1 O discurso da “economia criativa”: desenvolvimento econômico ou mera defesa dos direitos autorais? André Coutinho Augustin1 Artigo submetido ao XV Encontro de Economia da Região Sul Área 2: Desenvolvimento Econômico Resumo: Na última década, surgiram vários estudos sobre a chamada “economia criativa”. Nesses estudos, como o Creative Economy Report, da UNCTAD, a indústria criativa, aquela que teria a criatividade como principal insumo, seria o novo motor do desenvolvimento econômico. Isso permitiria o desenvolvimento dos países pobres e a diminuição das desigualdades regionais. Mas para desenvolver a indústria criativa, os países deveriam adotar “instituições certas”, como políticas de defesa dos direitos autorais. O objetivo desse artigo é mostrar que o discurso da economia criativa está longe de ser uma proposta de desenvolvimento, entendido como um processo de mudança estrutural, sendo apenas um discurso de defesa da indústria cultural, principalmente em relação à propriedade intelectual. Palavras-chave: economia criativa; desenvolvimento; direitos de propriedade intelectual. Classificação JEL: O1 – Desenvolvimento econômico Abstract: In the last years, there were several studies on the so-called "creative economy". In these studies, such as the UNCTAD Creative Economy Report, the creative industry would be the new driving force of economic development. This would allow the development of poor countries and reducing regional inequalities. But to develop the creative industries, countries should adopt "correct institutions" such as defense policy of copyright. The aim of this paper is to show that the speech of the creative economy is far from a proposed development, understood as a process of structural change. It is just a speech defending the cultural industry, especially in relation to intellectual property rights. Keywords: creative economy; development; intellectual property rights. JEL classification: O1 - Economic Development 1 Graduado em Ciências Econômicas pela UFRGS, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRJ e bolsista do CNPq. E-mail para contato: [email protected] 2 A “Economia criativa” Nos últimos anos, a participação dos bens culturais na produção e no comércio mundial aumentou consideravelmente. As exportações de serviços audiovisuais, por exemplo, cresceram de US$ 13,7 bilhões em 2002 para US$ 26,4 bilhões. No mesmo período, as exportações mundiais de artes visuais dobraram (UNCTAD, 2010, p. 23). Um dos motivos para esse crescimento foi o aumento de renda observado em diversos países, particularmente na Ásia, que permitiu que uma parte da população que antes não tinha acesso aos bens culturais agora o tenha. Outro motivo, apresentado por autores como David Harvey, é a busca por rendas de monopólio. Os capitalistas sempre buscaram rendas, mas com a queda nos custos de transporte e de comunicação e a diminuição de barreiras comerciais ocorridas nas últimas décadas, diminuíram as possibilidades de monopólios locais. Os capitalistas tiveram portanto de descobrir outras maneiras de criar e preservar seus tão cobiçados poderes monopolistas. As duas principais manobras a que recorreram foram: uma ampla centralização do capital, que busca o domínio do poder financeiro, economias de escala e posição de mercado, e a ávida proteção de vantagens tecnológicas (que são sempre, como eu já indiquei, um substituto das vantagens locais) por meio de direitos de patentes, leis de licenciamento e direitos de propriedade intelectual. Não por acaso, estes últimos têm sido alvo de intensas negociações no âmbito da OMC, tendo produzido o chamado Acordo TRIPS [Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights Agreement]. (HARVEY, 2004, p. 85, grifos meus). Nessa busca por rendas de monopólio - uma das características do neoliberalismo cresceram os investimentos na indústria cultural e de outros ramos em que a propriedade intelectual tem importância, como a indústria farmacêutica (HARVEY, 2002). Na cartilha Cultura é um bom negócio, lançada pelo Ministério da Cultura (MinC) em 1995, dizia-se que “nunca os museus foram tão visitados, as obras de arte valorizadas e não há paralelo para os lucros que obtêm hoje os entretenimentos culturais e o show business” (MINC, 1995, p. 10). Esse crescimento da indústria cultural chamou a atenção dos economistas, que passaram a estudar o assunto. Surgiu então, dentro do campo ortodoxo, a “economia da cultura” (cultural economics), uma aplicação da microeconomia neoclássica para as artes, com a construção de modelos de oferta e demanda por bens culturais. Mais tarde, criaram o conceito “economia criativa” (creative economy), onde a principal mudança talvez não tenha sido a substituição de “cultural” por “creative” (incluindo, além dos setores estritamente culturais, outros como moda, gastronomia, design, etc.), mas a substituição de “economics” por “economy”2. Não era mais a simples construção de modelos teóricos para explicar a racionalidade do mercado de artes, mas a constatação de que a própria economia havia mudado e que agora a produção estava baseada na criatividade. Embora o termo “economia criativa” só tenha surgido em 2001, em um livro de John Howkins, a sua ideia básica já estava presente no estudo Creative Nation, elaborado pelo governo australiano em 1994. Em 1997 chegou à Inglaterra, quando o New Labour propôs em seu manifesto pré-eleitoral políticas públicas para incentivar a “indústria criativa”, o que compensaria a perda da indústria manufatureira inglesa para outros países, como a China. 2Na maior parte dos textos em português sobre economia da cultura e economia criativa há confusão entre os termos, já que ambos têm a mesma tradução. 3 Outros países desenvolvidos seguiram o mesmo caminho e, em pouco tempo, os organismos da ONU já sugeriam aos países subdesenvolvidos que eles também poderiam investir em tais indústrias. Em 2001, esse tema teve posição de destaque na Conferência das Nações Unidas sobre os países menos avançados3. O objetivo desse artigo é fazer uma crítica ao discurso sobre desenvolvimento presente nos defensores da chamada economia criativa. Como o assunto ainda é novo e existem abordagens muito diferentes sobre ele, foram escolhidas três fontes que, embora apresentem divergências em alguns pontos, seguem as mesmas linhas gerais: 1) Os documentos sobre economia criativa dos organismos vinculados à ONU, principalmente o Creative Economy Report, da UNCTAD, nas suas edições de 2008 e 2010. 2) O plano da Secretaria de Economia Criativa do MinC, lançado em 2011, que propõe políticas, diretrizes e ações na área para o período de 2011 a 2014. Muitas dessas políticas foram inspiradas nos relatórios da UNCTAD. Foram analisados não apenas o plano em si, mas também os textos teóricos sobre economia criativa que se encontram como anexo do plano. 3) Alguns textos da economista Ana Carla Fonseca Reis, consultora sobre economia criativa da ONU e do MinC e uma das primeiras brasileiras a escrever sobre o tema. A primeira dificuldade encontrada nos estudos sobre economia criativa é a delimitação do seu objeto, ou seja, definir quais setores da indústria podem ser chamados de indústria criativa4. Algumas definições baseiam-se na formação do preço do que é produzido. Se enquadraria em indústria criativa aquele setor no qual a criatividade influencia no preço do que é produzido: “os setores criativos são todos aqueles cujas atividades produtivas têm como processo principal um ato criativo gerador de valor simbólico, elemento central da formação do preço, e que resulta em produção de riqueza cultural e econômica” (MINC, 2011, p. 22). Esse tipo de definição geralmente peca pela falta de rigor teórico (algo comum nos textos sobre economia criativa, por sinal). Não há nenhuma discussão sobre teoria do valor, confunde-se valor e preço e muitas vezes em um mesmo texto mistura-se uma teoria próxima do valor trabalho com outra baseada no valor utilidade. As definições de indústria criativa mais usadas acabam sendo aquelas de alguma forma relacionadas aos direitos de propriedade intelectual. Para o United Kingdom’s Department of Culture, Media and Sport, as indústrias criativas são definidas “as those requiring creativity, skill and talent, with potential for wealth and job creation through the exploitation of their intellectual property” (UNCTAD, 2010, p. 6). A UNCTAD tem uma definição semelhante: “any economic activity producing symbolic products with a heavy reliance on intellectual property and for as wide a market as possible” (idem, p. 7). Ainda segundo a UNCTAD, a indústria criativa usa “creativity and intellectual capital5 as primary 3O eufemismo do nome da conferência é significativo. O mundo não seria mais dividido entre centro e periferia, países desenvolvidos e subdesenvolvidos, mas entre mais avançados e menos avançados, indicando que todos avançavam rumo ao desenvolvimento. 4 Nos textos em defesa da economia criativa evita-se falar em “indústria cultural”, para fugir da conotação negativa que o termo adquiriu com a Escola de Frankfurt. Eles preferem falar em “indústria criativa”, mesmo que, na maioria das vezes, estejam falando dos mesmos setores. 5 Marx (1978, capítulo XLVIII), mostra o quão mistificador é considerar como capital aquilo que não é capital. “Mas, nem mesmo Marx seria capaz de imaginar que a ciência econômica conseguiria estender os limites dessa compreensão equivocada do capital até literalmente todas as formas concretas de propriedades: hoje, desde a natureza (capital geográfico e ambiental) até o conhecimento (capital 4 inputs” e “constitute a new dynamic sector in world trade” (idem, p. 8). Ou seja, a criatividade deixou de ser uma característica do trabalho e para tornar-se insumo. Essa classificação da criatividade como insumo abre as portas para o discurso pós-moderno de que estaríamos em uma sociedade pós-industrial e que a criatividade estaria ocupando o lugar dos demais fatores de produção no crescimento econômico: “la creatividad y el talento humano, más que los factores de producción tradicionales tales como la mano de obra y el capital, se están rápidamente tornando poderosos motores de desarrollo” (UNCTAD, 2008, p. 68). Juntamente com a indústria criativa, teria emergido uma nova “classe criativa”6, “a cohort of professional, scentific and artistic workers whose presence generates economic, social and cultural dynamism, especially in urban áreas” (UNCTAD, 2010, p. 10). Seriam esses trabalhadores que adicionariam valor aos produtos através da criatividade. Segundo Florida, os valores da clase criativa são “individuality, meritocracy, diversity and openness” (idem, p. 11). Além de considerar esses trabalhadores como sendo de uma nova classe social, o que teoricamente já é complicado, tenta-se atribuir aos trabalhadores os valores do neoliberalismo, como individualismo e meritocracia. Economia criativa e desenvolvimento Não há uma única definição de desenvolvimento entre os teóricos da economia criativa. Reis (2007, 2011), por exemplo, usa um conceito de desenvolvimento inspirado em Amartya Sen, de desenvolvimento como liberdade de escolha. Na economia criativa, desenvolvimento seria a liberdade de escolha de consumo de bens culturais. Relacionar liberdade a desenvolvimento não é novidade na teoria econômica. Marx, por exemplo, dizia que o desenvolvimento das forças produtivas e o consequente aumento da produtividade do trabalho diminuíam o trabalho necessário e aumentavam o tempo livre: “a poupança de tempo de trabalho é equivalente ao aumento do tempo livre, i.e., tempo para o desenvolvimento pleno do indivíduo, desenvolvimento este que, como maior força produtiva, retroage sobre a força produtiva do trabalho” (MARX, 2011, pp. 593-4). Mas esse aumento da liberdade só seria possível após a superação do Capitalismo e o fim do trabalho alienado: En efecto, el reino de la libertad solo empieza allí donde termina el trabajo impuesto por la necesidad y por la coacción de los fines externos; queda, pues, conforme a la naturaleza de la cosa, más allá de la órbita de la verdadera producción material. (...) La libertad, en este terreno, sólo puede consistir en que el hombre socializado, los productores asociados, regulen racionalmente este su intercambio de materias con la naturaleza, lo pongan bajo su control común en vez de dejarse dominar por él como por un poder ciego, y lo lleven a cabo con el menor gasto posible de fuerzas y en las condiciones más adecuadas y más dignas de su naturaleza humana. Pero, con todo ello, siempre seguirá siendo este un reino de la necesidad. Al otro lado de sus fronteras comienza el despliegue de las fuerzas humanas que se considera como fin en sí, el verdadero reino de la libertad, que sin embargo solo puede florecer tomando como base aquel reino de la necesidad. La condición fundamental para ello es la reducción de la jornada de trabajo. (MARX, 1978, p. 759). intelectual) e, no limite dos limites, a própria existência humana (capital humano) são considerados formas de capital.”(CARCANHOLO e MEDEIROS, 2012, p. 6). 6 O conceito de classe criativa foi criado por Richad Florida. 5 A redução da jornada de trabalho é uma condição necessária para a liberdade, mas não suficiente. Não é possível considerar o tempo de lazer do trabalhador como livre se esse tempo for usado para consumir necessidades criadas pelo capital. Afinal, no Capitalismo o consumo não depende das preferências autônomas dos consumidores, como dizem os economistas ortodoxos, mas das necessidades criadas pela produção: “a produção não se limita a fornecer um objeto material à necessidade, fornece ainda uma necessidade ao objeto material” (MARX, 1982, p. 9). Essa visão, portanto, é oposta à de Reis. Para a autora, a opção que o indivíduo tem de escolher entre dois bens de consumo oferecidos por uma empresa é vista como liberdade. O exemplo dado por ela é do indivíduo que escolhe entre assistir ao Big Brother ou ao Canal Futura (REIS, 2007, p. 26). Mas dá para considerar liberdade a opção de escolha entre Big Brother, um programa da Rede Globo, e o Canal Futura, que também pertence às organizações Globo? Entre as opções oferecidas pela família Marinho, todos somos livres para escolher! Ou melhor, nem todos, já que ela se esquece de avisar que o Futura é um canal da TV paga, disponível a apenas uma pequena parcela da população7. Ou seja, na concepção da autora, desenvolvimento é a "liberdade" de uma pequena parcela da população (aqueles que tem acesso à TV por assinatura) de escolher entre duas opções de programação oferecidas pela mesma empresa, que domina a comunicação brasileira. Sem falar que empresa se tornou hegemônica graças ao seu apoio ao regime militar. Ora, isso não é desenvolvimento e, muito menos, liberdade. Nas palavras de Žižek (2011, p. 61), “os economistas liberais enfatizam a liberdade de escolha como ingrediente fundamental da economia de mercado. (...) A multiplicidade de escolhas com que o mercado nos bombardeia só serve para obscurecer a ausência de escolhas”. Houve uma época em que a discussão sobre desenvolvimento envolvia acumulação de capital, progresso técnico, mudança na estrutura econômica e, consequentemente, mudanças na estrutura social. Havia divergências sobre quais políticas deveriam ser adotadas, mas era consenso que o desenvolvimento estava relacionado à esfera produtiva. Mas nos últimos anos o conceito de desenvolvimento da ortodoxia econômica foi se afastando da produção. Quando não é sinônimo de “liberdade de escolhas”, como na visão de Sen e Reis, desenvolvimento é visto como provisão de necessidades básicas, mas com manutenção da estrutura produtiva, “that is, anything but ‘development’ in the traditional sense. In other words, it has turned into Hamlet without the Prince of Denmark” (CHANG, 2009, p. 2). É dentro dessa concepção de desenvolvimento sem mudança estrutural que estão inseridos os Millenium Development Goals (MDGs), da ONU. São oito objetivos: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 7 eradicate extreme poverty and hunger; achieve universal primary education; promote gender equality and empower women; reduce child mortality; improve maternal health; combat HIV/AIDS, malaria and other diseases; ensure environmental sustainability; develop a global partnership for development. Em dezembro de 2011 havia 12.744.025 de assinantes de TV por assinatura no Brasil (ANATEL, 2011, p. 12). 6 Apenas o último está relacionado diretamente ao desenvolvimento econômico. E seus sub-objetivos são: “development of an ‘open, rule-based, predictable, nondiscriminatory trading system’; reduction or even writing-off of developing country foreign debt; increase in foreign aid from rich countries, including trade-related technical assistance; provision of access to affordable essential drugs for developing countries8; and the spread of new technologies, mainly information and communications technologies”. A redução das dívidas e o aumento das ajudas podem até melhorar as condições de alguns países (embora não sejam no montante suficiente para fazer muita diferença), mas não determinam o conteúdo do desenvolvimento (CHANG, 2009, p. 3). Portanto, é o primeiro desses subobjetivos, a defesa do livre-comércio, que mostra a visão de desenvolvimento presente nos MDGs. Segundo a “história oficial do capitalismo” o livre-comércio foi responsável pela industrialização dos países que hoje são desenvolvidos. É essa a visão presente no discurso dos MDGs. Mas a história real não foi bem assim: esses países usaram tarifas protecionistas, subsídios e outras formas de intervenção estatal para se desenvolverem. Segundo Chang (2003, p. 43), “trade protection was much more seriously practised in the supposed ‘free trade’ economies of the UK and the USA than in the supposedly ‘interventionist’ economies”. Mas depois que se desenvolvem, esses países passaram a recomendar o livrecomércio para os demais. É como se estivessem chutando a escada pela qual subiram, nas palavras do economista alemão Friedrich List. O capítulo 2 do Creative Economy Report 2010, que trata da relação entre economia criativa e desenvolvimento, inicia avisando que a estratégia de desenvolvimento através da economia criativa está inserida nos MDGs. Ou seja, é uma estratégia de desenvolvimento que não busca alterar a estrutura econômica dos países, restringindo-se a melhorar alguns aspectos sociais. Mas será que mesmo nessas questões sociais, a tônica dos MDGs, o “desenvolvimento baseado na economia criativa” consegue algum resultado? Desenvolvimento sustentável e com inclusão social? O desenvolvimento baseado nas indústrias criativas seria sustentável, segundo seus ideólogos. O principal argumento apresentado para defender essa ideia é que, ao contrário da indústria tradicional, baseada em recursos escassos (terra, capital, trabalho), a indústria criativa é baseada em um recurso abundante (criatividade). Chega-se a falar, inclusive, em recursos infinitos9. Portanto, a economia, que sempre foi uma ciência da escassez, agora se tornaria uma “economia da abundância”. Para começar, isso mostra que a referência teórica desses autores é a economia neoclássica. Em nenhum momento se discute o “fato” de que os recursos “tradicionais” são escassos e a economia é a ciência que estuda a alocação desses recursos escassos. Como considerar trabalho um recurso escasso sendo que a maioria dos países tem problemas de desemprego estrutural? Além disso, é um absurdo dizer que a indústria criativa é sustentável porque seu insumo é a criatividade. A produção de bens culturais não necessita 8 Incentivam a doação de medicamentos para os países subdesenvolvidos, mas de forma alguma permitem a produção de genéricos ou a quebra de patentes desses medicamentos. É permitido aos pobres se curarem de uma doença, desde que isso não afete o poder da indústria farmacêutica dos países desenvolvidos. 9 Ver, por exemplo, Deheinzelin (2011, p. 125). 7 de terra, capital e trabalho, os “insumos escassos”, segundo a própria teoria usada por esses autores? Além de abundante, a criatividade seria igualmente distribuída entre todos: “la creatividad se encuentra en todas las sociedades y países – ricos y pobres, grandes y pequeños, avanzados y en vías de desarrollo” (UNCTAD, 2008, p. 62). Portanto, essa nova fase da economia permitiria o fim das desigualdades regionais, já que todos os países teriam a mesma dotação de recursos. Obviamente, o que se observa na realidade é que apenas alguns países conseguem desenvolver a “indústria criativa”. Quando a Inglaterra perdeu sua indústria tradicional, como a têxtil, para outros países, foi possível criar um programa governamental de apoio à indústria criativa para que a parte criativa (concepção e o desenho das roupas) continuassem sendo pensados lá. Mas isso pressupõe que existe uma fábrica na Ásia produzindo o tecido e costurando as roupas. Ou seja, não mudamos de uma sociedade industrial para uma sociedade pós-industrial, onde o trabalho material foi extinto e substituído pelo trabalho imaterial. O que houve foi uma nova divisão internacional do trabalho, um processo que não é tão novo. Segundo Tauile (1982, p. 90), o principio taylorista da separação entre concepção e execução do trabalho, se levado às dimensões do capitalismo contemporâneo (em que claramente "fazer" não pode ser equacionado com "saber fazer"), nos presenteia, por sua vez, com uma nova forma de dependência: a dependência tecnológica (que talvez pudesse também ser caracterizada como dependência das informações) . As corporações multinacionais internacionalizam a produção final de bens, mas não a capacidade de geração física e intelectual da tecnologia em que se apoia, porque o controle do acesso à tecnologia é absolutamente fundamental para a definição do leque de alternativas disponíveis para a formulação de projetos socioeconômicos. Logo, a produção intelectual criativa tende a se concentrar junto à sede destas corporações em seus países (desenvolvidos) de origem, para onde se dirige um fluxo de todas as informações relevantes à produção, à circulação dos produtos e à circulação financeira. A este fluxo de informações contrapõe-se um fluxo de autoridade e poder, onde a lógica do sistema exige agora que a maximização de lucros se dê em termos globais e que as partes se submetam ao interesse do todo. Não é de se estranhar, assim, que esta capacidade de concepção e de decisão seja como que "naturalmente" drenada e se concentre junto aos centros de decisão dos grandes blocos de capital internacional para atender a sua lógica de acumulação em escala mundial e por isso mesmo tem colocado em questão todo o referencial institucional dos estados nacionais. Logo, a economia criativa não é uma oportunidade de desenvolvimento igual entre todos os países. Assim como os demais setores da economia capitalista, ela é baseada na desigualdade. O “trabalho criativo” na Europa é a contrapartida do trabalho fabril em outras regiões: “Com sua combinação única de ‘abertura’ (como espaço livre parcialmente isento da soberania do Estado) e cercamento (imposição das condições de trabalho não oneradas pelas liberdades garantidas por lei), que permite altos níveis de exploração, essas zonas [de Processamento de Exportação no terceiro mundo] são a contrapartida estrutural das celebradas comunidades de ‘mão de obra intelectual’- são o quarto termo que se deve juntar à tríade ‘mão de obra intelectual’ high-tech, condomínios fechados e favelas. (ŽIŽEK, 2011, p. 109). Além de permitir o fim das desigualdades regionais, a economia criativa também acabaria com a exploração e a luta de classes. Tenta-se argumentar que nos setores criativos uma classe não existe sem outra e, portanto, não deveria haver divergências entre elas, como aparece em Reis (2007, p. 27): “O que é interessante também observar, quebrando 8 completamente a rixa e resistência entre artistas, produtores e capitalistas, do outro lado, é que uma sem a outra não se sustenta”. Que no Capitalismo não existe capital sem trabalho nem trabalho sem capital, não é nenhuma novidade e isso não é exclusividade da indústria criativa. Mas de forma alguma isso não é argumento para que não exista luta de classes. Não é porque - enquanto durar o Capitalismo - os trabalhadores dependem do capital para conseguirem um emprego que seus interesses serão os mesmos dos capitalistas. Não era assim na “sociedade industrial” e continua não sendo no que eles chamam de “sociedade pós-industrial”. Também se argumenta que a remuneração do capital é devida à sua contribuição à produção (argumento típico da teoria neoclássica) e que essa remuneração seria “justa”: economia criativa é, antes de tudo, economia. Isso significa ao menos algumas coisas, que precisam ser desmistificadas. Economia pressupõe mercado e, vivendo em uma sociedade capitalista como vivemos, quer nos agrade quer não, também significa que os agentes do mercado (produtores, distribuidores, investidores) serão movidos por lucro. Isso não equivale a dizer que sejam gananciosos, mas simplesmente que buscam uma remuneração justa pelo esforço e pelos recursos que investem. (REIS, 2011, p. 75). A indústria criativa, ao contrário de outros setores, seria “ética”: “for ethical trade to be sustainable, producers are advised to focus on innovation, and not only to seek out lowcost solutions. (…) The creative industries offer a vast platform to this ethical business. There is a recent trend towards ethical consumerism” UNCTAD, 2010, p. 26). E permitiria a inclusão de todos: “The creative economy is society-inclusive: people from all social classes participate in this economy, sometimes as producers but always as consumers of different creative products or cultural activities on different occasions” (p. 38). Para eles, inclusão social é sinônimo do direito de participar de um mercado como trabalhador (ou seja, direito de ser explorado) ou como consumidor. Mesmo se aceitássemos essa definição de inclusão (o que já é complicado) a afirmação teria problemas, já que é dito que pessoas de todas as classes sempre podem participar desse mercado, quando na verdade a maior parte da população não tem renda suficiente para consumir esses bens culturais. Dentro dos fatores que ajudariam na inclusão, é citado que a economia criativa permite a diminuição das desigualdades de gênero, um dos MDGs. Isso porque os setores criativos, principalmente o artesanato e a indústria têxtil, empregam muitas mulheres. (REIS, 2008b, p. 135 e UNCTAD, 2010, p. 34). Mas esses são setores onde os salários costumam ser muito baixos. Ou seja, não é algo que contribua para a redução da desigualdade de gênero, mas uma consequência da própria desigualdade: por ter uma remuneração menor, acaba atraindo apenas mulheres, que não encontram oportunidades em empregos melhor remunerados. Sem falar da cultura machista, que prepara a mulher desde cedo par costurar, ajudando a formar mão-de-obra para esses setores. Além das questões sociais, a indústria criativa também se preocuparia com questões ambientais, pois “biodiversity is not only essential for agriculture and pharmaceuticals but also for the creative industries, in particular art crafts, fashion, accessories and interior design creative products” (UNCTAD, 2010, p. 34). Mas só porque a economia criativa depende de recursos naturais haverá necessariamente preservação? Assim como acontece em outros setores, a resposta é não. Só para citar um exemplo recente que aconteceu no Brasil, na década de 1990 os artesãos do Tocantins passaram a usar muito capim dourado nos seus trabalhos, uma espécie de capim que existe apenas na região do Jalapão. Com o sucesso da produção, o capim dourado quase entrou em extinção e hoje só é permitida sua 9 colheita entre 20 de setembro e 20 de novembro. Se não fosse essa regulamentação, criada por iniciativa do poder público, o capim dourado já estaria extinto. Economia criativa, desenvolvimento e a nova economia institucional O fato de que o desenvolvimento da indústria criativa não foi igual para todos parece ter causado surpresa em alguns: “existe una paradoja en el mundo de hoy: a pesar de la riqueza de su creatividad y la abundancia de sus recursos culturales, muchos países en vías de desarrollo no logran realmente aprovechar el potencial para fomentar el desarrollo de sus industrias creativas” (UNCTAD, 2008, pp. 69-70). Isso só é um paradoxo para alguém que pensa que a economia real funciona como os modelos neoclássicos e que, portanto, dois países com a mesma “dotação inicial de criatividade”, teriam o mesmo desempenho, independente da sua estrutura econômica. A saída encontrada por eles para explicar as diferenças entre os países é buscada na Nova Economia Institucional: se um país não consegue desenvolver sua indústria criativa é porque não adotou as políticas e instituições corretas. Essa visão, que tem em Douglas North seu principal teórico, faz o seguinte percurso: - ao reconhecer que o mundo real não se aproxima da concorrência perfeita, é introduzida no cenário uma sociologia institucional; - nesta é construído um modelo de instituição idealizado e funcional que, no limite, recria as condições favoráveis à livre concorrência; - o modelo anglo-saxão de economia de mercado é descrito como o mais próximo desse modelo e evidência da importância das instituições para o desenvolvimento; - o subdesenvolvimento decorre da existência de instituições que inibem as relações econômicas. (MEDEIROS, 2001, p. 81). Os informes da UNCTAD sobre economia criativa seguem um caminho parecido a esse apresentado. Primeiro eles fazem uma apologia ao mercado e à concorrência, tentando mostrar que eles funcionam. Neste trecho, por exemplo, diz-se que as privatizações permitiram o crescimento do investimento no setor de telecomunicação, passando a ideia de que o mercado funciona melhor que o estado: the deregulation of media and telecommunication industries and the privatization of state-owned enterprises in these spheres have opened the way for massive growth in private-sector investment, with consequent effects on output and employment across the board. A number of countries have seized the opportunities provided by these developments. (UNCTAD, 2010, p. 20). Em outro trecho, a apologia do mercado chega a tal nível que conseguiram escrever quatro vezes a palavra mercado em uma única frase: “In implementing post-liberal development strategies, public policies in the last developed countries should use marketsupporting mechanisms aimed at market creation, market development and market acceleration” (idem, p. 214). Pelo menos reconhecem que os mercados são criados pelo estado, algo que não muito é comum ente os economistas ortodoxos. Como os mercados funcionam, a intervenção do estado na economia é considerada importante em poucos casos, sendo a maioria deles por causa de “falhas de mercado”. No capítulo sobre políticas públicas para o incentivo da economia criativa, são apontados cinco motivos que podem justificar a intervenção estatal: existência de bens públicos; concorrência imperfeita, devido à formação de oligopólios; existência de externalidades nos investimentos em P&D; educação e treinamento; e identidade e diversidade cultural (idem, 10 p. 210). Outra falha de mercado que não aparece nessa parte mas é citada em outros capítulos é a assimetria de informação. Uma das políticas sugeridas para resolver as falhas de mercado é a criação de linhas de financiamento para pequenas empresas da indústria criativa, o que diminuiria um dos problemas causados pela assimetria de informação. Isso porque “a intangibilidade dos bens e serviços criativos, ao mesmo tempo em que lhes confere valor, representam um artigo de difícil valoração por parte dos investidores. (...) Como resultado, os empreendimentos criativos são usualmente associados a alto risco, gerando taxas de juros escorchantes” (REIS, 2008a, p. 38). Tendo acesso ao financiamento, os pequenos empreendedores criativos gerariam desenvolvimento. Outras políticas desse tipo são sugeridas, mas a grande mensagem dos textos sobre economia criativa, principalmente os informes da UNCTAD, é que as indústrias criativas só vão dar certo em países que protejam o direito de propriedade, mais especificamente os direitos autorais. O motivo teórico alegado é que o monopólio limitado garantido pelas leis de copyright excluem aqueles que não pagaram de usarem o trabalho criado, diminuindo os problemas causados pelo fato dos bens culturais serem bens públicos (UNCTAD, 2010, p. 177). Isso diminui a insegurança em relação aos investimentos nas indústrias criativas e cria incentivos ao investimento: The economic necessity for copyright legislation arises from the need to provide an incentive and a reward for the commercial production and dissemination of creative works. Copyright supports creativity by giving individuals — and the creative industries in which they are involved — incentives to invest time, efforts and money in creating, producing and distributing works. (idem, p. 173). São recomendadas as leis de proteção à propriedade intelectual vigentes nos países desenvolvidos e o combate à pirataria, argumentando-se que isso seria benéfico para proteger as indústrias nacionais: In considering the protection and enforcement of copyright and related rights, piracy appears as one of the central issues. All kinds of works are at risk of unauthorized use. Music, books, videos, DVDs and even craft design are copied illegally. WIPO argues that in developing economies, as a result of the flooding of markets with cheap “copyright free” foreign products, domestic creators and producers lose their competitiveness, which in turn endangers cultural diversity and national identity. This is a huge challenge in many countries, and the argument is that countries where piracy is rampant may forego opportunities for growth and development on several levels, both tangible and intangible, since it destabilizes the local creative industries and undermines the efforts of creative entrepreneurs and businesses. Inadequate enforcement of copyright limits incentives to develop creative products, especially for small and medium-sized enterprises. (idem, p. 177). Até admite-se que cada país deveria adaptar a legislação de proteção à propriedade intelectual às suas necessidades, como os países desenvolvidos fizeram. Mas isso só é aceito se as adaptações estiverem dentro das opções impostas por acordos multilaterais, como o TRIPS: In theory, all countries shape laws to fit their needs. However, while most developed countries have, in the past, moulded their copyright regimes to suit their particular economic, social and technological situations, developing countries today have relatively less policy space available under the current international regime — although they should better explore the flexibilities of the TRIPS Agreement. (…) Using the full spectrum of rights options, the copyright system can serve to adequately balance the incentives and rewards to creators with the issue 11 of access in a way that truly promotes creativity without entering into contradiction with international intellectual property conventions. (idem, p. 187). Não assinar algum desses acordos faria o país “perder credibilidade com a comunidade global”, prejudicando o investimento. Entre motivos para explicar por que os países pobres não conseguem desenvolver sua indústria de música e cinema não são citadas questões econômicas estruturais desses países, ou a falta de dinheiro da população (que não possui renda nem para se alimentar) para consumir bens culturais. Mas se fala em questões como a falta de dados para basear as políticas e “la falta de capacidad institucional para apoyar el desarrollo de las industrias criativas en los países en desarrollo, particularmente para la protección y aplicación de los derechos de la propiedad intelectual” (UNCTAD, 2008, p. 70). Ou seja, é um problema meramente institucional. Um produtor de cinema não irá fazer um filme no Brasil porque, antes de sair no cinema, DVDs piratas já estarão sendo vendidos. Já nos EUA, onde existem leis corretas de direitos autorais, a indústria do cinema consegue produzir e exportar para o mundo inteiro. Essa análise estática da realidade ignora a história da indústria cinematográfica norte-americana. Hollywood só surgiu porque, no início do século XX, os estúdios de cinema saíram da Costa Leste para fugir do pagamento de direitos de propriedade intelectual a Thomas Edison, inventor do cinema. Eles se mudaram para a Costa Leste dos EUA, onde o controle sobre esses direitos eram menores (VAIDHYANATHAN, 2001, 288-293). Portanto, a indústria cultural norte-americana não se desenvolveu por causa da proteção aos direitos autorais, pelo contrário, se desenvolveu justamente por não respeitar esses direitos. E isso não aconteceu apenas no cinema, mas também na indústria fonográfica, no rádio e na TV10. Ao fazer uma análise histórica, portanto, percebe-se que esse discurso sobre a necessidade de proteção à propriedade intelectual não é tão verdadeira. Chang (2003, p. 13) diz que “no século XIX a Suíça se alçou à categoria de líder mundial em tecnologia sem contar com uma só Lei de Patentes”. E até as últimas décadas do século XX, muitos países desenvolvidos não protegiam patentes de substâncias químicas e farmacêuticas, por exemplo (CHANG, 2001, p. 290). Não é preciso ir longe para encontrar exemplos como esses. No Pará, as bandas de tecnobrega criaram recentemente um modelo de negócios sem a utilização de direitos autorais. Os músicos gravam seus discos em estúdios caseiros e entregam para os camelôs, que se responsabilizam pela distribuição e cobram o preço médio de R$ 3,50 por CD, um preço acessível para a população paraense, ao contrário dos CDs vendidos em lojas. Apenas 4,65% das bandas tem contrato com gravadoras e elas se financiam pelos shows. Hoje o tecnobrega é um dos estilos musicais regionais que mais faz sucesso no Brasil, com as bandas atingindo um faturamento mensal de mais de R$ 6 milhões com shows e festas. Mesmo sem a proteção aos direitos autorais, “a inovação permanente é um aspecto central no universo bregueiro e diz respeito não só à incorporação de novas tecnologias, mas também à demonstração da criatividade pessoal do artista” (LEMOS e CASTRO, 2008, p. 54). O informe da UNCTAD até fala rapidamente sobre o caso do tecnobrega, citando como exemplo de sucesso da indústria criativa, mas ignora que é um exemplo que vai contra tudo o que a UNCTAD defende em relação aos direitos autorais. A economia criativa como defesa teórica da propriedade intelectual 10 Ver Lessig, 2004, capítulo 4. 12 Como dito no início do trabalho, com o neoliberalismo aumentou a busca por rendas de monopólio, crescendo o interesse pela propriedade intelectual. Mas, contraditoriamente, o desenvolvimento tecnológico facilitou o desrespeito à propriedade intelectual, particularmente aos direitos autorais. Com o avanço da tecnologia, principalmente da internet, qualquer um tem acesso a músicas, filmes e livros, mas os antigos regimes de propriedade intelectual não conseguem responder a essas novas necessidades. E a explicação para isso não pode ser encontrada na teoria econômica neoclássica, mas na velha crítica da economia política: Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social. (MARX, 1982, p. 25). A alternativa encontrada pela indústria cultural foi tentar aumentar o controle sobre a internet. Atualmente está sendo elaborado pelo governo dos Estados Unidos o AntiCounterfeiting Trade Agreement (ACTA), um tratado internacional que obrigaria os provedores de internet a fornecerem informações sobre os arquivos trocados entre seus clientes e permitiria, por exemplo, a apreensão de MP3 players por guardas da alfândega. Também estão previstas medidas de defesa da propriedade intelectual para outros setores, como a indústria farmacêutica. Enquanto o texto desse tratado está sendo discutido, o Congresso nos EUA discute o S.O.P.A. e o P.I.P.A., projetos semelhantes, mas no âmbito nacional. Não é por acaso que os organismos multilaterais começaram a falar de economia criativa justamente quando a polêmica sobre propriedade intelectual cresceu. Embora a economia criativa não seja uma alternativa real ao desenvolvimento dos países, ela serve de justificativa teórica para a defesa dos direitos autorais. E essa defesa é de extrema importância para a indústria cultural. Para se ter uma ideia, em 2005, os Estados Unidos tiveram uma receita de US$ 57,4 bilhões com o comércio de propriedade intelectual. Mas para aumentar ou até para manter esse número são necessários acordos internacionais como o ACTA e o TRIPS. Nos últimos anos, o Brasil vinha resistindo a essa ofensiva da indústria cultural e o Ministério da Cultura, durante as gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira, criou um projeto de flexibilização dos direitos autorais. No entanto, o lobby do ECAD fez com que Ana de Hollanda assumisse o Ministério para impedir a aprovação dessa reforma. Em recente audiência na Câmara dos Deputados, a ministra reforçou o discurso de que a defesa dos direitos autorais é que o garante o desenvolvimento na área da cultura: Hoje em dia a pirataria é feita assim. É copiado através da internet, e isso se multiplica, está sendo distribuído e vendido pela internet. Daí a preocupação do MinC com essas questões, que estão facilitando a pirataria. [...] O MinC tem que ter uma preocupação com a preservação e com a condição de se produzir culturalmente sem que isso seja copiado como se não tivesse trabalho investido. Isso vai matar a produção cultural brasileira se não tomarmos cuidado. Não é coincidência que as duas principais medidas adotadas pela nova ministra quando assumiu, no início de 2011, foi retirar do Congresso o projeto de Reforma da Lei de Direitos Autorais encaminhado pelo ministro anterior e criar a Secretaria da Economia Criativa no lugar da antiga Secretaria da Identidade e Diversidade Cultural. O abandono das 13 políticas de diversidade cultural e a criação da nova secretaria são formas de ratificar a defesa dos direitos autorais. Portanto no Brasil, assim como a nível internacional, o discurso oficial sobre economia criativa surgiu quando cresceu o debate sobre direitos autorais, servindo como teoria para defender a defesa desses direitos muito mais do que como teoria de desenvolvimento. 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