Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 REPÚBLICA VELHA (1889-1930) A República Velha ou Primeira República no Brasil é dividida, tradicionalmente, em duas fases distintas: a República da Espada e a República dos Coronéis. REPÚBLICA DA ESPADA (1889-1894) Esse período é assim chamado por se constituir num instante, imediatamente posterior à Proclamação da República e de consolidação do novo regime, no qual o governo brasileiro foi exercido por presidentes militares. O primeiro, Deodoro da Fonseca, governou de maneira pouco estável de 1889 a 1891, quando pressionado pela oposição ao seu autoritarismo, renunciou ao cargo. Assumiu então a Presidência um outro militar, Floriano Peixoto, chamado de ―marechal de ferro‖ devido à sua postura de austeridade e repressão às revoltas ocorridas no país (Revolução Federalista no R.S. e Revolta da Armada no R.J.). Governou o país até 1894, quando um civil assumiu a Presidência, Prudente de Morais, iniciando a fase da República Oligárquica. Bandeira provisória da República Brasileira. A CONSTITUIÇÃO DE 1891 Uma nova Constituição, em substituição àquela do Império, foi elaborada pelos republicanos e entrou em vigor à partir de 1891. Foi a segunda Constituição da nossa história e a primeira da República. Principais pontos: Estabelecimento do regime de República Federativa no Brasil, visando o respeito às diferenças regionais e a autonomia administrativa dos Estados. Presidencialismo, com mandatos eletivos de 4 anos. Fim do voto censitário, mas proibição do voto dos analfabetos, mulheres e menores de 21 anos. Essa medida deu continuidade ao caráter excludente do nosso processo eleitoral, onde a maioria da população estava inapta para o exercício do sufrágio. Voto não secreto. Fim do padroado, declaração de um Estado leigo e com liberdade de cultos. O ENCILHAMENTO Durante o Governo de Deodoro da Fonseca, foi organizado pelo então Ministro da Fazenda – Rui Barbosa – um plano econômico de grande amplitude e impacto na vida do país. Conhecido como Política do Encilhamento, esse plano acabou, ao contrário do planejado, causando um violento processo especulativo e inflacionário no Brasil. Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 1 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 Rui Barbosa Tratava-se de uma política emissionista. Na intenção de facilitar o acesso das pessoas ao crédito e de promover um maior desenvolvimento estrutural do país, Rui Barbosa promoveu uma grande reforma bancária e financeira. Dividiu o Brasil em quatro regiões (Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia) autorizadas a emitir moeda. Logo, os efeitos dessa política foram percebidos. Porém, eles estavam distantes daqueles pretendidos. O país mergulhou no caos econômico-financeiro. O dinheiro emitido sem lastro ocasionou uma alta inflação e uma incontrolável ciranda especulativa. A agitação e a incerteza tomaram conta das Bolsas de Valores num clima que lembrava o encilhamento, o momento de tensão que antecedia às corridas de cavalos no jóquei clube. REPÚBLICA DOS CORONÉIS (1894-1930) Também conhecida como República dos Fazendeiros, República dos Cafeicultores ou República Café com Leite. Teve como traço marcante o intenso predomínio político da elite agrária, determinando os destinos do país. QUADRO POLÍTICO Esse intenso poder econômico, social e político dos latifundiários é chamado de coronelismo. Um fenômeno que tem suas raízes nos tempos coloniais, quando o controle político das vilas ficava a cargo dos homens bons, os ricos proprietários. O coronelismo tem seu apogeu na República Velha. Os coronéis, nas cidades onde se estabeleciam, eram o centro das decisões. Tudo e todos giravam em torno deles. Poderosos financeiramente e amparados também no poder de fogo de seus jagunços (capangas armados), controlavam as decisões do executivo, interferiam nos assuntos da justiça, mandavam do padre, no delegado, no juiz, no prefeito...no município todo. Coronelismo era isso, o mandonismo exagerado dos ricos fazendeiros em todas as esferas da vida local. O coronelismo extrapolou os limites do município e ganhou o âmbito nacional. Durante a República Velha, todos os níveis da política institucionalizada no Brasil eram dominados pelos fazendeiros, principalmente os cafeicultores (o grupo latifundiário em maior evidência). Nas câmaras municipais, prefeituras, assembléias, governos regionais, Congresso Nacional e até na Presidência, lá estavam eles – os coronéis ou, na ausência deles, os seus representantes. Essa situação era viabilizada por um processo eleitoral extremamente corrompido e fraudulento, que em nada ou quase nada era representativo das vontades populares. A praxe política na época era o voto de cabresto. Um voto conduzido pelo coronel que, no exercício do seu poder, obrigava os eleitores – muitas vezes através da coerção física - a votarem nos candidatos apoiados por ele. Além do que, não existia uma justiça eleitoral fiscalizando os pleitos. A única coisa mais parecida com isto era a Comissão Verificadora, uma comissão parlamentar que assistia e oficializava as eleições e seus resultados. Contudo, tal comissão era formada pelos Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 2 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 próprios políticos que, na defesa de seus interesses pessoais ou partidários, eram coniventes com as fraudes e com a mentira. Dois acordos políticos famosos, fundamentados no coronelismo é claro, marcaram o período: A Política dos Governadores – criada pelo presidente Campos Sales (1898-1902), consistia numa troca de apoio político entre duas instâncias de poder – a Presidência e os governos estaduais. Por esse acordo, o presidente se comprometia a não interferir nos assuntos regionais e, em contrapartida, os governadores usariam de todos os meios para elegerem parlamentares que apoiassem o presidente no Congresso Nacional, dando-lhe uma base de sustentação. A Política do Café com Leite – acordo entre os dois mais fortes e ricos estados do país, São Paulo e Minas Gerais, visando a alternância de seus políticos no cargo máximo da nação. Usavam todo o seu poder econômico e político para elegerem ora um presidente representante das oligarquias paulistas, ora um das oligarquias mineiras. Uma situação de total desrespeito aos princípios de um regime federativo. QUADRO ECONÔMICO Apesar do surto industrial observado no fim do período imperial, o Brasil continuava um país fundamentalmente agrário-exportador. Nosso principal produto de exportação continuava sendo o café, que nesse instante atingiu seu ápice. Chegou a representar mais de 70% na nossa pauta de exportações, como mostra o quadro abaixo. Principais Produtos de Exportação do Brasil (1881-1929) PARTICIPAÇÃO (EM %) NA RECEITA DAS EXPORTAÇÕES Anos Café Açúcar Algodão Borracha Couros Outros 1881 / 1890 61,5 9,9 4,2 8,0 3,2 13,2 1891 / 1900 64,5 6,0 2,7 15,0 2,4 9,4 1901 / 1910 52,7 1,9 2,1 25,7 4,2 13,4 1911 / 1913 61,7 0,3 2,1 20,0 4,2 11,7 1914 / 1918 47,4 3,9 1,4 12,0 7,5 27,8 1919 / 1923 58,8 4,7 3,4 3,0 5,3 24,8 1924 / 1928 72,5 0,4 1,9 2,8 4,5 17,9 Fonte: SILVA; VILELA e SUZIGAN apud SINGER. O Brasil no Contexto do Capitalismo Internacional. In: FAUSTO, Boris (org.). História Geral da Civilização Brasileira. SP, Difel, 1975. Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 3 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 Embarque de café no porto de Santos. Durante a República Velha, os cafeicultores foram muito beneficiados. Reunidos em Taubaté, em 1906, no que ficou conhecido como Convênio de Taubaté, eles pressionaram o governo federal a adotar uma política de valorização artificial dos preços do café no mercado externo. Tal política se processava da seguinte forma: 1o. – o governo brasileiro contraía empréstimos junto a bancos estrangeiros; 2o. – com esse dinheiro, comprava o excedente da produção dos cafeicultores; 3o – estocava esse excedente, retirando-o do mercado; 4o – automaticamente, interferia na ―lei da oferta e da procura‖. Com menos café em oferta no mercado internacional, seu preço sobe, o produto valoriza e os lucros do produtor aumentam. A indústria brasileira teve novo impulso no período, notadamente durante os anos da Primeira Guerra Mundial e os imediatamente posteriores a ela. Com as grandes potências capitalistas em conflito, suas indústrias se voltaram para a produção bélica e o Brasil ficou sem seus fornecedores habituais. Forçosamente, foi obrigado a adotar uma política de substituição das importações que suprisse sua necessidade de bens manufaturados. A indústria então cresceu, passou por um novo surto de desenvolvimento, mas ainda insuficiente – vale ressaltar para fazer do país uma potência capitalista industrializada. No começo da República, em 1889, havia no Brasil pouco mais de 600 fábricas, nas quais trabalhavam 54.000 operários. Trinta e um anos depois, em 1920, havia no país 13.336 indústrias que empregavam 275.000 operários. COTRIM, Gilberto. História Global. Ed. Saraiva. Um outro produto, a borracha, teve significativa importância na economia brasileira na virada do século XIX para o XX. Chegou a ocupar o posto de segundo produto em volume de exportações (25,7% entre os anos de 1901 e 1910). Produzida a partir do látex extraído das seringueiras da Amazônia, determinou um grande desenvolvimento da região, principalmente da cidade de Manaus. Contudo, a atividade era muito rudimentar, praticada com base no extrativismo predatório e sem grande organização produtiva. Devido a essas características, o Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 4 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 Brasil foi incapaz de suprir a crescente demanda internacional pelo produto e alguns países imperialistas da Europa (como Inglaterra, Holanda e França) passaram a produzir borracha – de forma organizada e sistemática - em suas colônias da Ásia. Diante da concorrência, tal atividade entra em crise profunda a partir de 1919. Apesar do grande volume de exportações, o Brasil daquele período apresentava um quadro de déficit comercial. O endividamento externo cresceu de tal forma que tornou-se impossível ao país saldar seus compromissos, principalmente junto à Inglaterra, nosso maior credor. Em 1898, o Ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho foi forçado a renegociar a dívida, promovendo a sua rolagem e assumindo novos empréstimos que pudessem criar condições para pagamento futuro. Esse processo é conhecido como Funding Loan e foi adotado, também, num governo posterior, o de Hermes da Fonseca (1910-1914). MOVIMENTOS E REVOLTAS POPULARES A República Velha foi um período de grande efervescência em termos de movimentos sociais. Tanto na cidade quanto no campo, uma grande agitação se fez notar. Movimentos diversos, diferentes na composição, na forma e nos objetivos. Alguns, revestidos de caráter místico-religioso, outros de orientação socialista e, nem sempre, marcados pela crítica política. Porém, todos eles gerados e desenvolvidos no seio de um sistema excludente e antipopular, como era a República dos Coronéis. Movimento Operário. Com o crescimento da indústria nacional, conseqüentemente, o número de trabalhadores urbanos aumentou. Foi nesse contexto que se formou o operariado brasileiro. Um operariado que, no início do século, tinha condições de trabalho e de vida semelhantes àquelas dos trabalhadores europeus durante a Revolução Industrial. Baixos salários, longas jornadas diárias, ambientes insalubres, alto índice de acidentes, grande exploração do trabalho infantil e feminino e uma total ausência de legislação trabalhista. O trabalhador não tinha seu contrato oficializado, não possuía salário-mínimo, férias, direito à indenização por demissão e muito menos aposentadoria pública. Claro que toda essa situação se refletia no cotidiano dos operários: péssima saúde, habitações precárias (os cortiços) e baixo nível de escolaridade. O Estado, longe de amparar o trabalhador, legitimava a idéia burguesa de que trabalho é algo social e não individual, portanto, a greve e a organização operária eram proibidas, uma vez que prejudicam o bom andamento dessa sociedade. O trabalhador era um ―cidadão de segunda classe‖. Tinha deveres, mas direito algum. Surgiram então, contrariando a ordem estabelecida, os primeiros sindicatos e organizações operárias, dispostas a lutar por melhores condições de trabalho e vida para o proletariado brasileiro. Foi de fundamental importância para isso, a participação dos imigrantes europeus que, mesmo proibidos de se envolver em questões trabalhistas (Lei Adolfo Gordo 1907), dirigiram a formação destas instituições. Num primeiro momento, a ideologia condutora do movimento operário foi o anarquismo ou anarco-sindicalismo. A partir de 1922, com a fundação do PCB (Partido Comunista Brasileiro), essa liderança passa para as mãos dos comunistas. Destaque: a grande greve geral de 1917 – mais de 50 mil trabalhadores parados, muitas passeatas e conflitos com a polícia. Revolta da Vacina (1904). Ocorrida no Rio de Janeiro, essa revolta teve como motivação a política sanitarista desenvolvida pelo presidente Rodrigues Alves através de seu ministro da saúde, o cientista Osvaldo Cruz. Naquela época, a Capital da república tinha sérios problemas de urbanização (muito lixo, ratos, mosquitos, uma rede de esgoto precária e habitações inadequadas). Era um foco de doenças como a febre amarela, a varíola e a peste bubônica. Disposto a acabar com esse quadro, o presidente encomendou a Osvaldo Cruz um plano de ação que consistia, basicamente, na reurbanização da cidade (pondo fim aos cortiços e Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 5 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 casebres), no combate domiciliar ao mosquito transmissor da febre amarela e na vacinação obrigatória contra a varíola. A população, pouco esclarecida, se rebelou contra tais medidas que, de certa forma, causavam transtornos em sua vida. Além do que, o caráter obrigatório da vacina era visto por muitos como um ultraje aos direitos individuais do cidadão. Uma onda de protestos e agitações (bem aproveitadas pelos líderes da oposição ao governo) tomou conta da cidade entre os dias 12 e 15 de novembro daquele ano. Charge crítica ao Dr. Osvaldo Cruz. Revolta da Chibata (1910). Revolta de marinheiros contra um procedimento tradicional na Marinha desde os tempos imperiais: o castigo físico – através de chibatadas imposto pelos oficiais aos seus subordinados. No ano de 1910, explodiu a rebelião. Os marinheiros de 4 navios de guerra, ancorados na Baía de Guanabara, se amotinaram sob a liderança de João Cândido (o ―Almirante Negro‖), mataram alguns oficiais e ameaçaram bombardear a Capital, caso o Governo não revogasse essa prática. Sob a promessa governamental de acabar com os castigos corporais e anistiar os revoltosos, os marinheiros se renderam. No entanto, vários líderes do movimento foram presos e mortos na cadeia. Movimentos Messiânicos. Ocorridos no interior do Brasil, esses movimentos camponeses foram frutos da intensa exploração da elite fundiária e da miséria dos trabalhadores rurais. Combinavam princípios de igualdade social com um caráter místico-religioso, sempre sob a liderança de um personagem considerado o messias, o salvador, pelos seus seguidores. Não tinham um projeto político-revolucionário consistente, mas incomodaram muito os grupos dominantes na medida em que objetivavam a construção de comunidades livres da opressão, baseadas na justiça e na igualdade – o que subvertia a ordem vigente. Foram destruídos pela força militar do Estado, em guerras extremamente sangrentas. Os maiores exemplos de movimentos messiânicos foram: Canudos, ocorrido no sertão nordestino no final do século XIX e Contestado, na região de fronteira entre Santa Catarina e Paraná, nos anos de 1912 a 1916. Canudos foi liderado pelo beato Antônio Conselheiro, homem de formação intelectualizada e de família abastada, mas que, a partir de 1870, sai em peregrinação pelo sertão nordestino fazendo pregações religiosas para aquela população desvalida. Suas pregações, de grande eloquência, eram revestidas de um socialismo primitivo, de um ideal transformador que dava aos seus ouvintes a esperança de uma vida melhor. Logo passou a ter vários seguidores. Por onde passavam, faziam suas pregações, construíam igrejas e reformavam os cemitérios locais. Se fixaram numa fazenda abandonada do interior da Bahia, às margens do rio VazaColégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 6 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 Barris, e alí ergueram uma vila, a Vila de Canudos, onde colocariam em prática os ideais do movimento. Levavam uma vida de intensa religiosidade comandada pelo Conselheiro que, nessa altura, assume perante seus seguidores ares de santo. Em Canudos não existia a propriedade privada da terra, a produção era coletiva, o analfabetismo infantil foi erradicado, não existia prostituição e nem alcoolismo. Se recusavam, também, a respeitar as leis e a pagar os impostos da república. O arraial cresceu (chegou a ter cerca de 20.000 habitantes), mas não teve vida longa. Incomodando sobremaneira a elite dominante, Canudos precisava ser destruído. Forças policiais e do exército fizeram vários ataques à vila, numa guerra longa e desgastante, na qual os canudenses tentaram resistir bravamente. Contudo, sucumbiram ao poderio bélico da federação em outubro de 1897. A maioria da população foi morta e a vila arrasada e incendiada. Antônio Conselheiro O Contestado ocorreu numa área de litígio entre os estados do Paraná e Santa Catarina. Num primeiro momento, foi liderado pelo monge João Maria e após sua morte, pelo seu seguidor e quase homônimo, José Maria. Tinha um sentido próximo ao de Canudos, porém com um misticismo muito mais acentuado. Os fiéis e seguidores do monge se concentraram na região de Santa Maria, onde formaram uma ―cidade santa‖. As tropas do exército, utilizando armamento pesado, derrotaram os integrantes do movimento em 1916. Cangaço. Fenômeno, também, fruto da miséria camponesa no nordeste brasileiro, da submissão da população rural ao mandonismo dos coronéis e da opressão das leis republicanas. Em função disso, o Cangaço é conhecido ainda como banditismo social. Um tipo de banditismo onde o indivíduo se torna bandido pela pressão do meio, como uma resposta às injustiças e desigualdades sociais. Os cangaceiros formavam bandos armados independentes que percorrendo o sertão, espalhavam o medo e a violência. Em constantes choques com as forças policiais, esses homens viviam do saque, da pilhagem de cidades e fazendas. Eram para a população nordestina uma mistura de heróis e vilões que, em tese, representavam uma forma de resistência ao poder do latifúndio, mesmo sem um projeto político transformador. Teve como figura de maior expressão, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Esse fenômeno, nascido no fim do período imperial, se estendeu até os anos 30, na chamada Era Vargas. Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 7 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 Bando de cangaceiros decapitados pela volante policial. MOVIMENTOS DE CRÍTICA AO REGIME Na década de 20, dois movimentos distintos, com composição e concepções próprias e, cada um a seu modo, minaram as estruturas da República Oligárquica no Brasil: o Modernismo e o Tenentismo. Modernismo. Movimento artístico e intelectual que reuniu figuras como Anita Malfati, Di Cavalcanti, Mário e Oswald de Andrade, Villa-Lobos, Menotti del Picchia e Tarsila do Amaral, entre outros. Teve como marco inicial, a realização em 1922, da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Um encontro onde esses artistas de vanguarda procuraram revisar a produção cultural brasileira. Assumiram uma posição de crítica à importação de velhos padrões estéticos europeus e defenderam a necessidade de uma produção cultural legitimamente brasileira, retratando com vigor a nossa própria realidade. As críticas modernistas extrapolaram o âmbito da cultura e atingiram, também, o campo político. De modo geral, esses intelectuais, formadores de opinião, repudiaram o tipo de política desenvolvida pela oligarquia rural. Uma política antidemocrática, voltada apenas para os interesses dos latifundiários e do desenvolvimento agrícola, em prejuízo da população urbana e da modernização industrial e capitalista do Brasil. Essas críticas ganharam a adesão da classe média nacional e influenciaram, inclusive, o desenvolvimento do movimento tenentista. Abapuru, Tarsila do Amaral. Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 8 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 Tropical, Anita Malfati. Tenentismo. Movimento composto pelos oficiais de média patente nas forças armadas (tenentes e capitães) que, personificando os anseios das camadas urbanas, se insurgiram contra o velho modelo político oligárquico do país. Através de diversas revoltas armadas, tentaram chegar ao poder e tinham como projeto: a moralidade política e administrativa, um processo eleitoral transparente e um nacionalismo econômico desenvolvimentista sem, contudo, abrir mão de um Estado forte e, até mesmo, autoritário. Principais episódios tenentistas: A Revolta do Forte de Copacabana ou Revolta dos 18 do Forte (1922) – levante conduzido por 18 tenentes do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, contra a posse do presidente Artur Bernardes, considerado símbolo do continuísmo oligárquico no poder. Entraram em confronto com as tropas leais ao governo e foram cruelmente derrotados. Somente dois rebeldes escaparam com vida: Eduardo Gomes e Siqueira Campos. A Revolução de 1924 em São Paulo – liderada pelos militares Isidoro Dias Lopes e Juarez Távora, os tenentistas assumem o controle da cidade de São Paulo. Por pouco tempo. As forças governistas, bem armadas e em maior número, abafam a rebelião e os revoltosos são obrigados a fugir. A Coluna Prestes (1924-1926) – formada pela união da Coluna Paulista (agrupamento de revoltosos derrotados em São Paulo) com a Coluna Gaúcha (rebelados do Rio Grande do Sul, liderados pelo capitão Luís Carlos Prestes, o ―cavaleiro da esperança‖). Desenvolveram uma longa marcha (cerca de 20.000 quilômetros) pelo interior do país, na intenção de suscitar nas populações camponesas um espírito revolucionário capaz de derrubar o regime dos coronéis. Sem sucesso, os que sobraram da Coluna após os choques com as tropas legalistas, se refugiaram na Bolívia em 1926. Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 9 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 Área de ação da Coluna Prestes. REVOLUÇÃO DE 1930 O fim da República dos Coronéis aconteceu através de um golpe de Estado impetrado, principalmente, pelas oligarquias mineiras e gaúchas apoiadas no tenentismo. Esse golpe é conhecido como Revolução de 1930 e suas razões têm origem na crise da economia cafeeira no Brasil. A CRISE DO CAFÉ Como é sabido, nossa estrutura econômica se baseava no modelo agrário-exportador de café, dependente e vulnerável às oscilações do mercado internacional. Em 1929, o capitalismo mundial é acometido de uma grave crise (relatada no capítulo anterior) e os nossos mercados consumidores, notadamente os Estados Unidos, se fecham para o comércio. Sem compradores para o café, os preços caem, os estoques se avolumam e o Governo se mostra incapaz de dar continuidade àquela política de valorização artificial do produto. A economia brasileira, fundamentada na cafeicultura, entra em profunda crise, as oligarquias cafeicultoras se ressentem e os reflexos políticos dessa situação se tornam inevitáveis. AS ELEIÇÕES DE 1930 Estavam marcadas eleições presidenciais para o ano de 1930. O então presidente era o paulista Washington Luís que, pelo Acordo do Café com Leite, deveria indicar como candidato à sua sucessão um político mineiro, provavelmente o governador de Minas Gerais, Antônio Carlos. No entanto, pressionado pelos cafeicultores paulistas (temerosos de que um presidente mineiro não desse a devida atenção à cafeicultura em crise), indicou um outro paulista como candidato oficial à Presidência, Júlio Prestes. Este ato significou a cisão das oligarquias de Minas e São Paulo. O fim da velha Política do Café com Leite. Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 10 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 Washington Luís Minas Gerais, se sentindo lesada pela atitude do Presidente, se aliou a dois outros estados da federação – Rio Grande do Sul e Paraíba – formando uma chapa de oposição à candidatura paulista, a Aliança Liberal. Concorreriam às eleições por esse pacto: como candidato a Presidente, o governador gaúcho, Getúlio Vargas; como vice, o governador da Paraíba, João Pessoa. O projeto populista da Aliança Liberal agradou bastante as camadas médias e populares. Seus pontos principais eram: criação de leis trabalhistas, estabelecimento do voto secreto, combate às fraudes eleitorais e incentivo ao desenvolvimento industrial. As eleições então transcorreram tendo de um lado, Júlio Prestes (representante das oligarquias paulistas) e do outro, Getúlio Vargas (representante da Aliança Liberal). Mais uma vez, as fraudes e a violência – de ambos os lados - marcaram um pleito no Brasil. No entanto, os paulistas demostraram maior ―competência‖ e o resultado surpreendeu a nação: vitória de Júlio Prestes. O GOLPE A insatisfação popular e a indignação com aquele processo eleitoral corrompido cresceram assustadoramente. O povo, aos poucos, ganhava as ruas em protestos e manifestações pedindo a anulação do pleito e, alguns, até a renúncia do Presidente. A situação ficou ainda mais crítica quando, em 25 de julho, João Pessoa foi assassinado na Paraíba. Os motivos do crime não tinham ligação direta com a política nacional. Envolveu questões políticas locais e até mesmo, motivos passionais. Contudo, para a população descontente, o crime era uma demonstração do que o governo oligárquico paulista era capaz. Uma revolta popular era eminente. Percebendo isso, Antônio Carlos, membro da Aliança, disse: ―façamos a revolução, antes que o povo a faça‖. Essa frase sintetiza o medo que a elite oposicionista tinha de uma convulsão social que descambasse para uma revolução de esquerda, liderada pelos sindicatos e grupos comunistas. Passando-se por liderança legítima do povo, a Aliança Liberal, apoiada em grupos tenentistas, iniciou e comandou uma revolução armada. Um golpe de Estado que, em 24 de outubro, depôs o presidente Washington Luís antes mesmo de Júlio Prestes ser empossado. Assumiu a Presidência o chefe máximo desse golpe, Getúlio Vargas, que pôs fim à República Velha e deu início a um governo que, de provisório (como se declarava), se tornou um dos governos de maior duração na história do Brasil: a Era Vargas, de 1930 a 1945. Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 11 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 Getúlio Vargas REPÚBLICA VELHA (1889 – 1930) RESUMO FASES 1889/1894 REPÚBLICA DA ESPADA Exercida por militares Afirmação das Instituições Republicanas 1894/1922 APOGEU DA REPÚBLICA OLIGÁRQUICA GOVERNO DEODORO DA FONSECA (1889-1891) POLÍTICA ECONOMIA Constituinte Encilhamento FLORIANO PEIXOTO (1891-1894) Marechal de Ferro Sem Eleições Centralismo Repercussão do emissionismo e da especulação PRUDENTE DE MORAIS (1894-1898) Pacificação da Revolução Federalista CAMPOS SALES (1898-1902) Estruturação da "política dos governadores" Início da queda dos preços internacionais do café. Negociação do Funding Loan. Saneamento Financeiro (Joaquim Murtinho) Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 SOCIEDADE Agitações Revolta da Marinha Revolução Federalista no RS Guerra de Canudos Oswaldo Cruz dedica-se a erradicar a peste bubônica em Santos 12 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 *Monopólio da vida política pelas oligarguias estaduais Crise no Mercado Interno Queda nos lucros do café *Política dos Governadores: O Governo Federal respeitaria as decisões dos Governadores dos Estados, desde que estes elegessem bancadas federais submissas ao Presidente *Coronelismo: poder político dos grandes proprietários rurais RODRIGUES ALVES (1902-1906) Política de proteção ao café AFONSO PENA (1906-1909) NILO PEÇANHA (1909-1910) *Voto de cabresto: manifestação dos "currais eleitorais" dos poderosos "coronéis Convênio de Taubaté (1906) Lei Adolfo Gordo de expulsão de estrangeiros 1903 Saneamento do RJ (Osvaldo Cruz) 1904 - Revolta da Vacina Congresso Operário Brasileiro (AnarcoSindicalismo) Campanha Civilista HERMES DA FONSECA (1910-1914) Crise econômica Segundo Funding Loan 1910 - Revolta da Chibata 1912/16 Guerra do Contestado Surto industrial devido à necessidade de substituição de importações Greve Geral em SP *Eleições pouco competitivas * Política café-comleite: alternância de presidentes indicados por São Paulo e/ou Minas Gerais VENCESLAU BRAS (1914-1918) Brasil entra na 1a Guerra DELFIM MOREIRA (1918-1919) EPITÁCIO PESSOA (1919-1922) Revolta dos 18 do Forte Crise econômica Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 1922 - Semana da Arte Moderna 1922 Fundação do PCB 13 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 1922/1930 CRISE DAS OLIGARQUIAS *Desenvolvimento da urbanização * Industrialização * Movimento operário *Reivindicações das camadas médias * Tenentismo *Dissensões oligárquicas ARTUR BERNARDES (1922-1926) Rebelião do R.S. Desemprego Endividamento Carestia Tenentismo Descontentamen to geral Coluna PRESTES Indicação de Júlio Prestes (SP) WASHINGTO N LUÍS (1926-1930) Crise de 1929 Aliança Liberal Revolução de 30 TEXTOS COMPLEMENTARES Voto de Cabresto João Soares estava com razão: política só se ganha com muito dinheiro. A começar com o alistamento, que é trabalhoso e caro: tem-se que ir atrás do eleitor, convencê-los a se alistarem e ensinar tudo, até a copiar o requerimento. Cabo de enxada engrossa as mãos – o laço de couro cru, machado e foice também. Caneta e lápis são ferramentas muito delicadas. A lida é outra: labuta pesada, de sol a sol, nos campos e nos currais. É marcar o bezerro, é curar bicheira, é rachar pau de cerca, é esticar arame farpado; roçar invernada, arar o chão, capinar, colher... E quem perdeu tempo com leitura, com a escrita, em menino, acaba logo esquecendo-se do pouco que aprendeu. Ler o quê? Escrever o quê? Mas agora é preciso: a eleição vem aí, e o título de eleitor rende a estima do patrão, a gente vira pessoa. Acontece, também, que Pé-de-Meia não quer saber de histórias: é cabo eleitoral alistador de gente, pago por cabeça e tem que mostrar trabalho. (...) Precisa fazer o registro dos eleitores, buscar a certidão de nascimento ou de casamento fora do município quando o caboclo nasceu fora, entrega dos títulos. Lá se vai um dinheirão! Depois bóia o pagode. E condução para muita gente, pois roceiro, quando viaja carrega família toda. A fila em frente ao juiz se reveza, e isso custa mais um ajutório ao Pé-de-Meia, cuja presença e eleitor exige para assisti-lo na hora de passar o recibo. Lá está ele, botando coragem no povo. PALMÉRIO, Mário. Vila dos Confins. Conhecendo Canudos No entardecer de 05 de outubro de 1897, estava concluída a sangrenta tarefa de expedição Arthur Oscar 4a da República Oligárquica contra a cidade camponesa de Canudos, sítio revoltoso encravado no semi-árido da Bahia. Queimada, calcinada e salgada, a cidadela insubmissa lavava com o sangue popular os arejados salões das elites republicanas. Estavam mortos Antônio Conselheiro, Pajeú, João Abade. Macambira, Noberto, Manoel Quadrado . Jaziam no chão ressequido milhares de corpos insepultos e degolados, anônimas testemunhos da crueldade do Exército brasileiro, que mutilara mortalmente prisioneiros indefesos. Entardecia em 1897, as chamas iluminavam a noite sertaneja, e o povo inconformado escrevera com Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 14 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 rebeldia uma das mais belas e dolorosas páginas das lutas populares do Brasil. Antiga fazenda de gado situada às margens do rio Vaza Barris, pertencentes ao imenso latifúndio da família Garcia D’Ávila . Canudos viria a se tornar em pouco tempo na 2a. maior cidade da Bahia com 25 000 habitantes, sendo suplantada apenas por Salvador, capital do Estado. (...) O lugarejo cresce, prospera. No dizer de Honório Vilanova antigo morador do lugar "Grande era o Canudos do meu tempo. Quem tinha roça tratava de roça, na beira do rio. Quem tinha gado tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos tratava da mulher e dos filhos. Quem gostava de reza ai rezar. De tudo se tratava porque a nenhum pertencia e era de todos, pequenos e grandes, na regra ensinada pelo peregrino" . Em 1895, missão religiosa comandada pelo Frei Capuchinho Evangelista do Monte Marciano, tenta dispersar os moradores de Canudos, usando da autoridade da Igreja Católica. Fiel ao seu sonho a gente canudense repele o discurso autoritário e preconceituoso do Frei Evangelista. A missão religiosa passa a receber tratamento hostil e deixa prematuramente o arraial. Posteriormente em relatório apresentado ao Arcebispado da Bahia o padre proclama: "o desagravo da religião, o bem social e a prognidade do poder civil pedem uma providência que restabeleça ao povoado de canudos o prestígio da lei, as garantias do culto católico e os nossos foros de povo civilizado." Estava claro, era preciso destruir o arraial, era inadiável a desorganização do modo fraterno e igualitário de vida canudense. (...) Em nome de Deus era preciso castigar o povo de Deus! Finalmente, em 1896, o juiz Arlindo Leoni, de Juazeiro, solicita ao Governo Estadual o envio de tropas para Canudos. (Manoel Neto - Historiador e Pesquisador do CEEC/UNEB www.portfolium.com.br/canudos.htm) Movimento Operário na República Velha Convocadas por diversas entidades operárias, mais de sessenta mil pessoas reuniram-se no grande comício de 1º de maio realizado no Rio de Janeiro, em 1919. Depois de ovacionar os discursos inflamados dos oradores, a multidão saiu pelas ruas da antiga capital federal gritando palavras de ordem, exigindo salários mais justos, liberdade sindical etc. Uma demonstração de força e coesão, magnífica certamente, mas algo ilusória. Por baixo dessa vitalidade, o movimento operário brasileiro exibia muitas dificuldades e incertezas. A começar pelo seu tamanho, bastante pequeno em relação ao conjunto dos trabalhadores - confirmando, aliás, a experiência histórica de que o setor organizado dos trabalhadores tem sido sempre minoritário tendo em vista a grande massa dos assalariados. Também nas relações entre trabalhadores nacionais e estrangeiros nem tudo corria favoravelmente, menos por conta de um certo e compreensível xenofobismo dos nacionais (insuflado e manipulado por empresários e autoridades) e mais pela heterogeneidade étnica, social e ideológica dos estrangeiros. A este respeito, aliás, seria equivocado supor que toda a organização e atividade política do movimento operário brasileiro nesta fase inicial tenha resultado da influência dos imigrantes estrangeiros. Dentre eles, eram poucos os que provinham do meio urbano-industrial e que trazia na bagagem experiências consolidadas de militância sindical ou partidária. Nem por isso, entretanto, sua contribuição foi pequena: eles não apenas tomaram parte no deslanche do movimento operário nacional como, sobretudo, abriram canais para o indispensável intercâmbio entre o operariado brasileiro e as diversas frentes do movimento operário internacional. Mais do que simplesmente influir sobre a atuação organizada dos trabalhadores nacionais, os imigrantes estrangeiros contribuíram para internacionalizá-la. O que, de certa forma, era uma imposição da expansão internacional do próprio capitalismo. Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 15 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 Entre 1890 e 1920, socialistas e anarquistas dominam a cena das principais organizações proletárias brasileiras. Até a virada do século, o grande impulso , vem naturalmente, da II Internacional (Internacional Socialista, 1889), em torno da qual se articulam os partidos socialistas europeus, tendo à frente o Partido Social-Democrata Alemão (1785) e o Partido Operário Socialista Francês (1880). No Brasil surgem ligas, centros e círculos "socialistas", realizam-se "congressos socialistas" de trabalhadores e criam-se partidos operários "socialistas", de base regional ou nacional. Tudo acompanhado de uma imprensa proletária "socialista", tão fértil quanto efêmera: panfletos, revistas e jornais de informação e propaganda política (...) Tratava-se de um socialismo amplo e pouco definido, onde conviviam - nem sempre muito bem - grupos e tendências divergentes (...) Entre 1905 a 1920, são os anarquistas que vão à frente do movimento operário. No Congresso Operário Brasileiro realizado no Rio de Janeiro em 1906, vencem as teses do anarcossindicalismo: organização do proletariado numa sociedade de resistência econômica, luta permanente contra as arbitrariedades do Estado e dos patrões, ação direta e coletiva contra o capital através da greve geral, regulamentação do trabalho feminino e infantil, solidariedade aos trabalhadores de outros países, condenação da guerra e do militarismo, etc. Inspirados nos libertários italianos, franceses, espanhóis e portugueses, os anarquistas brasileiros - muitos deles imigrantes - privilegiam a ação sindical, a agitação grevista, a militância na imprensa e a vivência comunitária, centrada no lazer e na educação. Sua atuação foi decisiva, sem dúvida, principalmente depois da criação da Confederação Operária Brasileira (COB), em 1908, que reuniu dezenas de associações proletárias, e do jornal Voz do Trabalhador. Uma atuação, por outro lado, que se desgastou muito nas greves de 1915 a 1919 e que sofreu todo o peso da repressão da República Oligárquica. Além disso, na falta de melhor embasamento e orientação política, o anarquismo acabou vitimado por seus próprios impulsos moralistas e golpistas. Ainda nos anos 20 surgem em cena os comunistas. Com a criação, em 1922, do Partido Comunista do Brasil, líderes e militantes operários - entre eles alguns ex-anarquistas pretendiam dar ao movimento operário nacional maior unidade sindical e sobretudo uma correta e legítima direção política. Socialistas, anarquistas, comunistas sindicalistas cristãos... todos disputavam o controle do movimento operário, divergindo sobre sua orientação sindical e política. Revolucionários, reformistas e liberais guiavam-se por idéias e experiências que nem sempre se ajustavam à realidade de um capitalismo atrasado e de uma sociedade que mal acabava de sair do escravismo colonial. Mas, apesar de pequeno na sua dimensão e frágil diante dos obstáculos, o movimento avançava. TEIXEIRA, Francisco M.P. História Concisa do Brasil. p. 233-6. Apud. PILETTI, Nelson. História do Brasil. Ed. Ática, p. 222-3. A Revolta da Vacina No inicio do século XX, a capital do Brasil vivia momentos difíceis. Houve um aumento da população devido à vinda dos ex-escravos da zona rural à procura de emprego, às maiores possibilidades de ingressar no funcionalismo público e à constante chegada de imigrantes no porto do Rio de Janeiro. Em 1890, a população do Rio de Janeiro era de 522.651 habitantes. Em 1920, já era de 1.157.873 habitantes. A maior parte da população passou a viver nos cortiços, sem a menor higiene, sem esgoto e sem uma sistemática coleta de lixo. Isso disseminou pela cidade uma série de doenças. Em novembro de 1904, Rodrigues Alves publicou a lei da vacinação obrigatória e autorizou o higienista Osvaldo Cruz a desencadear a vacinação em massa na população, para Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 16 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 deter o surto da varíola. O governo alegava que a vacinação era de interesse da saúde pública, pois, nesse mesmo ano, já haviam morrido de varíola 4.201 pessoas. Entretanto, os opositores do governo alegaram que o decreto da vacina propunha a aplicação de forma truculenta, pois o material era pouco confiável e insistiam que a decisão deveria ser pessoal. Como o povo não fora devidamente esclarecido sobre a necessidade de vacina, reagiu e passou a agredir os vacinadores. Vale salientar que as visitas dos Guardas Sanitários nem sempre era de forma pacífica,,pois eles estavam sempre acompanhados de soldados da polícia como prevenção para possíveis resistências, já que grande parte das residências ou casas de cômodos e cortiços que não estavam dentro dos padrões de higiene estabelecidos pelo governo deveriam ser reformados ou demolidos e isso provocavam revoltas dos proprietários. A partir do dia 10 de novembro , a cidade do Rio de Janeiro foi tomada pelos populares que ergueram barricadas, depredaram lojas e a iluminação pública, incendiaram bondes etc. A Revolta da Vacina teve três focos de sublevação: - Os jacobinos da liga contra a vacina obrigatória: trabalhadores do serviço público, profissionais autônomos, pequenos empresários, bacharéis desempregados e locatários de imóveis em má situação financeira, que viam no movimento uma alavanca para impor uma plataforma política que se opunha à hegemonia dos cafeicultores paulistas no poder; - Oficiais e cadetes do exército, os antigos florianistas que desejavam recuperar sua posição de influência; - A população, pouco esclarecida, que estava revoltada com o método arbitrário do governo de impor a vacina. No dia 12 de novembro, centenas de populares concentraram-se no Centro das Classes Operárias, em frente ao Palácio do Catete. No dia 14, foi a vez da revolta na Escola Militar na Praia Vermelha, aumentando os combates na rua. Insatisfeito com os acontecimentos, Rodrigues Alves decretou estado de sítio na capital federal (16 de novembro) e teve inicio o processo para sufocar a revolta. Ele prorrogou o estado de sitio até 18 de março de 1905. Nesse período revogou a obrigatoriedade da vacina , mas deportou para o Acre e Amazônia uma massa de populares que eram aprisionados sem justificativa e degredados sem julgamento. Muitos morreram a bordo de navios-prisão quando iam para o Norte. Assim, o governo sufocou esse movimento popular. ORDONEZ, Marlene & QUEVEDO, Júlio. História: Coleção Horizontes. IBEP, p. 391-2 O Partido Comunista O movimento marxista no Brasil sempre foi numericamente mais fraco do que o anarquismo: a razão foi a preponderância desta corrente na Itália, Espanha e Portugal. Porém a tradição do socialismo científico manifesta-se muitas vezes em movimentos proletários. (...) Quanto se dá a revolução de outubro de 1917, os jornais noticiam o fato como vitória anarquista. (...) O reflexo no Brasil é o apoio maciço desta ideologia ao movimento europeu, e a criação do Partido Comunista do Brasil (1919), pelo anarquista José Oiticica e Edgard Leuenroth. Logo a realidade desmente esta versão: dá-se, então, a aglutinação dos diversos grupos comunistas dentro do molde organizatório do bolchevismo. A União Marxista de Porto Alegre (1918), a União Operária de Cruzeiro (1917), o Círculo de Estudantes Marxistas do Recife (1919), O Grupo ―Clarté‖ (1921) e, finalmente, os elementos da cisão operária de 1921 fundam o Partido Comunista. Inicia-se nova fase do movimento proletário. O Congresso de fundação do Partido não foi coisa realizada de improviso, mas resultou de um trabalho de preparação que durou cerca de cinco meses. Por iniciativa e sob a direção do Grupo Comunista instalado no Rio a 7 de novembro de 1921, outros grupos se organizaram, nos centros operários mais importantes do país, com o objetivo precípuo de marchar para a fundação Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 17 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 do Partido. Tinha-se em vista estabelecer certos pontos de apoio nas regiões onde havia alguma concentração de massa operária. Compreendia-se, por outro lado, que o Partido devia ter desde o início um caráter definido de partido político de âmbito nacional. O mensário Movimento Comunista, editado pelo Grupo do Rio, já em seu primeiro número (janeiro de 1922) explicava claramente o que se pretendia: ―Com referência à organização partidária, desejamos e preconizamos a união, solidamente baseada num mesmo programa ideológico, estratégico e tático, das camadas mais conscientes do proletariado. As experiências próprias e alheias nos aconselham unidade de concentração de esforços e energias, tendo em vista coordenar sistematizar, metodizar a propaganda, a organização e a ação do proletariado―. Para melhor compreendermos o sentido dessas palavras, no momento em que foram escritas, devemos lembrar que a classe operária brasileira não possuía nenhuma tradição de organização política em partido independente e que os sindicatos operários de tendência revolucionária, em cujo seio nasceu o Partido eram organizações de orientação anarquista, baseadas numa estrutura ultraliberal, adversas a qualquer forma de direção unitária e centralizada. Os Grupos Comunistas eram constituídos, em sua absoluta maioria, por operários ativistas do movimento sindical, e assim, desde o início se constituiu o Partido, sobre uma firme base proletária. (...) Simultaneamente, os comunistas sustentavam intensa campanha ideológica de esclarecimento e definição de princípios em luta aberta e cerrada contra a ideologia anarquista até então predominante. (...) Continuando a orientação já seguida anteriormente pelos Grupos, os comunistas intensificaram sua atuação dentro dos sindicatos operários, através de líderes e ativistas sindicais que haviam aderido ao Partido. Em aplicação da linha partidária, os comunistas batiam-se pela unidade sindical independentemente de diferenças ideológicas e políticas, como condição básica para o êxito das ações de massa. A luta ideológica de critica à orientação anarquista era sobretudo uma luta contra o sectarismo, fator de divisionismo, isolamento e impotência. ―É imprescindível levar em conta as lições do passado‖ - lia-se em editorial do Movimento Comunista consagrado ao problema de reorganização sindical - ―Se não queremos incidir nas mesmas falhas e nos mesmos erros, que inevitavelmente nos levariam às mesmíssimas derrotas‖. (Astrojildo Pereira, Formação do PCB) A Coluna Prestes Se o tenentismo foi o fruto mais evidente da crise da República Velha, a Coluna Prestes marcou a década de 20 como o momento culminante das revoltas tenentistas, o episódio mais importante da saga dos ―tenentes‖. Se os demais levantes tenentistas mostraram-se efêmeros e, por não conseguirem se consolidar, foram facilmente liquidados pelas forças governistas, a Coluna Prestes — à qual se somaram os rebeldes paulistas de julho de 1924 - manteve-se, durante 2 anos e 3 meses, percorrendo cerca de 25 mil quilômetros através de treze estados do Brasil. A Coluna jamais foi derrotada, e combateu forças muitas vezes superiores em homens, armamento e apoio logístico. Os principais comandantes do Exército Nacional não só não puderam desbaratar a Coluna Prestes, como sofreram sérios revezes e pesadas perdas infligidos pelos rebeldes durante sua marcha. A Coluna, em seu périplo pelo Brasil, derrotou dezoito generais. Os 1,5 mil homens, que percorreram o país rebelados contra o governo oligárquico e despótico de Artur Bernardes, não só não foram esmagados, como realizaram uma marcha de Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 18 Colégio Anglo de Sete Lagoas Professor: Ricardo dos Reis Neves (31) 2106-1750 proporções inéditas na história mundial. E ainda introduziram uma nova forma de guerra, até então desconhecida na prática dos exércitos das nações americanas: a ―guerra de guerrilhas‖, em que o movimento é a garantia da vitória e o imobilismo, o caminho da derrota. Ao adotar a tática da ―guerra de movimento‖, a Coluna Prestes garantiu a própria sobrevivência em condições que lhe eram extremamente desfavoráveis. E mais, transformou-se num exército com características populares, cuja marcha pelo Brasil foi decisiva para que a chama da revolução tenentista se mantivesse acesa. PRESTES, Anita L. Uma Epopéia Brasileira – A Coluna Prestes. 2a ed. Ed. Moderna. São Paulo. 1995. Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ricardo dos Reis Neves - (31) 2106-1750 19