Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC “Eu acho que tá na hora d’eu me debruçar em cima desse gravador, desse gravador e dizer o que eu penso”: Hassis e as fontes orais. Karla Simone Willemann Schutz1 Resumo: Nascido em Curitiba (PR), mas desde muito pequeno morador de Florianópolis (SC), Hiedy de Assis Corrêa, mais tarde nomeado “ Hassis”, foi figura importante dentro do restrito cenário artístico de Santa Catarina, ganhando destaque no final do século XX. Até seu falecimento em 2001, o artista realizou um trabalho de arquivista, compondo um acervo hoje abrigado na fundação que leva o seu nome. Neste acervo estão incluídos desenhos, pinturas, fotografias, slides, livros, recortes de jornal, fitas VHS e K7 relacionadas ao próprio artista e família, bem como à arte catarinense. O foco principal do presente artigo é problematizar as entrevistas e depoimentos orais registrados em fitas K7 e guardados por Hassis na década de 1990. Tomadas como “fontes orais” tais suportes serão analisados adotando como norte o desejo do artista em arquivar o passado. Palavras-chave: acervo, fonte orais, Hassis, arquivo. Artista plástico bastante atuante dentro do cenário da arte catarinense, Hiedy de Assis Corrêa, o Hassis, realizou durante décadas um trabalho de arquivista, atividade que acabou culminando na composição de um acervo bastante diverso. Nele podem ser encontradas inúmeras fontes iconográficas como pinturas, desenhos, fotografias, audiovisuais (cinema 8mm, Super 8, fitas VHS) e gravações em fita K7, todas elas produzidas e guardadas pelo artista. Além destas, também compõe o acervo, um grande número de exemplares de jornais e recortes de matérias jornalísticas dedicadas às exposições promovidas por Hassis, como também a arte catarinense em geral2. Paranaense por nascimento, mas radicado em Florianópolis desde muito pequeno, Hiedy participou de maneira bastante ativa de movimentos artísticos catarinenses, como o Grupo Sul movimento literário das décadas de 1940 e 1950 -, onde produziu diversas ilustrações que 1 Bolsista de Iniciação Científica – PIBIC/UDESC, vinculada ao Projeto de Pesquisa “Um acervo autobiográfico: preservação, patrimonialização e memória na Fundação Hassis” desenvolvido no Centro de Ciências Humanas e da Educação CCE/FAED./UDESC, sob a orientação da Profa. Dra. Viviane Trindade Borges. – E-mail: [email protected] 2 Fundação Hassis. (s/a). Disponível em: < http://www.fundacaohassis.org.br/acervo/acervo_sobre.html> Acesso em 10 de jun. de 2012. 1 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC figuraram nas obras de Salim Miguel, escritor catarinense participante do movimento, e depois na “Revista Sul”, publicação editada pelo próprio grupo. Além disso, juntamente com outros artistas plásticos florianopolitanos, Hassis participou da fundação do Grupo de Artistas de Florianópolis, o GAPF, em 1958. Foi nesse mesmo ano que o GAPF realizou seu primeiro salão e dentre todas as produções expostas figurava a obra “Vento Sul com Chuva”, a qual rendeu à Hassis a premiação em primeiro lugar. Muitos outros espaços da capital catarinense e do estado receberam o “toque” artístico do pintor e desenhista, como o Clube 12 de Agosto, em Florianópolis; a Capela da Santíssima Trindade, também em Florianópolis; o Museu do Contestado, na cidade de Caçador e o Aeroporto Hercílio Luz, na Ilha de Santa Catarina. O artista também navegou por águas internacionais, na cidade do Porto em Portugal ele pintou em uma agência do Banco do Brasil um grande mural onde foram representados diversos aspectos da cultura brasileira. Muitas de suas pinturas e gravuras estão espalhadas por museus e coleções particulares brasileiras e no exterior, fato que revela o caráter intensamente produtivo do artista. No entanto, no presente trabalho não se pretende problematizar a sua produção artística, mas sim, outra pequena parte do acervo que Hassis edificou, tratam-se das gravações em fitas K7. O material encontra-se hoje abrigado pela Fundação Hassis, instituição fundada logo após a morte do artista no ano de 2001. Nelas estão registradas algumas entrevistas cedidas por Hassis a jornalistas catarinenses, bem como gravações produzidas por ele mesmo onde é possível perceber o desejo do artista em guardar as memórias de parentes próximos como sua mãe e tia, mas também suas próprias lembranças e opiniões. Tais gravações foram um dos objetos da pesquisa intitulada “Um acervo autobiográfico: preservação, patrimonialização e memória na Fundação Hassis”, coordenada pela Profª Drª Viviane Trindade Borges. O projeto foi realizado durante o segundo semestre de 2011 e primeiro semestre de 2012 e visava, sobretudo, contribuir com a preservação do importante acervo configurado por Hiedy de Assis Corrêa. Para tanto ao longo de sua duração foram higienizados e digitalizados cerca de 950 slides3. Além disso, foram também digitalizadas e transcritas 16 fitas K7 que contém as entrevistas cedidas por Hassis, bem como as outras gravações produzidas por 3 Parte deste trabalho contou com a participação do grupo composto por Alexandre Pedro Medeiros, Livia Bernardes Roberge e Natália Ramos, que no segundo semestre de 2011 cursavam a disciplina Patrimônio Cultural II, e cujo projeto também focava na preservação de parte do acervo da Fundação Hassis. 2 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC ele, aqui já mencionadas. Estas digitalizações serão disponibilizadas à consulta na própria fundação que leva o nome do artista e que é administrada por suas duas únicas filhas. Como citado anteriormente, o foco do presente trabalho serão as entrevistas gravadas em fitas K7 onde estão registradas memórias, pensamentos e opiniões do artista. Tanto nos momentos em que cedia seu depoimento a jornalistas, quanto nas horas em que ele deliberadamente se entregava ao gravador e registrava suas falas. No entanto, antes de adentrarmos essa discussão é preciso problematizar dois pontos principais: o que a constituição de um acervo documental pode significar e quais as contribuições das gravações feitas e guardadas por Hassis para a historiografia. Ambas as questões são fundamentais para a problematização do processo autobiográfico que o artista realizou ao longo de quase seis décadas. A atividade de arquivista que desempenhou, bem como as falas presentes em seus depoimentos serão os guias e fontes para se pensar a maneira como Hassis pensava a si próprio, o seu ofício e o mundo que o cercava. Segundo Priscila Fraïz, que durante anos estudou o arquivo pessoal de Gustavo Capanema, a constituição de seu acervo pode “ser reveladora da maneira como ele constituía, emprestava um sentido, dava coerência e solidificava seu eu, sua imagem” (FRAÏZ, 1998, p. 60). O arquivo e o arquivista O arquivo, segundo Fraïz (1998, p.67) revela um desejo de “cristalização da memória”. Seu idealizador e até mesmo os que continuam o seu desejo, mantendo este arquivo, tentam parar o tempo, deter o seu curso. Cada arquivista organiza e recolhe seu acervo, obviamente, a sua maneira. No caso de Hassis é possível perceber o cuidado que o artista tinha em catalogar o que por ele era recolhido. No caso dos jornais, por exemplo, são poucos os que não receberam a sua interferência, algumas vezes datados, assinados. Em alguns exemplares é possível até mesmo encontrar comentários escritos pelo pintor, como o encontrado na edição do Diário Catarinense do dia 26 de setembro de 1993 localizada na fundação que mantém seus guardados. Na época Hassis inaugurava sua exposição denominada “Expo por Expo”, no entanto, o artista não encontrou nenhum comentário na coluna editada por Juliana Wosgraus em relação a exposição 3 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC que já havia sido mencionada por outros colunistas. Curiosamente, o artista escreve a caneta acima do título da matéria o seguinte: “Não noticiou a Expo por Expo.” Tal fato, mostra toda a intencionalidade e sensibilidade que ele imprime ao seu acervo. Ainda de acordo com Fraïz (1998, p.62), os arquivos pessoais obedecem a uma organicidade que é atribuída cuidadosamente pelo próprio autor, que através do arquivamento compõe sua própria biografia. No entanto, no caso específico de Hassis essa questão não se concretiza, pois a Fundação Hassis, instituição responsável pela salvaguarda, disponibilização e armazenamento de seu acervo, não estabelece como um de seus compromissos preservar a organização original imputada pelo pintor ao seu arquivo. Os principais objetivos da Fundação são a preservação e difusão dos guardados de Hassis, dessa maneira, levando estas características à risca, não se pode classificar a instituição como um arquivo pessoal. As intenções pessoais do artista se perderam a partir do momento que a fundação que leva o seu nome estipulou seus objetivos. Conforme Borges (2011, p. 40) A Fundação Hassis abriga e preserva aquilo que foi deixado intencionalmente por seu titular, não tendo como compromisso obedecer à organicidade por este imputada cuidadosamente para compor sua autobiografia. Dessa forma, a instituição não pode ser tomada sob a perspectiva exata de um arquivo pessoal, pois ainda que abrigue tudo o que foi acumulado por Hassis ao longo de sua existência, não objetiva manter a organicidade exata por ele deixada, mas sim preservar, organizar e difundir o acervo. Assim, as intenções e sentidos emprestados pelo personagem à organização de seu acervo já não existem mais. Mas quais as percepções e motivos que estimulam determinado personagem a recolher e guardar objetos, sobretudo, os que se relacionam a sua própria pessoa e interesses? Segundo Artiére (1998, p.11), este desejo esta relacionado à própria sociedade na qual vivemos. Estamos culturalmente condicionados a recolher, catalogar e guardar “nossos papéis”, nossas recordações. Esta atividade faz parte do nosso cotidiano, da nossa vida familiar, nossa vida social. Ainda pensando o oficio de arquivista pode-se trazer à luz da discussão o “dever de memória”, expressão cunhada pelo historiador Pierre Nora. Nora sugere que “o dever de memória faz de cada um o historiador de si mesmo” (1993, p.32). Nesse sentido todos nós nos incumbimos de sermos “arquivistas”, seja guardando objetos, jornais, cartas; seja relembrando determinados acontecimentos alusivos ao passado de nosso próprio grupo. 4 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC A preocupação de Hassis em guardar e preservar um acervo que representa determinada memória sobre ele mesmo e sobre o círculo artístico catarinense, faz dele também um “historiador de si mesmo”; e sua obsessão em armazenar o que ele próprio considerava importante nos remete ao “dever de memória”, proposto por Nora. Hassis responde por uma injunção social, que atinge também a nós. Elaboramos e reelaboramos nós mesmos através desse processo. “Passamos assim o tempo a arquivar nossas vidas: arrumamos, desarrumamos, reclassificamos. Por meio dessas práticas minúsculas, construímos uma imagem para nós mesmos e às vezes para os outros” (ARTIÉRE, 1998, p. 10). Artiére propõe que olhemos para o ordinário, para o cotidiano. Somos todos de alguma maneira arquivistas e pensando essa nossa própria condição, ele sugere que podemos entender um pouco melhor quem somos (1998, p.10). Essa é então a sugestão deste presente trabalho, pensar o Hassis guardador, e através dessa sua atividade tentar problematizar a imagem que ele tenta construir de si mesmo. Pois quando nos propomos a esta tarefa não pomos nossas vidas em conserva de qualquer maneira; não guardamos todas as maçãs da nossa sexta pessoal; fazemos um acordo com a realidade, manipulamos a existência: omitimos rasuramos, riscamos, sublinhamos, damos destaque a certas passagens. [...] Numa autobiografia, a prática mais acabada desse arquivamento, não só escolhemos alguns acontecimentos, como os ordenamos numa narrativa, a escolha e a classificação dos acontecimentos determinam o sentido que desejamos das as nossas vidas. (ARTIÉRE, 1998, p.11) A seleção que o artista faz, e o seu discurso presentes nas fitas K7, aqui já mencionadas, demonstram a imagem que ele almeja projetar de sua própria pessoa. Para ele mesmo, mas também para o outro, sejam seus contemporâneos, sejam sujeitos futuros. Hassis de maneira diferente de outros indivíduos que também promoveram a constituição de grandes acervos pessoais, não tinha por costume escrever sobre si mesmo, não são encontradas na fundação escritas autobiográficas do pintor. O seu processo autobiográfico se dá de maneira diferente, Hassis não era um homem de letras, mas sim um artista plástico e, obviamente, foi essa sua afinação e interesse que moveu a constituição de seu arquivo. No entanto, a presença de sua família não escapava de maneira nenhuma a esse registro. O artista costurava sua vida familiar e profissional, era um “mediador entre mundos” (CRUZ, 2008, p.10). Essa mediação é claramente perceptível ao se observar os objetos que guardou, e os momentos 5 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC que registrou tanto em fotos e vídeos, quanto em áudios. Por meio do acervo que acumulou, podemos descobrir suas visões de mundo, seus anseios, suas diversas faces e claro seu desejo em perpetuar na sociedade determinada imagem de si e até mesmo constituir sua própria identidade. Pois, “a identidade está estritamente ligada à memória consciente que se pretende sustentar” (CRUZ, 2008, p. 11). A memória por sua vez é a eterna reconstrução de fatos passados no presente em que vivemos. Segundo Halbwachs (2011, p.31), a memória se manifesta basicamente de três formas distintas, mas complementares. É possível a determinado indivíduo reconstruir fatos que dizem respeito somente a si mesmo (memória individual), que dizem respeito ao seu grupo ou comunidade (memória coletiva), ou até mesmo que se referem ao um âmbito maior como o Estado (memória nacional). Todos esses processos de rememoração, como dito anteriormente, estão imbricados e, como se percebe, tem um caráter essencialmente social. A identidade de determinado sujeito ou grupo passa necessariamente pelo o que estes desejam perpetuar ou esquecer. Dessa maneira, o sujeito Hassis se constrói por meio de seu acervo, das lembranças que omitiu, mas principalmente, dos vestígios que deliberadamente (ou não), recolheu, registrou e armazenou. A fonte oral e o Hassis interlocutor Como já mencionado, Hiedy de Assis Corrêa não legou ao seu acervo pessoal memórias escritas – ao menos até o momento nenhuma inscrição desse tipo foi encontrada-, no entanto, o artista, sobretudo ao longo da década de 1990, produziu diversos registros auditivos armazenados em fitas K7. Nesses suportes podemos encontrar entrevistas cedidas por Hassis à jornalistas, entrevistas que o próprio artista realizou com familiares como sua mãe Laura Corrêa e sua tia, apelidada “Tia Bola”; e também momentos em que o artista registra sua própria fala de maneira deliberada. 6 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC As gravações encontradas na Fundação Hassis não foram produzidas por historiadores adeptos da história oral, nem foram pensadas a partir dos anseios de determinado projeto de pesquisa histórica. No entanto, elas permanecem como vestígios de determinadas lembranças, então por que não atribuir a elas também o status de “fontes” úteis para a história? De acordo com Robert Frank, historiador francês, a fonte oral seria o material elaborado conscientemente pelo historiador objetivando atender as necessidades de fontes que sua pesquisa impõe. Todavia, a tendência hoje é preferir a expressão ‘fontes orais, que tem a vantagem de banalizar o procedimento: todo historiador do muito contemporâneo tem naturalmente, sem fazer muito alarde, o recurso às testemunhas orais, que ele registra em fitas magnéticas. Quando essas fontes são depositadas junto a um organismo, para ser consultáveis, imediatamente ou segundo um prazo fixado, elas se tornam ‘arquivos orais’ . É nessa virada em relação à própria nomenclatura da fonte que se pode incluir as fitas K7 encontradas no acervo construído por Hassis. Não mais “história oral”, mas “fonte oral”. E ainda mais, a noção de “arquivo oral”. As gravações encontradas junto a Fundação Hassis foram, como já dito anteriormente, o foco do projeto de pesquisa “Um acervo autobiográfico: preservação, patrimonialização e memória na Fundação Hassis”. O objetivo final do projeto foi tornar estes suportes já tidos como obsoletos4 acessíveis para a consulta de futuros pesquisadores – historiadores ou não -, através da constituição de um arquivo oral, atribuindo a eles também o status de ‘fontes orais’. Para tanto as fitas foram digitalizadas e transcritas, estando agora a critério da Fundação disponibilizá-las a quem se interessar pela vida de Hassis, bem como pela história da arte catarinense. De acordo com Borges (2011, p. 43) as entrevistas deixadas por Hassis “entrelaçavam vida e obra, sendo possível pensá-las como depoimentos de história de vida, ainda que não tenham sido construídas sob a perspectiva metodológica da história oral”, pois ao longo delas Hiedy, suscitado por seus entrevistadores, relembra alguns momentos de sua trajetória. Até mesmo no depoimento que ele próprio produz nota-se a narração de lembranças relacionadas ao seu percurso de vida. Mesmo não seguindo a metodologia proposta pela história oral essas 4 Nem a própria Fundação Hassis sabia com segurança qual o conteúdo destas fitas K7, produzidas na década de 1990 esses suportes, atualmente, se tornam quase obsoletos, pois os aparelhos que “lêem” seu conteúdo são cada vez mais escassos. 7 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC gravações desvelam no discurso de Hassis diversos temas que podem ser caros aos historiadores do presente. Dessa maneira, elas não se mostram como “qualquer tipo de arquivo” (ALBERTI, 2004, p. 38), pois carregam diversas características semelhantes às fontes orais produzidas por historiadores inseridos em projetos de pesquisa. As subjetividades que estes depoimentos trazem consigo mostram o empenho de Hassis em reter o passado, bem como a imagem que ele tenta atribuir a si mesmo, “enunciando sua invenção autobiográfica” (BORGES, 2011, p.44). A seleção que ele faz do que deve e que não deve ser guardado e também o esforço em entrevistar seus familiares – no caso das fitas K7demonstram essa invenção de si mesmo, quais aspectos eram mais importantes para o artista. A partir dessas afirmações se pode constatar a importância que adquirem essas fontes, as inúmeras possibilidades de pesquisa que elas podem suscitar. Este é apenas um dos tantos caminhos que podem ainda podem ser traçados. Essa mudança de posicionamento em relação à fonte oral é algo que vem se processando ao longo dos últimos anos, e como coloca Borges (2012, p.7) “indicam uma preocupação com a utilização da fonte, criada para atender pesquisadores ‘presentes e futuros’”. A historiadora Dominique Veillon, diretora de pesquisa do Instituto de História do Tempo Presente, já em 1992 atentava para a crescente preocupação em relação aos arquivos de fontes orais. Até recentemente, era comum para o historiador prestar uma atenção apenas secundária a questões metodológicas, éticas e técnicas sobre fontes orais. Considerando-se o único destinatário da fonte, pouco importava a ele as condições de registro ou de armazenamento. Alguns até não intencionavam manter suas gravações, destrundo-as após o uso. Outros viram nessas gravações como uma fonte secundária que não poderia substituir a palavra escrita e por isso não cuidavam de seu futuro. Uma mudança tem surgido nos últimos anos para harmonizar este tipo de história, institucionalizando-a e dando-lhe um status diferente. Há um esforço para melhor garantir a sobrevivência dos arquivos sonoros. Vários congressos de arquivistas optaram por consagrar uma parte de seus trabalhos, esforçando-se em particular em sensibilizar os praticantes da história oral para os problemas da preservação dos documentos e sobre a importância da coleta e arquivamento dos arquivos orais. Historiadores que utilizam a oralidade são mais propensos a não trabalharem sozinhos, eles agora aceitam sem muita hesitação, confiar seus registros a serviços especializados para que eles sejam mantidos em boas condições. Esta é uma evidência que a história oral está prestes a ser cada vez mais solicitada (BORGES apud VEILLON, 2012, p.7 tradução da autora). O projeto de pesquisa aqui então já mencionado partilha desta mudança de status e através de suas ações procurou também “garantir a sobrevivência dos arquivos sonoros” que 8 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC durante anos foram por Hiedy de Assis Corrêa armazenados. Iniciativas voltadas para a criação de acervos que abarquem estas fontes orais – frutos de um trabalho de história oral ou não – são importantes, pois possibilitam aos historiadores contemporâneos, mas principalmente, futuros novas possibilidades de pesquisa. Mesmo não sendo produzidas nos pressupostos da “história oral” as gravações encontradas na Fundação Hassis guardam muitas características em comum com as fontes “provocadas” pela metodologia da história oral. Por esses motivos e pelas sensibilidades que carregam elas se constituem importantes indícios para a problematização do processo autobiográfico deste personagem bem como da obra do artista, intimamente relacionada ao círculo da arte em Santa Catarina. Até mesmo a história da Ilha de Santa Catarina é contemplada por estes vestígios deixados por Hassis. Inventando a si mesmo Como já afirmado anteriormente nos arquivos pessoais estão depositadas diversas informações referentes ao seu titular e sobre a época na qual ele viveu, e mais importante, estes acervos materializam e indicam suas escolhas e desejos, são vestígios das trajetórias as quais ele traçou. No entanto, ao adentrar neste arquivo, resultado de um processo autobiográfico, o historiador não deve buscar a totalidade e homogeneidade de uma vida, sabemos que estas não existem (CRUZ, 2008, p. 19). Todas as vidas são compostas por fragmentos e permeadas por inúmeros conflitos. Nosso “personagem” não é diferente e para pensar brevemente sobre a construção de si mesmo que elabora o artista será utilizada uma gravação produzida pelo próprio (Hassis) em julho de 1993 que num breve momento se entrega deliberadamente ao gravador. O título do presente trabalho foi retirado desta gravação, o mesmo é emblemático no sentido de se pensar os anseios do artista naquele momento específico, a década de 1990, período no qual todas as gravações em K7, mencionadas anteriormente, foram realizadas. Quando afirma: “Eu acho que tá na hora d’eu me debruçar em cima desse gravador, desse gravador e dizer o que eu penso”, Hassis revela o desejo de se posicionar em relação ao mundo que o circunda, e a necessidade que sente em perpetuar determinada imagem de si. É ainda interessante pensar que o teor da gravação sugere que ele estaria sozinho naquela ocasião. O conteúdo da fita K7, parece mostrar que este não foi um momento planejado por Hiedy, foi surpreendente, 9 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC encontrar no meio de uma gravação de música folclórica5, um depoimento que procura soar sincero, inesperado. A sinceridade parece ser o que Hassis deseja emanar desde o inicio da gravação repentina, quando ele diz: Bom, eu to aqui acabando de ouvir essa aqui... essa fita aqui com “boi-de-mamão” que eu gravei som diversos etc... Porra! Por que eu to perdendo tempo com isso, por que eu não faço uma gravação minha. Afinal de contas nós estamos em julho de 93, aliás, dia 24 de julho, dia do meu aniversário, porra, 67 anos! Eu acho que vou fazer umas gravações ai, me desculpem os amigos, mas lá vai porrete! Quais seriam as intenções de Hassis ao se entregar a este momento? Já foi aqui afirmado que Hassis não produziu escritas biográficas - ao menos até agora estas não foram encontradas -, no entanto, será que não podemos considerar este registro acima descrito como análogo a estas escritas de si? Acredito que sim, pois como aqueles que escrevem para serem lidos, Hassis gravou este depoimento por que queria ser ouvido. Ele parece atribuir ao seu discurso uma importância, e mesmo que demonstre indiferença pelo julgamento alheio, quando diz “me desculpem os amigos, mas lá vai porrete!”, demonstra ter consciência ou esperança de que um dia esta fita K7 seria encontrada e ouvida por outrem. O interesse pelo folclore ilhéu esta presente, mas muito mais forte parece o desejo de perpetuar a sua imagem, bem como o que a cerca. Hassis mira seus futuros pesquisadores, assim deseja narrar sua vida desde o principio: Eu com essa história do boi-de-mamão, me deu uma idéia de fazer uma gravação ao meu respeito. Por que não contar tudo desde 1926, o ano que eu nasci? Quem foi meus pais, quem foi minha mãe, meus avós etc etc etc. É uma pesquisa, e com isso eu começar a narrar desde 1926, o que a minha mãe vai saber por que eu vou fazer uma entrevista com ela. Acho que é uma boa e eu começar a narrar minhas memórias. Por que esses putos no futuro façam o que bem entender. 6 Será que eu não vou ter uma filha, um neto, sei lá, um bisneto, um cara desse ai "pô o velho aí fez uns troços ai legal”, será? A intencionalidade dos desejos de Hassis, aparece na vontade de empreender uma pesquisa sobre sua própria história, na intenção de envolver sua mãe nesse processo. Por certo 5 No início da gravação (cerca de 40 minutos) estão registradas algumas canções de manifestação folclórica característica do litoral catarinense denominada “boi-de-mamão”. 6 Grifos meus. 10 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC que sua família atendeu seus anseios, pois conforme apontando anteriormente, em 2001, no mesmo ano de sua morte, suas filhas criam a Fundação Hassis. O artista quer construir determinada imagem de si, e quer que ela seja o mais verossímil possível, por isso o tom de acaso, de espontaneidade torna-se importante. E os outros que façam no futuro “o que bem entenderem”! O anseio do artista parece estar relacionado ao “desejo de memória”, tão característico da sociedade contemporânea, como antes já foi apontado. Ainda na mesma gravação aqui citada, dissertando sobre a vida do avô (que segundo Hassis testemunhou a Guerra do Contestado7) o artista ao fim dispara: “Infelizmente, hoje eu fico pensando, puta, que material a gente perdeu8, uma pessoa viva, participante da luta como contam os historiadores”. Nesse momento o artista lamenta o fato de terem os historiadores perdido a chance de recolher o depoimento de seu avô, que supostamente teria testemunhado a Guerra do Contestado. O próprio tema (Guerra do Contestado) é importante na obra de Hassis, que compôs uma série de desenhos relacionados a temática no ano de 1984 que serviram como estudo para a realização no ano seguinte (1985) do painel Contestado – Terra Contestada, localizado no Museu do Contestado na cidade de Caçador (SC) (BOPPRÉ, s/p, s/d). Nesse sentindo, ao desabafar desta maneira, o artista demonstra a “obsessão pelo arquivo que marca o contemporâneo e que afeta, ao mesmo tempo, a preservação integral de todo o presente e a preservação integral de todo o passado” (NORA, 1993, p. 13-14). Ele carrega em seu discurso a decepção pelo passado que já está perdido (na fala do avô), mas também a ansiedade por perpetuar o presente que naquele momento estava sendo vivido. Por fim, o trecho no qual encontramos a frase que abre este trabalho: Infelizmente, mas eu acho que tá na hora d'eu começar a debruçar em cima deste gravador, deste gravador e dizer o q eu penso e que se fodam no futuro, se acha que tem razão tudo bem, se não tiver... paciência, agora que eu vou dizer o que eu sei, como era essa cidade no meu tempo, dos anos, o que eu consigo relembrar, eu vou narrar tudo! tudo, mas tudo mesmo! Se puder dar o nome dos bois, eu vou dar o nome dos bois, na verdade, eu não tenho mais nada pra perder na vida, sou um cara independente, franco atirador, rebelde, indisciplinado comigo mesmo, sou um artista plástico que não vou passar dos 40... dos 53 de Greenwich, 43 do Equador (...) 7 Movimento ocorrido entre os anos de 1912 e 1916, na região fronteiriça dos estados de Santa Catarina e Paraná. Neste conflito armado estavam envolvidos (em lados opostos) a população cabocla que vivia na região e o governo federal brasileiro (ESPIG, 2007, p. 200) 8 Grifos meus. 11 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC Nesse momento Hassis, novamente se refere a sua falta de preocupação em relação as impressões sobre ele que no futuro serão pensadas ou difundidas. Mas ele não para de gravar, não para de demonstrar seu desejo em perpetuar esta lembrança. Ele confia a sua própria memória esta tarefa, tudo narrar, tudo nomear, tudo registrar. Hassis desempenha claramente um projeto autobiográfico, refletido na constituição de seu acervo e por ele reafirmado nesse depoimento. Além disso, aparece também neste trecho a imagem que ele atribui a si mesmo: “independente, franco atirador, rebelde, indisciplinado”. Curiosamente esta é a imagem do artista que hoje é reconstruída por meio dos seus biógrafos como Fernando Boppré9 e Carlos Moura10, este último que em publicação divulgada pela própria Fundação Hassis assim descreveu o artista: Falar do artista se torna um trabalho mais complexo, em função da própria complexidade de Hiedy de Assis Corrêa, o Hassis, de sua conhecida produção múltipla, de sua compreensão do que é arte e de sua saudável insatisfação em torno do seu próprio trabalho. Hassis cunhou frases, expressões e chavões próprios que muitas vezes traduziam suas emoções e, em outras tantas, sublinhavam suas fortes opiniões sobre fatos, pessoas, interpretações de uma realidade da qual jamais se afastava, atento, vigilante, crítico, informado, questionador. (MOURA, 2011, p.2) Essa é a imagem do artista que deseja perpetuar a Fundação que leva o seu nome. E penso que ela vai ao encontro da imagem que o próprio Hassis atribuía a si mesmo e buscava legar ao futuro. Um artista rebelde, insatisfeito com o mundo que o circundava, como no trecho a seguir: to perdido aqui no cu do mundo, numa cidade... um lugar chamado Florianópolis, uma ilha paradísiaca mas ninguém sabe explorar essa porcaria, eles falam mais na Antártica do que nessa cidade, não tem? É uma terra de imbecil, tem que... tem que dizer as coisas, e eu vou deixar gravado e fodam-se, por que... [barulho de gelos em um copo] por que eu to bebendo um 'whiskyzinho' mesmo, na semana passada tive ai com amigos batendo um papo, o cara fazendo uma entrevista sobre a Trindade... Eu contei umas coisas, talvez tenha metido os pés pelas mãos, então é a verdade não tem problema, não quero saber. Todo mundo tem direito de saber o que se passava (...) Hassis projeta uma imagem conturbada de sua relação com a cidade, que em tantas produções homenageou. Decidido mais indiferente. Ele quer falar, quer ser ouvido e quer que os 9 Historiador que durante os anos 2005 e 2006 foi diretor técnico da Fundação Hassis, e que teve como tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso na Universidade Federal de Santa Catarina o próprio Hassis. Tal trabalho, defendido em novembro de 2004, intitulou-se “Hassis entre imagens, ou a gaivota sempre está em movimento: do desenho ao cinema Super 8″. (BOPPRÉ, Fernando. Hassis entre imagens, ou a gaivota sempre está em movimento: do desenho ao cinema Super 8. Florianópolis, 2004, 136 pgs. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade Federal de Santa Catarina). 10 Jornalista e genro de Hiedy, editor da obra “Hassis em Prosa”, 2012. 12 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC outros deem a sua opinião o devido valor. Ter acesso a essa informação, segundo ele, é um direito de todos. Ao fim da gravação, ele demonstra mais uma vez o desejo em empreender seu projeto autobiográfico: “Eu vou e tenho e quero, fazer uma entrevista com a (...) ver se ela se lembra o tempo de infância, o tempo de juventude, o que era Florianópolis, que é pra depois dar o segmento disso ai”. O “ela” a qual se refere é sua mãe, portadora das suas primeiras memórias, e o que ele deseja “dar o segmento” é o seu projeto de registro dessas memórias, importantes para a história da capital catarinense, mas também para a imagem de si e de artista que ele deseja deixar gravada na história. Para além do arquivo tão diverso, as fontes orais que mostraram ser um planejamento de Hassis para a posteridade. O artista operou intencionalmente esta função, ele desejava que seus guardados fossem no futuro visitados, lidos, escutados. Pois como diz Artiére (1998, p.32), “arquivar a própria vida é definitivamente uma maneira de publicar a própria vida, é escrever o livro da própria vida que sobreviverá ao tempo e a morte”. As fontes orais por Hassis produzidas são partes integrantes e importantes desse processo, impregnadas de subjetividade elas mostram o artista enquanto um “guardião da memória”. Referências ALBERTI, Verena. Manual de História Oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. ARTIÉRE, Philippe. Arquivar a própria vida. Escrita de si/escrita da história. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 11, n.21, p. 9-34, 1998. BOPPRÉ, Fernando. Hassis: um tempo cuidadosamente recolhido e organizado. Artigo. s/d. Disponível em: http://www.fernandoboppre.net/wordpress/wpcontent/uploads/2009/01/artigo_livroacasadobaile_fernandoboppre.pdf Acesso em: 08 jul. 2012. BORGES, Viviane. As falas gravadas pelos outros: fontes orais, arquivos orais e arquivos sonoros, inquietações da história do tempo presente. Revista Diálogos: vol. 16, n.2, p. 663-676, mai/ ago, 2012. BORGES, Viviane. “Enquanto eu viver, enquanto eu respirar”: os registros orais de Hassis, investigando um arquivo autobiográfico. História Oral: vol. 14, n. 1, p. 37-48, jan./jun, 2011 13 Anais do XIV Encontro Estadual de História - Tempo, memórias e expectativas, 19 a 22 de agosto de 2012, UDESC, Florianópolis, SC CRUZ, Gleize A. De olho na eternidade: a construção do arquivo privado de Antonio Carlos Jobim. Rio de Janeiro, 2008, 134 pgs. Dissertação (Mestrado Profissionalizante), Fundação Getúlio Vargas. ESPIG, Márcia. Breve estudo sobre o Movimento do Contestado: A historiografia militar e o caso dos operários da ESFPRG. Anos 90: vol. 14, n. 25, p.199-219, jul. 2007. FRAÏZ, Priscila. A dimensão autobiográfica dos arquivos pessoais: o Arquivo de Gustavo Capanema. Estudos Históricos: vol. 11, n. 21, p. 59-89, 1998. FRANK, Robert. Questões para as fontes do presente. In: CHAUVEAU, Agnès; TETART, Philippe; BECKER, J. J. (org).Questões para a história do presente. Bauru: EDUSC, 1999. p. 103-117. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2011. MOURA, Carlos. Hassis em prosa. Florianópolis: Tempo Editorial, 2011. NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História: São Paulo, n.10, p. 7-28, dez. 1993. 14