IMPORTÂNCIA DA LUDICIDADE E SUA INFLUÊNCIA NA MELHORIA DA
SAÚDE DO PACIENTE ONCOLÓGICO INFANTIL HOSPITALIZADO
Alana Félix de Freitas1; Fernando Adami2; Grayce Alencar Albuquerque3; Jameson
Moreira Belém4; Jeane Fonsêca Cavalcanti Nunes4
1
Graduada em Enfermagem.
Graduado em Educação Física. Doutor em Saúde Pública. Professor da Faculdade de Medicina do ABC
Paulista na área de Saúde Coletiva.
3
Graduada em Enfermagem. Mestre em Saúde Coletiva (UNIFESP). Professora do Curso de Enfermagem da
Faculdade de Juazeiro do Norte (FJN).
4
Acadêmico (a) de Enfermagem da Faculdade de Juazeiro do Norte-CE, FJN.
2
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
RESUMO
O câncer é uma doença caracterizada pela capacidade de invadir outros tecidos e formar
novos tumores. Acomete pessoas, sem distinção de raça, cor e classe econômica, ambos os
sexos e de diferentes idades, afetando inclusive crianças. No ambiente hospitalar, as crianças
passam a conviver com uma série de procedimentos terapêuticos, como parte do tratamento
anti-neoplásico, que provocam aflições frente ao prognóstico e possibilidade até mesmo da
morte. Nesse contexto, os Anjos da Enfermagem atuam na inserção das atividades lúdicas no
processo de cuidar através da ludicidade, estimulando o brincar e promovendo uma
assistência humanizada. Conhecer a percepção dos integrantes dos Anjos da Enfermagem
acerca da importância da ludicidade e sua influência na qualidade de vida do paciente
oncológico infantil hospitalizado. Trata-se de uma pesquisa de caráter exploratório, descritivo,
com abordagem qualitativa. O estudo foi realizado com 11 voluntários do Instituto Anjos da
Enfermagem. A técnica utilizada para coleta de dados foi a entrevista do tipo semiestruturada.
Os dados foram organizados por categorização das falas e a interpretação dos resultados
baseados na literatura pertinente. Os voluntários possuem a percepção de que o brincar no
hospital é de fundamental importância, pois observaram uma melhora significativa no estado
da criança hospitalizada, no que se refere ao humor e menor dificuldade em aceitar o
tratamento e procedimentos dolorosos. Quanto aos obstáculos que enfrentavam para
desenvolver as ações no hospital afirmaram sobre a dificuldade dos profissionais de saúde em
não reconhecerem, por algum motivo, a funcionalidade do lúdico, do brincar e da promoção
do riso na melhora da qualidade de vida do paciente. A ludicidade constitui uma ferramenta
auxiliar no tratamento do paciente oncológico infantil hospitalizado, tendo em vista sua
influência no processo de recuperação e reabilitação. Portanto, cabe aos profissionais a busca
pela melhoria da qualidade da assistência, pautada na humanização e na valorização do lúdico
na área pediátrica-oncológica em âmbito hospitalar.
Palavras-chave: Criança hospitalizada. Ludoterapia. Humanização da assistência. Serviço
hospitalar de oncologia. Pediatria.
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
ABSTRACT
Cancer is a disease characterized by the ability to invade other tissues and form new tumors. It
affects people irrespective of race, color and economic class, both sexes and of different ages,
including children affected. In the hospital, children come to live with a number of therapeutic
procedures, as part of anti-neoplastic, causing afflictions facing the possibility prognosis and
even death. In this context, the Angels of nursing work in the integration of recreational
activities in the care process through playfulness, stimulating play and promoting a
humanized. To study the perception of the members of the Angels of Nursing about the
importance of playfulness and its influence on quality of life of cancer patients hospitalized
children. This is a research exploratory, descriptive, with a qualitative approach. The study
was conducted with 11 volunteers from the Angels Institute of Nursing. The technique used
for data collection was the interview with semi-structured. Data were organized by
categorization of the discourse and the interpretation of results based on relevant literature.
Volunteers have the perception that playing in the hospital is of fundamental importance
because they observed a significant improvement in the status of hospitalized children relation
to mood and less difficulty in accepting treatment and painful procedures. About the obstacles
they faced to develop actions in the hospital said about the difficulty of health professionals
do not recognize, for some reason, the functionality of the playful, the play and the promotion
of laughter in improving the quality of life of patients. The playfulness is an auxiliary tool in
the treatment of cancer patients hospitalized child, in view of their influence on the recovery
and rehabilitation process Therefore, it is for professionals seeking to improve the quality of
care, based on humanization and appreciation of playfulness in the pediatric-oncology at the
hospital.
Keywords: Child hospitalized. Play Therapy, Angels of Nursing. Humanization of
Assistance. Oncology Service Hospital. Pediatrics.
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
1 INTRODUÇÃO
O câncer é uma doença caracterizada pela capacidade de invadir outros tecidos e
formar novos tumores. Para tanto, uma célula é considerada neoplásica quando possui
especificidades como: perda do controle de proliferação e da divisão celular; imortalização
celular; alteração cromossomial; perda das propriedades adesivas da membrana plasmática;
perda da função e da capacidade de diferenciação; potencial para formar metástases e invadir
tecidos vizinhos e aptidão para a formação de novos vasos sanguíneos, denominada
angiogênese (BELIZÁRIO, 2002).
Em consequência do aumento significativo do número de casos de câncer, considerase tal patologia como um importante problema de Saúde Pública em países desenvolvidos e
em desenvolvimento, causando milhões de óbitos a cada ano (GUERRA; GALLO;
MENDONÇA, 2005).
O câncer afeta inclusive crianças, mas por apresentar características muito específicas
e origens histopatológicas próprias, o câncer que acomete crianças e adolescentes deve ser
estudado separadamente daqueles que acometem os adultos, principalmente no que diz
respeito ao comportamento clínico. Esse grupo de neoplasias apresenta, em sua maioria,
curtos períodos de latência, é mais agressivo, cresce rapidamente, porém responde melhor ao
tratamento e é considerado de bom prognóstico (INCA, 2011).
Segundo Instituto Nacional de Câncer (2011) estima-se que a incidência dos tumores
pediátricos no mundo varie de 1% a 3% do total de casos de câncer.
No Brasil, as últimas informações disponíveis para a mortalidade mostram que, no ano
de 2009, os óbitos por neoplasias, para a faixa etária de um a dezenove anos, encontraram-se
entre as dez primeiras causas de morte. A partir dos cinco anos, a morte por câncer
corresponde à primeira causa de morte por doença em meninos e meninas (INCA, 2011).
Na maioria das vezes, as causas do câncer na criança não podem ser identificadas por
existirem poucos fatores de risco associados aos tumores, podendo ou não haver associações a
fatores predisponentes. Sendo assim, não se fala em prevenção do câncer infantil e sim
diagnóstico precoce para que o tratamento se inicie o mais breve possível (LEITE;
SANDOVAL, 2003).
Mesmo diante do avanço científico e das várias possibilidades de cura, o câncer
continua sendo uma doença com um estigma devastador e associado à morte.
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
Apesar da simbologia bastante negativa da doença, uma boa parte das crianças tratadas
alcança a cura. As probabilidades de recuperação aumentam visivelmente quando há uma
assistência qualificada e o apoio dos familiares (GUERRA; GALLO; MENDONÇA, 2005).
O paciente oncológico infantil enfrentará uma sucessão de situações complexas que se
iniciam desde o impacto do diagnóstico, bem como todas as representações e medos
relacionados à doença, como o medo da morte, dor, trauma emocional, perda das funções
corporais e alteração na imagem corporal entre vários outros fatores decorrentes do
diagnóstico, tratamento e/ou cirurgia (BARBOSA; FRANCISCO, 2007).
A criança com câncer sofre uma ruptura na sua condição de vida normal; ela se depara
abruptamente, em um hospital, indefesa e expectadora diante da situação que a envolve, passa
a conviver com uma série de procedimentos terapêuticos, muitas vezes invasivos e dolorosos,
como parte do tratamento do câncer, pois sequer possui o poder de decisão (OLIVEIRA;
DANTAS; FONSÊCA, 2005).
Com isso, emerge um processo de adaptação pelo qual a criança enfrenta, ao conviver
em um ambiente que lhe impõe restrições, distante do seio familiar e rodeada de pessoas
desconhecidas com as quais constrói uma nova rede de relacionamentos sem vínculos
afetivos, que em geral causam um conjunto de medos e aflições em torno da evolução e
tratamento da doença e até mesmo da morte (INCA, 2011).
Diante da experiência traumática representada pela hospitalização, deve-se
implementar uma assistência à criança de uma forma holística e humanizada, levando em
consideração aspectos que vão além da doença e tratamento, uma vez que a criança se
encontra em uma condição repleta de obstáculos como: adaptação a novos horários e
ambiente, restrição do convívio social e familiar, ausências escolares, entre várias outras
limitações.
Ultimamente a assistência à criança hospitalizada tem-se modificado mediante estudos
feitos nas áreas correlacionadas à saúde, ciências humanas e sociais. Consequentemente, é
necessária uma adaptação a novos métodos de internação infantil, de modo que estes
envolvam vários aspectos, que vão desde o papel da família à assistência profissional
humanizada, passando por estratégias de recreação, que incluam o lúdico no desenvolvimento
das atividades e brincadeiras (OLIVEIRA; DANTAS; FONSÊCA, 2005).
O lúdico é de origem latina, sua palavra “ludus” significa “jogos” e “brincar”. A
ludicidade não pode ser vista apenas como diversão e sim como uma necessidade do ser
humano em qualquer faixa etária (LEITE; SANDOVAL, 2003).
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
Ao contrário do que muitos pensam: brincar não se resume apenas em “passar o
tempo” como forma de distrair a criança de uma realidade dolorosa. As atividades lúdicas e
recreativas, além de auxiliarem a criança no enfrentamento da doença, atuam como agente
terapêutico contribuindo na melhoria da qualidade de vida.
Durante tais atividades a criança se sente alegre e feliz, com posterior liberação de
serotonina que age na regulação do seu estado de humor, sono, apetite, ritmo circadiano,
funções neuroendócrinas, temperatura corporal, sensibilidade à dor, atividade motora e
funções cognitivas.
É nessa perspectiva que os Anjos da Enfermagem atuam induzindo o riso, produzindo
alegria, procurando aliviar a dor, promovendo uma assistência que vise à melhoria da
qualidade de vida das crianças com câncer.
Assim, o presente estudo objetiva conhecer a percepção dos Anjos da Enfermagem
acerca da importância da ludicidade e sua influência na melhoria da saúde do paciente
oncológico infantil hospitalizado.
Acredita-se que a pesquisa tem relevância social uma vez que permite conhecer a
influência do lúdico no tratamento e recuperação da criança com câncer tendo em vista as
funções atribuídas ao brincar no hospital.
2 METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa exploratória, de caráter descritivo, com abordagem
qualitativa. A abordagem qualitativa teve como finalidade investigar um universo de
significados relacionados à temática do trabalho, vividos pelos integrantes voluntários do
Instituto Anjos da Enfermagem (AE), localizado na cidade de Barbalha-CE.
O estudo foi realizado com 11 voluntários do Instituto Anjos da Enfermagem. Como
critérios de inclusão, participaram do estudo os integrantes que atuaram no Instituto AE, no
período compreendido entre 2008 a 2009.
Inicialmente realizou-se a solicitação para realização da pesquisa ao presidente do
Instituto AE e para utilização e divulgação do nome da instituição através de um termo de uso
de imagem.
Os voluntários foram contatados e informados sobre a realização da pesquisa,
mediante agendamento telefônico entre as partes, explicitando local e horário da entrevista.
Os selecionados foram entrevistados de forma aleatória, de acordo com a disponibilidade de
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
dia e horário, sendo cada participante do estudo codificado por nomes vinculados a
sentimentos que estão presentes em meio à vivência com o câncer.
A técnica utilizada para coleta de dados foi a entrevista do tipo semiestruturada, na
qual foi empregado um roteiro de entrevista abordando questões que possibilitaram aos
entrevistados discorrer francamente sobre o tema proposto.
Segundo Fachin (2006), esse tipo de questão permite coletar um número significativo
de opiniões e informações amplas, deve ser registradas em conformidade com o que foi
emitido pela pessoa entrevistada.
As entrevistas foram realizadas em local reservado na sede de funcionamento dos AE,
gravadas com auxílio de gravador e encerradas de acordo com a frequência de respostas
repetitivas, semelhantes em seu conteúdo, ou seja, por saturação das falas. Após isso, deu-se
início à etapa de transcrição das falas e organização dos dados, conforme o método de análise
de conteúdo que constitui um conjunto de técnicas que descreve o conteúdo das mensagens a
partir da utilização de procedimentos sistemáticos (FACHIN, 2006).
Assim, uma vez organizados os discursos e feita a categorização, realizou-se a
interpretação dos resultados das categorias, buscando apreender a importância da ludicidade e
sua influência na melhoria da saúde do paciente oncológico infantil, na percepção do Anjo da
Enfermagem.
A presente pesquisa constitui parte de um estudo maior intitulado "Brincar, cuidar e se
recuperar: impacto emocional nos Anjos da Enfermagem frente à morte de pacientes
pediátricos e fatores motivadores às atividades lúdicas" submetido e aprovado sob parecer Nº
42.103/2011/04, pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFCCE), obedecendo, assim, aos princípios da Resolução n.º 196/96, do Ministério da Saúde.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Perfil dos sujeitos do estudo
Participaram do estudo onze voluntários Anjos da Enfermagem que fizeram parte do
projeto Anjos da Enfermagem: educação e saúde através do lúdico, com média de idade entre
20 a 25 anos, todos do sexo feminino, acadêmicos de enfermagem, com iniciação no projeto
em 2008 e possuindo o mesmo tempo de exercício do voluntariado.
O perfil do voluntário constitui uma assertiva significativa levando em consideração as
vivências e a formação, visto que o período de início do voluntariado condiz com início da
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
experiência acadêmica tendo pouco ou nenhum convívio significativo com a realidade
hospitalar e a prática profissional.
Há uma forte influência das questões de gênero no voluntariado, tendo em vista a
prevalência feminina, já que os onze voluntários entrevistados eram desse sexo, apesar do
trabalho voluntário ser realizado por ambos os sexos e de ter participação masculina.
Para Haddad (2000) a enfermagem é uma profissão essencialmente feminina,
destacando-se ainda a forte relação da ação voluntária com a enfermagem, tendo esta,
historicamente raízes assistencialistas, como por exemplo, as primeiras enfermeiras que eram
voluntárias, ajudavam nos partos e cuidavam das vítimas de guerras. BEsse dado pode estar
relacionado à maior dedicação por parte das mulheres em trabalhos voluntários
correlacionados às questões sócio-culturais.
3.2 Categorização das Falas
Após a transcrição das entrevistas, deu-se seguimento à categorização e análise dos
dados, com a formação de duas categorias, conforme dispostas no quadro 1.
Quadro 1 - Categorias elaboradas e correlacionadas aos objetivos da pesquisa
Categorias Temáticas
01
A importância segundo a ótica do Anjo da Enfermagem atribuída ao
brincar no hospital através das atividades lúdicas
02
Obstáculos enfrentados pelos Anjos da Enfermagem na atuação e
promoção do riso para a melhoria da qualidade de vida da criança com
câncer
Fonte: dados da pesquisa
3.2.1 Categoria 01 - A importância segundo a ótica do Voluntário Anjo da Enfermagem
atribuída ao brincar no hospital através das atividades lúdicas
Segundo Lucon (2008), o brincar reproduz sensações de prazer, alegria e felicidade,
ocasionando efeitos favoráveis à cognição da criança, ao afeto, ao aspecto corporal e social.
Sendo assim, o brincar é essencialmente importante para a criança hospitalizada, significando
uma espécie de vitalidade inerente a sua idade (INCA, 2011).
São amplas as mudanças que ocorrem com uma criança com câncer, desde o
diagnóstico ao tratamento e várias privações que a criança sofre, principalmente durante
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
processo de adaptação à nova realidade da rotina hospitalar, como exames e procedimentos
dolorosos, podendo acarretar alterações físicas e mentais.
Diante dessas alterações, o brincar torna-se um instrumento terapêutico e uma das
maneiras encontrada pela criança para se expressar e melhorar o seu humor, tornando a
experiência hospitalar menos traumatizante contribuindo para o prognóstico da doença.
“É bastante importante, porque como eu já falei né as crianças que se privam de
brincar, de estudar, de ser crianças normais né como as outras. Então a gente
chega no hospital pra realizar esse momento de brincadeira, esse momento de
diversão. A gente percebe a melhora né, a gente percebe que eles sentem mais
alegres, às vezes a gente chega eles até estranham sem querer brincar e não
querem, depois a gente vai brincando, tirando é (...) tirando uma risada e eles vão
se soltando e aí eles (...) a gente vê realmente como é bom, como é importante pra
eles esse momento de brincadeira, de diversão”(Saudade).
“A importância é enorme, não dá pra dimensionar, porque a gente já observou
casos de chegar num leito de hospital e a criança tá ali extremamente triste,
angustiada e quando a gente começa a brincar...não é que ela fica melhor da noite
pro dia, mas ela instantaneamente começa a sorrir e aquilo ali é um sinal de
melhora”(Esperança).
“Conseguir por alguns momentos fazer com que aquela criança ache que tá em
casa, fica brincando com os amigos... por algum momento fazer com que ela
esqueça da dor e volte a ser assim, vamos dizer: “criança” entre aspas, porque
naquele momento elas ficam num processo muito doloroso. Então é a questão de
tentar deixar elas bem relaxadas, tentar brincar com elas e fazer ela esquecer um
pouco do sofrimento que elas tão passando”(Amor).
Dados semelhantes aos relatos, em uma pesquisa qualitativa, foram encontrados em
estudo onde são descritos os resultados dos trabalhos realizados pelos Doutores da Alegria
(ONG que tem como missão promover a experiência da alegria na adversidade, por meio da
arte do palhaço) como a mudança de crianças apáticas e restringidas ao leito em crianças mais
ativas, comunicativas com menores queixas de dores, aceitando melhor a medicação e
alimentação (LIMA et al., 2009). Os autores ainda consideram a importância
desses
personagens no hospital a fim de contribuir no processo de recuperação e cura.
Partindo da premissa que o brincar faz parte da essência do Anjo da Enfermagem, este
pode ser considerado como um recurso terapêutico que influência diretamente na recuperação
da criança, levando alegria e transformando o ambiente frio, inerte e triste da oncologia em
um lugar de relaxamento, diversão e brincadeiras.
Os depoimentos expressos nessa categoria mostram que os voluntários possuem a
percepção de que o brincar no hospital é de fundamental importância, pois observaram uma
melhora significativa no estado da criança hospitalizada, no que se refere ao humor e menor
dificuldade em aceitar o tratamento e procedimentos dolorosos. Também relatam que a
brincadeira tem efeito instantâneo produzindo o sorrir, fazendo com que a criança volte ao seu
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
"mundo de criança" e esqueça, por um momento, o ambiente em que se encontra e até a
própria doença.
O brincar é relatado por Borges, Nascimento e Silva (2008) como um instrumento que
causa distração, podendo representar uma fuga da realidade, fazendo com que a criança
esqueça, por um período, a doença, além de contribuir na sua recuperação aumentando as
defesas imunológicas, reduzindo a apatia e mau humor.
O riso produz modificações psiconeuroendócrinas que melhoram o sistema
imunológico, aumentam o fluxo sanguíneo cerebral e reduzem sintomas de depressão e
ansiedade. O riso e a gargalhada favorecem o miorrelaxamento equiparado a exercício
respiratório fundamental no controle da dor e estresse, podendo interferir até no reequilíbrio
emocional (VALE, 2006).
Moreira (2002) aborda sobre a criança em tratamento de câncer em fase de reinserção
escolar e a estigmatização da mesma pela sociedade. Os efeitos colaterais do tratamento que
ainda a acompanham, como perda dos cabelos, náusea, fadiga, dentre outros, faz com que ela
seja vista diferentemente das outras.
Considera-se então, de fundamental importância as atividades lúdicas desenvolvidas
frente a criança com câncer, visto que os vários estudos, apesar das contradições, comprovam
os benefícios do brincar e sua interferência bio-fisio-imuno-sócio-comportamental na criança
hospitalizada com câncer.
3.2.2 Categoria 2 - Obstáculos enfrentados pelos Voluntários Anjos da Enfermagem na
atuação e promoção do riso para a melhoria da qualidade de vida da criança com câncer
Apesar de desenvolverem e acreditarem na importância das atividades lúdicas, os AE
encontram barreiras impostas por profissionais de saúde que não acreditam na eficácia do
lúdico, do brincar e da promoção do riso como formas de melhorar a qualidade de vida da
criança com câncer.
Segundo Brito et al. (2009), mesmo reconhecendo-se a importância e a necessidade de
incorporar o lúdico no processo de cuidar em enfermagem pediátrica, a utilização deste
recurso não é efetiva nas instituições de saúde brasileiras.
Quando questionados quanto aos obstáculos que enfrentavam para desenvolver as
ações no hospital, foram unânimes a respeito da dificuldade dos profissionais em não
reconhecer, por algum motivo, o trabalho como forma de ajudar no tratamento. Também
relataram sobre a condição na qual a criança rejeita, em alguns momentos, a brincadeira ou
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
não quererem se envolver, devido a efeitos colaterais do tratamento, mudanças de humor,
irritabilidade, entre outras falas.
“A dificuldade que a gente encontrou é muitas vezes a criança tá debilitada, tá
irritada, então assim... a gente tenta respeitar isso da criança e tenta não
incomodar né, por que às vezes elas se sentem muito incomodadas com a nossa
presença, quando elas estão muito irritadas ou estão sonolentas, então a gente
respeita o momento de cada criança e tenta brincar com quem realmente deseja que
a gente esteja por perto” (Tristeza).
“Existem muitos profissionais que não acreditam nesse movimento lúdico né, então
existem essas dificuldades, muita gente nem faz e nem deixa os outros fazerem, a
gente sente... a gente sentia... eu pelo menos sentia barreiras de certos profissionais,
quando a gente chegava lá pra brinca.” (Saudade).
“Algumas vezes profissionais que não entendem a importância da alegria das
atividades lúdicas dentro da rotina do hospital, é uma dificuldade...” (Alegria).
“Bom, as principais dificuldades é a questão da variação do humor, porque a
criança que ta passando por quimioterapia ela sofre a mudança a humor
constantemente. Tinha vez que quando a gente ia fazer a visita, tinha criança que
tava mal-humorada, que não queria brincar, muitas vezes tava recolhidinha no
canto, não queria nem conversa (...) a gente tentava cantar uma musiquinha ela não
queria (...)”(Pena).
Mitre e Gomes (2007) relatam sobre as dificuldades em desenvolver e promover o
brincar por parte de alguns profissionais ao não reconhecerem as atividades lúdicas como um
instrumento terapêutico fundamental no cuidar da criança hospitalizada. Descrevem ainda,
sobre a falta de conhecimento desses profissionais sobre o brincar no hospital, reconhecendo
como algo não tão científico quanto técnicas e procedimentos referentes à prática hospitalar.
Segundo Castanha, Lacerda e Zagonel (2005) há ainda na realidade hospitalar uma
escassez de profissionais preocupados em ultrapassar a dimensão do cuidado tecnicista,
cumpridor de rotinas hospitalares e desempenhar ou promover ações que estejam aliadas ao
benefício da criança no enfrentamento do agravo à saúde, bem como adesão ao tratamento
com mais facilidade.
De acordo com relatos no estudo de Almeida e Souza (2009) a dificuldade de
interação pode estar relacionada ao ambiente hospitalar, ao próprio tratamento e aos efeitos do
mesmo sobre a criança como irritabilidade e intolerância.
Isso explica as reações de algumas crianças, descritas nos discursos, em não agir
mutuamente com os AE durante algumas visitas, não querendo participar das brincadeiras, em
decorrência dos efeitos colaterais do tratamento, o que causam repulsa e, muitas vezes,
agressividade por parte da criança.
Porém, mesmo diante dessas situações, o voluntário AE atua como recurso terapêutico
transfigurado na imagem do palhaço, conseguindo, em alguns momentos, reverter estes
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
quadros vivenciados pela criança, fazendo com que aos poucos ela seja envolvida pela
brincadeira, acabe mudando de humor, ficando mais calma e alegre.
4 CONCLUSÃO
Os Anjos da Enfermagem reconhecem que a ludicidade constitui uma ferramenta
auxiliar no tratamento do paciente oncológico infantil hospitalizado, tendo em vista sua
influência no processo de recuperação e reabilitação.
Vale ressaltar que, algumas vezes, o trabalho desenvolvido pelos Anjos da
Enfermagem encontra dificuldade por parte dos profissionais de saúde em o aceitarem. Desta
forma, sugere-se a necessidade de sensibilização dos profissionais acerca da realização da
visita e a importância das atividades para a recuperação e bem-estar da criança.
Portanto, compete aos profissionais da saúde a busca pela melhoria da qualidade da
assistência, visando novas formas de cuidar, que ultrapassem a rigidez dos modelos teóricos e
práticos de condutas e procedimentos técnicos, e incorporar atividades pautadas na
humanização e na valorização do lúdico na área pediátrica-oncológica em âmbito hospitalar.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, M. A.; SOUZA, T. T. A importância do brincar para as crianças
hospitalizadas: um estudo de caso. Bebedouro. 2009. Monografia (Curso de Psicologia).
Faculdades Integradas Fafibe, Bebedouro, 2009. Disponível em:
http://www.unifafibe.com.br/revistasonline/arquivos/revistapsicologia/sumario/14/061220101
40205.pdf Acesso em: 13 mai. 2011.
BARBOSA, L. N. F.; FRANCISCO, A. L. A subjetividade do câncer na cultura: implicações
na clínica contemporânea. Rev. SBPH, Rio de Janeiro, v.10, n.1, jun. 2007. ISSN 15160858. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S151608582007000100003&script=sci_arttext>. Acesso em: 12 out. 2010.
BELIZÁRIO, J. E. Oncologia. Rev.Ciência Hoje, Departamento de Farmacologia, Instituto
de Ciências Biomédicas, Universidade de São Paulo, v.31, n. 184, p. 50-57, jul. 2002.
BORGES, E. P.; NASCIMENTO, M. D. S. B.; SILVA, S. M. M. Benefícios das atividades
lúdicas na recuperação de crianças com câncer. Boletim Academia Paulista de Psicologia,
São Paulo, v.8, n.2, p. 211-221. jun-dez. 2008. Disponível em:
<http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/html/946/94628209/94628209.html>. Acesso em: 20 out.
2010.
BRITO, T. R. P. et al. Práticas lúdicas no cotidiano de enfermagem pediátrica. Esc Anna Nery
Rev Enferm; 13 (4): 802-08 out-dez. 2009.
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
CASTANHA, M. L.; LACERDA, M. R.; ZAGONEL, I. P. S. Hospital: lugar para o
enfermeiro cuidar do imaginário? Acta Paul Enferm; 18 (1): 94-9, 2005. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/ape/v18n1/a13v18n1.pdf>. Acesso em:12 mai. 2011.
FACHIN, Odília. Fundamentos de Metodologia. 5 ed. São Paulo: Saraiva, 2006.
GUERRA, M.R.G.; GALLO, C.V.M.; MENDONÇA, G.A.S. Risco de câncer no Brasil:
tendências e estudos epidemiológicos mais recentes. Rev. Brasileira de Cancerologia, v.51,
n.3, p.227-234, 2005. Disponível em:
<http://www.inca.gov.br/rbc/n_51/v03/pdf/revisao1.pdf>. Acesso em: 07 out. 2010.
HADDAD, D. R. S. A morte e o processo de morrer de crianças em terapia intensiva. Revista
Espaço para a Saúde, Londrina, v.1, n.2, p. 75-88, jun. 2000. Disponível em:
<http://www.ccs.uel.br/espacoparasaude/>. Acesso em: 10 mai. 201.
INCA, Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação Geral de
Ações Estratégicas. Coordenação de Prevenção „ e Vigilância. Estimativa 2012: incidência
de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: Inca, 2011.
LEITE, J. A.; SANDOVAL, J. M. H. O brincar como estratégia comunicativa de
promoção da saúde em crianças hospitalizadas, 2003. Disponível em:
<http://www.projetoradix.com.br/arq_artigo/VI_08.pdf>. Acesso em: 20 set. 2010.
LIMA, R. A. G. et al. A arte do teatro clown no cuidado às crianças hospitalizadas. Rev. Esc.
Enferm. USP. 13 (1): 186-93, 2009. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v43n1/24.pdf>. Acesso em: 30 mai. 2011.
LOSSO, R. Mulher ainda é maioria no voluntariado. Especial para o iG, São Paulo, 2009.
Disponível em:
<http://delas.ig.com.br/comportamento/mulher+ainda+e+maioria+no+voluntariado/n1237525
902586.html>. Acesso em: 05 mai. 2011.
LUCON, C. B. Jogo, brinquedo e brincadeira na escola hospitalar: as contribuições para
crianças hospitalizadas com câncer. Congresso Brasileiro de Educação Especial, 3, 2008, São
Carlos. Anais, 2008. Disponível em:
<http://www.cerelepe.faced.ufba.br/arquivos/fotos/131/crislucon.pdf>. Acesso em: 03 mai.
2011.
MITRE, R. M. A.; GOMES, R. A perspectiva dos profissionais de saúde sobre a promoção do
brincar em hospitais, Ciência e Saúde Coletiva, vol.12. n.5. Associação Brasileira de PósGraduação em Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, Brasil, p.p 1277-1284, setembro-outubro,
2011. Disponível em: <http://redalyc.uaemex.mx/pdf/630/63012524.pdf>. Acesso em: 12
mai. 2011.
MOREIRA, G. M. da S. A criança com câncer vivenciando a reinserção escolar: estratégia de
atuação do psicólogo. 2002. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2002.
Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/59/59137/tde-27082004-145234>.
Acesso em: 08 mar. 2011.
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
OLIVEIRA, G. F.; DANTAS, F. D. C.; FONSECA, P. N. O impacto da hospitalização em
crianças de 1 a 5 anos de idade, Rev. SBPH. vol.7, n.2, pp. 37-54, 2004. Disponível em:
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-08582004000200005>.
Acesso em: 25 abr. 2011.
VALE, N. B. Analgesia adjuvante e alternativa, Rev. Bras. Anestesiol, vol. 56, n.5, pp. 530555, 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rba/v56n5/12.pdf>. Acesso em: 23 abr.
2011.
e-ciência, v.1, n.1, out. 2013
Download

Importância da ludicidade e sua influência na melhoria da saúde do