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Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro
É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.
Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
já não encontro a mola pra adaptar-me.
Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.
[…]
Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.
Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.
[…]
A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.
Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.
Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.
[…]


O “Opiário”, é um poema decadente. Dedicado a Sá-Carneiro, imita-lhe desde a nostalgia do além, a
morbidez snob de um saturado da civilização, a
embriaguez do ópio e dos sonhos de um Oriente que
não há, o horror à vida, o realismo satírico de certas
notações, até ao vocabulário entre precioso e vulgar,
às imagens, aos símbolos, ao estilo confessional
brusco, amimado e divagativo.
Este Campos situa-se também muito próximo de
Pessoa paúlico, uma vez que também utiliza imagens,
metáforas, símbolos, que por vezes se sobrepõem.
No poema, “Opiário”, cruzam-se vários motivos
ou vectores temáticos:
 Doença da alma
 Busca de caminhos de evasão.
Esta busca é inviabilizada por causas diversas:
 Predestinação familiar e pátria
 Abulia
 Incapacidade de agir
Esquema rimático
•Interpolada (abba)
Ex.:” Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.”
Métrica
A métrica é irregular:
ex.:
ex.:
“Sen/tir/ a /vi/da/ com/va/les/ce e es/ti/o/la.”
(11 sílabas métricas)
“ A/ vi/da/ sa/be/-me a/ ta/ba/co/ lou/ro.”
(10 sílabas métricas)
Figuras de estilo:
•Metáfora:
•Comparação:
•Imagem:
•Interjeição:
ex: “Moro no rés-do-chão do pensamento”
ex: “Que é hoje em mim uma espécie de braço”
ex: “Meu coração é uma avòzinha que anda”
ex: “Ora! “(estrofe 19 verso 1 pág.66)
Enumeração/adjectivação expressiva:
ex: “Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!”
Anáfora:
Frases reticentes:
ex:”E afinal o que quero é fé, é calma,”
ex: “A minha vida mude-a Deus ou finde-a…”
Interrogação retórica:
ex: “Não terão como eu o horror à vida?”
Frase exclamativa:
ex: “Ah que bom que era ir daqui de caída!”
Análise Morfossintáctica
Verbos:
•Predominam os verbos no presente:
ex: “Escrevo estas linhas. Parece impossível”
Adjectivos:
•Predominam os adjectivos qualificativos:
ex:”Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!”
Trabalho realizado por:
Cátia Coelho
Cátia Santos
Tânia Maçorano
Fanny Azevedo
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A Poesia de Álvaro de Campos