IV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA - ANPUH-BA HISTÓRIA: SUJEITOS, SABERES E PRÁTICAS. 29 de Julho a 1° de Agosto de 2008. Vitória da Conquista - BA. ESTRADAS E RIOS: AS ROTAS COMERCIAIS DO SERTÃO DA RESSACA Idelma Aparecida Ferreira Novais Mestranda em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). E-mail: [email protected] Orientadora: Profª Drª Maria José Rapassi Mascarenhas Palavras-chave: Estradas. Sertão. Rios. Feiras. A formação do mercado interno no Brasil, em fins do século XVIII e no século XIX, se deu principalmente pela agricultura de subsistência como o milho, feijão, farinha e pela criação do gado, que era destinado ao abastec imento dos centros urbanos como Salvador e o Rio de Janeiro. O gado, de início, era transportado a pé, andando vários quilômetros até chegar às feiras, para ser abatido nas próprias fazendas de criação perto das feiras e comercializada em forma da “carne v erde”, quando o gado estava distante das feiras, a carne era transformada em carne seca e levada à feira no lombo dos animais . O gado era produzido em larga escala nos sertões, fator que possibilitou a interiorização do Brasil. No Sertão Baiano não foi diferente. Aí houve o predomínio da pecuária e da agricultura para subsistência e para comercialização, sendo de fundamental importância a utilização das mulas, animais mais resistentes para o transporte. Dessa forma, além da criação d o gado vacum – fonte de renda para os sertanejos – havia de muares, a de cavalos que também contribuíram para impulsionar o mercado interno revelando uma atividade rendosa e significativa para criadores e comerciantes (NOVAIS, 2002, p. 18) . O Sertão da Ressaca constituía -se, ainda no século XVIII, num dos focos mais ativos de expansão de conquista de novas terras, graças à importância econômica da pecuária no mercado consumidor interno, sendo a construção de estradas essenciais para o projeto de integração das vilas litorâneas daq uela comarca aos centros produtivos interioranos (FREITAS; PARAÍSO, 2001 , p. 40-41). Dessa forma, o interior da Província da Bahia apresentou ao longo dos séculos XVIII e XIX “uma capacidade de adaptação ás condições de mercado, seja internamente” ou com o utras províncias (PIRES, 2003, p. 42) . As atividades comerciais estabelecidas com as cidades como Bahia [Salvador], Nazareth, Valença, São Felix, Ilhéus, Região do São Francisco e norte da província mineira se tornaram possíveis primeiramente pelo empreend edorismo dos fazendeiros da Imperial Vila da Vitória. Eles não pouparam esforços no sentido de abrir e melhorar estradas que ligavam o Sertão da Ressaca a essas cidades, rompendo o isolamento do interior com o 2 litoral. Os rios Pardo e das Contas também for am importantes vias que possibilitaram o escoamento de mercadorias, comércio e comunicação. Tanto dos fazendeiros como dos políticos locais se preocupavam com abertura e as condições das estradas 1, a exemplo da sessão extraordinária do dia vinte e dois de janeiro de 1856, em que a câmara respondeu ao ofício do Governo da Província, onde apareceu, entre outras exigências locais, os pedidos de melhoramento e abertura de novas estradas que ligavam a Canavieiras e pontes nos rios Pardo e das Contas, em “benefi cio da agricultura, comércio e segurança pública” como também deixou claro a importância da agricultura, uma vez que as lavouras prosperam com rapidez, que já se acham 22 engenhocas os quais nos últimos três anos tem produzido mais ou menos dez mil canad as de aguardente, noventa arrobas de açúcar e dez mil rapaduras e que também a criação de gado vacum e cavalar tinha aumentado em razão do consumo dos últimos anos. 2 João Gonçalves da Costa também abriu estradas para ligar o sertão ao litoral, representando vias de comunicação e comércio, e foram importantes para a formação e desenvolvimento de povoados e da pecuária. Esta constituiu -se para o Sertão da Ressaca “na atividade primordial e definitiva no processo de ocupação da área, complementando os dois primeiros fatores que haviam marcado inicialmente a conquista daquela região ” (SOUSA, 2001, p. 101). O transporte do gado às feiras era um problema desde o inicio do povoamento e da criação, devido a inexistência de estradas. Para Medeiros (1997, p. 7) o problema do escoamento do gado só foi resolvido no século XX. Brito (1997, p. 3) afirma que o Sertão da Ressaca ficou muito tempo isolado dos principais centros urbanos, como Salvador, uma vez que o transporte era difícil devido a precariedade de estradas. O gado foi o responsável direto pela abertura das primeiras estradas do sertão. Segundo o Príncipe Maximiliano, João Gonçalves da Costa, preocupado com a situação, chegou a usar recursos próprios para a abertura de estradas, ainda no século XIX, e que a co roa portuguesa ainda não o tinha ressarcido pelos empreendimentos feitos na região (WIED-NEUWIED, 1817, p. 439). A abertura de estradas no Sertão da Ressaca, para Sousa (2001), significou a integração dessa área com outros lugares como o litoral e a capit al. Para ela, as principais 1 Vale ressaltar que os membros da Câmara l egislativa da Imperial Vila da Vitória eram todos grandes fazendeiros. 2 AMVC: Atas da Câmara da Imperial Vila da Vitória, 1850 -1857. 3 estradas seguiam os cursos dos principais rios sendo João Gonçalves da Costa um dos principais responsáveis por esse empreendimento, “ já que era experiente explorador dos rios daquela área, como por exemplo , o Pardo [...]. Em outras palavras, pode se afirmar que ele foi fundamental na ruptura do isolamento do Sertão da Ressaca e adjacências ” (SOUSA, 2001, p. 98-99). Essa preocupação com a abertura e também conservação de estradas pode se perceber claramente no Código de Posturas de 1842, no artigo 20, que puniam os proprietários ou pessoas que tivessem terras junto das estradas e caminhos públicos e não cuidasse da sua limpeza. Também não poderiam desmanchar pontes ou qualquer obra que servisse de utilidade pública, além de não po derem estreitar as estradas ou caminhos de trânsito público e nem mudá-las sem licença da comarca, e, principalmente que “nenhum proprietário poderá impedi que em suas terras se abram estradas ou caminhos ”, além de serem “ obrigados uma vez todo ano a tê -las limpas e desramadas, e isto dentro dos meses de janeiro à março, tirando todas os embaraços que estiverem os viajantes e limpando -as da largura com que foram abertas”,3. E com as ações dos fazendeiros, intensificados pelas ações municipais com o código de posturas, as estradas eram abertas e a sua manutenção e conservação garantidas. No decorrer do século XVIII, o caminho chamado de “estrada geral da Bahia”, “estrada real do sertão” ou simplesmente de estrada geral, era uma das mais antigas a ligar Minas Gerais a Bahia e o litoral ao sertão. Partindo de Minas Gerais, possuíam três variantes: a primeira seguia para O Rio São Francisco até a Barra do rio das Velhas, a segunda, aberta por João Gonçalves do Prado até a nascente do Rio Verde e uma terceira via que passava pelo Sertão da Ressaca até a Vila da Valença no litoral. Segundo afirma Carrara (2006, p. 124125), mesmo que o caminho da Província de Minas Gerais à Província da Bahia fosse mais longo, “era muito melhor que o do Rio de Janeiro e da vila de São Paulo e menos dificultoso, por ser mais aberto para as boiadas, mais abundante para o sustento e mais acomodado para as cavalgaduras e para as cargas”. Por isso era a preferida e a mais usada pelos boiadeiros e tropeiros mineiros para escoar a sua prod ução e importar produtos necessários a região. A afirmação também revela que a preocupação da Imperial Vila da Vitória em atender bem aos boiadeiros, tropeiros e viajantes eram reconhecidas por eles. Nesse período havia uma maior fiscalização em relação às estradas que destinavam a Minas Gerais, em conseqüência da mineração, sendo que em muitas delas o trânsito de carga era proibido pela Coroa Portuguesa. Porém Carrara (2006, p. 131) afirma que o caminho da 3 APEB. Seção Colonial de Provincial. Série Legislativa. Códigos de Posturas de 1842. Livro 861 - 1841-1889. 4 Bahia não era totalmente proibido, uma vez que era por ele que abastecia as minas de “gados, fazendas sertanejas e mais coisas que não se proíbem a introdução delas”, uma vez que eram destinadas a sustentação dos lavradores . Zamela (1990, p. 71-72) afirma que só o comércio de gado era permitido e “quem vi esse da Bahia e não fosse boiadeiro não poderia entrar nas gerais”. Porém, essa proibição não era efetiva, uma vez que “contrariava as leis naturais que regem as trocas econômicas” . Revelando a dinâmica comercial interprovincial. Em 1846 a Câmara Municipa l da Imperial Vila da Vitória enviou um ofício ao Governo da Província declarando “que a Estrada Geral por onde transitam as boiadas e tropas que passa neste Município vem da Província de Minas Gerais e vai ter seu fim nos portos de Valença, Nazareth e Ald eia”. Como a estrada apresentava os limites da Vila do Rio Pardo, na Província de Minas Gerais até o litoral da província baiana, a câmara informava aos tropeiros, boiadeiros, viajantes e outros interessados o melhor caminho que deveriam seguir para chegar ao litoral, bem como os locais que existiam pousos certos, geralmente seguindo os cursos dos rios e outras aguadas para a tender as necessidades que surgiam durante a viagem. Mesmo não havendo água corrente em algumas localidades, a câmara informou também que havia em lugares mais secos a construção de tanques para armazenar água que ficavam a disposição dos viajantes. A preocupação com a água se deve ao fato desse recurso hídrico ser de extrema importância para os animais sobreviverem às longas jornadas 4. Além disso, havia a instalação da venda que comercializava milho e outros produtos para os tropeiros, boiadeiros e viajantes. O percurso indicado pelo ofício tinha início na Vila do Rio Pardo, em Minas Gerais, fazia seu primeiro pouso na Fazenda da Ilha, o segundo na Fazenda Ressaca, que tinha um riacho com o mesmo nome. Depois fazia o terceiro pouso obrigatório na localidade chamada de Curral de Varas, seguindo para o Furado Grande, local inclusive que deu “muitos prejuízos aos Boiadeiros e Tropeiros por secarem-se as lagoas; porém são veredas boas e muitas vertentes para elas correm, e por córregos podem -se conservar as águas por meio de tanques”. Nessas regiões mais secas, desprovidas de rios perenes, eram locais de pousos certos, onde montavam uma estru tura para atender aos boiadeiros, tropeiros e outros viajantes com a construção de tanques, geralmente usando pedras e madeiras, assim eram os pousos de lugares denominados Panela, Porcos e Olho D’água. Daí, seguia então para o oitavo pouso, o lugar denominado Barra do Choça “com água corrente que não seca”, seguindo então para Taquaral, “com água em brejos que não seca” e dali para o Arraial dos Poções, lugar seco, onde havia um tanque já construído e com condições de construírem outro. Do Arraial dos 4 APEB. Seção Colonial e Provincial. Série Correspondências. Maço – 1463. 1840-1866. 5 Poções seguia-se para a Fazenda Goiabeira, depois para o lugar denominado Cachoeira e posteriormente para a localidade da Jibóia. Da Jibóia seguia -se para a região do Rio das Contas, onde não havia problemas relativos com a falta de água. Já os pousos posteri ores denominados de Poço da Anta, Casca e Fazenda Santa Anna eram lugares mais baixos, seguros e podiam construir tanques. Antes de chegarem aos portos, fazia -se uma ultima parada na localidade de Torre. Assim, se completava o caminho da Estrada Geral que partia da Província Mineira, atravessava todo o Sertão da Ressaca até chegarem aos portos da 5 Província Baiana . 5 APEB. Seção Colonial e Provincial. Série Correspondências. Maço – 1463. 1840-1866. “VILA DO RIO PARDO – Hoje Município do Rio Pardo (Minas Gerais). FAZENDA DA ILHA – Localiza-se em terras do atual Município de Tremedal do antigo Distrito de São Felipe (Imperial Vila da Vitória, Bahia). Hoje ainda resta pequena parte do antigo latifúndio com o mesmo nome, nas proximidades do açude de Tremedal; FAZENDA RESSACA – Compreende parte dos atu ais municípios de Tremedal e Cordeiros (limite destes), banhado pelo Rio (da) Ressaca. Vide Rio da Ressaca. CURRAL DE VARAS – Localizava-se em Berizal (Minas Gerais). Há, ainda, parte do latifúndio, com o nome Curral de Varas, em Minas Gerais. FURADO GRAND E – Atual Vila de Quaraçu (Município de Cândido Sales). PANELA – Hoje é Campo Formoso (Município de Vitória da Conquista). Quase no limite de Conquista com Belo Campo. PORCOS – antiga fazenda, depois povoado (casas esparsas) no Distrito de Iguá, Município de Vitória da Conquista (também foi chamada – e alguns ainda a chamam – de Lagoa dos Porcos). OLHO D’ÁGUA – Há muitas localidades com esse nome. Como o documento omitiu a sede da Imperial Vila da Vitória, passando logo para a Barra do Choça é possível que se trate do Olho d’Água do Benedito, local distante do Centro (Bairro Panorama, cidade de Vitória da Conquista), ou qualquer outro entre Vitória da Conquista e Barra do Choça (proximidades da Estiva/Fazenda Preguiça). Mas tudo indica tratar-se de Olho d’Água do Benedito. BARRA DO CHOÇA – Lugar em que o riacho da Choça desemboca no Riacho Catolé Grande (não confundir com a atual cidade de Barra do Choça). Próximo da cidade de Barra do Choça. TAQUARAL – Fazenda antiga (latifúndio já bastante parcelado, mas do qual uma parte ainda conserva o nome). Vila de José Gonçalves, em lado oposto a esta/Município de Planalto. Situa -se atualmente em Planalto, próximo da confluência de limites com Vitória da Conquista e Barra do Choça. FAZENDA GOIABEIRA – No atual Municípi o de Boa Nova, que antes tinha o nome de Boca do Mato. CACHOEIRA – Trata-se do atual Município de Manoel Vitorino. JIBOIA - o Rio Jibóia/São Domingos (Povoado). CASCA, hoje município de Santa Inês”. Antes de Chegar em Valença, havia ainda dois pousos, FAZE NDA Santa ANNA e a localidade denominada TORRE, que, até o momento não podemos ter uma localização atual precisa. Informações cedidas pelo pesquisador Ruy Medeiros. 6 CAMINHO DE MINAS GERAIS A BAHIA – SÉCULO XIX SERTÃO DA RESSACA ROTAS COMERCIAIS SÉCULO XIX -13 Nazareth Região do São Francisco Torre Casca Valença Fazenda Santa Anna Rio de Contas Poço da Anta Jibóia -14 Cachoeira BAHIA Itacaré Fazenda Goiabeira Poções Taquaral Rio Gavião Fazenda Ressaca Riacho Imperial Vila Fazenda Olho da Vitória da Ilha D'Água Porcos Panela Barra do Choça Ilhéus -15 Furado Grande Vila do Rio Pardo Porto de Santa Cruz Curral de Varas Canavieiras MINAS GERAIS -16 -17 0 100 200 300 -18 -39 -40 -41 -42 -43 -44 Minas Novas 400 Vila do Rio Pardo - Valença Minas Novas - Região do São Francisco Minas Novas - Rio de Contas Imperial Vila da Vitória - Ilhéus Base Cartográfica: SEI-BA Mapa compilado a partir de dados obtidos da pesquisa em documentos do século XIX Produção do mapa: Jacson Tavares de Oliveira, maio de 2008 Além dessa estrada, o mesmo ofício também indicava um caminho que partia da Imperial Vila da Vitória e ia até a Vila de Ilhéus “por onde com muito custo e não pequeno 7 trabalho descem alguns lotes de gado a qual é abundantissíma de água e fértil de pastos em todos os pousos”. Porém não havia uma descrição mais detalhada de onde exatamente se fixavam os pousos 6. As condições e abertura de novas estradas eram assuntos freqüentes nas correspondências e atas da Câmara de Vereadores , sempre com a justificativa de estar em busca do “beneficio da agricultura, comércio e segurança pública”. Assim, na sessão extraordinária de vinte e dois de janeiro de 1856, os vereadores discutiam as condições das estradas bem como das suas distâncias e principais problemas, principalmente pelo fato da maioria delas se tornarem intransitáveis durantes as estações ch uvosas, e procuravam encontrar soluções para o melhoramento das ditas estradas. A mesma sessão informou também que “no intuito de prosperar a agricultura e o comércio, iria dar início a abertura de mais duas estradas que partam d’esta vila para o da Barra do Rio das Contas e para Canavieiras”. Além disso, havia a necessidade de construírem pontes tanto no Rio Pardo como no Rio das Contas porque “pela abundância das águas privam em quase metade do ano”, atrasando a travessia desses rios não só dos animais co mo dos viajantes e tropeiros 7. Da Região do Rio São Francisco também viam muitos animais e tropas cargueiras que passavam pela Imperial Vila da V itória. Segundo Spix e Martius ( 1817-1820), em Caetité, havia um período de vinte anos que a região se dedicava ao cultivo do algodoeiro, existindo compradores que remetiam anualmente mil cargas de mula para Bahia, sendo produzido nos arredores e também em Minas e Goiás e que “as regiões do Norte e Leste daquela província despacham o seu algodão do lugar de saída, no Arraial do Rio Pardo, para a Bahia, por duas estradas recentemente abertas, via Conquista e Gavião” (SPIX; MARTIUS, 1976, p. 111). O fazendeiro Joaquim José D’Araújo Fonseca enviou uma petição á Câmara Municipal da Imperial Vila da Vitória, “no cumprime nto do seu dever e no intuito de informar da necessidade e utilidade da estrada da Povoação de Santo Antônio da Cruz e o Ponto do Salto”, e que inclusive foi iniciada pelo fazendeiro. Porém é compreendida como estrada pública e, portanto, dever da municipa lidade em abrir a estrada. A Câmara Municipal, depois de buscar “informações com pessoas instruídas”, provavelmente engenheiros, e verificando a “necessidade de construir uma ponte no Ribeirão cujas águas em qualquer estação impede o transito” direcionou a quantia de cinco contos de reis, pois é por ela que facilitava 6 7 APEB, Seção Colonial e Provincial. Série Correspondências. Maço – 1463. 1840-1866. AMVC: Atas da Câmara da Imperial Vila da Vitória, 1850 -1857. 8 [...] a condução de todos os gêneros de beira mar que de canavieiras poderão importar aquela povoação para onde ocorrerão, sem devidos compradores, não só desta vila e Município, como de Caet ité, Rio Pardo, Província de Minas, que desta dali quatorze léguas havendo de andarem mais tantas léguas quanto por outras estradas só contar daquele Município a beira mar, e já que foi esse mesmo motivo tem de afluir a negociação de gado destes sertões vi zinhos as povoações que a qualifica, pois na mesma seca estação, quando por outras estradas se não pode guiar boiadas [...] por falta de água e de pastos que se conserva contida à margem do Rio Pardo e mais de uma légua de distância por onde tem de seguir a estrada, uma delonga e fertilidade dos pastos, que pela prosperidade local podem confundir as estações, acusando mais aos marchantes a vantagem de sem depender com tropas grandes economias para poderem trazer [...] depressa avultadas carregações pelo Ri o Pardo cuja navegação pelo mesmo petinonario [...] tem convidado os habitantes deste e de outros Municípios a estabelecerem-se ali para a lavoura do café, da cana, do tabaco e de outras produções vegetais 8. Como podemos observar no documento acima, alg uns fazendeiros construíam ou exigiam a construção de estradas, com o objetivo de ligar a região onde residiam com outros centros urbanos, principalmente para escoar os produtos de suas propriedades. O teor do documento mostra também a importância da estra da em questão teve para a Imperial Vila da Vitória como também para Caetité, Rio das Contas e Província de Minas Gerais, tendo como principal preocupação a redução da distância entre essas localidades com o litoral, bem como favorecer o transporte e negoci ação do gado, principal item da circulação econômica. Havia assim, uma economia na viagem e no carregamento de mercadorias e do gado, além de associar o transporte fluvial com o terrestre. É uma ata importante, por trazer muitas informações sobre a região. Reforça o que já foi dito no capítulo I sobre os tipos de produtos cultivados na região, como tabaco, cana -de-açúcar e café. No que diz respeito as questões climáticas e da vegetação, o texto mostra que há uma diversidade, existindo no Sertão da Ressaca, regiões secas, sem água e temperaturas elevadas, como também locais férteis, principalmente as margens dos rios, como também a menção da participação dos indígenas na comércio do ouro aluvião na estrada de Ilhéus. Em 1857, a Câmara da Imperial Vila da Vitó ria respondeu a circular ao Governo da província informando sobre as atividades econômicas da vila, principalmente no que se referia a produção, ao comércio, as estradas e ao transporte terrestre e fluvial através do Rio Pardo e do Rio das Contas. Pela cir cular, podemos ter uma noção da dinâmica comercial que a região mantinha com outras vilas da província baiana e mineira. Dessa forma, afirma que os mercados para onde iam os produtos da região como feijão, mandioca, milho, arroz, algodão e 8 AMVC. Atas da Câmara Municipal da Imperial Vila da Vitória, década de 1850. 9 aguardente eram para as vilas de Santa Isabel, município de Valença, sendo importados em pequenas quantidades para a vila “gêneros necessários da produção estrangeira, nos mercados da Vila de Canavieiras e da vila da Barra do rio de Contas” 9. Temos assim, uma troca de mercadorias entre o Sertão da Ressaca e as cidades litorâneas e ribeirinhas da província baiana. Como vimos, as vias de transporte que facilitavam a circulação de mercadorias, viajantes e informações não eram somente as terrestres. As vias fluviais do Rio Par do e do Rio das Contas foram importantes no Sertão da Ressaca. De acordo com a mesma circular, “As vias de transporte por onde vem algum sal e algum ferro e aço são pelo Rio Pardo e rio das Contas em canoas e capacidade de 50” e apesar da navegação nesses dois rios apresentarem algumas dificuldades em determinados trechos, significava um futuro lisonjeiro para o município (removidos certos obstáculos) pela facilidade do transporte e fertilidade e suas margens especialmente as do Rio das Contas [...] . Os demais gêneros importados são conduzidos por terra em lombos de animais pelas estradas de Nazareth, Valença e pelas de Ilhéus. [...] os animais empregados na condução dos gêneros são burros e cavalos que carregam as 7 arrobas e viajam 4 a 5 léguas por dia, sendo o preço do porte de cada um 300$000 por légua sem a do tropeiro, custando os burros de 120$000 a 140$000 e o cavalo de 50$000 a 80$000 10. Tanto os canoeiros, quanto os tropeiros enfrentavam perigos de serem atacados, principalmente pelos indígenas. De acordo com a correspondência enviada do Governo da Província pela Câmara Municipal da Imperial Vila da Vitória podemos perceber a preocupação em relação aos ataques dos índios aos viajantes, tropeiros e canoeiros. Segundo a mesma correspondência, muitos casos ocorrem nas estradas do Sertão da Ressaca sendo que na estrada que liga este município a Ilhéus, o pardo Mucanan foi flechado pelos índios e no Rio Pardo o canoeiro Clemente, cuja flechada empregada na região umbilical atravessou os dois rins, e d entro de 24 horas sucumbiu e não recearão sujeita a tantos canoeiros que ali estavam, donde se pode inferir que muito maior era o número de índios que vagam nas margens daquele rio11. Esses perigos dos ataques indígenas não intimidavam as autoridades, faze ndeiros e comerciantes de manterem as viagens e os negócios com as outras localidades. Além de 9 APEB. Seção Colonial e Provincial. Série Correspondências. Maço – 1463. 1840-1866. APEB. Seção Colonial e Provincial. Série Correspondências. Maço – 1463. 1840-1866. 11 APEB. Seção Colonial e Provincial. Série Correspondências. Maço – 1463. 1840-1866. 10 10 dizimarem essas populações, os documentos apontaram como solução para esse problema o povoamento e cultivo nas áreas de matas no sentido de afugentar os silvícol as e, assim, manter as viagens dos tropeiros e canoeiros mais seguras 12. O fluxo nos rios Pardo e das Contas, apesar dos perigos e dificuldades era intenso. Em 1855, o Rio Pardo recebeu uma frota de 30 canoas, carregadas de sal e necessitava de uma mão-de-obra de “90 canoeiros para a respectiva tripulação”, ou seja, uma média de três pessoas para trabalhar em cada canoa. O documento afirma que o trabalho era rigoroso, pois em “muitos lugares arrasta -se as canoas por terra com distância de muitas braças, não podendo elas descerem se não juntas por ser muito grande os esforços para as ditas rolar”. Devido a isso havia a necessidade de a ngariar trabalhadores em várias localidades do município uma vez que em Verruga, local onde havia iniciado o recrutamento de br aços, não pode fornecer toda essa mão -de-obra13. As viagens em frota tanto serviam para facilitar o trabalho da população nos trechos difíceis como para a defesa dos próprios tripulantes, quando estes se encontravam com os indígenas. O transporte terrestre e fluvial foi importante para o desenvolvimento do mercado interno. Segundo Sérgio Buarque de Holanda (1995, p. 99), o que estimulava as expedições era o lucro certo, permitindo o comércio pelos sertões, sendo que a quantidade de “mercadoria levada pela embarcação era a mesma transportada a pé em distâncias mais ou menos longas”. Em sua análise, ressalta a importância da pecuária e do tropeirismo como mecanismos que asseguraram o desenvolvimento econômico interno brasileiro, pois os lucros produzidos pela pecuária, ao contrario da mineração e da agricultura comercial, foram incorporados ao país, contribuindo para o seu progresso material, apesar do pouco que fez a metrópole no sentido de auxiliar essa atividade econômica (PETRONE, 2000 , p. 227). A documentação mostra uma participação ativa do tropeiro e do boiadeiro com agentes de ligação e intermediação das relações comerciais entre o Sertão da ressaca e demais regiões das províncias baiana e mineira nesse período do século XIX. Porém, o tropeirismo encontrou espaço para se desenvolver no Brasil deste o século XVII. Foi na mineração que essa prática cresceu, assumindo a importância e o dinamismo do mercado abastecedor. Os difíceis acessos da região das gerais exigiam um tipo de animal que fosse resi stente, que percorresse e suportasse as enormes distâncias, com terrenos íngremes e ainda com o peso da 12 13 APEB. Seção Colonial e Provincial. Série Correspondências. Maço – 1463. 1840-1866. APEB. Seção Colonial e Provincial. Série Correspondências, 1855. Maço – 1463. 1840-1866. 11 carga. Assim, o burro foi a solução para um período que não existia transportes motorizados e nem estradas com boas condições de trânsito. Fontes Arquivo do Fórum João Mangabeira (AFJM). Arquivo Municipal de Vitória da Conquista (AMVC). Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB). Referências BRITO, Ubirajara. Vitória da Conquista ou a Capital do Sertão da Ressaca. xerocopiado, 1997. Texto CARRARA, Ângelo Alves. Minas e currais: produção rural e mercado interno de Minas Gerais 1674-1807. Juiz de Fora, MG: Editora UF JF, 2006. FREITAS, Antonio Fernando Guerreiro de ; PARAÍSO, Maria Hilda Baqueiro. 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