UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS - RIO CLARO ECOLOGIA RAFAELA APARECIDA DA SILVA LEVANTAMENTO SÓCIO-AMBIENTAL DO ACAMPAMENTO ELISABETE TEIXEIRA, LIMEIRA/SP: SUBSÍDIO AO INCENTIVO DE PRÁTICAS AGROECOLÓGICAS Rio Claro 2008 RAFAELA APARECIDA DA SILVA LEVANTAMENTO SÓCIO-AMBIENTAL DO ACAMPAMENTO ELISABETE TEIXEIRA, LIMEIRA/SP: SUBSÍDIOS AO INCENTIVO DE PRÁTICAS AGROECOLÓGICAS Orientador: BERNADETE AP. C. C. OLIVEIRA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Câmpus de Rio Claro, para obtenção do grau de Ecólogo. Rio Claro 2008 630 S586L Silva, Rafaela Aparecida da Levantamento sócio-ambiental do acampamento Elisabete Teixeira, Limeira – SP / Rafaela Aparecida da Silva. – Rio Claro: [s.n.], 2008 104 f. : il., figs., tabs. Trabalho de conclusão (Ecologia) – Universidade Estadual Paulista, Instituto de Biociências de Rio Claro Orientador: Bernadete Aparecida C.C. Oliveira 1. Agricultura. 2. Agroecologia. 3. Assentamento e acampamento rural. 4. Conhecimento local. 5. Preservação da natureza. I. Título. Ficha Catalográfica elaborada pela STATI - Biblioteca da UNESP Campus de Rio Claro/SP AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à professora Bernadete Castro pela sua orientação neste trabalho. Mais do que isso, agradecê-la pela amizade, conselhos, incentivos, oportunidades e cafés durante todo este tempo em que trabalhamos juntas. Ela sempre foi paciente e sempre esteve disposta a me ajudar. Bernadete, muito obrigado de coração! E que o trabalho não pare por aqui... Sou eternamente grata também à professora Dalva Bonotto, que foi minha primeira orientadora na universidade. Dalva, você foi essencial à minha formação como ecóloga. Porém, nada disso estaria acontecendo se não fosse pelos meus pais. Foram eles que sempre me apoiaram e incentivaram durante toda a graduação, tornando este sonho possível. Agradeço também a minha irmã, que é a IRMÃ e a Aninha, que é a SOBRINHA. Agradeço à turma de 2004. Meu, vocês foram incríveis, e vou levá-los pela vida. Por isso que eu digo: “vamo lá, vamo lá, vamo lá galera vamo lá. Força, coragem e fé!!!!” e logicamente: “1, 2, 3, quaaaaaaaatro, 4, 4, 4, 4...2004!” Meus queridos amigos, obrigado por existirem: But (Príncipe!), Julia (Julião), Claudia, Jana, Mari (Japa), Pacífico, Yuri, Sayuri, Lika, Pavão, Savana, Monique, Maria Alice, Juliana, Natália (Ingrates), Soraya, Chewbaquinha, Hélio Hermínio, EEEEEElson, Nativo, Marina, Pablo, Déa, Pituxa, Zeca, Capote, Ivo, Meire, Dedê, e todos os outros que eu não coloquei o nome. Com vocês, a UNESP é muito mais legal! E como poderia ficar sem falar do Fórum: Jane, a amiga mais louca que já tive nesta vida e acho que em outras também, te adoro menina! Manu, a carioca que já está falando o rioclarense melhor do que eu, você sabe que mesmo a gente não pensando igual em quase nada, eu adoro você! Thaís, a minha irmã gêmea (segundo alguns loucos), você é muito especial, gosto de você para mais de metro, até porque você é uma das únicas que acredita nos meus dotes como goleira. Carla, a mais centrada das 7, no entanto, tão louca quanto, mas com o agravante de transmitir muita segurança. E é amiga, e não é pouco não, é muito! Carol RA, filha minha, sem palavras para falar de você, amiga de danças esquisitas, a minha co-orientadora não oficial, e amiga para toda a hora, e o melhor: besta como eu, no melhor sentido da palavra. Limps, (Letícia), eu sempre pude contar com você. Até quando estava na Alemanha! Você sabe, eu adoro a sua pessoa, porque além de minha amiga do coração, é a mamis que você escolheu para mim. E já está sabendo, filho a gente nunca abandona. Meninas vocês são para sempre!!!!!!!!!!! Faço também um agradecimento a uma pessoa que foi muito importante para a conclusão deste trabalho, dando força nos momentos em que eu achava que nada iria dar certo, que me mandava parar de enrolar e me concentrar e também pelas correções, que não foram poucas: Helena, muito obrigada! Você tem me dado muita força. Ah, você sabe...Valeu mesmo! Pessoas que me ajudaram nas entrevistas, agradeço muito a vocês. Não só pela ajuda, mas, principalmente, por serem meus amigos: Caramelo, Frei, Biz, Issa, Say, Natasha, Xena, Tertúlio, Beraba... Gente, sem vocês eu nunca teria feito esse TCC em um ano, talvez em dez, vinte, mas em um jamais!!!! Além destas pessoas, tiveram outras três que, na verdade, nem sei como expressar a importância que tiveram nesse trabalho: Marina (Japa), mas que para mim é a Rédea, Thaisão, minha seguidora (até parece!) e Baiano. Vocês foram muito importantes e tiveram participação essencial, especial, inenarrável!!!! Em todo o processo, gente, eu estou falando da graduação toda. Para vocês o meu muito obrigado e aquele abraço! Agradeço também a Bete, do Deplan, que sempre está disposta a ajudar a todos os desesperados. E por fim, agradeço a todos os acampados do Acampamento Elisabete Teixeira, sem o apoio e a colaboração de vocês esse projeto seria inviável. Espero, realmente, que nosso trabalho não se limite a esse TCC! Vocês foram os personagens principais disso tudo. SUMÁRIO Página RESUMO....................................................................................................................................6 1. INTRODUÇÃO..................................................................................................................... 7 1.1. Agricultura convencional ou moderna............................................................................7 1.2. Agroecologia ................................................................................................................11 1.3. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) .......................................13 1.4. O Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) .....................................................15 1.5. Experiências do MST com a agroecologia ..................................................................17 2. OBJETIVOS........................................................................................................................ 18 3. MATERIAIS E MÉTODOS................................................................................................ 19 3.1. Área de Estudo............................................................................................................ 19 3.2. Acampamento Elisabete Teixeira................................................................................ 20 3.3. Levantamento Sócio-Ambiental.................................................................................. 23 3.4. Público alvo................................................................................................................. 25 4. RESULTADOS OBTIDOS................................................................................................. 26 4.1. Caracterização dos sujeitos da pesquisa e dos moradores do Elisabete Teixeira........ 26 4.2. O sustento atual........................................................................................................... 34 4.3. Problemas.................................................................................................................... 35 4.4. Vantagens e/ou facilidades.......................................................................................... 38 4.5. Culturas e criações....................................................................................................... 39 4.6. O sustento e a propriedade no futuro.......................................................................... 43 4.7. Agroecologia e agricultura.......................................................................................... 46 4.8. Natureza e meio ambiente........................................................................................... 47 4.9. “Lixão”: o aterro sanitário de Limeira......................................................................... 56 4.10. Solos...........................................................................................................................57 4.11. Pragas e Doenças....................................................................................................... 62 4.12. Agrotóxicos ...............................................................................................................63 4.13. Algumas práticas agroecológicas ..............................................................................63 4.14. Sonho ........................................................................................................................67 5. OFICINAS REALIZADAS NO ACAMPAMENTO ELISABETE TEIXEIRA ................68 5.1. A mulher na zona rural ...............................................................................................72 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ...............................................................................................74 7. REFERÊNCIAS ...................................................................................................................76 8. ANEXOS............................................................................................................................ 81 8.1 Anexo A - Roteiro das entrevistas........................................................................... 82 8.2. Anexo B - Cartilha da Oficina 1: Agricultura e Meio Ambiente............................ 94 8.3. Anexo C - Cartilha da Oficina 3: Solos .................................................................100 6 RESUMO Esta pesquisa teve como objetivo o levantamento sócio-ambiental dos moradores do Acampamento Elisabete Teixeira, localizado no município de Limeira (SP), identificando a trajetória de vida, as relações com a terra e com o meio ambiente, as pretensões futuras, entre outros aspectos. Através dos dados obtidos foi possível elaborar oficinas que subsidiaram o incentivo às práticas da agroecologia, valorizando o conhecimento local e a preservação ambiental. Também foram elaboradas cartilhas com a intenção de difundir, entre os acampados, os conhecimentos e os temas abordados nas oficinas. As metodologias utilizadas foram a pesquisa-ação participativa e entrevistas semi-estruturadas. Os resultados deste trabalho mostram que os acampados têm sua origem relacionada ao campo e que antes da vinda para o acampamento residiam em municípios vizinhos à cidade de Limeira. No Elisabete Teixeira as atividades prioritárias estão relacionadas à produção e à criação agrícola, com o intuito da soberania alimentar da família. Com relação aos desejos futuros, o maior deles é a conquista da terra, para a produção e a reprodução familiar. Esta pesquisa também apontou um fato importante durante as oficinas, a participação efetiva das mulheres no acampamento. Nas oficinas também houve um reconhecimento por parte destas mulheres com relação aos seus conhecimentos e práticas na agricultura e no meio ambiente. Esta pesquisa apontou a importância de se investigar os saberes e práticas camponesas, atrelando-os aos conhecimentos científicos advindos dos estudos e pesquisas acadêmicas, e abriu possibilidades para a construção de novas propostas de trabalhos entre acampados e pesquisadores no sentido da consolidação da reforma agrária. Palavras-chave: agroecologia, assentamento e acampamento rural, conhecimento local, preservação da natureza. 7 1. INTRODUÇÃO 1.1. Agricultura convencional ou moderna A partir do século XIX a lógica existente em cultivar respeitando as leis da natureza foi deixada de lado em virtude da disseminação dos conhecimentos da química agrícola. Começou-se a pensar, portanto, que a agricultura moderna seria necessária e que a prática de algumas ações conservacionistas poderia contornar o impacto negativo que ela causaria na natureza (ASSIS, 2005). Esse autor afirma que houve um evidente aumento na produção de alimentos e na disponibilidade desses por habitante entre os anos de 1950 e 1984. Porém, a partir daí observou-se um declínio na produtividade agrícola mundial, com o agravante da ocorrência de problemas ambientais. No Brasil, esta agricultura moderna ou convencional acarretou o surgimento e/ou o agravamento de diversos problemas, principalmente de ordem social e ambiental. À medida que tais questões ganharam importância, foram percebidas em toda sua extensão. As estratégias da agricultura convencional, segundo Altieri (2001), são limitantes em sua capacidade de promover um desenvolvimento sustentável. Por isso, não são capazes de atingir os mais pobres e nem de resolver problemas de fome, desnutrição e as questões ambientais. O modelo agrícola convencional visa o lucro e a produção máxima, não se importando com suas conseqüências a médio e longo prazo e desconsiderando a dinâmica ecológica dos agroecossistemas. Para atingir seus objetivos, utiliza práticas que contribuem com a perda da biodiversidade, tornando o ambiente mais susceptível ao ataque de pragas. Acarretando um uso mais intenso de fertilizantes e outras formas de energia externa. Constitui-se assim um “ciclo vicioso”, já que os agricultores tentam remediar os problemas causados, sem perceber que cada vez mais ficam dependentes destes produtos (FERNADES, RIBEIRO e AGUIARMENEZES, 2005; FORNARI, 2002). Dentre as práticas convencionais, merecem destaque: 8 Cultivo intensivo do solo Prática que permite uma melhor drenagem do solo, com crescimento rápido das raízes que facilitam a aeração e a semeadura, além de controlar as ervas adventícias. Quando o cultivo intensivo é combinado com rotações de curta duração, as regiões aradas ou cultivadas diversas vezes no ano podem ficar longos períodos sem cobertura. Ocorre então um comprometimento da fertilidade do solo, devido à perda de matéria orgânica. O uso constante de máquinas pesadas acelera a compactação do solo, aumentando a erosão (GLIESSMAN, 2005). Monocultura Permite ao agricultor plantar a mesma cultura em escalas muito extensas, obtendo economia na compra de sementes, fertilizantes e equipamentos, além de favorecer o uso de máquinas para preparar o solo. O agricultor gasta menos com mão-de-obra, permitindo um maior investimento em tecnologias que potencializem a produção. Por existir apenas uma cultura, a área torna-se mais suscetível aos ataques de pragas e doenças específicas, o que incentiva o uso de agrotóxicos (GLIESSMAN, 2005). Fertilizantes Sintéticos: A aplicação destes produtos supre as necessidades nutricionais das plantas em curto prazo, já que seus componentes minerais são lixiviados com certa facilidade. Desta forma, os agricultores desconsideram a fertilidade do solo e os processos que o mantém (GLIESSMAN, 2005). Quando a plantação é irrigada, o problema torna-se mais grave, pois os componentes minerais destes fertilizantes podem atingir os corpos d’água (causando a eutrofização) e chegar ao lençol freático. Irrigação: Quando a quantidade de água disponível é insuficiente para o desenvolvimento máximo da planta, a irrigação é recomendada. A utilização de um sistema de irrigação permite uma produção regular durante o ano, evitando problemas com a sazonalidade das chuvas. Com isso, além da maior garantia de safra, a produtividade da planta aproxima-se de seu máximo potencial e ainda há a melhoria na qualidade dos produtos colhidos (ROQUE, 2007). 9 Ainda segundo esse autor, os diversos projetos de irrigação não apresentam planejamento apropriado e, depois de implantados, são conduzidos sem a devida preocupação com o manejo e com as operações adequadas, acarretando numa baixa eficiência, que compromete a expectativa de aumento da produtividade. Assim, se realizada de forma errada, a irrigação, como já explicitado anteriormente, contribui com a lixiviação de fertilizantes da lavoura para os corpos d’água, além de aumentar a taxa de erosão do solo. Também é prejudicial ao se utilizar água subterrânea, já que quando retirada em quantidade maior do que reposta pela chuva, o nível do lençol freático diminui. Conforme Gliessman (2005), a agricultura é uma das maiores consumidoras de água do mundo. Tal fato deve-se ao desperdício, já que grande parte da água utilizada não é absorvida pelas plantas. Em locais com irrigação intensa, há mudanças na hidrografia e no microclima, prejudicando a vida animal. Uso de agrotóxicos para o controle de pragas e de ervas adventícias: Os agrotóxicos podem baixar a população de pragas que atacam uma lavoura, matando também os predadores naturais dessas. No entanto, as pragas que sobrevivem podem recuperar-se e chegar a uma população maior e mais resistente à anterior, obrigando o agricultor a fazer uso mais intenso do produto em questão. Segundo Gliessman (2005), quando aplicados na plantação, os agrotóxicos são lavados e lixiviados para a água superficial e subterrânea. Entram na cadeia alimentar afetando os animais em todos os níveis tróficos, podendo persistir por décadas. O uso do agrotóxico mantém o desequilíbrio - seja ele causado pelo metabolismo das plantas, pela constituição físico-química e biológica do solo ou pelas cadeias tróficas - que originou o ataque destes organismos. Portanto, mantendo a causa, os efeitos prejudiciais voltarão, exigindo aumento na freqüência e na dose aplicada (FERNANDES, RIBEIRO e AGUIAR-MENEZES, 2005). Manipulação de genomas de plantas: A manipulação de genomas de plantas gerou sementes híbridas mais produtivas do que suas variedades semelhantes não híbridas. As variedades híbridas são mais exigentes para seu sucesso reprodutivo, necessitando de intensa aplicação de fertilizantes inorgânicos. Em contrapartida, são menos resistentes e exigem maior quantidade de agrotóxicos para protegê- 10 las de pragas, além de não produzirem sementes com o mesmo genoma que as plantas que lhe deram origem, fazendo com que os agricultores dependam de produtos comerciais (GLIESSMAN, 2005). Impacto na biodiversidade Pode-se constatar que a biodiversidade não foi e não é levada em conta em nenhum aspecto no processo produtivo convencional, sendo ignorados também seus aspectos positivos na agricultura. Altieri (2002) afirma que deve-se manter e aumentar a biodiversidade nos agroecossistemas, pois ela desempenha importantes funções ecológicas, como: reciclagem de nutrientes; controle microclimático; controle de processos hidrológicos e da população de organismos indesejáveis. De acordo com esse autor, a biodiversidade é importante nos limites entre as áreas cultivadas, pois possibilita hábitat favorável e alimento à fauna e aos insetos benéficos, além de modificar a velocidade do vento e o microclima local. Impacto nas relações sociais A desigualdade social também se intensifica neste modelo de produção agrícola, pois os benefícios não são distribuídos igualmente. Os agricultores de subsistência são deslocados pelos grandes produtores de exportação para terras marginais, resultando em desmatamento, erosão e danos sociais e ecológicos severos. De acordo com Gliessman (2005), este sistema de agricultura também é responsável pelo aumento das relações de dependência aos países desenvolvidos. A mão-de-obra humana é trocada por máquinas, levando a população rural para as cidades. Desta forma, a população que antes era capaz de produzir o próprio alimento e ainda vender algum excedente para a população urbana, torna-se dependente de outras fontes de alimentação. E, para suprir as necessidades da crescente população urbana, aumentam as importações de produtos, principalmente de países desenvolvidos. A solução seria o emprego de uma agricultura sustentável que utilizasse práticas agrícolas baseadas nos processos ecológicos (nas áreas produtivas e ao seu redor), gerando lucro e produtividade suficientes para suprir as necessidades dos agricultores (GLIESSMAN, 2005). 11 1.2. Agroecologia Segundo Gliessman (2005), uma agricultura sustentável é aquela que tem menores efeitos negativos no ambiente; preserva e recompõe a fertilidade do solo (prevenindo-o da erosão e mantendo suas características ecológicas); conserva a biodiversidade e dependa dos recursos internos dos agroecossistemas. Dessa forma, é garantida a igualdade de acesso às práticas, conhecimentos e tecnologias agrícolas adequadas, que possibilitam o controle local dos recursos agrícolas. Ainda segundo esse autor, estes aspectos podem ser encontrados na agroecologia que é a aplicação de conceitos e princípios ecológicos no desenho e manejo de agroecossistemas sustentáveis. A agroecologia proporciona o conhecimento e metodologia, necessários para desenvolver uma agricultura que é ambientalmente consistente, altamente produtiva e economicamente viável (...), ela valoriza o conhecimento local e empírico dos agricultores, a socialização desse conhecimento e sua aplicação ao objetivo comum da sustentabilidade (pág. 54). Para Altieri (2002), os modelos de agricultura sustentável devem combinar elementos da agricultura tradicional com o conhecimento científico moderno. É necessário, também, o reconhecimento dos governos de que o conhecimento da população rural é o principal recurso. Esta agricultura deve contribuir com o desenvolvimento rural e com a igualdade social, sendo seu objetivo principal a estabilidade de produção em longo prazo. Conforme Altieri (2001), a agroecologia incentiva os pesquisadores a conhecer as técnicas dos agricultores e a desenvolver agroecossistemas com a mínima dependência de insumos externos. Ela trabalha com as interações entre os componentes biológicos para aumentar a fertilidade do solo e sua produtividade, além da proteção das culturas. No entanto, “as complicações sociais e os preconceitos políticos mais do que os de ordem técnica, são as principais barreiras na transição para sistemas agrícolas de baixo consumo de energia e uso intensivo da mão-de-obra” (ALTIERI, 2002). Um dos obstáculos que pode ser encontrado para a prática agroecológica é que as grandes empresas agrícolas não têm interesse em tecnologias que preservem o meio ambiente e não lhes retornem o lucro estimado após os altos investimentos nas atuais tecnologias. Outros fatores, apontados por Altieri (2002), que agravam este quadro são que as técnicas sustentáveis devem ser específicas para cada local. Durante a fase de transição, a produção e a qualidade do produto podem variar e gerar irregularidades na colheita, inibindo 12 os investimentos, comprometendo os lucros dos produtores e suas relações com os atacadistas. Importância da população rural Altieri (2001) afirma que o conhecimento de grupos locais com relação ao meio ambiente pode ser bastante detalhado, resultando na criação de estratégias produtivas de uso da terra e, dentro de alguns limites ecológicos e técnicos, na auto-suficiência alimentar das comunidades locais. Agroecologia e saber local são propostas de vários movimentos sociais no campo, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e a Via Campesina. Numa agroecologia participativa, os objetivos econômicos, sociais e ambientais devem ser definidos pela comunidade rural local e implementados às tecnologias de baixo uso de insumos externos, para que haja o crescimento econômico, a igualdade social e a preservação ambiental (ALTIERI, 2001). Uma característica dos plantios realizados por agricultores tradicionais é a grande diversidade de culturas, o uso de sistemas agroflorestais (SAF’s) e a prática de rotação de culturas. Esses produtores utilizam seus conhecimentos e os recursos disponíveis para obter uma colheita farta e diversificada e para não correr o risco de perder todo o plantio devido ao ataque de pragas. É uma atividade que exige tecnologia e gasto mínimo, além de garantir uma boa qualidade do solo. Para manter esta diversidade, também realizam trocas de sementes com outros produtores. De forma geral, Altieri (2001) aponta quatro aspectos dos sistemas tradicionais relevantes para a agroecologia: os conhecimentos sobre o meio ambiente local; o nome tradicional de determinada espécie (pode apontar sua importância ou função naquela comunidade); a natureza experimental do conhecimento tradicional (que não é resultado apenas de observações) e o conhecimento de práticas agrícolas. Policultivo na agroecologia O policultivo contribui com a saúde do solo. A tendência de algumas culturas em gastar todo o nutriente por ele oferecido é compensada pelo cultivo intercalado com outras espécies, o que o enriquece com matéria orgânica e garante uma produção regular e variada. Esta diversidade também pode reduzir a disseminação de pragas e modificar as 13 condições ambientais, como temperatura e luminosidade. Dessa forma, torna-as menos favoráveis à proliferação de doenças. O rendimento por hectare é mais alto em policultivos do que em monocultivos, mesmo se a produção individual de cada um dos componentes for reduzida. O consórcio entre leguminosas e outras espécies contribui para a preservação da fertilidade do solo, já que o nitrogênio contido nas leguminosas incrementa o existente no solo. O consórcio de diferentes espécies cria habitats para os inimigos naturais de pragas e patógenos. Há também a manutenção das relações ecológicas entre os seres vivos da lavoura, em virtude da diversidade de funções ecológicas (ALTIERI, 2001; FERNANDES, RIBEIRO e AGUIAR-MENEZES, 2005). Segundo Altieri (2001), o policultivo minimiza a sobreposição de nichos entre as espécies associadas, diminuindo a competição por recursos. 1.3. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) A agricultura convencional favorece principalmente os grandes latifundiários, que monopolizam a produção e concentram a terra. No caso da estrutura fundiária brasileira, herdada do regime de capitanias/sesmarias e pouco alterada durante esses anos, a concentração de terras nas mãos de poucos foi intensificada (OLIVEIRA, 1994). Esse fato deu origem aos movimentos sociais que buscam a reforma agrária, que de acordo com Bittencourt (1998), visa “além da distribuição da terra, necessariamente o acesso a políticas de infra-estrutura básicas e agrícolas, que permitam a implantação de um sistema produtivo viável, e o acesso a benefícios sociais, que promovam a justiça social e a cidadania”. Na luta pela reforma agrária surgiu o MST, que atualmente age em diversos estados brasileiros. Para atingir seu objetivo, enfrenta problemas relacionados ao interesse de grandes proprietários e a sua imagem perante a sociedade (questão existente devido ao favorecimento ocasional dado aos latifundiários pelos meios de comunicação). O MST é a principal forma de organização social na luta pela terra e pela reforma agrária no país (FERNANDES, 1996). Segundo esse autor, a propriedade da terra é uma relação social que envolve trocas, conflitos e movimentos. Caracterizada por processos desiguais e conflitantes, já que em 14 contrapartida à dominação, expropriação e exploração realizada pelos latifundiários, há subordinação, resistência e libertação por parte dos trabalhadores rurais. A luta pela reforma agrária não visa apenas à distribuição de terras. Envolve a construção de organizações sociais, que possibilitam a conquista da terra, a propriedade coletiva dos meios de produção e o desenvolvimento de novas experiências (FERNANDES, 1996). O surgimento dos movimentos sociais no Brasil Durante os governos militares pós-64, houve o incentivo do desenvolvimento capitalista no campo. As condições necessárias para uma política agrária que favorecesse grandes empresas através de incentivos financeiros foram criadas. Segundo Fernandes (1996), a política agrária da ditadura possuía um projeto de reforma agrária que se transformou no Estatuto da Terra. O Estado manteve a questão agrária sob o controle do poder central, e o Estatuto impediu o acesso à terra aos camponeses, sendo ele estratégico para o controle das lutas sociais. Em 1970, o governo militar criou o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), fortalecendo grandes grupos econômicos. Iniciaram, também, as campanhas do Projeto Rondon, no qual a sociedade foi fortemente influenciada pelos meios de comunicação em massa, que escondiam em suas propagandas a verdadeira intenção do governo de não interferir no processo de aquisição de terras por estrangeiros e ainda incentivá-la através da política dos projetos agropecuários (FERNANDES, 1996). Os governos ditatoriais reprimiram as lutas pela terra. Assim, o governo militar realizou sua política agrária promovendo a modernização técnica no campo, sem alterar a estrutura fundiária. De acordo com Fernandes (1996), no início dos anos 70, os trabalhadores encontravam-se nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) para se organizar na luta contra as injustiças e por seus direitos. Mesmo tendo apoiado o golpe de 64, a Igreja mudou de posição, e o envolvimento de alguns sacerdotes com a realidade dos trabalhadores (assim como o surgimento das CEB’s como lugar de reflexão), modificou as relações políticas em diversas localidades. As CEB’s tornaram-se um espaço de socialização política, onde as famílias reuniam-se para se conhecerem e pensar sobre o seu papel na sociedade. O crescimento da luta e da organização dos trabalhadores rurais era notado em todo o país. As várias ocupações de terra realizadas resultaram na fundação do MST, em 1984, na 15 cidade de Cascavel, no Paraná. Como objetivos principais: o combate a todas as formas de discriminação social e a busca pela participação igualitária da mulher. De acordo com Fernandes (1996, p. 121), a presença da família, durante toda a luta, possibilitava a criação de novas e ricas experiências, especialmente pelo grau de união e de integração da luta, por meio da criação de comissões na organização do acampamento, além da participação das mulheres como lideranças, fortalecendo o movimento. Os movimentos sociais no Estado de São Paulo Entre 1970 e 1980, a política econômica provocou mudanças no campo paulista. Houve um aumento na taxa de êxodo rural, diminuição do trabalho familiar e crescimento do trabalho assalariado. O aumento do número de posseiros, nos anos 80, relacionou-se ao avanço da luta pela terra e ao crescimento do número de ocupações. Nesse período, as conquistas aconteceram em terras públicas, já que o governo instalou assentamentos rurais em terras do Estado. A maior parte das conquistas resultou da organização dos movimentos sociais, que ocuparam diversas áreas, obrigando os governantes a regularizar suas situações. Em São Paulo pode-se observar uma grande diversidade nas políticas fundiárias, que originaram os assentamentos rurais devido a uma conflituosa origem política (BERGAMASCO e NORDER, 1999). A gênese do MST em São Paulo está registrada na luta dos posseiros da Fazenda Primavera contra a expropriação e a exploração. São características básicas das lutas que contribuíram para a formação do MST no estado: a superação das relações de dependência e a conquista de um espaço próprio. 1.4. O Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) O PDS é uma modalidade de projeto de assentamento de interesse sócio-econômicoambiental destinado às populações que desenvolvem ou estejam dispostas a desenvolver atividades de baixo impacto ambiental, baseando-se na aptidão da área (INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA, 2008). Nesta modalidade, o assentamento, segundo Goldfarb (2007), é constituído por pessoas que viveram muitos anos em grandes centros urbanos (ou nas cidades vizinhas), não possuindo um passado recente ligado a terra. Além de ser implantado em áreas próximas aos grandes centros urbanos, utiliza a agroecologia e a cooperação como diretrizes na produção. 16 No PDS, a propriedade permanece sempre com a União, não sendo permitida a sua divisão em títulos individuais. Os beneficiários garantem o direito de acesso a terra através da Concessão de Direito Real de Uso, a qual é sempre firmada de forma coletiva (INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA, 2008; GOLDFARB, 2007). Há também um termo de compromisso ambiental característico para cada PDS. De acordo com seu Plano de Utilização (PU), são estabelecidas as obrigações do assentado relativas ao meio ambiente. De acordo com Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (2008), esta modalidade é planejada através de um processo participativo entre INCRA, assentados e outros parceiros. Os assentados discutem e planejam suas necessidades e prioridades com o apoio e consentimento dos parceiros. Assim, o assentamento não é apenas uma unidade produtiva, mas também um espaço onde é possível unificar as práticas agrícolas ao desenvolvimento social e econômico das famílias, visando também à preservação da natureza. Ainda segundo este autor, o PU é o documento definidor dos rumos do desenvolvimento do PDS, e aborda e define diferentes aspectos, como os prazos e o processo de transição agroecológica na produção do assentamento. Nesse documento serão igualmente estabelecidas as áreas de uso, coletivas e individuais, a serem aprovadas pela comunidade e parceiros. Com relação à legislação, há um contrato de concessão real de uso que será renovado a cada 5 anos, para garantir o cumprimento das atividades previstas no PU; e um termo de compromisso ambiental, assinado pelo coletivo das famílias, responsabilizando-o pelo gerenciamento da área total do PDS (INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA, 2008). Os lotes dos assentamentos do PDS geralmente são menores do que os dos assentamentos convencionais. De acordo com Goldfarb (2007), isso ocorre devido a dois fatores: O primeiro estipula o recebimento das parcelas de uso individual e coletivo pelas famílias; e o segundo, que as áreas serão reduzidas, devido à proximidade dos grandes centros urbanos. Entretanto, esse fato favorece o trabalho com hortifrutigranjeiros, o que permite uma maior agregação de valor aos produtos, compensando a menor área explorada. 17 1.5. Experiências do MST com a agroecologia O MST participa ativamente de encontros que abordam a reforma agrária, a agroecologia e a soberania alimentar dos povos. Para alcançar essa última, acredita-se ser necessário realizar a reforma agrária, ter acesso a produtos saudáveis (livres de produtos químicos), sendo fundamental a implementação da agroecologia. (STEFANO, 2007). Além disso, estimula a participação dos assentados nos Encontros Nacionais de Agroecologia e das crianças em eventos que a promovam (MST, 2006). Através desse envolvimento, os assentados notaram a importância das trocas de experiências e o sucesso daqueles que optaram pela produção orgânica (sem agrotóxicos). Além das plenárias, oficinas temáticas e seminários, os participantes organizam a Feira de Saberes e Sabores, onde podem expor a produção realizada por meio de técnicas agrícolas sem o uso de agrotóxicos e organismos geneticamente modificados (MST, 2007). Além dos incentivos do próprio movimento, os agricultores contam com a ajuda de instituições para a realização das práticas agroecológicas. A Embrapa, por exemplo, realiza treinamentos, capacitações e técnicas a fim de desenvolver plantas especiais para a agricultura familiar em assentamentos (EMBRAPA, 2005; EMBRAPA, 2006) e através do Projeto Embrapa Arroz e Feijão (FEIJÕES, 2002); O Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) auxilia com o Projeto Café com Floresta (O PROJETO, 2007). 18 2. OBJETIVOS Este trabalho tem como objetivos: • Levantamento sócio-ambiental dos acampados, identificando a trajetória de vida, relações com a terra, com o meio ambiente, pretensões futuras, entre outros aspectos; • Elaboração de oficinas, através da análise dos dados, que subsidiem o incentivo às práticas da agroecologia, valorizando o conhecimento local e a preservação ambiental; • Elaboração de cartilha, com a intenção de difundir, entre os acampados, os conhecimentos e os temas abordados nas oficinas. 19 3. MATERIAIS E MÉTODOS 3.1. Área de Estudo No estado de São Paulo há muitos assentamentos e acampamentos liderados pelo MST. Entre eles está o acampamento Elisabete Teixeira, no município de Limeira, onde o presente trabalho foi realizado. A área de 602,8676 ha, ocupada desde 21 de abril de 2007, está localizada no imóvel rural próprio da União, denominado Horto Florestal Tatu. O acampamento encontra-se no centro-leste do Estado de São Paulo, a 154 km da capital paulista, entre as coordenadas geográficas 22º27’S e 22º44’S e 47º12’W e 47º30’W. O município de Limeira faz limites com as cidades de Americana, Piracicaba, Santa Bárbara D’Oeste, Iracemápolis, Cordeirópolis, Cosmópolis, Araras e Arthur Nogueira (ROSSINI, 2001). Limeira pertence à região nordeste na Regionalização das Dinâmicas Agropecuárias do Estado de São Paulo, envolvendo as mesorregiões de Campinas e Piracicaba. É altamente industrializada, com elevada densidade demográfica, caracterizando uma população com renda elevada e alto grau de escolaridade. A localização permite o acesso fácil aos mercados consumidores da região metropolitana de Campinas e de São Paulo, assim como as principais vias de exportação, seja aérea ou marítima. Isso permite a prática de atividade de alto valor no mercado, como a produção de orgânicos (INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA, 2008). Ainda segundo esse autor, apesar de ser uma grande região produtora de cana-deaçúcar e laranja, é crescente a diversificação de culturas, principalmente com a fruticultura (tangerina, limão, uva, manga), olericultura e floricultura. Destaca-se o cultivo de produtos orgânicos, hortaliças, caqui, uva, jabuticaba, frutas da mata atlântica (sapoti), leite e produtos processados, como o iogurte orgânico. A produção orgânica é favorecida pelo clima seco (favorece o cultivo de frutas orgânicas) e pela proximidade com a capital, o que não encarece o transporte. 20 3.2. Acampamento Elisabete Teixeira Atualmente, o acampamento conta com aproximadamente 80 famílias e é organizado em setores (saúde, educação e alimentação), criados de acordo com a necessidade dos acampados. A coordenação dos setores fica a cargo de um homem e de uma mulher, para que esta também participe das decisões do acampamento. A área é cercada por cana-de-açúcar, existindo alguns fragmentos de mata. Há aproximadamente quatro nascentes no acampamento. A água das nascentes e do córrego é usada em atividades domésticas e de consumo humano, porém é desconhecida a qualidade da mesma. A infra-estrutura das casas é precária (Figura 1). São construídas com lonas, geralmente da cor preta, e madeira. O uso da lona dificulta a permanência nas casas, chamadas por eles de “barracos”, pois esquenta demais durante o dia (devido ao sol intenso), tornando-se muito fria no decorrer da noite. Os barracos de madeira proporcionam um pouco mais de conforto e geralmente pertencem a acampados que, na cidade, trabalhavam na construção civil. Foto: Rafaela Silva, 2008 Figura 1 - Vista da condição dos barracos O acampamento é dividido em núcleos. Atualmente existem 5 núcleos, compostos no máximo por 20 casas cada. Entretanto, nem todos possuem o número máximo permitido, pois no decorrer do processo muitas famílias desistiram e deixaram o Elisabete. Todas as casas são identificadas pela letra “N” seguida de um número, representando o núcleo ao qual ela 21 pertence; e pela letra “B”, seguida por outro número, que identifica o número do barraco (Figura 2). Foto: Bernadete Castro, 2008 Figura 2 – Identificação dos barracos No Elisabete Teixeira há um barracão, onde são realizadas todas as atividades relacionadas à vida social dos acampados, como assembléias, reuniões e cursos. Foi construído em um mutirão, conforme pode ser visto na figura 3. Foto: Rafaela Silva, 2008 Figura 3 - Mutirão realizado para a construção do barracão O despejo e a conquista da terra Os acampados do Elisabete Teixeira ocuparam a área até o dia 29 de novembro de 2007, quando foram expulsos de forma violenta pela Polícia Militar, que cumpria uma ordem de reintegração de posse da área requerida pelo prefeito municipal de Limeira. A posse da 22 área foi solicitada com base em um "Instrumento Prévio Regulamentador de Intenção de Venda e Compra", de 22 de março de 2005, entre a Prefeitura Municipal de Limeira e a Rede Ferroviária Federal S. A. (RFFSA), proprietária do imóvel. Conforme depoimentos de acampados, durante a ação de despejo algumas pessoas foram feridas. Muitas famílias perderam todos os móveis, roupas e documentos, soterrados pelas máquinas da prefeitura, igualmente responsáveis pela destruição dos barracos. As famílias abrigaram-se em um barracão da Igreja Católica, em Limeira. No dia 11 de dezembro, após estudos sobre o caso e confirmação da não concretização do acordo entre a Prefeitura de Limeira e a RFFSA, as famílias puderam voltar ao Horto Tatu, já que a área era realmente da União (GLASS, 2007). No entanto, os acampados viviam com o medo de novo despejo e com a incerteza da conquista da terra. No dia 21 de agosto de 2008, foi aprovada a proposta de destinação da área do Horto Tatu para o assentamento de agricultores, prevendo a criação de 150 propriedades familiares (PORTARIA, 2008). Vegetação Segundo o relatório elaborado pelo INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA (2008), a vegetação da região do acampamento é uma associação de cerrado com floresta estacional semidecidual e floresta estacional semidecidual. De acordo com Attanasio, Gandolfi e Rodrigues (2007), as florestas estacionais semideciduais possuem uma característica marcante: a queda de parte das folhas, resultado de uma adaptação fisiológica à deficiência hídrica e à queda de temperatura em determinadas épocas do ano. As árvores são altas (20 a 25 metros) e caracterizadas por madeiras de lei, como o cedro (Cedrela sp.), cabreúva (Myrocarpus frondosus) e jequitibá (Cariniana sp). O cerrado, por sua vez, é considerado um complexo de vegetações com fisionomias e composição florística variáveis, solos com alto teor de elementos tóxicos (alumínio) e menor disponibilidade de água. As fisionomias vegetais variam de cerradão, caracterizado por árvores de 10 a 16 metros, como anjico (Anadenanthera falcata), ipê (Tabebuia spp.) e o jatobá-do-campo (Hymenaea stigonocarpa); até campo limpo, dominado por ervas graminóides nativas cespitosas e subarbustos, cuja altura pode chegar a pouco mais de 1,5 metro (ATTANASIO, GANDOLFI e RODRIGUES, 2007; RESOLUÇÃO, 1995). Também há a ocorrência da vegetação de campo úmido, que pode ser natural ou resultante de interferência humana, em virtude do desmatamento da floresta paludosa. Essa 23 vegetação ocorre em áreas baixas (próximas aos cursos d’água), onde há encharcamento permanente ou temporário, com o aparecimento somente de arbustos e herbáceas, como taboas (Typha dominguensis) e capins (ATTANASIO, GANDOLFI e RODRIGUES, 2007). Recursos Hídricos O acampamento está inserido na Bacia Hidrográfica do Piracicaba/ Capivari/ Jundiaí (UGRHI 05), na sub-bacia do Alto Piracicaba. Na porção leste, a propriedade é cortada pelo Ribeirão Tatu, com nascente no município de Cordeirópolis (INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA, 2008). Devido à intensa ocupação, o ribeirão encontra-se bastante poluído, pois é o destino de rejeitos líquidos domésticos e industriais (ROSSINI, 2001). 3.3. Levantamento Sócio-Ambiental Foi elaborada uma pesquisa com relação à trajetória de vida dos agricultores. Através dela pôde-se captar o processo de memória e reflexão crítica do pesquisado sobre suas vivências ocorridas em condições e conjunturas sociais específicas; valores e expectativas; ideais de vida; e frustrações e sofrimentos em virtude dos fatos vivenciados pelo assentado (VIERTLER, 2006). Também foram questionados a respeito de pretensões futuras (em relação ao que plantar e ao destino da produção) e aspectos que identificassem alguns conhecimentos e a relação dos acampados com o meio ambiente. Para o levantamento destas informações de suma importância para a pesquisa foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, já que estas representam um dos instrumentos básicos para a coleta de dados, dentro da pesquisa que será desenvolvida. Segundo Lüdke e André (1986, p. 33-34), (...) A entrevista semi-estruturada se desenrola a partir de um esquema básico, porém não aplicado rigidamente, permitindo que o entrevistador faça as necessárias adaptações. (...) Na entrevista a relação que se cria é de interação.(...) O entrevistado discorre sobre o tema proposto com base nas informações que ele detém e que no fundo é a verdadeira razão da entrevista. (...) A grande vantagem da entrevista sobre outras técnicas é que ela permite a captação imediata da informação desejada, praticamente com qualquer tipo de informante e sobre os mais variados tópicos. (...) A entrevista semi-estruturada permite correções, esclarecimentos e adaptações que a tornam sobremaneira eficaz na obtenção das informações desejadas. 24 O roteiro das entrevistas (Anexo A) foi elaborado com base nos trabalhos de Costa (2004) e Sasaki (2005). Foram realizadas entrevistas piloto, que identificaram a necessidade de alterações na elaboração das perguntas. Para a realização desta pesquisa foi necessária uma significativa aproximação entre pesquisadora e acampados, pois o trabalho foi elaborado de modo participativo e cooperativo entre as partes. Adotou-se a pesquisa-ação participativa, que, segundo Thiollent (2000) é um tipo de pesquisa social que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo De acordo com Oliveira e Oliveira (1988), o objetivo da pesquisa-ação é a aquisição de conhecimento e de consciência crítica do processo de transformação pelo grupo que está vivendo este processo, para que esse assuma seu papel de protagonista e ator social. Pretendeu-se formar novos conhecimentos através de um conjunto entre os dois lados (comunidade local e pesquisadora). Ainda segundo tais autores, o pesquisador deve adotar uma dupla postura: de observador crítico e de participante ativo. Seu objetivo é colocar as ferramentas científicas de que se dispõe a serviço do movimento social com o qual se está comprometido. Porém, devese estar atento, pois há uma tensão permanente entre o risco de identificação excessiva. Ele pode acabar anulando-o como pesquisador, integrando-se ao grupo e saindo do foco do trabalho; e a necessidade de manter certa distância que possibilite uma reflexão crítica sobre a experiência que estará vivenciando. Porém, não se pode recuar muito. Caso isso aconteça, pode-se perder toda a aproximação conquistada, tornando-se apenas um observador não participante. De acordo com Fals Borda (1988, p. 43) pesquisa participante é a pesquisa da ação voltada para as necessidades do indivíduo que responde especialmente as necessidade de populações que compreendem as classes mais carentes nas estruturas sociais, levando em conta sua aspirações e potencialidades de conhecer e agir. É a metodologia que procura incentivar o desenvolvimento autônomo a partir de bases e uma relativa independência do exterior. Todos estes procedimentos iniciais foram a base de trabalho para a elaboração de oficinas que abordaram temas como a importância de se trabalhar a agricultura de forma conjunta com a natureza, o PDS, solos e outras atividades agroecológicas, assim como discussões a respeito das vantagens destas práticas agrícolas. 25 Também se utilizou um caderno de anotações para registro de observações pertinentes, que não apareceram nas entrevistas. As entrevistas não foram realizadas apenas pela pesquisadora. Houve ajuda e colaboração de outros estudantes do curso de Ecologia e Geografia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, campus de Rio Claro. Essas pessoas seguiram o roteiro com as questões a serem feitas e foram orientadas pela pesquisadora sobre a forma de se conduzir as entrevistas. 3.4. Público alvo Na realização das entrevistas, a pessoa a ser entrevistada não precisava ser, necessariamente, aquela considerada responsável pelo barraco ou futura titular do lote. O entrevistado tinha apenas que ser um membro da família e, naquela ocasião, residir no acampamento Elisabete Teixeira. Porém, cabe ressaltar que, devido ao período de incertezas quanto à conquista da terra e algumas ameaças de novos despejos, algumas famílias-alvo dessa pesquisa deixaram o acampamento. O destino geralmente era outros acampamentos (que significariam maiores certezas) ou mesmo o abandono do Movimento. Outras famílias também se viram obrigadas a deixar o acampamento em virtude de problemas referentes às normas internas do acampamento, não sendo, portanto, relevantes para este trabalho. 26 4. RESULTADOS OBTIDOS 4.1. Caracterização dos sujeitos da pesquisa e dos moradores do Elisabete Teixeira Foram realizadas 77 entrevistas, sendo que 41 (53,25%) foram com pessoas do sexo masculino e 36 (46.75%) do sexo feminino. A faixa etária média dos respondentes é de 45 anos. Entre os homens a média foi de 47 anos e entre as mulheres, 43. Verificou-se quais são os estados e as regiões brasileiras de origem destas pessoas. Observa-se na tabela 1 que a maior parte dos participantes (38,96%) nasceu no estado de São Paulo, seguido pelos nascidos em Minas Gerais (20,78%) e Paraná (15,58%). Porém, ao se analisar as regiões brasileiras (Tabela 2), constata-se que a região sudeste é a origem de 61,07% e a Nordeste de 18,18%. Nesse caso, a região Sul é representada por 16,88%. Tabela 1- Estado brasileiro de origem dos entrevistados Porcentagem Nº de (%) Estado Entrevistados 30 38,96 SP 16 20,78 MG 12 15,58 PR 5 6,49 AL 4 5,19 BA 3 3,90 PE 1 1,30 DF 1 1,30 PI 1 1,30 RJ 1 1,30 SC 1 1,30 SE 2 2,60 Sem resposta 77 100 Total 27 Tabela 2 - Regiões brasileiras de origem dos entrevistados Região Sudeste Nordeste Sul Centro Oeste Sem resposta Total Nº de Entrevistados Porcentagem 47 61,04 14 18,18 13 16,88 1 1,30 2 2,60 77 100 A maior parte dos integrantes do Acampamento Elisabete Teixeira é oriunda de cidades da região, como Campinas, Limeira, Cosmópolis, Sumaré e Americana. Fato visualizado na tabela 3. Tabela 3 - Último município no qual o entrevistado morou antes do acampamento Município Campinas Limeira Cosmópolis Sumaré Americana Araras Ribeirão Preto Outros Total Nº de Porcentagem Entrevistados (%) 21 17 10 7 6 3 27,27 22,08 12,99 9,09 7,79 3,9 2 11 77 2,6 14,29 100 Quando questionados a respeito de como ficaram sabendo do acampamento, alguns respondentes disseram que freqüentavam as reuniões do escritório regional do MST em Campinas. Outros afirmaram que vieram para o Elisabete devido a um convite feito por amigos que também participam da mobilização de ocupação. Os atos e as reuniões que deram origem à ocupação do Elisabete Teixeira ocorreram, principalmente, nas cidades da região. Por isso a ocorrência de tantos acampados residentes em tais municípios. Antes da vinda para o acampamento, as profissões mais exercidas pelos entrevistados, nestes municípios, eram a de pedreiro e/ou ajudante de pedreiro (19,48%), sendo que dentre estes uma é mulher, e a de doméstica (14,23%), exercida exclusivamente por mulheres. Outras profissões citadas foram: dona de casa, metalúrgico, encanador, ajudante de cozinha, 28 lavrador, vendedor, etc. Um acampado afirmou que era assistente administrativo de uma grande rede de supermercados. Mas, após ter conhecido o movimento e seus ideais, e em virtude da participação da mãe no MST, ficou desmotivado em continuar a vida que tinha e decidiu ser militante. Pode-se inferir através desses dados que, a partir do momento em que esses acampados forem assentados (detentores de um pedaço de terra), o assentamento, conforme Bergamasco (1997), será considerado o principal fator de mudança das relações sociais destas pessoas. Elas terão o controle sobre o tempo de trabalho e a forma de uso da terra. Anteriormente, por serem empregados, tal controle não era uma atribuição nas suas relações sociais. A maior parte dos respondentes (36,36%) possui mais de 30 anos da vida trabalhados na zona rural. Das 77 pessoas entrevistadas, somente 25 pessoas têm até 10 anos de trabalho na roça. Em contrapartida, observa-se que também é alto o número de entrevistados em que o primeiro contato com a zona rural coincide com sua permanência no acampamento Elisabete Teixeira. Isto é, 11 entrevistados têm até 1 ano de experiência rural (Tabela 4). Tabela 4 - Tempo de trabalho dos entrevistados na zona rural Tempo Rural Até 1 ano 2-5 anos 6-10 anos 11-15 anos 16-20 anos 21-25 anos 26-30 anos Mais 30 anos Total Nº entrevistados 11 9 5 7 7 6 4 Porcentagem (%) 14,28 11,69 6,49 9,1 9,1 7,79 5,19 28 77 36,36 100 Mesmo com este elevado índice de trabalhadores rurais, nota-se que os moradores do Elisabete Teixeira residiam fora da zona rural antes de ir para o acampamento. Apenas 10 das 77 famílias entrevistadas moravam efetivamente na zona rural (Tabela 5). Com relação a isso, muitos depoimentos foram sobre a dificuldade que tais famílias de origem rural tiveram no passado em permanecer na roça, seja em virtude de arrendamentos 29 que trouxeram prejuízos financeiros, seja pela falta de emprego em fazendas ou por motivos de saúde. Tabela 5 - Local de residência anterior ao acampamento Zona Nº entrevistados 10 Rural 67 Urbana 77 Total Porcentagem (%) 12,99 87,01 100 Foram inúmeras as causas motivadoras da ida para a cidade em busca de melhores condições de vida. No entanto, em muitos casos, tal mudança não foi bem sucedida devido à falta de estudo por parte dos acampados e à conseqüente dificuldade em conseguir um emprego. Situação que fez com que a condição de vida piorasse. Além disso, a convivência com a insatisfação por estar em um lugar que não era o de preferência foi citada, já que tais pessoas preferem o campo em virtude da origem rural e das maiores possibilidades de reprodução da vida doméstica e do seu sustento. Dessa forma, os acampados foram motivados a retornar ao campo, tanto para morar como para trabalhar. Eles viram esta oportunidade no MST, o que fez com que aderissem à luta e ao movimento. Depoimentos parecidos também foram encontrados por Leite et al (2004) em assentamentos do sul da Bahia, sertão do Ceará, entorno do Distrito Federal, sudeste do Pará, oeste de Santa Catarina e na zona canavieira do nordeste. Borsatto et al (2007) também encontraram, no Paraná, depoimentos semelhantes, ou seja, independente da região, este é um perfil característico de grande parte dos acampados e assentados do Brasil. Outro fato a ser observado no acampamento Elisabete Teixeira é que 70 sujeitos da pesquisa (90,91%) estão na área desde o início da luta em Limeira (Tabela 6) e destes, 57 (74,03%) participam de sua primeira ocupação, pois o tempo de luta no MST coincide com o tempo de estadia no Elisabete (Tabela 7). Dentre os participantes, somente 14 já participaram de outras ocupações. Do total, 63 estão nesta luta pela primeira vez. Porém, nem todos estão desde o início no acampamento em Limeira. 30 Tabela 6 - Tempo de acampamento dos entrevistados no Elisabete Teixeira Tempo de Elisabete Nº entrevistados Porcentagem (%) 70 90,91 Desde o início 2 2,60 10 meses 1 1,30 3 meses 1 1,30 5 meses 1 1,30 8 meses 1 1,30 9 meses 1 1,30 Quando saiu do Che Guevara 77 100,00 Total geral Tabela 7 - Tempo de participação dos entrevistados no MST Tempo MST Nº entrevistados Porcentagem (%) 74,03 57 Início do Elisabete 1 1,30 10 anos 1 1,30 8 anos 3 3,90 6 anos 1,30 1 5 anos 2,60 2 4 anos 3,90 3 3 anos 3 3,90 2 anos 2,60 2 10 meses 1,30 1 9 meses 1,30 1 8 meses 1,30 1 5 meses 1 1,30 3 meses 77 100,00 Total geral Praticamente todos os entrevistados participam dos trabalhos considerados coletivos no acampamento. Os moradores participam de mutirões, atos do MST ou de outras instituições que colaboram com o Movimento. Podem trabalhar na horta coletiva, na portaria (controlando quem entra e sai do acampamento, para a própria segurança) e também na coordenação dos núcleos de moradia ou de setores (produção, comunicação e/ou saúde). As práticas coletivas no interior dos assentamentos, mais do que um ideal nos discursos, podem também ser uma arma nas lutas internas, condenando ou excluindo da comunidade aqueles que por oposição ou indiferença recusam-se a se engajar nas atividades coletivas (LEITE et al, 2004). Através dos questionários com estas 77 famílias, foram identificados 166 moradores no acampamento. Em sua maioria, pessoas do sexo masculino (92). Mas com pouca diferença para o número de mulheres (74). A idade média, quando considerado o total de moradores, é 31 de 35 anos. Dentre os 166 moradores, 117 são adultos (maiores de 18 anos), sendo 65 homens e 52 mulheres. Com relação à educação, praticamente todas as pessoas em idade escolar estão estudando em colégios de Limeira, já que há um ônibus que busca as crianças e adolescentes na portaria do acampamento. Entre os adultos, a escolaridade identificada encontra-se na tabela 8, a seguir: Tabela 8 - Escolaridade dos adultos do acampamento Elisabete Teixeira Escolaridade Analfabeto Analfabeto funcional Ensino fundamental Incompleto Ensino fundamental completo Ensino Médio incompleto Ensino médio completo Técnico Superior incompleto Superior completo Total Nº Porcentagem adultos (%) 2,56 3 9,40 11 80 68,38 10 1 7 8,55 0,85 5,98 2 1 2 117 1,71 0,85 1,71 100,00 Pela tabela nota-se que a maior parte dos adultos do Elisabete Teixeira (68,38%) não possui o ensino fundamental completo, além da existência de 11 adultos classificados como analfabetos funcionais (só assinam o nome) e 3 analfabetos. O baixo nível de escolarização é um caso grave entre a população rural em geral e tem sido uma preocupação para os movimentos de trabalhadores, que estão sempre reivindicando escolas e cursos de alfabetização para os adultos no interior dos assentamentos (LEITE et al, 2004; MELO e SABBATO, 2006). Essa questão também é abordada por Bergamasco (1997) e Oliveira et al (2008). Quando questionados a respeito de trabalhos externos ao acampamento, seja como fator principal para a sobrevivência e/ou complementação de renda, a maioria afirmou não possuir nem contar com alguém na família com algum tipo de trabalho. Porém, isso é questionável. Em conversas informais, algumas pessoas afirmaram que uma parte significativa dos acampados trabalha sim externamente ao acampamento. Não se sabe se a omissão de tal situação deve-se a certa insegurança existente, devido à falta de intimidade 32 entre acampado e pesquisadora, até então desconhecida. Com relação a isso, Leite et al (2004), também encontraram uma omissão dos dados de trabalho fora do lote em suas pesquisas em assentamentos. Segundo esses autores, os assentados recearam revelar trabalhos externos, devido ao fato de que esse procedimento não é bem visto tanto pelo INCRA, agentes de representação e mediação, como para os sindicatos, o MST e a Igreja. Por outro lado, os que admitiram trabalhar fora, fazendo os chamados “bicos”, disseram que os fazem justamente para melhorar ou para possuir uma renda, mesmo que pequena. Renda destinada à compra de comida, roupa e outros artigos necessários à sua sobrevivência. Os “bicos” mais freqüentes são os de pedreiro, lavrador, doméstica e outros serviços relacionados à construção civil. Vale lembrar que os trabalhos fora do acampamento são predominantemente de caráter eventual ou temporário. Nestes casos, o trabalho no acampamento não mantém a família ao longo do mês. Quanto à participação dos acampados em movimentos sociais ou de associativismo, foi identificada a participação de alguns, principalmente como militantes do MST e em igrejas evangélicas e católicas. Nesta questão, os acampados referiram-se às participações nos cultos das mesmas. Poucos possuem algum vínculo com sindicatos e/ou partidos políticos. Com relação a isto, todas estas organizações envolvidas com o Elisabete Teixeira são importantes e contribuem, sob diferentes perspectivas, para a integração desse grupo, ao mesmo tempo em que dão aos acampados sua identidade social (LEITE et al, 2004). Entre os 77 respondentes da pesquisa, pode-se verificar que 18 moram sozinhos nos barracos. No entanto, a maioria está sozinha para assegurar um lugar para quando for aprovado o assentamento rural, a fim de ter acesso garantido à terra. Nesses casos, os familiares do acampado(a) trabalham nas cidades e, por diversas vezes, enviam mantimentos e outros artigos necessários à permanência da pessoa no acampamento. Dessa forma, os acampados não necessitam sair para trabalhar e podem dedicar-se mais às atividades do MST. Muitos afirmaram que, ao ter acesso a terra (ou seja, assim que for estabelecido o assentamento e emitido os devidos documentos do lote), os familiares, principalmente maridos e esposas, deixarão a cidade para viver e trabalhar na terra conquistada, já que muitos vivem em casas de aluguel. De acordo com Leite et al (2004), a chegada desses familiares indica que os assentamentos representam uma forma de abrigo para as famílias que possuem dificuldades de acesso a terra e emprego. Os assentamentos acabam atuando, também, como um elo entre 33 as famílias, aproximando membros antes dispersos. Assim, contribui não só na esfera econômica, mas também na social destes grupos de trabalhadores. Dos 77 entrevistados, 48(62,34%) acreditam que antes do Elisabete, suas vidas estavam em condições piores. Nesses casos, a vinda para o acampamento foi algo positivo. Na medida em que 16 (20,78%) disseram que antes a vida era melhor e para 13 (16,88%) tudo continua exatamente igual (tabela 9). Tabela 9 - Condição de vida anterior a chegada no acampamento Vida Antes Pior Melhor Igual Total N. entrevistados 48 16 13 77 Porcentagem (%) 62,34 20,78 16,88 100 Com relação aos acampados que afirmaram que a vida piorou no Elisabete, alegou-se como motivos principais a falta de água; energia elétrica; dinheiro e renda fixa; a precariedade dos barracos; a demora no processo de assentamento. Porém, por saberem da existente possibilidade de conquista da terra, não desistem da luta. Este sentimento mantém a esperança e a luta dessas pessoas. Na ocasião destas entrevistas, ainda não havia a decisão de que o local seria destinado ao PDS. Desta forma, alguns acampados alegaram que a situação ficou mais difícil após o despejo e que a recuperação de tal acontecimento seria improvável, devido à perda de bens em geral. Para as pessoas que alegaram que a vida atualmente é melhor, os principais motivos alegados foram: possibilidade de plantar; liberdade para trabalhar; tranqüilidade proporcionada pelo lugar; inexistência das dificuldades e despesas da vida na cidade, como a falta de emprego. Grande parte destas pessoas se apóia na possibilidade de ganhar a terra. A maior parte destes acampados trabalha e vive da agricultura por gostarem da roça, da liberdade que o trabalho na lavoura proporciona, pela possibilidade de mobilidade de horários de trabalho, diferentemente das cidades. Mas, o principal motivo para estar na agricultura é o fato da maioria deles ter raízes no campo. Eles cresceram na zona rural e sempre trabalharam para outros fazendeiros. Agora é a vez deles de terem a terra e não ser mais explorados por terceiros. Segundo uma acampada, a grande dificuldade da vida na cidade é a falta de oportunidade, principalmente, devido à falta de estudos. Já na roça, segundo ela, só não “dá 34 certo” quem não tiver força de vontade para trabalhar, porque eles produzem e podem garantir o sustento da família. No entanto, um acampado disse que está no acampamento por conselhos de amigos que afirmaram que sua vida melhoraria. Pelo contrario, sua condição de vida piorou desde que chegou ao acampamento. Na cidade, tinha emprego e salário fixo, motivos que podem justificar sua insatisfação. 4.2. O sustento atual Com relação ao sustento atual, muitas famílias dependem da cesta básica oferecida pelo INCRA. Porém, reclamam que elas não são corretamente enviadas e que depender delas pode ser um risco. Isso implica na busca por outras formas de obtenção de renda para a compra do alimento para a família. Como dito anteriormente, as pessoas que moram sozinhas recebem ajuda de familiares que estão na cidade. Em outros casos, por exemplo, quando o casal mora no acampamento e os filhos na cidade, eles ajudam os pais. Quando questionados a respeito do sustento da família, muitos que anteriormente afirmaram não trabalhar fora ou fazer “bicos”, revelaram a eventual realização de trabalhos externos ao acampamento. Confirmaram que, ao não realizar esse tipo de trabalho, a situação financeira e a permanência no acampamento será comprometida, já que as dificuldades do dia a dia são intensas e o apoio é mínimo. Mesmo contando com 49 crianças e adolescentes em idade escolar (fato que possibilita o recebimento de beneficio do Governo Federal pelos pais), através do Programa do Bolsa Família, apenas um entrevistado afirmou recebê-lo. Outras famílias alegaram não saber dessa possibilidade. Observa-se neste caso que a relativa falta de informação acaba prejudicando-as com relação ao não recebimento deste benefício. Não cabe, nesse momento, discutir a eficiência e a validade deste Programa. Mas sua existência garante tal direito a essas pessoas. Por isso, deveria existir uma melhor orientação, tanto pelos líderes do MST como pelas entidades que os apóiam a buscar esta ajuda, mesmo não sendo representativa e suficiente. Outros benefícios que afirmaram receber são as aposentadorias e algumas pensões ou indenizações do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Para complementar o sustento, 70 das 77 famílias entrevistadas (90,91%) já consegue extrair alguma produção da pequena área que podem manejar. Dentre elas, 42 destinam a 35 produção somente para o consumo da própria família. O restante consegue doar algum excedente para outras pessoas, troca com outros produtores ou produz sementes com o intuito de não depender dos insumos externos ao acampamento. São poucos os acampados que já conseguem vender algum excedente. Tal venda é realizada no município de Limeira, porém é inexpressiva. Muitos dependem de doações de alimento, roupa ou artigos de higiene pessoal feitas pelos próprios acampados ou por pessoas e entidades próximas. O aspecto da doação para os outros acampados foi um fator interessante, pois as famílias que produzem o suficiente para si ainda doam para as famílias que não extraem o suficiente da terra e para os acampados diretamente envolvidos na luta pela conquista da terra (os chamados “militantes do MST”, que passam a maior parte do tempo envolvidos com causas do Movimento e não conseguem dar a devida atenção ao trabalho na terra). Sem tais doações, certamente a luta ficaria inviável devido à dificuldade de sustento. Mesmo enfrentando tantas dificuldades e com o futuro ainda incerto quando questionados da permanência no acampamento, 75 famílias admitiram permanecer na área. As duas restantes disseram não saber se agüentarão ficar, embora tenham esta intenção. Uma nova proposta para incrementar a renda das famílias está surgindo através da doação simultânea, que já favoreceu algumas famílias do acampamento. Nesse programa, os acampados juntam toda a produção excedente e vendem para o Governo do Estado, com a finalidade de abastecer creches e escolas. 4.3. Problemas Com relação aos problemas enfrentados no dia a dia, na entrevista os acampados precisavam citar todos os problemas que, na opinião deles, existem e de alguma forma possam ser solucionados. No total foram obtidas 128 queixas. A mais freqüente, com 12 apontamentos, foi com relação à falta de infra-estrutura dos barracos, os quais sofrem diretamente com as intempéries do tempo (citadas 9 vezes). A segunda maior queixa citada foi a falta de alimentação (11), seguida pela falta de água (9), necessidades básicas para a sobrevivência do ser humano. Segundo os próprios acampados, por diversas vezes há carência de comida ou bebida e acabam dependendo de ajuda e doações. Em relação ao INCRA, criticaram a falta de assistência técnica. Questão que 36 possivelmente será resolvida, já que esta instituição está muito presente nesse período de transição do acampamento para PDS. Outra queixa realizada foi a falta de espaço para plantios. Segundo eles, devido ao fato da terra ainda não ter sido concedida, do loteamento não ter sido feito e ao despejo, viram-se obrigados a se aproximar um do outro, a fim de facilitar a comunicação caso algo novo acontecesse. Com isso, o espaço concedido a cada família reduziu-se. Conseqüentemente, não podem produzir tudo o que estão dispostos e nem trabalhar o quanto queriam. Apesar disso, é possível observar que muitos agricultores aproveitam o máximo possível do seu espaço e conseguem colher a pequena produção agrícola. Todavia, todos deixaram muito claro na entrevista que, caso não houvesse ocorrido o despejo, eles estariam em melhores condições e não passariam pelas necessidades atuais. A falta de assistência à saúde, de saneamento básico e de energia elétrica também foi lembrada, assim como a falta de transporte e as condições ruins da estrada que dá acesso ao acampamento. Ela é uma das responsáveis pela falta de água. Ao chover, o caminhão-pipa da prefeitura não trafega. Com isso, eles permanecem sem água até o restabelecimento das condições normais do tempo e da estrada. As péssimas condições das estradas em acampamentos e assentamentos não são exclusivas do Elisabete Teixeira. Leite et al (2004) também encontraram nos assentamentos estudados estradas em condições precárias, gerando problemas de acesso às unidades de saúde, de educação e dificultando a comercialização da produção. Segundo eles, apesar das dificuldades existentes, muitos municípios sofreram algumas mudanças devido à presença e a pressão dos assentados, que reivindicaram maior freqüência dos transportes coletivos, transporte escolar e ambulâncias, o que beneficiou toda a comunidade neste percurso. O uso da bebida por alguns acampados foi motivo de queixa. Por não serem capazes de cumprir com suas respectivas funções no acampamento (como a de zelar pela segurança do terreno), acabaram por obrigar os outros acampados a abandonar o próprio trabalho para realizar tais funções. Além disso, as perturbações causadas por pessoas alcoolizadas também revelou-se um problema. O regimento interno do acampamento foi por diversos motivos criticados. Por exemplo, devido à falha de comunicação existente e pela forma de distribuição das cestas básicas. Um acampado, ao se explicar, disse a seguinte frase "a planta demora de 3 a 4 meses para dar e neste tempo vive do que? De brisa?". Este acampado está muito descontente com 37 sua atual situação, e não sabe se vai conseguir permanecer no acampamento. Por outro lado, 9 entrevistados disseram não visualizar problemas no acampamento. A indiferença do poder Público e da sociedade foi lembrada. Para eles, a falta de apoio dos órgãos públicos atrapalha demais o processo de assentamento, inclusive o processo de despejo sofrido foi realizado pela Prefeitura Municipal de Limeira. Deve-se atentar ao fato de que a implantação de um assentamento na região provavelmente dinamizará a economia, seja através da compra de materiais na cidade para a construção de moradias e infra-estrutura, ou pela movimentação de feiras e do comércio, pela venda de produtos. Com relação às feiras, segundo Leite et al (2004), mais que na esfera econômica, elas têm um grande impacto na social, pois expressam autonomia aos agricultores. São espaços de sociabilidade entre os assentados e a população da cidade. As feiras aumentam a quantidade e a qualidade dos produtos oferecidos, possibilitam um decréscimo nos preços e favorecem o comércio do entorno, já que tanto assentados quanto clientes comprarão em tal local. Portanto, toda a cidade é beneficiada com a presença dos assentados, que muitas vezes contratam mão-de-obra externa ao assentamento para trabalhar no seu lote. Impactos negativos do despejo Durante o período de incertezas quanto ao futuro, é evidente o medo de um novo despejo. Ele inclusive aparece entre as respostas referentes aos problemas atualmente enfrentados no acampamento. Para alguns acampados, é possível manter-se sem dinheiro ou água, entretanto, a ocorrência de um novo despejo acarretaria na perda da confiança e da vontade de lutar. Além das perdas materiais, o ocorrido abalou emocionalmente os acampados em geral. Há depoimentos que afirmam que até os dias atuais as crianças reagem a certos estímulos sonoros, como barulhos de helicópteros ou algo que remonta àquele dia, causando um clima de pânico entre elas. Neste sentido, alguma atividade voltada para o bem estar dessas crianças poderia ser elaborada. Alunos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) vão regularmente aos domingos ao acampamento, para desenvolver atividades com as crianças. Porém, outras atividades também podem ser elaboradas, inclusive com as temáticas da agricultura e do meio ambiente. Um fato interessante ocorrido durante o período de aplicação dos questionários foi a divulgação na imprensa de noticias que confirmavam nova ação de despejo por parte do 38 prefeito do município de Limeira. Fato que mobilizou os acampados, que realizaram diversos atos e reuniões internas no acampamento, com a finalidade de esclarecer o que era verdade e mentira. Durante tal período foram realizadas entrevistas com os acampados. Notou-se um aumento significativo em relação ao medo da possibilidade de despejo. Esse fato inesperado pode ter alterado os dados da pesquisa, que antes não continha nenhuma entrevista no qual o foi citado o despejo ou o medo do entrevistado como um problema. Possivelmente, se isso não estivesse passado naquela ocasião, a resposta seria diferente. 4.4. Vantagens e/ou facilidades Foram 103 apontamentos indicando as vantagens e/ou facilidades consideradas pelos acampados, que os motivam a permanecer no Elisabete. A maioria das citações refere-se à possibilidade de ter a própria roça, plantação e criação de seus animais. Outro aspecto de destaque foi a vantagem em estar ali para lutar pela terra. Caso ela seja conquistada, todo o esforço terá valido a pena. A tranqüilidade que o lugar proporciona foi muito citada, mesmo com o medo do despejo. Estes agricultores também destacam a importância das amizades e do companheirismo existente entre os moradores do Elisabete, alegando que este fator é fundamental para o Movimento e o dia a dia no acampamento. A ajuda mútua e a possibilidade de contar com um amigo são fatores que os animam a continuar enfrentando as dificuldades. No entanto, 5 pessoas disseram que no acampamento não há qualquer tipo de vantagem ou facilidade. Uma acampada mencionou que imagina que, ao ir ao acampamento, sua vida melhoraria, situação que não se revelou verdadeira. Segundo ela, sua vida era melhor na cidade, mesmo morando em um bairro pobre. Além das pessoas que vêem no acampamento uma oportunidade de ganhar a própria terra, para trabalhar e viver nela. Há casos nos quais os entrevistados acreditam que a vantagem em estar no Elisabete reside no fato de as despesas serem menores, já que não há gastos com aluguel e água, por exemplo. Verificou-se tal opinião com 3 entrevistados. Isso remete a um dos problemas citados pelos acampados, ao afirmar que certas pessoas não têm vínculo com a terra, não sabem trabalhar nela e dependem do trabalho alheio 39 em alguns casos. Elas não demonstram interesse em aprender, só permanecem na área para conseguir a terra, considerada teoricamente de forma fácil, sem pagar e sem despesas. Esse tema não surgiu apenas na entrevista. Os acampados conversavam mais abertamente sobre isso quando não estavam sendo entrevistados. Para um acampado, antes da ocupação, o MST deveria fazer uma espécie de seleção das pessoas dispostas a acampar e ganhar a terra, pois muitos não sabem trabalhar na terra praticam atos que, por diversas vezes, denigrem a imagem dos sem-terra. 4.5. Culturas e criações Através das entrevistas foi possível levantar os principais cultivos atuais. Com relação às culturas consideradas anuais, a mais cultivada é a da mandioca (62 dos 77 entrevistados), seguida pelo milho (45), quiabo (44) e abóbora (36). Muitos acampados também plantam feijão, principalmente das variedades corda (38), guandu (32) e carioca (29). No total foram 31 culturas diferentes. Os cultivos são realizados ao lado dos barracos (Figura 5). Foto: Bernadete Castro (2008) Figura 4: Plantio de mandioca 40 Foto: Rafaela Silva (2008) Figura 5 – Plantação ao lado dos barracos Entre as culturas ditas permanentes, a diversidade encontrada foi menor. Foram 23 cultivos citados, sendo a banana a mais citada (26), seguido pelo mamão (22), manga (12) e maracujá (10). No entanto, não é difícil justificar o porquê desta menor diversidade nos cultivos perenes. Uma explicação plausível é o caráter provisório do local atualmente ocupado por cada família. Quando ocorrer a distribuição dos lotes tal configuração será alterada. Tudo depende de como a terra será demarcada. Mesmo porque, o espaço ocupado atualmente é muito pequeno. Por isso, não existe no momento interesse em gastar dinheiro e trabalho em algo incerto. O risco de prejuízo é evitado, especialmente após a perda gerada pelo despejo. Com relação às hortaliças, a mais cultivada é a cebolinha (38), seguida pela alface (29), couve (19) e coentro (18). Foram citadas 26 culturas. Com relação às criações animais, apenas 30 dos 77 entrevistados possui aves (Figura 6), suínos e/ou eqüinos. Os animais são, em sua maioria, galinhas e galos para reprodução e consumo próprio e, em alguns casos, para uma eventual venda. Poucos possuem porcos, cavalos e éguas, usados para o transporte ou para algum trabalho na roça. Ainda relacionado a este assunto, mais uma vez o despejo foi citado como agente causador de uma situação difícil entre os acampados. Segundo estes, devido ao despejo, muitos acampados perderam muitos animais e até hoje não se recuperaram, inclusive pelo receio em criar e perder tudo novamente. 41 Foto: Bernadete Castro (2008) Figura 6: Vista de um dos galinheiros Os equipamentos utilizados na agricultura são ferramentas manuais, como enxada, foice, facão, rastelo e plantadeira manual, caracterizando uma agricultura praticada sem o uso de máquinas de qualquer natureza. Fato explicado pela falta de dinheiro (fator limitante) e em virtude da condição de acampados (não têm direito às linhas de crédito). Ainda com o intuito de saber o que há atualmente no lote, questionou-se a presença de plantas que não são as de cultivos, que exercem alguma função considerada positiva por eles. A resposta mais encontrada refere-se às plantas medicinais, como a arnica, a erva cidreira, o poejo, a arruda, o boldo, etc. Elas são cultivadas por muitos acampados. Há uma grande variedade de plantas medicinais no acampamento. Tal quantidade pode ser justificada, conforme Mello (2000), pelo alto custo dos medicamentos industrializados, já que o poder aquisitivo dos acampados é baixo e o uso destas plantas como remédio torna-se uma alternativa e pelo difícil acesso destas pessoas à assistência médica (mesmo o acampamento estando próximo à cidade de Limeira, poucos têm carros e os ônibus possuem horários limitados). Assim, as plantas medicinais são utilizadas por esta população que acredita em seus efeitos e faz uso rotineiro para as enfermidades e doenças (MELLO, 2000). Outras plantas lembradas por eles foram as árvores (dão sombra) e as flores, pelo perfume e beleza que proporcionam. Um fato interessante que surgiu foi que alguns acampados afirmaram possuir o girassol, o fumo e o gergelim com o intuito de proteger a plantação do ataque de pragas. Essa prática é muito importante na agroecologia, lembrando que algumas plantas realmente podem ser utilizadas como repelentes ou como alimento para as pragas que, desta forma, deixam a 42 cultura de interesse crescer sem nenhum problema. O gergelim vem sendo usado por diversos agricultores como uma alternativa ao ataque de formigas. De acordo com Fornari (2002), ao plantar o gergelim em volta e entre as culturas, um fungo tóxico irá ser produzido dentro do formigueiro. Segundo este autor, o fumo também pode ser utilizado contra ácaros, pulgões e outras pragas. O girassol, ao ser plantado no milharal, servirá como isca para lagartas não atacarem o milho. Algumas das plantas ditas medicinais também podem atuar como repelentes ou inseticidas, como é o caso da arruda (repele besouro e inseticida contra pulgões), do alecrim (detém borboleta branca do repolho, besouro do feijão e mosca da cenoura) e da camomila (eficiente contra várias doenças) (FORNARI, 2002). Por outro lado, há as plantas denominadas “daninhas”. Essas atrapalham o desenvolvimento da cultura principal, implicando muitas vezes no controle com algum agrotóxico (quando o produtor é convencional). Na agroecologia, essas plantas podem ser manejadas e até mesmo utilizadas como adubo na lavoura. De acordo com os acampados, as principais plantas “perturbadoras” das culturas são: a braquiária, o picão, capim colonião, caruru, guanxuma e sapé. A braquiária e o capim colonião são utilizados pelos acampados como pasto, ou então, para adubação ao ser feita a capina. As outras são retiradas pela raiz, pois, segundo eles, atrapalham demais o crescimento das culturas. De acordo com Fornari (2002), estas plantas consideradas “daninhas” podem indicar algumas características e condições do solo, como o excesso, a deficiência ou o desequilíbrio de nutrientes. A guanxuma, citada pelos acampados, é uma planta que ocorre em conseqüência da excessiva mecanização ou pisoteio do gado, invadindo terrenos com subsolo muito denso ou áreas onde a erosão lavou o solo superficial. Já o sapé indica solos muito ácidos, adensados, sugerindo também a deficiência de magnésio. Essa planta desaparece após a calagem. Tais características corroboram a análise do solo realizada pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), que será descrita mais adiante. Um fator positivo constatado foi que nenhum agricultor admitiu utilizar agrotóxicos para eliminação destas plantas. Como o uso de agrotóxicos implica em gastos financeiros (fator limitante no acampamento), é bem provável que tal sentença seja verdadeira. 43 Insumos e vendas externas A respeito dos insumos externos ao acampamento - comprados pelos acampados para utilização na produção – verificou-se que os acampados compram sementes dos mais diversos alimentos, em pequena quantidade. Tais sementes destinam-se ao plantio e à colheita no pequeno espaço concedido a eles temporariamente. Observou-se que a maior parte dos acampados produz sementes, seja para evitar a compra futuramente ou para realizar trocas. Enfim, constatou-se a preocupação de não depender de insumos externos para a produção no seu lote. Além de sementes, alguns compram animais para criação, ração e esterco para adubação. A questão dos insumos utilizados tem, segundo Leite et al (2004), grande influência nos custos de produção (podem aumentar caso ocorra gasto excessivo com estes recursos), na saúde dos trabalhadores (que será seriamente afetada caso sejam utilizados insumos nocivos, como os agrotóxicos) e no meio ambiente (caso tais insumos impliquem em algum impacto negativo). Já com relação às saídas (alguma venda ou mão-de-obra que gere renda à família) da unidade de produção, constatou-se que somente 4 famílias (dos 77 entrevistados) conseguiu vender alguma produção até os dias atuais. As vendas foram de feijão, mandioca, alface e almeirão, realizadas nas ruas de Limeira e ainda são muito pequenas. Entretanto, de qualquer forma, é uma renda extra. 4.6. O sustento e a propriedade no futuro Com relação ao sustento e às pretensões futuras, 73 entrevistados revelaram o desejo de morar, trabalhar e tirar o sustento da família na terra conquistada. Dentre os 4 entrevistados com visão diferente, metade afirmou que, mesmo com a terra, manteriam atividades na terra e trabalhariam fora. Uma acampada afirmou que seu marido sempre trabalhará na cidade e ela na terra. Outro afirmou não saber como pretende viver. Mesmo assim, estas pessoas desejam trabalhar na terra de alguma forma, ainda que não pretendam depender exclusivamente dela. Quando questionados a respeito do futuro da produção que será realizada, todos afirmaram ter o desejo de consumir e vender a produção. Alguns ainda citaram a importância de ter uma cooperativa de venda e de realizar trocas e doações para quem necessitar. 44 A cooperativa lembrada por muitos acampados seria utilizada como ferramenta para efetivação das possíveis vendas dos produtos por eles produzidos. Como, ao se juntar toda a produção do acampamento, a quantidade oferecida será maior, as negociações com alguma rede de supermercados ou similar será facilitada (geralmente negociam mediante contratos que possam atender a sua demanda). Para o funcionamento dessa cooperativa, é necessária certa organização por parte dos acampados, a fim de evitar erros quanto a venda e posterior repasse de dinheiro aos agricultores. Com relação às culturas e/ou criações futuras, as mais citadas foram: a mandioca (30), o feijão (27), milho (22), a horta (21) e as aves (20). No total, 41 itens foram citados, entre animais e vegetais. Muitos acampados não discriminaram as culturas que poderiam ser plantadas, afirmando que “plantariam de tudo”. Tal cultivo refere-se principalmente aos produtos de subsistência. Dentre os 5 mais citados, a mandioca, o feijão e o milho são produtos básicos para o consumo e bons para o comércio. A horta foi citada em virtude de seu retorno rápido e facilidade de venda, e as aves para a venda e consumo da carne e dos ovos. Outros animais, como porco e vaca, também foram citados. A vaca, principalmente para o consumo do leite. As frutas também foram lembradas por praticamente todos os acampados. Nenhuma se destacou, apesar de a banana ser a mais citada. A diversificação no cultivo de frutas é visada. O aspecto da diversidade foi muito marcante, já que ninguém pretende realizar uma monocultura. Eles visam à maior diversidade possível e alegam que há fatores limitantes para essa prática, como: espaço destinado para cada produtor, condições do solo, finanças e as adaptações das diferentes culturas. Nota-se que essa preocupação está muito vinculada a alguns princípios da agroecologia. Existe o objetivo de se ter apenas um cultivo; tirar o sustento da própria terra e, em muitos casos, atrelar o cultivo de vegetais à criação de animais, podendo tirar daí o esterco necessário para adubar a terra e o alimento para os animais. Ou seja, realizar um manejo integrado do agroecossistema. Também se questionou se, no futuro, estas pessoas teriam interesse em agregar valor à sua produção, através do beneficiamento dos produtos, para obtenção de uma maior renda. Porém, não foram muitos os interessados. Percebeu-se, inclusive, que alguns respondentes afirmaram que sim apenas para não demonstrar desinteresse. Porém, por esse fato ter sido uma impressão da pesquisadora, não se sabe dizer o porquê. 45 Na maioria dos casos o interesse está na venda in natura do produto. Como eles mesmos disseram, processar o produto exigiria um esforço de tempo e mão-de-obra, requisitos incertos no momento. Entre os que demonstraram interesse, o processamento da mandioca, a priori, foi o mais citado, seguido pelo o de alguma fruta para doce ou polpa. Modo de produção Com relação ao modo de produção, 57 entrevistados preferem o individual, 8 o coletivo e 7 as duas formas, sendo o coletivo somente a horta. Os outros não sabem ou disseram que a solução está por conta do MST (acatarão o que for resolvido). Para quem prefere o modo de produção coletivo, a justificativa reside no fato de acreditar que essa forma é melhor por aproximar as pessoas (trabalharão em conjunto) e melhorar as vendas. Nesse grupo estão aqueles com menor tempo de experiência na terra e os que acreditam que as vantagens de se estar no acampamento são os conhecimentos adquiridos, suas dimensões e a consciência política, ou seja, os acampados motivados por esta mudança no sistema de produção. Os que preferem o individual alegaram que assim eles trabalhariam para si, teriam liberdade para escolher o que plantar e para colher o alimento necessário, sem a obrigação de consultar os líderes. O principal motivo alegado para a produção individual é o fato de que, para os acampados, há pessoas que não trabalham. Conseqüentemente, alguns trabalhariam para outros. Isso já ocorre, segundo eles. Um entrevistado afirmou que alguns estão no acampamento “por estar”, foram “jogados ali" sem ter relação ou aptidão com o trabalho na lavoura (o que atrapalharia demais o trabalho coletivo). Muitos comentam que alguma horta poderia ser coletiva e revelaram o desejo de poder escolher com quem trabalhar. Essa deve ser uma escolha dos agricultores, não imposta. No acampamento Elisabete Teixeira é bem visível que há relações de vizinhança muito fortes. Esse fato começa a ser observado na divisão e formação de grupos (ou núcleos) de afinidades, que irão compor o PDS. Caso haja algum tipo de coletivismo, esse é um fator que irá decidir os grupos de produtores. Os acampamentos e assentamentos possibilitam a construção de redes de sociabilidade, como as de vizinhança, reconstituindo relações típicas das comunidades locais rurais do Brasil. A organização social dos assentados pode ser primeiramente constituída a partir de relações de vizinhança, que podem ou não derivar de outras relações, como as de parentesco (LEITE et al, 2004). 46 A questão do modo de produção foi um assunto selecionado para as oficinas, com a intenção de esclarecer as possíveis dúvidas dos acampados em relação a isto. 4.7. Agroecologia e agricultura Com relação à agroecologia, algumas questões foram elaboradas para saber o conhecimento dos acampados sobre isso. Suas dúvidas e respostas nortearam alguns temas que foram abordados nas oficinas. A agroecologia era um assunto novo para 16 respondentes, que nunca tinham ouvido este termo e, portanto, não sabiam seu significado. Os outros 61 sujeitos de pesquisa comentaram que já conheciam. Entre estes, 35 não sabiam o que era, e o restante palpitou. No entanto, as respostas foram muito simplórias e abordaram a agroecologia, na maior parte das vezes, como uma forma de agricultura que não usa agrotóxicos; ou que respeita a natureza, por não utilizar a prática da queimada e nem matar os animais. Evidencia-se assim que os acampados desconhecem a definição do termo agroecologia. Eles apenas citaram algumas práticas agroecológicas para exemplificar o que seria. Entre os respondentes, 62 deles nunca participaram de nenhum curso, palestra ou qualquer outro tipo de formação para trabalhar com agroecologia ou até com a agricultura. Ainda no sentido de identificar alguma formação ou informação sobre estes temas, constatou-se que 44 nunca leram ou assistiram nada a respeito. Houve casos em que ficou clara a intenção de dizer que já tinham participado ou assistido algo sem, no entanto, saber discriminar do que realmente participou ou assistiu. Sobre o interesse em fazer algum curso em qualquer área, 46 entrevistados citaram a agricultura ou agroecologia como tema. Isso demonstra a importância da produção da terra para esta população (mesmo porque a sobrevivência deles depende disso). Foram citados outros cursos profissionalizantes, como de costureira, pedreiro, jardinagem e informática. Algumas pessoas disseram não ter mais idade ou tempo para aprender. Com a finalidade de saber quais assuntos poderiam ser abordados nas oficinas agroecológicas, foi perguntado quais eram as dúvidas em relação à agricultura ou qual assunto eles achavam que deveria ser trabalhado com os outros acampados. Igualmente, eles não precisaram se prender a apenas uma resposta, o objetivo era conseguir a maior quantidade de informações sobre as carências do dia-a-dia no campo, sejam elas técnicas ou não. A resposta 47 mais freqüente foi a ausência de dúvidas quanto ao trabalho no campo (22 respondentes), seja por fazer muito tempo que trabalham no meio rural ou por acreditar que já tem todo o conhecimento necessário. Entre os temas de dúvidas, o que merece destaque (com 20 citações) refere-se às técnicas agrícolas - época de plantio, espaçamentos, podas, melhor espécie para ser plantada nas condições (climáticas e do solo) do acampamento. O controle de pragas sem o uso de agrotóxicos e o conceito e práticas da agroecologia também foram citados. 4.8. Natureza e meio ambiente Também se abordou questões referentes ao meio ambiente, a fim de identificar a relação destes com a preservação da natureza, se há algum interesse em preservar ou recuperar as matas existentes no acampamento ou se é de conhecimento o significado de alguns termos legais sobre conservação da natureza. Enfim, identificar o máximo de informações referentes aos interesses, conhecimentos e possibilidades de ações que permitam a manutenção da fauna e flora local, já que esses são fatores primordiais nas práticas agroecológicas. Dentre os 77 sujeitos de pesquisa, 9 disseram não haver nenhuma mata nas dependências do Elisabete; 2 não souberam dizer se havia ou não; um só citou a existência do eucalipto na área (sem o considerar mata, já que para ele o eucalipto é uma planta “ruim”). Muitos acampados, ao se referir ao eucalipto, citavam a planta com certo desprezo. Isso porque, segundo eles, além de estragar o solo (deixando-o ácido), é uma árvore exótica. Porém, é bom ressaltar que a presença de algumas árvores de eucalipto na propriedade pode ser interessante, principalmente no momento em que o agricultor necessita de alguma madeira. Ele não precisará então manejar outra árvore de maior interesse ambiental ou econômico. Entre os que disseram não existir mata, alguns admitiram a existência de algumas árvores na beira do rio e da mina. Mas, segundo estas pessoas, a quantidade é tão pequena que não pode ser considerada. Dos 66 pesquisados restantes, a área de mata existente na beira da mina e do córrego foi citada por 55 pessoas. Outros locais, como a mata existente em um morro localizado ao lado do córrego e os eucaliptos, foram citados como mata. 48 Aos respondentes que admitiram existir mata, perguntou-se o motivo pelo qual ela permanece, com o intuito de saber se existe o interesse em mantê-la ou retirá-la. Novamente considerou-se mais de uma resposta por acampado. Foram apresentadas algumas alternativas de respostas. Porém, não havia necessidade de seguir aquelas opções. Assim, as respostas mais freqüentes foram: a mata permanece por ser uma área de proteção da natureza (31 citações); a mata protege o solo e a água (29 citações); por não poder ser desmatada (16 citações). Outros motivos apareceram em menor intensidade, como: é usada como barreira de ventos; protege os animais; pela falta de tempo da Prefeitura do município de Limeira para retirá-la. Vale lembrar que alguns citaram que a permanência da mata é um ideal dos moradores, que a intenção é deixar a mata e reflorestar. Nesse caso surge a questão da ética ambiental, que será elucidada mais adiante. A maior parte destes agricultores tem o hábito de ir aos locais indicados como mata, para passear, pegar água, tomar banho e até verificar se ninguém está retirando as árvores. Com relação às matas próximas do acampamento, poucos admitiram utilizar a madeira seca ou do eucalipto para a construção dos barracos ou para cabo de enxada. A maioria utiliza esta região para pegar água ou passear. Foram questionados se substituiriam a mata por uma lavoura ou pasto. A resposta foi positiva em 5 casos. Alegaram que, se o lote ficar numa área de mata, precisariam desmatar para poder plantar. Mais uma vez, a maioria deu respostas que comprovam certa preocupação com o meio ambiente. Por exemplo, a água seria contaminada devido à retirada das árvores. Com relação a conservar a natureza, o simples fato de não destruir, retirar árvores ou usar a queimada já é considerado uma forma de conservação. Muitos afirmaram conservar fiscalizando e informando as lideranças do acampamento em caso de agressão à mata. O lixo também foi um aspecto bem lembrado pelos acampados, principalmente quando se referia à participação das famílias na conservação. Para eles, a família contribuía com a conservação da natureza separando o lixo reciclável, limpando a mata ou simplesmente não jogando o lixo na mata ou rio. Muitos acampados admitiram realizar plantios de árvores no acampamento. Para analisar a resposta deles em relação às práticas de conservação, questionou-se a noção deles de “proteção da natureza”. Praticamente todas as respostas envolviam termos como “não cortar árvores”, “não matar os animais”, “não jogar lixo”, “não usar agrotóxico”, “não colocar fogo”. Observa-se que todas as respostas implicam em negativas, e nunca em possibilidades do que poderia ser realizado a favor da natureza. 49 No entanto, não se deve esquecer das dificuldades enfrentadas por estas pessoas no dia-a-dia. Tais adversidades poderiam implicar em um possível desinteresse por parte dos acampados por outros assuntos, que não aqueles que, de alguma forma, poderiam lhes trazer algum tipo de conforto ou recurso para continuar na luta. É observado justamente o contrário no Elisabete. A intenção e ação quanto aos reflorestamentos é muito forte (Figura 7), assim como a não utilização de agrotóxicos e outras práticas que possivelmente não rendam recurso financeiro algum, mas que lhes proporcionam melhor qualidade de vida e contribuem com a biodiversidade local. Desta forma, eles poderão trabalhar em conjunto com a natureza para melhorar as condições de plantio, sendo menos prejudicados pelas adversidades do tempo (vento, por exemplo). Foto: Rafaela Silva, 2008 Figura 7 – Plantio de árvores realizado pelos acampados Quando questionados a respeito de problemas do acampamento em relação à conservação da natureza e de possíveis soluções, a problemática do lixo foi citada. Afirmaram que muitas pessoas o descartam em lugares indevidos. Em relação a isso, é necessário mais diálogo e companheirismo, devido à falta de tolerância a críticas por alguns. Para alguns, é preciso realizar um reflorestamento no acampamento, principalmente pela falta de árvores e para atrair pássaros; a grande ocorrência de queimadas na região também foi citada. No entanto, 37 acampados disseram não haver nenhum tipo de problema com relação à conservação da natureza no acampamento. 50 Adequação ambiental Outro aspecto importante quanto aos recursos naturais refere-se à questão da adequação da propriedade rural à legislação ambiental. Para verificar o conhecimento dos acampados em relação às leis, questionou-se a existência de áreas protegidas (áreas de Proteção Permanente - APP -, de reserva legal e unidades de conservação). A maior parte afirmou que a mata em volta da mina e do córrego é protegida por lei. Porém, nem todos demonstraram certeza ao responder isso. Eles respondiam e questionavam se realmente era. Outros afirmaram que toda a mata do acampamento é protegida, mas pelas leis dos acampados (quem não preserva a mata pode até ser expulso do acampamento, devido ao ideal de recuperar a mata e por, ao desmatar, a imagem deles poderia ser prejudicada com a sociedade em geral). Realmente, não há outras áreas na região do acampamento protegidas por lei além das matas ciliares (localizadas em APP’s, protegidas por lei para garantir o cumprimento de sua função ecológica de manutenção da biodiversidade). A Lei Federal 4.771/65 (Código Florestal) define as diretrizes para a preservação e enquadramento de diferentes áreas como APP’s. A maior parte dos respondentes (61 entre 77) não soube dizer o que é uma mata ciliar. Para continuar os questionamentos era, então, preciso explicar sua definição e as metragens mínimas especificadas na legislação ambiental. Assim, eles respondiam a respeito do cumprimento da lei nas dependências do acampamento. Entre os acampados participantes da pesquisa, 32 disseram que a largura mínima de APP é obedecida, 2 disseram que está correta em alguns locais e 6 não souberam responder. Segundo 37 acampados, a largura mínima de APP ainda não está sendo obedecida nas terras do acampamento, pois o tempo de permanência área ainda não permitiu a realização da recuperação florestal. Entretanto, a idéia é reconstituir a mata ciliar. Afirmaram também que desde a chegada na área os acampados realizam plantio de mudas. A mesma questão foi feita em relação à área de reserva legal. Agora, 65 respondentes não sabiam defini-la. Dentre os 12 que afirmaram saber, 1 acampado apresentou seu desconhecimento (acredita-se que ele mencionou saber apenas para não demonstrar desconhecimento). Novamente o termo era explicado e eles questionados quanto ao cumprimento da lei no acampamento. A maior parte dos acampados (43) disse não haver 20% de área com mata; 23 disseram o contrario e alegaram que há muita mata no terreno; 11 não souberam responder. 51 Como demonstraram ter pouco conhecimento a respeito da legislação vigente e para esclarecer algumas obrigações, a questão da adequação ambiental na propriedade foi incluída como tema a ser tratado nas oficinas. Fauna Foram citados 41 animais diferentes vistos no acampamento. Com 32 citações, o mais visto é o tatu, seguido pela capivara (27 citações), veado (25) e cobra (21). Outros animais que apareceram na lista foram as jaguatiricas, onças, diversas espécies de aves, cachorro do mato, coelhos e lebres. Por esse relato, nota-se que a região abriga uma quantidade considerável de animais, mesmo com a proximidade da cidade, as extensas áreas de plantios de cana-de-açúcar e pela pouca mata existente. Isto demonstra a importância de um trabalho de reflorestamento da mata ciliar e da implantação da área de reserva legal no acampamento. Além de aumentar a área verde, atrairia pássaros e outros animais e ela poderia ser utilizada como um corredor de circulação, além de ser uma área em potencial para a proteção e reprodução dos mesmos. Ao se pensar no reflorestamento da mata ciliar (por livre iniciativa dos acampados) para exercer papel de corredor ecológico para o fluxo de animais e proteger os cursos d’água, evidencia-se que, conforme Brito (2006), estes atores sociais estão conscientes da importância da conservação da biodiversidade e do papel deles mesmos neste processo. Trata-se de um valor ético ambiental desta população, enquanto saber camponês herdado, ou mesmo repassado pelo MST (nos cursos técnicos em agroecologia). Essa ética ambiental se dá através do amadurecimento e voluntarismo, e não por força de leis ou imposição das autoridades ambientais. Além disso, deve-se pensar em um projeto que tenha como objetivo levantar a fauna dessa região, para comprovar a existência de tais animais (já que, de acordo com as citações, o local apresenta uma diversidade relativamente alta). Citaram também alguns insetos vistos com freqüência e qual é sua função, na opinião dos acampados. Dentre os 34 animais citados, os insetos mais vistos são o escorpião (35 citações), a formiga (24), cobra (23), grilo e mosca com 16 citações cada um. Ratos e anuros também foram citados. Pôde-se observar uma discrepância na classificação popular e acadêmica do que seria inseto. De acordo com Ruppert, Fox e Barnes (2005), insetos e escorpiões pertencem ao filo 52 (Arthropoda), porém a táxons diferentes. O escorpião é um aracnídeo, pertencente ao táxon Chelicerata e os insetos, ao táxon Mandibulata. Com relação às cobras, a diferença é ainda maior, já que insetos são animais invertebrados e as cobras, vertebrados. O curioso nesta resposta foi o critério utilizado pelos acampados para classificar um animal como inseto. Para eles, são insetos por transmitir doenças, por estragar a plantação ou por causar algum tipo de medo (cobra e escorpião) ou aversão (ratos e anuros). Uma acampada afirmou que a borboleta (6 citações) é um inseto. Porém, instantaneamente, retirou sua resposta, pois, segundo ela, não é um inseto por “ser muito bonita para ser inseto”. Fica claro, então, o que um inseto significa para esta acampada. Um animal feio, com imagem ruim. As abelhas (5 citações) e as borboletas foram citadas por poucos acampados e tem sua função ligada à polinização. O sentimento de que os insetos representam algo ruim fica evidente quando eles falam sobre a relação existente entre insetos e flores e são questionados a respeito de quais observam nas flores. As abelhas e as borboletas são citadas por quase todos os acampados. Segundo eles, estes animais alimentam-se das flores e, em conseqüência, as polinizam. Insetos como a joaninha e a mamangava também foram citados nesta questão. Com relação à função das flores numa planta, 18 acampados disseram que a flor serve para dar o fruto - “se não vem a flor, o fruto também não vem”. Por a flor conter as partes reprodutivas da planta e ser através dela que ocorre a polinização e a fecundação (origina as sementes e os frutos) (RAVEN, EVERT e EICHHORN, 2001), o raciocínio deles está correto. A beleza (12 citações) foi outro aspecto importante na resposta dos acampados. Para eles, as flores são úteis para embelezar os lugares. Resposta totalmente antropocêntrica, já que para elas a flor existe para agradar o ser humano. Para 7 acampados, a flores servem para produzir remédio ou perfumar o ambiente (visão antropocêntrica). Outros 10 acampados disseram que a função da flor é “produzir mel para as abelhas”. Alguns acampados (13) não souberam responder esta questão (Tabela 10). 53 Tabela 10 – Função das flores nas plantas Função N. de citações 18 Gerar o fruto 13 Não sabe 12 Embelezamento 10 Produzir mel Produzir 9 alimento 8 Polinização 7 Produzir remédio Perfumar o 7 ambiente 5 Produzir semente 3 Atrair insetos 2 Germinar Faz parte 2 natureza 4 Outros Flora Como já apontado anteriormente, o reflorestamento é uma questão bem importante no acampamento. Segundo as lideranças, sua realização é uma meta a ser cumprida. Para verificar se existe mesmo tal objetivo, perguntou-se a necessidade de fazê-lo, onde e com qual tipo de vegetação. Constatou-se que realmente grande parte dos acampados tem a intenção de reflorestar a área do acampamento, seja por vontade própria (caracterizando um princípio de ética ambiental e respeito pela natureza e por todos os seres vivos) ou pela vontade de terceiros, como a imposição por parte das lideranças e outros acampados. Afirmaram que a beira do córrego e a região da mina são os principais locais nos quais o reflorestamento deveria ser realizado. Áreas como as divisas do acampamento e o atual lixão também foram citadas. Para eles, o reflorestamento deveria ser feito com árvores nativas e frutíferas, sendo necessário realizar uma pesquisa para saber as espécies arbóreas adequadas. Deve-se, entretanto, sempre ter em mente que, ao se reflorestar uma APP, deve-se consultar a legislação ambiental pertinente (por ser uma área muito restrita, que permite alguns usos aos agricultores para incentivar tal recuperação). No caso das áreas de divisa do acampamento, o reflorestamento poderia significar a implantação de cercas vivas. Conforme Lambert (1992), a fuga de animais de criação seria 54 impedida, o local tornar-se-ia um abrigo de animais silvestres (muitos arbustos e árvores) e atuaria como barreira contra o vento. Além disso, plantas menores produtoras de flores, samambaias e musgos cresceriam protegidas. A mata perto do rio e das nascentes (sempre referida por eles como mina) é muito visitada pelos acampados, seja para passeios ou para coleta de água. Questionou-se como se referiam a ela no dia-a-dia, para se conhecer o grau de intimidade. Grande parte dos acampados refere-se como mata ou matinha. O termo capoeira surgiu, por não ser “aquela mata”; porque “foi derrubada e saiu de novo”; “é rala. A mata (de grande porte) é escura”. Com relação à origem desta mata (se era nativa ou plantada), 8 acampados acreditam que apenas os eucaliptos foram plantados, introduzidos na região. O restante da vegetação é nativo. Outros 6 disseram que toda a vegetação foi introduzida na região, que não é composta por espécies nativas. No entanto, 53 disseram não acreditar que a mata é nativa. Os outros acampados não sabiam ou não quiseram falar nada a respeito. Quando o termo “mata nativa” não era compreendido, a pergunta era refeita de forma a possibilitar seu entendimento. Após esta investigação, o tema “vegetação nativa da região” foi abordado em uma das oficinas realizadas. A questão da legislação sobre a recuperação da APP será abordada em oficinas futuras. Água Com o intuito de saber a respeito das fontes e dos usos da água no acampamento, perguntou-se sobre existência de algum rio ou fonte de água dentro do acampamento, e pediuse uma descrição de como ela é utilizada. De acordo com os acampados, a Prefeitura Municipal de Limeira envia um caminhão pipa com água no acampamento. Não falta água, exceto quando chove (conforme já mencionado). Disseram também que a qualidade da água é boa, mas alguns ainda preferem coletá-la numa mina existente no acampamento (confiam mais na qualidade da água de tal mina do que na água trazida pelo caminhão). As fontes de água no acampamento são o rio e a mina. Entretanto, eles não podem utilizá-lo por estar contaminado (segundo os acampados). Vale ressaltar que as análises laboratoriais para testar a qualidade desta água ainda não foram realizadas. Aguarda-se um 55 acordo com o INCRA, para que técnicos possam ir ao acampamento e coletar as amostras necessárias. Nas plantações, a irrigação é feita basicamente através da água da chuva. Poucos destinam a água da mina ou do caminhão para tal uso, eles priorizam a água destas duas fontes para consumo próprio. Um agricultor afirmou fazer, na época seca, plantios de espécies que não requerem muita água. Isso é muito importante por mostrar o conhecimento local e o trabalho conjunto à natureza, ao se respeitar o regime de chuvas e o clima local, criando alternativas de sobrevivência num período de escassez de algum recurso necessário (neste caso a água). Clima: a opinião dos acampados A questão do conforto térmico foi abordada e por ela se analisou se a população liga este conforto (ou falta dele), à presença ou ausência de uma mata mais conservada. De acordo com a opinião dos acampados, o clima no acampamento é agradável e fresco. Isso se deve à presença da mata, por refrescar o ambiente e manter a umidade no acampamento. Para eles o clima é desagradável durante o dia, pois o sol esquenta muito o barraco de lona preta (Figura 8), tornando muito difícil a permanência em seu interior. Durante a noite, o barraco torna-se muito frio, causando desconforto na hora de dormir. Foto: Bernadete Castro (2008) Figura 8 – Barraco construído com lona preta 56 Os acampados também falaram da incidência de ventos fortes e que a presença da mata barra-o um pouco. Porém, seria importante a existência de mais árvores, para maior contenção do vento. A grande maioria dos acampados, afirmaram que a mata exerce sim, uma influência sobre o clima no acampamento, no entanto, muitos não souberam dizer de que forma isto acontece, tornando-se difícil afirmar se eles realmente acreditam nesta influência ou se apenas disseram isso para tentar dar uma resposta que eles considerariam certa. Já para os que deram uma justificativa, esta se baseia no fato da mata refrescar o ar e reter a umidade. De acordo com os acampados que disseram que a mata não exerce nenhum tipo de influência sobre o clima, o motivo dado foi que a mata existente para manter o clima ou mudá-lo deveria ser bem maior que a existente, mas a grande maioria não soube dar um motivo claro para isso. 4.9. “Lixão”: o aterro sanitário de Limeira A opinião dos acampados sobre o “lixão” é unânime. Ninguém gosta de sua proximidade com o acampamento. Para eles, ele não está localizado em uma área correta. Está muito próximo do rio, o que acaba por contaminá-lo. Com relação a isso, o mapa de uso da terra elaborado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (2007) constata que a área do lixão sobrepõe a APP, o que confirma uma possível irregularidade. Outras reclamações recaem sobre a presença do “lixão” nas proximidades do Elisabete Teixeira. Segundo os agricultores, “o cheiro é desagradável e incomoda”, “o lixão é um crime ambiental, um desperdício de terra”. Porém, alguns afirmam que ele “é necessário, mas está em local inadequado, muito próximo à cidade. Deveria ser em um local mais distante, tomando cuidado para não poluir os rios”. Através destes depoimentos, os acampados demonstraram preocupação com esta questão, inclusive no que se refere à distribuição de terras enquanto assentados. Preocupação existente também pelo fato de que, futuramente, pessoas com lotes próximos ao lixão terão problemas com o cheiro ruim e com a terra possivelmente comprometida por uma suposta contaminação. Dentre tantas reclamações, ninguém sugeriu uma solução para este problema. Todos se limitaram a falar das dificuldades causadas pelo lixão. Só citaram a possibilidade das pessoas reciclarem parte do lixo mandado para lá. 57 Na realidade, o “lixão” (assim chamado pelos acampados) é um aterro sanitário. Seus respectivos Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) foram aprovados pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo em 1992 (GUIZARD et al, 2006). O aterro sanitário de Limeira localiza-se na Rodovia Tatuibi, s/nº, Horto Florestal. É limitado pelo ribeirão Tatu a leste, ao sul pela rodovia municipal de Limeira-Tatuibi e a oeste pela área de cultivo municipal. Está a cerca de 9 km do centro da cidade de Limeira e tem como receptor dos efluentes tratados o ribeirão Tatu. Em seu trabalho, Guizard et al (2006), afirmam que o aterro está em boas condições e que o trabalho é realizado corretamente, principalmente ao se comparar com outras áreas de disposição de resíduos nos municípios do Estado de São Paulo. Ainda complementam atestando que os cuidados quanto à contaminação da água e do solo são eficazes. 4.10. Solos Ao se pensar em agricultura, um elemento muito importante é o solo. Na agricultura convencional, ele é considerado apenas a base para o cultivo. Devido a esta concepção, ocorre um manejo errado de seus componentes químicos, físicos e biológicos por parte dos produtores rurais. O solo fica exposto à ação do sol, da chuva e do vento por longos períodos, sendo tratado intensamente com adubos químicos. Se a cultura de interesse não for adaptada à região ou for muito atacada por pragas e doenças, o uso de agrotóxicos e outros produtos químicos aumentam (FORNARI, 2002). Esse autor afirma que o interessante é observar e trabalhar o solo em sua complexidade, sabendo que ele está integrado a diversos organismos e microrganismos (animais e vegetais) que garantem e promovem sua fertilidade e sanidade das plantas cultivadas. Ao se pensar localmente, é necessário conhecer as culturas mais adaptadas ao solo; ao clima da região; se há matéria orgânica e nutrientes para os cultivos; se é necessário adicionar tais elementos (através de adubações orgânicas, caldas e compostos) para não ocorrer o desgaste excessivo e recompor a fertilidade do solo. Nesse sentido, tornou-se importante conhecer o quanto estes agricultores conhecem do solo do acampamento e quais são as práticas adotadas para seu manejo. 58 Quando questionados se o solo era mais arenoso ou argiloso, 9 respondentes disseram ser argiloso; 25 arenoso; 16 arenoso e argiloso (variando de acordo com o local); 2 responderam ser mais arenoso nos locais próximo ao rio; 27 não souberam dar nenhuma resposta, dizendo não entender muito do assunto. A maioria dos acampados considera o solo fértil. Alguns admitiram que ele precisa ser melhor trabalhado e tratado. De acordo com alguns acampados, em solos arenosos o cultivo é mais difícil. Neste sentido, alguns disseram que o trabalho na terra torna-se mais complicado à medida que a roça fica mais próxima do rio. Com relação à aptidão agrícola da terra, disseram que as culturas melhor adaptadas são as que “dão embaixo da terra”, como as raízes e os tubérculos. Segundo os acampados, “o que dá para cima da terra” não é muito bom (milho, por exemplo). Esse é um fato preocupante, já que existe a intenção de criar animais. A atividade se tornará inviável, pois eles precisarão comprar o milho ao invés de produzi-lo, para alimentá-los. Assim, 33 acampados disseram que o melhor cultivo é o da mandioca; 28 o do feijão; 19 do amendoim; e 11 da batata doce. Porém, 20 produtores acreditam que tudo o que for plantado se desenvolverá bem, argumentando que o segredo reside no “plantar na época certa”. Quando citadas individualmente, três culturas entre as quatro citadas anteriormente, “dão embaixo da terra”. Com relação aos principais manejos para melhorar a fertilidade do solo, a adubação feita através do uso do mato (braquiária e capim colonião), capinado e deixado no solo para secar, é realizada por 36 acampados. Outra prática muito utilizada por 28 acampados é o uso do esterco de gado e de galinha. Também utilizam, em menor quantidade, a compostagem; a cama de frango; adubos orgânicos; biofertilizantes; adubação verde; restos de hortaliças; cascas de frutas e outros alimentos jogados no solo. O uso do esterco do gado e da galinha é muito importante na adubação. Vale ressaltar que o estrume de herbívoros em geral (vaca, cabra, cavalo) é rico em fibras e fornece mais energia para o solo, beneficiando-o de forma mais duradoura. O de galinha é rico em nitrogênio e tem pouca influência no solo por ser rapidamente degradado. Portanto, não é recomendado o uso exclusivo do estrume de galinha por ele não estimular o biodinamismo do solo e nem a produção de ácidos húmicos (responsáveis pela estruturação física). Pode ocorrer esgotamento do solo (FRANCISCO NETO, 1995). No acampamento há feijão andu ou guandu (Figura 9) plantado em muitos lotes. Embora esta planta seja uma alternativa ao adubo verde, somente um acampado admitiu fazer 59 o seu plantio com esta finalidade. Tornou-se importante abordar este tema nas oficinas, para que esta prática seja disseminada no acampamento. Outra prática importante citada por somente um acampado é o preparo de biofertilizantes. Ela deveria ser incentivada, já que o custo de sua produção é baixo e por a maioria dos ingredientes ser encontrada na propriedade rural. O uso de biofertilizantes é uma vantagem em relação ao de produtos químicos, pois esses últimos, além de mais caros, prejudicam o meio ambiente (em contrapartida aos princípios agroecológicos e do PDS). Foto: Rafaela Silva, 2008 Figura 9 – Cultivo de feijão andu (guandu) A necessidade de uso de adubo químico ainda é sentida por dois acampados. Porém, a falta de dinheiro e a proibição por parte das lideranças do acampamento dificultam tal prática. Com relação aos problemas percebidos no solo, 35 pessoas responderam que a acidez é o principal. A escassez de nutrientes e de matéria orgânica foi lembrada por 16 acampados. Outros problemas listados foram a compactação e a presença de raízes de braquiária, que prejudicam o desenvolvimento das culturas. No entanto, 20 acampados disseram não haver nenhum tipo de problema no solo. Com relação à acidez, os acampados deram três possíveis soluções para o problema: a adubação orgânica (também citada como solução para a escassez de nutrientes), utilização do calcário e a adubação verde. Atividades como o revolvimento da terra, a aração e o uso do trator foram alternativas citadas para solucionar problemas de compactação. A importância da análise do solo, com o intuito de saber os reais problemas e a melhor forma para solucionálos, também foi lembrada pelos acampados. 60 Foi realizada no Instituto Agronômico de Campinas (IAC) a análise do solo de duas áreas do acampamento. Uma das áreas refere-se ao terreno de um acampado distante de cursos d’água (amostra I); a outra amostra corresponde à área da horta comunitária mantida pelos acampados, próxima ao córrego (amostra II). Os resultados encontram-se na tabela 11. Tabela 11 – Resultado das análises de duas amostras de solo do acampamento Variável Amostra I 29 Mat. Org. (g/dm³) 4,2 pH (CaCl2) 5 Fósforo (mg/dm³) 1,3 Potássio (mmol/dm³) 15 Cálcio (mmol/dm³) 3 Magnésio (mmol/dm³) 0,33 Boro (mg/dm³) 0,9 Cobre (mg/dm³) 71 Ferro (mg/dm³) 6,2 Manganês (mg/dm³) 0,2 Zinco (mg/dm³) 19,3 Soma Base 64 Ac. Potencial 83,7 Cap. Troca Cat. (CTC) 23 Sat. Bases (%) Fonte: IAC (2008) Amostra II 15 4,1 3 0,8 7 2 0,23 0,5 50 3,4 0,1 9,8 31 40,6 24 A interpretação dos dados foi feita de acordo com os padrões estabelecidos pelo próprio IAC. Nas duas áreas o pH está muito baixo (4,2 e 4,1; respectivamente), indicando acidez muito alta. A análise corrobora a afirmação dos acampados, dizendo que o solo é muito ácido. O valor de cálcio encontrado é o mínimo desejável para as culturas. Portanto, o encontrado na amostra I (15 mmol/dm³) é considerado alto, enquanto o da II (7 mmol/dm³), médio. Por estes dados tem-se que o valor mínimo exigido na amostra I é maior, o que repercute na necessidade de maior uso de cálcio para a calagem nesta área. Realmente, o IAC recomendou maiores valores de calcário na amostra I do que na II para as culturas de milho, mandioca, batata e batata doce para mesa. Nas amostras também foram encontrados valores muito baixos de fósforo e para a saturação de bases. Segundo Fornari (2002), o baixo valor na quantidade de fósforo indica uma dificuldade das plantas em formar o sistema radicular, florescer e formar frutos e 61 sementes. Na cultura do milho, há o aparecimento de grãos secos e espigas curtas com a ponta torta. As quantidades de potássio, magnésio e zinco são consideradas baixas nas duas amostras. A falta destes três nutrientes gera plantas com folhas manchadas e deformadas. A falta de potássio ocasiona o surgimento de um caule fino nas plantas, espigas mais curtas e grãos descoloridos; a deficiência de magnésio acarreta na ausência de clorofila (folhas amareladas ou avermelhadas) e no aparecimento de estrias esbranquiçadas nas folhas; sem o zinco há um retardamento no crescimento e na produção de clorofila. Tais deficiências podem explicar porque o milho não se desenvolve bem no acampamento. O broto terminal fica quase branco, com folhas amareladas e faixas brancas e roxas (FORNARI, 2002). A reclamação dos acampados recai justamente sobre o tamanho das plantas e das espigas e sobre o aspecto dos grãos. Ainda segundo Taiz e Zeiger (2004), a falta de potássio causa a suscetibilidade das raízes do milho aos fungos da podridão e os efeitos caulinares provocam o tombamento da planta no solo. Já o valor de ferro é considerado alto nas duas áreas, o que provoca manchas nas folhas (FORNARI, 2002). A quantidade de boro nas duas amostras é considerada média. O teor de cobre e manganês é considerado alto na amostra I e médio na II. De acordo com esse autor, o manganês fica melhor disponível para as raízes quando o pH é 6,5. Segundo Primavesi (1987) há um equilíbrio entre os íons nutritivos da fase mineral, a capacidade de troca catiônica (CTC) e a solução do solo (água). A CTC depende dos teores e tipos de argila e da quantidade de matéria orgânica no solo. No solo tropical, a argila caulinítica possui características que reduzem a CTC. O reabastecimento da solução do solo com nutrientes depende diretamente do seu valor (elevado em solo temperado). Nos trópicos, a CTC é baixa em solo argiloso e menor ainda em solo arenoso. Ainda segundo essa autora, o abandono e o pousio do solo não aumentam o acúmulo de nutrientes disponíveis na solução do solo, porque este acúmulo não pode ser maior que a CTC devido a uma questão de equilíbrio. O problema nos solos não é a concentração de nutrientes, e sim o espaço que pode ser explorado pela raiz da planta (diminui devido aos adensamentos ocorridos em virtude do manejo inadequado das culturas). O pousio recupera a bioestrutura do solo, possibilita um maior enraizamento e aumenta o complexo de troca por substâncias orgânicas humificadas, intensificando o reabastecimento. A matéria orgânica não tem seu nível abaixo de um mínimo que lhe é próprio. Porém, ao se cultivar em certas condições de umidade, perde-se rapidamente tal matéria orgânica 62 acima desse nível mínimo e conseqüentemente sua bioestrutura e condições de produzir, além de baixar a CTC. A restituição de matéria orgânica torna-se um fator vital para a agricultura. Quanto maior o valor da CTC, maior a capacidade do solo de reter e liberar nutrientes. Portanto, maior será sua fertilidade do solo e a nutrição das plantas. Esta capacidade é melhor observada na amostra I que, além da CTC, apresenta maiores quantidades de matéria orgânica quando comparada à amostra II. Considerando os quatro cultivos analisados, o IAC recomendou a calagem nas duas áreas. Na amostra I, a quantidade de calcário a ser aplicada é sempre maior do que na II. A calagem deve garantir os teores suficientes de magnésio no solo. A análise granulométrica das amostras também foi realizada pelo IAC. Através dos resultados (Tabela 12), observa-se que a amostra I possui maior quantidade de argila e menor quantidade de areia quando comparada à amostra II. Estes resultados, mais uma vez, corroboram com os depoimentos dos acampados quando se referem às áreas com mais argila e areia. O resultado da quantidade de argila em I também ajuda a explicar o maior valor da CTC, conforme já descrito. Tabela 12 - Resultado da análise granulométrica das amostras de solo do acampamento. Argila Areia Total , Classificação (g/kg) Silte (g/kg) g/kg textural < 0,002 mm 0,053 - 0,002 mm 2,00 - 0,053 mm I 275 169 556 Franco-argiloarenosa II 125 85 790 Franco-arenosa Fonte: IAC (2008) Amostra nº 4.11. Pragas e Doenças Com relação ao ataque de pragas, a maior parte dos acampados disse ter problemas, principalmente com as formigas. Para tentar repelir ou eliminá-las, cada acampado tem sua própria receita caseira. A maior parte delas tem como ingredientes: o fumo, a pimenta e o gergelim. Grilos, vaquinhas, pulgões e lagartas são outros exemplos de animais considerados pragas. Atacam as lavouras no acampamento e são combatidos com alguma calda ou, no caso das lagartas, através do processo de catação manual. 63 Dois acampados disseram que jogam nos formigueiros “bolinhas” compradas. Porém, não disseram o que seriam tais “bolinhas”. Seria interessante trabalhar com estes agricultores todas as possibilidades de caldas e compostos preparados com elementos encontrados na propriedade rural, para combater tais pragas. O uso de plantas repelentes e outras mais atrativas do que as culturas principais também pode ser incentivado. Com relação às doenças, poucos agricultores admitiram ter problemas. Ao ser verificada a doença na folha, eles retiram as ruins e utilizam as caldas para regar a planta. Geralmente há fumo na composição. 4.12. Agrotóxicos Quando questionados a respeito do uso de agrotóxicos, todos disseram não utilizar. Porém, esta resposta não traz certezas, já que algum acampado pode ter tomado o cuidado de não revelar o uso de uma substância proibida no acampamento pelas lideranças. Com relação à periculosidade do uso dos agrotóxicos, apenas um dos entrevistados não soube dizer nada a respeito. Os outros 76 acampados disseram ser perigoso. Na opinião deles, as pessoas que consomem alimentos com esse tipo de produto podem ter algum tipo de problema de saúde (67 citações). Para 54 deles, os mais prejudicados são aqueles que aplicam o produto. A preocupação com os animais surgiu em 38 depoimentos, enquanto 17 citaram a água e 12 o solo. Eles poderiam citar mais de um item. Para eles, por se tratar de um veneno, as pessoas que ingerem alimentos tratados com agrotóxicos ou aplicam o produto se contaminam. Um acampado afirmou ter consciência do perigo, mas terá que utilizar contra os insetos. 4.13. Algumas práticas agroecológicas Adubação verde A adubação verde tem como finalidade fixar nitrogênio (pela raiz e pela massa verde produzida); combater as plantas invasoras; eliminar nematóides; e fornecer nutrientes disponíveis. As leguminosas também podem contribuir para o controle da erosão (PRIMAVESI, 1987; ALTIERI, 1989). 64 Porém, Primavesi (1987) ressalta que em solos ácidos, como o do acampamento Elisabete Teixeira, a adubação verde não melhorará o rendimento da cultura de forma considerável. Pelo contrário, por acidificar o solo exige o uso da calagem. Dentre os acampados, 55 nunca tinham ouvido falar no termo “adubação verde”. Mas, após conhecerem, demonstraram interesse no cultivo. Evidencia-se então que muitos não a praticam por desconhecimento. Inclusive os que possuem guandu no lote e cultivam esta planta para o consumo da família. O empecilho para o início da adubação verde está na obtenção das sementes das outras espécies, além do guandu. A escolha da planta adequada para a adubação verde deverá ser feita de acordo com as principais espécies cultivadas. Assim como determinada espécie de adubo verde pode atuar como planta “companheira” da espécie de cultivo, beneficiando-a, pode atuar para outra espécie como alelopática (prejudicando o desenvolvimento da lavoura). Pode-se definir que a adubação verde, quando criteriosamente empregada, pode baratear o custo da produção agrícola. Quando usada empiricamente ou revolvida com o solo, pode prejudicar o solo e o agricultor (PRIMAVESI, 1987). Compostagem A compostagem é o processo de transformação de resíduos vegetais e animais em materiais orgânicos benéficos para a agricultura. É uma técnica relativamente simples, que pode ser aplicada em diferentes situações do desenvolvimento agrícola. Ela envolve transformações extremamente complexas de natureza bioquímica, promovidas pelos organismos do solo. A matéria orgânica in natura é a fonte de energia, nutrientes minerais e carbono necessários para esses organismos (FRANCISCO NETO, 1995; PEIXOTO, 2005). A compostagem é realizada por acampados que desconheciam tal denominação. A maioria simplesmente junta algumas cascas de frutas e restos de alimentos, adicionando algum mato e deixando “descansar” por alguns dias antes de utilizar na lavoura. Outros jogam as cascas diretamente na roça. Em ambos, a metodologia típica descrita por diversos autores como Francisco Neto (1995) e Peixoto (2005) - não é seguida. Porém, tais práticas não devem ser ignoradas, já que eles reutilizam a matéria orgânica que possivelmente seria jogada no lixo e adicionam nutrientes ao solo. Peixoto (2005) explica que a diferença entre utilizar os resíduos crus ou o produto da compostagem no solo é com relação à quantidade e à época em que os nutrientes 65 mineralizados estarão disponíveis para a cultura e a intensidade com que influenciam os microrganismos do solo. A adubação verde e a compostagem são duas práticas agrícolas que serão temas de futuras oficinas no Elisabete Teixeira. Rotação e consórcio de culturas Conforme já dito anteriormente, as famílias moradoras do acampamento Elisabete Teixeira estão ocupando terrenos provisórios e pequenos. Será desta forma até o momento da distribuição dos lotes, quando já for assentamento. Em virtude do despejo ocorrido em novembro de 2007 e da volta posterior, iniciou-se o cultivo em janeiro de 2008. Com isso, algumas culturas ainda não foram colhidas e outras nem puderam ser plantadas devido à época do ano e às características das mesmas. Portanto, quando se fala em rotação de culturas, muitos argumentam que ainda não pensaram a respeito do que vão plantar após a colheita. A maior parte planta de forma consorciada (Figura 10) para o melhor aproveitamento do espaço concedido. Dentre os acampados que disseram fazer essa prática, 8 demonstraram ter preocupação com a preservação do solo, não plantando a mesma cultura de forma sucessiva. Tal prática não desgasta o solo e evita o ataque de pragas e doenças que possam atacar a nova safra, caso a anterior esteja infestada. Os outros agricultores, que também praticam a rotação, só a fazem porque a época do ano não possibilita o mesmo plantio ou por acreditar que outra cultura desenvolve-se melhor no solo. No entanto, a maior parte dos acampados ainda não faz a rotação de culturas. Antes de realizar a rotação, o agricultor deve ficar atento às espécies que serão cultivadas. Elas devem ser imunes às pestes que poderiam afetar as culturas anteriores (FRANCISCO NETO, 1995). Com relação ao cultivo consorciado, além do melhor aproveitamento do espaço, são favorecidos pela diversidade de cultivos. Diversidade que garante uma alimentação mais variada e uma lavoura menos suscetível ao ataque de doença ou praga (já que determinadas plantas podem repelir esses organismos ou até mesmo atrair os predadores naturais deles). Quanto mais diversa a propriedade, mais vantagens terão o agricultor e a natureza. 66 Foto: Rafaela Silva (2008) Figura 10 – Cultivo consorciado O consórcio entre culturas é realizado através do uso de plantas “companheiras” que, quando associadas, favorecem-se mutuamente. Essa técnica surgiu baseada no conhecimento empírico dos agricultores (FRANCISCO NETO, 1995; FORNARI, 2002). Dessa forma, plantas que requerem muita luz podem ser consorciadas com outras que necessitam de mais sombra; ou então, plantas com sistemas radiculares profundos e superficiais podem ser consorciadas, já que utilizam diferentes profundidades do solo e podem se ajudar na obtenção dos nutrientes necessários (FORNARI, 2002). A queda na população de pragas pode ser explicada por dois fatores. O primeiro refere-se ao rompimento na continuidade e na abundância de seu alimento, que ocorre porque em sistemas diversificados as espécies vegetais são compostas por plantas hospedeiras e nãohospedeiras. Com isso, esses animais terão maior dificuldade em localizar as plantas preferidas, que estarão dispersas e “mascaradas” devido às plantas não-hospedeiras associadas. O outro fator é a preservação dos inimigos naturais que possuem melhores condições de sobrevivência e reprodução nestes sistemas. Isso acontece devido à maior quantidade de microhábitats adequados, de locais de refugio, de fontes de pólen e de néctar (AGUIAR-MENEZES e MENEZES, 2005). Esses são apenas alguns exemplos de como o consórcio entre culturas pode ser vantajoso, tanto para as próprias plantas, quanto para os agricultores que poderão aproveitar melhor o pequeno espaço para a produção. 67 4.14. Sonho Nesta pesquisa houve a preocupação e o interesse de trabalhar em função do sonho de vida dos acampados. Não era o objetivo abordar temas e elaborar propostas com base apenas nas idéias da pesquisadora ou em teorias científicas, mas sim construir em conjunto com os acampados e com base na vontade deles. A intenção era realizar um trabalho que poderá ser aproveitado no futuro, quando o então “Assentamento Elisabete Teixeira” existir. A última questão feita aos acampados foi “Qual é o seu sonho?”. Neste momento ficava muito claro que a resposta poderia ter como base qualquer desejo deles, já que a meta era simplesmente identificar qual é o grande sonho de vida dessas pessoas, independente do MST. Das 77 entrevistas realizadas, 69 remetiam à mesma idéia central: “um pedaço de terra para poder plantar, colher e tirar o sustento meu e da minha família”. O restante não deixou tal idéia clara. Entretanto, com exceção de uma (respondeu não ter sonhos), notou-se o desejo de ter uma vida melhor do que a de hoje, independente se com ou sem a terra. Através das respostas, pôde-se notar que a razão pela qual essas famílias estão no acampamento é realmente a possibilidade de conquistar um pedaço de terra para poder trabalhar e sustentar a família. Neste caso, elimina-se qualquer dúvida referente às suas intenções, distorcida para muitas pessoas, seja pela mídia ou pelo preconceito por parte da população quando o tema é o MST. 68 5. OFICINAS REALIZADAS NO ACAMPAMENTO “ELISABETE TEIXEIRA” As oficinas constituíram a segunda parte deste trabalho de conclusão de curso. Elas tinham como objetivo incentivar as práticas agroecológicas no acampamento e concluir a investigação de como os acampados conduzem o trabalho na lavoura e no dia-a-dia, relacionando-as às práticas que contribuem para com a conservação da natureza. No decorrer da pesquisa, os acampados foram informados a respeito das oficinas. A intenção era formar um grupo fixo, para que eles pudessem avaliá-las e também repassar os conhecimentos obtidos para o restante do acampamento. O convite para participação nas mesmas estendia-se para todos os moradores. Porém, somente as mulheres participaram. Uma possível explicação é a necessidade de alguns homens de trabalham fora. O interesse das mulheres também pode ser justificado pelo fato de sua responsabilidade pela reprodução familiar. A produção de alimentos é uma questão central para as mulheres dentro da família. As oficinas foram realizadas no acampamento Elisabete Teixeira. Inicialmente, quatro foram programadas, sendo a última uma avaliação das outras três. A seguir será descrito um pouco sobre cada oficina realizada: Oficina 1: Agricultura e Meio Ambiente Data: 10 de setembro de 2008 A primeira oficina teve como finalidade abordar a temática da agricultura e do meio ambiente. O objetivo era relacionar e explicar a importância e a manutenção do meio ambiente nos espaços rurais, além de introduzir os conceitos e princípios da agroecologia. Estiveram presentes 22 mulheres acampadas, a pesquisadora e uma ecóloga que participou como colaboradora durante todo o processo, por também pretender desenvolver um projeto no acampamento. Como um dos objetivos deste TCC, elaborou-se uma cartilha com o conteúdo da oficina (Anexo B). 69 Nessa oficina também havia o interesse de uma aproximação entre todos os participantes, por isso ela foi conduzida como uma conversa informal. Com o passar do tempo, as acampadas ficaram mais a vontade e falaram e participaram mais da oficina (Figura 11). Foto: Marina Leme (2008) Figura 11 – Explanação durante a oficina 1 (Agricultura e Meio Ambiente) Oficina 2: Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Data: 17 de setembro de 2008 Nesta oficina estiveram presentes 24 mulheres, pesquisadora, a ecóloga colaboradora, a professora orientadora deste TCC, uma aluna do mestrado em agroecologia da UFSCAR e alguns membros do MST da Regional de Campinas. Neste dia foi explicado o que é um PDS, quais as obrigações dos moradores, os benefícios, enfim, todas as funções e objetivos deste modelo de assentamento. A presença das mulheres da regional de Campinas foi importante para esclarecer algumas questões. A participação das mulheres acampadas também foi mais intensa, já que foi abordado um tema diretamente relacionado à vida delas. Nesta oficina não foi elaborada nenhuma cartilha. O material utilizado faz parte de um trabalho realizado pelo INCRA, que estudou a viabilidade da área do Horto Tatu como um assentamento. 70 Oficina 3: Solos Data: 24 de setembro de 2008 Estavam presentes 23 mulheres, a pesquisadora, a ecóloga colaboradora, um aluno do curso de Geografia da UNESP/ Rio Claro (também desenvolveu seu TCC no acampamento) e a aluna da UFSCAR. As mulheres estavam mais a vontade para falar. Foi realizada uma caminhada (Figura 12) para a coleta das diferentes amostras de solo. Foto: David Santos (2008) Figura 12 – Saída de campo para coletas das amostras de solo Foram feitas 4 coletas de solo: 1) Em um ponto de passagem, onde era visível a compactação do solo; 2) Em um local em que o solo estava coberto com palha; 3) No local considerado ser um brejo, com umidade elevada; 4) Em um terreno manejado com adubação verde (feijão guandu), totalmente desprotegido no momento. No primeiro ponto, uma das acampadas falou que onde o terreno é mais arenoso, ela planta “o que dá debaixo da terra”, como batata doce e mandioca, deixando os restos de cultura sobre o solo, para adubá-lo. Outra acampada falou da cor do solo. Ela disse plantar onde a terra está mais escura e fofa. Outra acampada afirmou que se deve pensar num conjunto de fatores, além da cor. Na volta para o barracão, as 4 amostras foram comparadas e a diferença entre elas era evidente (Figura 13). O solo coberto por palha era visivelmente o melhor para o cultivo (tinha 71 cheiro agradável, organismos vivos, não formava torrões, tinha boa umidade e a cor era mais escura do que a dos outros solos). O solo mais compactado formava torrões com faces retas, havia algumas raízes e não apresentava cheiro. No campo ele estava bem próximo do solo que estava em melhores condições, porém, estava totalmente desprotegido da ação do sol, vento e chuva. Foto: David Santos (2008) Figura 13 – Análise das diferentes amostras de solo coletadas no campo No solo mais úmido percebia-se pela textura a presença de argila. Foi apresentado como o excesso de umidade poderia compactá-lo com o uso de máquinas. Também foram citadas as culturas que não suportam tanta umidade e apresentam dificuldade no crescimento. O solo manejado com guandu apresentava boas características, porém estava desprotegido (sob ação do sol e do vento) e completamente seco. Para melhorá-lo, seria preciso adicionar matéria orgânica (pela falta de umidade os torrões estavam muito duros e difíceis de ser quebrados). Uma acampada falou da importância de não revolver o solo tão profundamente, para conservar a camada mais fértil. Falaram da dificuldade em produzir o milho. Uma acampada afirmou não o colher devido à semeadura ter sido realizada na época errada. Segundo ela, plantando na época certa e cuidando do solo corretamente, tanto o milho como outras culturas terão um bom desenvolvimento. A cartilha dessa oficina foi elaborada após a oficina, com base nos solos encontrados em campo (Anexo C). 72 Oficina 4: Avaliação das primeiras oficinas e trabalhos futuros Data: 1 de outubro de 2008 Estavam presentes cerca de 20 mulheres, a professora orientadora, a pesquisadora, a ecóloga colaboradora e a aluna da UFSCAR. Primeiramente, foram esclarecidas algumas dúvidas das acampadas com relação às outras oficinas. Duas acampadas falaram da experiência vivenciada em uma visita ao assentamento de Itapeva. Elas descreveram o trabalho realizado nesse local, falaram sobre o beneficiamento de alguns produtos, como o leite (produção de iogurte e de queijo) e o girassol (produção de óleo). Também explicaram como é organizado o trabalho coletivo e defenderam a implantação desse modo de produção no Elisabete Teixeira. A questão do trabalho coletivo gerou muitos questionamentos entre as mulheres, dividindo opiniões. Muitas defenderam a idéia de produzir individualmente e vender coletivamente, através de uma associação (inclusive montar uma barraca em alguma feira da cidade de Limeira). Foi proposto que os próximos passos serão: novas oficinas, visitas a outros assentamentos (para que elas conheçam o modo de produção, as lavouras e os manejos realizados), além de outras práticas que poderão adotar em seus lotes. A intenção é o repasse de seus conhecimentos para outros assentados, caracterizando assim uma troca de saberes entre os agricultores. Todas disseram ter gostado das primeiras oficinas (também foi uma oportunidade de se conhecerem melhor) e que pretendem conduzir o seu lote de forma agroecológica por querer seus alimentos saudáveis, tanto para a família quanto para o consumidor. 5.1. A mulher na zona rural A questão do gênero ganhou muita importância nesse trabalho, a partir da realização das oficinas, pois a presença da mulher era unânime. Desta forma, tornou-se importante contextualizar brevemente o papel da mulher na área rural e nos assentamentos. De acordo com Schwarz e Schwarz (1990), a revolução verde acentuou a desigualdade entre os sexos, porque quando se passou a praticar a agricultura tecnológica, as mulheres deixaram de integrar a força de trabalho. O papel da mulher era mais valorizado na economia 73 tradicional de subsistência. Elas são responsáveis por tarefas manuais, como transplantar, retirar ervas daninhas e beneficiar cereais e seu salário chega a ser até 60% menor do que o dos homens. No entanto, elas trabalham tanto quanto eles na lavoura e ainda são responsáveis pelas tarefas essenciais à família. O trabalho doméstico das mulheres não é considerado trabalho, sua contribuição à produção é encarada como secundária e complementar a do homem. No mundo rural, a percepção que as mulheres têm de seu trabalho é definida socialmente como um jeito de ser mulher. O trabalho doméstico não se expressa em relações monetárias, sendo esquecido e desvalorizado pela sociedade. Isso acontece devido à cultura patriarcal, que define a inferioridade do papel feminino na sociedade. Há uma invisibilidade do trabalho feminino, observada pelo número de mulheres que trabalham sem remuneração. Assim, separar a análise do trabalho rural assalariado das atividades de auto-consumo e das trabalhadoras sem remuneração (com baixa jornada de trabalho) encobre a “labuta” feminina no campo brasileiro (MELO e SABBATO, 2006). Ainda segundo esses autores, o trabalho da mulher é visto como uma extensão do seu papel de mãe, esposa, dona de casa e provedora das necessidades da família. Tal papel superpõe-se a seu trabalho na atividade agropecuária, encobrindo a verdadeira natureza da sua ocupação e reduzindo a sua jornada de trabalho. Isso caracteriza bem a visão, no mundo rural, do papel exercido pelo homem como provedor e da mulher como reprodutora. De acordo com Butto (2006), para além do acesso a terra, participar da produção nos assentamentos está na maioria das vezes limitada pelas responsabilidades desiguais entre homens e mulheres no trabalho reprodutivo das famílias. Com menor tempo e sem acesso às decisões de gestão da produção, as mulheres assentadas, assim como as agricultoras familiares, atuam nos quintais garantindo o auto-consumo das famílias. Por não ter acesso à renda monetária, permanecem invisíveis na economia dos assentamentos. Na tentativa de solucionar a questão de gênero, foi implantada, pela portaria nº 981/2003 do INCRA, a titularidade conjunta e obrigatória da terra (reivindicação histórica dos movimentos sociais). Apesar de prevista na constituição federal desde 1988, não havia o instrumento legal que a tornasse obrigatória (BUTTO, 2006). A autora ainda afirma que esta garantia permite à mulher apoderar-se da renda e de todos os benefícios econômicos e sociais. Cria-se condições dignas e justas para sua permanência no campo, diminuindo a pobreza, a desigualdade e restabelecendo os seus direitos de cidadã. Essa foi uma grande conquista para as mulheres e para toda a sociedade. 74 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho permitiu fazer uma caracterização dos trabalhadores rurais moradores do acampamento Elisabete Teixeira e de suas intenções, vontades e sonhos com relação ao futuro. No geral, os acampados residiam em municípios vizinhos à cidade de Limeira antes da chegada ao acampamento, embora sua origem esteja diretamente relacionada ao campo. Estas pessoas têm como característica (como em outros assentamentos do Brasil) o fato de, no passado, terem tentado melhorar sua condição de vida e renda nas áreas urbanas e a falta de estudo. Pelas circunstâncias passadas em suas vidas, viram-se obrigadas a retornar ao campo, passando a recorrer, desta forma, ao engajamento nos movimentos sociais (sobretudo o MST). Assim como foi observado por Borsatto et al (2007) no Paraná, no acampamento Elisabete Teixeira fica evidente que a prioridade da produção e da criação agrícola é voltada à soberania alimentar da família. Fato que justifica também a grande diversidade de cultivos e a escolha das espécies a serem plantadas e/ou criadas. O pequeno espaço para cultivo deixa para segundo plano uma possível venda da produção, embora não descarte sua integração no mercado local e regional. No Elisabete, quando a situação atual dos acampados é comparada com a vivida anteriormente, há por parte deles uma percepção de melhora. Mesmo em casos em que as condições de vida podem parecer precárias, quando se compara com a situação vivida anteriormente, o acampamento significa uma melhora significativa na vida desta população. Ela considera o futuro promissor, principalmente porque eles mantêm a esperança de conquista da terra, fato que hoje é real. Há uma nítida expressão por parte deles da recuperação da dignidade dentro da sociedade. A criação do assentamento permitirá que esta população, tradicionalmente excluída, possua uma fonte de trabalho, de recursos necessários à reprodução familiar e sustento no próprio lote. Desta forma, estas famílias não precisarão recorrer a outras fontes de renda e não dependerão de doações de terceiros. Com relação às atividades agropecuárias futuras, a principal característica observada é a diversidade. Se estes futuros assentados inserirem-se na economia local, esta será marcada pela oferta variada de produtos. Tal questão influenciará na qualidade de vida de assentados e 75 consumidores e nos aspectos ambientais, que serão favorecidos devido à diversidade de espécies e funções ecológicas exercidas por elas. As práticas agrícolas adotadas pelos acampados são noções que a população traz de suas experiências de vida anterior ou através de referenciais de gerações anteriores. Estes valores atribuídos à preservação da natureza (como condição à sobrevivência deste grupo) fazem parte de um conjunto de saberes e práticas do campesinato. Outras características do campesinato também estão intrínsecas nas atividades destes acampados. Um exemplo envolve a ética ambiental demonstrada por eles com relação aos reflorestamentos voluntários. A preocupação em aproveitar os espaços do lote com uma agricultura diversificada e consorciada também evidencia tal característica. Outro fator destacado foi o conhecimento carregado por estas pessoas. Conhecimento facilmente evidenciado em diversos momentos da pesquisa, como em relação aos conhecimentos sobre o solo e de como manejá-lo corretamente. O conhecimento tradicional permite o acúmulo de uma série de informações relacionadas ao respeito pela natureza. Esses conhecimentos também foram importantes durante as oficinas, tanto para os alunos da universidade quanto para as acampadas. As mulheres reconheceram que muitos assuntos, conhecimentos e práticas abordados já eram de seu conhecimento, mas foram esquecidos pela falta de uso. As oficinas foram muito positivas neste aspecto. Outro aspecto notado é relatado na fala de uma acampada com relação às oficinas: “a gente soube de um valor que a gente tem e não sabia”. Ela se referia ao interesse dos universitários que estão trabalhando com eles, em investigar os seus conhecimentos. Ela desconhecia a importância e o valor dos seus saberes sobre a agricultura e o meio ambiente. As oficinas e entrevistas realizadas junto a esta população apontaram a importância de se investigar os saberes e práticas camponesas, porque são eles que estão no trabalho da terra no dia a dia, conhecem a dinâmica e as necessidades locais. Ao mesmo tempo, é importante que estes conhecimentos tradicionais sejam atrelados aos científicos advindos dos estudos e pesquisas acadêmicas, alcançando um objetivo comum entre pesquisadores e agricultores. A busca pela soberania alimentar, reprodução da família, preservação do meio ambiente e troca de experiências entre estes atores sociais possibilitou a construção de novas propostas de trabalhos entre acampados e pesquisadores no sentido da consolidação da reforma agrária. 76 7. REFERÊNCIAS AGUIAR-MENEZES, E. L.; MENEZES, E. B. Bases ecológicas das interações entre insetos e plantas no manejo ecológico de pragas agrícolas. In: AQUINO, A. M.; ASSIS, R. L. (Orgs.). Agroecologia: princípios e técnicas para uma agricultura orgânica sustentável. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2005. p. 323-339. ALTIERI, M. Agroecologia: as bases científicas da agricultura alternativa. Tradução de P. Vaz. Rio de Janeiro: PTA/FASE, 1989. 240p. ALTIERI, M. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 3. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2001. Síntese Universitária, 54. 110p. ALTIERI, M. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. Guaíba: Agropecuária, 2002. 592p. 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Acesso em: 15 out. 2008. ROQUE. A. A. O. Assistência técnica em irrigação para o pré-assentamento comuna da terra Milton Santos. 2007. 37f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Educação do Campo e Agricultura Familiar Camponesa) - Departamento de Fitotecnia e Fitossanitarismo, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2007. ROSSINI, D. Análise ambiental e do padrão espacial em áreas de expansão urbana de Limeira – SP. 2001. 171f. Dissertação (Mestrado em Geografia– Área de Concentração em Análise da Informação Espacial) - Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2001. RUPPERT, E. E.; FOX, R. S.; BARNES, R. D. Zoologia dos invertebrados: uma abordagem funcional-evolutiva. 7. ed. São Paulo: Roca, 2005. 1145p. SASAKI, D. L. Produção de material de divulgação para produtores em assentamentos rurais sobre a importância da conservação de polinizadores. 2005. 60 f. 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PERFIL DO AGRICULTOR 1.1. Nome: __________________________________________________________________ 1.2. Idade: ________ 1.3. Município onde nasceu:___________________________________ 1.4. Qual o último município que morou antes do acampamento?_______________________ Zona Urbana Zona Rural 1.5. Qual profissão exercia? ____________________________________________________ 1.6. Há quanto tempo trabalha no meio rural? ______________________________________ 1.7. Há quanto tempo está envolvido com o MST? __________________________________ 1.8. Quando chegou ao acampamento “Elisabete Teixeira”?(data ou meses)_______________ 1.9. Como era sua vida antes de morar no acampamento (melhor, mesma coisa, pior)? Detalhar. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 1.10. Descrição da trajetória de vida (até chegar ao acampamento, como entrou no MST, etc): ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 1.11 Quais as razões de estar na agricultura? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 1.12. Quem MORA no acampamento (composição da família)? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 84 1.13. Quem de sua família (que mora no acampamento) trabalha e onde? Membro da família Homem Mulher Filho (a) Filho (a) Filho (a) Filho (a) TOTAL Sexo Idade Função (coletivo do Profissão fora do acampamento (onde (M/F) acampamento) trabalha – fixo ou temporário) M F 1.14. Qual o grau de escolaridade dos membros da família? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 1.15. Os membros da família pretendem permanecer no acampamento futuramente? (principalmente filhos). ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 1.16. Atualmente, como se dá a subsistência da família (com a produção, trabalho na cidade, doações)? Detalhar. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 1.17. Futuramente, pretendem viver de que forma (voltar para cidade, morar no acampamento e trabalhar na cidade, depender da produção, trabalhar no acampamento e na cidade, outro)? Comente. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 1.18. Você participa de algum tipo de associativismo (grupo informal, associação, sindicato, partido político, igreja, etc)? Alguém da família participa (quem)? Apontar o grau de participação (nulo, médio ou intenso). Citar. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 85 1.19. Quais são os maiores problemas enfrentados no acampamento? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 1.20. E quais as vantagens, facilidades? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 1.21. Você possui alguma orientação técnica? (de quem, detalhes) ___________________________________________________________________________ 1.22. Recebem algum tipo de crédito? (sim, não, formal, informal, condições) ___________________________________________________________________________ 1.23. Vocês recebem algum de recurso (bolsa família, etc) do Governo? ___________________________________________________________________________ 2. O ESTABELECIMENTO 2.1. Identificação da casa: ______________________________________________________ 2.2. O entrevistado será o titular do lote? Caso não seja, indicar o grau de parentesco de quem será: _______________________________________________________________________ 2.3. Quais são as principais atividades que sua família realiza no terreno e no acampamento? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 2.4. Qual o destino atual de sua produção? Consumo Venda Trocas (especificar) Outro: _________________________________________________________________ 86 2.5. Discriminação do uso do solo: Discriminação das culturas Feijão Anual Observações e quais são as Discriminação Variedade das culturas mais importantes corda Mandioca carioca Amendoim preto Abóbora andu Quiabo Milho Arroz Café Eucalipto Manga Goiaba Perene Maracujá Banana Observações e quais são as Variedade mais importantes Mamão Laranja Limão Alface Couve Coentro Horta Alho Almeirão Salsinha Cebolinha Outros Usos 2.6. Discriminação do Rebanho: Discriminação Quantidade Suínos Aves Outros Total Raça Finalidade Observação 2.7. Quais as máquinas e/ou equipamentos você utiliza na produção? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 87 2.8. Futuramente, o que pretende produzir (animais, frutas, verduras, etc)? Qual será sua principal atividade ou cultura? Destino da produção? Discriminar. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 2.9. Quando for assentamento, você vai querer que o modo de produção seja coletivo ou individual, com cada assentado plantando em seu próprio lote? Argumente. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3. RECURSOS NATURAIS 3.1. Há alguma mata/floresta no acampamento? Onde ela está localizada? Caso a resposta seja não, ir para a questão 3.8. ___________________________________________________________________________ 3.2. Por qual motivo ela ainda permanece no acampamento? (Não tem outros usos, barreira contra vento, área de proteção da natureza, protege solo e água, não poder desmatar) ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.3. Geralmente você vai até o local desta mata? Fazer o quê? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.4. Você já aproveitou ou aproveita esta mata para alguma atividade? (Fazer cabo de enxada, lenha, madeira para construção, passear/lazer, caçar). ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.5. Caso nunca tenha aproveitado, gostaria de utilizá-la para quê? Por que não a utiliza? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.6. Gostaria de substituir esta mata por alguma outra coisa (pasto, lavoura, etc)? Por quê? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.7. Você ajuda a conservar a mata? Como? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 88 3.8. Há no acampamento alguma área protegida por lei para proteção da natureza? Onde está localizada? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.9. Como é o clima no acampamento? Você acha que a mata tem alguma influência sobre ele? De que forma? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.10. Você sabe o que é mata ciliar? ( ) Sim 3.11. E área de reserva legal? ( ) Sim ( ) Não ( ) Não 3.12.Você acha que eles estão de acordo com a legislação? ___________________________________________________________________________ 3.13. Em relação à vegetação, como você a classifica? Você acha que é nativa ou não? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.14. Acha que deveria ser feita a recuperação florestal em algum local? Com qual vegetação? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.15. Há algum rio ou outra fonte de água dentro do acampamento? (tipo, disponibilidade, qualidade do recurso, restrições hídricas, uso). ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.16. O que você acha da presença do “lixão” mantido pela Prefeitura? Você acha que está em local correto? Por quê? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.17. Você costuma ver animais que não são de criação aqui no acampamento? Quais? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 89 3.18. Quais insetos existem no acampamento? Qual a importância deles para o acampamento? (Não têm, transmitir doenças, polinizar, fazem parte da natureza, não sabe, estraga a plantação) ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.19. Há captura de animais vivos no acampamento? Se existir, qual o motivo? ___________________________________________________________________________ 3.20. O que você entende por proteção da natureza? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.21. Já ouviu falar em agroecologia? O que é ou acha que seria? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.22. Gostaria de fazer algum curso ou participar de alguma palestra? Sobre qual tema? (não precisa ser relacionado à conservação ou agroecologia, depois citar as nossas oficinas para ver qual interessa). ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.23. Você já fez algum curso ou palestra sobre proteção da natureza ou agroecologia? Quem organizou? Alguém da família já fez? ___________________________________________________________________________ 3.24. Já teve dúvidas sobre assuntos relacionados à conservação da natureza e à agroecologia? Quais? Questão para orientar o tema das oficinas, perguntar sobre o que querias saber. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.25. Já leu ou viu materiais informativos sobre proteção da natureza e agroecologia? O quê? ___________________________________________________________________________ 3.26. Quais problemas com relação à conservação da natureza você observa no acampamento? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 90 3.27. O que acha que poderia ser feito para melhorar isso? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.28. Você acha que sua família contribui com a conservação da natureza? De que forma? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.29. Há no seu terreno alguma planta que não é de cultivo, mas que tem alguma função positiva? Qual (is)? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.30. As plantas espontâneas (mata, ervas daninhas) têm alguma utilidade? Você as elimina?Como? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.31. Você sabe para que servem as flores numa planta? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.32. Acha que há alguma relação entre as flores e os insetos? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.33. Você já viu insetos em flores? Quais? Observou o que eles faziam? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4. MANEJO DO SOLO 4.1. Qual é o tipo de solo que você observa no acampamento (arenoso, argiloso, etc)? Ele é bom para que tipo de plantio? É fértil? Você observa algum tipo de problema no solo?(acidez, pouca matéria orgânica, nutrientes, etc). ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4.2. O que você faz para melhorar a fertilidade? E o que acha que deveria ser feito? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 91 4.3. O que acha que poderia ser feito para resolver os outros problemas com o solo? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4.4. É feito algum tipo de correção do solo (calagem)? Como? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4.5. Você usa veneno/agrotóxico na sua cultura ou criação? Qual? ___________________________________________________________________________ 4.6. Você acha que o uso de veneno/agrotóxico é perigoso? ( ) Sim ( ) Não 4.7. Para quem?(Pessoas que aplicam, para quem come o alimento, animais, água) Como ou por quê? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4.8. O que utiliza para fazer a adubação em seu terreno? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4.9. Já ouviu falar em adubação verde? Faz uso dela? Caso negativo, gostaria de fazer? ___________________________________________________________________________ 4.10. Você possui composteira? Caso negativo, tem interesse em fazer uma? ___________________________________________________________________________ 4.11. Como é realizado o manejo de pragas? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4.12. E o manejo de doenças? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4.13. E o de invasoras? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4.14. Faz rotação de culturas? Como é feito? (Caso negativo, por que não faz?) ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 92 4.15. Discriminação das Entradas no Sistema Discriminação Vegetal FinalidadeÉpoca Quantidade Observações Animal FERT/CORRETIVOS AGROTÓXICOS Uso vegetal Uso animal SAL, VAC, MED. 4.16. Discriminação das Saídas do Sistema Discriminação tipo/forma Época Quantidade Orig. vegetal Orig. animal Trabalho Outros Observações 93 4.17. É feito algum tipo de processamento dos alimentos para a comercialização? Caso negativo, seria interessante? Qual produto? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4.18. Outras considerações/observações: ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 5. Qual é o seu sonho? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ Entrevistador: _______________________________________________________________ Acha que o acampado foi um bom entrevistado? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 94 8.2. Anexo B Cartilha oficina 1: Agricultura e Meio Ambiente 95 AGRICULTURA E MEIO AMBIENTE Breve Histórico da Agricultura Oficina 1 10 de setembro de 2008 Nesta oficina: Breve Histórico da Agricultura Agricultura Atual Revolução Verde Por que relacionar Agricultura e Meio Ambiente? As diferentes Agriculturas! E a agroecologia? Há mais de 10.000 anos atrás, o homem não tinha o hábito de morar em um determinado local, ele vivia da caça e da coleta. A qualidade de vida era ruim, com muitos problemas de fome, o aumento da população era mínimo, muitas doenças e conflitos com outros grupos humanos. Com o tempo, o homem começa a ter a necessidade de fixar-se em algum lugar, e começa a praticar o cultivo de plantas e, mais tarde, a domesticar e criar animais. Com o início da prática da agricultura e fixação na terra, o homem apresentou mudanças no seu comportamento. Ele começou a aglomerar-se, surgindo assim as vilas e cida- des. A população aumentou, e isso fez com que ele começasse a organizar-se socialmente. Com o passar do tempo, o homem foi criando, na agricultura técnicas que fizessem ele gastar menor quantidade de energia, utilizando a irrigação, as ferramentas, e o uso do trabalho animal, por exemplo. Com o início da utilização dos animais, o homem começa a causar impactos negativos na fertilidade do solo. O uso do solo mais fértil causou a destruição do meio ambiente, e com isso a perda da biodiversidade local. Acampamento Elisabete Teixeira Adequação Ambiental da Propriedade Rural Importância das Matas Ciliares Legislação Ambiental: APP e Reserva Legal A Atual Agricultura Atualmente, o homem está vivendo um modelo artificial de agricultura, pois se ele utilizar todo recurso natural ainda existente, mesmo com toda modernidade da área agrícola, ele terá que se readaptar, e voltar a viver da coleta. Isso pode acontecer por causa da evolução problemática que teve a agricultura. No Brasil a chamada pré revolução verde foi influenci- ada pela Europa e pelo Japão. A idéia desenvolvida e a prática realizada, é de que o pequeno agricultor não abastece os grandes mercados e a indústria. E, como esta última busca grandes contratos, dificilmente o pequeno agricultor conseguirá, sozinho, atender tal demanda, cedendo assim, lugar aos grande produtor. 96 Revolução Verde A revolução verde surge como uma nova idéia para a agricultura, buscando a máxima produção, no menor tempo possível, para atender o mercado. Porém, ela não leva em consideração os assuntos relacionados ao meio ambiente e à sociedade em geral. Os profissionais que desenvolvem estas técnicas, utilizam a genética com a intenção de escolher as melhores qualidades da planta ou do animal de interesse. Mas tais qualidades são aquelas procuradas pelo homem para melhorar a produção. Com isso, estes organismos fica- Monocultura de milho ram menos resistentes aos ataques de pragas e doenças, aumentando o uso de agrotóxicos. Já a monocultura permitiu o uso intenso da mecanização, de insumos, contribuiu com a redução da biodiversidade, causando grandes impactos ambientais. Por que relacionar agricultura e meio ambiente??? A agricultura é a atividade básica da produção de alimentos para garantir a subsistência dos seres vivos, garantindo a qualidade de vida e da saúde. Boa parte das terras do planeta está sendo usada para a “O Brasil possui uma grande diversidade de organismos vivos que só existem aqui” agricultura. As terras que ainda possuem os ecossistemas naturais estão seriamente ameaçadas pela sua prática. Assim, o atual modelo agrícola tem afetado diretamente a biodiversidade que é a sua base de sustentação. No Brasil, a situação também é muito importante, pois o país possui uma grande diversidade de organismos vivos que só existem aqui. Se não for tomada nenhuma providência, muitas plantas e animais serão extintos por causa do avanço da agricultura. As diferentes agriculturas! Agricultura tradicional: foi a primeira agricultura que surgiu. É caracterizada pela grande variedade de produtos, por ser praticada em pequenas propriedades, e ser usada há vários séculos. A mão-deobra é familiar e os recursos naturais necessários, do interior da própria propriedade. Agricultura convencional: tem como característica um sistemas de produção simplificado, pouca variedade, e grande consumo de insumos externos à propriedade. Agricultura ecológica: ela procura um maior equilíbrio com o ambiente, através do uso mais racional do solo, e com atividades agrícolas mais integradas. Não é voltada apenas às pequenas propriedades, sendo dirigida também para as médias e grandes. Quanto ao uso de insumos, é menos rígida que as agriculturas biodinâmica e orgânica. Agricultura biodinâmica: tem como fundamento que a saúde do solo, planta e animais depende da energia vinda da natureza. A propriedade rural é vista como um organismo vivo. Sempre há animais integrados, busca a independência de energia e de materiais externos. Agricultura orgânica: a fertilidade do solo está na presença da matéria orgânica. Tem como práticas a rotação, os consórcios, os manejos. O solo, neste caso, é visto como um organismo complexo. Agricultura natural: tem uma base religiosa muito influente, surgiu com Mokiti Okada. O grande problema, é que a solução utilizada (EM) para a disseminação dos microrganismos no solo, só pode ser comprada com a Fundação Mokiti Okada, que possui a patente. Este fato não é bom quando se pensa em uma agricultura com bases sustentáveis, pois o produtor fica dependente de uma empresa. Permacultura: há uma adaptação de toda a propriedade, com a intenção de integrar todos os elementos, tentando a máxima aproximação da propriedade com a natureza. As árvores permanentes estão integradas com diferentes profundidades de raízes, para atingir os diferentes níveis do solo, para seu melhor aproveitamento. Todo o sistema é adaptado, desde a construção das casas, fazendo relações com a época de chuvas e direções do vento. Sempre há mandalas, o sistema comporta plantas e animais juntos. 97 E a agroecologia? A agroecologia é a raiz de todas as agriculturas de base ecológica. É ela que traz os princípios e os conceitos para estas agriculturas. Ela tem o conhecimento e a metodologia necessários para desenvolver uma agricultura que é ambientalmente consistente, altamente produtiva e economicamente viável, valorizando o conhecimento local dos agricultores. Ela também socializa esse conhecimento e sua aplicação ao objetivo da sustentabilidade. Agricultura sustentável é aquela que tem menores efeitos negativos no ambiente. Ela preserva e recompõe a fertilidade do solo, mantendo as características ecológicas, além de depender principalmente dos recursos internos da propriedade. Os modelos de agricultura sustentável têm de combinar elementos da agricultura tradicional com o conhecimento científico moderno. Esta agricultura deve considerar a relação homem-meio ambiente enfocando as esferas econômica, política, ética, cultural e social. técnicas dos agricultores e a desenvolver práticas tenham uma mínima dependência de insumos externos. Deve trabalhar com os componentes naturais para aumentar a fertilidade do solo, sua produtividade, assim como a proteção das culturas. A agroecologia não tem uma formula definida, sendo seus aspectos e medidas de ação tomadas localmente, assim é preciso conhecer o local de estudo, e a propriedade rural em questão. A agroecologia incentiva os pesquisadores a conhecer as Acampamento Elisabete Teixeira A área está na região nordeste na Regionalização das Dinâmicas Agropecuárias do Estado de São Paulo. A região é altamente industrializada, com grande quantidade de pessoas, no geral a população possui renda elevada e alto grau de escolaridade. É fácil o acesso aos mercados consumidores da região metropolitana de Campinas e de São Paulo, e para as principais vias de exportação. Nesta região a agricultura possui um grande valor comercial, estabelecendo relações com a agroindústria. Tem sido crescente a diversificação agrícola, principalmente com a fruticultura (tangerina, limão, uva, manga) inclusive as orgânicas, da olericultura e de flores. A região está se tornando um pólo para produtos orgânicos, de hortaliças, além da crescente alta na produção de caqui, uva, jabuticaba, frutas da mata atlântica (sapoti), leite e produtos processados, como o iogurte orgânico. Isso devido a proximidade com a capital (transporte mais barato) e o clima seco no inverno favorece o cultivo de frutas orgânicas. “A região está se tornando um pólo para produtos orgânicos” Adequação Ambiental da Propriedade Rural Todas as propriedades rurais estão dentro de uma paisagem, onde além de sítios e fazendas, há também morros, florestas, estradas, cultivos, etc. Tudo o que acontece nesta paisagem vai afetar as propriedades e o que acontece em uma propriedade irá afetar todas as outras, isto porque todos compõem uma microbacia. Para exemplificar, vamos dar o exemplo do Acampamento Elisabete Teixeira: o horto Tatu pertence a bacia hidrográfica do Piracicaba/ Capivari/Jundiaí, a subbacia do Alto Piracicaba e a microbacia do Rio Tatu. A diferença destes é que a bacia hidrográfica corresponde a área que tem um rio, e outros cursos d’água que levam a água até ele. Já a microbacia é uma bacia menor, com ribeirões, riachos, córregos e tributários, onde tudo está ligado(água, solo, florestas, agricultura e as pessoas da região). Toda a água da chuva escorre para o mesmo lugar. Assim, se um produtor tiver práticas agrícolas ruins, como, arar o solo morro abaixo, todos os outros agricultores sofrerão as conseqüências. “Se um produtor tiver práticas agrícolas ruins, todos os outros sofreram as conseqüências ” 98 Importância das Matas Ciliares Mata ciliar é a mata que está na beira dos rios, córregos, riachos, enfim de todos os corpos d’água. Ela tem como função proteger as águas e suas nascentes, garantindo assim a qualidade das águas e de todo o ecos- sistema envolvido. Ela não permite que nada que irá prejudicar o rio passe. A mata ciliar também contribui com a biodiversidade. A vegetação é fonte de alimento para peixes, aves, e estes animais também atu- am como dispersores destas plantas para outros locais. Podem ser utilizadas como corredores, permitindo a circulação destes animais entre diferentes locais, principalmente na atualidade quando há muitas áreas desmatadas. Legislação Ambiental As matas ciliares estão localizadas em Áreas de Proteção Permanente (APPs) que são protegidas por lei para garantir o cumprimento de sua função ecológica, muito im- portante para manutenção da biodiversidade. A lei que define tal proteção é a Lei Federal 4.771/65, que é o chamado Código Florestal. Ele sofreu algumas al- terações durante todo este tempo e, atualmente ele define as metragens mínimas de mata ciliar em diferentes casos, alguns discriminados a seguir: Todas as figures desta página foram extraídas de ATTANASIO, GANDOLFI & RODRIGUES (2007) e adaptadas por SILVA, R. A. (2008). 99 Vegetação Florestas semideciduais: árvores altas (20 a 25 metros), são marcantes as madeiras de lei (cedro, pau d’alho, cabreuva, gurantã, aroeira, pau-marfim, peroba, jequitibá, canela). A característica principal é que ela perde parte das folhas nas épocas mais secas do ano, para garantir que não irá perder toda a água que necessita. Campo úmido: pode ser natural ou resultante da ação humana através da derrubada da floresta paludosa, ocorre em áreas baixas, próximas aos cursos d’água, encharcamento permanente ou temporário, não aparecem árvores, somente arbustos e herbáceas, como taboas e capins. Cerradão: solo com alto teor de elementos tóxicos (alumínio) e tem menor quantidade de água disponível. As arvores não são muito altas (10 a 16 metros), copas pequenas e perdem folhas nos períodos secos do ano. Anjico-vermelho, jatobá, paineira, ipê, açoita cabalo, faveiro, lixeira, unha-de-vaca, farinha-seca, alguns exemplares. A mata ciliar pode ser formada por qualquer uma destas florestas citadas, o importante será a paisagem, o solo e o encharcamento que ocorre na beira dos rios. “A mata ciliar pode ser formada por qualquer uma destas florestas” Reserva Legal De acordo com o código florestal, reserva legal é a área em uma propriedade ou posse rural, excetuada a APP, destinada ao uso sustentável dos recursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos e da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna e flora nativas. Nas pequenas propriedades podem ser feitos plantios de árvores frutíferas ornamentais ou industriais, compostos por espécies exóticas, cultivadas em sistema intercalar ou em consórcio com espécies nativas. Referências ASSIS, R. L. Agroecologia: visão histórica e perspectivas no Brasil. In: AQUINO, A. M.; ASSIS, R. L. (Orgs.). Agroecologia: princípios e técnicas para uma agricultura orgânica sustentável. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2005. p. 173-184. ATTANASIO, C. M.; GANDOLFI, S.; RODRIGUES, R. R. Manual de Recuperação de Matas Ciliares para Produtores Rurais. 2. ed. Campinas: Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, 2007. 52p. GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: Processos ecológicos em Agricultura Sustentável. 3. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2005. 653p. INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA. Estudo da viabilidade técnica e financeira da implantação de assentamento de trabalhadores rurais: Horto Florestal Tatu – Patrimônio da União, Limeira-SP. São Paulo: Ministério do Desenvolvimento Agrário, 2008. 51p. JESUS, E. L. Diferentes abordagens de agricultura não-convencional: história e filosofia. In: AQUINO, A. M.; ASSIS, R. L. (Orgs.). Agroecologia: princípios e técnicas para uma agricultura orgânica sustentável. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2005. p. 21-48. LEI n. 4771 de 15 de novembro de 1965. São Paulo: CETESB, 2008. Disponível em:<http:// www.cetesb.sp.gov.br/licenciamentoo/legislacao/federal/leis/1965_Lei_Fed_4771.pdf>. Acesso em 8 set. 2008. ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara, Rio de Janeiro, 1983, 434 p. Esta oficina está sendo elaborada como complemento do Trabalho de Conclusão de Curso do curso de Ecologia da UNESP/ Rio Claro, intitulado “Levantamento Sócio-Ambiental do Acampamento Elisabete Teixeira, Limeira/SP: subsídio ao incentivo de práticas agroecológicas”, elaborado pela aluna Rafaela Aparecida da Silva, orientado pela Prof. Dra. Bernadete . C. C. Oliveira e com a colaboração da ecóloga Marina K. Leme. 100 8.3. Anexo C Cartilha da oficina 3: Solos 101 SOLOS Solos de regiões tropicais e temperadas Oficina 3 24 de setembro de 2008 Nesta oficina: Solos de regiões tropicais e temperadas Diferenças entre solo tropical e temperado Solo tropical Análise do solo Durante muito tempo, as pessoas equipararam o solo das regiões tropicais com os de regiões temperadas. Desta forma, adotou-se como modelo de solo o da região temperada e devido a isso, os solos tropicais deveriam ser cuidados e utilizados da mesma forma. Porém alguns fatores não foram levados em consideração, como por exemplo, o fato de nas regiões temperadas ocorrer neve, a insolação ser pouca e a temperatura baixa, ao contrário do que ocorre aqui. Desta forma, as práticas adotadas nos trópicos tornaram o solo improdutivo e o produtor era obrigado a abandoná-lo por um tempo, ou seja, o solo não reagiu favoravelmente as técnicas dos países com economia avançada. No entanto, esta atitude é compreensível, pois foram os colonos europeus que trouxeram a lembrança dos solos de seus países de origem para cá. A questão é que nos trópicos a planta reage de forma diferente que em clima temperado, e exige que o solo seja diferente, adequado ao clima, para poder produzir bem. Na tabela a seguir serão apresentadas algumas características dos solos das duas regiões, notem como eles são diferentes e pensem se há razões para tentar fazer do solo tropical, um solo temperado. Amostras do solo Superfície do solo Umidade Teste de romper Cheiro Falta de oxigênio no solo Diferenças entre solo tropical e temperado Característica Temperado Tropical 6,8 - 7 5,6 - 5,8 pH 2 milhões 15 a 20 milhões Microrganismos 12º C 25º C Temperatura Fraca Forte Insolação Vegetação Aquecimento do solo Evaporação Pouco intensa, neve Muito intensa Chuva Condução do solo Limpo para captar calor Protegido contra chuva e calor Profundo Mínimo Revolvimento Solo Vegetação Nutrientes Adensamento Solo tropical Importância da adubação verde Uso da palha Um pouco sobre as amostras de solo... O solo tropical é portanto, um ecossistema apropriado para o clima quente. Sua bioestrutura grumosa permite a expansão das raízes A matéria orgânica é essencial para a manutenção desta bioestrutura, e como ela se decompõe muito rápido na região tropical, é muito im- portante que ela seja reposta, como por exemplo, colocando a palha sobre o solo. A pobreza mineral deste solo não é uma desvantagem enquanto a bioestrutura for boa, como acontece nas florestas. E as plantas de cultura importadas de outros climas, já desenvolveram resistência a maiores concentrações de alumínio. Se a bioestrutura do solo não for mantida, ele ficará adensado ou compactado, e sua produção será muito reduzida, de forma que ele também nao irá reagir com a adubação. 102 Análise do solo Conhecer o solo que será cultivado é essencial ao agricultor para que ele o trate da melhor forma possível para não desgastá-lo e saiba quais cultura ele poderá cultivar e o que será necessário para isso. No entanto, estes agricultores podem fazem uma análise inicial do solo ao observar algumas características dele, permitindo ao fazer alguns manejos que vão favorecê-lo no cultivo. Assim, a análise de solo é muito importante. Tal análise realizada em laboratórios apresenta aos agricultores a quantidade de matéria orgânica, se os minerais existentes estão em excesso ou faltando, e as vezes, os técnicos já dizem o que deve ser feito para melhorar a qualidade do solo. Porém muitos agricultores, por algumas razões, não tem condições para realizar uma análise laboratorial. Na agroecologia, esta análise do agricultor e todo o conhecimento que ele carrega pelos anos trabalhados na roça são tão importantes quanto qualquer conhecimento que pode ser adquirido em livros ou em anos de universidade. Para mostrar como são importantes tanto a análise do solo pelas características que ele apresenta, quanto o conhecimento do agricultor que trabalha nele no dia-a-dia, nesta oficina caminhamos pelo acampamento para coletar as diferentes amostras de solo, em que as mulheres foram falando dos seus conhecimentos e esclarecendo dúvidas. Neste dia houve uma verdadeira troca de conhecimentos entre o pessoal da universidade e as mulheres acampadas. E esta cartilha foi feita com base no que foi visto durante a oficina. Amostras de solo Foram coletadas 4 amostras de solos, em diferentes condições em campo: A. Solo compactado, B. Solo protegido com palha; C. Solo com umidade elevada; com adubação verde, mas que naquele momento estava totalmente desprotegido. D. Solo que havia sido cultivado Superfície do solo Na análise da superfície do solo é importante observar se há crostas ou areia lavada na depressões do campo, se haver significa que o solo está com problemas. Ele também não pode ser rachado. Superficialmente a presença de torrões virados e voçorocas, indicam que o solo não está bom, está compactado. Durante a coleta observamos que na amostra A em que o solo estava mais compactado, havia anais de água e era visível que o solo estava duro. Através do solo D, vimos que não basta apenas observar o solo, é preciso colocar a mão nele e ver outras características, como a cor, a textura, a umidade. Em B, o solo se apresentava bem solto. Em D ele também tinha estas características visivelmente, porém após as outras análises vimos que ele não estava tão bom quanto pensávamos. É preciso olhar o conjunto das características e não apenas uma. O solo A continha pouca umidade também. Umidade em excesso: terra moldável e barrenta, o solo suporta mal o peso das máquinas, compacta na superfície, neste caso a umidade é a responsável pela compactação. O solo C era muito úmido e pode ser vimos como ele pode compactar quando mechemos muito nele. Em C era visível o excesso de água no solo. Umidade Para verificar a umidade do solo, deve-se pegar um torrão e fazer o seguinte: Pouca umidade: precisa de muita força par quebrar o torrão. Isto foi observado em C, que o solo desprotegido estava totalmente seco e duro, devido a ação do vento e do sol. Umidade ideal: torrões quebram a leves pressões, é ideal para lavrar o solo, cai em grumos. Porém é preciso ter cuidado para não compactar o solo. A amostra B apresentou esta umidade ideal. 103 Teste de romper Para este teste, pega-se o torrão de solo e verifica a forma como ele se quebra: devido a falta de proteção o solo ficou duro, necessitando de matéria orgânica. Ótimo: se o torrão se desmanchar em grumos. Ocorreu em B, ele se quebrou em pequenas partículas. Compactado: torrão quebra com faces retas. Neste caso, a colheita não é boa e o solo não reagirá bem aos adubos químicos. Precisa aplicar palha, composto, adubação verde, plantas que rompem a compactação (crotalária, guandu, mucuna preta). A amostra A quebrou Razoável: torrão quebra com faces irregulares. Precisa adicionar matéria orgânica. Foi exatamente o que observamos com a amostra D, porém em faces retas. Compactação extrema: solo rompe com camadas horizontais. Deve-se usar guandu, crotalária, painço e sorgo. Fazer uma camada grossa de vegetação quando cortá-los. Pode abandonar o terreno e deixar recuperar naturalmente. Não observamos este caso em nenhuma amostra. Cheiro Fresco e agradável: . Indica que há microvida e que o solo está saudável. Ocorreu em B, onde encontramos alguns pequenos animais, como formigas. Mofo: pouca vida na presença de oxigênio. Pode ter problema com aplicação de palha na superfície. Após incorporar a matéria orgânica deve-se esperar a chuva para lavar a palha. Se a decomposição for iniciada pro insetos pode plantar no mesmo dia da aplicação. Se ela é incorporada a 30 cm de profundidade tem que esperar 3 meses ou mais para fixar nitrogênio no solo, a decomposição é anaeróbia e pode produzir gases tóxicos. Nenhum: solo morto e duro. Encontramos na amostra A e D. Pântano: matéria orgânica enterrada, decomposição anaeróbia. Neste caso a matéria orgânica não foi totalmente decomposta e não liberou todos os nutrientes. Fétido: matéria orgânica em putrefação, rico em nitrogênio, ambiente com muita umidade, pouco oxigênio. Falta de oxigênio no solo A falta de oxigênio pode ser observada por alguns fatores: -Torrão com faces retas; - Presença de guanxuma: ela tenta romper lajes duras; - Presença de besourinhos que comem as folhas, como as vaquinhas e os percevejos. as plantas e para os nutrientes. Os solos adensados não têm poros que foram preenchidos por argila lavada da camada superficial, entupindo-os. Neste caso, o ar e a água ou não entram ou entram muito pouco, deixando o solo anaeróbio, ou seja, sem oxigênio. Falta ar para Um exemplo é com o gás carbônico formado na decomposição de matéria orgânica, ele sai da terra e é captado pelas folhas para a fotossíntese. Quando o solo é anaeróbio, ele é liberado com metano, que tem cheiro de pântano. assim queima a matéria orgânica; potássio e nitrogênio; - Uso de máquina pesada em solo muito úmido, como é o solo C; - A falta de matéria orgânica,: a bioestrutura do solo fica comprometida. Adensamento O adensamento ou a compactação podem ser provocados por diversos fatores, alguns são: -Calagem em excesso: ela desativa o alumínio em seu poder agregante e - Adubação em excesso de sódio, 104 Importância da adubação verde A adubação verde é um fator que se for bem utilizada pode baratear a produção agrícola. - a fixação de nitrogênio; - fornece ou mobiliza nutrientes; - o aumento da quantidade de matéria orgânica; - quebra lajes, descompactando o solo. Ela pode ser plantada na entresafra ou nas entrelinhas para a proteção do solo. - é alimento para os organismos do solo; Entre suas funções podemos citar: - o controle de nematóides e invasoras; Porém seu uso de forma empírica e o revolvimento com o solo não são aconselhados porque algumas espécies podem causar o efeito contrário do que era esperado. Uso da palha Durante a oficina pode ser observado diversos benefícios que o solo que estava coberto com palha quando comparado com os outros solos. Assim, agora serão listadas algumas vantagens deste uso da palha sobre o solo: - protege contra impacto do sol e da chuva; -conserva umidade; - facilita a penetração das raízes; - desenvolvimento da fauna do solo; - atrai os decompositores da palha e os predadores. Um pouco sobre as amostras de solo... Através desta análise simples, podese perceber como os solos apresentam diferentes características, em virtude do local em que estão e pela forma como são conduzidos. Ficou evidente que a amostra, B que era protegida por palha, apresentava melhores condições para o cultivo e como havia vida, pela presença de pequenos animais e de muitas raízes. Ao contrário tínhamos a amostra A, que era compactada e não apresentava sinais de vida A amostra C, era muito úmida, e não está apta ao cultivo das culturas que não suportariam a presença de tanta água e também sua potencialidade em se compactar, caso fossem usadas máquinas no local. E o solo da amostra D, que foi tratado com adubação verde (guandu), apresentou coloração considerada boa, pela análise de superfície apresentava características de solo bom, sem lajes de compactação. Porém quando pegava um torrão na mão sentia que ele era duro, seco, sem vida, mesmo com muitas raízes na massa. O que aconteceu com este solo, que mesmo ficando protegido enquanto tinha o guandu, naquele momento ele estava sem proteção alguma contra a ação do vento e do sol. Para que ele fique bom novamente, será necessária a incorporação de matéria orgânica para reavivar a vida dos organismos e também para protegê-lo. Também foram muito importantes os relatos sobre como se dá o uso do solo. Quando o solo está como na amostra A, os depoimentos mostraram que começam o plantio com culturas que “dão debaixo da terra”, e o resto da cultura vai sendo deixado sobre o solo, para que ele fique como o da amostra B. Referências PRIMAVESI, A. Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais. 9. ed. São Paulo: Nobel, 1987. 549p. PRIMAVESI, A. Cartilha do solo: como reconhecer e sanar seus problemas. Ipeúna. Esta oficina está sendo elaborada como complemento do Trabalho de Conclusão de Curso do curso de Ecologia da UNESP/ Rio Claro, intitulado “Levantamento Sócio-Ambiental do Acampamento Elisabete Teixeira, Limeira/SP: subsídio ao incentivo de práticas agroecológicas”, elaborado pela aluna Rafaela Aparecida da Silva, orientado pela Prof. Dra. Bernadete . C. C. Oliveira e com a colaboração da ecóloga Marina K. Leme.