#vem pra rua 1 ª Edição - Novembro /2013 # Gente que faz Acontecer Jovens buscam um país melhor - Pág 05 # Projetos Estranhos Projetos Políticos - Pág 04 # Ciências Políticas Os estudantes e seus manifestos - Pág 14 # ENTREVISTA Soninha Francine fala sobre as manifestações - Pág 12 você é corrupto! Muito além de Mensalão e PEC 37: já avaliou suas ações hoje? A corrupção depende da régua moral de cada um? #v e m p r a r u a 1 A # política é a arte ou ciência da organização.A frase, embora contraditória em si mesma, pode ser melhor compreendida quando se entende que, em ambos os casos, a evolução se dá por meio de rupturas. Romper com aquilo que até então estava estabelecido como ordem é um dos principais objetivos desses dois campos de atuação humana. Por acreditarmos que é necessário romper para evoluir é que criamos a revista #Vemprarua!.Nosso objetivo é ir além de uma visão maniqueísta da política, da dicotomia esquerda-direita. Acreditamos que a política écomo um quadro de Cézanne no qual todos os matizes de cores são importantes para a composição do todo. Dada tal razão, nesta primeira edição trazemos a você, leitor, uma reportagem especial sobre um dos temas mais presentes nas manifestações de junho/ julho: a corrupção.Você sabia que um em cada quatro brasileiros não acredita que subornar um guarda, por exemplo, seja um ato corrupto? Para compreender melhor o assunto, ouvimos um cientista político, um advogado e jovens universitários a fim de esclarecer: “afinal, o que é corrupção?”. Em meio a polêmica do programa Mais Médicos, elaboramos também um perfil com um jovem doutor que, embora contra o programa, decidiu não fazer greve como a maioria dos colegas da categoria. O motivo? Os próprios pacientes. E ainda trazemos uma entrevista com Soninha Francine, uma das figuras políticas mais conhecidas de São Paulo, falando sobre o que muda e o que não muda nas eleições de 2014 após as manifestações. Desejamos a todos uma boa leitura! Equipe #Vemprarua!. # Artigo Projetos Estranhos Conheça projetos inusitados criados por vereadores #05 Gente que faz Acontecer Conheça Avner Lyra, estudante de medicina que participou de um protesto diferente #06 capa #11 Você é corrupto! “Veja como ações cotidianas, a princípio simples, podem fazer de você uma pessoa nem tão correta quanto imaginava...” Legislativo em Ação Saiba o que esta acontecendo no governo #12 Entrevista #14 A ex-vereadora Soninha Francine comenta e opina sobre as manifestações de junho e a política no Brasil. Ciências Políticas Muitos não sabem, mas a Política também é uma ciência. Mais do que isso, a política é uma ciência que pode ajudar a entender muito do que tem acontecido nos dias atuais #16 agenda Jornalistas Ana Paula Trevisan Camila Cechinel Déborah Lima Felipe Soares Faverani Julia Antunes Piraíno Natalia Zancheta Gentil Renata Fujie Kamoshita Roberto Bueno Mendes 2 #03 “É preciso saber a quem nossas pautas vão beneficiar” #04 Editor-Chefe Felipe Faverani Contribuição Na Diagramação José Reis Filho O gigante que faltou na escola Um gigante que faltou Expediente Diagramação Ana Paula Trevisan Sumário #16 Serviços #Vemprarua indica os melhores livros e filmes sobre política #v e m p r a r u a Fique por dentro dos eventos, aulas e palestras do mês S # (Foto: arquivo pessoal de Natália Bianco) Editorial ARTIGO Natália Blanco tem 19 anos e está no 4º semestre de Jornalismo na Universidade Metodista eguramente este ano entrará para a história do país, sobretudo o mês de junho, com todas as suas agitações políticas e sociaisque as manifestações de rua provocaram. Uma das coisas que inquietaram foi o fato de um movimento que até então era pouco conhecido pela população (sem desmerecer sua legitimidade)conseguiu levar centenas de milhares de jovens, muitos que sequer fazem uso do transporte público, para as ruas. Os movimentos sociais sempre tiveram um papel importantíssimo neste cenário, e infelizmente, ainda hoje são desvalorizados e até mesmo marginalizados.No caso do Passe Livre, desde 2005 eleslutam por um transporte público de qualidade e acessível. É irônico pensar numa juventude que não foi educada para se envolver com a vida política, de uma hora paraoutra, resolve acompanhar os primeiros militantes.Para alguns animados, até desatentos, isto seria um alerta de que um “gigante” tenha acordado; para os que por dentro, pode-se enxergar uma reorganização de grupos na ativa há tempos, os quais nós já não lembrávamos mais para que serviam. A juventude percebeu a distância entre o que ela quer e o que as instituições que asrepresenta querem. Logo os Facebooks passam a ser fóruns de discussões, os “manifestantes virtuais” aparecem para propor suas pautas de mudança e dar apoio moral àqueles que foram se juntar aos movimentos nas ruas, e em pouco tempo o reflexo desta falta de educação política começaram a transparecer em cartazes, gritos, e propostas de pautas intolerantes e diria até mesmo ignorantes. Dia 21 de junho, no ato de comemoração pela revogação do aumento da tarifa dos ônibus na Avenida Paulista, militantes de partidos, movimentos estudantis, negros, ecumênicos, entre outros, foram hostilizados pelo simples fato de estarem ali. A mesma juventude que deixou de lado a história política de seu país por tantos anos, se viu no direito de agredir aqueles que há muitos anos já estão lutando. Aquele dia era carnaval fora de época, pessoas bebendo, o som de tambores, bandeiras do Brasil e pessoas com os rostos pintados de verde e amarelo. Muitos desses jovens vão para as ruas, mas não sabem por que estão protestando, falta uma liderança nesse tipo de movimento, não existe agenda, e sim a soma de milhões de interesses individuais. Reivindicam tudo, e ao mesmo tempo, nada, uma vez que eles ainda não se sentem parte integrante da engrenagem política do Brasil. Muitos cartazes com reivindicações das mais diversas, algumas delas, assustadoras, que descentralizavam e enfraqueciam o objetivo do movimento. De um lado, governantes acharam que poderiam controlar a situação usando bombas de efeito moral, de outro, manifestantes, na tentativa de extravasar suas insatisfações, cobrem os rostos e depredam o patrimônio público. A população ainda está tentando entender o que de fato vem acontecendo desde junho. O momento é de reflexão. As entidades representativas se viram obrigadas a olhar para uma parcela da sociedade que por anos andou comportada demais, não deixemos que esta oportunidade passe. É preciso saber a quem nossas pautas vão beneficiar, para construirmos uma agenda com reivindicações que atendam a população no geral e não meia dúzia de pessoas. # #v e m p r a r u a 3 # PROJETOS ESTRANHOS gente que faz acontecer PolÍticos inovam em sua cartela de leis Protesto nãO é só violência Folia comportada, fruto proibido, invenções que você nem imaginava que poderiam existir Estudantes da Faculdade de Medicina de Jundiaí realizaram o Mutirão da Saúde por uma reforma no setor Por: Ana Paula Trevisan # Lei Municipal 1790/68 (São Luís, MA) “Lei da Melancia” (Rio Claro, SP) Data: 12 de maio de 1968 Data: 1894 Na década de 60, o então prefeito Epitácio Cafeteira baixou o “código de posturas” do município. Entre outras coisas, ficou proibido o uso de máscaras em festas exceto no Carnaval, ou com licença especial das autoridades. Para defender a medida (que virou letra morta), o prefeito argumentou que ela ajudava a “identificar bandidos” A inofensiva melancia, quem diria, foi proibida em 1894 na cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo. No fim do século 19, a fruta era acusada de ser agente transmissor de tifo e febre amarela, doenças epidêmicas na época. Com o tempo, a lei virou letra morta. Aeroporto Alienígena # Lei Municipal 1840/95 (Barra do Garças, MT) Data: 5 de setembro de 1995 O então prefeito dessa cidade de 55 mil habitantes criou uma reserva para pouso de OVNIs com 5 hectares na serra do Roncador, tradicional reduto de ufólogos. Para azar dos ETs, o “discoporto” ainda não saiu do papel 4 Fruto Proibido Preguiça Ecológica Lei de Crimes Ambientais (Governo Federal) Data: 12 de fevereiro de 1998 A lei que regula as punições para os crimes contra a natureza tem um agravante estranho: a pena aumenta para crimes aos “domingos ou feriados”. É o velho jeitinho brasileiro: com menos fiscais trabalhando nesses períodos, o governo elevou a pena para desestimular agressões ecológicas nas folgas da patrulha. É a única lei federal da nossa lista #v e m p r a r u a # (Foto: arquivo pessoal de Avner) # Por: Renata Fujie e Natalia Zancheta O N Programa Mais Médicos faz parte de um pacto de melhoria do atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde, que prevê maiores investimentos nas unidades de saúde, além de levar profissionais para regiões carentes. O início das negociações para a implantação do programa foi em maio. Em junho, parte da população já não estava satisfeita com a proposta e foi para as ruas. Muitos alunos de medicina também não são a favor da ideia. Cerca de duzentos alunos da Faculdade de Medicina de Jundiaí realizaram um protesto solidário no mês de junho. O mutirão foi contra a entrada de médicos estrangeiros no país sem a revalidação do diploma. A causa defendida pelos estudantes era o aumento do financiamento federal na saúde pública. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, a média do investimento na saúde no mundo é de 210 bilhões. Nos países da Europa os últimos anos, centenas de projetos esquisitos, inúteis e até claramente inconstitucionais tramitaram nas Casas Legislativas do País. Veja alguns dos projetos mais estranhos Folia comportada # e nos Estados Unidos, o valor é ainda maior: mais de 500 bilhões. Já no Brasil, é somente de 154 bilhões de reais. Os alunos decidiram realizar um movimento educativo, sem violência e que beneficiasse a população e a categoria.Eles transformaram a casa paroquial no centro da cidade em um grande consultório, realizando exames e orientações sobre a situação da saúde no país. O Mutirão da Saúde foi idealizado pela internet em parceria com outros Diretórios Acadêmicos, como os DAs da UNIFESP (CAPB), USP (CAOC) e SANTA CASA (CAMA). direito garantido, decidimos alterar o modelo de protesto por meio do mutirão. Nele, as pessoas são atendidas e, ao mesmo tempo, conscientizadas dos reais problemas na saúde brasileira. Avner de Castro Lyra, 23 anos Par ticipou da organização do evento Por que participou? Indignação, raiva, vontade de mudança. Acredito que podemos fazer a diferença. Não adianta ver os problemas e não se movimentar para exigir que os mesmos sejam alterados. Por que um mutirão e não uma greve? A fila no SUS para marcar exames e consultas pode levar meses. Não gostamos da ideia de que uma pessoa, após meses esperando uma consulta, tenha a mesma remarcada ou cancelada. Mesmo acreditando que a paralisação é um Quais são os principais problemas? - Sub-financiamento - Em 2012, o orçamento era de cerca de 90 bilhões de reais. Desse total, 9 bilhões deixaram de ser usados - Falta de infraestrutura em grande parte dos municípios - Concentração de profissionais em áreas mais desenvolvidas - Ausência quase que completa de direitos trabalhistas Dá para mudar? Sim, desde que feitos de maneira honesta, focando o bem da população e não as próximas eleições. #v e m p r a r u a 5 # capa capa você # é corrupto! Por: Felipe Faverani e Camila Cechinel Veja como ações cotidianas, a princípio simples, podem fazer de você uma pessoa nem tão correta quanto imaginava... D e acordo com uma pesquisa divulgada pela ONG Transparência Internacional, que faz parte dos estudos que integram o Barômetro Global da Corrupção 2013, chega a 81% os brasileiros que julgam os partidos políticos corruptos ou muito corruptos -enquanto 68% dizemestar dispostos a denunciar casos de corrupção se desconfiam da existência deles. No entanto, 27% afirmaram ter pagado suborno para ter acesso a instituições e serviços públicos em 2012. Surpreendeu-se com o número? Espere até saber que um em cada quatro brasileiros não acha corrupção dar dinheiro a um guarda para evitar receber uma multa. A pesquisa,realizada no ano passado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com o Instituto Vox Populi, guarda outras incoerências.“Algumas coisas podem ser um 6 #v e m p r a r u a #v e m p r a r u a 7 # capa capa pouco erradas, mas não corruptas”, pregam 35% dos entrevistados.E o que seriam essas “coisas meio erradas?”Acredite: sonegar impostos quando a taxa for cara demais é uma delas... Todos os números acima evidenciam um fato: a corrupçãojá se tornou algo banal para grande parte dos brasileiros, a ponto de muitos revelarem ter caracteres flexíveis, ainda que não assumam. O advogado Rogério de Oliveira não se espanta com isso. Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, Oliveira acredita que negar a existência da corrupção é o primeiro passo para ser tragado por ela. “A grande sacada do diabo foi fazer com que ele fizesse as pessoas acreditar que ele não existia. E a grande sacada da corrupção é as pessoas falarem “não existe corrupção”, “estamos punindo”, “vamos fazer alguma coisa”. É um problema acima de tudo ético”, sentencia. “É uma questão de padrão que você estabelece na sua vida, na vida da sua família e nas questões que você acaba observando ao seu redor.” A incompetência das instituições públicas tem boa parcela de (ir)responsabilidade na construção desse cenário, segundo Oliveira. E isso leva ao descrédito. Talvez seja por isso que, aqui, as leis “pegam ou não”. Essa desconfiança foi medida em números pela pesquisa da ONG Transparência Internacional: 72% dos brasileiros desconfiam no Congresso Nacional, enquanto que 50% não creem no Poder Judiciário. “De tanto que a corrupção faz parte do país, ela acaba virando chacota”, lamenta Oliveira. “Ela gera uma sensação de impunidade, de que, se você não levar vantagem, você está fora do mercado.” Em contrapartida, o professor de Ciência Política da USP, José Álvaro Moisés, compreende a corrupção de outra forma, e aponta que é preciso distinguir a corrupção existente no cenário político de ações de desvirtuamento moral cotidianas. “Corrupção 8 corresponde à apropriação privada de recursos materiais ou simbólicos,envolve ações que desviam recursos públicos ou relativos à vida partidária”, explica. “Questões cotidianas, como não devolver o troco errado, ultrapassar o sinal vermelho, furar fila, são práticas que caracterizam defeitos morais e éticos. Não são vistas com bons olhos pela sociedade, mas não envolvem o que caracteriza a corrupção, que precisa de um agente corruptor e um corruptível para existir.” Se até entre acadêmicos é difícil um entendimento claro, torna-se natural a difícil compreensão para o cidadão comum. Para a publicitária Marcela Fernandes, por exemplo, é impossível chegar a uma conclusão sobre o que seja corrupção por diversos fatores, que vão além da simples ausência de interesse ou compromisso com o bem comum. “Indo além da definição estabelecida pelo senso comum de ser uma prática contrária às leis sociais, o conceito de corrupção é inexato, uma vez que difere de acordo com a moral ética de determinado povo, época, e, principalmente, ser humano”, tenta justificar. Apesar de Marcela recorrer à flexibilidade em torno dos limites da corrupção, ela é categórica: não acredita que seja ou possa ser corruptível. “É algo que vai contra os meus princípios éticos”, defende-se. “Cresci com a ideia de que, não importa se o #v e m p r a r u a # “ Cresci com a ideia de que não importa se o ato errado é ínfimo ou grave, não deixa de ser incorreto ” ato errado é ínfimo ou grave, não deixa de ser incorreto. Já as consequências que eles terão posteriormente podemos julgar de acordo com os impactos que terão.” Pensamento semelhante ao de Marcela tem o estudante de Arquitetura, Rodrigo de Moura. “Uma vez que o ato de se beneficiar do outro com esse tipo de prática se torna comum, a noção de que isso é normal começa a distorcer os valores do indivíduo”, decreta. “Pode parecer extremista, mas acredito que o ‘jeitinho brasileiro’ nada mais é do que um tipo de corrupção totalmente arraigada a nossa cultura.” Consenso? Parece que tudo vai continuar a dependerdo tamanho da régua moral de cada um. um fato: a corrupçãojá se tornou algo banal para grande parte dos brasileiros, a ponto de muitos revelarem ter caracteres flexíveis, ainda que não assumam. O advogado Rogério de Oliveira não se espanta com isso. Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, Oliveira acredita que negar a existência da corrupção é o primeiro passo para ser tragado por ela. “A grande sacada do diabo foi fazer com que ele fizesse as pessoas acreditar que ele não existia. E a grande sacada da corrupção é as pessoas falarem “não existe corrupção”, “estamos punindo”, “vamos fazer alguma coisa”. É um problema acima de tudo ético”, sentencia. “É uma questão de padrão que você estabelece na sua vida, na vida da sua família e nas questões que você acaba observando ao seu redor.” A incompetência das instituições públicas tem boa parcela de (ir)responsabilidade na construção desse cenário, segundo Oliveira. E isso leva ao descrédito. Talvez seja por isso que, aqui, as leis “pegam ou não”. Essa desconfiança foi medida em números pela pesquisa da ONG Transparência Internacional: 72% dos brasileiros desconfiam no Congresso Nacional, enquanto que 50% não creem no Poder Judiciário. “De tanto que a corrupção faz parte do país, ela acaba virando chacota”, lamenta Oliveira. “Ela gera uma sensação de impunidade, de que, se você não levar vantagem, você está fora do mercado.” Em contrapartida, o professor de Ciência Política da USP, José Álvaro Moisés, compreende a corrupção de outra forma, e aponta que é preciso distinguir a corrupção existente no cenário político de ações de desvirtuamento moral cotidianas. “Corrupção corresponde à apropriação privada de recursos materiais ou simbólicos,envolve ações que desviam recursos públicos ou relativos à vida partidária”, explica. “Questões cotidianas, como não devolver o troco errado, ultrapassar o sinal vermelho, furar fila, são práticas que caracterizam defeitos morais e éticos. Não são vistas com bons olhos pela sociedade, mas não envolvem o que caracteriza a corrupção, que precisa de um agente corruptor e um corruptível para existir.” Se até entre acadêmicos é difícil um entendimento claro, torna-se natural a difícil compreensão para o cidadão comum. Para a publicitária Marcela Fernandes, por exemplo, é impossível chegar a uma conclusão sobre o que seja corrupção por diversos fatores, que vão além da simples ausência de interesse ou compromisso com o bem comum. “Indo além da definição estabelecida pelo senso comum de ser uma prática contrária às leis sociais, #v e m p r a r u a 9 # capa Legislativo em ação # frases # O poema abaixo, da jornalista Elisa Lucinda, é um grito contra a corrupção. “Só de sacanagem” Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais. Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: tenho tido que escutar. Até habeas-corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem! Dirão: “- Não importa! Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos.Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.” Dirão: “ - É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”. E eu direi: IMORTAL!!! “ - Esse apontador não é seu, minha filha!” Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final. 10 Cotas raciais Deixem o Haddad trabalhar em paz O projeto que destina um quinto das vagas oferecidas em concursos públicos para negros chegou à Câmara dos Deputados na última quinta-feira, 7 de novembro. Os parlamentares têm 45 dias para votar sobre o texto antes de trancar a pauta, em fevereiro do ano que vem. Alexandre Padilha, Ministro da Saúde, tentando minimizar efeitos do aumento da tarifa sobre governo do PT em São Paulo “ - Não admito! Minha esperança é imortal!” “ - Devolva o lápis do coleguinha!” justificar. Apesar de Marcela recorrer à flexibilidade em torno dos limites da corrupção, ela é categórica: não acredita que seja ou possa ser corruptível. “É algo que vai contra os meus princípios éticos”, defende-se. “Cresci com a ideia de que, não importa se o ato errado é ínfimo ou grave, não deixa de ser incorreto. Já as consequências que eles terão posteriormente Manuela D’Ávila, deputada federal (PC do B-RS) e líder do partido na Câmara Tecnologia, e Relações Exteriores e de Defesa Nacional, e foi arquivado. E eu vou dizer: E eu repito, ouviram? o conceito de corrupção é inexato, uma vez que difere de acordo com a moral ética de determinado povo, época, e, principalmente, ser humano”, tenta O presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN), afirmou que o projeto do Marco Civil da Internet deve ser votado ainda esta semana. O projeto proíbe o armazenamento de registros de navegação e obriga o armazenamento de dados de usuários brasileiros em data centers instalados no Brasil. É petulância achar que eleitor não saberá opinar sobre reforma “ - Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba.” “ - Não roubarás!” Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe Marco civil da internet podemos julgar de acordo com os impactos que terão.” Pensamento semelhante ao de Marcela tem o estudante de Arquitetura, Rodrigo de Moura. “Uma vez que o ato de se beneficiar do outro com esse tipo de prática se torna comum, a noção de que isso é normal começa a distorcer os valores do indivíduo”, decreta. “Pode parecer extremista, mas acredito que o ‘jeitinho brasileiro’ nada mais é do que um tipo de corrupção totalmente arraigada a nossa cultura.” # #v e m p r a r u a Irritação de Garotinho A nthony Garotinho, deputado federal do PR/ RJ, ficou irritado ao ver que a edição do dia 07 de novembro do jornal O Globo dedicava apenas um pequeno espaço para a publicação de uma errada que afirmava que ele e a mulher não respondiam mais ao processo contra a família da atriz global Deborah Secco. O caso fez com que o deputado rasgasse as folhas do diário e, ao se abaixar, batesse a cabeça na tribuna. #v e m p r a r u a Se Aécio for o candidato do PSDB, vou trabalhar por ele José Serra, pré-candidato a Presidência da República pelo PSDB, em entrevista ao programa Poder e Política, da Folha e do UOL. 11 # entrevista entrevista O jovem sempre está mais próximo da ação do que alguém mais velho Por: Julia Piraino A ex-vereadora conta o que achou das manifestações que aconteceram em julho, a participação do jovem da política e as perspectivas sobre o futuro Para ampliar a discussão em torno das manifestações que tomaram conta das ruas do país desde junho e colocaram os jovens no centro dos acontecimentos, #Vemprarua! foiconversar com uma das personalidades políticas mais polêmicas da nova geração de São Paulo: Sônia Francine Gaspar Marmo, a Soninha. A ex-apresentadora levou para o campo político sua atuação junto às novas gerações quando, em 2004, se elegeu vereadora, por acreditar que os jovens estão mais próximos se de fazer política do que os mais velhos.Insatisfação com aumento do preço do transporte público. Sob esse ângulo, ela analisa os pontos positivos e negativos das manifestações, fala da participação da classe média e projeta um cenário sobre a possível reforma política no Brasil – discussão séria que nasceu justamente a partir dos singelos R$ 0,20 das tarifas de ônibus. Você já havia imaginado algo como as manifestações de Junho? Eu, como todo mundo, me surpreendi com a escala que aquilo alcançou, por que o que desencadeou foi o protesto contra o aumento da tarifa, mas toda vez que a tarifa aumenta tem manifestação, e manifestações inclusive com atos de vandalismo, porque claro, chama mais atenção do que você reunir cem pessoas sem fazer nenhum estrago. Mas nunca elas ganharam tanta proporção. Então, não foi só “pelos R$ 0,20”? Muita gente saiu à rua também contra a violência policial e contra a arbitrariedade. Isso ajuda as pessoas a se organizarem, uma organização espontânea que não veio de uma 12 voz de comando única ou de uma convocação do sindicato. Então foi muito legal as pessoas irem pra rua pra se sentirem aliviadas, pensando que não eram só elas, tinha mais um monte de gente dizendo que estava cansada. E a percepção de que se a gente se mexe, alguma coisa acontece, sim; parou de se mexer elas já voltam ao que eram. O fato de se mexer pode não dar todo o resultado do mundo, mas algum resultado sempre dá. Na sua opinião, o que levou à participação maciça da classe média nesses episódios? Como você avalia hoje a relação do jovem com a política? Eu acho, independentemente dessas manifestações recentes, que normalmenteas pessoas consagraram uma visão de que “os jovens de hoje não querem nada com nada”. Antigamente é que era bom, antigamente os jovens eram engajados, eles foram para as ruas contra a ditadura militar”. Antigamente tinha alguns jovens engajados e dedicados, uns pegavam em armas, outros atuaram politicamente na clandestinidade. E certamente tinha muitos jovens que não estavam nem aí com nada, outros estavam mais ocupados em cuidar da sua própria vida e conseguir o seu sustento, outros estavam no projeto de carreira profissional. E que de uns anos pra cá, a juventude não quer saber de nada e não estão nem aí para política, e é verdade, a maioria da população odeia política. Mas, o jovem sempre está mais próximo da ação do que alguém mais velho, que já se estabilizou na vida, que tem um emprego, filhos, outro tipo de responsabilidade. “ Os jovens de hoje não querem nada com nada ” Como é possível realizar uma reforma política no país? Pra mim só é possível por etapas. É muito complexo, e quem decide as mudanças da política são os políticos com mandato. Que se começasse,por exemplo, com o voto facultativo e o voto obrigatório, que são coisas excludentes e não têm muita complexidade nisso. Ou o voto é obrigatório, ou ele nãoé. O voto distrital misto também vai mudar muito a qualidade do relacionamento entre o eleitor e o candidato, pois é um modo de diminuir o espectro de alternativas. # Foi uma característica desse movimento que não tinha vozes de comando daquilo que normalmente se chama de sociedade civil organizada, os movimentos sociais organizados e as entidades de classe. Então, o que se chama hoje em dia de classe média é um universo inteiro, mas a tal da classe média com ensino superior, com ensino médio completo, incompleto, esse perfil não pertence a esses grandes grupos organizados, não é da base da central sindical.” O fato de se mexer pode não dar todo o resultado do mun do, mas algum resultado sempre dá. Quais foram os pontos positivos e negativos dessas manifestações? Positivo foi que as poucas pessoas que sempre vão para a manifestação, geralmente sozinhas, se sentiram finalmete recompensadas pelos seus esforços quando gente que morria de vontade de fazer alguma coisa e já vivia com a sua indignação, mas não tinha ânimo de sair de casa, queria gritar, mas só no Facebook, enfim saiu de casa. O lado negativo é pra mim a violência. #v e m p r a r u a # #v e m p r a r u a 13 # conhecimento conhecimento Política? Por que não? Por: Déborah Lima e Roberto Bueno Quem sentiu gostinho de poder mudar a realidade com as manifestações pode fazer o curso superior de Ciências Políticas para entender e melhorar as maneiras de se governar, os partidos e suas ideologias Quem sentiu gostinho de poder mudar a realidade com as manifestações pode fazer o curso superior de Ciências Políticas para entender e melhorar as maneiras de se governar, os partidos e suas ideologias M uitos não sabem, mas a Política também é uma ciência. Mais do que isso, a política é uma ciência que pode ajudar a entender muito do que tem acontecido nos dias atuais e também no passado. é um dos ramos da Ciência Social, esta mais popular. Este termo foi criado por um professor de História, Herbert Baxter Adams, da Universidade americana de Johns Hopkins, em 1880. A maioria dos políticos brasileiros faz da sua área de atuação uma propaganda bastante negativa do que é Política e de como ela interfere na vida das pessoas. Mas essa ciência vai muito além do que os políticos fazem ou deixam de fazer, e passou a ser estudada como disciplina de ensino superior, como você vai ver ainda nesta reportagem. Nela, é possível estudar todos os fatores que compõem a Política, como por exemplo o “p” maiúsculo, que é uma de suas principais marcas. Definir a ciência política não é tarefa fácil. O jurista Darcy Azambuja, autor do livro “Introdução à Ciência Política”, publicado em 2008, em entrevista no lançamento desta publicação, afirmou que a ciência política: “serve, ao mesmo tempo, para compreender a sociedade, para entender a política e para auxiliar a organizar a própria política, ao dar bases para a ação e a legislação”. Ou seja, ela é interessante para qualquer pessoa que queira entender o mundo que vivemos, como ele foi construído e que rumos ele pode tomar. Essa é apenas um dos aspectos que se pode estudar no curso superior desta área, desconhecida por muitos jovens no momento de decidir qual carreira seguir. Ciência Política Manifeste-se As manifestações do MPL (Movimento Passe Livre), principalmente as que aconteceram em junho, acabaram se agigantando tanto que a política e os políticos brasileiros viraram temas principais de debates por todo o país, e até mesmo fora dele, por inúmeras razões. Muitos, principalmente os jovens, procuraram entender o que estava acontecendo e conversar sobre mobilidade urbana, transporte, saúde, moradias. Fosse durante as passeatas, nos botecos, pelas redes sociais, nas escolas e universidades, ou em encontros com amigos, os jovens discutiam política como nunca tinham discutido antes. Então, por que não se aprofundar de verdade no mundo político? Por que não tentar entender o que é a Política e como ela funciona? Você, jovem que levantou bandeiras e foi para a rua, já tinha ouvido falar de graduação em Ciências Políticas? Não? Ela forma os 14 #v e m p r a r u a chamados “cientistas políticos”, colocação que ficou muito em evidência no contexto social das manifestações. Estes cientistas são responsáveis por analisar momentos políticos, como o das próprias manifestações, e ainda se aprofundar em temas que envolvem os sistemas de governo, as instituições públicas e os partidos políticos de um país. Rogério Schlegel é cientista político e professor na Universidade de São Paulo (USP). Ele destaca a importância do estudo da Política no cotidiano. “As teorias predominantes no curso de Ciência Política sugerem um papelchave para os cidadãos. O conhecimento sobre política nos permite montar metadiscursos, mas também ajuda cada súdito, individualmente.” Ou seja, para ele, o curso é essencial não só para que qualquer cidadão possa entender diversos momentos políticos, mas também para que possam opinar de maneira consistente sobre eles, com argumentos e compreensão do todo. O jovem Caio Izaú, aluno de Ciências Sociais com ênfase em Ciências Políticas da USP, é um desses cidadãos, que se motivou a estudar essa área por gostar mesmo do ramo: “Sempre me interessei pela disputa de poder, seja na literatura, em jogos ou nas instituições. Assim, aos 18 anos, prestei vestibular para o curso de Ciências Sociais da USP e fui aprovado. # Nicolau Maquiavel, o pai da ciência política E à medida que fui cursando as matérias, fui gostando cada vez mais da parte de política.” Para Caio, a análise crítica é a maior contribuição do curso para os alunos. “A importância do curso é justamente tomar fatos sociais de maneira crítica e bem embasada no pensamento teórico que vem sido construído há muitos anos e reformulá-lo para dar respostas justas e sensatas, ajudando na formação de um debate público.” Em algumas universidades o curso é oferecido apenas como uma vertente de Ciências Sociais, que também conta com Antropologia e Sociologia. Apesar disso, já existem instituições que oferecem esse curso separadamente, como qualquer outro. É possível prestar assessoria política aos órgãos públicos e às empresas privadas, trabalhar em partidos, institutos de pesquisa ou com marketing político.Além disso, também é possível atuar em bancos e indústrias como analista e organizador de estratégias políticas. # Luíz Gama Filho Filho de um dos maiores abolicionistas do Brasil, fundou a Universidade Gama Filho. E também foi formado em Ciências Políticas. Fernando Henrique Cardoso Você conhece muito bem o FHC, ex-presidente da República. Mas você sabia que ele é formado em Ciências Sociais? Além disso, Fernando Henrique foi, por um bom tempo, professor de Ciências Políticas na Universidade de São Paulo William Waack Além de Jornalista, profissão que é atuante, William também é formado em Ciências Políticas. #v e m p r a r u a 15 agenda 18 Nov # livros e filmes # NO 18 de novembro, segunda-feira Palestra: A Importância da Comissão da Verdade Onde: UFABC - Campus São Bernardo do Campo, Bloco Beta - A003 Rua Arcturus, 3 - São Bernardo do Campo, SP Horário: 16h30 às 18h30 21 Nov 21 de novembro, quinta-feira Trigésima Oitava Mostra Paralela de Cinema da UFABC Onde: UFABC - Campus Santo André, Bloco A Auditório 212-0 Av. dos Estados, 5001 – Bairro Bangu – Santo André, SP Horário: 16h 2012, drama/histórico Direção: Pablo Larraín Com Gael García Bernal, Antonia Zegers, Alfredo Castro Sinopse - 1998, Chile. O ditador Augusto Pinochet aceita realizar um plebiscito para que a população decida pela sua permanência ou não no poder. Líderes do governo, por acreditarem ser uma boa chance de acabar com a ditadura no país, contratam René Saavedra (Gael García Bernal) com o objetivo de coordenar uma campanha anti Pinochet. Com dificuldades pela falta de recursos e as ações do governo, Saavedra consegue desenvolver uma campanha sólida e eficiente que ajuda o país a se libertar das opressões políticas. Filme: Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo’s Nest) – Direção: Milos Forman, 1975, EUA. O Que é Política novembro e dezembro (Wolfgang Leo Maar) Opera Mundi e TV Unesp lançam série de Aulas Públicas As aulas estarão disponíveis no portal www.operamundi. com.br, no portal da TV Unesp e no canal Opera Mundi no Youtube. A “Aula Pública Opera Mundi” será transmitida, em Bauru (SP), pela TV Unesp (canal 45) e pela NET (canal 32), sempre às 21 horas. Hoje, a política está presente em todas as dimensões da vida social. Inúmeras vezes nos referimos aos ‘políticos’, à ‘politicagem’ ou classificamos alguma atitude como ‘política’. Neste livro, Wolfgang Leo Maar analisa aspectos objetivos e subjetivos ligados ao termo, construindo uma linha do tempo da atividade política na História, dos gregos e romanos ao Estado moderno. Editora Brasiliense, 2006, 112 páginas. Preço: R$ 24,00. Programação Sérgio Amadeu fala sobre: “Os EUA serão os ditadores da Internet?” 21 de novembro, quinta-feira, às 21h. Luis Ayerbe responde:“A prioridade diplomática latinoamericana é benéfica para o Brasil?” 28 de novembro, quinta-feira, às 21h. Paulo Pereira fala sobre: “A saída para guerra às drogas é a legalização?” 5 de dezembro, quinta-feira, às 21h. 16 O Príncipe (Nicolau Maquiavel) Rejeitando os valores tradicionais da teoria política, Maquiavel usou sua experiência na turbulenta república de Florença escrever este livro. Em ‘O Príncipe’, o leitor poderá descobrir a fase do autoritarismo político e as qualidades que um príncipe ou governante precisa ter para ser manter no poder através do medo, da repressão e da hipocrisia, segundo Maquiavel. Editora Penguin Companhia, 2010, 168 páginas. Preço: R$ 25,00. #v e m p r a r u a