ANÁLISE DA QUALIDADE HIGIÊNICO-SANITÁRIA DE SUPERFÍCIES E EQUIPAMENTOS EM UMA UNIDADE DE ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO HOSPITALAR J.H. Cerqueira1, D.F. Rodrigues2, S. Pieniz3 1- Acadêmica do Curso de Nutrição – Departamento de Nutrição – Universidade Federal de Pelotas, Campus Porto – CEP: 96010-610 – Pelotas – RS – Brasil, Telefone: (53)8119-5493 – e-mail: ([email protected]) 2- Acadêmica do Curso de Nutrição – Departamento de Nutrição – Universidade Federal de Pelotas, Campus Porto – CEP: 96010-610 – Pelotas – RS – Brasil, Telefone: (53)8437-2127 – e-mail: ([email protected]) 3- Professora Orientadora – Departamento de Nutrição – Universidade Federal de Pelotas, Campus Porto –CEP: 96010-610 – Pelotas – RS – Brasil, Telefone: (53)9961-7909 – e-mail: ([email protected]) RESUMO – O presente estudo teve por objetivo avaliar a qualidade higiênico-sanitária de superfícies e de equipamentos em uma UAN hospitalar, utilizados na manipulação, no pré-preparo e preparo de alimentos. Foram realizadas coletas e análises microbiológicas de micro-organismos mesófilos, Staphylococcus coagulase positiva, coliformes, bolores e leveduras da superfície de bancada de carnes, bancada de vegetais e mesa do refeitório, e de equipamentos como micro-ondas e refrigerador. Os dados encontrados no presente estudo demonstraram elevada contagem de micro-organismos em todos os parâmetros avaliados, demonstrando possíveis falhas nos processos de higienização da UAN. O presente estudo pode contribuir para a correção oportuna nos procedimentos adotados na higienização das superfícies e equipamentos. ABSTRACT – This study aimed to evaluate the sanitary quality of surfaces and equipment in a hospital FNU, used for food handling and food preparation. Collections and microbiological analyzes of mesophilic microorganisms, coagulase-positive Staphylococci, coliforms, molds and yeast were performed in surfaces such as countertop meat, countertop vegetables and bench refectory, and equipment such as microwaves and refrigerators. The data in this study showed high amounts of microorganisms in all parameters analyzed, demonstrating possible failures in hygiene processes of UAN. This study may contribute to the appropriate correction in procedures adopted for cleaning surfaces and equipments. PALAVRAS-CHAVE: alimentação hospitalar; análise microbiológica; qualidade higiênico-sanitária. KEYWORDS: hospital food; microbiological analysis; hygienic-sanitary control. 1. INTRODUÇÃO As Unidades de Alimentação e Nutrição (UAN) são ambientes favoráveis ao desenvolvimento de micro-organismos por apresentarem diversos fatores que contribuem para o crescimento dos mesmos e, possivelmente, favorecendo o desenvolvimento de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA) (Landin e França, 2004). Muitos fatores podem levar a surtos e infecções de origem alimentar, como a falta de higiene pessoal, manipulação inadequada, binômio tempo e temperaturas, alimentos de fontes inseguras e contaminação cruzada (PICHLER; ZIEGLER; ALDRIAN, 2014). Desta forma, o presente estudo teve por objetivo avaliar, a partir de análises microbiológicas, a qualidade higiênico-sanitária de superfícies e de equipamentos em uma UAN hospitalar, utilizados na manipulação, no pré-preparo e preparo de alimentos. Realização Informações http://www.ufrgs.br/sbctars-eventos/ssa5 Fone: (51) 2108-3121 Organização 2. MATERIAL E MÉTODOS Este trabalho foi desenvolvido em uma UAN hospitalar da região Sul do Brasil, após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Para analisar a qualidade higiênico-sanitária foram realizadas duas coletas distintas após a higienização diária da UAN, com intervalo de quinze dias cada. Os pontos selecionados foram: bancada de pré-preparo de carnes, bancada de prépreparo de vegetais, micro-ondas, refrigerador e mesa do refeitório. As coletas das superfícies e dos equipamentos foram realizadas por meio da técnica do swab, adotando o procedimento proposto pela American Public Health Association (APHA, 1992). As análises microbiológicas foram determinadas a partir da contagem de micro-organismos aeróbios mesófilos, coliformes a 35ºC e a 45ºC, Staphylococcus coagulase positiva, bolores e leveduras, conforme os procedimentos descritos por Silva et al. (2010). O número de unidades formadoras de colônias (UFC) por cm² de amostra foi obtido por meio da multiplicação do número de colônias pelo fator de diluição e este produto, dividido pela área correspondente à superfície coletada de acordo com a metodologia descrita por Silva et al. (2010). Para a determinação de coliformes a 35ºC e a 45ºC os resultados foram definidos pela aplicação da tabela de Número Mais Provável (NMP) (Silva et al. 2010). 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO No presente estudo foi avaliada a qualidade higiênico-sanitária de superfícies e de equipamentos utilizados na manipulação, no pré-preparo e no preparo das refeições de uma UAN hospitalar. Por meio dos resultados obtidos pode-se observar elevada contagem de micro-organismos mesófilos em todas as superfícies e equipamentos analisados (Tabela 1). Na bancada de carne foi observado um aumento na contagem de mesófilos da primeira para a segunda coleta. Por outro lado, constatou-se uma redução na contagem da primeira para a segunda coleta no refrigerador e no micro-ondas. Dados semelhantes foram observados por Kochanski et al. (2009) que, ao analisar bancadas de carnes, verificaram contagem de micro-organismos aeróbios mesófilos entre 2,1 x 10³ e 3,6 x 104 UFC/cm2. No mesmo estudo, foram observadas contagens entre 9,8 x 100 e 1,7 x 105 UFC/cm2 para micro-organismos mesófilos no equipamento refrigerador. No presente estudo, observou-se elevada contagem de mesófilos na mesa do refeitório (Figura 1A) e, este fato é de importância visto que, os funcionários e acompanhantes dos pacientes hospitalizados realizam as refeições neste ambiente, podendo haver contaminação dos alimentos durante a refeição. Quando analisados os resultados para bolores e leveduras (Figura 1B) foi observado um alto índice de contagem de colônias na bancada de carnes, na bancada de vegetais e no refrigerador (Tabela 1). De acordo com os critérios estabelecidos por Silva Júnior (2007), as bancadas de pré-preparo e o refrigerador consideram-se inadequados para o uso. Resultados semelhantes foram em estudo realizado por Kochanski et al. (2009), os quais verificaram valores entre 3,5 x 10² a 7,7 x 10³ e 5,2 x 10² a 8,9 x 10³ UFC/cm² para bolores e leveduras, na bancada de preparo de saladas e de carnes, respectivamente. Por meio da análise microbiológica observou a presença de Staphylococcus coagulase positiva na bancada de carne, bancada de vegetais e refrigerador (Tabela 1). Para Pires et al. (2005), elevada contaminação das superfícies com micro-organismos do grupo Staphylococcus, é preocupante, pois indicam condições higiênico-sanitárias inadequadas. Da mesma forma, a presença de Staphylococcus coagulase positiva apresentarem risco para a saúde pública pela produção de enterotoxina que em condições favoráveis multiplicam-se nos alimentos, podendo causar intoxicação alimentar (Clemente et al. 2003). Realização Informações http://www.ufrgs.br/sbctars-eventos/ssa5 Fone: (51) 2108-3121 Organização Em relação aos padrões microbiológicos para superfícies e equipamentos não há uma legislação brasileira específica. De acordo com a APHA (1992), considera-se equipamento limpo aquele que possui ≤ 2 UFC/cm2 (0,2 x 101). Porém, muitos autores consideram estes padrões rigorosos para o Brasil, devido às suas condições climáticas. Desta forma, Silva Júnior (2007), preconiza valores de referência de 50 UFC/cm2 (5 x 101 UFC/cm2) como satisfatória. A OPS (1989) adota como valores de referência de 0 a 10 UFC/cm2– excelente; até 50 UFC/cm2 – regular e >100 UFC/cm2 – péssimo. De acordo com os parâmetros relatados, todos os equipamentos e superfícies analisados encontram-se inadequados para o uso. Tabela 1. Contagem de micro-organismos indicadores em superfícies e equipamentos utilizados na manipulação de alimentos em uma UAN hospitalar. Micro-organismos Staphylococcus coagulase Mesófilos Bolores e leveduras Amostras positiva 1ª coleta 2ª coleta 1ª coleta 2ª coleta 1ª coleta 2ª coleta 2 ----- UFC/cm ----Bancada de carne 5,7 x 104 1,4 x 105 4,3 x 10³ 8,2 x 10² < 10 (est).* 7,4 x 104 Bancada de vegetais 6,3 x 104 7,1 x 104 1,9 x 10³ 1,3 x 104 < 10 (est). 1,2 x 10³ Refrigerador Micro-ondas Mesa do refeitório 1,2 x 105 3,1 x 10³ 3,4 x 104 5,1 x 10³ 1,7 x 10² 3,4 x 104 1,4 x 104 4,1 x 10¹ 3,4 x 10¹ 7,5 x 10² 1,5 x 10¹ 1,1 x 10¹ < 10 (est). < 10 (est). < 10 (est). 5,7 x 10¹ < 10 (est). < 10 (est). *Valor estimado. Nas superfícies e equipamentos analisados foi observada elevada contagem de coliformes a 35ºC e a 45ºC (>22), porém, não foi identificada a presença de E. coli (Figura 1D) nas amostras analisadas (<3) (Tabela 2). Tabela 2. Contagem de coliformes a 35°C e a 45°C (indicadores) em superfícies e equipamentos de manipulação de alimentos. Micro-organismos Amostra Coliformes a 35ºC Coliformes a 45ºC E. coli 1ª coleta 2ª coleta 1ª coleta 2ª coleta 1ª coleta 2ª coleta 2 ----- NMP/cm ----Bancada de carne > 22 > 22 > 22 > 22 <3 <3 Bancada de vegetais > 22 > 22 > 22 > 22 <3 <3 Micro-ondas 0,18 > 22 0,48 > 22 <3 <3 Os resultados encontrados demonstram que em ambos os equipamentos e superfícies a contagem de micro-organismos está acima do preconizado por Silva Júnior (2007), OPS (1982) e APHA (1992) os quais recomendam que micro-organismos coliformes a 45ºC devem estar ausente, classificando-o assim como insatisfatório. De acordo com Silva Junior (2007), a presença de coliformes nos equipamentos merece atenção, pois são considerados indicadores de contaminação e de condições higiênico-sanitárias inadequadas. Realização Informações http://www.ufrgs.br/sbctars-eventos/ssa5 Fone: (51) 2108-3121 Organização Figura 1. Micro-organismos isolados na UAN hospitalar: Mesófilos (A); bolores e leveduras (B); Staphylococcus sp. (C) e E. coli (D). De acordo com a RDC nº 216 (Brasil, 2004) as instalações, os equipamentos, os móveis e os utensílios devem ser mantidos em condições higiênico-sanitárias apropriadas. As operações de higienização devem ser realizadas por funcionários capacitados e com frequência que garanta a manutenção dessas condições e minimize o risco de contaminação do alimento. A área de preparação do alimento deve ser higienizada quantas vezes forem necessárias e imediatamente após o término do trabalho. O treinamento de manipuladores é uma medida eficiente e econômica de evitar surtos por DTAs (Doenças Transmitidas por Alimentos) e também contribui na melhoria da qualidade higiênico sanitária, uma vez que os manipuladores são principais responsáveis pela contaminação do alimento (SILVA et al., 2013). 4. CONCLUSÃO Conclui-se que, as áreas de estudo com maior contaminação foram o refrigerador, seguido das bancadas de pré-preparo, mesa do refeitório e micro-ondas, nos quais observou-se maior contagem de microorganismos mesófilos. Os resultados encontrados demonstram possíveis falhas na higienização das superfícies e equipamentos analisados e, desta forma, o presente estudo pode contribuir para a correção oportuna nos procedimentos adotados na higienização das superfícies e equipamentos. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APHA – American Public Health Association, Standard Methods for de Examination of Water and Wastewater, American Public Health Association, Washington, DC 18th ed., 1992. BRASIL. Ministério da Saúde. Resolução – RDC nº. 216, 15 de setembro de 2004. Dispõe sobre regulamento Técnico de Boas Práticas para Serviços de Alimentação. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, 15 de setembro de 2004. CLEMENTE, M; VALLE, R; ABREU, L. 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Condições higiênicas de fatiadores de frios avaliados por ATP-Bioluminescência e contagem microbiana: sugestão de higienização conforme RDC 275 da ANVISA. Alim. Nutr, v. 16 (2), p. 123-129, 2005. SILVA JÚNIOR E.A. Manual de controle higiênico-sanitário em alimentos. 6.ed. São Paulo: Varela; 2007. SILVA, N; JUNQUEIRA, V.C.A; SILVEIRA, N.F.A; TANIWAKI, M.H; SANTOS, R.F.S; GOMES, R.A.R. Manual de Métodos de Análise Microbiológica de Alimentos e Água. São Paulo: Varela; 2010. SILVA, G. R. Percepção do conceito de higiene e segurança alimentar dos manipuladores de produtos cárneos de mercado público, Recife-PE, BRASIL. Acta Veterinária Brasilica, v.7, n.2, p.158-163, 2013. Realização Informações http://www.ufrgs.br/sbctars-eventos/ssa5 Fone: (51) 2108-3121 Organização