O REINO DE DEUS O SERMÃO DO MONTE AMOR Mateus 5:43 a 48 Edmar Marques dos Reis1 Introdução O ser humano, por mais rude que seja, é produto do amor e não consegue manter-se na vida sem amar e ser amado. Nossos estudos continuam focalizando o Sermão do Monte, especialmente o trecho, escrito pelo evangelista Mateus, em que o Senhor manda seus/as seguidores/as amar sem distinção. Amar aqueles que são do nosso convívio familiar, amigos, irmãos e parentes não requer nenhum esforço. Para Jesus isso não era nada demais. No entanto, na visão que tinha sobre a lei, esse amor seria muito mais abrangente. Eles não deveriam amar somente os seus amigos, mas também seus inimigos. 1 A última antítese O texto bíblico apreciado nesta semana é Mateus 5. 43 a 48, em que Jesus encerra uma série de seis antíteses, por meio das quais o Mestre dos mestres contrapõe-se às interpretações equivocadas dos escribas e fariseus, em relação às leis de Deus, apresentando os valores do reino de Deus aos seus seguidores. Jesus cita parte de Levítico 19.18, mal interpretado e acrescentado pelos rabinos ao longo do tempo. Amar os inimigos não seria fácil, por isso os escribas e fariseus adicionaram sua intepretação como se fosse a própria lei, alterando assim o verdadeiro sentido da lei, como se pode observar na análise abaixo. LEVÍTICO 19. 18 “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo: Eu sou o Senhor” (ARC - Almeida Revista e Corrigida) . “Não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou Iahweh” (BJ - Bíblia de Jerusalém). “Não se vingue, nem guarde ódio de alguém do seu povo, mas ame os outros como você ama a você mesmo. Eu sou o Senhor” (NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje). 1 Pastor Batista, Membro da Equipe Pastoral da Primeira Igreja Batista da Cidade da Serra liderando a Congregação Batista em Jardim Bela Vista, Graduado no Curso Livre de Teologia pelo Centro de Educação Teológico Batista do Estado do Espírito Santo. MATEUS 5. 43 “Ouviste que foi dito: Amarás o teu próximo, e aborrecerás o teu inimigo” (ARC). “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (BJ). “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame os seus amigos e odeie os seus inimigos”“(NTLH). Tolerar os inimigos, aqueles que nos insultam em nosso cotidiano, não pode ser de outra forma, a não ser embalados por uma atitude amorosa. No tempo de Jesus isso já era extremamente difícil e se acelera muito mais em nossos dias. Os discípulos deixaram transparecer essa realidade quando passaram pela região de Samaria, foram severamente repreendidos por Jesus (Lc 9. 51-56). Queriam vê-los destruídos e mortos com fogo vindo do céu. Estavam agindo completamente sem piedade e sem amor, contrários aos ensinos de Jesus. 2 Os sentidos do amor Para os gregos o amor aparece com quatro sentidos. Neste estudo, precisamos destacar qual desses sentidos Jesus quer que amemos nossos inimigos. Günther e Link (1989, p. 202- 204), intérpretes do Novo Testamento nos fazem compreender esses sentidos do amor: 2.1. Fhileo – Denota principalmente a atração de pessoas entre si, quando estão estreitamente ligadas dentro e fora da família; inclui a ‘preocupação’, ‘cuidado’, e ‘hospitalidade’, bem como o amor às coisas no sentido de ‘gostar de’. As ideias que se vinculam com phileo não têm ênfase claramente religiosa. 2.2. Storge – Significa ‘amar’, ‘sentir afeição’, especialmente do mútuo amor entre pais e filhos. Esse sentido de amor não se encontra na Bíblia. 2.3. Erao – verbo é amar; Eros – substantivo é amor. Denota o amor entre o homem e a mulher que abrange o ‘anseio’, o ‘anelo’ e o ‘desejo’. O deleite dos gregos na beleza do corpo e nos desejos sensuais achava expressão aqui, na abordagem dionisíaca à vida, e sua sensação dela. 2.4. Agapaô – verbo é amar; agapê – substantivo é amor. Diferentemente de erao, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra. Tal fato, se expressa, sobretudo, no modo que se emprega agapetós, mormente a respeito de uma criança, mas especialmente quando se trata de um filho único ao qual se dá todo o amor dos pais. No texto em estudo, Jesus utiliza a palavra ágape, último sentido do verbo amar. Com isso, Jesus mostra com que tipo de amor nós devemos amar as pessoas que nos cercam, sejam elas nossas amigas ou inimigas. É amor de pai para filho, filho único; o mesmo tipo de amor com o qual Deus nos amou, a ponto de entregar seu próprio Filho para a nossa salvação (João 3:16). 3 O amor em ação O amor ágape pode ser considerado um amor em ação em favor de outra pessoa, sem visar recompensa. A ação de Deus foi entregar seu filho único pela humanidade. Esse é o tipo de amor que Jesus requer de seus/uas discípulos/as. Jesus queria ensinar que seus/uas discípulos/as deveriam amar os seres humanos como ele amou. Percebemos que o substantivo amor transforma-se no verbo amar porque indica uma ação em favor de alguém. É o que Jesus iria fazer mais tarde na cruz pela humanidade. Seria o sacrifício único e perfeito que só se constituiria sob o intenso amor de Deus, cujo sentido é agapaô (verbo amar). Sobre este amor em ação, Stott (1981 p. 55) afirma: “Qual é, então, a nossa obrigação para com o nosso próximo, seja amigo ou inimigo? Temos de amá-lo. Mais ainda, se acrescentarmos as cláusulas da narrativa do Sermão do Monte em Lucas, o nosso amor por ele será expresso em atos, palavras e orações.” O meio ideal para demonstrar amor, segundo Jesus é orar pelos inimigos. À medida que oramos, nosso amor por eles aumenta: É impossível orar por alguém sem amar essa pessoa, e é impossível continuar orando por ela sem descobrir que nosso amor está crescendo e amadurecendo. Não devemos, portanto, esperar para orar pelo inimigo até que ele desperte algum amor em nosso coração. Devemos começar a orar por ele antes de tomarmos consciência de que o amamos, e descobriremos que o nosso amor está começando a brotar e, depois, a florir (STOTT, 1981, p. 55). De acordo com esse entendimento, o amor não nasce em nós automaticamente, torna-se necessário a intervenção de Jesus e a nossa concessão. Pode assemelhar-se a uma construção que, dia a dia, vai se erguendo até alcançar a plenitude de Cristo. 4 O amor em grau maior O amor com que Jesus quer que amemos nossos amigos e inimigos é de um grau muito mais elevado do que o que era visto nas pessoas da sua época. Os publicanos e gentios (povos não judeus) eram rejeitados pelos religiosos, eram odiados. Vocês devem amar ao invés de odiar, é a ordem de Jesus Cristo. Se vocês amam (v.46) e falam (v.47) somente aqueles que os amam e falam com vocês, o que há demais nisto? Tasker (2011, p. 52) comenta esse assunto com clareza ao falar sobre a amplitude deste amor. Sobre o ódio aos inimigos, ele não está investindo nem de leve contra a validade permanente do sexto e do sétimo mandamento nem contra a ordenança levítica para se amar o próximo. O que ele está dizendo é que as exigências de Deus nestas questões são muito mais amplas, inclusivas e rigorosas do que pareciam sugerir as interpretações correntes dadas pelos escribas. O assassino, insiste o Mestre, tem seu nascedouro na ira fomentada por um descontrolado espírito de vingança, sendo tal ira só por si uma quebra do sexto mandamento. O grau desse amor está em que “[...] se um dos soldados estrangeiro forçálo a carregar uma carga um quilômetro, carregue-a dois quilômetros” (NTLH). Quer dizer que se alguém pedir nossa ajuda devemos ajudá-lo com alegria sem mostrar constrangimento. Aqui, Jesus exemplifica o carregamento de uma carga para alguém, mas a ajuda aos outros deve ser em todas as necessidades presentes em nossa sociedade. O grau de amor com que devemos amar as pessoas é inatingível por nós mesmos. Somente Jesus conseguiu amar com toda intensidade possível, isto foi visto nas últimas palavras proferidas por Jesus na cruz: “Tudo está completado” (Jo 19.30). Porém, isso não pode servir de embaraço para que amemos as pessoas. Amar e demonstrar amor, através de palavras e ações, exige um grande esforço de nossa parte e uma total dependência de Deus para conseguirmos a vitória. Amar as pessoas, principalmente as que estão mais próximas de nós, é um exercício de aprendizado, não é algo produzido de repente, não é automático e nem mágico, é sim, lento e trabalhoso. Isso contradiz o que o mundo pensa a respeito do amor. Kemp (1993, p. 51) afirma: “O mundo nos comunica de diversas maneiras que o amor é uma coisa muito fácil de entender, que ele vem naturalmente e sem qualquer esforço. Mas o fato é que o amor ‘agapê’ precisa ser aprendido [...].” Esse aprendizado é que demanda tempo e, às vezes, demora longos anos. O grau com que Jesus nos amou é altíssimo, pois ninguém nos amou como Ele, a ponto de dar a vida por nós (Jo 15.13). Ainda que não alcancemos esse grau devemos copiar seu exemplo e amar o quanto pudermos. 5 Amor e justiça Quando lemos esses versículos (Mt 5. 43 a 48) parece que amor e justiça nem sempre estão de comum acordo. O assunto se reveste de uma complexidade maior, porque no Antigo Testamento Deus se apresenta irado com seus inimigos e manda exterminá-los de acordo com sua justiça. Certamente, os fariseus estavam com isso em mente, por isso não abriram mão do ódio aos inimigos. A solução é que Deus é amor, mas também é justiça. De um lado, está a graça maravilhosa de Deus, estampada claramente no seu desejo de salvar a todos. Do outro lado, está a Sua justiça, que jamais deixará o pecador impune. Ninguém vai para o céu sem reconhecer a necessidade do perdão de Deus, sem reconhecer o preço que Jesus pagou pelos seus pecados. Examinando o vasto estudo de Lloyd-Jones (2013, p. 281) no Sermão do Monte, vimos como é o seu entendimento acerca de como Deus agiu em face aos pecadores impenitentes: Deus castigou Caim; e o mundo antigo, mediante o dilúvio; Deus puniu os habitantes das cidades de Sodoma e Gomorra; e também puniu os filhos de Israel quando se mostraram recalcitrantes. Além disso, o ensino inteiro do Novo Testamento, com base nas palavras que saíram dos próprios lábios de Cristo, é que haverá um juízo final, e que, finalmente, todos os impenitentes serão lançados no lago do fogo, o lugar onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga’ (Marcos 9:48). Toda injustiça veio sobre o pecador pela intromissão de Satanás no Éden. O ser humano, ali foi enganado e trapaceado, porque toda a promessa que Satanás fez em troca do pecado era falsa. Tudo que disse para ele fazer e que iria acontecer era mentira. O ser humano realmente foi enganado. Diante dessa trapaça de Satanás é que Deus exerce Sua justiça, salvando-nos pela graça. Aos olhos de Deus, não é justo que recebamos a mesma recompensa de Satanás pelos seus feitos enganosos. Nesse caso, o amor se une a justiça para nos salvar. Amar como Deus nos amou é algo impossível aos olhos humanos, como já foi visto neste estudo. O meio usado por Ele para fazer justiça foi entregar seu Filho para cumprir a sentença no lugar do ser humano porque alguém tinha que fazer isto. Todos os nossos pecados, de acordo com a justiça de Deus, deveriam ser pagos. Foi o que Jesus fez quando recebeu os ferimentos e os insultos. Não seria possível satisfazer a justiça de Deus sem passar pela via dolorosa, mesmo sendo seu amor incomparável e imensurável. 6 Amor abrangente O que o Senhor quer ensinar aos discípulos e discípulas dos seus dias e dos dias de hoje é que amar uns aos outros é a atitude correta. Além disso, ensina que esse amor não pode ficar somente concentrado no círculo íntimo dos doze, nem dos setenta, nem dos cento e vinte e nem dos quinhentos, registrado por Paulo em I Coríntios 15. 6. Esse sentido do amor agapaô alcança o mundo inteiro. Esta é a ideia que Mateus queria transmitir aos seus leitores. Seu evangelho que foi dirigido aos judeus, à sua nação que, a princípio resistiram à vinda do Cristo escolhido de Deus, teve esse propósito. É por isso que Ele comunicou esse evangelho a eles, expressando nestes termos, os quais Jesus havia dito: “Se vocês amam somente aqueles que os amam... O que é que estão fazendo de mais?” Que diferença existe num amor concentrado apenas a um grupo seleto de discípulos? Com esta pergunta, Jesus confronta e contrasta a atitude dos escribas e fariseus e pede aos seus/uas seguidores/as que não procedessem como tal. A pergunta é: que diferença faz amar somente aqueles que nos amam? A resposta de Jesus é suficiente, mas Carson (2010, p.) ajuda-nos a compreender na forma como discute o assunto. Mas, até mesmo, essas pessoas amam quem os ama – pelo menos, sua mãe e outros publicanos! A saudação apropriada era uma marca de cortesia e respeito; mas se os discípulos de Jesus oferecessem essa saudação apenas a seus irmãos – ou seja, outros discípulos que pensavam igual, eles não ficariam acima dos padrões dos ethnikoi (estritamente falando ‘gentios’). O amor com que devemos amar os outros é o mesmo amor com que Jesus amou a Igreja. Paulo aconselha os maridos que amem suas esposas, assim como, Cristo amou a Igreja (Ef 6.25). O sentido deste amor, o qual temos considerado, não se restringe apenas ao convívio familiar, mas alcança toda a igreja e, enfim, as pessoas do mundo inteiro, segundo o que Jesus ensina neste trecho do sermão. 7 O desafio do discipulado No versículo 48 Jesus afirma : “Portanto, sejam perfeitos, assim como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu”. Segundo Carson (2010, p.198), alguns estudiosos interpretam este versículo como sendo a conclusão da última antítese, ou seja, amor aos inimigos ao invés de ódio, mas o termo ‘perfeitos’ tem associações muito mais amplas, e é melhor entender o versículo 48 como a conclusão para as antíteses. A palavra é teleios e pode ser traduzida por perfeito, maduro, concluído, plenamente desenvolvido, adulto. Jesus apresenta o desafio de vencer a mágoa e o ressentimento com o perdão, o adultério com a fidelidade, o divórcio com a restauração, os juramentos com a palavra honrada, a vingança com o serviço e o ódio com o amor sacrificial. Tudo exatamente como Deus, o Pai Celestial, sempre fez, faz e fará. Este é o grande desafio dos/as discípulos/as de Jesus Cristo. Continuar avançando na prática dos ensinos de Jesus a fim de buscar a maturidade e a semelhança com o próprio Mestre e Senhor Jesus Cristo, nosso modelo de vida. (Filipenses 3:12-16 e Efésios4:11-16). A LIÇÃO NA VIDA 1. Tolerar os inimigos, aqueles que nos insultam em nosso cotidiano, não pode ser de outra forma a não ser embalados por uma atitude amorosa. No tempo de Jesus, os discípulos queriam que descesse fogo do céu e consumisse seus inimigos. Foram repreendidos porque estavam agindo completamente ao contrário dos ensinos de Jesus. Apesar de todas as dificuldades que enfrentamos em nosso cotidiano, devemos colocar a prática do amor como nosso estilo de vida, independente do que as pessoas nos fazem. 2. O amor com que Jesus quer que amemos nossos amigos e inimigos é de um grau muito mais elevado do que o que era visto nas pessoas da sua época. Os publicanos e gentios (povos não judeus) eram rejeitados pelos religiosos, eram odiados. Esse procedimento foi completamente condenado por nosso Senhor, portanto não devemos agir assim. O amor, de acordo com os ensinos de Jesus, deve ser abrangente. Não deve ficar só no círculo íntimo dos seus discípulos, mas alcançar o mundo inteiro. Precisamos aprender a amar de maneira incondicional. 3. Como discípulos/as de Jesus Cristo, somos chamados a fazer diferença no mundo em que vivemos, colocando em prática os valores do reino de Deus, ao invés de conformarmos com os valores deste mundo. REFERÊNCIAS BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Corrigida. Imprensa Bíblica Brasileira. _______. Nova Tradução da Linguagem de Hoje. Sociedade Bíblica Brasileira. _______. Bíblia de Jerusalém. Sociedade Bíblico Católica Internacional e Paulus. CARSON, D. A. O comentário de Mateus. Trad. Lena Aranha & Regina Aranha. São Paulo (SP): Shedd Publicações, 2010. 693 p. GÜNTHER, W.; LINK, Hans-George. O Novo dicionário internacional de teologia do novo testamento. São Paulo (SP): Vida Nova, 1989. 560 p. KEMP, Jaime. Antes de dizer sim: um guia para noivos e seus conselheiros. São Paulo (SP): Mundo Cristão, 1983.150 p. LLOYD-JONES, D. Martyn. Estudos no sermão do monte. São Paulo (SP): FIEL, 2013. 606 p. STOTT, John W. Contra cultura cristã: a mensagem do sermão do monte. São Paulo (SP): ABU Livro digitalizado, 1978. 104 p. TASKER, R. V. G. Mateus: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo (SP): Vida Nova, 2011 v. 229 p.