Dia do Manifesto
14 julho 2012
Coro das Vontades
56 manifestos
www.teatromariamatos.pt
Dia do Manifesto
14 julho 2012
Coro das Vontades
56 manifestos
índice
Introdução 7
Coro das Vontades
8
Libreto 9
56 Manifestos
15
Manifesto 16 Agripina Costa Marques
As Múltiplas Dimensões da Crise Contemporânea 16 Álvaro Fonseca
Manifesto 18 Amador Malta
I LIKE RULES, SO COME HERE AND PUNCH ME 19 Ana Brás
Manifesto 21 Ana Filipa Fernandes
O Poder e a Crise 22 André Carapinha
Manifesto Lindbergh 23 André de Almeida Fialho
Manifesto 27 André Gomes Peixoto
Mudar o Mundo 28 Andreia Azevedo Moreira
Manifesto pela Desarrumação Social 29
Manifesto 30 Arlindo Jesus Costa
A falta que nos faz sermos gente grande… 30 Bruno Santos, Pedro Beleza,
Sandra Guerreiro Dias
O meu anseio de vontades 33 Carla Bernardino
Manifesto 33 Cátia Domingues
Manifesto 34 Célia Maria Santos
Manifesto 34 Clarissa Vaughn
Manifesto 35 Colectivo Manifesto Urbano
Manifesto 36 Daniela Barata
Manifesto 36 Diana Dionísio
Manifesto 37 Elisabete Cardoso
Manifesto 38 Elisabete Xavier Gomes
Manifesto do Desassossego 39 Fabrice Pinto e Pedro Azevedo
Manifesto 41 Fernando Jorge
Manifesto 41 Fernando Torgal
Manifesto para Cidadãos Leitores do Mundo 41 Firmino Bernardo
Vontades para o século XXI 43 Firmino Bernardo
Manifesto da Arquitetura Consciente 44 Francisco Portugal e Gomes
Do Rossio para o mundo 45 Inês Lago
Manifesto a favor da utilização 46 Inês Leitão
dos transportes públicos
Manifesto pela saída de emergência 47 Inês Leitão
Manifesto 48 João Silveira
Manifesto 49 Lia Nunes
Manifesto 49 Liga dos Amigos do Jardim Botânico
Manifesto 50 Lucinda Augusta Silva
Manifesto 50 Luísa Rodrigues
Árvores para o Bairro de Campo de Ourique! 50 Maria Augusta Pereira
Manifesto pela união dos muitos 51 Mariana Ferreira Monteiro
Manifesto 51 Marisa Figueiredo
Manifesto 52 Manuel Festas Franco
Manifesto 53 Mónica Amaral Ferreira
Manifesto de palavras escritas 53 Nádia Nogueira
Manifesto da Baixa 54 Narciso Antunes
Manifesto dos 500€ 55 Narciso Antunes
Manifesto 56 Paula Varanda
O que é um coro? …e um coro de vontades? 56 Paulo Carvalho
Acordai — Manifesto 57 Paulo Lima
Manifestejo Batente 57 Rafael Vieira
Manifesto 58 Rede de Cidadania
de Montemor‐o‐Novo
Manifesto 59 Ricardo Ávila
Manifesto 59 Ricardo Ramos
Ma-ni-fes-to 60 Rosa Azevedo
Manifesto 60 Rui Mendes, a partir de Paulo Mendes
da Rocha
Manifesto 60 Sandra Silvado
Manifesto 61 Susana Domingos Gaspar
Manifesto em Pretérito Profético 62 Teresa Gabriel
Sorriso desnudo 62 Vânia Chagas
introdução
Em 2005, os artistas finlandeses Tellervo Kalleinen e Oliver
Kochta-Kalleinen organizaram o primeiro Complaints Choir (Coro
de Queixas) na cidade de Birmingham. O sucesso foi imediato e,
em vez de patentear a ideia, os artistas decidiram disponibilizar
o conceito na Internet em open source. Os coros de queixas
começaram a emergir em todo o mundo: Helsínquia, Hamburgo,
São Petersburgo, Melbourne, Jerusalém, Budapeste, Chicago,
Florença, Vancouver, Singapura, Copenhaga, Filadélfia, Milão,
Hong Kong, Tóquio, Roterdão…
O Coro de Queixas verbaliza as queixas reais dos habitantes de uma
cidade. No contexto do tema Manifesto, o Teatro Maria Matos
resgatou a ideia e transformou-a: o que queríamos cantar não
eram queixas, mas sim vontades. Passámos da queixa à exigência,
do descontentamento à formulação de alternativa. Lançámos
um convite para a escrita de manifestos: “O que queremos para
nós próprios? O que queremos para o nosso prédio, para o nosso
bairro? O que queremos dos nossos políticos, artistas, juízes,
administradores, cientistas, professores? Quais são as visões do
futuro que nos mobilizam?...”
Esta publicação apresenta os 56 manifestos originais que nos
foram enviados ao longo do mês de janeiro de 2012 e o libreto do
Coro das Vontades, destilado a partir deste material por Tiago Sousa
e Joana Rosa.
7
música
Coro das Vontades
Tiago Sousa & Joana Rosa
Sala Principal sábado 14 julho 2012 20h30 M/3
Neste espetáculo, quisemos enfatizar o potencial da vontade. Pretendemos
opor à tendência autocrática existente na subjugação da vontade do outro à
nossa vontade a emancipação de todas as vontades em equilíbrio e igualdade.
Fazemo-lo usando como veículo um concerto cuja base conceptual parte de
uma série de manifestos que nos foram enviados no início do ano. Este
espetáculo é, acima de tudo, o resultado da relação entre a parte e o todo.
Apresentamo-lo como um espetáculo político na medida em que, através
da expressão artística, tomamos como motor propulsivo o pensamento
político.
Não entendemos, no entanto, conceitos como arte ou política na perspetiva
da especialização que tende para a noção da intelectualidade enquanto
um desafio posto às elites, e cuja racionalidade tentam impor à sociedade.
Queremos antes promover a relação que cada um experimenta no seu dia a
dia ao ver-se confrontado com as questões éticas sobre como edificar a sua
vida individualmente e sobre as potenciais formas que poderemos construir
para a organização coletiva do quotidiano. Compreende-se assim a obra de
arte como um produto em que a autoria não é apenas atribuída pela marca
da individualidade mas antes emana da relação dialética entre o indivíduo e
a sociedade. Este espetáculo não segue, por isso, a dialética hegeliana na sua
aspiração à síntese, pretende apenas deixar um contributo que possibilite
manter em devir a discussão.
piano e composição Tiago Sousa
guião Joana Rosa
viola João Camões
violoncelo Ulrich Mitzlaff
voz Beatriz Nunes
declamadora Inês Nogueira
uma encomenda Maria Matos Teatro Municipal
produção Maria Matos Teatro Municipal
agradecimentos Os autores agradecem aos amigos, familiares e a toda a equipa do Teatro
Maria Matos pelo contributo dado na realização deste espetáculo. Em especial a Mark Deputter
e Pedro Santos. Por fim, agradecem a todos os que contribuíram com os seus manifestos
e ideias.
8
Libreto
A Terra Treme
a partir do original de Mónica Amaral Ferreira
A Terra Treme (a casa cai)
Walden Pond’s Monk
Tiago Sousa
Primeiro Movimento
Manifesto a favor da utilização
dos transportes públicos
Inês Leitão
Fonte Sonora A
Faço questão do autocarro público, das pessoas contra o meu corpo, de ir para o
trabalho a achar que eu sou os olhos e as mãos de todos os que passaram por mim, de
todos os que me tocaram inocentemente, ostensivamente, luxuriosamente.
Faço questão dos seus olhos a fitarem os meus: dos seus olhos, de como se abrem e
fecham tão rapidamente sem que eu compreenda o fenómeno do fechamento das
pálpebras cansadas e da densidade das sobrancelhas. Faço questão de os ver dormir
quando o cansaço os agarra e de os ver despertar para sair, automáticos e autónomos.
Gosto de dar atenção às suas expressões, àquilo que a sua cara diz quando se silenciam
sozinhos e falam para dentro onde eu não oiço.
Faço questão dos dedos, de lhe contar os pelos da pele das mãos, de lhes conhecer
perfeitamente as mãos sem que se apercebam dos meus olhos na sua pele.
Faço questão do tamanho das unhas, do contorno da barba, do desenho do queixo na
anatomia total do corpo a que pertencem.
Faço questão que o autocarro chegue cheio e quente de gente e que o vapor se instale
na janela para eu poder desenhar e escrever. Faço questão de desenhar e escrever no
vapor deles.
Faço questão do número de senhoras da minha idade, de lhes analisar as ancas e
adivinhar quantas pessoas lhes dormiram no útero durante nove meses de gestação.
Faço questão das roupas que usam de manhã e que trazem no fim do dia. Faço questão
de pensar neles sem roupa
(o ato de vestir é o mais terrível ato de egoísmo individual sobre a humanidade)
e faço questão da transpiração.
9
Faço questão das gotas de água a saírem de poros invisíveis e audaciosos, faço questão do
milagre do suor do corpo quando somos tantos no mesmo espaço, tantos a respirar o mesmo
ar, tantos a suar os mesmos medos. Faço questão do barulho do motor do autocarro, de me
agarrar a ferros mornos de gente para resistir à queda. Faço questão de sentir o ferro e de
invejar a sorte da sua condição de ferro de autocarro público: tão tocado por tantos.
Faço questão de não esquecer
(não esquecer um só)
e de me sentir feliz sempre que os vejo chegar à hora certa (a perturbação invade-me e as
minhas mãos tremem ao pensar no que pode ter causado a ausência)
Faço questão que o autocarro venha cheio de corpos para eu poder entrar de lado e jurar
a todos com licença. Faço questão de gravar as suas vozes na minha memória para poder
reproduzi-las quando me deito e penso que a cidade de Lisboa é muda à noite
(só à noite)
quando não há ninguém nem nada de novo a acontecer nas paredes do meu quarto. Faço
questão do cheiro do champô deles no autocarro, do desodorizante, dos perfumes, dos
roupeiros
(tantos, tantos, tantos).
Faço questão de me encostar aos seus corpos de propósito, de aproveitar os instantes das
travagens abruptas do autocarro para poder tocar-lhes e olhar cada um nos olhos a suplicar
perdão pelo toque usurpador
— com licença, desculpe,
senhora, o seu perdão
Faço questão de repetir o transtorno
— com licença, por favor, desculpe
vezes sem conta,
— perdão, senhor, perdão
por todos os corpos presentes, até ser a minha vez de tocar para sair, triste e em tropeço,
agarrando as mãos ao ferro como uma despedida de dor com cheiro a aço, colocando o
dedo na campainha com a certeza de que os meus ouvidos ouvirão
— dlim-dlão
dlim-dlão
Manifesto pela saída de emergência
Inês Leitão
Fonte Sonora B
2. Contra o rating,
contra a precariedade e contra o capitalismo
desenfreado,
plim.
1. Contra o vento do metro na minha cara
quando eu vou trabalhar,
contra o Jornal de Negócios no degrau do
escritório de manhã,
contra todas as saídas de emergência desta
cidade,
plim.
3. Contra o BPN,
o BPP,
a Standard & Poor,
plim.
10
4. Contra mim,
contra o meu corpo carregado de
precariedade,
plim.
12. Contra o meu corpo,
contra a ideia de esmagar a minha cabeça
na parede com muita força até a abrir e tudo
se tornar irreversível,
plim.
5. Contra o que podemos comer e
contra o que não podemos comer,
plim.
13. Contra o mundo todo,
contra todos os movimentos pela paz,
plim.
6. Contra todo o tédio,
contra a minha cara numa entrevista de
emprego falhada e contra a alma do meu
avô, sindicalista antes de 1974,
plim.
14. Contra o Ghandi,
contra o Luther King e
contra o Mick Jagger,
plim.
15. Contra o José Luís Goucha,
contra a Júlia Pinheiro e
contra a saliva do Sr. Silva,
plim.
7. Contra a minha vagina,
contra a precariedade da minha vagina e
contra as pilas que já passaram por ela sem
a olhar,
plim.
16. Contra os carros,
contra os pneus dos carros e
contra as bicicletas que não poluem,
plim.
8. Contra a raiva que tenho entre os dentes
à laia de cárie dentária que levo na boca até
à cadeira do meu trabalho,
plim.
17. Contra a morte de Saramago e
contra os ecos do livro de Lobo Antunes na
minha cabeça,
plim plim.
9. Contra a pele dos meus lábios a queimar
à beira da chávena de uma bica demasiado
quente às 08:46 da manhã
antes do serviço,
plim.
18. Contra a minha cabeça,
plim.
10. Contra a pequena janela que tenho à
minha frente e
contra os meus dedos a bater com violência
na chapa plástica do teclado do meu
computador,
plim.
19. Contra a cabeça da minha mãe e
do meu pai,
plim.
20. Contra a violência da solidão e o cheiro
da urina seca num beco de Lisboa,
plim.
11. Contra o meu carro na oficina há três
meses por falta de pagamento,
contra a ideia de ter de comer o meu chefe
para subir de escalão e
ganhar mais do que os meus colegas: contra
aquilo que a minha boca não diz e
a minha cabeça pensa,
plim.
21. Contra o ar condicionado e contra a
escravatura do clima controlado,
plim.
22. Contra o blazer preto e contra o inverno,
plim.
23. Contra a chuva,
contra o medo e contra os fascistas da
Faculdade de Letras em 2006,
plim.
11
24. Contra o temor,
contra o Mário Crespo e o pânico na cara
dos outros,
plim.
28. Contra o mundo todo e todos os
mundos,
contra a vida que levamos e aquilo que
corremos,
plim.
25. Contra a violência,
o despudor,
contra as gralhas do jornal da SIC,
plim.
29. Contra a resistência dos resistentes,
contra a sobrevivência dos malditos:
contra o meu umbigo e contra a democracia
que temos,
plim.
26. Contra o engano,
contra as baratas e contra os escaravelhos
amigos escondidos de mim,
plim.
30. Contra mim, que tenho 30 anos, e
contra a geração fon-fon-fon:
contra ti e contra aquilo que nos tornámos
os dois multiplicados por tantos,
plim.
27. Contra os que tropeçam e caem em
balsas quando os barcos se afundam com
pessoas presas lá dentro,
contra o mau tempo no canal,
plim.
A favor de todas e quaisquer saídas de emergência intencionais e
criteriosas que nos levem daqui para fora,
dlim-dlão,
dlim-dlão
Sentados nas pernas
Joana Rosa
As pernas cruzadas
Freiam a alma
Ignotas do uso
Desconhecem acreditar
E do pensamento só saía
O espanto de um corpo
Que não se sentia
A vontade tocando
Não existia
Alguém — Quem?
Lavou e torceu
Esse pano
Para secar
12
Samsara
Tiago Sousa
Segundo Movimento
Antígona
Joana Rosa
Quando erguidos e retos
Descobriremos insurretos
Antiga Antígona
Primeira lei interior
Anterior às leis dos homens
O que é um coro?
… e um coro de vontades?
Se de vivos falamos, o todo é infinitamente mais pequeno do que as partes. O todo —
a civilização (ocidental ou oriental), o continente, o país, a classe, a multidão, a instituição,
o partido, o gang, a turma, o género, a família… — são as verdadeiras partes, meras ideias
(ainda que armadilhadas), estilhaços de violência implícita, prontas a serem arremessadas
ou defendidas, ameaças distantes ou baluartes próximos, que nada são quando comparadas
contigo, que és imensidão, que não és parte (ainda que participes), porque não és um
triângulo de vidro ou peça de puzzle que se encaixe ou solde. Não és um soldado, ainda que
te solidarizes. Também não és inteiramente sólido. Partes só e esburacado para o encontro,
encontras-te só e esburacado depois dele. O vento passa dentro desses buracos e no interior
dos buracos do encontro. Infinito, entre infinitos, és tu, sou eu. Se te afastas, sentes frio; se te
aproximas demais, corres o risco de sufocar. E eu contigo. Não nos conhecemos, conhecemos
reações, alquimias a que damos nomes grandes (pelo medo de não sabermos). Infinito é
apenas um dos nomes do mistério que te habita e que és. Que me habita e que sou. Foi por
isso que, antes dos nomes, a voz sobreveio ao mutismo do corpo. A tua no teu, a minha
no meu, a dele no seu. E a primeira forma da voz foi o grito. E o grito, assim fora do corpo,
atemorizava. E foi para vencer esse medo que o tímpano — a primeira fonte do medo — se
tornou fino e, muito antes da afinação, procurou a afinidade. E, desde então, cada voz existe
na distância em que outra a deixa ser. É, pois, o tímpano que marca a distância: pela escuta.
Da tua voz, da minha. E da terceira voz, a dele. E assim nasce o canto plural, que já não é só
voz, mas cada voz unida a outras vozes singulares modelando os gritos: as vontades na distância
exata — que nunca é exata, ou que o é apenas na procura do tom comum. O coro já não é
um todo, difusa ideia a combater ou a defender, é a convergência de vozes singulares em ação.
13
56 Manifestos
Manifesto
Agripina Costa Marques
D
os políticos exijo inteligência, cultura, ética, integridade.
Que não sejam subservientes em relação ao estrangeiro (consequência da sua
mediocridade) e que sejam, sim, solidários para com os patriotas que, afinal, lhes
deram a oportunidade de chegar ao poder. Sem o voto dos compatriotas seriam zero.
E chegados ao poder, sem qualquer competência para o exercer, serão mais que zero?
O mesmo se aplica a alguns juízes, magistrados e afins.
As Múltiplas Dimensões
da Crise Contemporânea – Um Manifesto
Álvaro Fonseca
O
momento de ansiedade e incerteza que atravessamos é visto pela maioria como a
consequência da crise económico-financeira que deflagrou nos finais de 2008.
No entanto, não só a crise foi antecipada por muitos é consequência da ganância impune
de alguns, como a sua natureza não é meramente económica. Tratou-se na verdade apenas
de um sintoma de algo bem mais complexo e profundo: uma confluência de crises
de valores, de perceção e de modelo de sociedade. O aparente fulgor económico
dos países ditos “desenvolvidos”, que se exacerbou a partir de meados dos anos 80 do
século XX com a globalização do capitalismo liberal e da economia de mercado, conduziu
a uma aparente subida do nível médio de vida das populações, mas à custa de uma
agudização inaudita das desigualdades sociais, bem como do agravamento da
exaustão irreversível dos recursos naturais e da destruição dos ecossistemas.
Paradoxalmente, os índices de felicidade desses mesmos países não aumentaram
proporcionalmente ao aumento do PIB. Acresce que aquele crescimento económico, impelido
pela abundância de fontes de energia baratas — combustíveis fósseis —, só foi possível graças
a um aumento inusitado do consumo das famílias, estimulado por campanhas de marketing
agressivas e manipuladoras e pelas facilidades de crédito insustentáveis, e a uma alteração
profunda dos sistemas de produção de alimentos e de outros bens de consumo, muitos deles
controlados por grandes corporações multinacionais. As consequências ambientais e sociais
desse crescimento são no mínimo desastrosas e põem em causa o bem-estar das próximas
gerações. A obsessão com o crescimento económico e a noção de riqueza ligada ao
dinheiro e aos bens materiais alimentaram um sistema financeiro ganancioso que singrou
graças à conivência de políticos e economistas e com o apoio dos órgãos de informação,
eles próprios controlados por grandes grupos empresariais. O paradigma económico vigente
baseado em parâmetros e modelos propostos por uma autoproclamada elite de especialistas
(criticado por muitos) foi-se desligando da realidade e empurrando os estados para uma
situação de bancarrota eminente, que por sua vez está a conduzir os países mais frágeis
(p.ex.: PIGS) a impor medidas de austeridade profundamente injustas. A saída deste imbróglio
passa, a meu ver, por uma urgente tomada de consciência por parte dos cidadãos da
sua responsabilidade individual e coletiva, no sentido de encontrar as soluções que
16
aqueles que, por ignorância, egoísmo ou desfaçatez, nos conduziram a esta situação e não
são capazes, nem estão interessados, em implementar. De facto, assistimos a uma flagrante
atitude de negação por parte dos poderes instalados que insistem em prolongar a todo o
custo um sistema económico caduco, agonizante e profundamente nefasto. Esta situação
tem conduzido a um grande pessimismo e à desmobilização de grande parte da população,
agravados pelo descrédito da classe política e pela deterioração dos sistemas de educação
e de justiça. Existe uma ideia profundamente enraizada de que a iniciativa individual ou
coletiva é impotente perante um sistema de poderes intocável e imutável. Há que inverter
rapidamente esta situação e transformar os indivíduos, convertidos em meros consumidores,
em verdadeiros cidadãos. Isso consegue-se informando, mobilizando e apelando à
consciência e responsabilidade individuais perante os seus contemporâneos e as
gerações vindouras. A natureza humana não é caracterizada apenas por instintos baseados no
egoísmo, comodismo e competição, como ouvimos dizer repetidamente, mas também pelo
altruísmo, a generosidade e a solidariedade. É necessário mostrar que a capacidade de mudar
o rumo dos acontecimentos está de facto nas nossas mãos e pode começar por mudanças
de atitude individuais ou em pequenas comunidades: alterar a noção de status, os padrões
de consumo, o modo como se encara e se usa o dinheiro; retomar e fortalecer a participação
cívica na comunidade. Para tal é fundamental compreender e fazer compreender que
o atual paradigma do crescimento é insustentável e irracional. Há que fazer ver
que já existem novos modelos económicos e movimentos sociais que encaram o inevitável
Decrescimento — ou seja, a redução da produção, do consumo, do ritmo de trabalho, etc.
— com grande naturalidade (p.ex., o movimento de Transição, já com alguma expressão no
nosso país). E não se trata de um regresso às origens ou a modelos de sociedade primitivos,
mas sim da re-humanização das sociedades baseada na cooperação e na valorização
das capacidades produtivas, intelectuais, artísticas, etc., dos seus cidadãos que conduzirão a
uma recuperação do seu verdadeiro bem-estar e autoestima, permitindo-lhes viver de novo
em equilíbrio com o ambiente em que se inserem e do qual dependem. Uma outra mudança
de atitude indispensável tem que ver com o modo como consumimos e como usamos o
dinheiro. Existem propostas sensatas e moderadas, como deixar de consumir bens supérfluos,
consumir produtos locais e alimentos da época, ou depositar o dinheiro em bancos éticos
(para saber mais sobre o conceito de Ethical banking ver p.ex.: www.gabv.org/). No entanto,
com o agudizar das tensões geradas pelas recentes medidas de austeridade há quem proponha
levantamentos em massa do dinheiro dos bancos com vista ao seu colapso. Infelizmente,
estes movimentos parecem não estar a par da existência dos bancos éticos, das iniciativas de
moedas locais ou das moedas virtuais. A questão fundamental que é preciso não escamotear
e que temos de encarar fria e urgentemente é que se não fizermos nada para mudar o atual
sistema então continuaremos a caminhar para um cenário de colapso social generalizado. E
não são apenas os catastrofistas e adeptos do apocalipse que o dizem: há muitos estudiosos e
pensadores de várias áreas (historiadores, sociólogos, filósofos, cientistas) que o afirmam de
forma séria e fundamentada. Se queremos uma alternativa a este cenário de rutura iminente
temos de ser nós a construí-la aproveitando a sabedoria de muitos que já andam a pensar ou
a agir há mais tempo e analisar as propostas que apresentam.
É fundamental divulgar a informação relevante e debater em conjunto no sentido de
construir uma cidadania informada, ativa e criativa que constituirá o movimento de base
(grassroots/bottom up) que poderá transformar e refundar a sociedade do futuro.
17
Manifesto
Amador Malta
Vontade Vontadinha… Não sejas só minha!
Ai esta vontade que me invade de tanto e tanto…
às tantas que não seja só vontade e que se Exiga:
_Que Portugal seja um país que conte com as suas gentes não como números… mas como
Cidadãos
_Que Portugal caminhe no cumprimento de todo o círculo progressivo da sua Constituição
_Ai esta vontade de dizer Não! Mas dizer Não em União.
_Não ao poder instalado que desgoverna Portugal
_Não ao agravamento social e económico em Portugal
_Não ao fosso existente na sociedade portuguesa
_Não aos privilégios das classes encostadas ao poder… Não aos Tachos!!
…Não aos que afundam milhões da economia nacional a favor das suas Explorações
_Não aos ricos continuarem mais ricos e os pobres mais pobres
_Não a mais desempregados… Sim à construção dum melhor país para todos
_Sim na vontade duma Solidariedade e Fraternidade sem mais hipocrisias
_Sim a um progresso consistente construído com Justiça e Igualdade
_Sim aos direitos e deveres iguais para todos
…A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação, Liberdade…
…Liberdade a sério
_Que haja Produção numa boa Governação
_Que haja Vontade de valorizar a Democracia
…Ai esta vontade de Rigor e Ética… Ética! Rigor!
_Sim na Vontade de Tribunais de Contas, Contas com Rigor e Ética
_Responsabilidade… e Transparência bens precisos na gestão de tanta desgovernação
_Não às armadilhas demagógicas… Sem vontade do verdadeiro Serviço Público mas que
se governam com a política de privatizações e que se enchem de milhões as contas de
senhores Barões da Alta Finança
_Sim ao combate e penalizações dos sanguessugas que se alimentam da corrupção
_Sim ao combate contra os que retiram a nossa Soberania
_Sim ao combate aos que utilizam o poder soberano em proveito próprio
_Sim para que se cumpra a Constituição
_Sim pela boa e forte Razão
_Sim pela e em defesa do Património Cultural
_Pela Vontade de ver Portugal e os portugueses a lucrar com Saber e Conhecimento
_Não se fique só pela fonte do Sol como mais-valia do tempo!
18
I LIKE RULES,
SO COME HERE AND PUNCH ME
Ana Brás
01 — GOSTO.
03 — REGRAS PARA QUE VOS QUERO.
É OFICIALMENTE PERMITIDO O USO DE
REGRAS SEM EMBARAÇO E SEM MEDO DE
SER ESPANCADO IDEOLOGICAMENTE.
A tipografia não tem que ser entendida como
um manual de boas maneiras; a tipografia
não é psicótica, mas pressupõe princípios
que não devem ser motivo de pejo para o
designer; a tipografia pode ser vista com uma
saia abaixo do joelho; a tipografia seduz e o
designer pode excitar-se com essa inocência
aparente e presença recatada; a tipografia
pode ter que ser muita coisa, talvez nunca
seja uma dançarina exótica, mas ainda assim
é permitido apreciar-lhe o rigor.
A TIPOGRAFIA EXISTE PARA HONRAR O
CONTEÚDO E NÃO HÁ DESONRA NISSO.
É PERMITIDO GOSTAR DE REGRAS E É
PERMITIDO NÃO GOSTAR.
NÃO EXISTEM RECEITAS EM TIPOGRAFIA
COMO NÃO EXISTEM NO DESIGN.
Eventualmente e na melhor das hipóteses,
existem princípios que são entendidos
como regras, logo entendidos como algo
maligno. ISTO ESTÁ UM POUCO ERRADO E
É UM TUDO-NADA LIMITADO ENQUANTO
PRESUNÇÃO. Os princípios podem e
devem ser adaptados (ou não) ao contexto
gráfico focado pelo designer. O conceito de
princípio não tem a rigidez de um bacalhau
seco, em algum ponto servirá para cozinhar
qualquer coisa, mesmo sem receita. Nesta
lógica pode existir para o designer, no
sentido daquilo que são princípios básicos
de determinadas áreas disciplinares, algo
dentro do entendimento da sinalética, útil
para quem está perdido e que poderá fazer a
diferença entre o pânico total e o pânico em
suaves prestações.
02 — AS REGRAS NÃO FAZEM DE MIM
ESTÚPIDO.
04 — O RESPEITO É MUITO BONITO.
Parece existir uma regra que faz dos seguidores
de regras menos ousados do que aqueles que
as contrariam. Estes congratulam-se pela
transgressão, pela afronta ou por qualquer
coisa que cuspa vigorosamente sobre a regra.
É promovida a abstinência de regras como
uma atitude salutar digna da condição de
designer, em que as regras ficam para todos
os outros bananas, em teoria, tão menos
brilhantes, tão menos capazes.
HÁ QUALQUER COISA DE IMBECIL
NA EXPRESSÃO: EU FAÇO AS MINHAS
PRÓPRIAS REGRAS, não a expressão em
si no contexto da tipografia ou do design
gráfico em que o entendimento da regra
serve propósitos mais ou menos liberais.
De qualquer forma, o sentido da expressão
para muitos designers imberbes é gritado e
embebido em toda a arrogância e energia
marginal possíveis.
Mesmo que não se considere o conceito de
regra ou a princípio, não é de todo prejudicial
conhecer e sobretudo respeitar os cabelos
brancos que ostentam orgulhosamente,
quanto mais não seja pelo prazer redobrado
de os entender e de mesmo assim, os
contornar de forma deliberada e consciente.
Ainda assim, convém manter por perto
alguns princípios- -base contra a ignorância.
“Salvar” um bom princípio da extinção pode
não ser o mesmo que salvar um golfinho do
Sado, mas é sem dúvida substancialmente
mais positivo para a tipografia e para o
design. É hoje mais importante pensar estas
questões não como afrontas à liberdade
criativa, mas como doseadores da liberdade
criativa.
DA URGÊNCIA DO DIA DE HOJE VIVE A
EVOLUÇÃO DO DESIGN GRÁFICO.
20
05 — MAKE RULES NOT WAR
É IMPORTANTE QUE FAÇAMOS COISAS
QUE “SIRVAM”,
É IMPORTANTE O SENTIDO DE REGRA SEM
QUE EXISTAM REGRAS ESPECIFICAMENTE,
É IMPORTANTE SER CONSEQUENTE,
É IMPORTANTE USAR A TIPOGRAFIA COM
CONSEQUÊNCIA,
É IMPORTANTE QUE NÃO ESCOLHAMOS
SÓ UM LADO,
É IMPORTANTE DEFINIR REGRAS MESMO
QUE NÃO VALHAM PARA MAIS NINGUÉM,
É IMPORTANTE CONHECER E RESPEITAR
REGRAS,
MESMO QUE EM TEORIA NÃO NOS
“CAIBAM”.
Apesar de parecer que tudo se divide
ideologicamente, não existe só um lado para
ver a mesma questão. Em segundo lugar e em
boa verdade, é possível e desejável que façamos
regras nossas e para outros, que valorizem
a tipografia na sua convicta transparência,
que valorizem a tipografia mesmo que não
seja entendida como transparente e muda.
O uso leviano da tipografia revela qualquer
coisa de inconsequente, que não se cruza com
irreverência, com elegância, com vanguarda,
com legibilidade. A inconsequência não tem
que ver com nada e por isso não serve de
muito.
Manifesto
Ana Filipa Fernandes
Q
uero uma vista desafogada sobre a minha vida, sem prestações suaves,
como se de um vale profundo e imensurável se tratasse. É do que se trata,
na verdade.
Nesse vale vive tudo e moram todos. Em conjunto, portanto. Façamos em
conjunto.
Caiam os preconceitos,
Revelem-se os amadores.
Abracem-se os estranhos,
Despertem-se, sonhadores!
Quero construir uma família que não hibernou na crise e que, apesar dela, se fez.
21
Quero que a minha família, a minha profissão e a minha atuação façam a
diferença todos os dias, em cada encontro. De mim, espero não desistir e dar
o meu melhor.
Espero….
Propósito dos doutores. Dos artistas, um alerta para o que eu não vi.
Para os professores, respeito, e deles, a descoberta do melhor de cada um.
Da ciência, quero esperança e futuro. Dos políticos, quero novos, nunca antes
vistos e que não conheçam a corrupção como um mal-entendido, nem
a austeridade como a inevitável solução.
Gostava que a minha geração erguesse o sorriso da liberdade e da
responsabilidade.
Ruas sem cocó, onde o carro não manda tanto. Vizinhos que não baixam os
olhos. Reconhecimento superior a três dígitos para os que arriscam, projetam,
se entregam e assumem posições. Famílias que durante a semana desfrutam
juntas da cidade e que não fogem para casa às 18h. Novas fórmulas e formas.
Preconceito como um remoto passado que não queremos repetir.
É preciso mudar…
dentro para conseguir concretizar fora. Mudar dentro da cabeça e do coração,
encurtar
a distância entre os que são diferentes e não ouvem a mesma música que eu,
esbater o limite entre a aparência e os muros altos que ela consegue erguer.
Definir melhor o que é estar farto disto tudo. Não perder mais tempo a fingir
que não temos medo de mudar, porque temos, e o medo existe para ser
transposto e nos fazer avançar.
O Poder e a Crise
André Carapinha
Homenagem a Foucault
O
Poder é o campo e a fábrica. O Poder é o chicote e a máquina, a jorna e o
salário, o crucifixo e o corão, são caravelas em demanda dos infiéis, e são os
infiéis. O Poder é Sodoma e Gomorra, Abel e Caim, Moisés e Ramsés, David e Golias.
O Poder é a dona-de-casa, é o papá e a mamã, a escola primária, a secundária, o Poder
é acima de tudo a Universidade. O Poder é o Correio da Manhã e o The New York Times.
O Poder é a cerveja, o café e o maço de tabaco, são as férias na neve, o BMW e o ecrã
de plasma, e o que se vê nesse ecrã de plasma. O Poder é poder.
A crise é o orgasmo feminino.
22
Manifesto Lindbergh
André de Almeida Fialho
S
e me encontro neste momento a escrever
estas palavras não é por um bom motivo,
é porque cheguei à conclusão de que tenho
de falar, que algo tem de mudar, a sociedade
está numa balbúrdia e ninguém se entende,
o mundo atravessa uma das maiores crises
de sempre e ninguém tem respostas para esta
crise, as manifestações são diárias e as pessoas
estão fartas de austeridade, de FMI e de falta
de esperança, por que é que não há esperança?
Porque ninguém sabe em que ter esperança,
o barco está a ir ao fundo e ninguém tem
uma tábua a que se agarrar. É necessária uma
nova forma de olhar para a sociedade, aliás
não lhe chamemos nova, chamemos-lhe
apenas uma reformulação do que já existe
e uma simplificação de toda a filosofia que
é importante mas inacessível por enquanto
à maioria das pessoas. Os problemas atuais
são: a falência das sociedades capitalistas
e dos mercados financeiros, o racismo, a
discriminação e o uso da violência em todos os
sentidos possíveis, houve e continua a haver
uma desumanização social. As medidas que
ouvimos todos os dias são: cortes nos salários,
nas pensões, nos subsídios, na educação, na
saúde, medidas de austeridade, injeção de
capitais na banca, revitalização económica,
que, contudo, só se dá após o equilibrar das
finanças públicas e para isso são precisas
mais medidas de austeridade, despedimentos
em massa para salvar as grandes cadeias
económicas, aumento dos impostos, sejam
eles diretos ou indiretos, como, por exemplo,
as novas medidas para o IRS, o aumento do
IVA, aumento do valor dos bens essenciais,
menos apoios sociais, apoia-se a emigração
só com palavras mas com dinheiro só se for
através de esmolas que se peçam nas portas
das igrejas, diminui-se e complica-se o acesso
às bolsas escolares e, como não podia deixar
de ser, baixam-se os valores das mesmas, mais
de 100 000 alunos já tiveram de desistir do
ensino, as taxas moderadoras passam para
o dobro, fazem-se menos cirurgias para se
poupar dinheiro, paga-se metade a pessoas
que fazem horas extra mas despedem-se mais
pessoas obrigando os funcionários a fazer
mais horas extra, acaba-se com a cultura,
pois presumo que se queira voltar ao lema
fascista “um povo estúpido e inculto é um
povo feliz”. Bem, mas não quero estar aqui a
dizer ao pinheiro que ele é feito de madeira,
pois todos sabemos a situação em que nos
encontramos e o que foi dito acima é apenas
um pequeno resumo do que se passa, que
serve como ponto de situação para daqui
podermos ver o problema exato e poder
discuti-lo encontrando uma solução mesmo
que esta seja incómoda e estranha para muita
gente. Muito bem, existe uma conclusão que
não é nova mas que é a única possível para a
situação atual, somos escravos do dinheiro,
e escravos uns dos outros, e é isto que tem
de mudar, o que tem sido feito até agora é
reformar o sistema económico para que ele
sobreviva mais uma dúzia de anos e volte a
cair e a deixar-nos sem nada. O dinheiro em si
é completamente absurdo, visto que ele não
tem valor real, ele tem o valor que lhe damos,
mais nada, o ouro, a prata, a pedra, tudo tem
o valor que nós lhe damos, não existem leis
económicas de valorização, de desvalorização
porque não existe valor no mundo material
apenas a nossa interpretação do que temos, é
como as cores, que está comprovado que não
existem no mundo material, são uma criação
do nosso cérebro, fazem parte da nossa
evolução como seres humanos, servem para
a nossa compreensão do mundo e para nos
facilitar a distinção do que existe, isto serve
apenas como um exemplo de que coisas que
23
tomamos como dadas são apenas uma criação
da nossa cabeça, a diferença é que uma é uma
consequência da evolução humana a outra
não passa de uma construção social que nos foi
levada a acreditar como sendo incontornável,
o que não é verdade, porque se se abolir a
máquina financeira o que se termina é a troca
de dinheiro por serviços, e a desigualdade de
acesso aos mesmos, o que fica são os serviços
que, em vez de troca, são prestados para a
evolução da sociedade, continua a existir
comida e bem essenciais porque continua a
haver terra cultivada, mas como isto pode ser
difícil de perceber vamos entrar em detalhe.
Se hoje em dia por exemplo numa cidade
existem vários tipos de trabalhos, todos eles
diferentes mas com um sentido de servir a
sociedade, não há trabalho que não tenha
como objetivo servir a sociedade, por isso as
pessoas são divididas pela atividade social,
e depois são pagas conforme a atividade
que exercem, por exemplo um varredor de
ruas recebe quatrocentos e oitenta e cinco
euros, independentemente de ser verídico
ou não vamos supor que sim, e um médico
recebe dois mil euros por mês, a senhora
das limpezas recebe quinhentos euros e um
agricultor quatrocentos e sessenta euros,
por fim o presidente da câmara recebe cinco
mil euros, pois bem estas pessoas recebem
salários diferentes não pela prestação de
serviços que fazem mas sim pelo prestígio
que o seu cargo tem, ou seja, estamos a
pagar as pessoas pela forma como as vemos
e não pelo que fazem, no entanto, todos eles
têm a mesma necessidade de ter comida na
mesa, de ir à escola, de serem vistos por um
médico, de poderem enviar uma carta, de se
sentirem em segurança, isto quer dizer, que
não importa o que se faz, ou quanto se recebe
porque na base social todos temos as mesmas
necessidades mesmo que possam variar em
quantidade, elas existem, porque falamos de
necessidade humanas, e é este o problema
do sistema financeiro, especialmente o
capitalista em que não existem seres
humanos, existem números e classes em
que se organizam os números, o problema
é que os números nem sequer batem certo,
e mesmo que batessem não se resolveria o
problema porque rapidamente voltaríamos
aos mesmo, a história já nos provou isso,
se nenhuma das pessoas nessa cidade fosse
paga, com isto não fosse diferenciada e
tivesse livre acesso a tudo o que a cidade
tem para oferecer então a pessoa poderia ter
muito mais escolha, é claro que teria deveres
como o de fazer a sua atividade social com a
maior responsabilidade, pois já não a estaria
a fazer por dinheiro mas para construir um
mundo melhor e ajudar os seus camaradas
que dão algo ao coletivo, ao contrário do
que já foi defendido eu não acredito que o
coletivo se sobreponha ao individual, e que
se o indivíduo colocar em causa o coletivo
deve ser silenciado, o coletivo é a soma dos
indivíduos cada um deles vai contribuir para
o geral e esse geral será o melhor coletivo de
sempre porque é um coletivo humano e não
abstrato. Portanto, nesta cidade, se ninguém
fosse pago, o agricultor cultivava o que
tinha a cultivar, depois todos os agricultores
doavam as colheitas ao centro municipal
de distribuição justa dos alimentos, e este
centro por sua vez fazia as contas para saber
quanto é que cada pessoa pode receber para
se certificar que ninguém passa fome e que
não há falta de alimento, o que sobrar além
do essencial deve ser colocado em lojas para
quem precisar de mais produtos, e assim as
pessoas podem ir a essas lojas e tirarem o que
precisam, mas isto tem de ser acompanhado
com medidas de produção muito precisas,
as terras deixam de ter donos e passam a
ser distribuídos os agricultores pelas terras
para as cultivarem, assim a dona de casa, o
médico, ou o presidente tem o que comer
independentemente do que fazem, por sua
vez em troca prestam serviços, por exemplo,
o agricultor mesmo que não tenha produzido
24
o pão específico que o médico que o atende
comeu, prestou um serviço social e agora
tem direito a receber outro serviço que é o
cuidar da sua saúde, sobre esta lógica toda a
organização social sem dinheiro está explicada
não falta nada a ninguém, as coisas existem
por si só, nós não precisamos de dinheiro
continuaremos a conseguir construir casas, e
a poder plantar e semear a comida, porque só
precisamos destes dois elementos, o homem
e a matéria de produção, mas temos ainda de
falar da industrialização e dos problemas da
mega produção.
No plano das empresas de produção devem
terminar-se com as grandes indústrias
que devem ser substituídas por pequenas
e médias oficinas em que o ser humano
recupera o seu lado humano e está envolvido
na criação do produto seja ele qual for, e
não se limita a cumprir uma função como
acontece hoje em dia em que se carrega num
botão ou coloca um selo, com a mudança
os funcionários deixam de o ser e passam a
ser criadores de produtos tornando-os mais
conscientes das sua importância social, é por
isso que as pessoas hoje em dia não gostam
dos trabalhos nas fábricas, é que para além de
serem escravas do dinheiro cumprem funções
e ficam sem tempo para mais nada, assim
neste tipo de sociedade, também se deve dar
valor ao pensamento e à cultura sendo que as
pessoas devem ter tempo para pensar e para
ter acesso à cultura, para irem aos teatros, ao
cinema, para ler, para ir a concertos, bailados,
para ir ao parque tempo de reflexão e tempo
de convívio social. Chegámos ao ponto em
que quem quer trabalhar paga multas por
trabalhar mais do que o permitido, quem
rouba é posto em liberdade, quem produz
mais e contribui para o país é ignorado ou
mal tratado, quem mata e viola anda anos
a encher manchetes de jornais, chegámos
ao tempo da desumanização, chegámos ao
ponto de não sabermos o que vale a pena, ao
tempo de por em causa a vida, as tradições,
dizem que não devemos negar as tradições,
se quando nascemos já cá encontrámos o
dinheiro então não podemos fazer nada em
relação a isso, mas esse é o mesmo motivo
pelo qual raparigas na Somália são mutiladas
nos genitais, só porque existem tradições
não quer dizer que nós tenhamos de viver
subvertidos à sua vontade porque muito
facilmente deixam de ser tradições e passam
a ser modeladores sociais, e depois realidades
dogmáticas. Se isto é algo recorrente no ser
humano ou se são apenas exemplos isolados,
não sei, o ser humano ainda é muito novo
para poder responder a essa pergunta e ainda
viveu muito pouco, e experimentou muito
pouco, mas uma coisa eu sei, nós somos um ser
com um nível de consciência muito elevado
e com racionalidade, mas sabemos pô-los de
parte quando precisamos, e sabemos desligar
o racional e o consciente para podermos ver
do prisma do irracional e da violência. Talvez
não sejamos tão evoluídos e racionais como
pensamos, ou pelo menos como poderíamos
ser, se usássemos a nossa racionalidade a
100% não existia fome por causa do egoísmo,
não existia exploração, e também não havia
guerra, governamo-nos pela solidariedade
e companheirismo, mas se achamos que
somos racionais porque nos organizamos
em guerra, porque inventamos armas cada
vez mais destruidoras, porque estamos a um
passo de criar inteligência artificial que nos
poderá substituir, então isso é racionalidade?
Desculpem-me mas para mim isso não
nos torna mais do que num conjunto de
chimpanzés habilidosos que conseguiram
evoluir nas suas habilidades mas não na
verdadeira consciência e racionalidade.
Governos, Heróis, Deuses e Semi-Deuses na
Terra, Queridos Líderes, Chefes Militares,
Organizações Financeiras, se eu acho que
deveriam deixar de ser mencionados? Não.
Se eu acho que se deveriam esquecer? Não.
Acho que seriam quadros muito bonitos para
ficarem no passado, nos livros de história,
25
acho que se pode falar deles, que podem
aparecer na cultura da sociedade avançada,
acho que não devem ser temidos, pois
uma sociedade em que não exista dinheiro
também terá a capacidade de se distanciar e
saber avaliar todos estes tipos de quadros que
já nos causaram tanta destruição.
a história é que as mentalidades só mudam
depois de a realidade mudar, depois de algo
acontecer, só assim é que as mentalidades
mudam, por adaptação, tal como os ursos se
tornaram brancos ao chegar ao Polo Norte,
ou como os leopardos têm pintas para ser
mais fácil caçar, nós, como seres que nos
enquadramos neste grande quadro natural,
adaptamo-nos às realidades e aos ambientes,
não é por acaso que temos cores de pele
diferentes, fisionomias diferentes, nós e
a nossa mente adaptamo-nos à realidade,
uma sociedade melhor sem dinheiro e
com solidariedade tem de passar a ser uma
realidade, nem eu sei como me adaptaria
mas sei que prefiro tentar do que ser mais
um subvertido às tradições e ao sistema
capitalista. Ninguém sabe o que é liberdade,
todos anseiam por ela, mas ninguém sabe
o que ela é realmente, e quando se dá
um pouco mais de liberdade as pessoas
confundem-na com libertinagem, mas se
não tentamos ser realmente livres, se não
tentamos ser felizes e se por causa disso
nos subvertemos, então é como querer
correr na maratona, mas como pensamos
que nunca vamos ganhar decidimos cortar
as nossas pernas e viver sem pernas numa
cadeira de rodas para sempre. Eu não quero
cortar as minhas pernas, eu quero correr,
quero cair, quero ter vontade de desistir,
e quero cortar a meta em último lugar e
ver a cara daqueles que disseram que eu
devia era cortar as pernas porque nunca ia
ganhar, não ganhei esta corrida mas cruzei
a primeira meta, a partir de agora a minha
vida vai ser correr maratonas, numa corrida
com a morte, no final eu sei quem vai
ganhar mas por enquanto sou eu, e um dia
ainda hei de mostrar que o que importa não
é cruzar a meta mas sim termos a coragem
de correr a maratona. Viva a revolução, Viva
a revolução Humana, Socialista, Anarquista,
A linda revolução do Diálogo da Cultura,
De Todos nós.
Quando eu ler este Manifesto eu já sei quais
vão ser as reações:
– Isso é impossível;
– São só utopias;
– As pessoas não estão preparadas para
viverem assim;
– O ser humano é naturalmente explorador;
– O dinheiro nunca vai acabar porque os
poderosos não deixam;
– Etc.…
Poderia fazer uma lista gigante mas não
vale a pena, eu só sei que se vamos estar à
espera de estarmos prontos para mudarmos
a sociedade, então a sociedade nunca mais
vai ser mudada, é como ser pai, se estamos
à espera de estarmos preparados para que
venha alguém mexer com a nossa realidade
nunca seremos pais, se estivéssemos à
espera para lutar contra o racismo até as
mentalidades mudarem e as pessoas serem
menos racistas, ainda hoje viveríamos com
o apartheid, se estamos à espera que os
colonizadores mudassem a sua mentalidade
ainda hoje viveríamos com meia dúzia de
países a controlar o mundo com as suas
colónias e com a exploração, se estivéssemos
à espera que os monarcas mudassem a
sua mente assim como os seus súbditos
ainda hoje toda a Europa viveria sob um
conjunto de monarquias, entre absolutistas e
constitucionais, se estivéssemos à espera que
as pessoas mudassem a sua forma de pensar
em relação ao casamento homossexual e
aos homossexuais hoje ainda haveria muito
mais discriminação do que a que existe, se
há alguma coisa que podemos aprender com
26
Manifesto
André Gomes Peixoto
M
anifesto-me porque ainda não é clarividente que com este rumo se augure qualquer
luz ao fundo do túnel. Este carregar dos céus, divinizações de instituições e outros
agentes de poder profetizados, que querem pintar com misticismo para que haja um novo
dispositivo pelo qual se devam fazer mais esforços, de modo a que o sistema instalado e que
não nos convém se perpetue.
Há que nos libertarmos destes dispositivos, criar novas palavras, dobrar as que hoje
existem, para encontrar algo de novo. Que local melhor para vincar tal desejo, que num
manifesto?
As profecias de fim de mundo, perda de valores e cataclismos são um cliché da sociedade
ocidental. Este falso mercado livre só nos tem esganado cada vez mais; o que nos ofereciam
junto com a globalização e o neoliberalismo afinal só afunila ainda mais as correntes.
Há que voltar à Economia Política em vez da Política Económica.
Há que fazer jorrar outro discurso que traga a politica de novo à Ágora, com a introdução
dos círculos uninominais, entre outras alterações que venham dar caras e corpos novos à
Política, que tragam soluções fora das caixas pelas quais os nossos governantes se deixem
sintonizar e pelas quais emitam as opiniões e desejos de outros.
Há que desejar mais e melhor. Sendo um manifesto tem desejo e sangue, se preciso for que
o desejo se torne pulsão, ganhando a força necessária para sacudir as palavras ocas e objetos
que só nos enchem.
Há que batalhar pelo regresso da palavra, guerrear com ela e por ela.
Criar outras linhas nas dobras ganhas ao forçar o virar da página.
27
Mudar o Mundo
Andreia Azevedo Moreira
Q
uero mudar o mundo. Começo pelo mais difícil. Por mim. Viro o indicador na minha
direcção e disparo: Cala-te. Não critiques os outros. Cala-te. Não fales das vidas alheias.
Cala‑te. Se não percebes o que te contam. Ouve. Descobre como escutar. Constrói com as mãos,
o que puderes. Não destruas com língua afiada. As palavras que amas? Armas brancas, quando
com malignidade lançadas. Cultiva o perdão. Como queres acabar com guerras maiores se te
agarras, até ao sabugo, às merdas que te fazem? Não vires a cara. Sê solidária. Cala-te com o
“não me importo”. Diz sim. Desaprende o não. Participa enquanto cidadã. Votar não basta.
Informa-te. Questiona. Concorda. Destoa. Toma posições. Luta se crês. Grita. (E depois sussurra
para que te ouçam melhor.) Aceita, com naturalidade, os golpes dos que não se te assemelham.
Que a tua pele seja urdida a ética e a justiça. Admite que erras. Não te envergonhes quando
falhas. Aprende. Faz a tua parte, ainda que ao redor estejam todos a cuspir papéis para o
chão. Constrói a sociedade que queres, a partir de ti. Estás só? Ri-te. (Exagera.) Olham-te com
estranheza? Gargalha e continua. Chega de comer carne, ou usar produtos que não verificas se
são, ou não, testados em animais. Partilha o que sabes. Aprende com todos os que se cruzam
contigo. Lê os livros das tuas estantes e os das bibliotecas em que, até agora, não entraste.
Compra os demais nas pequenas livrarias, para que outra(s) Trama(s) não feche(m). Escreve
o livro, parado há três anos. Poupa água e eletricidade. Agradece o privilégio de as ter à mão.
Recicla sempre. Ainda que se trate, tão-só, de um iogurte do lanche no escritório. Estaciona
a viatura. Anda a pé e de bicicleta. Voluntaria-te. Não tens tempo? Inventa minutos, horas,
dias. Forja vida antes que se te acabe o fôlego. Abdica do medo de perder. O que guardas,
com ardor, não é deveras teu. Aprende a dar. Estende as mãos. Ajuda outrem a ter acesso à
Cultura. Confessa os amores que te consomem. (Os platónicos também.) Abraça a diferença,
ainda que te agrida. Esforça-te por observar quaisquer circunstâncias sob outros pontos de
vista. Cuida dos teus e dos que não têm quem os afague. Cala-te com o “sou só uma”,
“sou pequena”. Se quiseres, podes. Se quiseres muito, não deixas que o cansaço te vença.
Se quiseres mesmo, és polvo com tentáculos a chegarem a tudo quanto te proponhas. Não
tentes mudar os outros. Preza a liberdade de todos, sem exceção. Sê para o teu filho um
exemplo de tolerância. Aplaude de pé concertos, peças de teatro e filmes que te falem por
dentro. Fode muito que te faz bem à pele e à alma. Diz “foder” se gostas do vocábulo, sem
t(r)emer (com) o que pensem de ti. Guarda o pudor no bolso para usar q.b. A autocensura é
o primeiro passo para viveres refém e agrilhoares quem te rodeia. Dança e corre, quando te
sentires alegre. Que a felicidade se espalhe à tua volta. Não impinjas o teu modo de pensar.
Tens a mania de o fazer. Corrige-te. Continua a escrever à mão. Finge que não existe o Acordo
Ortográfico de 90 que te roubou um “c” a ACÇÃO. Continua a acreditar. Não desistas. Age.
Este é o teu lugar. Fala: quero mudar o mundo, torná-lo mais respirável e quero que as
pancadas de Molière voltem a soar com solenidade, nos palcos dos teatros que amo, antes de
cada peça que beijo.
28
Manifesto pela Desarrumação Social
E
screvo em defesa de uma revolução social “suja”, que não só não
arrume corpos em arquivos mortos de gavetas de velhas escrivaninhas
como desarrume tudo e todos como única possibilidade de realizar uma
política emancipatória. A primeira das tarefas consiste em abalar as
ordens inabaláveis de arquivamento social — a ordem sindical é a ordem
alfabética da sociedade contemporânea e merece a maior das desarrumações
imediatas. As divisões por tipo e local de trabalho está por detrás do grau
de organização que terá sido bem sucedido contra o capital industrial, mas
nada pode contra o capital financeiro, global e selvagem. A política de
entrincheiramento social, que beneficia apenas quem se sustém na falta
de agregação de revoltas, de coagulação de indignações, de articulação de
potencialidades de emancipação. Há todo um mundo social que o formato
de sindicalismo tradicional abomina e segrega: quem não tem trabalho,
quem o tem precariamente, quem o faz numa cadeia de produção de
valor há muito afastada da anterior proletarização e do proletariado por
si criado. Desarrumar a gaveta dos sindicatos é levá-los a abandonar um
enquadramento que permita a leitura de que são as organizações dos que
possuem empregos mais ou menos seguros contra os que gostariam de
ascender a empregos independentemente da segurança dos mesmos —
perpetuando, de certa forma, as fundações do sistema económico-social a
que, em princípio, aquelas organizações se oporiam. Têm de sair de uma
concertação social à mesa das negociações para uma concertação social nas
ruas da indignação, misturando-se com os conteúdos das outras gavetas,
incluindo o daquela que, existindo, não sabe ainda que existe ou não
soube, por enquanto, assumir que os seus ficheiros não existem em número
suficiente para levar adiante uma mudança real: os trabalhadores cognitivos.
O reconhecimento da sua força passa pela humildade perante a sua
insuficiência. A reformulação e reorganização noutros termos destes mundos
engavetados será a demonstração do óbvio: há muito que esta escrivaninha
deveria ser somente décor no corredor da história.
29
Manifesto
Arlindo Jesus Costa
E
ra abril, a noite (leia-se a ditadura) tinha terminado e acabado de nascer uma linda
menina chamada liberdade. O povo saiu à rua para festejar e, pela primeira vez na
minha vida, vi toda a gente feliz. Abril era a primavera da democracia, Lisboa e o resto do
nosso País encheu-se de cravos vermelhos, a minha felicidade era a felicidade de todos.
Porém, passado pouco tempo, e com o 25 de novembro chegou o outono da democracia,
os cravos foram substituídos por rosas mais ou menos alaranjadas e aos poucos, aquela que
fora uma linda menina, cheia de alegria e esperança, foi-se transformando numa senhora
cheia de espinhos e feia (uma espécie de democracia)… e assim chegámos ao inverno da
“democracia”.
Desde então, permanece um céu carregado de nuvens esquisitas de um tom rosa alaranjado,
chove desemprego e miséria por todo o País, o povo sangra, os vampiros estão de volta e o
sol de abril ofuscou. Enfim, Portugal foi demasiado pequeno para a grandeza dos homens e
mulheres que lutaram pela liberdade e justiça social. É urgente que os cravos floresçam de
novo e com eles a esperança do sol e da primavera do futuro.
Viva abril!
A falta que nos faz sermos gente grande
com “g” pequeno de geração idiota
e escrever um coro de excelsas vozes
sobre coisas que não têm futuro
(um manifesto de três amigos imaginários acompanhados ao piano de vez em quando)
Bruno Santos, Pedro Beleza, Sandra Guerreiro Dias
dedicado aos que andam nas florestas descalços nas noites às escuras
(e ao amigo M. que apareceu entretanto sem deixar rasto)
notas antes da cena
— entre [parênteses retos] os que disseram
— a luz a contracena
— uns estão calados outros não
— dizer tudo muito a preceito
— usar dos gestos que escangalham muito o futuro
um manifesto mais ou menos da autoria de:
Bruno Santos (contribuiu com uma grande parte)
Pedro Beleza (é como o futuro, não sabemos se sim ou não)
Sandra g.d. (escangalhou em parte e fez umas notas na margem)
30
acompanhados ao piano pelo pianista das noites escuras (faz a diferença, com ou sem piano)
concordo contigo Mário — ó Mário, 37 anos acabados de fazer que tu tens — e mesmo
agora, quando já não tens bem essa idade e caem ovos estrelados do céu em cima das
nossas cabeças,
[uns quantos, os que não ficaram em casa]
é preciso dizer:
[todos]
a tua canção desses 37 anos tão atrasados — como bem dizes — dizemos, continua atual, só
não te dou os parabéns, ainda,
[o da bandeira vermelho azul dourada ateada no escuro]
que
[este aquele outro que tem pouco que fazer]
ainda vamos a tempo porque ainda temos tanto que fazer que é ir a tempo de dizer, assim:
[todos]
quando já estás tão perto do início dos 70 anos — (fazes em maio — só não te dou já os
parabéns porque isto é para entregar até 31 de janeiro e dar os parabéns adiantados dá azar)
— agora! e o final dos 70 a meio ali tão perto já não ficam à mão — e os 80, ficam — diria
mesmo — um bocado fora de mão e por isso não dá jeito fazer a democracia, só cá ficámos
com o sufixo demo
[estes aqueles outros que ainda aí estão]
Ó Mário, ó Mário! Concordo contigo, pá! Mário!
[todos]
bom — pelo menos parcialmente — ó Mário —, diz lá que isto de concordar sempre
totalmente acaba por ser um bocadinho totalitário e para isso já nos basta o PCP a defender
a Coreia e a China e Cuba e assim isso é que não, que deve ser por todos os países terem
um C no início de palavra e o PCP só ter um C de cu em segundo lugar — ainda por cima
atamancado no meio de dois PP — é a censura do capital, ó Mário, — o P-Cu-P nunca
conseguiu ultrapassar este facto traumatizante e ultrajante e outros antes mais, mas mais
que isso, fazem anos os anos a medo da democracia dizias,
[alguns]
ó Mário, pá, concordo contigo — mas não é em tudo, pá, que nos faz falta discordar e disdiz que é um prefixo para dizer por exemplo que é preciso
[esses assim-assim antes de chegar]
Pre-dizer-antes-de-dizer-o-que-quer-quesseja, ó Mário,
[todos]
por exemplo: hoje a queixa, sempre a queixa, é a queixa das almas jovens — está certo —
mas mais certo seria — se me permites, Mário — colocar lá umas palavrinhas mais — mais
dois dedos de conversa — seria bom se trocássemos dois dedos de conversa sobre o assunto
[os mais adiantados no assunto]
se puder ser, ó Mário — só se puder ser, vê lá tu — dois dedos de conversa é a queixa que
não está a mais nisto tudo que quando dói é para doer e dizer que mais a mais, as almas já
31
não são tão jovens, assim tão jovens, pois vê que ficam até aos 35 na casa dos pais — e não
têm culpa, nem a alma dos filhos, nem a alma dos pais — já dizia a outra — casa — ó pá tu
casa! — onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão — ou, ó pá tu vai p’ra casa, tu
vai pr’a rua, Mário — se quisermos — vai tu, se quiseres, vou eu e vais tu, p’ra rua
[quase todos]
dizes tu, assim está bem: e a casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem pão na
mesma, que à mesma estamos todos na mesma
[os dali adiante na rua]
onde estamos, Mário, mas, a falar de discutir e não de ralhar — e essa é mais ou menos a
diferença entre queixa e ação — agora se isso quer dizer que as almas são censuradas — eh
lá, coro das almas censuradas — a palavra censurada está fora de moda, usa outra e tira
a mesma — diriam as novas esquerdas atómicas por contraposição às velhas esquerdas
atónitas — mas que os há, há — ahah — irónico, é irónico, Mário, e às almas atormentadas
com o futuro não sobre futuro nenhum à esquerda nenhuma
[quase nenhuns]
e sempre a merda do futuro é que é, Mário — a merda que há de ser o futuro quando não
houver mais nada, nem reforma, nem pão na mesa dos que ralham com razão e ninguém
for para rua, nem o pão, nem a mesa, e do lado esquerdo da mesa só nos sobrar o futuro
que à
esquerda não há mais nenhum
[os que ainda não acreditam no futuro]
e isso tudo assim que também é, Mário, a merda do futuro, escangalhe-se a merda do futuro
e as almas em coro lá para o futuro adiante, diante do futuro digam como tu te adiantaste
em dizer
[quase todos aqueles outros]
adiante-se o conceito e entenda-se o futuro, para as almas censuradas, o conceito é
quântico, isto é, a merda está nos outros mas também em nós. o futuro escatológico é
também o escatológico passado, seja a merda bem passada ou mal passada e nós as almas
do futuro censurado se é que não houver queixa delas que vão para a rua, então vão.
[os que ainda acham que pr’aí estão]
notas depois da cena:
recolhe-se o pano, o pianista afina o teclado e os três amigos acendem uma clareira
imaginária que faz de conta que é o futuro, todos dançam, mas só os que quiserem.
32
O meu anseio de vontades
Carla Bernardino
H
oje tenho vontade de dizer que não me quero manifestar no sentido de contestar.
Hoje tenho vontade de dizer que quero revelar o que anseio desejar.
Que todos se deitem bem. Que todos acordem melhor.
Que o nascer do dia seja epifania.
Que cada um de nós acredite no futuro que vem em cada instante da vida.
Eu, tu, aquele e além o outro, sejamos o presente de forma coerente.
E o verdadeiro, sempre em modo pioneiro.
Perseguir a alegria, não estar em letargia.
Que possamos sempre ser.
Que o nascer do dia nos faça renascer.
Acreditar até o bem desabrochar.
E nesta caminhada onde nada é perfeito, conseguir a natureza do respeito.
Criar o abrigo para ninguém viver em perigo.
Que o nascer do dia traga a união.
Viver a expressão da compreensão.
Ser a esperança na contradança.
Fazer com que o horizonte não seja uma miragem.
E aqui manifesto o meu protesto contra aquele que não é honesto.
Mas não quero protestar. Quero estar.confiar.errar.acertar.Sentir, surgir, permitir, regredir,
evoluir. Ir e vir.
Que todos se deitem bem. Que todos acordem melhor.
Retorno ao anseio.
Manifesto
Cátia Domingues
S
oltem as amarras do Galeão,
que a vontade de rasgar o oceano é grande.
A História e o Oráculo já me ensinaram
a navegar à vela e à bolina
Tenho uma maleta toda escrita a giz com a minha morada,
vai cheia de memórias e amor.
As mangas já estão arregaçadas,
as mãos cheias de cuspo,
calejadas mas prontas para puxar as velas,
enferrujadas pela apatia do tempo que foi.
Se o Galeão não voltar. Se eu não voltar,
que devolvam a maleta à terra onde deixei a esperança ancorada.
Porque, como já dizia o outro,
acredito que existe praia
por debaixo das pedras da calçada.
Sou de Portugal.
33
Manifesto
Célia Maria Santos
P
orque o medo de chegar a velho é tão forte que tentamos com todas as nossas
forças mantermo-nos jovens até ao dia em que nos dizem, amanhã já não vens
trabalhar, já és reformado, estás velho, cansado, as tuas mãos tremem quando
escreves ou pegas num objeto, o teu cabelo branco é triste, os teus olhos não
sorriem, estás trôpego e cais com facilidade, a tua memória falha e as tuas palavras
são ditas em surdina porque não tens força para falar, porque tens medo, e tudo
isto porque sabes que a partir de hoje já não te respeitam, não te consideram
uma pessoa comum, és apenas um velho. Um velho que não quer ser deixado no
hospital porque não o querem, que não quer que o ponham num qualquer lar e
nunca mais veja os seus filhos e os seus netos, que não quer ser considerado um
cidadão de segunda, que não quer ser arrumado, que não quer ser lamentado,
humilhado, desconsiderado. Que não quer ser o riso dos que passam, a troça dos
miúdos, o abandonado, o coitadinho, o abandonado.
Por isso quando chegar o meu tempo e porque nada mudou, quero indignar-me
e juntar-me a tantos outros que, como eu, não querem ser postos no lixo. Quero
ir para as ruas gritar que sou um cidadão deste país e mereço, quero, o respeito a
consideração e dignidade a que tenho direito.
Manifesto
Clarissa Vaughn
Q
uero voltar a encontrar o amor.
Quero mudar todos os dias para novos pontos de vista.
Quero trabalhar por paixão.
Quero viajar.
Quero escrever.
Quero estar absolutamente acordada.
Quero ser menos tímida e insegura.
Quero fazer rir quem sofre.
Quero poder apoiar os meus sobrinhos.
Quero que as empresas apoiem os artistas.
Quero participar na melhoria das condições de vida de todos os
seres da minha comunidade.
Quero que este projeto tenha muitas e boas participações!
34
Manifesto
Colectivo Manifesto Urbano
N
o dia 21 de junho de 2010, criámos o coletivo Manifesto Urbano. Constitui-se enquanto
espaço informal de reflexão e desenvolvimento do pensamento crítico na geografia.
O objetivo genérico que elegemos como elemento aglutinador do Manifesto e das suas
atividades centra-se na compreensão da importância do espaço nos processos
sociais, com destaque para os contextos urbanos.
Somos informais porque não exigimos vinculação dos participantes, nem pagamento
de quotas. Nascemos de uma iniciativa de um grupo de docentes e estudantes de
doutoramento e mestrado, apoiada pelos núcleos NETURB e NEST do CEG,
mas queremos envolver tod@s os que queiram participar.
Somos reflexivos porque pensamos que a reflexão teórica é uma atividade fundamental para
a pesquisa científica de qualidade e porque, infelizmente, os propósitos excessivamente
imediatistas e “produtivistas” de muitos projetos de investigação contemporâneos
nem sempre deixam tempo suficiente para lhe dedicar. Afinal, e contrariamente ao que
defendem muitos investigadores, contra “factos” só existem argumentos.
Somos apologistas do pensamento crítico pois consideramos, por um lado, que a dúvida
e a inquietação são peças fundamentais do processo de questionamento que conduz ao
avanço dos saberes e da ciência e, por outro, que a investigação geográfica deve estar ao
serviço da transformação social e da satisfação das necessidades humanas, comprometendo-se com um futuro mais justo.
Se partilhas as ideias acima enunciadas, junta-te ao Manifesto Urbano e vem ajudar
a (re)pensar a geografia do século XXI.
Como objetivos específicos temos:
i) Apresentação e discussão de textos sobre o papel dos espaços nos processos sociais, com o
propósito de promover o pensamento crítico na geografia;
ii) Realização de debates com especialistas convidados de outras escolas, geógrafos e não
geógrafos, sobre o papel dos espaços nos processos sociais, com o propósito de fomentar a
partilha de perspetivas e de gerar inteligência coletiva;
iii) Apresentação e discussão de trabalhos dos participantes no Manifesto, que incluem
artigos e comunicações, capítulos e projetos de dissertação, teses e elementos de projetos de
investigação, visando, não só o debate coletivo, mas também a geração de contributos que
possam ser úteis ao(s) autor(es) da apresentação;
iv) Estimular a difusão das reflexões e dos trabalhos individuais e coletivos apresentados e
desenvolvidos no âmbito do Manifesto (em comunicações, artigos, obras coletivas, working
papers, exposições, filmes…).
35
Manifesto
Daniela Barata
Q
uero cultura. Quero um país onde não brilhem na televisão as novelas com enredos
mais do que estereotipados, as casinhas de segredos e companhia e os lixos televisivos.
Quero programas que nos ponham a sonhar. A ler. A ouvir. A pensar. É tao raro e tão simples.
Quero ouvir música portuguesa. Quero ligar o rádio e deixar de ouvir o bè-á-bá de canções
com letras fast food. Quero sentir cada palavra sem precisar de traduzir no dicionário.
A emoção da língua de Camões, de Pessoa, dos portugueses.
Quero uma classe política sem regalias. Em que quem queira ingressar ganhe tanto como um
padeiro, ou uma administrativa. Talvez aí só pertença quem queira realmente lutar por um
país melhor.
Quero esta bandalheira de corruptos presos e pobres.
Quero ver um país que pune todos os corruptos sem exceção de classes.
Quero tolerância. Andamos todos tão intolerantes com o próximo, que podemos não ver que
está a sofrer e culpá-lo sem saber o que se passa.
O mundo precisa de muita tolerância entre todos! Principalmente entre família, amigos,
laços. Afetos.
Quero passar da demagogia à ação. Que comece em cada casa e rapidamente tenha um efeito
dominó. Quero que se desliguem as redes sociais. As vidas estão cá fora para ser vividas, não
para se por um gosto numa foto a sorrir em Punta Cana, com o cocktail e a praia ao longe.
Desligar o PC e viver na tua realidade, que tem de ser construída por ti.
Quero que se feche a visão saudosista e do fado que têm todos os portugueses e que se
incuta a esperança, a força de viver, a intensidade do sol e não o viver embalado na tristeza
e no “podia ser pior, cá vamos indo”. Quero que se valorizem os pequenos mas tão simples
pormenores da vida que hoje parecem estar perdidos aos tropeções pelos shoppings, consolas,
ginásios, modas, trabalhos stressantes e sem tempo.
Manifesto
Diana Dionísio
E
u tenho é vontade de não ter medo
de pintar uma parede
a dizer:
quero gostar de viver
não quero trabalhar demais
quero encher o meu tempo
de palavras e jornais
de caminhos
de teatros e refregas
— com os outros
que também terão tempo
para encher de conversas
com pincéis e com ideias
com beliscões e areia
e forças de vontade.
Eu tenho é vontade de não ter medo
de desafiar a pessoa ao lado
no meio dos balanços do metro
a olhar para as outras nos olhos
sem redomas nem receios
com os olhos
36
e fazer vibrar as cordas vocais
para o ponto ou para a vírgula
exclamação
interrogação
para um espaço ou reticências
— andamos todos cá
e eu nunca soube
o nome do homem do talho.
Eu tenho é vontade de não ter medo
de uma discussão
de uma questão que obrigue a pensar
de um diálogo que tem mesmo de durar seis horas
— que impossíveis as demoras!
defendemo-nos do difícil
do espírito crítico
da opinião
da toma da palavra
do raciocínio
da liberdade de expressão.
Eu tenho é vontade de não ter medo
de pendurar à janela
um cartaz a dizer:
sou mulher e sinto-me mal
quando me querem sempre bela
e mãe e pai e secretária
e cozinheira, costureira, enfermeira,
precetora, parteira e hospedeira
a última e a primeira
a que sabe e a que não sabe
a que faz e que não faz
a que serve
a que é crua
a que sua.
Eu tenho é vontade de não ter medo
de ser apanhada
nas malhas do individualismo
nas teias da alienação
nas redes do lucro
nas tramas dos poderes
para poder
dar-me à luta com todos os poros
com garra e com gana
poder dar-me à minha vida
sem a saga comprida
das altas contas para pagar
da privatização do ar
poder respirar.
Eu tenho é vontade de não ter medo
de assobiar no elétrico
de refilar com o chefe
de me sentar de pernas abertas
de cantar As Carbonárias
de colar um cartaz
de vir para a rua gritar
de tocar no parceiro do lado
de dizer que sei latim
de pedir pezinhos de salsa
de experimentar dançar a valsa
de aprender
de escrever
de dizer
de fazer.
Manifesto
Elisabete Cardoso
N
ós, os jovens precários e desempregados, que estivemos juntos nas manifestações em
2011, continuamos a viver dias de incerteza e desespero. Com salários mínimos, por vezes
em atraso ou a recibos verdes, sem trabalho, sem perspetivas e sem estabilidade nenhuma,
estamos aqui para protestar contra o conformismo e afirmar que continuamos determinados
na criação de um futuro em Portugal que permita pelo menos pagar as contas básicas.
37
As expectativas que legitimamente criámos ao acreditar que mais educação e trabalho seriam
sinónimo de um futuro melhor não estavam e não estão erradas. Foram abaladas, mas não
morreram. Não podem morrer!
É preciso continuar a lutar, caso contrário:
a) Desperdiça-se o passado, tudo o que foi investido em nós e por nós na busca de uma
vida melhor.
b) O presente é nada.
c) Hipoteca-se o futuro de gerações vindouras e do próprio país.
Acreditamos nas nossas ideias e no nosso potencial para ajudar a alterar esta situação. Estamos
disponíveis para, em conjunto, encontrar e apontar soluções de futuro.
Como?
Partilha e conversa as tuas dificuldades e anseios com amigos, na rua e nas redes sociais.
Não tenhas vergonha! “Grita” os teus problemas a quem não os quer ouvir e prefere olhar
para o lado ou fingir que não existem. Os problemas de uns são problemas de todos, embora
possa não parecer. Escreve o que queres do futuro em manifestos, a instituições e aos meios
de comunicação social. Ou então transforma tudo o que estás a passar em arte, “uma arma
carregada de futuro”, talvez estas intenções se tornem mais presentes e urgentes para os
cidadãos deste país e as coisas mudem. Assim seja!
Manifesto
Elisabete Xavier Gomes
Q
uero…
desconfiar umas das outras;
que eu e todos possamos trabalhar e gostar
e viver do nosso trabalho;
viver acima das minhas possibilidades;
um país justo e solidário e plural;
ocasiões e lugares para estar e ser com os
outros;
que a educação deixe de ser imunização
e burocratização e exclusão e passe a ser
acontecimento e existência humana;
um país sem culpabilidades arrasadoras,
sem complexos de inferioridade abissais,
sem temores seculares interiorizados;
nunca perder a virgindade das emoções;
viver num Portugal intenso no que pensa
e no que faz, na expressão dos afetos e na
espontaneidade dos desejos;
ser capaz de discordar e dissidir e resistir;
brindar o José Gil por estas e outras ideias, e
também o Gert Biesta, a Hannah Arendt e a
minha filha.
um país que goste de si porque as pessoas
gostariam mais de gostar do que de
38
Manifesto do Desassossego
Fabrice Pinto e Pedro Azevedo
A
qui e agora nos apresentamos.
Nestas linhas deixamos o nosso
manifesto.
Iniciaremos um novo movimento;
um movimento de reflexão, um
movimento que desperta consciências,
um movimento de intervenção, um
movimento social.
Não partimos de teorias assumidas, mas
sim de convicções fortes.
Aqui não existem formas de expressão
que, sobranceiramente, se sobrepõem a
outras. Cada uma tem a sua importância,
na parte que representa.
Aqui não nos fechamos entre quatro
paredes.
Vivemos numa era em que, a cada dia,
a cada hora, a cada instante, a arte se
redefine.
Nos últimos anos assistimos ao
nascimento de algumas novas formas
completamente ocas, sem mensagem
alguma, levando a que estas deixem de
ser uma expressão social, em que o artista
exprime as suas convicções culturais,
sociais ou os seus ideais, para se colocarem
numa esfera sociocultural, dita, superior,
na qual os artistas e seus seguidores se
inserem numa “socialite”, tornando a
arte numa forma de discriminação social.
Opomo-nos à arrogância elitista de
muitos artistas.
Acreditamos que eles devem servir a
comunidade e não o contrário.
A arte é liberdade. A arte é escolha de
técnica, forma e mensagem.
Apelamos ao uso de qualquer técnica
artística, sem nunca esquecer que sem
mensagem não existe arte. Defendemos
que a liberdade é uma obrigação social
e como tal deverá sempre ser defendida
pelos artistas.
Afirmamos que a publicidade, quando
virada para a obtenção de lucro e
resultados, não poderá ser classificada
como uma forma de arte, pois é
corrompida pela ideia da obtenção de
riqueza, não prestando um serviço à
comunidade.
As formas como a publicidade chegam
ao público evoluíram e, em muitos
casos, transformaram-se em meios
de venda violentos e sem escrúpulos,
onde o que importa é somente o lucro,
mesmo tendo a noção que poderão estar
a sobrevalorizar e a deturpar produtos ou
serviços, enganando, descaradamente,
o público, mesmo que, em certos casos,
esses mesmos produtos e serviços
prejudiquem o consumidor.
Opomo-nos àqueles falsos mensageiros
da comunicação social que, não sendo
especialistas nas matérias que abordam,
dão-se ao direito de proclamar o que
melhor lhes convém, enganando o
recetor leigo, que não está preparado
para se defender contra tal violência
informativa. Aqui falamos dos falsos
jornalistas, dos falsos comentadores
ou apenas daqueles que têm direito de
antena sem mais valia. Aqui falamos
das mensagens transmitidas, cujo único
objetivo é falsificar, enganar, atrair ou
vender. Aqui falamos daqueles canais
de comunicação que já não informam e
educam, mas enganam e lucram.
Somos contra a ditadura cega da economia,
dos grandes banqueiros e dos grandes
empresários que financiam as campanhas
eleitorais de quem nos representa, em
proveito próprio, deturpando os valores
essenciais da democracia.
Somos contra a ditadura cega da
economia, dos grandes banqueiros e dos
39
grandes empresários que controlam o social
pelo poder monetário e pelo medo, que
apenas analisam números e percentagens,
mas não o essencial: as pessoas.
É certo que a globalização trouxe benefícios,
no entanto, manifestamo-nos contra a
extinção das identidades pessoais, assim
como contra a total homogeneização
sociocultural, que cria um mundo onde
o povo perde a sua identidade local,
transformando-se num polo capitalista,
igual a qualquer outro. Pensar global, agir
local para a obtenção de lucros, mesmo que
inclua a destruição das identidades locais.
Manifestamo-nos contra a hipocrisia moral
daqueles que, de forma escandalosa, apelam
a falsos valores divinos para enganar,
violentar e usar. Muitos usam a religião em
seu proveito desvirtuando os próprios valores
em que estas se baseiam (a paz, a harmonia,
o amor, a compaixão, a ajuda ao próximo,
o bem da humanidade). Somos contra as
novas tendências religiosas baseadas na
mentira fácil, que visam, apenas, a obtenção
do lucro instantâneo. Opomo-nos a eles!
Valorizamos a consciência pela luta social e
pela luta ecológica.
Opomo-nos às ideias do “deixa acontecer”
defendidas pela maioria, quando a maioria
está bem consciente dos seus erros e daquilo
que deve modificar para o bem do meio
socio-ecológico onde se insere.
Valorizamos a luta pela igualdade absoluta,
universal.
Também queremos dizer que o Homem não
se pode julgar como um “Criador” na Terra.
Como qualquer outra espécie viva, o Homem
tem o seu espaço individual e global.
Assumindo tais premissas, não podemos
esquecer-nos de que somos apenas uma fase
na evolução, nem somos o produto final,
nem ideal, aliás, visivelmente estamos ainda
bem longe disso.
Como tal, não somos donos da Natureza.
Como tal a Natureza, ela sim, é dona da
humanidade.
Estagnamos na nossa evolução quando
deixamos de dar importância ao nosso
desenvolvimento e ao bem-estar social para
sobrevalorizar os ocos cultos da “fama” e
do “dinheiro”. Durante o curso natural das
coisas, tornamo-nos pessoas que têm como
único objetivo desperdiçar, sem ter qualquer
preocupação com o próximo.
Obviamente que a sociedade perfeita não é
aquela onde reina o poder monetário, nem
a mentira.
Obviamente que a sociedade perfeita
não é aquela onde são gastas fortunas
em armamento e conflitos, quando deve
prevalecer a paz e a diplomacia e quando
existe uma imensa precariedade em áreas
como a saúde, a educação e o emprego.
Obviamente que a sociedade perfeita não é
aquela que esconde os seus problemas por
detrás da enganadora comunicação social,
que nos satura com toda a sua imprensa, dita
cor-de-rosa, cheia de nada.
Obviamente que a sociedade perfeita não é
aquela que se dirige vertiginosamente para a
autodestruição.
Por tudo isto, iniciaremos um novo
movimento; um movimento de reflexão, um
movimento que desperte consciências, um
movimento de intervenção, um movimento
social onde não há fronteiras para a arte, mas
em que esta tem uma mensagem fundamental
e um papel ativo no desenvolvimento da
sociedade que, neste momento, se encontra
moribunda e necessita de despertar.
Aqui e agora emergimos.
40
Manifesto
Fernando Jorge
De entre as muitas vontades que tenho para Lisboa, resolvi escolher esta para vos enviar
— por razões óbvias. A casa onde nasceu a lisboeta que dá nome ao vosso/nosso teatro
municipal está nestas condições. Que no futuro próximo esta morada seja resgatada da ruína
para que parece estar a caminhar fruto do esquecimento de todos nós.
Manifesto
Fernando Torgal
Q
uero políticos verdadeiramente interessados no bem comum e não nos interesses privados
e egoístas. A nossa cidade está a ser destruída em grande parte porque os nossos autarcas
não defendem o interesse público. Em vez disso, são demasiadas vezes serviçais deste ou daquele
grupo económico e/ou político. Não quero viver numa cidade assim!
Quero uma cidade que defende e salvaguarda sem compromissos a sua história, o seu
património. Quero uma cidade que tenha a ambição de aumentar o número de árvores e
espaços verdes por habitante. Quero uma cidade mais limpa e bem organizada. Quero uma
cidade mais inclusiva e justa. Quero uma Lisboa mais Lisboa.
Manifesto para Cidadãos Leitores do Mundo
Firmino Bernardo
1. O objetivo máximo de qualquer
comunidade deve ser o alcance da Felicidade
individual e coletiva. Todas as pessoas têm o
direito e o dever de participar nessa busca, sem
nunca prejudicar terceiros com ela.
estar presente em todas as esferas da vida
política.
3. Os culpados pela atual crise económica
e financeira devem ser responsabilizados
criminalmente pelos seus atos. A insolvência
dos bancos deve ser resolvida recorrendose primeiramente aos bens dos responsáveis
2. A Ética deve ser ensinada a todos e deve ser
a base de toda a organização social, devendo
41
12. Deve valorizar-se quem trabalha Bem, não
esquecendo que trabalhar Bem nem sempre é
sinónimo de trabalhar muito.
diretos, depois aos bens dos responsáveis
indiretos e só depois imputada ao Estado.
4. Deve ser redigida uma nova Constituição, que
devolva o poder aos cidadãos e limite o poder
dos mercados. A Constituição deve ser redigida
respeitando a Ética, os Direitos Humanos e o
bom senso e deve contar com a contribuição
de partidos políticos, entidades coletivas e de
todos os cidadãos que o desejarem.
(Em homenagem ao Código de Hamurábi, este
Manifesto não tem número 13)
14. As pessoas devem ser protegidas na
doença, na velhice, no desemprego ou em
quaisquer outras circunstâncias.
15. O salário mínimo nacional deve servir de
referência apenas para as empresas com lucros
mais baixos. Para as empresas com lucros
mais altos, o salário mínimo deve ser superior.
5. A Constituição e as demais leis e normas
devem ser redigidas com clareza suficiente
para serem compreendidas, sem quaisquer
ambiguidades,
por
qualquer
cidadão
medianamente instruído.
16. Numa mesma empresa, o salário mais
alto não deve exceder dez vezes o salário mais
baixo.
6. Se os detentores de cargos públicos
tomarem medidas contra o interesse público
devem ser despedidos com Justa Causa e
responsabilizados criminalmente. O mesmo
—
deve acontecer a todos os que proponham,
aprovem ou promulguem medidas que violem
a Constituição ou os Direitos Humanos.
17. Ninguém deve auferir pensões superiores
a cinco vezes o salário mínimo nacional.
18. A Educação deve dar importância às
Artes, às Letras, às Ciências e à Cultura.
A memorização de conteúdos não basta, é
preciso que os jovens aprendam a ser cidadãos
capazes de ler o mundo.
7. O Estado tem o dever de apoiar a Educação,
a Cultura, a Justiça, o Sistema Nacional de
Saúde, a Segurança Social.
19. As línguas oficiais de Portugal — o
português e o mirandês — devem ser
acarinhadas pelo Estado e ensinadas na
escola. Também deve haver um reforço na
divulgação das culturas regionais de Portugal.
8. A existência de entidades privadas
ligadas à Educação, à Saúde, à Cultura ou à
Solidariedade Social é bem-vinda. Contudo,
tal existência não pode servir de pretexto para
que o Estado abdique das suas obrigações.
20. Os espaços públicos devem ter mais
bancos de jardim e também mais mesas e
cadeiras, para que as pessoas possam sentar-se
a confraternizar.
9. O Estado deve deter serviços básicos como as
águas, a eletricidade, os transportes públicos,
gasolineiras ou bancos. Não significa que o
Estado deva deter monopólios, mas deve ter o
poder de impedir o aumento exponencial dos
custos de bens básicos e de bens cujos preços
podem influenciar toda a Economia.
21. As faltas de civismo devem ser gravemente
penalizadas.
22. Todas as pessoas devem ter direito
a manifestarem-se, a fazerem greve e a
criticarem o poder.
10. É preciso abolir todas as parcerias público-privadas. Não faz sentido manter um sistema
em que o Estado se responsabiliza pelos custos
e as entidades privadas recolhem os lucros.
23. A censura deve ser proibida e todos os
que a praticarem devem ser criminalmente
responsabilizados.
24. Deve desenvolver-se uma cultura de
entreajuda nas comunidades locais.
11. A escravatura deve ser proibida sob todas as
formas. Proíbam-se os falsos recibos verdes, as
empresas de trabalho temporário, os estágios
não remunerados de mão de obra qualificada.
25. O Homem deve respeitar os animais e a
Natureza.
42
Vontades para o século XXI
Firmino Bernardo
—
(Manifesto livremente inspirado no “Decálogo” biblico)
O
lharás para a Felicidade, individual e coletiva, como o objetivo máximo do ser
humano e das comunidades. Viverás e deixarás viver, na certeza de que a busca pela
Felicidade, sem prejudicar ninguém e seguindo a Ética, é um Direito e um Dever.
— Não ficarás satisfeito com a infelicidade alheia.
— Não deixarás os teus preconceitos interferirem na Felicidade do Próximo.
— Respeitarás a escolha religiosa do teu Próximo ou a ausência de Religião na sua vida.
Não deixarás que a Religião seja motivo de discórdias, guerras, fome, tirania, resignação
ou qualquer outra coisa nefasta ao ser humano.
— Respeitarás e lutarás pela laicidade do Estado, não deixando que os poderes políticos
sejam apropriados ou influenciados pela Religião, seja ela qual for.
— Entenderás que a Democracia, apesar das suas imperfeições, é o melhor dos sistemas e o
mais favorável para todos os cidadãos.
— Respeitarás e defenderás a Democracia, a Constituição e os Direitos Humanos.
— Não aceitarás que nenhum poder tente enfraquecer a Democracia ou desobedeça à
Constituição ou à Declaração Universal dos Direitos Humanos.
— Não usarás em vão palavras como Democracia, Cidadania, Produtividade, Progresso,
Educação ou Cultura nem deixarás que os poderes instituídos as utilizem como forma
de obter o contrário do que elas significam.
— Respeitarás as minorias e compreenderás que a Democracia não é a ditadura da maioria.
— Contribuirás para a melhoria do país e da comunidade local através do teu trabalho, das
tuas ideias, dos teus valores, da tua luta, do teu sentido cívico.
— Não aceitarás que te tratem nem ao teu Próximo como seres descartáveis. Lutarás por
um trabalho digno, com remuneração justa, com direitos e com respeito por ti.
— Lutarás pelo direito à proteção no desemprego, na doença e na velhice.
— Lutarás pelo direito ao descanso. Guardarás os dias reservados para o mesmo, respeitarás
e farás respeitar os feriados.
— Honrarás os teus pais e educarás os teus filhos.
— Respeitarás os mais velhos e lutarás para que tenham uma vida digna com qualidade.
— Respeitarás os teus antepassados, conhecerás o Património Cultural que te legaram e
falarás a(s) sua(s) língua(s).
— Respeitarás o Ambiente, a Natureza e os Direitos dos Animais. Não usarás a morte de
animais como forma de espetáculo nem de vaidade.
— Não esquecerás que “é necessária uma aldeia para educar uma criança” e darás o teu
contributo para a educação dos mais jovens.
— Lutarás por uma Educação que valorize as Artes, as Letras, as Ciências e a Cultura, que
não se limite a impor a mera memorização de conteúdos “centrais”, mas que desenvolva
o ser humano como um todo, que forme profissionais, mas também cidadãos capazes de
ler o Mundo.
— Não matarás nem tornarás indigna a vida do Próximo.
43
— Não aceitarás que o ato sexual serve apenas para procriar. Encará-lo-ás como uma forma
de partilha de amor e prazer.
— Não violarás nem obrigarás ninguém a ter relações sexuais contra a sua vontade.
— Não praticarás a pedofilia nem abusarás sexualmente, ou de outra forma, de pessoas que
não saibam ou não possam defender-se.
— Não roubarás nem reterás ou danificarás os bens do próximo. Renunciarás à usura, à
corrupção e a todas as formas de exploração do teu semelhante.
— Pagarás os teus impostos no país em que vives e trabalhas.
— Estarás atento à forma como o Estado utiliza o dinheiro dos teus impostos e lutarás para
que este seja sempre utilizado de acordo com o interesse público.
— Se dirigires instituições públicas, servirás com competência e diligência o interesse
público e não interesses privados próprios ou alheios.
— Não deixarás que o Estado privatize os bens públicos essenciais, de forma a não colocar
em risco a sua qualidade e o seu baixo custo.
— Combaterás a corrupção, em pequena, média ou grande escala.
— Não levantarás falsos testemunhos.
— Não cobiçarás as coisas alheias, incluindo as que forem propriedade do Estado.
— Não invejarás os bens ou a vida do Próximo.
— Não discriminarás ninguém e lutarás por uma sociedade Fraterna, com oportunidades
Iguais para todos e que respeite as Liberdades de cada um.
Manifesto da Arquitetura Consciente
Francisco Portugal e Gomes
N
o século XXI, a Arquitetura deve ser livre.
Dizer não à construção pode ser o
primeiro ato em Arquitetura.
O arquiteto como principal agente da
Arquitetura tem o direito de manifestar
sem reservas a sua oposição à construção do
insignificante e tem o direito de contrariar
a banalidade das formas arbitrárias e
desenraizadas.
O arquiteto deve ser o primeiro a questionar
a pertinência da construção. A cada instante,
deve sempre colocar a questão: para que
serve a Arquitetura?
O exercício da Arquitetura acarreta a
responsabilidade de contribuir para a
resolução de problemas, incluindo os de
ordem ambiental, social e económica.
O arquiteto deve assumir um papel
consciente na transformação do presente sem
comprometer o futuro do futuro.
O
arquiteto
deve
ainda
participar
empenhadamente no processo de gestação
da Arquitetura, deve acompanhar a sua
evolução e deve ser responsável pela obra
finalizada.Autoria
é
responsabilização
consciente.
A obra de Arquitetura tem como
fundamentos principais a sustentabilidade,
o tempo histórico, a memória coletiva,
o contexto, a paisagem, a tradição e a
inovação, e revela-se quando a beleza e a
individualidade nascem da sensibilidade,
da coexistência tolerante e da criatividade
consciente.
44
A Arquitetura afirma-se como exercício do
pensamento crítico, como disciplina de
conhecimento e como fator essencial ao
desenvolvimento sustentável; não se deve
impor, nem deve demitir-se de afirmar os
seus valores.
A Arquitetura encontra-se na relação
harmoniosa entre conteúdos diversos
que se ligam em cada síntese construída e
manifesta-se através da própria linguagem
arquitetónica,
quando
esta
pretende
expressar uma unidade entre Tempo,
Natureza e Cultura.
A Arquitetura que nasce da criatividade
consciente pode suscitar no indivíduo o
sentimento íntimo de harmonia do ser com
o coletivo, o natural e o transcendente.
Do Rossio para o mundo
Inês Lago
f
alemos então de agruras
das contendas
dos cinismos dos acampamentos
dos egos de marinheiro
dos pés dos caminheiros
dos mapas de todos os eus do mundo
(há quem faça da revolta uma tenda)
chega.
já chega, por favor.
por quem sois?
por quem somos?
o que tememos?
afundem-se os barcos
afoguem-se as estradas
(eu sempre montei tendas para dormir nelas)
não se reinventem sequer os caminhos
falemos porém das estacas
das cordas
das amarras
e se não
deixem-me estar
soube há muito que o desejo do cocktail
com chapeuzinho de papel e palhinha
colorida se enseja frequentemente
bombástico molotov
arremessado contra a mesma falta de cor do
sempre
com a mesma falta de cor de sempre
(já isto me vai lembrando os navios que nos
levam à terra nova, a desejada)
não há razão nem paixão para invocarmos
as velhas barracas
é que as velas sopradas ao vento tanto se
tornam fogueira
como se fazem bolina
há que inundar a rota
e entretanto haja paciência para o globo
olhos para o horizonte
asas, guelras, espelhos
haja pais e ciência para o globo
pois há quem queira inventar um flamário
não por oposição ao aquário
mas para que um dia entre os dois não
consigamos encontrar diferença alguma
(e como nos arde o caminho)
o que te traz?
o que te leva?
falemos de nós
dos nós
dos incêndios
45
Manifesto a favor da utilização dos
transportes públicos
Inês Leitão
Faço questão das roupas que usam de
manhã e que trazem ao fim do dia. Faço
questão de pensar neles sem roupa
(o ato de vestir é o mais terrível ato de
egoísmo individual sobre a humanidade)
e faço questão da transpiração.
Faço questão das gotas de água a saírem de
poros invisíveis e audaciosos, faço questão
do milagre do suor do corpo quando somos
tantos no mesmo espaço, tantos a respirar o
mesmo ar, tantos a suar os mesmos medos.
Faço questão do barulho do motor do
autocarro, de me agarrar a ferros mornos
de gente para resistir à queda. Faço questão
de sentir o ferro e de invejar a sorte da sua
condição de ferro de autocarro público:
tão tocado por tantos.
Faço questão de não esquecer
(não esquecer um só)
e de me sentir feliz sempre que os vejo
chegar à hora certa (a perturbação invade-me e as minhas mãos tremem ao pensar no
que pode ter causado a ausência)
Faço questão que o autocarro venha cheio
de corpos para eu poder entrar de lado e
jurar a todos com licença. Faço questão de
gravar as suas vozes na minha memória
para poder reproduzi-la quando me deito
e penso que a cidade de Lisboa é muda à
noite
(só à noite)
quando não há ninguém nem nada de novo
a acontecer nas paredes do meu quarto.
Faço questão do cheiro do champô deles no
autocarro, do desodorizante, dos perfumes,
dos roupeiros
(tantos, tantos, tantos).
Faço questão de me encostar aos seus corpos
de propósito, de aproveitar os instantes das
travagens abruptas do autocarro para poder
O Manifesto a favor da utilização dos
transportes públicos e o Manifesto pela saída de
emergência devem ser lidos em simultâneo.
Leitor A
F
aço questão do autocarro público, das
pessoas contra o meu corpo, de ir para
o trabalho a achar que eu sou os olhos e as
mãos de todos os que passaram por mim, de
todos os que me tocaram inocentemente,
ostensivamente, luxuriosamente.
Faço questão dos seus olhos a fitarem os
meus: dos seus olhos, de como se abrem
e fecham tão rapidamente sem que eu
compreenda o fenómeno do fechamento
das pálpebras cansadas e da densidade
das sobrancelhas. Faço questão de os ver
dormir quando o cansaço os agarra e de
os ver despertar para sair, automáticos e
autónomos.
Gosto de dar atenção às suas expressões,
àquilo que a sua cara diz quando se
silenciam sozinhos e falam para dentro
onde eu não oiço.
Faço questão dos dedos, de lhe contar os
pelos da pele das mãos, de lhes conhecer
perfeitamente as mãos sem que se
apercebam dos meus olhos na sua pele.
Faço questão do tamanho das unhas,
do contorno da barba, do desenho do
queixo na anatomia total do corpo a que
pertencem.
Faço questão que o autocarro chegue cheio
e quente de gente e que o vapor se instale
na janela para eu poder desenhar e escrever.
Faço questão de desenhar e escrever no
vapor deles.
Faço questão do número de senhoras da
minha idade, de lhes analisar as ancas e
adivinhar quantas pessoas lhes dormiram
no útero durante nove meses de gestação.
46
tocar-lhes e olhar cada um nos olhos a
suplicar perdão pelo toque usurpador
— com licença, desculpe,
senhora, o seu perdão
Faço questão de repetir o transtorno
— com licença, por favor, desculpe
vezes sem conta,
— perdão, senhor, perdão
por todos os corpos presentes, até ser a
minha vez de tocar para sair, triste e em
tropeço, agarrando as mãos ao ferro como
uma despedida de dor com cheiro a aço,
colocando o dedo na campainha com a
certeza de que os meus ouvidos ouvirão
— dlim-dlão
dlim-dlão
Manifesto pela saída de emergência
Inês Leitão
Leitor B
1.
Contra o vento do
metro na minha cara
quando eu vou trabalhar,
contra o Jornal de Negócios
no degrau do escritório de
manhã,
contra todas as saídas de
emergência desta cidade,
plim.
2. Contra o rating,
contra a precariedade e contra
o capitalismo desenfreado,
plim.
3. Contra o BPN,
o BPP,
a Standard & Poor,
plim.
4. Contra mim,
contra o meu corpo carregado
de precariedade,
plim.
5. Contra o que podemos
comer e
contra o que não podemos
comer,
plim.
6. Contra todo o tédio,
contra a minha cara numa
entrevista de emprego falhada
e contra a alma do meu avô,
sindicalista antes de 1974,
plim.
7. Contra a minha vagina,
contra a precariedade da
minha vagina e
contra as pilas que já
passaram por ela sem a olhar,
plim.
8. Contra a raiva que tenho
entre os dentes à laia de cárie
dentária que levo na boca até
à cadeira do meu trabalho,
plim.
9. Contra a pele dos meus
lábios a queimar
à beira da chávena de uma
bica demasiado quente às
08:46 da manhã
antes do serviço,
plim.
10. Contra a pequena janela
que tenho à minha frente e
contra os meus dedos a
bater com violência na
chapa plástica do teclado do
meu computador,
plim.
11. Contra o meu carro na
oficina há três meses por
falta de pagamento,
contra a ideia de ter de
comer o meu chefe para
subir de escalão e
47
ganhar mais do que os meus
colegas: contra aquilo que a
minha boca não diz e
a minha cabeça pensa,
plim.
12. Contra o meu corpo,
contra a ideia de esmagar
a minha cabeça na parede
com muita força até a abrir
e tudo se tornar irreversível,
plim.
13. Contra o mundo todo,
contra todos os movimentos
pela paz,
plim.
14. Contra o Ghandi,
contra o Luther King e
contra o Mick Jagger,
plim.
15. Contra o José Luís
Goucha,
contra a Júlia Pinheiro e
contra a saliva do Sr. Silva,
plim.
16. Contra os carros,
contra os pneus dos carros e
contra as bicicletas que não
poluem,
plim.
17. Contra a morte de
Saramago e
contra os ecos do livro de
Lobo Antunes na minha
cabeça,
plim plim.
18. Contra a minha cabeça,
plim.
19. Contra a cabeça da
minha mãe e do meu pai,
plim.
20. Contra a violência da
solidão e o cheiro da urina
seca num beco de Lisboa,
plim.
21. Contra o ar
condicionado e contra
a escravatura do clima
controlado,
plim.
22. Contra o blazer preto e
contra o inverno,
plim.
23. Contra a chuva,
contra o medo e contra os
fascistas da Faculdade de
Letras em 2006,
plim.
24. Contra o temor,
contra o Mário Crespo e o
pânico na cara dos outros,
plim.
25. Contra a violência,
o despudor,
contra as gralhas do jornal
da SIC,
plim.
26. Contra o engano,
contra as baratas e contra
os escaravelhos amigos
escondidos de mim,
plim.
27. Contra os que tropeçam
e caem em balsas quando
os barcos se afundam com
pessoas presas lá dentro,
contra o mau tempo no
canal,
plim.
28. Contra o mundo todo e
todos os mundos,
contra a vida que levamos e
aquilo que corremos,
plim.
29. Contra a resistência dos
resistentes,
contra a sobrevivência dos
malditos:
contra o meu umbigo e
contra a democracia que
temos,
plim.
30. Contra mim, que tenho
30 anos, e contra a geração
fon-fon-fon:
contra ti e contra aquilo
que nos tornámos os dois
multiplicados por tantos,
plim.
A favor de todas e quaisquer saídas de emergência intencionais
e criteriosas que nos levem daqui para fora,
dlim-dlão,
dlim-dlão
Manifesto
João Silveira
P
orque a arte é uma coisa que caiu e se partiu, porque a arte são restos de comida na borda
de um prato, porque a arte é uma noite mal passada na cama de alguém e os artistas são
coisas pálidas que cedem o espaço para os outros passarem, baixando a cabeça e pedindo
desculpa, e porque os artistas não são “os artistas” mas antes pessoas sozinhas umas contra
as outras, uma sombra que apenas se lamenta:
Os artistas são animais de colo, são estofos coçados de um sofá, são o bolso das calças cheio de
talões, são figuras com medo, são bandeiras rasgadas, são um lençol usado, uma manta para os
joelhos, são uma boca articulada dizendo nada, uma boca constante dizendo “sim”, são um
baú de desculpas, explicações, são uma carta registada nunca levantada, são crianças ofendidas
pregando rasteiras, são altares de si mesmos, são memória gasta, são o que outros foram.
48
São o fim e o que resta depois disso.
Porque os artistas são ilhas.
Porque, num momento qualquer, lhes passou a vontade de correr à frente dos outros, lhes fugiu
a vontade de não terem de agradar, lhes caiu no colo o medo de qualquer coisa inexistente.
E porque escrever ou tocar ou dançar, representar ou pintar e construir enormes desastres em
aço deixou de ser um punho, deixou de ser uma porta ou janela para se tornar um tapete, uma
vitrina. Porque os artistas só obedecem e só reagem.
Porque se tornaram apenas pessoas quaisquer num sítio qualquer, sem peito para reclamarem
um espaço, para se juntarem num gume afiado e rasgarem o véu da vida dos outros. Porque,
assim, são apenas os outros.
Não há nada realmente a perder.
Não há sítio marcado onde tenham de estar.
Não há quem lhes possa dar ordens.
Não há políticos, não há governos.
Não há desculpas.
Manifesto
Lia Nunes
Q
uero fazer História!
Quero mudar o mundo, o meu mundo!
Quero que a política, a civilização, a cidadania sejam parte do nosso
quotidiano, transformadas da podridão de que as revestiram nas
verdadeiras práticas de valores como a honra, a lealdade, o respeito e
a defesa do bem comum!
Quero ter um filho e ver no mundo dele o resultado das ações que eu,
conscientemente, realizei!
Quero que ele seja mais consciente, informado, e ativo do que eu
alguma vez serei!
Manifesto
Liga dos Amigos do Jardim Botânico
L
isboa precisa de mais espaços verdes, de mais jardins, de mais ruas arborizadas (já
repararam como ainda há centenas de ruas sem árvores?). Mas Lisboa precisa também de
cuidar melhor dos espaços verdes que já tem porque muitos deles estão votados ao abandono
ou para lá caminham — como é o caso do nosso Jardim Botânico.
49
Manifesto
Lucinda Augusta Silva
Q
uero chamar a vossa atenção para
um problema que se tem vindo
a agravar em Lisboa. Estou a falar de
obras ilegais efetuadas nas fachadas de
edifícios de arquitetura do século XX.
Fico chocada ao ver como todos os meses
se efetuam obras ilegais sem que a CML ou
a Polícia Municipal intervenham. Na maior
parte dos casos, os proprietários efetuam
a demolição parcial da fachada do prédio a
que corresponde o seu apartamento. Motivo?
Fechar as varandas com envidraçados de
alumínio, as bem conhecidas “MARQUISES”.
O resultado é o que se pode ver: ruas e avenidas,
onde existiam bonitos prédios das décadas de
40, 50 e 60 do século XX desfiguradas com
marquises de alumínio e caixas de estores.
O Bairro de Alvalade e do Areeiro são dos
mais afetados. A Av. de Roma, a Av. de Paris,
a Praça Pasteur, a Av. João XXI, a Av. dos
EUA são exemplos chocantes de como em
Lisboa existe pouco respeito pela lei, já para
não falar da falta de respeito pela arquitetura.
Parem de desfigurar a Av. João Crisóstomo N.º 3!
Não é obrigação da CML, em conjunto com a
Polícia Municipal, fiscalizar estas obras ilegais
de alteração de fachadas? Desde 2006 que
envio alertas para o Pelouro do Urbanismo
mas nenhuma das obras foram embargadas.
A Polícia desloca-se ao local, a ilegalidade é
confirmada mas as obras são concluídas! Se a
CML e a Polícia Municipal nada fizerem para
repor a legalidade nas fachadas de Lisboa
estaremos a contribuir para uma cidade
cada vez mais feia e visualmente caótica.
LISBOA tem de resolver este problema!
Manifesto
Luísa Rodrigues
O meu país está a ficar sem cinemas.
Árvores para o Bairro de Campo de Ourique!
Maria Augusta Pereira
P
resentemente, há um grande deficit de
árvores em Campo de Ourique. Só dois
arruamentos (Rua Saraiva de Carvalho e Rua
Ferreira Borges) estão arborizados. Isto é,
apenas 10% das ruas de Campo de Ourique
têm árvores. Solicito que seja implementado
um projeto municipal de plantações nas
restantes 15 ruas onde não há uma única
árvore. Campo de Ourique foi projetado com
a entrada do Eng.º Frederico Ressano Garcia
na CML em 1874. Com desenho ortogonal,
ruas relativamente amplas e três praças
(uma delas com jardim), Campo de Ourique
é um Bairro à espera de ser arborizado
pela CML desde os finais do séc. XIX!
Desde 2008 que os cidadãos pedem à CML
para que arborize as ruas do bairro mas
até hoje nada foi feito nesse sentido. Em
contrapartida, vários investimentos têm
sido realizados na construção de parques de
estacionamento. Que prioridades tem esta
nossa cidade!?
50
Manifesto pela união dos muitos
Mariana Ferreira Monteiro
Q
ue se unam os muitos que choram de indignação,
Que se unam os de vontades gémeas mas ainda assim raramente partilhadas.
Que se unam vozes, armas e corações irmãos.
E lutem!
Defrontem de peito aberto a gente pequenina,
Essa gente pequenina que nos diz governar, empregar e cuidar na velhice e na doença.
Eu não gosto de gente pequenina,
De microcéfalos e de acéfalos,
Daqueles que medem aos palmos quão fundo vai o bolso,
Daqueles que matam quem ousa crescer para lá de números bancários.
Os homens pequenos não merecem Romeu nem Julieta,
Nem o menino que ousa extrair de um violino o mais maravilhoso som,
Nem o poeta que enobrece as almas,
Nem o cientista que arrisca para lá da razão,
Nem o agricultor que cheio de amor à terra alimenta o mundo,
Nem a prodigiosa altura de todos os que combatem o vazio com sonhos.
Um Homem só é tão grande quanto a distância que vai entre a realidade e o fim da sua
imaginação. E só é tão fraco quanto se pensa distante dos seus irmãos igualmente grandes.
Encontremos em nós e entre nós os muitos homens grandes que tão dormentes estão e
unamo-los a todos numa só vontade. Na vontade dos muitos. Dos muitos que são homens
grandes.
Manifesto
Marisa Figueiredo
Mude-se!
Transforme-se!
Mudemo-nos nós próprios da corja
envergonhada e acomodada a que
pertencemos. Mudemos a televisão de
sítio, de preferência para o balde do
lixo. Mudemos a vontade de beber, sem
questões, a opinião de opinion makers
nascidos nos meios de comunicação social.
Mudem-se os meios de comunicação social,
façam-nos mais plural, menos histéricos.
Transformemo-nos. Não aceitemos tudo
o que nos dizem. Não aceitemos a
inevitabilidade e o “porque sim” só
porque sim. Transformemos o rabo
no sofá numa andança frenética pelo
caminho da vida. Transformemo-nos!
Façamos o que achamos mais justo,
fincando o pé a quando nos pisam e nos
tomam como rebanhos de carneiros.
51
Avance-se!
carneiros. Nem lobos. Somos sim uma
matilha de mulheres e homens — e tudo
o mais nos entretantos — que só quer
amor, humanidade e justiça. E agora que
mudámos, transformámos e avançámos…
não há ninguém que nos possa parar!
Avancemos! Vamos lembrar-nos de que
somos humanos, que somos plural.
Vamos lembrar-nos de que somos mais
do que pensamos que somos. Não somos
Manifesto
Manuel Festas Franco
“C
itizens of the United States, We are Anonymous.
This is an urgent emergency alert to all people of the United States. The day we’ve all
been waiting for has unfortunately arrived. The United States is censoring the internet. Our
blatant response is that we will not sit while our rights are taken away by the government
we trusted them to preserve. This is not a call to arms, but a call to recognition and action!
The United States government has mastered this corrupt way of giving us a false
sense of freedom. We think we are free and can do what we want, but in reality
we are very limited and restricted as to what we can do, how we can think, and
even how our education is obtained. We have been so distracted by this mirage
of freedom, that we have just become what we were trying to escape from.
For too long, we have been idle as our brothers and sisters were arrested. During this time,
the government has been scheming, plotting ways to increase censorship through means
of ISP block aides, DNS blockings, search engine censorship, website censorship, and a
variety of other methods that directly oppose the values and ideas of both Anonymous
as well as the founding fathers of this country, who believed in free speech and press!
The United States has often been used as an example of the ideal free country. When the
one nation that is known for its freedom and rights start to abuse its own people, this
is when you must fight back, because others are soon to follow. Do not think that just
because you are not a United States citizen, that this does not apply to you. You cannot
wait for your country to decide to do the same. You must stop it before it grows, before
it becomes acceptable. You must destroy its foundation before it becomes too powerful.
Has the U.S. government not learned from the past? Has it not seen the 2011 revolutions?
Has it not seen that we oppose this wherever we find it and that we will continue to
oppose it? Obviously the United States Government thinks they are exempt. This is
not only an Anonymous collective call to action. What will a Distributed Denial of
Service attack do? What’s a website defacement against the corrupted powers of the
government? No. This is a call for a worldwide internet and physical protest against
the powers that be. Spread this message everywhere. We will not stand for this! Tell
your parents, your neighbours, your fellow workers, your school teachers, and anyone
else you come in contact with. This affects anyone that desires the freedom to browse
anonymously, speak freely without fear of retribution, or protest without fear of arrest.
Go to every IRC network, every social network, every online community, and tell them
of the atrocity that is about to be committed. If protest is not enough, the United States
government shall see that we are truly legion and we shall come together as one force
52
opposing this attempt to censor the internet once again, and in the process discourage any
other government from continuing or trying.
We are Anonymous.
We are Legion.
We do not forgive censorship.
We do not forget the denial of our free rights as human beings.
To the United States government, you should’ve expected us.”
Onde se lê Citizens of the United States deve ler-se “Citizens of the world”.
Manifesto
Mónica Amaral Ferreira
TerraeMotus. A terra treme, a casa cai.
Manifesto de palavras escritas
Nádia Nogueira
M
anifesto porque se não se pode demonstrar nem o sentido metafísico, nem o sentido
ético, nem o sentido estético da existência (segundo Nietzsche) torna-se mais difícil
defendê-los. Há que dar voz a estes sentidos porque eles existem.
A arte é o sentido metafísico, ético e estético da nossa existência.
Vamos dar sentido a estes manifestos, discutindo-os na rua, nos jardins, nas casas uns dos
outros. Vamos espalhar sementes, vamos encontrar os nossos amigos e conversar sobre a
vida, sobre o que nos move, sobre o sentido daquilo que nos acontece.
Vamos criar formas de encontro onde a palavra e a ação sejam elos férteis para a construção
de novas realidades.
Vamos construir o mundo que queremos com aqueles que partilham connosco o que nos
acontece agora.
As causas para nos manifestarmos são as causas de agora e só vale a pena lutar no presente.
Por isso, vamos fazer dos espaços públicos espaços férteis para o pensamento e para o diálogo.
Vamos acabar com as praças sem vida e os jardins sem movimentos. Vamos melhorar estes
espaços comuns. Não vamos permitir que se construa a nossa cidade à revelia, porque aquilo
que se constrói fica lá durante muito tempo e, por isso, tem de ser responsável, consciente e
dialogante.
Manifesto-me pelo encontro, pelo diálogo, pelo pensamento, pela ação, pelo espaço
comum e criativo. Manifesto-me por aquilo que quero fazer com a minha vida.
Manifesto-me pela liberdade do pensamento que não depende de ratings.
Manifesto-me pela liberdade de sentimentos que não depende de ratings.
Manifesto-me pela liberdade de expressão que não depende de ratings.
Manifesto-me pela liberdade da minha existência que não depende de ratings.
Manifesto-me pela liberdade do meu movimento que não depende de ratings.
Manifesto-me pela liberdade da minha voz que não depende de ratings.
Manifesto-me pela arte que não depende de ratings.
Eu não dependo de ratings!
53
Manifesto da Baixa
Narciso Antunes
C
omo é possível que, enquanto a Baixa apodrece, o redor de Lisboa cresce,
cresce, cresce? Ajudada pelas construtoras, esta cidade cresceu tanto, que
está agora de joelhos, vergada pelo seu próprio peso de betão armado. Tem mais
casas agora que gente e ainda assim, não para de crescer! Para fora, para os lados,
para longe…
Abandonastes as casas, os prédios centenários, os bairros mais lisboetas de toda
a cidade. Para quê? Para se perder horas e horas no meio do trânsito, para ter
uma casa gigante da qual não se precisa ou um jardim a que ninguém dá uso?
Esquecestes-vos dos jardins secretos, das vielas onde crescestes e dos
recantos da nossa/vossa cidade que decai e se corrompe debaixo do
esquecimento. As paredes brancas da vossa infância foram ficando
cinzentas, como as vossas almas: cansadas, aborrecidas e desgastadas por
ação do tempo e da chuva que cai no para-brisas, no caminho de casa.
Preocupais-vos em ser ecológico, em separar o lixo, em ser verde…
Digo-vos também que ser verde não é só isso. Ser verde não é só fechar a água
da torneira. Ser verde é não fazer uma casa de raiz, de tijolo e argamassa! Ser
verde é também aproveitar as pedras, a madeira e o suor que fizeram estas casas.
Eles sobem os preços dos transportes, da gasolina, do petróleo! Sobem tudo!
Subam os transportes e as taxas! Subam tudo e desçam os preços das casas antigas!
Em vez de licenças para se fazerem prédios de pechisbeque, em arrabaldes cada
vez mais longínquos, que se deem subsídios para reconstruir casas no centro!
Aprendam com a Europa, que não deixou morrer a alma das suas cidades.
Voltem, voltem para as baixas. Repovoai o que é vosso por herança! O tempo, meus
caros, é o vosso recurso mais precioso e desperdiçam-no em engarrafamentos, filas,
semáforos, obras no asfalto… O dinheiro também! Pouparão dos dois se voltarem
para a parte antiga da nossa Lisboa, para Alfama, Mouraria, Bairro Alto, Madragoa…
Anseio pelo dia em que as luzes desta cidade velha continuarão acesas depois da
hora do fecho das lojas! Sonho em ver os lençóis estendidos às janelas. Acredito
em dias futuros em que as ruas voltarão a cheirar a comida acabada de fazer.
Espero que estas ruas se voltem a encher de catraios a correr de um lado para o
outro. E há de vir o dia em que as fachadas vão voltar a estar limpas e alvas como
a neve que Lisboa não conhece. E que os magníficos azulejos das ruas da Baixa
voltem a brilhar debaixo do sol de junho.
54
Manifesto dos 500€
Narciso Antunes
E
studastes a vida toda! Desde o berço que andais com os livros às costas!
De aula em aula, de setembro em setembro, de propina em propina, chegastes ao fim
do percurso e encontraste 500€ e o trabalho do vosso futuro, que não vos permitirá ter um!
Quantas florestas que se cortaram, para nelas se escreverem rios de livros, livrinhos e
livralhões. Para quê? Para nada? As falésias de giz foram arrancadas e as montanhas de
ardósia estripadas da Mãe Terra. Para quê? Para nada?
O sofrimento dos nossos pobres pais; o sacrifício de noites mal dormidas; a preocupação de
não saber se ia haver dinheiro para manter os filhos a estudar… Para quê? Para nada?
Queimaram-se horas e puxaram-se cabelos à frente dos livros. Para quê? para nada?
Para nada, não! Para uma fortuna de 500€ de uma vida empenhada.
Volvidos todos este anos e todas estas vidas, pergunto-me o que será melhor: um
trabalhador mal formado ou um doutor desempregado? Ou emigrado?
Emigrado não!
Para nada não! Para 500€ de migalhas. 500€ de sem futuro. 500€ de sapatos rotos. 500€ de
pão duro.
O sonho americano para todos, menos para nós! E somos tão ou mais pobres que os nossos
avós!
Não podemos deixar esta terra, que é a nossa, entregue àqueles que a deixaram assim! Para
isto! Não os podemos ter deixado morrer em vão! Não podemos e NÃO!
Não aceitemos de braços baixos ao que nos condenam! Também somos herdeiros de 900
anos de História, de lutas, rios de sangue e lágrimas, de conquistas e derrotas, de reis,
rainhas e tantos homens e mulheres de valor! Não herdámos apenas dívidas de meia dúzia
que andou a encher os bolsos, a atirar este país para o fim da Europa, para o fim do mundo!
Não aceitemos a punição de crimes que não cometemos! Trabalharemos se nos deixarem!
Trabalharemos se nos ajudarem! Conquistaremos outras terras! Descobriremos e traremos
novos mundos ao mundo! Mas para isso, deixem-nos crescer! Não nos matem à nascença!
E não nos mintam! Não nos digam que para se ter futuro é preciso ser doutor! Que 500€
compram tudo. Tudo menos o que se pode para se viver.
Não nos vendam. Não nos troquem. Não nos deem para outras paragens, para outros sítios,
para servirmos a outros senhores e outros reis. Precisam mais de nós do que nós de vocês.
Mas também precisamos de mais 500€! Para crescer, para vencer, para trabalhar, para pôr
esta terra, este murcho jardim à beira mar plantado a andar!
Deem-nos os remos para a mão e chegaremos a bom porto! E voltaremos vitoriosos! Se nos
deixarem, se nos ajudarem, se nos encaminharem. Foi para isso que estudámos. Foi para
isso que nos sacrificámos! É para isso que vivemos! É para lá que iremos!
55
Manifesto
Paula Varanda
Sou contra a pobreza artística e a riqueza futebolística
Precisamos de paz, saúde, habitação, família, natureza e liberdade
Acho que a melhor tática é a da paixão, do amor e da compaixão
Assim juntas podem parecer iguais mas não o são
Acredito que funcionam
São anticorrupção, antiguerra, antissegregação
Gosto muito do mundo visto através da arte
Desejo dançar para sempre
Referência:
“Só há liberdade a sério quando houver, a paz, o pão, habitação, saúde, educação.”
(Sérgio Godinho, 1974)
http://www.youtu.be/KpFEn24TyuA
O que é um coro?
…e um coro de vontades?
Paulo Carvalho
S
e de vivos falamos, o todo é infinitamente mais pequeno do que as partes. O todo — a
civilização (ocidental ou oriental), o continente, o país, a classe, a multidão, a instituição,
o partido, o gang, a turma, o género, a família… — são as verdadeiras partes, meras ideias
(ainda que armadilhadas), estilhaços de violência implícita, prontas a serem arremessadas
ou defendidas, ameaças distantes ou baluartes próximos, que nada são quando comparadas
contigo, que és imensidão, que não és parte (ainda que participes), porque não és um
triângulo de vidro ou peça de puzzle que se encaixe ou solde. Não és um soldado, ainda que
te solidarizes. Também não és inteiramente sólido. Partes só e esburacado para o encontro,
encontras-te só e esburacado depois dele. O vento passa dentro desses buracos e no interior
dos buracos do encontro. Infinito, entre infinitos, és tu, sou eu. Se te afastas, sentes frio; se te
aproximas demais, corres o risco de sufocar. E eu contigo. Não nos conhecemos, conhecemos
reações, alquimias a que damos nomes grandes (pelo medo de não sabermos). Infinito é
apenas um dos nomes do mistério que te habita e que és. Que me habita e que sou. Foi por
isso que, antes dos nomes, a voz sobreveio ao mutismo do corpo. A tua no teu, a minha
56
no meu, a dele no seu. E a primeira forma da voz foi o grito. E o grito, assim fora do corpo,
atemorizava. E foi para vencer esse medo que o tímpano — a primeira fonte do medo — se
tornou fino e, muito antes da afinação, procurou a afinidade. E, desde então, cada voz existe
na distância exata em que outra a deixa ser. É, pois, o tímpano que marca a distância: pela
escuta. Da tua voz, da minha. E da terceira voz, a dele. E assim nasce o canto plural, que já
não é só voz, mas cada voz unida a outras vozes singulares modelando os gritos: as vontades na
distância exata — que nunca é exata, ou que o é apenas na procura do tom comum. O coro
já não é um todo, difusa ideia a combater ou a defender, é a convergência de vozes singulares
em ação.
Acordai — Manifesto
Paulo Lima
É
tempo de acordar e relembrar
Que a luta ainda agora começou
Virar a página sem esquecer
O que o passado nos ensinou
E ter a força de uma só canção
Que se solta da garganta
E se crava no coração
É tempo de acordar e repensar
No que o futuro não concretizou
Renascer das cinzas voltar a queimar
Ser a corrente que nunca quebrou
E ter a raiva de uma só nação
Nos cinco dedos de uma mão
Nas palavras de um refrão
É tempo de acordar e rejeitar
O que o presente nos reservou
Caminhar lado a lado com o braço no ar
Porque o caminho jamais separou
E ter a esperança num só coração
Que nos salta pela boca
E nos enche de paixão
Acordai!
Sentir que vale a pena contestar
Acordai!
Fazer um esforço e participar
Trazer de um poço a força do mar
Sentir que vale a pena contestar
Acordai!
Fazer um esforço e participar
Trazer de um poço a força do mar
Acordai!
Manifestejo Batente
Rafael Vieira
Z
angão de zangado e farto acumulado. De contas de cabeça e cargo amontoado.
Fado-macaco contando trocados, para um vinho que seja; cheio, raso, largo. F-a-r-t-o.
De estar farto de. A cada gota que transborde, exéquias e uma lástima. País-jangada
recoberto de colinas prenhas minadas de ratos, puta de vida forca, miragens de tiro ao
lado, palheiro n’agulha perdido a dias. E então é o caco do carro, a água do cano, o tabaco
enrolado, o arroz engasgado, caros os tomates, isto aqui é um frasco. Farto, incho; trago.
Vinho cheio meio a medo, papel duma face, massa d’arroz ao dente, fome de bobo e cara
de bolo, sobejar era uma vez e o resto é arte de jantar repartido repetido de açorda de sobras
de roupa velha.
57
Comprimido me sinto e a cada cabeça uma sentença prescrita. De morte lenta ficar por
aqui assim, não; cada filho que brote comerá a passa que o Inimigo amassa. Este estado
prescreveu, passou o prazo, trespassa-se com gente dentro em enxerto europeu, amamenta-se
de mim. E então é a função púbica, créditos débitos fétidos de pagamentes, contas a contagotas, prestações a tiracolo, filhos a prazo, gente adiada, relações porquinho-mealheiro e
frango-da-horta em dias santos. Estou farto e cheio de estar farto de. Inspiro. Transpiro.
O Dantas já vive assalariado p’los Antípodas. Pau!
Manifesto
Rede de Cidadania de Montemor‐o‐Novo
O
que é?
Uma rede de cidadãos aberta, diversa,
democrática e apartidária, que pretende
exercer a sua cidadania participativa para
a construção de um futuro mais solidário,
sustentável e próspero em Montemor-o‐
Novo.
e credibilidade junto da sociedade civil de
Montemor‐o‐Novo.
“A Carta da Terra é um amplo
reconhecimento, declaração e consenso
global sobre ética e valores para um futuro
sustentável. Desenvolvido ao longo de um
período de dez anos, no que foi chamado o
mais extenso processo de consulta global
associada a uma declaração internacional,
a Carta da Terra foi formalmente aprovada
por mais de 2500 organizações, incluindo
instituições globais como a UNESCO e a União
Mundial para a Conservação da Natureza
(IUCN).“
Está traduzida em mais de 40 línguas e
disponível em:
www.earthcharterinaction.org/content/pages/
Read‐the‐Charter.html
Porque existimos?
Queremos assumir responsabilidade na
condução dos nossos destinos e qualidade
de vida, para nós e para as futuras gerações
promovendo localmente o diálogo e
a dinamização de projetos nas áreas
económica, social, cultural e ambiental.
Como vemos o nosso futuro?
Maior autonomia da comunidade local
com o aumento da capacidade de resposta a
acontecimentos locais ou globais, como são
hoje a estagnação da economia, a exclusão
social, os problemas ambientais e a excessiva
dependência dos combustíveis fósseis e
outros recursos não renováveis.
O que pretende esta rede ou movimento?
Objetivos:
•Chamar a população de Montemor-o-Novo
à participação, contando com o interesse,
paixão e responsabilidade de cada um para
que, em conjunto, possamos iniciar um
novo ciclo de cidadania.
•Dinamizar a consciência coletiva para as
questões da sustentabilidade.
•Formular propostas concretas e desenvolver
ações para a sua implementação, nos
diferentes domínios e de acordo com as
competências reunidas.
Quais são os nossos princípios de atuação?
Temos por base a Declaração Universal dos
Direitos do Homem e os Princípios da Carta
da Terra que defendem os valores pelos
quais esta rede de cidadãos se irá reger no
decorrer da sua existência, honrando a
ética, a honestidade, a transparência e a
humildade para assim construir confiança
58
Manifesto
Ricardo Ávila
Q
ue os professores troquem de cadeira com os condutores de autocarros que,
mediante entrevista, demonstrem sensibilidade para deseducar todos os
alunos escolarizados.
Que os políticos dos partidos dominantes cumpram a pena através de prestações
de serviço ao público, por exemplo, a recolha de lixo urbano, nas mesmas
circunstâncias laborais em que o fazem agora os respetivos trabalhadores (espero
que a opção pelo termo “trabalhadores” não me rotule com cores políticas com
que simpatizo mas que não envergo).
Manifesto
Ricardo Ramos
q
uero mais que História lecionada cronologicamente, que nas escolas se ensine a
respeitar e tirar conclusões da história.
quero uma cultura que não se baseie em tertúlias de eleitos, em conhecidos bem
posicionados.
quero uma educação que não procure prolongar a ignorância.
quero que para além do horário de trabalho seja imposto um horário de lazer. que
se assuma a relação entre a inexistência deste com fenómenos como a delinquência
juvenil, taxas de absentismo, abandono, isolamento na terceira idade,…
quero uma justiça que não esteja à venda. equitativa.
quero ver a corrupção severamente punida.
quero sopa de legumes.
quero salários mais baixos na assembleia. governar é um privilégio, não um luxo.
quero que os votos em branco se traduzam em lugares vazios nessa assembleia.
quero andar de carrocel sem pagar
quero o fim do uso do serviço público como bode expiatório para tudo
quero jornalistas e repórteres a sério e quero-os muitos e com diversas opiniões
quero a prostituição legalizada
quero o interior do país à mesma distância a que estava antes das portagens. não!
quero o fim das portagens em todas as SCUT que não apresentam alternativa viável e o
fim da merda das obras na IP3. se a ponte é para cair mande-se abaixo de uma vez!
quero que o representante máximo do país seja obrigado a um mês de serviço
comunitário a ser distribuído por instituições de apoio à pobreza e toxicodependência
e serviços hospitalares.
quero que os meus filhos não estejam sujeitos a uma escola que obedece a caprichos de
jogos partidários e critérios economicistas, que se preocupa mais com uma estatística
que com uma geração criativa, crítica e autossustentável.
quero uma sandes de queijo da serra, presunto e tomate e um copo de tinto.
obrigado.
59
Ma-ni-fes-to
Rosa Azevedo
C
ontra o poder das palavras de-co-ra-das. O desvio do cérebro em detrimento dos olhos.
Contra o deleite puro. O engano da arte. A distração da arte. Manifesto contra a arte
como distração. Engodo.
Em favor da luxúria. Das tremuras. Das tonturas. Da revolta. Da ternura. Do amor.
Contra o corpo agrilhoado, a favor da paixão. Contra as palavras de-co-ra-das. A favor do
arrependimento, do irrefletido, da névoa nos olhos e do discernimento.
Por palavras que te encalham em vergonha alheia, em embaraços, em tintas na parede e
nas mentes, que te fazem agir e reagir.
Re-agir.
Pelas palavras que te fazem reagir, que te fazem reagir, que te fazem reagir, que te fazem
reagir, em loop ascendente.
Manifesto pelas palavras de amor que nos fazem amar quem desconhecemos. Que nos
fazem embarcar em viagens alheias. Pela surpresa, o desconhecido e outra vez a surpresa.
Pelas palavras que pertencem a quem não sabe ler palavras. Que não são palavras. Pela
reação. Pela surpresa. Pelo poder do manifesto da reação.
Manifesto
Rui Mendes, a partir de Paulo Mendes da Rocha
A
ENERGIA VITAL QUE EXISTE ENTRE A IDEIA E A COISA.
A VISÃO DE UMA DESEJADA CIDADE PARA TODOS.
Manifesto
Sandra Silvado
M
AIS ÁRVORES!
É este o meu desejo para a Lisboa onde nasci.
Gostava de quando morrer, saber que Lisboa tinha mais
árvores do que aquelas que existiam quando eu nasci.
Mas o que vejo é o contrário. Cada vez menos árvores, cada
vez mais betão e carros.
Porquê?
60
Manifesto
Susana Domingos Gaspar
Q
uero que à minha volta haja árvores para poder respirar; quero ter a possibilidade diária
de correr a abraçar-me a elas ou passar-me por elas e dizer bom dia sem falar. Desejo que
em Lisboa cresçam árvores durante tantos anos como aquela que vi em São Brás de Alportel;
que fiquem tão velhas que uma pessoa se sinta impelida a parar e admirar. E imaginar o
passado de uma azinheira.
Criava um sistema educativo onde fosse imperativo descobrir uma atividade profissional que
se ama. Mas essa descoberta teria de ser feita pelo educando e nunca, jamais, pela orientação
do professor.
Criava um sistema educativo onde primeiro se aprendesse a amar e só depois se aprendesse
a aprender. E dele se saísse apenas aprendiz, nunca professor. Que cada professor fosse
substituído por pessoas que gostam tanto de aprender que não podem viver sem transbordar,
sem partilhar esse conhecimento sempre a crescer e a ser destruído.
Quero médicos que me ouçam falar da doença, que me toquem onde me dói e me abracem
se o diagnóstico for pesado. E depois choramos. E depois voltamos a rir. E saio para a vida.
Saio do seu gabinete para a vida.
Quero dar a volta ao mundo mas não como o Willy Fog. Em muitos mais dias. Nova Iorque,
Nova Orleães, Irlanda, Rússia, Moçambique, Hawai, Brasil, Japão, Paris, Montpellier, Sicília,
Galiza, Mar Báltico, Islândia, vulcões, Índia e Paquistão, África do Sul e o que eu ainda não
ouvi dizer que era maravilhoso. Açores durante um mês.
Quero ser lenta.
Quero ir ao cinema, aos teatros e aos museus, sobretudo quando estou à rasca e deixo de
beber uma bica para comprar um pacote de leite.
Quero uma casa velha, mas muito bem reconstruída (sem meio centímetro de corrente de ar
em cada janela). Quentinha no inverno.
Sonho com o dia em que cada um é líder espiritual de si próprio. Pensa, fala e age na mesma
linha de movimento. Confessa-se ao seu magma interior, todos as noites ao deitar. Ouve o
futuro do dia no duche matinal. E Deus descansa, finalmente.
Quero que as pessoas tenham o direito de aprender a foder. E a oportunidade de fazer amor
pelo menos uma vez na vida.
Quero ter direitos laborais, ser paga condignamente e matar a minha condição de trabalhadora
independente, se o que estou a fazer é um trabalho sob a direção ou orientação de outrem e
após a encomenda desse ou outro outrem.
Quero ser uma trabalhadora em geral (em vez de especificamente precária).
Morte ao Primeiro Ministro. Morte ao Presidente da República.
Quero que as pessoas tenham a coragem de voltar a perceber de política. Quero a REVOLUÇÃO.
Uma revolução com a duração de 20 anos, para dar tempo de mudar muito e profundamente.
Vamos todos tirar 20 anos para mudar. Cada um muda-se a si. E, nos intervalos, todos
mudamos tudo.
61
Manifesto em Pretérito Profético
Teresa Gabriel
A
nsiando uma Manhã que nunca chega
um grito que escuta em cada olhar
ansiando uma explosão que não tem rastilho
e todas as tormentas sopram neste aguardar
o turbilhão dos turbilhões
o futuro em clarões
Incendiar
Incendiar
olhos cegos de luzes que assediam
bebendo pó, respirando a fuligem
ignorando os sinais que nos guiam
com nossas almas sedentas de origem
séculos, séculos, cegos, cegos
Incendiar
Incendiar
Sonhos levados no vento e na bruma
Despidos
Sonhos forjados do tempo e da espuma
despojados
de tudo o que já não interessa, porque já nada resta…
Incendiar…
Incendiar…
Sorriso desnudo
Vânia Chagas
N
utria na ponta do sorriso um brilho translúcido, quase infantil, que
se desnudava nas calçadas abertas e nos olhares dos outros viventes.
Era com ele que transmutava os dias rocambolescos e conseguia mirar a
simplicidade da luz citadina que se derrama ante a luxúria dos telhados. Isso
fugiu, o sorriso… entre os dedos das mãos que ficaram vazias. Quedou-se
talvez na fímbria do ombro onde descansava nas noites insones.
São pululantes e várias as queixas mundanas, retorcem-se no externo dos
passeantes. Eu sinto falta, simplesmente, desse sorriso que se aquecia por
detrás do coração. Esse é o meu manifesto, o seu retorno, somente.
62
Dia do Manifesto
Programa apoiado pela Junta de Freguesia de Alvalade e UNICER
Equipa
diretor artístico Mark Deputter
programador música Pedro Santos
programadora crianças e jovens Susana Menezes
assistente de programação Laura Lopes
gestora Andreia Cunha
adjunta de gestão Glória Silva
diretor de produção Joaquim René
adjunta direção de produção Mafalda Santos
produtora executiva Ana Gomes
produtora crianças e jovens Rafaela Gonçalves
diretora de comunicação Catarina Medina
gabinete de comunicação Rita Tomás
imagem e design gráfico Luciana Fina e Moritz Elbert
diretora de cena Rita Monteiro
adjunta direção de cena Silvia Lé
camareira Rita Talina
diretor técnico Zé Rui
adjunto direção técnica Luís Duarte
técnicos de audiovisual Félix Magalhães,
Miguel Mendes e Rui Monteiro
técnicos de iluminação/palco Catarina Ferreira,
Luís Balola, Manuel Martins e Paulo Lopes
bilheteira/receção Diana Bento, Rosa Ramos
e Vasco Correia
frente de sala Complet’arte — Isabel Clímaco (chefe de
equipa), Sérgio Torres, Ana Paula Santos, Fernanda Abreu,
Cristina Almeida, Diogo Fonseca, Palmira Silva
e Joaquim Torres
Download

Dia do Manifesto - Teatro Maria Matos