O Memorial da Cabanagem como espaço colateral Camila Silva do Carmo (1) Alcyr de Morisson Faria Neto (2) (1) Graduanda em Arquitetura e Urbanismo, Estácio|IESAM, Brasil. E-mail: [email protected] (2) Prof. Esp. do Curso de Arquitetura e Urbanismo, Estácio|IESAM, Brasil. E-mail: [email protected] Resumo: Este artigo tem como finalidade explorar o caso do Memorial da Cabanagem, monumento construído pelo arquiteto Oscar Niemeyer, no contexto onde está inserido. A obra, localizada na confluência de vias do Entroncamento, fora aviltada, pelas autoridades públicas, a um espaço colateral, pois tem seu propósito e valor negligenciados, a partir do consentimento da construção do Complexo Viário do Entroncamento no entorno, que inibiu sua visibilidade e função na dinâmica urbana do lugar. O estudo é apresentado a partir de análises documentais, bibliográficas e descritivas, que constatam a falta de vitalidade nas políticas públicas para com os patrimônios histórico-culturais, o que leva tais espaços à subutilização, ou ao total abandono. Palavras-chave: Memorial da cabanagem; Espaço colateral; Política Públicas; Patrimônios. Abstract: This paiper aims to explore the case of Cabanagem Memorial, monument built by architect Oscar Niemeyer, in the context where it was. The project, located at the confluence of the Entroncamento high way, was downgraded by public authorities in a collateral space, ignoring its purpose and value, from the consent of the Road Complex of Entroncamento construction, which inhibited their visibility and function in urban place dynamics. The study pass by documentary, bibliographic and descriptive analyses, which show the lack of vitality in public politic toward the historical and cultural heritage, which leads such spaces to underutilizatior or total abandonment. Key-words: Cabanagem memorial; Collateral space; Public politics; Heritages. 1. INTRODUÇÃO Borde (2006, p.14) conceitua espaços residuais como “Terrenos localizados em áreas providas de infraestrutura que não realizam plenamente a sua função social e econômica, seja porque estão ocupados por uma estrutura sem uso ou atividade, seja porque estão de fato desocupados, vazios”. Já Dittmar (2006) define vazios urbanos como áreas construídas ou não, que atuam como resíduos do crescimento das cidades, resultados espaciais de uma antiga atividade, onde houve um processo de esvaziamento ou subutilização. Para Magalhães (2005), os espaços colaterais são paradoxais no sentido de que, apesar de serem símbolos de “perda de vigor” das cidades, são suscetíveis à transformação. Os terrenos ociosos exercem um paradoxal "poder de confiança" no ambiente urbano, pelo seu potencial em influir na perda da vitalidade urbana e, ao mesmo tempo, constituírem os espaços potenciais para a transformação da condição atual. Em outros casos, também podem ser incluídas nessa categoria aquelas construções cuja utilização deixou de ter interesse econômico e permanecem em pé, mas com ociosidade. (MAGALHÃES, 2005, apud CLEMENTE, 2012, p.30) 1|9 Assim, espaços colaterais definem-se como “sobras espaciais” em meio às cidades, onde a paisagem fora (des)caracterizada, segundo seu entorno, de forma antônima ao seu uso ou função originais. Tais espaços ora nascem como um espaço residual, ora tornam-se, quando são assim caracterizados. Por vezes aderem-se às necessidades do local residente, atuando também como áreas subutilizadas que geram atrativos para atividades ilícitas. Estes resíduos agem fora do eixo do planejamento urbano, e dessa forma, são passíveis de modificações congênitas durante sua existência. Por conseguinte, a cidade de Belém, no Estado do Pará, como uma das primeiras colônias de Portugal no Brasil, é dotada de patrimônios histórico-culturais – os quais habitam preteridos no contexto urbano – que desenham a história de sua população, sendo em grande maioria, frutos da época colonial, “a expressão representativa de Belém na sua Belle Epóque é a arquitetura eclética, que emprega, simultaneamente, elementos construtivos provenientes de diversos estilos e busca, principalmente, efeitos decorativos” (BRUNA; FERREIRA, 2004, p. 76). Porém, além da herança patrimonial concebida nesse período, a cidade também abriga obras modernistas de cunho arquitetônico imprescindíveis para a cultura paraense, dentre elas, o Memorial em homenagem à Cabanagem, projetado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, inaugurado em sete de janeiro de 1985. O Memorial da Cabanagem (FIGURA 1) localiza-se em um dos principais pontos de entrada e saída da cidade de Belém, sendo o único monumento construído pelo arquiteto em toda a região norte e nordeste. A obra, feita em concreto com 15 metros de altura e 20 metros de comprimento, tem como objetivo expressar a luta do povo Cabano contra a tirania do estado imperial, cuja é representada por uma rampa que se inclina ao horizonte, pois segundo o arquiteto, a rampa representava o percurso da História, tendo ao meio uma fratura (pedaço ao chão), representando a ruptura do processo revolucionário, porém o bloco ainda sobe ao infinito, pois a Cabanagem continua viva na memória do povo paraense. Além disso, o conjunto arquitetônico agrega também um museu-cripta, em homenagem aos cinco grandes líderes cabanos: Eduardo Angelim, Cônego Batista Campos, Francisco Vinagre, Antônio Vinagre e Feliz Antônio Clemente Malcher. FIGURA 1 – Memorial da Cabanagem. Fonte: Google (Data indefinida) 2|9 Entretanto o monumento da Cabanagem, apesar de seu cunho histórico de extrema relevância cultural nacional, jaz no contexto espacial onde está inserido e na memoria da população. A obra é desvirtuada de seu conceito e função iniciais devido à negligencia do poder público, a partir da inserção de elementos no entorno que inibem sua visibilidade e obstruem o acesso dos visitantes. 2. OBJETIVO Este trabalho tem como objetivo precípuo analisar o Memorial da Cabanagem como um espaço colateral nos dias atuais. O descaso do poder público com a obra ignora sua importância históricocultural, e desconstrói suas funções essenciais na dinâmica espacial no entorno do Entroncamento. Os objetivos específicos apresentados consistem no levantamento da relevância histórica do monumento, análise do entorno, além da sistematização dos pontos determinantes para a caracterização de “espaço residual” do elemento em questão. 3. JUSTIFICATIVA 3.1. Desvalorização do patrimônio Os monumentos históricos atuam como fonte de autoconhecimento para uma população, já que são considerados uma manifestação artística em prol da sobrevivência de memórias que constituem a identidade cultural de determinado lugar. “Os patrimônios são, assim, instrumentos de constituição de subjetividades individuais e coletivas, um recurso à disposição de grupos sociais e seus representantes em sua luta por reconhecimento social e político no espaço público” (GONÇALVES, 2002, p.122). Em estudos publicados, ainda por Gonçalves (2005), o autor faz uma análise à relatividade das concepções adotadas à importância do patrimônio nas sociedades modernas, onde afirma que o poder público não deve ser o único responsável pelas atividades que envolvem um bem patrimonial, mas sim, a sociedade como um todo, pois tal bem precisa estar diretamente relacionado ao seu público. O monumento da Cabanagem tem como propósito aproximar a sociedade à sua própria história, à história de luta do povo cabano, que por anos tivera sua imagem marginalizada. A localização fora escolhida de acordo com sua importância histórica, pois a rampa aponta para a vila de Icoaraci, local de extrema relevância para a Cabanagem, onde muitos revoltos cabanos foram enterrados. Entretanto, para Belém, acabou tendo também uma importância econômica, já que o Entroncamento localiza-se na confluência das principais vias de acesso da cidade, o que fomentaria o turismo e a geração de capital na região. Apesar disso, o Memorial da cabanagem tornou-se passível de abandono poucos anos após sua inauguração, pois já atuava como abrigo para moradores de rua, além de possuir altos níveis de periculosidade e ser degradado diariamente por pilhas de lixo (Diário do Pará, 1987, p.10, c.9). Em 1997, o monumento fora totalmente restaurado pela prefeitura, entretanto a partir desta data, o monumento foi gradativamente reassumindo seu estado de subutilização e depredação. O Entroncamento é localizado em uma área periférica da cidade, de livre comércio, cuja informalidade é intrínseca ao modo de vida dos habitantes, em suas relações sociais e econômicas. Um estudo anterior realizado na região (ALENCAR; ANDERSON, 2007) constatou que grande parte da população que habita e/ou convive na localidade, possui renda proveniente do comércio informal, sendo constituída de feirantes, camelôs, pequenos comerciantes, entre outros, e que a maioria desses usufruintes desconhece o significado do monumento localizado no cruzamento das vias. Tal fato é 3|9 caracterizado principalmente pela deficiência na educação artística voltada para as classes de baixa renda, que acabam por ter sua participação no meio social delimitada. O centro e a periferia, como estratégias de localização dos indivíduos, representam modos de vida, e mais que isso, histórias que se refazem, transformando as gerações de classe localizadas em periferias em excluídos eternos, tanto do ponto de vista social quanto político e econômico. (ALENCAR; ANDERSON, 2007, p.12) Portanto constata-se que não há um direcionamento da obra para com o contexto social onde está inserido, o que atribui ao monumento caráter unicamente turístico e estético, porém que não cumpre sua função de interação com o meio onde está inserto. Deste modo, a desvalorização dos monumentos por parte da população paraense, e consequentemente do Estado, desencadeou na falta de investimento e de verba necessária para a manutenção e restauração do patrimônio público na cidade de Belém. A obra, não obstante, de sua extrema relevância numa diversidade de segmentos, não é tombada por nenhum órgão governamental. O ato de tombamento tem como objetivo, segundo Bogéa (2007), preservar, através da aplicação de legislação vigente, um bem de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e até afetivo social, garantindo sua manutenção e preservação. 3.2. Construção do Complexo viário do Entroncamento Em 2006, a prefeitura inaugurou o projeto viário do Entroncamento para facilitar o acesso de Belém às regiões metropolitanas através de um túnel sob a Praça Memorial. O túnel abrigaria três óculos para a superfície, que, desde já, modificavam a paisagem do lugar. A obra foi seguida da construção de três passarelas para pedestres dando acesso ao Memorial, como uma tentativa de retomar o laço entre o espaço e a população, porém a construção acentuou a criminalidade do local, que se tornou ainda mais propícia a assaltos e ao narcotráfico. Mais tarde, a prefeitura de Belém aprovou o projeto para a construção do Elevado do Complexo viário do Entroncamento (FIGURA 2), que consiste na coexistência de elevados que interliguem as vias Av. Almirante Barroso, Av. Pedro Alvares Cabral, Rod. BR 316 e Rod. Augusto Montenegro concomitantemente, além de dispor de uma faixa exclusiva para o transporte público BRT (Bus Rapid Transit). Portanto, houve a necessidade de deslocamento das passarelas para pedestres para a alocação das vias elevadas, onde o poder público optou por obstruir totalmente o acesso ao largo do Entroncamento (FIGURA 3), fomentando assim, a subutilização do espaço. 4|9 FIGURA 2 – Complexo Viário em obras. Fonte: Thais Rezende/G1 (2012) FIGURA 3 – Complexo Viário, sem acesso ao memorial. Fonte: Elói Raiol (2014) PEREIRA (2011) cita o mau planejamento urbanístico rodoviário, e o descaso público, como causas do surgimento dos espaços residuais nas cidades: [...] Outro motivo para o surgimento deste tipo de espaços foram os maus planejamentos rodoviários, que deixaram acumular áreas residuais nos pontos de intercepção do tecido urbano tradicional com as 5|9 desproporcionadas vias de circulação, gerando cicatrizes nos centros urbanos. Um terceiro motivo, para a proliferação dos terrenos vagos, foi a regeneração do mercado imobiliário e do poder público, no sentido em que foram postos de lado quer pelos urbanistas, quer pelos próprios municípios e, consequentemente, encarados como sobras dos interstícios das zonas de desenvolvimento imobiliário da cidade. (PEREIRA, 2011, p. 97) Portanto constata-se a falta de planejamento urbanístico apropriado para a incorporação do monumento ao complexo rodoviário, o que desencadeou no total abandono, definhando todo e qualquer meio de acesso ao local, seja de pedestres ou automóveis. 4. MÉTODO EMPREGADO Para o desenvolvimento do projeto fora realizada pesquisa de caráter descritivo. Este tipo de pesquisa ocorre quando se registra, analisa e correlaciona fatos ou fenômenos, sem manipulá-los (CERVO; BERVIAN; DA SILVA, p. 79, 2007). Dada a partir da análise de dados, e coleta de dados a partir de observação, a caráter exploratório, para melhor compreensão do problema através da inserção do pesquisador no contexto. (GIL, 1999) Além disso, houve a execução de pesquisa documental, para análise e descrição das características e fatos procedentes relacionados ao monumento, objeto de análise deste trabalho, bem como um estudo de seu contexto, para melhor compreensão de seu funcionamento no meio. Bem como pesquisa bibliográfica, para análise geral dos elementos urbanísticos em questão, a partir de materiais como livros, dissertações e artigos. Grande parte do estudo foi realizada junto ao Departamento do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Estado do Pará - DPHAC. Onde foi possível ter acesso à documentação, processos e trabalhos correlatos para a constatação de procedência desta análise. 5. RESULTADOS OBTIDOS A partir de estudos de caráter documental e bibliográfico, certificou-se que a área do Entroncamento pertencia, inicialmente, ao DNER - Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (atual DNIT), órgão federal vinculado ao ministério dos transportes, barreira encontrada pela prefeitura de Belém para a construção do monumento, mas que fora superada em 17 de abril de 1984, quando o então prefeito Almir Gabriel assinou o contrato de transferência do terreno para o município. O departamento, antes disso, já havia planejado a construção de três viadutos no local, entretanto a obra foi adiada devido à construção do Memorial no local. Entretanto, não foi possível ter acesso aos documentos referentes ao projeto inicial dos viadutos, planejado pelo Órgão Federal. Sendo necessário, entrar com uma solicitação formal para a averiguação dos demais documentos, o que demandaria demasiado tempo para a conclusão deste trabalho. Uma série de documentos e artigos publicados constata o descaso com o espaço poucos anos após sua construção, sendo um dos principais motivos, a falta de verbas públicas para sua restauração, resultando na falta de vigilância, iluminação e até manutenções básicas. O que, desde já, salientava a insatisfação dos moradores e frequentadores do entorno para com o monumento construído, mas principalmente, para com a negligência pública perante a obra. 6|9 Em 2007, o Ministério Público do Estado, através do órgão de defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural de Belém, encaminhou diversos processos referentes à solicitação de tombamento do Memorial da Cabanagem, para os órgãos responsáveis por este tipo de procedimento, como IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e SECULT – Secretaria de Cultura do Pará. Entretanto todos os processos que foram indeferidos pelos órgãos destinatários. No parecer técnico da SECULT indeferido, condizente ao pedido de tombamento do elemento arquitetônico, fora prevista a tendência de o lugar tornar-se um espaço residual, a partir da aprovação de construção do projeto rodoviário no entorno, até então não finalizado: Considerado uma obra de arte, o monumento caracteriza a paisagem urbana de Belém localizado na entrada da cidade. No entanto, sua presença parece não ser tão expressiva. Outros elementos urbanos e edificações vem assumindo o papel como marco da entrada da cidade. Sua localização no ponto de confluência de vias arteriais (duas rodovias e duas avenidas) prejudica a fluência de pedestres e não permite o acesso de visitantes motorizados, devido à redução da área de entorno imediato outrora existente em razão das obras do novo Complexo Viário do Entroncamento, parcialmente construído em 12 de setembro de 2006, com túneis subterrâneos e a previsão de viadutos. (2007, p. 12) Com isso, é notório que os interesses políticos e econômicos, com a construção do complexo rodoviário, foram sobrepostos à importância histórica, cultural e social da obra de Niemeyer, omitindo seu reconhecimento oficial como patrimônio e suas representações. As autoridades desfiguram sua aplicabilidade urbanística no espaço e encaram-no, a partir de então, como um espaço colateral. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS Há falta de políticas públicas que, de fato, vigorem na proteção do patrimônio, não só no estado do Pará, mas em todo o país. O patrimônio histórico e cultural é um bem público, que deve ser resguardado e mantido, pois representa a identidade de determinada comunidade ou nação, agindo como elemento essencial na compreensão de sua história e origem. Apesar de sua importância, do ponto de vista arquitetônico, histórico e cultural, o Memorial em homenagem à Cabanagem, encontra-se depredado, e desprovido de funcionalidade no local onde está inserido, sendo o principal motivo, o descaso das autoridades públicas, cuja não teve a idoneidade de agir de forma congruente para com a obra de Niemeyer, que representa parte vital para a história da população paraense e de todo território nacional. A construção do complexo rodoviário no entorno acentuou o que já existia no espaço: subutilização, disfunção e marginalidade. Todavia, foi a partir da execução do projeto viário que o lugar fora completamente abandonado e desintegrado, de fato, do contexto urbano. Não havendo após, por parte do estado, qualquer tentativa de recuperação e reintegração do Memorial na malha urbana, aviltando-o assim, a um resíduo espacial em meio à cidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENCAR, B. R. O; ANDERSON, K. C. S. 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