O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
Para o Luís.
Obrigado por me ensinares que é a amizade
o alicerce para um grande amor.
É sempre para ti que escrevo.
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
"Live as if you were to die tomorrow.
Learn as if you were to live forever.”
Mahatma Gandhi
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
PRÓLOGO
Numa pequena ilha, onde a água há séculos tenta subjugar a terra construída pelo
Homem, um caminho estreito e empedrado leva até uma livraria cujo nome, de tão
discreto, se apaga na memória dos que por lá passam.
No seu interior secular revestido a prateleiras de madeira, um Livro permanece
esmagado entre tantos outros semelhantes a ele, todos pacientemente enfileirados,
pacientemente aguardando o dia da partida.
O que diferencia este Livro dos restantes que o acompanham é que ele não aguarda
a mão Humana que lhe dará a liberdade. Ele é provido de liberdade.
O que ele aguarda? É a história que vou contar.
A ilha que vos falo é Veneza, e estas as palavras que iniciavam o Livro…
“Antes do início do Tempo, quando os Filhos Do Homem eram ainda
crianças, um anjo lutou pela conquista da sua própria liberdade. O nome
desse anjo era Lúcifer, e muitos outros anjos o seguiram.
Da rebeldia, nasceram batalhas eternas entre Seres imortais.
Lúcifer e o seu exército não podiam morrer, mas podiam Cair.
No Final, Lúcifer Caiu, e todos caíram com ele.
Foi o início do novo tempo. O Tempo em que os derrotados se juntaram aos
Filhos do Homem na Terra e o escrutínio começou.
Caçados, julgados, sentenciados, e exilados; os que outrora haviam sido
anjos transformaram-se em sombras caídas dos mortais que um dia os
haviam adorado. Meros espectros vazios de seres celestiais.”
۩
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
PRIMEIRA PARTE
“Vai-se-me em névoa o mundo. Emanações subtis
que exalais, vem tornar-me aos anos juvenis.
Que imagens que trazeis de dias tão risonhos!...
Caras sombras! sois vós? aéreas como em sonhos?”
In “Fausto” de J. Goethe, 1919
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
TEMPO DO PASSADO
Londres, actualidade
O
Tempo tem um estranho senso de humor. Não interessa qual o momento, é sempre cedo
demais para umas coisas e tarde demais para outras, mas nem é por isso tudo deixa de
acontecer.
Henrique tentava segurar-se ao pouco que restava da tranquila dormência do sono. Ainda não
queria a consciência de volta, era cedo demais, mas o som ininterrupto das teclas do computador
era mais uma vez o despertador da manhã. Não precisava abrir os olhos para ver o rosto
compenetrado de Pedro a fitar o monitor do MacBook.
Pelos minutos, os dedos ágeis insistiam em dar voz ao teclado e mantinham o murmurinho no ar.
Era impossível voltar a adormecer.
“Não tinhas entregado o teu último trabalho ontem!?” Perguntou Henrique em tom de protesto.
“Sim, sim.” Veio a resposta distraida sem dar descanso às teclas.
Bolseiros universitários em Londres, nos últimos cinco anos ambos se tinham habituado à
ausência de horários para comer, dormir, tomar banho, beber café, estudar, ou qualquer outra
coisa fora do plano de aulas; mas com o final do curso, Henrique tinha esperança, que tal como
ele, Pedro pretendesse passar as últimas duas semanas de vida académica com um bónus de
normalidade nos dias.
“O que é que te faz estar acordado ás…” Pegando no telemóvel para saber as horas Henrique
esfregou os olhos incrédulos. “…cinco da manhã!?” Cobrou indignado.
“Estou a arranjar uma noiva!” Veio a revelação entusiasmada. Com uma gargalhada Pedro deu
um pontapé no colchão do beliche de Henrique que ficava por cima da sua cabeça. “Ou pensas
que eu vou voltar para Portugal sem ter uma lady Tuga à minha espera!?”
“Pára lá de dar pontapés no colchão!”
“Não sejas rabugento!” Devolveu com ar de troça. “Ainda vais chorar por mim quando fores
sozinho para os States.” As teclas continuavam e o silêncio de Henrique no beliche de cima ficou
maior. “Já sabes quando vais para Stanford?”
“Não.” A resposta veio abafada pela almofada. «Cedo demais... Cedo demais...»
“E quando é que vais saber? Precisas tratar da papelada toda…” Comentou.
“Não sei… ainda não dei uma resposta…” «Cedo demais...»
O teclado ficou mudo pela primeira vez. “Estás doido!? Pensei que estavas no gozo quando
disseste que estavas com dúvidas. É Standford porra!!! No time for cold feet!1”
Henrique suspirou e deixou a cama num salto até ao chão tentando fugir ao assunto. “Não quero
falar sobre isso.” Pedro abriu a boca com intenção de não obedecer mas ele impediu-o decidido.
“A sério! Não quero falar.” Voltando as costas ao beliche procurou a roupa e os ténis de corrida
1
Tradução do inglês: “Não é tempo para hesitações.”
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
no meio do caos de desarrumação masculina pelo minúsculo apartamento de 50m2. A sala, o
quarto, o escritório, a cozinha, todos partilhavam a mesma área; apenas a minúscula Kitchenette
era parcialmente protegida por uma parede; e o quarto de banho o único privilegiado com uma
porta.
«Preciso de ir correr.» Pensou Henrique vestindo-se e ansiando a liberdade da corrida matinal.
Sem mais uma palavra, pegou no ipod e saiu, deixando para trás Pedro ainda com um aceno de
cabeça desaprovador e o som cadenciado do teclado.
§
Na rua, a noite ainda mantinha tudo em profundo silêncio. Enquanto procurava a playlist Running
no iPod, Henrique sentiu no rosto a frescura das últimas brisas da madrugada. «Vou mesmo sentir
falta disto.» Pensou nostálgico ao estender o olhar ao longo do passeio de betão. Era o silêncio
deserto, as àrvores, os candeeiros públicos cansados e a sua iluminação amarela, toda a paisagem
que o rodeava e havia sido imutável companheira de corrida nos últimos anos; tudo o Henrique
mais desejava era que tudo continuasse igual.
Ao colocar o iPod na fita do braço, Lisa voltou-lhe à memória, a ex-namorada, tinha sido um
presente dela no último aniversário há quase um ano atrás. «Talvez devesse ligar-lhe.» Pensou
com algum remorso pela forma como tinha terminado o namoro, sem conseguir dar-lhe pelo
menos uma razão concreta para o ter feito.
A música dos Linkin Park preencheu-lhe os ouvidos e focou-lhe o pensamento. Ele não queria
procurar Lisa, aquela era apenas mais uma das muitas ideias que nos últimos dias se apanhava a
procurar inconscientemente na esperança de conseguir uma razão suficientemente forte para
justificar uma recusa de Standford, uma razão que lhe permitisse esconder do mundo a cobardia
em enfrentar um novo desafio, num país desconhecido, numa faculdade tão prestigiada que o
fazia sentir insignificante, com pessoas estranhas ao lado das quais as suas capacidades de aluno
brilhante ficariam ofuscadas e todo o trabalho académico dos últimos cinco anos pareceria banal.
«Cedo demais...»
Em poucos minutos Henrique já transpirava, embora não conseguisse distinguir qual era a
percentagem causada pelo esforço e qual era a percentagem causada pelos medos e ansiedade.
Os Linkin Park tinham sido substituídos pelos Cold Play, e a noção de tempo foi-se perdendo à
medida que conseguia esvaziar a mente e dar o controle temporário da sua vida aos músculos que
o mantinham a correr.
Sem se darem a perceber, a noite passou o testemunho ao dia, fazendo do sol fresco da manhã de
Julho um novo companheiro.
Nos passeios, começaram a juntar-se cada vez mais pessoas roubando o espaço com a sua
presença, afastando o silêncio, e empurrando Henrique de volta ao apartamento.
§
“Isso deve ser mesmo amor!” Comentou Henrique em tom de troça ao entrar no apartamento e
ver que Pedro continuava na mesma posição em que ele o deixara duas horas antes.
“Esta vai ser minha noiva!” O sorriso era mistura de confiança e desafio.
“Há quanto tempo a conheces?” Perguntou sabendo que a resposta viria em unidade de dias ou
até horas.
“Dois dias…” Respondeu como se tratasse de um feito.
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
Com uma gargalhada vitoriosa pela aposta privada, Henrique comentou enquanto pegava num
copo de água. “Então está garantido. Esse é o tempo médio de um noivado no mundo
ocidental…” E depois de levar o copo à boca perguntou curioso. “Ela é ocidental?”
“Podes gozar à vontade!” Retorquiu Pedro ignorando a critica implícita. “O que interessa é… a
intensidade…” Declarou dando ênfase sonhador à palavra. “Se fosse uma questão de tempo tu e a
Lisa estavam prestes a casar.” E fitando Henrique com o mesmo ar de troça que ele tinha usado
consigo, acrescentou. “Oh! Agora me lembro… foi exactamente por isso que terminaste o namoro
com ela!”
Atirando-lhe com um jornal que estava esquecido na mesa da Kitchenette, Henrique deu assim a
resposta à provocação e foi tomar duche.
Na casa de banho, deu com o olhar preso no reflexo do espelho; pela primeira vez desde há
muito, parou e viu-se. Queria guardar a sua imagem naquele momento de encruzilhada; gostava
do que via, as corridas tinham-lhe moldado o corpo aperfeiçoando-lhe todos os músculos, o seu
rosto era estreito, clássico e simétrico, e o castanho claro do cabelo liso que lhe caía sobre a testa
combinava com verde-mar dos olhos; fossem quais fossem as suas decisões nas próximas
semanas, o certo é que uma importante fase da sua vida terminava ali.
“Tudo vai mudar.” Murmurou, olhar preso no espelho.
A água quente no chuveiro continuava a cair e o vapor veio apagar o rosto belo e jovem, mas o
pensamento mantinha-se lá. Ele não podia continuar a ser a mesma pessoa. Era tarde demais.
Ao regressar à sala mais limpo de corpo mas não de mente, Henrique viu que Pedro apenas se
tinha mudado da cama para a secretária em vidro que ambos dividiam, e que era uma das peças de
mobiliário que mais espaço ocupava no apartamento.
“Pronto, rendo-me!” Anunciou ao encontrar o amigo ainda com o olhar hipnotizado pelo brilho
do monitor. “Agora estou curioso. Deixa-me ver a beldade.”
Pedro sorriu e puxou-lhe a cadeira convidando-o a juntar-se a ele. “Olha-me este avião! Rafaela.”
Disse pondo no ecrã uma foto de uma rapariga morena seminua cujos peitos avantajados e falta
de pudor saltavam aos olhos.
“Será que é mesmo ela ou foi buscar a foto a uma revista porno!?” Perguntou com uma
gargalhada.
Pedro deu-lhe um encontrão com o ombro. “Respeito! É a minha futura noiva.” Voltou a dizer
mas esquecendo de disfarçar o ar de troça. “Esta foto não está na net, ela enviou-me por mail.”
Esclareceu.
“Assim já fico mais descansado!” Henrique não abandonava o tom sarcástico. “Só depois de te
conhecer há dois dias é que te enviou imagens mais íntimas.”
“É uma menina decente.” Assegurou Pedro tentando manter um ar sério. “Olha a página dela do
hi5.”
“Gosto dos corações cor-de-rosa cintilantes.” Henrique escondeu mal o sorriso com a mão.
Embora fosse obrigado a admitir que a página do hi5 e as novas fotos de Rafaela a fizessem
parecer uma comum rapariga de vinte e dois anos, a aura de depravação continuava lá.
“É linda…” Continuava Pedro a divagar passando várias fotografias.
Henrique ria, não estava preocupado com o amigo, sabia como ele coleccionava aquelas estranhas
relações on-line paralelamente com as não on-line que lhe ocupavam o resto do dia, e a Rafaela
não era em nada diferente de tantas outras que a tinham precedido.
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O Diabo dos Anjos
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Mas na transição de janelas no monitor, um pequeno quadrado quase imperceptível no meio de
tantos outros com fotografias, continha um rosto lhe roubou o sorriso. “Pára!”
Pedro saltou com o susto e quase deixou a cadeira tal foi a proximidade e volume de voz da
ordem. “O que é que foi?”
“Volta a trás.” Pediu Henrique agitando o dedo junto ao ecrã como se fosse possível revertê-lo tal
como um livro.
“OK.” Assentiu já recuperado do susto e afastando-se para ganhar uma distância de segurança.
“Voltemos atrás. O que procuras?”
“Eu conheço-a.” Murmurou apontando o pequeno quadrado no monitor. «Amanda.» O nome que
há anos se tinha obrigado a esquecer parecia-lhe totalmente novo.
“Se a conheces, eu também a vou passar a conhecer.” Disse Pedro com um sorriso de
investigador e clicando na fotografia. “Ups!” Lamentou-se logo de seguida. “Privado. Não dá
para ver nada senão a foto do perfil mas se a conheces envia-lhe um pedido de amizade.” Sugeriu.
O olhar de Henrique estava colado ao rosto de olhos negros que sorria no ecrã e a sua resposta
saiu arrastada. “Não tenho conta no hi5… só no Facebook.”
“Vamos lá ver se ela está no Facebook.” Disse abrindo a página da rede social e pesquisando
Amanda Liz.
No escasso segundo que a pesquisa demorou o sangue de Henrique ganhou velocidade nas veias e
disparou-lhe o ritmo cardíaco de expectativa. «É ela.» Pensou ao ver a mesma fotografia
ligeiramente ampliada.
“Aqui está.” Vangloriou-se o aspirante a hacker que vivia dentro de Pedro. “É só fazeres log in e
enviares o pedido.” Disse afastando-se para lhe dar acesso ao teclado. Vendo que Henrique não se
movia, perguntou com olhar desconfiado. “Tu conheces mesmo a rapariga ou estava a reinar
comigo para me obrigares a deixar a minha Rafaela pendurada no chat?”
“Conheço.” Garantiu. Mas em vez de aceitar a oferta do teclado, levantou-se e fingindo procurar
alguma coisa por entre a desarrumação que os rodeava tentou disfarçar o interesse. “Depois eu
faço isso.”
“Como quiseres…” Assentiu Pedro forçando as rodinhas da cadeira a levarem-no de volta para
junto do computador. “…eu cá vou voltar para a minha Rafaela.”
Depois de deambular pelo apartamento esquecido de que não procurava nada, Henrique subiu
para o beliche e prendeu o olhar no tecto.
Sem pedirem autorização, memórias de um passado recente mas muito distante voltaram em
imagens que ele julgara já apagadas.
§
O sol de Inverno brilhava com intensidade desafiando o frio que por direito acariciava a praia
em manhã de Janeiro.
Henrique corria espalhando risos felizes por entre as gaivotas, forçando-as a deixar o areal e a
voltar para o seu voo plano no céu azul.
A areia húmida e fria nos pés fazia-lhe cócegas na pele multiplicando os risos e a liberdade que
a inocência oferece às crianças.
Gargalhadas que não eram dele pareciam persegui-lo.
Quando olhou para trás, encontrou o rosto sorridente de Amanda. Ela também corria. Braços
pequenos esticados tentavam alcançá-lo. Ele sorriu ainda mais ao vê-la sorrir.
Tropeçando nos próprios pés, Henrique caiu na areia gelada e Amanda caiu por cima dele. Os
seus rostos ficaram próximos, ambos corados da corrida, olhos brilhantes de riso.
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O Diabo dos Anjos
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Foi então que ele a viu como nunca antes a tinha visto e como nunca mais conseguiria deixar de
a ver.
Os longos cabelos caídos ladeavam-lhe o rosto entre duas cortinas de oiro; escassos raios de sol
entreviam-se tornando mais profundo o negro dos olhos dela. O som da respiração acelerada de
ambos e o bater dos corações eram tão intensos aos seus ouvidos que conseguiam abafar o som
da rebentação das ondas revoltosas do mar do norte.
Os sorrisos desvaneceram-se com o secretismo que nascia daquele momento, Henrique estava
preso na cortina de oiro, no olhar que o segurava sem vontade de voltar a saber o que era antes
daquele instante, e foi então que Amanda se aproximou e juntou os seus lábios.
Tinham dez anos, e no secretismo deserto da Praia Das Rochas Negras viveram juntos o
primeiro beijo.
§
Henrique acordou com a respiração ainda ofegante e o cheiro a maresia. As memórias não o
tinham deixado nem ao adormecer, repetindo-se incansáveis e mais reais do que nunca em
sonhos.
Os acordes da música de abertura da série Dexter no toque de chamada do telemóvel trouxeramno de volta à realidade. Procurando o pequeno Samsung por entre os lençóis, tentou normalizar a
voz, e atendeu com rapidez. “Hello.”
“Alinhas numa noitada hoje?” Perguntou a voz entusiasmada de Pedro.
Henrique passou a mão pela cara afastando o sono e olhou do topo do seu beliche o apartamento
vazio. O MacBook continuava ligado sobre a mesa de vidro mas sem Pedro.
“Onde é que te meteste!?”
“Estou com o Mark no Starbucks, ele diz que consegue pôr o nosso nome na guestlist de um Bar
novo em Picadilly. Queres vir ou não?”
“Pode ser…” Concordou sem grande entusiasmo. As saídas à noite nunca o tinham conseguido
seduzir; um bom filme e algumas pipocas no conforto do pequeno sofá do apartamento pareciam
sempre mais tentadores.
“Deal! Daqui a cinco minutos tou de volta!” Despediu-se Pedro, desligando logo em seguida.
Com a noite a espreitar do outro lado da janela, Henrique saltou da cama na tentativa de deixar
para trás as incómodas memórias de infância. Sentiu-se paranóico por ter a sensação de que o ecrã
luminoso do Macbook o fitava em desafio. Aproximou-se e fechou-o; mas antes de a sua mão o
largar, voltou a abri-lo. Olhou-o. Passados dois segundos, voltou a fechá-lo. «Estou a ficar
louco!» Pensou abanando a cabeça e tentando colocar as ideias em ordem.
Pegou num exemplar do terceiro volume de “O Senhor Dos Anéis” que lia pela terceira vez e
deitou-se no sofá, mas naquela tarde, os seus olhos desviaram-se por várias vezes dos caminhos
rectos das letras no papel branco em direcção aos dois computadores na secretária de vidro e nem
a épica batalha de Minas Tirith conseguiu prender-lhe a atenção.
‫۝‬
AVENTURA
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
C
omo seria de esperar numa sexta-feira à noite, Picadilly estava ao rubro, dominada pelos
turistas e pelos companheiros da noite que se começavam a dividir nas várias filas de
entrada para os Bares e discotecas.
Se em dias comuns Henrique tinha dificuldade em conseguir encontrar entusiasmo nos cenários
iluminados e barulhentos da noite, naquele estava a revelar-se impossível.
O seu grupo de amigos de sempre estava espalhado pelas pistas de dança e pelos bares dos vários
pisos; quase todos eram portugueses, o que fazia com que por vezes quase se esquecesse de que
não estava em Portugal.
Sentado num dos recantos esquecidos da discoteca na companhia de um Vodka Limão, Henrique
deixava o corpo afundar na poltrona almofadada e o olhar perder-se na parede de luzes coloridas
de Picadilly do outro lado da janela.
A memória do primeiro beijo com Amanda, tinha trazido também a memória da promessa que
acompanhara o último beijo.
۞
Portugal, 5 anos antes
“Amanhã é o grande dia.” Amanda olhou as malas já fechadas junto à porta do quarto de
Henrique. “Acho que só agora é que estou mesmo a acreditar que vais embora…”
“Vá lá, não sejas sentimental.” Pediu ele juntando a mão dela à sua. “Com o fim do secundário
iamos ter de nos separar de qualquer forma. Se eu não fosse para uma faculdade em Londres, ia
para uma em Lisboa ou em… Trás-os-Montes!” Disse simulando um sotaque acentuado para a
fazer rir.
“Tens razão.” Concordou com um novo ânimo. “Algum dia teríamos de aprender a viver um sem
o outro!”
“Sim.” Uma gargalhada sonora de concordância conquistou-o por momentos. “Nascemos
praticamente ao mesmo tempo, lado a lado no mesmo quarto de hospital e desde que nos
conhecemos por gente que somos amigos! Está na hora de eu te dar umas férias!”
“Os melhores amigos!” Rectificou ela.
“Claro, os melhores amigos.” Concordou.
“Sei que se calhar vai ser difícil continuarmos amigos como somos hoje mas… nunca te vou
esquecer Henrique.”
“Nem eu!” Garantiu ele. E em tom de brincadeira acrescentou. “Depois de nos vermos todos os
dias dos primeiros dezassete anos da nossa vida… talvez fosse difícil esquecermos mesmo que
quiséssemos!”
“Vamos fazer uma promessa aqui e agora!” Desafiou Amanda.
“Que promessa?” Estava mais cauteloso do que curioso.
“É assim.” Começou a dizer com os olhos presos aos dele pelo entusiasmo. “Se no dia em que
fizermos 25 anos, nenhum de nós os dois for casado, tiver filhos, uma profissão estável, ou
qualquer coisa séria que nos prenda… e não interessa o sítio no mundo em podemos estar…
vamo-nos encontrar e fazer a Road Trip por Itália que sempre sonhamos!”
A ideia não era totalmente nova e com uma gargalhada conjunta disseram em coro o objectivo
infantil que há anos se propunham. “Comer mais lasanha do que o Garfield algum dia
conseguiria comer!”
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O Diabo dos Anjos
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“E se formos pobres e não tivermos chavo no bolso?”
Ela piscou-lhe o olho. “Não acredito que a fortuna dos meus pais desapareça em sete anos! Eu
ofereço, não há desculpa! Tens de aceitar!”
“Combinado!” Declarou Henrique oferecendo-lhe a mão.
Amanda aceitou-a num cumprimento cordial e sem aviso aproximou-se e juntou a suas bocas
num beijo rápido. “Boa viagem. Não esqueças de dar notícias.”
Ela saiu com um piscar de olho e antes que ele tivesse tempo para perceber o que se tinha passado
estava sozinho denovo. Depois de sete anos de um amor platónico, tinha de novo os lábios de
Amanda nos seus, para depois os perder novamente.
Aquele primeiro beijo de manhã de Inverno nunca foi falado nem esquecido. Agora o tempo
esgotara-se, e cada um seguiria o próprio caminho. Era impossível Henrique acreditar que
nenhum homem conquistasse a doce Amanda antes dos vinte e cinco anos, que não estivesse
casada e a viver uma vida perfeita como merecia.
Para se proteger da desilusão certa numa típica história do amigo pobre que se apaixona pela
amiga rica, Henrique guardou a idilica promessa de reencontro no esquecimento.
۞
“Henrique! Henrique!” Pedro gritava por cima do som ensurdecedor da musica. “Adormeceste de
olhos abertos com este barulho?” Perguntou sarcástico.
Arrancado à força da memória do seu quarto de adolescente, Henrique reparou finalmente nas
duas loiras que ladeavam o amigo. Podia não ter muita experiência de vida nocturna mas a
inclinação que o corpo das duas mantinha era garantidamente sinal de que a qualquer instante ia
sair da boca delas algo mais do que palavras e sorrisos embriagados.
“Tenho de ir embora.” Disse Henrique levantando-se de rompante e desaparecendo entre a
multidão que se movia ao som da música.
Habituado à personalidade incompreensível do seu companheiro de quarto, Pedro apertou o
abraço em redor da cintura das loiras e juntou-as contra si. “Parece que vamos ser só nós os três!”
Anunciou com sorriso satisfeito.
Ainda era suficientemente cedo para apanhar o metro de regresso a casa.
Em poucos minutos Henrique entrou no apartamento e sem sequer parar para pousar as chaves foi
até à secretária e ligou o Macbook. Sentou-se em frente do ecrã luminoso e nos escassos segundos
que ele demorou a ficar funcional, desembaraçou-se das chaves e do casaco.
«Não estou à procura de desculpa nenhuma.» Assegurava-se convicto. Faltava pouco mais de
uma semana para o aniversário de vinte e cinco anos dos dois. «Ela deve estar no mínimo…
noiva, ou tal como eu, com algum grande projecto profissional em mãos! Só quero saber como
está… que tipo de amigo de infância seria eu se simplesmente ignorasse que a tinha visto!?»
Ao abrir a página do Facebook o seu login foi feito automaticamente e, repetindo a busca de
Pedro, encontrou a página de Amanda e clicou no pequeno botão azul. “Send request”2.
‫۝‬
2
“Enviar pedido”
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
TEMPO E SONHOS
«Uma manada de gigantes elefantes vermelhos invade o estádio. Eles correm… o chão treme sob
os pés dos adeptos de olhar aterrorizado. E então… os elefantes transformam-se em jogadores de
futebol americano e a multidão vibra! Ahhhh, ahhhhh… As últimas descobertas na mutação
genética continuavam a superar tudo e a surpreender todos; pessoas transformavam-se em
animais e animais transformavam-se em pessoas. O planeta estava transfigurado e a raça
humana… condenada… não, sentenciada… não…»
O cursor piscava intermitente aguardando que Amanda se decidisse quanto ao futuro da
humanidade. “Raios!” Praguejou para o monitor. “E cá estamos nós outra vez! Sempre, e ainda…
block, block, block!!!!”
Era a quarta vez que tentava reescrever o primeiro capítulo do que deveria ser o novo livro mas o
resultado era sempre o mesmo e acabava com o olhar preso ao cursor do Word. Vários suspiros
depois fechava o portátil e ficava com a frustração.
«É melhor ir beber um copo.» Pensou pegando no telemóvel para ligar a Isabel. «O álcool pelo
menos nunca falha. Alegria garantida em estado líquido!»
Com um suspiro revitalizador, ouviu com atenção os três toques de chamada até serem
substituídos pela voz ensonada da irmã.
“Não devias estar a dormir?” Perguntou de imediato Isabel ao atender o telefone.
“Estou com insónias.” Mentiu. “Não queres ir beber um copo com a tua irmã preferida?”
Um bocejo antecedeu a resposta. “Já estou na cama e tu também devias ir para lá e não para um
bar.”
“É sexta-feira à noite!” Reclamou. “É Verão! A praia fica a dez minutos de distância de carro,
pelo menos quando sou eu a conduzir, e um número ilimitado de festas aguardam-nos! Vou-te
buscar aí ao quarto.”
“Não!” Pediu quase em desespero. Sabia que se a irmã fosse ao seu quarto não ia conseguir
resistir-lhe e só voltaria a casa quando fosse manhã. “O pai ainda está acordado, vais arranjar-nos
problemas. Que tal amanhã!?” Sugeriu na esperançada de fosse o suficiente para saciar o espírito
folião da irmã.
Um momento de silêncio a ponderar. “Está bem.” Amanda acabou por concordar sem grande
satisfação. “Dorme bem.” O suspiro de alívio de Isabel foi o último som ao desligar.
Olhando a garrafa vinho sobre a mesa da Kitchenette, deixou o telemóvel junto ao portátil e disse
com um sorriso resignado. “Parece que vamos ser só nós as duas esta noite.”
Com um copo na mão como companhia, Amanda saiu para a noite quente no jardim e sentou-se
no velho banco de mármore apreciando a mansão em frente iluminada por luzes escassas. Eram
quatro andares de paredes cobertas por trepadeiras que culminavam em três telhados bicudos de
diferentes dimensões. Lá dentro viviam os seus pais, a irmã Isabel, e até há três anos atrás,
também ela. Hoje olhava uma das janelas, imaginava o seu quarto de infância vazio, e temia o
momento em que teria de voltar para ele.
Nas últimas semanas, o dia em que regressara da faculdade, vinha à memória de Amanda com
mais frequência do que gostaria. Na mochila trazia o manuscrito original de um romance elogiado
por todos os professores e o sonho de vir a ser uma escritora. O pai lera-o e também ele tinha
concordado que ela tinha talento. Em resposta ao seu pedido de liberdade ele reformulara a casa
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
da piscina nas traseiras da mansão oferecendo-lhe todas as comodidades para que lá pudesse viver
sozinha como era o seu desejo e escrever o grande romance.
Mas a oferta de liberdade e a oportunidade de perseguir o sonho vinham com um prazo de
validade de três anos. Era esse o prazo para se pôr à prova. Em menos de duas semanas, mais
exactamente, no dia do seu aniversário de vinte e cinco anos, o prazo terminaria e Amanda não
ainda estava para escrever um romance completo. O grande romance estava mais longe do que
algum dia poderia imaginar.
Ao voltar-se para a pequena casa envidraçada olhou através das amplas portas de vidro até ao
portátil sobre a secretária. Nele estavam dezenas de romances inacabados que tinham sido
escritos naqueles anos e um único completo; o único que trouxera de Lisboa, o único que todos os
que o leram adoraram, o único que Amanda se recusava a publicar.
Bebeu mais um gole de vinho e suspirou. «Tenho de admitir: falhei. Não consigo… não consigo
mesmo… antes de...» Deitando-se sobre o banco de pedra, afastou os pensamentos para o céu
estrelado de Verão.
O telemóvel tocou puxando-a para o mundo real levando-a de volta para dentro da casa. Numa
breve corrida, alcançou-o e atendeu-o já com um sorriso. “Boas!” Atendeu entusiasmada por
saber que era André. Tudo o que precisava era quem a desafiasse para uma noitada amnésica.
“Estamos à tua espera.” Veio a voz pesada de André. Referia-se ao pequeno grupo de amigos que
tinha como única actividade e gosto comum viver a vida nocturna. O convite que Amanda
ansiava estava implícito e ela sabia que tinha sido resgatada de uma má noite.
“Então não vos vou fazer esperar mais!” Garantiu com uma gargalhada.
“Em cinco minutos passo aí. Tenho de tratar de um assunto e posso dar-te boleia.”
“Está bem, mas não te esqueças de desligar as luzes. Da última vez esqueceste-te e tive de ouvir o
meu pai durante uma semana.”
“Fica descansada Princesa.” Disse desligando em seguida.
Amanda olhou o portátil desligado com remorso e acariciou-o com saudade na ponta dos dedos.
Tinha-o há cinco anos e nele escrevera todas as suas histórias. Uma parte dela cobrava-lhe que
voltasse a sentar-se na cadeira branca da secretária e que continuasse a tentar escrever; a outra
parte relembrava-lhe que o seu tempo estava contado e era tarde, tarde demais para que restasse
algo que fizesse a diferença. E essa parte, essa outra parte que a ameaçava com os ponteiros dos
segundos e lhe atirava com as páginas do calendário, falava agora mais alto.
§
Como é do conhecimento de todo jovem adulto, é nas manhãs que se paga a diversão da noite que
a precede com um estômago bem embrulhado e uma grandiosa dor de cabeça a combinar. Ao
inicio da tarde Amanda teve a bonificação de ver Isabel a invadir-lhe a casa num passo decidido e
energia que lhe insultava a ressaca monumental do dia.
“O pai vem a caminho!” Anunciou Isabel com um sorriso grandioso.
Amanda não teria saltado da cama mais depressa se a irmã tivesse gritado fogo. “Porquê!?”
Perguntou desorientada com o movimento súbito. Ao afastar os negros cabelos emaranhados que
lhe tapavam a visão é que percebeu o sorriso satisfeito da irmã que a observava de braços
cruzados junto à porta de vidro. “Tu até podes ter cara de anjo mas és um demónio!” Desabafou
Amanda deixando-se cair de novo na cama.
“Não sejas ciumenta!” Isabel aproximou-se ainda com um sorriso satisfeito. “Nesta família só há
lugar para uma ovelha negra e tu já roubaste o lugar!” Com uma gargalhada juntou-se a Amanda
na cama. “Sabes que podia ser verdade, e se fosse ele…”
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
“Siiimmm eu sei!!! ...blá, blá, blá...” Concordou com um suspiro. E esboçando um sorriso
ensaiado olhou para a caneca na mão de Isabel. “Trouxeste-me remédio! Que querida...”
Murmurou já hipnotizada pelo aroma a café.
Oferecendo a chávena, Isabel piscou-lhe o olho. “Nespresso.”
“Fortíssio Lungo…” Murmurou levando a chávena branca aos lábios, fechando os olhos e
saboreando o intenso gosto amargo e torrado.
“What else?” Completou Isabel com outra gargalhada e afastando-se de seguida regressou à
porta. “Mete-te debaixo do chuveiro. A mãe pediu para jantares connosco.”
“Mas…”
“Sim…” Interrompeu sabendo em avanço qual o argumento de contestação que se seguiria. “…é
Sábado à noite. Mas foi a mãe que pediu… vá lá. Upa!”
Com um suspiro Amanda arrastou-se para fora da cama mostrando que fazia intenção de
obedecer ao pedido. «Devia saber que o Nespresso teria um preço!» Resmungou apenas em
pensamento.
“Linda menina!” Elogiou Isabela com um sorriso de despedida e fazendo deslizar a porta atrás de
si fechando-a.
A caminho do chuveiro Amanda fez uma pausa junto da secretária. O acordar tinha sido
demasiado violento. Sentou-se na grande cadeira giratória em forma de ovo e bebendo mais um
gole de café, abriu o portátil e ligou-o. Em silêncio esperou que o computador ficasse operacional
e deu tempo à cafeína para fazer o seu milagre. Apesar da lentidão própria da idade, o
computador foi o mais veloz. Consultou o email na procura de alguma festa de última hora para
essa mesma noite imaginando que quando se conseguisse escapar do jantar com a família, como
sempre o mais breve possível, queria sair para um novo cenário e não passar mais uma noite no
bar de sempre, com as caras de sempre. Numa primeira procura não havia nada, apenas os
incontáveis e irritantes emails de anedotas e vídeos cómicos que deixava para abrir nas noites de
insónias que se vinham tornando cada vez mais a regra do que a excepção.
De súbito parou num e-mail e os seus olhos deixaram de piscar ao ler o que estava escrito no
assunto: “Henrique Neto added you as a friend on Facebook.3”
Amanda afastou a chávena da boca e os seus lábios moveram-se pronunciando o nome que a voz
não conseguiu acompanhar «Henrique.»
‫۝‬
PRIMEIRAS PALAVRAS
P
edro desviou mais uma vez o olhar do ecrã do portátil até Henrique. “Precisas de ajuda?”
Perguntou.
Arrancado de um lugar onde só os seus pensamentos sabiam onde ficava, Henrique
respondeu com um ligeiro aceno de cabeça. “Não.”
“Se precisares é só dizeres.” Pedro olhou-o com alguma estranheza.
3
Tradução do inglês: “Precisamos que confirmes que conheces o Henrique para que se tornem amigos no Facebook.”
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
Estava prestes a anoitecer e Henrique tinha passado o dia na secretária de vidro com o olhar no
computador, Pedro sabia que o amigo era mais de livros do que de computadores, e sem restar
nenhum trabalho da faculdade para entregar só tornava tudo mais estranho.
Como se tivesse levado um choque que lhe devolveu a vida, Henrique endireitou-se na cadeira e
inclinou-se sobre o portátil aproximando o rosto do monitor. Pedro nem sequer tentou conter a
curiosidade e espreitou o computador do amigo tentando descobrir o que de tão interessante se
passava. «Mensagem privada do Facebook… you naughty boy4!!!» Pensou divertido. «Estou a
ver que finalmente está a aprender umas coisas comigo.»
Mesmo que Pedro tivesse olhado por cima do ombro de Henrique ele não teria reparado; toda a
sua atenção estava nas letras iluminadas no ecrã.
Olá Henrique!
Há quanto tempo! Como vais?
Que surpresa ter notícias tuas, fico contente por nos termos
reencontrado depois de tantos anos.
Espero que esteja tudo bem contigo.
Se algum dia te apetecer conversar, aqui fica o meu contacto no
MSN [email protected]
Bj. Amanda.
A expressão de entusiasmo de Henrique deu lugar a um misto de confusão e desilusão. A
mensagem paredceu-lhe tão fria e impessoal que num primeiro momento duvidou que fosse
realmente de Amanda. Conhecendo o seu temperamento doce e afável, esperava no mínimo um
pouco mais de entusiasmo afectuoso.
Pedro tinha de tentar saber o que se passava. “Algum problema?” Perguntou dando balanço à
própria cadeira e deslizando até Henrique. Sem cerimónia leu descaradamente a mensagem ainda
no monitor. “Uuuu… é a tua amiguinha de ontem.”
“Sim.” Confirmou continuando a reler a mensagem uma e outra vez. «Mas não parece.»
Acrescentou apenas para si mesmo. Lembrando-se da experiência do amigo em relações virtuais,
resolveu pedir uma segunda opinião mais especializada. “O que te parece? Acho que não ficou
muito feliz pelo reencontro.”
Pedro olhou-o e esboçou o seu conhecido sorriso de satisfação que reservava para os escassos
momentos em que se preparava para ensinar algo a Henrique. “É o que ela quer que penses meu
amigo!” Revelou. E baixando a voz para um desnecessário tom de secretismo, apontou para o
endereço de email de Amanda. “Podes ignorar tudo o que está escrito nesta mensagem, isto é que
importa!”
“Porque…?” Perguntou pedindo esclarecimento.
“Porque isto é um convite! È como se dissesse… “liga-me” ou “estou à tua espera aqui” ou “se
estás interessado procura-me”…”
“Tens a certeza!?”
4
Tradução do inglês: “Seu malandro!!!”
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
“Amigo, quando não querem saber de nós, elas cortam qualquer possibilidade de contacto, não te
enviam o endereço no MSN!” E deixando escapar um suspiro em desalento por experiências
anteriores pouco glorificantes acrescentou. “Acredita, eu sei que é assim.”
“Devo procurá-la no MSN. É isso?”
“Sem dúvida!” Confirmou Pedro voltado para o próprio computador. “Ainda tens de me contar a
história dessa Amanda. Pela forma como tu andas desde que a encontraste, algo me diz que
merece ser contada.”
“Havemos de falar sobre o assunto…” Henrique já adicionava o endereço de e-mail de Amanda à
sua lista de contactos. “…um dia…”
‫۝‬
FAMILIAS
A
o entrar na mansão Amanda ainda resmungava para si mesma. «Jantar de família num
sábado à noite…» E antes que tivesse tempo de expressar o seu desagrado em voz alta,
os braços da mãe já a envolviam num apertado e intenso abraço maternal.
“Meu bebé.” Murmurou Rosário dando um beijo demorado no rosto da filha.
“Menos mãe.” Pediu Amanda fazendo-lhe uma carícia nas costas.
“Gostava eu que ela me recebesse assim de todas as vezes que me vê.” Comentou em tom de
reclamação Isabel surgindo à porta da sala de jantar.
“Ofereço-te o meu lugar.” Disse soltando-se dos braços da mãe. “Este abraço já me dá para uma
semana.”
“Nem penses em passar uma semana sem vires ver os teus pais!” Avisou Rosário abraçando
Isabela que não perdera tempo a ocupar o lugar da irmã. “Há dois dias que não vens cá.”
Recriminou-a.
Amanda deixou-se cair no sofá esmagando sem misericórdia as pequenas almofadas decorativas.
“Em breve vou ter de voltar mesmo que não queira.” Desabafou num murmúrio mas o silêncio da
sala permitiu que o lamento fosse ouvido.
Estranhando a ausência de resposta da mãe, Isabel sorriu de forma incentivadora para a irmã.
“Ainda tens praticamente duas semanas, nesse tempo consegues escrever dois livros!”
Esforçando-se para esboçar um sorriso de agradecimento, Amanda apressou-se a mudar de
assunto. “Não vão adivinhar quem eu descobri hoje! Quer dizer, na verdade ele é que me
descobriu a mim.” Rectificou.
Os ouvidos maternos detectaram a súbita leveza na voz da filha. “Quem?” Perguntou Rosário
com interesse.
“O Henrique.”
“O nosso Henrique!?” Voltou a perguntar com um sorriso de espanto. “Não acredito!”
“Podes acreditar.” Garantiu.
“Ainda está em Londres?” Perguntou Isabel sorrindo também mas por razões bem diferentes da
mãe. Ele tinha sido a sua paixão durante a infância e adolescência, o melhor amigo da irmã que
sempre estivera à sua frente mas fora do alcance pela diferença de idades. Sem conseguir
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O Diabo dos Anjos
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impedir-se, a sua mente fazia novamente o cálculos dos anos. «Ele tem 25 tal com a Amanda…
eu tenho 19… quase 20… perfeito!»
“Não sei. Ele só me enviou um pedido pelo Facebook.”
“Um pedido!? O que é que ele te pediu?” Perguntou a mãe confusa.
“É aquilo que te explicamos das redes sociais na Internet.” Esclareceu Isabel largando os braços
da mãe e juntando-se à irmã que era agora o foco da sua atenção.
“Tu é que lhe devias ter feito um pedido.” Comentou Rosário com ar de desaprovação que sempre
usava em relação às novas formas de comunicação. “Devias ter pedido o velho e tradicional
número de telefone para eu poder falar com o meu afilhado.”
O som de passos pesados sobre o chão de madeira precedeu a entrada do pai na sala. “Boa noite.”
Cumprimentou Jorge Liz as três e parando junto a Rosário pousou-lhe um beijo na testa.
“Não vais acreditar quem reapareceu.” Ela desafiou-o.
“Experimenta-me.” Incentivou enquanto se aproximava das filhas no sofá. Deu um beijo rápido a
Isabel e sentando-se junto a Amanda colocou um braço em volta dos ombros dela apertando-a
junto a si. “Está tudo bem?” Perguntou em sussurro.
Um ligeiro e discreto aceno afirmativo foi a única resposta da filha.
“O Henrique.” Revelou Rosário com entusiasmo. “Não é fantástico?”
“Quem é vivo sempre aparece!” Comentou em tom festivo. “Ele está de volta?”
“Não.” Esclareceu Isabel. «Infelizmente.» Pensou. “Enviou uma mensagem pela net à Amanda.”
“Temos de lhe pedir notícias dos pais. Desde que o Carlos e a Alice foram para Angola e se
embrenharam no mato que perdemos o contacto.” Lamentou Jorge Liz
“Ouviste Amanda?” Perguntou a mãe vitoriosa. “Nada como à antiga! Já sabes o que tens de
fazer.”
“Sim... eu trato disso.” Assentiu com um suspiro. Ainda o jantar não tinha começado e já o sentia
longo. “Vamos comer ou não?” Perguntou mostrando-se entusiasmada na esperança de conseguir
apressar o ritual familiar e voltar à liberdade o mais depressa possível.
“Estava a ver que ninguém se decidia.” Queixou-se Jorge Liz levantando-se e puxando a filha
mais velha pela mão.
Enquanto seguia o resto da família até à sala de jantar, Isabel olhava mais uma vez o estranho
comportamento do pai para com a irmã. Quando voltara a casa da faculdade há duas semanas
atrás vinha preparada para um verão tumultuoso. Sabia que Amanda continuava sem conseguir
escrever nada, cada vez mais empenhada nas suas festas e saídas nocturnas com os amigos. O
comportamento da irmã no último ano apenas tinha incendiado ainda mais a relação tempestuosa
com o pai, e imaginar o momento em que a personalidade intempestiva dos dois chocaria, quando
Amanda fosse obrigada a voltar para a mansão e a trabalhar na empresa da família para restituir
todo o dinheiro que lhe tinha sido dado nos anos falhados da literatura, como a própria os
baptizara, era no mínimo receoso.
Mas tudo estava calmo. Demasiado calmo na opinião de Isabel. Amanda parecia resignada e não
revoltada como a esperava; o pai atento e calmo e não encrespando; e a mãe não mencionara o
assunto uma só vez.
Não eram os ciúmes que lhe despertavam a atenção, até porque quanto mais pacífico fosse o
ambiente familiar mais liberdade ela teria, mas não podia deixar de reparar na alteração de focus
da família; até há duas semanas atrás, ela era a filha preferida, a caçula bem comportada, mas
agora, parecia ter sido ligeiramente esquecida em favor de Amanda. «Deve ter um plano para a
disciplinar.» Pensou, certa de que o pai estava tão calmo porque tinha alguma surpresa reservada,
e que com certeza não seria do agrado da irmã. «Mais tarde ou mais cedo a guerra vai rebentar.»
- 18 -
O Diabo dos Anjos
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O jantar decorreu sem incidentes e finalmente terminara deixando Amanda livre para regressar
aos seus amplos 70 m2 do outro lado do jardim e longe da família.
Estava uma noite quente e abafada. Quando entrou na casa da piscina sentia-se exausta, os pais
absorviam-lhe a energia como mais ninguém. Abriu as portas de vidro que preenchiam quase na
totalidade as três paredes exteriores do que era simultaneamente a sala, o quarto, e a cozinha,
convidando uma corrente de ar fresco a expulsar o calor. Ficou imóvel sentindo o vento no rosto.
Alguns papéis esquecidos na secretária voaram pedindo atenção com o som das folhas a esvoaçar,
mas Amanda ignorou-os, e desembaraçando-se das roupas correu para o jardim e mergulhou na
piscina em roupa interior. Durante alguns minutos, deixou o corpo boiar ao ritmo e vontade da
água. Os seus olhos abertos, mais negros do que o céu que fitavam naquele instante, regressaram
no tempo. Regressaram ao dia em que uma promessa tinha sido feita. «Como era bom deixar tudo
para trás … como era bom fugir.» Mas tal como ela esperava, a água fria deu-lhe nova energia e
redistribuiu-a correctamente; a vontade de correr para o computador e esperar por Henrique
diminuiu, e a vontade de festejar mais um sábado à noite em folia voltou.
§
Nos primeiros metros de areal da Praia das Rochas Negras, os pequenos bares em madeira
formavam uma linha colorida e sonora. À volta de cada um deles, dezenas de mesas e cadeiras
espalhavam-se como pequenas ilhas, albergando os foliões da noite de Verão e os seus copos
meios vazios de álcool e sumo.
Adolescentes e pré-adolescentes que mais não eram do que crianças que tentavam parecer
adolescentes, esforçavam-se por se misturar com os adultos, que por sua vez, tentavam não deixar
de ser adolescentes.
Numa confusão de intenções e ideias embriagadas de início de madrugada, a areia apoderava-se
sem dos pés nos chinelos durante danças de copo na mão ao som de músicas entrecortadas
provindas dos bares vizinhos.
No final da linha de madeiras coloridas ficava o “Palhinhas”, inconfundível pela pintura que o
revestia com dezenas de desenhos de palhinhas de todas as cores e formas conhecidas.
O som nervoso de um motor em altas rotações antecedeu a luminosidade intensa dos faróis, e uma
travagem brusca no passeio que veio cessar ambos. Não foi o comportamento imprudente da
condução, usual no perímetro da praia, que cativou os olhares que pousaram no Mini Cooper S
vermelho com as suas racing stripes, mas sim o próprio Mini Cooper. Todos sabiam quem lá
vinha dentro. Amanda Liz, filha rebelde do homem mais rico da região, estrela de qualquer festa
em que participasse, e namorada ocasional de André o dono do “Palhinhas”, que muitos
apostariam um dedo em como era o cérebro por detrás do cartel de drogas da região.
A porta do carro abriu-se e uns pés descalços antecederam umas pernas finas e longas, demasiado
brancas para um cenário de praia, tal como o curto vestido de tecido escorrido que lhe marcava o
meio da coxa, era demasiado preto, parecendo à escassa luz da noite um mero prolongamento do
seu cabelo.
O olhar de Amanda foi de imediato na direcção de uma das mesas que ficava ligeiramente
afastada das restantes; era a mesa que sempre ocupava com o grupo de amigos. Viu que estava
mais vazia do que habitualmente, apenas Íris e Vilma, que a acompanhavam com o olhar
enquanto se aproximava, lá estavam sentadas.
No mesmo segundo em que se juntou a elas, Íris comentou com malícia. “Havia quem dissesse
que não vinhas hoje.” Um olhar pouco discreto pelo canto do olho na direcção Vilma mostrou
claramente que procurava denunciá-la.
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O Diabo dos Anjos
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Mudando-se para uma das cadeiras de madeira ao lado de Vilma, Amanda ofereceu um olhar
reprovador a Íris. “Boa noite para ti também.” Disse enterrando os pés na areia e o olhar distraído
em ambos, mostrando que não fazia intenção de lhe responder.
Íris era detentora de uma beleza simples mas fazia questão de a esconder com maquilhagem
excessiva para um rosto jovem. Com 29 anos, era a mais velha do grupo de amigos que
frequentava o “Palhinhas”, e sempre que possível frisava-o com uma postura superior forçada.
Usava o cabelo liso e curto ao nível do pescoço com uma franja simétrica que lhe cobria as
sobrancelhas; as grandes argolas penduradas nas orelhas davam-lhe sempre um ar de bailarina de
bar prestes a picar o ponto. A antipatia entre ela e Amanda era mútua e conhecida por todos.
“Só pensei que ela, por ter jantado com a família, pudesse ficar com eles hoje.” Apressou-se
Vilma a esclarecer defendendo-se do ataque implícito no comentário de Íris.
Vilma era o elemento mais jovem e mais recente no grupo de amigos; sendo esta apenas a
primeira característica antagónica para com Íris, numa lista que era interminável. Com um corpo
franzino, de rosto bonito e sorriso fácil em pele cor de chocolate, cabelo encrespado e volumoso,
Vilma ainda tentava conquistar alguns olhares que tinham dificuldade em ir para além da cor da
sua pele; Íris era o maior grão de areia no seu sapato.
“Nada mais normal do que permanecer com a família.” Acrescentou sentindo-se cansada de ter
Íris sempre a analisar tudo o que dizia.
“Para mim não é normal.” Rectificou Amanda enquanto olhava em volta. “Onde é que se
meteram todos?” Perguntou referindo-se naturalmente a rostos conhecidos pois tanto o balcão do
bar como o areal estavam cheios.
“Foram ver uma corrida.” Comentou Vilma com uma expressão aborrecida.
“Parece que estão aí uns emigras com uns carros modificados.” Acrescentou Íris com a mesma
falta de interesse e levando o copo de cerveja à boca. “Pelo que ouvi, é só garganta e plásticos.”
As corridas ilegais entre carros alterados, as apostas, e todo o mundo tunning eram a paixão dos
rapazes. Com a chegada do Verão e o regresso para férias de vários emigrantes, todos os anos
surgiam novos competidores que animavam as apostas, não só em quantidade mas também em
valor.
Um copo de vodka-limão foi deixado sobre a mesa. “Obrigado Olga.” Agradeceu Amanda à
morena exuberante que era a única rapariga entre os empregados do bar.
“Já foram há algumas horas…” E antes que Vilma terminasse a frase o Audi Q7 preto de André
parou atrás do Mini Cooper. “…aí estão eles.”
“E estão com boa cara.” Comentou Olga recolhendo os copos vazios na mesa e desaparecendo de
seguida.
Do lado do condutor no Q7, saiu André, a sua figura careca de um metro e noventa de altura,
ombros largos e músculos desenvolvidos era inconfundível; ele era seguido por Rui, seu primo e
melhor amigo, que todos sabiam também ser seu guarda-costas quando assim era necessário. Um
pouco atrás, os gémeos Rita e João, irmãos de Íris, com uma beleza exótica inesperada e
naturalmente semelhantes entre si; e com eles Paulo, sócio de André no “Palhinhas”, cuja
simpatia e personalidade afável era o oposto do sócio, e que recentemente se apaixonara
perdidamente por Isabel.
Os cinco chegaram à mesa juntando a alegria das suas gargalhadas à música ritmada que moldava
o ambiente de festa. Cada um foi recolhendo uma cadeira, acomodando-se em redor da pequena
mesa e trocando palavras e gestos de cumprimento.
O grupo estava completo, não só em número de membros, mas também de personalidades. Há
excepção dos gémeos que eram semelhantes tanto interior como exteriormente, todos os outros
nada tinham em comum. A riqueza de Amanda contrastava com a pobreza de Vilma; a rudeza de
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O Diabo dos Anjos
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Rui com o charme sedutor de João; a simpatia de Paulo com a frieza de Íris; a leveza de ser de
Rita com o ar sombrio de André. O que os unia era apenas uma amizade que nascera na infância,
sobrevivera à adolescência, e se prolongara pelos anos complexos que se seguiram.
“Foi-se!” Disse André sentando-se junto a Amanda e bebendo do copo dela.
“O quê?” Perguntou Vilma.
Ela, Íris, e Amanda olhavam o semblante de André aguardando a sua resposta. Era um rosto
masculino jovem que qualquer mulher acharia bonito, marcado por um maxilar quadrado e oculto
sob a barba de três dias. Tanto o corpo dele como o seu rosto severo, combinavam com a
personalidade austera. Um homem tão perigoso como cativante.
Algumas cabeças acenaram em secreta concordância e sorriram em cumplicidade com ele.
“Contem lá.” Implorou Íris arrependendo-se de não ter ido com eles, pois só quando tramavam
alguma coisa é que nascia aquele secretismo.
“Ele era bom.” Comentou João começando a história.
“Bastante bom.” Continuou Rita a seguir ao irmão. “Ganhou duas corridas ao nosso piloto.”
“Mas nós não podíamos perder aquele dinheiro todo…” Disse Rui fingindo um tom de desculpa
que era desmentido pelo sorriso nos seus olhos.
“Tivemos sorte!” Interrompeu Paulo visivelmente satisfeito e em tom de conclusão. “Alguém
ligou para a polícia e avisou da corrida, e por milagrosa graça do destino o nosso piloto desistiu
antes de chegar ao final da recta. O emigra vai passar uma noite de Verão numa cela e o carro…
tenho cá para mim que tão cedo não sai do parque da esquadra.”
Durante alguns segundos ninguém falou. A troca de sorrisos dizia tudo.
“E as apostas a favor dele?” Perguntou Vilma.
Rui deu uma gargalhada sonora. “Era só a dele. Só mesmo um estúpido de um emigra para achar
que algum dia ia voltar para a merda de país em que vive com mais 15.000€ por ganhar três
corridas!”
“Quem era?” Perguntou Amanda.
“Não conhecias.” Disse André. “E agora também não vale a pena explicar-te porque já passou à
história.” Pousando o copo vazio levantou-se. “Vou ver como estão as coisas no bar.”
Rui bateu duas palmas afastando o ambiente de secretismo da mesa. “Uma rodada à minha conta!
Podemos não ter ganho dinheiro mas também não perdemos.”
Todos bateram palmas de seguida acompanhando-o e o som pareceu ter a capacidade de
restabelecer a normalidade aos sorrisos. Afinal, aquele era só mais um segredo para juntar a um
baú já recheado deles que todos partilhavam e ajudavam a manter fechado.
“Estava a ver que nunca mais tomavas conta da situação.” Comentou Amanda piscando-lhe o
olho. “Mais cinco minutos e ia implorar por uma mesa ali no “Tubarão”!”
“Fazias isso e reabrias uma guerra!” Queixou-se Rui com um sorriso deliciado pela velha
rivalidade existente entre os dois bares vizinhos.
Uma gargalhada geral surgiu pela expressão de satisfação que Rui sempre exibia quando antevia
uma possibilidade de utilizar os músculos que cultivava com visitas diárias ao ginásio; o seu rosto
era redondo e tinha um ar algo infantil, o contraste dava-lhe um semblante desiquilibrado e pouco
atraente.
Em alguns segundos novos copos chegaram à mesa. Um a um os amigos foram trocando as
cadeiras de madeira pela pista de dança que se estendia ao longo do areal. Na companhia uns dos
outros e do álcool, dançavam, sorriam, e bebiam, entregando-se aos poucos ao torpor da
embriaguez.
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O Diabo dos Anjos
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André coordenava o bar atrás do balcão mas não separava os olhos de Amanda controlando o
número de copos que ela bebia. Sabia que existia um número mágico, um número que era só dele,
e que lhe trazia aos braços a única mulher que amara, mesmo que fosse por apenas algumas horas.
Por volta das quatro da manhã a festa ficou entregue aos mais resistentes. Vilma já regressara a
casa cumprindo como sempre os horários impostos pelos pais. Íris, que no ano anterior tinha
trazido mais do que previra de um festival de Verão, tinha-se tornado mãe solteira de forma
acidental há poucos meses, e também ela se via novamente obrigada a curvar-se à vontade dos
pais.
Na areia estavam os gémeos, que tal e qual uma mini-alcateia, atacavam todas as noites os
escassos turistas que paravam naquela praia, e gozavam do amor fugaz e descomprometido de
Verão que a beleza de ambos lhes permitia.
Rui ainda circulava pelo bar exibindo a sua figura gigante musculada e impondo respeito apenas
pela sua presença.
André e Paulo faziam uma primeira contagem da caixa tentando ter uma rápida ideia de como
tinha sido a noite e olhavam Amanda que, há poucos minutos, se tinha sentado num dos bancos
altos junto ao balcão. Após horas de dança algo psicadélica, em combustão do álcool, Amanda
estava agora estática.
“Alguém está a precisar de atenção.” Comentou Paulo com um sorriso para o sócio. A energia de
Amanda parecia nitidamente ter-se esgotado e o olhar que há escassos minutos sorria de forma
provocadora enquanto dançava, estava agora hipnotizado no copo vazio que tinha nas mãos.
“Tratas disto?” Perguntou André referindo-se a todas as tarefas do fecho do bar.
“Nem precisas pedir.”
Aproximando-se de Amanda, André resgatou-lhe o olhar do copo com uma carícia no rosto.
“Como é que isso vai?” Perguntou esboçando o habitual sorriso condescendente com os excessos
de mais uma noite, que vinha sendo mais e mais frequentes.
“Mal!” Respondeu ela fitando-o com olhos pesados de um negro embriagado. “Tudo mal!”
Voltou a repetir. “Estou acabada… é mesmo o meu fim… este, é o meu fim!”
“Não sejas tão pessimista.” Incentivou-a dando-lhe um beijo na mão. E contornando o balcão
juntou-se a ela abraçando-a. “Sabes que se quiseres a minha casa está de portas abertas para ti… é
só quereres e ficas lá para sempre a escrever as tuas históriazinhas que não têm fim…”
“Obrigado.” Murmurou elevando os braços e pendurando-se no pescoço dele. Os seus rostos
ficaram próximos. André permaneceu imóvel. Ambos sabiam como era o ritual: era sempre ela
que tomava a iniciativa. Amanda beijou-o e ele suspirou vitorioso absorvendo os sentimentos que
nasciam do encontro das suas bocas. “Vamos fazer coisas um ao outro?” Perguntou ela
intercalando cada palavra com beijos húmidos e esboçando-lhe um sorriso sedutor.
“Sim bebé, vamos fazer coisas…” Murmurou ele com um sorriso pela antevisão da noite a dois
que se seguiria. Levantando o olhar para o sócio, piscou-lhe o olho. Paulo, que de tantas vezes
que vira repetir-se aquela cena junto ao balcão, sabia que ele lhe pedia a chave do carro; ela
deslizou sem demora até à mão de André. “Vemo-nos amanhã.” Disse despedindo-se do sócio e
pegando em Amanda ao colo.
‫۝‬
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O Diabo dos Anjos
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ESCOLHAS
U
ma semana tinha passado desde o último dia de àulas na faculdade e apesar de tudo
continuar como sempre fora, a noite Londrina parecia demasiado silenciosa aos ouvidos
de Henrique.
Era a sua segunda corrida do dia ao longo do Tamisa.
Nas incontáveis vezes em que se tinha imaginado livre de todas as obrigações e prazos
académicos, livre da rigidez dos horários e calendários, nunca contara com o vazio que os ia
substituir.
Sem relatórios para fazer, sem motivo para passar horas na biblioteca a fazer pesquisa, sem o
cansaço que o fazia desmaiar de sono logo que encostava o rosto à almofada, sem namorada e
com pouca vontade de estar com os amigos que restavam na cidade, era atacado por uma
nostalgia que só aumentava a fobia de pensar em chegar de armas e bagagens a Standford.
Henrique acelerou o passo da corrida na esperança de que por milagre tudo se resolvesse. «Desde
quando é que fujo da minha vida?» Perguntou-se voltando ao passo de passeio e recuperando o
fôlego. Passou as mãos pelo rosto transpirado e suspirou decidido a sair da espiral de incerteza e
cobardia em que entrara nas últimas semanas. «Tenho de tomar uma decisão!» Exigiu a si mesmo
sentando-se num banco e fitando o Tamisa. «Não me levanto deste banco sem me decidir.»
Três horas depois, Henrique tinha voltado a casa, tomado banho, e estava de olhos ao tecto sobre
o seu beliche ainda à procura da resposta. Os pensamentos iam e vinham carregando prós e
contras e múltiplas escolhas à disposição. Amanda e a Praia Das Rochas Negras apareciam em
várias ocasiões semeando ainda mais discórdia. Tinham passado dias e ela não dera sinal de vida.
O som das chaves na fechadura da porta roubou-lhe a atenção e viu Pedro entrar acendendo as
luzes, e como era seu costume, não se poupando no barulho independentemente das horas da
madrugada que o relógio marcasse.
“Sempre discreto.” Elogiou Henrique com ironia. Vendo os rasgos nas roupas e o olho inchado do
amigo, perguntou segurando a vontade de rir. “O que foi agora?”
“The wrong girl my friend! The wrong girl… with the wrong boyfriend!5” Respondeu com um
inesperado sorriso de satisfação a esticar-lhe os lábios.
Henrique não conseguiu evitar o riso. Pedro era mais um acrescento ao saco da nostalgia. «E
ainda vou sentir falta deste louco.» Pensou voltando a deitar-se e à companhia do tecto branco.
“Oh moço!” Chamou Pedro enquanto desaparecia no quarto de banho. “Viste o teu computador?
Deixaste-o ligado.”
“Sim eu sei.”
“Vê lá se desligas o som daquilo, os toques do MSN deram-me cabo dos nervos… ou pelo menos
desactiva a password para eu poder calar isso.”
Henrique sentou-se de novo e fitou o portátil fechado sobre a secretária de vidro. Tentou controlar
o primeiro instinto que lhe dizia que era Amanda mas ao mesmo tempo não conseguia parar de
desejar que fosse ela. «Tem de ser ela.»
Saltou do beliche e com passos rápidos chegou à secretária.
“Tens de parar de saltar assim da cama de madrugada.” Disse Pedro a caminho da kitchenette.
“De tantas vezes que o vizinho de baixo reclama qualquer dia temos a polícia à porta.”
5
“A rapariga errada meu amigo! A rapariga errada… com o namorado errado!”
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O Diabo dos Anjos
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“E tu com esse olho roxo não és um asset para a nossa defesa!” Contra-atacou Henrique sorrindo
para o monitor ao encontrar duas janelas de conversação do MSN abertas com o nome de
Amanda e mais satisfeito ainda por ver que ela continuava online.
Amanda diz:
Olá Henrique! Afinal por onde andas?
“Olha quem é ela!” Pedro espreitava por cima do ombro de Henrique com um saco de gelo a
tapar-lhe o olho inchado. “Não te disse que ela queria conversa!?” Vangloriou-se satisfeito.
Henrique diz:
Olá! Desculpa a demora mas não estava em casa.
Ainda em Londres e tu?
Amanda diz:
Ainda no mesmo sítio… nada a assinalar.
O grande dia dos 25 é daqui a uma semana. Pronto para cumprir a
promessa?
“Promessa!? Que promessa? A rapariga quer ir a Fátima a pé!?” Perguntou Pedro ainda junto ao
ombro do amigo.
Sem receber resposta e vendo a ausência de expressão no rosto de Henrique combinada com a
hesitação dos dedos suspenso sobre o teclado, insistiu. “De que é que ela está a falar?” Perguntou
fitando-o com o seu olho sobrevivente que expressava o dobro da desconfiança.
Desperto, Henrique voltou-se ligeiramente para a esquerda para encontrar o grande olho castanho
que o fitava mais próximo do que deveria. “Desaparece!” Reclamou dando-lhe um empurrão.
“Isto é privado.”
Afastando-se contrariado, Pedro alertou-o. “Uma mulher que te encontra passados anos e começa
logo a cobrar promessas, é problemas na certa!” E deixando-se cair no sofá resmungou. “Cedes a
primeira vez e é a tua perdição! Acredita em mim que sei do que estou a falar!”
Mas Henrique já não o ouvia, os seus pensamentos falavam mais alto e dominavam-lhe a atenção
por completo. «Não pode ser coincidência. Não estou a arranjar desculpas para fugir.» Tentava
convencer-se. «Eu não toquei no assunto… foi ela. Não pode ser coincidência.»
“Não pode ser coincidência.” Repetiu num murmurio para fazer as palavras mais credíveis.
Henrique diz:
Estou pronto se tu também estiveres.
Como vamos fazer?
§
Na manhã seguinte foi a vez de Pedro acordar com o som do teclado. Henrique tinha passado a
noite a falar com Amanda e ao contrário do que seria de esperar, nem por uma vez foram
recordados momentos da infância ou qualquer referência ao passado. Os dois limitaram-se a
partilhar os nomes da cidades italianas onde queriam conhecer e depois perderam-se a imaginar
as aventuras que lá iriam viver dentro de poucos dias.
- 24 -
O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
A viagem de Henrique e Amanda ia ser uma realidade mas o que os unia não era uma promessa
do passado mas sim o desejo de fugir do futuro.
Pedro, conhecia melhor o amigo do que este gostaria.
“Vais para onde!?” Perguntou não acreditando no que ouvia quando Henrique lhe revelou que ia
voltar a Portugal.
“Isso mesmo. Já comprei o bilhete durante a noite.” Confirmou tirando o saco de viagem do topo
do guarda-roupa. “Eu e ela combinamos esta viagem antes de eu vir para Londres, e agora chegou
a altura.”
“Pára lá com isso!” Ordenou Pedro vendo-o a colocar roupa para dentro do saco. “Eu sei o que
estás a fazer Henrique. Estás a usá-la como desculpa para evitares seguir em frente. Qual é o teu
medo? Sinceramente não te percebo. És uma das pessoas mais inteligentes que conheço, elogiado
por todos os professores, até pelos mais egocêntricos, e de há um tempo para cá que te deu um
curto-circuito qualquer!”
“A Amanda é minha amiga desde sempre. É a pessoa mais doce e gentil que pode haver e eu não
lhe vou falhar! Além disso vai ser bom para mim fazer uma viagem assim.” Pedro preparava-se
para contra-atacar mas Henrique impediu-o. “Eu alinhei contigo quando quiseste parar a
faculdade por um ano para fazermos backpacking pela Europa! Não me podes criticar por querer
ir duas semanas para Itália no período de férias.”
Vendo que tinha ficado sem argumentos, Pedro mudou de estratégia. “Tudo bem.” Disse
aproximando-se do guarda-roupa e puxando o seu saco. “Eu vou contigo!”
“O quê!?” Henrique deixou cair a roupa que tinha na mão.
“Não te preocupes que não me vou meter na vossa viagem romântica.” Esclareceu. “Só te vou
escoltar para Portugal… garantir que voltas!”
“Estás a gozar comigo, só pode!” Desabafou incrédulo.
“Estou a fazer o que um verdadeiro amigo deve fazer: garantir que não fazes uma asneira que te
vai dar cabo da vida.” E apontando para o seu olho que estava ainda mais roxo do que na noite
anterior, disse fitando-o. “Se for preciso ofereço-te um destes!”
“Não dramatizes.” Pediu Henrique tentando relativizar o assunto. “É só uma viagem.”
“Posso não ser tão inteligente como tu mas não sou burro. Pensas que não vejo que estás a desejar
que essa tua amiguinha se apaixone loucamente por ti e chore nos teus braços a pedir para não a
deixares, para ficares com ela lá no fim do mundo; e tu como um mártir do amor…” Pedro
esbracejava de modo teatral e Henrique não conseguiu deixar de rir com a imagem decorada pelo
olho verde e roxo. “…prometes que por ela fazes tudo e renuncias a uma brilhante carreira em
Standford por uma vida simples no campo ao lado dela e um mísero ordenado na faculdade reles
mais próxima.” Com um suspiro concluiu. “Não te vou deixar fazer isso amigo!”
Henrique suspirou rendido. “Faz como entenderes.” Disse voltando a atenção de novo para as
roupas e a mala.
“Em que data marcaste a volta?” Perguntou Pedro repetindo os movimentos do amigo.
“Só tenho bilhete de ida.” Murmurou sem o olhar.
“És tão previsível!”
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- 25 -
O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
“QUEM ÉS TU!?”
A
o final da noite desse dia, Henrique e Pedro cruzaram a porta das “Chegadas” do
aeroporto Francisco Sá Carneiro no Porto.
“Portugal, estamos de volta!” Anunciou Pedro com orgulho à pequena multidão de
pessoas que se fintavam a porta automática tentando encontrar um rosto conhecido.
“Por favor comporta-te.” Pediu Henrique puxando-o consigo e sem grande esperança de que o
ouvisse.
Os dois afastaram-se da porta de chegada e pararam num local bem visível para tornar a sua
presença mais fácil de ser notada. Procuravam nas pessoas em volta uma rapariga com uma
camisola azul turquesa e calças de ganga pretas. Era essa a roupa que Amanda disse que estaria a
usar quando fosse ao aeroporto.
“Tens a certeza que ela é de confiança!?” Perguntou Pedro após alguns minutos em que nenhum
dos dois avistou nenhuma rapariga com aquela descrição. “Cá para mim fizeste-lhe alguma que
não te lembras e ela agora está a dar-te o troco. Fazer-te vir de Londres só para te deixar aqui
plantado! Se for preciso está aí a um canto qualquer a chorar de tanto rir dos dois idiotas
plantados…”
“Pedro, não estás a ajudar!” Resmungou Henrique continuando a olhar em volta. “Ela não é desse
tipo de rapariga.”
“Sim, eu sei...” Concordou condescendente e repetindo as palavras que tinha vindo a ouvir
durante todo o voo. “...ela é uma menina doce e calma, amiga, sempre com um sorriso no rosto...”
“Henrique!!!” Chamou uma voz feminina interrompendo o discurso trocista de Pedro.
Os dois ficaram atentos a procurar em redor mas por escassos segundos, nenhum deles identificou
a origem da voz entusiasmada. Antes de terem tempo de qualquer reacção ou comentário,
Amanda chegou até eles numa corrida e chocou com Henrique abraçando-o num salto e colando
os seus corpos numa intimidade tão inesperada que o deixou paralisado.
Com os braços em redor do pescoço dele e as pernas a rodearem-lhe a cintura, Amanda beijou-o
no rosto em exultação e fitou-o, exibindo-lhe o seu sorriso mais entusiasmado. “Nem acredito que
vieste mesmo!” E abraçando-o mais uma vez murmurou. “Bem-vindo!”
Pedro olhava-os incrédulo e com um sorriso de gozo deliciado pela expressão desconcertada que
via agora no amigo.
Definitivamente aquela não era a recepção que Henrique esperava. Ele olhou o rosto feminino
pálido e sorridente à sua frente, os olhos maquilhados em tons escuros, longos cabelos lisos e
negros, e nenhuma palavra conseguiu passar a surpresa e sair da sua boca. Limitou-se a
permanecer imóvel a olhar a rapariga que se pendurava nele.
«Quem és tu? E o que fizeste com a Amanda?» Perguntou-se ao não encontrar os cabelos cor de
caramelo com caracóis nas pontas, nem o rosto angélico que deixara para trás ao ir para Londres.
Só quando Amanda o largou é que Henrique se permitiu respirar novamente.
Ela ainda o observava com entusiasmo. “Estás… diferente.” Disse em forma de elogio.
“Tu… também.” Conseguiu finalmente dizer sem gaguejar. Pedro ao seu lado tossiu ligeiramente
lembrando que existia. “Este é o Pedro…” Apressou-se Henrique a fazer as apresentações.
“…meu colega de apartamento…”
“Melhor amigo, quis ele dizer.” Corrigiu Pedro trocando dois beijos de cumprimento com
Amanda e fitando-os alternadamente com um sorriso de satisfação que Henrique sabia desde o
primeiro instante ser ele o causador.
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O Diabo dos Anjos
L.C.Lavado
“E a viver grandes emoções!” Comentou ela apontando para o olho roxo.
Pedro sorriu em concordância.
“Vamos!?” Perguntou ela para os dois, e voltando-se começou a caminhar na direcção da porta de
saída.
Os dois amigos apressaram-se a pegar nos respectivos sacos de viagem pendurando-os ao ombro
e a seguirem-na a certa distância. Por alguma razão, parecia-lhes prudente fazê-lo.
“Não é estranho não a termos visto…” Comentou Pedro em secretismo e apreciando a figura
esguia que caminhava à sua frente. “…procurávamos um anjinho quando o que nos esperava era
uma diabinha.”
“Pára com isso!” Murmurou Henrique ainda a tentar assimilar o que estava a acontecer. “Ela só
está um bocado… mais… mulher…” Disse olhando-a e esforçando-se na tarefa impossível de
reconhecer nela algo familiar.
Sem conseguir parar de rir, Pedro juntou o olhar ao do amigo enquanto cruzavam a porta para o
exterior. “Isto vai ser tãããooo mais divertido do que eu esperava.” Comentou com uma
gargalhada simultaneamente maldosa e deliciada.
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