GT 4 “Juventudes, Práticas Políticas e Culturais na Periferia” “É NO CHÃO DA PRAÇA: EXPRESSIVIDADES CULTURAIS, SOCIABILIDADES JUVENIS E MICROPOLÍTICA DO COTIDIANO NA PRAÇA DA JUVENTUDE – SERRINHA” MARIA APARECIDA DOS SANTOS – UECE MARIA APARECIDA DOS SANTOS “É NO CHÃO DA PRAÇA: EXPRESSIVIDADES CULTURAIS, SOCIABILIDADES JUVENIS E MICROPOLÍTICA DO COTIDIANO NA PRAÇA DA JUVENTUDE – SERRINHA” UECE A Praça da Juventude na Serrinha, antiga Praça da Cruz Grande, localizada na Av. Dedé Brasil foi inaugurada oficialmente no início do mês de abril de 2012 pela Prefeitura Municipal de Fortaleza. Conta com equipamentos como quadra poliesportiva, campo de grama, vestiários, aparelhos de ginástica e anfiteatro. A nova Praça da Juventude apresenta um diferencial em relação às duas praças já entregues nos bairros do Dendê e do Bonsucesso: os moradores da comunidade criaram um Conselho de Participação (Gestor) composto por 30 moradores do bairro que se reúnem toda semana para discutir a melhor forma de responder às diversas demandas do público frequentador do local. Esse conselho se divide em comissões autogestionárias: Educação e Meio Ambiente, Arte e Cultura, Esportes e Finanças. Todas têm como objetivos principais, fomentar atividades para a Praça, administrá-la e regular os conflitos e dissensos em relação ao seu uso. A partir da frequência a suas reuniões, sempre tensas, mas produtivas, é que pude perceber a demanda por lazer, cultura e esporte na comunidade, especialmente pelos jovens (o conselho também é formado majoritariamente por eles ou por lideranças ligadas a movimentos organizados da juventude, a exemplo do MH2O), a ocupação intensa da Praça, mesmo nas segundas-feiras à noite (dia da reunião) até muito tarde, mesmo por crianças, idosos e mulheres. O que antes era considerado perigoso, intransitável, hoje se configura como espaço do encontro e da festa. Aos poucos, o imaginário local se metamorfoseia e as pessoas passam a ocupar o espaço público da Praça. Há uma disputa na agenda ou cronograma de suas atividades, pelo espaço do anfiteatro, da quadra de areia, da quadra poliesportiva e do entorno. Todos a querem ocupar, seja com cultos/missas, shows, saraus, rodas de break, capoeira, campeonatos esportivos e do “passinho do reggae”, fabricação e venda de artesanatos e outros produtos, ou mesmo para uso cotidiano, a exemplo da disputa de skate, dos passeios de bicicleta e do jogar carimba (queimada). A pauta das reuniões do conselho gestor gira em torno dessa agenda, da manutenção e reparação dos equipamentos e materiais utilizados, da regulação da frequência dos vestiários pelas equipes esportivas, das formas de financiamento do próprio conselho, da proibição de tráfego de motos pelo lugar, de venda de bebida alcoólica, da proliferação do comércio ali, de equipamentos de entretenimento (pulas-pulas e motoquinhas), bem como, da relação com o poder público e a autonomia gerencial e política do conselho. Figura 1 QUADRA POLIESPORTIVA - FOTO: MARIA APARECIDA DOS SANTOS, AGOSTO DE 2012 Nesse ano de eleições, também houve uma precaução sobre a possibilidade de possíveis candidatos a vereador(a) e prefeito se apropriarem do espaço da Praça e do Conselho como palanque, já que temos aí, um lugar de visibilidade e destaque para quem se movimenta localmente. Assim, é que o conselho gestor da Praça da Juventude atua como não só como regulador dos conflitos pelo uso da mesma, mas, como lugar de elaboração de um “código de ética” para a coletividade que faz uso do espaço. Os conselheiros vêm discutindo intensamente sobre a necessidade de mudança da construção da imagem histórica da Praça e dos jovens que a frequentam1. Esse debate ocasionou campanhas e vem conduzindo as atividades das comissões de Arte e Cultura/Educação e Meio Ambiente. A intenção é mostrar que a praça é local de limpeza (preocupação com o lixo produzido ali), criatividade e ordem social. Jovens locais foram punidos (sancionados) publicamente depois que picharam os muros dos vestiários (com os mesmos ficando constrangidos com a humilhação sofrida, nunca mais aparecendo na Praça). 1 A Praça da Cruz Grande era palco do encontro de gangues para “ajuste de contas”, quase sempre letal, com a utilização de facões, em uma verdadeira batalha campal. As regras, as normas, as formas de autogestão do Conselho, das comissões, dos grupos que ocupam a Praça, demandam uma aproximação mais intensa sobre os seus conteúdos, o que expressa e rebate na vida que pulsa aí. Não só as punições, as sanções, mas a organização do espaço, os processos de mobilização, de “conscientização”, de “educação”, de sustentabilidade do equipamento, de elaboração de “leis universais” (falas dos conselheiros), de valorização da comunicação e da construção de uma rede de atores sociais. O que podemos afirmar, é que a Praça da Juventude, abriga hoje, um manancial de atividades autogestionárias e outras fomentadas pelo poder público que revitalizou um espaço que parecia perdido para a deterioração física e simbólica, o que nos obriga a pensar sobre a responsabilidade do Estado quanto ao financiamento de políticas estruturantes para a área da cultura, das artes, do lazer, dos esportes voltadas não só para as juventudes, mas para todo o público potencialmente fruidor, como uma necessidade básica de consumo de bens simbólicos não apenas produzidos fora do circuito da Serrinha, como dentro. Figura 2 - GRAFITE NOS VESTIÁRIOS - FOTO: MARIA APARECIDA DOS SANTOS - AGOSTO DE 2012 A ideia para a fermentação dessa proposta de estudo, partiu do meu pertencimento atual a um projeto de pesquisa financiado pelo CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), através do Laboratório de Pesquisas e Estudos em Serviço Social (LAPESS) da Universidade Estadual do Ceará - UECE. Tal projeto se intitula “Palavras e olhares da Serrinha: memória socioambiental da Lagoa da Itaperaoba” e tem como objetivo, lançar luzes sobre a ocupação irregular do território no entorno da mencionada Lagoa, área de preservação ambiental e discutir a apropriação privada desse espaço, bem como os conflitos socioambientais daí decorrentes. Como pesquisadora desse projeto, desde janeiro de 2012, venho reunindo material empírico não só sobre o tema já apresentado, como também, sobre a luta dos movimentos sociais locais, notadamente, o Movimento Pró–Parque Lagoa de Itaperaoba, a Associação dos Catadores da Serrinha (ACORES), MH2O (Movimento Hip Hop Organizado) e GIS (Grupo Independente da Serrinha), a fim de compor um documentário sobre a história dessa luta e os seus rebatimentos nos atores individuais e coletivos envolvidos (moradores próximos e movimentos sociais). Por notar que uma das bandeiras de luta desses movimentos sociais/entidades era a urbanização da área da Lagoa para seu posterior uso como espaço de lazer, é que indaguei sobre a precariedade de lugares de sociabilidade na Serrinha. A Praça da Juventude se configurou então, como ponto de partida, não só para encontros com os movimentos sociais locais, mas representou também, a ampliação do olhar sobre as demandas não só por reparação de injustiça ambiental (degradação e ocupação irregular no entorno da Lagoa), mas por lazer, cultura, esportes e organização da ação comunitária. Foi, portanto, a partir da aproximação com a temática da questão ambiental que outras perspectivas de estudo apareceram e as juventudes da Serrinha se configuraram como sujeitos sociais relevantes, produtores de cultura autóctone, rica de interfaces e portadora de significados ainda não apreendidos e/ou sistematizados. Nesse sentido, problematizar e refletir sobre essa alteridade, construir uma prática representacional, a partir dos discursos e da ação cotidiana desses jovens, nos fez vislumbrar outra dimensão para a política, a ação no cotidiano, um movimento não só voltado para questões imediatas, mas de prospecção quanto à ocupação da Praça, as possibilidades de efetividade de políticas públicas, a discussão sobre a relação de autonomia e cooptação em relação ao Estado (principalmente, com o poder público municipal), o protagonismo das juventudes na produção da arte, da cultura e a fabricação de uma outra narrativa sobre o lugar. É sobre esse prisma que o entrelaçamento com a Praça, busca problematizar os limites, os cortes de uma dominação simbólica sobre o espaço da periferia, do que é visto apenas como precário, degradado, perigoso, sem vida, sem memória e sem lugares de sociabilidade. Então, nos pareceu promissor, problematizar como esses sujeitos emergem nesse espaço social não como assujeitados por uma marca simbólica e material (Foucault, 2008), mas como protagonistas de movimentos sociais juvenis, mais ou menos organizados, que também investem, mesmo em situação de subalternidade, contra os limites e as fronteiras daquele espaço. Como esses sujeitos se relacionam com o dentro e com o fora da Serrinha? A subalternidade social e a intensa vulnerabilidade sócio-econômica dos jovens moradores da Serrinha e frequentadores da Praça da Juventude fez-me pensar na possibilidade de uma investigação sociocultural sobre as noções de sociabilidade juvenil, circuito juvenil, participação social, produção cultural de imaginário simbólico e educação popular. A significação simbólica sobre os circuitos jovens na metrópole, na cidade, faznos perceber a riqueza da emergência desses sujeitos ao mesmo tempo assujeitados (FOUCAULT, 2008) e autônomos nos seus projetos individuais performáticos de ser e estar no mundo, o que vai condensar formas plurais no espaço da Praça da Juventude. Que juventudes são essas? Os jovens de periferia estão situados em “comunidades estigmatizadas, situadas na base do sistema hierárquico de regiões e onde os problemas sociais se congregam, atraindo a atenção desigual e desmedidamente negativa da mídia, dos políticos e dirigentes do Estado.” (WACQUANT, 2001: 7). Pensando na Praça da Juventude, podemos notar que os segmentos populacionais destes lugares de ocupação popular enfrentam em disputas sociais históricas, com desdobramentos legais e políticos de monta, o significado sobre sua relação com o espaço público e o atendimento de suas demandas. Dessa forma, pensar a Praça da Juventude como um ponto de circuito cultural de lazer, de esporte, da produção de arte, de simbolismos, é pensar esse lugar como território móvel, zona de contatos, trajeto comum de alguns grupos juvenis, de espaço de encontro e de partida para outros locais. Aqui, há convergência e ao mesmo desterritorialização, processos cognitivos, de fazer, ser, sentir e se exibir. A partir das experiências vivenciadas na Praça da Juventude, tencionamos construir uma etnografia das práticas culturais presentes no cotidiano do público ocupante desse equipamento social, tais como a noite do reggae, as rodas de break e hip hop, os cultos evangélicos, os campeonatos de futebol, vôlei e basquete, as rodas de capoeira, as disputas com skate, os saraus, do cine Paromotoquinha (movimento cultural Flor de Cacto), o jogo de queimada (carimba), a fabricação de artesanatos e sua comercialização através de feiras, além da vida que corre nos bares e lanchonetes do entorno da praça. Essa observação dos jovens “de perto e de dentro” (MAGNANI, 2007), busca perceber como se constroem a rede de sociabilidades presentes no circuito de atividades plurais da Praça da Juventude, a produção de uma cultura na rua, a arte produzida no espaço público e como são tecidos significados a respeito desse território historicamente estigmatizado até pelos próprios moradores da Serrinha. As chamadas street arts, ou artes urbanas, são usualmente alvos de discussões acerca da apropriação do espaço público das cidades, com a utilização de suas ruas, muros, praças e outros locais públicos. O break, as batalhas de rap, as partidas de basquete ou futebol de rua, os skatistas e os adeptos do parkour, todos tomam parte em locais abertos e comunais, como praças, calçadas ou ruas. (ABRAMOVAY, 2010, p. 113) Figura 3 - GRAFITE NO ANFITEATRO - FOTO: MARIA APARECIDA DOS SANTOS, AGOSTO DE 2012 Através da participação assídua às reuniões do Conselho Gestor da Praça e das comissões de Arte e Cultura, Finanças, Esportes, Educação e Meio Ambiente, buscaremos compor um quadro dos consensos sobre as formas de regulação da vida diária na Praça. Além da observação intensiva, buscaremos os registros das atas das reuniões e outros materiais produzidos pelo Conselho, tais como folhetos, mosquitinhos e circulares, atinentes às normas de interação e ocupação do espaço público. O registro da cultura visual, simbólica, produzida nesse lócus, seus rituais, os acontecimentos diários, os eventos emblemáticos, as sonoridades, as palavras serão matériaprima para a composição da análise. O estar junto, discutindo os problemas da Praça da Juventude junto ao Conselho Gestor, o diálogo com alguns movimentos sociais, tais como o MH2O (Movimento Hip Hop Organizado), Movimento Hip Hop Gospel, Movimento PróParque (de educação ambiental, presente no local), ACORES (Associação de Catadores de Recicláveis da Serrinha), GIS (Grupo Independente da Serrinha), dentre outros, nos permitirá antever para além da circunscrição da Praça, um universo de demandas sociais, de atividades políticas plurais e de organização popular. A base empírica será trabalhada a partir da oralidade, da troca sistemática de impressões sobre o local, sem a intenção de produzir uma hierarquia de produção de saberes sobre a experiência dos indivíduos identificados. Para perceber a heterogeneidade e a densidade das diferenças aí presentes, será necessária uma intensa permanência no local e uma troca interativa consubstanciada na comunhão dos momentos cotidianos. Apontaremos para a memória do lugar, como também, a reflexão sobre o presente, a criação de um universo particular de significações desse espaço. Dessa forma, a aproximação e mesmo a amizade serão sempre acionadas para facilitar o trabalho de campo. Beber nos bares locais, dançar reggae, ouvir música, participar de reuniões, assistir integralmente aos campeonatos, comer um churrasquinho, trocando ideias com meus interlocutores, filmar e fotografar os possíveis eventos são momentos constituintes da metodologia dessa proposta de pesquisa. O que se propõe então, é uma cartografia social do lugar, um mapeamento das relações sociais vividas pelas juventude naqueles espaço culturalmente produzido. A variabilidade de circunstâncias de aprendizagem coletiva, de educação nãoformal, de construção de uma pedagogia do espaço, de processos cognitivos para o exercício político é o escopo da experiência a ser descrita, fotografada, refletida, vivida. A praça como um contexto de multiplicidade de sujeitos ativos, que ocupam criativamente um lugar social, é o lócus de significação, ponto de partida para o entendimento do que é ser jovem na periferia de Fortaleza e como um equipamento social básico, produz feixes de relações de sentido e materiais. Aqui, estamos criando uma relação de troca, buscando indícios de um mundo compartilhado de forma comum por diferentes sujeitos, que estão em uma cidade, tão desigual, produtora de segregação sócio-espacial e negadora do acesso, da fruição à cultura, à arte e ao esporte. É nesse sentido, que cartografar a Praça da Juventude é situá-la dentro de um território marcado por uma história, uma memória da falta, da luta e das sucessivas violações aos direitos básicos de cidadania. Ainda que o foco dessa proposta de estudo, seja a Praça da Juventude, a intenção é percorrer o território que a circunda, não só para nos apropriarmos da atmosfera envolvente, mas, para travar conhecimento com seus personagens, sempre guiada por uma pessoa nativa. Assim, a produção de fotografias (que não serão utilizadas apenas alegoricamente) e a escrita de um diário de campo serão ferramentas diuturnamente utilizadas para enriquecer o acúmulo de material empírico. Vamos utilizar também, entrevistas em profundidade para obter não só informações sobre a memória do lugar, suas lutas, seus problemas, mas, conhecer a dinâmica da Praça, seus ocupantes, suas estratégias e táticas de afirmação aí, suas performances, a linguagem utilizada, o discurso que buscam proferir. Busca-se a partir do encontro dialógico com a comunidade ocupante da Praça da Juventude, construir uma narração possível sobre a efervescência da cultura local, da arte produzida na periferia pelas juventudes e discutir o espaço público para o exercício da micropolítica do cotidiano. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMO, Helena e BRANCO, Pedro. Retratos da Juventude Brasileira. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 2005. ABRAMOVAY, Miriam et. al. Gangues, gênero e Juventudes: donas de rocha e sujeitos cabulosos. Brasília, DF: Secretaria de Direitos Humanos, 2010. BHABHA, Homi. O local da cultura. 2ª. ed. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003. DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil Platôs. Vol. 3. 4ª. ed. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2008. FOUCAULT, Michel. Segurança, território e população: curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008. GUATTARI, Felix e ROLNIK, Suely. Micropolítica. 2ª. ed. Petrópolis: Vozes, 1986. MAGNANI, Guilherme. Introdução: circuito de jovens. IN: MAGNANI, Guilherme e PAIS, José Machado. Buscas de si: expressividades e identidades juvenis. In: ALMEIDA, M. e EUGÊNIO, F. (orgs.). Culturas jovens. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. WACQUANT, Löic. Os condenados da cidade. Rio de Janeiro: REVAN, 2007.