UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA Patricia Kauffmann Fidalgo Cardoso da Silveira O TRÁFICO DE ESCRAVOS PARA O MARANHÃO: súplicas, embaraços e distinções (1671-1802) São Luís 2010 2 Patricia Kauffmann Fidalgo Cardoso da Silveira O TRÁFICO DE ESCRAVOS PARA O MARANHÃO: súplicas, embaraços e distinções (1671-1802) Monografia apresentada ao Curso de História da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do grau de Bacharel em História. Orientador: Prof. Dr. Josenildo de Jesus Pereira São Luís 2010 3 Patricia Kauffmann Fidalgo Cardoso da Silveira O TRÁFICO DE ESCRAVOS PARA O MARANHÃO: súplicas, embaraços e distinções (1671-1802) Monografia apresentada ao Curso de História para obtenção do título de Bacharel em História da Universidade Federal do Maranhão, submetida à aprovação da banca examinadora composta pelos seguintes membros: __________________________________________ Prof. Dr. Josenildo de Jesus Pereira (Orientador) __________________________________________ Prof.ª Dra. Regina Helena Martins de Faria __________________________________________ Prof.º Ms. Reinaldo dos Santos Barroso Jr. São Luís, 10 de dezembro de 2010 4 Silveira, Patricia Kauffmann Fidalgo Cardoso da. O tráfico de escravos para o Maranhão: súplicas, embaraços e distinções (1671-1802) / Patricia Kauffmann Fidalgo Cardoso da Silveira. 2010 76 f. Impresso por computador (fotocópia). Orientador: Josenildo de Jesus Pereira. Monografia (Graduação) – Universidade Federal do Maranhão, Curso de História, 2010. 1. Escravos – Tráfico – Maranhão 2. Alta Guiné 3. Demografia I. Título CDU 326.1 (812.1). 02/.03 5 Dedicado a Job Borges da Silveira (in memoriam) e Waires Gilberto Cardoso da Silveira (in memoriam). 6 Agradecimentos À minha mãe Carla, a minha irmã Ludmilla e ao meu irmão Murillo, pelo amor e por tudo o mais. Vocês são o que há de melhor neste mundo e eu os amo muito. À minha primeira amiga ludovicense, Daniella, por toda a dedicação, paciência, afeto, e por me levar ao Bonfim. Aos meus tios Laura e Sandro, por me ajudarem sempre, pelo carinho e pela compreensão. Aos meus familiares de Bauru, Nova Granada, São Paulo, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro e Brasília por me acolherem calorosamente toda vez que volto. A Cássio, por ter feito parte da minha vida, tornando-a melhor. A Lopes (in memoriam), pela moradia, primeiro emprego e por me ajudar nas minhas primeiras semanas em São Luís. A Luciane, amiga e companheira de trabalho na pousada, por começar a me mostrar a cidade além da Praia Grande. Aos amigos Waldeílson, Betty (e família!), Sara, Chica, Victor, Weliandrei e Frederico, por deixarem que eu faça parte da vida de vocês. Aos inúmeros companheiros ao longo do curso de História: Fábio, Joãomar, Valéria, Bruno, Fernando, Josimar, Hernandes, Fhilipe, Ricardo, Reinaldo, por compartilharem a jornada, as piadas e as cervejas. À gentileza transatlântica de Duarte Figueiredo, “um meu bibliotecário” português, que generosamente me cedeu cópias do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Aos professores Manoel, Washington, Maria da Glória, Jalila, Marize e Helidacy que, de inúmeras maneiras, contribuíram para o meu processo de formação. Ao meu incrível orientador, professor Josenildo, pelas aulas, por acreditar na minha pesquisa e apoiá-la em todos os momentos, pela amizade, paciência, senso de humor e intermináveis conversas. Às cidades de São Luís, Alcântara, Guimarães e Paulino Neves, pela eterna inspiração e poesia. 7 Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus... Ó mar! Porque não apagas Com a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Astros! Noites! Tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!... “Tragédia no mar (O navio negreiro)”, Castro Alves, 1868 8 RESUMO O objeto de estudo deste trabalho é o tráfico de escravos para o Maranhão e o objetivo é mostrá-lo em três momentos distintos: nas primeiras décadas após o início do povoamento (1671-1755), durante o período de monopólio da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1756-1777) e nas últimas décadas do século XVIII e início do XIX – com o predomínio da rota entre a Alta Guiné e o Maranhão (1778-1802). Pretende-se, também, mostrar os efeitos do tráfico na demografia do Maranhão. Palavras-chave: tráfico de escravos; Maranhão; Alta Guiné; demografia. 9 ABSTRACT This research aims to present a description on the slave trade to Maranhao considering three distinct stages: the first decades after the beginning of settlement (1671-1755), during the monopoly of the Grao-Para and Maranhao Trade Company (1756-1777) and decades of the 18th and early 19th centuries – with the predominant route between Maranhao and Upper Guinea (1778-1802). This study also aims to show the effects of the slave trade in the demography of Maranhao. Keywords: slave trade; Maranhao; Upper Guinea; demography. 10 Lista de ilustrações Ilustração 1: Relação de rendimentos e despesas (1736) 38 Ilustração 2: Mapa dos gêneros exportados para Lisboa (1777) 45 Ilustração 3: A Alta Guiné 51 Ilustração 4: Mapa da importação de escravos para o porto de S. Luís (1788) 58 Ilustração 5: Rotas transatlânticas entre Brasil e África (séc. XVII-XVIII) 62 Ilustração 6: População livre e escrava no Brasil (1823 e 1872) 67 11 Lista de tabelas Tabela 1: Estimativas do tráfico de escravos no Atlântico (1450-1600) 20 Tabela 2: Contratos e assentos celebrados pela Coroa (1680-1705) 35 Tabela 3: Referências a navios que chegaram ao Estado do Maranhão até a criação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão 39 Tabela 4: Entradas de escravos no Maranhão pela Companhia (1756-1777) 48 Tabela 5: Escravos provenientes de portos brasileiros (1780-1802) 61 Tabela 6: Escravos provenientes de portos africanos (1778-1802) 65 Tabela 7: Total de escravos desembarcados no Maranhão (1778-1802) 66 Tabela 8: Percentual de habitantes livres e escravos (1798/1800/1801) 68 Tabela 9: Configuração da população do Maranhão (1798/1800/1801) 69 Tabela 10: Percentual de sujeitos livres e escravos nas categorias “pretos” e “mulatos” (1798/1800/1801) 69 12 Lista de abreviaturas AHU Arquivo Histórico Ultramarino CGCGPM Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão 13 Sumário 1 – INTRODUÇÃO 14 2 – NOTAS À FORMAÇÃO DO TRÁFICO TRANSATLÂNTICO (1450-1600): conceitos, interpretações e agentes 17 3 – O MARANHÃO NO ESPAÇO AMAZÔNICO (1621-1755): colonos, religiosos e a Coroa 25 3.1 – A questão dos jesuítas 29 3.2 – Outros embaraços 31 3.3 – Os primeiros registros de entrada de escravos africanos (1671) 33 4 – O MARANHÃO NAS GARRAS MONOPOLISTAS (1756-1777): a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão 40 4.1 – A Companhia e os endividados 43 4.2 – A Companhia e os escravos 47 5 – O MARANHÃO NO MUNDO ATLÂNTICO (1778-1802): Embaraços em terra, desafios no mar 52 5.1 – Extravios, contrabando e deserções 55 5.2 – As carregações de escravos 59 5.3 – Os habitantes do Maranhão na virada do século XVIII 67 CONSIDERAÇÕES FINAIS 70 REFERÊNCIAS 72 14 1. INTRODUÇÃO Nas últimas décadas, a historiografia brasileira tem dedicado significativa atenção ao estudo de temas relacionados ao tráfico de escravos e à escravidão. Entretanto, nesses trabalhos, o foco geralmente está direcionado a áreas como Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Minas Gerais e, neles, o Maranhão – quando citado – figura como mero coadjuvante. A respeito do tráfico no Maranhão, o período mais analisado é aquele que se refere à operação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, cujos trabalhos mais emblemáticos são os de Manuel Nunes Dias e Antonio Carreira. Embora ambos possuam recortes temporais semelhantes, Dias se ateve aos trâmites mercantis da referida Companhia, enquanto Carreira a inseriu no contexto das demais companhias pombalinas, avaliando também, as dimensões culturais dos grupos africanos que foram escravizados e traficados para outras áreas do ultramar. O intervalo que antecede a atuação da Companhia foi tratado em um artigo de Rafael Chambouleyron, que ressaltou o caráter fragmentário das fontes e ausência de registros sistemáticos. Portanto, nem sempre é possível afirmar que determinados navios chegaram, a quantidade de escravos desembarcados ou ainda, sua procedência. O período seguinte ao fim do monopólio da Companhia foi recentemente abordado em duas dissertações de mestrado. A primeira, de autoria de Marinelma Costa Meireles, enfoca as procedências africanas, e a segunda, escrita por Reinaldo dos Santos Barroso Jr., versa sobre a relação estabelecida com a Alta Guiné, através do tráfico de escravos. As particularidades acerca da implantação e organização do tráfico em três fases distintas, bem como seus efeitos na demografia do Maranhão, são os objetos de estudo deste trabalho. O primeiro capítulo, intitulado Notas à formação do mundo atlântico (1450-1600): conceitos, interpretações e agentes, trata das abordagens historiográficas mais recentes acerca da participação dos africanos e europeus na operacionalização do tráfico, da escravidão e do papel do escravo nas sociedades 15 africanas e das disputas entre Portugal, Espanha, Inglaterra e Holanda no intuito de controlar as rotas do tráfico, reiterando assim, seu poder político na Europa. O segundo capítulo, O Maranhão no espaço amazônico (1621-1755): colonos, religiosos e a Coroa, aborda as primeiras décadas após o início da colonização, marcadas pelo largo uso do escravo indígena, prática que passou a enfrentar obstáculos cada vez mais incisivos devido à ação das ordens missionárias que possuíam a jurisdição temporal dos índios. Apoiados na crença de que a prosperidade das lavouras dependia do uso do escravo, a substituição do índio pelo africano passou a integrar o rol de queixas e petições dos colonos à Coroa. Esta, por sua vez, procurou organizar o tráfico de escravos para o Maranhão através de contratos e assentos. O terceiro capítulo, O Maranhão nas garras monopolistas (1756-1777): a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, trata das relações entre a mesma e os colonos, focando a natureza das reclamações que continuavam a ser enviadas à Coroa. Desenvolvimento e endividamento coexistiram durante o período de atuação da referida Companhia, fomentando queixas no Maranhão, em Cabo Verde e no reino. Os dados referentes às carregações, quantidade de escravos e procedências do período também constam do capítulo. O último capítulo, intitulado O Maranhão no mundo atlântico (17781802): Embaraços em terra, desafios no mar, destaca as dificuldades de navegação na zona costeira do Maranhão, aspectos cotidianos do porto, como contrabando, deserções e extravios de escravos e as ameaças do corso. Também mostra que, além do predomínio da rota de tráfico estabelecida com a Alta Guiné, carregações vindas do Brasil passaram a despejar constantemente escravos oriundos da Bahia e de Pernambuco. O capítulo apresenta, ainda, censos populacionais de 1798, 1800 e 1801. As fontes manuscritas utilizadas na construção desse trabalho são oriundas do Arquivo Histórico Ultramarino e foram consultadas a partir dos CDs que compõem o Projeto Resgate, na série “Documentos Manuscritos Avulsos da Capitania do Maranhão: 1614-1833”. Quanto à transcrição dos mesmos, optou-se por manter a grafia tal qual ela se apresenta. A escolha dessa documentação recaiu sobre o fato de a mesma possuir grande variedade em relação à sua tipologia (autos de devassa, cartas, provimentos, requerimentos, petições, queixas, passaportes, ofícios, bilhetes, minutas, consultas, 16 censos, mapas de importação e exportação, representações e decretos), conteúdo (administrativo, jurídico, pessoal, religioso, testamental etc.), destinatários (Conselho Ultramarino, Coroa, particulares, religiosos, testamenteiros etc.) e emissores (religiosos, escravos, colonos, devedores, governadores, juízes, capelães, degredados, marinheiros etc.); possibilitando, assim, a exploração de variados pontos de vista acerca do tráfico e suas implicações. 17 2. NOTAS À FORMAÇÃO DO TRÁFICO TRANSATLÂNTICO (1450-1600) Conceitos, interpretações e agentes “O mundo não consegue apresentar um espetáculo mais chocante da desgraça humana do que esse nosso navio apresenta.” Pascoe Grenfell Hill, abril de 1843 Entender a formação do tráfico transatlântico é fundamental para fomentar uma discussão que extrapola – não obstante nos esqueçamos disso – números e cifras. Para tanto, é essencial identificar seus agentes, ações e efeitos diretos e indiretos nas sociedades envolvidas. Grosso modo, tráfico pode ser definido como comércio. Comércio abjeto, pois embora fosse operado com a aquiescência de receptadores, atravessadores e compradores, era feito à revelia de sua “matéria prima”. Desse modo, não podemos tratar de tráfico sem abordarmos a instituição escravista e o escravo nesse contexto. Os europeus não inventaram o tráfico, tampouco desconheciam a escravidão. Apesar de não se poder negar que estes – principalmente, portugueses, ingleses e holandeses – possuíssem meios de ensejar lucros e vantagens maiores, atribuir aos africanos o papel de vítimas da ganância ocidental é obscurecer sua capacidade de organização e articulação política e econômica. Ao elencar a participação ativa dos africanos no tráfico transatlântico, Thornton não deixa de observar que os europeus possuíam algumas “vantagens organizacionais, seja porque tinham uma noção mais elaborada de lucros (...) uma organização comercial mais bem estruturada ou porque eram capazes de restringir as importações para a África de modo a criar um monopólio parcial”.1 A escravidão já estava internalizada como uma relação social, política e econômica em inúmeras sociedades africanas antes da chegada dos europeus. A costa oriental – faixa que compreende a região da Etiópia, se estendendo por todo o litoral do Mar Vermelho e oceano Índico – e parte considerável da borda do Saara, possuíam rotas comerciais cristalizadas já no século VII. A expansão do domínio _______________________ 1 THORNTON, John. A África e os africanos na formação do mundo atlântico: 1400-1800. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p.99 18 islâmico ajudou a sedimentar as rotas transaarianas que interligavam as costas leste e oeste, e o Mediterrâneo. 2 Para Lovejoy, a presença muçulmana no tráfico transaariano, contribuiu para a transformação das estruturas sociais e políticas. Quando as classes política e mercantil converteram-se ao Islã, adaptaram os modos de agir, antes identificados com o Islã, para o ambiente africano; foram incluídos títulos políticos, por exemplo, embora tais posições já existissem. Em Mali, funcionários escravos eram nomeados ainda no século XIII, e os cativos eram recrutados para o exército. Essa utilização militar e governamental era paralela ao emprego de escravos nos países muçulmanos do Mediterrâneo e das áreas mais importantes do Oriente Médio. O comércio externo era não apenas uma fonte de valiosas importações, mas igualmente ajudava a difundir tais instituições. Os muçulmanos assumiam cada vez mais um importante papel na política, na educação e em especial no comércio. Essa consolidação de uma sociedade muçulmana, muitas vezes como uma ilha em mar de não-muçulmanos, 3 ajudou a estruturar a política econômica. Na África, os escravos eram empregados nas minas de ouro da região sudanesa, nas salinas do Saara, nas atividades pastoris no vale do rio Nilo, nas minas de cobre da região de Songai; mas também podiam ocupar cargos administrativos e militares. Em muitas sociedades africanas, o casamento com uma escrava não era vetado, e os filhos desse enlace possuíam direitos legítimos à herança e ascensão. Embora o escravo compusesse a trama social, sua identificação não ficou atrelada a uma atividade específica, como ocorreu nas plantations da América e, talvez, tenha sido essa a principal razão para que a historiografia tradicional não enxergasse na economia africana uma classe de escravos definida e um sistema de tráfico organizado. 4 Além da idéia da participação da África no tráfico transatlântico na condição de vítima, outra idéia comumente difundida, e que também deve ser elucidada, é a noção de que Portugal desenvolveu o tráfico em função da necessidade de mão-de- obra nos seus territórios conquistados. Ao contrário do que se acredita, a coroa portuguesa já operava no tráfico africano antes mesmo da “descoberta” do Brasil. _______________________ 2 LOVEJOY, Paul. A escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002; THORNTON, op. cit; BLACKBURN, Robin. A construção do escravismo no Novo Mundo. Rio de Janeiro: Record, 2002; MILLER, Joseph C. África Central durante a era do comércio de escravizados, de 1490 a 1850. In HEYWOOD, Linda (org.) Diáspora negra no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008; GILROY, Paul. O Atlântico Negro. São Paulo: Editora 34, 2001 3 LOVEJOY, op. cit., p. 66 4 COSTA E SILVA, Alberto da. A manilha e o libambo. A África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, pp. 155-157 19 Cronistas como o italiano Cadamosto e os portugueses Valentim Fernandes e Duarte Pacheco Pereira relataram a atividade lusitana na costa africana já nas primeiras décadas do século XV. Em relação à presença portuguesa na África, Lovejoy destaca que estes abriram uma rota paralela às já conhecidas rotas transaarianas, através do rio Senegal, alcançado em 1445.5 Ainda a respeito dessas atividades, Lovejoy sublinha Os portugueses estavam mais interessados em ouro e escravos, embora estivessem dispostos a comercializar pimenta, marfim e outros produtos. O seu investimento na exportação da costa africana era um esforço consciente para evitar os intermediários muçulmanos; inicialmente eles apenas tiveram sucesso em expandir o comércio transaariano já existente, abrindo a rota marítima; depois, eles participaram no comércio interno africano como intermediários. Estruturalmente, por conseguinte, tanto os comerciantes portugueses quanto os muçulmanos exerciam as mesmas funções: eles conectavam a África subsaariana com o mundo mediterrâneo 6 e participavam no comércio regional da África Ocidental. Uma quantidade significativa desses escravos era destinada à Europa. Ao tratar da escravidão no imaginário europeu à época das navegações, o historiador americano David Brion Davis destaca que a servidão involuntária começara a desaparecer no continente cerca de 200 anos antes da descoberta da América. Para o autor, o intervalo que antecede o uso em larga escala da mão-de-obra assalariada nas manufaturas, a utilização do escravo africano foi mais abrangente do que usualmente consideramos, pois “quando Colombo chegou a Lisboa, em 1477, o comércio de escravos negros era um empreendimento próspero (...)”. 7 Segundo Costa e Silva, a presença do escravo era notada, sobretudo, nas cidades prósperas da região mediterrânea. Essa ocupação seria resultado da necessidade de se repor a mão-de-obra reduzida drasticamente em função da epidemia de peste negra ocorrida na primeira metade do século XIV. Com a mortandade estimada em cerca de 25 milhões de pessoas, o déficit populacional ameaçou “interromper o extraordinário processo de expansão econômica, técnica, intelectual e artística que se verificava em toda a Europa”8. _______________________ 5 LOVEJOY, op. cit. p. 75 6 Id. Ibid. p. 74 7 DAVIS, David Brion. O problema da escravidão na cultura Ocidental. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. p. 24 8 COSTA E SILVA, op. cit., p. 140 20 Tabela 1 Estimativas do tráfico de escravos no Atlântico (1450-1600) Período Exportações Europa/ilhas do Atlântico Importações Brasil Importações América hispânica Importações América hispânica Importações Europa/ilhas do Atlântico 1450-1521 155.800 - - - - 1522-1600 - - - - 50.000 1500-1600 - 50.000 - - - 1522-1594 - - 73.000 - - 1596-1600 - - - 35.000 - Fonte: LOVEJOY, Paul. A escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p.76 Numa expedição realizada entre 1470 e 1480, os portugueses adquiriram 400 escravos. Nas décadas seguintes, as aquisições tornar-se-iam mais numerosas (entre 500 e 600 escravos/ano no início do século XVI passando para cerca 5400/ano no período de 1516-21) e as rotas comerciais mais abrangentes, incluindo, além da costa do Benin, o Reino do Congo, a ilha de São Tomé e Angola. 9 Num primeiro momento, os portugueses estiveram envolvidos no tráfico como atravessadores, mas sua atuação acabou fomentando um comércio independente do domínio muçulmano. Essa promoção se deu em função de duas práticas lusitanas. A primeira delas consistia na própria expansão da navegação ao longo da costa ocidental africana e conseqüente penetração nos territórios através dos rios. A segunda prática estava ligada à própria gerência do negócio. O tráfico era usado para promover os interesses da Coroa através de alianças políticas e acordos comerciais. Dessa maneira, não apenas o tráfico de escravos ficava assegurado, mas possibilitava trocas mercantis bilaterais de bens manufaturados que porventura interessassem às partes envolvidas. 10 A respeito da regulação do tráfico entre Europa e África, Thornton ressalta que ambos os parceiros buscavam um comércio „administrado‟, sob o controle do Estado, que tentasse eliminar ou controlar os efeitos dos mecanismos de mercado como a competição, na expectativa de assegurar o máximo de rentabilidade para o comércio. Isso era uma realidade mesmo que o Estado em geral preferisse autorizar comerciantes particulares a desbravar novos nichos comerciais ou, se possível, assumir os riscos e absorver os custos. Desde o início (...) o comércio foi controlado pelos respectivos estados dos _______________________ 9 LOVEJOY, op. cit., pp. 76-77 10 Idem 21 países da África e da Europa, e, embora os aspectos econômicos rotineiros de oferta e demanda e a necessidade de recompensar a iniciativa privada não pudessem ser totalmente negligenciados, isso sempre foi visto como algo secundário em relação ao objetivo principal de controlar os participantes, o que significava usar o comércio como meio para aumentar 11 as receitas dos Estados. Ao longo de quatro séculos, o controle das dinâmicas do tráfico operado pelo Estado ensejou o emprego de diferentes mecanismos de regulação, tais como: taxações dos preços dos escravos e dos demais produtos que constituíam o trato transatlântico, o uso de funcionários régios ou agentes comissionados para fiscalizar o empreendimento, a concessão de licenças para navegação e/ou comercialização e, mais tarde, a criação de companhias de comércio que eram constituídas através de erário régio e capital privado. 12 Possuir direitos de comercialização em determinado entreposto, não significava obviamente, possuir exclusividade. Os conflitos entre as nações européias acirraram não apenas a corrida ao Novo Mundo, como impulsionaram as disputas pelos enclaves africanos a fim de garantir mobilidade no tráfico. Para tanto, os estados europeus procuraram estabelecer o controle através do monopólio. As reivindicações monopolistas precisavam ser aceitas pela feitoria africana e reconhecidas pelas demais nações européias. Entretanto, sabemos que a adoção de direitos de monopólio acerca de uma determinada rota não garantia, na prática, que tentativas de burlá-la não aconteceriam. Um exemplo emblemático era o corso. Por acepção, o corso denotava o ataque a navios mercantes, efetuados por embarcações armadas por particulares, com o devido “conhecimento” da nação de origem. Os corsários constituíam um empreendimento aventureiro, mas conveniente à sua pátria. A atividade corsária não compunha, desta feita, uma declaração de guerra ou desrespeito público ante o direito monopolista. Em fins do século XV, o quadro político europeu apresentava um frágil equilíbrio de forças. Os despojos da chamada “crise da cristandade” que afetara o continente cerca de cem anos antes, haviam se convertido num reorganizado mapa _______________________ 11 THORNTON, op. cit., pp. 100-101 12 CARREIRA, Antonio. “As companhias pombalinas de navegação comercial e tráfico de escravos entre a costa africana e o nordeste brasileiro”. Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Bissau. Volume XXIII, Jan-Abr/1968, n. 89-90, pp.285-315; PUNTONI, Pedro. A mísera sorte: a escravidão africana no Brasil holandês e as guerras do tráfico no Atlântico Sul, 1621-1648. São Paulo: Hucitec, 1999; DIAS, Manuel Nunes. A Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão. 1755-1778. Belém: Universidade Federal do Pará, 1970. 22 social e econômico. Segundo Le Goff, “uma crise não engendra uma depressão de toda a economia ocidental e não afeta igualmente nem todas as categorias e nem todos os indivíduos”, mas fomenta uma condição de progresso.13 Sobre as conseqüências da referida crise, o autor destaca Ela favoreceu e acentuou a evolução anterior em direção à centralização estatal. Preparou a monarquia francesa de Carlos VII e Luís XI, a realeza inglesa dos Tudor, a unificação espanhola sob os reis católicos, o advento um pouco por toda parte, mas especialmente na Itália, do “príncipe”. Suscitou novas clientelas burguesas principalmente, para produtos e para uma arte que tendem talvez para a fabricação em série (...), ao avanço das preocupações científicas, à descoberta e ao esforço para dominar a terra 14 inteira. A centralização do poder das casas reais constituía, na prática, um cenário com poucos, porém poderosos, concorrentes políticos e mercantis. Espanha, França, Inglaterra e Holanda não ignoravam a necessidade de expandir seus mercados e, ato contínuo, ampliarem seu poder de fogo e de defesa no cenário europeu. Era neste palco que Portugal procurava assegurar seu espaço quanto ao tráfico de escravos. Segundo Thornton, para legitimar sua conquista a Coroa de Portugal procurou obter o reconhecimento de outras potências européias sobre suas reivindicações de comércio na Guiné. Ela conseguiu o apoio papal e buscou ganhar a aceitação dessa soberania por parte de outros países europeus. Apesar do reconhecimento desses pleitos pelos papas, essa legitimidade não era totalmente segura ou amplamente respeitada. Desde o início das navegações portuguesas, existiram os competidores de Castela. Só em 1479, como parte do acordo geral entre Portugal e Castela, este reino aceitou com relutância a soberania de Portugal sobre as rotas marítimas ao largo das Canárias, embora os registros portugueses revelem que os navios particulares continuassem a comercializar na área e até mesmo a pagar impostos pelo dinheiro apurado em suas transações. Os castelhanos não estavam sós, pois nesse mesmo ano Eustace de La Fosse realizou uma viagem de Flandres para a Costa do Ouro, mas acabou sendo capturado pelos navios portugueses. Os projetos de viagens da Inglaterra se seguiram logo após, e no início do século XVI navios franceses cruzavam regularmente o sul do Atlântico violando 15 reivindicações portuguesas e os ditames papais. No decorrer do século XVI, foram freqüentes as tentativas lusitanas no intuito de controlar o comércio africano. Algumas ações alcançavam relativo sucesso, mas sempre temporariamente. A Coroa enfrentava obstáculos em três _______________________ 13 LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Bauru: EDUSC, 2005, p.101 14 Id. Ibid. pp. 102-103 15 THORNTON, op. cit., p. 105 23 frentes: a primeira era constituída pelas demais nações estrangeiras que, em momento algum, durante os quase 400 anos do tráfico transatlântico cogitaram abandonar aquele que era o negócio mais lucrativo de sua época; a segunda era formada pelos próprios agentes portugueses que, não raramente, negociavam carregações particulares diretamente com as autoridades africanas minando o controle estatal; e, por fim, a terceira, composta pelos soberanos e comerciantes africanos que “não estavam submetidos a Portugal e não podiam ser impedidos de negociar com estrangeiros ou com agentes e funcionários subalternos da Coroa Portuguesa”.16 Dentre os estrangeiros rivais, os mais combativos eram, sem dúvida, os holandeses. No século XVII, suas ações não mais se limitavam às reivindicações diplomáticas e mercantis, mas eram traduzidas em investidas armadas às possessões portuguesas na África, no Estado do Brasil e no Estado do Maranhão. Num contexto em que a conquista de novos territórios tornou-se vital para reiterar o poder político na Europa, legitimar e manter o controle mercantil dessas áreas passou a ser imprescindível. As disputas atravessaram o Atlântico juntamente com as promessas idílicas de aventura, riqueza, ascensão social e estabilidade. Nesse cenário estava fincado o Maranhão, tido como certeza de fortuna17. Mais tarde, como peça-chave na manutenção da soberania portuguesa na região amazônica18, e, ainda, como local de isolamento, miséria e abandono19. Para a coroa portuguesa e seus concorrentes, o Maranhão estava inserido no contexto Atlântico, mas os que aqui estavam, se sentiram à margem do trato por muito tempo; faltava-lhes o principal elemento que traduziria essa interação – o escravo africano, considerado indispensável para o fomento das atividades econômicas e conseqüente prosperidade.20 Os embates acerca da utilização da mão-de-obra escrava, do uso da terra, do pagamento de dízimos, do papel da administração real no Estado do _______________________ 16 THORNTON, op. cit., p. 111 17 CARDOZO, Alírio. “Um atalho para a fortuna. Crenças do século XVII viam o Maranhão como caminho ideal para escoar riquezas da América para a Espanha”. Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, n. 55, 2007, pp.23-26 18 CHAMBOULEYRON, Rafael. “Escravos do atlântico equatorial: tráfico negreiro para o estado do Maranhão e Pará (século XVII e início do século XVIII)”. Revista brasileira de história. São Paulo, v. 26, n. 52 (2006), pp. 79-114. 19 CHAMBOULEYRON, Rafael. “Duplicados clamores. Queixas e rebeliões na Amazônia colonial (século XVII)”. Revista Projeto História. São Paulo, n. 33 (2006), pp. 159-178 20 Idem 24 Maranhão, do isolamento geográfico, da ameaça estrangeira e da precária condição de subsistência estiveram atrelados ao cotidiano dos colonos das províncias amazônicas. Essa população local, composta principalmente por lavradores portugueses, funcionários régios e missionários, demonstrou por meio de inúmeras queixas enviadas à Coroa, que não ignorava a opulência do Estado do Brasil e que – segundo estes – ela era conseqüência direta da utilização de escravos em escala crescente. Nesse contexto, pensar o escravo apenas como força de trabalho ou um fator econômico, é negar-lhe a condição de sujeito distinto – dotado de identidade e memória. Para tanto, esse homem escravizado deve ser apreendido além de uma lógica quantitativa, pois seu desempenho no tráfico transatlântico transcendeu a função de mão-de-obra. É necessário compreendê-lo além das definições de “negro” e “escravo”. Em outras palavras, como africano e, portanto, como agente atuante na construção de um novo meio. Devemos lembrar que a escravidão não era um sistema rígido. Logo, compreender o escravo numa lógica dicotômica em relação ao seu senhor, limita a noção de um espaço social que era constituído de resistências, barganhas e conflitos. 21 _______________________ 21 REIS, João José & SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, pp. 7-11 25 3. O MARANHÃO NO ESPAÇO AMAZÔNICO (1621-1755) Colonos, religiosos e a Coroa “.... mais facilmente se vai da Índia a Portugal do que desta missão [do Maranhão] ao Brasil”. Pe. Antonio Vieira Em 1621 era muito mais fácil navegar pelo rio Amazonas e seus afluentes do que navegar pela zona costeira conhecida como “leste-oeste” que compreendia o litoral do Maranhão e Pará. As correntes e os ventos marítimos impossibilitavam, quase que totalmente, a cabotagem – e conseqüente comunicação, administração, comércio e ação militar, entre a região amazônica e o Estado do Brasil.22 Não menos perigosos eram os caminhos terrestres. Relatos de antropofagia dos índios dos sertões, as distâncias continentais e o próprio meio natural hostil constituíam grande impedimento. Somente em 1696 a “descoberta” de uma via terrestre entre o Maranhão e a Bahia seria amplamente divulgada e comemorada. 23 Ainda no ano de 1621, foi criado o Estado do Maranhão – independente do Estado do Brasil e diretamente subordinado à Coroa – que compreenderia a partir de 1626, as capitanias do Ceará, Pará e, Maranhão. Essa divisão da então América portuguesa em dois estados autônomos era vital não somente para facilitar a administração por parte de Portugal, mas também para possibilitar um controle territorial mais efetivo ante os prenúncios estrangeiros. Para Alencastro, tal resolução administrativa era conseqüência direta da dificuldade de navegação, resultante do sistema de ventos e correntes marítimas do Atlântico, pois respondia “perfeitamente ao esquadro da geografia comercial da época da navegação à vela”24. O êxito do Estado do Maranhão dependia diretamente do povoamento de seu território. Em 1622, D. Fillipe II expressava em carta dirigida ao conselheiro de _______________________ 22 ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. Séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, pp.12-29 23 “Consulta do Conselho Ultramarino ao rei sobre o caminho que se descobriu e se abriu do Maranhão para a Bahia”. Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), Maranhão, caixa 9, doc. 906 (10 de janeiro de 1696) 24 ALENCASTRO, op. cit., 20 26 Estado e fiscal da Fazenda, Luís da Silva, a necessidade de se escolher um local para o estabelecimento de uma capitania e povoação para “cabeça do Estado” 25. Quatro anos mais tarde, o rei escrevia sobre o imperativo de se criar um local para a capital da recém-criada capitania do Maranhão. 26 A presença estrangeira não era novidade na região amazônica. Os ingleses se faziam notar através do corso e da pirataria. Os franceses já haviam ocupado o Maranhão entre 1612-1615 e os holandeses já navegavam pelos rios Amazonas e Negro, segundo relatos datados de 1599. Os batavos compunham a força mais bem organizada, e, sob o comando de Hendrick Corneliszoon Loncq possuíam a maior esquadra do mundo, com sessenta e sete navios em 1629. 27 Segundo Alírio Cardozo, a década de 1630 foi marcada pelo medo. Ele salienta que relatos de invasões estrangeiras no norte do Brasil – muitas vezes duvidosos – destacavam-se no cotidiano dos primeiros portugueses da Amazônia. De fato, os holandeses só ocuparam o Maranhão em 1641, mas as notícias dando conta dos acontecimentos na Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba respectivamente, chegavam há cerca de 10 anos. Há, ainda, outro fator que deve ser elencado a fim de justificar o temor da população; ao contrário dos franceses que haviam empreendido uma ocupação acompanhados de capuchinhos, os batavos eram protestantes e possuíam judeus sob sua tutela. 28 Após a expulsão dos holandeses em 1644, as provisões do Conselho Ultramarino português passaram a enfatizar ainda mais a necessidade de se povoar peremptoriamente o Estado do Maranhão, sugerindo a D. João IV que se dessem “passagens e mantimentos a todas as pessoas que [quisessem] ir”.29 A respeito da composição da população, Barroso Jr. ressalta que, _______________________ 25 A expressão “cabeça do Estado” era usada para referir-se à capital do mesmo. “Carta régia do rei D. Filipe II para o conselheiro de Estado e vedor da Fazenda, Luís da Silva, sobre a escolha de local em que se possa estabelecer uma capitania e povoação para cabeça do Estado do Maranhão e Pará”. AHU, Maranhão, caixa 1, doc. 39 (21 de maio de 1622) 26 “Carta régia do rei D. Filipe II para o conselheiro de Estado e vedor da Fazenda, Luís da Silva, dando conta da necessidade de se criar um local para a capital da capitania do Maranhão”. AHU, Maranhão, caixa 1, doc. 100 (17 de dezembro de 1626) 27 PUNTONI, op. cit., pp. 11-31 28 CARDOZO, Alírio. Notícias do norte: primeiros relatos da presença holandesa na Amazônia brasileira (século XVII), Nuevo Mundo Mundos Nuevos, 2008, URL http://nuevomundo.revues.org/index43703.html, p.2 29 “Consulta do Conselho Ultramarino para o rei D. João IV, sobre sua majestade mandar que se dê passagens e mantimentos a todas as pessoas que quiserem ir para o Maranhão”. AHU, Maranhão, caixa 2, doc. 155 (29 de julho de 1644) 27 Poucas eram as pessoas a imigrar para o Maranhão até o princípio dos setecentos: quarenta casais em 1621, alguns em 1625, 1670, 1680; tanto o foi que o rei de Portugal incitou a migração de inúmeras famílias do Arquipélago de Açores para o Maranhão por volta de 1720. E até esta data, para Berredo, cronista, governador e capitão-general do Maranhão, o número girava em torno de mil habitantes, enquanto para autores mais contemporâneos, como Viveiros, o número não ultrapassaria 1400 30 moradores na capitania. Além de novos colonos, era preciso prestar socorro aos que já habitavam o Maranhão. Esse “socorro” compreendia praticamente tudo. Como não havia uma produção organizada ou proximidade com alguma localidade produtora, quaisquer provimentos precisavam ser importados de Lisboa ou do Porto: gêneros alimentícios, boticas, vestuário, armas, mobília, ferramentas, objetos de toalete, cortes de tecidos, pedras, papel, utensílios caseiros etc. 31 A necessidade de bens de consumo mais imediatos, a escassez de escravos e o estado de miséria da capitania eram freqüentemente apresentados nos inúmeros requerimentos, consultas e cartas dirigidas à Corte. A ausência de réplica às solicitações também gerava reclamações, como na epístola redigida em 1663 pelos oficiais da Câmara de São Luís ao rei D. Afonso VI por “não terem respostas às suas cartas e pela miséria em que [haviam ficado] depois da morte de muitos índios e escravos [naquele] mizerável Estado (...) com sua Real clemencia”.32 O descontentamento dos colonos – portugueses e seus descendentes – possuía raízes mais densas. Ao tratar das revoltas de 1661 e 1684 que aconteceram nas cidades de Belém e São Luís, Chambouleyron identificou elementos comuns “quanto aos grupos que delas participaram, quanto às razões invocadas por seus participantes para justificar a revolta e quanto à forma que tomou o próprio ato de rebelião”. 33 _______________________ 30 BARROSO JR, Reinaldo dos Santos. Nas rotas do atlântico equatorial: tráfico de escravos rizicultores da Alta-Guiné para o Maranhão (1770-1800). Dissertação de Mestrado. UFBA. 2009. p.33 31 “Consulta do Conselho Ultramarino ao rei D. João IV, sobre o envio de socorro para o Maranhão e Cachéu”. AHU, Maranhão, caixa 2, doc. 159 (29 de julho de 1644); “Consulta do Conselho Ultramarino para o rei D. João IV, sobre o envio de socorro para a capitania do Maranhão”, caixa 2, doc. 195 (30 de abril de 1646); “Consulta do Conselho Ultramarino para o rei D. João IV, sobre o envio de socorro para o Estado do Maranhão, nomeadamente de vestuário”, caixa 3, doc. 263 (22 de agosto de 1648); “Carta dos oficiais da Câmara de São Luís do Maranhão para o Conselho Ultramarino, sobre a escassez de escravos naquele Estado”, caixa 4, doc. 499 (22 de agosto de 1665) 32 “Carta dos oficiais da Câmara de São Luís do Maranhão para o rei D. Afonso VI”, caixa 4, doc. 469 (24 de junho de 1663) 33 CHAMBOULEYRON. “Duplicados clamores...”, op. cit., p. 160 28 A revolta de 1661 começou em São Luís e se espalhou pela capitania do Pará em cerca de dois meses. Nestas cidades grupos de moradores, apoiados pelas respectivas Câmaras, se voltaram contra a jurisdição temporal dos jesuítas sobre os índios. Aos jesuítas cabia o controle efetivo dos trabalhadores autóctones livres, bem como a fiscalização e autorização dos cativeiros indígenas feitos pelos portugueses. A divulgação do conteúdo de cartas que Vieira havia escrito ao bispo do Japão, criticando severamente os colonos instigou ainda mais o já exaltado ânimo da população. Tavares destaca que, As cartas teriam sido interceptadas por espanhóis e caído nas mãos de um membro da ordem do Carmo que tomou a liberdade de torná-las públicas e as expediu para São Luís, gerando grande confusão na cidade. Os colonos, apoiados por clérigos de outras ordens religiosas e por seculares, invadiram o colégio dos jesuítas e os prenderam. Vieira, que voltava de missão na serra de Ibiapaba, foi informado do motim e resolveu dirigir-se a Belém. No entanto, o clima naquela cidade também se encontrava tenso. Mesmo assim, Vieira se opôs à Câmara do Pará, afirmando que os problemas econômicos do Estado não provinham da falta de escravos. Diante disso, os 34 colonos prenderam Vieira e o enviaram para São Luís. Em 1663, D. Afonso VI divulgava uma provisão confirmando a permanência dos missionários da Companhia de Jesus no Maranhão e comunicando que a mesma não se aplicava a Vieira “por não convir ao meu serviço, que torne àquele Estado”. 35 A Revolta de Beckman, iniciada em 1684, tinha como alvo, além dos jesuítas, a ausência do governador Sá e Meneses, que morava em Belém, apesar da capital ser São Luís e o estanco. A Companhia de Estanco do Maranhão e Pará havia sido criada em 1682, estabelecida através de contrato entre a Coroa e comerciantes que participavam como acionistas. A empresa deveria transportar 500 escravos africanos/ano e produtos do reino para o Estado do Maranhão em regime monopolista durante duas décadas. No entanto, o número insuficiente de navios, o crescente endividamento de muitos lavradores ante os altos preços praticados pelos comerciantes contratistas e a própria incapacidade de cumprir as metas acordadas no assento (contrato tributável) contribuíram para a insatisfação geral dos colonos. 36 _______________________ 34 TAVARES, Célia Cristina. A escrita jesuítica da história das missões no Estado do Maranhão e Grão-Pará (séc. XVII). Atas do Congresso Internacional Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades. p. 7 35 CHAMBOULEYRON. “Duplicados clamores...”, op. cit., p. 162 36 CARREIRA, op. cit., p.18 29 Contudo, vale salientar que, tanto os revoltosos de 1661 quantos os de 1684, queixavam-se do poder dos jesuítas no controle da mão-de-obra indígena. 3.1 A questão dos jesuítas O domínio português da região norte do Brasil fora efetivado ao longo do século XVII por meio da ocupação militar, religiosa e econômica. Esta última, tendo sido apresentada na historiografia como um dos esforços dos portugueses na busca pelas drogas do sertão e pelos escravos indígenas, e com a atividade das ordens missionárias. 37 A captura de índios, chamados de “escravos da terra”, podia ocorrer de três diferentes formas. A primeira era o resgate, uma espécie de negociação realizada com grupos nativos aliados aos colonizadores em que prisioneiros eram trocados por mercadorias. A segunda era conhecida como cativeiro, apresamento de indígenas capturados nas chamadas “guerras justas” – ofensivas autorizadas pela Coroa contra determinadas etnias. Por fim, havia os descimentos, deslocamentos forçados de aldeias inteiras para áreas próximas das povoações. 38 A presença de missionários – sobretudo jesuítas – junto aos colonizadores é mencionada desde o início do povoamento. Embora estes últimos fossem mais numerosos, mercedários, franciscanos e carmelitas também se faziam notar. Não obstante o primeiro relato da presença da Companhia de Jesus no subseqüente Estado do Maranhão seja de 1607 39 – quando os padres Francisco Pinto e Luís Figueira partiram da capitania de Pernambuco para a serra de Ibiapaba (Ceará) com o propósito de catequizar índios tapuias – sua invasão sistemática só se deu a partir de 1622, com a chegada do mesmo Luís Figueira à cidade de São Luís, com o apoio do então capitão-mor Antonio Moniz Barreiros. 40 O principal expoente da Companhia de Jesus, Padre Antônio Vieira, só chegaria ao Maranhão em 1653, incumbido de efetivar o projeto das missões. Sua _______________________ 37 CHAMBOULEYRON, Rafael. Plantações, sesmarias e vilas. Uma reflexão sobre a ocupação da Amazônia seiscentista, Nuevo Mundo, Mundos Nuevos Debates, 2006, pp.1-8 38 ALENCASTRO, op. cit. 19 39 MORAIS, Pe. José de. História da Companhia de Jesus na extinta província do Maranhão e Pará, pelo Pe. José de Morais da mesma Companhia. Rio de Janeiro. Alhambra. 1987. 40 TAVARES, op. cit., p.5 30 presença contribuiu para acirrar os já exaltados ânimos da população local acerca do controle exercido pelos religiosos sobre a mão-de-obra indígena. As queixas a respeito da escassez de braços para as lavouras pioraram ainda mais com a publicação naquele ano, da ordem régia conhecida como Lei das Liberdades, que determinava que todos os índios, até então cativos, eram livres. Diante do problema, “Vieira negociou, obtendo o acordo de não intervir no caso de indígenas que já estivessem com os colonos, contanto que estes lhes pagassem salários”41. O desagrado não atingiu somente os moradores, mas também o prestigiado mestre-de-campo André Vidal de Negreiros que teria escrito uma petição42 ao Conselho Ultramarino pedindo que se declarasse que os governadores, capitães-mores e moradores do Estado do Maranhão pudessem usar do serviço e ministério de seus escravos. O Conselho remeteu parecer ao rei D. João IV para que concedesse ao mesmo, autorização para “faser e lavrar tabaco e os mais fruitos da terra, por seus Escravos, sendo elles das conquistas de África e não Índios, dispensando para isso no que dis e declara a Ley, cuja cópia se envia com esta Consulta...”43. Em 1656, agora nomeado governador, Vidal de Negreiros remeteria outra carta ao rei, relatando os prejuízos resultantes às capitanias do Pará e Maranhão provenientes das sentenças referentes ao cativeiro dos índios. 44 A carta de Vidal de Negreiros fora enviada meses depois da publicação do decreto real que garantia a liberdade ao indígena, ressaltando, no entanto, que a captura poderia ser feita caso ocorresse em função de “guerra justa”. Na prática, qualquer hostilidade ou ataque ofensivo por parte de colonos estava proibido. Segundo Célia Tavares a maior vitória coube aos jesuítas, uma vez que as aldeias e indígenas ficaram sob exclusiva jurisdição dos missionários da Companhia, além de obterem plena liberdade de erguer missões no sertão com total 45 independência. _______________________ 41 TAVARES, op. cit., p.6 42 A petição não aparece nos documentos que compõem o Projeto Resgate, a referência à mesma consta da resposta remetida pelo Conselho (doc. 348, caixa 3) 43 “Consulta do Conselho Ultramarino ao rei D. João IV, sobre o pedido do mestre-de-campo André Vidal de Negreiros, para que se declare que os governadores, capitães-mores e moradores do Estado do Maranhão podem usar do serviço e ministério de seus escravos”. AHU, Maranhão, caixa 3, doc. 348 (16 de setembro de 1654) 44 “Carta do governador e capitão-general do Estado do Maranhão, André Vidal de Negreiros, para o rei D. João IV, sobre as diferentes sentenças que se deram em matéria de cativeiro de índios no Pará e Maranhão”. AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 4, doc. 372 (12 de fevereiro de 1656) 45 TAVARES, op. cit., p. 7 31 O decreto era fruto direto da ação de Antonio Vieira que havia retornado a Lisboa em 1654 a fim de relatar pessoalmente ao rei a situação dos gentios do Maranhão, narrando a violência cometida pelos colonos nos apresamentos. Após o retorno de Vieira ao Maranhão, este passou a redigir o regulamento das aldeias indígenas, concluído por volta de 1660. O regulamento versava sobre os preceitos a serem observados quando da administração de aldeias: observância religiosa dos padres, cura espiritual das almas, e administração temporal dos índios. 46 3.2 Outros embaraços Além da instabilidade provocada pelo descontentamento dos colonos, outro problema contribuiu para agravar a já delicada situação: os surtos de varíola, as chamadas “bexigas”. 47 Nos anos que se seguiram à crise de 1661, parte significativa do gentio seria dizimada; dos dezoito aldeamentos indígenas da ilha de São Luís, só teriam restado três.48 Numa carta dirigida ao rei D. Afonso VI, os oficiais daquela Câmara queixavam-se da ausência de resposta às suas cartas e pediam clemência real pelo estado de miséria em que encontravam depois da epidemia.49 O Maranhão também era assolado pelos ataques dos chamados “índios do corso”.50 Matando moradores, escravos, roubando plantações, gado e drogas, e incendiando casas e fazendas, esses índios espalhavam o pânico entre as povoações que se encontravam próximas aos rios Munim, Itapecuru e Mearim, situação que levou a um contra-ataque por parte do governo da capitania. Sobre esta ofensiva, Chambouleyron destaca que fora precedida de uma devassa do ouvidor-geral e de uma votação do povo e nobreza de São Luís, que aprovou o início da guerra. A devassa levada a cabo pelo ouvidor Manuel Nunes Colares, que contou com a inquirição de várias testemunhas, enumerou os diversos estragos que haviam causado _______________________ 46 TAVARES, op. cit., p. 7 47 CHAMBOULEYRON, Rafael. Fugas, “corso” e bexigas. Escassez de mão-de-obra indígena na Amazônia seiscentista. Disponível em http://web.letras.up.pt/aphes29/data/RafaelChambouleyron. Acesso em 10/05/2010, p. 6 48 Idem 49 “Carta dos oficiais da câmara da cidade de São Luís do Maranhão para o rei D. Afonso VI, sobre não terem respostas às suas cartas e pelo estado de miséria em que ficaram depois da morte de muitos índios e escravos”. AHU, Maranhão, caixa 4, doc. 469 (24 de junho de 1663) 50 CHAMBOULEYRON. “Fugas, „corso‟ ...”, pp. 4-5 32 os índios do corso aos moradores da região. Aos jesuítas, por exemplo, mataram dois escravos e aos carmelitas um cativo. Manuel e João Dornelas tiveram quatro escravos mortos pelos índios. Assaltando uma ermida que pertencia a João Rodrigues de Oliveira, destruíram uma “imagem de Nossa Senhora e um crucifixo, quebrando tudo o mais que na ermida acharam”. Mataram igualmente a Antônio Correia “em seu curral”, levando-lhe uma espingarda, ferramentas “e mais coisas de sua fazenda”. Guerras contra os “tapuias do corso” da região oriental da capitania do Maranhão se mantiveram ao longo de todo o período colonial. No início do século XIX, ainda havia queixas sobre a ação desses índios, a ponto de Raimundo Gaioso escrever sobre os terrenos “infestados de gentio bravo” do 51 Maranhão. Afora a contenda envolvendo os jesuítas e os colonos, havia a questão do arremate de dízimos. E esta, incomodava diretamente a Coroa. O dízimo constituía uma espécie de imposto – a décima parte – sobre todos os produtos cultivados e extraídos do sertão, sendo obrigatório a todos os colonos. O recolhimento era feito através de arrematação, em contratos que duravam três anos. Aos arrematadores cabia a recolha e o repasse à Fazenda Real. Num estado com grandes distâncias a serem cobertas, a cobrança e o recolhimento dos dízimos eram irregulares, o que afetava diretamente Lisboa no tocante à construção de fortalezas, manutenção de tropas e conseqüente ampliação do esforço militar de defesa. Essa questão enfrentava ainda outro obstáculo: as ordens religiosas presentes no Maranhão multiplicavam seu patrimônio, mas não pagavam dízimos. Em 1701 ... o rei advertia novamente que os religiosos deveriam pagar dízimos de suas fazendas, à exceção daquelas com as quais haviam principiado as suas missões. Em relação aos dízimos da terra, que haviam sido arrendados por Bartolomeu Pereira do Quintal, o rei ordenava que se procedesse “executivamente”, exceto nos frutos das terras que lhes haviam 52 sido dadas para sua “fundação”, pois dessas “nunca pagarão dízimos. Conforme assinala Chambouleyron, a contenda se arrastou nos tribunais de Lisboa por décadas a fio, entre apelações e recursos de ambas as partes. Em 1711 O procurador da Fazenda real da capitania do Pará ofereceu perante o provedor da Fazenda um libelo contra a Companhia de Jesus a fim de que _______________________ 51 CHAMBOULEYRON. “Fugas, „corso‟ ...”, p. 5 52 CHAMBOULEYRON, Rafael. “Isenção odiosa”. Os jesuítas, a Coroa, os dízimos e seus arrematadores na Amazônia colonial (séculos XVII e XVIII). Revista de Histórica do Arquivo do Estado. São Paulo, n. 37, agosto de 2007, p.4 33 ela pagasse os dízimos das terras que possuía por compras, heranças e outros títulos. A Companhia de Jesus logo se defendeu, obtendo sentença que deixava claro que os religiosos pagariam dízimos somente das terras que possuíam fora daquelas que bastassem para a côngrua e sua sustentação. Assim, o ouvidor-geral e o provedor da Fazenda reconheciam que por decretos reais a Companhia não deveria pagar dízimos daquelas 53 terras em particular. Porém, cerca de trinta anos depois a disputa ainda não havia sido resolvida. Em 1740, o procurador da Companhia no reino – padre Bento da Fonseca – apresentou outra defesa alegando que não poderia cumprir o pagamento do contrato devido ao fato (...) de terem alcançado do senhor rei Dom Sebastião graça para não pagarem direitos, sendo que quando assim fosse, nunca era aplicável ao caso presente por 54 ser de dízimos eclesiásticos e não direitos reais. Em seu artigo, Chambouleyron argumenta que a recusa por parte dos jesuítas no tocante ao repasse de dízimos não foi exclusiva desta Ordem, tampouco eram eles os únicos a deterem privilégios e isenções. 55 3.3 Os primeiros registros de entrada de escravos africanos (1671) Para os colonos do Maranhão, as lavouras não se podiam cultivar sem escravos. Com o advento da Lei das Liberdades de 1653, o controle exercido pelos missionários sobre o gentio ganhara ainda mais abrangência. Os colonos que já possuíam escravos indígenas viram-se obrigados a reconhecer-lhes a liberdade e ao pagamento de salários mediante a utilização de sua mão-de-obra. A alta mortalidade entre o gentio devido aos surtos de varíola registrados entre as décadas de 1660 e 1690 agravaram ainda mais a situação econômica da capitania e levaram à conseqüente diminuição da arrematação de dízimos para a Fazenda Real. Neste cenário, a lógica de substituição da mão-de-obra indígena pela africana se fazia urgente em virtude das circunstâncias. 56 No período que compreende o fim do século XVII e as primeiras décadas do XVIII há poucos registros referentes à entrada de escravos africanos no _______________________ 53 CHAMBOULEYRON. “Isenção odiosa...”, p. 5 54 Id. Ibid., p.7 55 Idem 56 CHAMBOULEYRON. “Escravos do atlântico equatorial...” pp. 79-114 34 Maranhão e, dentre as que efetivamente ocorreram, não se pode dizer que tenham contentado os colonos. Prova disso, são os inúmeros requerimentos57 provenientes das Câmaras de São Luís e Belém. Essas petições eram remetidas ao Conselho Ultramarino que, após parecer favorável ou contrário, repassavam-nas ao rei, para apreciação e aval. É o caso dessa consulta de 1673 Snor. Os moradores e officiaes da Camara do Maranhão, fizerão petição neste Conçelho, porseu procurador, em que disem, que para aconservação, e augmento daquelle Estado, convem muyto se metta nelle Escravos de Angolla, Guiné, e Cacheu, porque observandose o que a V. A. se requere, deque senão use de resgates de Escravos do Gentio natural forsosamente se hão de levar dos outros, por senão poder viver sem elles, como se usa no Brazil; e para este effeito deve V. A. ser servido mandar por edital, que toda apessoa, que no Estado do Maranhão quizer meter Escravos de Angolla, Guiné e Cachéu, os liberta V. A. dos direitos e do tempo que for servido: e por esta mercê, os ditos officiaes da Camara, em nome de todo o Povo, dizistem da mercê que V. A. lhes fes de lhe libertar os dízimos reais por cinco annos, daqual se não usou até opresente, por não haver outros effeitos da fazenda real, para pagamento do Eclesiastico, Governador, Infanteria, e mais Ministros: e dos navios que levare Escravos ao Maranhão prefirão na Carga para fazerem sua viagem [ilegível] naquelle Estado, como em Angolla, Guiné, e Cacheu, e nas maes partes donde levare os Escravos e os Governadores lhes não empidão suas viagens, com oque se animarão os Vassallos de V. A. a arriscarem sua fazendas para aquelle Estado, e elle irá em augmentos, e crescerão as fazendas deque hão depagar muytos direitos nas Alfandegas. Pedem a V. A. que em consideração do referido, e ser tanto em utilidade daquelle Estado, seja servido coçederlhes oque requerem. Dapetição referida, treslado do Alvara da liberdade dos dízimos por çinco annos, e Certidão de como os moradores do Maranhão não usarão delle, e consulta sobre os Escravos, que hão de ir àquelle Estado, se deu vista ao Procurador da fazenda, e respondeo que se devia açeitar adesistençia que os supplicantes offereçião, e q V. A. devia ser servido faserlhes mercê de mandar, que por tempo de çinco annos os Escravos que entrarem em São Luís do Maranhão paguem só meyos direitos porque assy sepoderia introduzir o Comerçio e continuarse naquellas partes como era necessário a 58 bem do Reyno. _______________________ 57 “Consulta do Conselho Ultramarino ao príncipe regente D. Pedro, acerca da necessidade de material bélico, habitantes e escravos” AHU, Maranhão, caixa 5, doc. 547 (30 de maio de 1670); “Carta régia para o governador do Maranhão, Antonio de Albuquerque Coelho de Carvalho, relativa à compra de escravos, à Companhia de Cachéu, para provimento da capitania do Maranhão”, caixa 5, doc. 565 (1671) 58 “Consulta do Conselho Ultramarino ao príncipe regente D. Pedro, sobre a petição dos moradores e oficiais da Câmara de São Luís do Maranhão no sentido de introduzir escravos de Angola, Guiné e Cachéu no Estado do Maranhão”, AHU, Maranhão, caixa 5, doc. 576 (17 de julho de 1673) 35 A organização do tráfico de escravos para o Maranhão a partir das últimas décadas do século XVII foi feita por iniciativa da Coroa, fato expresso através dos contratos e assentos celebrados entre particulares e a administração régia. Outro fator interessante é que, ao contrário do que ocorria nas capitanias do Estado do Brasil, onde os braços africanos eram escravizados numa cultura açucareira para exportação, no Maranhão sua necessidade ainda era pensada para suprir o consumo interno, exportando-se uma pequena parte. Conforme se pode observar na tabela 2, num período de 25 anos (16801705), apenas 11 contratos foram estabelecidos entre a Coroa e particulares, sendo que quatro deles não chegaram a sair do papel. Já o contrato de 1682, proveniente da criação da Companhia de Estanco de Maranhão, que previa a entrada de 10 mil escravos em 20 anos, provavelmente não introduziu mais que 600 deles num período de três anos, quando foi extinto. Tabela 2 Contratos e assentos celebrados pela Coroa (1680-1705) Ano Contratistas Nº de escravos Procedência Observações 1 1680 Pedralves Caldas - [Guiné] Não implementado. 2 1680 Manuel Preto Valdez 500 a 600 Guiné Não implementado. 3 1680 José Ardevicus 600 (em 20 meses) Angola Não implementado. 4 1682 Companhia de Estanco do Maranhão 10 mil (em 20 anos) Guiné [e Angola] - 5 1692 Companhia de Cabo Verde e Cachéu 145 (em 1693) Mina e Guiné - 6 1693 Companhia de Cabo Verde e Cachéu 145 (em 1694) [Guiné] Não implementado. 7 1695 Companhia de Cabo Verde e Cachéu 145 (em 1695-) [Guiné] - 8 1696 Antonio de Ocanha e Manuel Vilar - [Mina e Guiné] - 9 1698 Antonio de Ocanha e Manuel Vilar - - Referência ao envio de escravos em razão das bexigas; contrato com Ocanha e Vilar 10 1702 Antonio de Ocanha e Manuel Vilar 218 (até 1699) [Mina] - 11 1705 Antonio de Ocanha e Manuel Vilar - Mina - Fonte: CHAMBOULEYRON, Rafael. “Escravos do atlântico equatorial: tráfico negreiro para o estado do Maranhão e Pará (século XVII e início do século XVIII)”. Revista brasileira de história. São Paulo, v. 26, n. 52 (2006), pp. 79-114. 36 A navegação do Estado do Brasil para o Maranhão era irregular, e muito, muito perigosa. A comunicação precária com o resto da colônia isolou a região por muito tempo, visto que esta dependia, quase que exclusivamente, das notícias provenientes da Corte. As viagens para o reino demoravam cerca de três meses, quando imprevistos – como corso, pirataria, naufrágios, doenças, motins, tempestades, avarias técnicas nas embarcações, perda do estoque de mantimentos, água potável insuficiente e deserções por parte da “equipagem” (tripulação) – não aconteciam. A parca entrada de navios trazendo escravos não significa que o movimento de embarcações com outras finalidades não acontecesse nos portos de São Luís e de Belém. Havia uma rota bilateral entre o Estado do Maranhão – de onde eram exportados gêneros como arroz, algodão, tabaco, drogas tintoriais, madeira e couros, e Portugal – de onde eram enviados gêneros de primeira necessidade, tais como gêneros alimentícios, boticas, vestuário, armas, mobília, ferramentas, objetos de toalete, cortes de tecidos, pedras, papel, utensílios caseiros etc. Também essa modalidade gerava queixas por parte dos colonos do Maranhão, pois tanto a vinda quanto à saída daquele Estado, deviam ser feitas quando da “monção das frotas”, ou seja, através dos comboios organizados nos meses de agosto, novembro e dezembro, por razões de navegação e segurança. Essa espera gerava inconvenientes financeiros, merecendo, inclusive, uma representação do então governador, Gomes Freire de Andrade, ao Conselho Ultramarino. 59 O parecer do Conselho ao rei não se mostrou favorável justificando “ser menos conciderável o risco aq se expoem os ditos navios servido sem comboi que a perda delles e do Comercio se forem obrigados a partir no campo que nos era ordenado...”60 Orientação semelhante também era dada às embarcações que fariam a viagem no sentido contrário: a saída de Lisboa deveria ser feita nos meses de março e abril. 61 _______________________ 59 “Carta do governador do Maranhão, Gomes Freire de Andrade, para o Conselho Ultramarino, sobre os inconvenientes de os navios partirem do Maranhão e aguardarem a monção das frotas nas ilhas atlânticas”, AHU, Maranhão, caixa 6, doc. 725 (15 de outubro de 1685) 60 “Consulta do Conselho Ultramarino ao rei D. Pedro II, sobre os inconvenientes de os navios que parte com destino ao Maranhão fazerem escala nas ilhas devendo, por isso, esperar a monção das frotas”, AHU, Maranhão, caixa 7, doc. 750 (13 de outubro de 1686) 61 “Carta da Mesa do Espírito Santo dos Homens de Negócios ao rei D. João V, sobre os meses (Março e Abril) mais indicados para os navios saírem de Portugal para o Brasil, AHU, Maranhão, caixa 24, doc. 2443 (23 de janeiro de 1736) 37 A burocracia real em torno das viagens Maranhão-Lisboa-Maranhão era feita através dos passaportes e licenças concedidas para navegação. Os passaportes eram emitidos para o capitão do navio, estando ele responsável por toda a equipagem; já a licença era concedida para a embarcação em si. Na prática, significava que o referido navio só poderia partir e ancorar nos locais para onde dispusesse de autorização, não devendo atracar em outro porto – ainda que português – sob pena de multa e/ou prisão. Foi o que se passou com o capitão e mestre da balandra Santa Ana e Almas, Antonio da Costa que, em 1738, munido de passaporte para o porto de São Luís, atracou no Ceará. 62 Pelo ato criminoso, o capitão foi condenado a pagar “Alvará defiança por tempo de hum anno da quantia de Cem mil [ilegível]...”63 Como em qualquer negócio, o sucesso do Estado do Maranhão dependia da sua capacidade de gerar renda e de se auto-sustentar. No entanto, de tudo que era recolhido através dos dízimos pela Fazenda Real e empregado nas despesas, o déficit era constante. Como exemplo, podemos tomar a relação de rendimentos e despesas emitida pelo provedor-mor da Fazenda Real do Maranhão em julho de 1736. Apesar de seu envio ter sido feito no início do segundo semestre, é provável que se tratasse de uma previsão para o ano todo, uma vez que o cabeçalho do dito documento traz o título “Rendas q tem a Fazenda Real na Capitania do Maranho. em cada hum anno”.64 Nele, é possível verificar que a capitania do Maranhão apresentava lucro ínfimo, e que a do Pará significava prejuízo. (Ilustração 1) _______________________ 62 “Carta do governador e capitão-general do Maranhão e Pará, João de Abreu de Castelo Branco para rei D. João V, sobre a arribada feita pela balandra Santa Ana e Almas, de que era capitão e mestre Antonio da Costa, no litoral do Ceará, contra a vontade régia, tendo em conta que a licença concedida tinha como destino o porto de São Luís do Maranhão”, AHU, Maranhão, caixa 24, doc. 2506 (18 de setembro de 1738) 63 “Carta de Gonçalo José da Silveira Pinto para o rei D. João V, sobre a ida do mestre Antonio da Costa ao porto do Ceará, quando apenas tinha passaporte para se deslocar até o Maranhão, AHU, Maranhão, caixa 24, doc. 2514 (19 de dezembro de 1738) 64 “Carta do provedor-mor da Fazenda Real do Maranhão, João Ferreira Dinis de Vasconcelos ao rei D. João V, sobre a elaboração de duas relações referentes aos rendimentos e às despesas que a Fazenda Real tem na capitania do Maranhão”, AHU, Maranhão, caixa 22, doc. 2296 (12 de julho de 1736) 38 Ilustração 1 – Relação de rendimentos e despesas (1736) Fonte: AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 22, doc. 2296 (12 de julho de 1736) As taxas alfandegárias pagas pelas embarcações que atracavam no porto de São Luís – e também no de Belém – eram fundamentais para o equilíbrio da equação orçamentária e, talvez por isso, desviar uma delas para outro porto, como fez Antonio da Costa, constituísse crime tão grave. Até o início das atividades da Companhia Geral de Comércio do GrãoPará e Maranhão (CGCGPM), os vestígios documentais são escassos no tocante aos registros de entradas de escravos. Nem sempre é possível precisar o porto de origem ou então a quantidade de escravos que efetivamente desembarcou nos portos do Maranhão; tampouco o destino final – São Luís ou Belém – é indicado em todos os apontamentos. (Tabela 3) 39 Tabela 3 Referências a navios que chegaram ao Estado do Maranhão até a criação da CGCGPM em 1755 Ano Escravos Embarque Referências 1671 50 Angola O governador Pedro César de Meneses levou 50 escravos de Angola para construir o engenho de anil 1671 [400] Angola Duas naus holandesas chegam a São Luís, mas são impedidas de comerciar com a população pelo governador 1673 - Guiné Capitão Domingos Lourenço, nau Nossa Senhora do Rosário e Almas 1682 - [Guiné] Chegada de Pascual Pereira Jansen (estanco) ao Maranhão – contrato 4 1684 200 Guiné Chegada de navio do estanco a São Luís durante a revolta – contrato 4 1684-85 “poucos escravos” [Guiné] Chegada de navio do estanco a São Luís – contrato 4 1685 - [Guiné] Capitão Silvestre da Silva chega ao Estado, pago pelo estanco, que já havia sido abolido – contrato de assento nº 4 1690 - Angola O governador Antonio de Albuquerque Coelho de Carvalho refere-se a um navio vindo de Angola que teria naufragado na costa do Pará 1693 139 Mina e Guiné Assento com a Companhia de Cabo Verde e Cachéu; capitão Manuel Luís – contrato de assento nº 5 1695 [103] [Guiné] Assento com a Cia de Cabo Verde e Cachéu; vendidos aos senhores, lavradores e distribuídos “por particulares” – contrato de assento nº 7 1696 18 - Provavel assento; escravos vendidos aos senhores de engenho e lavradores – provavelmente contrato de assento nº 8 1698 108 Mina Assento com Antonio Freire de Ocanha e Manuel Francisco Vilar; o capitão Diogo da Costa deveria entregar 218 escravos; uma das naus queimou na costa da Mina – contrato de assento nº 9 1702 110 [Mina] Assento com Antonio Freire de Ocanha e Manuel Francisco Vilar; capitão Diogo da Costa – contrato de assento nº 10 1705 153 Mina Assento com Antonio Freire de Ocanha e Manuel Francisco Vilar; capitão Diogo da Costa – contrato de assento nº 12 1715 - Guiné O provedor-mor da Fazenda Real do Maranhão refere-se à entrada de escravos da Guiné65 1740 69 Cacheu 1743 92 Cacheu Chegada do iate São Francisco Xavier e Santa Ana, do capitão e mestre Manuel [ilegível] da Luz em 02 de setembro; escravos vendidos a vários comerciantes66 Chegada do Bergantim Nossa Senhora Madre de Deus e Santo Antonio, do capitão José Paulo; escravos trazidos para os senhorios da fábrica de madeiras67 Fonte: Dados 1671-1705 em CHAMBOULEYRON, Rafael. “Escravos do atlântico equatorial: tráfico negreiro para o estado do Maranhão e Pará (XVII – XVIII)”. Revista brasileira de história. São Paulo, v. 26, n. 52 (2006), pp. 79-114. Ainda que nem todos os registros contenham dados completos, é pouco provável que a entrada de escravos africanos no Maranhão tenha superado a cifra de 1.500 indivíduos nesse período. _______________________ 65 “Carta do provedor-mor da Fazenda Real no Maranhão, Inácio Gabriel Lopes Furtado, para o rei D. João V, sobre os direitos que devem pagar os escravos que entram na capitania do Maranhão”, AHU, Maranhão, caixa 27, doc. 2761 (08 de janeiro de 1743) 66 “Carta do governador e capitão-general do Estado do Maranhão, João de Abreu de Castelo Branco, para o rei D. João V, em resposta à provisão sobre o privilégio concedido aos navios que de Angola, levando escravos, naveguem em direção ao Maranhão”, AHU, Maranhão, caixa 26, doc. 2700 (16 de setembro de 1741) 67 “Requerimento do capitão do bergantim Nossa Senhora Madre de Deus e Santo Antonio, José Paulo, ao rei D. João V, pedindo que o desobrigue de carta de fiança feita no Maranhão, devido aos direitos de entrada de escravos naquela capitania”, AHU, Maranhão, caixa 27, doc. 2774 (anterior a 08 de maio de 1743) 40 4. O MARANHÃO NAS GARRAS MONOPOLISTAS (1756-1777) A Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão “(...) um comercio que neste tempo já todas as nações conhecião como ruinozo.” José Vasques da Cunha, morador do Pará, 1777 O Maranhão até então, era palco de disputa pelo controle da mão-de-obra indígena. De um lado, os missionários – mercedários, carmelitas, franciscanos e, principalmente, jesuítas –, do outro, os colonos. Como já visto, o descontentamento para com os jesuítas e demais ordens, era lugar-comum nas queixas e petições provenientes daquele Estado. As acusações giravam em torno do enriquecimento dos religiosos ante a “pobreza e miséria” da população. Como assinalou Mauro Cézar Coelho, os catequizadores detinham privilégios importantes, tais como ter sob sua responsabilidade um conjunto portentoso de indivíduos, distribuídos em quase setenta aldeias missionárias; nelas, produziam um sem número de gêneros, escoados pelo porto de Belém, sem qualquer adição tarifária; possuíam várias fazendas de gado, nas quais reuniam mais de cem mil reses; e por fim, controlavam a distribuição daqueles indivíduos, reunidos em suas aldeias, pelas demandas 68 interpostas pelos colonos. As contendas envolvendo os jesuítas se apresentaram em tribunais de Lisboa e na vida burocrática69 do Estado, mas em 1759, uma ordem régia promulgada em 3 de setembro, definiu a situação mandando “exterminar, proscrever e mandar expulsar dos seus Reinos e Dominios os religiosos da Companhia denominada de Jesus”.70 _______________________ 68 COELHO, Mauro Cézar. “O imenso Portugal: vilas e lugares no vale amazônico”. Revista Territórios e Fronteiras. Cuiabá, v.1, n.1 (2008), pp. 263-283 69 “Ofício do bispo do Maranhão, D. fr. Antonio de São José, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Tomé Joaquim da Costa Corte Real, acusando a recepção de vários documentos relativos aos abusos dos padres jesuítas e à sua oposição à execução do tratado dos limites”, AHU, Maranhão, caixa 39, doc. 3808 e “Carta do bispo do Maranhão, D. fr. Antonio de São José, ao rei D. José I, sobre as providências régias quanto ao cativeiro dos índios e à sobreposição das jurisdições espiritual e temporal, e outras considerações acerca da decadência daquele Estado”, doc. 3809 (ambos de 27 de fevereiro de 1759) 70 AZEVEDO E SILVA, op. cit., p.13 41 A escravidão indígena era tida pelos moradores como direito natural, uma vez que seus “antepassados se [haviam lançado] à conquista do espaço amazônico, ampliando os domínios portugueses e defendendo-os das investidas de nações rivais, como na invasão holandesa a São Luís, entre 1641 e 1643.”71 O descontentamento frente à proibição do uso do indígena e a pouca receptividade à implantação de uma nova companhia monopolista de comércio, teriam sido os principais vetores – conforme Fabiano Vilaça do Santos – da ainda pouco estudada, sedição de 1755 ocorrida em Belém. A respeito dos acontecimentos da referida insurreição, ele destaca Conforme denunciou ao bispo do Pará “uma pessoa Eclesiástica fora do Sigilo Sacramental”, certo Manoel Pinheiro Moniz havia lhe dito “que alguns moradores desta cidade [de Belém], violentados de que S. M. lhes não permitia os seus índios, como escravos, escreveram a El Rei de França por Caiena oferecendo-lhe esta conquista, e pedindo-lhe com a maior instância 72 que viesse logo tomar posse dela. A sublevação foi debelada a tempo; ao que tudo indica, não teria incorrido em quaisquer outros atos insurretos além da carta à Caiena. Após a coroação de D. José, em 1751 e ascensão de Pombal delineou-se uma política específica para o Estado do Maranhão. De acordo com Azevedo e Silva, a Coroa entendeu que era necessário instituir um “novo sistema de colonização para a região amazônica”, ou Maranhão. Segundo ele, Tal modelo assentou globalmente nos seguintes aspectos: a consciência de que era necessário mudar de sistema; a redefinição da estrutura políticoadministrativa; o problema da liberdade, civilidade e dignificação social dos índios; a questão religiosa e o conflito com os jesuítas; o repovoamento com colonos, índios e negros africanos; o fomento da atividade econômica; a afirmação episcopal; a reorganização da defesa, associada à questão da demarcação dos limites do Brasil Setentrional; a fundação de novos 73 povoados e a aceleração do processo de municipalização. O principal expoente do gabinete josefino, em Portugal, era Pombal. No Maranhão quem o representava era seu irmão – Francisco Xavier de Mendonça _______________________ 71 CHAMBOULEYRON, Rafael & CARDOZO, Alírio. “Fronteiras da cristandade: relatos jesuíticos no Maranhão e Grão-Pará (século XVII)”. In: Priore, Mary Del e Gomes, Flávio dos Santos (orgs.). Os senhores dos rios: Amazônia, margens e histórias. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2003, p.38 72 SANTOS, Fabiano Vilaça dos. “Escandaloso desatino: a sedição de 1755 em Belém do Grão-Pará”. SBPH, 26ª Reunião, Julho de 2006, p.3 73 AZEVEDO E SILVA, José Manuel. “O modelo pombalino de Colonização da Amazônia”. Universidade de Coimbra. Disponível em http://www.uc.pt/chsc/rhsc/rhsc_texto.pdf. Acesso em 10/04/2010, p.1 42 Furtado – empossado ainda em 1751, como governador do agora renomeado, Estado do Grão-Pará e Maranhão. Essa nova designação do Estado ocorreu em virtude da transferência da capital e sede política, de São Luís para Belém. 74 A reorganização político-administrativa do Maranhão ainda passaria por mais mudanças: quatro anos mais tarde foi criada a capitania de Rio Negro (subordinada ao Pará); em 1758, a capitania do Piauí foi restabelecida, permanecendo submissa à capitania do Maranhão que, por sua vez, era dependente da do Pará. Na década de 1770, houve outra alteração, resultado da divisão do Grão-Pará e Maranhão em dois estados autônomos: Estado do Grão-Pará e Rio Negro e o Estado do Maranhão e Piauí.75 No tocante à questão indígena, Azevedo e Silva destaca que a política pombalina estava assentada no propósito de fazer com que o gentio se reconhecesse enquanto vassalo da coroa portuguesa. Para tanto tornava-se imperioso libertar os índios da tutela dos regulares e de toda e qualquer forma de escravidão; civilizá-los pelo ensino da religião e da moral cristã, da aritmética e da língua portuguesa, dos usos e dos costumes europeus; dignificá-los pelo casamento entre portugueses e indígenas; pelo acesso à posse das terras em regime de sesmarias; pelo pagamento de salários justos como retribuição do seu trabalho; pela preparação para o exercício de cargos públicos na burocracia do Estado e no governo local 76 das vilas e aldeias. Inserida no contexto das mudanças instituídas no período pombalino, foi criada a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão em 1755. Para Nunes Dias, Pombal pretendia “livrar o Estado da ingerência dos religiosos nos negócios seculares (...) e da ação dos mercadores estrangeiros, sobretudo dos chamados „comissários volantes‟ a serviço dos interesses ingleses” 77 A Companhia era constituída de capital privado, possuindo ainda, autonomia governativa e tribunal privativo. Era um empreendimento particular com concessão de serviço público. A cessão do monopólio compreendia o tráfico para o Estado do Grão-Pará e Maranhão, ilhas de Cabo Verde e Guiné por um período de _______________________ 74 AZEVEDO E SILVA, op. cit., p.1 75 “Decreto do rei D. José I, a nomear o atual governador da capitania do Maranhão, Joaquim de Melo e Póvoas, governador e capitão-general da dita capitania, onde é incluída a do Piauí, sendo ambas desanexadas do governo da capitania geral do Grão-Pará”, AHU, Maranhão, caixa 47, doc. 4628 (07 de maio de 1774) 76 AZEVEDO E SILVA, op. cit., p. 6 77 DIAS, op. cit., p.207 43 vinte anos a partir da primeira viagem realizada. 78 A criação de uma companhia monopolista suscitou queixas antes mesmo do início de suas operações. Ainda em 1755, sete membros da chamada “Mesa do Espírito Santo dos Homens de Negócios” de Lisboa redigiram uma representação “demonstrando o quanto era nociva ao País a concessão do exclusivo do comércio e da navegação por tão dilatados anos”79. Por essa ousadia o advogado Thomás de Negreiros foi desterrado para Mazagão por oito anos; o procurador da Mesa, Custódio Nogueira Braga, que entregara a representação a El-Rei, por seis anos para Almeirim. Os deputados da Mesa foram também desterrados para diferentes terras por maior ou menor número de anos, conforme a sua culpa no caso. A Mesa do bem comum foi abolida por decreto de 30 de setembro de 1755, restabelecendo-se a antiga 80 Junta do Comércio que ela substituíra. No entanto, os membros da Mesa acabaram perdoados naquele mesmo ano em virtude do grande terremoto que abalou Lisboa em 1º de novembro. 81 É comum entre estudiosos que se debruçam sobre aspectos da história maranhense, dividi-la entre antes e depois da CGCGPM. Essa análise está (in)diretamente ligada ao contraponto que comumente se faz ao período áureo da produção local que teve início na década de 1750, estendendo-se até 1830. 82 4.1 A Companhia e os endividados Os descontentamentos não findaram após o início das atividades da Companhia. A partir de 1770, as queixas referentes à escassez de braços escravos somaram-se às reclamações sobre os preços praticados, demora no embarque da crescente produção de arroz, administradores da empresa e, sobre o endividamento de parte dos colonos – lavradores e alguns fabricantes. 83 _______________________ 78 DIAS, op. cit., p.224 79 CARREIRA, op. cit., p.33 80 Idem 81 DIAS, op. cit., p.180 82 BARBOSA, Francisco Benedito da Costa. Relações de Produção na Agricultura: algodão no Maranhão (1760 a 1888) e café em São Paulo (1886 a 1929). Revista Agricultura São Paulo, São Paulo, v. 52, n. 2, p. 17-27, jul./dez. 2005, pp.17-22 83 DIAS, op. cit., pp.160-181 44 Dono de uma das maiores fortunas do Maranhão naquela época, Lourenço Belfort, escreveu a um amigo residente em Lisboa contando o que se passava na capitania naquele ano de 1770 Este anno entre eu, eos meus Lavradores recolhemos 10$500 alqueires de Arroz que depois dedescascado elimpo poderá lotar tres mil quintaes, mas como as dispoziçoens da Companhia, oumal entendidas pelos Administradores de cá, achãose as couzas em termos de ser diametricamente oppostas ao augmento desta cultura, ebaste dizer que quando nas minhas terras ficou tanto Arroz empatado o que será otodo em 84 geral. Cerca de um ano depois, queixava-se o então governador da capitania, Joaquim de Melo e Póvoas, sobre a falta de dinheiro, pois Havendo aAdministração da Companhia Geral (...) remetido daqui para a junta da mesma (...) quatrocentos e tantos mil cruzados em moeda Provincial, se experimenta nessa Capitania amayor falta de dinheiro, sem oqual não poderá de nenhuma sorte florecer o Commercio, nem esses Lavradores, e Fabricantes aplicarse com gosto as suas lavouras, e 85 manufacturas (...) Em março de 1776, Melo e Póvoas enviou de uma só vez, três ofícios à Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar, dirigidos ao secretário, Martinho de Melo e Castro. Em um deles solicitava ... amayor introducção de Escravos, sem oqual não podem ter adiantamento a as culturas; e he infelicidade minha que despois que V. Ex. ordenou que osEscravos sevendessem por preços mais acommodados, não entrou aqui 86 mais nemhuma só Curveta com Escravatura. Em outro, requeria autorização para que os lavradores pudessem embarcar o algodão diretamente para o Reino sem intervenção da Companhia. 87 E _______________________ 84 “Carta de Lourenço Belfort para Paulo George sobre a Companhia Geral de Comércio do GrãoPará e Maranhão”, AHU, Maranhão, caixa 44, doc.4338, (20 de agosto de 1770) 85 “Ofício de Joaquim de Melo e Póvoas para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, referente à falta de dinheiro na capitania do Maranhão”, AHU, Maranhão, caixa 44, doc. 4338, (20 de agosto de 1770) 86 “Ofício de Joaquim de Melo e Póvoas para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre a cultura do arroz e a falta de escravos”, AHU, Maranhão, caixa 50, doc. 4872, (04 de março de 1776) 87 “Ofício de Joaquim de Melo e Póvoas para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre autorizar os lavradores a embarcarem algodão diretamente para o Reino sem intervenção da CGCGPM”, AHU, Maranhão, caixa 50, doc. 4873, (04 de março de 1776) 45 no terceiro, abordava a falta de embarcações para o transporte de arroz, denunciando ... estes navios da Praça não servem para o transporte do Arroz pelo pouco que levão, segundo oajuste que os Deputados da Companhia fazem com os donos delles que he de carregarem só meyo porão [se achando] os 88 Armazens cheyos de Arroze de Atanados. O escoamento da produção para o Reino dependia da disposição dos navios monopolistas. Nesse cenário, não seria devaneio afirmar que o descontentamento no Maranhão cresceu acoplado à produção. O Mappa dos Effeitos exportados emitido em 1777 (Ilustração 2) apresenta o registro de 19 navios que partiram para Lisboa levando – principalmente – atanados, algodão e arroz, entre outros. Ilustração 2 – Mapa dos gêneros exportados para Lisboa (1777) Fonte: AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 52, doc. 4994 (29 de dezembro de 1777) _______________________ 88 “Ofício de Joaquim de Melo e Póvoas para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre (...) e a falta de navios da CGCGPM”, AHU, Maranhão, caixa 50, doc. 4874, (04 de março de 1776) 46 A CGCGPM amealhou críticas também do outro lado do Atlântico. Carreira nos oferece uma petição redigida em Cabo Verde, datada de 1778, na qual o Senado da Câmara e mais homens bons do povo queixavam-se do diminuto preço, que poderiam valer os escravos dentro do país, a falta, que fariam para a lavoura tirados dele, a impossibilidade em que se achavam para poderem logo pagar [as dívidas], e o receio, que tinham finalmente de 89 serem executados, e ficar tudo reduzido à última ruína. Após a morte de D. José I em 1777 e conseqüente queda de Pombal, inúmeras petições passaram a ser entregues à rainha, D. Maria I. Muitas das quais, aproveitando o ensejo para também tecerem severas críticas ao Marquês. É caso do requerimento a seguir, redigido no Pará: Não admira que Sebastião José de Carvalho e Melo estabelecesse companhias: um homem que não conhece outra religião, outras regras do justo nem do injusto, mais que o seu interesse próprio (...) A experiência tem mostrado e todas as nações comerciantes serem as companhias exclusivas para os proprios dominios humas Instituições opostas a todos os principios da ordem social e contrarias ao Direito Natural, perturbadoras da tranquilidade Publica, destruidoras do comercio, da agricultura, da Navegação, da Fazenda Real e do Estado. São os bárbaros monopolios instituídos pelo homem mais ávido, mais insaciavel, mais turbulento que se conhece no Ministério. Do Marquês de Pombal falo, daquele cuja cobiça, junta com a ignorância, abuzando da candura do melhor dos reis, teve a audacia de o persuadir que os seus fieis vassallos tirariam utilidades de um 90 comercio que neste tempo já todas as nações conhecião como ruinozo. O monopólio foi extinto naquele mesmo ano, mas a companhia continuou operando em regime de livre comércio até 1788. Carreira apresenta um dado curioso: juridicamente, esta só foi liquidada 136 anos mais tarde, em 1914. 91 Numa relação compilada no Maranhão dois anos após o fim do monopólio, a grande maioria dos 420 devedores era composta de lavradores. Mas na lista havia também: o Convento do Carmo e o Hospício do Bonfim, fabricantes de canoas e de solas, meirinhos, mercadores, caixeiros da Companhia, almoxarifes, comerciantes, carpinteiros, ferreiros, alferes, taverneiros, capitães de regimento e de infantaria, religiosos, um juiz de fora, falidos, viúvas e muitos defuntos. 92 _______________________ 89 CARREIRA, op. cit., pp.364-365 90 DIAS, op. cit., pp.180-181 91 CARREIRA, op. cit., p.45 92 “Ofício de Joaquim de Melo e Póvoas (...) em que se queixa das dificuldades em elaborar um mapa exaustivo dos devedores da CGCGPM”, AHU, Maranhão, caixa 54, doc. 5123, (15 de maio de 1779) 47 4.2 A Companhia e os escravos Durante a atuação da CGCGPM, a importação de escravos mostrou-se irregular quanto à freqüência, e quanto às quantidades trazidas. No tocante à procedência, é possível estabelecer que, com exceção de 2 indivíduos embarcados em Lisboa em 1758, todos os demais vieram de portos africanos.93 Os dados apresentados por Carreira sobre os últimos três anos de operação da Companhia divergem daqueles apurados na documentação do Arquivo Ultramarino Português, mais especificamente, nos mapas de importação da capitania. No ano de 1775, Carreira contabilizou 14 escravos chegados vivos, mas no “Mappa da importação da Companhia Geral neste Estado do Maranhão em todo o Anno de 1775” há mais quatro indivíduos, traficados pelo navio Santa Izabel, também provenientes de Cabo Verde, totalizando assim, 18 escravos. 94 No regime de 1776, Carreira somou 574 escravos chegados vivos, mas no “Mappa da importação da Companhia Geral neste Estado do Maranhão em todo o Anno de 1770” há 530 escravos contabilizados: o navio Santa Izabel entregou um indivíduo proveniente de Cabo Verde e o Santíssimo Sacramento, proveniente de Bissau, entregou 176 escravos; os dados referentes aos navios N. S. da Oliveira e N. S. Monte do Carmo indicam a mesma quantidade. 95 Já no mapa do ano de 1777 há discrepâncias quanto aos escravos trazidos pelo navio S. Francisco Xavier – 203 chegados vivos, e pelo Santíssimo Sacramento – 72 chegados vivos, bem como a ausência dos 2 escravos provenientes do navio N. S. Madre Deus, vindo de Cabo Verde, somando assim, 700 indivíduos.96 _______________________ 93 CARREIRA, op. cit. pp.367-373 94 AHU, Maranhão, caixa 54, doc. 5124 (15 de maio de 1779) 95 Idem 96 Idem 48 Tabela 4 Entradas de escravos no Maranhão pela Companhia (1756-1777) Ano Embarcação Procedência Nº de escravos Chegados vivos Total/Ano 1756 N. S. da Conceição 1757 São Sebastião Angola 348 155 155 Bissau 199 148 283 Santo Antonio Cacheu 154 135 N. S. Madre Deus Lisboa 1 1 São Pedro Lisboa 1 1 São Sebastião Bissau 178 144 N. S. da Esperança Cacheu 160 156 1759 N. S. da Esperança Cacheu 188 186 186 1760 Santo Antonio Cacheu 130 129 298 N. S. da Esperança Cacheu 170 169 São Sebastião Bissau 172 151 N. S. das Necessidades Cacheu 227 147 1762 São Paulo Bissau 187 181 1763 São Pedro Cachéu 130 127 São Paulo Bissau 137 175 1758 1761 1764 1765 1766 Cacheu 40 São Marçal Bissau 144 142 São Domingos Cacheu 133 122 S. Francisco Xavier Cacheu 157 151 N. S. da Esperança Bissau 158 126 Cacheu 42 Bissau 150 146 S. Luís Rei de França Angola 460 406 São Sebastião Cacheu 140 137 Santo Antonio Bissau 176 167 S. Francisco Xavier Cacheu 142 137 São Pedro Cachéu 137 131 São Sebastião Cabo Verde 1 126 Cachéu 138 Bissau 71 Cabo Verde 1 Cacheu 80 Cacheu 12 Bissau 130 S. Luís Rei de França Cachéu 130 130 São Pedro Cabo Verde 3 3 Cachéu 160 152 Bissau 72 134 N. S. das Necessidades 1767 Santo Antonio 298 181 566 São Marçal São Marçal 302 423 847 522 137 128 Serra Leoa 68 N. S. da Esperança Bissau 140 135 São Paulo Cacheu 130 126 São Marçal Cacheu 150 136 N. S. das Necessidades Bissau 172 166 982 49 1768 S. Luís Rei de França Cabo Verde Bissau São Pedro 1769 175 2 2 Cachéu 60 60 São Sebastião Bissau 152 136 Santo Antonio Cabo Verde 2 103 Bissau 114 São Paulo Cacheu 173 S. Pedro Gonçalves Cacheu 33 33 Bissau 106 106 Serra Leoa 12 11 Bissau 180 163 N. S. da Conceição Bissau 193 208 Serra Leoa 27 Bissau 225 203 Cacheu 173 170 São Paulo Bissau 100 97 N. S. das Necessidades Cacheu 186 177 São Pedro Bissau 180 176 São Sebastião Bissau 103 100 N. S. Piedade e Almas Cacheu 50 235 Bissau 213 São Paulo Bissau 174 169 1774 N. S. Madre Deus Cabo Verde 2 2 São Sebastião Cacheu 178 176 Sta. Ana e S. José e Almas Cacheu 109 100 São Paulo Bissau 130 120 Santana e S. Joaquim Cabo Verde 8 8 N. S. Piedade e Almas Cabo Verde 3 3 N. S. da Nazaré Cabo Verde 3 3 N. S. da Oliveira Bissau 185 179 N. S. Monte do Carmo Cacheu 175 174 Santíssimo Sacramento Bissau 220 194 S. Luís Rei de França Benguela 470 425 S. Francisco Xavier Cacheu 218 218 N. S. Madre Deus Cabo Verde 2 2 Santíssimo Sacramento Bissau 77 77 1776 1777 581 2 N. S. da Oliveira 1773 1775 907 167 N. S. das Necessidades Cabo Verde 1772 126 Cabo Verde S. Luís Rei de França 1770 1 TOTAL 274 511 169 398 14 547 722 9.166 Fonte: CARREIRA, Antonio. “As companhias pombalinas de navegação comercial e tráfico de escravos entre a costa africana e o nordeste brasileiro”. Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Bissau. Volume XXIII, Jan-Abr/1968, n. 89-90, pp.367-373 A análise dos números apresentados na tabela acima mostra que quase 90% dos indivíduos desembarcados no Maranhão vieram da região denominada pelos portugueses como Alta Guiné, e o restante da região de Angola. 50 A respeito da utilização do termo “guiné” no Brasil colônia, Mariza Soares destaca que as referências quanto a esta procedência são bastante comuns nos estudos relativos ao tráfico de escravos da África para a América, pois, segundo ela A extensa rede comercial arquitetada pelos portugueses no Atlântico, a partir do século XV, envolve não só um conjunto de situações ligadas ao tráfico, ao comércio de mercadorias e à colonização, mas também à formulação de uma cultura moderna, estreitamente ligada à conquista da África e do Novo Mundo. Neste quadro, uma das mais importantes transformações é o surgimento de uma nova geografia que incorpora a Guiné ao universo cognoscitivo europeu. Mais que qualquer outra parte do mundo, a Guiné é o lugar dos tempos modernos. É na exploração de suas terras e de seus mares que os portugueses constroem a modernidade 97 ibérica. Os primeiros registros da presença portuguesa na costa africana remontam ao século XV. Nas crônicas surgidas ao longo da expansão marítima lusitana, “a cartografia mostra a passagem da chamada África saariana (branca e islâmica) à África equatorial (negra e idólatra)” e ainda, “a separação entre a „terra de mouros‟ (também chamada Zaara) e a „terra dos negros‟ (designada Guiné)”. 98 Desse modo a autora ressalta que Com a descoberta da extensa costa africana até o Cabo da Boa Esperança e a passagem para a contra-costa, deixa de ter sentido a antiga denominação „Guiné‟ que faz parte de uma geografia já superada. Entretanto, seu uso permanece e é freqüente na documentação do século XVI, se estendendo até XVIII. Ao longo deste período o termo „Guiné‟ pode corresponder à terra dos guinéus (...), às terras a partir do atual Senegal (atuais Gâmbia, Guiné-Bissau e Guiné); à costa centro-ocidental (Congo, Angola e depois Benguela); ou ainda, de forma genérica, à toda costa 99 ocidental. Conforme veremos, no tocante às procedências africanas, após o fim do monopólio da Companhia, o grande contingente de escravos trazidos para o Maranhão continuará sendo embarcado na Alta Guiné. (Ilustração 3) _______________________ 97 SOARES, Mariza Soares. “Descobrindo a Guiné no Brasil Colonial” Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 161 (407) 71-94, abr/jun 2000, p.72 98 SOARES, Mariza Soares. “Devotos da cor: identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro, século XVIII.” Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, pp.39-45 99 SOARES, “Descobrindo a Guiné...”, pp.77-78 51 Ilustração 3 – A Alta Guiné Fonte: COSTA E SILVA, Alberto da. A manilha e o libambo. A África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p.1057 52 5. O MARANHÃO NO MUNDO ATLÂNTICO (1778-1802) Embaraços em terra, desafios no mar “Diferente era o de outras praças.” Rafael Chambouleyron, sobre o tráfico no Maranhão Navegar até o Maranhão implicava considerar uma série de ameaças possíveis à integridade da embarcação; num litoral traiçoeiro, repleto de baixios, correntezas violentas e ventos cortantes, os naufrágios eram corriqueiros. Muitas vezes, as embarcações sofriam danos ao se aproximar do porto de São Luís e começavam a “fazer água” (afundar) sem que a “equipagem” (tripulação) pudesse notar qualquer estrago aparente. Foi o que aconteceu com o navio Enéas, que fundeou na Baía de São Marcos em 12 de abril de 1790. Como de praxe, esperou que o “piloto da Barra” subisse a bordo para conduzi-lo ao porto e ancorar. Naquela mesma noite, sem qualquer alarde, o navio naufragou, levando consigo parte considerável da carga de secos e molhados, mas sem vítimas. Ao narrar o ocorrido para o Conselho Ultramarino, o governador Fernando Pereira Leite de Foios explicou que “o casco era velho, não [tendo sido] possível resistir aoChoque das agoas (...) do Canal deste Porto”.100 Repleto de armadilhas, e contando com a singularidade da tábua de marés, o canal da barra de São Luís causou muitos transtornos e prejuízos à navegação, pois entrar ou sair do porto exigia, além de perícia, muita sorte. Em 1784, a corveta N. Sra. dos Prazeres foi seriamente danificada, encontrando, nas palavras de José Telles da Silva, governador do Maranhão desgraça nasua sahida deste Porto, porquanto (...) achando oVento escaço, e correntes fortes (...) não foi possivel por falta de Maré alcançar força, foi garrando de tal modo que veio aficar em Sêcco encalhada junto aoBaluarte desta Fortaleza. Acudi logo com todas as providencias para Salvar aCarga 101 que levava porque já fazia agoa...” _______________________ 100 “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, Fernando Pereira Leite de Foios, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre o navio Enéas”, AHU, Maranhão, caixa 75, doc. 6459, (13 de maio de 1790) 101 “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, José Telles da Silva, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, referente à corveta N. Sra. dos Prazeres e à galera N. Sra. Mãe dos Homens”, AHU, Maranhão, caixa 64, doc. 5701, (12 de dezembro de 1784) 53 Poucos dias depois foi a vez da galera N. Sra. Mãe dos Homens que depois de (...) andar sobre Costa escapando dos Veyos dos Baixos ede todos os perigos (...) querendo entrar neste Porto (...) foi cahir infelizmente no Baixo que aqui chamão de Mizéria, onde seperdeo quazi toda asua 102 carga (...).” Outro relato de encalhe semelhante ocorreu ao navio Brilhante – pertencente à casa de comércio Vanseller da cidade do Porto – que zarpou na manhã do dia 5 de março de 1791 e logo que saiu da barra estancou em “hum banco de areya no Canal, chamado obaixo da Mizeria”. Ao fim da tarde, quando a maré voltou a subir, o naufrágio se consumou. 103 Nas últimas décadas do século XVIII, as rotas transatlânticas de tráfico e comércio estavam há muito consolidadas, sendo amplamente conhecidas e vigiadas. Não é surpreendente, portanto, que tais rotas estivessem repletas de corsários e piratas. Florentino destaca que o corso não atingia somente os traficantes de escravos. Segundo ele A perda humana através da ação corsária (...) era possibilidade sempre presente em qualquer tipo de operação mercantil marítima, importando menos a natureza da mercadoria do que seu valor enquanto presa. Sua freqüência podia chegar a níveis tão altos que, muitas vezes, aos comerciantes não restava alternativa senão recorrer à proteção do 104 Estado. A ameaça concreta erigida pelo corso permeou o cotidiano dos navios mercantis, não apenas em alto-mar, mas também em zonas costeiras – notadamente a do Maranhão. É provável que a presença constante de relatos de atividade corsária nessa área fosse resultado da própria geografia, uma vez que a maioria das grandes embarcações precisava navegar lentamente, tomando cuidado para não encalhar nos baixios. Além disso, a capitania do Maranhão e Piauí não dispunha de largo aparelhamento ofensivo e embarcações de guerra como o Estado do Brasil. _______________________ 102 Idem nota nº 101 103 “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, Fernando Pereira Leite de Foios, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre o navio Brilhante, pertencente à casa de comércio Vanseller”, AHU, Maranhão, caixa 77, doc. 6578, (11 de março de 1791) 104 FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro: séculos XVIII e XIX. São Paulo. Companhia das Letras. 1997, pp.141-142 54 Um ataque francês a três embarcações – vindas de Lisboa, Bahia e Cachéu – que entravam no porto de São Luís em 1796, resultou na apreensão de uma delas e no seqüestro dos oficiais e equipagem que se encontravam a bordo. Sobre o ocorrido, relatou-se que depois de terem já montado o baixo da Corôa grande e dado, virão vir da terra huma piquena chalupa que chegando a elles começou afazer fogo contra a Galera Amável Donzella q. vinha de Cachéu carregada de escravos e cêra: esta immediatamente se rendeu (...) não succedeu porem assim ao Navio Flor de America, pois levando ferro searriscou anavegar de noite por entre os baixos, entrando no dia successivo pela barra dentro. Igualmente entrou o Navio Maria Primeira, oque se devia ao practico que fis sahir naquella mesma noite com bastante risco. Por segurança dos cinco navios que saem nesta occaziam ordenei aos Cappitaens desembarcassem a artilharia, efizessem conserva até sahir dos baixos, assim como sabem fis artilhear huma sumaca do Capitam Simplicio Dias que elle mesmo veio offerecer cuja os acompanha até a Ilha de S. João, devendo depois fazer huns dias na altura dos Lençôes grandes a 105 esperar os Navios q. aqui temos noticias que estavão apartir de Lisboa. Os seqüestrados foram liberados no dia seguinte ao ataque. Navegaram até São Luís numa pequena lancha deixada pelos franceses. Já os escravos a bordo foram levados. No termo lavrado pelo capitão da galera, a rendição foi explicada pela dilatada viagem de noventa e dois dias e conseqüente falta de mantimentos. 106 Uma medida protecionista aos navios mercantis foi decidida em 1798. Sob ordem de Sua Majestade, nenhum navio poderia seguir viagem sem comboio.107 A cabotagem entre os portos de São Luís e Belém já era comumente efetuada em pequenos comboios compostos principalmente de sumacas, e que não apresentavam qualquer resistência às investidas estrangeiras. 108 Já os comboios em alto-mar eram flanqueados por navios de grande porte que faziam a segurança armada, geralmente bergantins. Ainda assim, os _______________________ 105 “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, Fernando Antonio de Noronha, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Luís Pinto de Sousa Coutinho, sobre o ataque de piratas aos navios que entravam no porto do Maranhão”, AHU, Maranhão, caixa 92, doc. 7602, (16 de outubro de 1796) 106 Idem 107 “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, Fernando Antonio de Noronha, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Luís Pinto de Sousa Coutinho, sobre o aviso de 24 de abril de 1798, em que se determina que navio algum saia sem comboio”, AHU, Maranhão, caixa 99, doc. 8018, (26 de julho de 1798) 108 “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, Fernando Antonio de Noronha, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Luís Pinto de Sousa Coutinho, sobre a tomada de uma sumaca e de dois navios que se deslocavam para o Pará e de um que afundou”, AHU, Maranhão, caixa 99, doc. 8057, (06 de agosto de 1798) 55 confrontos ocorriam constantemente. Num ofício redigido pelo capitão do bergantim de guerra Espadarte, Nicolau Woolfe, encontramos o relato de um ataque efetuado a um comboio de 12 embarcações que se dirigia ao Maranhão e Pará, escoltado pelo Espadarte e por outro bergantim, o Minerva. No dia 11 de julho encontramos um Bergantim de Guerra Francez aquém dey causa perceguir thé o dia 12 q. não largou do Comboy pela ligeireza de seo he seveyo meter de noite no corpo do Comboy aquém o Bergantim te Minerva Comand. Luiz da Cunha Moreira [ilegível] na mesma noite o atacou que ofez fugir sem maiz aparecer. No dia 13 de manham (...) nos veio atacar, os dois Bergantins a receberão a com o maiz constante valor fazendo signal aos Navios p. q. escapacem ao inimigos pellos [ilegível] que milhor lhe parecesem. O combate durou das 9 horas e meia damanham athé huma etrez quartos depois do meio dia, e o Bergantim Minerva [ilegível] secou o seo combate (...) meia hora depois (...) o meu continuou maiz um quarto porem sem efeito algum q. mefoy precizo retirar do Combate afim de hir salvar a Guarniçao do Bergantim Minerva que sem mastro algum fazendo agoa (...) ficou aderivação do mar (...) O bergantim Espadarte teve no Combate alguns feridos de q. lhe morreo só hum, o Bergantim Minerva perdeo no Combate 10 homens e se achão 109 alguns com feridas mortaes e alguns remediáveis. A capitania do Maranhão vivia em função de seus portos, sendo o de São Luís o maior e mais importante. Através dele circulavam mercadorias, pessoas e idéias e a comunicação com o mundo exterior dependia dos navios que para lá navegassem. Portanto, geri-lo era parte fundamental da administração, e as controvérsias que ocasionalmente ali surgiam, eram repassadas ao governador em gestão que, por sua vez, as relatava ao Conselho Ultramarino. 5.1 Extravios, contrabando e deserções A administração do porto de São Luís contava com uma Superintendência de Contrabandos, que elaborava os pareceres que seriam encaminhados ao Conselho. A esta superintendência cabiam os casos de contrabando, extravios de carga, deserções e quaisquer inobservâncias durante o período de atracação de um navio. O contrabando abarcava qualquer mercadoria e as acusações geralmente recaíam sobre os mestres das embarcações, que eram os responsáveis pelo Mappa _______________________ 109 “Ofício do capitão Nicolau Woolfe para o ministro plenipotenciário português na Inglaterra, D. João de Almeida, sobre a perseguição que empreendeu a num navio francês e do ataque que sofreram as embarcações”, AHU, Maranhão, caixa 112, doc. 8727, (21 de julho de 1800) 56 dos effeitos que acompanhava as importações. Ao adentrarem o porto, todas as embarcações eram vistoriadas pelos oficiais da Alfândega e, havendo carga que não constasse da relação, o embaraço estava posto. A julgar pelas referências encontradas na documentação, é provável que o produto mais contrabandeado fosse farinha. Numa inspeção em 1783, o capitão de um navio que estava prestes a partir para Lisboa foi preso, após terem sido encontradas sacas de tapioca e goma.110 Extraviar escravos era outra modalidade que tirava o sossego das autoridades portuárias. O mestre do navio Minerva, procedente de Bissau com escravatura, foi preso após se descobrir que da relação de 130 peças, onze haviam desaparecido. Segundo denúncia enviada ao Conselho, o mesmo teria ofertado bebidas aos guardas do porto que, depois de bêbados e adormecidos, não teriam percebido a desembarque dos escravos no meio da noite. 111 Outro mestre de navio, Joaquim Bernardo Dias, foi preso acusado pelo desaparecimento de um escravo. Após apuração dos Autos enviados de São Luís, o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, deliberou em favor do réu, pois havia concluído que toda esta questão versa sobre a falta ou troca de hum Escravo, pertencente à carregação q. por conta de João Roque Jorge se remetera a essa capitania, o qual Escravo depois apareceo; e tendo o mesmo João Roque assignado hua declaração de não querer proseguir Acção alguma contra os sobreditos Reos; foi S. M. servida mandar soltar o referido Joaquim te Bernardo Dias; eordena q. igual. seja posto na sua liberdade o dito 112 Feliciano dos Santos (...) _______________________ 110 “Provisão da Rainha D. Maria I para o juiz da Alfândega da capitania do Maranhão, sobre o meirinho da Alfândega do Maranhão, Manuel José de Esteves, numa inspeção que fez aos navios, ter encontrado tapioca e goma, que se embarcou ocultamente”, AHU, Maranhão, caixa 60, doc. 5509, (12 de setembro de 1783); “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, Fernando Pereira Leite de Foios, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre os navios transportarem contrabando, nomeadamente de farinha”, AHU, Maranhão, caixa 79, doc. 6706 (23 de dezembro de 1791) 111 “Ofício do juiz de fora e ouvidor interino no Maranhão, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre o mestre de um navio vindo de Bissau ter extraviado escravos”, AHU, Maranhão, caixa 80, doc. 6819 (17 de agosto de 1792) 112 “Aviso do secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, para o desembargados dos Agravos, Antonio Joaquim de Pina Manique, para que se mande soltar Joaquim Bernardo Dias”, AHU, Maranhão, caixa 79, doc. 6697 (18 de novembro de 1791); “Requerimento do mestre do navio Aníbal, Joaquim Bernardo Dias, à rainha D. Maria I, solicitando que o soltem, para ouvir em liberdade a sentença de acusação que foi feita a ele pelo desaparecimento de um escravo”, AHU, Maranhão, caixa 79, doc. 6698 (21 de novembro de 1791) 57 As deserções também são mencionadas, mas não tão maciças quanto a sucedida no Navio Macário e Penha da França que, de uma só vez, perdeu doze tripulantes tão logo ancorou em São Luís. 113 Outra ocorrência de deserção, no ano seguinte, chamou mais atenção pela natureza do desertor, do que pela quantidade. O mestre da galera São Macário transportou um soldado de Bissau, Antonio Martins – condenado a pena de morte – num carregamento de escravos que levava para o Maranhão. O governador de Bissau remeteu queixa ao governador do Maranhão que, em ofício para o Conselho rogou para que [naquela] Corte se [decidisse] oque [fosse] mais conveniente, pois es que [ele] já [estava] agoniado com histórias de M. de Navios (...) denominados commerciantes, quando não [passavam] de mascates e 114 traficantes, uzurpadores dos Direitos Reaes (...) Além de trazer um desertor, o mestre desembarcara os escravos “comprehendidos na Epidemia [de bexigas] sem fazerem a quarentena determinada (...) com aqual [se tinha evitado] as funestas resultas daquella que produzio tantos estragos”. O mestre da galera, Joaquim Jozé [ilegível] ficou preso em São Luís. 115 A partir de 1780, o tráfico de escravos para o Maranhão passou a ser efetuado também por embarcações que partiam de portos brasileiros, principalmente da Bahia e Pernambuco. Esse tráfico era realizado sobretudo por sumacas, sendo seus mestres conhecidos por “sumaqueiros”. A sumaca era uma embarcação de médio porte, constituída de dois mastros, velas latinas triangulares e um pequeno camarote sobre o convés. Seu calado era apropriado para áreas de média ou baixa profundidades, adequando-se com perfeição às necessidades da zona costeira do Maranhão. 116 _______________________ 113 “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, Fernando Pereira Leite de Foios, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre a deserção de doze tripulantes do navio Penha de França”, AHU, Maranhão, caixa 75, doc. 6445 (12 de março de 1790) 114 “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, Fernando Pereira Leite de Foios, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre a queixa do governador interino de Bissau, contra o mestre de um navio que trouxe um desertor e escravos doentes para aquela capitania”, AHU, Maranhão, caixa 80, doc. 6818 (17 de agosto de 1792) 115 Idem 116 RODRIGUES, Jaime. De Costa a Costa. Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780-1860). São Paulo: Companhia das Letras. 2005, p.149 58 No Mappa da Escravatura de 1788 (Ilustração 4) verifica-se o seu uso em todas as carregações – dez ao todo – provenientes de portos brasileiros. Ilustração 4 – Mapa da importação de escravos para o porto de São Luís (1788) Fonte: AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 73, doc. 6288 (25 de janeiro de 1784) Segundo Rodrigues, as sumacas possuíam, em média, 114 toneladas, explicando, talvez, a ampla diferença entre a quantidade de escravos trazidos por elas naquele ano, variando entre 07 indivíduos (sumaca Bom Jesus de Boinas, vinda do porto de Rio Grande) e 221 (sumaca Valle de Piedade, proveniente da Bahia). 117 _______________________ 117 RODRIGUES, op. cit., p.149 59 5.2 As carregações de escravos Durante a vigência da Companhia Geral (1755-1777) foram introduzidos no Estado do Maranhão 9.166 escravos, todos eles africanos. (vide Tabela 4) A importação de escravos vindos dos portos do Brasil, começou em 1780, com uma carregação do Rio de Janeiro e outra da Bahia, intensificando-se a partir de 1784. Até 1802, o tráfico brasileiro responderia por cerca de 30% do total. Qual seria o perfil do escravo exportado do Brasil para o Maranhão? Na documentação analisada, não é possível inferir se os escravos vindos dos portos do Brasil eram africanos ou crioulos – termo usado para definir os escravos nascidos no Brasil. 118 Dados referentes à população de Salvador em 1835 mostram que, entre a população escrava, nada menos que 63% eram africanos. Média que, de acordo com João José Reis, mantinha-se desde o censo de 1775. 119 Em Pernambuco, a cultura açucareira desenvolveu-se a partir do século XVII, contabilizando 212 engenhos em 1640, prósperos à custa de braços africanos.120 Na virada do século XVIII, o percentual de escravos entre a população mantinha-se em 30%, dos quais cerca de 50% eram africanos.121 Numa queixa redigida pelo governador da capitania em 1785, há referências às doenças e maus modos dos crioulos, bem como uma explícita preferência pelos escravos africanos. Segundo ele, Fazendose todos os dias mais agravante (...) a entrada de sumacas que saem dos Portos de barlavento Negreiros (...) com Escravatura, eouro lavrado na Bahia e Pernambuco, esendo este Negro muito prejudicial, pella Sahida da [ilegível] que Crioula (...) de suas carregaçoens, devo por na prezença de V. Ex.ª o prejuízo quese [ilegível] das ditas Sumacas aeste e Porto, para tomando delles Cabal Conhecimento S. Mag. mandar dar (...) aquellas providencias que julgar que convem ao augmento desta Colonia. Regularmente entra neste Porto (...) sumacas vindas da Bahia, Pernambuco, carregadas de Escravatura que (...) refugo que os Lavradores da Bahia, e Pernambuco desprezão, enão querem comprar (...) eque mandão vender nesta capitania ena do Pará, sendo que os Escravos que trazem (...) ou são inficcionados de doenças agudas e de Bexigas mal cruel, e escondidos nesta Firma, os Ladrões, e Malfeitores que tem servido _______________________ 118 MATTOSO, Kátia de Queirós. Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2003, p.105 119 REIS, João José Reis. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp.20-25 120 PUNTONI, op. cit., pp. 85-102 121 CARVALHO, Marcus J. M. de. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo no Recife, 1822-1850. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 1998, pp.41-91 60 osSeus Vícios, e cometer crimes os mais fortes entre os bons Escravos que tem de Cachéu, Cabo Verde e Costa da Mina, oque produz hu grande danno ao bem público, pello augmento dos malfeitores e hum gravissimo prejuízo aos Compradores porque morrem das moléstias deque são 122 inficcionados ou fogem, esão prezos pelos malefícios que cometem (...) Alguns anos mais tarde, outra reclamação a respeito das sumacas foi feita ao Conselho, mas dessa vez mencionando apenas os altos preços cobrados pelos escravos. 123 Na documentação pesquisada, há referência a cinco portos brasileiros, sendo eles: Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande (no atual estado do Rio Grande do Norte) e Aracaty (atual Ceará). Dos 10.252 escravos chegados vivos ao Maranhão, 97% eram provenientes da Bahia e Pernambuco, o que representa uma média anual de 540 indivíduos, se considerarmos apenas os anos com registros de entrada. (Tabela 5) _______________________ 122 “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, José Telles da Silva, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre os prejuízos causados pela navegação das sumacas”, AHU, Maranhão, caixa 66, doc. 5832, (31 de dezembro de 1785) 123 “Ofício do governador e capitão-general do Maranhão e Piauí, Fernando Pereira Leite de Foios, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, sobre (...) contratos de escravatura”, AHU, Maranhão, caixa 75, doc. 6480 (23 de junho de 1790) 61 Tabela 5 Escravos provenientes de portos brasileiros (1780-1802) ANO Bahia 1780 107 Pernambuco Rio de Janeiro Rio Grande Aracaty 120 227 1781 1782 TOTAL 0 47 46 93 1783 0 1784 342 342 1785 226 97 323 1786 127 132 259 1787 471 229 700 1788 533 229 1789 348 211 559 1790 80 277 357 1791 385 74 459 1792 100 1793 348 836 13 1794 87 835 118 1795 155 451 606 1796 437 479 916 1797 68 72 140 7 769 100 13 1210 1040 1798 0 1799 0 1800 57 57 1801 759 1802 535 801 5155 4826 120 138 13 10252 50,2% 47% 1,1% 1,3 0,4 100,0% TOTAL 759 1336 Fonte: AHU, Maranhão (Avulsos), Mapas de importação de escravos: 1779-1781 (doc 5356, cx.58, 29/01/1782); 1781 (doc 5355, cx.58, 28/01/1782); 1782 (doc 5432, cx.59, 04/01/1784); 1779-1783 (doc 5552, cx.60, 1782); 1783 (doc 5562-67, cx.61, 21/01/1784); 1784 (doc 5730, cx.64, 21/01/1785); 1785 (doc 5840-43 cx.67, 13/02/1786); 1786 (doc 5938, cx.68, 19/01/1787); 1787 (doc 6115, cx.70, 22/01/1788); 1788 (doc 6288, cx.73, 25/01/1789); 1789 (doc 6429, cx.75, 12/02/1790); 1790 (doc 6567, cx.77, 20/01/1791); 1791 (doc 6719, cx.79, 23/01/1792); 1792 (doc 6868, cx.81, 27/01/1793); 1793 (doc 7042, cx.84, 15/02/1794); 1794 (doc 7178-79, cx.86, 03/02/1795); 1795 (doc 7404, cx.89, 21/01/1796); 1796 (doc 7680, cx.93, 24/03/1797); 1797 (doc 7887, cx.97, 05/04/1798); 1798 (doc 8313, cx.104, 29/04/1799); 1799 (doc 8479, cx.107, 27/11/1799); 1800 (doc 9101, cx.118, 07/10/1801); 1801 (doc 9416, cx.125, 09/10/1802) e 1802 (doc 9861, cx.134, 26/03/1804). 62 A historiografia brasileira há muito ajudou a elucidar as rotas transatlânticas. A predominância dessas conexões propiciou ao Estado do Brasil o incremento da produção e sucessiva exportação de gêneros para os mercados consumidores africanos. Ou seja, as ligações entre a África e o Brasil eram bilaterais, não somente comerciais, mas políticas e culturais também. Ilustração 5 – Rotas transatlânticas entre Brasil e África (séc. XVII-XVIII) Fonte: ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.250 A rota entre a Bahia e a Costa da Mina congregava interesses portugueses, baianos, ingleses e das casas reais africanas de Onim (atual Lagos, na Nigéria), Aladá (atual Porto Novo, em Benim) e Daomé (Benim), tendo sido organizadas várias embaixadas e visitas oficiais a Portugal e à Bahia. Da Mina vinham escravos, panos e marfim e da Bahia exportava-se tabaco que, segundo Verger, propiciou aos “negociantes da Bahia (...) um movimento comercial importante que, desde o começo do século XVIII, escapava ao controle de Lisboa”.124 _______________________ 124 VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo de Benim e a Bahia de Todos os Santos dos séculos XVII ao XIX. São Paulo: Corrupio, 1987, p.21 63 Por sua vez, a rota entre o Rio de Janeiro e Angola propiciou a exportação de mandioca e cachaça, que também era exportada da Bahia e Pernambuco, ganhando a preferência do mercado consumidor na África Central. 125 A conexão entre a Alta Guiné (Bissau e Cachéu) e o Maranhão surgiu mais tarde, a partir da criação da CGCGPM, e foi responsável por grande parte das carregações do tráfico destinadas ao Estado. Entre 1788 e 1794, há registros também do envio de cera para o estado, juntamente com lotes de escravos, provenientes do porto de Bissau. 126 Os mapas anuais de exportação do Maranhão mostram que toda a sua produção era destinada às cidades de Lisboa e Porto, e os registros de entrada das embarcações com escravatura mostram que muitas delas faziam uma única rota, Alta Guiné – Maranhão – Alta Guiné, porém outras praticavam rotas triangulares, Alta Guiné – Maranhão – Lisboa – Alta Guiné. 127 A cultura material que atravessou o Atlântico com os escravos, obviamente, não consta dos mapas. Definir o porto de embarque, não esclarece a etnicidade desses homens e mulheres. Estudos recentes sobre a origem étnica/cultural dos escravos traficados para o Maranhão têm demonstrado a presença significativa de indivíduos, cujo grupo de origem ou nação, foi definido na documentação como mandinga. 128 O termo mandinga deriva de Mande, grupo lingüístico que, para Thornton _______________________ 125 ALENCASTRO, op. cit., pp.306-307 126 FARO, Jorge. O movimento comercial do porto de Bissau de 1788 a 1794. Bissau. Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. 1959, pp.232-251 127 Mapas de importação de escravos e exportação de gêneros, AHU, Maranhão (Avulsos): 17791781 (doc 5356, cx.58, 29/01/1782); 1781 (doc 5355, cx.58, 28/01/1782); 1782 (doc 5432, cx.59, 04/01/1784); 1779-1783 (doc 5552, cx.60, 1782); 1783 (doc 5562-67, cx.61, 21/01/1784); 1784 (doc 5730, cx.64, 21/01/1785); 1785 (doc 5840-43 cx.67, 13/02/1786); 1786 (doc 5938, cx.68, 19/01/1787); 1787 (doc 6115, cx.70, 22/01/1788); 1788 (doc 6288, cx.73, 25/01/1789); 1789 (doc 6429, cx.75, 12/02/1790); 1790 (doc 6567, cx.77, 20/01/1791); 1791 (doc 6719, cx.79, 23/01/1792); 1792 (doc 6868, cx.81, 27/01/1793); 1793 (doc 7042, cx.84, 15/02/1794); 1794 (doc 7178-79, cx.86, 03/02/1795); 1795 (doc 7404, cx.89, 21/01/1796); 1796 (doc 7680, cx.93, 24/03/1797); 1797 (doc 7887, cx.97, 05/04/1798); 1798 (doc 8313, cx.104, 29/04/1799); 1799 (doc 8479, cx.107, 27/11/1799); 1800 (doc 9101, cx.118, 07/10/1801); 1801 (doc 9416, cx.125, 09/10/1802) e 1802 (doc 9861, cx.134, 26/03/1804). 128 ASSUNÇÃO, Matthias Röhrig. Maranhão: terra mandinga. In: CMF – Boletim do Folclore, nº 20. Agosto/2001; MEIRELES, Marinelma Costa. Tráfico transatlântico e procedências africanas no Maranhão setecentista. Dissertação de Mestrado: UNB, 2006, pp.135-138; BARROSO JR, op. cit., pp.102-103 64 era extremamente homogêneo: as formas faladas em Gâmbia, ao longo do Níger, e mesmo em Serra Leoa e Libéria eram inteligíveis, pelo menos no século XVII. Do ponto de vista estritamente lingüístico, portanto, a região da Alta Guiné continha três grupos de línguas bem diferentes: mande, que dominava o interior e a costa em Gâmbia e Serra Leoa; as línguas do norte do Atlântico ocidental (jalofo e harpulaar) ao longo do rio Senegal; e as línguas do sul do Atlântico ocidental ao longo da costa do rio Gâmbia a cabo 129 Mount. O autor assinala ainda, que a liderança política e comercial de Mande a aproximou culturalmente de outros grupos, tornando o mandinga “uma língua franca usada no comércio e na política”. 130 Um indício bastante concreto da presença cultural mandinga foi apontado por Carreira ao constatar que no Pará e no Maranhão se usa na ementa local um prato conhecido por arroz de cuchá. Este vocábulo parece de origem mandinga. Nesta língua, Kutxá, significa baguiche (Hibiscus sabdariffa). As folhas verdes e mais tenras da planta são fervidas e depois confecciona-se com elas uma espécie de esparregado de sabor acidulado, muito apreciado por quase todos os povos da nossa Guiné e os das áreas adjacentes. Os Fulas 131 designam-no por Fôlêrê. Há no regime de 1778-1802, o registro de sete portos na África, sendo que quatro deles (Cachéu, Bissau, Guiné e Malagueta) estão dentro da zona compreendida como Alta Guiné. Por conseguinte, ao calcularmos o volume de entradas, concluímos que a referida área responde por cerca de 82% das procedências africanas no Maranhão. (Tabela 6) _______________________ 129 THORNTON, op. cit., pp.257-258 130 Id. Ibid. p. 259 131 CARREIRA, op. cit., p.324 65 Tabela 6 Escravos provenientes de portos africanos (1778-1802) ANO Cachéu Bissau Guiné Malagueta Costa da Angola Moçambique Mina TOTAL 1778 125 162 287 1779 257 1217 1474 691 691 1780 944 1781 1782 378 944 281 659 1783 0 1784 316 337 380 1033 1785 190 226 606 1022 403 1786 1787 482 200 1788 442 1789 403 738 1460 520 1150 2112 347 458 743 1548 1790 391 479 1791 292 415 707 1792 333 754 1087 1793 478 663 1141 1794 464 682 1146 1795 543 595 1138 690 1796 1797 218 40 184 1054 248 938 744 371 780 1798 780 945 1799 1333 945 1800 580 580 1801 569 569 769 1802 TOTAL 248 5256 11231 21,8% 46,5% 12,9% 3121 1017 40 184 3865 371 24068 0,5% 0,8% 16% 1,5% 100% Fonte: AHU, Maranhão (Avulsos), Mapas de importação de escravos: 1779-1781 (doc 5356, cx.58, 29/01/1782); 1781 (doc 5355, cx.58, 28/01/1782); 1782 (doc 5432, cx.59, 04/01/1784); 1779-1783 (doc 5552, cx.60, 1782); 1783 (doc 556267, cx.61, 21/01/1784); 1784 (doc 5730, cx.64, 21/01/1785); 1785 (doc 5840-43 cx.67, 13/02/1786); 1786 (doc 5938, cx.68, 19/01/1787); 1787 (doc 6115, cx.70, 22/01/1788); 1788 (doc 6288, cx.73, 25/01/1789); 1789 (doc 6429, cx.75, 12/02/1790); 1790 (doc 6567, cx.77, 20/01/1791); 1791 (doc 6719, cx.79, 23/01/1792); 1792 (doc 6868, cx.81, 27/01/1793); 1793 (doc 7042, cx.84, 15/02/1794); 1794 (doc 7178-79, cx.86, 03/02/1795); 1795 (doc 7404, cx.89, 21/01/1796); 1796 (doc 7680, cx.93, 24/03/1797); 1797 (doc 7887, cx.97, 05/04/1798); 1798 (doc 8313, cx.104, 29/04/1799); 1799 (doc 8479, cx.107, 27/11/1799); 1800 (doc 9101, cx.118, 07/10/1801); 1801 (doc 9416, cx.125, 09/10/1802) e 1802 (doc 9861, cx.134, 26/03/1804). 66 No período vigente, ao somarmos as procedências, temos um total de 35.943 indivíduos, 67% traficados da África, 28,5% do Brasil, 4,3% sem identificação de origem e apenas 0,4% vindos de Lisboa. Tabela 7 Total de escravos desembarcados no Maranhão (1778-1802) Brasil África 1778 287 287 1779 1474 1474 1780 691 1781 944 1782 659 227 Lisboa Sem definição ANO TOTAL 8 926 944 93 752 1602 1783 1602 1784 1033 342 1375 1785 1022 323 1345 1786 403 259 662 1787 1460 700 2160 1788 2112 769 1789 1548 559 2107 1790 1054 357 1411 1791 707 459 1166 1792 1087 100 1187 1793 1141 1210 2351 1794 1146 1040 2186 1795 1138 606 1744 1796 938 916 1854 1797 1333 140 1473 1798 780 780 1799 945 945 1800 580 57 637 1801 569 759 1328 1802 1017 1336 2353 TOTAL 24068 10252 8 1615 35943 67% 28,5% 0,2% 4,3% 100% 13 2894 Fonte: Dados apresentados nas tabelas 5 e 6. 67 5.3 Os habitantes do Maranhão na virada do século XVIII Sabemos que o tráfico no Maranhão começou tardiamente em relação ao do Estado do Brasil, e que alcançou a quinta posição dentre as províncias escravistas no século XIX. 132 Porém, entre todas elas, era a única em que a população escrava superava a população livre (1823). É o que nos mostra a ilustração abaixo. Ilustração 6 – População livre e escrava no Brasil (1823 e 1872) Fonte: MATTOSO, Kátia de Queirós. Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2003, p.64 No levantamento populacional de 1823, os escravos correspondem a 59% da população geral do Maranhão, já no de 1872, representam 20%. Essa tendência demográfica pôde ser observada nos levantamentos realizados nos anos de 1798, 1800 e 1801 respectivamente. Apesar de o tráfico regular só ser verificado a partir de 1756 – com a primeira carregação da Companhia, vinda de Angola – em pouco mais de quatro décadas, os escravos já representavam quase metade da população absoluta. _______________________ 132 GOULART, Maurício. A escravidão africana no Brasil: das origens à extinção do tráfico. São Paulo: Alfa-Ômega, 1975, pp.265-279 68 Os números recenseamentos contêm da uma população da capitania discrepância, explicada apresentados pela ausência nos de determinadas vilas. O levantamento de 1798 está completo; o de 1800 não inclui os habitantes de São Luís; e o de 1801 exclui a capital, Alcântara, Guimarães e Icatu. Entretanto, mesmo com a ausência de certas vilas, o percentual de habitantes livres e escravos se mantém. É o que nos mostra a tabela a seguir. Tabela 8 Percentual de habitantes livres e escravos (Censos 1798, 1800 e 1801) CENSO 1798 (toda a capitania) 1800 (excluídos os habitantes de São Luís) ESCRAVOS LIVRES TOTAL 36944 41916 78860 46,8% 53,2% 29900 29505 50,3% 49,7% 1801 17306 18870 (excluídos os habitantes de São Luís, Alcântara, Guimarães e Icatu) 47,8% 52,2% MÉDIA 48,3% 51,7% 59405 36176 100% Fonte: AHU, Maranhão (Avulsos), Mappa Geral dos habitantes 1798 (doc. 8313, caixa 104, 29/04/1799), mappa 1800 (doc. 9101, caixa 118, 07/10/1801) e mappa 1801 (doc. 9416, caixa 125, 09/10/1802) Todos os censos dividem a população em quatro categorias e contêm a anotação de que a categoria “mulatos” inclui “Molatos cuaze brancos, Mamelucos q. precedem de Branco e Índio, Cafuzos de Molato e Preto, eMistiços de Preto e Índio”.133 (Tabelas 9 e 10) _______________________ 133 AHU, Maranhão (Avulsos), Censo 1798 (doc. 8313, caixa 104, 29/04/1799), Censo 1800 (doc. 9101, caixa 118, 07/10/1801) e Censo 1801 (doc. 9416, caixa 125, 09/10/1802) 69 Tabela 9 Configuração da população do Maranhão (Censos 1798, 1800 e 1801) CENSO PRETOS 1798 (toda a capitania) MULATOS BRANCOS ÍNDIOS TOTAL 78860 31967 18526 24273 4094 40,5% 23,6% 30,7% 5,2% 27945 16113 12280 3067 (excluídos os habitantes de São Luís) 47% 27% 20,6% 5,4% 1800 1801 16743 11770 6081 1582 (excluídos os habitantes de São Luís, Alcântara, Guimarães e Icatu) 46,3% 32,5% 16,8% 4,4% MÉDIA 44,6% 27,7% 22,7% 5% 59405 36176 100% Fonte: AHU, Maranhão (Avulsos), Mappa Geral dos habitantes 1798 (doc. 8313, caixa 104, 29/04/1799), mappa 1800 (doc. 9101, caixa 118, 07/10/1801) e mappa 1801 (doc. 9416, caixa 125, 09/10/1802) Ao compararmos o censo de 1798 ao de 1801, notamos que a única categoria a apresentar decréscimo em relação à população absoluta é a de “brancos”; os grupos “pretos” e “mulatos” oferecem uma ampliação na participação percentual; e os índios, uma queda inferior a 1%. Tabela 10 Percentual de livres e escravos nas categorias “pretos” e “mulatos” (Censos 1798, 1800 e 1801) 1798 1800 1801 População: 78860 População: 59405 População: 36176 Escravos Livres Escravos Livres Escravos Livres pretos mulatos pretos mulatos pretos mulatos pretos mulatos pretos mulatos pretos mulatos 30695 6249 1272 12277 26328 3572 1617 12541 15378 1928 1365 9842 83% 17% 9,4% 90,6% 88% 12% 11,4% 88,6% 88,8% 11,2% 12,2% 87,8% Fonte: AHU, Maranhão (Avulsos), Mappa Geral dos habitantes 1798 (doc. 8313, caixa 104, 29/04/1799), mappa 1800 (doc. 9101, caixa 118, 07/10/1801) e mappa 1801 (doc. 9416, caixa 125, 09/10/1802) O exame da última tabela indica um aumento da participação do grupo “pretos” entre as populações livre e escrava, e uma diminuição da presença do grupo “mulatos” em ambas. 70 CONSIDERAÇÕES FINAIS A inexpugnável certeza dos colonos do Maranhão quanto à necessidade de braços escravos para a lavoura se fez presente no cotidiano daquele estado desde os primórdios de seu povoamento. No decorrer do século XVII, essa mão-deobra era basicamente indígena, porém, com os obstáculos cada vez mais incisivos impostos pelos missionários e pela Coroa, a lógica da substituição do índio pelo africano passou a avultar as queixas e petições dirigidas à administração régia. O fomento do tráfico regular foi instituído através de iniciativa estatal, com a criação de uma companhia monopolista que manejava as carregações e regulava os preços de todos os gêneros importados e exportados, controlando assim, todo o trato comercial do Grão-Pará e Maranhão. Sua principal finalidade era alavancar a economia daquele Estado, fazendo prosperar as lavouras à custa de escravos. Era o início da rota transatlântica entre a Alta Guiné e o Maranhão. Em poucos anos, a Fazenda Real já contabilizava lucro ascendente, não somente com a exportação de gêneros da colônia, mas também com a importação de diversos provimentos da metrópole. Entretanto, o rol de descontentamentos dos colonos do Maranhão era extenso e crescente: o tráfico mostrava-se irregular, variando anualmente de 982 indivíduos (1767) a 14 (1775), passando por nenhum (1771); o alto preço do frete e a demora para carregar arroz e algodão nos navios abarrotavam os armazéns; os devedores queixavam-se das práticas administrativas da empresa na hora de cobrá-los e ainda mais do atraso na hora de pagá-los com o lucro das exportações. Quanto maior era a lavoura, maior era o número de escravos, maior era a dívida. O fim do monopólio deu passagem ao tráfico operado à moda do Barlavento, com a afluência de carregações particulares vindas da África e do Brasil, e obedecendo a lei da oferta e da procura. Todavia o caminho trilhado pela Companhia continuou a ser percorrido: Alta Guiné e Maranhão consolidaram suas conexões bilaterais, pois o tráfico interessava a ambos e era facilitado pelas correntes marítimas e ventos oceânicos. Até 1802, essa predileção mútua responderá por 67% dos escravos trazidos para o Maranhão. Dos presumíveis 1.500 traficados antes do monopólio, passando aos 9.166 computados pela Companhia, registrou-se no regime 1778-1802 a 71 assombrosa cifra de 35.943, totalizando 46.609 escravos no período pesquisado. Ainda que inferior aos volumes verificados no Brasil, esse número foi suficiente para estabelecer um quadro atípico: no início do século XIX, os escravos do Maranhão correspondiam à metade da população absoluta. O percentual de habitantes livres seria superado pelo de escravos poucos anos depois. Não nos esqueçamos, porém, que ao falarmos de escravos, na verdade, falamos de pessoas. Assim, 46.609 pessoas sobreviveram ao embarque forçado para o Maranhão, atravessando o oceano dentro de porões, em viagens que, não raramente, ultrapassavam a marca de cem dias, e nas quais se sujeitavam a tempestades, calmarias, ataques corsários, fome, sede, doenças e castigos físicos. Esses homens, mulheres e crianças contribuíram diretamente para a tessitura demográfica, cultural, religiosa e econômica das sociedades em que estiveram inseridos, ajudando a delinear seus contornos. Lembremos que as relações entre homens livres e homens escravizados não eram rígidas, pois, ainda que sob a ótica da escravidão, o espaço social é constituído de negociações. Se de um lado os senhores infligiram um bárbaro regime de trabalho à custa de castigos e supressão da liberdade, de outro, os escravos infundiram o medo – através de fugas, quilombos, mocambos, protestos e revoltas – e difundiram suas crenças, trejeitos, gostos, hábitos, e vocábulos. No Maranhão, é certo, verificou-se esse processo. 72 REFERÊNCIAS Manuscritas AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 1, doc. 39 (21 de maio de 1622) e doc. 100 (17 de dezembro de 1626) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 2, doc. 155 (29 de julho de 1644), doc. 159 (29 de julho de 1644) e doc. 195 (30 de abril de 1646) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 3, doc. 263 (22 de agosto de 1648) e doc. 348 (16 de setembro de 1654) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 4, doc. 372 (12 de fevereiro de 1656), doc. 469 (24 de junho de 1663) e doc. 499 (22 de agosto de 1665) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 5, doc. 547 (30 de maio de 1670), doc. 565 (1671) e doc. 576 (17 de julho de 1673) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 6, doc. 725 (15 de outubro de 1685) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 7, doc. 750 (13 de outubro de 1686) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 9, doc. 906 (10 de janeiro de 1696) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 22, doc. 2296 (12 de julho de 1736) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 24, doc. 2443 (23 de janeiro de 1736), doc. 2506 (18 de setembro de 1738) e doc. 2514 (19 de dezembro de 1738) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 26, doc. 2700 (16 de setembro de 1741) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 27, doc. 2761 (08 de janeiro de 1743) e doc. 2774 (anterior a 08 de maio de 1743) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 39, doc. 3808 e doc. 3809 (27 de fevereiro de 1759) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 44, doc. 4338 (20 de agosto de 1770) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 47, doc. 4628 (07 de maio de 1774) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 50, doc. 4872, doc. 4873 e doc. 4874 (04 de março de 1776) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 52, doc. 4994 (29 de dezembro de 1777) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 54, doc. 5123 e doc. 5124 (15 de maio de 1779) 73 AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 58, doc. 5355 e doc. 5356 (29 de janeiro de 1782) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 59, doc. 5432 (04 de janeiro de 1784) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 60, doc. 5509 (12 de setembro de 1783) e doc. 5552 (1782) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 61, doc. 5562 e doc. 5567 (21 de janeiro de 1784) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 64, doc. 5701 (12 de dezembro de 1784) e doc. 5730 (21 de janeiro de 1785) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 66, doc. 5832 (31 de dezembro de 1785) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 67, doc. 5840 e doc. 5843 (13 de fevereiro de 1786) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 68, doc. 5938 (19 de janeiro de 1787) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 70, doc. 6115 (22 de janeiro de 1788) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 73, doc. 6288 (25 de janeiro de 1784) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 75, doc. 6429 (12 de fevereiro de 1790), doc. 6445 (12 de março de 1790), doc. 6459 (13 de maio de 1790) e doc. 6480 (23 de junho de 1790) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 77, doc. 6567 (20 de janeiro de 1791) e doc. 6578 (11 de março de 1791) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 79, doc. 6697 e doc. 6698 (21 de novembro de 1791), doc. 6706 (23 de dezembro de 1791) e doc. 6719 (23 de janeiro de 1792) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 80, doc. 6818 e doc. 6819 (17 de agosto de 1792) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 81, doc. 6868 (27 de janeiro de 1793) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 84, doc. 7042 (15 de fevereiro de 1794) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 86, doc. 7178 e doc. 7179 (03 de fevereiro de 1795) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 89, doc. 7404 (21 de janeiro de 1796) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 92, doc. 7602 (16 de outubro de 1796) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 93, doc. 7680 (24 de março de 1797) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 97, doc. 7887 (05 de abril de 1798) 74 AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 99, doc. 8018 (26 de julho de 1798) e doc. 8057 (06 de agosto de 1798) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 104, doc. 8313 (29 de abril de 1799) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 107, doc. 8479 (27 de novembro de 1799) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 112, doc. 8727 (21 de julho de 1800) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 118, doc. 9101 (07 de outubro de 1801) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 125, doc. 9416 (09 de outubro de 1802) AHU, Maranhão (Avulsos), caixa 134, doc. 9861 (26 de março de 1804) Bibliográficas ALENCASTRO, Luiz Felipe de. 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