1 1º Ten Al ANA BEATRIZ MANZONI CONSENTINO MINARDI O SERVIÇO DE SAÚDE E AS MISSÕES DE PAZ DA ONU: Perspectivas do envio de uma unidade médica de nível II para a missão de paz no Sudão Trabalho de conclusão de curso apresentado à Escola de Saúde do Exército, como requisito parcial para aprovação no Curso de Formação de Oficiais do Serviço de Saúde, especialização em Aplicações Complementares às Ciências Militares Orientador: Reynaldo Cayres Minardi Júnior Rio de Janeiro 2009 2 Dedico a Reynaldo, meu marido, fonte de inspiração para este trabalho, por sempre me incentivar, aconselhar e acalentar. E, principalmente, por acreditar em mim. 3 AGRADECIMENTOS Agradeço a Capitão Yamar pela delicadeza, solicitude e altruísmo, sempre disposta a auxiliar e orientar a condução de meu trabalho, baseada na grande experiência que possui. Obrigada pelo incentivo às idéias que apresentei. Tenho a senhora como exemplo daquilo que pretendo me tornar. 4 RESUMO A Organização das Nações Unidas (ONU) é um organismo de ajuda humanitária que apresenta missões de paz em várias partes do mundo. As tropas militares são enviadas para locais onde são precários os recursos na área de saúde. Isto ocorre, por exemplo, nos países do continente Africano, como é o caso do Sudão. O trabalho indica o envio de uma unidade nível 2 da ONU para a missão de paz no Sudão. Analisam-se quais são as adaptações necessárias nesta unidade para que o serviço de saúde atue da melhor forma possível. O trabalho é de natureza teórica, do tipo revisão bibliográfica. As informações foram colhidas de livros, artigos, teses e sites, pesquisados em bibliotecas e na internet. Conclui-se que é necessário o envio de uma unidade nível 2 da ONU para a missão de paz no Sudão, perfeitamente adaptada em sua estrutura física, de recursos logísticos e humanos, como é proposto neste trabalho. Palavras-chave: ONU; unidade nível 2; missão de paz; Sudão. 5 ABSTRACT United Nations (UN) is an organization of humanitarian aid that ha peacekeeping missions in some parts of the world. The military troops are sent for places where the medical resources are precarious. This occurs, for example, in the countries of the African continent, as it is the case of Sudan. The research considers the sending of a level 2 unit of the UN for the peacekeeping mission in Sudan. It analyzes which are the necessary adaptations in this unit so that the health service acts of the best possible form. The research is theoretician, as bibliographical revision. The information had been removed of books, articles, teses and sites, searched in libraries and the Internet. It is concluded that the sending of a level 2 unit of UN is necessary for the peacekeeping mission in Sudan, perfectly adapted in its structure, of logistic and human resources, as it is considered in this research. Key-words: UN; level 2 unit; mission of peace; Sudan. 6 LISTA DE FIGURAS E TABELAS Figura 1 Mapa do Sudão............................................................................16 Figura 2 Militares da UNMIS e sudaneses.................................................20 Tabela 1 Níveis do Serviço de Saúde da ONU...........................................23 Tabela 2 Adaptações para a unidade nível II no Sudão.............................26 7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.............................................................................08 2 CONCEITOS E MÉTODOS.........................................................10 2.1 TEMA...........................................................................................10 2.2 PROBLEMA.................................................................................10 2.3 JUSTIFICATIVA...........................................................................10 2.4 OBJETIVO....................................................................................11 2.5 REFERENCIAL TEÓRICO...........................................................12 2.5.1 História do Sudão.......................................................................12 2.5.2 Aspectos geopolíticos e sociais do Sudão..............................15 2.5.3 A organização da ONU e as missões de paz...........................17 2.5.4 Os níveis do Serviço de Saúde da ONU...................................21 2.5.5 A unidade de saúde nível 2 na UNMIS......................................24 2.6 METODOLOGIA...........................................................................27 3 DISCUSSÃO E CONCLUSÃO.....................................................28 REFERÊNCIAS............................................................................29 8 9 1 INTRODUÇÃO A Organização das Nações Unidas, a ONU, desde muitos anos atua em diversas operações de manutenção da paz. A participação de militares nestas operações vem aumentando a cada dia. O Brasil tem uma presença importante nestas ações. Como descrito por Aguilar (2005), o primeiro envio de observadores do Brasil em missões internacionais de paz ocorreu em 1948, com o envio de dois militares para a Comissão Especial das Nações Unidas para os Bálcãs (UNSCOB), na Grécia, de 1947 a 1951. Desde então, nas décadas de 1950 e 1960, o efetivo se tornou cada vez maior. Houve a participação nacional em forças de paz no Oriente Médio e Caribe. Nas décadas de 1970 e 1980, estas missões reduziram-se significativamente, até 1989, quando inúmeras foram iniciadas. Atualmente, o Exército Brasileiro participa com tropas em missões de paz na África, América Central, Europa, Ásia, cooperando para soluções pacíficas de conflitos internacionais. Uma das missões da ONU mais significativas atualmente é a missão de paz do Sudão. Principalmente devido ao caos que vivencia a nação, decorrente de muitos anos de guerra civil. Uma pesquisa mais aprofundada desta nação revela um histórico marcante de lutas e conflitos. Desde o século XVII, com a dominação árabe, até a década de 1960, com o início de uma longa e cruenta guerra civil no país. Outros fatores que afligem a nação sudanesa são a fome e as doenças. O serviço de saúde militar e a ONU desempenham um papel de suma importância no apoio à missão de paz no Sudão. Principalmente por ser um país que vive, basicamente, de ajuda humanitária. As enfermidades não escolhem idade, raça ou crenças religiosas, ocorrendo mesmo naqueles que usam farda. A proposta deste trabalho é o envio de uma unidade médica de nível 2 da ONU para apoiar a missão de paz no Sudão. É de grande importância uma unidade médica deste porte amparando tropas internacionais de paz. Esta unidade deve ser equipada e adaptada àquela região. Como é citado no Manual de Campanha do Exército (2001), é necessário um estudo e reconhecimento da área. A organização do serviço é mais eficaz quando for mais completa a análise da situação. Esta avaliação engloba as adaptações na estrutura física, logística e de recursos 10 humanos necessárias para a região onde ocorrerá a missão, visando ao total aproveitamento e êxito do encargo do serviço de saúde. Nos locais para onde são enviadas as tropas de paz, geralmente são precárias as condições de higiene e saúde. Nestes casos, é necessária a utilização de unidades de saúde próprias apoiando os militares em missões. Baseando-se nestes argumentos, o trabalho tem seguimento, com a intenção de que, ao final, possa apoiar a todos que dele se utilizarem. 11 2 CONCEITOS E MÉTODOS 2.1 TEMA Perspectivas do envio de uma unidade médica nível 2 da ONU para a missão de paz no Sudão. 2.2 PROBLEMA Qual a relevância do envio de uma unidade médica nível II da ONU para a missão de paz do Sudão? 2.3 JUSTIFICATIVA Os militares enviados para missões de paz, na maioria das vezes, são alocados em países com pobres recursos assistenciais, principalmente na área da saúde. O envio de uma unidade nível II da ONU para a missão de paz no Sudão justifica-se pela necessidade de um hospital desta escala de complexidade apoiando as tropas de ajuda humanitária. Segundo o que refere o Manual de Campanha do Exército, é importante observar a idéia de se utilizar instalações de saúde próprias, com o objetivo principal de se apoiar os militares nesta missão, analisando qual o melhor tipo delas de acordo com a localidade. O atendimento médico deve ser em nível de segundo escalão, dispondo de recursos logísticos próprios para maior autonomia na missão. 2.4 OBJETIVO Avaliar a perspectiva do envio de uma unidade nível II da ONU para a missão de paz no Sudão e analisar quais são as adaptações na estrutura física, material e de pessoal são necessárias para aquela região. 12 2.5 METODOLOGIA O trabalho realizado é de natureza teórica, do tipo revisão bibliográfica. Foram utilizados dados retrospectivos retirados de revistas, entrevistas e artigos de menos de 10 anos atrás, até os dias atuais. As fontes consultadas foram: Biblioteca Virtual BIREME, Biblioteca da ECEME, Biblioteca da Escola de Saúde do Exército, sites da internet e livros relativos ao tema. O estudo foi organizado segundo as informações colhidas nas fontes. 13 3 DESENVOLVIMENTO 3.1 História do Sudão Sudão é uma palavra que deriva de uma expressão árabe, Bilad-es-Sudan, e quer dizer Terra dos Negros. Os árabes do período medieval criaram o termo para designar a grande extensão territorial que segue desde o Mar Vermelho ao Oceano Pacífico (Badmus, 2008). O Sudão é o maior país da África e vive a pior crise humanitária atual. Conforme dados da Anistia Internacional, morrem por dia mil pessoas neste país, de fome e doenças provocadas por falta de higiene e saneamento básico. Fora estes fatores, a guerra civil assola a nação, onde ocorre uma disputa entre regiões e religiões há décadas. Este é um problema que aflige a maioria dos países africanos, onde houve a divisão de diversas tribos indígenas por fronteiras artificiais, formada pelas potências colonizadoras. Com esta nova divisão, tribos que eram inimigas há vários séculos foram reunidas na mesma área (SILVA, 2005). Segundo Lourenço (2009), no Sudão as desavenças surgiram devido à rivalidade entre tribos de origem árabe e africana, pelo domínio da região. A crise no país já foi classificada como genocídio pelo Congresso Americano, caso onde ocorre a tentativa de assassinato de um grupo de pessoas, ou o assassinato em si, para exterminá-las. Para que se compreenda melhor o conflito, é necessário abordar a origem da questão. Inicialmente, a região do Sudão era conhecida como Núbia, que é uma região no vale do rio Nilo onde habitavam três reinos distintos. No século VI, a maioria da população desta região havia se convertido ao cristianismo e tinha contato com árabes apenas pelo comércio. No ano de 642, ocorre a chegada de muçulmanos à região da Núbia e o Sudão é, então, incorporado ao mundo árabe. Isto não ocorre no sul do país e, nesta parte, ocorre a busca por escravos. No século XIV, há o primeiro príncipe muçulmano e a partir do século XVI, o cristianismo deixa de ser a religião preponderante. As vilas que estão surgindo em volta do rio Nilo passam a buscar o apoio dado pelos árabes. Esta época é conhecida por era 14 islâmica. De 1889 a 1954, ocorre a associação entre a Inglaterra e o Egito e estes países invadem o Sudão, para que possa garantir o acesso ao Canal de Suez, ponto estratégico que liga o mar Mediterrâneo e o Oceano Índico. Esta união anglo-egípcia fortalece o poderio árabe e, conseqüentemente, intensifica as diferenças sociais no país. A dominação ocorre até o século XIX, onde surge uma revolta interna liderada por Muhammad Ahmed bin Abd Allah, líder religioso, que expulsa os ingleses em 1885. Como este vem a falecer logo em seguida, os britânicos retomam o poder em 1898. Em 1956, ocorre a independência total do país e, concomitante, um ciclo de guerras civis provocadas por grupos étnicos e religiosos contrários à elite árabe, que buscava impor no país a Sharia, que é a extrema lei islâmica. Esta imposição foi o fator que aumentou as tensões internas, principalmente no sul do país, onde a maioria é cristã e animista. Nas décadas de 60 a 80, a população muçulmana de Darfur, uma das mais importantes regiões do Sudão, começa a sofrer ataques de árabes nômades, na disputa por terras férteis. Na década de 90, ocorrem períodos de secas e crises econômicas. Há uma maior migração de árabes para a região e isto aumenta as disputas. Em 1994, há uma intensificação do poder árabe em Darfur pelo presidente Al-Bashir. Em 2003, ocorre uma revolta do Exército de Libertação do Sudão (ELS) 1, que deseja “a divisão dos poderes da elite árabe entre os africanos do estado de Darfur e o fim das invasões de tribos nômades” (Lourenço, 2009). Nesta mesma época, o governo do Sudão auxilia a milícia Janjaweed2 a se armar e começa uma chamada limpeza étnica no país. É criada a Força de Defesa Popular (FDP) 3. Em 2005, houve a assinatura do Acordo de Paz Global, pelo governo de Cartum e o Exército/Movimento de Libertação do Povo do Sudão, levando ao fim uma das mais longas e cruentas guerras já vista (Gaspar, 2009). O acordo visava à união do norte e sul do país, a divisão do poder econômico, político e militar. Houve 1 O Exército de Libertação do Sudão é um grupo armado composto por 3 etnias africanas diferentes que luta pelo fim dos privilégios árabes no Sudão. 2 A milícia Janjaweed é a principal acusada do genocídio no Sudão, atacando em grupos de 10 a 15 homens, montados em cavalos, responsável pela morte de mais de 30 mil civis. 3 A Força de Defesa Popular é criada a partir de soldados voluntários oriundos de tribos árabes tradicionanis em guerras, para auxiliar o governo sudanês na luta contra o Exército de Libertação do Sudão. 15 a promessa de prosperidade, autonomia política e igualitária distribuição de recursos (ONU). Infelizmente, a aplicação do acordo ainda não ocorreu de forma satisfatória, até os dias atuais. A atenção plena aos propósitos do Acordo de Paz Global é um fator de suma importância ao equilíbrio e manutenção da paz no Sudão. A missão militar da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Sudão (UNMIS) teve início em 2005, com a intenção de acompanhar a proteção aos direitos humanos, promover o Estado de Direito e auxiliar o retorno dos refugiados (Badmus, 2008). A missão assume importância extrema após a assinatura do acordo de paz firmado entre o governo e as milícias do sul do país. A UNMIS é, nos dias atuais, uma das maiores operações de manutenção da paz, é multidimensional, com um efetivo militar de 10 mil homens, 700 policiais e integrantes civis, atuando na ajuda humanitária (ONU). Mesmo após o acordo de paz, a crise no país aumenta a cada dia. Em março deste ano, a Corte Internacional Criminal emitiu ordem de prisão contra o presidente do Sudão, Al- Bashir, pelos crimes de guerra cometidos na região de Darfur. As acusações incluem crimes contra a humanidade, homicídio, tortura e estupro. Al – Bashir governa desde a década de 80, após a tomada de poder, apoiando as milícias que causam massacres em massa. Diversos jovens já carregaram armas de grande porte, cometeram assassinatos em proporções alarmantes. Aldeias inteiras já foram dizimadas e sobreviventes fugiram (Perrone-Moisés, 2001). Há milhares de desaparecidos, raptos e casamentos com pessoas raptadas. A estimativa é de que esta seja a mais longa guerra civil já registrada. A permanência da missão da ONU é um fato importante, pois o país decretou que houvesse a saída de 13 organizações de ajuda humanitária, após o mandado de prisão do presidente (Gaspar, 2009). Segundo dados da ONU, esta saída tende a piorar o problema da fome no país, a questão da água e o atendimento médico. Atualmente, o Sudão prepara-se para a realização de eleições parlamentares e presidenciais, um dos fatores estabelecidos pelo acordo de paz, que finaliza uma guerra civil com estatísticas alarmantes: 2 milhões de mortos entre o norte muçulmano e as milícias do sul. 3.2 Aspectos Geopolíticos e Sociais do Sudão 16 O Sudão é o maior país africano e é o décimo do mundo. É formado por uma grande planície com montanhas em três partes. Sua capital é Cartum e a cidade mais populosa é Omdurman. No país, os idiomas oficiais são o inglês e o árabe. Isto é bem notável nos países do continente africano, onde se pode observar que a maioria destes adotou pelo menos uma língua européia como a oficial (Visentini, 2007). O Sudão atingiu a independência do Egito e do Reino Unido em janeiro de 1956, mas vive em regime autoritário, governado pelo presidente Omar AL- Bashir. Apresenta uma área total de 2.500.000 km quadrados aproximadamente. A população residente no país é de 39.300.000. Houve uma evasão de cerca de 350 mil habitantes, após a instauração da lei islâmica no país (a Sharia). Uma das situações críticas do Sudão é a questão da água. Em torno de 44% da população não têm acesso à água potável e quase 70% vivem sem saneamento básico. As reservas de água doce são escassas e a demanda aumenta exponencialmente (Olic e Canepa, 2008). Outros dados geopolíticos do país são: o PIB, de 37,6 milhões de dólares; renda per capita: US$ 1,949 ; IDH:0,51; expectativa de vida: 58,6 anos: mortalidade infantil: 91,78/mil nascimentos (Visentini, 2007). O país é dividido em 25 estados. Estes se subdividem em 132 distritos. Localiza-se ao norte do continente africano. O mar Vermelho localiza-se a nordeste e faz fronteira com os seguintes países: Uganda, Líbia Quênia, Etiópia, Eritréia, Egito, República Democrática do Congo, Chade e República Centro-Africana. Com relação aos aspectos climáticos do Sudão, o norte apresenta os desertos da Núbia e da Líbia, predominantemente, com o clima árido. No sul, ocorrem as savanas e as florestas tropicais. O rio Nilo é o mais importante do país. É o único rio perene que atravessa desertos como o Saara (Olic e Canepa, 2008). É o segundo maior rio do mundo em extensão. É uma importante fonte para a energia elétrica e para a irrigação das plantações de algodão. O principal produto de exportação, além do algodão, é a goma arábica (que é uma resina natural extraída de acácias). 17 O Sudão é um país que apresenta grandes riquezas naturais, como petróleo, ouro, prata, asbesto, manganês, zinco, chumbo, ferro, urânio, cobalto, entre outros. Infelizmente, apesar das abundantes fontes naturais, o país vive em crise econômica, mesmo com a exportação de petróleo. A economia da nação baseia-se na agricultura, contribuindo em 39% do PIB. Figura 1 – Mapa do Sudão Fonte: site do Ministério das Relações Exteriores A nação apresenta práticas e crenças de quase 600 tribos. Os habitantes comunicam-se em quase 145 línguas distintas. Com as migrações que ocorrem no país, os nativos acabam perdendo sua língua original, ao absorver outro idioma. Esta extrema diversidade “etnolinguística” caracteriza o Sudão como um “microcosmo” no continente africano. As doenças que ocorrem no Sudão são compatíveis com as principais afecções do continente africano, além de algumas pouco comuns. As maiores epidemias são de malária, desnutrição, diarréia, infecções respiratórias e AIDS. 18 As doenças mais exóticas que ocorrem no Sudão são: dracunculose (infecção pelo verme da Guiné), tracoma (uma das principais causas de cegueira prevenível), febre hemorrágica do ebola (provocada por vírus, é mortal), doença do sono (provocada pela picada do mosquito Tsé, TSE). Certas regiões do Sudão continuam a sofrer com epidemias constantes de meningite, como a que ocorreu no ano de 2007, o pior surto já visto, com 11 mil casos e 417 mortes (ONU). 19 3.3 A organização da ONU e as missões de paz A ONU, Organização das Nações Unidas, é uma instituição formada após a 2 guerra mundial; é composta por 192 Estados e tem as missões de manter a paz e a segurança mundial, contribuir para o progresso social e favorecer os direitos humanos. O presidente norte-americano Franklin Roosevelt foi o primeiro a usar o termo “Nações Unidas”, durante a Declaração das Nações Unidas de 12 de janeiro de 1942, quando “os representantes de 26 países assumiram o compromisso de que seus governos continuariam a lutar contra as potências do Eixo” (ONU). A ONU apresenta os seguintes princípios: a igualdade primordial entre os integrantes; todos os membros devem honrar os compromissos da Carta 4; todos devem resolver suas discrepâncias por meios pacíficos, sem comprometer a paz, segurança e a justiça; todos devem procurar não utilizar ameaças ou o emprego da força contra outros Estados; os membros devem dar apoio a ONU nas medidas que tomar de acordo com a Carta; as Nações Unidas não podem intervir em assuntos particulares de cada país (ONU). A ONU é composta por seis órgãos primordiais, que são: a Assembléia Geral, o Conselho de Segurança, o Conselho Econômico e Social, o Conselho de Tutela, o Tribunal Internacional de Justiça e o Secretariado. A Assembléia Geral é o principal órgão. Os membros reúnem-se para discutir sobre todos os assuntos. Cada integrante tem direito a um voto. As decisões da Assembléia são recomendações, não são obrigatórias. O Conselho de Segurança é o órgão que responde pela manutenção da paz e da segurança mundiais. É o único órgão da ONU que apresenta poder de decisão, ou seja, todos os outros membros devem acatar e cumprir suas determinações. É constituído por 15 países. Destes, cinco são perenes, com direito a veto, que são: Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China. Os outros dez membros não permanentes são escolhidos a cada dois anos pela Assembléia Geral. 4 Documento de fundação das Nações Unidas 20 O Conselho Econômico e Social atua em questões relacionadas ao desenvolvimento, direitos humanos, industrialização, ciência e tecnologia, recursos naturais, entre outras. O outro órgão da ONU é o Conselho de Tutela, que já não atua mais desde 1994, após o último estado do mundo deixar de ser tutelado pela ONU (Palau, no Pacífico). A Corte Internacional de Justiça é o órgão judiciário das Nações Unidas. Auxilia a Assembléia Geral e o Conselho de Segurança no que se refere às questões jurídicas. É composta por quinze juízes que são eleitos pela Assembléia Geral e pelo Conselho de Segurança. O Secretariado é responsável por organizar os programas e as políticas desenvolvidas pela ONU. Ainda com relação à organização da ONU, existe um setor responsável pelo gerenciamento das missões de paz, que é o Departamento de Operações de Manutenção de Paz (Departmet of Peacekeeping Operations – DPKO, sigla em inglês). É subordinado ao Secretariado da ONU. Este departamento tem a finalidade de “organizar as políticas relativas às missões de paz, provimento de pessoal e material, desenvolvimento de metodologias e planos operacionais, planejamentos emergenciais, controle dos fundos orçamentários, apoio administrativo e logístico”, entre outros (Aguilar, 2005). Existem outras agências da ONU que também participam nas missões de paz, que são: o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), o Fundo das Nações Unidas para Crianças (United Nations Children’ s Fund –UNICEF, sigla em inlgês), Instituto de Pesquisa para o Desarmamento (United Nations Institute for Disarmament Research – UNIDIR, sigla em inglês), a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Organização para a Alimentação e a Agricultura (Food and Agriculture Organization – FAO, sigla em inglês), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e o Programa de Alimentação Mundial (World Food Programme – WFP, sigla em inglês). Há diversas Organizações Nãogovernamentais (ONG) que também participam junto com as missões de paz da ONU, além da Cruz Vermelha Internacional (CVI). 21 As missões de paz são um instrumento importante para auxiliar os países na resolução de conflitos e na busca da paz duradoura (ONU). Foram criadas no período da Guerra Fria, inicialmente limitadas às manutenções de cessar-fogo e auxílio na resolução de conflitos sociais. Somente após o fim da guerra fria, houve uma mudança no contexto de atuação das operações de manutenção da paz, com uma abrangência maior. Hoje em dia, estas missões atuam em diversas áreas, desde a preservação dos direitos humanos, reformas setoriais, desarmamento, desmobilização e instituição de governos. A manutenção da paz, pela ONU, é feita através de vários instrumentos, de acordo com o tipo de conflito que ocorre. O primeiro destes é a Diplomacia Preventiva (Preventive Diplomacy), que são o conjunto de medidas para se evitar o aparecimento de disputas, ou caso já existam, evitar que se transformem em conflitos de maior proporção. Neste caso, utiliza-se o Desdobramento Preventivo (Preventive Deployment), que é relativo a uma força militar. O próximo instrumento é o Estabelecimento da paz (Peace-making),que é a ação diplomática para obtenção de acordos para a mediação de conflitos, para se chegar à extinção de disputas. A Manutenção da Paz (Peace-keeping),é o emprego de militares de vários países, em tropas ou não, com o objetivo de acompanhar os acordos de paz nos diversos Estados que deles necessitarem. Só ocorre com a aceitação das partes envolvidas no conflito e utilizam-se da força apenas se necessário para a autodefesa. São imparciais nas ações relativas às questões internas. A Imposição da Paz (Peace-enforcement) significa o emprego da força militar para restaurar a paz, sendo que, neste caso, não há a necessidade do consentimento das partes envolvidas no conflito. A Consolidação da paz (Peace-building) são as atuações após o conflito de importância para a manutenção da paz duradoura entre os envolvidos na questão. Procura agir no fundo do problema, para tentar resolvê-lo. Existe, também, a Proteção de Operações Humanitárias (Protection of Humanitarian Operation), que consiste nas forças militares sendo utilizadas na 22 proteção das agências humanitárias que trabalham em prol das vítimas dos conflitos (Aguilar, 2005). A ONU apresenta, atualmente, missões de paz nos seguintes países: Colômbia, Haiti, Chipre, Nepal, Timor Leste, Chade/República Centro-africana, Saara Ocidental, Sudão, Libéria, Costa do Marfim e Guiné-Bissau (dados do Exército Brasileiro). O Brasil possui observadores militares das três Forças em todas estas missões (Exército Brasileiro). Além destas missões atuais, o Brasil já participou de outras já encerradas. A primeira delas foi na Grécia, em 1948, país que se encontrava em guerra civil. Posteriormente, o Brasil enviou militares para operações de paz no Canal de Suez, em 1956, para garantir e acompanhar o cessar-fogo e a retirada das tropas armadas da França, Grã-Bretanha e Israel, que se encontravam no território egípcio. O Brasil também participou nas seguintes missões de paz da ONU: no Congo, em 1960; Nova Guiné Ocidental, no ano de 1962; República Dominicana, 1965; ÍndiaPaquistão, em 1965. Outros países e regiões que já tiveram observadores militares do Brasil são: Chipre (em 1964), Suriname (1986), Angola (em 1989), América Central (1989), El Salvador (1991), Angola (1991), Moçambique (em 1992), em Uganda-Ruanda (1993), na ex-Iugoslávia (1994), Guatemala (no ano de 1994) e Equador e Peru (1995). Figura 2 - militares integrantes da UNMIS e sudaneses Fonte: site do Exército Brasileiro 23 A Missão das Nações Unidas no Sudão, UNMIS (sigla em inglês), é uma operação de manutenção de paz iniciada em 2005, composta por militares, policiais e civis, com a finalidade de apoiar o governo do Sudão no acompanhamento do Acordo de Paz, trazendo fim a mais longa guerra civil já vista na África. A previsão é de que a missão permaneça no país por sete anos, no período de 2005 a 2011 (dados da ONU). A UNMIS apresenta o efetivo de 750 militares, de vários países. Como citado anteriormente, a missão realiza a fiscalização do cumprimento do acordo de paz, analisa o desenvolvimento das questões políticas, sociais e econômicas, oferece policiamento e assistência aos líderes do Sudão, permite o engajamento das comunidades nos programas de operações de paz, principalmente as crianças, mulheres, ex-combatentes e refugiados e auxilia o país na prevenção, controle e acompanhamento dos casos de HIV/AIDS. A missão apresenta um componente policial formado por 62 países. Estes policiais integrantes da missão atuam em programas de treinamento da polícia do país. Já realizaram mais de 700 cursos para 20 mil policiais sudaneses. A parte de assuntos políticos da ONU também está presente no Sudão (ONU). 3.4 Os níveis do Serviço de Saúde da ONU 24 O serviço de saúde nas missões da ONU tem o objetivo de “garantir a saúde e o bem-estar dos membros da ONU participantes das operações de paz, por intermédio do planejamento, coordenação, execução, monitoramento e supervisão profissional de cuidados médicos de excelência em campo” (Oliveira, 2007). O apoio de saúde nas missões de paz da ONU é diferenciado em cada região, dependendo de vários fatores, tais como a geografia local e as doenças existentes. A característica do apoio médico será determinada pela natureza e os riscos da missão. O clima, terreno, distâncias, comunicações, são fatores determinantes para o tipo de apoio de saúde no local da missão. O serviço de saúde na ONU é hierarquizado em níveis, partindo do mais básico até o mais complexo. A finalidade desta nivelação é garantir que os mais elevados cuidados médicos sejam destinados aos integrantes das missões de paz. E, também, porque as unidades e pessoais que atuam no serviço de saúde provêm de diversos países, com os mais variados padrões de cuidados médicos. A hierarquização dos cuidados médicos padroniza a atenção em saúde. Segundo o Manual do Suporte Médico para Operações de Manutenção da Paz da ONU, os níveis do suporte médico são os seguintes: 1. Nível Básico É o primeiro nível do suporte médico. Refere-se, basicamente, aos cuidados de primeiros socorros e prevenção. Ainda não existe a presença do médico. Os cuidados de saúde são fornecidos por um dos componentes da missão ou por um paramédico ou enfermeiro treinados. 2. Suporte Médico Nível Um Neste nível, já existe a presença do médico, que é responsável pelos cuidados primários, do tipo reanimação em emergências, estabilização e evacuação de doentes para o nível seguinte de cuidados médicos. 3. Suporte Médico Nível Dois 25 É o primeiro nível onde ocorrem os procedimentos cirúrgicos. Fornece a segunda linha de cuidados médicos: além dos cuidados de reanimação em emergências, estabilização e evacuação de feridos para o próximo nível, existem os procedimentos cirúrgicos de membros, cirurgias de emergências e tratamentos dentários. 4. Suporte Médico Nível Três É a combinação dos cuidados dispensados pelos níveis Um e Dois, além de tratamentos especializados, ou seja, é o mais elevado nível de suporte médico de uma unidade médica da ONU. Apresenta a capacidade de realizar cirurgias especializadas e tratamentos em pacientes internados. Este nível raramente é usado em missões de paz. Ocorre normalmente em hospitais militares ou civis próximo do local ou país vizinho. 5. Suporte Médico Nível Quatro É o suporte que inclui procedimentos de reabilitação, reconstruções, cirurgias altamente especializadas e convalescência. É o nível que fornece tratamento médico definitivo, indisponível numa região onde existe a missão. Como são procedimentos de longa duração, o custo é muito alto. Assim como o apoio médico de nível três, este nível de apoio médico normalmente ocorre num país vizinho ou no país de origem das tropas da missão. 6. Equipe Médica Avançada É uma equipe médica de pequeno porte, móvel, normalmente composta por três homens, pronta para fornecer apoio médico de curta duração em campanha. Cada nível de apoio médico tem seus objetivos específicos. 26 Tabela 1 – Níveis do serviço de saúde da ONU Suporte Médico Suporte Médico Suporte Médico Suporte Médico Equipe médica Nível Um Nível Dois Nível Três Nível Quatro Avançada Cuidados médicos para Cuidados médicos para até Cuidados médicos para até Indicado quando a distância Prover cuidados médicos até 700 pessoas; 20 1000 pessoas; 40 5000 pessoas; 60 entre o país de origem e a primários e atendimentos atendimentos atendimentos ambulatoriais atendimentos ambulatoriais área da missão é muito de emergência ambulatoriais por dia por dia por dia grande Realizar exames médicos Realizar exames médicos Consultas médicas Quando o paciente Apoiar uma força militar admissionais admissionais e de rotina especializadas, necessita com urgência de isolada de cerca de 150 principalmente nas áreas de tratamento médico pessoas Medicina Interna, Medicina especializado Tropical, Doenças Infectoparasitárias, Dermatologia, Psiquiatria e Ginecologia Realizar pequenos Realizar cirurgias Realizar até 10 cirurgias Tratamento especializado Fornecer apoio médico procedimentos cirúrgicos emergenciais e de ortopédicas e/ou de grande de curta duração primário para operações de sob anestesia local membros, sob anestesia porte por dia, sob anestesia geral geral Realizar atendimentos de Realizar atendimentos de Realizar atendimentos de Tratamento com previsão Atendimento em áreas sem emergência, como emergência, como emergência, como de retorno de até 30 dias acesso imediato às manutenção das vias manutenção das vias manutenção das vias aéreas, controle de aéreas e suporte avançado aéreas e suporte avançado hemorragias e choque de vida de vida curta duração unidades médicas Triagem, estabilização e Triagem, estabilização e Manter estáveis feridos Quando o país de origem Fornecer apoio médico evacuação para o evacuação para o próximo para transporte aéreo até da tropa não tem durante evacuação de próximo nível nível uma unidade de nível capacidade de fornecer doentes quatro, podendo estar em tratamento definitivo outro país apropriado Pode manter em Pode manter em enfermaria Hospitalização para até 50 Quando um país oferecer Fornecer uma equipe de enfermaria até 5 pacientes até 20 pacientes por dia por pacientes por dia, por até tratamento definitivo, a cuidados médicos de Busca por dia por até 2 dias até 7 dias cada, incluindo 30 dias cada e para até 4 ONU fará um acordo ou e Resgate cada cuidados intensivos para pacientes de cuidados contrato com este país e até dois pacientes; tratar intensivos; tratar até 20 alocação de recursos até 10 casos dentários por casos dentários por dia financeiros dia Programar e Programar e supervisionar supervisionar medidas medidas preventivas, tais medidas preventivas, tais preventivas, tais como como vacinação como vacinação e, também, vacinação Programar e supervisionar o controle de vetores Exames laboratoriais Até 20 exames laboratoriais básicos e até 10 exames Até 40 exames laboratoriais por dia, até 20 exames radiológicos por dia radiológicos por dia, além de dispor de ultrassonografia e tomografia 3.5 A unidade de saúde nível 2 da ONU na UNMIS Segundo o Manual do Serviço de Saúde em Campanha, do Exército Brasileiro, o planejamento do apoio de saúde às operações de paz ocorre em 3 27 fases: a mobilização da tropa, o emprego da tropa e a desmobilização da tropa. A mobilização significa a seleção médica do pessoal. O emprego da tropa propriamente dito são as ações de prevenção, de vigilância sanitária das instalações e do meio-ambiente. A desmobilização diz respeito aos procedimentos terapêuticos dispensados aos portadores de patologias que possam ter sido adquiridas durante as operações. A hierarquização dos níveis do apoio de saúde, como visto no capítulo anterior, mostra que a Unidade de saúde nível 2 é a mais adequada para suprir a demanda de cuidados médicos na missão de paz do Sudão. Como o apoio médico inicia-se com o planejamento, é necessária uma criteriosa análise epidemiológica da região, inicialmente. O protocolo da ONU para o apoio médico às missões de paz caracteriza a unidade nível 2 da seguinte forma: unidade apta a realizar atividades de triagem, tratamento de afecções médicas comuns, realizar cirurgias emergenciais e de salvamento de membros, suporte avançado de vida, tratamento intensivo, atendimento odontológico básico, exames laboratoriais e radiológicos básicos, medicina preventiva e evacuação para o próximo nível de cuidados médicos. Outra característica importante é a capacidade de manter suprimentos médicos por até 60 dias e, se necessário, repor as unidades médicas de nível um da área. A unidade deve ser equipada para procedimentos de reanimação, para procedimentos cirúrgicos, cuidados intensivos, atendimentos ambulatoriais, equipamentos para raios-x, equipamentos para atendimentos odontológicos, além de equipamentos de apoio como autoclave e refrigerador. A unidade de saúde deve apresentar salas de atendimento, até 2 enfermarias e até 2 leitos de UTI, 1 sala de cirurgia, farmácia, sala de esterilização. Deve haver áreas de apoio como cozinha, banheiros, lavanderia, almoxarifado, área de manutenção, comunicações, gerador, depósito de lixo e acomodações. Os recursos humanos alocados para atender nesta unidade devem ser em número de 35, assim definidos: 1 cirurgião e 1 ortopedista, 1 anestesista, 1 internista, 1 clínico geral, 1 dentista, 1 oficial de higiene, 1 farmacêutico, 1 enfermeiro chefe, 2 enfermeiros de terapia intensiva, 1 assistente de ortopedia, 10 enfermeiros/paramédicos, 1 técnico de raio-x, 1 técnico de laboratório, 1 assistente de dentista, 2 motoristas e 8 supervisores. 28 4 DISCUSSÃO E CONCLUSÃO Os organismos internacionais de ajuda humanitária desempenham um papel de suma importância no apoio às nações carentes de recursos. Principalmente nos 29 países do continente africano, como é o caso do Sudão. Neste e em tantos outros, a sobrevivência da população depende em grande parte da ação destas organizações mundiais. O apoio de saúde nestas operações é fundamental, fornecendo os cuidados médicos aos integrantes destas missões. Este trabalho avaliou a perspectiva do envio de uma unidade de saúde nível 2 da ONU para a Missão das Nações Unidas no Sudão (UNMIS, sigla em inglês). Inicialmente, foram descritos os conceitos e métodos, que são o tema, o problema, a justificativa, o objetivo e a metodologia. Posteriormente, houve uma descrição sobre a história do Sudão e, também, sobre os aspectos geopolíticos e sociais do país. A seguir, o trabalho procurou relatar sucintamente as características da ONU e das missões de paz, inclusive sobre as peculiaridades da UNMIS. A hierarquização em níveis de apoio médico, preconizada pela ONU, foi o próximo tópico abordado. A referida pesquisa abordou, também, o envio de uma unidade de saúde nível 2 da ONU para a missão de paz no Sudão. As adaptações necessárias àquela localidade serão elencadas a seguir. Inicialmente, com relação à equipe médica que compõe a unidade. O melhor aproveitamento do trabalho ocorreria com uma equipe multidisciplinar. Sabe-se que o nível 2 de atenção à saúde da ONU não apresenta tratamento clínico especializado, como dermatologia, medicina tropical ou psiquiatria. Mas como as doenças infecto-parasitárias são freqüentes no continente africano e particularmente no Sudão existem doenças infecciosas pouco comuns em outras partes do mundo, seria importante que houvesse um infectologista compondo a equipe, no Sudão. Outra sugestão seria a presença de um psicólogo, devido às enormes dificuldades emocionais por que passam os militares que integram a missão, tais como estresse e ansiedade. Neste segundo nível de apoio médico, o laboratório realiza exames básicos, tais como hemograma simples, bioquímica e análise de urina. Como o Sudão apresenta um número elevado de casos de meningite, poderia incluir nestes exames laboratoriais a análise do líquor. 30 Como a unidade deve ser capaz de atender casos emergenciais, tratamento de choque, cirurgias, seria necessário dispor de um banco de sangue e hemoderivados, aproveitando para se estimular a doação de sangue pelo pessoal envolvido na missão. A ONU poderia disponibilizar para esta unidade de segundo nível vacina liofilizada para tratamento de acidentes com animais peçonhentos. Isto porque uma grande parte do país é composta por desertos, habitat de serpentes e escorpiões venenosos. A vacina liofilizada é de fácil transporte e acondicionamento, podendo ser utilizada, inclusive, pelas equipes médicas avançadas. Atividades de prevenção são necessárias em todos os tipos de atenção à saúde. Os médicos, enfermeiros e demais profissionais da saúde deveriam realizar palestras e esclarecimentos aos militares da UNMIS sobre as doenças sexualmente transmissíveis, especialmente a AIDS, endêmicas na África. Explicar sobre as doenças transmitidas por vetores e orientar sobre o uso de repelentes. Acompanhar o preparo dos alimentos pelos cozinheiros, sempre estimulando a lavagem das mãos. A água para ingestão da equipe deveria ser provida pela ONU. É necessário haver uma equipe de controle de infecção no ambiente de internação. A ONU não preconiza que a unidade nível 2 atenda a população civil do local da missão. Mas como o Sudão é um país carente de recursos médicos, seja com relação ao material ou pessoal, a proposta é de que a unidade realize ações preventivas com as comunidades locais, como as ações cívico-sociais do Exército Brasileiro. Adaptações nas instalações da unidade seriam: aclimatação (ar condicionado), principalmente nas áreas desérticas, uso de mosquiteiros nos leitos de enfermaria e em todas as acomodações da equipe e uma sala de atendimento médico deveria dispor de mesa ginecológica para atendimento das mulheres que integram a missão. 31 Tabela 2 – Adaptações para a unidade nível II no Sudão ADAPTAÇÕES NECESSÁRIAS À UNIDADE NÍVEL II NO SUDÃO Exame laboratorial Infectologista Atividades de Água para consumo de análise liquórica compondo a equipe prevenção próprio deve ser médica principalmente de provida pela ONU DSTs e doenças transmitidas por vetores Dispor de banco de Psicólogo compondo Orientar medidas Vacina liofilizada sangue e a equipe sanitárias no preparo para acidentes com hemoderivados multidisciplinar de alimentos animais peçonhentos Aclimatação da Atendimento médico Ações cívico-sociais Dispor de unidade (ar dispondo de mesa com as comunidades mosquiteiros na condicionado) ginecológica locais enfermaria e nas acomodações Este levantamento de dados mostra que, além de ser relevante o apoio médico de nível 2 na UNMIS, devido às peculiaridades locais já citadas previamente, esta unidade deve ser equipada e preparada com recursos humanos e materiais para suprir as demandas da missão que auxilia. 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