas (n=11), Tapera (n=22) e Tiassol (n=15) totalizando 97 unidades. O número de UPs por comunidade é diferente porque respondeu ao critério de adesão voluntária da família responsável ao projeto de pesquisa, o que preservou, no entanto, a representatividade das condições prevalecentes na maior parte desse município cearense. O total de UPs existentes nas seis comunidades em estudo ascende a 305, portanto, o presente estudo abrangeu 31,8% das UPs do Distrito do Baixo Trici. Genericamente, as atividades econômicas dessas comunidades rurais estão vinculadas à produção de carne de pequenos ruminantes, leite e queijo bovino, hortaliças e evidenciam a predominância do Sistema de Exploração de tipo Semiestabulado. Os questionários se referiam a um ano agrícola (agosto de 2006 a agosto 2007) e recolheram informações geral e específica sobre estrutura forrageira das UPs. Foram elaboradas dez variáveis de estrutura relacionadas à Vidal DL RPCV (2010) 105 (573-576) 53-61 disponibilidade de superfícies para forragem e para cultivo, índice de mecanização e fator trabalho (Tabela 1). Figura 1 - Localização geográfica do município de Tauá na região Nordeste do Brasil Os cultivos forrageiros (CF) específicos hídricos nessas comunidades estão formados por dois tipos: (i) os forrageiros irrigados, a saber: o capim-elefante (Pennisetum purpureum), o cereal sorgo (Sorghum bicolor) e a leguminosa leucena (Leucaena spp.), e (ii) o cultivo forrageiro de período de chuva (cultura de vazante), a saber: milho forrageiro (Zea mays). Os CF de sequeiro presente são: a palma forrageira (Opuntia ficus-indica), algaroba (Prosopis juliflora), capimbuffel (Cenchrus ciliaris), capim-Tanzânia (Panicum maximum cv. Tanzânia), capim-braquiária (Brachiaria decumbens), capim-marreca (Paspalum conjugatum), feijão-guandu (Cajaus cajan) e feijão-bravo (Canavalia brasiliensis). Os cultivos comerciais de maior predominância são o milho, o feijão, a mandioca (Manihot esculenta), a fava (Vicia fava) e o gergelim (Sesamum indicum). Assim mesmo, encontram-se os cultivos de horta, como a macaxeira (Manihot utilissima). No que diz respeito à mecanização, os respectivos índices médios por comunidade (cavalos-vapor, kW/ha) foram calculados de acordo com a potência disponível, resultante da soma da potência de todas as máquinas presentes (tratores, forrageiras, caminhões e motores-bomba) em relação às superfícies agrárias úteis médias disponíveis (Schlosser et al., 2004) (Tabela 1). Todas as variáveis foram calculadas em relação ao seu valor médio e respectivo coeficiente de variação em nível de cada comunidade rural em estudo. Os dados sobre estrutura forrageira foram submetidos à Análise Multivariada de Componentes Principais (ACP) (Rotação Varimax) para avaliar a importância de cada variável estudada sobre a variação total disponível (Hair et al., 2006). A seguir, e com o objetivo de contrastar as médias estruturais entre as comunidades rurais, foi realizada a Análise de Variância - Anova, o que permitiu identificar as diferentes Estruturas dos Sistemas Forrageiros na área semiárida em estudo. Resultados Fatores explicativos da heterogeneidade estrutural-forrageira do conjunto de UPs A Análise de Componentes Principais forneceu cinco fatores que explicam 81,42% da variância original com eigenvalues>1. Os dois primeiros fatores estão relacionados à importância da disponibilidade de terra agriculturável e das forrageiras específicas de sequeiro adaptadas ao bioma da Caatinga semiárida. O primeiro (absorvendo 25,49% da inércia) identifica a UPs cujas maiores disponibilidades de Superfícies Agrárias Úteis incidem na Superfície Total. Assim mesmo, nessas UPs, é relevante a proporção de Cultivos Forrageiros de Sequeiro na composição da Tabela 1 - Sigla ou denominação e respectiva definição das variáveis estruturais indicadoras do Sistema Forrageiro Sigla ou Denominação SAU (ha) SF/SAU (%) ST (ha) CFH (%) CFS (%) SCA (ha) CFH/SF (%) CFS/SF (%) CA/ST (%) kW IM (kW/ha) UTAf/UTAtotal(%) Definição Superfície Agrária Útil = Superfície Forrageira + Superfície de Cultivos Superfície Forrageira Total em relação à SAU Superfície Total = SAU + SF + SC Cultivos Forrageiros Específicos Hídrico = cultivos forrageiros irrigados + Cultivos Forrageiros de período chuvoso Cultivos Forrageiros Específicos de Sequeiro Superfície de Caatinga Superfície de Cultivos Forrageiros Hídricos em relação à SF Superfície de Cultivos Forrageiros de Sequeiro em relação à SF Superfície de Caatinga em relação à ST Unidade de potência das máquinas = 1Cvapor = 0,7457 kW Índice de Mecanização = soma da potência de todas as máquinas presentes nas respectivas UFs em relação às SAUs Disponibilidade de mão-de-obra familiar em relação à mão-de-obra total ambas mensuradas em Unidades de Trabalho Anual 55 Vidal DL RPCV (2010) 105 (573-576) 53-61 Superfície Forrageira. O segundo fator (absorvendo 21,07% da inércia) está definido pelas variáveis que evidenciam a importância dos Cultivos Forrageiros de Sequeiro na composição da Superfície Forrageira e dessa última na constituição da Superfície Agrária Útil, que por sua vez, não está formada por Superfície de Cultivos. O terceiro fator (explicando 14,38% da variância) mostra a relação entre a incidência dos Cultivos Forrageiros Hídricos na composição da Superfície Forrageira associada à presença de Mãode-Obra Assalariada mensurada em UTA. Assim, esse fator identifica a UPs em que o fator trabalho é preponderantemente assalariado e relacionado às forragens irrigadas e típicas de período de chuva no semiárido. O quarto fator (absorvendo 11,32% da inércia) aponta as UPs em que a Superfície Agrária Útil nãomecanizada está formada por altas porcentagens de Tabela 2 - Contribuição das diferentes variáveis estruturais aos cinco primeiros fatores Variância explicada (%) Fator 1 25,49 Fator 2 21,07 Fator 3 14,38 Fator 4 11,32 Fator 5 9,16 Variáveis e correlações com os fatores (p<0,01) SAU (ha) 0,4538 ST (ha) 0,5132 %CFS/SF 0,3546 %SF/SAU 0,6423 %SC/SAU (-)0,6423 % CFS/SF 0,2634 % UTAfam/UTAtotal (-)0,4599 % CFS/SF (-)0,4544 %CFH/SF 0,4522 %CFH/SF 0,5352 SAU (ha) 0,4761 IM (Kw/ha) (-)0,4689 %Caatinga/ST (-)0,6936 Cvapor 0,5846 ST (ha) (-)0,2602 % UTAfam/UTAtotal (-)0,1872 Superfície Forrageira, incidindo nessa última os Cultivos Forrageiros Hídricos. Assim, esse fator identifica a não-mecanização de superfícies agriculturáveis dedicadas à forragicultura e dependente de água no semiárido. O último fator (explicando 9,16% da variância) está caracterizando a UPs de pequena dimensão, sem caatinga e medianamente mecanizadas, onde a mão-de-obra dominante é assalariada. Assim, o último fator evidencia a mecanização de pequenas áreas cultivadas por assalariados (Tabela 2). Diversidade forrageira nas comunidades rurais A Tabela 3 apresenta as características relativas à distribuição de superfícies absolutas em hectares para cada uma das comunidades sob estudo. A Superfície Total média da Comunidade de Tiassol é significativamente maior que as de Junco e Lustal 1, não havendo diferença significativa entre as últimas. As restantes ST comunitárias de Lustal 2, Queimadas e Tapera, tão pouco apresentam diferenças significativas entre si. As diferenças entre as disponibilidades de Superfícies Agrárias Úteis (SAU) são significativas entre Tiassol e três comunidades que, por sua vez, não diferem entre si: Junco, Lustal 1 e Lustal 2 e; nas restantes comunidades não houve diferenças significativas de SAU. O comportamento da Superfície de Cultivos absoluta é similar ao da SAU, exceptuando-se a Comunidade de Lustal 2, ou seja, a SC de Tiassol é significativamente diferente das de Junco e Lustal 1, sendo que as últimas não diferem entre si. Nas comunidades restantes, as diferenças apresentadas da SC não são significativas. A disponibilidade de área de Superfície Forrageira (SF) é significativamente maior na Comunidade Rural de Tiassol quando comparada às disponibilidades das Comunidades de Lustal 1 e Lustal 2 e as diferenças em área de SF apresentadas pelas comunidades restantes não são significativas. Finalmente, também em termos Tabela 3 - Características relativas à distribuição de superfícies médias em hectares(ha) nas Comunidades Rurais sob estudo (município de Tauá, Ceará, Brasil, 2008) Comunidades Junco Lustal 1 Lustal 2 Queimadas Tapera Tiassol Média CV* Média CV Média CV Média CV Média CV Média SF (ha)1 3,16ns 0,77 2,0a 0,63 1,75a 0,26 3,53ns 0,70 4,83ns 0,95 10,46b SC (ha)2 1,7a 0,77 1,7a 0,45 2,06ns 0,42 2,52ns 0,71 2,42ns 0,69 15,59b Variáveis SAU (ha)3 4,86a 0,60 3,71a 0,39 3,81a 0,34 6,05ns 0,63 7,25ns 0,79 26,05b Caatinga (ha)4 6,9ns 0.80 6,53ns 0,96 17,84ns 1,68 32,78a 0,88 6,78b 2,32 54,90c ST (ha)5 11,76a 0.55 10,24a 0,69 21,65ns 1,38 38,83ns 0,72 14,.03ns 1,22 80,96b CV 0,82 0,89 0,77 0,76 0,62 Letras iguais na mesma linha não diferem entre si pela ANOVA *CV=Coeficiente de Variação 1 p=0,002; 2p=0,0007; 3p=0,0005; 4p=0,0006; 5p=0,0002. 56 Vidal DL RPCV (2010) 105 (573-576) 53-61 absolutos, a superfície utilizável de Caatinga revela-se significativamente diferente e progressivamente superior em três comunidades: Tapera, Queimadas e Tiassol. Assim, as Comunidades de Junco, Lustal 1 e Lustal 2 evidenciam diferenças relevantes em relação às disponibilidades médias de Superfícies Total, Agrária Útil, Forrageira e de Cultivos, contrastadas em si e com a Comunidade de Tiassol. Porém essas comunidades não revelam diferenças significativas entre suas respectivas superfícies médias absolutas de caatinga, manifestando-se esse fenômeno apenas nas Comunidades de Tapera e Queimadas em relação à Comunidade de Tiassol. A Tabela 4 mostra para cada comunidade rural a distribuição porcentual média de superfícies em relação à Superfície Total, Superfície Agrária Útil e Superfície Forrageira. Com exceção da proporção de Caatinga em relação à Superfície Total, todas as outras variáveis não apresentaram diferenças porcentuais médias significativas. Assim, as respectivas incidências da Superfície Forrageira e da Superfície de Cultivos na composição da SAU das seis comunidades em estudo são similares entre si, evidenciando um padrão de comportamento forrageiro essas comunidades rurais. Seguindo a mesma tendência, as proporções de Cultivos Forrageiros Específicos de Sequeiro (CFS) e os Hídricos (CFH) tão pouco apresentam diferenças significativas entre as comunidades. A incidência dos CFH é predominante na composição das respectivas SF das comunidades (variando de 84,39 em Tiassol a 100,00% em Lustal 2). Apesar de não haver diferença estatisticamente significativa, observa-se uma leve complementação inversa entre as Comunidades de Junco e de Tiassol no que se refere às SF e SC: A SF varia de 43,66 a 63,61% (Tiassol e Junco, respectivamente), e a SC oscila entre 36,39 e 56,43% (Junco e Tiassol, respectivamente), o que remete à repercussão da diferença estatística significativa da disponibilidade absoluta de SC entre as Comunidades de Junco e Tiassol (Tabela 3). Em relação à porcentagem de Caatinga na formação da Superfície Total, tal como foi colocado acima, tendência distinta foi observada quanto à sua distribuição absoluta: as diferenças porcentuais significativas emergem entre as Comunidades de Queimadas e Tapera, sendo a primeira maior. A proporção de Caatinga na ST da Comunidade de Tiassol é menor que a de Queimadas e maior que a de Tapera, no entanto, não alcança significância estatística, ressaltando-se a alta importância da Caatinga porcentual na Comunidade de Queimadas (68,99%) e a tímida participação da mesma na Comunidade de Tapera (27,22%). A Tabela 5 evidencia em valores médios para cada comunidade em estudo, a composição porcentual do fator trabalho, a disponibilidade de Cavalos Vapor e o Índice de Mecanização (IM). Observa-se que em cinco comunidades rurais a disponibilidade do fator trabalho familiar em relação ao trabalho total é preponderante e na Comunidade de Tapera trabalho familiar é exclusivo. Emergiram diferenças significativas entre quatro comunidades. O trabalho familiar em Tapera alcança sua máxima expressão, diferenciando-se estatisticamente do trabalho de Tiassol e de Lustal 1 e 2 (entre essas duas últimas comunidades não houve diferença significativa). O IM, que relaciona a potência das máquinas em Cavalos-Vapor com a SAU mecanizada, evidenciou diferenças significativas entre cinco das seis comunidades. O IM da Comunidade de Junco desponta como o maior e os IMs das Comunidades de Queimadas e Tapera como os menores. Ainda se diferenciam estatisticamente o baixo IM de Lustal 1 e o intermediário-alto de Lustal 2. Observam-se ressonâncias das respectivas disponibilidades de SAU nos valores dos IM, pois, efetivamente a SAU do Junco é uma das menores de todas. Tabela 4 - Distribuição porcentual de superfícies médias em relação à Superfície Total (ST), em relação à Superfície Agrária Útil (SAU) e em relação à Superfície Forrageira (SF) de acordo com as Comunidades Rurais em estudo (município de Tauá, Ceará, Brasil, 2008) Comunidades Junco Lustal 1 Lustal 2 Queimadas Tapera Tiassol Média CV* Média CV Média CV Média CV Média CV Média CV %Caatinga/ST1 50,52ns 0,64 48,79ns 0,54 58,70ns 0,38 68,99a 0,50 27,22b 1,02 57,51ns 0,56 %SF/SAU2 63,61ns 0,27 51,82ns 0,32 47,03ns 0,10 56,89ns 0,23 61,41ns 0,19 43,66ns 0,66 Variáveis %SC/SAU3 36,39ns 0,47 48,18ns 0,34 52,97ns 0,09 43,11ns 0,30 38,59ns 0,30 56,34ns 0,51 %CFH/SF4 97,52ns 0,07 98,87ns 0,03 100,00ns 0,00 98,18ns 0,06 94,63ns 0,13 84,39ns 0,30 %CFS/SF5 2,48ns 2,56 1,13ns 3,04 0,00ns 0,00 1,82ns 3,32 5,37ns 2,23 8,94ns 1,13 Letras iguais na mesma linha não diferem entre si pela ANOVA *CV=Coeficiente de Variação 1 p=0,0043; 2p=0,0078; 3p=0,0078; 4p=0,0008; 5p=0,1268. 57 Vidal DL RPCV (2010) 105 (573-576) 53-61 Tabela 5 - Composição porcentual média do fator trabalho, disponibilidade de Cavalos Vapor e Índice de Mecanização (IM) de acordo com as Comunidades Rurais em estudo (município de Tauá, Ceará, Brasil, 2008) Comunidades Junco Lustal 1 Lustal 2 Queimadas Tapera Tiassol Média CV* Média CV Média CV Média CV Média CV Média CV UTAfam/UTA total1 88,80ns 0,57 73,59a 0,23 71,35a 0,19 93,33ns 0,16 100,00b 0,0 74,70c 0,25 Variávies CVapor2 106,43a 0,03 72,72ns 0,71 105,63b 0,01 7,5c 1,5 12,00c 2,32 165,63d 1,32 IM3 53,10a 3,29 3,55b 1,69 29,24c 0,61 0,07d 1,75 1,26d 2,99 5,17ns 1,26 Letras iguais na mesma linha não diferem entre si pela ANOVA *CV=Coeficiente de Variação. 1 p<0,05; 2p<0,0001; 3p=0,0001 Discussão Observa-se que todas as UP (n=97) distribuídas nas seis comunidades correspondem às classificações de Minifúndio ou Pequena Propriedade (BRASIL, 1993), já que a média da dimensão máxima de Superfície Total (ST) presente é de 158,65 ha. Considerando a satisfatória variância (Snedecor e Cochran, 1989) explicada pelos dois primeiros fatores que diferenciam a estrutura forrageira pela Análise de Componentes Principais (46,56%), os seis tipos de Sistemas Forrageiros diferenciados nas comunidades rurais se distinguem principalmente pela disponibilidade de Superfície Agrária Útil e de Superfícies de Cultivos Forrageiros de Sequeiro na formação da Superfície Forrageira. Na diversidade estrutural desses sistemas forrageiros, pode-se observar que, à medida que a disponibilidade de SAU diminui nas comunidades, há um aumento da proporção de Cultivos Forrageiros de Sequeiro na formação da Superfície Forrageira das mesmas. Considerando que para os trópicos e subtrópicos, a temperatura e a deficiência hídrica são os principais fatores limitantes da produção de forragem, procura-se amenizar os efeitos adversos provocados pelo déficit hídrico durante a época seca do ano pelos cultivos forrageiros de sequeiro, pois os mesmos possibilitam o incremento na produção de matéria seca e na taxa de lotação do pasto (Viana et al., 2005). Os principais CFs de sequeiro presentes nas comunidades em estudo são a palma forrageira, algaroba, os capins buffel, Tanzânia, braquiária e marreca e os feijões guandu e bravo. As maiores áreas cultivadas com palma forrageira no mundo encontram-se no nordeste semiárido do Brasil, sendo essa cactácea, vital para a produção animal na região, principalmente durante os longos períodos de estiagem. Em inúmeras áreas em estudo do 58 semiárido brasileiro, a palma evidencia-se como a única fonte de água e forragem de emergência (Santos e Albuquerque, 2003). Já os capins, em sua condição de gramíneas forrageiras apresentam interesse por sua alta adaptabilidade e grande potencial em produzir matéria seca por unidade de área (Cândido et al., 2005). As espécies arbóreas do tipo leguminosas principalmente podem melhorar a produção, a qualidade e a persistência dos pastos (Alonzo, 2000), sequestrar quantidades substanciais de carbono (Macedo et al., 2008) e aumentar a biodiversidade em pastagens de regiões frágeis como o semiárido (Xavier et al., 2010). A algarobeira, como leguminosa arbórea, constitui-se em rica fonte de carboidratos e proteínas, ademais de possuir valor energético bruto comparável ao do milho. Ainda, estudos sobre sua utilização para várias espécies como bovinos, ovinos, suínos e aves, foram desenvolvidos com o objetivo de tornar viável sua inclusão em rações, bem como minimizar os custos da produção animal (Stein, 2005). O feijão-guandu vem sendo utilizado na alimentação animal, tanto como pastagem exclusiva ou consorciada para regiões secas e também, na forma de forragem verde, feno e componente de mistura de silagem (Nene e Sheila, 1990). Em relação à vegetação natural da Caatinga, a mesma encontra-se presente em todas as comunidades rurais, independentemente da disponibilidade de terra (total ou útil). A frequência mais destacada de Caatinga (68,99%) associa-se ao menor nível de mecanização das superfícies agrárias úteis e à alta proporção de trabalho familiar (Comunidade de Queimadas) e sua menor proporção na formação da Superfície Total (27,22%) relaciona-se ao trabalho familiar exclusivo e a segunda maior proporção de Cultivos Forrageiros de Sequeiro (Comunidade de Tapera). Esses resultados de vegetação nativa são similares aos valores médios identificados no Mediterrâneo, por Milan et al. (2006) para a composi- Vidal DL ção forrageira dos três grupos de unidades produtivas de pecuária mista na Sardenha semiárida e por Gaspar et al. (2007) na Dehesa Extremenha para a estrutura de áreas de bosques associadas a arbustos na superfície total. No entanto, para outras regiões semiáridas não há similaridade, pois as porcentagens médias são inferiores às encontradas nesse estudo: no semiárido de Borana, Etiópia, as pastagens nativas arbustivas compõem apenas 52% da Superfície Total (Dalle et al., 2006) e na Argentina Central semiárida, Gil et al. (2009), para a denominada vegetação original (bosques e pastizais), relatam 48,53% da Superfície Total. Observa-se que as Comunidades de Tiassol e Tapera são as que configuram Superfícies Forrageiras mais adaptadas às condições do semiárido do distrito em estudo, já que dispõem das maiores Superfícies de Cultivos Forrageiros de Sequeiro. No entanto, Tiassol, mesmo dispondo de maiores quantidades de superfícies total e útil, apresenta mecanização superior e trabalho familiar inferior aos de Tapera, evidenciado tendência completamente inversa, ou seja, o sistema forrageiro de Tiassol é mais dependente de estruturas mecanizadas e assalariadas. Esse fenômeno de transformação do fator trabalho vinculado à maquinaria, caracterizado na estrutura forrageira da Comunidade de Tiassol responde à tendência clássica que é apontada nas últimas décadas para a agropecuária brasileira relativa ao advento da mecanização (Thomaz-Júnior, 2000). As Comunidades de Lustal 1 e Lustal 2 por apresentarem a maior parte ou toda área de suas respectivas Superfícies Forrageiras compostas por Cultivos Forrageiros Hídricos despontam como as de Sistemas Forrageiros mais frágeis, por serem os menos adaptados às condições de semiaridez. Comparativamente, maior inadaptação estrutural revela-se em Lustal 2, pois ademais da alta proporção de forrageiras dependentes de chuva ou irrigação, é uma das comunidades que mais mecaniza seu solo e utiliza proporção superior à metade de sua superfície agrária útil com cultivo. Em áreas menos favorecidas, como as semiáridas, pesquisadores vêm demonstrando a inviabilidade da mecanização agrícola (Chvatal, 2007; EEA-UE, 2009). Por exemplo, para o Sul de Portugal com clima mediterrâneo semiárido, Mendes et al. (2008) desaconselham a utilização de maquinaria agrícola por considerar as condições frágeis dos solos no Alentejo e no Tejo, respectivamente. Já na região semiárida de Marrocos, Mrabet et al. (2001) demonstraram que o não-cultivo agrícola, livre de maquinaria, portanto e associado à cobertura da superfície com resíduos, inibiram a perda de matéria orgânica do solo, incrementando a eficiência do uso de água e reduzindo a erosão. Junco e Lustal 2 evidenciaram os maiores índices médios de mecanização dentre as UFs de todas as comunidades rurais, visto que ambas mecanizam significativamente uma reduzida Superfície Agrária RPCV (2010) 105 (573-576) 53-61 Útil (Tabelas 3 e 5). Existe efeito inverso entre a disponibilidade de superfícies e o Índice de Mecanização já demonstrado na literatura (SánchezGirón et al., 2007). Efetivamente, nesse trabalho pôde ser observado que a maiores IMs correspondem a menores superfícies. Os valores dos IMs nesse estudo são muito mais elevados que os relatados por Sánchez-Girón et al. (2007) e por Milán et al. (2006) para outras áreas semiáridas, porém esse contraste é o resultado da grande diferença observada entre as disponibilidades de superfícies no Ceará, muito aquém do considerado mínimo no Brasil para a agricultura familiar (média de 100 ha) (IBGE, 2005) e na Península Ibérica: 309,5 ha para a região do Alentejo, em Portugal (Fragoso e Marques, 2007) e 506,8 ha médios para a Dehesa espanhola (Milán et al., 2006), por exemplo. Foi observada também nesse estudo a tendência de que, quanto maior o IM menor a importância do trabalho familiar e maior a do trabalho assalariado. Esses resultados estão de acordo com os encontrados Blazejczyk-Majka et al. (2008) que analisam o fator trabalho face a vários elementos de modernização, incluindo a mecanização no campo dos países do Sul da Europa comparados aos do Norte. Em regiões mediterrâneas europeias, alguns rasgos estruturais de sistemas forrageiros já descritos são similares aos encontrados nesse estudo, genericamente. Olaizola et al. (1999), ao analisar 99 Unidades Produtivas ovino-cerealistas, situadas no Vale Semiárido do Ebro, identificaram um grupo de 13 fazendas que apresentaram SF em alta proporção na composição da SAU e formada principalmente por cultivos forra-geiros irrigados, estrutura próxima à da Comunidade do Junco. Em outra região ibérica, a Dehesa Extremenha, Milán et al. (2006), identificaram um grupo de 24 UPs de produção pecuária mista dentre 130, cujos valores de SF foram similares aos de Tapera. Usai et al. (2006), ao estudarem sistemas caprinos de 131 fazendas na Sardenha, caracterizaram um grupo de 11 unidades cujas disponibilidades de SF e superfície de cultivos também se assemelham aos da Comunidade da Tapera. No entanto, nessas três regiões mediterrâneas, as ST e SAU dos respectivos grupos de UP eram maiores que as relatadas no presente estudo. Apenas para a Comunidade Tiassol, pode-se admitir a relativa maior extensão média de SAU, visto que a área média dos estabelecimentos no Estado do Ceará é de 26,40 ha (IBGE, 2005) e nessa comunidade a média das UFs é de 26,05 ha (Tabela 3). Estruturalmente, o sistema forrageiro da Comunidade de Tapera, que corresponde a apenas 22,7% das Unidades de Produção estudadas, revela-se como o de estratégia mais apta a conviver com as condições de semiárido no município de Tauá, por propiciar a inter-relação de superfícies de cultivos de sequeiro e Caatinga em intermediária SAU, que é por sua vez, pouco mecanizada por trabalho exclusivamente familiar. 59 Vidal DL Conclusões Os fatores estatísticos mais importantes na diferenciação da estrutura forrageira nas Unidades de Produção estudadas estão relacionados à importância da disponibilidade de terra agriculturável e das forrageiras específicas de sequeiro adaptadas ao bioma da floresta Caatinga. Esses fatores explicam, assim, as principais estratégias estruturais adaptativas dos sistemas forrageiros nessa região semiárida do Ceará e permitem sua priorização na elaboração de políticas públicas específicas. Apesar da alta importância desses fatores na caracterização dos sistemas forrageiros semiáridos do Distrito analisado, foi observado que em todas as comunidades rurais as disponibilidades de superfícies absolutas são extremamente baixas. Apenas a superfície de Caatinga independe da disponibilidade de terra total e útil, o que evidencia um padrão estrutural adequadamente vinculado à floresta natural de área semiárida. As forrageiras de sequeiro, responsáveis por significativa parte da estrutura produtiva devem ser priorizadas em termos de área disponível em relação à SAU em todas as comunidades, pois suas respectivas incidências porcentuais são demasiado tímidas. A presença fundamental do fator trabalho de tipo familiar e da Caatinga, em todas as comunidades associados a baixos índices de mecanização, provavelmente, são os elementos que permitem a reprodução desses sistemas forrageiros em nível estrutural. Bibliografia Alonzo YM (2000). Potential of silvopastoral systems for economic dairy production in Cayo, Belize and constraints for their adoption. 81p. MSc Thesis - Universidad de Costa Rica, Turrialba. Araújo Filho JA, Carvalho FC, Garcia E, Sousa RA (2002). Efeitos da Manipulação da Vegetação Lenhosa sobre a Produção e Compartimentalização da Fitomassa Pastável de uma Caatinga Sucessional. Revista Brasileira de Zootecnia, 31, 11-19. Blazejczyk-Majka L, Kala R, Maciejewski K (2008). Employment and labour efficiency in European agriculture, 2004. Eletronic Journal of Polish Agricultural Universities, 11(3), #8. BRASIL, Lei nº 8.629. (1983). 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