UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI ADRIANA APARECIDA FERNANDES DE OLIVEIRA O QUE É AUDIODESCRIÇÃO: Incluindo os Deficientes Visuais no Universo/Mercado do Audiovisual SÃO PAULO 2011 ADRIANA APARECIDA FERNANDES DE OLIVEIRA O QUE É AUDIODESCRIÇÃO: Incluindo os Deficientes Visuais no Universo/Mercado do Audiovisual Dissertação de Mestrado apresentado à Banca Examinadora, como exigência parcial a obtenção do título de Mestre do Programa de Mestrado em Comunicação, área de concentração em Comunicação Contemporânea da Universidade Anhembi Morumbi, sob a orientação do Prof. Dr. André Piero Gatti. Aprovado em -----/-----/----________________________________ ________________________________ ________________________________ ADRIANA APARECIDA FERNANDES DE OLIVEIRA O QUE É AUDIODESCRIÇÃO: Incluindo os Deficientes Visuais no Universo/Mercado do Audiovisual Dissertação de Mestrado apresentado à Banca Examinadora, como exigência parcial a obtenção do título de Mestre do Programa de Mestrado em Comunicação, área de concentração em Comunicação Contemporânea da Universidade Anhembi Morumbi, sob a orientação do Prof. Dr. André Piero Gatti. SÃO PAULO 2011 AGRADECIMENTOS Chegar aqui depois de dois anos de pesquisa, é o mesmo que comparar este processo ao final de uma batalha. Uma das coisas que aprendi no mestrado, é que, quanto mais se pesquisa, quanto mais teóricos se descobrem, quanto mais se pensa que encontrou, mais ainda precisa pesquisar. Lembro na entrevista do processo de seleção, um dos entrevistadores me questionou: Por que eu queria entrar para o mestrado? E minha resposta foi que eu também tinha a intenção de dar aulas. E a sua resposta foi: “o mestrado não é para formar professores e sim pesquisadores”. Depois da resposta, em vez de ficar quieta, respondi o que me veio à mente ao entrevistador, se o mestrado não pode formar professores/multiplicadores, o que ele estaria fazendo ali como docente. Após esta resposta, eu tinha certeza que o meu ingresso para o programa ficaria para o próximo semestre. Para minha surpresa, fui aceita. Embora tenha relutado muito em cursar uma disciplina desse entrevistador, assumo que tanto esforço valeu a pena. Fiz uma disciplina com ele e hoje só posso deixar registrado que foi a melhor disciplina que cursei, foi o professor que mais estimulou o pensar, e o pesquisar, suas aulas tinham começo, meio e fim. Sei que isso deveria ser mais que óbvio, mas quem já teve aula com ele sabe do que estou me referindo. Aproveito aqui para agradecer ao Prof. Gelson Santana. Faço a comparação dele com aqueles professores da época do ginásio, que em nossas cabeças, são quase terroristas, porém, com o passar dos anos são os professores aos quais daremos as melhores referências. A melhor parte deste processo é pesquisar uma coisa que você acredita, a qual vai se orgulhar por alguns períodos, e se frustrar por outros. É achar que de nada vale tanto esforço, e no final perceber que todo esse apanhado de sensações, teve um final que para você, somente você, tem um imenso significado. Achei que seria indelicado não agradecer as pessoas que direta ou indiretamente me ajudaram nestes dois anos. Até porque, os neurônios neste período ficaram defasados, e com certeza eu vou esquecer o nome de alguém. Agradeço imensamente a todos os meus amigos, que vibraram comigo desde o momento que eu fiz a menção de me inscrever no Programa de mestrado, como também vibraram ao escrever o pré-projeto, desde aqueles para quem tudo era motivo de comemoração, sempre com o objetivo de incentivar para que eu continuasse. Sei que de certa forma, estava projetando um pouquinho de cada um ali comigo, e realmente cada um esteve por todo esse tempo comigo, parindo cada coisinha que pudesse agregar ao trabalho de pesquisa. Hoje sei que tudo isso valeu a pena, cada momento sacrificado, cada dor nas pernas, nas costas, por não encontrar mais posição para continuar escrevendo. Cada repetição da mesma história para as pessoas mais próximas, cada noite sem dormir buscando a perfeição e se dando conta que ela está cada vez mais longe ou na verdade o que seria realmente tudo perfeito? Agradeço a coordenação do Mestrado de Comunicação, especificamente ao Prof. Rogério Ferraraz, por sua ajuda nos últimos meses e incentivo para não desistir da pesquisa. Agradeço ao meu orientador Prof. André Piero Gatti, por me ajudar a administrar os períodos de crise, que tudo estava horrível, que por mais de uma vez você não sabe o que está fazendo no meio daquele povo que vive para escrever e pesquisar, e que acredita que você pode ser um deles, todos acreditam, menos você. Agradeço à Beth Vargas, se não fosse por ela eu não teria chegado aqui, e que por mais uma vez acreditou em mim. À Profa. Maria Ignês, que em um momento de frustração me mostrou que não deveria desistir, e por todas e tantas vezes que a encontrei disponibilizou sua ajuda, para dar andamento à pesquisa. À Gabriela Salles, que desde a minha inscrição esteve ali do meu lado incentivando, porque ela também passou por este processo. Ao Osvaldo Mariani Simões, meu irmão de alma que sempre torceu pelas minhas vitórias, e essa é tanto minha quanto dele. À Jurema que sempre me incentivou com suas palavras. Ao casal Maria Digna e José Ferreira, grandes amigos, apesar de não entender o porquê de tanto estudo, mesmo assim sempre me apoiaram. Ao Odair Tuono, que no período do pré-projeto me direcionou o raciocínio. Ao Prof. Giancarlo Ricciardi, por incentivar que eu ingressasse no programa. À Alessandra Marota, por ouvir os meus causos em momentos de crises e por sempre dar a orientação correta. À Célia Cristina Torres, que sempre me ofereceu ajuda, mas que nunca aceitei por ver que ela estava atolada de coisas para corrigir de outros amigos. À Lucia Helena Soares, amiga de sala muito querida que sempre tinha uma palavra de apoio. Ao Armando Ribeiro, amigo de mestrado que sempre acreditou nos nossos trabalhos. Ao Sandro Pavão, que transformava o momento trágico em uma piada. À Cintia Barbosa, pela amizade, e apoio nos momentos mais complicados. À Rosilene Araújo, pelo apoio nestes dois anos, e incentivo para que eu terminasse, e que por muitas vezes esteve mais preocupada do que eu com o término desta pesquisa, sempre oferecendo sua ajuda para qualquer coisa que pudesse fazer. Ao Prof. Nelson Furquim, por permitir minha ausência no período do trabalho para cumprir os créditos exigidos. Aos Meus Pais, que só sabem que eu estudo, mas não o pra quê e porque tanto. Ao meu irmão Emerson e minha cunhada Mariangela. Aos meus amigos de Caraguatatuba – SP, Ana Sanches, Luiz Rogério Zanuto, Diego Bonadias e Irlane Rodrigues, que neste período me apoiaram muito, e que apesar de cobrarem que eu os visitasse sempre entenderam que no momento não era possível. Aos professores/amigos que me apoiaram desde o momento que ingressei no programa, sempre oferecendo ajuda como o Prof. Sérgio Luis Ignácio de Oliveira, que, pacientemente, me ajudou direcionando o raciocínio para o foco da pesquisa. À Profa. Ilca Moya, que no momento que pensei em desistir ela com sábias palavras incentivou e me provou que o mestrado também era para mim sim. Ao Prof. Luiz Felippe, com o seu jeito serelepe sempre acreditou que eu estava fazendo um ótimo trabalho mesmo quando eu não acreditava. Agradeço a cada um dos citados acima, e afirmo este trabalho tem parte de cada um de vocês. Enfim, terminou! RESUMO Este trabalho objetiva mostrar como as pessoas com deficiência visual, sejam elas cegas ou com baixa visão, conseguem assistir a um filme em DVD ou em sala de cinema comercial. E como estas pessoas conseguem interpretar, analisar e entender uma representação fílmica, tendo a audiodescrição - AD como recurso de tecnologia assistiva, que permite tal compreensão e acesso a estes meios audiovisuais. Além de evidenciar a importância da audição e da visão, como meios de recepção. Neste trabalho, a falta da visão tem destaque, o que prioriza a percepção na construção de repertórios visuais e construção de imagens. O presente trabalho aborda acerca a AD em contexto histórico, e sua garantia por lei da implantação deste recurso no Brasil. Sendo a metodologia da AD aliada ao referencial teórico, destacando que o recurso não só facilita a compreensão do produto audiovisual e/ou cinema descrito, como possibilita maior entendimento da obra apresentada. Palavras-chave: Deficiência visual. Audiodescrição. Audiovisual. Cinema. Tecnologia assistiva. Percepção. ABSTRACT This work aims to show how people with visual impairments, even if they are blind or have low vision, can watch a movie on DVD or in a commercial movie theater. And as these people can interpret, analyze, and understand a film representation. Having audio description - AD as a resource for assistive technology, which allows such an understanding, and access to these media. In addition highlight the importance of hearing and vision, as means of reception. This work highlight the lack of vision which focuses on building the perception of visual repertoires, and image construction. The present work brings the AD in a historical context and its guarantee by the law of the implementation of this resource in Brazil. As the AD methodology goes together with the theoretical, noting that the resource not only facilitates understanding of the audiovisual product and/or described movie as enables greater understanding of the work presented. Keywords: Visual impairment. Assistive technology. Perception. Audio description. Audiovisual. Cinema. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1.................................................................................................................. 27 FIGURA 2.................................................................................................................. 28 FIGURA 3.................................................................................................................. 33 FIGURA 4.................................................................................................................. 34 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 14 1. A IMPORTÂNCIA DA VISÃO E DA AUDIÇÃO COMO MEIOS DE RECEPÇÃO 17 1.1. O Perceber .......................................................................................................................... 19 1.2. O som vinculado à imagem .............................................................................................. 24 1.3. Percepção como Forma .................................................................................................... 26 2. AUDIODESCRIÇÃO: O SURGIMENTO ....................................................................... 31 2.1. AD e seu contexto .............................................................................................................. 36 2.2. A trajetória que a legislação se dá no que se refere AD no Brasil ............................. 39 3. PRODUÇÃO DA AUDIODESCRIÇÃO .......................... Erro! Indicador não definido. 3.1. Técnica de audiodescrever ............................................................................................... 56 3.1.1. O Audiodescritor ......................................................................................................... 56 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 63 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................... 67 ANEXOS ................................................................................................................................. 70 Ele tem memória dos sons em grau surpreendente: e os rostos não nos oferecem diversidade maior do que a que ele observa nas vozes. Elas têm para ele uma infinidade de matizes delicados que nos escapam, porque não temos, ao observá-las. (DIDEROT, 1988, p. 228) INTRODUÇÃO O presente trabalho constitui-se no estudo acerca da importância da audiodescrição1 como tecnologia assistiva, e o acesso deste recurso às pessoas com deficiência visual. Embora o termo AD seja relativamente muito recente, e de pouco conhecimento nos meios de comunicação, este é um assunto que no Brasil está sendo tratado vagarosamente. O recurso existe há aproximadamente 30 anos, quando foi criado nos Estados Unidos. Outros países, como Inglaterra, Espanha e França, seguiram o mesmo período. Porém, no Brasil, somente há 11 anos este assunto começou a ser discutido, e implementado agora em 2011. O interesse por esta pesquisa se deu após assistir a um filme italiano, Vermelho como o céu, lançando em poucas salas de cinema comercial. Neste filme, dois trechos chamaram a atenção: um, foi o fato do ator principal que perdeu a visão com oito anos de idade ter admiração por cinema; e o outro quando ele explica para um amigo de internato que nasceu cego, como são as cores. Esta explicação se dá por meio de associações, como, por exemplo, para definir a cor vermelha ele faz referência que é a mesma sensação de sentir o calor do Sol no rosto no final de uma tarde. Logo após assistir a este filme, lembrei de uma reportagem sobre o Teatro 2 Vivo que atualmente é o único teatro 100% acessível do estado de São Paulo. Nesta entrevista, eles apresentavam a AD, que transformaria as imagens de um espetáculo de teatro em palavras. Desde a graduação, no ano de 2001, a deficiência3 sempre me causou interesse, principalmente para descobrir, como estas pessoas se adaptavam ao que estava a sua volta. Como lidavam com os preconceitos? Como conseguiam viver numa sociedade que não sabia lidar com a inclusão e a acessibilidade? Estas palavras, para a época, eram novas, e também sem muitas definições, mas a minha 1 Neste trabalho a palavra audiodescrição será mencionada por AD Primeiro teatro 100% inclusivo oferecendo total acessibilidade as pessoas com deficiência http://www.vivo.com.br/institutovivo/noticias_teatro_vivo_lanca_sistema.php - Acesso em dezembro de 2010. 3 Segundo a Organização Mundial de Saúde, deficiência é o substantivo atribuído a toda a perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica. Refere-se, portanto, à biologia do ser humano. Disponível em http://deficiencia.no.comunidades.net/index.php?pagina=1364432068 Acessado em dezembro de 2010. 2 14 curiosidade era bem maior, principalmente para conhecer e aprender a lidar com cada tipo de deficiência. Na graduação, por estar cursando Artes Plásticas, tive a oportunidade de atuar voluntariamente em um grupo de pesquisa com deficientes múltiplos. Foram dois anos de monitoria com este grupo, que era constituído por jovens, com deficiência física, intelectual, alguns com Síndrome de Down, com autismo, jovens com esquizofrenia. O objetivo era desenvolver atividades artísticas com estes jovens, para que eles aprimorassem a coordenação motora, e principalmente se sociabilizassem uns com os outros, independente da deficiência4. Ao longo desses dois anos, após ter vivenciado na prática, a experiência de trabalhar com pessoas deficientes, eu não tive dúvidas quanto a querer dar seguimento aos meus estudos nessa área. Diante disso, fui em busca da especialização lato sensu, como o meu contato anterior foi com a deficiência mental, hoje caracterizada como “intelectual”, optei por me especializar em educação auditiva. Diferente da graduação, não tive uma experiência tão próxima com pessoas surdas. Durante o cumprimento dos créditos, a fundamentação teórica foi muito importante, porém, percebi que era uma área que eu teria muita dificuldade para trabalhar. Dificuldade por não ter a prática e nem habilidade em Língua Brasileira de Sinais5. Dando seqüência aos estudos, e com a oportunidade de ingressar no mestrado, analisei as diversas possibilidades de pesquisa, como a deficiência visual era a única que eu ainda não tinha conhecimento teórico aprofundado, optei por ela. No início, percebi que era difícil explicar como iria trabalhar o audiovisual, foco principal do Programa, abordando o tema da cegueira. Foi então que comecei a pesquisar e ter ciência de uma área pouco explorada no Brasil. A AD, como pude constatar nestes dois anos de pesquisa, é pouco pesquisada, por ser um assunto novo. Foi necessário explorar e garimpar tudo o que se tinha no Brasil, vale reforçar que este recurso, se já está disponível há aproximadamente 30 anos nos Estados 4 Deficiência é uma limitação significativa física, sensorial ou mental e não se confunde com incapacidade. A incapacidade para alguma coisa (andar, subir escadas, ver, ouvir etc.) é uma consequência da deficiência, que deve ser vista de forma localizada, pois não implica em incapacidade para outras atividades. (FÁVERO, 2004, P. 24). 5 Conhecida como LIBRAS ou Comunicação Gestual 15 Unidos, no Brasil, apenas em 2000, o Ministério das Comunicações aprovou a Lei Federal n° 10.098, regulamentada pelo Decreto 5.296 de 2004, e sendo reforçada pela Portaria 310 de 20066. Mesmo com este reforço, a implementação do recurso ocorreu até julho deste ano, gradativamente. Com base nas dificuldades expostas acima, consegui identificar qual seria o foco da minha pesquisa: ressaltar que pessoas cegas ou com baixa visão têm condições de absorver um espetáculo cinematográfico, seja por qual recurso for, como qualquer pessoa que enxerga. E que a AD serve para ajudar a inserção destas pessoas desprovidas da capacidade de enxergar nos meios de cultura e lazer. E como estas pessoas conseguem compreender aquilo que está sendo descrito. Partindo para a busca teórica identifiquei que, na área de AD, existem poucas pesquisas acadêmicas, o que pude ter como base fundamental para este trabalho foi o livro elaborado pela pesquisadora Lívia Maria Villela de Mello Motta e Paulo Romeu Filho, lançado em 2010: “Audiodescrição – Transformando Imagens em Palavras”. Este livro trata-se de um apanhado de tudo que se escreveu no Brasil sobre AD, de todos os pesquisadores que lutam para a aplicabilidade da tecnologia nas emissoras de televisão brasileira: são artigos, levantamentos históricos, depoimentos de pessoas que utilizaram a AD e depoimentos de audiodescritores. Tudo o que refere a AD neste trabalho teve como base, além desse livro, artigos, dissertações de mestrado, teses de doutorado, e sites relacionados com o assunto deficiência. Já no que se refere à percepção, alguns teóricos que fundamentaram esta pesquisa foram Oliver Sacks, Mauricie Merleau-Ponty e Jacques Lusseyran. Durante o período da especialização, tive muito contato com as produções de Oliver Sacks, com relatos de pacientes os quais foram tratados por ele, com diversas curiosidades quanto à deficiência auditiva, dislexia, deficiência mental, entre outras. Ao longo do processo de levantamento teórico para este trabalho, este autor lançou um livro específico sobre deficiência visual, que contribuiu consideravelmente para conclusão desta pesquisa. Ressalto que as curiosidades citadas acima, até para seguir a proposta do autor na elaboração dos seus livros, seriam para esclarecer que cada 6 Cópias dos documentos disponível nos anexos. 16 pessoa, embora possa ter a mesma deficiência, responde de maneiras diferentes. Merleau-Ponty, por ser citado nas obras de Oliver Sacks, e também por ter um vasto estudo sobre a percepção, com o seu livro “Fenomenologia da Percepção”. E Jacques Lusseyran, que teve uma produção significativa, sendo boa parte dela escrevendo a sua experiência com a cegueira. A intenção do objetivo desta pesquisa, com base nesta fundamentação teórica, é conseguir ressaltar o quanto este tema é relevante, apesar da escassez de pesquisa acadêmica nesta área. Esta dissertação pretende facilitar o entendimento do objeto proposto, a AD, e para isto, ela foi organizada em três capítulos. No primeiro, foi destacada a importância dos órgãos do sentido, como a audição e a visão, como meios de recepção, e como estes meios contribuem para a construção de um repertório perceptivo, destacando a percepção como forma, e também como se deu a junção do som com a imagem, já que a pesquisa trata da AD nas representações cinematográficas. No segundo capítulo, foi priorizado o surgimento da AD, o seu contexto e a trajetória que a legislação seguiu no Brasil para a implementação do recurso pelas emissoras de televisão, além das salas de comerciais de cinema que utilizam esta tecnologia. Já no terceiro capítulo, trataremos a AD como produção e técnica, como ela é produzida, destacando a técnica de audiodescrever e as experiências bem sucedidas no país. 17 1. A IMPORTÂNCIA DA VISÃO E DA AUDIÇÃO COMO MEIOS DE RECEPÇÃO Este capítulo objetiva destacar a importância dos sentidos da audição e da visão como os meios de recepção e percepção em pessoas com deficiência visual. A deficiência visual caracteriza a cegueira e a baixa visão. Destacaremos como esta percepção pode auxiliar as pessoas com alguma limitação visual a assistir filmes, seja por DVD7 ou em salas comerciais de cinema, utilizando suas memórias visuais adquiridas ou condicionadas dependendo de como ocorreu a perda da visão, como também com que idade se deu esta perda. Para reforçar este pensamento, GALTON (1883), citado no livro de SACKS (2010), escreveu sobre a significância da visualização das imagens, e que esta visualização se dava pela reprodução ou reconstituição da imagem. [...] devo dizer que a faculdade faltante parece ser substituída tão a contento por outros modos de concepção [...] que os homens que se declaram totalmente deficientes na capacidade de ver imagens na mente podem assim, fornecer descrições verossímeis do que viram e de outros modos expressar-se como se fossem dotados de uma vívida imaginação visual. (GALTON, 1883, apud SACKS, 2010, p.196). E, para destacar a reconstituição dessas imagens dos deficientes visuais, tentaremos descrever neste capítulo como se deu a junção do som com a imagem na cinematografia. Como esta recepção se faz importante e compreensível para um deficiente visual, embora seja desprovido de visão, ou com baixa acuidade visual. Para entender este pensamento iremos dar ênfase na pesquisa com a fundamentação teórica de alguns especialistas no assunto, e as experiências utilizadas como referencial de estudo. Neste assunto, um pesquisador que se destaca é Oliver Sacks, que, em seu livro Olhar da Mente, faz uma pergunta chave: será que existe experiência típica da cegueira? Nas considerações finais do seu livro, percebe-se que cada experiência de cegueira tem a sua particularidade, mas um ponto que é principal, é que toda cegueira, conforme descrito no livro, tem como referencial a preservação da imagem por se tratarem de pessoas que perderam a visão no decorrer da vida. Sacks (2010) descreve o caso de um paciente que perdeu 7 Digital Versatile Disk 18 a visão na adolescência e que embora ele leia em Braille8, ele consegue visualizar as palavras mentalmente. Ainda vivo em um mundo visual, depois de 35 anos de cegueira. Tenho memórias e imagens mentais vívidas. Minha mulher, que eu nunca vi – penso nela visualmente. Meus filhos também. Vejo a mim mesmo visualmente – mas é como da última vez em que me vi, quando tinha treze anos, embora eu me desdobre para atualizar essa imagem. Faço muitas conferências, e minhas anotações são em braille; mas quando as repasso mentalmente, vejo-as de um modo visual – são imagens visuais, não táteis. (SACKS, 2010, p. 191). A deficiência visual ainda causa nas pessoas um sentimento de paternalismo e consequentemente a capacidade do deficiente visual é sucumbida mediante tal situação, quando na realidade o cego tem muito mais sensibilidade em perceber o que está ao redor do que as pessoas que enxergam. Lívia Motta (2004), em sua tese de doutorado, ressaltou que embora os deficientes visuais tenham a ausência da visão, eles formam os seus próprios repertórios. Os cegos podem ter dificuldade na formação de conceitos pela falta da visão como sentido dominante. É importante ressaltar a necessidade de se buscar os caminhos perceptuais para que o cego tenha contato e informações sobre o mundo ao seu redor, sendo, então capaz de elaborar conceitos. (MOTTA, 2004, p.39) Por este motivo a relevância desta pesquisa, tentaremos evidenciar que por meio da percepção auditiva, muitas vezes mais aguçadas pela ausência da visão, os deficientes visuais que possuem memória de imagens preservada conseguem, com mais facilidade, montar, discorrer, e entender a história de uma produção audiovisual, transformando imagens em palavras. Sacks (2010) exemplifica o caso de outra paciente, e faz o seguinte comentário sobre a experiência dela ao ouvir um audiolivro. Ouvir audiolivros, ela acrescentou, fazia seus olhos arderem se ela os escutasse por tempo demasiado; nessa atividade, ela sentia que estava “lendo”, pois o som das palavras faladas transformava-se em linhas impressas em um livro que ela visualizava diante de si. (SACKS, 2010, p. 192). 8 Sistema Braille inventado em 1825 por Louis Braille, que auxilia a leitura e a escrita para os cegos, que leva o nome do inventor e hoje é utilizado no mundo inteiro. 19 Aproveitamos para enfatizar a utilização da AD, que juntamente com a percepção permite as pessoas cegas terem acesso a qualquer espaço de lazer e cultura, como assistir filmes em DVD ou em salas comerciais de cinema, sem a dependência de uma segunda pessoa para narrar os acontecimentos, como ira a um espetáculo de dança, ao teatro, ao museu. 1.1. O Perceber O termo da palavra perceber pode ter várias definições, colocações e interpretações, citadas por inúmeros pesquisadores e teóricos, mas neste trabalho em específico iremos ressaltar o perceber, bem como a encontramos no dicionário de Língua Portuguesa “v.t.d. 1. Adquirir conhecimento de, pelos sentidos. V. compreender (2). 3. Notar. 4. Ouvir (1). 5.”9 Alguns teóricos têm opiniões diversas sobre a importância da percepção e como ela está vinculada a imagem. Já que o cinema é uma representação totalmente imagética, e uma experiência estética e transformadora. E o como reagimos às imagens vistas em determinados filmes “O importante neste ponto é observar que reagimos diante da imagem fílmica como diante de representação muito realista de um espaço imaginário que aparentemente estamos vendo (AUMONT, 2009, p. 21)”. No caso da AD, essa reação se dá ao que ouvimos. O cinema, além de ser considerada a Sétima Arte, age também como meio de promoção social, contribuindo muitas vezes para a formação do indivíduo, pela sua representação simbólica. A representação cinematográfica de um modo geral além de ser um meio de reprodução também representa a realidade, por seus gêneros, como ficção, documentários. Ao assistir um filme as pessoas conseguem se imaginar em algumas cenas, se emocionam, entregam os seus sentimentos ao que está sendo projetado na tela. E pensando no cinema como uma representação de cultura, não se pode deixar de considerar os diversos públicos que tem acesso aos filmes, principalmente como meio de entretenimento. Em seu livro ARAUJO (1995) faz uma comparação das imagens representadas nos filmes com algumas das 9 Dicionário da Língua Portuguesa Aurélio Buarque de Holanda Ferreira p. 526 20 nossas sensações, como medo, alegria e raiva. Isso acontece pelo fato do filme contar histórias que muitas vezes estão próximas a nossa realidade. Um filme é uma história contada em imagens, todos sabem. Podemos assistir a um filme e nos divertir, quando se trata de uma comédia. Ou ficar com medo, quando o filme é de terror. Podemos aprender certas coisas sobre determinado assunto, quando vemos um documentário. Mas sempre temos a impressão de que um filme conta uma história. No entanto, gostamos mais de alguns filmes do que de outros. (ARAUJO, 1995, p.7). Partindo do princípio que para assistir um filme e entender a sua história precisamos ver/enxergar o que está acontecendo nas cenas, e que sem o sentido da visão não temos o entendimento da história ali contada em imagens. E neste capítulo procuramos destacar a importância da audição como meio recepção, um dos sentidos importantes que auxiliado pela visão pode complementar as informações das imagens, entretanto sozinho é o único recurso para tal entendimento. A pesquisadora Rodrigues (2009) afirma que, a visão é considerada o principal meio de absorção para uma representação cinematográfica, no que se refere à imagem. No decorrer desta narrativa detalharemos como se deu a junção da imagem com a audição, e tentaremos esclarecer como isso se dá por meio de Som e Imagens, e a importância deste processo para uma pessoa com deficiência visual. Podemos pensar se toda esta experiência visual e estética, que trabalha com afetividades, e também com o lado sensorial, e cognitivo, entre outros, se faz entender por uma pessoa com ausência deste sentido, e o porquê, acreditamos que ela não pode ter as mesmas sensações de uma pessoa que enxerga e/ou vidente10. Acompanhando ainda o pensamento de Rodrigues (2009), todas as referências que temos são por meio de sensações, sendo elas experiências de vida, tanto boas quanto ruins. [...] olhar pode ou não ser somente da ordem sensorial. O trabalho de interpretação da imagem, como na interpretação do verbal, vai pressupor também a relação com a cultura, o social, o histórico, com a formação social dos sujeitos. E vai revelar de que forma a relação imagem/interpretação vem sendo administrada em várias instâncias. (RODRIGUES, 2009) Ela afirma que o hábito de assistir a um filme é tão importante quanto ler uma obra literária. Como o filme é rico em representações significativas e muitas vezes marcantes, pelo fato de que no seu contexto estão inseridas as imagens em movimento, com o som, juntamente com ruídos, trilha sonora, falas e legendas. E 10 VIDENTE – palavra utilizada por muitos teóricos para se referir a uma pessoa que enxerga. 21 seguindo este conceito afirma que cada pessoa ao assistir o filme, seja de qualquer gênero vai tirar a sua conclusão pessoal do filme. E seguindo a lógica de interpretação, é fato que a percepção de cada indivíduo como receptor de imagens ao assistir um filme é única. E o mesmo acontece com o deficiente visual. Apesar de ele ser desprovido da visão ele tem os demais sentidos ativos, como a audição. Como afirma Merleau-Ponty (1969) Constitui lugar comum dizer que possuímos cinco sentidos e que, à primeira vista, cada um deles existe como um mundo sem comunicação com os outros; que a luz ou as cores que atuam sobre o olho não atuam sobre os ouvidos nem sobre o tato. E, todavia, sabe-se há muito, que alguns cegos chegam a exprimir as cores que não vêem por meio dos sons que escutam. Um cego dizia que o vermelho deveria ser alguma coisa como um acorde de clarim. Mas, durante muito tempo, pensava-se que isso era um fenômeno excepcional, quando, na realidade, se consiste num fenômeno geral. Durante a intoxicação pela mescalina, os sons são regularmente acompanhados por manchas coloridas, cujas nuanças, formas e distância variam de acordo com o timbre, a intensidade e a altura dos sons. Até as pessoas normais falam de cores quentes, frias, berrantes ou metálicas, de sons claros, agudos, brilhantes, fanhosos, suaves, de ruídos mortiços, de perfumes penetrantes. Cézanne dizia que era possível enxergar o aveludado, a dureza, a maciez e até o odor dos objetos. Minha percepção, não é a soma dos dados visuais, táteis ou auditivos: percebo de modo indiviso, mediante meu ser total, capto uma estrutura única da coisa, uma maneira de existir, que fala, simultaneamente, a todos os meus sentidos. (MERLEAUPONTY, 1969, p.105) Portanto, pode-se concluir com a citação acima, que uma pessoa cega tanto quanto uma que enxerga criam um repertório visual com a comunicação dos sentidos. Tal referência visual pode atuar com um todo por meio da sua memória de sensações anteriores, como também adquiridas no decorrer da vida. Como acreditava Lusseyran (1983), ele perdeu a visão aos oito anos de idade, e defendeu até a sua morte, que a perda da visão, o permitiu descobrir que havia muitas maneiras de perceber e interagir com o mundo, fazendo com que os outros sentidos se desenvolvessem mais, como uma forma de compensação. Ele afirma em artigo escrito que: [...] a visão um poder próprio ou é ela nada mais que uma ferramenta? É uma ferramenta muito preciosa, e os cegos que são privados dela sofrem uma grave perda. Nisto, certamente, reside uma das maiores riquezas de nossas possibilidades de conhecimento sensorial: não há uma ferramenta que seja única e insubstituível. Cada sentido pode tomar o lugar de um outro, se for usado em sua totalidade. (LUSSEYRAN, 1983, p. 12) 22 Fato que muitos cegos ouvem muito melhor do que as pessoas que enxergam. E não só para os deficientes visuais, mas como também para as pessoas que enxergam, a percepção se dá pelas experiências por nós vivenciadas. Segundo Josso (2004, p. 209): As recordações-referências são simbólicas do que o autor compreende como elementos constitutivos de sua formação. São, ao mesmo tempo, uma dimensão concreta ou visível (percepções ou imagens sociais) e uma dimensão invisível (emoções, sentimentos, sentido ou valores). Pelas associações livres, num trabalho de interioridade, somos capazes de hierarquizar as influências recebidas, sejam de pessoas, de lugares, de acontecimentos, de obras ou de sentimentos; revemos conceitos e ampliamos experiências estéticas e éticas que nos marcaram; relembramos encontros e desencontros, nos diferentes espaços de atuação. Contando nossa história, demonstramos o valor atribuído a cada experiência vivida. (JOSSO, 2004, p. 209). É fato, que tudo a nossa volta está ligado à visão, e que grande parte das informações são visuais o que a prioriza muito mais que os outros sentidos. Motta (2004) compara a relação entre uma pessoa com baixa visão com o seu repertório visual formado e uma criança que nasceu cega. A cegueira e a baixa visão podem, também, interferir no desenvolvimento da linguagem já que a criança cega não conta com o auxílio da imagem que se junta ao auxílio auditivo para completar o entendimento. Isto porque as pessoas cegas e baixa visão possuem imagens mentais construídas a partir de um sistema perceptivo organizado de modo diferente daqueles que enxergam, ou seja, para elas a visão não constitui um sentido dominante, mas sim complementar. O conhecimento do mundo externo se dá, principalmente pelos sentidos tátil-cinestésico e auditivo. (MOTTA, 2004, p. 57) Essa característica é muito valorizada e discutida há séculos como, por exemplo, no livro A República – Platão, apesar de este livro ter sido escrito há mais de 2.000 anos, em um dos capítulos do Livro VI, em diálogo entre Sócrates e Glauco, o filósofo definiu, que a visão é um órgão central e estaria ligada ao conhecimento, pois ao ver, o seu conhecimento era muito maior do que se só ouvisse. Ainda fazendo referência ao livro de Platão, para Sócrates, o criador dos órgãos dos sentidos se dedicou com mais esmero na visão, para que todos pudessem ver e serem vistos. Ele por sua vez defendia que a audição precisaria de outros auxílios para traduzir a essência das coisas, e então chegar ao conhecimento, necessitando principalmente da voz, que também faria auxílio da 23 escrita e da linguagem, diferentemente da visão que depende dela mesma, como cita no livro, “[...] a capacidade de ver foi vinculada à ser visto por uma ligação não desprezível, muito maior daquela que liga os outros sentidos a seu objeto (PLATÃO, Livro VI, 2007, p. 236)”. Diferentemente do teórico McLuhan (1977), que dedica suas pesquisas aos processos comunicacionais, e que afirma que nos primeiros momentos da civilização a audição tinha um papel extremamente importante na sociedade. Sendo ela a transmissão do conhecimento, uma vez que a informação precisa ser ouvida, assimilada, para então ser retransmitida. A partir desta pesquisa ele conseguiu identificar o porquê à visão se tornou a principal base de conhecimento, com a citação abaixo. [...] quando as palavras são escritas tornam-se, naturalmente, parte do mundo visual, tornam-se coisas estáticas e perdem, como tal, o dinamismo que é tão característico do mundo da audição em geral, e da palavra falada em particular (McLUHAN, 1977) Esta ruptura surgiu após a criação do fonema, do alfabeto fonético, como forma de tradução visual e de um som. Ainda citando McLuhan, que em sua pesquisa identificou entre as culturas a diferença das ações entre as palavras escritas e palavras faladas, conforme citação: A palavra escrita desafia, em seqüência, o que é imediato e implícito na palavra falada. Além disso, ao falar, tendemos a reagir a cada situação, seguindo o tom e o gesto até de nosso próprio ato de falar. Já o escrever tende a ser uma espécie de ação separada e especializada, sem muita oportunidade e apelo para reação. Já, mais recentemente Murch apud de Chion (1994), profissional de edição de imagem e som, considera que foi natural a sociedade ocidental acreditar que a imagem tinha mais importância que o som, uma vez que o cinema passou trinta anos sem que fizesse sincronização com a imagem. Para Murch, o ser humano tem contato com o som muito antes do seu nascimento como ele define quase que poeticamente: Nós começamos a ouvir antes de nascer, quatro meses e meio após sermos concebidos [...], o Som é o rei soberano de nossos sentidos: a clausura e o mundo líquido da escuridão uterina fazem da Visão e do Olfato impossíveis. Do Paladar, monocromático, e do Tato uma pálida idéia geral do que está por vir. O nascimento traz consigo o repentino e simultâneo deflagramento dos outros quatro sentidos, e uma intensa competição pelo trono que o Som havia proclamado seu. O mais notável pretendente é a atirada e persistente Visão, que se auto-proclama rei, como se o trono andasse estando vago, 24 esperando por ele. Sempre discreto, o ouvido cobre com um véu de esquecimento seu reino, e se recolhe às sombras, mantendo uma vigília atenta à pretensiosa Visão. E com esta definição julgamos que a audição pode-se substituir a visão e que mesmo com a sua falta, tem como entender e tirar suas percepções das imagens não vistas. 1.2. O som vinculado a imagem A inserção do Som com a Imagem se iniciou com música. Na época do cinema silencioso, a ausência de som nos filmes fez com que os realizadores viabilizassem uma série de aparatos para distrair os espectadores. Segundo vários teóricos, ainda nesta época outro recurso bastante utilizado era música durante a apresentação do filme. As exibições dos filmes contavam com acompanhamento de música ao vivo, ora por pianistas ou orquestras. De acordo com Carrasco (2010): Por muito tempo, a música aplicada ao audiovisual foi tratada como algo menos importante do realmente é. Houve, e de certa maneira ainda há uma noção equivocada de que a música seria um complemento da peça audiovisual. Em outras palavras, de que um filme seria uma peça completa sem sua música, que a música seria um complemento adicionado ao filme. Ao longo do tempo essa noção foi se mostrando cada vez mais como um equívoco, cujas raízes históricas remontam ao período do cinema mudo, quando a música era executada ao vivo durante as projeções. O cinema teria se formado, portanto, em um contexto em que fazer um filme significava captar e editar imagens silenciosas, construindo com elas um discurso dramático/narrativo acabado, tendo na música um elemento variável de projeção para projeção. (CARRASCO, 2010) Neste período, não se tinha a preocupação de colocar ritmo as cenas com a música, e sim ela era utilizada com o objetivo de abafar o som do projetor, para que durante a apresentação o público não perdesse a concentração. Conforme cita Costa (2005), no período de 1895 a 1908 o cinema tem a preocupação em surpreender o espectador. Segundo o teórico de cinema Máximo Gorki (2008), esta inserção de um acompanhamento musical se fez necessário pelo fato de ser insuportável o silêncio no momento das projeções. Ele cita um testemunho de um espectador de uma das sessões dos irmãos Lumière. 25 É tudo estranhamente silencioso. Tudo se desenvolve sem que ouçamos o ranger das rodas, o barulho dos passos ou qualquer palavra. Nenhum som, nem uma só nota da sinfonia complexa que acompanha sempre o movimento da multidão. Sem barulho, a folhagem cinzenta é agitada pelo vento e as silhuetas das pessoas condenadas e um perpétuo silêncio. Seus movimentos são plenos de energia vital e tão rápidos que mal são percebidos, mas seus sorrisos nada têm de vibrante. Ver-se-ão seus músculos faciais se contraírem, mas não se ouve seu riso. (GORKI, 1896) Já, Adorno (1999) afirmou que ficar em uma sala escura sentado, assistindo a imagens virtuais que eram transmitidas na tela, de certa maneira era como se estivessem assistindo a fantasmas agindo em pleno silêncio ao invés de ser uma situação prazerosa seria uma tortura psicológica. E a música serviu para evitar este mal estar. A princípio não existia um repertório para o acompanhamento dos filmes geralmente a trilha sonora nada coincidia com o filme apresentado, geralmente o pianista tinha simplesmente a função de tocar. E para Burch (2008), o som representava um maior realismo da verdade. Para ele o som tinha mais presença e afirma que a imagem era uma mera estilização visual, mas contraditoriamente uma imagem quando estilizada, seja uma paisagem sem efeito de som tem a mesma realidade que uma porta se abrindo, onde não se ouve o barulho do ranger dela. E com o acompanhamento musical os realizadores argumentavam que serviu preencher os espaços vazios, suprindo acusticamente e criando uma impressão de realidade no filme. Segundo Carrasco (2010), o cinema pode não ter nascido falado, mas com certeza nasceu musical. Essa noção começou a se transformar quando, tanto os teóricos quanto os realizadores de filmes, passaram a perceber que, apesar de ser ainda executada ao vivo, a música já estava presente desde a origem do espetáculo fílmico. Mesmo antes de possuir o recurso da fala, o cinema já possuía música. Desse modo, percebemos que a música foi a primeira sonoridade presente no universo do cinema, fazendo parte de seu processo de formação e consolidação. (CARRASCO, 2010) Seguindo o pensamento dos teóricos citados acima, percebemos a importância a audição, o como o som se fez mais que necessário na história da cinematografia. 26 1.3. Percepção como Forma É fato que o mundo é totalmente sensório, tudo é visual, tátil, olfativo, os nossos sentidos transmitem ao cérebro informações que são exploradas e que contribuem para a nossa formação. E como já mencionado anteriormente os sentidos que ganham maior destaque neste meio imagético que vivemos é a visão e a audição. Posição que defendia Lusseyran (1983) que a nossa compreensão é mais fácil quando os significados assumem formas visuais, e precisamos refletir, e nos concentrar para lembrarmos-nos das situações vividas ou experienciadas. [...] refletir, concentrar-se, lembrar-se. Pensando bem, é sempre um reflexo de defesa contra a vista. Após termos recebido através dos olhos é necessário reter as imagens, explicá-las a nós mesmos sem qualquer apoio visual, em resumo, dar-lhes uma forma de existência amplamente nova: a existência interior. [...] às impressões que recebemos através dos olhos, nenhuma cognição verdadeira em minha opinião, será possível. Este simples fato deveria prevenir-nos contra uma grande ilusão: a ilusão de que as formas são onipotentes. (LUSSEYRAN, 1983) No caso, de uma pessoa cega, que perdeu a visão com certa idade, ela tem a memória a visual, diferente de uma pessoa que nasce cega. Esta ao longo da sua vida precisa ir criando esse repertório imaginário, segundo alguns pesquisadores isso acontece por associação. Ainda para Lusseyran, tudo acaba se tornando substituível e contínuo, assim é o que acontece também com a luz para os cegos. Deveria ser-lhe dito o quanto os seus sentidos guardam em reserva para ele. [...] Os sentidos continuariam a existir, porque seu papel como intermediários naturais foi estabelecido pela própria ordem da criação. Porém, eles não mais funcionariam independentemente, uns separados dos outros, como erradamente supomos que deveriam. Como acontece no filme Vermelho como o Céu11, em uma cena que o ator principal exemplifica ao seu colega de internato como são as cores, que o mesmo não a conhecia pelo fato de ter nascido cego. 11 VERMELHO COMO O CÉU – ROSSO COME IL CIELO. Itália/2006 – produção de Cristiano Bortone e Danielle Mazzocca. Este filme conta a história real do um dos maiores editores de som da Itália Mirco Mencacci, que perdeu a visão aos oito anos de idade em um acidente com uma arma de fogo. Ele é enviado para um internato de crianças cegas em internato Gênova - Itália, que na década de 70, uma criança com deficiência não poderia freqüentar uma escola regular. Neste internato administrado por religiosos, os deficientes visuais aprendiam os ofícios básicos ler e escrever em Braille e como ser um bom tecelão. No período de internato ele 27 Figura 1 – Imagem da capa original do filme Rosso come Il cielo E Mirco por ter perdido a visão aos oito anos tinha o seu repertório visual preservado na memória, e compara as cores com situações conhecidas pelo seu amigo, para que ele fizesse as associações partindo da sua condição, e assim compreender as cores por meio das sensações, como por exemplo: que o azul era o mesmo que descer uma ladeira de bicicleta, o marrom era áspero como o tronco de uma árvore, já o vermelho era a sensação de sentir o calor do Sol em seu no rosto no final de uma tarde. E assim, o seu amigo compreende as cores por meio das associações que adquiriu desde que nasceu cego e seus. Por esta cena destaca na figura abaixo que o filme foi intitulado. encontra um gravador, que abre as portas para um mundo muito maior daquele proposto pela instituição. Percebe que através dos sons ele poderia criar estórias, e que estas, não necessariamente precisam ser vistas, e sim ouvidas com a mesma emoção despertando uma curiosidade maior do que se estivesse enxergando. Mirco conseguiu quebrar todo um conceito de que o deficiente visual não consegue perceber a essência de uma narração, de uma música, de uma dança e principalmente de um filme. 28 Figura 2 – Foto da cena citada no parágrafo acima Fato curioso é que, temos por conceito achar que só podemos entender e analisar um filme, a partir do momento que o assistimos com os olhos. No momento em vemos as imagens. Para que esta comparação, entre o mundo que os olhos vêem e o mundo percebido sem olhos, ficasse perfeitamente compreensível, deveria ser conduzida pelos dois lados. [...] acredito que hoje já seja possível fazer uma relação provisória das faculdades dos cegos. Hoje, em geral, se diz que a perda da visão imediatamente faz com que os outros sentidos se desenvolvam mais, e que haja uma compreensão. Isso é verdade. É verdade que os cegos ouvem melhor do que os que vêem. Os sons lhes dão a possibilidade de perceber distâncias e até vultos. [...] Os sons vagueiam à vontade, encontrando-se de acordo com sua afinidade, e se combinam em formas. Uma pessoa cega ouve melhor, e isto é bom; pois ela ouve aquilo que não vê. Um cego possui um melhor senso de sentir, de paladar e de tato. [...] condição que leva a uma tal amplitude dos sentidos. (LUSSEYRAN, 1983) Podemos fazer uma simples comparação com outra deficiência para dar abertura quem sabe a uma nova discussão. Porque o deficiente auditivo, que nasceu surdo e é provido de visão, tem grande dificuldade de abstração? Em resposta a esta questão, acredita-se que uma criança ao nascer surda, terá um déficit de atenção, e que geralmente no campo da educação esta pessoa sempre estará em média com dois anos de atraso nos estudos, do que uma criança ouvinte 29 da mesma idade. Isso acontece, devido ao fato de que criança ao nascer surda, não consegue trabalhar a abstração em sua mente, ou melhor, desenvolver o seu imaginário. Tudo para ela é muito concreto, um exemplo, é ler um livro, as pessoas ouvintes e também às cegas, conseguem entrar no mundo que está sendo descrito no livro, imaginando cenas, personagens, paisagens, criando cenários, o surdo que não nunca ouviu não consegue fazer esta associação. Fato este que não ocorre com uma pessoa que perdeu a audição após ter aprendido a falar, esclarecendo que o deficiente auditivo só é surdo. Podemos encontrar alguns surdos que falam perfeitamente. Dependendo da idade que estas pessoas perderam a audição, o seu imaginário ficará preservado e mesmo sem ouvir ela continua estimulando o senso de abstração. Para Ramos e Zago (2007) que, e por este conjunto de sensações e referências que contribuem para formação de um repertório visual que os deficientes visuais podem contar com a ajuda de uma tecnologia assistiva12 que a passos curtos está possibilitando que estas pessoas possam assistir filmes e que está facilitando o acesso às salas de cinema, que é a AD, a qual iremos aprofundar sobre o assunto nos capítulos a seguir. O conhecimento é a soma das sensações na percepção de modo repetitivo e habitual [...] Temos clareza que os deficientes visuais podem muito contribuir relatando sobre as suas experiências cotidianas no esforço de tornarem independentes daqueles que lhes emprestam os olhos quando necessitam caminhar por curtas e longas distâncias. Seguindo o raciocínio de Ramos e Zago (2007), de que toda imagem está ligada a percepção e permanece retida em nossa consciência “A imagem é uma síntese de sensações e movimentos. A percepção observa as coisas e a imaginação não observa”. É que daremos seguimento a esta pesquisa, destacando a AD como importante recurso que visa auxiliar as pessoas com deficiência visual ao entendimento dos espaços vazios do filme, aonde há ausência de diálogos. Traduzindo as cenas que não podem ser ouvidas por pessoas desprovidas de visão, 12 O conceito apesar ainda de ser novo, é o termo para utilizar tudo o que se refere a Recursos e Serviços que possam contribuir para ampliar e proporcionar habilidades funcionais de pessoas com deficiência. Possibilitando as pessoas com deficiência, maior independência, facilitando sua mobilidade, contribuindo para maior qualidade de vida e inclusão social. Esta tecnologia destina-se a dar suporte (mecânico, elétrico, eletrônico, computadorizado, etc.) a pessoas com deficiência física, visual, auditiva, mental ou múltipla. E a audiodescrição engloba esta tecnologia assistiva. 30 cenas em que o som, como a trilha sonora torna-se o dialogo entre os atores, que o som fala por si só. 31 2. AUDIODESCRIÇÃO: O SURGIMENTO Neste capítulo destacaremos a AD como já mencionado no capítulo anterior priorizando o seu surgimento. Apesar de ser um assunto pouco conhecido, está ganhando seu espaço nos meios de comunicação no Brasil. Assunto que vem sendo discutido por muitas organizações que tratam dos direitos e interesses das pessoas com deficiência visual. A AD trata-se de um recurso de tecnologia assistiva que já beneficia muitas pessoas com deficiência visual ou baixa visão. Este recurso que surgiu em meados da década de 70 tem como finalidade proporcionar e facilitar o acesso das pessoas cegas ou com baixa visão nos cinemas, teatros, museus e espetáculos de dança. Ajudá-los a assistir um filme em DVD que dispõe deste recurso. Apesar das Leis já existentes, o deficiente visual é o mais desprovido do cumprimento das mesmas. Antes de iniciar com o tema indicado, surgem outros questionamentos: Podemos considerar que o cinema silencioso contribuiu para o surgimento da AD nas representações cinematográficas? Podemos também considerar a Mãe ou a pessoa que convive com um deficiente visual como uma descritora? Afinal o que é, e o que contempla a AD? Começaremos respondendo pelo último questionamento, com base em artigo escrito por Franco e Silva (2010): [...] audiodescrição consiste na transformação de imagens em palavras para que informações-chave transmitidas visualmente não passem despercebidas e possam também ser acessadas por pessoas cegas ou com baixa visão. O recurso, cujo objetivo é tornar os mais variados tipos de materiais audiovisuais (peças de teatro, filmes, programas de TV, espetáculos de dança, etc.) acessíveis a pessoas não-videntes. (FRANCO e SILVA, 2010, p. 19) Agora respondendo ao primeiro questionamento, buscamos uma comparação com os primórdios do cinema especificamente com o cinema japonês. Por volta de 1897, o cinema japonês se destacou pelo seu modo de exibição. No Japão, sempre havia um narrador ao lado da tela, narrando e interpretando o que estava sendo apresentado. Este era conhecido como benshi que recitavam as falas durante a apresentação dos filmes silenciosos. Os benshi tinham mais prestígio que o diretor do filme, como também tinha o poder de decisão sobre o conteúdo das narrativas. De acordo com ITAKURA (2008): 32 Uma característica que singulariza o cinema silencioso japonês anterior ao Grande Terremoto dentro da História do Cinema Mundial é seu modo de exibição. No Japão, havia sempre um narrador ao lado da tela, conhecido como benshi. O fato de os benshi recitarem as falas das personagens é bastante conhecido. Entretanto, a atividade de grupos de benshi conhecidos como kowairo benshi, cada um interpretando a voz de uma personagem importante durante as exibições, talvez não seja algo de amplo conhecimento. Era comum também a música de acompanhamento, com shamisen (instrumento de corda) e taiko (tambor), do tipo utilizado no teatro kabuki. Nesse período, as exibições de filmes estrangeiros eram acompanhadas sempre de um benshi, que atuava sozinho. Certo, que o público era diferente, mas eles acreditavam naquilo que estava sendo narrado. Como o objetivo desta pesquisa não é aprofundar o estudo na história do cinema japonês, mas fazer uma simples comparação a partir dos questionamentos no início do capítulo acreditamos que o deficiente visual também pode assistir a um filme baseado no que está sendo descrito, como acontecia com o público que assistia aos filmes silenciosos japoneses. Pesquisando do papel do audiodescritor, verificamos que o este profissional descreve o acontecimento real do filme para as pessoas com algum tipo de deficiência visual, tornando-se os olhos dessas pessoas, para que elas possam criar em suas mentes a narrativa do filme apresentado. É o que o difere dos benshi como indicado no início do capítulo que tinham o poder da narração, mas destacamos que os espectadores não deixavam de encarar como real o que estava sendo apresentado. Jorge Díaz Cintas (2005, p. 4, tradução nossa), descreve de modo simples o que é a AD “[...] transformação de imagens visuais em palavras, que então são faladas nos intervalos silenciosos de programas audiovisuais ou performances ao vivo.”13 A AD teve origem nos Estados Unidos, partindo de algumas idéias desenvolvidas em uma dissertação de mestrado por Gregory Frazier, embora esta dissertação tenha registro do ano de 1975, a AD só começou a ter conhecimento e ser utilizado na década de 80. Ainda nos Estados Unidos, um casal tornou público este recurso, Cody Pfanstiehl e Margaret Rockwell, sendo ela deficiente visual. Margaret era fundadora de um serviço que transmitia leitura via rádio o The Metropolitan Washington Ear, e Cody a ajudava voluntariamente. Ambos foram responsáveis pela primeira peça teatral audiodescrita, que foi exibida em 1981, 13 Texto original: “[...] transforming visual images into words, which are then spoken during the silent intervals of audiovisual programmes or live performances.” 33 Major Barbara, no Arena Stage Theater em Washington. Nesta época o teatro havia recebido recurso público para tornar as suas produções exibidas mais acessíveis, foi então que o casal começou a audiodescrever as produções teatrais. Este mesmo casal foram os pioneiros nas audiodescrições em fitas cassetes que seriam usadas em visitas, a museus, parques e monumentos turísticos. Como também contribuíram para que este recurso chegasse às emissoras de televisão. No final dos anos 80, a AD já fazia parte da programação de aproximadamente 50 casas de espetáculo nos EUA14. Na Inglaterra, também teve início nos anos 80, só que de uma maneira mais contida. Em apenas um teatro era utilizado este recurso. Com o grande beneficio das descrições, um dos donos do teatro Norman King, incentivou a expansão da atividade e a Companhia de Teatro Real of Windsor introduziu o serviço nos seus espetáculos, e há 20 anos o Reino Unido, precisamente a Espanha lidera as apresentações com AD em 40 casas de espetáculos. No cinema esta atividade beneficia muitas pessoas com deficiência visual. O Reino Unido também foi o primeiro a disponibilizar este recurso em salas de cinema com tradutores ao vivo. Nos Estados Unidos a AD é fácil de ser encontrada em filmes para locação. Este recurso encontra-se disponível no menu de alguns filmes em DVD, geralmente consta essa informação na capa do DVD. Figura 3 – Imagem do menu no DVD indicando o recurso de AD 14 As informações levantadas para detalhar o surgimento da AD foi obtida na seguinte página da Web: http://audiodescription.org/briefhistory.htm 34 Apesar dos Estados Unidos serem os pioneiros na técnica, a primeira transmissão com o recurso em televisão aconteceu no Japão em 1983 pela NTV, com transmissão via canal aberto e que pode ser ouvida por todos os espectadores. A Espanha fez algumas experiências, mas nos Estados Unidos firmou a produção em 1990, que conta com o patrocínio de doações e fundações e produzem de 6 a 10 horas semanais de programação com AD. Esta transmissão ocorre devido a um canal secundário de áudio, a tecla SAP15. Figura 4 – Imagem de um controle remoto com a indicação da tecla SAP As primeiras apresentações na televisão com o recurso eram pré-gravadas. E a partir de 1986 a WGBH auxiliada pela Metropolitan Washington Ear, iniciou os testes por meio recepção SAP com pessoas deficientes visuais. E com o resultado destes testes criaram o Descriptive Vídeo Services (DVS), que foi o primeiro provedor de material audiodescrito pré-gravado para uma emissora de televisão nos EUA. E somente em 1990 que o DVS foi oficialmente lançado. Após a AD ter tido sua estréia na televisão, essa tecnologia foi ampliada e começou a ser ofertada em óperas e também no cinema. Os testes para levar a AD ao cinema em escala comercial foi em 1992 quando a WGBH iniciou um projeto 15 Tecla Secondary Áudio Programe disponível nos controles remotos dos televisores fabricados a partir de meados da década de 90, este recurso permite que a pessoa com deficiência auditiva, leia o que está sendo transmitido na programação televisiva, mas nem todas as emissoras de televisão disponibilizam este recurso em suas programações. Aqui no Brasil a Rede Globo de Televisão, foi uma das primeiras emissoras a disponibilizar e popularizar este recurso. 35 chamado Motion Picture Access (MoPIX). Depois de vários testes somente em 1999 uma sala de cinema passou a contar com o recurso, e o filme exibido pelo grupo foi O Chacal. Fato que os EUA tiveram o maior destaque na aplicabilidade do recurso, porém, a AD foi ganhando o seu espaço e investimento em outros países como Inglaterra, Espanha, Alemanha, Argentina, França, Austrália, Bélgica e Canadá. Nestes outros países, muitas organizações se dedicaram para a pesquisa em AD como aconteceu nos EUA, e estas organizações com a passar do tempo nas suas programações com AD passaram a ter como consultor uma pessoa com deficiência visual durante o processo, já que a programação surgiu para atender este público. Como podemos acompanhar um pouco da história da AD desde o seu surgimento temos aproximadamente 30 anos de pesquisa, no que se refere ao Brasil, pouco se pensa, se divulga e se cria possibilidades de acesso para as pessoas com deficiência visual em salas de cinema, mesmo isso sendo previsto em Lei. A primeira vez que a AD foi utilizada em público foi em 2003, em um Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência. Em 2005, foi lançado no Brasil, o primeiro filme totalmente audiodescrito do país disponibilizado em DVD, Irmãos de Fé16. Logo depois em 2008 tivemos o filme Ensaio sobre a Cegueira17, também lançado em circuito comercial, porém, o filme O Signo da Cidade18, teve a primeira sessão da história do cinema nacional com AD para pessoas com deficiência visual e legendagem para pessoas surdas. Esta produção foi realizada por um grupo de estudantes UFMG19 que entraram em contato com os produtores pedindo autorização para realização do projeto. 16 IRMÃOS DE FÉ – Brasil/2004 – Produzido por Moacyr Góes (2004 ano de lançamento em rede comercial de cinema). 17 ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA – Japão/Brasil/Canadá/2008 – Dirigido por Fernando Meirelles – baseado no livro com o mesmo título do escritor português José Saramago. 18 O SIGNO DA CIDADE – Brasil/2007 – Dirigido por Carlos Alberto Riccelli (este filme foi lançado nas salas comerciais de cinema em janeiro de 2008). 19 Universidade Federal de Minas Gerais – estes estudantes formaram a MIDIACE – Associação Mídia Acessível 36 2.1. AD e seu contexto Este subcapítulo tem como objetivo ilustrar a importância da AD como meio de comunicação e como este recurso contribui para a inclusão das pessoas com deficiência visual aos meios de entretenimentos audiovisuais. Para seguirmos, alguns dados se fazem necessários para entendermos tal relevância do assunto. Primeiramente de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE20, no Censo realizado no ano de 2000 no Brasil, foi contabilizado que há 148 mil pessoas cegas, sendo que 16 milhões de pessoas declararam que tem algum tipo de dificuldade para enxergar. Portanto estima-se que 2 milhões de pessoas tenham algum problema de visão, sendo a sua maioria portadora de baixa visão. Dentre esta estatística, e apesar de todas as Leis e Decretos a favor das pessoas com deficiência, constata-se que grande número de deficientes visuais nunca teve a experiência de assistir um filme, uma peça de teatro, um musical ou até mesmo um programa de televisão. Partindo do pressuposto que os deficientes visuais também têm direito à cultura e lazer, e que estas pessoas com deficiência começaram a ficar evidentes pela busca do cumprimento dos seus direitos, que há 30 anos começou-se a falar em AD. Mesmo estando a 30 anos em evidência este recurso no Brasil só começou a tomar proporção a partir de 2000. E mesmo assim, precisou de 11 anos para que o Ministério das Comunicações regulamentasse a Lei. Com a utilização deste recurso as pessoas com deficiência visual, podem pensar em freqüentar cinemas, teatros, espetáculos, museus, mostras e atividades culturais, que geralmente não fazem parte do seu cotidiano, pela falta da acessibilidade. Até, porque, a primeira pergunta a ser feita, é como uma pessoa cega vai assistir a um filme sendo que ela não enxerga. Até para iniciar esta pesquisa foi questionada tal importância. Porque, priorizar as pessoas com deficiência visual em um programa totalmente voltado para o audiovisual? Respondendo a esta pergunta podemos dizer que esta tecnologia desafiadora, 20 IBGE – http://www.sinbiesp.org.br/detpresidente.asp?cod=14 Acesso em 23/08/2009. 37 permite que os deficientes entendam melhor um filme e também sejam incluídos em uma sociedade totalmente midiática, assistindo a programas de televisão, visitando exposições, fazendo com que seja ouvido aquilo que pode ser visto. A descrição de um filme permite que estas pessoas possam conhecer figurinos, entender a linguagem corporal da cena, no geral todos os tipos de linguagem utilizados nos filmes em DVD ou em salas de comerciais de cinema, como no teatro, na televisão, museus e em exposições. Pertencemos a uma cultura que a arte domina e explora todos os recursos visuais. Na qual esta cultura se prevalece na importância da comunicação como uma necessidade básica para o ser humano. Infelizmente, contamos com um pequeno número de ações que procuram possibilitar o acesso destas pessoas em atividades socioculturais. A AD sempre existiu, mas não de uma maneira formal, os pais ou responsáveis das pessoas com deficiência visual são os primeiros praticantes desta atividade. Pratica mesmo que informal com o objetivo de responder as curiosidades das pessoas com deficiência visual e também ajudá-los a criar um repertório de imagens. Sant’Anna (2010) afirma em seu artigo sobre A importância da Audiodescrição na Comunicação das Pessoas com Deficiência que: Se considerarmos a audiodescrição um recurso que, dada a evolução das tecnologias, torna-se imprescindível, é impossível imaginar a vida diária sem ela, sob pena de gerarmos, guardando as devidas proporções com os exemplos e situações [...], além do próprio prejuízo causado pela falta de compreensão do que nos cerca, provocado pela sua ausência. Se a tendência das interfaces são tornarem-se cada vez mais dependentes do sentido da visão, tão mais importante será preocupar-se com tecnologias assistivas e recursos para suprir a lacuna deixada por estas para quem não tem possibilidade de usar este sentido. Como já mencionado anteriormente a AD surgiu como atividade formal no início dos anos 80, nos Estados Unidos e Inglaterra, estando relacionada às artes visuais e ao entretenimento. Em 1981, em Washington como trabalho de Margaret e Cody Pfanstiehl, eles fundaram um grupo de audiodescritores para descrever peças de teatro para pessoas cegas. No Brasil, o primeiro filme que se tem notícia da utilização deste recurso foi Irmãos da Fé, do Padre Marcelo Rossi, em 2005. O Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – oferece sessões gratuitas para pessoas com deficiência visual e auditiva 38 em todos os filmes desde 2003. Em 2010 o filme do Nosso Lar que representa uma das obras do Chico Xavier, será lançado em DVD com o recurso de AD em seu menu, e apresentação em LIBRAS, foi realizado uma sessão especial para apresentação do filme em AD, para o público com deficiência visual, ao final da apresentação as pessoas com deficiência aplaudiram de pé, com a esperança que essa atividade seja cada vez mais freqüente nas grandes cidades. E o primeiro espetáculo a disponibilizar este recurso foi o Teatro Vivo 21 com a peça O Andaime, em março de 2007. Seguindo depois no mesmo teatro com a peça A Graça da Vida, em junho de 2007. Em São Paulo, esta é a primeira casa de espetáculos que dispõe de aparelhos de tradução simultânea para a prática da AD, que é realizada por voluntários capacitados pelo Instituto Vivo para atender este público. Infelizmente este é um recurso ainda escasso no Brasil, principalmente nas grandes metrópoles como São Paulo, mesmo tendo conhecimento do retorno positivo das pessoas com deficiência visual após uma sessão de cinema narrado, e por se abrir uma nova possibilidade de cultura e lazer para estas pessoas. Desde julho deste ano por determinação da justiça a AD foi a Lei que em as emissoras de televisão tem que ter programas de televisão. Atualmente a única emissora que está em cumprimento da lei é a TV Brasil, disponibilizando mais horas de programação do que o exigido por semana, O Ministério das Comunicações já publicou três novas portarias, adiando a obrigatoriedade, porque, segundo a Associação Brasileira de Emissoras de Radio e Televisão – Abert alega que falta mão de obra para a produção da programação com AD. Porque, até 2016 as emissoras de radio e televisão terão que investir em equipamentos digitais, e o equipamento para AD é analógico. 21 Primeiro teatro 100% inclusivo oferecendo total acessibilidade as pessoas com deficiência http://www.vivo.com.br/institutovivo/noticias_teatro_vivo_lanca_sistema.php - Acesso em dezembro de 2010. 39 2.2. A trajetória que a legislação no que se refere AD no Brasil Neste subcapítulo iremos destacar a legislação que viabiliza a AD no Brasil, e como se deu esta trajetória. Tentaremos fazer uma linha do tempo, com os seus acontecimentos e resultados. Como parâmetro para este levantamento teremos como base o artigo elaborado para o livro Audiodescrição Transformando Imagens em Palavras, por Paulo Romeu Filho, em que ele é um dos organizadores. Filho (2010) é um militante pela divulgação e esclarecimento da AD pelo Brasil, ele participou da comissão de estudos na Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT e colaborou para a NBR 15290 – Acessibilidade em Comunicação na Televisão. Em dezembro de 2000, foi sancionada a Lei 10.098 referida como Lei da Acessibilidade, a qual estabelece normas e critérios básicos que promovem acesso às pessoas com deficiência. Destacaremos neste trabalho dois artigos que são especificamente relacionado à AD, são eles o artigo 2 (inciso II, alínea D), e o artigo 17. Art. 2° Para fins desta Lei são estabelecidas as seguintes definições: ... II – barreiras: qualquer entrave ou obstáculo que limite ou impeça o acesso, a liberdade de movimento e a circulação com segurança das pessoas classificadas em: ... d) barreiras nas comunicações: qualquer entrave ou obstáculo que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens por intermédio dos meios ou sistemas de comunicação, sejam ou não de massa; ... Art. 17. O Poder Público promoverá a eliminação de barreiras na comunicação e estabelecerá mecanismos e alternativas técnicas que tornem acessíveis os sistemas de comunicação e sinalização às pessoas portadoras de deficiência sensorial e com dificuldade de comunicação, para garantir-lhes o direito acesso à informação, á 40 comunicação, ao trabalho, à educação, ao transporte, à cultura, ao esporte e ao lazer.22 Já em dezembro de 2004, após quatro anos da NBR 15290, foi publicado Decreto 5.296 que regulamentou a Lei da Acessibilidade, referente à acessibilidade na comunicação, particularmente na televisão. O artigo 52 deste mesmo decreto determinou que os aparelhos de televisão fossem adaptados para serem usados por pessoas com deficiência, e o 53 atribuiu à Anatel que regulamentasse as questões referentes a acessibilidade na programação das emissoras de TV, dentre elas: closed caption ou legenda oculta, janela para intérpretes de LIBRAS e AD23. Em fevereiro de 2005 foi assinado pelo Ministério Público o Decreto 5.371, que reformulou as competências do Ministério das Comunicações e da Anatel, quanto aos serviços de transmissão e retransmissão da programação de TV24. Somente em outubro de 2005, que o Comitê Brasileiro de Acessibilidade da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT publicou a NBR 1529025 Quando foi em dezembro de 2005, assinaram o Decreto 5.645, dando a nova redação ao Artigo 53 do Decreto 5.296, o qual atribuía ao Ministério das Comunicações toda a responsabilidade pela regulamentação das diretrizes de acessibilidade nas programações das emissoras de televisão, estabelecendo um prazo de 120 dias para publicação das diretrizes, cumprindo com as novas determinações estabelecidas pelo Decreto 5.371. Ficando assim entendida no que se trata da AD, entendendo que este recurso é a descrição e narração em voz, de cenas e imagens, os artigos do Decreto 5.296 passaram vigorar com a redação abaixo: Art. 52. Caberá ao Poder Público incentivar a oferta de aparelhos de televisão equipados com recursos tecnológicos que permitam sua utilização de modo a garantir o direito de acesso à informação às pessoas portadoras de deficiência auditiva ou visual. Parágrafo único. Incluem-se entre os recursos referidos no caput: I – circuito de decodificação de legenda oculta; 22 Lei disponível na íntegra – www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l10098.htm Lei disponível na íntegra – www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Decreto/D5296.htm 24 Lei disponível na íntegra – www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Decreto/D5371.htm 25 Texto disponível na íntegra – www.mj.gov.br/corde/arquivos/ABNT/NBR15290.pdf 23 41 II – recurso para Programa Secundário de Áudio (SAP); III – entradas para fones de ouvido com ou sem fio. Art. 53. Os procedimentos a serem observados para implementação do plano de medidas técnicas, previstos no art. 19 da Lei nº 10.098, de 2000, serão regulamentados, em norma complementar, pelo Ministério das Comunicações. § 1º O processo de regulamentação de que trata o caput deverá atender ao disposto no art. 31 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999. § 2° A regulamentação de que trata o caput deverá prever a utilização, entre outros, dos seguintes sistemas de reprodução das mensagens veiculadas para as pessoas portadoras de deficiência auditiva e visual: I – a subtitulação por meio de legenda oculta; II – a janela com intérprete de LIBRAS; III – a descrição e narração em voz de cenas e imagens. § 3º A Coordenadoria nacional para Interpretação da Pessoa Portadora de Deficiência – CORDE da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República assistirá o Ministério das Comunicações no procedimento de que trata o § 1°. No mês de junho de 2006, o Ministério das Comunicações publicou a Portaria 310, após ter ouvido e analisado a argumentação técnica, jurídica e econômica apresentadas em consulta e audiência pública. Esta portaria oficializa a Norma Complementar n° 1 que estabeleceu o cronograma para implantação dos requisitos técnicos exigidos para tornar as programações de TVs de canais abertos acessível para as pessoas com deficiência. Esta Norma Complementar n° 126 determinou a carência de dois anos para que as emissoras de televisão adequarem em sua programação a ser transmitida com os recursos previstos de acessibilidade. Para que em junho de 2008, as 26 O texto da Norma Complementar n° 1 está disponível no seguinte link http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/audiodescricao-portaria-310-do.html. 42 emissoras estariam obrigadas a apresentar duas horas diárias uma programação acessível, tendo que aumentar esta carga horária a cada ano, para que em após dez anos, as emissoras atingissem a totalidade da programação com os recursos de acessibilidade. Dois dias após a publicação da Portaria 310 pelo Ministério das Comunicações, o Presidente da República assinou o Decreto 5.820 27, que dispõe a implantação do SBTVD-T – Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre – estabelecendo as diretrizes para a transição do sistema de transmissão analógica para a transmissão digital do serviço de radiodifusão de sons e imagens e do serviço de retransmissão. Filho (2010) destaca uma importante informação sobre a Norma Complementar n° 1, como também a NBR 15290 da ABNT, que estas foram elaboradas e discutidas por todos os anos já destacados no decorrer deste capítulo, com base nos recursos de acessibilidade para o padrão de televisão analógico, sendo que até a data e o momento da publicação de tais normas, não havia uma definição para o sistema de televisão digital a ser adotado no Brasil, porém, apenas dois dias após a publicação e definição da obrigatoriedade das emissoras de televisão incluírem em sua programação os recursos de acessibilidade, postergando assim, a implementação desse direito das pessoas com deficiência. Continuando o levantamento da regulamentação da Lei no Brasil, seguimos com a trajetória. Em outubro de 2006 o Ministério das Comunicações publicou a Portaria 65228, a qual estabeleceu critérios, prazos e procedimentos para a consignação de canais de radiofreqüência destinados á transmissão digital do serviço de radiodifusão de sons e imagens e do serviço de retransmissão de televisão, no âmbito do Sistema Brasileiro de Televisão digital Terrestre – SBTVD-T. A partir dentre outras providências, esta portaria contribuiu para a criação do Fórum do Sistema Brasileiro de Televisão Digital, composto por diversos especialistas de áreas diversas, para dar assessoria ao Ministério das Comunicações no estabelecimento das diretrizes técnicas do sistema digital. No mês de dezembro de 2006, foi aprovada a Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, pela Assembléia Geral da Organização das Nações 27 Este decreto pode ser acessado na íntegra em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato20042006/2006/Decreto/D5820.htm. 28 Esta portaria está disponibilizada em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/portaria-652-doministerio-das.html. 43 Unidas. Esta convenção trata especificamente sobre a acessibilidade na televisão em seu artigo 30: Artigo 30 – Participação na vida cultural e em recreação, lazer e esporte 1. Os Estados Partes reconhecem o direito das pessoas com deficiência de participar na vida cultural, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, e deverão tomar todas as medidas apropriadas para que as pessoas com deficiência possam: 1 – Desfrutar o acesso a materiais culturais em formatos acessíveis; 2 – Desfrutar o acesso a programas de televisão, cinema, teatro e outras atividades culturais, em formatos acessíveis; Esta convenção transformou-se em um dos principais pilares para a defesa do direito à AD na televisão brasileira. Em março de 2007, o Presidente da República protocola na ONU, o depósito da assinatura da Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Com isto a ONU submete seus signatários para monitorar o cumprimento da implementação da AD no Brasil, seguindo os princípios da convenção. Já em maio de 2008, faltando um mês para o final da carência do prazo de dois anos determinada pela Norma Complementar n° 1/2006, quando se daria início das transmissões das programações com os recursos de acessibilidade previstos, a ABERT29 encaminhou um ofício para o Ministério das Comunicações solicitando a prorrogação do prazo, com alegação de que as emissoras estavam com uma série de dificuldades técnicas, além de impedimentos legais, operacionais, econômicas, para implementar os recursos de acessibilidade na programação veiculada pelas emissoras afiliadas. 29 Ofício encaminhado pela ABERT disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/oficio-abert402008.html. Como também o parecer da ABERT http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/parecerquadrante-consultores.html. 44 Em junho de 2008, no dia em que venceria o prazo dos dois anos previsto pela Portaria 310, o Ministério das Comunicações publicou a Portaria 403 30, suspendendo o recurso da AD por 30 dias, mantendo somente a obrigação para os outros recursos de acessibilidade previstos na Norma Complementar n° 1. Quando foi em julho de 2008, o Congresso Nacional tornou público o Decreto Legislativo 18631 – Convenção Sobre Direitos das Pessoas com Deficiência – sendo o primeiro tratado internacional a vigorar no Brasil com status de Emenda Constitucional. Em seguida a esta publicação a UBC - União Brasileira de Cegos32 manifestou ao Ministro das Comunicações com um oficio seu repúdio pela publicação da Portaria 403. Ainda em julho de 2008 a UBC encaminhou à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, o imediato restabelecimento das disposições constantes na Portaria 31033. Ao término do mês de julho de 2008, o Ministério das Comunicações publicou a Portaria 46634, restabelecendo a obrigatoriedade da veiculação do recurso da AD e determinando prazo de 90 dias para o início das transmissões. Em outubro de 2008, pouco antes do término do prazo de 90 dias estabelecido na Portaria 466, o Ministério das Comunicações suspendeu novamente a aplicação do recurso da AD, conforme previsto na Portaria 310, para uma nova realização de consulta pública com o prazo até 30 de janeiro de 2009, com uma nova possibilidade prorrogação, prevendo ainda a possibilidade de mais uma audiência pública, conforme Portaria 66135, estabelecida em 14 de outubro de 2008. Seguindo cronologicamente a aplicação da Lei para vigorar a implementação da AD. Em novembro de 2008 a COCAS – Comissão Civil de Acessibilidade de Salvador36 manifestou publicamente o seu total repúdio à protelação do recurso de 30 Esta portaria está disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/audiodescricao-portaria403-do.html. 31 Decreto na íntegra em http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/legin.html/visualizarTextoAtualizado?idNorma=577811. 32 Texto disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/oficio-ubc-ao-ministro-das.html. 33 Ofício disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/manisfestacao-da-uniao-brasileirade.html. 34 Texto disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/audiodescricao-portaria-466-do.html. 35 Texto da Portaria 661 disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/audiodescricaoportaria-661-do.html. 36 Texto disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2009/10/nota-publica-da-cocas-contraportaria.htmal. 45 AD. O próprio Filho (2010), também em novembro enviou um email 37 para a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, indignado com as sucessivas criações das portarias, e tais adiamentos do Ministério das Comunicações quanto tal cumprimento da Lei, para implementar o recurso de AD na programação das emissoras brasileiras de televisão, e solicitando as providências cabíveis para se valer os preceitos referentes ao assunto. No final do mês de dezembro de 2008, o Conselho Nacional dos Centros de Vida Independente e a Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down, inconformados com as sucessivas suspensões e o descumprimento da aplicação do recurso de AD pelo Ministério das Comunicações, ingressaram no Supremo Tribunal Federal com uma Ação de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF 16038 contra a União. Neste documento, alegaram o descumprimento, pelo Ministério, dos prazos estabelecidos no Decreto Federal 5.296/2004, determinando ao Ministério das Comunicações a responsabilidade pela regulamentação dos artigos referentes à acessibilidade nos meios de comunicação. Este recurso só foi possível ao Supremo Tribunal Federal devido à Convenção Sobre Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, que hoje vigora no Brasil, com status de equivalência de Emenda Constitucional. Em janeiro de 2009, a Organização Nacional de Cegos do Brasil 39, manifestaram-se publicamente em defesa do recurso da AD. Em fevereiro de 2009, o Ministério Público Federal, por intermédio da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Distrito Federal, também ingressou com Ação Civil Pública contra a União, pelos mesmos motivos alegados na ADPF 16040. No mês de maio de 2009, o Ministro das Comunicações, Hélio Costa, abriu mais uma nova consulta pública com objetivo de receber contribuições da AD, informação essa divulgada no site do Minicom41. O site do Ministério de Comunicações publicou os vários documentos recebidos na consulta pública pela Portaria 661, encerrada em janeiro 2009. Porém, 37 Email disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/paulo-romeu-denuncia-para-pfdc.html. A inicial desta ação disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2009/11/adpf-160-arguicao-dedescumprimento-de.html. 38 39 Texto publicado em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2009/10/organizacao-nacional-de-cegos-dobrasil.html. 40 Texto disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2009/11/acp-200934000047646-acao-civilpublica.html. 41 Disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/ministerio-das -comunicacoes-maio-de.html. 46 todos os documentos que foram publicados no site, em formatos inacessíveis para pessoas com deficiência visual, eles que são os maiores interessados na implementação do recurso da AD. Em junho de 2009, o CONADE – Conselho Nacional de Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência – manifestou por meio de ofício42 ao Ministro das Comunicações, o repúdio a Portaria 661, quanto a protelação e adiamento da obrigatoriedade da veiculação de programas com AD pelas emissoras brasileiras de televisão. E também criticaram a falta de acesso aos documentos publicados no site do Ministério das Comunicações. Neste mesmo mês, o CONADE encaminhou um ofício43 à Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Distrito Federal, pedindo providências para que o Ministério das Comunicações tornasse acessível às pessoas com deficiência os documentos publicados no site, os quais solicitaram contribuições para a sociedade. Ainda neste mesmo mês algumas instituições representando as pessoas com deficiência, entraram com um Mandado de Segurança44 contra a União. Neste documento, pedem o cancelamento da última consulta pública aberta pelo Ministério das Comunicações, pela falta de acessibilidade aos documentos postados no site e ainda por parte deles terem sido publicados em outros idiomas, impedindo ainda mais a participação dos principais interessados na consulta, as pessoas com deficiência visual. Em julho de 2009, como o Superior Tribunal de Justiça não se manifestou referente ao Mandado de Segurança até a data de 30 de junho, as entidades que solicitaram o adiamento, agora solicitaram a reabertura da consulta pública para que as pessoas com deficiência pudessem participar. Em agosto de 2009, o Superior Tribunal de Justiça45 ordenou ao Ministério das Comunicações, a reabertura da consulta pública, pelo prazo de 45 dias, determinando que todos os documentos divulgados no site do Minicom fossem disponibilizados de modo que permitissem sua leitura por pessoas com deficiência, como também os documentos publicados em outros idiomas fossem traduzidos para o português. 42 Ofício disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/conade-oficia-ao-ministro-das.html. Ofício disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/conade-oficia-ao-ministeriopublico.html. 44 Mandado de Segurança disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/mandado-deseguranca.html. 45 Decisão na íntegra disponível http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/decisao-liminar-do-mandadode-seguranca.html. 43 47 Somente um mês depois em setembro de 2009, o Ministério das Comunicações atendendo a limiar do ministro em exercício da época no Mandando de Segurança, reabriu a consulta pública por 45 dias, e disponibilizou todos os documentos no site em formatos acessíveis para que as pessoas com deficiência pudessem ler. Sendo assim, as pessoas com deficiência tiveram acesso aos documentos relacionados abaixo46: Ofício ABERT n° 7 de 2009; Expediente da Rádio e Televisão Bandeirantes; Memorando 19 do Instituto Benjamin Constant; Expediente da Sociedade Beneficente para Deficientes de Aparelhos Auditivos; Parecer da Quadrante – Consultores em Radiodifusão e Telecomunicações; Os itens abaixo refere-se as normas de acessibilidade nos meios de comunicação no que abrange a AD. Indicaremos os sites para consulta47. Audiodescrição nos Estados Unidos; Audiodescrição na Inglaterra, Espanha e Itália; Audiodescrição na Alemanha, Irlanda e Canadá; Após terem acesso a esses documentos publicados pelo Ministério das Comunicações, as pessoas com deficiência puderam enviar suas contribuições, destas contribuições encontram-se disponível do próprio Filho (2010)48 e da Profa. Dra. Lívia Motta49, também envolvida na luta pela AD no Brasil. 46 Os documentos originais estão disponíveis em ANEXO. http://www.mc.gov.br/wp-content/uploads/o-ministerio/documentacao-sobre-acessibilidade-consultapublica/06.doc ; http://www.mc.gov.br/wp-content/uploads/o-ministerio/documentacao-sobre-acessibilidadeconsulta-publica/07.doc ; http://www.mc.gov.br/wp-content/uploads/o-ministerio/documentacao-sobreacessibilidade-consulta-publica/08.doc ; 47 48 Contribuição disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/paulo-romeu-disse-para-oministerio-das.html. 49 Contribuição disponível em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/livia-motta-diz-para-o-ministeriodas.html. 48 Em novembro de 2009, o Ministério das Comunicações publicou a Portaria 50 985 . Esta Portaria abriu mais uma consulta pública na qual apresentou uma minuta de alteração da Norma Complementar n° 1/2006, propondo as modificações abaixo: 1. Torna o recurso da audiodescrição exigível apenas na programação veiculada pelas emissoras no sistema de televisão digital; 2. Altera o cronograma de implementação da audiodescrição originalmente proposto para iniciar em 2 horas por dia chegando a 100% da programação após 10 anos, para 2 horas por semana a partir de julho de 2011 chegando, no máximo, a 24 horas por semana após 10 anos; 3. Desobriga as retransmissoras afiliadas a emissoras cabeça-de-rede de tornar acessíveis a programação própria; Finalmente depois de todos os decretos, de todas as portarias, de todos os ofícios para implementação da AD nas programações das emissoras de televisão, em 01 de julho de 2011, atendendo a portaria do Ministério das Comunicações que as emissoras de TV com sinal de digital devem exibir ao menos duas horas semanais de programas com o recurso de AD. Apesar de terem que cumprir a determinação da Lei, até o momento somente uma emissora de televisão a TV Brasil foi o primeiro canal do país a colocar no ar um programa com AD, isso aconteceu em 2007. E agora passará exibir filmes nacionais para iniciar efetivamente a AD, o recurso é disponibilizado por meio da função SAP no controle remoto. Com toda esta trajetória descrita neste trabalho, percebemos que após quase 30 anos da disponibilidade do recurso em outros países, o Brasil, precisou de pelo menos 10 anos para tornar acessível um recurso que poderá atender não só pessoas com deficiência visual, mas também idosos, disléxicos, e todos os outros que tenham alguma dificuldade de compreensão de audiovisuais e leitura de textos contidos em imagens. 50 Portaria na íntegra em http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2010/02/audiodescricao-portaria-985-do.html. 49 Abaixo segue a relação das emissoras de televisão que estão cumprindo com a Lei desde julho, com o horário e o programa. TV Programação da TV com audiodescrição Dia “Nome do programa” / Canal / horário Domingo “Temperatura Máxima” / TV Globo / 13h Segunda-feira “Tela Quente” / TV Globo / 22h Terça-feira Quarta-feira “Comédia MTV” / MTV / 0h30 Quinta-feira Sexta-feira “Chaves” / SBT / 18h Sábado “Chaves” / SBT / 6h “Comédia MTV” / MTV / 22h15 Obs: Vale lembrar que, a audiodescrição deve estar disponível para quem assiste a programação pela televisão digital, ou seja, utilizando um conversor digital acoplado (ou que já está inserido) ao aparelho de televisão. Lista de programas e comerciais de TV com AD Colaboração de Lívia Motta, Maurício Santana, Leonardo Rossi Programas de Televisão com audiodescrição “Nome do programa” / Responsável pela audiodescrição / Emissora de TV / período de exibição 50 Programas de Televisão com audiodescrição “Nome do programa” / Responsável pela audiodescrição / Emissora de TV / período de exibição 1. “Vida em Movimento” / Lívia Motta / TV Cultura / novembro de 2008 a janeiro de 2009, com reexibição em dezembro de 2009 2. “Programa Assim Vivemos” / Lavoro Produções / TV Brasil / março a setembro de 2009 3. “Programa Especial” / Virgínia Menezes e Ana Fátima Berquó / TV Brasil / março de 2009 até o presente momento 4. "Chaves" (às sextas-feiras e aos sábados) / - / SBT / julho de 2011 até o presente momento 5. "Tela Quente" / - / TV Globo / julho de 2011 até o presente momento 6. "Temperatura Máxima" / - / TV Globo / julho de 2011 até o presente momento 7. "Comédia MTV" / Iguale / MTV / julho de 2011 até o presente momento Filmes (sessões Temperatura Máxima e Tela Quente da TV Globo) 1. Por água a baixo (3/07/2011) 2. Quarteto fantástico e o surfista prateado (4/07/2011) 3. Ela e os caras (10/07/2011) 4. Indiana Jones e o reino da caveira de cristal (10/07/2011) 5. O terno de 2 bilhões de dólares (17/07/2011) 6. Motoqueiro fantasma (18/07/2011) 7. Carros (24/07/2011) 8. Shrek terceiro (25/07/2011) 51 9. Vovó ...zona 2 (31/07/2011) 10. Zohan – O agente bom de corte (01/08/2011) 11. A casa mostro (07/08/2011) 12. Treinando o papai (08/08/2011) 13. Quarteto fantástico (14/08/2011) 14. Virgem em apuros (15/08/2011) 15. Se eu fosse você (21/08/2011) 16. Busca Implacável (22/08/2011) 17. Shrek 2 (28/08/2011) 18. Piratas do Caribe – no fim do mundo (29/08/2011) 19. Todo poderoso (04/09/2011) 20. Maldita sorte (05/09/2011) 21. Space Chimps – Micos no espaço (11/09/2011) 22. Como viajar com o mala do seu pai (12/09/2011) 23. As loucuras de Dick e Jane (18/09/2011) 24. Tekken (19/09/2011) 25. Toy Story – Um mundo de aventuras (25/09/2011) 26. Controle absoluto (26/09/2011) 27. Bater ou Correr em Londres(02/10/2011) 28. A casa das coelhinhas (03/10/2011) 29. A Bela e a Fera (09/10/2011) 30. Kung Fu Panda (10/10/2011) Programas 1. Comédia MTV – Programa 17 (06 e 09/07/2011) 2. Comédia MTV – Programa 18 (13 e 16/07/2011) 52 3. Comédia MTV – Programa 19 (20 e 23/07/2011) 4. Comédia MTV – Programa 20 (27 e 30/07/2011) 5. Comédia MTV – Programa 21 (03 e 06/08/2011) 6. Comédia MTV – Programa 22 (10 e 13/08/2011) 7. Comédia MTV – Programa 23 (17 e 20/08/2011) 8. Comédia MTV – Programa 24 (24 e 27/08/2011) 9. Comédia MTV – Programa 25 (31/08/2011 e 03/09/2011) 10. Comédia MTV – Programa 26 (7 e 10/09/2011) 11. Comédia MTV – Programa 27 (14 e 17/09/2011) 12. Comédia MTV – Programa 28 (21 e 24/09/2011) 13. Comédia MTV – Programa 29 (28/09/2011 e 01/10/2011) 14. Comédia MTV – Programa 30 (5 e 08/10/2011) 15. Comédia MTV – Programa 31 (12 e 15/10/2011) 16. Chaves* (01 e 02/07/2011) 17. Chaves (08 e 09/07/2011) 18. Chaves (15 e 16/07/2011) 19. Chaves (22 e 23/07/2011) 20. Chaves (29 e 30/07/2011) 21. Chaves (05 e 06/08/2011) 22. Chaves (12 e 13/08/2011) 23. Chaves (19 e 20/08/2011) 24. Chaves (26 e 27/08/2011) 25. Chaves (02 e 03/09/2011) 26. Chaves (09 e 10/09/2011) 27. Chaves (16 e 17/09/2011) 28. Chaves (23 e 24/09/2011) 53 29. Chaves (30/09/2011 e 01/10/2011) 30. Chaves (7 e 8/10/2011) 31. Chaves (14 e 15/10/2011) *o SBT não identifica em seu site os episódios exibidos * Leia o post “Audiodescrição para exportação” e descubra o desenho animado audiodescrito por brasileiros, que foi exibido no Canadá. Comerciais publicitários com audiodescrição “Nome da peça publicitária” / Responsável pela audiodescrição / Empresa ou instituição promotora do comercial 1. “Natura Naturé – A grande história da água” / Iguale / Natura 2. “Natura mamãe e bebê” / Iguale / Natura 3. “Natura kayak – O que move você? / Iguale / Natura 4. “Natura banho de gato” / Iguale / Natura 5. “Iguais na diferença – Pela inclusão das pessoas com deficiência” / - / Secretaria Especial dos Direitos Humanos 54 3. PRODUÇÃO DA AUDIODESCRIÇÃO Este capítulo será abordado AD como produção, as técnicas utilizadas e as diversas maneiras como é produzida. Para produzir uma série, filmes, novelas, documentários, programas de televisão, ou DVD, diversas técnicas com diferentes ferramentas podem ser utilizadas. Seja em qualquer produto de audiovisual, a AD é inserida em um segundo canal de áudio. Nos atuais aparelhos de televisão podemos encontrar disponível nos controles remotos a tecla SAP. As emissoras que já estão cumprindo a determinação do Ministério das Comunicações desde julho deste ano, utilizam-se desta banda extra de áudio para disponibilizar a AD na programação diária. Atualmente encontramos a AD em três versões que iremos detalhar no decorrer do capítulo. São elas: AD Gravada; AD ao Vivo Ensaiada/Roteirizada; AD Simultânea; AD Gravada é destacada por algumas etapas importantes, pelo estudo e a roteirização, pelos ensaios e os ajustes; pela gravação e para finalizar a sincronização. Estudo e Roteirização – É necessário que o audiodescritor estude antecipadamente a obra a ser descrita, a partir deste estudo ele deverá produzir textos para narração a ser gravada. A produção desse roteiro deve ser elaborada minuciosamente, seguindo os padrões internacionais dos países que tem a AD é regulamentada. Como a descrição acontece nos espaços vazios do filme, espaços que não há narrativa dos atores, para que a narração esteja sincronizada com os espaços vazios, os audiodescritores recebem uma cópia do material a ser descrito com o Time Code51 visível. Se para o mesmo trabalho tiver mais que um audiodescritor, geralmente existe uma terceira pessoa que deverá uniformizar o vocabulário para produção do roteiro; Ensaios e Ajustes – Após toda a obra estar roteirizada o audiodescritor deve ensaiar as narrações e ajustar as falas com o tempo demarcado e 51 Time Code – referência de tempo que sincroniza áudio e vídeo 55 se for necessário fazer alguma substituição de palavras para melhor entendimento do ouvinte; Gravação – Após roteiro aprovado, ensaios e ajustes realizados o audiodescritor entra em estúdio com o técnico de gravação e o diretor para gravar as descrições do roteiro elaborado; Sincronização – Este processo ocorre de diferentes maneiras para sala comercial de cinema, como para DVD. Para cinema o arquivo com as descrições é transmitido para fones de ouvido, para que então as informações contemplem o som original do filme; AD ao Vivo Ensaiada, esta é a mais utilizada nos Festivais de Cinema, por ser feita ao vivo, também utilizadas em peças de teatro, espetáculos de dança, exposições de arte, e outras manifestações artísticas. Este processo é muito semelhante ao da AD gravada, porém o audiodescritor executa a narração ao vivo. A execução acontece ao mesmo tempo em que a obra está sendo exibida o equipamento utilizado para transmissão é o mesmo da tradução simultânea, os audiodescirtores ficam em cabines fazendo a narração por microfones, e o som chega aos deficientes visuais por fones de ouvido. O espetáculo acontece normalmente, sem interferir no restante do público. A pessoa com deficiência não perde nada do som original da sala, e ouve a descrição da obra pelo fone de ouvido. AD Simultânea – Para este trabalho a execução acontece em tempo real, ao que está sendo apresentado, sem nenhum roteiro previamente elaborado, e sem nenhuma possibilidade de ensaio. Este tipo de AD está sujeita há algumas falhas, porque, pode ocorrer da descrição sobrepor a fala dos personagens uma vez que não ouve um estudo da obra anteriormente. Mauricio Santana (2010) indica em seu artigo A Primeira Audiodescrição na Propaganda da TV Brasileira: Natura Naturé Um Banho de Acessibilidade, que: “O que podemos sugerir para que a tradução nesse caso aconteça de maneira mais acertada, é levantar um pequeno ‘briefing’, ou seja, algumas informações sobre o tema, as pessoas envolvidas e o evento em questão”. Reforçando a metodologia descrita acima Graciela Pozzobon (2009) diz, “Para que o resultado seja satisfatório, o profissional que faz a audiodescrição simultânea deverá ter como base um treinamento específico”. 56 3.1. Técnica de audiodescrever A técnica de audiodescrever, como mencionado no capítulo dois referente ao surgimento da AD no Brasil e toda a sua trajetória para regulamentação e aplicação deste recurso pelas emissoras de televisão, identificamos que não existe um manual específico com técnicas para audiodescrever. Como estamos usando como referência para esta pesquisa uma tecnologia existente há aproximadamente 30 anos, procuramos nos pautar em todos os grupos que pesquisam a técnica no Brasil, e como estes grupos se utilizam da técnica para produção e inserção do recurso nos produtos audiovisuais. Identificamos que no Brasil, a formação destes audiodescritores está crescendo, tanto informalmente como formalmente. Informalmente destacam-se cursos ministrados pela iniciativa privada, e formalmente pela formação universitária com certificação no nível de especialização ou como curso de extensão. Na cidade de São Paulo, estava previsto para o segundo semestre de 2011 a criação de um curso de pós-graduação lato sensu pela Universidade de São Paulo - USP, em parceria com Fundação Dorina Nowill para estudar as possibilidades da AD, mas até o momento a USP só conseguiu disponibilizar o curso de AD na modalidade de curso de extensão universitária, como uma carga horária de 18 horas. Este curso acontece no mês de outubro, e por ser um curso de extensão, será aberto para alunos da própria instituição como também para o público externo. 3.1.1. O Audiodescritor Para ser um audiodescritor é necessário um curso de formação específica geralmente estes cursos visam contemplar principalmente as informações sobre a deficiência visual. A observação é o maior requisito, pois o audiodescritor será os olhos do deficiente visual. Ele precisa estar familiarizado com o tema, como as falas, vocabulários, cenários e figurinos. Para isso, é necessária a elaboração de um script a produção de um roteiro, no caso de AD gravada. O audiodescritor não pode de 57 maneira alguma expressar alguma opinião sobre a cena narrada, por isso, a importância de um trabalho dedicado, minucioso, e com preparo. Como no Brasil a prática e formação de profissionais para AD é escassa a RBTV traduziu um manual com as Diretrizes para Áudio-descrição e Código de Conduta Profissional para áudio-descritores Baseados no Treinamento e Capacitação de Áudio-descritores e Formadores dos Estados Unidos 2007-200852 traduzido por Paulo André de Melo Vieira, neste manual está descrita as principais regras e cuidados que um audiodescritor deve ter ao descrever um filme ou um espetáculo. E no Brasil, por não ter um manual que atenda esta necessidade, alguns profissionais tomam como base estas diretrizes. Respeitando a nota de direito autoral indicada nestas diretrizes, toda informação a ser descrita seguirá a exigência abaixo: 2007-2009, Audio Description Coalition. As Diretrizes para ÁudioDescrição e Código de Conduta Profissional para Áudio-Descritores devem ser reproduzidos integralmente e sem modificação, interpretação, abreviação ou qualquer outra alteração. [...] NOTA DE DIREITO AUTORAL E CONCESSÃO LIMITADA, NÃO EXCLUSIVA devem estar claras e legíveis em cada cópia. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 2007-2009) Destacaremos alguns pontos principais para a conduta do profissional para áudio-descritores. Nestas diretrizes os autores definem o que é a AD e como ela é transmitida para as pessoas com deficiência visual, conforme citação abaixo: A áudio-descrição ajuda a assegurar que as pessoas que são cegas ou têm baixa visão usufruam de igual acesso a eventos culturais, provendo a informação visual essencial. [...] As descrições são transmitidas através de um fone de ouvido sem fio, a fim de permitir que as pessoas com deficiência visual possam sentar-se em qualquer lugar no auditório. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 2007-2009, p. 5) Nos Princípios fundamentais do manual em Descreva o que você vê temos algumas regras que são destacadas para a descrição, como: “[...] o que você vê é o que você descreve. Você vê aparências físicas e ações; não vê motivações, ou intenções. Nunca descreva o que você acha que vê. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 2007-2009,)”. Por este motivo antes de se fazer uma descrição é necessário assistir o material antecipadamente, pois o audiodescritor terá que incluir na narrativa as 52 Diretrizes disponível na íntegra em www.rbtv.associadosdainclusao.com.br 58 informações visuais as quais os deficientes visuais não têm acesso. “Tais informações devem abranger, entre outros, elementos-chave da trama como: pessoas, locais, ações, objetos, fontes sonoras incomuns (as não mencionadas no diálogo, nem auditivamente identificáveis pelo espectador). (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 2007-2009)”. É indicado que o audiodescritor se concentre no que for mais significativo e no que não seja tão óbvio no diálogo. Claro tendo a certeza que descrever tudo é impossível. Descreva elementos essenciais e, então, se o tempo permitir, descreva os demais elementos tais como os detalhes decorativos dos cenários, a aparência física e maneirismos dos personagens, arquitetura, estilo de roupas, tecnologia, cor, iluminação e textura. Este tipo de descrição funciona bem durante pausas longas na ação, ou durante mudanças de cenas. A áudio-descrição nunca deve completar cada intervalo de fala disponível. Menos é mais. A áudiodescrição não é um comentário contínuo. Os espectadores devem ter a chance de ouvir as emoções, nas vozes dos atores e na tensão dos silêncios entre os personagens. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 2007-2009) No subtítulo Descreva objetivamente, é destacada a importância de se deixar as pessoas que estão ouvindo a AD formarem a sua própria opinião referente ao que se está sendo narrado. Para reforçar esta observação daremos destaque para a citação abaixo: Não editorialize, não faça inferências, não explique, não analise, nem tente “ajudar” de, algum modo os ouvintes. No entanto, estas regras não impedem de usar as notas que antecedem a apresentação para explicar algo que a audiência vidente facilmente percebe, mas que seria difícil para os ouvintes da áudio-descrição imaginar, sem informações adicionais. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 20072009) Um destaque necessário em Permita aos usuários ouvirem o diálogo. Como por exemplo: Eles querem ouvir a apresentação primeiro, e a descrição depois. O diálogo está contando a história e tem de ser ouvido. [...] Quando duas pessoas estiveram falando ao mesmo tempo, tais como um ator e um áudio-descritor, os ouvintes não conseguem entender nem um nem outro. Se você tiver que descrever sobre o diálogo, fale audivelmente e com veemência. Os ouvintes, contudo, conseguem ouvir as palavras cantadas numa música e as palavras faladas pelo áudio-descritor. Na maioria dos casos, o áudio-descritor pode falar em cima da música de fundo ou da música principal, ou de um refrão repetido. Porém, não deve descrever durante trechos importantes, o verso de uma música, ou seu primeiro refrão. Use cautela ao falar 59 em cima da música tocada no rádio, pois escutar o seu conteúdo ou reconhecer a música pode ser importante para criar o clima, lembrar de uma época, fazer uma afirmação emocional, etc. [...] Não descreva com parágrafos ou sentenças elaboradas. Use frases curtas em lugar de sentenças completas. Tente falar pelo menos duas ou três palavras de modo que os ouvintes possam ter a oportunidade de mudar o foco para a voz. A menos que absolutamente necessário, tente não interromper com apenas uma palavra. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 2007-2009) Segue um exemplo de descrição, “Quando houver a disponibilidade de tempo: “Ken anda pela sala, pega uma faca e passa manteiga na torrada.” Quando o tempo for mais curto: “Ken pega uma faca e passa manteiga na torrada.” Algumas observações devem ser levadas em consideração do que se trata do ouvinte compreender aquilo que está sendo descrito. As pessoas que são cegas congênitas (nascidas sem visão) sentemse muitas vezes confortáveis com o nível de informação do que captam daquilo que rotineiramente ouvem e, às vezes, na percebem quantas informações visuais podem estar disponíveis. Por outro lado, pessoas cegas adventícias (cuja visão perderam mais tarde, depois do nascimento) sabem que há muitas informações, e não as querem perder. Por diversas razões, algumas pessoas preferem apenas umas poucas descrições para esclarecimentos essenciais, e outras querem tantas descrições quanto o tempo permitir. A responsabilidade do áudio-descritor é encontrar um equilíbrio entre estas posições. Diferentes ouvintes preferem quantidades variadas de descrição. Destarte, o áudio-descritor deve respeitar as regras da boa áudio-descrição para incluir as informações visuais que sejam inacessíveis a pessoas cegas, ou com baixa visão, sem preencher cada pausa disponível. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 20072009) Outra referência importante é sobre a Censura, quem está descrevendo não deve por seus próprios conceitos de valores, julgar ou censurar qualquer informação que sirva para complementar o entendimento do ouvinte. A censura é injusta com o material e com os ouvintes. Áudiodescritores que censuram as informações por causa do seu próprio desconforto faltam com o seu público. Os áudio-descritores têm de transmitir as informações sobre nudez, atos sexuais, violência etc. Os ouvintes devem saber tudo o que está visualmente disponível às pessoas que enxergam. Se um áudio-descritor acreditar que descrever um certo material lhe fará sentir-se mal, ele não deve aceitar o trabalho. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 2007-2009) 60 O uso de uma linguagem consistente e apropriada deve ser uma das prioridades para uma boa descrição. A linguagem deve condizer com o conteúdo do material a ser descrito. Em geral os áudio-descritores devem evitar metáforas, símiles etc; contudo, comparações comuns que sejam reconhecidas pela maioria dos ouvintes são aceitáveis como um meio de poupar tempo. Nem todos os ouvintes entenderão gírias, coloquialismos, e termos regionais. [...] Use as palavras descritivas e as frases ou estruturas frasais mais concisas. [...] Use pronomes cuidadosamente. Se houver apenas uma mulher em cena, então o “ela” é adequado. Se houver mais de uma pessoa, nomes próprios serão mais claros. Nota: Na áudio-descrição em português, deve-se antentar, também, para o uso do pronome seu(s) e sua(s), a fim de evitar ambigüidades e imprecisões. [...] Descreva as cores para ajudar pessoas com baixa visão a localizarem o que está sendo descrito e para compartilhar o “significado” emocional da cor na produção. As pessoas que são cegas ou possuem baixa visão geralmente compartilham dos atributos comuns que conferimos às cores, tais como azul e verde são frios e serenos, enquanto vermelho e laranja são quentes e tempestuosos, etc. “O vestido é da cor de vinho” em vez de “O vestido é vermelho” mais ricamente o descreve. Evite, contudo, palavras para cores não usuais: “azul ciânico”, “cerúleo”, “cor parda”, “castanho avermelhado”. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 20072009) Nas diretrizes de para Áudio-Descrição e Código de Conduta, suas divisões de capítulos abrange todas as formas de entretenimento como: Diretrizes para a descrição ao Vivo; Diretrizes para a descrição de Dança; Diretrizes para a descrição de Ópera; Diretrizes para a descrição de Filmes e Vídeos; Diretrizes para a descrição de Museus e de Mostras; Apesar de todas as diretrizes acima serem de suma importância, além dos Princípios Fundamentais focaremos somente nas Diretrizes para a Descrição de Filmes e Vídeos, por esta atender o objetivo da pesquisa. Os princípios fundamentais são gerais para todas, porém, para cada descrição há uma variação e uma regra, como iremos mencionar neste capítulo os pontos mais específicos para audiodescrever filmes e vídeos. 61 A maior parte dos áudio-descrições para filmes e vídeos é escrita e gravada numa trilha de áudio separada da trilha sonora do material. Este processo permite ao áudio-descritor escrever e descrições precisas e completas que irão, com exatidão, encaixar-se nas pausas. Assegure-se de que tenha lido o script em voz alta na velocidade que será lido para a gravação, a fim de verificar o tempo e checar a existência de trava-línguas. (Pelo fato de os espaços para descrição dos filmes e vídeos serem muitas vezes bastante curtos, o áudio-descritor geralmente fala mais rapidamente do que nas apresentações ao vivo. É prudente re-escrever para remover qualquer trava-línguas que possa existir). (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 2007-2009) Na AD para um filme e vídeo, o audiodescritor tem que ter a preocupação se a trilha sonora do filme irá incorporar a cena com alguma ação. Se a parte instrumental da música contribuir significativamente para a emoção do material, tente permitir aos ouvintes que sejam levados pela música sem inserir descrições. Apenas interrompa para informações vitais que têm de ser descritas durante a música a fim de ser pontual. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 2007-2009) Algumas informações são gerais, porém, outras são específicas para AD em filmes e vídeos. Assista ao vídeo de antemão sem imagem para ajudar a identificar confusões auditivas – sons que possam se confundidos, personagens com vozes parecidas, mudanças de silenciosas, etc. Defina o local onde a cena está ocorrendo antes de qualquer outra coisa. [...] Os personagens num filme e vídeo podem ser apresentados, mas sem nome. Use uma característica física marcante para identificá-los nas descrições. Sem o tempo estendido para notas que antecedem a apresentação, use as informações mais reveladoras sobre um personagem no lugar de uma descrição completa. A idade do personagem pode ser razoavelmente julgada pelo som de suas vozes. Se não for o caso mencione as idades. Se eles estiverem vestidos diferentemente de outros personagens, então isso pode ser adequado. (AUDIO DESCRIPTION COALITION, 20072009) Além do audiodescritor se atentar a todos os detalhes indicados acima, ele tem que ter muitas preocupações, como as palavras a serem usadas. Fora a descrição a ser feita, os profissionais também deve ler os textos e as legendas que aparecem nos filmes e vídeos. Como indicamos no início do capítulo, existem várias maneiras de audiodescrever, e as informações citadas são as utilizadas por formadores dos profissionais dos Estados Unidos. No Brasil, os grupos de pesquisadores em AD tem as suas diferentes formas de audiodescrever, mas sempre respeitando os padrões 62 norte-americanos, como também criando novas formas de descrições para melhor atender o público a assistir. E de todo o material selecionado e pesquisado para este trabalho, percebemos que tudo que se refere a AD é novo principalmente no Brasil, e que todas as suas diretrizes, como modo de fazer, e de como ser um audiodescritor estão sendo construídas no decorrer destes anos, portanto, a troca de experiências com outros audiodescritores é muito importante. 63 CONSIDERAÇÕES FINAIS Para finalizar esta pesquisa, daremos destaque a um relato bem sucedido sobre quando a AD foi apresentada pela primeira vez a uma pessoa cega. E a importância e relevância deste recurso para uma pessoa que nunca enxergou. Tivemos como base relatos disponíveis em sites que abordam o tema AD e que contribuem para divulgação e discussão do assunto nas redes sociais. Para seleção deste relato, focamos em uma pessoa com cegueira total desde que nasceu e que teve a experiência com a AD em uma representação audiovisual, que é o foco da pesquisa deste trabalho. Trata-se de um relato de uma jornalista, Joana Belarmino, doutora em Comunicação e Semiótica e professora titular da Universidade Federal da Paraíba. Nascida em uma família de treze filhos, dos quais sete nasceram cegos, ela foi incluída. Em seu artigo Em Algum Lugar do Passado, extraído do livro Audiodescrição: transformando imagens em palavras. Ela relata como foi sua primeira experiência com a AD. Em Algum Lugar do Passado Joana Belarmino “A experiência da cegueira é única para cada indivíduo. Assim, aqueles clichês que se desenvolveram ao longo da cultura, de que pessoas cegas normalmente preferem o rádio à televisão, ou que geralmente os cegos têm tendência para a música, nem sempre encontram expressão de verdade na realidade. Os modelos de consumo da cultura por pessoas cegas, suas preferências, seus gostos, são tão variados quanto à experiência de cada um com respeito à sua cegueira. Sou filha de camponeses, e, em minha família de treze filhos, pelo menos sete, nascemos cegos. Eu diria que cada um de nós participa da cultura de modo diferente. Desde criança, desenvolvi um gosto acentuado pelos livros. Entretanto, sempre fui fascinada por televisão, e, na vida adulta, também comecei a me interessar pelo cinema, numa gama de gostos que incluía o romance, o drama, e, 64 particularmente, a ficção científica. Curiosamente, enquanto boa parte dos meus irmãos adorava o rádio, eu nunca fui ouvinte assídua desse meio de comunicação. Assistir a filmes pela televisão sempre foi para mim uma aventura e um desafio. Entregava-me à diversão, literalmente às cegas. Muitas vezes, sozinha, em noites de sábado, assistia ao desenrolar do filme na TV, e, na minha cabeça, às apalpadelas, recolhendo pistas sonoras, adivinhando gestos, compunha outro enredo provavelmente completamente diverso do enredo do filme, quem sabe, milagrosamente próximo do filme propriamente dito. Muitas vezes, pelo menos para mim, construía uma compreensão razoável do filme, e, feliz, aguardava o seu final. E geralmente me via mergulhada numa zona de sombra, de incompreensão, visto que muitas das cenas finais se desenrolam através de aspectos eminentemente visuais. Meu primeiro contato com a estratégia da audiodescrição deu-se ao final do segundo semestre letivo do curso de comunicação da UFPb, em 2007. Meu exaluno, Ângelo Ramalho, convidou-me para a banca de defesa do seu Trabalho de Conclusão de Curso, que, segundo me disse, envolvia um trabalho de “adaptação” do filme, Em Algum Lugar do Passado. Sentada ao lado dos meus colegas membros da banca, compreendi que a minha tarefa ali era bem mais ampla do que a de julgar, comentar, avaliar. Ali sentada, eu era também telespectadora ávida por desvendar, com mais de dez anos de atraso, uma zona de sombra, um punhado de interrogações, um desespero por responder, como havia acabado o filme, que gesto fizera ele para desencadear o grito desesperado dela, os últimos dias do personagem principal, a forma como ele morrera. Extasiada, fiz como que uma espécie de viagem até uma noite de sábado, dez anos antes, em que, sozinha, diante da TV, vira aquele belo filme, sem qualquer recurso de audiodescrição. Remontei cenas, enxertei vazios, alimentei-me das inúmeras descrições, e, maravilhada, senti-me igual a todo mundo, quando acompanhei, com a narrativa da audiodescrição, o momento em que o protagonista sacou do bolso a moeda fatal que o levaria irremediavelmente de volta ao seu tempo. O trabalho pioneiro de Ângelo Ramalho na UFPb mereceu nota dez, e eu, desde então, converti-me em uma adepta pelo recurso da audiodescrição nos 65 produtos audiovisuais. Na academia, dediquei-me a uma cruzada por compreender o fenômeno da audiodescrição, ao mesmo tempo em que busquei divulgá-lo em seminários, simpósios e conferências, assim como mobilizar pessoas cegas, em pequenas mostras para as quais programamos a exibição de filmes com o recurso da audiodescrição. Quando reflito sobre a realidade da cegueira, associando-a ao desenvolvimento histórico e sociocultural, percebo o grande salto dado com a era tecnológica, no sentido da sua potencialidade para a democratização da comunicação, trazendo à tona, inúmeras perspectivas para a ampliação do 183 consumo adequado de inúmeros produtos da cultura, sobretudo os audiovisuais. Os insumos tecnológicos de fato podem minimizar os efeitos limitativos da cegueira, permitindo-nos adentrar em zonas de consumo anteriormente inimagináveis. Por que então ainda vemos tão poucos cegos em salas de cinema, ou usufruindo plenamente de produtos televisivos e teatrais? A resposta para esse dilema está na própria cultura. No modo como os governos, as empresas, os organismos institucionais pensam a sociedade, através de um modelo do consumidor médio, ou seja, um modelo excludente, incapaz de perceber nas pessoas com deficiência, uma importante fatia desse mercado informativocomunicacional. Quanto mais um indivíduo é estimulado, quanto mais a sociedade lhe oferta condições de consumo das coisas da sua cultura, mais esse indivíduo tenderá a crescer, a participar, a exercitar sua cidadania, com qualidade e autonomia. Os governos que não desatam os nós burocráticos e econômicos que emperram a acessibilidade, certamente condenam seus cidadãos com deficiência, a um isolamento injusto e impeditivo do seu crescimento como sujeitos de vontade, sujeitos de desejo,sujeitos de cidadania. Políticas excludentes, como a que assistimos no Brasil de hoje, na fatídica novela do Minicom e das empresas de comunicação, envolvendo a implementação da legislação e normas técnicas que disciplinarão a aplicação dos recursos de audiodescrição na TV brasileira, ampliam a profunda “brecha digital” que ainda caracteriza a América Latina, os países da África, face ao desafio da democratização da comunicação, do acesso às tecnologias e ao consumo dos bens e produtos literários, fonográficos, audiovisuais e tantos outros.” 66 Após ler este relato e tudo que o se refere a AD, não podemos deixar de considerar a importante contribuição, tanto para a promoção social do individuo com deficiência visual, como para outras pessoas com algum problema visual. Durante a pesquisa, tive a oportunidade de ir a uma sessão de cinema e utilizar o recurso de AD. Confesso que para quem enxerga há uma grande dificuldade em assistir ao filme com os olhos fechados, porém, pela descrição você acaba vendo detalhes que por outras vezes que assisti ao filme passaram despercebidos, justamente pela riqueza de um roteiro bem elaborado e bem narrado. Esta dissertação, na verdade, só acendeu a vontade de aprofundar a pesquisa, dar continuidade a tudo o que foi escrito acima, ir a campo e ter mais contato com as pessoas que tem acesso a esta tecnologia. 67 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABEL, Richards and ALTMAN, Rick. The Sounds of Early Cinema. Indiana University Press, 2001. ARAUJO, Inácio. Cinema: o mundo em movimento. São Paulo: Scipione, 1995. Audiodescrição. Disponível em: <www.audiodescricao.com.br> Acesso em 21 set. 2009. AUMONT, Jacques et al. A estética do filme. Campinas: Papirus, 2009. _______________. O olho interminável [cinema e pintura]. São Paulo: Cosac Naify, 2004. BERNADET, Jean-Claude. O que é cinema?. São Paulo: Brasiliense, 1983. 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