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REPÚBLICA VELHA (1889-1930)
A República Velha ou Primeira República no Brasil é dividida, tradicionalmente, em duas fases
distintas: a República da Espada e a República dos Coronéis.
REPÚBLICA DA ESPADA (1889-1894)
Esse período é assim chamado por se constituir num instante, imediatamente posterior à
Proclamação da República e de consolidação do novo regime, no qual o governo brasileiro foi
exercido por presidentes militares. O primeiro, Deodoro da Fonseca, governou de maneira
pouco estável de 1889 a 1891, quando pressionado pela oposição ao seu autoritarismo,
renunciou ao cargo. Assumiu então a Presidência um outro militar, Floriano Peixoto, chamado
de ―marechal de ferro‖ devido à sua postura de austeridade e repressão às revoltas ocorridas no
país (Revolução Federalista no R.S. e Revolta da Armada no R.J.). Governou o país até 1894,
quando um civil assumiu a Presidência, Prudente de Morais, iniciando a fase da República
Oligárquica.
Bandeira provisória da República Brasileira.
A CONSTITUIÇÃO DE 1891
Uma nova Constituição, em substituição àquela do Império, foi elaborada pelos republicanos e
entrou em vigor à partir de 1891. Foi a segunda Constituição da nossa história e a primeira da
República.





Principais pontos:
Estabelecimento do regime de República Federativa no Brasil, visando o respeito às
diferenças regionais e a autonomia administrativa dos Estados.
Presidencialismo, com mandatos eletivos de 4 anos.
Fim do voto censitário, mas proibição do voto dos analfabetos, mulheres e menores de 21
anos. Essa medida deu continuidade ao caráter excludente do nosso processo eleitoral, onde
a maioria da população estava inapta para o exercício do sufrágio.
Voto não secreto.
Fim do padroado, declaração de um Estado leigo e com liberdade de cultos.
O ENCILHAMENTO
Durante o Governo de Deodoro da Fonseca, foi organizado pelo então Ministro da
Fazenda – Rui Barbosa – um plano econômico de grande amplitude e impacto na vida do país.
Conhecido como Política do Encilhamento, esse plano acabou, ao contrário do planejado,
causando um violento processo especulativo e inflacionário no Brasil.
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Rui Barbosa
Tratava-se de uma política emissionista. Na intenção de facilitar o acesso das pessoas ao
crédito e de promover um maior desenvolvimento estrutural do país, Rui Barbosa promoveu
uma grande reforma bancária e financeira. Dividiu o Brasil em quatro regiões (Rio de Janeiro,
São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia) autorizadas a emitir moeda. Logo, os efeitos dessa
política foram percebidos. Porém, eles estavam distantes daqueles pretendidos. O país
mergulhou no caos econômico-financeiro. O dinheiro emitido sem lastro ocasionou uma alta
inflação e uma incontrolável ciranda especulativa. A agitação e a incerteza tomaram conta das
Bolsas de Valores num clima que lembrava o encilhamento, o momento de tensão que antecedia
às corridas de cavalos no jóquei clube.
REPÚBLICA DOS CORONÉIS (1894-1930)
Também conhecida como República dos Fazendeiros, República dos Cafeicultores ou
República Café com Leite. Teve como traço marcante o intenso predomínio político da elite
agrária, determinando os destinos do país.
QUADRO POLÍTICO
Esse intenso poder econômico, social e político dos latifundiários é chamado de
coronelismo. Um fenômeno que tem suas raízes nos tempos coloniais, quando o controle
político das vilas ficava a cargo dos homens bons, os ricos proprietários. O coronelismo tem seu
apogeu na República Velha. Os coronéis, nas cidades onde se estabeleciam, eram o centro das
decisões. Tudo e todos giravam em torno deles. Poderosos financeiramente e amparados
também no poder de fogo de seus jagunços (capangas armados), controlavam as decisões do
executivo, interferiam nos assuntos da justiça, mandavam do padre, no delegado, no juiz, no
prefeito...no município todo. Coronelismo era isso, o mandonismo exagerado dos ricos
fazendeiros em todas as esferas da vida local.
O coronelismo extrapolou os limites do município e ganhou o âmbito nacional. Durante
a República Velha, todos os níveis da política institucionalizada no Brasil eram dominados
pelos fazendeiros, principalmente os cafeicultores (o grupo latifundiário em maior evidência).
Nas câmaras municipais, prefeituras, assembléias, governos regionais, Congresso Nacional e até
na Presidência, lá estavam eles – os coronéis ou, na ausência deles, os seus representantes.
Essa situação era viabilizada por um processo eleitoral extremamente corrompido e fraudulento,
que em nada ou quase nada era representativo das vontades populares. A praxe política na época
era o voto de cabresto. Um voto conduzido pelo coronel que, no exercício do seu poder,
obrigava os eleitores – muitas vezes através da coerção física - a votarem nos candidatos
apoiados por ele. Além do que, não existia uma justiça eleitoral fiscalizando os pleitos. A única
coisa mais parecida com isto era a Comissão Verificadora, uma comissão parlamentar que
assistia e oficializava as eleições e seus resultados. Contudo, tal comissão era formada pelos
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próprios políticos que, na defesa de seus interesses pessoais ou partidários, eram coniventes com
as fraudes e com a mentira.
Dois acordos políticos famosos, fundamentados no coronelismo é claro, marcaram o
período:
 A Política dos Governadores – criada pelo presidente Campos Sales (1898-1902),
consistia numa troca de apoio político entre duas instâncias de poder – a Presidência e os
governos estaduais. Por esse acordo, o presidente se comprometia a não interferir nos
assuntos regionais e, em contrapartida, os governadores usariam de todos os meios para
elegerem parlamentares que apoiassem o presidente no Congresso Nacional, dando-lhe uma
base de sustentação.
 A Política do Café com Leite – acordo entre os dois mais fortes e ricos estados do país,
São Paulo e Minas Gerais, visando a alternância de seus políticos no cargo máximo da
nação. Usavam todo o seu poder econômico e político para elegerem ora um presidente
representante das oligarquias paulistas, ora um das oligarquias mineiras. Uma situação de
total desrespeito aos princípios de um regime federativo.
QUADRO ECONÔMICO
Apesar do surto industrial observado no fim do período imperial, o Brasil continuava
um país fundamentalmente agrário-exportador. Nosso principal produto de exportação
continuava sendo o café, que nesse instante atingiu seu ápice. Chegou a representar mais de
70% na nossa pauta de exportações, como mostra o quadro abaixo.
Principais Produtos de Exportação do Brasil (1881-1929)
PARTICIPAÇÃO (EM %) NA RECEITA DAS EXPORTAÇÕES
Anos
Café
Açúcar
Algodão
Borracha
Couros
Outros
1881 /
1890
61,5
9,9
4,2
8,0
3,2
13,2
1891 /
1900
64,5
6,0
2,7
15,0
2,4
9,4
1901 /
1910
52,7
1,9
2,1
25,7
4,2
13,4
1911 /
1913
61,7
0,3
2,1
20,0
4,2
11,7
1914 /
1918
47,4
3,9
1,4
12,0
7,5
27,8
1919 /
1923
58,8
4,7
3,4
3,0
5,3
24,8
1924 /
1928
72,5
0,4
1,9
2,8
4,5
17,9
Fonte: SILVA; VILELA e SUZIGAN apud SINGER. O Brasil no Contexto do Capitalismo
Internacional. In: FAUSTO, Boris (org.). História Geral da Civilização Brasileira. SP, Difel,
1975.
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Embarque de café no porto de Santos.
Durante a República Velha, os cafeicultores foram muito beneficiados. Reunidos em Taubaté,
em 1906, no que ficou conhecido como Convênio de Taubaté, eles pressionaram o governo
federal a adotar uma política de valorização artificial dos preços do café no mercado externo.
Tal política se processava da seguinte forma: 1o. – o governo brasileiro contraía empréstimos
junto a bancos estrangeiros; 2o. – com esse dinheiro, comprava o excedente da produção dos
cafeicultores; 3o – estocava esse excedente, retirando-o do mercado; 4o – automaticamente,
interferia na ―lei da oferta e da procura‖. Com menos café em oferta no mercado internacional,
seu preço sobe, o produto valoriza e os lucros do produtor aumentam.
A indústria brasileira teve novo impulso no período, notadamente durante os anos da
Primeira Guerra Mundial e os imediatamente posteriores a ela. Com as grandes potências
capitalistas em conflito, suas indústrias se voltaram para a produção bélica e o Brasil ficou sem
seus fornecedores habituais. Forçosamente, foi obrigado a adotar uma política de substituição
das importações que suprisse sua necessidade de bens manufaturados. A indústria então
cresceu, passou por um novo surto de desenvolvimento, mas ainda insuficiente – vale ressaltar para fazer do país uma potência capitalista industrializada.
No começo da República, em 1889, havia no Brasil pouco mais de 600 fábricas, nas quais
trabalhavam 54.000 operários. Trinta e um anos depois, em 1920, havia no país 13.336
indústrias que empregavam 275.000 operários.
COTRIM, Gilberto. História Global. Ed. Saraiva.
Um outro produto, a borracha, teve significativa importância na economia brasileira na
virada do século XIX para o XX. Chegou a ocupar o posto de segundo produto em volume de
exportações (25,7% entre os anos de 1901 e 1910). Produzida a partir do látex extraído das
seringueiras da Amazônia, determinou um grande desenvolvimento da região, principalmente da
cidade de Manaus. Contudo, a atividade era muito rudimentar, praticada com base no
extrativismo predatório e sem grande organização produtiva. Devido a essas características, o
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Brasil foi incapaz de suprir a crescente demanda internacional pelo produto e alguns países
imperialistas da Europa (como Inglaterra, Holanda e França) passaram a produzir borracha – de
forma organizada e sistemática - em suas colônias da Ásia. Diante da concorrência, tal atividade
entra em crise profunda a partir de 1919.
Apesar do grande volume de exportações, o Brasil daquele período apresentava um
quadro de déficit comercial. O endividamento externo cresceu de tal forma que tornou-se
impossível ao país saldar seus compromissos, principalmente junto à Inglaterra, nosso maior
credor. Em 1898, o Ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho foi forçado a renegociar a dívida,
promovendo a sua rolagem e assumindo novos empréstimos que pudessem criar condições para
pagamento futuro. Esse processo é conhecido como Funding Loan e foi adotado, também, num
governo posterior, o de Hermes da Fonseca (1910-1914).
MOVIMENTOS E REVOLTAS POPULARES
A República Velha foi um período de grande efervescência em termos de movimentos
sociais. Tanto na cidade quanto no campo, uma grande agitação se fez notar. Movimentos
diversos, diferentes na composição, na forma e nos objetivos. Alguns, revestidos de caráter
místico-religioso, outros de orientação socialista e, nem sempre, marcados pela crítica política.
Porém, todos eles gerados e desenvolvidos no seio de um sistema excludente e antipopular,
como era a República dos Coronéis.
Movimento Operário. Com o crescimento da indústria nacional, conseqüentemente, o
número de trabalhadores urbanos aumentou. Foi nesse contexto que se formou o operariado
brasileiro. Um operariado que, no início do século, tinha condições de trabalho e de vida
semelhantes àquelas dos trabalhadores europeus durante a Revolução Industrial. Baixos
salários, longas jornadas diárias, ambientes insalubres, alto índice de acidentes, grande
exploração do trabalho infantil e feminino e uma total ausência de legislação trabalhista. O
trabalhador não tinha seu contrato oficializado, não possuía salário-mínimo, férias, direito à
indenização por demissão e muito menos aposentadoria pública. Claro que toda essa situação se
refletia no cotidiano dos operários: péssima saúde, habitações precárias (os cortiços) e baixo
nível de escolaridade. O Estado, longe de amparar o trabalhador, legitimava a idéia burguesa de
que trabalho é algo social e não individual, portanto, a greve e a organização operária eram
proibidas, uma vez que prejudicam o bom andamento dessa sociedade. O trabalhador era um
―cidadão de segunda classe‖. Tinha deveres, mas direito algum.
Surgiram então, contrariando a ordem estabelecida, os primeiros sindicatos e
organizações operárias, dispostas a lutar por melhores condições de trabalho e vida para o
proletariado brasileiro. Foi de fundamental importância para isso, a participação dos imigrantes
europeus que, mesmo proibidos de se envolver em questões trabalhistas (Lei Adolfo Gordo 1907), dirigiram a formação destas instituições. Num primeiro momento, a ideologia condutora
do movimento operário foi o anarquismo ou anarco-sindicalismo. A partir de 1922, com a
fundação do PCB (Partido Comunista Brasileiro), essa liderança passa para as mãos dos
comunistas. Destaque: a grande greve geral de 1917 – mais de 50 mil trabalhadores parados,
muitas passeatas e conflitos com a polícia.
Revolta da Vacina (1904). Ocorrida no Rio de Janeiro, essa revolta teve como
motivação a política sanitarista desenvolvida pelo presidente Rodrigues Alves através de seu
ministro da saúde, o cientista Osvaldo Cruz. Naquela época, a Capital da república tinha sérios
problemas de urbanização (muito lixo, ratos, mosquitos, uma rede de esgoto precária e
habitações inadequadas). Era um foco de doenças como a febre amarela, a varíola e a peste
bubônica. Disposto a acabar com esse quadro, o presidente encomendou a Osvaldo Cruz um
plano de ação que consistia, basicamente, na reurbanização da cidade (pondo fim aos cortiços e
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casebres), no combate domiciliar ao mosquito transmissor da febre amarela e na vacinação
obrigatória contra a varíola. A população, pouco esclarecida, se rebelou contra tais medidas que,
de certa forma, causavam transtornos em sua vida. Além do que, o caráter obrigatório da vacina
era visto por muitos como um ultraje aos direitos individuais do cidadão. Uma onda de protestos
e agitações (bem aproveitadas pelos líderes da oposição ao governo) tomou conta da cidade
entre os dias 12 e 15 de novembro daquele ano.
Charge crítica ao Dr. Osvaldo Cruz.
Revolta da Chibata (1910). Revolta de marinheiros contra um procedimento
tradicional na Marinha desde os tempos imperiais: o castigo físico – através de chibatadas imposto pelos oficiais aos seus subordinados. No ano de 1910, explodiu a rebelião. Os
marinheiros de 4 navios de guerra, ancorados na Baía de Guanabara, se amotinaram sob a
liderança de João Cândido (o ―Almirante Negro‖), mataram alguns oficiais e ameaçaram
bombardear a Capital, caso o Governo não revogasse essa prática. Sob a promessa
governamental de acabar com os castigos corporais e anistiar os revoltosos, os marinheiros se
renderam. No entanto, vários líderes do movimento foram presos e mortos na cadeia.
Movimentos Messiânicos. Ocorridos no interior do Brasil, esses movimentos
camponeses foram frutos da intensa exploração da elite fundiária e da miséria dos trabalhadores
rurais. Combinavam princípios de igualdade social com um caráter místico-religioso, sempre
sob a liderança de um personagem considerado o messias, o salvador, pelos seus seguidores.
Não tinham um projeto político-revolucionário consistente, mas incomodaram muito os grupos
dominantes na medida em que objetivavam a construção de comunidades livres da opressão,
baseadas na justiça e na igualdade – o que subvertia a ordem vigente. Foram destruídos pela
força militar do Estado, em guerras extremamente sangrentas. Os maiores exemplos de
movimentos messiânicos foram: Canudos, ocorrido no sertão nordestino no final do século XIX
e Contestado, na região de fronteira entre Santa Catarina e Paraná, nos anos de 1912 a 1916.
Canudos foi liderado pelo beato Antônio Conselheiro, homem de formação
intelectualizada e de família abastada, mas que, a partir de 1870, sai em peregrinação pelo sertão
nordestino fazendo pregações religiosas para aquela população desvalida. Suas pregações, de
grande eloquência, eram revestidas de um socialismo primitivo, de um ideal transformador que
dava aos seus ouvintes a esperança de uma vida melhor. Logo passou a ter vários seguidores.
Por onde passavam, faziam suas pregações, construíam igrejas e reformavam os cemitérios
locais. Se fixaram numa fazenda abandonada do interior da Bahia, às margens do rio VazaColégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750
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Barris, e alí ergueram uma vila, a Vila de Canudos, onde colocariam em prática os ideais do
movimento. Levavam uma vida de intensa religiosidade comandada pelo Conselheiro que, nessa
altura, assume perante seus seguidores ares de santo. Em Canudos não existia a propriedade
privada da terra, a produção era coletiva, o analfabetismo infantil foi erradicado, não existia
prostituição e nem alcoolismo. Se recusavam, também, a respeitar as leis e a pagar os impostos
da república. O arraial cresceu (chegou a ter cerca de 20.000 habitantes), mas não teve vida
longa. Incomodando sobremaneira a elite dominante, Canudos precisava ser destruído. Forças
policiais e do exército fizeram vários ataques à vila, numa guerra longa e desgastante, na qual os
canudenses tentaram resistir bravamente. Contudo, sucumbiram ao poderio bélico da federação
em outubro de 1897. A maioria da população foi morta e a vila arrasada e incendiada.
Antônio Conselheiro
O Contestado ocorreu numa área de litígio entre os estados do Paraná e Santa Catarina.
Num primeiro momento, foi liderado pelo monge João Maria e após sua morte, pelo seu
seguidor e quase homônimo, José Maria. Tinha um sentido próximo ao de Canudos, porém com
um misticismo muito mais acentuado. Os fiéis e seguidores do monge se concentraram na
região de Santa Maria, onde formaram uma ―cidade santa‖. As tropas do exército, utilizando
armamento pesado, derrotaram os integrantes do movimento em 1916.
Cangaço. Fenômeno, também, fruto da miséria camponesa no nordeste brasileiro, da
submissão da população rural ao mandonismo dos coronéis e da opressão das leis republicanas.
Em função disso, o Cangaço é conhecido ainda como banditismo social. Um tipo de banditismo
onde o indivíduo se torna bandido pela pressão do meio, como uma resposta às injustiças e
desigualdades sociais. Os cangaceiros formavam bandos armados independentes que
percorrendo o sertão, espalhavam o medo e a violência. Em constantes choques com as forças
policiais, esses homens viviam do saque, da pilhagem de cidades e fazendas. Eram para a
população nordestina uma mistura de heróis e vilões que, em tese, representavam uma forma de
resistência ao poder do latifúndio, mesmo sem um projeto político transformador. Teve como
figura de maior expressão, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Esse fenômeno, nascido no
fim do período imperial, se estendeu até os anos 30, na chamada Era Vargas.
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Bando de cangaceiros decapitados pela volante policial.
MOVIMENTOS DE CRÍTICA AO REGIME
Na década de 20, dois movimentos distintos, com composição e concepções próprias e,
cada um a seu modo, minaram as estruturas da República Oligárquica no Brasil: o Modernismo
e o Tenentismo.
Modernismo. Movimento artístico e intelectual que reuniu figuras como Anita Malfati,
Di Cavalcanti, Mário e Oswald de Andrade, Villa-Lobos, Menotti del Picchia e Tarsila do
Amaral, entre outros. Teve como marco inicial, a realização em 1922, da Semana de Arte
Moderna em São Paulo. Um encontro onde esses artistas de vanguarda procuraram revisar a
produção cultural brasileira. Assumiram uma posição de crítica à importação de velhos padrões
estéticos europeus e defenderam a necessidade de uma produção cultural legitimamente
brasileira, retratando com vigor a nossa própria realidade. As críticas modernistas extrapolaram
o âmbito da cultura e atingiram, também, o campo político. De modo geral, esses intelectuais,
formadores de opinião, repudiaram o tipo de política desenvolvida pela oligarquia rural. Uma
política antidemocrática, voltada apenas para os interesses dos latifundiários e do
desenvolvimento agrícola, em prejuízo da população urbana e da modernização industrial e
capitalista do Brasil. Essas críticas ganharam a adesão da classe média nacional e influenciaram,
inclusive, o desenvolvimento do movimento tenentista.
Abapuru, Tarsila do Amaral.
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Tropical, Anita Malfati.
Tenentismo. Movimento composto pelos oficiais de média patente nas forças armadas
(tenentes e capitães) que, personificando os anseios das camadas urbanas, se insurgiram contra o
velho modelo político oligárquico do país. Através de diversas revoltas armadas, tentaram
chegar ao poder e tinham como projeto: a moralidade política e administrativa, um processo
eleitoral transparente e um nacionalismo econômico desenvolvimentista sem, contudo, abrir
mão de um Estado forte e, até mesmo, autoritário.
Principais episódios tenentistas:



A Revolta do Forte de Copacabana ou Revolta dos 18 do Forte (1922) – levante
conduzido por 18 tenentes do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, contra a posse do
presidente Artur Bernardes, considerado símbolo do continuísmo oligárquico no poder.
Entraram em confronto com as tropas leais ao governo e foram cruelmente derrotados.
Somente dois rebeldes escaparam com vida: Eduardo Gomes e Siqueira Campos.
A Revolução de 1924 em São Paulo – liderada pelos militares Isidoro Dias Lopes e Juarez
Távora, os tenentistas assumem o controle da cidade de São Paulo. Por pouco tempo. As
forças governistas, bem armadas e em maior número, abafam a rebelião e os revoltosos são
obrigados a fugir.
A Coluna Prestes (1924-1926) – formada pela união da Coluna Paulista (agrupamento de
revoltosos derrotados em São Paulo) com a Coluna Gaúcha (rebelados do Rio Grande do
Sul, liderados pelo capitão Luís Carlos Prestes, o ―cavaleiro da esperança‖). Desenvolveram
uma longa marcha (cerca de 20.000 quilômetros) pelo interior do país, na intenção de
suscitar nas populações camponesas um espírito revolucionário capaz de derrubar o regime
dos coronéis. Sem sucesso, os que sobraram da Coluna após os choques com as tropas
legalistas, se refugiaram na Bolívia em 1926.
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Área de ação da Coluna Prestes.
REVOLUÇÃO DE 1930
O fim da República dos Coronéis aconteceu através de um golpe de Estado impetrado,
principalmente, pelas oligarquias mineiras e gaúchas apoiadas no tenentismo. Esse golpe é
conhecido como Revolução de 1930 e suas razões têm origem na crise da economia cafeeira no
Brasil.
A CRISE DO CAFÉ
Como é sabido, nossa estrutura econômica se baseava no modelo agrário-exportador de
café, dependente e vulnerável às oscilações do mercado internacional. Em 1929, o capitalismo
mundial é acometido de uma grave crise (relatada no capítulo anterior) e os nossos mercados
consumidores, notadamente os Estados Unidos, se fecham para o comércio.
Sem compradores para o café, os preços caem, os estoques se avolumam e o Governo se
mostra incapaz de dar continuidade àquela política de valorização artificial do produto. A
economia brasileira, fundamentada na cafeicultura, entra em profunda crise, as oligarquias
cafeicultoras se ressentem e os reflexos políticos dessa situação se tornam inevitáveis.
AS ELEIÇÕES DE 1930
Estavam marcadas eleições presidenciais para o ano de 1930. O então presidente era o
paulista Washington Luís que, pelo Acordo do Café com Leite, deveria indicar como candidato
à sua sucessão um político mineiro, provavelmente o governador de Minas Gerais, Antônio
Carlos. No entanto, pressionado pelos cafeicultores paulistas (temerosos de que um presidente
mineiro não desse a devida atenção à cafeicultura em crise), indicou um outro paulista como
candidato oficial à Presidência, Júlio Prestes. Este ato significou a cisão das oligarquias de
Minas e São Paulo. O fim da velha Política do Café com Leite.
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Washington Luís
Minas Gerais, se sentindo lesada pela atitude do Presidente, se aliou a dois outros
estados da federação – Rio Grande do Sul e Paraíba – formando uma chapa de oposição à
candidatura paulista, a Aliança Liberal. Concorreriam às eleições por esse pacto: como
candidato a Presidente, o governador gaúcho, Getúlio Vargas; como vice, o governador da
Paraíba, João Pessoa. O projeto populista da Aliança Liberal agradou bastante as camadas
médias e populares. Seus pontos principais eram: criação de leis trabalhistas, estabelecimento do
voto secreto, combate às fraudes eleitorais e incentivo ao desenvolvimento industrial.
As eleições então transcorreram tendo de um lado, Júlio Prestes (representante das
oligarquias paulistas) e do outro, Getúlio Vargas (representante da Aliança Liberal). Mais uma
vez, as fraudes e a violência – de ambos os lados - marcaram um pleito no Brasil. No entanto, os
paulistas demostraram maior ―competência‖ e o resultado surpreendeu a nação: vitória de Júlio
Prestes.
O GOLPE
A insatisfação popular e a indignação com aquele processo eleitoral corrompido
cresceram assustadoramente. O povo, aos poucos, ganhava as ruas em protestos e manifestações
pedindo a anulação do pleito e, alguns, até a renúncia do Presidente.
A situação ficou ainda mais crítica quando, em 25 de julho, João Pessoa foi assassinado
na Paraíba. Os motivos do crime não tinham ligação direta com a política nacional. Envolveu
questões políticas locais e até mesmo, motivos passionais. Contudo, para a população
descontente, o crime era uma demonstração do que o governo oligárquico paulista era capaz.
Uma revolta popular era eminente.
Percebendo isso, Antônio Carlos, membro da Aliança, disse: ―façamos a revolução,
antes que o povo a faça‖. Essa frase sintetiza o medo que a elite oposicionista tinha de uma
convulsão social que descambasse para uma revolução de esquerda, liderada pelos sindicatos e
grupos comunistas.
Passando-se por liderança legítima do povo, a Aliança Liberal, apoiada em grupos
tenentistas, iniciou e comandou uma revolução armada. Um golpe de Estado que, em 24 de
outubro, depôs o presidente Washington Luís antes mesmo de Júlio Prestes ser empossado.
Assumiu a Presidência o chefe máximo desse golpe, Getúlio Vargas, que pôs fim à República
Velha e deu início a um governo que, de provisório (como se declarava), se tornou um dos
governos de maior duração na história do Brasil: a Era Vargas, de 1930 a 1945.
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Getúlio Vargas
REPÚBLICA VELHA (1889 – 1930)
RESUMO
FASES
1889/1894
REPÚBLICA DA
ESPADA
Exercida por
militares
Afirmação das
Instituições
Republicanas
1894/1922
APOGEU DA
REPÚBLICA
OLIGÁRQUICA
GOVERNO
DEODORO
DA
FONSECA
(1889-1891)
POLÍTICA
ECONOMIA
Constituinte
Encilhamento
FLORIANO
PEIXOTO
(1891-1894)
Marechal de Ferro
Sem Eleições
Centralismo
Repercussão do
emissionismo e da
especulação
PRUDENTE
DE MORAIS
(1894-1898)
Pacificação da
Revolução
Federalista
CAMPOS
SALES
(1898-1902)
Estruturação da
"política dos
governadores"
Início da queda dos
preços internacionais
do café.
Negociação do
Funding Loan.
Saneamento
Financeiro (Joaquim
Murtinho)
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SOCIEDADE
Agitações
Revolta da
Marinha
Revolução
Federalista no
RS
Guerra de
Canudos
Oswaldo Cruz
dedica-se a
erradicar a peste
bubônica em
Santos
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*Monopólio da vida
política pelas
oligarguias estaduais
Crise no Mercado
Interno
Queda nos lucros do
café
*Política dos
Governadores: O
Governo Federal
respeitaria as
decisões dos
Governadores dos
Estados, desde que
estes elegessem
bancadas federais
submissas ao
Presidente
*Coronelismo:
poder político dos
grandes
proprietários rurais
RODRIGUES
ALVES
(1902-1906)
Política de proteção
ao café
AFONSO
PENA
(1906-1909)
NILO
PEÇANHA
(1909-1910)
*Voto de cabresto:
manifestação dos
"currais eleitorais"
dos poderosos
"coronéis
Convênio de Taubaté
(1906)
Lei Adolfo Gordo de
expulsão de
estrangeiros
1903 Saneamento do
RJ (Osvaldo
Cruz)
1904 - Revolta
da Vacina
Congresso
Operário
Brasileiro
(AnarcoSindicalismo)
Campanha Civilista
HERMES DA
FONSECA
(1910-1914)
Crise econômica
Segundo Funding
Loan
1910 - Revolta
da Chibata
1912/16 Guerra do
Contestado
Surto industrial
devido à necessidade
de substituição de
importações
Greve Geral em
SP
*Eleições pouco
competitivas
* Política café-comleite: alternância de
presidentes
indicados por São
Paulo e/ou Minas
Gerais
VENCESLAU
BRAS
(1914-1918)
Brasil entra na 1a
Guerra
DELFIM
MOREIRA
(1918-1919)
EPITÁCIO
PESSOA
(1919-1922)
Revolta dos 18 do
Forte
Crise econômica
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1922 - Semana
da Arte
Moderna
1922 Fundação do
PCB
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1922/1930
CRISE DAS
OLIGARQUIAS
*Desenvolvimento
da urbanização
* Industrialização
* Movimento
operário
*Reivindicações das
camadas médias
* Tenentismo
*Dissensões
oligárquicas
ARTUR
BERNARDES
(1922-1926)
Rebelião do R.S.
Desemprego
Endividamento Carestia
Tenentismo
Descontentamen
to geral
Coluna
PRESTES
Indicação de Júlio
Prestes (SP)
WASHINGTO
N LUÍS
(1926-1930)
Crise de 1929
Aliança Liberal
Revolução de 30

TEXTOS COMPLEMENTARES
Voto de Cabresto
João Soares estava com razão: política só se ganha com muito dinheiro. A começar com
o alistamento, que é trabalhoso e caro: tem-se que ir atrás do eleitor, convencê-los a se alistarem
e ensinar tudo, até a copiar o requerimento. Cabo de enxada engrossa as mãos – o laço de couro
cru, machado e foice também. Caneta e lápis são ferramentas muito delicadas.
A lida é outra: labuta pesada, de sol a sol, nos campos e nos currais. É marcar o bezerro,
é curar bicheira, é rachar pau de cerca, é esticar arame farpado; roçar invernada, arar o chão,
capinar, colher... E quem perdeu tempo com leitura, com a escrita, em menino, acaba logo
esquecendo-se do pouco que aprendeu. Ler o quê? Escrever o quê? Mas agora é preciso: a
eleição vem aí, e o título de eleitor rende a estima do patrão, a gente vira pessoa.
Acontece, também, que Pé-de-Meia não quer saber de histórias: é cabo eleitoral
alistador de gente, pago por cabeça e tem que mostrar trabalho. (...) Precisa fazer o registro dos
eleitores, buscar a certidão de nascimento ou de casamento fora do município quando o caboclo
nasceu fora, entrega dos títulos. Lá se vai um dinheirão! Depois bóia o pagode. E condução para
muita gente, pois roceiro, quando viaja carrega família toda. A fila em frente ao juiz se reveza, e
isso custa mais um ajutório ao Pé-de-Meia, cuja presença e eleitor exige para assisti-lo na hora
de passar o recibo. Lá está ele, botando coragem no povo.
PALMÉRIO, Mário. Vila dos Confins.
Conhecendo Canudos
No entardecer de 05 de outubro de 1897, estava concluída a sangrenta tarefa de
expedição Arthur Oscar 4a da República Oligárquica contra a cidade camponesa de Canudos,
sítio revoltoso encravado no semi-árido da Bahia. Queimada, calcinada e salgada, a cidadela
insubmissa lavava com o sangue popular os arejados salões das elites republicanas. Estavam
mortos Antônio Conselheiro, Pajeú, João Abade. Macambira, Noberto, Manoel Quadrado .
Jaziam no chão ressequido milhares de corpos insepultos e degolados, anônimas testemunhos da
crueldade do Exército brasileiro, que mutilara mortalmente prisioneiros indefesos. Entardecia
em 1897, as chamas iluminavam a noite sertaneja, e o povo inconformado escrevera com
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rebeldia uma das mais belas e dolorosas páginas das lutas populares do Brasil.
Antiga fazenda de gado situada às margens do rio Vaza Barris, pertencentes ao imenso
latifúndio da família Garcia D’Ávila . Canudos viria a se tornar em pouco tempo na 2a. maior
cidade da Bahia com 25 000 habitantes, sendo suplantada apenas por Salvador, capital do
Estado. (...)
O lugarejo cresce, prospera. No dizer de Honório Vilanova antigo morador do lugar
"Grande era o Canudos do meu tempo. Quem tinha roça tratava de roça, na beira do rio. Quem
tinha gado tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos tratava da mulher e dos filhos. Quem
gostava de reza ai rezar. De tudo se tratava porque a nenhum pertencia e era de todos, pequenos
e grandes, na regra ensinada pelo peregrino" . Em 1895, missão religiosa comandada pelo Frei
Capuchinho Evangelista do Monte Marciano, tenta dispersar os moradores de Canudos, usando
da autoridade da Igreja Católica. Fiel ao seu sonho a gente canudense repele o discurso
autoritário e preconceituoso do Frei Evangelista. A missão religiosa passa a receber tratamento
hostil e deixa prematuramente o arraial. Posteriormente em relatório apresentado ao
Arcebispado da Bahia o padre proclama: "o desagravo da religião, o bem social e a prognidade
do poder civil pedem uma providência que restabeleça ao povoado de canudos o prestígio da lei,
as garantias do culto católico e os nossos foros de povo civilizado." Estava claro, era preciso
destruir o arraial, era inadiável a desorganização do modo fraterno e igualitário de vida
canudense. (...)
Em nome de Deus era preciso castigar o povo de Deus! Finalmente, em 1896, o juiz
Arlindo Leoni, de Juazeiro, solicita ao Governo Estadual o envio de tropas para Canudos.
(Manoel Neto - Historiador e Pesquisador do CEEC/UNEB
www.portfolium.com.br/canudos.htm)
Movimento Operário na República Velha
Convocadas por diversas entidades operárias, mais de sessenta mil pessoas reuniram-se
no grande comício de 1º de maio realizado no Rio de Janeiro, em 1919. Depois de ovacionar os
discursos inflamados dos oradores, a multidão saiu pelas ruas da antiga capital federal gritando
palavras de ordem, exigindo salários mais justos, liberdade sindical etc. Uma demonstração de
força e coesão, magnífica certamente, mas algo ilusória.
Por baixo dessa vitalidade, o movimento operário brasileiro exibia muitas dificuldades e
incertezas. A começar pelo seu tamanho, bastante pequeno em relação ao conjunto dos
trabalhadores - confirmando, aliás, a experiência histórica de que o setor organizado dos
trabalhadores tem sido sempre minoritário tendo em vista a grande massa dos assalariados.
Também nas relações entre trabalhadores nacionais e estrangeiros nem tudo corria
favoravelmente, menos por conta de um certo e compreensível xenofobismo dos nacionais
(insuflado e manipulado por empresários e autoridades) e mais pela heterogeneidade étnica,
social e ideológica dos estrangeiros.
A este respeito, aliás, seria equivocado supor que toda a organização e atividade política
do movimento operário brasileiro nesta fase inicial tenha resultado da influência dos imigrantes
estrangeiros. Dentre eles, eram poucos os que provinham do meio urbano-industrial e que trazia
na bagagem experiências consolidadas de militância sindical ou partidária. Nem por isso,
entretanto, sua contribuição foi pequena: eles não apenas tomaram parte no deslanche do
movimento operário nacional como, sobretudo, abriram canais para o indispensável intercâmbio
entre o operariado brasileiro e as diversas frentes do movimento operário internacional. Mais do
que simplesmente influir sobre a atuação organizada dos trabalhadores nacionais, os imigrantes
estrangeiros contribuíram para internacionalizá-la. O que, de certa forma, era uma imposição da
expansão internacional do próprio capitalismo.
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Entre 1890 e 1920, socialistas e anarquistas dominam a cena das principais
organizações proletárias brasileiras. Até a virada do século, o grande impulso , vem
naturalmente, da II Internacional (Internacional Socialista, 1889), em torno da qual se articulam
os partidos socialistas europeus, tendo à frente o Partido Social-Democrata Alemão (1785) e o
Partido Operário Socialista Francês (1880). No Brasil surgem ligas, centros e círculos
"socialistas", realizam-se "congressos socialistas" de trabalhadores e criam-se partidos operários
"socialistas", de base regional ou nacional. Tudo acompanhado de uma imprensa proletária
"socialista", tão fértil quanto efêmera: panfletos, revistas e jornais de informação e propaganda
política (...)
Tratava-se de um socialismo amplo e pouco definido, onde conviviam - nem sempre
muito bem - grupos e tendências divergentes (...)
Entre 1905 a 1920, são os anarquistas que vão à frente do movimento operário. No
Congresso Operário Brasileiro realizado no Rio de Janeiro em 1906, vencem as teses do
anarcossindicalismo: organização do proletariado numa sociedade de resistência econômica,
luta permanente contra as arbitrariedades do Estado e dos patrões, ação direta e coletiva contra o
capital através da greve geral, regulamentação do trabalho feminino e infantil, solidariedade aos
trabalhadores de outros países, condenação da guerra e do militarismo, etc. Inspirados nos
libertários italianos, franceses, espanhóis e portugueses, os anarquistas brasileiros - muitos deles
imigrantes - privilegiam a ação sindical, a agitação grevista, a militância na imprensa e a
vivência comunitária, centrada no lazer e na educação.
Sua atuação foi decisiva, sem dúvida, principalmente depois da criação da
Confederação Operária Brasileira (COB), em 1908, que reuniu dezenas de associações
proletárias, e do jornal Voz do Trabalhador. Uma atuação, por outro lado, que se desgastou
muito nas greves de 1915 a 1919 e que sofreu todo o peso da repressão da República
Oligárquica. Além disso, na falta de melhor embasamento e orientação política, o anarquismo
acabou vitimado por seus próprios impulsos moralistas e golpistas.
Ainda nos anos 20 surgem em cena os comunistas. Com a criação, em 1922, do Partido
Comunista do Brasil, líderes e militantes operários - entre eles alguns ex-anarquistas pretendiam dar ao movimento operário nacional maior unidade sindical e sobretudo uma correta
e legítima direção política. Socialistas, anarquistas, comunistas sindicalistas cristãos... todos
disputavam o controle do movimento operário, divergindo sobre sua orientação sindical e
política. Revolucionários, reformistas e liberais guiavam-se por idéias e experiências que nem
sempre se ajustavam à realidade de um capitalismo atrasado e de uma sociedade que mal
acabava de sair do escravismo colonial. Mas, apesar de pequeno na sua dimensão e frágil diante
dos obstáculos, o movimento avançava.
TEIXEIRA, Francisco M.P. História Concisa do Brasil. p. 233-6.
Apud. PILETTI, Nelson. História do Brasil. Ed. Ática, p. 222-3.
A Revolta da Vacina
No inicio do século XX, a capital do Brasil vivia momentos difíceis. Houve um
aumento da população devido à vinda dos ex-escravos da zona rural à procura de emprego, às
maiores possibilidades de ingressar no funcionalismo público e à constante chegada de
imigrantes no porto do Rio de Janeiro. Em 1890, a população do Rio de Janeiro era de 522.651
habitantes. Em 1920, já era de 1.157.873 habitantes. A maior parte da população passou a viver
nos cortiços, sem a menor higiene, sem esgoto e sem uma sistemática coleta de lixo. Isso
disseminou pela cidade uma série de doenças.
Em novembro de 1904, Rodrigues Alves publicou a lei da vacinação obrigatória e
autorizou o higienista Osvaldo Cruz a desencadear a vacinação em massa na população, para
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deter o surto da varíola. O governo alegava que a vacinação era de interesse da saúde pública,
pois, nesse mesmo ano, já haviam morrido de varíola 4.201 pessoas.
Entretanto, os opositores do governo alegaram que o decreto da vacina propunha a
aplicação de forma truculenta, pois o material era pouco confiável e insistiam que a decisão
deveria ser pessoal. Como o povo não fora devidamente esclarecido sobre a necessidade de
vacina, reagiu e passou a agredir os vacinadores. Vale salientar que as visitas dos Guardas
Sanitários nem sempre era de forma pacífica,,pois eles estavam sempre acompanhados de
soldados da polícia como prevenção para possíveis resistências, já que grande parte das
residências ou casas de cômodos e cortiços que não estavam dentro dos padrões de higiene
estabelecidos pelo governo deveriam ser reformados ou demolidos e isso provocavam revoltas
dos proprietários.
A partir do dia 10 de novembro , a cidade do Rio de Janeiro foi tomada pelos populares
que ergueram barricadas, depredaram lojas e a iluminação pública, incendiaram bondes etc.
A Revolta da Vacina teve três focos de sublevação:
- Os jacobinos da liga contra a vacina obrigatória: trabalhadores do serviço público,
profissionais autônomos, pequenos empresários, bacharéis desempregados e locatários de
imóveis em má situação financeira, que viam no movimento uma alavanca para impor uma
plataforma política que se opunha à hegemonia dos cafeicultores paulistas no poder;
- Oficiais e cadetes do exército, os antigos florianistas que desejavam recuperar sua posição de
influência;
- A população, pouco esclarecida, que estava revoltada com o método arbitrário do governo de
impor a vacina.
No dia 12 de novembro, centenas de populares concentraram-se no Centro das Classes
Operárias, em frente ao Palácio do Catete. No dia 14, foi a vez da revolta na Escola Militar na
Praia Vermelha, aumentando os combates na rua. Insatisfeito com os acontecimentos,
Rodrigues Alves decretou estado de sítio na capital federal (16 de novembro) e teve inicio o
processo para sufocar a revolta. Ele prorrogou o estado de sitio até 18 de março de 1905. Nesse
período revogou a obrigatoriedade da vacina , mas deportou para o Acre e Amazônia uma massa
de populares que eram aprisionados sem justificativa e degredados sem julgamento. Muitos
morreram a bordo de navios-prisão quando iam para o Norte. Assim, o governo sufocou esse
movimento popular.
ORDONEZ, Marlene & QUEVEDO, Júlio. História: Coleção Horizontes. IBEP, p. 391-2
O Partido Comunista
O movimento marxista no Brasil sempre foi numericamente mais fraco do que o
anarquismo: a razão foi a preponderância desta corrente na Itália, Espanha e Portugal. Porém a
tradição do socialismo científico manifesta-se muitas vezes em movimentos proletários. (...)
Quanto se dá a revolução de outubro de 1917, os jornais noticiam o fato como vitória
anarquista. (...) O reflexo no Brasil é o apoio maciço desta ideologia ao movimento europeu, e a
criação do Partido Comunista do Brasil (1919), pelo anarquista José Oiticica e Edgard
Leuenroth.
Logo a realidade desmente esta versão: dá-se, então, a aglutinação dos diversos grupos
comunistas dentro do molde organizatório do bolchevismo. A União Marxista de Porto Alegre
(1918), a União Operária de Cruzeiro (1917), o Círculo de Estudantes Marxistas do Recife
(1919), O Grupo ―Clarté‖ (1921) e, finalmente, os elementos da cisão operária de 1921 fundam
o Partido Comunista. Inicia-se nova fase do movimento proletário.
O Congresso de fundação do Partido não foi coisa realizada de improviso, mas resultou
de um trabalho de preparação que durou cerca de cinco meses. Por iniciativa e sob a direção do
Grupo Comunista instalado no Rio a 7 de novembro de 1921, outros grupos se organizaram, nos
centros operários mais importantes do país, com o objetivo precípuo de marchar para a fundação
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do Partido. Tinha-se em vista estabelecer certos pontos de apoio nas regiões onde havia alguma
concentração de massa operária. Compreendia-se, por outro lado, que o Partido devia ter desde
o início um caráter definido de partido político de âmbito nacional.
O mensário Movimento Comunista, editado pelo Grupo do Rio, já em seu primeiro
número (janeiro de 1922) explicava claramente o que se pretendia: ―Com referência à
organização partidária, desejamos e preconizamos a união, solidamente baseada num mesmo
programa ideológico, estratégico e tático, das camadas mais conscientes do proletariado. As
experiências próprias e alheias nos aconselham unidade de concentração de esforços e energias,
tendo em vista coordenar sistematizar, metodizar a propaganda, a organização e a ação do
proletariado―. Para melhor compreendermos o sentido dessas palavras, no momento em que
foram escritas, devemos lembrar que a classe operária brasileira não possuía nenhuma tradição
de organização política em partido independente e que os sindicatos operários de tendência
revolucionária, em cujo seio nasceu o Partido eram organizações de orientação anarquista,
baseadas numa estrutura ultraliberal, adversas a qualquer forma de direção unitária e
centralizada.
Os Grupos Comunistas eram constituídos, em sua absoluta maioria, por operários
ativistas do movimento sindical, e assim, desde o início se constituiu o Partido, sobre uma firme
base proletária. (...)
Simultaneamente, os comunistas sustentavam intensa campanha ideológica de
esclarecimento e definição de princípios em luta aberta e cerrada contra a ideologia anarquista
até então predominante. (...)
Continuando a orientação já seguida anteriormente pelos Grupos, os comunistas
intensificaram sua atuação dentro dos sindicatos operários, através de líderes e ativistas
sindicais que haviam aderido ao Partido. Em aplicação da linha partidária, os comunistas
batiam-se pela unidade sindical independentemente de diferenças ideológicas e políticas, como
condição básica para o êxito das ações de massa. A luta ideológica de critica à orientação
anarquista era sobretudo uma luta contra o sectarismo, fator de divisionismo, isolamento e
impotência. ―É imprescindível levar em conta as lições do passado‖ - lia-se em editorial do
Movimento Comunista consagrado ao problema de reorganização sindical - ―Se não queremos
incidir nas mesmas falhas e nos mesmos erros, que inevitavelmente nos levariam às
mesmíssimas derrotas‖.
(Astrojildo Pereira, Formação do PCB)
A Coluna Prestes
Se o tenentismo foi o fruto mais evidente da crise da República Velha, a Coluna Prestes
marcou a década de 20 como o momento culminante das revoltas tenentistas, o episódio mais
importante da saga dos ―tenentes‖. Se os demais levantes tenentistas mostraram-se efêmeros e,
por não conseguirem se consolidar, foram facilmente liquidados pelas forças governistas, a
Coluna Prestes — à qual se somaram os rebeldes paulistas de julho de 1924 - manteve-se,
durante 2 anos e 3 meses, percorrendo cerca de 25 mil quilômetros através de treze estados do
Brasil.
A Coluna jamais foi derrotada, e combateu forças muitas vezes superiores em homens,
armamento e apoio logístico. Os principais comandantes do Exército Nacional não só não
puderam desbaratar a Coluna Prestes, como sofreram sérios revezes e pesadas perdas infligidos
pelos rebeldes durante sua marcha. A Coluna, em seu périplo pelo Brasil, derrotou dezoito
generais.
Os 1,5 mil homens, que percorreram o país rebelados contra o governo oligárquico e
despótico de Artur Bernardes, não só não foram esmagados, como realizaram uma marcha de
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proporções inéditas na história mundial. E ainda introduziram uma nova forma de guerra, até
então desconhecida na prática dos exércitos das nações americanas: a ―guerra de guerrilhas‖, em
que o movimento é a garantia da vitória e o imobilismo, o caminho da derrota.
Ao adotar a tática da ―guerra de movimento‖, a Coluna Prestes garantiu a própria
sobrevivência em condições que lhe eram extremamente desfavoráveis. E mais, transformou-se
num exército com características populares, cuja marcha pelo Brasil foi decisiva para que a
chama da revolução tenentista se mantivesse acesa.
PRESTES, Anita L. Uma Epopéia Brasileira – A Coluna Prestes. 2a ed. Ed. Moderna. São
Paulo. 1995.
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República Velha - CHAMONS DESENVOLVIMENTOS